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Ano 4 • Número 173

R$ 2,00 São Paulo • De 22 a 28 de junho de 2006

Anderson Barbosa

A roupa suja da C&A Transnacional vende produtos feitos às custas de imigrantes que trabalham em condições subumanas

C

onhecida por comercializar roupas baratas, a C&A se beneficia dos baixos custos de produção obtidos por meio do trabalho degradante a que são submetidos imigrantes ilegais. Os lucros da companhia se devem à exploração de pessoas como Maria Diaz, mãe de família, que trabalha 16 horas por dia em uma sala com janelas lacradas,

dentro de uma das várias “oficinas de costura” clandestinas existentes em São Paulo – e onde a Polícia Federal encontrou centenas de etiquetas da transnacional. A empresa, que nega o envolvimento com malharias clandestinas, foi formalmente comunicada do problema pela Câmara Municipal de São Paulo, em outubro de 2005. Pág. 3

Na Palestina, violência gera homens-bombas

Loja da transnacional C&A, no centro de São Paulo: lucros às custas da exploração de mão-de-obra dos imigrantes irregulares

EDITORIAL

como principal instrumento de atração e de influência sobre os jovens os grandes meios de comunicação de massa, em especial a TV – uma pesquisa do Instituto da Cidadania mostra que 91% dos jovens assistem televisão durante a semana e 87% fazem o mesmo no final de semana. A juventude acaba cooptada e cada vez mais envolvida em uma lógica mercantil e individualista, que a coloca em situações de impotência ou mesmo de marginalidade. Se nos próximos anos o Estado brasileiro não criar mecanismos para diminuir a desigualdade social, dois cenários se desenham. O da barbárie, onde teremos uma geração de pessoas sem educação, sem emprego e imersas num mundo de violência e criminalidade, inclusive como forma de resistência à lógica excludente do grande capital. Ou o cenário das grandes lutas de massa, como mostram os exemplos vindos da França e do Chile, em que a juventude será protagonista, dando um renovado sentido à luta que, se organizada com outros setores, poderá ir para além da luta econômica e sindical e se transformar em luta política. Assim, os desafios colocados para os jovens são de fundamental importância. São desafios imediatos: a unificação das articulações de juventude do campo

e da cidade; a reivindicação de trabalho e renda dignos para os jovens, sem que isso signifique perdas para os demais trabalhadores; a garantia de uma política para a juventude de ocupação do tempo livre com acesso a esportes, lazer, produção cultural; a exigência de uma educação pública, gratuita e de qualidade; a cobrança de uma política de segurança pública em que o jovem negro, pobre ou homossexual não seja a principal vítima. Se a juventude se unir e se organizar, pode ser um novo segmento a seguir o exemplo das lutas operárias da década de 1980. Se isso acontecer, não há dúvidas de que a história da luta política no Brasil se alterará profundamente.

Reforma agrária não anda e fome pune paraguaios

Agronegócio explora canavieiros

Missão internacional da ONU e da Via Campesina comprovou diversas violações aos direitos humanos em visita ao Paraguai, de 26 de maio a 2 de junho. Esse país tem os piores índices de concentração fundiária da América Latina (1% dos fazendeiros detêm 77% das terras) e o Estado não emprega na reforma agrária os recursos que tem disponíveis. Além disso, promove violentos despejos. Desamparada, a população consome água contaminada e não tem o que comer. Pág. 7

A grave situação enfrentada por cortadores de cana-de-açúcar na cidade de Rubiataba (GO), denunciada pelo Movimento dos Pequenos Agricultores, no início do mês, deve mudar. Depois de investigações feitas pelo Ministério Público do Trabalho, a Agro Rubi, empresa pertencente à Cooperativa Cooper Rubi, recebeu 34 autuações – por reter ilegalmente carteiras de trabalho e por manter pessoas alojadas em ambiente degradados, entre outras irregularidades. Pág. 5

Daniel Cassol

A

pós dezesseis anos de neoliberalismo e um descenso das lutas de massa que dura mais de 20 anos, assistimos a uma crise sem precedentes na história do Brasil – uma crise de projeto de desenvolvimento econômico. O Brasil foi, nos últimos anos, um dos países da América Latina que menos cresceu. E a estagnação econômica impediu avanços em vários setores – cultura, educação, saúde, distribuição de renda – que beneficiariam o povo. Esse quadro, carregado de problemas provocados pela desigualdade social e pelo aumento da concentração de renda, faz da juventude a principal vítima. Segundo o o censo 2000 do Insituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem no Brasil 48 milhões de jovens, entre 15 e 29 anos – 28% do total da população brasileira. O analfabetismo atinge 3,8% da população juvenil, o que significa 1,1 milhão de pessoas. A maior parte desses jovens (70%) está no Nordeste e quase metade vive em áreas rurais (43%). Outra pesquisa mostra que a educação é para poucos: de cada cem jovens que terminaram o ensino fundamental, apenas 36,4% concluíram o ensino médio, e apenas 3,6% terminaram a graduação. Com o modelo de desenvolvimento em curso, esses dados dificilmente serão alterados em curto prazo. Ao mesmo tempo em que é vítima da falta de políticas públicas, a juventude é também um alvo do mercado, em especial da indústria cultural. O grande capital usa

que praticam atentados suicidas. Para os palestinos, tornam-se heróis. Todos sabem seus nomes, de cor. Em reportagem especial para o Brasil de Fato, Gianluca Iazzolino conta a história dos homens-bombas. Pág. 8

Maringoni

O espírito jovem de luta

A truculência do exército de Israel arruína a economia da Palestina, país que ocupa há 60 anos. Muitas famílias, expulsas de suas terras, passam fome e são humilhadas pelos soldados. Desse contexto, e não do fanatismo religioso, surgem os jovens

PELO DIREITO À UNIVERSIDADE – Jovens gaúchos participam, nas cidades de Alegrete, Santa Cruz do Sul e Porto Alegre, de mobilizações organizadas pela primeira vez entre setores da juventude de movimentos sociais do campo e da cidade Pág. 6


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