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AS PR AIAS u m

o l h a r

g e r a l

2 0 1 3


FOLHA DE R OST O

CAP A


C O N T E Ú D O 1. A s zo n a s c o s t e i r a s no An tropoc e n o ............. 01 2. O s i s t em a c o s t e i ro e m m u da nç a c on tín u a ... 09 3. A b i ot a d a s p ra i a s a re n os a s .. . .................... 15 4. A s p ra i as c o mo s i s te m a s óc i o -ec ológic o...... 21 5. A s p ra i as a o l on g o do te mpo . ..................... 32 6. O t u r i s mo d e s o l e

pr a ia . . ... .................. 45


APRESENTA ÇÃO


INTR ODUÇÃ O


AS ZONAS COSTEIRAS NO ANTROPOCE NO

Juan Pablo Lozoya

Centro Interdisciplinario Manejo Costero Integrado del Cono Sur Centro Universitario de la Región Este – Universidad de la República

O planeta Terra é um planeta de costas, onde a

de mercadorias. No entanto, estas megacidades

superfície aquática (360M km2, 71%) e a terrestre

também geram grandes volumes de resíduos

(150M km2) interagem intensamente ao longo de

(domésticos, industriais, etc.) que muitas vezes

1.634.701km que, em sua maioria, são praias

também são despejados através do mar (Tett et

arenosas (Burke et al. 2001, McLachlan & Brown

al., 2011). Embora menos de 4% da população

2006, Martínez et al. 2007).

mundial reside atualmente nestas megacidades costeiras, seu rápido desenvolvimento, a grande

Em 2004, cerca de 3 bilhões de seres humanos

densidade de habitantes que geram e os altos

habitavam os primeiros 230km da faixa costeira,

níveis de consumo que caracterizam tais habitan-

o que implica que quase 50% da nossa espécie

tes, fazem com que estes assentamentos gerem

estaria morando em apenas 10% da área terres-

grandes impactos no meio-ambiente costeiro

tre, com densidades médias 2,5 vezes maiores

(Sekovsky et al., 2012).

que as observadas no restante das zonas costeiras do planeta (UNEP, 2004 in Tett et al., 2011).

Esta concentração generalizada na zona costeira

Neste sentido, no ano de 2012, as cinco áreas

está marcada na rápida expansão da população

metropolitanas mais populosas do mundo se si-

humana e no modelo atual predominante de des-

tuavam na zona costeira tendo importantes por-

envolvimento e crescimento global. Ambos os

tos industriais: Tóquio (31,5 milhões de habitan-

fatores tem sido os principais responsáveis por

tes), Jakarta (28 milhões de habitantes), Seul

enormes impactos nos ecossistemas costeiros e,

(25,5 milhões de habitantes), Karachi (24,1 mi-

assim, nas praias (McLachlan & Brown, 2006;

lhões de habitantes) e Manila (21,9 milhões de

Defeo et al., 2009; Tett et al., 2011). Esta tendên-

habitantes) (Figura 1).

cia formaria parte do que - a escala global - tem sido batizada por diversos cientistas como An-

Estas megacidades costeiras são vórtices gigan-

tropoceno, uma nova época geológica na qual

tes que atraem e concentram grandes quantida-

estaríamos entrando (Crutzen & Stoermer, 2000;

des de alimento, água, energia e matérias prima

2010).

de todo o mundo, que chegam até elas por via marítima, a qual é a principal rota de transporte

1


Figura 1: As cinco cidades mĂĄs populosas do mundo se encontram localizadas na zona costeiras (megacidades costeiras, respectivamente, TĂłquio com 31,5 milhĂľes de habitantes e Manila com 21,9 milhĂľes de habitantes).

[Fotos obidas na internet] 2


O Antropoceno se refere ao intervalo de tempo contemporâneo no qual muitos processos e condições geologicamente significativas (e.g. ciclo da água, ciclos dos gases e elementos fundamentais) estão sendo profundamente alterados pelas atividades humanas (Figura 2). Embora infalivelmente todas as atividades realizadas pelos seres vivos afetem de alguma maneira nosso entorno, a humanidade tem provocado rompimentos nos grandes ciclos biológicos, químicos e geológicos, através dos quais elementos fundamentais como o Carbono e o Nitrogênio circulam entre a terra, o mar e a atmosfera. Desta maneira, o ser humano está a influir no funcionamento do planeta Terra, que seria equiparável às grandes forças da Natur e z a ( We l c o m e t o t h e A n t h r o p o c e n e , http://www.anthropocene.info).

Figura 2: O Antropoceno, uma nova época geológica na qual o planeta Terra estaria entrando como resultado da influência do ser humano, o que seria equiparável às grandes forças naturais. [Foto obtenida de la web de “The Economist”]

Nas últimas décadas um importante crescimento económico em todo o planeta foi produzido. Ainda que tenha sido de forma desigual, beneficiando principalmente aos países desenvolvidos, permitiu aos habitantes ter acesso a mais recursos, incluindo os recursos naturais, e dispor de mais serviços. Apesar de que isto tenha contribuído para que seja possível satisfazer mais necessidades, também gerou uma grande deterioração ambiental (Carballo & Villasante, 2009). Isto é devido a que o crescimento econômico mencionado se fez a partir de uma perspectiva que defende que o capital natural pode ser substituído pelo capital humano. Neste sentido, o modelo atual de crescimento não tem considerado que certos recursos não são renováveis ou que certos bem e serviços ambientais são insubstituíveis (e.g. camada de ozônio, regulação do clima). Igualmente, também não tem reparado que este desenvolvimento produz dejetos que devem ser absorvidos por algum sumidouro natural que, sem dúvidas, tem uma capacidade limitada (EEA, 2006).

3


Este cenário é agravado se consideramos que certos impactos ambientais se acumulam e transcendem o âmbito geográfico no qual são efetuados, transformando-se em problemas planetários (e.g. mudanças climáticas). Neste âmbito, a degradação da zona costeira é devida a diversos fatores, alguns de origem local ou regional, e outros que não são específicos do litoral nem de seus habitantes, mas consequência de atividades e decisões a escala mundial (Carballo & Villasante, 2009). Os processos de globalização têm crescido significativamente com uma intensificação do movimento de mercadorias e pessoas, que tem sido incentivado por diversos avanços tecnológicos, entre outros. Por outro lado, os modelos atuais de desenvolvimento, baseados principalmente em critérios de rentabilidade econômica, tem contribuído ao desaparecimento de atividades centenárias tradicionais que embora atualmente não seriam rentáveis economicamente, podiam sê-lo do ponto de vista da sustentabilidade ambiental. Estes três fatores (globalização, crescimento econômico e desaparecimento/modificação de atividades tradicionais) tem gerado mudanças nos comportamentos humanos e, portanto, no desenvolvimento e na gestão das zonas costeiras (Carballo & Villasante, 2009). Assim, o desenvolvimento costeiro se converteu em um problema global, modificando os ecossistemas costeiros e afetando por sua vez os recursos que sustentam seu próprio funcionamento (Sardá, 2009).

4


ESPECIFICADAMENTE, PARA AS PRAIAS, E ESTREITAMENTE VINCULADAS AOS TRÊS FATORES ANTES MENCIONADOS, FORAM DESCRITAS DIVERSAS FORÇANTES QUE - AO ATUAREM EM DISTINTAS ESCALAS ESPACIAIS E TEMPORAIS - SERIAM AS PRINCIPAIS GERADORES DE IMPACTO (DEFEO ET AL., 2009)

Uso Recreativo: As atividades recreativas da zona costeira se encontram, em sua maioria, concentradas nas praias. Nas últimas décadas, estas atividades foram potencializadas pelo crescimento exponencial das populações humanas nas costas, o aumento da mobilidade das pessoas e a disponibilidade de tempo livre (De Ruyck et al., 1997; Caffyn & Jobbins, 2003; Fanini et al. 2006 em Defeo et al., 2009);

Limpeza de Praias: A limpeza das praias é uma prática muito habitual, sobretudo em praias com alto uso turístico. Exceto por algumas exceções, onde a coleta se realiza de forma manual, a limpeza costuma ser mecânica, raspando e tamisando a areia. Embora existam equipamentos diferentes que limitam a quantidade de areia perdida, além de retirar os resíduos, a coleta mecânica costuma remover também os propágulos de plantas dunares e outras espécies e perturbam os organismos que habitam a areia (e.g. Dugan et al., 2003; Davenport & Davenport 2006 em Defeo et al. 2009);

Regeneração (Nourishment): Mais de 70% das praias do mundo atualmente sofrem com problemas de erosão, e considerando a pouca efetividade das “obras duras” (e.g. espigões, quebra mares) para resolver este problema, a regeneração de praias (em inglês, nourishment) tem sido a ferramenta mais utilizada. Ainda que esta solução possa ser a mais aconselhada do ponto de vista econômico e da conservação do solo, a regeneração pode ter sérias consequências no nível das praias (hábitats e biota) (e.g. Goldberg 1988, Speybroeck et al. 2006 em Defeo et al. 2009);

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Contaminação: A contaminação é uma questão séria para as praias, especialmente considerando seus valores recreativos. Os contaminantes incluem uma grande diversidade de materiais de origem humana, desde o molecular a grandes resíduos, afetando a fisiologia, sobrevivência, reprodução e o comportamento das distintas espécies, incluindo o ser humano (e.g. McLachlan 1977, Noble et al. 2006 em Defeo et al. 2009). Esta contaminação pode gerar, da mesma forma, grandes impactos na percepção dos usuários acerca das praias, o que poderia gerar importantes perdas no nível da indústria do turismo (Tudor & Williams 2006, Roca et al. 2009, Lozoya et al. na imprensa);

Espécies Invasoras: As atividades humanas que podiam ser vetores para a introdução de espécies invasoras nas praias não são algo recente, como por exemplo, o intercambio de grandes quantidades de água de lastre na costa durante a manutenção de navios. Como resultado destas introduções, espécies invasoras de micrófitos colonizaram zonas inter mareais em diversas regiões costeiras do mundo (Inderjit et al. 2006 em Defeo et al. 2009);

Erosão Costeira: O uso crescente da zona costeira por parte das populações humanas tem como consequência uma intensificação do desenvolvimento urbano na Zona Litoral Ativa, sugerindo uma adequada gestão desta zona (ver mais detalhes sobre a ZLA na seção 2). Não obstante, estes desenvolvimentos geralmente implicam a alteração do balanço sedimentar que nutre as praias. Como resultado, a maioria das zonas costeiras modernas do mundo sofre na atualidade um incremento nas taxas de erosão (e.g. Nordstrom, 2000, Cooper & McKenna, 2008 em Defeo et al. 2009, Jiménez et al. 2011);

Mudanças Climáticas: Ainda que a magnitude das alterações devidas às mudanças climáticas e especificadamente as mudanças climáticas ainda seguem sendo incertas, as respostas ecológicas são cada vez mais evidentes no caso das praias (Brown & McLachlan 2002; Jones et al. 2007a em Defeo et al. 2009).

6


Entretanto, paralelamente a esta crescente pressão sobre os ecossistemas naturais, as sociedades humanas e as economias globais dependem cada vez mais dos serviços e benefícios ambientais que estes ecossistemas nos fornecem gratuitamente. É por isto que se torna fundamental que estes ecossistemas se restaurem e se conservem saudáveis, funcionais e resilientes (ver Box).

[Fotos obidas na internet] 7


“CIÊNCIA DA SORPRESA” A Resiliência é um atributo de cada sistema, vinculado à capacidade de amortecer, à habilidade de absorver perturbações ou à magnitude do distúrbio que pode ser absorvida por um sistema antes que este mude sua estrutura alterando as variáveis e processos que controlam seu comportamento (Holling et al. 1995). Um ecossistema resiliente pode suportar choques e se reconstruir quando seja necessário (Resilience Alliance http://www.resalliance.org). Em 1986, Holling levanta a existência de padrões generalizados de mudanças inesperadas e crises em diversos recursos naturais. Este foi o começo da “ciência da surpresa”. Isto corresponde com o período histórico onde a gestão dos recursos naturais exploráveis se baseava em maximizar a produção e satisfazer assim as demandas dos mercados e os objetivos econômicos. A gestão pretendia controlar o recurso natural, reduzir sua variabilidade natural e melhorar assim a eficiência de exploração. Estas políticas de gestão foram exitosas em curto prazo, mas geraram mudanças imperceptíveis no funcionamento dos ecossistemas, facilitando a ocorrência destas “surpresas”. A ocorrência destas “surpresas” estaria vinculada à perda de resiliência ecológica. Esta gestão em curto prazo teria imobilizado o ecossistema, bloqueando sua variabilidade natural e pequenos processos de retroalimentação (feedbacks) que seriam fundamentais para amortecer estas mudanças. Como resultado, feedbacks maiores e menos previsíveis haveriam ocorrido finalmente, afetando a funcionalidade do ecossistema e assim os recursos e serviços que este provê (Berkes and Folke 1998)

8


O SISTEMA COSTEIRO EM MUDANÇA CONTÍNUA

Daniel de Álava

Centro Interdisciplinario Manejo Costero Integrado del Cono Sur Centro Universitario de la Región Este – Universidad de la República

O que percebemos como “a costa” é o resultado

cias que drenam água doce, a atmosfera e o

de um delicado e complexo estado dinâmico,

oceano.

produto da interação de energias, materiais, for-

Porém, o que faz que a costa seja o que é e este-

mas estruturais e também culturas. Se observar-

ja no estado que a percebemos? Podemos en-

mos a costa em escala global, vamos encontrar

contrar uma resposta se nos detemos a observar

uma alta diversidade e interação entre unidades

e a compreender as variáveis, forças ou forçantes

ambientais. Costas com gelo em altas latitudes,

mais importantes que modelam a costa. Os pro-

com falésias, costas rochosas, coralíneas, estuá-

cesso dinâmicos que a continuam esculpindo –

rios, costas com manguezais... Costas arenosas.

especialmente desde o Holoceno nos últimos 10

Inclusive, atualmente, podemos observar costas

mil anos -, até a atualidade, relacionam-se com

totalmente transformadas por distintas atividades

fatores climáticos e geomorfológicos de escala

humanas, até “costas de infraestruturas”, por

regional. Em especial, devemos considerar a pre-

exemplo, no caso de grandes portos onde a cos-

sença de extremidades rígidas e suas dimensões

ta prévia às atividades e suas transformações é

– como os promontórios rochosos -, o tipo de

agora irreconhecível. Então, a costa pode ser

materiais que se encontra presente (i.e. rochas,

percebida também como um espaço problemáti-

areias, siltes, argilas), a topografia exposta e

co e conflitivo.

submarina, o regime e potência dos ventos, a

A zona costeira é, portanto, um sistema altamen-

altura e incidência das ondas, a disponibilidade

te dinâmico, onde as atividades humanas nem

de sedimentos e também as atividades humanas.

sempre se ajustam às forças ou forçantes que

Estas últimas, em particular, constituem forçantes

determinam sua estrutura. É possível reconhecer

com potencial de alterar a estrutura do sistema

que em qualquer país, a zona costeira se estende

costeiro, de gerar distúrbios e pressões que fi-

desde o limite marinho (plataforma continental e

nalmente podem chegar a constituir importantes

mar territorial que implica fronteiras ecossistemas

impactos ambientais negativos e impossíveis de

e jurídicas) até seus limites geopolíticos no interi-

reverter.

or do continente (fronteira sócio demográfica).

A título de exemplo, para compreender os pro-

Existem numerosas definições sobre a zona cos-

cessos e dinâmicas que ocorrem no sistema cos-

teira, uma delas a considera como uma eco regi-

teiro e tendo em conta a nossa região, nos con-

ão de interações: físicas, biológicas e socioeco-

centraremos no caso das costas conformadas

nômicas, onde ocorre um intercâmbio de energia

por praias arenosas.

e materiais entre ecossistemas terrestres, as ba9


Deste modo, as costas formadas por praias

diferenciar a ZLA em três unidades que mantêm

arenosas estão constituídas, desde o ponto de

certa homogeneidade, tanto física como bioló-

vista ecológico, por dois componentes: 1. Um

gica: 1. ZLA inferior (ZLA-INFRA), que se esten-

ecossistema marinho controlado pela ação das

de desde onde as ondas quebram na praia

ondas e habitado pela biota marinha; e 2. Um

(swash) até as zonas mais profundas onde pre-

ecossistema terrestre controlado pela ação do

domina a energia das ondas e com capacidade

vento, habitado pela biota terrestre (McGwynne

de mobilizar os sedimentos do fundo; 2. ZLA

& McLachlan 1992). Ambos os sistemas, ainda

média (ZLA-MESO), compreendida entre o

que diferentes, interagem em uma única unida-

swash e as dunas frontais (cordão litorâneo pri-

de geomorfológica chamada “Zona Litoral Ativa”

mário), com uma interação da energia das on-

(a seguir ZLA, fig.3). A ZLA constitui uma inter-

das e a eólica; e 3. ZLA superior (ZLA-SUPRA),

face entre o oceano e o continente, em um es-

que se estende desde as dunas frontais até o

tado de equilíbrio dinâmico de acordo com o

interior do continente, onde finaliza o transporte

produto deste intercâmbio de materiais e ener-

de areia pelo vento, com um predomínio das

gia entre o mar e a terra, onde os sedimentos se

energias eólicas e dinâmicas de vias fluviais e

mantêm constantemente em movimento (Tinley

pluviais (de Álava, 2007) (Figura 3).

1985, McGwynne & McLachlan 1992). Podemos

Figura 3: Conceito de Zona Litoral Ativa (ZLA). Adaptado de Tinley (1985) e McGwynne & McLachlan (1992). ZLA INFRA: desde a zona de swash até onde a energia das ondas tem capacidade de mobilizar os sedimentos do fundo (predomina a energia marinha). ZLA MESO: compreendida entre a zona de swash e as dunas frontais (interação da energia marinha e eólica). ZLA SUPRA: estende-se desde as dunas frontais até o interior do continente (predomina a energia eólica e a dinâmica de vias pluviais e fluviais) onde finaliza o transporte de areia pelo vento.

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Tanto no tempo como no espaço, este modelo expressa dinamismo, mobilidade, plasticidade e mudanças nas estruturas geomorfológicas como produto da interação de energias entre o oceano, a atmosfera e o continente. É possível modelar em três grandes sistemas esta interação (Figura 4):

SISTEMA MARINHO-COSTEIRO: inclui bancos arenosos e interfaces submarinas e aéreas; SISTEMA FLUVIO-PLUVIAL: representado por vias permanentes e semipermanentes (ríos, arroios e canhadas); SISTEMA DUNAR: dunas móveis e cordões litorâneos ou frontais de praia.

Os fluxos de energia entre estes três siste-

É possível compreender a evolução e as

mas em conjunto com as forçantes antes

mudanças da ZLA tomando como exemplo a

descritas (i.e. extremidades rochosas, clima

posição da linha de costa por erosão ou

de ondas, regime de ventos, disponibilidade

acreção, que depende do balanço de sedi-

de sedimentos, atividades antrópicas) cons-

mentos que podem ser transportados (fluxo)

tituem processos dinâmicos que continuam

entre sistemas. Aqui intervêm quatro dinâmi-

esculpindo a costa na atualidade.

cas fundamentais (Figura 4):

O transporte eólico de sedimentos desde o sistema dunar até as vias de drenagem (flecha 1 superior, Figura 4); O transporte eólico de sedimentos entre o sistema dunar e a zona de praia (flecha 1 inferior, Figura 4). O transporte de sedimentos desde as vias permanentes e semipermanentes até a zona de praia e a zona submarina contígua (flecha 2, Figura 4). O transporte de sedimentos (areias e bioclastos, materiais de degradação das frentes rochosas e barrancos costeiros) por correntes de deriva litorâneas (CDL) no nível dos arcos de praia e das unidades fisiográficas (Silvester & Hsu 1993) (flecha 3, Figura 4).

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Figura 4: Modelo de fluxos entre os sistemas atuantes na escala de paisagem costeira. As flechas indicam os transportes de sedimentos entre os sistemas: 1. Transporte eólico, 2. Transporte fluvio-pluvial, 3. Transporte por correntes de deriva litorânea. Dunas transversais (SD1), dunas frontais (SD2), vias permanentes (SFP1), vias semipermanentes (SFP2). Adaptado de de Álava (2002, 2007).

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Surge

, então, que as praias

uma extremidade rochosa, ou onde existe

dependem de esses fluxos (representados

uma área extensa para a perda de energia

por flechas na figura 4) e de que esse ciclo

marinha. As características de cada uma

não se interrompa. Mediante este modelo é

destas tipologias e suas formas intermediári-

possível compreender o estado atual de um

as condicionam também as características e

arco de praia partindo de uma situação pré-

a distribuição da biota.

via e também prever como pode evoluir fren-

As praias mudam de forma e de estado, é

te a possíveis mudanças, distúrbios e altera-

possível reconhecer ciclos se não há distúr-

ções nos fluxos de energia e, por tanto, de

bios humanos como as obras de infraestru-

materiais. Um exemplo que podíamos mar-

tura e a fixação de dunas por florestamento.

car como “clássico” é o caso do floresta-

Em geral e em situações “normais”, durante

mento e da urbanização sobre as dunas, que

períodos de verão predominam os processos

reduzem a plasticidades e a capacidade de

de acreção (crescimento da praia) já que a

adaptação às forçantes naturais da ZLA (en-

energia marinha é menor e predomina a de-

durecimento da costa), culminando em um

posição de sedimentos, enquanto em perío-

déficit de sedimentos disponíveis em todo o

dos de inverno, onde a energia marinha é

sistema. Com o passar do tempo, um dos

maior, predominam os processos erosivos

resultados é, por exemplo, a erosão de

(retração da praia).

praias. É possível reconhecer duas situações ou ti-

A conservação do estado dinâmico da ZLA é

pologias de praias bem contrastadas e isso

a forma mais econômica de proteção frente

depende de como se realiza a perda de

a possíveis impactos, como por exemplo, a

energia pelas ondas que chegam à costa. É

possível adaptação a mudanças climáticas

um processo dissipativo por unidade de área

que nestas latitudes implicam na elevação

e a energia das ondas que chega vai diminu-

do nível do mar e o incremento de eventos

indo à medida que se aproximam da costa.

de alta energia como os ciclones extratropi-

Essa energia que se perde é a que tem po-

cais que geralmente vão acompanhados de

tencial de transportar materiais como é o

intensas precipitações. Compreender as

caso das praias arenosas.

complexas dinâmicas que tem interagido por

A ZLA atua também como uma matriz dissi-

milhares de anos entre a atmosfera, oceano

pativa das ondas, no sentido que estas ao

e terra e que resultaram nas praias que hoje

quebrar vão descarregando sua energia. Os

vivemos, nos apresenta um verdadeiro desa-

tipos de praia, neste sentido, vão de um es-

fio com relação a se é possível compatibilizar

tado de alta dissipação de energia das on-

nossas atitudes e atividades com sua con-

das, como por exemplo, em praias expostas

servação, agora e no futuro.

onde a área de dissipação da energia marinha é reduzida, até outra de baixa dissipação, como no caso de praias protegidas por

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14


A BIOTA DAS PRAIAS ARENOSAS

Estela  Delgado  &  Juan  Pablo  Lozoya Centro Interdisciplinario Manejo Costero Integrado del Cono Sur Centro Universitario de la Región Este – Universidad de la República

As praias arenosas são ambientes fisicamente rigorosos (ver seção 2), cujas características morfodinamicas podem variar entre estados de alta e baixa dissipação de energia de onda (Short & Wright, 1983; Short, 1996). Por tanto, constituem hábitats muito dinâmicos em suas condições físicas, tanto a meso escala (desde o mar até as dunas), como a macro escala (entre praias diferentes). Isto determina que as espécies que os habitam estejam altamente adaptadas tanto anatomicamente como fisiologicamente. A grande capacidade de mobilidade, estruturas anatómicas que permitam um rápido enterramento, exoesqueletos resistentes, comportamentos rítmicos, mecanismos de orientação e a plasticidade comportamental e reprodutiva são algumas das adaptações que apresentam as espécies a estas condições (Brown, 1996; Scapini et al., 2006; Delgado & Defeo, 2007; Delgado & Defeo, 2008; Defeo et al. 2009; McLachlan & Defeo, 2013). A Zona Litoral Ativa (ZLA) destes ecossistemas, resultante da interação entre o componente marinho e terrestre, apresenta três unidades fisicamente diferenciáveis: infra, meso e supralitoral. Este gradiente físico existente desde o mar até as dunas, é o principal estruturados dos padrões de zoneamento e distribuição de espécies tanto espacial como temporalmente. Em geral, a macrofauna tende a agrupar-se em manchas e mostra um gradiente decrescente de distribuição e composição de espécies desde o infralitoral ao supralitoral. Estas agregações se mantem no tempo, mas podem variar no espaço em função da susceptibilidade de cada espécie, de suas componentes populacionais e das variações ambientais (Brazeiro & Defeo, 1996).

15


Assim como as interações bióticas podem ser significativas, determinando a distribuição das espécies, sobre tudo em ambientes mais benignos como as praias arenosas de extremo dissipativo. Existem casos documentados onde a competência intraespecífica produz segregação espacial entre adultos e juvenis (Habitat Favorability Hypothesis, Defeo, & McLachlan, 2005) e a competência interespecífica geraria a segregação espacial de espécies (e.g. Excirolana armata e E. brasiliensis em praias dissipaticas) (Martinéz & Defeo, com. pers.). Na ZLA inferior, no infralitoral se encontram os produtores primários das redes tróficas destes ecossistemas, representados principalmente por fitoplâncton, macroalgas e fanerógamas (McLachlan & Brown, 2006). Onde 95% do fitoplâncton é constituído por diatomáceas (algas silicatadas) que flutuam livremente na coluna d’água (McGwynne & McLachlan, 1992) e constituem o alimento de moluscos e crustáceos filtradores co-habitantes desta zona. A maioria das praias de extremo dissipativo apresentam uma grande abundância de fitoplâncton na zona de “surf” devido a ação combinada dos mecanismos de circulação locais, e da topografia da zona de “surf” favorecem a retenção do fitoplâncton (Lewin & Schaefer, 1983) (Figura 6). Enquanto que as praias reflectivas se constituem, em sua maioria, de ecossistemas subsidiados com baixa produtividade primária. (McLachlan, 1980; Lewin & Schaefer, 1983; Defeo & Scarabino, 1990; Campbell, 1996; Dugan et al., 1994). Também no infralitoral, o zooplancton e alguns macro-invertebrados (e.g. camarões) podem ser muito abundantes, propiciando que esta zona de rompimento seja uma importante área de alimentação para os peixes (Defeo et al., 2009).

16


Figura 5: Agregações de alta densidade de diatomáceas do Gênero Asterionella produzindo coloração amarronzada na praia dissipatica de Barra del Chuy, Uruguay.

[Foto: cortesia UNDECIMAR] 17


A ZLA media, ou mesolitoral, compreende entre o

As bactérias aderidas aos grãos de areia ou livres en-

swash e as dunas frontais, onde existe interação entre

tre eles, utilizam a matéria orgânica e se reproduzem

a energia das ondulações e a energia eólica, abrigando

rapidamente, o que serve de alimento para ciliados,

uma grande diversidade de organismos, desde bacté-

amebas e zooflagelados, os quais também se alimen-

rias até macroinvertebrados (e.g. crustáceos, molus-

tam de outros protozoários ou componentes pequenos

cos, poliquetas, insetos), abarcando a maioria dos

da meiofauna (McGwynne & McLachlan, 1992). A

grupos tróficos (Defeo et al., 2009). Os interstícios en-

meiofauna está constituída por pequenos metazoários

tre os grãos de areia fornecem um ambiente relativa-

(45-500 um)( McGwynne & McLachlan, 1992) princi-

mente estável habitado por bactérias, fungos, proto-

palmente por turbelários (vermes planos ou platelmin-

zoários e meiofauna. A produção primária nesta zona é

tos), nematódeos (vermes cilíndricos), oligoquetos

baixa devido ao fato de que a luz solar pode penetrar

(anelídeos), copépodos e mistacocáridos (crustáceos)

muito pouco na superfície da camada arenosa que,

que cumprem um papel fundamental como degrada-

por tanto, a trama trófica está sustentada pela matéria

dores de matéria orgânica, fixação e reciclagem de

orgânica particulada e dissolvida originada pela ação

nutrientes, aportando energia a trama trófica

das marés e ondulações (Brown & McLachlan, 1990;

(McGwenny & McLachlan, 1992).

McGwynne & McLachlan, 1992).

18


A ZLA media, ou mesolitoral, com-

gânica, fixação e reciclagem de nu-

preende entre o swash e as dunas

trientes, aportando energia a trama

frontais, onde existe interação entre

trófica (McGwenny & McLachlan,

a energia das ondulações e a ener-

1992).

gia eólica, abrigando uma grande

Os macroinvertebrados habitantes

diversidade de organismos, desde

da zon de swash estão anatomica-

bactérias até macroinvertebrados

mente adaptados para cumprir fun-

(e.g. crustáceos, moluscos, polique-

ções vitais de respiração, alimenta-

tas, insetos), abarcando a maioria

ção e reprodução em tais condições

dos grupos tróficos (Defeo et al.,

(Figura 6). Muitas espécies de mo-

2009). Os interstícios entre os grãos

luscos bivalves e crustáceos decá-

de areia fornecem um ambiente rela-

podos são habitantes típicos da

tivamente estável habitado por bac-

zona de swash das praias arenosas

térias, fungos, protozoários e meio-

(McGwenny & McLachlan, 1992). Os

fauna. A produção primária nesta

moluscos bivalves habitantes dos

zona é baixa devido ao fato de que a

substratos arenosos apresentam um

luz solar pode penetrar muito pouco

pé muscular bem desenvolvido que

na superfície da camada arenosa

os permite um rápido enterramento

que, por tanto, a trama trófica está

na areia logo que a onda se retira.

sustentada pela matéria orgânica

Assim mesmo, um grande número

particulada e dissolvida originada

de espécies apresentam sifões ina-

pela ação das marés e ondulações

lantes e exalantes (de maior ou me-

(Brown & McLachlan, 1990;

nor longitude) que permitem o in-

McGwynne & McLachlan, 1992).

gresso de água rica em oxigênio e

As bactérias aderidas aos grãos de

fitoplâncton à cavidade do manto e

areia ou livres entre eles, utilizam a

também as brânquias. Desta forma,

matéria orgânica e se reproduzem

podem realizar o intercambio gasoso

rapidamente, o que serve de alimen-

e captar os nutrientes enquanto

to para ciliados, amebas e zooflage-

permanecem enterrados no sedi-

lados, os quais também se alimen-

mento. As espécies de bivalves do

tam de outros protozoários ou com-

gênero Donax dominam a comuni-

ponentes pequenos da meiofauna

dade macrofaunística em termos de

leyanus; C) Mesodesma mactroi-

(McGwynne & McLachlan, 1992). A

biomassa em praias oceânicas ex-

des; eD) Emeritas brasiliensis, ma-

meiofauna está constituída por pe-

postas de todo o mundo (revisão em

croinvertebrados habitantes da

quenos metazoários (45-500 um)(

McLachlan et al., 1996). Estes orga-

zona de swash.

McGwynne & McLachlan, 1992)

nismos filtradores apresentam uma

principalmente por turbelários (ver-

distribuição intermareal (centrada na

mes planos ou platelmintos), nema-

zona de swash da onda), o subma-

tódeos (vermes cilíndricos), oligo-

real rasa, cumprindo um importante

quetos (anelídeos), copépodos e

papel na estrutura trófica das praias

mistacocáridos (crustáceos) que

(Ansell, 1983; McLachlan et al.,

cumprem um papel fundamental

1996).

como degradadores de matéria or19

Figura 6: A) vista do mesolitoral da Zona Litoral Ativa da Praia da Barra del Chuy, Uruguay. B) Donax han-


As espécies do gênero Emerita são

melhante ao “marsúpio” formada por

crustáceos característicos de praias

prolongações corporais (osteguitos),

arenosas expostas desde climas

onde ocorra todo o desenvolvimento

temperados a tropicais (McLachlan,

das crias; desta forma, a espécie

1983; Contreras et al., 1999; Defeo &

assegura que as cria recém paridas

Cardoso, 2002-2004). Muitas espé-

tenham um maior tamanho e desen-

cies do gênero Emerita constituem

volvimento que as permita sobrevi-

os invertebrados melhor adaptados

ver nestas condições inóspitas (Mar-

aos ambientes de swash de praias

tinéz & Defeo, 2006).

arenosas. Sua exitosa adaptação a

No contexto de ecologia de praias

este tipo de habitat é dada tanto por

arenosas, o paradigma central prediz

seu comportamento escavador e

que, a nível de comunidades macro-

sua alimentação por filtração (medi-

faunísticas, a diversidade de espéci-

ante a um par de antênulas plumo-

es, a abundância total e a biomassa,

sas), como também por sua particu-

aumentam desde praias reflectivas a

lar biologia reprodutiva e seu com-

praias dissipativas (McLachlan &

plexo padrão de historia de vida

Dorvlo, 2005). Este paradigma é

(Subramonuam, 1987; Subramoniam

fundamentado principalmente pela

& Gunamalai, 2003; Delgado & De-

Hipótese Autoecológica (Noy-Meir,

feo, 2006; Delgado 2007; Delgado &

1979) aplicada a praias arenosas

Defeo, 2008).

(HÁ: MCLachlan, 1990) e a Hipótese

A ZLA superior, ou supralitoral, com-

de Exclusão de Swash (HES:

preendida desde as dunas frontais

McArdle & McLachlan, 1991; McLa-

até o interior do continente, pode

chlan et al., 1993). A HÁ, estabelece

apresentar comunidades herbáceas

que as comunidade estão estrutura-

de muito baixo porte, adaptadas as

das pelas respostas individuais de

condições de dessecação e com

cada espécie frente as variações no

grande desenvolvimento radicular,

ambiente físico, sendo mínimas as

que cumprem um importante papel

interações biológicas. Em conso-

na estabilização das dunas. Além

nância com a HÁ e restringindo-se a

disso, o supralitoral usualmente é

zona de swash, a HES prediz que a

uma zona importante para nidifica-

exclusão de espécies até o extremo

ção de tartarugas e aves costeiras.

reflectivo do gradiente morfodinâmi-

Nas praias reflectivas, o supralitoral

co é devido a rigorosidade do ambi-

constitui um hábitat favorável para

ente intermareal e ao tamanho do

os invertebrados (Habitat Safety

sedimento, o que reflete a estreita

Hypothesis, Defeo &Gómez, 2005).

relação entre os atributos comunitá-

Por exemplo, os crustáceos isópo-

rios e as variáveis físicas (McLa-

dos da espécie Excirolana brazilien-

chlan, 1990; Defeo et al., 1992;

sis apresentam um ciclo de vida di-

McLachlan et al, 1993; Jaramillo et

reto como adaptação a este tipo de

al., 2000; Rodil & Lastra, 2004;

ambiente. As fêmeas incubam pou-

McLachlan & Dorvlo, 2005; Lercari &

cos embriões em uma estrutura se-

Defeo, 2006). 20


AS PRAIAS COMO SISTEMAS SOCIO - ECOLÓGICOS

Juan Pablo Lozoya

Centro Interdisciplinario Manejo Costero Integrado del Cono Sur Centro Universitario de la Región Este – Universidad de la República Frente a iminente necessidade de alcançar um

em diferentes escalas espaciais e temporais.

modelo de desenvolvimento sustentável base-

Um SES está composto por uma unidade bio-

ado em um enfoque sistêmico integral (ex. En-

geo-física e os atores sociais e institucionais

foque Ecossistêmico, Gestão Baseada nos

associados a esta unidade. São sistemas

Ecossistemas), e considerando o vínculo intrín-

complexos e adaptativos, e estão delimitados

seco que existe entre a Sociedade e Natureza,

por fronteiras espaciais ou funcionais que ro-

surge o conceito de Sistema Sócio Ecológico

deiam determinados ecossistemas e as pro-

(SES, Berkes & Folke, 1998).

blemáticas de seu contexto (Glaser et al.,

Este conceito enfatiza a perspectiva “do ser

2008). Desta maneira, os ecossistemas sãos e

humano e a natureza”, com os ecossistemas

funcionais fornecem a matriz biofísica e os ser-

integrados na sociedade humana. Atualmente

viços ecossistêmicos que permitem o desen-

é impossível conceber “Natureza sem Socie-

volvimento social e econômico. Entretanto, es-

dade e Sociedade sem Natureza”, não existin-

tes ecossistemas são hoje (e tem sido ao longo

do nenhum sistema natural sem impacto hu-

do tempo) por sua vez modificados e adapta-

mano e nenhum sistema social sem natureza.

dos pelas decisões e pelas ações humanas

Os sistemas sociais e ecológicos não estão

(diretas e indiretas), as que, em definitiva, afeta

somente vinculados, estão realmente interco-

as capacidades do sistema de sustentar o

nectados e co-evolucionam constantemente

desenvolvimento social (Figura 7).

Figura 7: Diagrama esquemático de um sistema Socioecológico (adaptado de Sardá R. com.pers.).

21


22


23


Nesse Sentido

que Tett y colaboradores (2011) descrevem que na gestão dos sistemas sócio-ecológicos, e em especial aqueles localizados nas zonas costeiras devido a diversa coincidência de interesses, atores e jurisdições, deveria aspirar a “encontrar soluções ecologicamente sustentáveis, socialmente equitativas e economicamente rentáveis”. É, por isso, que a compreensão e gestão das zonas costeiras, e em particular das praias, requerem esforços conjuntos de ao menos três disciplinas acadêmicas, cada uma delas com vistas muito particulares: i) a Econômica: que consiste na maneira em que os seres humanos produzem e utilizam os recursos para satisfazer suas necessidades de bem estar, ii) a Sociologia: que descreve e analisa as atividades sociais humanas e suas instituições, e iii) a Ecologia: que pretende compreender o papel dos seres vivos no funcionamento do mundo natural (Tett et al. 2011). Estas estratégias integradas surgem como resultado de uma evolução dos principais paradigmas da gestão ambiental. Por estar centrada exclusivamente nos recursos explotados (gestão tradicional, 70s-80s) a gestão passou a enfocar-se nas fontes que geram ditos recursos (Gestão Baseada nos Ecossistemas, EBM 90s) e além dos vínculos com as sociedades que utilizam (e a sua vez afetam) os mesmos (SSE, 2000s) (e.g. Colby, 1991; Grumbine, 1997; Cheong, 2008; Curtin & Prellezo, 2010). A sua vez, nestas últimas décadas a gestão e governança de bens públicos foi complexado progressivamente. As agências governamentais continuam tendo o protagonismo nesta gestão, começando a ser somente um de múltiplos atores. Estes processos de gestão são, assim, mais equitativos, mas também mais complexos, devido a imprescindível abordagem interdisciplinar necessária para analisar e incorporar todas as dimensões do sistema. A necessidade de integração na gestão é uma característica da Gestão Integrada de Zonas Costeiras (GIZC ou ICZM na sigla em inglês) que, desde seu início, e sobre tudo desde a década de 90, quando foi respaldada pela Convenção do Rio (1992), planeja a necessidade de processos integrados que considerem todas as dimensões e que incluam todos os atores envolvidos (e.g. população, setor privado, distintos níveis de governo e academia). Neste sentido, a comunicação tem sido destacada como uma instancia fundamental, mas com especial ênfase na consulta já que este diálogo deve ser bidirecional e não meramente comunicativo desde gestores a atores. A GIZC tem sido conhecida como um componente inerente e necessário do desenvolvimento sustentável das praias e outras zonas costeiras, e vice-versa (Chua, 1993; Vallega, 1993; Cicin-Sain et al., 1995). Com o objetivo de alcançar um balanço sustentável entre o desenvolvimento das sociedades humanas e a qualidade e saúde dos ambientes costeiros, o principal objetivo da GIZC é “melhorar a qualidade de vida das comunidades humanas que dependem dos recursos costeiros, mantendo a diversidade biológica e a produtividade dos ecossistemas costeiros” (GESAMP, 1996, Olsen et al., 1997).

24


As praias e os Serviços Ecossistêmicos Os ecossistemas costeiros resultam fundamentais para as sociedades humanas, brindando diversos bens e serviços que contribuem diretamente ao bem-estar do ser humano. Conhecidos como serviços ecossistêmicos (SE), estes são definidos como “o benefício direto ou indireto que o homem obtém dos ecossistemas” (MEA, 2005). A Avaliação dos Ecossistemas do Milênio (EM) foi fundamental para o desenvolvimento deste conceito, sendo uma das principais conquistas a inclusão do SE na agenda global sobre sustentabilidade. A análise da gestão de recursos naturais através dos SE e sua vinculação direta com o bem-estar humano proposto pela EM, tem sido pioneira na investigação do meio ambiente (ver Caixa). A partir desta aproximação, resultam mais claras as consequências a nível econômico, social y do bemestar humano dos danos sobre o ecossistema. Incorporando além de uma dimensão econômica, este conceito provê informação fundamental para os gestores frente a implementação de políticas efetivas de conservação que contribuam ao bem-estar social e desenvolvimento sustentável (de Groot 1992, 2010, Constanza et al. 1997, Boyod & Banhaf 2006, Fisher & Tuner 2008, Nahlik et al. 2012).

25


[Fonte: Avaliação dos Ecossistemas do Milênio (2005)]

O marco conceitual proposto pela EM localiza o ser humano como parte integral dos ecossistemas, propondo uma interação dinâmica entre eles, onde as mudanças produzidas pelas atividades humanas afetam (direta ou indiretamente) aos ecossistemas, modificando, assim, o bemestar das próprias sociedades (MEA, 2005).

26


Uma praia

27

sã e funcional brinda

biológicas que habitam este sistemas. A fun-

uma grande quantidade de SE que são es-

cionalidade natural da praia estaria vinculada

senciais para o uso humano destes sistemas,

a garantir as condições que permitam o des-

que, usualmente, agrupam-se em três gran-

envolvimento de ditas comunidades. A fun-

des categorias: de Proteção, Natural e Re-

ção recreativa das praias está relacionada

creativa (Ariza et al. 2010). A função de pro-

com o papel de suporte físico das distintas

teção das praias está diretamente relaciona-

atividades recreativas e de explotação turísti-

da com a segurança das infraestruturas que

ca que cumprem estes sistemas. Para que

se encontram na parte traseira da praia (ou

sejam funcionais, as praias devem cumprir

hinterland). A Praia dissipa/absorve a energia

uma série de condições como ser larga o su-

da onda incidente durante o impacto de tor-

ficiente, prover de condições seguras de ba-

mentas protegendo assim o hinterland e as

nho ou vistas e paisagens atrativas.

infraestruturas. Neste sentido, para que a

Para áreas costeiras e, especificadamente,

praia seja realmente funcional, sua porção

para as praias, são descritos diversos SE

emergida deve ter uma largura suficiente

(e.g. MEA, 2005; Beaumont et al., 2007; De-

para que possa prover esta proteção

feo et al., 2009; Brenner et al., 2010; Lozoya

(Jimènez et al. 2011). Como mencionado an-

et al., 2011), talvez, como os mais caracterís-

teriormente, existem diversas comunidades

ticos, poderiam ser destacados:


28


Amortecimento de eventos extremos: fundamental na proteção de infraestruturas na parte traseira da praia, frente a grandes flutuações ambientais (e.g. tempestades, erosão, inundações). É particularmente importante nas zonas urbanas e está determinado pelas infraestruturas existentes.

Hábitat: este serviço se relaciona com a matriz física que as praias proporcionam, onde se desenvolvem distintas comunidades biológicas (e.g. invertebrados bentônicos, aves locais e migratórias, tartarugas, mamíferos marinhos), incluindo o próprio hábitat que estes podem gerar.

Alimento: as zonas costeiras e as praias são tradicionalmente zonas muito ricas em alimentos, dando origem a diversas pescarias artesanais (e.g. bivalves, peixes), mas também em épocas mais atuais há um grande desenvolvimento da pesca esportiva

29


Recreação: este serviço está diretamente relacionado a oportunidade de lazer, relaxamento e ao estimulo do corpo e da mente que estes ecossistemas impulsionam. Além disso, este serviço é a base da uma imensa indústria a nível mundial que resulta fundamental para o desenvolvimento económico de muitos países.

Espiritual, cultural ou histórico: Embora este serviço nem sempre seja considerado e valorizado em sua totalidade, os ecossistemas proveem uma grande informação cultural, espiritual e histórica através de suas características naturais.

Estético: este serviço está vinculado às características da paisagem que os tornam atrativos a partir do desfrute sensorial de um sistema ecológico funcional.

A zona litoral é particularmente atrativa para o ser humano, já que além de fornecer todos estes serviços, é também um lugar estratégico para a indústria, a atividade comercial e o transporte (Tett et al, 2009).

30


31


AS PRAIAS AO LONGO DO TEMPO

Briana Angélica Bombana

Mestranda em Manejo Costero Integrado del Cono Sur

Onde tudo começou...

Centro Universitario de la Región Este – Universidad de la República

Heráclito, criador da dialética, defendia

atividades produtivas desenvolvidas na

que “nada é permanente, a não ser a mu-

época, com destaque para os solos infér-

dança”. De fato, as praias tanto do ponto

teis e muito salinos à agricultura.

de vista de sua morfologia quanto do seu uso pela população podem ser encaixadas nessa definição uma vez que tem sofrido diversas modificações ao longo do tempo.

 Após o descobrimento do novo continente, no final do século XV, foi dado o início a uma modificação desta concepção e as zonas litorâneas europeias começaram a

Salvo alguns esparsos momentos da anti-

ser povoadas, através das atividades por-

guidade - como na Roma antiga, com suas

tuárias e depois das atividades industriais1,

vilas balneárias - quando o mar remetia a

embora os vilarejos e cidades ainda tives-

fins de higiene e esportivos, a costa foi

sem um olhar voltado aos continentes,

maiormente vista como um local inóspito

construídos de costas para o mar. Tal fato

que representava perigo às pessoas até o

se faz ainda mais importante no continente

período das grandes navegações, pois se

americano dado que, constituído de países

acreditava que o oceano era a moradia de

povoados ou colonizados, a ocupação

grandes monstros que se alimentavam de

deste território começou, quase sempre,

seres humanos1, sendo caótico, abissal e

pelas praias, com as embarcações como o

demoníaco. Além disto, as terras costeiras

principal meio de transporte para novas

também eram consideradas inúteis para as

conquistas territoriais2.

32


VOCÊ SABIA QUE ... EM MONTEVIDÉU, URUGUAI, DADE

-

A PRIMEIRA

“PLANTA”

ONDE HOJE FICA A CIDADE VELHA

-

DA CI-

FOI PENSADA

DENTRO DE UMA MURALHA E AS CASAS NÃO SE VOLTAVAM À REGIÃO COSTEIRA E PORTUÁRIA PORQUE ESSA ERA TIDA COMO FONTE DE SUJEIRA, DOENÇAS E “PROMISCUIDADE”?

ATUALMENTE, NA CAPITAL URUGUAIA, O TURISMO DE SOL E PRAIA É UMA FORMA DE INGRESSO ECONÔMICO DURANTE OS MESES DE VERÃO

?

Paralelamente, o litoral também começou a

causar curiosidade, o mar acaba visto como caminho para chegar a lugares desconhecidos, de novos conhecimentos e conquistas1. No fim do século XVII, surgem os estudos da

oceanografia que permitem conhecer melhor esse grande inimigo chamado oceano. E, como colocado por Corbin3, historiador francês que traça a história da praia no imaginário ocidental, na metade do século XVIII “a beiramar readquire uma antiga função, faz-se de novo lugar privilegiado dos enigmas do mundo. Vai-se a ela para interrogar sobre o passado da terra e as origens da vida. Melhor do que em qualquer outra parte, ali é possível, de fato, efetuar a leitura da multiplicidade dos ritmos temporais, perceber o alongamento da duração geológica, observar a indecisão das fronteiras biológicas, a incerteza dos reinos e as curiosas transições entre eles”.

33


A CHEGADA DO BANHO DE MAR

Porto Belo Beach, Escócia – 1905

O banho de mar como atividade humana só aparece em meados do século XVIII recomendado para fins medicinais, com banhos receitados e programados pelos médicos, de duração precisa e acompanhado por um profissional especializado em banhos curativos, primeiramente na França e Inglaterra, o que após se estendeu a outros países europeus. Visto o beneficio do uso das praias como “medicamento” - que corroborava com práticas muito mais antigas, defensoras da água fria como favorecedora da longevidade - fez com que os balneários fossem buscados por todas aquelas pessoas que sofriam de alguma enfermidade e que conviviam com condições de insalubridade nos ambientes urbanos.

34


Postal Praia de Pocitos, MontevidĂŠu, Uruguai - Ano de 1910

35


Postal de ConeyIsland, Nova York, EUA - 1856

Tal atividade acabou ganhando uma função de lazer

riqueza da vida cultural engendram uma instável dis-

quando o mar, o sol e a paisagem costeira começam

tribuição de méritos respectivos”3.

a ser percebidos como cenários capazes não só de restabelecer as condições físicas, mas também mentais das pessoas. “A essa altura, a figura da praia se turva, os mitos se entrecruzam, os estereótipos se acumulam em uma confusa concorrência. As qualidades respectivas dos elementos, as características da topografia, a eficácia do equipamento hospitalar, a amplitude da rede de sociabilidade e a

Ainda que a fruição da água do mar pelos banhistas já houvesse começado – inclusive antes dos padrões britânicos, em comunidades de pescadores ou insulares – neste momento, não havia a busca das mesmas para o banho de sol, pois a queima da pele a ressecava. As atividades até então comtempladas incluíam principalmente a caminhada e a conversa entre as pessoas.

36


... E, do banho de sol No século XIX, no continente europeu, a praia então assume definitivamente o papel de vilegiatura balnear e o banho de sol também é evidenciado como benéfico, especialmente em países como a Inglaterra, França, Itália e Espanha, por intermédio dos spas, do iatismo, dos bailes e dos passeios à beira-mar4. Primeiramente, a consolidação disto se dá através da elite britânica que apresentava um poder de criar tendências em classes mais baixas, como os burgueses, acabando por se estender à população de um modo geral. A industrialização e o melhoramento das vias de transporte proporciona o acesso às cidades litorâneas e o visitante já não é somente originário de classes abastadas, a praia se populariza4. O nascimento da arquitetura voltada ao mar também se dá nesta ocasião, já que a contemplação do encontro do mar com o continente se converte em um desejo coletivo.  

37


“Don’tbe a paleface!”: Anúncio do protetor solar Coppertone – Década de 50.

Propagandas das linhas de trem britânicas para cidades costeiras no meio do séc. XX

38


Neste contexto, cabe destacar o fenômeno da segregação social, o qual passou a existir por parte da aristocracia industrial europeia, pois a esta não lhe apetecia compartilhar do mesmo balneário com outras classes, o que a fazia selecionar um novo local ou, no caso de decidir manter a permanência, havia uma clara divisão de sua localização indicada pela diferença das estruturas para os banhos de mar. Esta segregação, inclusive, permaneceu no tempo e pode ainda ser vista em diverPraia dos Pocitos, Montevidéu, Uruguai – Ano de 1938

sos destinos praieiros.

VOCÊ SABIA QUE ...

NO   INÍCIO   DO   USO   DAS   PRAIAS   PARA   O   USUFRUTO   PESSOAL   AINDA   ERA   NECESSÁRIA   A  AJUDA  DE   TERCEIROS  PARA  TAL?   ISSO  QUER  DIZER,  O  PRAZER   NASCIA  DA  ÁGUA  FRIA,   SALGADA,  TURBULENTA  E  VIOLENTA,  O  QUE   IMPLI-­‐ CAVA  CUIDADOS  COM  A  SALVAGUARDA.  PORTANTO,  HAVIA   A  NECESSIDADE   DA   PRESCRIÇÃO  MÉDICA,  DA   COMPANHIA   DE  UM  BANHISTA  AUXILIAR  E   DE   UMA   PRAIA   COM   DECLIVE   CUIDADOSAMENTE   RECONHECIDO.   PODE-­‐SE   39

DIZER   QUE   A   CRIAÇÃO   DA   PROFISSÃO   DO   GUARDA-­‐VIDAS   TENHA   VINDO   DAQUI

?


A fo nt e de laze r

VOCÊ SABIA QUE ...

Praia do Caju, Rio de Janeiro, Brasil

O inicio do prestigio da faixa litorânea com rela-

atração turística massiva. O turismo se torna,

ção ao ócio se salienta ainda mais nos países

então, um fenômeno social com o crescimento

fronteiriços com o mar Mediterrâneo – de águas

expressivo dos fluxos turísticos no litoral4. Há,

mais quentes - e a praia surge como é concebi-

até mesmo, quem defenda - como é o caso do

da ainda hoje. Ocorrida inicialmente para uma

próprio Corbin - que a moda das praias tenha

demanda seletiva, a partir dos anos 60 e até os

sido um fator importante para consolidar o tu-

dias atuais, estes países se constituem locais de

rismo moderno.

40


Ipanema, Rio de Janeiro, Brasil – Década de 60

No continente americano, ainda que hajam registros do uso das praias para banhos de mar no final do século XIX e início do século XX - por exemplo, a praia do Caju no Rio de Janeiro aderida primeiramente por D. João VI que se torna o primeiro balneário da cidade (e do Brasil!) no século XIX - é somente na década de 60 que se considera a ampliação do segmento do turismo costeiro da Europa para outros continentes.

41


Maya Beach, Tailândia, a praia do filme “A Praia” lançado em 2000

Hoje, reconhece-se que as praias - além do be-

ção da força das hidrodinâmica marinha, res-

nefício social e econômico que proporcionam re-

posta dinâmica ao aumento do nível do mar, de-

lacionados principalmente ao descanso - são

composição do material que contamina a areia,

inspiração para o desenvolvimento de uma cultu-

filtração e purificação da agua, manutenção da

ra associada a elas, traduzida através da arte,

biodiversidade e recursos energéticos, áreas de

música, literatura, cinema, consumo e compor-

criação de peixes juvenis, lugares de nidificação

tamento. Ademais, apresentam diversas outras

de tartarugas e aves, espaço de presa para aves

funções e serviços ecossistêmicos, como arma-

e fauna terrestre5.

zenamento e transporte de sedimentos, dissipa-

Capa do livrosobre a culturado surf “Pop Surf Culture: Music, Design, Film and Fashion from the Bohemian Surf Boom”, Chdester, B & Priore, D. 2008.

42


VOCÊ SABIA QUE ... ATUALMENTE,

DE ACORDO COM DADOS DA IN-

TERNATIONALSURFINGASSOCIATION

– ISA,

EXISTEM

35 MILHÕES DE SURFISTAS NO MUNDO? AO OLHAR COM UMA LUPA NAS

AMÉRICAS,

CONTRAR UM TOTAL DE TAS.

ALÉM

13,5

MILHÕES DE SURFIS-

DISSO, A INDÚSTRIA DO SURF JÁ MOVI-

MENTA US$ 22BILHÕES POR ANO !

43

É POSSÍVEL EN-

?


P A R A

L E V A R

E M

C O N T A

Em muitos países, como o Brasil e o Uruguai, as praias são consideradas patrimônio de toda a população e tal ideia implica em algo que deve ser passado entre gerações;

Como lembrete, é importante refletir o seguinte provérbio de índios americanos “Nós não herdamos a terra de nossos pais, nós a emprestamos de nossos filhos”;

Neste âmbito, como vamos entregar as praias aos nossos filhos no futuro?

44


O TURISMO DE SOL E PRAIA

?

Guilherme Godoy Barattela

Mestrando em Ciência e Tecnologia Ambiental Univeridade do Vale do Itajaí - UNIVALI Várias são as definições utilizadas para o turismo

A ORIGEM DA PALAVRA TURISMO TEM SEU

direcionado às áreas litorâneas, tais como Turismo

NOME DERIVADO DO

em Praias, Turismo Litorâneo, Turismo de Sol e Mar,

CIRCUITO, VOLTA AO REDOR”, DE  TOURNER, “FA-

Ecoturismo Litorâneo, Turismo de Sol e Praia ou Tu-

ZER A VOLTA”, DO LATIM  TORNARE,

“FAZER DAR

rismo Costeiro. Mesmo com a diversidade de no-

A VOLTA, POLIR, GIRAR UM TORNO”

... OU SEJA,

menclaturas, os impulsionadores destas modalidades turísticas predominantemente são os mesmos: A presença conjunta de Beleza Cênica, Sol, Calor e Água1,8, favorecendo o desenvolvimento das atividades de recreação, descanso e entretenimento7. Embora os impulsionadores sejam os mesmos, as características geográficas, paisagísticas, culturais e de infraestrutura, particulares de cada localidade, diferenciam as atividades e suas atratividades, gerando fluxos de pessoas distinto das áreas circundantes em função de seus interesses nos atributos disponíveis para a atividade turística. No entanto, muitas são as iniciativas para prover serviços turísticos a partir da implementação de infraestrutura (ex: Eco equipamentos, Resorts, Hotéis, Bares, Danceterias...) para que estes somem aos atributos naturais e paisagísticos, aumentando sua atratividade turística8, ou seja, os processos turísticos em regiõeslitorâneas podem ser alterados no espaço e tempo se ajustando entre oferta e demanda5, também sendo as praiascompreendidas como espaços de multiuso, podendo atrair maisde um perfil de usuário ao mesmo tempo.

45

VOCÊ SABIA QUE ...

FRANCÊS  TOUR, “VOLTA,

SAIR, DAR UMA VOLTA E RETORNAR.


E ...

A   DÉCADA   DE   60   FOI   MARCADA   PELA  ECLOSÃO   DO  TURISMO   DE   MASSA   QUANDO   SE   REGISTRARAM   E   FORAM   RECONHECIDOS   OS   IMPACTOS   NEGATIVOS   DA   ATIVIDADE   TURÍSTICA?   NESTA   ÉPOCA,   ESTE  SEGMENTO   FOI  INCLUSIVE   DESMISTIFICADO  COMO  A   “INDÚS-­‐ TRIA  SEM  CHAMINÉS”

46


O turismo de praias também é reconhecido pelos fluxos massivos durante os períodos ensolarados e de clima quente ou ameno do ano, onde grandes quantidades de pessoas buscam a costa para o relaxamento e espairecimento associado ao banho de mar e infraestrutura disponível, sendo este cenário paisagístico diferenciado ao local originário destes usuários de praia, muitas vezes relatado como sendo o “escape da vida urbana”5 através das atividades de lazer e recreação disponíveis.

47


VOCÊ SABIA QUE ...

?

OS EUA É CONSIDERADO A DESTINAÇÃO TURÍSTICA MAIS IMPORTANTE DO MUNDO, AO MESMO TEMPO, UMA ÚNICA

PRAIA ESTADUNIDENSE

“MIAMI BEACH” RECEBE MAIS VISITANTES QUE

OUTRAS ATRAÇÕES COMO OS PARQUES NACIONAIS DE

YELLOWSTONE, GRAND CANYON E

YOSIMITE, TODAS EM CONJUNTO ?

São entendidas como atividades recreativas do turismo de praia qualquer atividade que vincule Banho, Surf, Kitesurf, Windsurf, Mergulho, Equipamentos Náuticos, Esportes, Cultura e Gastronomia, entre outras

Embora o foco principal destes fluxos turísticos seja a praia, a influência exercida neste espaço ultrapassa a barreira do beira-mar e se reflete também em diversas atividades locais no entorno de onde esta praia e localiza. A grande quantidade de banhistas na faixa de areia, o aumento acentuado na procura de hotéis, a maior presença de pessoas em restaurantes e o aumento do tráfego nas vias de circulação são exemplos expressivos desta realidade.

48


A problemática O turismo costeiro pode ser considerado um ele-

da gestão ambiental, uma vez que esta modalida-

mento paradoxal, pois é responsável pela acele-

de turística é um grande consumidor destes

ração do desenvolvimento urbano e econômico, o

recursos.1,8

que traz inúmeros benefícios em infraestrutura,

Esta indagação é refletida pelo motivo que, es-

assim como de natureza socioeconômica; por ou-

sencialmente, o Turismo de Praias se desenvolve,

tro lado é concentrador de riqueza, de apropria-

muitas vezes, em áreas consideradas de preser-

ção de espaços, de segregação social e de de-

vação permanente4e ecologicamente frágeis5,

gradação ambiental. O que difere esta contradi-

prejudicando a estabilidade e a função ecológica

ção, em realidade, vem do fundamento legal que

da orla marítima, manguezais, matas de restinga,

incide, mesmo que indiretamente, sobre o Turismo

recifes de corais, marismas e áreas inundáveis,

de Sol e Praia

aumentando a vulnerabilidade a catástrofes natu-

Os fatores que influenciam sobre a qualidade do

rais, perda da biodiversidade e diminuição dos

turismo de praia está associada a aspectos de

estoques dos recursos ambientais disponíveis8,

gestão patrimonial e ordenamento territorial, ges-

através do desenvolvimento de atividades incom-

tão energética, gestão de recursos hídricos, ges-

patíveis com o ambiente em que está inserido.

tão de zonas costeiras e orla marítima e, também,

Notícias sobre problemas de erosão observados nas praias de Cancún – Destino mexicano de sol e praia internacionalmente reconhecido.

49


VOCÊ SABIA QUE ... ?

A  década  de  60  foi  marcada  pela  eclosão  do  turismo  de  massa  quando  se  registraram  e  fo-­‐ ram  reconhecidos  os  impactos  negaBvos  da  aBvidade  turísBca?  Nesta  época,  este  segmen-­‐ to  foi  inclusive  desmisBficado  como  a  “indústria  sem  chaminés”

Não somente em questões ambientais, a gestão

Uma das grandes questões que ainda é desfa-

dos recursos direcionados as atividades turísti-

vorável ao cenário do turismo na costa, é que

cas podem trazer grandes impactos nas comu-

nem sempre o aumento repentino do número de

nidades locais, afetando diretamente a estabili-

turistas é acompanhado pela provisão de in-

dade socioeconômica7e características culturais

fraestrutura necessária. Como exemplo disso, a

das populações residentes, bloqueando estes,

diminuição da eficiência do saneamento básico

ou não, ao desfrute conjunto dos usufrutos ge-

durante o período de alta temporada, por tanto

rados pelo turismo em suas praias e apreço

de maior número de usuários, pode gerar a

pelo local³, requerendo uma gestão de recursos

contaminação do solo e água, resultando em

adequada como um modo de minimizar os im-

um alto risco a saúde humana e a integridade

pactos gerados pelas atividades vinculadas a

ambiental, que por sua vez pode influenciar ne-

este setor

gativamente a percepção coletiva sobre a qualidade desta praia turística. 50


Fotos das praias ambientalmente certificadas de Barcelona, Espanha

51


O que fazer ? A nível global, ainda pode ser notada a tendên-

Entretanto, não existe uma regra básica para a

cia da valorização ambiental das praias, tor-

elaboração deste planejamento, se tornando

nando imprescindível a implementação de pa-

necessária a consideração das particularidades

râmetros e ações que garantam as condições

sociais e ambientais as quais as praias estão

ideais de qualidade neste ambiente marinho-

inseridas, na tentativa de identificar os princi-

costeiro, por meio de gestão estratégica, pla-

pais vetores de desenvolvimento a nível local,

nejamentos participativos e fixação de critérios

possibilitando as gerações futuras os mesmos

de certificação ambiental, buscando prover de

benefícios e qualidade natural desprendidos do

maneira otimizada, parâmetros para a qualida-

desfrute atual.

de de água, cobertura de segurança, educa-

O emprego efetivo de ações de gestão estraté-

ção, acessos, qualidade das areias, informa-

gica pode gerar um grande poder de circulação

ções e equipamentos, assim como práticas de

de capital associada a conservação dos atribu-

usos e ocupações4,5.

tos ambientais, possibilitando para uma região

A aplicabilidade do planejamento e gestão para

o desenvolvimento econômico na criação de

o turismo de Sol e Praia, busca acompanhar e

emprego e renda, associado a manutenção da

monitorar os fluxos de visitantes e do destino

integridade do ecossistema local, implicando,

como um todo, definindo diretrizes, políticas e

assim, na melhoria e manutenção da qualidade

estratégias comuns para lidar com os proble-

de vida e consequente valorização do território.

mas também comuns a todos que, de alguma

Assim, para a realização de um planejamento

maneira, se vinculam ao ambiente praial, de

ou gestão em uma praia turística, se torna fun-

forma a alcançar expectativas ótimas para a

damental a elaboração de um processo que

utilização deste espaço de maneira ecologica-

articule informações e estratégias almejadas

mente sustentável e economicamente viável3,8.

por todos dentro da área de abrangência de

Neste sentido, se torna de extrema importância

cada localidade, tanto em sua estrutura como

o trabalho integrado dos setores públicos, pri-

em sua funcionalidade, trabalhando de forma

vados e sociedade civil organizada6, no estabe-

integrada com realidades complexas em todos

lecimento de parcerias como parte essencial

os níveis, do regional ao local, identificando os

para o posicionamento dos distintos locais a

pontos críticos a serem superados e os desafi-

uma posição competitiva dentro do mercado

os a serem vencidos.

turístico4.

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CONTRA CAPA


A S

P R A I A S


Livro praias