BDF_211

Page 1

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Ano 5 • Número 211

R$ 2,00

São Paulo • De 15 a 21 de março de 2007

www.brasildefato.com.br

Francisco Rojas

América Latina, soberania ou submissão Socialismo e capitalismo protagonizam debate de projetos dos presidentes Chávez e Bush

O

s giros de Hugo Chávez e George W. Bush pela América Latina puseram em evidência os dois modelos de desenvolvimento distintos, entre os quais os países da região estão sendo levados a optar. Há mais de 15 anos não havia entre governantes do continente um debate ideológico tão forte. O presidente venezuelano cita com freqüência o “socialismo

do século 21”, que privilegia a soberania dos povos, enquanto o estadunidense critica as nacionalizações de Chávez e diz que o capitalismo é a única solução para a pobreza latino-americana. No Iraque – A invasão comandada pelos Estados Unidos completa quatro anos. O cartunista Carlos Lattuf mostra sua leitura desse período. Págs. 7 e 8

Mulheres na luta pela soberania alimentar Para denunciar o modelo do agronegócio e defender a soberania alimentar do Brasil, milhares de manifestantes da Via Campe-

sina ocuparam ruas, estradas e usinas em várias regiões do país, no Dia Internacional da Mulher. Pág. 3

EDITORIAL

Chávez versus Bush

N

Em todo o Brasil, espalharam-se atos contra a visita de Bush ao país; na avenida Paulista (foto), 20 mil protestaram

A resistência popular contra a transposição

João Zinclar

Cerca de 600 pessoas montaram acampamento em Brasília para protestar contra a transposição do Rio São Francisco. Elas denunciam que o projeto está repleto de mentiras, muitas delas confirmadas até mesmo pelo Tribunal de Contas da União e pela Agência Nacional de Águas, e prevêem que será necessária muita pressão popular para barrar o início das obras. Pág. 4

BNDES financia agronegócio e concentra renda Pág. 5

No Brasil, haitianos pedem fim da ocupação Pág. 6

9 771678 513307

00211

Cerca de 600 pessoas marcham até o Palácio do Planalto contra a transposição

um raro e repentino giro pela América Latina, o presidente dos EUA, George W. Bush, expressou todo o seu desprezo pela apresentação de qualquer tipo de proposta aos países que visitou (Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México) que não fosse a continuidade sistemática da política de rapina dos recursos naturais locais e de exploração e controle dos referidos mercados para seus produtos. O pior para Bush foi ter que constatar que a impopularidade que granjeia internamente em seu país espalhou-se por todos os países que visitou. Teve que constatar também que hoje a América Latina já não é mais a mesma, e que os povos da região estão ampliando, por várias formas de luta e pelos processos eleitorais, um crescente repúdio pelas políticas neoliberais ordenadas pela Casa Branca. Além disso, constatou que a presença política do presidente Hugo Chávez no continente é uma realidade concreta, seja pela simpatia crescente ao seu exemplo de luta antiimperialista, como também através dos inumeráveis acordos econômicos, energéticos, políticos, culturais, hoje em marcha por iniciativa do governo da Venezuela, com o apoio dos governos da Argentina, Bolívia, Equador, Cuba e Nicarágua, e aceitação generalizada por vários outros governos da região, ainda que não sejam governos definidamente de esquerda. A iniciativa política de Chávez de fazer um giro por vários países simultaneamente a Bush é uma clara linha de ofensiva política, visando convocar os povos a um posicionamento contra o império e suas políticas. Isso ocorre ao mesmo tempo em que tem propostas de cooperação socioeconômica a oferecer, fazendo avançar a integração latino-americana, que os EUA necessitam sabotar de todos os modos. O giro de Bush e o contra-giro de Chávez deixam claro a natureza do imperialismo estadunidense, que não tem rigoro-

samente nenhuma proposta de desenvolvimento ou de cooperação a oferecer, enquanto que o presidente venezuelano apresenta e concretiza propostas seladas pela marca da solidariedade, da integração, do desenvolvimento mútuo, da parceria. Eis a grande diferença que irrita infinitamente os analistas da mídia burguesa que se dizem chocadíssimos com os movimentos de diplomacia revolucionária de Hugo Chávez: por onde passa, deixa algo construído, relações concretas, projetos de cooperação econômica que beneficiam amplas massas, sendo que, por onde passa, o mandatário estadunidense é recebido com manifestações que denunciam seus crimes no Iraque, no Afeganistão e em todos os lados. Bush tem que viajar como se fosse um clandestino, não pode caminhar pelas ruas de nenhum país do mundo, enquanto Chávez enche estádios de futebol, é recebido por manifestações populares de carinho e de combate ao império. Registre-se o infame silêncio desses comentaristas burgueses que não se chocam nem criticam a carnificina que Bush produz no Oriente Médio. Enquanto a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) fracassou e Bush não oferece nada que não seja estritamente para aumentar o privilégio das minorias ricas, como da oligarquia da cana no Brasil, Chávez vai transformando a Alternativa Bolivariana para a América (Alca) em realidade, espalhando médicos e professores cubanos dos Andes ao Caribe, refinarias de petróleo, gasodutos, enviando medicamentos para a Nicarágua, e, fundamentalmente, incentivando, com o seu exemplo, uma consciência de transformação social, seja recuperando os heróis antiimperialista – como agora ao resgatar na Bolívia o general Juan José Torres, assassinado pela CIA em 1975 – seja estimulando as forças sociais a uma unidade de ação e de ofensiva com proposta alternativas aos sinistros planos impostos pelo império.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.
BDF_211 by Brasil de Fato - Issuu