Uma visão popular do Brasil e do mundo
Ano 5 • Número 207
São Paulo • De 15 a 21 de fevereiro de 2007
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Dinheiro do trabalhador será usado para financiar empresas privadas
Egon Heck/Cimi MS
Governo pretende usar recursos do FGTS para compra de ações na bolsa e financiamento de projetos de infra-estrutura
O
governo federal pretende liberar recursos do FGTS para financiar os projetos de infra-estrutura previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Uma nova medida autoriza o trabalhador a pegar parte de seu fundo e comprar ações de empresas na bolsa de valores. Especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato alertam que as mudanças podem trazer prejuízos ao trabalhador. Colocam em risco um direito histórico e alimentam o mercado financeiro em detrimento do investimento produtivo – que gera empregos. “É nefasto: tirar dinheiro do fundo dos trabalhadores que deveria ser voltado para outro tipo de valorização da força de trabalho e fazer com que no limite eles acabem beneficiando grandes empreiteiras”, avalia Ricardo Antunes, sociólogo da Unicamp. Pág. 6
Mato Grosso do Sul – Após governador cortar cestas básicas de 8 mil indígenas, menino de dois anos morre de desnutrição e centenas passam fome
Soldados dos EUA não querem ir para a guerra Por não aceitarem ser cúmplices dos abusos cometidos pelas forças militares dos EUA no Iraque, milhares de soldados estão abandonando as forças armadas mesmo conscientes de que podem ser presos. No
começo de 2005, o Pentágono estimava que 5.500 homens haviam desertado desde o início da invasão, em março de 2003. Atualmente, cerca de 200 deles vivem no Canadá. Pág. 7
Desespero leva agricultora ao suicídio No dia 2, a agricultora Eva da Silva, de 61 anos, se matou. O motivo? Desespero. Pouco antes das 9h30, funcionários da transnacional Alliance One,
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Governo quer construir nova usina nuclear Há 10 anos em discussão e com custo de R$ 7 bilhões, projeto de Angra III divide opiniões de ONGs, estudiosos e governo. Mais seis usinas estão previstas até 2030. Recursos poderiam ser aplicados em outra tecnologia. Pág. 4
acompanhados de um oficial de Justiça com um mandado de arresto, entraram em sua propriedade e começaram levar o esforço de meses de trabalho.
Eva ameaçou se matar, mas não sensibilizou seus algozes. Mesmo enforcada, o carregamento continuou. Pág. 5
EDITORIAL
Desmontar a fábrica de criminosos
O
Frevo comemora cem anos de ritmo e dança
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bárbaro assassinato do menino João Hélio Fernandes, no Rio de Janeiro, dia 7, desatou uma onda de comoção, estarrecimento e indignação. Mas deu início a uma enxurrada de propostas de soluções falsas e hipócritas, muitas delas baseadas na fórmula falida de mais repressão – reduzindo a maioridade penal. Essas soluções, no entanto, deixam intacta a selvagem fábrica de criminosos sustentada pelo capital. Isentam uma sociedade que concentra a renda, rebaixa a produção e multiplica desempregados, reproduz uma juventude desumanizada, sem escola, sem cultura, empurrada para o crime organizado, com seu futuro seqüestrado todos os dias. Os setores ligados ao capital, a partir de um sensacionalismo exacerbado pela televisão sobretudo, querem impedir qualquer questionamento do modelo econômico. Em vez disso, induzem todas as atenções em direção a sofisticar ainda mais a bestial repressão que se volta exclusivamente contra as classes mais pobres desta sociedade. Contra as quais, é preciso ressaltar, já há um vale-tudo por parte da polícia, inclusive a prática sistemática e tolerada da pena de morte, apesar de ilegal. Há uma evidente contradição. Os indicadores do crime
crescem – o Brasil tem uma das mais elevadas taxas de homicídios de jovens do mundo –, e os índices apontam para uma falência estrutural da escola pública, com queda no desempenho escolar no ensino básico e médio. Por outro lado, avolumam-se indecentes privilégios das minorias mais ricas, com quebra sucessiva de recordes nos lucros bancários, na acumulação do capital em poucas mãos, sem que uma massa de milhões de seres humanos seja considerada como gente e vive errante inventando meios de sobreviver a cada dia. Num quadro de horror social em que se transformou a vida nas grandes cidades brasileiras, simplificar todo o debate sobre segurança pública e criminalidade à redução da maioridade penal é insultar a inteligência humana. Reduzam-se as disparidades sociais, eliminem-se os mecanismos de exclusão social, reduzam-se as taxas de desemprego, de analfabetismo, de semteto, de sem-terra, de trabalho precarizado e escravo e, aí, sim, haverá verdadeiras condições para que as políticas públicas de segurança, que devem sempre incorporar a participação organizada da sociedade, possam dar algum resultado pratico. Fora disso, toda a campanha histérica para forçar o Congresso a reduzir a maioridade penal
e gerar leis mais severas – que dificilmente serão aplicadas por um aparelho judiciário e de segurança completamente penetrado pelo crime organizado – será apenas mais uma campanha histérica, incapaz de oferecer alguma solução de fundo. Sem desmontar a fábrica de criminosos, colocada em funcionamento por uma não menos criminosa engrenagem de moer gente que é o sistema capitalista, todos os que clamam por paz social estarão como cães uivando para a Lua, apesar do pleito ser justo. Sem reforma agrária, não haverá menos favelas e menos desempregados; sem investimentos em obras públicas e no desenvolvimento da produção, não se pode absorver mão-deobra, qualificá-la, pagar salários mais elevados, melhorar o padrão de vida; sem renacionalizar os setores essenciais da economia privatizados e internacionalizados e apoiar a sua expansão, como fazem outros países, será impossível registrar níveis superiores de crescimento. Sem distribuição da renda e da riqueza, sem alta prioridade na escola pública, na reforma urbana e habitacional, e na construção de uma mídia que não seja uma escola de horrores, estaremos, desgraçadamente, diante da eminência de novos casos trágicos como o do menino João Hélio.