BDF_174

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Ano 4 • Número 174

Uma visão popular do Brasil e do mundo

R$ 2,00

São Paulo • De 29 de junho a 5 de julho de 2006

www.brasildefato.com.br

João Zinclar

Para as famílias de baixa renda, as tarifas de energia elétrica são mais caras do que para as as grandes indústrias, beneficiadas pelas privatizações do setor durante o governo FHC

Energia mais barata para os pobres Em campanha por redução das tarifas elétricas, movimentos querem melhor distribuição de renda

P

EDITORIAL

Como transformar mentiras em verdades

O

s brasileiros estão sendo bombardeados, todos os dias, pelo rádio e pela televisão, com uma campanha publicitária patrocinada pela empresa transnacional Aracruz Celulose. A empresa deve ter contratado a preço de ouro, diversos esportistas que fazem sucesso no Brasil e no exterior – Dayane dos Santos, Pelé e outras personalidades – para serem seus garotospropaganda. O mote principal da campanha é o fato de a Aracruz ser a maior exportadora mundial de celulose. Com isso, se apresenta como uma empresa “que faz bonito lá fora” – assim como os esportistas. A bem da verdade, até que foi um gesto honesto. A empresa preferiu não dizer “que faz bonito” aqui dentro do país... Mas o que mais chama atenção, na propaganda, é o fato de o ministro da Cultura, o artista Gilberto Gil, também se prestar a esse tipo de manipulação. Pela lei, é proibido ministros fazerem propaganda de empresas privadas, que buscam o lucro, sobretudo aquelas empresas que dependem de autorizações e benesses do governo. Esse é o caso da Aracruz, que depende de licenças ambientais emitidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), depende de recursos repassados pelo Banco

Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES) etc. Onde está a isenção? Onde está a ética do representante do governo federal e da empresa? Hoje as transnacionais se comportam, aqui no Brasil, da mesma forma como no período colonial. Compram nossas terras, roubam nossas riquezas, mudam leis, corrompem governantes e assim vão levando nossa riqueza para o exterior. Sintomaticamente, e coincidindo com o lançamento da campanha da Aracruz, diversos colunistas da grande imprensa fizeram elogios, e o principal porta voz da direita conservadora brasileira, o jornal O Estado de São Paulo, fez questão de publicar um editorial para elogiar a empresa e condenar os movimentos camponeses que são contra a monocultura do eucalipto. Nem os articulistas contratados, nem os editoriais e muito menos a propaganda da Aracruz fala dos 18 mil hectares de terras que a transnacional roubou dos índios. Não se fala das mais de mil famílias de quiolombolas expulsas de suas comunidades pela empresa. Não se fala tampouco dos prejuízos ambientais causados pela monocultura do eucalipto. Não se fala que a empresa destruiu a Mata Atlântica para plantar uma floresta industrial, fazendo desaparecer mais de 200 espécies de aves e mais

de cem espécies de mamíferos no Norte do Espírito Santo. Não se fala do herbicida colocado nas plantações, que envenenou todo o lençol freático capixaba. Não se fala que agora querem repetir tudo isso, em sociedade com outras transnacionais nórdicas, no Sul da Bahia e nos Pampas Gaúchos. Não fala sequer que a origem da transnacional Aracruz é a companhia noruguesa Loretzen; a população é induzida a achar que é uma empresa brasileira, porque tem como sócios o Banco Safra, o BNDES e o grupo Votorantim. À família Mesquita, proprietária do jornal O Estado de São Paulo, caberia uma pergunta, uma vez que seu comprometimento com todas as empresas exploradoras do país já é marca registrada: como reagiria se uma transnacional resolvesse montar sua fábrica em cima do cemitério onde está o jazigo da família? Pois foi isso que a Loretzen fez, no município de Aracruz, onde instalou uma fábrica em cima da aldeia e do cemitério dos Guarani. Podem seguir mentindo... à vontade. Um dia a verdade prevalecerá.

assados dez anos do início das privatizações do setor elétrico brasileiro, o balanço mostra que os grandes benefícios foram contabilizados para as grandes indústrias, que vêm obtendo lucros recordes e pagando menos pela energia que consomem. Os prejuízos ficaram com os consumidores domésticos – para os quais, descontada a inflação, a tarifa de energia subiu 50%, entre 1995 e 2004. Tendo como pano de fundo a discussão

de um projeto popular para o Brasil, movimentos sociais estão promovendo uma campanha que visa reduzir as tarifas de eletricidade e eliminar o efeito concentrador de renda resultante da atual política de preços. Entre as propostas da campanha, estão: gratuidade de 100 quilowatts ao mês para consumidores de baixa renda e equiparação entre as tarifas industriais (que chegam a ser cinco vezes menores) e as residenciais. Pág. 3

Factóides de Bush para justificar crimes no Iraque O governo estadunidense cria mitos para esconder as atrocidades que comete no Iraque, país que ocupa desde 2003. O principal deles foi o de Abu Musab al Zarqawi, suposto líder da Al Qaeda iraquiana. Seu assassinato, em junho, foi festejado como

um troféu de guerra. Mas sua importância na insurgência do Iraque foi desmedidamente exagerada para garantir o apoio da população nos Estados Unidos. Tais invenções se tornaram política corrente do Pentágono. Pág. 7

Aracruz disfarça atrocidades com propaganda

Ibama vai responder por transposição

Pág. 4

Pág. 5


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