BDF_176

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Uma visão popular do Brasil e do mundo

Ano 4 • Número 176

R$ 2,00

São Paulo • De 13 a 19 de julho de 2006

Arquivo de Raúl Zibechi

www.brasildefato.com.br

Banco social a serviço das elites Organizações cobram do BNDES mais transparência e investimento na área social

O

BOLÍVIA EM TRANSFORMAÇÃO

Os avanços sociais promovidos pelo presidente Evo Morales – nacionalização dos hidrocarburetos e reforma agrária – estão sustentados por movimentos populares, como as associações de moradores de El Alto, subúrbio da capital La Paz

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Os rumos do conflito no Oriente Médio A invasão militar israelense na Faixa de Gaza não apresenta sinais de recuo. Dia 11, tanques e tropas avançaram em direção à parte central de Gaza pela primeira vez desde que a operação “Chuva de Verão” teve início,

há duas semanas. Quanto mais se aproxima do dia 3 de agosto - data que uma tese matemática com base na Bíblia prevê um ataque nuclear a Jerusalém -, mais o conflito se acirra. Págs. 2 e 8

Transposição do S. Francisco em debate

Economia popular em feira internacional

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Venezuela dá novo fôlego ao Mercosul

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EDITORIAL

Do Caribe à Patagônia

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entrada oficial da Venezuela no Mercosul é sinal de que existem novas condições favoráveis para a integração sulamericana. A adesão tem vários significados, principalmente por demonstrar que as iniciativas dos Estados Unidos visando o isolamento da Venezuela e a satanização do presidente Hugo Chávez têm fracassado. O Mercosul teve sua primeira tentativa de organização com um tratado assinado entre Brasil e Argentina, em 1941 – cooperação torpedeada pelos efeitos do bombardeio de Pearl Harbour, que incrementou a Guerra Mundial e separou brasileiros e argentinos. Quando finalmente surgiu, 44 anos depois, ainda encontrou obstáculos, além da invariável e sistemática má vontade dos Estados Unidos. No caso, obstáculos internos: a era privativista de Collor e FHC no Brasil e de Menen, na Argentina, quando se priorizou, aqui e lá, a desnacionalização dos patrimônios públicos e a subordinação econômica aos conglomerados internacionais. Os tempos são outros, a começar pelas sacudidas, eleitorais ou não, que colocaram no poder homens como Lula, Kirchner, Chávez, amplamente favoráveis à integração sul-americana. A mídia controlada pelos anunciantes capitalistas, seja em São Paulo, Buenos Aires ou Caracas, repete a ladainha de que o Mercosul enfrenta uma crise que, com a entrada da Venezuela, tenderia a se ampliar. Raciocínio falso. A Venezuela pode não ter um mercado muito amplo, mas, em vez de ser ponto negativo, isso é exatamente o que confere valor à ampliação do Mercosul, agora ligando a Patagônia ao Caribe. Em primeiro lugar, assentam-se bases sólidas para uma cooperação mais dinâmica e concreta, dispensando a intermediação imposta pelos EUA – que, historicamente, sempre influíram na política dos países da América do Sul. Cria-se um eixo institucional entre Brasília-Caracas-Buenos Aires, fortalecendo iniciativas não apenas comerciais, mas também dos países do Mercosul no cenário internacional. Além disso, mesmo com as contradições das políticas ainda presas aos limites do neoliberalismo, que persistem em um ou outro país, a influência da políti-

Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi criado para melhorar a qualidade de vida da população. Os empréstimos que concede, entretanto, quase só beneficiam grandes empresas, muitas delas transnacionais. Algumas das beneficiárias, como é o caso da Aracruz Celulose, são denunciadas por movimentos sociais por terem ações prejudiciais ao ambiente. A corporação, que promove a monocultura de eucalipto, é responsável pela devastação de 250 mil hectares. Diante disso, algumas entidades da sociedade civil cobram uma democratização do acesso aos recursos do Banco, que desembolsou R$ 47 bilhões em 2005. O objetivo é repensar os rumos do desenvolvimento nacional e priorizar o investimento na área social, que caiu 29% entre 2000 e 2004. As organizações reivindicam que o atendimento preferencial do BNDES seja destinado aos que mais precisam do apoio do Estado: os mais pobres. Pág. 3

ca antiimperialista da Venezuela terá muito mais visibibilidade, mais credibilidade internacional e, sobretudo, desdobramentos concretos mais rápidos, especialmente a partir das iniciativas para a integração energética, por meio do Gasoduto do Sul e outras. A mídia amestrada pelo império pouco tem a dizer sobre isso. Como poderia afirmar que não há nada de concreto no terreno da integração quando o BNDES financia um gasoduto na Patagônia argentina, uma ponte sobre o rio venezuelano Orenoco, e uma estrada que praticamente liga o Atlântico ao Pacífico, atravessando o Peru? Há outras iniciativas de integração, também não comerciais, que devem ser lembradas: a criação da Escola Latino-Americana de Agroecologia, apoiada pelos governos do Paraná, da Venezuela e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, além da Universidade Federal do Paraná. Mais importante ainda são as iniciativas para uma integração baseada na solidariedade – Operação Milagre – que, com a adesão da Venezuela, poderá ser planejada e aplicada de modo mais sistemático e com a ampla participação dos governos e da sociedade, para salvar cidadãos da cegueira. A adesão da Venezuela ao Mercosul não resolve por si só as contradições e os limites de um tratado em que predominam óticas e valores do comércio. Mas, por sua política antiimperialista, por sua capacidade de investimento – sobretudo em obras de infra-estrutura – e por sua decisão de construir uma unidade de fato entre os países da América do Sul contra a hegemonia destrutiva dos EUA, a Venezuela poderá representar um impulso decisivo para que a cooperação ultrapasse o terreno do comércio. Para que caminhe rumo à cooperação política, militar, econômica, cultural, educativa, tornando realidade projetos discutidos ou já elaborados, mas que carecem de uma decisão política para atuar com independência das pressões de Washington. A entrada da Venezuela já indica que pressões do Norte não são infalíveis, e também pode ser o estímulo para que o Mercosul enfrente os empecilhos colocados pelos sabotadores que não querem uma cooperação com autonomia da política externa da Casa Branca.

A Venezuela entrou oficialmente para o Mercosul, dia 4. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrava o fortalecimento da integração, o empresariado temia que o presidente venezuelano Hugo Chávez atrapalhesse seus negócios. Os movimentos sociais, animados, vão se mobilizar para unir as forças populares. Porém, o economista Reinaldo Gonçalves classifica acordos plurilaterais como um equívoco devido à vulnerabilidade e à dependência externa dos países latino-americanos. Pág. 7

Sociedade se manifesta sobre cotas Uns a favor, outros contra, intelectuais esquentam o debate sobre a reserva de vagas nas universidades para afro-descendentes. Ao classificar os brasileiros em raças, o Estado poderá possibilitar o acirramento do conflito e da intolerância, argumentam aqueles que são contrários às cotas. A questão racial é central na configuração da problemática social do país, por isso deve ser atacada tendo em vista políticas públicas que busquem a inclusão, justificam os defensores da ação afirmativa. Pág. 4


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