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BDF_192

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Ano 4 • Número 192

Uma visão popular do Brasil e do mundo

R$ 2,00

São Paulo • De 2 a 8 de novembro de 2006

www.brasildefato.com.br Marcello Casal Jr./ABr

Na noite do dia 29, militantes comemoraram na Avenida Paulista, na capital do Estado de São Paulo, a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por mais quatro anos

Movimentos prometem mais pressão popular no segundo mandato de Lula EDITORIAL

Vitória do povo, derrota da direita

F

inalmente, encerramos o calendário eleitoral deste ano. Após um primeiro turno marcado pela apatia e despolitização, o povo brasileiro foi às urnas novamente em 29 de outubro. Dessa vez, para decidir entre o conservadorismo representado pelo candidatura de Geraldo Alckmin ou a reeleição de Lula que, apesar de ter feito um governo mantendo as políticas neoliberais – sem realizar as mudanças estruturais e necessárias ao país –, é o menos danoso para os trabalhadores. E o povo brasileiro ratificou seu desejo de uma política que reduza, de fato, a desigualdade social ao reeleger Lula com mais de 58 milhões de votos. Não foi uma votação simples, pois houve uma verdadeira guerra informativa para desconstruir a imagem do governo e do candidato do PT, numa campanha midiática sem tréguas e sem ética. Houve uma guerra! E mesmo sem o PT ou o governo disporem de uma política de comunicação que pudesse minimamente fazer a disputa das idéias, dos projetos que estavam sendo confrontados, o povo brasileiro, em especial as camadas mais pobres, juntamente com os movimentos sociais, protagonizaram uma importante lição de inteligência e objetividade políticas. A reeleição não significa fechar os olhos a uma série de limitações nas políticas do governo, em especial aquela que transferiu ao setor financeiro, ao longo de 4 anos, mais de R$ 700 bilhões, conforme estudo feito pela Unafisco Sindical, muito menos ao não andamento de projetos como o da reforma agrária, o habitacional, entre outros. Recursos exis-

tem para alavancar tais políticas, que somente com intervenção do Estado podem ser implementadas, pois nas mãos do mercado há comprovação histórica de que é impossível atender às legítimas reivindicações populares. A campanha no segundo turno, com ênfase em críticas de Lula às privatizações, ou seja, ao confronto com o projeto neoliberal que Alckmim representava, levou às ruas, novamente, a militância. Isso ocorreu sem que o próprio PT tenha reformulado sua política ou tenha feito a autocrítica necessária em relação à enorme quantidade de erros que tem cometido, fundamentalmente por abandonar o projeto de democracia partidária, baseado nos núcleos, e também por ter se afastado das mobilizações de massa, priorizando a prática eleitoral. Ao sair às ruas, a militância mandou sinal de que existem as condições para uma política de governo que priorize as transformações sociais, pois há apoio social para tal. Em certo sentido, mudanças no comportamento de Lula e até mesmo sua sinalização de que deverá haver mais diálogo com os movimentos sociais indicam o verdadeiro significado social e político dessas eleições: a derrota da direita tradicional. Também é importante destacar a derrota da mídia que tanto apregoou a extinção do PT, pois com todas as crises o partido acabou recebendo sua maior votação até o momento, além de ter tido papel fundamental para a derrota de oligarquias regionais. No plano internacional, a reeleição de Lula representa uma base importante para as políticas que visam a integração da América Latina e ao enfrentamento das

pressões imperialistas na região, o que respalda iniciativas da Venezuela, de Cuba, da Bolívia, da Argentina. Estimula novos governos sul-americanos, fora do controle dos EUA, como pode ocorrer com o Equador, em breve. O segundo mandato de Lula deverá ser marcado por uma disputa programática ainda mais acirrada, pois no quadro nacional há o debilitamento de várias oligarquias. Além disso, ao contrário do que sempre alardeiam setores mais conservadores do PT, quando o discurso de Lula é mais classista e mais contundente contra o neoliberalismo, fortalecem-se as forças sociais, o que resulta em uma relação de forças ainda mais favorável para medidas populares fundamentais. O Brasil de Fato, assim como a ampla maioria das forças de esquerda, organizada, rompeu o silêncio do primeiro turno e se posicionou favoravelmente à reeleição de Lula. Durante quatro anos mostramos as limitações e fragilidades do seu governo, mas avaliamos que uma vitória de Alckmin representaria uma derrota da classe trabalhadora. E o povo brasileiro também entendeu assim. Agora, assim como as organizações populares, entendemos que é preciso pressionar o governo para que realize as mudanças necessárias ao país. Para isso, sabemos que é preciso organizar e politizar o povo. Só com a luta popular o Brasil deixará de vez de ser o país do atraso.

Sentar para negociar já não é suficiente. Esquerda vai intensificar lutas, independentemente de governo

O

s maiores movimentos sociais do país se uniram no segundo turno para impedir o retorno da direita tradicional ao poder. Com Lula reeleito, agora o objetivo é intensificar as lutas e a pressão sobre o governo, de modo unificado. Plinio Arruda Sampaio alerta que o apoio ao petista gerou enorme responsabilidade: “Os movimentos o avalizaram pela

segunda vez. Tem uma hora na qual o presidente terá que pagar a dívida; se não pagar, o fiador será cobrado”. Fracassos – Nas eleições estaduais, destaque para a derrota de velhas oligarquias e a possibilidade de aproximação entre organizações populares e governos, sobretudo no Norte e no Nordeste. Págs. 4 e 5

Vale compra Inco; Protestos contra beneficiados são violência policial em Oaxaca bancos europeus Pág. 3

Governo Uribe rompe diálogo com as Farc Pág. 6

Oaxaca, Estado mexicano, se transformou em um campo de enfrentamento entre organizações populares e policiais, no final de outubro. A violência contra manifestantes despertou uma onda de solidariedade internacional, incluindo o Brasil. Pág. 7


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DEBATE

CRÔNICA

A política despolitizada da mídia Valério Cruz Brittos e Paola Madeira Nazário oncluída a campanha eleitoral, o balanço do período indica o flagrante aumento da capacidade de inserção da mídia nos rumos políticos do país, criando realidades, a partir de interpretações distorcidas dos fatos políticos. Não obstante esse traço seja característico da atuação midiática em geral, é potencializado pela Globo, não só porque sua enorme audiência multiplica o alcance da parcialidade de sua cobertura, mas também porque esse grupo econômico conhece muito bem sua penetração junto à população, a partir daí usando o poder, para utilizar as palavras celebrizadas pelo fundador do grupo. Na plenitude da democracia representativa burguesa – mesmo que, no caso brasileiro, muito recente –, debates de candidatos a presidente da República seriam um instrumento importante de confronto de idéias, para escolha do eleitor (numa aproximação de liberdade, nos limites do capitalismo). No entanto, os debates são geridos pela ferrenha busca pela audiência e pelo desejo das emissoras de televisão em firmar sua posição de privilegiado ator político no país, em sua dupla (e imbricada) funcionalidade. O interesse mercadológico tem historicamente enfraquecido o momento democrático mais importante do país.

C

O interesse mercadológico tem historicamente enfraquecido o momento democrático mais importante do país Tornam-se os debates atrações midiáticas, produtos audiovisuais, mercadorias, perfeitamente inseridas no processo de valorização, de forma que o campo político (e, nesse caso, os mais altos interesses da sociedade, imagina-se) fica subordinado às práticas midiáticomercadológicas das organizações privadas do ramo televisivo. Os debates estão mais de acordo com um espetáculo circense do que com um espaço destinado ao diálogo dos rumos a serem adotados para o Brasil. Para promover tais movimentos, a mídia conta com plena autonomia e praticamente nenhuma obstrução para agir de maneira totalmente livre, ainda mais quanto à produção e distribuição de conteúdos. Isso, no entanto, não corresponde a uma ausência de controle. O controle existe, só que eminentemente privado. O uso dessa liberdade na cobertura de episódios recentes, como o dossiê contra os pretensamente ingênuos tucanos, comprova o engajamento das indústrias culturais, com liderança da Globo, no combate a toda iniciativa do Governo Luiz Inácio Lula da Silva de propor um mínimo de controle público sobre os atos de midiatização, como ocorreu com a Lei do Audiovisual e o Conselho Federal de Jornalismo (CFJ). É sabido que, nos marcos do capitalismo, um jornalismo ético, crítico e de qualidade, capaz de introduzir debates plurais e democráticos (não só no período

Atualidade da “aposta” de Pascal Leonardo Boff Blaise Pascal (1623-1662) foi um dos grandes gênios do Ocidente como matemático, físico e filósofo. Em pleno debate com a razão moderna nascente, depois de uma profunda experiência espiritual, escreveu uma “Apologia da Religião Cristã”. Ela deveria responder às objeções da época de forma cabal e irrefutável. Não conseguiu seu intento pois, muito doente, morreu com a idade de apenas 39 anos, em 1662, em Paris. Deixou somente anotações e pensamentos dispersos que vêm sob o título “Pensées” (“Pensamentos”), apreciados até os dias de hoje. Depois de tentar todo tipo de argumento em favor da fé, deu-se conta, de forma honrada, de que nenhum deles era cabalmente convincente. Foi então que forjou o famoso argumento da “aposta” válido até os dias atuais. No parágrafo 233 de seus “Pensées”, Pascal colocou a seguinte questão: “Dieu est, ou il n’est pas”: “Deus existe ou não existe”. Sustenta que a razão pode aduzir tanto argumentos a favor quanto contra a existência de Deus. Destarte não se consegue determinar uma resposta convincente. Como sair desse impasse? É aí que Pascal afirma: “il faut parier”: “é necessário apostar”. Você não tem escapatória porque, uma vez que suscitou a questão, você se encontra “embarcado nela”, diz ele. A razão não sai humilhada pelo fato de ter de apostar. A aposta apresenta a seguinte vantagem: “ou você tem tudo a ganhar ou você não tem nada a perder”. Portanto, a aposta é racional.

Trata-se de uma política onde os agentes públicos, os trabalhadores da mídia, na verdade são privados, subordinados acima de tudo aos ditames das organizações e suas regras eleitoral, abordando temáticas gerais necessárias para a formação e deliberação do cidadão), será sempre periférico, desenvolvido por organização não-hegemônicas. Mas mesmo as companhias midiáticas, comprometidas com o sistema, podem avançar um pouco em seu compromisso social, se forem submetidas a controle público, o que, logicamente, tem uma rejeição enorme dessas mesmas empresas, que colocam tudo numa vala comum de censura, em mais uma estratégia visando confundir e convencer a opinião pública. Dessa maneira é preciso lembrar que o Brasil, em consonância com sua recente e ainda curta experiência democrática, precisa de uma injeção de lógicas públicas nas dinâmicas midiáticas, se quiser construir um espaço minimamente público. As políticas públicas servem para isso, na medida em que os problemas não se resolvem automaticamente pelo mercado, premissa que passa pela aceitação de que os jornalistas não estão acima dos demais cidadãos. Para evitar essa discussão, o processo eleitoral foi esvaziado, não sendo pautado o principal desafio ético para governantes e sociedade, a incorporação de milhões de excluídos de bens e serviços básicos (pré-requisito para a chamada inclusão digital).

os agentes públicos, os trabalhadores da mídia, na verdade são privados, subordinados acima de tudo aos ditames das organizações e suas regras. Nessa política despolitizada (e privatizada) da mídia, os atores efetivamente públicos não raro são capturados, tornando-se reféns, como o próprio governo Lula, que cedeu a quase toda a pauta das indústrias culturais, mas no fim foi descartado por ela, em detrimento do projeto tradicionalmente mais confiável. Valério Cruz Brittos é professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da UNISINOS e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA. Organizador, com César Bolaño, do livro Rede Globo: 40 anos de poder (2ª ed. São Paulo: Paulus, 2005), dentre outras obras. Paola Madeira Nazário é graduada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela UNISINOS e bolsista de iniciação científica pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Tem sentido o destino das grandes maiorias submetidas à fome, a todo tipo de exploração, com crianças estupradas e mulheres submetidas à escravidão sexual? Se você afirmar “Deus existe”, e Ele de fato existe, você tem tudo a ganhar, a vida e a eternidade. Se você afirmar “Deus não existe”, e Ele de fato não existe, você não tem nada a perder: o sentido da vida e da eternidade eram meros devaneios. Então é racional, aconselhável e justo que você afirme “Deus existe” e assim você tem tudo a ganhar. Qual a atualidade da “aposta pascaliana” para os dias atuais? Culturalmente, a questão não é mais posta em termos de “se Deus existe ou não” mas em termos: que futuro tem o planeta Terra e a vida se tomarmos a sério os alarmes dados recentemente por cientistas renomados? Há galáxias que engolem outras galáxias. Que sentido tem o universo que pela lei da entropia, irrefragavelmente, caminha para a morte térmica? Tem sentido a vida humana depois da experiência dos campos de extermínio nazista e do tsunami do Sudoeste da Asia? Tem sentido o destino das grandes maiorias submetidas à fome, a todo tipo de exploração, com crianças estupradas e mulheres submetidas à escravidão sexual? Somos desafiados também a apostar: apostamos que, apesar de todas as contradições, trabalha um sentido secreto no universo. Ele um dia vai se manifestar e será a suprema felicidade da criação e assim ganhamos tudo. A luz tem mais direito que as trevas. Ou então tudo não passa de absurdo e a felicidade é ilusória e acabaremos todos no pó cósmico e assim não perdemos nada quando deixamos de acreditar. Vale então apostar, numa atitude de confiança e de entrega radical (é o sentido bíblico de fé) de que o mundo é salvável e o ser humano resgatável a ponto de descobrir a irmandade universal até com as formigas do caminho. Apostando nisso, teremos tudo a ganhar aqui e na eternidade. Leonardo Boff é teólogo e professor universitário. É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos.

Os debates estão mais de acordo com um espetáculo circense do que com um espaço destinado ao diálogo dos rumos a serem adotados para o Brasil Essa é a política despolitizada praticada pela mídia, proposta a cada cidadão como se fosse não um caminho, mas a saída. Trata-se de uma política em que

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Jorge Pereira Filho, João Alexandre Peschanski, Marcelo Netto Rodrigues • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Eduardo de Sales Lima, Igor Ojeda, Luís Brasilino, Tatiana Merlino • Fotógrafos: Alícia Peres, Alderon Costa, Anderson Barbosa, César Viegas, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga, Gilberto Travesso, Jesus Carlos, João R. Ripper, João Zinclar, Leonardo Melgarejo, Luciney Martins, Maurício Scerni, Renato Stockler, Samuel Iavelberg, Ricardo Teles • Ilustradores: Kipper, Márcio Baraldi, Maringoni • Editor de Arte: Rodrigo Itoo • Pré Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Geraldo Martins de Azevedo Filho • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Salvador José Soares • Endereço: Al. Eduardo Prado, 342 - Campos Elíseos - CEP 01218-010 - Tel. (11) 2131-0800 - São Paulo/SP - redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: GZM Editorial e Gráfica S.A. Conselho Editorial: Alípio Freire • César Sanson • Frederico Santana Rick • Hamilton Octávio de Souza • Kenarik Boujikian Felippe • Leandro Spezia • Luiz Antonio Magalhães • Luiz Bassegio • Marcela Dias Moreira • Maria Luísa Mendonça • Mario Augusto Jakobskind • Milton Viário • Nalu Faria • Neuri Rosseto • Pedro Ivo Batista • Ricardo Gebrim

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NACIONAL PRIVATARIA

Vale compra Inco: operação suspeita Pedro Carrano de Curitiba (PR)

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inguém disse nada, apenas se ouviram aplausos. No entanto, quando a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) arrebatou a mineradora canadense Inco, especializada na exploração de níquel, por 13,4 bilhões de dólares, a diretoria da empresa ocultou as mais de 69 ações populares que contestam a privatização de 1997, sem falar na dívida que a empresa passou a ter com quatro bancos símbolos do capital transnacional. A megaoperação foi classificada pelo jornalista Sebastião Nery como “o segundo roubo da Vale”. Isso porque a CVRD, ao buscar créditos em “empréstimos ponte” de 37 bancos Empréstimos ponte (pool) europeus, con– Quando há um traiu uma dívigrande volume de da que elevará empresas fazendo um empréstimo de seu passivo dos dinheiro atuais 5,8 bilhões de dólares para 23 bilhões, deixando a desconfiança entre especialistas sobre qual será o futuro desta cartada. O ex-superintendente da Rede Ferroviária Federal Saulo de Tarso pergunta se a empresa agora não teria sido transferida ao capital estrangeiro, uma vez que a Vale terá uma dívida significativa com bancos encabeçados pelo Santander, Credit Suisse, ABN Amro e UBS. Como garantia ao mercado, a empresa vai emitir uma quantia de debêntures – títulos emitidos para o mercado que podem ser convertidos em ações. No caso de a companhia não cobrir a dívida, os bancos credores podem se tornar os donos das ações da companhia. “A minha pergunta é se a Vale tem pernas para isso, para dar esse salto e cobri-lo. O preço de minério no mercado vai ser favorável nos próximos anos?”, questiona Tarso.

JOGADA FINANCEIRA Não custa nada lembrar que, em 1997, foi por meio desse tipo de operação de emissão de debêntures que o Bradesco aumentou o seu número de ações da Vale, ao financiar as empresas controladoras das ações da companhia, que não saldaram a dívida. Agora, fica a pergunta se os bancos estrangeiros não estarão fazendo esse mesmo papel que coube ao Bradesco. Outra questão colocada por Tarso é por que assumir uma posição tão forte no mercado de níquel se a CVRD é responsável por 95% da produção mundial de nióbio, minério que possui as mesmas propriedades do níquel. O nióbio, uma vez fundido com o minério de ferro, forma uma liga que torna o ferro resistente ao desgaste. “É o material que se usa nos trilhos, por exemplo, mas no Brasil abandonaram a fabricação de trilho de qualquer tipo, e o de nióbio era uma tecnologia especial, feito com elemento em abundância no país”, lamenta Saulo de Tarso. Ramos aponta que o governo canadense – ao contrário do discurso de que os países ricos seriam indiferentes ao movimento do mercado – cobrou uma série de exigências para a venda, como a demissão de no máximo 15% do quadro de funcionários em 3 anos.

CORTINA DE FUMAÇA Para o jurista Eloá Cruz – autor de ação popular pedindo a nulidade do leilão da CVRD –, a compra da mineradora canadense é obscura, pois a diretoria da Vale não informou ao mercado, tampouco para o Canadá, que está sob julgamento. Existe, hoje, 69 ações populares questionando o edital do leilão da companhia. O edital foi

Fotos Divulgação/CVRD

Mineradora omite que privatização está sob julgamento; negócio pode jogá-la nos braços de bancos internacionais

O diretor-presidente da Vale, Roger Agnelli, e o presidente da Inco, Scott Hand, exibem as camisas das seleções de hóquei do Canadá e de futebol do Brasil

elaborado em 1995 e a companhia leiloada em 1997. Na época, houve irregularidades com o edital do leilão, de acordo com a Lei de Licitação, segundo a qual um avaliador não pode participar do leilão – uma das modalidades da licitação. Porém, o

banco Bradesco, um dos avaliadores do valor da empresa, participou da compra, uma vez que era acionário da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), o grupo comprador à época da maioria das ações com direito a voto. (Leia mais na matéria nesta página)

Empresa não comunicou à Justiça Até o momento, o Judiciário só sabe que a Vale do Rio Doce comprou a mineradora Inco pelo noticiário dos jornais. De acordo com o jurista Eloá Cruz, a estratégia da diretoria da empresa nos processos que questionam a venda da estatal foi entrar com uma reclamação junto ao Superior Tribunal de Justiça para conseguir a suspensão das 69 ações populares que neste momento tramitam no Tribunal Federal de Brasília. Entretanto, Cruz defende que a decisão, tomada pelo ministro Luís Fux, foi feita para que as ações fossem analisadas, o que não quer dizer que foram encerradas. “O juiz deu um despacho de suspensão justamente para verificar as ações populares, e não para a diretoria da Vale, como está fazendo, colocar-se como a vencedora do processo. Pois enquanto a discussão das ações populares está pendente, eles correram e fecharam o negócio com a Inco”, comenta.

Após a decisão de 26 de outubro de 2005, o TRF de Brasília decidiu ainda que as ações populares não seguiriam arquivadas no Pará, pois a 5ª Turma do TRF de Brasília julgou que havia algo errado com o edital e com a avaliação do patrimônio da Vale. Foi aí que se reacendeu a briga para invalidar a privatização do patrimônio público. Um dos três juízes, inclusive, defendeu que se a avaliação da empresa foi irregular, a venda então seria nula. Ponto defendido em boa parte das ações populares. Cruz ressalta outro aspecto fundamental: desde o leilão de 1997, a companhia não paga o fundo dos Estados onde a Vale possui atividades, algo obrigatório desde a criação da empresa. “A Vale não recolhe essa obrigação com os Estados, mas ao mesmo tempo sinaliza para todos que têm capacidade para gastar 30 bilhões de reais”, comenta Eloá Cruz. (PC)

Debate sobre privatização: a mentira repetida mil vezes O mau negócio da privatização da Vale do Rio Doce – e de outras estatais, durante a gestão Fernando Henrique Cardoso – foi um dos temas mais enfatizados neste segundo turno por parte da campanha do presidente Lula. Ressalte-se que, durante o seu primeiro mandato, o petista não se manifestou sobre o tema, e poderia tê-lo feito, já que o processo corre na Justiça. Os conglomerados da mídia comercial e o mercado financeiro não titubearam em usar o seu poder de fogo para tentar rebater essa posição. O próprio presidente da empresa, Roger Agnelli, no dia dedicado à Vale na bolsa de Nova York, respondeu a Lula dizendo que a privatização foi boa. E com a compra da Inco, esse mantra ecoou em vários editoriais de jornais – alguns deles com dívidas com o Bradesco –, dizendo que a venda deu competitividade à empresa e liberou o governo para investir em outras áreas (!). FALSOS ARGUMENTOS Mas os especialistas consultados pelo Brasil de Fato nos últimos meses explicam que a companhia era uma empresa de capital misto. O controle acionário pertencia ao governo, e não onerava o Tesouro

Nacional. Trata-se de um sofisma, portanto, do ponto de vista de Eloá Cruz, visto que a própria Constituição dá para a Vale, a Petrobrás e o Banco do Brasil a dinâmica de empresa privada. A diferença fica por conta do lucro que o Estado brasileiro recebia até 1997 para investir no próprio patrimônio, como informa um laudo do engenheiro Luiz Pinguelli Rosa, que pesou no voto do Judiciário para que o processo do leilão voltasse à tona. Hoje em dia, porém, o lucro da companhia é distribuído em dividendos para os acionistas. Sobre o discurso de a eficiência da empresa ser recente, o ex-superintendente da Rede Ferroviária Federal, Saulo de Tarso, completa que a Vale sempre foi uma empresa que teve como meta o mercado global, desde a Segunda Guerra, com o fornecimento de minério para os Estados Unidos e a Inglaterra. A estatal já era um conglomerado de 54 empresas e certamente acompanharia o crescimento da demanda mundial (e chinesa) por minério de ferro. “É uma falácia dizer que se fosse estatal não seria o que é hoje, não há como prever, eu não acredito que fosse se encolher, pela demanda pelos seus produtos”, afirma. (PC)

Divulgação/CVRD

surpreendidos pela radicalização dos representantes da Vale, que anunciaram o fim dos repasses.

No Pará, CVRD corta repasse a indígenas

QUESTÃO JUDICIAL

Renato Godoy de Toledo da Redação Uma semana após a compra da mineradora canadense Inco, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), agora a segunda maior do mundo no setor, anunciou que irá deixar de repassar os R$ 9 milhões anuais às comunidades Xikrin do Catetê e do Djudjêkô, da região de Carajás (PA). Os indígenas recebem esse repasse há mais de dez anos, quando a empresa começou a utilizar as suas terras para a exploração de minérios. O anúncio do corte dos repasses foi feito em 31 de outubro, pelo diretor-executivo de Assuntos Corporativos da CVRD, Tito Martins, alegando que houve quebra de acordo por parte dos indígenas, que ocuparam instalações da Vale em Carajás, no último dia 17. Geograficamente, o território indígena Xikrin é limítrofe à mina de

Vista aérea de mina de minério de ferro explorada pela Vale no Pará

Onça Puma, propriedade da Inco e agora comprada pela Vale. Os Xikrin que participaram da ocupação, cerca de 200, reivindicavam o aumento do repasse para suprir as novas demandas oriundas do aumento populacional da comunidade. Transportes para situações de emergências e cursos de capacitação para os jovens indígenas também foram exigidos pelos

manifestantes, que permaneceram na empresa por 48 horas. Numa tentativa de solucionar o impasse, a Fundação Nacional do Índio (Funai) convocou – após insistência das lideranças indígenas – uma reunião com representantes da Vale e das comunidades indígenas. Os participantes da reunião, mediada pelo presidente da instituição, Mércio Pereira Gomes, foram

Martins classificou como “chantagem” as mobilizações dos Xikrin e ainda criticou o Estado brasileiro “por não ter uma política clara para a questão dos índios”. Martins afirmou que a situação “virou caso de polícia” e que vai pedir apoio da repressão policial para “defender as nossas instalações”. Segundo um representante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), presente na reunião, o presidente da Funai pretende acionar judicialmente a empresa. “O repasse não é uma “ajuda” da Vale. É um acordo judicial, as terras onde eles estão insatalados (em Carajás) são terras indígenas, não há como negar isso”, disse o representante. O termo “ajuda”, aliás, foi utilizado por órgãos da imprensa conservadora para se referir ao repasse. Uma matéria da agência Reuters/Brasil Online, publicada no site do jornal O Globo, noticia o fim da “ajuda” aos indígenas, mas em nenhum momento cita que as instalações da Vale, em Carajás, são terras dos Xikrin.


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NACIONAL ELEIÇÕES

Fatos em foco Hamilton Octavio de Souza Presente imediato Passado o período de tensão préeleitoral, e com a recondução de Lula para novo mandato presidencial, agora começa a fase das cobranças: os políticos, espaço no governo; os empresários, negócios com o Estado; e os trabalhadores, cumprimento das promessas de mudança. Uns têm mais acesso que os outros e acabam levando vantagem. Logo, todos saberemos para onde vai o lulismo. Descobrimento Na última campanha eleitoral muitos petistas descobriram que a imprensa burguesa não é lá aquele aliado que dá para confiar. Nos anos anteriores, a presidente Lula e muita gente do governo achava que a Rede Globo, a revista Época e a maioria dos veículos nacionais estavam “no bolso”. Tanto é que o PT e o governo não investiram em veículos próprios e alternativos. Foi um erro estratégico. Perspectivas Na avaliação de alguns setores de esquerda, a reeleição de Lula pode representar a última opção da burguesia para manter as políticas neoliberais e ao mesmo tempo conter a insatisfação popular. Em 2010, a não ser que surjam novas lideranças no campo da esquerda, os principais postulantes – Aécio Neves, José Serra, Ciro Gomes – se situam à direita de Lula. O que as esquerdas vão fazer? Prioridade empresarial Antes do resultado do 2º turno, a imprensa vinculada aos interesses empresariais já estava pautando na sociedade os pontos que o governo deve adotar nos próximos meses: ajuste fiscal para redução dos gastos públicos, manutenção do superavit primário em 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB), desoneração de impostos e a distribuição das concessões de estradas, ferrovias, portos e hidrovias. O jogo é o mesmo! Emprego flutuante Em 25 de outubro, o Ministério Público do Trabalho, do Rio de Janeiro, denunciou a Petrobras por descumprir uma decisão judicial que determina a fiscalização trabalhista das empresas que prestam serviços à estatal. De acordo com a denúncia, 90% dos trabalhadores dos navios utilizados pela Petrobras são estrangeiros, o que representa cerca de cinco mil vagas de trabalho para brasileiros. Boicote estudantil Cresce, em todo o Brasil, entre estudantes universitários de escolas públicas e privadas, o movimento de boicote ao próximo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes, que será realizado dia 12 e que serve para avaliar os cursos superiores. Desde o governo FHC inúmeros cursos e escolas deixaram de ser avaliados porque os estudantes não concordam com os critérios do Enade. Recado eleitoral Vinte e sete milhões de eleitores (mais de 25% do total do eleitorado) não votaram nem em Lula nem em Alckmin, configurando o maior índice de abstenção e votos nulos e brancos das eleições presidenciais. No Rio de Janeiro, o voto nulo para governador atingiu o mais alto índice do Brasil: 13,36%. A imprensa burguesa tenta esconder os números, mas as urnas deram seu recado. Capital liberado Saiu no Diário Oficial da União de 30 de outubro a resolução federal que permite que as empresas mantenham até 30% dos dólares das exportações depositados no exterior. Essa medida deve aumentar bastante a fuga de capitais e de depósitos de brasileiros em paraísos fiscais, que, em 2005, segundo o Banco Central, chegou a 112 bilhões de dólares. Sem contar o que é levado pelo caixa-dois.

Esquerda não vai apenas negociar Superada a ameaça de retrocesso, movimentos se organizam para ir às ruas e lutar unidos em torno de um projeto popular Luís Brasilino da Redação

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Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) fará sua primeira reunião, no dia 11, depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada nas urnas em 29 de outubro. O encontro tem destacada importância, pois será o primeiro desafio na tentativa da esquerda social de unificar sua pauta e intensificar a pressão sobre o governo federal. Trata-se, inclusive, de uma recomendação dada pelo presidente Lula em discurso no dia da votação. “Estão aqui meus companheiros sindicalistas, e eu quero dizer para vocês: reivindiquem tudo que vocês precisarem reivindicar, nós daremos apenas aquilo que a responsabilidade permite que a gente dê. Reivindiquem”, afirmou. Diga-se que, a depender da intenção dos movimentos, essa “responsabilidade” mencionada pelo presidente deverá ser mais social do que fiscal. O primeiro mandato do PT serviu para os movimentos entenderem que, para ter suas reivindicações atendidas, não basta eleger o presidente. Até 2002, quando Lula venceu pela primeira vez, havia por parte de setores do movimento social a ilusão de que a eleição do petista poderia resolver vários dos problemas da população pobre, de acordo com Gilmar Mauro, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). “Isso não ocorreu e nem vai ocorrer. Mudanças profundas numa sociedade são fruto de processos de mobilizações onde a classe se envolve e assume para si a tarefa de fazer. Não virá de cima para baixo”, sentencia. Para Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT, as eleições lembraram para a esquerda “que existe luta de classes; que o outro lado sabe disso e nos odeia; e que, para derrotá-lo em definitivo, será preciso unidade popular, programa de esquerda, reformas estruturais e meios de comunicação de massa”. Segundo Nalu Faria, da Marcha Mundial de Mulheres, nos primeiros quatro anos com Lula, pensouse que o país vivia um momento complicado e que o novo presidente ainda tinha o que aprender. Agora, a expectativa pode se transformar em cobranças e mobilizações. “Nas discussões na CMS e nas Assembléias Populares, começamos a trabalhar com aquela idéia de atuar mais em cima de um documento, de um projeto para o Brasil. Isso significa mais acúmulo e consciência em torno de possíveis cobranças”, aponta.

movimentos sociais à reeleição justifica-se, este gerou uma enorme responsabilidade. “Eles avalizaram Lula pela segunda vez (2002 e 2006). Ou seja, tem uma hora na qual o presidente terá que pagar a dívida; se não pagar, o fiador será cobrado”, alerta. Dessa forma, Gustavo Petta, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), anuncia que o mais importante nos próximos anos será pressionar, e muito. “A postura de alguns movimentos ao acreditar demasiadamente na negociação provou-se, no primeiro mandato, ineficiente. Por isso, apostamos muito nessa plenária da CMS do dia 11. Estamos mobilizando muita gente para tirar estratégias comuns e exercer forte pressão desde agora”, revela.

NÃO À CONCILIAÇÃO Petta avalia que os rumos do próximo mandato serão decididos no curto prazo. Assim, faz-se necessário “organizar mobilizações e unificar a plataforma dos movimentos para botar o bloco na rua e pressionar o governo”. Só assim, ele acredita ser possível conquistar um mandato comprometido com as causas populares, um gover-

no mais à esquerda. “O diálogo aberto pelo presidente com os movimentos é muito importante, mas não basta. Ficou provado que, sem pressão, Lula continuará tentando conciliar interesses que são conflitantes e que não podem ser conciliados. Interesses que se chocam quando algumas decisões precisam ser tomadas”, alerta. A personalidade conciliadora do presidente preocupa. Isidoro Revers, assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT), afirmou à Agência Brasil que a reeleição de Lula pode ser prejudicial ao povo, por sua tendência a buscar a realização do diálogo entre as classes. “A política de conciliação sempre será favorável a quem tem mais poder econômico e político. Quando a elite brasileira vai aceitar ter menos ganho, que ela perca os lucros obtidos por meio dos juros, por exemplo?”, questiona. Para ele, esse tipo de atitude do presidente fará com que os mais pobres deixem de lutar por mudanças estruturais.

AUTONOMIA Isso não significa que a negociação está descartada. Gilmar Mauro, do MST, defende que a relação com o governo tem que levar em consideração três elementos, que podem

interagir de diferentes formas, dependendo da conjuntura: a proposta de projetos, lutas por mudanças e negociações. “Obviamente, o movimento social vai ter que fazer muita luta e buscar, por meio das negociações, avanços concretos. Mas não se pode abrir mão da autonomia, pois o enfrentamento com o capital no Brasil vai se dar permanentemente e isso independe de Lula”, argumenta. Para ele, isso é uma das lições que a esquerda aprendeu com o primeiro mandato petista. Por isso, os movimentos sociais têm que trabalhar na dimensão de politizar sua atuação. “Não se pode separar a luta reivindicatória da luta política. A primeira é parte da disputa de classes e, portanto, da disputa da hegemonia”, afirma. Além disso, o dirigente sem terra acredita que os movimentos sociais devem ter a clareza de que devem fazer alianças de classe – com outros movimentos –, para enfrentar a lógica do capital. “A superação dessa lógica pressupõe a derrota do sistema. Portanto, as alianças devem ser costuradas com a classe trabalhadora e não com a elite”, explica. (Colaborou Igor Ojeda, da Redação)

“Um slogan que deve permear o conjunto do movimento social nesse segundo mandato é: nenhum direito a menos para a classe trabalhadora” Gilmar Mauro, do MST “Temos a convicção de que a hora é de ampliar a pressão e a mobilização, colocando os movimentos sociais nas ruas para que seja implementada a nossa agenda” Artur Henrique, da CUT (à Agência CUT)

“Os movimentos de luta pela terra estão querendo, no próprio dia da posse, fazer ocupações. É um gesto que acho lindo” Dom Tomás Balduíno, da CPT

“É preciso organizar mobilizações e unificar a plataforma dos movimentos para botar o bloco na rua e pressionar o governo” Gustavo Petta, da UNE

AUMENTAR PRESSÃO Nesse sentido, Plinio Arruda Sampaio, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra) e que foi candidato ao Governo de São Paulo pelo Psol, acredita que a primeira coisa que os movimentos devem fazer é provocar rapidamente uma mobilização para fazer ao novo governo as exigências que não fizeram ao candidato. “Não fizeram pois temiam que, na disputa eleitoral, isso pudesse favorecer o adversário. Agora não há mais esse obstáculo. Deveriam se reunir e dizer: se quiser ter nosso apoio no seu governo, precisa fazer isso, isso e isso. A esquerda precisaria ser mais intransigente”, coloca. Na opinião de Plinio, ao mesmo tempo em que o apoio dado pelos

Rumos do governo ainda indefinidos No novo mandato de Lula, a mobilização popular vai ser essencial para definir os rumos do governo, prevê Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT. Para ele, haverá duas disputas fundamentais. “Uma, entre o bloco tucano-pefelista e o bloco do governo. Outra disputa, entre os que querem um governo meramente progressista e, nós, que queremos um governo democrático-popular. Blairo Maggi (o maior produtor de

soja do país e governador reeleito do Mato Grosso) e o economista Antônio Delfim Netto estarão conosco, ao menos inicialmente, na disputa contra os tucanos-pefelistas. E estarão contra nós, na disputa pelo caráter do governo. Quem vencerá essa segunda disputa? Quem tiver maior capacidade de mobilização, além de organização e política adequadas”, avalia. Gilmar Mauro, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entretanto, não acredita que Lula irá alterar a política econômica. “A lógica econômica implementada neste governo vem do anterior. E é a predominante em todo o mundo. Ela fez o governo priorizar a obtenção de superavit

comercial por meio de investimentos, principalmente, no agronegócio para cumprir com uma agenda de dívida que o Estado brasileiro tem no exterior. De outro lado, fez um ajuste fiscal interno para beneficiar setores do capital financeiro, com o pagamentos dos juros da enorme dívida interna. Portanto, a exportação líquida de capital só tem favorecido o setor financeiro internacional e quem exporta, ou seja, o setor financeiro no Brasil e o agronegócio. A luta do movimento social no segundo mandato não é ficar acreditando ‘ah, Lula muda a política econômica’. É despertar a sociedade para fazer um enfrentamento de classes. Essa é a grande tarefa”, explica. (LB)


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NACIONAL ELEIÇÕES

Direita sai enfraquecida do segundo turno Em pleitos estaduais, regiões Norte e Nordeste formam base de apoio para novo mandato de Lula Eduardo Sales de Lima da Redação

O

povo nordestino retirou as antigas oligarquias do poder, e o eleitorado das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul preferiu não romper com as últimas gestões. Esse é um balanço geral das eleições para governador. Ao total, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), com 7 eleitos, foi o que obteve o maior número de vitórias para governador, destacando o Rio de Janeiro, que, para o sociólogo Emir Sader, realizará uma gestão “progressista”. Além disso, elegeu Roberto Requião, que disputou o mais acirrado duelo da história do Estado do Paraná, e Luiz Henrique, em Santa Catarina. O candidato da agremiação no Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, foi derrotado no primeiro turno. O Partido dos Trabalhadores (PT) obteve seu melhor desempenho na história, com 5 eleitos. Segundo Emir, as eleições estaduais trouxeram mudanças positivas para Pernambuco e Pará (leia matérias abaixo), que passarão a ser governados por administrações de esquerda. “A polarização entre o PT, e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) se intensificará”, completa o sociólogo. Já os tucanos pousaram nos Estados mais ricos. O PSDB elegeu 6 governadores – em especial, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, Estados que concentram o maior Produto Interno Bruto (PIB) do país. O partido se fortaleceu em Roraima, com a reeleição de Ottomar de Sousa Pinto. “Lá, a classe dominante é muito sanguinária, pois defende a morte de índios para a expansão da produção de arroz, soja e mineração. No Estado, o agronegócio é um processo de permanente agressão e o atraso tem um expressão mais cruel”, comenta o ex-prefeito de Belém (PA) e arquiteto, Edmilson Rodrigues. O erro dos petistas, diz, foi ter apoiado o ex-governador Flamarion Portela, “que defendia o assassinato de índios e que estava envolvido com o escândalo dos gafanhotos”. Edmilson se diz decepcionado com a derrota de Olívio Dutra (PT) no pleito gaúcho. “Fiquei muito triste, pois a experiência de Olívio como prefeito, governador e ministro das Cidades foi a única de um governo verdadeiramente socialista no Brasil”, diz. Para Emir, Olívio errou na estratégia de campanha.

CORONELISMO Em Goiás, com a chegada de Alcides Rodrigues (PP) ao governo, a

Paraná: Requião derrota o agronegócio Pedro Carrano de Curitiba (PR) Dizer que foi aos quarenta e cinco do segundo tempo é pouco. O atual governador licenciado do Paraná, o candidato Roberto Requião (PMDB), ultrapassou seu adversário, Osmar Dias (PDT), somente quando 98,85% das urnas já estavam apuradas. No final, sua vantagem foi de apenas 10.479 votos – o eleitorado paranaense é formado por 7,1 milhões de pessoas. Na comemoração na Boca Maldita, na capital Curitiba, o alívio era visível nos militantes do partido, que celebravam junto à festa da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda que o apoio mútuo entre os dois não tenha ficado claro – sobretudo por parte de Requião –,

Governadores que tendem a apoiar Lula: 17 Bahia: Jacques Wagner (PT) Pará: Ana Júlia (PT) Sergipe: Marcelo Déda (PT) Piauí: Wellington Dias (PT) Acre: Binho Marques (PT) Paraná: Roberto Requião (PMDB) Rio de Janeiro: Sérgio Cabral (PMDB) Santa Catarina: Luiz Henrique da Silveira (PMDB) Espírito Santo: Paulo Hartung (PMDB) Tocantins: Marcelo Miranda (PMDB) Amazonas: Eduardo Braga (PMDB) Pernambuco: Eduardo Campos (PSB) Ceará: Cid Gomes (PSB) Rio Grande do Norte: Wilma Faria (PSB) Mato Grosso: Blairo Maggi (PPS) Rondônia: Ivo Cassol (PPS) Amapá: Walder Góes (PDT)

Governador (em tese) neutro Maranhão: Jackson Lago (PDT)

Rogério Almeida de Belém (PA)

Governadores que tendem a se opor a Lula: 9 Rio Grande do Sul: Yeda Crusius (PSDB) São Paulo: José Serra (PSDB) Minas Gerais: Aécio Neves (PSDB) Alagoas: Teotônio Vilela Filho (PSDB) Paraíba: Cássio Cunha Lima (PSDB) Roraima: Otomar (PSDB) Mato Grosso do Sul: André Puccinelli (PMDB) Distrito Federal: Arruda (PFL) Goiás: Alcides Rodrigues (PP) Governadores, por partido, em 2002

PMDB (7 Estados) PSDB (6 Estados) PT (3 Estados) PFL (3 Estados) PSB (2 Estados) PPS (2 Estados) PDT (2 Estados) PP (1 Estado)

dinastia oligárquica dos Perillo permanece no poder. Em Pernambuco, a eleição de Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), representa uma resistência popular ao coronelismo do Estado, apesar de ele ter recebido o apoio de Severino Cavalcanti (PP) e Inocêncio de Oliveira (PMDB), caciques da direita local. Para Tânia Bacelar, economista, cientista social e duas vezes secretária (Planejamento e Fazenda) do governo de Miguel Arraes, de quem Eduardo Campos é neto, as eleições de Pernambuco seguiram a onda de todo o Nordeste: a derrubada das grandes oligarquias. “A vitória de Eduardo não é só uma vitória de Pernambuco, é uma vitória nacional ligada também a Lula. Pernambuco, assim como Maranhão,

para as organizações sociais ambos representaram um ponto estratégico. “É uma briga onde de um lado estão os banqueiros e do outro, o povo”, comenta o jornalista Mário Milani. Requião foi eleito com mobilização social e isso vai forçá-lo a tender ainda mais para as classes populares, avalia Roberto Baggio, coordenador estadual do Movimento dos Sem Terra (MST). “É a vitória de um projeto progressista e popular a favor do povo e contra os interesses do agronegócio”, ressalta. O dirigente lembra que o candidato vencido no Paraná dava o aval ao modelo de latifúndio para exportação e é ligado a pessoas que atuam neste sentido: seu irmão, por exemplo, o recém-eleito senador Álvaro Dias, relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Terra, defende a classificação de ocupações de terras como crimes hediondos. A vitória de Requião, para integrantes de movimentos sociais, também simboliza a resistência à privatização de estatais.

Fim de 12 anos de tucanato no Pará

Governadores, por partido, em 2006

PMDB (7 Estados) PSDB (6 Estados) PT (5 Estados) PPS (2 Estados) PSB (2 Estados) PFL (1 Estado) PDT (1 Estado) PP (1 Estado)

Ceará, Sergipe e, principalmente, a Bahia marcaram as eleições pela derrocada das oligarquias”, avalia. No Pará, a derrota de Almir Gabriel (PSDB) rompe um ciclo de 12 anos de governo ininterruptos dos tucanos. “Não sei se mudará, pois a participação que Jader Barbalho impôs à Ana Júlia é de 30% no governo”, comenta Edmilson, sobre as condições do apoio do cacique paraense à petista. Mas, para ele, a expectativa não é ruim. “Pode criar circunstâncias para mudanças, mesmo com o apoio de Jader”, avalia.

ENCOLHIMENTO DO PFL No Maranhão e na Bahia, houve vitórias expressivas contra o coronelismo, que evidenciam o processo de encolhimento do Partido

Neoliberalismo governará Rio Grande do Sul Daniel Cassol de Porto Alegre (RS) O Rio Grande do Sul será governado, nos próximos quatro anos, por uma intelectual orgânica e um dirigente político do neoliberalismo. Essa é a definição da economista Yeda Crusius (PSDB), eleita governadora do Estado, e do ex-presidente da Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul, Paulo Afonso Feijó (PFL), vice-governador da chapa. Atingindo 53,94% dos votos, derrotaram a chapa de Olívio Dutra (PT) e Jussara Cony (PCdoB), que ficou com 46,06%. A exemplo do que fez Germano Rigotto (PMDB) para vencer as eleições em 2002, Yeda Crusius apareceu como uma controver-

da Frente Liberal (PFL), com as derrotas de Roseana Sarney e Paulo Souto. Nesses Estados, Jackson Lago (PDT) e Jaques Wagner (PT) foram eleitos. O PFL tinha quatro governadores no último mandato, e, nestas eleições, venceu somente no Distrito Federal. Segundo Edmilson, após 40 anos da hegemonia Sarney, no Maranhão, a vitória de Lago representa a maior ruptura com as velhas oligarquias. “Na Bahia, com Wagner eleito, não haverá distanciamento de uma agenda neoliberal, mas será criada a possibilidade de aproximação do povo no governo”, avalia o ex-prefeito de Belém. E completa: “foi a pressão dos movimentos sociais que derrotou a oligarquia corrupta”. (Colaborou Mariana Martins, de Recife)

sa “terceira via”. Apesar de seu partido ter sido vice em dois dos últimos três governos estaduais, a tucana apresentou-se como o “novo”, dizendo que nunca havia governado o Rio Grande do Sul. Por trás de sua candidatura, está uma forte articulação com o empresariado gaúcho. Suas propostas para a administração estadual estão na Agenda Estratégica, um fórum de discussão do setor sobre a crise financeira do Estado. Vai aplicar a velha cartilha neoliberal: redução de gastos em saúde, educação e programas sociais, arrocho salarial para o funcionalismo público e transferência de responsabilidades para o setor privado. O PT não sofreu, propriamente, uma derrota. A polarização do segundo turno levou a militância partidária e movimentos sociais às ruas. Em Porto Alegre, o PT voltou a vencer (416.193 contra 411.866), o que leva a crer que o partido tem chances de retomar a prefeitura da capital gaúcha.

A vitória do PT no Pará com Ana Júlia Carepa por 55% a 45% sobre Almir Gabriel rompe ciclo de 12 anos de governo ininterruptos do PSDB no Estado. É a primeira vez que uma mulher vai dirigir o Pará. Com as máquinas administrativas e o endosso do maior grupo de comunicação do Norte, as Organizações Romulo Maiorana (ORM), os tucanos celebraram o campeonato antes da peleja. Quando do conhecimento dos sinais de água no chope do campeonato, os tucanos paraenses partiram para uma ofensiva. Se o primeiro turno transcorreu pacato, no segundo a cidade foi inundada de bandeiras e adesivos dos tucanos. Além disso, foi produzido um panfleto ofensivo ao PT paraense, encartado de última hora no jornal de maior circulação do Pará, o Liberal, do grupo ORM. Os tucanos celebrizaram–se no derradeiro mandato pelo abuso na propaganda. Na questão ambiental mostraram-se inoperantes. Na questão da distribuição de terra, mantiveram oposição radical aos movimentos sociais. Tornaram-se notórios em todo o mundo pelo Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, quando 19 sem-terra foram assassinados pela polícia. Ana Júlia vai enfrentar oposição na Assembléia, e forte pressão de fazendeiros, alinhados aos tucanos.

Em Pernambuco, resistência às elites Mariana Martins de Recife (Pernambuco) Os pernambucanos colocaram fim ao domínio da aliança entre PMDB, PFL e PSDB no Estado. Por uma expressiva diferença de mais de 1 milhão de votos, Eduardo Campos (PSB), que ficou com 65,4% dos votos, derrotou o atual governador Mendonça Filho (PFL), com 34,6%. A vitória coloca um ponto final aos oito anos de mando de Jarbas Vasconcelos (PMDB), que era governador e se licenciou do cargo para disputar o Senado. A vitória de Eduardo, neto do ex-governador Miguel Arraes de Alencar, reacende uma disputa histórica no Estado entre arraesistas e jarbistas. Além disso, assinala mais uma derrota de um político apoiado por Jarbas, apesar de este ter sido eleito senador. Em 2000, o candidato apoiado por Jarbas para a Prefeitura do Recife – Roberto Magalhães – foi derrotado pelo atual prefeito João Paulo (PT), que foi reeleito em 2004. Os oito anos de governo de Jarbas foram marcados por uma grave crise na segurança pública com escândalos envolvendo principalmente a Polícia Militar, que aterrorizou movimentos sociais do campo e da cidade. Para a economista Tânia Bacelar, o governo de Eduardo Campos deve surpreender positivamente neste sentido. “Vai manter os compromissos que Arraes tinha com os mais pobres e que é também o compromisso de Lula”, diz.


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AMÉRICA LATINA COLÔMBIA

NICARÁGUA

Uribe endurece repressão às Farc

Movimento para renovar o sandinismo Jaimecentralamerica

Arquivo Brasil de Fato

Entidades denunciam que a decisão do presidente colombiano sinaliza para o aumento de violações a direitos humanos no país

REPÚBLICA DE COLÔMBIA

Tatiana Merlino da Redação

S

e o primeiro mandato do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, deixou um saldo de 11.084 pessoas desaparecidas e assassinadas entre julho de 2002 e junho de 2006, os fatos levam a crer que os próximos quatro anos podem ser marcados por ainda mais violência. Em 20 de outubro, o presidente suspendeu os diálogos de acordo humanitário para conseguir a liberação dos 62 seqüestrados por guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e anunciou que o único meio de recuperar os seqüestrados em poder da organização será por via militar. O anúncio foi feito após Uribe responsabilizar o grupo guerrilheiro por um atentado com um carrobomba na Escola Superior de Guerra, na capital Bogotá. A explosão aconteceu dentro do maior e mais importante complexo militar da Colômbia, num estacionamento reservado para o Alto Comando. Mesmo depois de a organização ter negado a autoria do ataque, o presidente não voltou atrás e recusou-se a mostrar provas de que as Farc teriam participado do incidente. As Farc são a principal guerrilha colombiana, e possuem entre 12 mil e 18 mil membros. Têm presença em aproximadamente 80% do território do país, controlando grande parte dele, principalmente florestas e selvas no Sudeste da base das montanhas dos Andes. O grupo surgiu em 1964, como uma guerrilha revolucionária do Partido Comunista Colombiano – atualmente, autoproclamam-se uma organização político-militar marxista-leninista de inspiração bolivariana e afirmam representar a população rural contra as classes abastadas da Colômbia. O endurecimento com a organização gerou indignação de defensores de direitos humanos e dos familiares de pessoas seqüestradas pela guerrilha. De acordo com Fabio Senra, do Movimento Continental de Cristãos pela Paz com Justiça e

Dignidade, a medida deve resultar em muitos confrontos futuros. “Esse anúncio vem aprofundar o Plano Colômbia e o Plano Patriota, que têm sido responsáveis por violações de direitos humanos, repressão a movimentos sociais, deslocamento e migração forçada de milhares de pessoas”, afirma. Segundo Senra, há sinais do início de uma nova fase do Plano Colômbia, que estaria sendo implementada no centro do país, com mais apoio técnico e operações com suporte de inteligência via satélite dos Estados Unidos, “e com a idéia de capturar pessoas como troféus de guerra, no nível do secretariado das Farc. Isso vai ser acompanhado por um exercício sistemático de violação de direitos, de agressão contra as comunidades camponesas e indígenas – supostamente a base social da insurgência”. Para David Martinez Osorio, coordenador do Observatório de direitos humanos e direitos humanitários, rede que reúne 166 organizações não governamentais do país, a atitude do presidente Uribe estimula a ocorrência de ataques contra líderes sociais e defensores de direitos humanos. “Esse discurso indica uma mudança de rumo no governo, que é muito preocupante”, disse.

ATITUDE IRRESPONSÁVEL A mãe da ex-candidata à Presidência Ingrid Betancourt, seqüestrada pelas Farcs, afirmou que Uribe lavrou a sentença de morte das pessoas que são mantidas reféns pela organização. Ela disse que ele teve uma atitude irresponsável e passional. Dias depois do anúncio, familiares e organizações humanitárias convocaram uma jornada de resistência civil contra as decisões do presidente. A medida também repercutiu de maneira negativa nos países vizinhos, após Uribe afirmar que membros do secretariado das Farc, Raúl Reyes e Iván Márquez, estão refugiados em território equatoriano e venezuelano, sem o consentimento dos governos.

Daniel Cassol de Porto Alegre (RS) À frente nas pesquisas de intenção de voto, Daniel Ortega, da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), pode deve ser eleito presidente da Nicarágua, no dia 5. Derrotado nas últimas três eleições, Ortega chega como favorito – mas é alvo de críticas, denúncias e acusações por parte da esquerda nicaragüense, que já não integra a FSLN. Com a proposta de renovar o sandinismo para derrotar o “danielismo”, ex-dirigentes da Frende Sandinista e lideranças de movimentos sociais articularam a Aliança Movimento Renovador Sandinista (MRS), tendo como candidato Edmundo Jarquín, que teve de substituir Herty Lewites, que morreu no início de julho, quando tinha mais de 30% das intenções de voto. Em entrevista ao Brasil de Fato, a comandante sandinista Mónica Baltodano explica a situação da esquerda nicaragüense nestas eleições. Ela mostra como Ortega estabeleceu pactos com a direita do país, para articular sua chegada ao poder. (Leia a íntegra da entrevista na Agência Brasil de Fato – www.brasildefato.com.br)

Fonte: Enciclopédia Latinoamericana (Boitempo, 2006)

O rompimento foi considerado precipitado por partidos de oposição, que acreditam que faltam indícios para atribuir a autoria do atentado às Farc. Até aliados do presidente criticaram a decisão de Uribe.

HERANÇA MALDITA Reeleito em maio desde ano, o presidente da Colômbia foi responsável por milhares de mortes, desaparecimentos e perseguições de militantes populares em seu primeiro mandato. O Observatório de Direitos Humanos e Direitos Humanitários preparou um balanço sobre o primeiro mandato do governo Uribe, que mostra que, em média, foram assassinadas ou desaparecidas, por razões políticas, 7,7 pessoas por dia entre julho de 2002 e junho de 2006. De acordo com o relatório, nesses quatro anos “a responsabilidade direta do Estado nas execuções extrajudiciais arbitrárias aumentou em 60%”. Segundo o coordenador do Observatório, David Martinez Osorio, o balanço relaciona as detenções arbitrárias como uma conseqüência da política de “segurança democrática” de Uribe, de luta contra os grupos armados ilegais, em especial as Farc. Para ele, “a paulatina e crescente paramilitarização da sociedade e das instituições colombianas é um fato notório e grave”. O documento também destaca que as detenções arbitrárias tornaram-se uma prática “generalizada, massiva e sistemática” e relata que entre 7 de agosto de 2002 e 30 de junho de 2006, pelo menos 6.912 pessoas foram detidas dessa maneira.

Brasil de Fato – Por que a FSLN abandonou os princípios do sandinismo? Mónica Baltodano – Precisamos lembrar que a triunfante revolução popular sandinista de 1979 foi submetida a uma guerra de desgaste. Toda uma década em que o presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos, sustentou que, se os EUA não podiam prevalecer na América Central, derrotando os sandinistas, então não prevaleceriam em nenhuma parte do mundo. A guerra de desgaste terminou na derrota política do sandinismo nas eleições de 1990. A partir de então, iniciou-se um processo de reversão do processo revolucionário. Em poucas palavras, a revolução popular foi derrotada. A cúpula atual da direção da FSLN se converteu em uma elite econômica e empresarial emergente, que disputa o poder econômico e político com as oligarquias tradicionais. BF – É isso que representa o “danielismo”? Mónica – Daniel Ortega é o líder do processo de reversão no sandinismo. O “danielismo” representa, do ponto de vista ideológico, a transição do sandinismo ao capitalismo. Ortega, a partir do controle absoluto das estruturas partidárias, não admite dissensos – administra, dirige e arbitra tudo na Frente Sandinista. A outrora direção colegiada que distinguia a FSLN foi enterrada Jorge Mejía Peralta

Guerrilheiros da Farc estudam enquanto lutam

Pintura feita a partir da clássica foto da “mãe-guerrilheira” sandinista

Localização: América do Sul Idioma: Espanhol Capital: Bogotá (6 milhões hab.) População: 45 milhões (2005) Distribuição da população: urbana (77,4%), rural (22,6%) (2005) Analfabetismo: 7,1% (2005) Composição étnica: mestiços de brancos, ameríndios e negros (58%); brancos (20%); mestiços de brancos e negros (14%); negros (4%); mestiços de brancos e ameríndios (3%); ameríndios (1%) PIB: 104,8 bilhões de dólares (2003) PIB per capita: 2.352 dólares (2003) Dívida externa: 37,3 bilhões de dólares IDH no mundo e na AL: 69º e 15º

com a derrota de 1990. Como o próprio Ortega declarou publicamente: “Eu sou a FSLN”. BF – O que defende o MRS? Mónica – O MRS nasce como movimento político em 1995, quando um numeroso grupo de intelectuais e dirigentes se desliga da FSLN por divergências políticas. Esse movimento, convertido em partido, se manteve durante dez anos como uma força sem muito respaldo popular. Em meados de 2005, um grande número de sandinistas iniciou um movimento político para postular o então prefeito de Manágua, Herty Lewites, como candidato à presidência pela FSLN. A resposta da direção oficial foi a eliminação das eleições primárias internas (prévias), estabelecidas no estatuto da FSLN, e a proclamação ilegal e arbitrária de Ortega como candidato presidencial, pela quinta vez e depois de três derrotas consecutivas. A supressão das eleições internas foi acompanhada da expulsão da FSLN de Lewites. Foram se aglutinando sandinistas que durante esses anos foram marginalizados por Ortega: comandantes da Revolução, como Victor Tirado, Henry Ruiz e Luis Carrión; intelectuais como a escritora Gioconda Belli, o poeta Ernesto Cardenal e o cantor Carlos Mejía Godoy; e comandantes guerrilheiros, como eu e Rene Vivas. Daí, surge o MRS. Em dezembro de 2005, o Movimento tinha 30% das intenções de voto. A morte repentina de Lewites, em 2 de julho de 2006, colocou o MRS em uma encruzilhada: à vontade de articular uma força alternativa às políticas neoliberais e à corrupção se impôs à adversidade e demonstrou que o movimento ia além de uma personalidade e de uma candidatura. BF – Quais as tarefas necessárias para renovar o sandinismo? Mónica – Devemos nos comprometer a fazer o balanço de nossa experiência de luta. Não é possível que a FSLN siga atuando como se nada tivesse ocorrido nesses últimos 16 anos. Não só devemos explicações a nosso povo, temos uma obrigação com todos os povos da América Latina, que tanto respaldo e confiança nos deram. O sandinismo segue contendo um potencial importante para o reagrupamento dos setores mais combativos do povo. Mais que apostar em candidaturas, devemos apostar no projeto político que nos deu origem. Temos que reverter a ordem de prioridades. Em vez de privilegiar os espaços institucionais, devemos priorizar a organização e educação do povo para a luta.

Quem é

Ministra do governo revolucionário na década de 1980 e expulsa da FSLN por suas críticas aos rumos da organização, cuja transformação em um partido burguês denuncia, Mónica Baltodano foi comandante da guerrilha sandinista.


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INTERNACIONAL

MÉXICO

Ilanhelman

Kappazeta/Creative Commons

Após várias ameaças, o presidente mexicano, Vicente Fox, ordenou a investida da polícia federal à Comuna de Oaxaca, que há 5 meses resiste ao governador Ulises Ruiz Ortiz

Latuff

Manifestações em todo o mundo denunciam a repressão da polícia mexicana, que ataca protestos populares

Centro de Mídia Independente

Solidariedade contra violência em Oaxaca

Bruno Fiuza e Pedro Carrano de São Paulo (SP) e de Curitiba (PR)

Durante ataque de um grupo paramilitar pró-governo a uma barricada da APPO, o voluntário e documentarista estadunidense Brad Will, ligado ao Centro de Mídia Independente, foi atingido por um tiro no peito e morreu

M

ais uma vez o México está no centro das atenções do mundo. Desde 29 de outubro, a capital do Estado de Oaxaca se transformou em um verdadeiro campo de batalha entre os movimentos sociais locais organizados em torno da Assembléia dos Povos de Oaxaca (APPO) e a Polícia Federal Preventiva mexicana, incumbida de retomar as ruas, praças e edifícios públicos da cidade, ocupados há cinco meses por um movimento cidadão que exige a renúncia do atual governador do Estado, Ulises Ruiz, do Partido da Revolução Institucional (PRI). No dia 27, um ataque de grupos paramilitares a serviço do governo de Ruiz contra as barricadas da APPO resultou na morte de 3 pessoas: Esteban Lopez Zurita, o professor Emilio Alonso Fabián e o jornalista estadunidense William Bradley Roland. Voluntário do Centro de Mídia Independente (Indymedia) de Nova York, Will há vários anos viajava pela América Latina cobrindo as lutas dos povos do continente, entre elas a dos sem-teto no Brasil, quando registrou a brutalidade do despejo da ocupação Sonho Real, em Goiânia, no ano passado. O ataque paramilitar gerou uma onda de comoção nacional e internacional, que levou o presidente mexicano, Vicente Fox, a ordenar a entrada da Polícia Preventiva Federal em Oaxaca para “restaurar a

ordem”. A repressão despertou uma onda de protestos em várias cidades do mundo. A mobilização global varreu as Américas e a Europa, de Brasília a Berlim, passando por Montreal e Milão. Até o fechamento desta edição, o Centro de Meios Livres da Cidade do México havia registrado ações em mais de 30 cidades. Entre as ações de maior impacto se destacou a ocupação do consulado geral do México em Barcelona, na Espanha.

PROTESTOS NO BRASIL No Brasil, a primeira ação aconteceu já na madrugada do sábado, 28 de outubro, com uma pichação na embaixada mexicana. Entre os dias 31 de outubro e 1º de novembro estavam programados novos protestos em frente das representações diplomáticas mexicanas em quatro cidades – São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF) e Fortaleza (CE) – além de ações em Marília (SP) e Tefé (Amazonas). O ato em São Paulo, realizado no começo da tarde de 31 de outubro, reuniu cerca de 80 pessoas em frente ao consulado geral do México, que decoraram a fachada do imóvel com cartazes denunciando a truculência do governo mexicano e

apoiando a luta do povo de Oaxaca. Entre os participantes estavam a Liga Estratégia Revolucionária, a Liga Bolchevique Internacionalista e o Centro de Mídia Independente, além de ativistas do Movimento pelo Passe Livre e do Comitê Avante Zapatistas de São Paulo. Durante o ato, um pequeno carro de som foi usado para divulgar trechos das transmissões da Radio Universidad de Oaxaca, além de outras informações sobre a situação atual na região. Integrantes do coletivo do Centro de Mídia Independente entregaram uma carta a um funcionário do consulado na qual pediam a retirada imediata do Exército e da Polícia Federal Preventiva de Oaxaca, a renúncia de Ruiz e o fim das prisões, ataques e perseguições contra os integrantes da APPO. A carta era também para lembrar Brad Will, que foi homenageado com um arranjo de velas na forma do símbolo da rede Indymedia, montado na porta do consulado. Depois da entrega da carta, foi lido o comunicado enviado pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) em apoio à luta de Oaxaca, com uma convocação para uma greve geral em todo o México em 20 de novembro.

Indígenas querem a destituição de governador A repressão não é uma novidade em Oaxaca, no México. Foi justamente em resposta a esta que um movimento, que originalmente era uma manifestação da 22ª seção do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação por melhores salários para a categoria, se tornou uma questão de todas as organizações em luta na região e levou à formação da Assembléia dos Povos de Oaxaca (APPO), depois que os professores foram desalojados com violência da praça do poder (zócalo), onde estavam instalados. Com povos indígenas, camponeses e estudantes, os professores formaram, em 21 de julho deste ano, a APPO, com a participação de 365 organizações sociais do Estado. Até agora o movimento promoveu uma greve no ensino local, formou barricadas, tomou 22 prédios públicos estratégicos, além de rádios. Sua reivindicação imediata é a destituição do governador do PRI, Ulisses Ruiz Ortiz (URO). O movimento é heterogêneo e conta com aderentes da Outra

Campanha, lançada pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) em julho de 2005 (e que já vinha sendo reprimida no Estado mesmo antes da greve dos professores), e também com aqueles que estão com o movimento cidadão encabeçado por Andrés Manuel López Obrador, candidato do Partido da Revolução Democrática (PRD) nas últimas eleições mexicanas. A APPO reivindica o reconhecimento do modo indígena de organização, que inclui as assembléias por consenso e a autonomia. Não é difícil entender o motivo: as comunidades de Oaxaca se organizam segundo seus “usos e costumes”. Assim, dos 570 distritos que dividem o Estado, 418 se guiam segundo suas próprias leis. “As experiências organizativas da APPO têm referência no pensamento indígena, e no modo como se luta na comunidade”, comenta Miguel Cruz Moreno, do Conselho Indígena Popular Ricardo Flores Magón (Cipo-RFM). A luta está marcada pela presença do sindicato de professores, mas não se deve esquecer que nesse Estado, de forte traço indígena, as classes em luta estão enlaçadas. Parte dos professores são de uma das 16 etnias do Estado ou trabalham em comunidades. (BF e PC)

IRAQUE

Esquadrões da morte atacam população Ali Al-Fadhily e Dahr Jamail de Bagdá (Iraque) Esquadrões da morte, financiados pelo Ministério do Interior, se passando por policiais iraquianos, estão assassinando pessoas, indiscriminadamente, na capital do país, Bagdá. O número de mortos é alto: ao todo 1.536 corpos foram levados para o necrotério da cidade em setembro, em virtude das ações dos grupos. O próprio exécito dos EUA reconhece a violência dos esquadrões. Revelou que a 8ª Unidade Policial Iraquiana foi responsável pelo seqüestro de 26 sunitas, trabalhadores de fábricas de alimentos, no dia 1º de outubro, em Amil, Sudoeste de Bagdá. Os corpos de 10 deles foram encontrados mais tarde em Abu Chir, um bairro da capital. O ministro do Interior, Jawad al-Bolani, anunciou que suspenderá essa unidade de policiamento das missões oficiais, e que os policiais

ficarão confinados na base até que as investigações sejam concluídas. Mas funcionários do Ministério colaboraram com os assassinatos, pois seus veículos foram usados para o seqüestro, e a maioria dos homens que conduziram o ataque vestiam uniformes da polícia iraquiana, com a exceção de alguns que vestiam um “uniforme” preto, característico do esquadrão da morte. O líder da unidade policial está em cárcere privado sendo interrogado em função deste e de outros crimes. “Certamente foram eles que fizeram isso”, disse um vizinho de uma das vítimas, em condição de anonimato. “Os corpos torturados foram encontrados no segundo dia. Eles vieram em carros oficiais da polícia; essa não é a primeira vez que eles fazem isso. Eles fazem isso por toda Bagdá, e nós esperamos que eles sejam punidos desta vez”. Mas reina a impunidade. “Eles vão ser reabilitados e trazidos de

volta ao serviço,” disse o diretorgeral da polícia iraquiana Adnan Thabit. O Partido Islâmico Iraquiano, o maior partido sunita, acusou as milícias ligadas ao governo e aos militares estadunidenses de permitir a violência. As Forças Armadas dos EUA negam qualquer envolvimento nas mortes.

BENEFÍCIOS A CARRASCOS O general Yassin al-Dulaimi, representante do ministro do Interior, disse na televisão iraquiana que os esquadrões da morte são compostos principalmente pela polícia e unidades do Exército iraquiano. Dulaimi disse não acreditar que a organização Shia Badr, a maior das milícias do país, tem completo controle sobre seu ministério. Mas a maioria dos residentes de Bagdá acreditam que a Badr controla a Força Policial de Manutenção da Ordem de Bagdá, uma das várias forças policiais da cidade. Essa força é comandada por Mehdi al-

Gharrawi, que também liderou uma força similar durante os ataques estadunidenses à Faluja em novembro de 2004, denunciados como extremamente violentos contra a população civil, por entidades não governamentais. “Todos os criminosos que sobreviveram à crise de Faluja, depois de terem cometido genocídio e outros crimes de guerra, ganharam altos postos”, revelou o major Amir Jassim, do Ministério da Defesa. “Eu e muitos dos meus colegas não ganhamos bonificações, porque desobedecemos ordens para atirar contra casas de cidadãos em Faluja”. Jassim revelou que os saques e as queimas das casas em Faluja em novembro de 2004 foram ordenados pelos ministros do Interior e da Defesa.

CAMPANHA DE VIOLÊNCIA Um relatório de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), realizado em se-

tembro do ano passado, apontou as forças do Ministério do Interior como responsáveis por uma campanha organizada de detenções, torturas e assassinatos. Esse relatório afirma que o comando especial da polícia é responsável pelo recrutamento de assassinos das milícias Shia Badr e Mehdi, e treinados pelas forças dos EUA. O coronel aposentado James Steele, que serviu como conselheiro das forças de segurança do Iraque para o então embaixador dos EUA, John Negroponte, supervisionou os treinamentos dessas forças. Steele foi comandante do grupo de conselheiros dos EUA em El Salvador 1984-1986, enquanto Negroponte era embaixador dos EUA em Honduras 1981-1985. Negroponte foi acusado de diversas violações aos direitos humanos pela Comissão de Direitos Humanos de Honduras, em 1994. A Comissão relatou torturas e desaparecimentos de, ao menos, 184 trabalhadores militantes. (IPS - www.ipsnews.net)


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CULTURA

De 2 a 8 de novembro de 2006

SEM-TERRINHA Marja Pfeifer Coelho

Uma idéia na cabeça, uma lata na mão Marja Pfeifer Coelho de Porto Alegre (RS)

“N

unca passou por minha cabeça que uma coisa assim acontece de verdade”. A frase é dita por um menino de cerca de dez anos, com os olhos arregalados, cuidando da imagem que se anuncia no papel banhado com o revelador. Uma promessa estava se cumprindo naquele instante: é possível, afinal, tirar uma fotografia com uma lata de leite em pó. O menino chama-se Jonatan e, com outras 20 crianças e adolescentes, participou da oficina de fotografia em lata realizada em 12 de outubro, no assentamento Integração Gaúcha, em Eldorado do Sul (RS), durante o 10º Encontro SemTerrinha. A atividade foi iniciativa voluntária de dois funcionários do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) do Estado – a instituição financiou o material necessário, com exceção das latinhas, trazidas pelos sem-terra. A idéia da oficina reúne elementos que vão além da diversão de tirar fotos. O processo é simples: basta forrar e vedar completamente um objeto, deixando um pequeno furo de alfinete, por onde entra a luz. Este é o princípio da câmara escura. Ao entrar, a luz forma uma imagem invertida na parede oposta ao furo. Se algum material sensível à luz é colocado no objeto (filme ou papel fotográfico), a imagem fica registrada. O grupo, formado por crianças e adolescentes de assentamentos e acampamentos, obteve bons resultados, a despeito do céu nublado

Oficina de fotografia em lata

Crianças sem terra revelam suas emoções e sonhos, em oficina realizada em assentamento em Eldorado do Sul (RS) expectativa inicial – afinal, dá mesmo para tirar foto com lata. “A minha lata deu 40”, disse Jonatan, na primeira foto que deu certo. E se tiver sol forte? “Aí conto menos”. Uma pequena descoberta torna-se especial.

PERSISTIR NO SONHO

e da escassez de tempo – a oficina durou uma tarde.

CONSTRUIR A CÂMERA O primeiro passo é criar uma câmera. Cada um constrói a sua, veda a lata, faz o furo. Cada câmera é única e cada criança controla sua fabricação. Em um mundo em que o desenvolvimento tecnológico é acelerado, assim como o vocabulário para explicar os inventos, parece paradoxal que as técnicas primeiras e mais simples possam surpreender. Talvez o segredo resida na autonomia criativa, em contraposição ao consumo pré-formatado dos aparelhos – a maioria inacessível às crianças que participaram da oficina. Criar a câmera a partir de uma lata é reciclar, descobrir novos usos

possíveis para o que antes era lixo. A lata sofre a transformação de objeto descartado para objeto de criação, lúdico, útil. Mágico. Depois de pronta, a lata recebe papel. Dois fatores passam a interferir na criação. Em primeiro lugar, o olhar do sujeito-fotógrafo não enquadra a foto, apenas escolhe o que fotografar. Não há visores ou qualquer guia para delimitar a foto. Considerando a deformidade causada pelo formato da lata e a posição e tamanho do papel, a fotografia é uma surpresa – sabe-se o que ela deve mostrar, mas não como.

ENCONTRAR O TEMPO O tamanho do furo e as condições de luminosidade interferem

Fotos: Marja Pfeifer Coelho

Cerca de 20 crianças e adolescentes de acampamentos e assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Rio Grande do Sul, aprenderam a fotografar com latas, por iniciativa voluntária de dois funcionários do Incra

no tempo de exposição. Nem sempre é fácil determinar o quanto se deve deixar o furo destapado para que a imagem se forme. Embora existam numerosas tabelas e cálculos, é mais fácil (e prazeroso) descobrir por tentativa e erro, até conhecer seu próprio material. Isso requer paciência, mas apenas duas meninas desistiram das fotos porque não conseguiram resultados imediatos. Para servir de partida, foi calculado um primeiro tempo inicial com base em uma câmera já pronta, que se revelou completamente equivocado para as das crianças. O tempo foi reduzido pela metade, e então as imagens começaram a se formar. Esse foi um dos momentos mais emocionantes, porque confirmou a

Ver a imagem se formando na revelação é um prêmio para a persistência. É como acreditar tanto em um sonho que ele se realiza. Para essas crianças, isso é muito significativo. Elas e seus pais têm um histórico de luta, paciência, perseverança, decepções e conquistas. Não é à toa que uma das frases/lemas entoadas pelas crianças durante o encontro refere-se à identidade sem-terrinha, a “mais bonita que eu ganhei”. Foi essa identidade a preferência de objeto das fotos: o grupo queria muito se retratar. Sozinhos, com os amigos. O auto-retrato ganha uma nova dimensão na foto com lata: “este sou eu”, “eu mesmo ‘bati’ a foto”, “eu mesmo fiz minha câmera”. Ao final da oficina, as fotos secavam em um varal improvisado, enquanto alguns participantes relatavam a experiência às cerca de 300 crianças que participaram do Encontro. Aldrian, de 17 anos, não conseguiu nenhuma foto naquela tarde. Havia alguma entrada de luz na sua lata além do furo, que “queimava” as fotos. Mesmo sem tempo para revisar a câmera, ele gostou da experiência e disse querer continuar usando sua latinha. “Tem tanta lata lá no acampamento. Eu nunca dei bola”.


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