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Ano 4 • Número 198

Uma visão popular do Brasil e do mundo

R$ 2,00

São Paulo • De 14 a 20 de dezembro de 2006

www.brasildefato.com.br

Morre Pinochet; vive o sonho de Allende A morte do sanguinário ditador chileno não justifica a interrupção de processos penais contra seus apoiadores José Augusto Guterres

N

a mesma data em que se celebra o Dia Internacional dos Direitos Humanos, morreu um de seus maiores violadores. No dia 10, Augusto Pinochet, ditador chileno entre 1973 e 1990, morreu

por complicações após um infarto. Seu legado é triste. E cruel. Durante seu regime, mais de três mil pessoas foram assassinadas, enquanto outras milhares sofreram torturas ou partiram para o exílio. A espe-

rança de uma sociedade mais justa, bandeira do governo de Salvador Allende, que Pinochet assassinou, permanece presente na América Latina. O ditador passou. Págs. 2 e 7 Carloz Dias / Flickr

Mais de 4 mil pessoas participaram das atividades da Cumbre de Cochabamba

Na Bolívia, aliança de povos contra o império Os povos da América do Sul definiram propostas conjuntas de integração continental, em um encontro de movimentos sociais, realizado na Bolívia, entre os dias 6 e 9. Foram apoiados

Chilenos nas ruas comemoram a morte de Pinochet; ditadura no país matou mais de três mil pessoas

EDITORIAL

A morte do ditador Muita gente não consegue entender porque a ditadura militar chilena foi mais sanguinária do que as outras ditaduras latino-americanas. Afinal, até o golpe de 1973, o Chile era conhecido como a democracia mais avançada e mais sólida do continente. A razão é simples: a maior ou menor violência da repressão decorre sempre do maior ou menor grau de desenvolvimento da luta de classes. No Chile dos anos de 1960, a classe operaria havia atingido um elevado grau de consciência e de organização política. Os partidos de esquerda polarizavam o debate político e foram capazes de se unir para vencer eleitoralmente a direita. A vitória de Salvador Allende, em uma campanha eleitoral memorável, fez o poder político pender claramente para o lado do povo. Nem a burguesia chilena nem o binômio Nixon-Kissinger estavam dispostos a aceitar essa realidade. A repressão, para vingar, teria de ser violentíssima. Pinochet satisfazia todos os requisitos para liderar essa lúgubre missão. Comandou a repressão com mão de ferro e tornou-se uma figura emblemática para a direita chilena e para o imperialismo. Isso explica porque, mesmo depois de afastado do comando das Forças Armadas e de ser processado fora e dentro do Chile, por assassinato e corrupção, o simples fato de continuar vivendo em um bairro de Santiago pairava como uma ameaça sobre a débil democracia comandada

pela “Concertación” – nome da coligação de partidos que se mantém no poder desde a abertura democrática. Pinochet foi um pesadelo para os presidentes Alwyn, Frei e Lagos e não fazia a menor cerimônia em deixar claro, para eles, quem, de fato, mandava nas Forças Armadas. O que os democratas da América Latina esperam é que, com sua morte, a presidenta Michelle Bachelet possa retomar à trilha inaugurada por Salvador Allende em 1970. Não há, contudo, certeza alguma de que isso venha a acontecer. Dezessete anos de pinochetismo somados a dezesseis anos de medo da volta de Pinochet mudaram a economia e paralisaram politicamente a sociedade chilena. A economia, escolhida pelos centros do capitalismo mundial para ser a vitrine das receitas neoliberais, tornou-se uma economia aberta, dinâmica, porém, extremamente dependente dos grandes capitais internacionais. Cresceu, modernizou-se, concentrou renda e, obviamente, não resolveu os problemas da desigualdade social e da pobreza. Mudar a estrutura que se formou nesses trinta anos não constitui tarefa simples. Porém, mais difícil do que mudar a economia é mudar a sociedade que se cristalizou nesse período – uma sociedade profundamente dividida, mas que, tendo chegado a um precário compromisso para funcionar de-

mocraticamente, não se decide a resolver os problemas não solucionados por temer o retorno de um período de terror. A própria esquerda – sempre muito mais organizada e forte do que as demais esquerdas latinoamericanas – desenvolveu uma mentalidade conformista. Por isso, não se atreve a romper a coligação que mantém há dezesseis anos com o Partido Democrata Cristão – uma agremiação que, nos anos de 1960, tinha um perfil de centro-esquerda e que, com o golpe, tornou-se claramente um partido de centro-direita. O argumento usado é o de sempre: não há correlação de forças para avançar mais. Ora, levado ao extremo, como está sendo levado no Chile, esse argumento torna-se falacioso, porque conduz ao imobilismo. Isso destrói imagem da esquerda perante as massas populares e conseqüentemente perpetua uma correlação de forças adversa. Para se libertar do fantasma Pinochet, as esquerdas chilenas precisam formular um programa político ousado. Só esse gesto de coragem terá o condão de exorcizar o medo e de levar as massas populares chilenas a retomar o processo de construção do socialismo naquele país. O sacrifício de Salvador Allende merece esse esforço.

por vários governantes, como o venezuelano Hugo Chávez, que defendeu a resistência às tentativas dos EUA de desestabilizar o governo de Evo Morales. Pág. 6

Educação No campo, juízes pública terá atuam com novo orçamento lealdade à elite A proposta de emenda constitucional do Fundeb – fundo destinado ao financiamento do ensino público básico, fundamental e médio – foi finalmente aprovada na Câmara, no dia 6. Para representantes da sociedade civil, além de maior dotação orçamentária, é preciso discutir um projeto pedagógico para a nação. Pág. 3

A Justiça brasileira tem como via de regra privilegiar o direito patrimonial em detrimento do humano. Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o jurista Jacques Távora Alfonsin explica que isso vai contra o que diz a Constituição e tem, muitas vezes, sua origem no perfil classista da maior parte dos juízes. Pág. 4

Para reajustar o salário mínimo, mudar economia

Na Colômbia, governo se une a paramilitares Pág. 6

Centrais sindicais marcharam em Brasília, no dia 6, por mudanças na política econômica, que garantam reajustes reais (acima da inflação) do salário mínimo. O governo resiste a essa proposta. Pág. 5

A história da África, contada por meio do rap Pág. 8


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