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Igor Ojeda

Senegal

Griots, os guardiões da história oral

Págs. 10 e 11

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Circulação Nacional Ano 9 • Número 420

R$ 2,80

São Paulo, de 17 a 23 de março de 2011

www.brasildefato.com.br Gama

Pág. 5

ISSN 1978-5134

Para os EUA, crise na Líbia é oportunidade

Pág. 9

Estatais chinesas avançam no pré-sal

Pág. 7

Leandro Konder

Igor Fuser

João Brant

O cômico

Terremoto na energia

Quem tem medo do lobo mau?

A tragédia, por mais dolorosas que sejam suas consequências, pode ser aperfeiçoada e sempre reinterpretada pelos homens. Com o drama e outros gêneros aparecem procedimentos análogos. Pág. 3

Os dois eventos mais importantes deste ano, a rebelião dos árabes e o terremoto no Japão, têm algo em comum: ambos incluem entre suas consequências o agravamento da crise global da energia. Pág. 3

As posições do Ministério da Cultura sobre a questão dos direitos autorais já deram muito pano pra manga, mas é importante entender bem a coisa para evitar as leituras simplistas. Pág. 3


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de 17 a 23 de março de 2011

editorial

Os desastres ambientais O MUNDO FICOU consternado, chocado, imóvel diante do maior desastre ambiental sofrido pelo território japonês, com a eclosão de um terremoto em escala jamais visto no país, seguido de um tsumani. Apesar das cenas que motivariam Dante Alighieri a repintar o “final dos tempos” e da sensação de impotência que acometeu todas as pessoas, os fatos nos ajudam a refletir sobre a natureza desses fenômenos que têm se repetido com frequência cada vez maior. Em primeiro lugar, paira ainda no ar a falta de pesquisa científica que nos ajude a decifrar os movimentos da natureza e que auxiliem os seres humanos a conviver com ela neste planeta. Sabe-se, no entanto, que a maior parte dos desastres ambientais, das mudanças climáticas, das frequência das chuvas etc., está ocorrendo como consequência da intervenção humana na natureza. Portanto, são respostas que a natureza dá à agressão sofrida previamente. Nesse caso, chama atenção o descaso das autoridades nacionais e internacionais para investirem pesado em recursos científicos que permitissem esses estudos e pudéssemos chegar a evitar esses fenômenos.

opinião

Em segundo lugar, falta a ação dos governos para evitar ou minimizar suas consequências sobre a população. A maior parte dos governos não dá a menor importância para medidas de precaução e medidas que possam proteger a população. Portanto, há uma irresponsabilidade política e de classe das elites governantes. Por exemplo, na China, o governo mantém criatórios de cobras e víboras em todas as regiões do país, pois descobriu-se que elas reagem com algumas horas de antecedência aos abalos sísmicos da Terra. Assim, são filmadas permanentemente e as autoridades, ao perceberam determinados movimentos anormais, avisam a população e fazem a evasão em massa. Em Cuba e no Japão, agredidos com frequência com terremotos e ciclones, os governos organizaram sistemas de construção e abrigos em massa para a população se proteger. Só isso consegue explicar que, no Japão, tivemos “apenas” 3,3 mil mortes (até o fechamento desta edição). Já no Haiti, há pouco mais de um ano, o terremoto na capital causou centenas de milhares de mortos, provocou o deslocamento de um milhão de pessoas, que até hoje vivem em barracas. Sem nenhuma solução. Houve ajuda de bilhões de dóla-

Que o preço de tantas vidas humanas nos leve a refletir, conscientizar e mobilizar, para enfrentarmos o modo de produção capitalista que chegou ao seu limite

res de todos os povos, mas esses recursos nunca chegaram ao povo, aos necessitados. Esse descaso não é condição de pais pobre, é condição de elites governantes irresponsáveis. Vejam o caso dos Estados Unidos. Há seis anos a cidade de New Orleans foi arrasada por um furacão. Milhares de desabrigados, e cerca de mil mortos. Até hoje, no país mais rico do mun-

do, milhares de pessoas continuam sem casa e sem poder regressar a New Orleans. Aqui no Brasil, já é vergonhoso, para não dizer irresponsável. A cada chuvarada, em qualquer parte do país, dezenas de mortos se amontoam, do Sul ao Nordeste. Mesmo assim, seguimos em frente sem nenhuma mudança concreta, até o próximo desastre. Em plena capital de São Paulo, a mais rica e moderna do país, continua morrendo gente dentro dos carros, nas inundações. E ninguém se sente responsável! Em terceiro lugar, é necessário identificar quais as práticas dos seres humanos, e sobretudo da ganância do capital, que se apropria e esgota os recursos naturais, provocando no futuro novos desastres ambientais. E haver a determinação de proibi-los. Como disse Leonardo Boff em recente entrevista ao Brasil de Fato, todas nossas ações como seres vivos estão interligadas com todos os outros seres da natureza, e qualquer abuso terá certamente consequências. Nossa sobrevivência está interligada com a sobrevivência de todos os demais seres vivos, animais e vegetais que coabitam este planeta. Portanto, a natureza não pode ser vítima da ação inescrupulosa da propriedade privada e do lu-

crônica

Maria Luisa Mendonça

cro, agressão que o modo de produção capitalista está impondo em todos os países. Em quarto lugar, estamos diante de uma crise civilizatória. Precisamos repensar urgentemente a forma de organizar a vida social, nas grandes megalópoles, que reúnem, num só espaço, 10, 15, 20 milhões de seres humanos. Isso é o anúncio de desastres futuros. Não é possível ter soberania alimentar, proteger a população de desastres naturais, de falta de combustível ou transporte público em cidades organizadas dessa forma. Imaginemos um pequeno terremoto de alguns graus em cidades como São Paulo, Bombaim, Xangai... E, em quinto lugar, voltou à pauta o grau de seguridade das usinas nucleares. Porque o problema não está na segurança da própria usina, considerada em padrões aceitáveis em todo mundo, pelo nível de ciência desenvolvida até agora. Mas os cientistas esqueceram de combinar com a natureza. O problema está no entorno da usina. Que o preço de tantas vidas humanas e de outros seres vivos da natureza nos leve a refletir, conscientizar e mobilizar, para enfrentarmos o modo de produção capitalista que chegou ao seu limite.

Silvio Tendler

Dez anos sem Milton Santos

Algo de novo no Front AS MOBILIZAÇÕES populares que ocorrem no Oriente Médio marcam uma nova etapa na conjuntura internacional. Seu caráter inesperado surpreende as expectativas tanto de setores conservadores quanto da própria esquerda. Por essa razão, é preciso evitar basear nossas análises somente em experiências conhecidas, pois parece que ainda haverá muita novidade nesse cenário. Após a segunda Guerra Mundial, a divisão geopolítica da região pelas grandes potências teve como critério assegurar o fornecimento de petróleo para a Europa e os Estados Unidos, o que ocorreu através do apoio a governos totalitários. Portanto, é óbvio que o discurso pró-democracia utilizado agora para justificar as ameaças da OTAN é pura propaganda. Outros elementos relevantes naquele período, caracterizado por David Harvey como “novo imperialismo”, foram a supremacia dos Estados Unidos sobre a Inglaterra como principal potência mundial e o início da Guerra Fria. No final dos anos de 1980, a crise econômica que arruinou a União Soviética anunciava também uma crise na capacidade de valorização do capital em nível mundial. O modelo soviético de Estado planejando não foi capaz de suportar o que Marx chamou de “mecanismos coercivos da concorrência”, que atenuam a irracionalidade do capital por considerarem, em certa medida, o valor de uso das mercadorias. Sem abdicar da forma-mercadoria e da exploração de mais-valia, porém sem a capacidade de manter uma economia de mercado, o Estado soviético não suportou a concorrência internacional. Os enormes gastos com armamentos, ou seja, com capital improdutivo, colaboraram com a falência da economia soviética.

A única conclusão possível nesse momento é que há possibilidade de se abrirem novos horizontes na geopolítica mundial

O que foi interpretado como uma vitória do capitalismo sobre o socialismo marcava, na verdade, o início de uma crise econômica nos Estados Unidos. Utilizando a fórmula clássica da guerra e do inimigo externo para desviar a atenção dos problemas econômicos internos, Bush-pai inventou a chamada Operação Tempestade no Deserto. Os sucessivos ataques militares ao Iraque e ao Afeganistão marcaram a política estadunidense até hoje, porém a guerra já não parece mais uma saída eficaz para a crise. Pelo contrário, é bastante improvável que a OTAN venha a se aventurar atualmente em uma intervenção na Líbia. Essa hipótese se baseia em dois motivos. Primeiro, há vários anos que Kadafi deixou de ser tratado com hostilidade pelos Estados Unidos e União Europeia. Seu filho, inclusive, é considerado “queridinho” da elite frequentadora do Fórum Econômico de Davos. Outra razão é a acentuação da crise nos países centrais do capitalismo, que já não suportariam arcar com a alternativa militar. A União Europeia já descartou a possibilidade de apoiar uma ação da OTAN na

Líbia. Os Estados Unidos podem até ensaiar algumas manobras militares na região, mas ainda estão atolados no Iraque e Afeganistão, sem muita margem de manobra. O que presenciamos é uma enorme guerra de propaganda midiática. De um lado, o governo americano como “paladino da democracia”. De outro, Kadafi fazendo jogo de cena anti-imperialista. A novidade que vale a pena observar é a ascensão de movimentos populares que lutam por autodeterminação em torno da bandeira pan-árabe. Na Turquia e no Egito essas mobilizações tiveram início em 2005 com uma aliança entre setores estudantis e sindicatos, que organizaram dezenas de greves. Muitas lideranças foram presas, mas o movimento ganhou força e culminou com as revoluções recentes. Na Líbia, a oposição a Kadafi tampouco é pró-ocidental. Mesmo na Arábia Saudita, sob o regime absolutista favorito dos Estados Unidos, os protestos continuam. Essa conjuntura representa um impasse, pois agora é o próprio povo árabe que coloca tanto seus governos quanto as potências mundiais em xeque. Cai a máscara, tanto da “luta contra o terrorismo” dos Estados Unidos quanto do absolutismo árabe pró-imperialista que, inclusive, tem adotado uma posição cúmplice em relação às atrocidades cometidas pelo governo de Israel contra os palestinos. A única conclusão possível nesse momento é que há possibilidade de se abrirem novos horizontes na geopolítica mundial. Certamente, estamos longe de chegar a um desfecho nessa história. Aguardemos os próximos capítulos. Maria Luisa Mendonça é jornalista e coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

NO INÍCIO DE 2001 entrevistei o professor Milton Santos. A riqueza do depoimento do geógrafo me obrigou a transformá-lo no filme Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá. Lá pelas tantas o professor critica a “neutralidade” dos analistas econômicos, dizendo que eles defendiam os interesses das empresas que serviam. Dez anos depois, o cineasta Charles Ferguson, em seu magnífico filme Inside Job, esmiúça em detalhes a fala de Milton Santos e revela a promiscuidade nos Estados Unidos entre bancos, governo e universidades. Revela a ciranda entre universitários que servem a bancos e empresas financeiras, vão para o governo, enriquecem nesse trajeto, não pagam impostos, escrevem pareceres milionários para governos estrangeiros, induzindo-os a adotarem políticas que favoreçam o sistema financeiro internacional. Quebram aplicadores e fundos de pensão incentivando a investirem em papéis, que já sabiam, com antecedência, micados. E quando são demitidos das instituições financeiras, partem com indenizações milionárias. Acertadamente, este filme ganhou o Oscar de melhor documentário de 2011. Na outra ponta da história está o filme Biutiful do Mexicano Alezandro Gonzalez Iñarritu, rodado em Barcelona. Narra a vida dos fodidos, das vítimas do sistema financeiro internacional: africanos e chineses que vão para a Espanha para escapar da fome e do desemprego e se submetem a condições de vida sub-humanas. O trabalho do ator Javier Bardem rendeu o prêmio de melhor ator do Festival de Cannes de 2010. São filmes para ninguém botar defeito e desconstroem as perversidades do mundo em que estamos vivendo. Em discurso recente em Wisconsin, solidário aos trabalhadores que lutam contra novas gatunagens, o colega estadunidense Michael Moore declarou: “Vou repetir. 400 norte-americanos obscenamente ricos, a maior parte dos quais foram beneficiados no ‘resgate’ de 2008, pago aos bancos, com muitos trilhões de dólares dos contribuintes, têm hoje a mesma quantidade de dinheiro, ações e propriedades que tudo que 155 milhões de norte-americanos conseguiram juntar ao longo da vida, tudo somado. Se dissermos que fomos vítimas de um golpe de estado financeiro, não estamos apenas certos, mas, além disso, também sabemos, no fundo do coração, que estamos certos.

Quem quiser reencontrá-alo em Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá”, estará celebrando a vida e o pensamento de um dos maiores pensadores do século 20 Mas não é fácil dizer isso, e sei por quê. Para nós, admitir que deixamos um pequeno grupo roubar praticamente toda a riqueza que faz andar nossa economia, é o mesmo que admitir que aceitamos, humilhados, a ideia de que, de fato, entregamos sem luta a nossa preciosa democracia à elite endinheirada. Wall Street, os bancos, os 500 da revista Fortune governam hoje essa República – e, até o mês passado, todos nós, o resto, os milhões de norte-americanos, nos sentíamos impotentes, sem saber o que fazer”. E arrematou com maestria e indignação: “...Falei com o meu coração, sobre os milhões de nossos compatriotas americanos que tiveram suas casas e empregos roubados por uma classe criminosa de milionários e bilionários. Foi na manhã seguinte ao Oscar, na qual o vencedor de melhor documentário por Inside Job estava ao microfone e declarou: ‘Devo começar por salientar que, três anos depois de nossa terrível crise financeira causada por fraude financeira, nem mesmo um único executivo financeiro foi para a cadeia. E isso é errado’. E ele foi aplaudido por dizer isso. (Quando eles pararam de vaiar discursos de Oscar? Droga!)” Esse ano celebramos os dez anos da morte do professor Milton Santos. Quem quiser ler Por uma Outra Globalização do professor Milton Santos encontrará um diagnóstico perfeito do processo de globalização que gestou as mazelas descritas em Inside Job e Biutiful. Quem quiser reencontrá-alo em “Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá, estará celebrando a vida e o pensamento de um dos maiores pensadores do século 20, capaz de ter antecipado muito do que estamos vivendo hoje. Sempre com seu sorriso nos lábios e o olhar que revelava sua clarividência, desde o primeiro momento em que começava a se manifestar. SILVIO TENDLER é cineasta, diretor de Os anos JK, Jango, Utopia & barbárie, entre outros documentários.

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Daniel Cassol, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patricia Benvenuti, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Vinicius Mansur • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Joana Tavares• Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Aurelio Fernandes, Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800


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Leandro Konder

instantâneo www.malvados.com.br/Dahmer

O cômico

Igor Fuser

Terremoto na energia OS DOIS EVENTOS mais importantes deste início de ano, a rebelião dos povos árabes e o terremoto no Japão, apresentam algo em comum: ambos incluem entre suas consequências o agravamento da crise global da energia. O impacto da revolta árabe sobre os suprimentos de petróleo se reflete no preço desse combustível, que já alcança 104 dólares o barril. Dois anos atrás, custava menos de 40 dólares. O aumento tem a ver com o corte das remessas da Líbia devido à guerra civil, mas expressa também preocupações mais duradouras. Afinal, está em jogo o futuro político de uma região que fornece 37% de todo o petróleo consumido no planeta e abriga em seu subsolo quase 70% das reservas mundiais desse combustível. Ninguém sabe ainda qual será o alcance do vendaval de rebeldia que está varrendo o mundo árabe, do Marrocos ao Bahrein. Mas uma coisa é certa: para o chamado “Ocidente” (Estados Unidos e União Europeia), ficará mais difícil exercer o controle sobre o volume e os preços do petróleo do Oriente Médio. De

agora em diante os governantes árabes, sejam eles quais forem, tenderão a adotar posturas mais soberanas. E o imperialismo enfrentará obstáculos crescentes para impor seus interesses, entre os quais se destacam o petróleo barato e a defesa incondicional de Israel. Já a tragédia japonesa afeta a outra ponta do dilema energético. O perigo causado pelos danos em usinas atômicas reaviva a desconfiança global perante a energia nuclear, logo no momento em que ela se fortalecia como alternativa à diminuição da oferta de combustíveis fósseis. No cenário que se vislumbra, pode-se prever que aumentará o valor estratégico das regiões e países produtores de petróleo e gás, cada vez mais valiosos. Crescerá a pressão política e militar sobre o Irã, a Venezuela e, ao que tudo indica, a Líbia. Durante todo o século 20, as potências imperialistas usaram a força das armas para garantir o controle das fontes de energia. Nada indica que agora agirão de outra forma.

João Brant

Quem tem medo do lobo mau? AS POSIÇÕES do Ministério da Cultura (MinC) sobre a questão dos direitos autorais neste início de gestão já deram muito pano pra manga, mas é importante entender bem a coisa para evitar as leituras simplistas. Para quem vê de fora, parece que o debate é entre os que defendem os autores e aqueles que acham que o direito autoral não é mais fundamental no cenário da internet. Nada disso. Assim como nas histórias infantis, tem muito lobo em pele de cordeiro – ou mesmo vestido de vovozinha. As posições que a turma que assumiu o MinC (Ana de Hollanda, Antonio Grassi e Vitor Ortiz) têm defendido não são de proteção aos autores, mas, na verdade, de defesa dos vários intermediários que se beneficiam da mercantilização de bens culturais, especialmente do ECAD. Por sua vez, os diversos movimentos críticos à nova gestão do MinC não estão se portando contrários ao direito autoral, mas sim querendo discutir como ampliar os criadores e as criações, preservando o direito dos autores ao mesmo tempo em que se garante um

amplo acesso do público à cultura. Mudanças são necessárias porque o sistema brasileiro de proteção dos direitos autorais é um dos mais restritivos do mundo. Ele proíbe coisas absurdas, como fazer uma cópia de uma música para ouvir no mp3. Estudantes de todos os níveis sofrem com a proibição ao xerox, que impede o acesso até mesmo a obras que estão fora de circulação. O ECAD, que tem o papel de recolher os direitos autorais das músicas para distribuir entre autores e intérpretes, tem inúmeras distorções, é uma verdadeira caixa preta e não é objeto de nenhuma supervisão ou fiscalização. Num cenário tão ruim, todos nós nos tornamos ‘piratas’. Baixar uma música na internet, copiar um CD para ouvir no mp3 ou fazer cópias de um livro esgotado são violações graves à atual lei de direitos autorais. Se o MinC continuar nessa linha, o governo Dilma estará rasgando seu programa de governo e a defesa do direito à cultura. Quem sai ganhando são os verdadeiros lobos maus dessa história – a indústria fonográfica e todos os outros intermediários.

A TRAGÉDIA, POR MAIS dolorosas que sejam suas consequências, pode ser aperfeiçoada e sempre reinterpretada pelos homens. Com o drama e outros gêneros aparecem procedimentos análogos. A comédia, entretanto, cria situações embaraçosas para os que pretendem explicá-la. O paradoxo está presente desde o momento em que a comédia nasce. Os antigos gregos encenavam peças de conteúdo religioso e os atores, no ritual grego antigo, deviam usar máscaras. Constatou-se, então, que as máscaras e os rituais faziam rir, tornavam-se cômicos. Enquanto a tragédia emocionava fortemente os espectadores, predominava na plateia a imobilidade. Os deuses gregos cobravam seriedade de seus fiéis; as comédias se enriqueciam esteticamente comentando o que se passava no mundo prático dos gregos, isto é, aquilo que os espectadores sérios desprezavam. Os manuais de literatura costumam lembrar em especial um autor de comédias que arrancava gargalhadas da plateia: Aristófanes. Nós, no século 21, dispomos de uns poucos exemplares de comédias escritas pelo brilhante autor. Infelizmente, o que os fazia rir não tem o mesmo efeito que tinha sobre esses nossos longínquos antepassados (44 séculos!). O que fazia rir os gregos de Aristófanes arranca de nós, no máximo, um sorriso. Mesmo desgastada, porém, a sociedade ateniense era fustigada pelo espírito gozador, pelo espírito sarcástico do escritor. E como estamos nós, brasileiros contemporâneos, no nível de nossa expressão cômica? Temos autores magníficos dedicados a nos fazer rir, tanto das classes dominantes e mundinho dos ricos, como de nós mesmos, de nossos medos e inseguranças. E temos, sobretudo, um grupo brilhante de autores talentosos, e mesmo geniais, como – já no século 19 – o magnífico e sinuoso Machado de Assis, que nos estimula, não tanto ao riso, mas ao sorriso. No final desse mesmo século, a população curtia o humor parnasiano, cujo expoente era, talvez, Emilio de Menezes.

A classe dominante mantinha uma linha clara de defesa dos seus privilégios e de repulsa ao humor que se aproximava de critérios “populares” No século 20, tivemos o refinado prazer de rir das piadas do Barão de Itararé, de Stanislau Ponte Preta, de Millôr Fernandes e da moçada de Casseta e Planeta. Os palcos do Rio e de São Paulo estão vivos, habitados por profissionais da área do teatro, capazes de investir na encenação de comédias. Um velho campo de exercício do humor está na área das críticas ao governo. Alguns governantes tiveram a habilidade de transformar piadas contra o governo em manifestações de humor inócuo: o caso clássico de Getúlio Vargas. Já no trem que o traria de volta ao Rio, Getúlio foi acompanhado pelo então interventor de Minas Gerais, Benedito Valadares. Benedito, querendo ser gentil, despediu-se: “Adeus, ilustre partinte”. O então presidente respondeu: ”Adeus insigne... ficante”! O senso da comicidade continua vivo na cultura brasileira. Nela se produz atualmente uma considerável quantidade de trocadilhos, de “grossura funcional”, de observações sarcásticas, contra tudo e contra todos, porém a favor da liberdade. Millôr Fernandes, por exemplo, prossegue sua implacável guerra contra a burrice: “Não devemos resistir às tentações. Elas podem não voltar”. Ou então: “Viver é desenhar sem borracha”. Nos anos 1930, a escritora Eugenia Álvaro Moreyra dirigia uma pequena clínica de serviço social, quando a polícia irrompeu no ambiente à procura de subversivos. O truculento delegado que chefiava a operação, interpeloua, ao ver uma seringa de injeção sendo aquecida: “O que é isso?” Eugenia, inabalável em sua polidez esclareceu: “É remédio contra sífilis. O delegado está servido?” Apesar da aparente confusão, havia na primeira metade do século 20 alguns elementos que o humor logo aproveitaria. Entre eles, os críticos notaram que se destacava a produção do cômico. A classe dominante mantinha uma linha clara de defesa dos seus privilégios e de repulsa ao humor que se aproximava de critérios “populares”. Leandro Konder escreve semanalmente neste espaço.

comentários do leitor Ferrovias sucateadas Até que enfim rompeu-se o bloqueio de silêncio em torno do lesivo e estúpido processo de privatização ferroviária que aconteceu nos anos 90 e que tornou o que já vinha sendo deliberadamente deteriorado num desmonte criminoso de um patrimônio estratégico nas mãos do Estado. Parece que a onda neoliberal apagou a capacidade de crítica pelo mundo afora. Hoje o renascimento das ferrovias e sua (re)eletrificação seriam peças estratégicas para uma matriz energética e de transportes mais sintonizada com os desafios do século 21.

José A. de Souza Jr.

Racismo nos supermercados O Brasil de Fato deve ser cumprimentado por vir pautando a questão racial em suas páginas. A matéria “Racismo nos supermercados” vem na sequência de matérias anteriores que servem para aguçar a compreensão crítica dos leitores quanto ao problema histórico do racismo. Na oportunidade, quero ressaltar um elemento da fala do advogado Dojival Vieira, quanto ao “elemento inconsciente” dos seguranças lidarem com a figura padrão do bandido em potencial, ou seja, o “ris-

co” representado pela pessoa negra. A superação histórica do racismo como elemento estruturante das sociedades do passado e do presente precisa avançar na compreensão do seu modo de se enraizar e determinar as relações sociais. Primeiro: compreendendo que o racismo se institui a partir do fenótipo como dado objetivo diferenciador (cor da pele, cabelos etc.) para a recusa cabal do outro, negro. O racismo não é mera ideologia do capital para aumentar a exploração de classes (o que sabemos ser verdade, mas não explica a pertinácia do racismo mesmo sob sociedades não capitalistas). Segundo: essa recusa ao fenótipo negro nos impregna de três modos interconexos: 1) rejeição pessoal ou grupal da pessoa negra na forma de preconceito moral seguido de violência simbólica ou física; 2) a contaminação das estruturas sociais, econômicas e de poder sob o critério fenotípico, o qual determina (discrimina) quem controla e quem é excluído do acesso aos meios e aos recursos; e, 3) formação do imaginário social dominante que associa o fenótipo negro ao perigo, maldade, incapacidade, inferioridade e outras associações: feiura, burrice, mal cheiroso etc. A reportagem referida aqui tem a importância de fazer aflorar nossa

percepção de condutas movidas pelo imaginário dominado pela associação do negro ao perigo social constante. Isso mostra o quão profundamente o racismo se instala nas relações sociais, o que exige-nos uma atitude política de enfrentamento do racismo como algo mais complexo, profundo e estrutural no interior de uma estratégia de socialismo radicalmente plural e democrático.

Gilberto Neves

Transposição – por Roberto Malvezzi Ainda não se sabe qual a eficiência dessa obra que segue a mesma lógica das “obras faraônicas” do período de ditadura militar, o que tenho certeza é que se trata de uma forma de transferir dinheiro público para grandes construtoras, incentivar o agro e hidro negócio no Nordeste brasileiro e fortalecer a dependência da população aos programas assistencialistas. Quanto esse governo gasta com um projeto de Revitalização da Bacia do São Francisco que realmente atenda as necessidades das populações tradicionais? Quanto esse governo gasta para incentivar a proposta de Convivência com o Semi-Árido? Quantas indústrias são fiscalizadas e multadas por despejar resíduos no Velho Chico? Grandes em-

presas agrícolas e latifundiários são acompanhados para que se verifique o uso de agrotóxicos, que poluem solo, água, destroem nossa biodiversidade e matam cada vez mais trabalhadores rurais? Fica claro que esse projeto de transposição bem como esse governo não estão a serviço do povo brasileiro.

Diego de Albuquerque

McDonald’s A exploração e condições de trabalho inadequadas são realidades não apenas no McDonald’s, mas também de outras redes de fast food. No período em que trabalhei em uma importante rede de pizzaria, como estagiário, presenciei diversas cenas de abuso. Muitos profissionais cumpriam, diariamente, uma carga de mais de 11hs de trabalho. Além disso, adivinhe qual era a refeição oferecida pela empresa? Sim, pizza. A única diferença entre esse tipo de trabalho e a escravidão é que hoje você ganha “um troquinho” no começo do mês. Felipe Godoy

Cartas devem ser enviadas para o endereço da redação ou através do correio eletrônico comentariosdoleitor@brasildefato.com.br


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brasil

O tribunal só começou Fotos: Egon Heck

GUARANI KAIOWÁ Em entrevista, os procuradores responsáveis pelo caso Marcos Veron afirmam que agora é a vez do julgamento do executor e do mandante do crime Vanessa Ramos de São Paulo (SP) MESMO APÓS os cinco dias (de 21 a 25 de fevereiro) de julgamento dos acusados de assassinato do cacique Marcos Veron e das condenações dos cúmplices por fraude processual, formação de quadrilha armada, lesões corporais, sequestro e tortura contra os indígenas guarani kaiowá, o Ministério Público Federal (MPF) segue mobilizado para garantir que o executor do crime, Nivaldo Alves de Oliveira, e o mandante, o fazendeiro Jacintho Honório da Silva Filho, sentem no banco dos réus. Após o júri popular ter reconhecido o cúmplice do assassinato e o ter absolvido, espera-se, ainda, que os próximos réus sejam devidamente punidos. A absolvição por homicídio ocorreu, mas, junto com ela, vieram as condenações de Carlos Roberto dos Santos, Jorge Cristaldo Insabralde e Estevão Romero, os “empregados” da fazenda. A fala do advogado de defesa Josephino Ujacow, que dizia que “os réus não tiveram participação alguma no episódio e que foram vários os crimes sem qualquer esteio ou provas e, ainda, que o MPF se baseou unicamente em presunção, dilação e conjectura”, não se sustentou por completo. Para os procuradores do caso, as condenações estabelecidas provam que os réus participaram do ocorrido e isso representa um avanço na luta dos povos indígenas contra a impunidade no Brasil. Em entrevista ao Brasil de Fato, o procurador da República do Mato Grosso do Sul, Marco Antônio Delfino de Almeida e o procurador Regional da República da 3ª Região, Luiz Carlos dos Santos Gonçalves, responsáveis pelo caso Marcos Veron, falam sobre o julgamento, as sentenças finais, a contribuição à causa indígena e os próximos passos que poderão ser dados nessa luta. Brasil de Fato – O que os senhores realçariam dos cinco dias de julgamento? Marco Antônio – Destaco o primeiro depoimento da vítima Adelcia Martins Veron, que foi realizado em Guarani, assim como de outras testemunhas. Isso foi um avanço que pode ser usado no futuro, e vai além do julgamento em si. Luiz Carlos – Foi o clima de comunhão entre a comunidade indígena, o Ministério Público Federal, órgãos públicos, entidades de apoio e outros colegas do direito que sequer tinham designação para a causa. Todos ali se irmanaram numa atuação e luta conjunta e isso nos deu muita força.

Manifestação durante o julgamento dos acusados de assassinato do cacique Marcos Veron

justamente a justiça seria realizada, houve um descaminho, uma parada, que foi o quesito de absolvição do réu. É incompreensível como pessoas de bem, como é o caso dos jurados, ao mesmo tempo em que reconheceram a materialidade do crime, e que o réu foi a pessoa quem se ajoelhou sobre o cacique Veron para que outro lhe desse as coronhadas e o matasse, se pronunciaram no sentido da absolvição. Isso para nós tem um elemento de surpresa, de dor, perplexidade – quase de horror. É uma reflexão que não tem data para terminar. Brasil de Fato – Como avaliar as condenações por sequestro, lesões corporais, fraude processual, quadrilha armada e tortura? Marco Antônio – Positiva. Houve de alguma forma, na visão dos jurados, o acolhimento das nossas teses. O mais importante foi que eles reconheceram isso e caiu por terra a versão fantasiosa de que os indígenas foram retirados de forma pacífica e que o cacique Marcos Veron teria sido assassinado pelos próprios indígenas. Os jurados entenderam e avaliaram todo o conteúdo das provas, que houve na verdade uma série de atrocidades contra os indígenas e, de forma clara, isso traz a responsabilidade do proprietário da fazenda. Luiz Carlos – Uma grande vitória. É o atalho que mencionei, porque não há notícias de condenações anteriores. No Brasil, infelizmente, sempre foi normal ocorrerem práticas de violência de todo o

tipo contra as comunidades indígenas e, simplesmente, nada acontecer. Para nós isso foi um começo, um degrau que superamos e traz uma simbologia importante de que, afinal de contas, se tem uma expectativa de aplicação da lei para quem pratica ofensas tão graves contra os direitos humanos.

“A decisão é algo que nunca saberemos, a não ser que os jurados de próprio interesse venham a explicitar isso” Brasil de Fato – Será possível recorrer das sentenças estabelecidas? Marco Antônio – Sim, efetivaremos o recurso em relação às condenações que foram efetivadas nesse julgamento. Luiz Carlos – É possível e já estamos recorrendo, o êxito desses recursos será visto mais para frente. Brasil de Fato – Pode-se dizer que esse julgamento, em São Paulo, foi um avanço na luta dos povos indígenas contra a impunidade? Marco Antônio – Foi, porque nunca houve uma condenação por agressão a populações indígenas no Mato Grosso do Sul (MS). Se fosse no MS, poderia até existir uma situação caluniosa, os réus serem absolvidos e se teria comentários

Brasil de Fato – Qual o aporte que esse julgamento traz para a luta dos povos originários no país? Marco Antônio – É um avanço. Como na ideia de Eduardo Galeano, há uma utopia que faz com que caminhemos. Acreditamos que nessa utopia haja o pleno respeito aos direitos de todas essas populações que são fragilizadas e têm os seus direitos violados há mais de 500 anos. O julgamento foi um passo relevante no pleno reconhecimento dos direitos dessas populações. Luiz Carlos – O julgamento foi importante e traz um pouco de confiança de que a nossa Justiça pode, em situações excepcionais, ser mesmo justa. Para nós, Ministério Público Federal, esse julgamento foi emblemático porque mostrou aquilo que nós podemos fazer e o que temos que adquirir competência, capacidade e recursos. Essa vitória nos deixa otimistas em relação a tudo isso.

“É um avanço. Como na ideia de Eduardo Galeano, há uma utopia que faz com que caminhemos”

“Todos ali se irmanaram numa atuação e luta conjunta e isso nos deu muita força”

Brasil de Fato – A partir desse julgamento, pode-se mudar a configuração de outros casos que virão? Marco Antônio – Penso que sim. Ainda que de forma pequena, existe um efeito de trazer valores democráticos e acabar um pouco com o ambiente de coronelismo que, infelizmente, ainda impera no Mato Grosso do Sul e em outros lugares do país. Luiz Carlos – A impunidade alimenta a ofensa contra os direitos humanos, portanto, onde há impunidade, não há justiça. Nesse caso, em que arranhamos a impunidade, há uma inspiração. Ele é inspirador para todo mundo que luta por justiça no Brasil e vemos que há um caminho, ainda que seja difícil e árduo, sem vitórias fáceis.

Brasil de Fato – Como avaliam a sentença estabelecida no julgamento final? Marco Antônio – Recorrível. Uma sentença que tem pontos em que cabe uma apreciação por parte do Tribunal e estamos confiantes que ela será revertida em vários aspectos. Luiz Carlos – Avalio como metade do caminho porque esperávamos uma estrada longa e ganhamos um viés curto. Quando se pensa na estrada longa você fala “só ficamos com o atalho”. Mas quando você se lembra que até então, no Mato Grosso do Sul e talvez no Brasil, nem mesmo atalhos como esses tinham sido abertos, esse atalho ganha cor, luz e importância. Brasil de Fato – Como refletir sobre a decisão dos jurados que absolveram os réus do crime de homicídio? Marco Antônio – Não se tem como saber se houve erro ou se as pessoas realmente quiseram absolver. A votação é pessoal. A decisão é algo que nunca saberemos, a não ser que os jurados de próprio interesse venham a explicitar isso. Luiz Carlos – É uma reflexão que farei nos próximos cinquenta anos, os quais espero viver. Ela apenas começou porque foi difícil e dolorosa. A decisão mostra que quando você pensa que os caminhos darão em uma intersecção, eles se desviam. Os primeiros quesitos nos pareceram o caminho da justiça, mas quando

como se toda essa situação fosse inventada pelos próprios indígenas e eles devessem ser processados por ter movimentado o Poder Judiciário de forma desnecessária. Luiz Carlos – Sim, porque como eu disse, não há notícias anteriores de condenações de qualquer tipo. Isso foi a cunha que conseguimos colocar no coração da impunidade. Gostaríamos, de fato, de ter colocado uma cunha até o fim, mas o fato de a termos colocado é algo que a comunidade indígena pode contar e se orgulhar, é uma vitória dela.

Indígenas seguem mobilizados para garantir que mandantes sejam levados à Justiça

Brasil de Fato – Que passos poderão ser dados nessa luta dos guarani kaiowá, a partir de agora? Marco Antônio – Primeiro, redobrar os esforços em relação aos demais réus. Solicitar perante à Justiça que as demais demandas sejam aceleradas e também requerer, em juízo, que haja a reparação civil das agressões sofridas pelas vítimas. Luiz Carlos – As notícias que nós temos é que essa comunidade talvez seja a mais sofrida do Brasil e a que mais precisa da afirmação e da reafirmação de seus direitos. Não podemos esquecer que esse caso do cacique Veron não terminou, foi o julgamento dos partícipes e virá o julgamento do executor [Nivaldo Alves de Oliveira] e do mandante [Jacintho Honório da Silva Filho]. Agora é seguir em frente e fazer o que ainda não fizemos.


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Obsessão anti-inflacionária ganha força Roberto Stuckert Filho/PR

ECONOMIA “Traumatizada”, equipe econômica amplia ortodoxia e favorece rentistas Renato Godoy de Toledo da Redação COM A SEGUNDA alta da taxa Selic no ano, o Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central e o governo federal assumem de vez a opção por uma medida ortodoxa de combate à inflação. Fica ainda comprovado mais uma vez que o centro da política econômica do governo é o cumprimento da meta de inflação, fixada em 4,5% ao ano. As impressões de que a pressão inflacionária está em alta não são equivocadas. No entanto, o remédio apresentado, a alta de juros, está longe de ser uma solução plausível, segundo especialistas não alinhados ao pensamento econômico ortodoxo – que parece estar mais hegemônico agora do que na segunda gestão de Luiz Inácio Lula da Silva. A obsessão pelo cumprimento da meta tem sido demasiada, já que o próprio BC admite que a porcentagem da alta dos preços pode variar dois pontos para mais ou para menos. No ano passado, o índice não passou de 6%, sendo que o BC toleraria até 6,5%. O fato é que, mesmo dentro do esperado, os chefes da política econômica estão convencidos da necessidade de ampliar a taxa Selic, que atingiu 11,75% ao ano, após a reunião do Copom no dia 2 de março. Assim, o Brasil ampliou ainda mais sua liderança no ranking dos países que pagam os juros mais altos do mundo. Cresce também a fatia do orçamento destinada ao pagamento da dívida, há anos o principal gargalo de União, estados e municípios, comprometendo todas as demais políticas públicas, como saúde, educação e desenvolvimento. Na visão dos formuladores da política econômica, contudo, a elevação da Selic visa frear a inflação, contendo o consumo do mercado interno. Porém, para Paulo Passarinho, presidente do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro, a visão carece de embasamento na realidade, já que os principais motivos para a alta de preços não estão no cenário interno brasileiro. Ao contrário, o carro-chefe da inflação tem sido os alimentos, em função de uma expansão de demanda em países asiáticos, sobretudo na China. Nesse cenário de alta das commodities, o produtor brasileiro enxerga o momento propício para lucrar mais e direciona sua produção para a exportação. Com menos oferta no mercado interno, a tendência, de fato, é de alta dos preços. Outro fator importante é a oligopolização da economia, segundo o economista.

“A ideia de transformar a inflação na questão central do dilema econômico tem sido utilizada principalmente pelo pensamento conservador” Ponto central

Os economistas contrários à linha hegemônica da política brasileira dos últimos 20 anos apontam que o problema principal da leitura ortodoxa não é o entendimento de que a inflação trata-se de um mal, mas de que este é o principal ponto a ser combatido. Para Paulo Passarinho, a leitura com viés aparentemente “técnico” torna-se ideológica, já que o receituário beneficia claramente um setor da sociedade em detrimento de outros. “A ideia de transformar a inflação na questão central do dilema econômico tem sido utilizada principalmente pelo pensamento conservador, numa forma de política monetária que beneficia os rentistas. Dentro dessa ideia, as variações inflacionárias são inadmissíveis. Assim, justificamse políticas que favorecem aqueles que têm títulos da dívida pública. O BC utiliza toda e qualquer variação de preço acima da meta como uma forma de reafirmar sua política monetária”, define. De acordo com a economista Leda Paulani, da Universidade de São Paulo, a obsessão anti-inflacionária do BC é justificada por meio de um consenso formado nos últimos 20 anos que antecederam o Plano Real, quando o país passou por um período de inflação alta, que chegou até a 200% ao ano. Porém, Paulani explica que nem mesmo naquele período o país atravessou um cenário de hiperinflação – situação

A presidenta Dilma durante a posse do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini

zendo crescer as quantidades ofertadas dos bens e serviços e fazendo diminuir a quantidade procurada. Se você opta pela segunda possibilidade, a continuação disso prejudica os investimentos em produção e resulta, a médio e longo prazo, em queda nas quantidades ofertadas, causando assim o efeito contrário ao que se alegava pretender”, avalia.

“É isso que ocorre com a elevação das taxas de juros, a qual, além de incrementar, em vez de impedir a inflação, acaba tornando-a crônica” que já existiu na Alemanha entre-guerras, quando a alta dos preços atingia até 1.000% ao dia. “A forma como se enxerga o problema da inflação muda de teoria para teoria. Na chamada ortodoxa, a causa da alta dos preços é o excesso de moeda na economia, que expressaria um excesso de demanda, ou seja, haveria mais demanda do que oferta. Nessa visão, o remédio é cortar moeda, pois corta demanda. Normalmente, tem dois caminhos para isso: o monetário, com a elevação das taxas de juros e do compulsório dos bancos, e a via fiscal, que reduz gastos do governo”, aponta a economista. Sob a luz da explicação de Paulani, percebese que o governo Dilma Rousseff aplicou todo esse receituário ortodoxo: elevação de 1 ponto porcentual da Selic em três meses e contingenciamento de gastos públicos recorde. A economista considera os juros praticados no Brasil como altíssimos, diante de uma inflação “ridiculamente pequena”.

vai ter efeito nenhum, ninguém é maluco. Mas considera que não necessariamente o aumento de liquidez provoca um surto inflacionário”, diz. Efeito contrário

O economista da Universidade de Brasília Adriano Benayon alerta que as escolhas feitas pela equipe econômica podem surtir efeito inverso ao esperado. “A teoria econômica que se aplica à questão, de forma indiscutível, é bem genérica e simples: a inflação dos preços de bens e serviços é reduzida, fa-

Leda Paulani considera os juros praticados no Brasil como altíssimos, diante de uma inflação “ridiculamente pequena” Outra visão

Em contrapartida ao pensamento ortodoxo, Paulani descreve a teoria chamada heterodoxa ou alternativa – dividida internamente em várias correntes. “Na teoria ortodoxa, a relação de causa-efeito vai ser de moeda para preço. Na visão alternativa, isso nem sempre é verdade. Há pressões de elevação de preços que acabam por gerar aumento de moeda na economia. A visão de causa-efeito é inversa. Se há uma desvalorização cambial, você tem uma pressão sobre os preços que começa no próprio preço. Isso diferencia o que se chama de inflação de demanda [na visão ortodoxa] de inflação de custo [na heterodoxa]. A relação de causa-efeito é invertida de preço para moeda”, explica. No entanto, o pensamento heterodoxo não despreza a relação entre oferta e demanda como causadora de inflação. “Não é que o heterodoxo não concorde que se dobrar a oferta de moeda não

Benayon afirma que a continuidade dessa política econômica pode trazer de volta o problema que foi apontado como o maior fantasma, a volta de um cenário inflacionário sério. “É isso que ocorre com a elevação das taxas de juros, a qual, além de incrementar, em vez de impedir a inflação, acaba tornandoa crônica, além de fazer aumentar diretamente os preços dos bens e serviços, também por efeito do aumento dos custos de produção”, aponta.

“Inflação não é irrelevante” Combate à inflação no Brasil não beneficia mais pobres, diz economista da Redação Apesar de economistas heterodoxos considerarem a obsessão do BC no combate à inflação como um mal para o desenvolvimento econômico, estes não desprezam os efeitos ruins que a alta de preços pode causar. A diferença, no entanto, é que os heterodoxos não apontam a elevação de taxa de juros e corte de gastos como solução para a manutenção dos preços em um patamar razoável. Paulo Passarinho, do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro, por exemplo, afirma que não é “um daqueles que consideram a inflação como um processo de menor importância”. No entanto, as medidas apontadas pelo economista divergem da prática aplicada pelo governo. Passarinho aponta que se o governo impusesse maior rigor fiscal às exportações, por exemplo, haveria uma tendência de voltar a produção de alimentos para o mercado interno. Com maior oferta de produtos alimentícios, os preços praticados para o consumidor final tenderiam a reduzir. Outra alternativa apontada pelo economista é o controle do oligopolização

da economia. “Ficamos reféns daqueles que podem tabelar os preços”. Passarinho também aponta o próprio setor público como responsável pelo aumento dos preços, sobretudo na área de transportes. No início de 2011, quase 20 grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, aumentaram o preço do transporte público acima da inflação.

“Serviços públicos privatizados também fizeram elevar os preços e os custos de produção” Ruim a longo prazo

Adriano Benayon, economista da UnB, sustenta que a inflação no atual patamar é tolerável, mas seria prejudicial a longo prazo. “Isso acabaria forçando indexações, as quais teriam por consequência tornar difícil impedir taxas ainda maiores. De qualquer forma, não há necessidade dessas taxas de inflação [entre 5 a 10% anuais]. A médio e longo prazo, a redução da inflação deve ser ajudada através da desconcentração da oferta. Ora, no Brasil está ocorrendo cada vez maior concentração, além de que os serviços públicos privatizados também fizeram elevar os preços e os custos de produção”, salienta. (RGT)


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fatos em foco

Hamilton Octavio de Souza

Aproximação As posições do governo Dilma nas comunicações – papel da Telebrás, regulação da banda larga etc – estão sendo bem recebidas pelos empresários e pela mídia conservadora. Primeiro a Folha de S. Paulo comemorou o discurso da presidente no aniversário do jornal; depois, articulista da Opus Dei no Estadão teceu elogios à “visão da presidente”; e no dia 9 de março o próprio editorial do Estadão endossou o “bom começo” do atual governo. É assim mesmo ou algo está fora de lugar?

Protesto do Sindijor em rua de Curitiba

Desde outubro, jornalistas do Paraná lutam por aumento real PARANÁ Outros dilemas da categoria são a jornada, a intensificação do trabalho e o fechamento de postos Pedro Carrano de Curitiba (PR) JÁ SE VÃO CINCO meses e a categoria dos jornalistas do Paraná não acertou a data-base de 2010, justamente o ano considerado pelos índices da economia como favorável ao aumento salarial. As empresas de comunicação – em que figuram o Grupo Paranaense de Comunicação (GPRcom) e o Grupo Paulo Pimentel (do ex-governador e empresário da comunicação), entre outros, recusam-se explicitamente a conceder reajuste acima da inflação. Como informa o Sindicato dos Jornalistas do Paraná (Sindijor-PR), dentre as 500 maiores empresas do sul do país, encontra-se o Grupo GRPcom, que teve lucro líquido de 73,58% em 2009. “É um fenômeno, e quanto eles ofertaram para os trabalhadores? Nada. Pagaram um programa de participação nos resultados (PPR) no qual eles tomaram dos trabalhadores 2%, porque não teve reposição integral da inflação”, denuncia o presidente do Sindijor, Márcio Rodrigues. Em entrevista ao Brasil de Fato, o sindicalista analisa a condição da categoria, impasses como a mobilização, a jornada de trabalho e a dispensa de mão de obra nos locais de trabalho.

Brasil de Fato – O prolongamento da data-base é uma situação nova que o sindicato enfrenta? Márcio Rodrigues – Não. Em alguns momentos, quando a inflação foi maior, tivemos uma negociação mais prolongada, mais difícil de encontrar uma solução. Mas, segundo o Dieese, diante do quadro econômico que vivemos pelo menos nos últimos seis anos, tivemos um crescimento no número de negociações positivas, nas quais os trabalhadores receberam acima da inflação. Esses números vieram num crescente a partir de 2004 até atingir 87% de categorias que receberam aumento real no semestre passado. Nos últimos seis anos, é muito próximo de 100% o número de categorias que em algum momento receberam aumento real. E os jornalistas do Paraná fazem jus por receber algum tipo de reconhecimento, como eles estão inseridos na economia como um todo, nós também fizemos com que o bolo crescesse. Nesse sentido, lutamos por aumento real.

“Perdemos muitos postos de trabalho nos últimos 15 anos, que raramente são repostos” O sindicato esperava essa reação da patronal? Sim. Eles infelizmente são mesquinhos. Embora seja público e notório que anualmente eles atualizam seus carros, adquirem novos bens, sempre viajando e aproveitando a vida da melhor maneira possível, todos que trabalham para eles precisam apertar muito o cinto. É uma situação completamente absurda, na qual percebemos que eles ficam mentindo na mesa de negociação, dizendo que os veículos de comunicação estão quebrados. Utilizam o exemplo de alguns jornais que fecharam no Paraná, como é o caso do fim da edição impressa do jornal O Estado do Paraná,

do fim do jornal Diário Popular como empresa, do fim de um jornal de Foz do Iguaçu também como jornal impresso, mas que são casos isolados, de gestões para lá de descabidas. Ou seja, você não sabe administrar uma empresa e a fecha por falta de competência da sua administração.

O Diário Popular, fechado em 2010, com um importante parque gráfico que agora está abandonado, foi um exemplo disso? O Diário Popular foi um caso absurdo. [O proprietário] era um achacador, entre os empresários de comunicação, que funcionava como testa de ferro de outras empresas, e buscava dinheiro do Estado para colocar nessas empresas. Ele morreu e não havia ninguém que pudesse substituílo, muito menos as duas filhas, que herdaram um veículo de comunicação impresso, muito enxuto, com oito jornalistas, mas que era muito mais um parque gráfico, porque uma redação com oito jornalistas não dá conta sequer de uma cidade como Curitiba, que dirá de uma Região Metropolitana com quase 3,5 milhões de pessoas. É uma situação absurda, e a maioria dos veículos de comunicação no Paraná trabalha dessa mesma maneira, com enxugamento. Perdemos muitos postos de trabalho nos últimos 15 anos, que raramente são repostos. E um jornalista trabalha às vezes duas, três vezes, substituindo dois ou três colegas demitidos e não tem nenhum centavo de reposição salarial, aí quem perde – além da categoria dos jornalistas, que é um problema econômico – é o conjunto da sociedade, quando você vê que o jornalismo praticado não é questionador. Não é pecado do próprio profissional, mas com duas ou três pautas para escrever por dia é praticamente impossível um momento de reflexão, você faz de maneira mecânica a coisa.

“Não é pecado do próprio profissional, mas com duas ou três pautas para escrever por dia é praticamente impossível um momento de reflexão” Apesar do discurso de neutralidade que incide sobre o jornalista, é fato que os empresários da comunicação são articuladores políticos. Uma forma de politizar a categoria é unir-se a lutas políticas, como a democratização da comunicação? É necessário resgatar isso em relação às novas gerações de jornalistas. Até porque, em função dessa pouca mobilidade no cenário laboral, abrindo poucas vagas, pouca gente tem entrado nos veículos de comunicação, e as mudanças que ocorrem vêm no sentido de “eu não aguento mais esse salário ridículo então vou mudar de atividade”. Em relação à mobilização e às outras questões sociais: a questão dos sem terra, dos trabalhadores de outras categorias, da democratização da comunicação, são importantes para o conjunto da sociedade, mas pouco vemos participação a não ser de jornalistas que infelizmente não atuam nos veículos de comunicação. Parece que, à medida que você entra em um veículo de comunicação, você já está tão direcionado, que eu queria “conhecer o pauteiro” que pauta da Globo à CNT, passando por todas as outras TVs. E aí o espaço público é ocupado sempre pelas mesmas discussões e no mesmo viés, e pouco se vê discussões novas, fontes que pensem diferente do que é o estabelecido como o principal, e a gente pensa que seria tão bom praticar o jornalis-

mo, por que ele não acontece de fato? O jornalista às vezes faz a autocensura, pior do que aquela que ocorria na época da ditadura militar.

Pode aprofundar esta questão da ampliação das empresas em contradição com a oferta de trabalho restrita? Temos problemas de empregabilidade. Não é fácil conseguir emprego em uma empresa de comunicação hoje em dia. O número de postos de trabalho não tem aumentado significativamente, embora as empresas têm crescido e apresentado novos produtos para o mercado editorial. Ao mesmo tempo, você tem um número muito grande de instituições colocando em média entre 400 a 600 novos “profissionais” no mercado de trabalho. A falta de empregabilidade é fruto desse número elevado, desse grande exército de reserva. É possível fazer uma leitura marxista dessa situação: quando se vê muita gente para trabalhar e pouco posto de trabalho disponível, [o empresário] consegue rebaixar o valor daquilo que se paga. Acabei de receber uma denúncia de uma revista que está pagando R$ 1.200 (o piso da categoria é R$ 2.049,11) por jornalista, anunciando aos quatro ventos.

“O jornalista às vezes faz a autocensura, pior do que aquela que ocorria na época da ditadura militar”

Nesse contexto, a aplicação da jornada de trabalho de cinco horas, no Paraná, foi feita sem qualquer contratação por parte dos empresários? Precisamos fazer outra leitura. Os demais estados, pressionados pelos empregadores, adotaram a jornada estendida de sete horas. Nós não deixamos isso acontecer. Porque a determinação da jornada de cinco horas está na CLT desde 1943. Nunca deixamos que isso fosse estendido. Existe tanto a jornada estendida quanto a jornada de cinco horas, e aí são pisos diferenciados. O que temos aqui no Paraná é um piso único e uma jornada única. Em 2009, infelizmente, por força da pressão patronal e da falta de esclarecimento dos nossos colegas que trabalham em determinada empresa, “conseguimos” perder essa grande conquista. Perdemos a oportunidade de manter aquilo que os empresários e alguns jornalistas com a visão de “desenvolvimentismo” (para aumentar a exploração) entendem como um absurdo, pois o jornalista tem que trabalhar bastante. A derrota de 2009 é que nas empresas da RPC (retransmissora da Rede Globo), que agora é GRPcom, os jornalistas são obrigados a trabalhar seis horas internamente, e sete horas externamente. A reportagem tem que trabalhar sete horas, e seis horas quem trabalha interno. Eles abriram mão, primeiro do único gatilho que existe no Paraná para repor perda salarial, que é o anuênio, e abriram mão também de parte da reposição de inflação do período, fechado junto com a Convenção Coletiva. Abriram mão de ter esta jornada reduzida, e receberam como contrapartida essa hora a mais pré-contratada, paga a 50%, sendo que a nossa Convenção Coletiva estabelece que a hora-extra deveria ser paga a 100%. Ou seja, abriram mão de muitas conquistas históricas da categoria no Paraná.

QUEM É Márcio Rodrigues é presidente do Sindicato dos Jornalistas do Paraná (Sindijor-PR) e repórter do jornal O Estado do Paraná.

Equívoco danoso De 2003 a 2010, no governo Lula, a importação de produtos industriais saltou de 13,8% para 24% do que é consumido no Brasil. Essa política de importação não apenas reduz o parque industrial nacional, provoca desemprego, rebaixa a renda, aumenta a dependência externa e a influência do dólar na economia, mas, sobretudo, faz o país perder o conhecimento e o domínio da tecnologia. Andamos para trás! Modelo global Em 10 anos (1988-2008), a renda per capita média dos principais países desenvolvidos – EUA, Japão, Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Canadá e Austrália – passou de 18 mil dólares para 43 mil dólares; no mesmo período, a renda média nos principais países subdesenvolvidos – China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, México, Argentina e África do Sul – passou de 1.300 dólares para 6 mil dólares. A diferença de renda entre os grupos aumentou mais de 120%. Combatividade Uma categoria profissional constituída nos últimos anos, a dos trabalhadores em tecnologia da informação, decidiu, no estado de São Paulo, decretar estado de greve e ingressar com dissídio coletivo na Justiça do Trabalho. Eles reivindicam 11,9% de reajuste salarial, participação nos lucros das empresas, vale refeição de R$15 e ampliação dos pisos da categoria. No último ano, o crescimento do setor chegou a 15%. Denominação A continuar com a acelerada desnacionalização da agroindústria da cana, açúcar e etanol, dentro de algum tempo chamar os usineiros de “heróis nacionais” vai soar mais estranho ainda, já que chineses, coreanos e outros grupos empresariais estão tomando conta do setor. Na última semana, a British Petroleum adquiriu três usinas em Itumbiara (GO), Ituiutaba (MG) e Campina Verde (MG). O Brasil entra com a terra, água, sol, verbas públicas e mão de obra barata. Luta ambiental A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA encaminhou ao governo brasileiro, dia 10, pedido de informações sobre o licenciamento da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará, sem que as comunidades indígenas tenham sido ouvidas. O Movimento Xingu Vivo, com o apoio de mais de 40 entidades e movimentos sociais, pede a imediata suspensão da licença dada ao consórcio Norte Energia. A luta continua. Crise anunciada Aumentou pouco, mas continua em elevação o número de falências requeridas nos últimos três meses: em dezembro de 2010 foram 124 empresas; em janeiro de 2011 subiu para 131empresas; e em fevereiro aumentou para 134 empresas. Os analistas do indicador Serasa Experian consideram que essa tendência é resultado do aumento dos juros, crédito mais caro e desaceleração da economia. Até onde vai? Alteração legal Projeto de Lei da deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) dá nova interpretação para a Lei da Anistia, aprovada na Ditadura Militar. Considera que não podem ser contemplados na lei de 1979 os crimes conexos, que são aqueles praticados por agentes do Estado, militares ou civis, contra pessoas envolvidas na luta política contra o autoritarismo. O projeto deixa claro que a anistia não abrange torturadores e assassinos do regime militar. Criminalização Alvo de escandalosa armação da polícia e do Ministério Público de São Paulo, o líder do Movimento de Moradia do Centro, Luiz Gonzaga da Silva, Gegê, será levado a julgamento nos dias 4 e 5 de abril. Ele é acusado injustamente por homicídio ocorrido em 2002 num acampamento de sem teto, sendo que o verdadeiro autor do crime – já reconhecido – não foi investigado pela polícia. Liberdade para Gegê! Chega de perseguição!


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Estatais chinesas avançam sobre o petróleo brasileiro Reprodução

SOBERANIA Através da compra de ações, duas companhias da China trabalham para disputar o controle do pré-sal Leandro Uchoas do Rio de Janeiro (RJ) ELES NÃO PARTICIPARAM de nenhum leilão promovido pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). Não anunciaram com alarde suas intenções de exploração do petróleo nacional, nem seus negócios já efetivados. Silenciosamente, porém, o capital chinês já lança seus musculosos tentáculos sobre o pré-sal brasileiro. Duas estatais do país compraram ações de empresas que permitiram que tivessem acesso a uma área de 1.232 km2. O valor equivale a 90,5% da região sob controle da britânica BG, com 1.361 km² no total. Para tanto, as empresas asiáticas investiram um total de 10,2 bilhões de dólares nas bacias de Campos, Santos e Espírito Santo. Uma delas, a China Petroleum e Chemical Corporation (Sinopec), comprou 40% da espanhola Repsol, entrando indiretamente nos campos Carioca e Guará, na Bacia de Campos. A empresa chinesa participou de um aumento de capital, e subscreveu as ações da Repsol. Da manobra financeira, nasceu a empresa Repsol Sinopec Brasil, com participação minoritária em 14 blocos exploratórios, e valor estimado em 17,8 bilhões de dólares. Já foram descobertos, no local, 31 reservatórios, em fases distintas de exploração. Alegando não ter um porta-voz no Brasil, a Sinopec afirma que detalhes da negociação seriam obtidos apenas com a Repsol. Mas a empresa espanhola não dá maiores detalhes, afirmando apenas que “não existe acordo sobre o destino da parte do petróleo que cabe à Sinopec na associação”. A maneira como o negócio foi efetivado permite à empresa chinesa não se habilitar como concessionária da ANP. A Sinopec também não poderia ser responsabilizada por eventuais acidentes. A Repsol já opera em sete áreas no Brasil. Conclui-se que, provavelmente, as decisões quanto ao desenho dos projetos de produção e as aquisições de equipamentos e serviços caberão principalmente à chinesa.

Independência

Em fevereiro, a Agência Internacional de Energia (AIE) divulgou relatório com o impacto do investimento das estatais chinesas no petróleo mundial. Um dos principais objetivos, segundo a agência, era investigar o nível de ingerência do governo chinês sobre as estatais. A conclusão surpreendeu o sentimento anteriormente generalizado, de que haveria forte interferência governamental nos destinos das empresas. Os dados indicam “alto grau de independência”. No relatório, afirma-se ainda que os investimentos das empresas induzem ao aumento das reservas mundiais de petróleo.

Posto de gasolina da Sinopec em Hong Kong

Numa outra vertente, a estatal Sinochem comprou 40% do campo de Peregrino, na bacia de Campos, da norueguesa Statoil. Foram gastos 3,1 bilhões de dólares. O campo entrará em produção nos próximos meses. A chegada dos chineses traz duas perguntas ainda sem resposta.

A maneira como o negócio foi efetivado permite à empresa chinesa não se habilitar como concessionária da ANP A primeira delas diz respeito à percentagem de petróleo produzida no país que caberia aos orientais. Existiria acordo sobre isso? A outra se refere à origem dos serviços e equipamentos a serem utilizados na exploração do petróleo nas áreas sob controle da espanhola. Respostas a essas questões são difí-

ceis, uma vez que as empresas não têm se pronunciado. “É ruim que o setor público brasileiro não tenha total controle sobre o nosso petróleo. Vejo com preocupação a entrada da China. A gente defende que o petróleo brasileiro seja mantido onde está, por enquanto. O mundo não vive uma situação de escassez. Quando o controle sai das mãos do governo, fica mais difícil” defende Paulo Piramba, ambientalista. Em 2010, as duas estatais já haviam tentado comprar a Devon, e parte da OGX, de Eike Batista. Interessante notar, no modelo de atuação das estatais chinesas, que uma vez que se inserem no mercado, também trazem sua mão de obra. No Gasoduto do Nordeste (Gasene), financiado pelo China Eximbank, tentaram contratar chineses, mas a Petrobras obrigou-os a empregar trabalhadores locais. Na Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), na Baía de Sepetiba, a chinesa Citic tentou trazer 2 mil trabalhadores, quando a indústria esta-

Alheios à conservação do planeta Em 2010, a China importou quase 5 milhões de barris de petróleo Reprodução

do Rio de Janeiro (RJ) O crescimento da participação da China no mercado mundial não tem dado sinais de preocupação com a mudança da matriz energética mundial. No sentido oposto às preocupações dos ambientalistas, que clamam pelo investimento em energia limpa, o governo chinês tem buscado petróleo e gás natural com voracidade cada vez maior. A produção do próprio país, em 2009, foi de 4 milhões de barris por dia, o dobro do que produz a Petrobras. Mas a demanda interna é muito maior. Importadora desde 1993, no ano passado a China introduziu no país quase 5 milhões de barris por dia. Acredita-se que, em cinco anos, o país consuma metade do petróleo produzido no mundo. Em tempos de aquecimento global, nada mais grave. O gás natural começou a ser importado há cinco anos, com demanda crescente. A quantidade necessária para a China deve chegar, em breve, a 340 bilhões de metros cúbicos, sendo que o país é capaz de produzir muito menos do que isso. Por isso, as estatais chinesas avançam sobre o petróleo de outros países. Hoje elas têm participação na produção de 20 dos 31 países, onde operam na produção de petróleo. Atuam, em geral, em parceria com estatais ou grandes corporações privadas. Aos poucos, o país adquire condições de competitividade. Boa parte da cota produzida para o suprimento chinês já está sendo vendida para outros países. A evolução da exploração dá conta de que, em 2030, a nação asiática vai importar nada menos do que 79% do que consome em petróleo. As empresas da China, de modo geral, estão investindo de forma impactante na Ásia, na África e no Oriente Médio, inclusive no setor energético. O objetivo é aumentar as reservas, expandir a produção e diversificar as fontes de abastecimento. Os países onde são feitas as

va em obras. O Ministério do Trabalho só permitiu 600. Os chineses ainda estão, até hoje, na empresa. Na África, onde os chineses entraram com todo o fôlego, cada investimento vem acompanhado dos trabalhadores chineses. Muitas vezes, moram nas embarcações que os trouxeram. Na área de petróleo, porém, onde o país não tem tradição, não se sabe se a política será adotada.

“É ruim que o setor público brasileiro não tenha total controle sobre o nosso petróleo. Vejo com preocupação a entrada da China” No entanto, os pesquisadores Julie Jiang e Jonathan Sinton lamentaram não conseguir mensurar as diferenças entre os investimentos chineses na África e na América Latina, comparando inclusive com o de outras empresas do setor, de outros países. A relação entre o mercado interno do país, os investimentos externos, e os efeitos de uma eventual queda no fornecimento de energia também foram dados difíceis de medir. Em 2010, as estatais chinesas investiram 15,7 bilhões de dólares em empresas de petróleo na América Latina. Para se ter uma ideia do que isso significa, basta dizer que todo o montante gasto em fusões e aquisições realizados por empresas chinesas, no ano anterior, soma 18,2 bilhões de dólares – o que representa 13% do valor a nível global.

Folia engajada Campanha “O Petróleo Tem Que Ser Nosso” patrocina 13 blocos do Carnaval do Rio de Janeiro (RJ)

A economia chinesa avança: descaso com o meio ambiente

principais aquisições são: Arábia Saudita, Rússia, Líbia, Irã, Iraque, Kuwait, Omã, Sudão, Angola e Cazaquistão. Na América do Sul, a Venezuela é considerada um importante parceiro. Apenas no primeiro semestre de 2010, o país sul-americano destinou aos orientais de 155 mil a 400 mil barris por dia. Está em fase de construção, no sul da China, uma grande refinaria, a PetroChina, que vai aumentar consideravelmente o volume de negócios entre os dois países. O interesse dos chineses no petróleo latino ficou claro em março de 2010, após uma grande aquisição. Metade da Bridas Corporation foi comprada pela China National Offshore Oil Corporation (CNOOC). A empresa tinha 40% da Pan American Energy. A CNOOC comprou também as duas maiores exportadoras de petróleo da Argentina. Em novembro, a estatal comprou os outros 60% da Pan American, que pertencia à britânica BP. Outra chinesa, a State

Grid, também apresentou movimentos que podem indicar interesse em entrada no setor de geração energética. Com R$ 1,7 bilhão, comprou, em 2010, sete empresas de transmissão de energia. Contatos feitos com a Eletrobrás, propon-

As empresas da China, de modo geral, estão investindo de forma impactante na Ásia, na África e no Oriente Médio do parcerias, preocuparam os brasileiros, que teriam dificuldades de competir, caso a empresa avance no Brasil. Os movimentos chineses sobre o xadrez do petróleo são feitos sem alarde, minuciosos. Consensual, o crescimento incessante de sua participação no mercado gerará danos nocivos ao meio ambiente terrestre. (LU)

Ao som do tamborim, sob um céu de serpentinas, a defesa animada e apaixonada do petróleo nacional. Sambando, compondo e cantando, os ativistas da causa petroleira atravessaram, de forma alegre e politizada, os quatro dias de folia. A campanha “O Petróleo Tem Que Ser Nosso” esteve presente em todo o Carnaval, patrocinando 13 blocos. Tanto os alternativos como os tradicionais da esquerda carioca receberam o apoio, e reuniram a militância. Os leques vermelho-amarelos da campanha eram vistos por todos os blocos do Rio. Ao todo, foram produzidos 70 mil para o Carnaval. Até o senador gaúcho Paulo Paim (PT) esteve presente, homenageado pelo Bloco dos Aposentados. “Esse ano, a gente conseguiu superar 2010. Foi uma repercussão muito boa”, avalia Edison Munhoz, do Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro-RJ) Na segunda-feira, dia 7, a escola de samba Unidos de Cosmos, do grupo D do Carnaval, desfilou no Campinho, zona norte da cidade. O enredo era “Do reino das águas de Monteiro Lobato ao ouro negro do pré-sal, Cosmos desvenda a saga do petróleo”, e tinha alas dedicadas à campanha. Entre sindicalistas, estudantes e militantes de movimentos sociais, 80 pessoas compuseram a ala da campanha. Outra ala, dedicada à “O Petróleo é nosso”, das décadas de 1940 e 1950, também teve 80 integrantes. A mídia alternativa também foi prestigiada. O bloco Fala Puto Que Eu Te Escuto, de comunicadores populares, em seu segundo ano, também contou com o apoio da campanha, e lotou a Cinelândia. Blocos como Maria Vem Com As Outras, Rola Preguiçosa e Passa a Régua de Bangu também receberam apoio. (LU)


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cultura Fotos: Babi Balbis

Quesito revolução: deeeez! DESFILE Presidente da escola de samba campeã do carnaval de Santa Catarina em 2011 conta a história do enredo “Cuba sim, em nome da verdade” Vinicius Mansur de Brasília (DF) RECHEADOS DE simbolismo, os 2,5 mil integrantes da escola de samba catarinense União da Ilha da Magia levaram para avenida uma bateria fardada de guerrilheiros, um carro alegórico com a escultura de José Martí, um casal de porta-bandeiras ilustrando a amizade CubaUnião Soviética e toda uma aula de história ao ritmo de samba. O sambódromo Nego Quirido viu desfilar o antes, o durante e o depois da Revolução Cubana. As primeiras dentre as 22 alas representavam o “Tio Sam” e o “Paraíso de ricos e milionários”. Um carro alegórico em forma de tanque de guerra, trazendo a bordo um sósia de Che Guevara ao lado da filha do revolucionário, Aleida Guevara, simbolizava a tomada do poder. Alas intituladas “Nacionalização das empresas estrangeiras”, “Reforma agrária”, “Saúde para todos”, “Indústria farmacêutica e biotecnologia”, “Esporte – conquista de medalhas”, “Educação para todos” (composta apenas por crianças), entre outras, trouxeram as conquistas da Revolução. Em entrevista ao Brasil de Fato, o presidente da União da Ilha da Magia, Valmir Braz de Souza, fala da relação da escola com a política e conta um pouco da trajetória da jovem agremiação – que tem apenas três anos – neste carnaval. Brasil de Fato – Por que Cuba? Como surgiu a ideia de ter o país como centro do enredo? Valmir Braz de Souza – Eu sou do movimento sindical, atualmente coordenador geral do Sindsprev/SC [Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Previdência do Serviço Público Federal no estado de Santa Catarina]. No ano passado participei da 14º brigada sul-americana de solidariedade ao povo cubano. Fiquei três semanas lá nesta brigada, organizada pela associação José Martí. Era janeiro e a preparação para o carnaval estava no auge. Então, quando estava lá, com aquela musicalidade, com a recepção que tive, surgiu a ideia de propor Cuba para o enredo do ano seguinte [2011]. Eu não era presidente da escola, era diretor. Levei a ideia para a diretoria, discuti com o carnavalesco Jaime Cesário, que foi a Cuba, ficando duas semanas junto com o diretor de carnaval da escola, Joel Brito Júnior. Daí, gostamos do enredo que eles prepararam, a comunidade gostou e começamos a trabalhar. Desenho de fantasias, preparação dos carros. O concurso para escolher o samba foi inédito, tivemos seis sambas inscritos. Apresentamos o projeto para o cônsul cubano no Brasil, apresentamos para a embaixada em Brasília, e eles também gostaram.

“O enredo não foi comercializado. Há escolas que o vendem, nós não. A escola se paga com ensaios que fazemos durante o ano” Cuba financiou a escola? Não, o enredo não foi comercializado. Há escolas que o vendem, nós não. A escola se paga com ensaios que fazemos durante o ano – que estavam sempre lotados –, com os produtos que vendemos da escola – vendemos mais de 5 mil camisetas feitas para o enredo deste ano – e com a venda de fantasias – todas foram

vendidas e se tivéssemos mais mil, venderíamos também, porque a procura foi enorme. Foi surpreendente a aceitação que a escola teve este ano e nós somos caçulas, temos só três anos, enquanto outras já têm 20, 30 anos. Além disso, também recebemos recurso público, através de um projeto que temos na Lei Rouanet e também porque aqui em Santa Catarina a liga de escolas ainda não é dona do carnaval, mas a prefeitura. A gente quer acabar com isso, mas existe uma verba do governo. Como vocês foram tratados pela mídia, uma vez escolhido Cuba como tema para o enredo? O Reinaldo Azevedo, da Veja, nos atacou em seu blog, que chegou a mais de 800 comentários quando ele falou de nós. Fora o Azevedo, a maioria das reportagens foi favorável. Com a confirmação da vinda de Aleida Guevara [filha de Ernesto Che Guevara] para o desfile, tivemos até mídia internacional. E quando fomos para a avenida já éramos considerados favoritos. Entramos bem, queríamos fazer um desfile técnico perfeito para não dar sustentação às críticas políticas. E fizemos um belíssimo carnaval. Havia alguém de Cuba, além da Aleida Guevara, no desfile? O cônsul de Cuba veio, mas para assistir ao desfile. Teve um cubano que mora em Salvador, na Bahia, que veio só para desfilar na escola. A passagem da Aleida Guevara por Santa Catarina incluiu outras atividades além do desfile? Ela participou de várias palestras, lotadas, sobre o dia da mulher, visitou o Hospital Infantil, ela que é médica, uma universidade pública, tudo junto ao movimento social e sindical de Santa Catarina. E desfilou muito bem. Até no desfile das campeãs ela desfilou. Interessante que ela sempre era perguntada pela imprensa sobre a homenagem que estava sendo feita ao pai dela e ela enfatizava que a homenagem era ao povo cubano. E essa era realmente a nossa ideia.

“Com a confirmação da vinda de Aleida Guevara [filha de Ernesto Che Guevara] para o desfile tivemos até mídia internacional” Vi o desfile na internet e a Aleida Guevara comentou durante a transmissão que havia militantes do MST na passarela. Tinha presença de muitos militantes? Havia muita gente do movimento sindical e social, o prefeito de Brusque, do PT, um deputado estadual do PDT, um major da Polícia, um diretor da Defesa Civil, pessoas que foram atraídas pelo tema. Os militantes do MST estavam na arquibancada, com uma faixa, algo inédito em nosso carnaval. Pode-se dizer que a escola é de esquerda? Não. A única relação que a escola tem é que como eu sou dirigente sindical, sou do Psol, fui dirigente da associação de moradores. E quando eu estava lá, quando a escola ainda era um bloco, me pediram ajuda para fazer o carnaval no nosso bairro, a Lagoa. Depois fui convidado para ser da diretoria do bloco. Mas a escola não tem filiação partidária, eu tento separar isso, os outros diretores não são de partido.

Detalhes do desfile da União da Ilha da Magia

Você vê na escola de samba uma forma de fazer política? Sim, não tenho dúvida disso. Se me mandar sambar eu não vou saber. A gente ocupa um espaço numa comunidade, tem um espaço político muito grande, mas não é um espaço político partidário.

“Os militantes do MST estavam na arquibancada, com uma faixa, algo inédito em nosso carnaval”

Aleida Guevara ao lado de um sósia do Che

O samba abre fronteiras para o espaço comum. E neste ano ajudamos a levar o tema de Cuba para outros espaços. Uma professora, que comentava o desfile na RBS, disse que a União da Ilha da Magia inovou e abriu um horizonte que não havia, trazendo para dentro do carnaval um tema da esquerda brasileira, que ela não via problema nisso, isso é importante. E é legal perceber também como o carna-

val cresceu este ano no estado, atraindo mais público, escolas mais fortes, mais bonitas. E este carnaval consagrou o enredo que homenageia o povo cubano. Vocês seguirão com temas políticos para o próximo carnaval? Somos uma escola nova que não tem os vícios das escolas antigas, o que nos permite inovar. Mas ainda faremos um planejamento para 2012. Claro que com a repercussão de Cuba podemos ir para temas políticos, mas não é certo. Temos na história de Santa Catarina vários temas políticos, como A Novembrada, a República Juliana, o Contestado. Mas não quer dizer que seguiremos só com política.

QUEM É Valmir Braz de Souza é presidente da escola de samba União da Ilha da Magia, de Florianópolis (SC), e coordenador-geral do Sindsprev/SC.


áfrica

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Território-chave para os EUA LÍBIA Imprevisibilidade política no Magreb e riqueza em petróleo põem o país do norte-africano como prioridade do imperialismo White House/Pete Souza

Eduardo Sales de Lima da Redação OS ESTADOS UNIDOS, imperialistas que são, precisam atualizar sua geopolítica na região do Magreb e, em consequência, no próprio Oriente Médio após a queda de Hosni Mubarak, no Egito, e de Zine El Abidine Ben Ali, na Tunísia. Seja por conta do petróleo ou da tranquilidade de Israel, a Líbia transformou-se em território-chave para os interesses de Washington na região. Os Estados Unidos, vorazes por mais uma intervenção militar, reconhecem, entretanto, que a situação se difere sobremaneira de Iraque e Afeganistão. No dia 26 de fevereiro, Barack Obama optou por uma solução política, assinando o decreto com sanções unilaterais contra a Líbia. A proposta de uma zona de exclusão aérea, por sua vez, não obteve respaldo na Organização das Nações Unidas (ONU). A ideia entre alguns setores do governo estadunidense seria a de que, enquanto a Força Aérea dos Estados Unidos garantisse uma zona aérea livre, as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) realizariam uma missão de “ajuda humanitária” em Benghazi e nos territórios libertados. Membros da Otan, como a Turquia, tampouco aceitaram tal proposta. Insistência

Mesmo assim, os Estados Unidos “não se fizeram de rogado”. Parecem pouco se importar com resoluções que não sejam as suas. A saber: nos últimos dias, a TV Al Jazeera veiculou gravações que captaram conversas entre uma aeronave estadunidense e o controle aéreo de Malta, país do Mediterrâneo próximo à Líbia, requisitando informações sobre voos líbios, especialmente sobre um jato privado do coronel Muamar Kadafi, que teria feito a rota Líbia-Jordânia-Líbia pouco antes do fim de semana dos dias 12 e 13 de março.

A secretária de Estado estadunidense, Hillary Clinton, e o presidente Barack Obama caminham pela Casa Branca

bos os lados, com uma crise humanitária, com as migrações à Tunísia, ao Egito, à Europa, seria possível ocorrer uma intervenção da ONU ou da Otan. Mas penso que eles vão esperar os próximos dias e meses”, explica Buzetto. De imediato, segundo o professor, os Estados Unidos estão pensando em “tentar sufocar o governo líbio, cortando as redes de abastecimento de combustível, de energia e de alimentação”, salienta.

Apesar do movimento estadunidense, uma invasão dos Estados Unidos, isolado ou não, e no atual contexto, é uma operação muito arriscada

“No momento, o que interessa ao ocidente nas zonas petrolíferas líbias é a estabilidade” Petróleo

Mais cauteloso em virtude das perdas de importantes territórios petrolíferos no Oriente Médio, os Estados Unidos, em especial, não perderão a oportunidade de transformar a crise na Líbia em um rentável negócio. “No momento, o que interessa ao ocidente nas zonas petrolíferas líbias é a estabilidade”, atesta o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Virgílio Arraes. Fato é que o país tem perdido importantes territórios, ricos em petróleo e gás natural, ao longo das últimas décadas. “A partir de 1979, perdia o Irã.

Em 14 de março, a secretária de Estado estadunidense, Hillary Clinton, evocou a possibilidade de uma ajuda política e econômica para a oposição líbia, durante um encontro em Paris (França) com um membro do Conselho Nacional de Transição (CNT) líbio, Mahmoud Jibril. Apesar do movimento estadunidense, uma invasão dos Estados Unidos, isolado ou não, e no atual contexto, é uma operação muito arriscada. Isso é o que defende Marcelo Buzetto, professor de geopolítica da Fundação Santo André, da Grande São Paulo. “Com as mortes de am-

Desde 1999, a Venezuela também já saiu da esfera de influência estadunidense. No Iraque, eles não tiveram a eficiência que esperavam, sobretudo por causa das ações de sabotagem contra locais de exploração ou contra caminhões que transportam o petróleo”, enumera Marcelo Buzetto. Além da questão do petróleo, de acordo com Buzetto, também existe mais um fator que conta às empresas petrolíferas e ao Estado estadunidense. Trata-se de um projeto da União Europeia em parceria com os Estados Unidos, já debatido com vários países da África Subsaariana, de construir um gasoduto que passaria por todos os países que têm o deserto do Saara dentro do seu território. “Assim, o gás poderia ser transportado em direção ao oceano Atlântico, ao mar Mediterrâneo e em direção ao Egito, para facilitar o fornecimento de gás para Israel também”, explica Buzetto. Egito

As incertezas a médio e longo prazo em relação aos rumos que tomará um novo governo egípcio também pesam, quase tanto quanto o petróleo, nas novas cartadas de Washington. Para o sociólogo e integrante da direção do Instituto de Cultura Árabe (Icarabe) José Farhat, as relações com o Egito, antes de amizade e proximidade, deverão tomar novos rumos, tendo em vista já dois fatos que causaram calafrios tanto em Tel Aviv como em Washington: a abertura da fronteira com

A revolução transformada em guerra civil Proximidade dos Estados Unidos põe oposição de Muamar Kadafi em xeque da Redação “Ainda que Kadafi caia do poder, isso não significa o progressismo, visto que muitos de seus adversários são tão conservadores quanto ele – há, inclusive, monarquistas.” A frase, de Virgílio Arraes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), lança luz em mais um capítulo do processo pelo qual passa a Líbia, em que a revolta contra Kadafi conta com um grupo extremamente fragmentado. O grosso do oposição está na Cirenaica (parte oriental da Líbia), região onde se encontra Benghazi. Aí funcionam as principais transnacionais petrolíferas e onde se localizam os terminais dos oleodutos e dos gasodutos. Por consequência, está lá a principal concentração de trabalhadores. Dos grupos rebeldes a Kadafi, há os que rejeitam qualquer intervenção estrangeira e que pedem somente o monitoramento de um zona de exclusão aérea no país por parte da ONU. Mesmo essa parte da oposição à Kadafi nunca foi totalmente independente. De acordo com Virgílio Arraes, há anos que os Estados Unidos, via Egito, discretamente apoiam grupos anti-Kadafi. Mas essa aproximação, diz ele, reduziu-se a partir de 2003, quando a Líbia aderiu tardiamente ao ideário neoliberal. “Diante dos protestos em toda a região, é possível que os grupos anti-Kadafi tenham

iniciado por si a oposição mais extrema, com a convicção de que receberiam mais apoio dos Estados Unidos, Egito ou mesmo da Arábia Saudita”, explica.

Há sinais, entretanto, de que revolta na Líbia contra o ditador Kadafi não se guia por anseios progressistas e populares CIA

Há sinais, entretanto, de que revolta na Líbia contra o ditador Kadafi não se guia por anseios progressistas e populares, com objetivo de liberdade e da melhoria das condições sociais do povo líbio. De acordo com Marcelo Buzetto, professor de geopolítica da Fundação Santo André, dentro da frente de organizações que criou o Conselho Nacional de Benghazi, por exemplo, existem inclusive organizações que proclamaram Benghazi como Emirado Islâmico. “O que nos causa dúvidas em relação a esse processo é que setores da oposição estão pedindo para que os Estados Unidos ataquem Trípoli”, pondera. Segundo ele, a direção do movimento de oposição a Kadafi representa forças minoritárias, com pessoas que já tive-

ram vínculos com os Estados Unidos e que têm vínculos com setores de um movimento nacional islâmico que se desenvolve na Líbia. E, como de praxe, há rumores de que a Agência Central de Inteligência (CIA), mesmo que minimamente, tenha participado e participa do processo na região. Há informações de que a chamada Frente Nacional para a Salvação da Líbia tenha sido financiada por ela. De acordo com o sociólogo José Farhat, do Instituto de Cultura Árabe (Icarabe), não há dúvida de que “onde tem petróleo, tem CIA” e, na maioria das vezes, quando se trata de países árabes ou muçulmanos de onde se extrai petróleo ou por onde passam os oleodutos, tem também Mossad – Instituto para Inteligência e Operações Especiais – de Israel. “Na região leste da Líbia, onde se extrai e se exporta petróleo, devem ter derramado dinheiro à vontade para incitar as organizações à rebelião”, atesta. Farhat pondera, entretanto, que nem todas as organizações rebeladas na Líbia receberam dinheiro sujo e “nem tampouco todas aquelas que receberam vão continuar leais às transnacionais do petróleo”. Ao reiterar o que afirmam Virgílio e Farhat, Marcelo Buzetto reforça que a derrubada do governo já ilegítimo de Kadafi não resultará numa revolução anti-imperialista, popular, democrática; e conclui que “a situação de guerra civil prolongada só interessa aos anseios imperialistas”. (ESL)

a Faixa de Gaza e a autorização de passagem de dois navios de guerra iranianos pelo Canal de Suez, “apesar da grita meio surda de Tel Aviv”. “Washington e Tel Aviv passaram então a temer pelo destino que a Junta Militar, sob pressão da Praça Tahrir, poderia dar ao Acordo de Paz Egípcio-Israelense, com a possibilidade até mesmo de sua anulação. Esse acordo contraria abertamente todos os povos árabes e traz consigo o que é considerada uma traição à causa palestina e às aspirações do povo árabe em geral”, defende Farhat.

“Washington e Tel Aviv passaram então a temer pelo destino que a Junta Militar [no poder no Egito], sob pressão da Praça Tahrir, poderia dar ao Acordo de Paz Egípcio-Israelense” Dessa forma, para ele, os Estados Unidos e Israel pensam imediatamente numa forma de “fingir amizade” e preparar o isolamento do Egito. “Israel e Arábia Saudita de um lado, uma Líbia ocupada do outro lado e a marinha estadunidense ao norte”, vaticina.

Contraditória relação da Redação Em 1970, após grandes manifestações nacionalistas, a Líbia, sob a liderança de Muamar Kadafi, expulsou soldados britânicos e estadunidenses do país. Diversas empresas petroleiras ocidentais e sociedades financeiras com a participação de capitais estrangeiros foram afetadas pela Revolução. Na agropecuária, todos os bens italianos foram confiscados, e os colonos e seus descendentes expulsos do país, que se transformava numa nação anti-imperialista, avessa às intenções estadunidenses na região. Mas foi a partir dos anos 1980 que alguns episódios pontuais ilustraram a tensão entre Estados Unidos e Líbia. Em 1986, uma discoteca de Berlim Ocidental, frequentada por soldados dos Estados Unidos, sofreu uma explosão. Três pessoas morreram, duas delas militares estadunidenses. O então presidente Ronald Reagan acusou Muamar Kadafi de ter sido o mandante do atentado. Novas relações Dois anos depois, em 21 de dezembro de 1988, um Boeing 747 da empresa aérea PanAm, que viajava de Londres para Nova York, se desintegrou em pleno voo por causa da explosão de uma bomba, causando 270 mortes. Após o fim da União Soviética, Kadafi diminuiu o tom de suas críticas ao ocidente e, na ONU, assumiu a culpa pelo atentado contra o avião da PanAm. A Líbia concordou em indenizar as famílias das vítimas. O valor chegou próximo dos 3 bilhões de dólares. Ao mesmo tempo, o governo líbio despendeu milhões de dólares em negócios diversificados no ocidente, como universidades e clubes de futebol. Em maio de 2006, os Estados Unidos, muito por conta da pressão de empresas petrolíferas, anunciaram a retirada da Líbia da lista de países terroristas e suspenderam as sanções econômicas aplicadas ao país. Kadafi cumpriu suas promessas de desarmamento e se desfez de dezenas de unidades de mísseis. (ESL)


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internacional

“O atual movimento nos EUA é o mais importante desde os anos de 1960” ENTREVISTA Segundo o ativista estadunidense Paul Buhle, as manifestações massivas no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos, mostram que “algo pode estar se inclinando contra o capital” Mari Jo Buhle

Eduardo Campos Lima de São Paulo (SP) EM UMA CIDADE com 230 mil habitantes, manifestações de trabalhadores têm reunido multidões de mais de 100 mil pessoas, como a ocorrida no dia 12. Pelas ruas de Madison, capital do estado estadunidense de Wisconsin, marcham funcionários públicos sindicalizados e não-sindicalizados, muitos deles policiais, bombeiros e funcionários de presídios. Familiares e amigos solidarizam-se e unem-se aos protestos, que terminam em frente ao Capitólio, sede dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo do estado. A revolta começou quando o governador Scott Walker, do Partido Republicano, anunciou, no começo de fevereiro, o plano de aprovar uma lei que proíbe negociações coletivas para funcionários públicos do estado, dos condados e dos municípios, aumenta os descontos sobre seus salários para custeio de plano de saúde e aposentadoria, além de possibilitar que o governo demita grevistas declarando “estado de emergência”. Apesar da onda de manifestações, os republicanos mantiveram-se firmes no intento de aprovar a lei no Senado estadual. Um grupo de 14 senadores democratas, tentando evitar a votação por falta do quórum mínimo de dois terços, deixou o estado e foi para o Illinois. Entretanto, os republicanos também manobraram: como apenas projetos de lei relacionados a assuntos fiscais exigem o quórum mínimo, eles removeram do texto medidas fiscais e puderam aprová-lo sem grandes mudanças em seu espírito original. A entrevista a seguir, com Paul Buhle, professor aposentado da Universidade Brown, em Rhode Island, trata dos enormes protestos em Wisconsin, onde ele mora e atua como militante, e da história do movimento operário estadunidense. Brasil de Fato – O que detonou o movimento em Madison? Paul Buhle – Curiosamente, importantes membros do Partido Democrata recusaram-se, na “sessão lame duck” [“sessão pato manco”, expressão utilizada para se referir à reunião do legislativo que ocorre após as eleições parlamentares], a estender os acordos de negociação coletiva com os funcionários estaduais do Wisconsin, de maneira a não deixar o governador eleito de mãos atadas. Assim, quando o governador Scott Walker deu prosseguimento à efetivação de seus planos, com a eliminação por lei das negociações coletivas, os democratas se chocaram. Os 14 senadores estaduais que deixaram o estado, para impedir a votação, deram “espaço” para as ações que se iniciaram. A resposta popular foi quase espontânea, definitivamente esmagadora e incluiu grandes números de policiais, funcionários de presídios, bombeiros e outros que, normalmente, não estariam presentes em tais atividades.

“A resposta popular foi quase espontânea, definitivamente esmagadora e incluiu grandes números de policiais, funcionários de presídios, bombeiros” Por que os protestos têm congregado tantas pessoas? Madison é um centro histórico de atividades progressistas, desde pelo menos 1900 e até mesmo antes disso (com voluntários noruegueses e alemães que serviram na Guerra Civil para combater a escravidão, ativistas dos direitos da mulher e do voto feminino etc.). Madison gerou um vigoroso movimento antiguerra e, de tempos em tempos, muitos outros movimentos menores. A prevalência de funcionários públicos de todas as categorias encoraja funcionários do setor de saúde, professores e muitos outros a participar. Muitos habitantes têm maridos, esposas e vizinhos que são funcionários do Estado. Trata-se de uma onde de protestos espontânea? Quão organizados estão os sindicatos e partidos de esquerda e como eles estão se relacionando com esse movimento? Sindicatos normalmente fleumáticos têm feito um grande trabalho. A Associação de Assistentes de Professores da

Trabalhadores de Wisconsin protestam contra as reformas do governador republicano

Universidade do Wisconsin (fui membro fundador de seu primeiro contrato de sucesso, em 1970), sempre vigorosa, desempenhou um papel central na logística, por toda parte. A esquerda é uma esquerda não-partidária ou pós-partidária, havendo milhares em Madison que podem ter passado por vários grupos socialistas (ou comunistas) no passado; superam em número, de longe, veteranos da Nova Esquerda, agora velhos, por ativistas em políticas locais, e por aí vai. O simbolismo pesa mais do que a organização, dentro da esquerda: símbolos do sindicalismo da Industrial Workers of the World [Industriais do Mundo, sindicato industrial fundado em 1905] estão por toda parte, embora o grupo mal exista. Partidos leninistas têm muito poucos seguidores. Trabalhadores de outros estados estão enfrentando os mesmos problemas. Há alguma perspectiva de as manifestações e a radicalização crescerem nacionalmente? Em Indiana, os líderes da AFL-CIO [união das duas maiores centrais sindicais estadunidenses] transportaram, em ônibus, milhares de trabalhadores da parte industrializada do estado para Indianápolis, a capital, insistiram que votassem nos democratas na próxima vez e os transportaram de volta para casa. O ímpeto do momento se esgotou. É preciso esperar para ver a situação em outros estados. Os democratas, em outros lugares, apresentam pouca vontade de mobilizar por qualquer outra razão que não seja preparar sua própria eleição, e poucos democratas (como o congressista Dennis Kucinich) declararam apoio ao movimento de Madison. Barack Obama, de forma contundente, não declarou, ou melhor, sua afirmação foi tão fraca de modo a não ser encorajadora, de modo algum: ele queria que fôssemos embora e ficássemos quietos.

“A prevalência de funcionários públicos de todas as categorias encoraja funcionários do setor de saúde, professores e muitos outros a participar” No mês passado, o presidente Obama acusou Walker de desencadear um “assalto” aos sindicatos. Mas antes, em janeiro, havia dito, sobre seu próprio governo: “Temos que encarar o fato de que nosso governo gasta mais do que recebe. Isso não é sustentável”. Tanto republicanos como democratas são igualmente inimigos da classe trabalhadora dos EUA?

Pouco antes de o drama de Wisconsin começar, os democratas juntaram-se aos republicanos para apoiar isenções de impostos a empresas no estado. Incapazes de imaginar uma transferência de fundos das Forças Armadas, ou uma reversão de isenções de impostos a empresas em nível estadual, os democratas só podem clamar por menores salários e benefícios, menos assistência para os pobres e por aí vai. Eles podem ser impelidos para uma trilha mais progressista. Mas isso ainda não aconteceu.

“Os democratas, em outros lugares, apresentam pouca vontade de mobilizar por qualquer outra razão que não seja preparar sua própria eleição” Muitos estão estabelecendo conexões entre os eventos no Egito, Tunísia e Líbia e os protestos em Wisconsin. Você vê semelhanças? As pessoas em Madison fizeram a “Conexão Cairo” imediatamente e a sentiram de maneira profunda. Pizzas foram compradas por um ativista egípcio (provavelmente aluno da Universidade de Wisconsin) para nossos manifestantes; e muitos sinais de solidariedade puderam ser vistos. Sim, nós acreditamos que somos parte de um movimento universal. Por que as lutas da esquerda nunca tiveram sucesso por muito tempo nos EUA? A quantidade de membros do Partido Comunista atingiu o ponto máximo de 85 mil (os socialistas, antes da supressão entre 1917 e 1921, chegaram a 100 mil), com uma quantidade de seguidores de talvez um milhão de pessoas. Foi um partido pequeno, em relação aos partidos europeus, sendo comparável, talvez, ao Partido Comunista do Reino Unido. Movimentos anarquistas, na verdade movimentos sindicais (o Industrial Workers of the World), desapareceram gradualmente depois de 1920. Movimentos da Nova Esquerda, influenciados pelo sindicalismo e por aspectos do marxismo, não eram bem organizados, mas o Students for a Democratic Society [Estudantes por uma Sociedade Democrática, organização-chave do movimento estudantil nos anos 1960] teve 100 mil seguidores em 1968-69 (quando rachou e entrou em colapso). A esquerda estadunidense nunca teve muito poder permanente. Membros vêm e vão em ritmo veloz, algo que foi percebido já em 1880. A mobilidade de localização e remuneração é crucial, aqui, como fator desestabilizante. O fator esmagador, contudo, é o poder do capital. Os movimentos levantam-se repentinamente, e são destruídos; seus participantes seguem para outras coisas na vida.

Quais foram, historicamente, as piores dificuldades enfrentadas pelo movimento operário estadunidense? O poder concentrado do capital para agir sobre uma classe trabalhadora cindida por etnia, raça e geografia foi catastrófico para a solidariedade operária. Mas o poder das agências de inteligência de penetrar e colaborar com os níveis mais altos da organização do trabalho também é um fator. O Império reserva grandes vantagens para o setor mais bem pago do operariado no mundo, especialmente para seus líderes organizativos. O emprego na indústria militarista eleva setores da classe trabalhadora e estimula um conservadorismo extremado. E, agora, desde o colapso do comunismo, as empresas não observam barreiras às reduções salariais e ao agravamento das condições de trabalho. Os benefícios com que contavam os líderes trabalhistas conservadores se provaram falsos (conforme nós sabíamos que se provariam). Você tem sido um militante ativo desde os anos de 1960. Quais foram os momentos de mais esperança que você vivenciou? O atual movimento é o mais importante desde os anos 1960 e da Nova Esquerda. É muito diferente (demograficamente, em especial), não é “revolucionário” – nenhum de seus participantes assim alega ou ambiciona – mas é enorme e talvez tenha influência suficiente para encorajar atividades semelhantes por toda a América do Norte.

“A esquerda estadunidense nunca teve muito poder permanente. Membros vêm e vão em ritmo veloz, algo que foi percebido já em 1880” Você considera que há elementos na realidade atual apontando para a possibilidade de uma revolução nos EUA? Não há espírito ou sensibilidade “prérevolucionária”. Mas há uma grande expectativa de que algo pode estar se inclinando contra o capital. As consequências são imprevisíveis.

QUEM É Paul Buhle é um ativista de movimentos sociais desde a década de 1960, quando se engajou na luta pelos direitos civis. Em suas pesquisas, estudou os movimentos operário, pacifista, ambientalista e pelos direitos civis, além de questões ligadas a culturas alternativas. Entre os livros que publicou estão Marxism in the United States: Remmaping the History of the American Left (Marxismo nos Estados Unidos: Remapeando a História da Esquerda Americana) e Encyclopedia of the American Left (Enciclopédia da Esquerda Americana).

Edição 420 - 17 a 23 de março de 2011  

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