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Uma visão popular do Brasil e do mundo

Ano 4 • Número 176

R$ 2,00

São Paulo • De 13 a 19 de julho de 2006

Arquivo de Raúl Zibechi

www.brasildefato.com.br

Banco social a serviço das elites Organizações cobram do BNDES mais transparência e investimento na área social

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BOLÍVIA EM TRANSFORMAÇÃO

Os avanços sociais promovidos pelo presidente Evo Morales – nacionalização dos hidrocarburetos e reforma agrária – estão sustentados por movimentos populares, como as associações de moradores de El Alto, subúrbio da capital La Paz

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Os rumos do conflito no Oriente Médio A invasão militar israelense na Faixa de Gaza não apresenta sinais de recuo. Dia 11, tanques e tropas avançaram em direção à parte central de Gaza pela primeira vez desde que a operação “Chuva de Verão” teve início,

há duas semanas. Quanto mais se aproxima do dia 3 de agosto - data que uma tese matemática com base na Bíblia prevê um ataque nuclear a Jerusalém -, mais o conflito se acirra. Págs. 2 e 8

Transposição do S. Francisco em debate

Economia popular em feira internacional

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Venezuela dá novo fôlego ao Mercosul

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EDITORIAL

Do Caribe à Patagônia

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entrada oficial da Venezuela no Mercosul é sinal de que existem novas condições favoráveis para a integração sulamericana. A adesão tem vários significados, principalmente por demonstrar que as iniciativas dos Estados Unidos visando o isolamento da Venezuela e a satanização do presidente Hugo Chávez têm fracassado. O Mercosul teve sua primeira tentativa de organização com um tratado assinado entre Brasil e Argentina, em 1941 – cooperação torpedeada pelos efeitos do bombardeio de Pearl Harbour, que incrementou a Guerra Mundial e separou brasileiros e argentinos. Quando finalmente surgiu, 44 anos depois, ainda encontrou obstáculos, além da invariável e sistemática má vontade dos Estados Unidos. No caso, obstáculos internos: a era privativista de Collor e FHC no Brasil e de Menen, na Argentina, quando se priorizou, aqui e lá, a desnacionalização dos patrimônios públicos e a subordinação econômica aos conglomerados internacionais. Os tempos são outros, a começar pelas sacudidas, eleitorais ou não, que colocaram no poder homens como Lula, Kirchner, Chávez, amplamente favoráveis à integração sul-americana. A mídia controlada pelos anunciantes capitalistas, seja em São Paulo, Buenos Aires ou Caracas, repete a ladainha de que o Mercosul enfrenta uma crise que, com a entrada da Venezuela, tenderia a se ampliar. Raciocínio falso. A Venezuela pode não ter um mercado muito amplo, mas, em vez de ser ponto negativo, isso é exatamente o que confere valor à ampliação do Mercosul, agora ligando a Patagônia ao Caribe. Em primeiro lugar, assentam-se bases sólidas para uma cooperação mais dinâmica e concreta, dispensando a intermediação imposta pelos EUA – que, historicamente, sempre influíram na política dos países da América do Sul. Cria-se um eixo institucional entre Brasília-Caracas-Buenos Aires, fortalecendo iniciativas não apenas comerciais, mas também dos países do Mercosul no cenário internacional. Além disso, mesmo com as contradições das políticas ainda presas aos limites do neoliberalismo, que persistem em um ou outro país, a influência da políti-

Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi criado para melhorar a qualidade de vida da população. Os empréstimos que concede, entretanto, quase só beneficiam grandes empresas, muitas delas transnacionais. Algumas das beneficiárias, como é o caso da Aracruz Celulose, são denunciadas por movimentos sociais por terem ações prejudiciais ao ambiente. A corporação, que promove a monocultura de eucalipto, é responsável pela devastação de 250 mil hectares. Diante disso, algumas entidades da sociedade civil cobram uma democratização do acesso aos recursos do Banco, que desembolsou R$ 47 bilhões em 2005. O objetivo é repensar os rumos do desenvolvimento nacional e priorizar o investimento na área social, que caiu 29% entre 2000 e 2004. As organizações reivindicam que o atendimento preferencial do BNDES seja destinado aos que mais precisam do apoio do Estado: os mais pobres. Pág. 3

ca antiimperialista da Venezuela terá muito mais visibibilidade, mais credibilidade internacional e, sobretudo, desdobramentos concretos mais rápidos, especialmente a partir das iniciativas para a integração energética, por meio do Gasoduto do Sul e outras. A mídia amestrada pelo império pouco tem a dizer sobre isso. Como poderia afirmar que não há nada de concreto no terreno da integração quando o BNDES financia um gasoduto na Patagônia argentina, uma ponte sobre o rio venezuelano Orenoco, e uma estrada que praticamente liga o Atlântico ao Pacífico, atravessando o Peru? Há outras iniciativas de integração, também não comerciais, que devem ser lembradas: a criação da Escola Latino-Americana de Agroecologia, apoiada pelos governos do Paraná, da Venezuela e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, além da Universidade Federal do Paraná. Mais importante ainda são as iniciativas para uma integração baseada na solidariedade – Operação Milagre – que, com a adesão da Venezuela, poderá ser planejada e aplicada de modo mais sistemático e com a ampla participação dos governos e da sociedade, para salvar cidadãos da cegueira. A adesão da Venezuela ao Mercosul não resolve por si só as contradições e os limites de um tratado em que predominam óticas e valores do comércio. Mas, por sua política antiimperialista, por sua capacidade de investimento – sobretudo em obras de infra-estrutura – e por sua decisão de construir uma unidade de fato entre os países da América do Sul contra a hegemonia destrutiva dos EUA, a Venezuela poderá representar um impulso decisivo para que a cooperação ultrapasse o terreno do comércio. Para que caminhe rumo à cooperação política, militar, econômica, cultural, educativa, tornando realidade projetos discutidos ou já elaborados, mas que carecem de uma decisão política para atuar com independência das pressões de Washington. A entrada da Venezuela já indica que pressões do Norte não são infalíveis, e também pode ser o estímulo para que o Mercosul enfrente os empecilhos colocados pelos sabotadores que não querem uma cooperação com autonomia da política externa da Casa Branca.

A Venezuela entrou oficialmente para o Mercosul, dia 4. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrava o fortalecimento da integração, o empresariado temia que o presidente venezuelano Hugo Chávez atrapalhesse seus negócios. Os movimentos sociais, animados, vão se mobilizar para unir as forças populares. Porém, o economista Reinaldo Gonçalves classifica acordos plurilaterais como um equívoco devido à vulnerabilidade e à dependência externa dos países latino-americanos. Pág. 7

Sociedade se manifesta sobre cotas Uns a favor, outros contra, intelectuais esquentam o debate sobre a reserva de vagas nas universidades para afro-descendentes. Ao classificar os brasileiros em raças, o Estado poderá possibilitar o acirramento do conflito e da intolerância, argumentam aqueles que são contrários às cotas. A questão racial é central na configuração da problemática social do país, por isso deve ser atacada tendo em vista políticas públicas que busquem a inclusão, justificam os defensores da ação afirmativa. Pág. 4


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DEBATE

CRÔNICA

Copa do mundo e noosfera

Fora Israel, já! Osvaldo Coggiola Estado confessional de Israel lançou uma ofensiva que visa destruir as bases da existência independente da nação palestina. A ofensiva militar sionista é um ataque contra toda a população palestina. Israel pretende depor o governo eleito pelo povo palestino, do Hamas, com a conivência dos Estados Unidos e da União Européia. O ministro do Interior de Israel, Ronie Bar-On, disse à rádio pública israelense que “a mão de Israel vai chegar a Ismail Haniyeh”, referindo-se ao primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestina (ANP). O presidente da ANP, Mahmoud Abbas, classificou a incursão israelense nos territórios palestinos como “crime contra a humanidade”. O premiê palestino, Ismail Haniyeh, disse que as ações em Gaza não visam apenas resgatar o soldado Gilad Shalit, mas fazem parte de um “plano premeditado” para derrubar o governo do Hamas. Jamal Abu Samhadana, líder dos Comitês Populares de Resistência, foi morto em um campo de treinamento de militantes. Foi a primeira vez que Israel matou uma autoridade indicada pelo governo do Hamas, que assumiu o poder em março, depois da vitória eleitoral sobre o Fatah. Matando-o, enviaram uma mensagem: todos os membros do governo, do primeiro-ministro a funcionários subalternos, são alvos potenciais de assassinatos. Dependem dos salários pagos pela Autoridade Palestina 700 mil pessoas. Entre 120 mil e 167 mil novos funcionários foram contratados entre 2000 e 2006. De um orçamento de 1,8 bilhão de dólares em 2005, 790 milhões são provenientes de impostos alfandegários, que Israel tinha de transferir, mas cessou de fazê-lo, e 360 milhões de impostos internos. O resto é (ou era) “ajuda internacional”. A Autoridade Palestina

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tem 70 mil membros das forças de segurança, 40 mil professores e 9 mil profissionais da área médica. Alguns não são pagos há nove meses: não resta sequer um dólar no Ministério de Educação. A ajuda do mundo árabe e muçulmano não se concretiza por pressão, particularmente, dos EUA. Desde janeiro, a reação de Israel ao novo governo eleito palestino foi estender as suas operações militares na Faixa de Gaza e, finalmente, provocar, após seis meses de violência contínua, uma reação palestina. Uma ação militar de um grupo guerrilheiro palestino (seqüestrando o soldado) contra uma unidade militar do exército israelense foi respondida com um massacre geral da população palestina. Contra o seqüestro de um só soldado, as forças israelenses na Cisjordânia seqüestraram 65 líderes do Hamas, entre os quais 8 ministros de governo e 21 deputados. Ao todo, nove mil palestinos estão detidos em prisões israelenses. Dia 5 de julho tropas israelenses instalaram-se no Norte de Gaza e bombardearam o Ministério do Interior palestino. Ao mesmo tempo mantiveram fechada a passagem fronteiriça de Erez, provocando o isolamento de quase um milhão e meio de palestinos, sem luz elétrica. As tropas israelenses destruíram a infra-estrutura civil, como pontes e a principal usina geradora de energia, e com a colaboração da polícia egípcia deixaram a população impedida de sair da Faixa de Gaza. Aviões-caça sobrevoaram a residência do presidente sírio Bashar al-Assad em Damasco, a quem Israel acusa de dar proteção ao dirigente político do Hamas, Khaled Mesha, exilado na Síria. O governo israelense de Ekud Olmert ordenou o seqüestro de cerca de um terço dos ministros do governo da Autoridade Pales-

Leonardo Boff

tina, dirigido pelo Hamas, entre eles o vice-primeiro-ministro, o ministro de Finanças e o ministro do Trabalho, além de 30 membros parlamentares e funcionários, lançando um ataque com mísseis contra a oficina do primeiro ministro Ismail Haniyeh. O tiro israelense, no entanto, pode sair pela culatra. As divisões no campo palestino (Hamas vs. Fatah) começam a ser deixadas para trás. Segundo um membro das Brigadas dos Mártires del al-Aqsa (Fatah), as detenções conduzirão as organizações palestinas a reassumir sua política de ataques contra Israel. Uma campanha contra o genocídio palestino, contra o massacre israelense, pode aproveitar a fundo as contradições do cenário internacional para ter chances de sucesso, na medida em que se apóie em primeiro lugar na consciência internacionalista dos trabalhadores e dos povos do mundo. A hora é agora. Osvaldo Coggiola é historiador e professor da Universidade de São Paulo

No domingo, dia 9, quando ocorreu a final da copa mundial de futebol, seguramente de dois a três bilhões de pessoas estiveram assistindo ao jogo em suas telinhas de televisão. Esse fato pode ser considerado como um entre tantos espetáculos multitudinários como as exéquias da princesa Diana ou os solenes funerais do Papa João Paulo II. Essa visão, entretanto, é meramente empírica e não capta seu sentido profundo e novo. Está ocorrendo na história do planeta Terra, entendido como um superorganismo vivo, Gaia, e no fenômeno humano como um todo, uma singularidade que cabe ser conscientizada e aprofundada. Trata-se da emergência de uma nova fase do processo evolucionário que passou pela cosmogênese, irrompeu na biogênese, se desdobrou na antropogênese e que, agora, está dando outro salto para frente e para cima com a noogêse. Esta expressão, noogênese, criada no século XIX por Suess, assumida posteriormente pelo conhecido biólogo russo Vernadsky, um dos primeros formuladores da teoria de Gaia, foi difundida pelo geólogo, palentólogo e teólogo francês Pierre Teilhard de Chardin (+1955). Teilhard, profundo conhecedor do processo da evolução e atento observador dos fenômenos históricos, havia observado que a rede de comunicação mundial pela via da economia, dos meios de informação, das trocas culturais e do encontro entre os povos e as pessoas estava criando a base material para um salto novo no processo evolucionário. Não apenas se trocam coisas, bens materiais e espirituais, mas principalmente vai se acumulando uma nova energia espiritual e se gerando um novo estado de consciência, cada vez mais complexo e interiorizado nas mentes das pessoas e das instituições. Esse fenômeno foi qualificado por Teilhard de planetização e foi um dos primeiros a usar essa expressão. O que hoje se realiza, observava ele, é o prolongamento de algo muito ancestral que representa a progressiva complexificação da realidade que comporta simultaneamente um processo de interiorização e de crescimento de níveis de consciência reflexa. Depois do homem, a humanidade. É a fase atual em que emerge persistentemente a consciência de que formamos uma espécie, a humana, uma grande comunidade coletiva, a variegada família humana. No momento em que bilhões de pessoas estão assistindo ao jogo final da Copa, realizam-se trilhões de conexões neuronais nos cérebros das pessoas, unificadas ao redor do movimento de uma bola. Essa sintonia gera uma onda energética de extraordinária potência que modifica o estado da Terra e da humanidade. A noosfera constitui exatamente esse fenômeno, no qual corpo, mente e espírito formam uma síntese superior. A noosfera conhece duas fases, a planetização que forma a infraestrutura da comunicação global e a unanimização convergente que surge quando as pessoas se derem conta e viverem de fato esse estágio novo de sua história. Mas não é suficiente essa síntese, fruto das forças diretivas do universo. Ela precisa ser querida. As mentes e os corações necessitam se unir numa grande paixão e num incomensurável amor pela humanidade e pela Terra criando como que um cérebro de cérebros. Nessa perspectiva a crise mundial não é de desagregação mas de rearranjo dentro da nova fase da humanidade. A história da vida nos ensina a ter confiança no futuro, apesar de todas as tribulações do tempo presente. Talvez a Copa nos ajude a pensar sobre coisas assim graves. Leonardo Boff é teólogo e professor universitário. É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística. A maioria de sua obra está traduzida nos principais idiomas modernos

CARTAS DOS LEITORES INESCRUPULOSO O repatriamento de um milhão de dólares de depósitos do ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, no exterior, levanta uma curiosa pergunta: será que o seu então secretário mais próximo, Kassab, nada teve a ver com as operações do chefe? Segundo as próprias declarações de Kassab, em sua primeira eleição, ele tinha apenas algumas linhas telefônicas e um carro simples. Já na segunda eleição, seu patrimônio chegou perto de um milhão de reais, que ultrapassou folgadamente nesta última eleição. Ora, se as avaliações indicam que Pitta tem 60 milhões de dólares no exterior, temos que reconhecer que a evolução patrimonial declarada do seu braço direito foi bem menos audaciosa. Audacioso e, por que não dizer inescrupuloso mesmo foi o Serra ao aceitá-lo como vice. E o que é pior, lhe entregar a administração da maior cidade brasileira. Antônio Rodrigues de Souza São Paulo (SP) DERROTAR PARA AVANÇAR A derrota da aliança PSDB-PFL nas próximas eleições é tão importante para o avanço dos projetos de

redistribuição de renda do governo Lula quanto para o avanço e consolidação da democracia no Brasil. A aliança neoconservadora que governou o Brasil de 1964 até 2002, nos primeiros 20 anos sob forma de ditadura militar, e depois sob vários rótulos de partidos civis, precisa ficar longe das tetas do poder. Isso porque, depois da ditadura militar, vivemos sob uma plutocracia de banqueiros e capitalistas cujos braços partidários alimentam estruturas sustentadas apenas pelo dinheiro, sem qualquer militância real. Sem dinheiro fluindo do governo e das empresas, o PSDB e o PFL se tornarão partidos nanicos, dando lugar à consolidação de partidos cuja força provém da própria cidadania. Reny Barros Moreira São Paulo (SP) LEI E JUSTIÇA Como se não bastasse o fato de as leis serem criadas para favorecer ricos e prejudicar pobres, ainda temos de conviver com seguidos abusos de um poder, que deveria aplicar a lei com imparcialidade e justiça. O Judiciário, infelizmente, funciona não apenas corporativamente, mas de acordo com o poder econômico de cada um. Usa

dois pesos e duas medida. Prende, julga e condena um ladrão de galinhas com rapidez e rigidez. Em contrapartida, trata as elites com total protecionismo. Assim é com políticos e outros altos funcionários públicos, e com pessoas que têm muitos recursos. São pessoas que, mesmo condenadas, não cumprem prisão. E mesmo podendo fugir para o exterior, preferem ficar aqui, no país da impunidade institucionalizada. João C. da L. Gomes Porto Alegre (RS) GOVERNO DOS TRABALHADORES Depois de oito anos sem aumento, funcionalismo tem seus salários reajustados. Aposentados e pensionistas do INSS vão ter aumento de 5%, o que inclui aumento real de salário. Centrais sindicais aplaudem! Salário mínimo tem aumento histórico de 16,67% e dobra seu valor em dólar. Lula cumpre promessa de campanha! Domésticas finalmente são lembradas, pois o governo abate do Imposto de Renda o gasto com salário, o que representa um estímulo ao emprego no setor. Apesar de a mídia distorcer e desinformar, a verdade sempre vem a tona! Emanuel Cancella Por correio eletrônico

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Isa Gomes, Jorge Pereira Filho, Paulo Pereira Lima • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Igor Ojeda, João Alexandre Peschanski, Luís Brasilino, Marcelo Netto Rodrigues, Tatiana Merlino • Fotógrafos: Alícia Peres, Alderon Costa, Anderson Barbosa, César Viegas, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga, Gilberto Travesso, Jesus Carlos, João R. Ripper, João Zinclar, Leonardo Melgarejo, Luciney Martins, Maurício Scerni, Renato Stockler, Samuel Iavelberg, Ricardo Teles • Ilustradores: Kipper, Márcio Baraldi, Maringoni • Editor de Arte: Rodrigo Itoo • Pré Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Geraldo Martins de Azevedo Filho • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Silvio Sampaio • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Salvador José Soares • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Endereço: Al. Eduardo Prado, 342 - Campos Elíseos - CEP 01218-010 - Tel. (11) 2131-0800 - São Paulo/SP - redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: GZM Editorial e Gráfica S.A. Conselho Editorial: Alípio Freire • César Sanson • Frederico Santana Rick • Hamilton Octávio de Souza • José Arbex Jr. • Kenarik Boujikian Felippe • Leandro Spezia • Luiz Antonio Magalhães • Luiz Bassegio • Marcela Dias Moreira • Maria Luísa Mendonça • Mario Augusto Jakobskind • Milton Viário • Nalu Faria • Neuri Rosseto • Pedro Ivo Batista • Ricardo Gebrim

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NACIONAL OUTRO DESENVOLVIMENTO

Um banco estatal a serviço de quem? João Alexandre Peschanski da Redação

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esenvolver o Brasil é a justificativa de todos os governantes para suas ações. De direita ou de esquerda. Mas o que isso quer dizer? O desenvolvimento nacional é uma incógnita, um conjunto polifônico de idéias, muitas das quais contraditórias. É um debate, que se trava em toda a sociedade. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) carrega esse debate em seu nome. Mais do que isso, tem a difícil tarefa de transformar a polifonia do desenvolvimento em política de Estado. Criado em 1952, visa, de acordo com o texto que o apresenta em sua página na internet, levar à melhoria da competitividade da economia brasileira e elevar a qualidade de vida da população. Para tal, investe em diversas empresas e concede empréstimos a juros baixos. Em 2005, desembolsou R$ 47 bilhões – 17,5% a mais do que no ano anterior. O ativo total da instituição correspondia a R$ 163,9 bilhões, em 2004. Cifra superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de muitos países. Fundo de Amparo ao Trabalhador A principal fon(FAT) – Fundo púte do BNDES blico financiado por contribuições de é o Fundo de pessoas jurídicas e Amparo ao Tradestinado ao custeio balhador (FAT), do seguro-desemprego, do abono sa- responsável pelarial e ao financiamento de programas lo repasse de R$ de desenvolvimento 75,9 bilhões, em econômico. 2004. Os desembolsos, entretanto, não promovem o desenvolvimento do país e o bem-estar da população. Muitos dos beneficiados (veja a reportagem abaixo) são empresas denunciadas por organizações sociais por causar problemas à população pobre. É o caso da transnacional Aracruz Celulose. O BNDES financiou com R$ 1,45 bilhão a construção de nova fábrica de celulose no Sul da Bahia, cuja produção será destinada ao mercado externo. A monocul-

Ilustrações: Ricardo Soares / Rede Brasil

Organizações sociais cobram a reformulação do BNDES, hoje alinhado aos interesses de grandes empresas para discutir a atuação da instituição. O encontro, que terá a participação de representantes do Banco, vai ocorrer na sede do BNDES, na Av. República do Chile, 100, no Rio de Janeiro (RJ). Mais informações podem ser obtidas na página na internet: www.ibase.org.br.

REDESENHO INSTITUCIONAL

tura de eucalipto, promovida pela Aracruz, é responsável pela desertificação de 250 mil hectares, além de expulsar de suas terras famílias indígenas e quilombolas. A empresa, cuja matriz é Tribunal Permanente dos Povos norueguesa, foi (TPP) – Criado em julgada em um 1966 como forma de protesto para Tribunal Permadenunciar ações nente dos Povos antipopulares, é reconhecido pela (TPP), realizado Organização das em maio, na Nações Unidas, apesar de não ter Áustria. valor legal. Os critérios para a escolha dos beneficiários de empréstimos não são divulgados

pelo Banco. Entidades da sociedade civil, como a Rede Brasil, cobram Rede Brasil – Cria- mais transparênda em 1995, reúne cia da institui80 organizações ção. Fazem um que acompanham a ação de instituições lobby social, que financeiras naciotem dado resulnais e multilaterais. tados, de acordo com a avaliação de Luciana Badin, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Análises Sócio-Econômicas (Ibase), que integra a Rede Brasil. Desde agosto de 2005, as entidades se reúnem regularmente com representantes do BNDES. Foram criados dois grupos de trabalho

– um das organizações sociais; outro, interno – com o objetivo de divulgar informações sobre a política de investimento do Banco. Isso é um grande avanço, diz Luciana: “Antes, alegavam que não podiam passar os dados sobre empréstimos a empresas privadas em virtude do sigilo bancário. Há consenso, agora, de que operações aprovadas e registradas se tornam públicas”. As entidades organizam o seminário “O BNDES que temos e o que queremos – o papel do Banco no financiamento ao desenvolvimento nacional democrático”, no dia 13,

As organizações reivindicam que movimentos sociais tenham mais participação na definição das políticas de empréstimo do Banco. Para Luciana, não basta ser mais democrático na divulgação de informações, mas é preciso abrir espaços para debater o modelo de desenvolvimento aplicado pela instituição. “Fazemos um esforço de lobby social, para pressionar por investimento em ações que beneficiem de fato a população, não só um pequeno setor social, como é o das grandes empresas”, afirma a pesquisadora. Ela diz que é preciso “redesenhar” a instituição, para que movimentos e organizações sociais possam participar mais das decisões. Atualmente, o controle sobre as ações do Banco é altamente concentrado, de acordo com informações da cartilha O BNDES visto pela sociedade civil, produzido pela Rede Brasil. Vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a instituição tem uma cúpula de poucos participantes: dez membros, nomeados pelo presidente da República, cada um com um mandato de três anos. A cartilha pode ser encontrada na página na internet da Rede Brasil, na seção de publicações: www.rbrasil.org.br. “Projetos populares, como a realização de tecnologia agrícola popular, para um assentamento de semterra, não têm espaço no BNDES”, analisa Luciana. A falta de oportunidade desestimula as tentativas de pequenos agricultores de buscar empréstimos do Banco. Entre 2000 e 2004, os investimentos na área social caíram 29%. Entre 2002 e 2005, caíram em 80% as aplicações de recursos para microcrédito.

Para onde vai o dinheiro Os setores de indústria, infra-estrutura e agropecuária receberam, conjuntamente, 93% dos R$ 40 bilhões desembolsados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em 2004. Os repasses favoreceram principalmente grandes empresas, várias delas transnacionais. É a forma de atuar da instituição, revela Estela Scandola, da Rede Brasil: “Toda a área gerencial do banco está voltada para grandes empréstimos, para grandes empresas. Nem sabem como lidar com o auxílio pulverizado, destinado a pequenos produtores ou pequenas empresas. O ‘S’ do BNDES não diz nada. É tudo voltado para grandes empresas”. Em 2004, o repasse para políticas sociais, em educação e saúde, foi de R$ 290 milhões. Em 2005, a instituição destinou R$ 4,7 bilhões – 10% do total do ano – para transnacionais. O valor chega a R$ 11,9 bilhões, se forem somados os recursos liberados para apoio à exportação e os créditos a importadores. Os recursos foram destinados a transnacionais em setores como energia elétrica (Light, Elektro, AES Sul, Bandeirante Energia, TermoPernambuco, Eletropaulo, entre outras), telecomunicações (Tim Celular), agronegócio (Aracruz e Cargill), indústria automobilística (Ford, General Motors, Fiat, Renault e Volkswagen) e metalurgia mecânica (Belgo Mineira e Techint, entre outras), de acordo com a cartilha O BNDES visto pela sociedade civil, produzida pela Rede Brasil. “É melhor para o brasileiro que seu dinheiro vá para empresas estrangeiras ou nacionais?”, pergunta Estela. O Banco não divulga os critérios usados para os repasses, nem os resultados sociais e econômicos esperados pelas empresas que recebem os empréstimos. A pesquisadora da Rede Brasil acrescenta: “Até que ponto o dinheiro público, do BNDES, gerou mais empregos e melhorou a condição de vida da população? Não sabemos”.

IMPACTO REGIONAL O BNDES não tem uma política de distribuição regional dos recursos. Estes estão majoritariamente nas regiões Sudeste (53,4%) e Sul (21,8%). A concentração, segundo Estela, é reflexo da falta de preocupação social da direção do Banco no momento dos desembolsos. Quando há investimentos na região Norte, a menos favorecida (4,9%), estes são problemáticos. O BNDES estuda a construção de uma hidrelétrica no Rio Madeira, na Amazônia, com a qual pretende gastar mais de R$ 10 bilhões. O projeto tem como objetivo a melhoria da navegabilidade do rio, próximo a grandes plantações de soja, e a produção de 7.840 megawatts (MW). As 1.399 usinas elétricas brasileiras geram 98.352 MW. O problema, afirma Estela, é que a Amazônia é uma área ecológica de alta sensibilidade: “É preciso fazer estudos aprofundados do impacto ambiental e social de um projeto como esse. Isso não é levado a sério pelo Banco. Os resultados podem ser um agravamento da devastação da área”. Diversas organizações, entre as quais a Rede Brasil, redigiram e vão entregar uma carta ao presidente do BNDES, Demian Fiocca, pedindo para que reconsidere a construção da hidrelética. (JAP)

A VOLKSWAGEN, UM CASO EMBLEMÁTICO Cinco mil setecentas e setenta e três demissões até 2008. A transnacional alemã Volkswagen justifica o corte, anunciado em maio, pela perda de contratos de exportação. A montadora, que emprega 22 mil trabalhadores no Brasil, pretende ainda fechar uma de suas fábricas no país. A direção da empresa responsabiliza a política cambial brasileira pelas demissões. Mas faturou, no primeiro semestre deste ano, R$ 663,28 milhões – quatro vezes mais do que obteve no mesmo período, em 2005. A decisão da Volkswagen fere um contrato assinado com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que aprovou um empréstimo de R$ 497,1 milhões à montadora. A instituição estatal exigia, entre outras contrapartidas, que não houvesse demissões. Mas o corte foi mantido. Por isso, os deputados federais Ivan Valente (Psol-SP) e Dra. Clair (PT-PR) estão investigando o caso, dando eco a denúncias realizadas por trabalhadores. Realizam encontros entre sindicalistas, integrantes da direção da empresa e representantes do BNDES. De acordo com um informe repassado por sua assessoria de imprensa, Valente avalia que o impacto de demissões na Volkswagen se decuplica no mercado de trabalho, tornando-se um problema para todo o país. “Está na hora da empresa se explicar ao público”, comenta o deputado, para quem os representantes da montadora não deram explicações convincentes sobre as razões das demissões. (JAP)


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NACIONAL COTAS

Voto decisivo O Tribunal Superior Eleitoral informa que 125.913.479 brasileiros estão devidamente registrados para votar nas eleições gerais de outubro deste ano. Mais de 50% desses eleitores estão concentrados em cinco Estados: São Paulo (28 milhões), Minas Gerais (13,6 milhões), Rio de Janeiro (10,8 milhões), Bahia (9,1 milhões) e Rio Grande do Sul (7,7 milhões). É onde a eleição para presidente será decidida. Acordão eleitoral No vale-tudo das eleições gerais deste ano, o candidato Lula deve repetir em São Paulo esquema semelhante ao de Fernando Henrique Cardoso, em 1998, quando apoiou Mário Covas e Paulo Maluf ao mesmo tempo. Só que o atual presidente espera que um dos candidatos, Aloizio Mercadante, do PT-PCdoB, e Orestes Quércia, do PMDB-PP, consiga ir para o segundo turno contra José Serra, do PSDB-PFL. A história se repete. Nova proposta Nas disputas para os governos estaduais, a coligação dos partidos de esquerda - PSol, PSTU e PCB - conta com vários candidatos recém-saídos do PT, entre eles o ex-prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, no Pará, e o ex-deputado Plinio Arruda Sampaio, em São Paulo. O maior desafio dessa articulação não é bem o resultado nas urnas, mas construir uma alternativa organizada com fundamentação programática e base social. Quinta coluna Setores empresariais conservadores estão cada vez mais exaltados com as movimentações do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, na América Latina. Dias atrás, o diretor da Fiesp Roberto Giannetti, conhecido defensor da Alca e do imperialismo estadunidense, criticou duramente o ingresso da Venezuela no Mercosul, assim como o apoio de Chávez à Bolívia, ao Paraguai e à Argentina. Assim é a classe dominante no Brasil. Transferência oficial O sistema econômico-financeiro dispõe de vários mecanismos para favorecer o lucro do capital e concentrar renda nas classes dominantes. Um deles, por exemplo, tem a ver com as diversas taxas de juros dos empréstimos para pessoas físicas e empresas. Quem coloca o saldo bancário no negativo paga juro mensal de 8% a 10%, mas as empresas ligadas aos bancos conseguem empréstimos do BNDES com juros de 7,5% ao ano. É a transferência protegida pelo Banco Central. Disparidade regional Pesquisa patrocinada pelo Banco Mundial concluiu que os preços dos produtos consumidos pela população estavam - em 2005 - 14% mais caros no Brasil do que na média de dez países da América do Sul; e que a população brasileira consome 9,5% menos do que nos demais países. O povo brasileiro gasta mais em saúde, educação, habitação e transporte - ou seja, tudo aquilo que deveria ser bancado pelo Estado. Impunidade geral Em mais de cem anos de República, o Brasil nunca conseguiu impor para valer a seriedade na administração pública e no controle do dinheiro público. Isso nunca interessou de verdade aos partidos tradicionais e à máquina estatal controlada pelas classes dominantes. Tanto é que os Tribunais de Contas estaduais e o federal condenaram milhares de administradores, mas eles permanecem impunes e livres para fazer novas bandalheiras contra o povo. O que fazer? Tratamento desigual A imprensa empresarial brasileira repercutiu exageradamente a orquestração do imperialismo contra os mísseis que a Coréia do Norte lançou ao mar; mas tem tratado com desdém a bárbara invasão do território de Gaza pelo exército de Israel e o assassinato de crianças palestinas; da mesma forma, aborda discretamente o massacre de Haditha, no Iraque, onde as tropas dos Estados Unidos mataram covardemente 24 civis para se vingar da morte de um soldado. A indiferença é partidária e ideológica.

Intelectuais se posicionam – uns contra, outros a favor das reservas de vagas

elite de uma sociedade multi-étnica e multi-racial com uma história recente de escravismo e genocídio sistemático, parece uma reedição, no século 21, do imobilismo subjacente à Constituição da República de 1891: zerou, num toque de mágica, as desigualdades causadas por séculos de exclusão e racismo, e jogou para um futuro incerto o dia em que negros e índios poderão ter acesso eqüitativo à educação, às riquezas, aos bens e aos serviços acumulados pelo Estado brasileiro”, afirma o documento.

Dafne Melo da Redação

É

incerto se o Estatuto da Igualdade Racial (PL 3198/2000) e da Lei de Cotas (PL 73/ 1999) serão votados no Congresso Nacional ainda este ano. Enquanto o primeiro projeto de lei já foi aprovado pelo Senado, o segundo ainda aguarda a primeira votação na Câmara. Embora os presidentes das duas Casas tenham afirmado a representantes do movimento negro que as propostas seriam votadas e aprovadas, deputados federais têm se posicionado a favor do adiamento da votação para o ano que vem. Entre outras medidas, os PLs prevêem mecanismos que buscam promover a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, institui o sistema de cotas nas universidades públicas, facilita as condições de acesso dos negros à Justiça, estabelece mecanismos para acelerar o reconhecimento das terras ocupadas pelos remanescentes dos quilombos e determina a presença de ao menos 20% de atores e figurantes negros em programas e propagandas de TV. Além disso, institui um Fundo de Promoção da Igualdade Racial, para financiar as ações previstas no Estatuto. Alvo de polêmicas, a reserva de 20% de vagas para afro-descendentes em cargos do serviço público foi retirada da proposta original. Outro ponto polêmico é a obrigatoriedade de a população autodeclarar sua cor e raça na hora de tirar documentos.

MISÉRIA E COR

Debate sobre cotas divide a opinião de estudantes universitários

posicionava contra a aprovação dos PLs. Assinado por cerca de 115 intelectuais, o texto afirma que, ao dar respaldo legal para a classificação dos brasileiros em raças, o Estado poderá possibilitar o acirramento do conflito e da intolerância. A tônica do documento é que a prioridade do governo deveria ser a construção de serviços públicos universais de qualidade que resolvessem a questão da desigualdade social. Ronaldo Vainfas, professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e um dos signatários do documento, acredita que classificar a sociedade brasileira entre brancos e negros é “um completo non sense”. “O Brasil é mestiço desde o século 16. Não somos a África do Sul. Nunca fomos o que foram os Estados Unidos depois da Guerra Civil. O problema da igualdade não

MANIFESTOS O fato é que somente a tramitação dos dois projetos já foi necessária para iniciar um debate sobre o tema das políticas afirmativas entre intelectuais. No final de junho, um manifesto, intitulado “Todos têm direitos iguais na República Democrática” (veja a íntegra do manifesto na Agência Brasil de Fato, www.brasildefato.com.br), se

tem a ver com critérios raciais, de sorte que o papel do Estado deve se orientar, a meu ver, para a adoção de políticas redistributivas da renda e para forte investimento em educação fundamental. Isso para enfrentar o gravíssimo problema das desigualdades sociais”, justifica.

DEBATE Uma semana depois, foi a vez dos favoráveis às políticas afirmativas lançarem seu manifesto. Assinado por mais de 400 intelectuais e ativistas, além de diversos apoiadores, o texto – também entregue aos presidentes da Câmara e Senado – relembra acordos internacionais de combate ao racismo assinados pelo Brasil, destaca experiências positivas de ações afirmativas e rebate as críticas do primeiro manifesto. “Essa declaração de princípios universalistas, feita por integrantes da

Sueli Carneiro, diretora do Geledés Instituto da Mulher Negra e signatária do manifesto, acredita que condenar a implementação das políticas afirmativas em nome da luta por igualdades plenas é “sacrificar o real pelo ideal” e se configura como “uma tática de postergação” para o problema da desigualdade racial no país. Sueli acredita que, como a questão racial é central na configuração da problemática social do país, deve ser atacada tendo em vista políticas públicas que busquem a inclusão da parcela da população que, historicamente, foi mais segregada ao longo dos anos. A seu ver, essa configuração gerou uma hierarquização social que só pode ser corrigida a curto-médio prazo, com a interferência estatal por meio de políticas afirmativas. “O Brasil é branco em todas as dimensões de poder, prestígio e riqueza e abundantemente habitado por negros em seus bolsões de pobreza, miséria e indigência humana”, defende Sueli, para quem “as declaratórias republicanas, democráticas e igualitárias que prescindem desse reconhecimento conspiram pela preservação dessa hierarquia racial”. Para os contrários às cotas, as ações afirmativas jamais resolverão os problemas centrais da sociedade brasileira: desigualdade social e má distribuição de renda. Os mecanismos que geram ricos e pobres não serão atenuados. “[As ações afirmativas] não tocam, senão por essa metáfora racialista, nos problemas de desigualdade social no país”, defende o professor Vainfas.

SÃO FRANCISCO

Debate representa primeira vitória Gisele Barbieri de Brasília (DF) A sociedade civil conseguiu a primeira vitória, junto ao governo federal, no debate que definirá os rumos do projeto de transposição do Rio São Francisco. Foi realizada em Brasília, nos dias 6 e 7, a “Primeira Oficina de Trabalho sobre Desenvolvimento do Semi-Árido, Transposição e Revitalização do Rio São Francisco”. A oficina teve a participação de representantes de movimentos sociais, ambientais e governo. O bispo de Barra (BA), D. Luiz Flávio Cappio, que em outubro de 2005 fez uma greve de fome por 11 dias, em protesto contra a transposição, considerou fundamental o diálogo entre os setores, pela seriedade com que se desenvolveu: “Cada um disse o que pensa”. Entre outras propostas, os movimentos sociais querem ações como a recuperação da vegetação nativa e a construção de pequenos açudes para aumentar a capacidade de armazenamento de água. Na semana passada, o ministro da Integração Nacional, Pedro Brito, tentou frustrar esse debate, afirmando que esperava para o mês de agosto o julgamento, no Supremo Tribunal Federal (STF), da liminar contrária à integração da bacia do Rio São Francisco com outras bacias nordestinas. Com a derrubada

João Zinclar

Hamilton Octavio de Souza

Fotos: CMI

A sociedade se manifesta

Fatos em foco

Movimentos sociais querem a recuperação da vegetação nativa do rio

dessa liminar, as obras poderiam ter início. Para Luciano Silveira, integrante da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), um fórum de organizações da sociedade que abriga aproximadamente 700 entidades dos mais diversos segmentos, o governo abriu um debate importante. Ele afirmou, porém, que “é preciso muito mais que isso para que esse tipo de esforço se traduza em mudanças substânciais no rumo da política de desenvolvimento do semiárido brasileiro”. Luciano aponta que o projeto “acaba concentrando água, onde a água já está concentrada” e lembra também os impactos ambientais nos perímetros, como a

elevação do lençol freático, e outros problemas sociais.

REVISÃO DO PROJETO No governo federal, já é visível a compreensão de que o projeto tem problemas e de que há necessidade de dialogar com a sociedade. Mesmo afirmando que esses problemas são mínimos e inevitáveis, o representante da Casa Civil e coordenador do grupo de trabalho intergovernamental sobre o projeto de integração do Rio São Francisco com as bacias do Nordeste setentrional, Pedro Bertone, admite: “Por se tratar de uma integração de bacias, não pode ser discutida de forma tão técnica, como um projeto de engenharia”.

Ao final do evento, três grupos de trabalho foram definidos. As temáticas abordadas por eles serão a disponibilidade hídrica, a revitalização do Rio São Francisco e projetos de desenvolvimento no semi-árido. No entanto, as obras de transposição do Rio São Francisco esbarram em outros entraves. Devido às “irregularidades e distorções” constatadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama), no estudo e no relatório de impacto ambiental (EIA/Rima), entregues em 2004, pelo Ministério da Integração Nacional, o Ministério Público Federal (MPF) considerou improbidade administrativa a emissão da licença prévia que atesta a viabilidade das obras. A ação foi movida em maio pelo MPF, no Supremo Tribunal Federal(STF), contra o presidente do Ibama, Marcus Barros, e o diretor de Licenciamento e Qualidade Ambiental do órgão, Luiz Felippe Kunz Júnior. O ministério público pede a destituição das funções dos dois dirigentes do Ibama, a suspensão de seus direitos políticos, o pagamento de multa estipulada pela Justiça Federal e a proibição de assinarem contrato com o poder público em até cinco anos. O Ibama não acredita que tais informações impeçam a emissão da licença prévia.


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ECONOMIA SOLIDÁRIA

A capital internacional do cooperativismo

Daniel Cassol

NACIONAL

Santa Maria abrigou uma iniciativa de resgate do autêntico trabalho popular e familiar

A EXPERIÊNCIA DAS FAMÍLIAS Os relatos de experiências de trabalho cooperativo das famílias foram uma troca enriquecedora. A santamariense Maria Magdalena Dalcin disse que teve muitas dificuldades no início, mas hoje é grata pelos resultados. Sua maior alegria é “acordar de manhã cedo e poder dizer: vou trabalhar”. O envolvimento da família Dalcin com a economia solidária começou em 2001, com a produção de queijo, lingüiça, copas. Hoje, eles compartilham experiências com os demais trabalhadores da sua cooperativa. Vindas de Biguaçu, município próximo à Florianópolis, Jane Barth e Maria Cândida Martins representaram um grupo de 40 famílias de artesãos. “A maioria das famílias associadas vive só do artesanato. Participar desta feira é divulgar o nosso trabalho”, diz Jane. Foi com essa perspectiva que elas iniciaram o projeto de economia solidária em 1998: “Antes, o trabalho era individual e não avançávamos. Pela união, tudo fica mais fácil. A grande vantagem é que as pessoas se sentem úteis, a felicidade acontece em grupo”, declara Maria Cândida. O grupo catarinense também organiza oficinas e ensina artesanato à popu-

Encontro reuniu mais de 500 expositores de diversos Estados brasileiros e países latino-americanos

dando os primeiros passos. Apenas no ano passado organizamos a primeira feira de economia solidária no Uruguai”, finaliza. Na feira circulou a moeda social “Mate”. Com o objetivo de facilitar as trocas indiretas e permitir o

acesso para quem não tem dinheiro, mas produtos e serviços a oferecer a moeda social é a moeda da Rede Estadual de Trocas Solidárias do Rio Grande do Sul. A partir da aquisição da Mate, qualquer pessoa pode comprar os produtos da feira.

“Foi uma oportunidade de substituir a competição capitalista pela cooperação e solidariedade, pela troca de produtos, saberes e serviços, sem a utilização do dinheiro oficial”, garantem os coordenadores da iniciativa.

Propostas para o modelo econômico do país

Economia solidária atinge 41% dos municípios brasileiros

No final do mês de junho, aconteceu em Brasília a 1a. Conferência Nacional de Economia Solidária. No documento final, foram propostas estratégias e políticas de desenvolvimento para a economia solidária e seu fortalecimento como modelo econômico para o país. “Defendemos que o espaço de definição do governo sobre economia solidária esteja em outro patamar, não o de uma secretaria de terceiro escalão dentro do Ministério do Trabalho. Não vamos dizer se queremos uma secretaria ou um ministério, mas um novo governo deve elevar a economia solidária a um patamar superior. Ela não pode ser vista mais como ação compensatória ou assistencial, mas como uma política de desenvolvimento, abrangendo vários ministérios”, afirma Ademar Bertuci, do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES). O Ministério do Trabalho e Emprego está desenvolvendo o mapeamento nacional da economia solidária desde 2003. O número de empreendimentos econômicos solidários cadastrados chega 14.954, distribuídos em 2.274 municípios, o que corresponde a 41% dos municípios brasileiros. Desses empreendimentos, 44% estão na região Nordeste. A metade das iniciativas em economia solidária no Brasil pertence à área rural. (AR)

CULTURA

Cinema latino-americano em festa Maíra Kubík Mano de São Paulo (SP) Uma criação de porcos em que a sujeira dos animais passa também para os donos. Uma menina, aparentando 11 anos, é levada por sua irmã mais velha para se prostituir com o dono de um açougue no cais do porto. Uma mulher caminha pelo sertão com os dois filhos e o marido; quando param para descansar, ela mata o papagaio de estimação da família e assa. Retratos do cotidiano. Cenas que podem ser vistas no 1° Festival Cinema Latino-Americano de São Paulo, que acontece entre os dias 11 e 16, em cinco salas de cinema. “Nós, latino-americanos, temos um cinema muito parecido, sem ser igual. É parecido por ser criativo, inventivo na precariedade, por estar sobre um mesmo fundo social muito dramático e às vezes cômico”, diz Felipe Macedo, diretor do festival. O festival vai reunir17 países latino-americanos e 129 produções, entre documentários e ficção. Além da exibição gratuita dos filmes, o evento promove um ciclo de debates. “Nossa pretensão é que esse festival seja mais um elemento para aproximar os latino-americanos. Temos o mesmo problema: o nosso mercado é ocupado pelo cinema hollywoodiano e não conseguimos atingir o público. Mas nós podemos criar oportunidades de abrir espaço. Um dos aspectos que vamos discutir aqui é a distribuição

alternativa”, afirma Macedo. Para Orlando Senna, secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura, a idéia do festival também é interessante pelo momento político vivido na América Latina. Segundo ele, as recentes eleições de governos não conservadores influenciam o desenvolvimento do cinema: “A cinematografia está fadada a dar passos inovadores no momento imediato”.

ESCOLA CUBANA Outro ponto alto do festival é a homenagem aos 20 anos da Escola de Cinema e TV de San Antonio de los Baños, em Cuba. Resultado de um esforço conjunto de cineastas de toda a América Latina, hoje a

escola é um espaço de formação para 4.400 estudantes de 45 países. O festival exibe 22 curtas-metragens realizados pelos alunos da escola, que se intitulam “militantes da imagem”. O cineasta argentino Fernando Birri trouxe para o festival sua última produção, ZA 2005, o Velho e o Novo, que traz imagens de filmes da década de 1960 comparados com trabalhos dos alunos. Birri é considerado o pai do cinema novo latino, com o lançamento do documentário Tire Dié, de 1959, que retrata crianças que viviam de esmolas em Santa Fé, na Argentina. “Esse festival chega em um momento excepcional para a América Latina. Estamos vivendo o princí-

Divulgação

E

m um mundo marcado por altas e baixas nas bolsas de valores, guerras fiscais e “riscos econômicos” de toda natureza, produtores, comerciantes e consumidores da economia popular e solidária consideraram o evento que aconteceu entre os dias 7 e 9, em Santa Maria (RS), um “tratado contra a concorrência desleal do capitalismo”. O evento, que marcou o segundo ano da Feira de Economia Solidária do Mercosul, consolidou ainda os 13 anos da realização da Feira Estadual do Cooperativismo, os seis anos da Mostra da Biodiversidade e os cinco anos da Feira Nacional de Economia Solidária. Referência internacional na economia solidária, Santa Maria abriga, desde 1992, locais e regionais do gênero. Desta vez, o objetivo foi promover, divulgar e articular com os países do Mercosul as propostas de economia solidária, agricultura e agroindústria familiar, agroecologia, comercialização direta e autogestão dos empreendimentos solidários do Brasil. “No coração dessa iniciativa está o sonho de um novo mundo possível. A feira trabalha a metodologia do Fórum Social Mundial, com a diferença que aqui aplicamos o debate do Fórum na prática. Este, para nós, é o novo mundo possível. O cooperativismo é a força das famílias pobres e o que está no lastro do nosso trabalho é a solidariedade consciente”, afirma Irmã Lourdes Dill, uma das coordenadoras da feira. Durante a feira, as populações urbana, indígenas, quilombolas, movimentos sociais, catadores e camponeses que estiveram no Terminal de Comercialização Direta puderam ver, comprar e trocar experiências com mais de 500 expositores de diversos Estados e países latino-americanos que trouxeram artesanato, roupas, alimentos orgânicos, calçados, flores, sementes, entre outros. Teve destaque também o resgate da memória da liderança indígena Sepé Tiaraju, morto há 250 anos em São Gabriel (RS).

lação local. “Ensinar os outros não é tirar o trabalho, tem espaço para todos”, concordam as duas. A língua espanhola marcou presença na feira com 45 famílias uruguaias que há seis anos fazem artesanato em madeira, couro e lã, entre outros. “Trabalhamos em grupos, nos capacitamos cada vez mais e temos um fundo comum para as vendas. Essa é a garantia do trabalho popular e solidário”, declara Samanda Fenner. Segundo ela, a economia solidária ainda é bem inicial em seu país: “Não são comuns iniciativas como esta. A feira está nos ensinando muito, estamos

Daniel Cassol

Alexania Rossatto de Santa Maria (RS)

pio de algo que nem eu sei o que é. Somos unidos na diversidade e diversos na unidade”, disse Birri. Para o cineasta, o momento atual exige um balanço sobre os 50 anos do cinema novo: “Precisamos ver se existe diferença nas produções antigas e atuais, se elas se contradizem ou se são opostas”. O cineasta dedicou a mostra ao jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura brasileira em 1975. Birri também criticou o cinema vindo dos Estados Unidos: “O princípio de Hollywood é que a mentalidade do espectador é de uma criança entre 4 e 11 anos. Não por ser uma época de brilhantismo, descobertas e iniciativas da vida. Eles consideram o público como incapaz de compreender o mundo”.

SALAS DE EXIBIÇÃO As apresentações terão entrada franca. Veja a programação completa em www.festlatinosp.com.br Memorial da América Latina Av. Auro S. de Moura Andrade, 664 - Barra Funda (11) 3823-4600 Cinesesc R. Augusta, 2075 Cerqueira César (11) 3082-0213 Sala Cinemateca Lgo. Senador Raul Cardoso, 207 Vila Mariana (11) 5084-2177 João Batista de Andrade, autor do documentário Vlado: 30 anos depois


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AMÉRICA LATINA BOLÍVIA Arquivo de Raúl Zibechi

Trabalhadores e moradores de El Alto, no subúrbio da capital boliviana La Paz, realizam assembléias para definir os rumos da comunidade, cuja organização é autônoma

Comunidade, máquina social da mudança Em El Alto, subúrbio pobre da capital La Paz, moradores se organizam por transformações radicais no país Marco Fernandes de Montevidéu (Uruguai)

O

Movimento ao Socialismo (MAS), do presidente Evo Morales, venceu as eleições para a Assembléia Constituinte da Bolívia, dia 2. A vitória, conquistada após o decreto de nacionalização dos hidrocarburetos, vai impulsionar transformações de base no país, um dos mais pobres do continente. Já foi anunciada uma lei de reforma agrária. A força de Morales, mais do que a ousadia de suas medidas políticas, depende dos movimentos populares. É o que afirma o jornalista uruguaio Raúl Zibechi: “O MAS não é um partido, mas um conjunto de movimentos sociais coordenados”. Ele foi entrevistado por Marco Fernandes, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que enviou o material para publicação no Brasil de Fato. Na entrevista, Zibechi narra suas observações, base do livro Dispersar o poder, sobre a organização urbana da base de Morales, principalmente em El Alto. Os habitantes dessa área se organizam de modo comunitário, criando um Estado paralelo, determinado por relações de lealdade e companheirismo. É o sustento do projeto de transformação, em curso na Bolívia. Brasil de Fato – O primeiro capítulo do seu livro sobre a Bolívia se intitula “A comunidade como máquina social”. O que isso quer dizer? Raúl Zibechi – O que eu vi na Bolívia, em Chiapas, nos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nos piqueteros argentinos, nos movimentos fortes, é que a base sobre a qual se apóia o movimento é a comunidade. Por que a “comunidade como máquina”? Porque a comunidade tem alguns mecanismos, algumas formas, que podem ser aplicáveis no campo ou na cidade. São os vínculos cara a cara, vínculos de cooperação – os andinos dizem de reciprocidade. Na Bolívia me interessou muito, mas muito, o que se passa na cidade de El Alto. O que geralmente acontece no campo é muito bonito, mas não somos capazes de aplicá-lo na cidade. E eu não creio que deva ser assim! Por isso, me interessou muito o aspecto de uma cidade jovem, criada pela gente, e não pelo Estado ou pelo capital. E para criar essa cidade se organizaram comunitariamente, ou seja, a comunidade também pode ser urbana. Creio que alguns sindicatos, em alguns momentos, funcionaram como comunidades, ou tiveram aspectos de comunidade. BF – Como se desenvolveu o processo de formação dessas “máquinas comunitárias” em El Alto? Zibechi – El Alto está no Altiplano, a 4.000 metros. Há um vale – que eles chamam “panelada” –, onde está La Paz, a 3.800, 3.600 metros. Nas partes mais baixas, vive a burguesia, e, à medida que se vai subindo, vivem os mais pobres. Na revolução de 1952, El Alto era uma parada de trem, antes de descer a La Paz, e tinha 10 mil habitantes. Hoje tem 750 mil. Até 1975, havia entre 200 mil e 300 mil habitantes, mas, a partir do decreto de privatização das minas (e do fechamento de muitas delas), em

1985, há uma avalanche quando começam a chegar milhares de pessoas por dia. Há um crescimento que pode ser de 20 mil a 50 mil pessoas por ano. Só que, até os anos 1990, El Alto não era um município, mas um distrito de La Paz, então ninguém dava bola para eles lá em cima. Por isso, tudo que conseguiram foi com luta: um sistema de segurança para que a polícia não os roubasse; o transporte, porque há 20 anos levavam muitas horas para ir até La Paz; as ruas, a praça de esportes, até a universidade. A prefeitura lhes dava pedras para as ruas, mas construir a rua, pôr as pedras, isso tinha de ser feito pela comunidade, quer dizer, o bairro. E faziam na base do trabalho comunitário, que se chama rotação. Há dois mecanismos: o ayni, que é o trabalho solidário, e a rotação, que é por famílias. Hoje, esse grupo de famílias vai trabalhar para fazer a rua, amanhã outro grupo etc. De modo que a família trabalha uma vez por semana, ou a cada 15 dias, mas se mantém o trabalho coletivo. Não é todo mundo trabalhando ao mesmo tempo, é a rotação, porque se tem de comer, de cultivar, de viver. Isso foi um processo de 20, 30 anos, de intensa construção de uma cidade.

Cada associação de moradores é um Estado. Então não há um Estado, mas 550. Pode haver trapaça, corrupção, mas é muito mais difícil corromper 550 coletivos BF – Isso influenciou o processo político? Zibechi – O mecanismos de rotação, da ajuda, do ayni, eles utilizam na luta também. Quando há um bloqueio de estrada, por exemplo, o bloqueio se mantém por um mês, mas você não pode ficar um mês ali, então também funciona por turnos, é um tema ancestral dos indígenas. Há 50 famílias que bloqueiam hoje, da manhã até a meia-noite, aí vêm as famílias inteiras com sua comida, ou deixam um ou dois em casa para cuidar das cabras, das ovelhas. Amanhã vêm outras 50, e depois mais 50, daí se mantém o bloqueio por muito tempo. Por isso digo que as comunidades são como máquinas, porque a rotação é como uma máquina perfeita, um relógio. É claro, tem que ter muita gente. BF – Existem organizações, ou instituições, que garantem a mobilização e a participação da população da cidade? Zibechi – Os bairros que foram se formando se organizaram em assembléias, em juntas vecinales (associações de vizinhos). A participação não é voluntária, é obrigatória. Porque, dizem, “a terra não

foi ocupada pela tua família, nós a ocupamos coletivamente”. As ruas se fazem coletivamente, e as demandas se fazem coletivamente, tudo se faz coletivamente. Não é que dos 800 mil, somente 20 mil lutam. Não! Todos lutam. Então, se eu não posso ir à assembléia, ou ao bloqueio, vai alguém da família; e se não vai ninguém, paga multa, que muitas vezes é simbólica, mas implica algo mais forte que o dinheiro, que é o reconhecimento dos outros. Se você não participa, não te reconhecem. Isso não quer dizer que as juntas não tenham problemas. De corrupção, de caudilhismo. Em El Alto, há 550 juntas, agrupadas na Federción de Juntas Vecinales (Fejuve), que as reúne todas. Agora, se você dividir 750 mil por 550, dá pouco mais de mil habitantes por junta. É como um assentamento do MST, as pessoas se conhecem, fica mais fácil organizar. Então, se alguém vê o mapa de El Alto, é como um quebra-cabeças, parecido com uma favela carioca ou paulistana, porque são grupos pequenos, mas muito numerosos, então o controle territorial é muito forte, e é isso que tem dado força à luta de El Alto. BF – Quando foi fundada a Fejuve? Zibechi – A Fejuve foi fundada por volta de 1978, 1979. Há uma grande tradição de juntas vecinales na Bolívia, mas a de El Alto é uma federação muito particular, muito combativa, e que tem muita força, porque, além de tudo, pode parar La Paz, pode derrubar um governo. Durante os anos de 1990, ela esteve muito subordinada ao Partido Consciência da Pátria (Condepa), que mantinha um controle clientelista sobre a maioria das juntas. Hoje, as juntas têm mais autonomia, mas essa é uma luta diária. A estrutura da Fejuve é assim: são nove distritos que têm entre 50 e 80 juntas cada um. As juntas se reúnem em cada distrito, aonde vão os presidentes ou os vice-presidentes. Depois há a reunião da federação, que se chama ampliada, aonde vão todos os presidentes. É onde se decidem as coisas importantes. Normalmente, iam somente os homens, os presidentes, ou seja, era muito patriarcal; mas agora estão indo mulheres e jovens. BF – Deve haver disputas internas pela hegemonia da Federação... Zibechi – Há disputas e divisões, há um setor que está com o MAS, outros que não. Existem as Comissões Diretivas, que muitas vezes se “vendem”, se subordinam a um partido. É preciso entender que, quando dizemos que se “vendem”, é porque se no teu bairro não há luz, e um partido diz: “vem comigo, que eu te dou a luz”, é meio difícil dizer não. BF – Como funciona a economia em El Alto? Zibechi – Oitenta e cinco por cento da economia de El Alto é informal. A principal atividade, sobretudo das mulheres, é

Raúl Zibechi é jornalista e editor internacional do semanário uruguaio Brecha (fundado, entre outros, por Eduardo Galeano). Acompanha diversos movimentos populares da América Latina, contribuindo com suas reflexões em livros como Los arroyos cuando bajan (1995, sobre os zapatistas), Genealogia de la revuelta (2003, sobre os movimentos sociais argentinos), Dispersar o poder (2006, sobre os movimentos populares bolivianos), entre outros.

Quem é

a venda na rua, de mercadorias também produzidas informalmente: 80% da indústria manufatureira ou é familiar, ou é de microempresas, com menos de quatro empregados – o dono, sua esposa, seu filho e um ou dois empregados, que ganham muito pouco, às vezes são até muito explorados. A chamada economia informal tem mais força em El Alto, em toda a zona aymara, e em parte da zona quéchua, do que a formal. O mercado de domingo, em El Alto, tem 40 mil postos de venda. Se você quer comprar um sapato em La Paz, é difícil. Somente as pessoas muito ricas, 3%, vão a uma loja. Todos os outros, da classe média aos setores populares, vão ao mercado de El Alto, porque é onde estão os sapatos mais baratos e os melhores. Tudo contrabando ou produção informal. Isso é importante para considerar que se trata de uma economia que tem a ver com o capitalismo, porque está em um mercado capitalista, mas há também uma parte da economia, e isso é importante, que é controlada por eles. A organização do trabalho, os tempos de trabalho, os preços, os lugares onde se vende, são determinados pelas próprias famílias, e não por grandes proprietários ou patrões. Evidentemente, há uma determinada subordinação ao mercado capitalista, mas há toda uma parte fora do controle do capital. BF – Você poderia dar outros exemplos dessa autonomia relativa? Zibechi – Em El Alto, por exemplo, todas as famílias têm parentes nas comunidades rurais. Quando há bloqueios, os alimentos chegam a El Alto por essas redes familiares. Ou então, os armazéns estão fechados porque a junta vecinal decidiu que todos vão parar nos próximos dias. Aí, bom, na primeira semana, faltam alguns alimentos; a junta vai lá e diz para o dono do armazém: “abra, mas só venda um quilo de arroz a cada família”, porque senão chega o primeiro, compra 50 quilos de arroz e os outros morrem de fome. A junta é uma autoridade no bairro. BF – Como se fosse um Estado regulador? Zibechi – Cada junta é um Estado. Então não há um Estado, mas 550. Pode haver trapaça, corrupção, mas é muito mais difícil corromper 550 do que um somente. Outro exemplo interessante: a questão da água em Santa Cruz, a cidade mais rica da Bolívia. Na zona Sul, não há serviço público de água, são 300 mil pessoas sem água. Então o que as pessoas fizeram? Juntaram-se em grupos de mais ou menos cem famílias, arrecadaram dinheiro, se organizaram e fizeram os poços e a rede de distribuição de água. E hoje há 120 poços comunitários para os 300 mil habitantes da zona Sul de Santa Cruz, e já não querem mais que venha o Estado. Não! A comunidade controla todo o sistema e se organiza em torno da distribuição da água. Há um modelo capitalista que é: acha-se uma fonte e constrói-se um cano grosso, com um poder que regula e depois distribui. Quando o senhor do poder quer, ele fecha o registro e não há mais água! Esse é o modelo centralista, estatista, capitalista, de distribuição de água, de luz, de tudo. Os movimentos também podem dar suas próprias respostas.


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INTEGRAÇÃO

Incertezas rondam aposta no Mercosul

Ricardo Stuckert/PR

AMÉRICA LATINA

Ingresso da Venezuela fortalece um bloco instável e com uma tarefa árdua pela frente: resistir aos Estados Unidos

P

IMPERIALISMO Na visão de Roberto Baggio, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o fortalecimento do Mercosul faz parte de um processo de construção de alianças entre os países progressistas do continente com vistas a resistir à influência dos Estados Unidos e de grandes empresas transnacionais. “Nos últimos oito anos, esse processo está em ebulição, produzindo maior politização nas pessoas. Enfim, há uma elevação cultural, política e de consciência que ajuda na criação de uma unidade ampla que identifique no imperialismo o grande inimigo do continente e da humanidade”, analisa Baggio. Ele explica que esses interesses promovem uma ofensiva no continente para controlar a biodiversidade, as águas, as sementes. Assim, estimulam a monocultura da soja espalhando organismos transgênicos, compram grandes extensões de terra para plantar árvores comerciais como o eucalipto, procuram assumir o controle da água colocando bases sobre o Aqüífero

Para Lula, acontecimento concretiza sonho de milhões de latino-americanos

Guarani, e também defendem um projeto para criar uma infraestrutura produtiva que facilite a integração de capitais, por meio do livre-comércio.

ELEIÇÕES NO MÉXICO

FRAGILIDADE O economista Reinaldo Gonçalves, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), classifica como perda de tempo os esforços para a construção do Mercosul. “O Brasil não tem capacidade nem para liderar a si próprio. No máximo, ele pode se tornar um sargento bêbado de um exército de Brancaleone”, ironiza. Gonçalves explica que o Mercosul não tem como se viabilizar pois os países da América do Sul são muito diferentes uns dos outros e porque o Brasil, que deveria atuar como líder do bloco, não tem força para tanto. Sendo assim, o país que atravessar uma crise econômica não vai buscar socorro no Mercosul, mas sim nos Estados Unidos ou no Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo. A vulnerabilidade e a dependência externa dos países latino-americanos tornam essa integração instável. “A soma de dois fracos não dá um forte”, resume o professor da UFRJ. A alternativa é o Brasil investir em acordos bilaterais com os países da América Latina e paralelamente reduzir sua vulnerabilidade externa, fortalecendo a economia. “Aí sim, daqui duas ou três décadas o país poderia tentar assumir um papel de protagonista”, indica Gonçalves. (Com informações da Agência Brasil)

Bush dá o tom ao governo de Calderón Salvador del Río Cidade do México (México)

Ricardo Stuckert/PR

ela primeira vez desde a sua criação, em 1991, o Mercado Comum do Sul ganha um novo membro pleno. No dia 4, a Venezuela se juntou aos países fundadores do grupo (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) em cerimônia realizada na sua capital, Caracas, com a presença dos presidentes das cinco nações, além do convidado Evo Morales, da Bolívia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrou o acontecimento como “a concretização de um sonho de milhões de latino-americanos, que um dia sonharam que era possível fazer a integração”. Lula também enalteceu o fortalecimento do grupo com o ingresso da Venezuela. “(Os presidentes que nos antecederam) acreditavam na velha política de privilegiar os Estados Unidos e a Europa e virar as costas para nós mesmos. Tivemos que enfrentar barreiras ideológicas e comerciais. Hoje estamos aqui para dizer que não queremos briga com ninguém. Antes de tudo, descobrimos que somos irmãos e parceiros no Mercosul”, discursou o presidente. De fato, o conglomerado atinge cifras relevantes no cenário sulamericano. A população total passa a ser de 250 milhões de habitantes, a área total de 12,7 milhões de quilômetros e o produto interno bruto de um trilhão de dólares (76% da América do Sul). Além disso, a Venezuela é o quinto maior exportador mundial de petróleo, o insumo mais valorizado dos dias de hoje – o barril custava 45 dólares em 2004 e hoje ultrapassa os 75 dólares. Por sua vez, o empresariado vê com reservas a entrada da Venezuela no bloco. A Confederação Na-

cional da Indústria (CNI) elaborou boletim no qual alerta para a possibilidade das “posições” do presidente venezuelano Hugo Chávez atrapalharem a construção de agendas de negociação com os Estados Unidos e a União Européia. Já a preocupação dos industriais venezuelanos se concentra na assimetria entre as economias do Mercosul – a brasileira é mais de dez vezes maior. Em entrevista ao jornal El Universal, de Caracas, Silvano Gelleni, diretor de Confederação da Indústria Venezuelana (Conindustria), reclamou também de Chávez não tê-los consultado para assinar o termo de adesão ao bloco.

El Confidential

Luís Brasilino da Redação

Assim que o Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação – instância máxima para qualificar a eleição presidencial – recebeu as impugnações da Coalisão pelo Bem de Todos referentes aos comícios do dia 2, o governo do presidente estadunidense George W. Bush fez uma séria advertência ao candidato aparentemente vencedor nas contagens preliminares, Felipe Calderón, a quem havia manifestado seu indevido reconhecimento: o chefe da Casa Branca poderia reconsiderar sua posição se houver um ajuste nos resultados. A declaração do porta-voz de Bush, Toni Snow, algumas horas depois do início do processo para análise das reclamações da coalisão, que sustenta a candidatura de Andrés Manuel López Obrador, constitui uma clara manifestação da postura de sumo juiz da política mexicana e confirma sua pretensão de inserir-se nos assuntos internos dos países latino-americanos que o permitam. A sinalização de uma possível mudança no possível reconhecimento de Bush é, no fundo, uma admoestação a Calderón por opiniões que este havia manifestado contra medidas do governo de Washington para intensificar a vigilância na fronteira com o México, a fim de limitar a passagem de trabalhadores sem documentos para o território dos EUA. “Calderón não tinha nenhuma autoridade oficial para julgar as atividades do governo dos Estados Unidos”, disse Snow. López Obrador, o candidato da coalisão esquerdista integrado pelos partidos Revolução Democrática, Convergência e do Trabalho, assim como muitos setores políticos, criticaram a proclamação da vitória de Calderón antes do término do processo eleitoral – que deverá culminar com a decisão, até 6 de agosto, do Tribunal Federal. A Coalisão pelo Bem de Todos apresentou impugnações sobre irregularidades em cerca de 50 mil das 130 mil urnas de votação. As inconsistências nas atas de votação e nos dados antecipados pelo Instituto Federal Eleitoral no programa de contagem rápida que se seguiu à eleição e na recontagem dos 300 distritos, configuram atos que justificam a recontagem dos votos de mais de 41 milhões de cédulas, segundo reivindicam o candidato da Coalisão e seus apoiadores. A posição apontada pelo porta-voz da Casa Branca é considerada, assim, como uma advertência a Calderón sobre o que será a relação com Washington caso ele se torne presidente do México: não serão permitidas críticas às políticas migratórias, rigidez que, subentende-se, constitui uma determinação de obter a plena subordinação em outros importantes assuntos bilaterais.

VELHAS TÉCNICAS Evo Morales, presente na cerimônia, declarou intenção de integrar a Bolívia ao bloco

Bloco pode assinar acordo com Israel É difícil entender as razões que movem os presidentes da América do Sul. Poucos dias depois da cerimônia que oficializou a entrada da Venezuela no Mercosul, veio a público a notícia de que o bloco está na iminência de assinar um acordo comercial com Israel. A diferença entre os dois países é gritante. Enquanto Hugo Chávez acusa o governo dos Estados Unidos de tentar matá-lo e dá declarações de apoio à Palestina, Israel promove uma ofensiva militar contra a população palestina e recebe, há décadas, suporte material estadunidense.

Osvaldo Coggiola, professor de história da Universidade de São Paulo, destaca em artigo que, diante dos números, o Tratado de Livre Comércio parece mais político do que comercial. Segundo o analista, em 2003, as exportações do Mercosul para Israel foram de 330 milhões de dólares (0,2% do total), sendo Israel o 43º destino dos produtos do bloco. “O Tratado, portanto, não tem nada de comercial e daria ao Estado de Israel força diplomática e política, em momentos em que a Corte Internacional de Justiça declarou ilegal o muro que constrói”, escreve Coggiola. (LB)

Diante da declaração da vitória do direitista Calderón, o México se dividirá em duas porções não precisamente ideológicas: os que acreditam na lisura das eleições e os que suspeitam de uma grande fraude eleitoral, de difícil comprovação na revisão de votos, mas muito mais profunda – o seqüestro a que a sociedade foi submetida para induzir o sufrágio em favor do Partido Ação Nacional, com a participação de toda a máquina oficial, midiática e financeira, cujo objetivo foi impedir o crescimento da corrente de centro-esquerda. O resultado das eleições poderia demonstrar como a direita mexicana não apenas aprendeu as velhas técnicas de escamoteamento de votos que foram especialidade do Partido Revolucionário Institucional, seu aparente inimigo durante seis décadas, e foi capaz de colocá-las em prática com os elementos da moderna tecnologia, como agregou elementos de convencimento e indução massiva. Com o apoio do discurso oficial, a aplicação de recursos e uma bem planejada campanha, a direita levou adiante cada um dos passos do que alguns experts em informática começam a definir como os passos programados de um algorítmo estabelecido com muita antecipação, que incluiu propaganda e manipulação no processo de registro e contabilidade do sufrágio. (La Jornada, www.jornada.unam.mx)


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INTERNACIONAL João Alexandre Peschanski

ORIENTE MÉDIO

Um conflito anunciado Tese matemática com base na Bíblia prevê ataque nuclear a Israel Marcelo Netto Rodrigues da Redação

A

s primeiras páginas dos jornais de 4 de agosto de 2006 estariam reservadas, há 3.200 anos, a uma notícia que seria decorrência da morte de um primeiroministro israelense ou palestino. A manchete sobre o acontecido no dia anterior: “Jerusalém é alvo de ataque nuclear” teria sido escrita no momento em que Deus, segundo a tradição judaico-cristã, ditou os primeiros cinco livros da Bíblia a Moisés. A previsão para o dia 3 de agosto (o 9º dia de Av de 5766, no calendário judaico) parece ganhar contornos mais reais com a onda de violência que se iniciou no dia 25 de junho na Faixa de Gaza, depois do seqüestro do soldado israelense Gilad Shalit e das subseqüentes declarações do ministro do Interior de Israel de que “a mão de Israel vai chegar a Ismael Haniyeh”, referindo-se ao primeiroministro da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Descrita no livro O Código da Bíblia, publicado há nove anos, a previsão é apenas uma entre outras “revelações científicas” que teriam permanecido ocultas aos olhos humanos até que a invenção do computador possibilitasse infindáveis combinações matemáticas com as 304.805 letras que compõem o Gênesis, o Êxodo, o Levítico, o Números e o Deuteronômio – que, juntos, são chamados de Torá, pelos judeus, e de Pentateuco, pelos cristãos (veja no quadro como o código funciona). Descoberto no início dos anos de 1990 por Eliyahu Rips, um professor de matemática da Universidade Hebraica de Jerusalém, o código ganhou divulgação em 1997, com o livro publicado pelo repórter estadunidense Michael Drosnin, que já trabalhou no Washington Post e no Wall Street Journal. Desde então, tem sido estudado por funcionários do Pentágono, integrantes do Ministério da Defesa de Israel e representantes palestinos – o autor chegou a ser recebido, no final dos anos de 1990, entre outros, por Yasser Arafat e pelo general Danny Yatom, chefe do Mossad, o serviço secreto de Israel.

SÍRIA E ARIEL Se o código é verdadeiro ou não, o fato é que a escalada de violência na Faixa de Gaza trouxe para os noticiários, nesses últimos dias, os nomes da Síria e do seu presidente, Bashar al-Assad – dois nomes que aparecem juntos no código, seguidos das palavras “9 de Av é o dia da terceira”, “a próxima guerra mundial será após a morte do primeiroministro”, “holocausto atômico”, “anexados” (territórios) e “Armagedon, holocausto de Assad”. Assad – que no dia 28 de junho viu caças israelenses invadirem o espaço aéreo de seu país e sobrevoarem sua residência de verão – reapareceu nos jornais acusado por Israel de dar proteção a Khaled Mashaal, líder do movimento islâmico Hamas, refugiado há anos em Damasco, e que, segundo o governo israelense, teria ordenado o seqüestro do soldado. A forma com que o soldado foi capturado – por um túnel – também aparece codificada no texto bíblico como o início de tudo. “Túnel” cruza “Holocausto de Israel”, seguido da frase “Ramallah cumpriu uma profecia”. Por ironia, essa é a cidade onde um colono de 18 anos, que havia sido seqüestrado no mesmo dia em que o soldado, acabou sendo morto pelos palestinos, no dia 29 de junho.

Criança palestina, em Beit Leqia, na Cisjordânia, em frente a um painel com dizeres escritos em árabe pelo grupo islâmico Hamas; de acordo com o código da Bíblia, a luta pelos territórios ocupados alimentada pela disputa religiosa entre israelenses e palestinos levará a um ataque nuclear contra Jerusalém

PAÍSES VIZINHOS DE ISRAEL E PALESTINA

O nome “Ariel” também aparece no código. Mas, mais do que ser uma pista que leve ao nome do ex-ministro israelense Ariel Sharon – em coma desde o início do ano –, Ariel se encaixa melhor como uma menção ao antigo nome pelo qual a cidade de Jerusalém é chamada com advertência na Bíblia. “Ai de ti, Ariel! Que será reduzida a pó”. O “pó”, de acordo com o código, seria o que restaria da cidade depois que a capital fosse atingida por uma bomba nuclear – hoje possível de ser carregada por um homem forte, dentro de uma mochila – lançada dos ombros de um “terrorista” ou por algum míssil. A possibilidade é remota, mas não deixa de ser verossímel. No dia 4 de julho, três mísseis de fabricação caseira, construídos por palestinos, percorreram 12 quilômetros e atingiram o território de Israel – foi o primeiro ataque desse tipo. Para incrementar a imaginação, por fim, Drosnin ainda relembra que “Armagedon” – na Bíblia, considerado o grande dia da batalha final – é um lugar real. É o nome, em hebraico, de uma cidade israelense chamada “Monte Megiddo”, que fica no Norte do país, de face para a Síria, e que abriga uma das mais importantes bases da Força Aérea de Israel: Ramat David. A localização é privilegiada, considerando-se que, de acordo com uma passagem bíblica, a ameaça de uma invasão ao Estado de Israel surgiria do Norte: “Virás de teu país nos confins do Norte, seguido por muitas nações, uma grande horda, um poderoso exército”, reunindo “Gog” e “Magog” para o combate. No mundo moderno, o único inimigo ao norte de Israel é a Síria, que tem como aliados históricos “Pérsia” e “Phut”, países que hoje se chamam Irã e Líbia. Irã, diga-se de passagem, país cujo presidente

ameaçou recentemente “apagar” Israel do mapa, e sobre o qual pesam suspeitas de estar fabricando a bomba atômica. “Gog e Magog” aparecem no código na mesma localização em que aparecem a palavra “Síria” e a expressão “todo o seu povo para a guerra”.

9º DIA DE AV O ataque nuclear aconteceria no dia 9º dia de Av, na mesma data em que Jerusalém foi destruída outras duas vezes. A primeira, pelos babilônios, em 586 a.C.; a segunda, pelos romanos, em 70 d.C. A mesma data em que os judeus foram expulsos da Inglaterra (em 1290) e da Espanha (em 1492). E em que as câmaras de gás entraram em operação, em 1942, iniciando o Holocausto – a data é tão temida pelos religiosos que nesse dia eles jejuam e rezam pedindo misericórdia. Para Rips, que não tem mais dúvidas sobre a eficácia do código, em breve teremos uma Teoria de Campo Unificado: “Religião e ciência virão juntas”, dissipando por completo as suas dicotomias. “O código da Bíblia é uma sólida prova científica de que Deus existe”, afirma o matemático. Para Drosnin, o que parece ter ficado provado é que a “quinta dimensão”, que todos os físicos quânticos hoje admitem existir, é real. “Parece que a resposta que Einstein procurava não seria encontrada nas nossas três dimensões do espaço, nem na quarta dimensão do tempo”, diz o repórter, que nunca foi religioso. E que, para não fugir à regra científica, baseia seu argumento na única vez em que o nome de Einstein aparece em todo o texto bíblico, junto à “Teoria da Relatividade”. Aí, no mesmo local, o código oferece a pista: “Acrescente uma quinta parte”.

A BÍBLIA É COMO UMA MOEDA VICIADA, DIZ MATEMÁTICO Ainda não é possível afirmar se o código da Bíblia prediz acuradamente aquilo que está por acontecer ou se serviria de alerta para que a humanidade consiga evitar suas predições. À época da publicação do livro, em 1997, por exemplo, o ano de 2006 – o de maior probabilidade para que um “holocausto nuclear” viesse a se expandir a partir de Jerusalém – dividia com o ano 2000 a mesma localização no texto bíblico oculto. Apesar de as previsões aparecerem apenas como matematicamente prováveis, Eliyahu Rips sustenta que a Bíblia se mostra como uma moeda “viciada”, quando confrontada com o código. “Se uma moeda estiver ‘limpa’, ao cair na mesa, deve dar cara metade das vezes; a outra metade deve dar coroa. Se eu a jogar 20 vezes e toda vez der cara, então você pode assumir que a moeda está ‘viciada’”, diz Rips, ao explicar que a probabilidade de isso acontecer é menos de uma em um milhão. De acordo com Rips, outros antes dele já haviam tentado descobrir o código da Bíblia – entre eles, os físicos Isaac Newton e Albert Einstein – mas lhes faltava o computador. O texto oculto da Bíblia teria sido codificado com uma espécie de “fechadura com controle de tempo”, que só poderia ser aberta quando o computador fosse inventado, segundo o professor. É como se houvesse uma Bíblia por trás da Bíblia. Segundo Rips, é como se o livro fosse “um gigantesco quebra-cabeça com milhares de peças, das quais temos apenas poucas centenas” ou “um problema de palavras cruzadas, do começo ao fim, que se conectam para contar uma história oculta”. Para decifrar o código, Rips eliminou todos os espaços entre as palavras dos cinco primeiros livros da Bíblia, transformando todo o texto bíblico original em hebraico num único fluxo contínuo de 304.805 letras – segundo conta-se, foi assim que Moisés recebeu de Deus a Bíblia, “palavras contíguas, sem quebras”.

Os físicos Isaac Newton e Albert Einstein já haviam tentado descobrir o código da Bíblia, mas lhes faltava o computador Um programa de computador, desenvolvido por ele, procura qualquer palavra digitada por todo o texto. Após o computador armazenar a primeira letra da palavra, ele só pára quando o programa se depara com a segunda letra da palavra numa mesma seqüência de saltos entre uma letra e outra, e assim sucessivamente, até que todos os saltos sejam idênticos. Por exemplo, como se a frase “O código é real” surgisse a cada três letras de uma passagem qualquer (Ox xxC xxxÓxx xDxxxIx xxGxx xOxxxÉxxx RxxxExxx AxxxL). Só que os saltos podem assumir 4.772 letras, 431ou 153.432 letras, tanto faz, não existe um limite. Depois disso, o computador busca palavras com informações correlatas que cruzem a primeira palavra encontrada ou que estejam ao redor da mesma localização da primeira palavra. A cada combinação de resultados, a probabilidade matemática torna-se cada vez mais acurada. Rips diz que sua certeza com relação à veracidade do código aumentou em 18 de janeiro de 1991, quando, a três semanas do início da Guerra do Golfo, o código lhe alertou que “Hussein havia escolhido um dia”, o “3º dia de Shevat”, no calendário judaico, para lançar um “míssil russo” Scud contra Israel. O que realmente acabou acontecendo. O repórter Michael Drosnin teve o seu dia de eureka em 4 de novembro de 1995, quando o então primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, foi morto na data predita pelo código. Um ano antes, Drosnin havia avisado conselheiros próximos a Rabin de que ele poderia ser assassinado nessa data. Rabin ignorou o recado dizendo que não acreditava na possibilidade de o código ser verdadeiro. (MNR)


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