Ano 1
Número 29
São Paulo
De 18 a 24 de setembro de 2003
Circulação Nacional
R$ 2,00
Pobres tiram OMC dos trilhos em Cancún Considerada uma vitória pelos movimentos sociais, a reunião não ajudou a liberalizar o comércio mundial Yuri Cortez/AFP
A
Em Cancún, ativistas dão o destino merecido à estrutura atual da Organização Mundial do Comércio: a lata de lixo
Argentina x FMI, uma boa lição nômico. Mas o Fundo acabou cedendo diante da disposição argentina de não voltar ao atoleiro em que o país foi jogado depois de anos de políticas desastradas. Uma boa lição para países endividados como o Brasil. Pág. 5 e Seção Debate, pág.14
Aperta o cerco mundial contra os transgênicos Desde o dia 11, os países que aderiram ao Protocolo de Cartagena podem dizer não aos organismos geneticamente modificados, sem risco de sofrer retaliações dos Estados Unidos. Mas o Brasil ainda não assinou o tratado. No dia mundial de manifestações contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e contra a Organização Mundial do Comércio (OMC), 13 de setembro, ativistas de Brasília fizeram a “Mc Farofa Feliz”, em frente a uma lanchonete Mc Donald´s, em repúdio às transnacionais estadunidenses. Pág. 3
Chávez resiste a plebiscito mas teme novo golpe Pág. 10
Índios unificam lutas por direitos Pág. 13
Boal: a arte na vida dos oprimidos Pág. 16
Em Brasília, trabalhadores, sem–terra e estudantes participam, dia 13, de protesto mundial contra a Organização Mundial do Comércio (OMC) e contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca)
E mais: TRABALHADORES – Crise econômica e desemprego unificam movimento sindical: CUT e Força Sindical anunciam campanha salarial conjunta. Petroleiros e bancários se mobilizam por melhores salários. Pág. 6 ALCÂNTARA – Especialista em criptografia, o professor Pedro Rezende, da UnB, diz que os códigos dos sistemas de segurança em Alcântara eram frágeis, facilitando sabotagem do controle do lançamento. Pág. 8 VOTO IMPRESSO – Projeto já aprovado no Senado pode acabar com a única forma não virtual de fiscalização da urna eletrônica. O texto retira o dispositivo que obriga auditoria em 3% das urnas. Pág. 8 GOLPE NA ÁFRICA – A Guiné-Bissau vive sob um regime ditatorial desde o dia 14, quando o general Seabra destituiu o presidente e se autodeclarou chefe do país africano. Pág. 12
Está em andamento um cerco para criminalizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Dia 10, a sede nacional do MST, em São Paulo, foi alvo de uma operação de guerra em busca de um dos 11 líderes do Movimento com prisão decretada. O ataque foi visto como perseguição política por Nilmário Miranda, secretário de Direitos Humanos. Para Hélio Bicudo, vice-prefeito de São Paulo, essas ações querem atingir o governo e a reforma agrária. Enquanto há juízes que compactuam com o latifúndio, mílicias assassinam trabalhadores rurais. Pág. 7
A mobilização internacional contra as ameaças do governo israelense a Yasser Arafat surtiu efeito. Disposto até a matar o líder palestino, o governo Sharon reconsiderou sua decisão, anunciando que, no momento, a idéia é “apenas” expulsar Arafat. No entanto, a ofensiva israelense
não dá trégua. Dia 13, um palestino de 85 anos foi assassinado e dezenas de casas acabaram destruídas por um bombardeio. Esse é o resultado do fracasso nas negociações entre Ariel Sharon e Abu Mazem, agora ex-primeiroministro palestino. Pág. 11
Alemães se solidarizam com sem-teto
Economia ainda não dá sinais de crescimento
Em Berlim, um grupo de 20 manifestantes montou acampamento em uma concessionária da Volkswagen, em protesto contra o despejo de famílias que ocuparam um terreno da subsidiária da transnacional em São Bernardo do Campo (SP), em agosto. Eles entregaram à direção da empresa um documento exigindo a entrega do terreno aos sem-teto. Em São Paulo, a situação dos despejados ainda não foi resolvida. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) e Wiliam Dib (PSB), prefeito de São Bernardo, se recusam a negociar. Pág. 6
Em julho, um leve avanço da produção industrial levou a grande imprensa a saudar o início da retomada do crescimento. Porém, uma análise dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a tendência predominante ainda é negativa. Comparando-se a atividade industrial com os mesmos meses do ano passado, registram-se índices positivos apenas no primeiro trimestre e, mesmo assim, em um ritmo decrescente. Depois disso, seguem-se baixas. Queda nas vendas confirma o cenário. Pág. 4
Ana Nascimento/ABR
Quando, dia 9, o presidente Néstor Kirchner decidiu só pagar ao FMI se o país não fosse obrigado a aumentar tarifas, cortar mais despesas e compensar os bancos por supostas perdas causadas pela desvalorização do peso a partir de 2001, muitos pensaram que era suicídio eco-
Violência contra MST: o alvo é a reforma agrária
Pressões fazem Sharon recuar
Márcio Baraldi
firmeza de posições dos grupos de países pobres e em desenvolvimento na defesa dos interesses de seus povos, e a pressão dos EUA, Canadá, União Européia e Japão para impor regras ao resto do mundo, resultou em redondo fracasso da 5ª reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio, que se realizou em Cancún, no México. Foi uma vitória para as milhares de pessoas que protestaram contra o neoliberalismo e a OMC, no dia 13, nas principais capitais do planeta. O encontro terminou sem consenso. Para as nações ricas, o livre comércio interessa, desde que permaneçam intocados os privilégios de suas transnacionais e os subsídios que concedem à sua agricultura. A miséria, a fome e o desemprego de milhões de cidadãos na África, América Latina, Ásia e Oriente Médio, não fazem parte de sua agenda. Todos eles são vítimas de seu protecionismo e das políticas neoliberais que impõem através de organismos como a própria OMC, Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, quando não pela intervenção militar direta. Págs. 9 e 12