Ano 4 • Número 193
Uma visão popular do Brasil e do mundo São Paulo • De 9 a 15 de novembro de 2006
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Fracasso militar de Bush no Iraque A resistência iraquiana à ocupação leva o presidente dos Estados Unidos a buscar uma nova estratégia de guerra Corporal McCauley/ Creative Commons
O
s EUA se afundam cada vez mais no Oriente Médio. Quase quatro anos após a invasão do Iraque, a violência no país está fora de controle. Em outubro, mais de cem soldados estadunidenses morreram – desde 2003, foram quase 3 mil. Militares dos EUA exigem a demissão do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. O ex-ditador Saddam Hussein, durante o julgamento considerado ilegítimo até pela ONU, conclamou todos os iraquianos a resistirem à ocupação. Em vista disso, George W. Bush planeja uma retirada, mas com a manutenção de bases no país ocupado. Pág. 6
Juiz condena Emir Sader em decisão absurda Absurda. O adjetivo sintetiza a opinião de juristas sobre a condenação do sociólogo Emir Sader, em processo por injúria movido pelo senador Jorge Bornhausen. A mídia conservadora aproveitou a ocasião para atacar o sociólogo. Aliás, toda oportunidade serve para a grande imprensa atacar aqueles que se opõem a seu plano, que prega a manutenção da política econômica. Pág. 3
A “cruz do soldado”, formada pelo fuzil, capacete, botas e plaquinha de identificação é a representação de que o soldado foi morto em combate no Iraque
EDITORIAL Resistência popular segue firme em Oaxaca Momento para mudar a economia Militares mexicanos aproveitaram a desmobilização natural do feriado de Finados, dia 2, para fazer um novo ataque à província de Oaxaca. Desde junho, esta é administrada diretamente
pelo povo, que exige a saída do governador Ulises Ruiz. Desta vez, a repressão foi à universidade, mas o povo resistiu e os atacantes recuaram. Pág. 7
Governo precisa ser pressionado, diz Frei Betto
Setor elétrico piora com a privatização
“O governo precisa ser pressionado para trocar as metas de inflação pelas metas de desenvolvimento sustentável”, aponta Frei Betto, em entrevista ao Brasil de Fato. Ele convoca os movimentos sociais a unirem suas lutas e pressionarem Lula. Pág. 5
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Cinema promove intercâmbio entre Brasil e França Pág. 8
Passadas as eleições, nas quais o povo manifestou-se novamente com um voto progressista, surgem as inevitáveis especulações da mídia capitalista sobre a composição do novo ministério de Lula – sem imparcialidade, óbvio, e sim com o sentido evidente de tentar conter qualquer mudança nos rumos da política econômica. Esta nova campanha da mídia indica, indiretamente, o que está no centro da conjuntura política brasileira. Se Lula foi reeleito, se cresceu no número de votos recebidos – foram 58 milhões –, se contou com a participação da militância no segundo turno das eleições, tudo isso indica condições para um segundo governo que, de fato, reduza os privilégios do setor financeiro em prol de uma maior concentração de recursos públicos nas áreas que permitiriam o crescimento econômico sustentável, com distribuição de renda e geração de emprego. Algo mais compatível com as necessidades deste país de assombrosos níveis de desigualdade. Soma-se, nesse cenário favorável, o enfraquecimento de oligarquias regionais e o debilitamento expressivo do PFL. A notícia de que José Serra estaria disposto a organizar um novo partido com programa nacional-desenvolvimentista atesta bem que este setor ligado ao grande capital apressa-se a buscar sintonia com o quadro político surgido das eleições, no qual a rejeição popular às priva-
tizações encontrou uma expressão significativa. Mas terá essa tendência uma conseqüência concreta? A reação da mídia capitalista, no sentido de conter o debate e intimidar as forças que querem mudanças mais substantivas na política econômica, é um indicador de que o debate se agiganta. Foi positiva a participação dos movimentos sociais no segundo turno e sua expressão programática. Seria muito importante que esta relação com o governo e com o PT continuasse – mantidas as necessárias independência e autonomia. Um dos déficits nesta equação vem sendo a postura apagada e sem iniciativa do movimento sindical, praticamente limitando-se ao apoio ao governo, sem capacidade para uma ação independente, com críticas construtivas e com experiências que pudessem ser exemplares para o conjunto dos trabalhadores, como as das fábricas recuperadas e que estão funcionando sob controle dos operários. Não se trata de voltar para casa agora, como boa parte dos setores mais conservadores do PT recomendam à militância. Tanto as condições internas como também na América Latina – as medidas populares que avançam na Bolívia, o crescimento do voto nos candidatos de esquerda, o exemplo da resistência heróica dos lutadores sociais em Oaxaca, no México – indicam que cresce a consciência de que não há caminhos
para as soluções dos problemas fundamentais das grandes massas exploradas dentro do atual modelo. Assim como a direita no Brasil está dando mostras de enfraquecimento para impor qualquer “terceiro turno”, ou para pleitear o impeachment de Lula, crescem no campo popular as condições e a urgência para uma articulação das forças progressistas, em prol de um programa de fortalecimento do Estado. Um cenário propício a projetos sociais muito mais abrangentes que terão pleno apoio das massas mais pobres que, estimuladas até mesmo por alguns dos programas do governo, longe de acomodaremse realmente atuam com mais desenvoltura política. Este fator foi fundamental para a derrota de oligarquias regionais, como no caso do Maranhão, onde os pobres derrotaram um domínio oligárquico de 40 anos, apesar de Lula ter pedido votos para Roseana Sarney. Se as massas mais empobrecidas atuam com esta inteligência e objetividade, revelam-se as condições que o governo tem para realizar as mudanças na política econômica e contar com o apoio decidido das massas organizadas nesta empreitada.