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FUNDiÇÃO

Nº 1 - Junho 2012 - ASSOCIAÇÃO BARREIRO PATRIMÓNIO MEMÓRIA E FUTURO

Desta actividade resulta um conjunto de testemunhos que constituem um importante e valioso património industrial e arquitectónico que importa conhecer e salvaguardar e cuja sustentabilidade urge garantir.

www.patrimoniobarreiro.org

FUNDiÇÃO Ficha tecnica

Temas Edição digital

Editorial.....................................................Pag. 3 Razões de ser da Associação......................Pag. 4

BARREIRO

A Fundição................................................Pag. 5

Nº1

A Arte da Fundição ...................................Pag. 8

Junho 2012

A Cultura Ferroviária no Barreiro .............Pag.10 Preservar para o futuro do Barreiro!.........Pag.13 O Centro Historico Ferroviário do Barreiro...............................................Pag.15

Edição ASSOCIAÇÃO BARREIRO PATRIMÓNIO MEMÓRIA E FUTURO

Crónicas de uma breve viagem ao Barreiro revisitadas e alargadas ...............Pag.18 Património Industrial do Barreiro: Contributos para a história da Indústria Moageira..............................Pag.21 Contributos para a Elaboração de um Projeto de Salvaguarda do Património e História do Barreiro............Pag.22

Contactos: barreiropmf@barrreiroweb.com

“Revista digital “FUNDIÇÃO” - “JUNHO 2012” Nº1 Pag - 2

EDITORIAL A edição da revista digital “ FUNDIÇÂO”, dedicada à história e património material e imaterial do Barreiro, tem as seguintes finalidades: - Ocupar um vazio editorial nesta área específica das nossas memórias, identidade e património material; - Dar a conhecer o nosso passado, cheio de exemplos de importância regional, nacional e internacional; - Refletir sobre este percurso, colhendo nele os ensinamentos que nos permitem enfrentar o presente e traçar o futuro; - Registar memórias e partilhá-las, convidando todos os que o quiserem fazer a escrever para a revista, ou a enviar documentos para publicação. Optámos por lhe atribuir o título de FUNDIÇÂO por múltiplas razões que nos pareceram adequadas às finalidades traçadas. Primeiro porque a Fundição da CP no Barreiro, que começou a laborar a 22 de Dezembro de 1960, é um caso exemplar no País, mostrando, mais uma vez, que a nossa história de trabalho e mão-de-obra especializada, garantiam as apostas numa economia produtiva, ao contrário do que se passa hoje, que estando tão necessitados de abrir unidades produtivas, assistimos ao encerramento das poucas que existem, desaproveitando a mão-de-obra especializada existente. Em segundo lugar, porque Fundição nos remete para a palavra indústria, marca identitária do Barreiro. Terra de fusão da história do desenvolvimento industrial manufactureiro à industrialização. E, por último, porque a palavra fundição resulta da fusão dos vocábulos fundir e ação, configurando as ideias de união, trabalho, criação e transformação, ideias chave deste projeto. A revista “FUNDIÇÂO” visa reunir conhecimento/s e esforços que permitam uma acção transformadora alicerçada na nossa história e património, no respeito pela nossa identidade.

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Associação Barreiro Memória Património e Futuro Razões de ser da Associação Barreiro, o apego à terra

No golfo do Tejo que dá pelo nome de “Mar da Palha”, frente a Lisboa e aconchegado à borda-de-água, situa-se o Barreiro. Sensivelmente trinta e cinco quilómetros quadrados, rodeados de água e sapais por três lados menos um, tal como aprendemos ser uma península. A sul… o Rio Coina, vindo da “Serra Mãe”, abraça o Tejo junto a Alburrica. E o Brilho e esplendor, que a palavra árabe significa, enchem o nosso olhar na contra-luz dos dias. Nesta escrita de afectos se revela o apego à terra que nos une e move. Barreiro, a importância de uma história singular A centralidade no estuário, a proximidade à capital, a boa acessibilidade dos rios Tejo e Coina e os recursos naturais determinaram que quase tudo o que pode ser transformado pela força humana, aqui tenha frutificado – das redes de pesca às salinas, do vinho ao vidro e à cerâmica, da terra lavrada à metalurgia, da madeira aos produtos químicos, dos moinhos à cortiça, da indústria naval à ferroviária… Unidades produtivas manufactureiras, proto-industriais e industriais com tecnologias de primeira linha em cada momento e importância nacional e internacional, com relevo para os períodos da Expansão e Industrialização, configurando uma identidade fundada ao trabalho e na multiculturalidade. O vigor das unidades produtivas especializadas, instaladas ao longo dos séculos, determinou o lugar de destaque que o Barreiro sempre ocupou nos processos de

desenvolvimento do País. Cada elemento deste percurso é sinal do esforço colectivo das gerações que nos antecederam e que devemos respeitar por razões culturais e identitárias Barreiro: o nosso compromisso com os homens a sua / nossa história ou memória identidade e futuro. Foram muitos os homens e mulheres que neste percurso, traduzido um património histórico material e imaterial, guardaram e reinventaram a herança nos seus quotidianos de trabalho e luta para ganhar o pão e realizar os sonhos. Uma herança que é “pano de fundo” indispensável ao esforço de compreensão do presente e ao desenho do projecto para o futuro. Hoje, somos todos depositários desta memória, lastro identitário do nosso futuro. Cumpre-nos recolher o passado, divulgá-lo, analisá-lo no presente, integrando estas acções num projecto/ processo cultural mais vasto de valorização do Barreiro e das suas gentes, porque a memória colectiva é instrumento fundamental do desenvolvimento humano e garantia de melhor futuro

Finalidades da Associação: Garantir a preservação da nossa memória colectiva de forma a reforçar a nossa identidade e a encontrar os caminhos futuros; Constituir-se num centro de difusão cultural assente na intervenção na comunidade, na interpretação crítica do nosso passado e na defesa do nosso património histórico, cultural, social e natural. Congregar esforços individuais e colectivos que promovam a conciliação entre preservação essencial da nossa história e património e os projectos de transformação do Concelho, ou seja encontrar novas soluções para novos caminhos.

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A Fundição

da C.P.

Caminhos de Ferro Portugueses

A presente nota aqui reproduzida foi-me facultada pelo seu autor, Silvério Ribeiro, antigo fundidor e Chefe de Brigada da Fundição do Barreiro, em contacto estabelecido quando da preparação da Exposição “Património dos Afectos”, realizada pela Câmara Municipal em 2010, no âmbito das comemorações dos 150 Anos de Caminho de Ferro no Barreiro.

Rosalina Carmona “Revista digital “FUNDIÇÃO” - “JUNHO 2012” Nº1 Pag - 5

«A Fundição da C.P. Caminhos-de-ferro, que funcionou no Barreiro, num sítio denominado por escavadeira (Lavradio), foi a sucessora de quatro fundições que a C.P. teve. Depois de a C.P. ter optado pela unificação dos seus serviços de fundição, encerrou as fundições de: Porto-Campanhã, Figueira da Foz, Lisboa-Santa Apolónia e a que tinha no Barreiro. A nova fundição criada no Barreiro, foi considerada na época, como a melhor do País. Começou a laborar em 22/12/1960, sob a chefia do Engenheiro Paulo Vicente, que teve um papel importante no arranque da fundição. Fundia ligas de ferro, bronze e alumínio. Havia dois fornos Morgan para fundir as ligas não ferrosas, e três fornos cubilotes para as ligas ferrosas. Os fornos cubilotes eram, unidades de fusão contínua, tinham como combustível o carvão de coque, fundiam 6 a 8 cargas por hora. Havia o laboratório que preparava todas as ligas que se fundiam. Havia a carpintaria de moldes onde se fabricavam todos os moldes que a C.P. necessitava. Os moldes eram guardados na Casa de Moldes, as prateleiras eram feitas em alvenaria, e dariam um comprimento de 2Km, onde estavam arrumados e catalogados todos os moldes desde o início da C.P. Fundia-se todo o tipo de peças, desde válvulas, rodas, carretos, cinzeiros, alicates de revisores, blocos de cilindros das máquinas a vapor, hélices para barcos, cabeças e buliços de motores, tendo sido feito o molde e fundido o bloco do motor para o barco Évora. Havia uma linha mecanizada para o fabrico de cepos de freio, para frenagem do material circulante. As peças fundidas eram maquinadas no Grupo Oficinal do Barreiro, e pode-se afirmar que, uma máquina a vapor poderia ser totalmente construída no Barreiro. A C.P. decidiu encerrar o serviço de Fundição, tendo sido o último vazamento de ferro em 23/03/1989, bronze em 31/07/1991 e alumínio em 02/09/1991. Na história da Fundição há a realçar grandes profissionais, que produziam peças muito importantes para fazer movimentar locomotivas, barcos, carruagens e vagões, num trabalho duro que é a Fundição.

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Tenho a destacar o fundidor Dionísio dos Mártires, que moldou a placa que homenageia a memória do industrial Alfredo da Silva no seu mausoléu. Os carpinteiros de moldes: Ventura Levesinho (autor de bonitas miniaturas sobre transportes, encomendadas à C.P. pelo Museu dos CTT, hoje Museu da Fundação Portuguesa das Comunicações), Joaquim Saraiva de Jesus (que fez o medalhão em madeira para assinalar o Centenário dos Caminhos de Ferro em Portugal, o qual se encontra na secção museológica de Santarém), e Silvério Martins Ribeiro (1º classificado em carpintaria de moldes, na Fase Nacional do XVIII Concurso de Formação Profissional, organizado pela Mocidade Portuguesa). Silvério Martins Ribeiro Ex- Chefe Brigada da Carpintaria de Moldes»

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A ARTE DA FUNDIÇÃO

“O Zé avançou na preparação do molde. A ponte rolante transportou os três bocados para a barriga da oficina onde ia construir um clone da velha hélice. O ferro para encher o molde foi colocado no forno com carvão de coque que em combustão fundiu o metal. Não dispensava a sua atenção ao forno que fundia o ferro. Era importante o ponto de fusão e o momento escolhido para vazar o ferro fundido na matriz, essencial para a qualidade do trabalho. - Manel, como está a calda? – perguntou o José Mário ao forneiro. - Está perfeita, quando quiseres pode-se vazar. - Então é para já! A calda saída do forno foi depositada em três grandes colheres que receberam algumas toneladas de ferro fundido que no exterior foi coberto com amianto esfarelado de modo a evitar perda de temperatura. De cada pazada deste produto cancerígeno, uma nuvem daquele perigoso farelo elevava-se e incógnito infiltrava-se nas cavidades respiratórias dos homens em actividade na oficina. - Descarrega a calda! – ordenou o José Mário. As colheres desceram sobre o molde e lentamente despejaram o ferro derretido, expelindo grandes quantidades de fumaça, calor e humidade que se alaparam nas vigas de suporte do telhado. Vários dias o ferro iria permanecer em arrefecimento. Com o jacto de ar alisou e deu brilho à superfície da peça. - A limpeza das peças fazia lembrar as tempestades de areia nos desertos que vemos nos filmes, e muitos perigos nos rodeavam todos os dias – comparou Zé Mário. E dava como exemplo o mais horroroso de todos os acidentes naquela oficina e no qual esteve prestes a ser mais uma das vitimas – o forno derretia cerca de quatro toneladas de ferro; o forneiro chegou-se para observar, pela boca do forno, a calda. Não se sabe porquê, de repente uma enorme explosão e uma onda de calor varreu a oficina, lançando o ferro fundido para fora, atingindo o forneiro e outros dois operários que estavam perto. Foi um estrondo e a visão foi a de um vulcão extinto que de repente entra em actividade, atirando a lava pelo ar.

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A massa de ferro em fusão ensopou o forneiro, homem alto, com cerca de um metro e oitenta, em poucos segundos tornou-se um homem pequeno, reduzido a um metro e meio. Desidratado repentinamente, terá ficado sem pinga de liquido. O corpo em fogo do operário exalava odor a carne queimada, horrorizando os camaradas presentes. O desgraçado ficou petrificado, parecia uma estatueta moldada por um escultor. Tomou a forma do último gesto de espanto.” Este texto, página 179 do livro “Peões no Xadrez Imperial da CUF” da autoria de Carlos Alberto (Carló), escritor barreirense, um grande amigo da idade madura, como me chama, impressionou-me por duas razões. Pela dureza e perigo do trabalho e pela arte e técnica empregada. O conjunto de atividades requeridas para dar forma aos materiais por meio da sua fusão, consequente liquefação e seu escoamento ou vazamento para moldes adequados e posterior solidificação, são os métodos usados na Fundição. Estes métodos são muito antigos. Remontam à Pré-história. É assim uma das artes industriais mais antigas. É certo que o seu aperfeiçoamento foi (é) contínuo, sendo hoje considerada uma técnica e feita em grandes siderurgias. Quero salientar que a FUNDIÇÃO é a técnica e arte de fundir, purificar e enformar os metais por vazamento em moldes. Gostava que a Revista FUNDIÇÃO usasse a técnica e tivesse a arte de fundir ideias, as purificasse, as tornasse genuínas, corretas, e depois de as moldar as vazasse nos gabinetes dos responsáveis, de modo que estes as tornassem sólidas e as preservassem como artefatos vivos. Nuno Soares

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A Cultura Ferroviária no Barreiro A influência que o caminho de ferro exerceu sobre

a vida dos barreirenses e os desenvolvimentos daí resultantes, constitui um fenómeno complexo, configurando múltiplos aspectos que, no seu conjunto, poderíamos designar por “cultura ferroviária”. Para este conceito de cultura ferroviária - fruto do trabalho de investigação e reflexão em torno dos 150 anos do caminho de ferro no Barreiro - contribuem um conjunto importante de manifestações que, ao longo dos tempos se foram inscrevendo na história da cidade e hoje conferem uma identidade especial ao Barreiro. A ideia baseia-se nos seguintes 4 pontos, que passo a expor:

1. Com o caminho-de-ferro, paradigma de progresso e civilização, chega uma elite ao Barreiro que vai contribuir para a formação de novas mentalidades; 2. A ferrovia está na origem do que designaremos por associativismo ferroviário; 3. Como elemento relevante para o conceito de cultura ferroviária identifica-se a elevada consciência social dos ferroviários, sinónimo de uma classe esclarecida e muito politizada; 4. Na história urbana da cidade é marcante o significativo conjunto patrimonial ferroviário, porventura, hoje o elemento mais visível da cultura ferroviária no Barreiro.

Oficinas dos Caminhos de Ferro, Barreiro, 1917. Espólio José António Marques, Arquivo Municipal do Barreiro

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1. Progresso e civilização Em 1855 a Companhia Nacional dos Caminhos de Ferro ao Sul do Tejo adquiriu os primeiros terrenos para implantação da rede ferroviária do Sul, ficando concluído em 1859 o troço inicial Barreiro/Vendas Novas. A 2 de Fevereiro realizou-se a viagem inaugural(1), embora a linha só tenha aberto à exploração em 1861. O caminho-de-ferro foi portador de inovação, mercê da presença de uma elite de pessoas instruídas e letradas: os engenheiros franceses e equipas técnicas que os acompanhavam e trouxe novidades que, representaram autênticos avanços do conhecimento e da ciência, à época, senão vejamos: Nos documentos referentes às propriedades onde viriam a assentar as linhas, usa-se a braça como medida dos terrenos (2,2 m). Contudo, em 22 de Agosto de 1855, o plano do traçado dos primeiros 4 km, entre o Barreiro e Alhos Vedros, assinado pelo engenheiro L. de Lenne, já usa uma medida de carácter exacto: o are(2) . Ora, esta medida agrária (±100 m2) surge após a Revolução Francesa (1789), procurando estabelecer um padrão universal. Este viria a ser

adoptado internacionalmente a partir de 1840. O que se pretende aqui assinalar é o momento simbólico da passagem do Barreiro piscatório e camarro(3), para o Barreiro contemporâneo e moderno. O trabalho no caminho de ferro, especialmente nas oficinas e no vapor, exigia pessoas com instrução e preparação técnica muito específica, o que vai contribuir para a formação de um núcleo especializado em distintas profissões, que transformará o Barreiro num pólo de cultura tecnológica. Esta cultura técnica, necessária para trabalhar leva, em última análise, à existência de uma predisposição para a aprendizagem e ao desenvolvimento de pequenas e grandes bibliotecas pelas inúmeras associações que irrompiam a cada canto da vila. «Rara é a colectividade ou associação recreativa ou desportiva, aonde não existe uma estante com livros. Outras mais orgulhosas exibem a sala de leitura. Quem são os obreiros dessa justa causa? […] rapazes e homens que trabalham de dia: ou no cais, ou nas fábricas, no estaleiro ou na oficina, ao balcão ou no escritório.» (4)

(1) A viagem contou com a presença do rei D. Pedro V, de numerosa comitiva governamental e toda a família real. CF. Biblioteca Nacional de Lisboa, “A Revolução de Setembro”, 4 de Fevereiro, 1859 (2) Arquivo do Ministério das Obras Públicas, Plan parcellaire despuis la distance 4000m… Planta por L. de Lenne, 1855, nº CAT: 26, cota: RD 5 A (3) Camarro é uma expressão popular com que os naturais do Barreiro se designam a si próprios, especialmente os das bandas da Senhora do Rosário, para indicar as suas origens antigas (4) MOTA, Mário - Cartas do Barreiro, Portugália editores, Lisboa, 1945, p. 30 “Revista digital “FUNDIÇÃO” - “JUNHO 2012” Nº1 Pag - 11

Esta descrição de Mário Mota, em 1945, enuncia um aglomerado industrial onde vivem «centenas de leitores desejosos de saber, e que por sistema ou princípio, lêem todos os dias […] obras de estudo, ensaios, obras técnicas». (5)

aqui trabalharam e viveram».(6) Rosalina Carmona - Comunicação apresentada ao Colóquio Internacional 150 Anos de Caminho de Ferro no Barreiro, 4-5 de Fevereiro 2011, org. Câmara Municipal do Barreiro/Centro de Estudos de História Contemporânea/Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

Tal ideia é reforçada por Jorge Teixeira, ele próprio um ferroviário e homem de letras, que fala de um «verdadeiro escol de engenheiros que serviram a profissão e o Barreiro, bem como, o considerável ní- A continuar nos nºs seguintes da Revista “Fundição” vel médio de instrução de centenas de ferroviários do Sul e Sueste, que desde o início da construção, Rosalina Carmona

Escola de Aprendizes, Barreiro, Anos 60. Fotografia de Álvaro Monteiro

(5) MOTA, p. 31 (6)TEIXEIRA, Jorge – O Barreiro que eu vi, Câmara Municipal do Barreiro, 1993, p. 72 “Revista digital “FUNDIÇÃO” - “JUNHO 2012” Nº1 Pag - 12

PRESERVAR PARA O FUTURO DO BARREIRO!

A

ria oficinal do Barreiro, bem como a memória das profissões (únicas) que foram criadas pela implementação do caminho de ferro.

Tendo em conta o interesse público, municipal e nacional, é possível classificar todo o Património material, imaterial e técnico ferroviário do Barreiro.

Será possível, e tem um enorme interesse, dotar a velha rotunda com locomotivas em estado de marcha, com vista a organização de recriação de viagens históricas nas linhas a Sul e Sueste.

realidade ferroviária faz parte da memória, da história e da identidade do Barreiro.

A possibilidade de criação de um núcleo museológico ferroviário, integrado numa rede do Centro histórico do património industrial, a funcionar em sintonia com o programa do MNF – Museu Nacional Ferroviário, com sede no Entroncamento, poderá ser uma forma de preservar a nossa história. Bastará, para tanto, que as entidades públicas e privadas, municipais e nacionais, tomem as devidas precauções para evitar a degradação do material actualmente ainda existente, reduzindo, dessa forma, os custos com a sua futura recuperação para integração no núcleo museológico ferroviário. Os edifícios presentes na área envolvente do depósito de máquinas, nomeadamente o armazém regional, a rotunda de locomotivas e áreas desafectadas das oficinas, constituem espaços adequados para exposições sobre a temática ferroviária. Nesta área, seria possível preservar a memória dos ferroviários, a histó-

Na verdade, existem variadas peças com interesse histórico, nomedamente, um guindaste a vapor, peça única da arqueologia industrial, que se encontra junto à Rua Miguel Bombarda e que foi usado até 1969, no carregamento do carvão destinado ao abastecimento dos “tenders” das locomotivas a vapor. E se em matéria de peças e máquinas, a sua existência está devidamente comprovada, é importante não esquecer o património edificado, como é o caso dos edifícios Ferroviários, nomeadamente, a Estação Centenária, inaugurada em 1884 do Barreiro Mar; a frontaria da antiga Estação Ferroviária, actual edifício da EMEF, doca, rotunda (antigas cocheiras das locomotivas a vapor), armazém regional, antigo edifício da Região, antigo armazém de viveres, Bairro Ferroviário, depósitos de água etc etc. Dezenas de outras peças de menor envergadura, material das oficinas e

outros, encontram-se ainda no Barreiro, integrando o legado Património Ferroviário. Existem, de facto, diversas e variadas peças de inquestionável interesse histórico e arqueológico, embora, se nada for feito num curto espaço de tempo, se preveja a dissipação total deste legado. O Barreiro foi, ao longo dos anos, considerado como a “Catedral do Diesel” pelos ferroviários, pelo que também este segmento deveria ser preservado, promovendo-se a reparação das unidades térmicas restantes, cujo futuro, apesar do seu interesse histórico, se prevê venha a ser a venda a sucateiros. Infelizmente, na opinião de muitos altos responsáveis, não existe material suficiente nem condições para a criação de um núcleo histórico ferroviário, pese embora a pequena resenha que se fez acima, sobre o que ainda existe. Aliás, a possibilidade da criação de um núcleo desta natureza, nem tão pouco foi mencionado no discurso de tomada de posse do primeiro Presidente da Fundação que detém o Museu Nacional Ferroviário o Sr. Dr. Carlos Frazão, tendo sido completamente ignorado a existência do Barreiro e toda a sua história ferroviária.

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É evidente, para quem quer ver, que o Barreiro detém ainda um enorme património Ferroviário. Ignorar esta realidade, é ignorar toda a história feita por homens e mulheres que trabalharam nos caminhos de ferro; é ignorar a importância económica e social das várias profissões exercidas ao serviço do Caminho de Ferro, tais como maquinistas, revisores, guarda fios, serralheiros, mecânicos, electricistas, factores, chefe de estação, manobradores, guarda freios, etc etc. Os quais, através dos seus instrumentos específicos de trabalho, como é o caso do célebre “J “, contribuíram para a construção da memória colectiva de um Povo, o Povo do Barreiro, a que acrescentam o colorido das suas histórias e aventuras, pois qualquer Ferroviário tem sempre uma “estória” para contar. “Estórias” feitas de trabalho, labuta, luta, dor, mas também muitas alegrias e orgulho de pertencer a uma classe profissional que mudou a face do Barreiro, a partir de 1854. Se todas estas peças, estas memórias, não chegam para criar no Barreiro um núcleo Museológico Ferroviário, então o que fazer com

a memória de destacados Ferroviários Barreirenses que participaram activamente na vida cívica e politica do Barreiro e do País, dos quais se destacam: Miguel Correia, dirigente da CGT anarquista e “o maior agitador Ferroviário que houve em Portugal”, segundo alguns historiadores; mais recentemente, Germano Madeira e Manuel Cabanas. Isto só para citar alguns.

terial mais que suficiente para criar um núcleo museológico Ferroviário? Um núcleo que seja mais que um simples armazém de máquinas antigas, cheias de pó e que abre uma vez por ano como é o de Estremoz.

Não podemos igualmente esquecer a intervenção cívica de muitos ferroviários, ilustres anónimos, que fundaram (e, nalguns casos ainda participam) várias associações e colectividades, como é o caso da Associação de Classe Metalúrgica e Artes Anexas, em 1903, formada essencialmente por operários Ferroviários.

Um Núcleo vivo, com pessoas e máquinas ainda a trabalhar onde seja possível, atrair, por exemplo, um sector determinado do turismo denominado por “turismo ferroviário”, impulsionado por associações nacionais e internacionais de entusiastas do Caminho de Ferro, que normalmente, gostam de ver a locomotiva 1810 a trabalhar; podendo dar “uma voltinha” com a 1225 e ouvir o roncar do motor diesel 1425.

Ou os que fundaram a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste; a Casa dos Ferroviários, actual sede do Sindicado dos Ferroviários, actualmente já em processo de degradação; a Cooperativa Cultural Popular Barreirense e o Instituto dos Ferroviários; o Grupo Desportivo dos Ferroviários que tem tido enorme importância ao nível do Desporto Nacional.

Um museu vivo onde os ferroviários reformados possam ajudar a reparar a automotora 112; onde se possam realizar pequenas viagens turísticas de comboio a partir do Barreiro com material diesel já fora de serviço; onde sejam relembradas as artes e ofícios, e memórias de muitos ferroviários, que, no fundo são também as memórias colectivas de um Povo. O Povo do Barreiro.

Será que tudo isto não constitui ma-

José Encarnação

TEMOS DE VIRAR A AGULHA!

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O CENTRO HISTÓRICO FERROVIÁRIO DO BARREIRO

Com a instalação do Caminho-de-ferro no Barreiro opera-se uma rutura com o sector primário e o processo de desenvolvimento industrial tem o seu início. O Caminho-de-ferro facilita este processo e nele participa, ajudando a construir o Barreiro Contemporâneo. O Barreiro não voltará a ser o mesmo depois da inauguração da Linha do Sul, ligando-nos a Vendas Novas, em 1859,e da entrada em funcionamento da Linha do Sul e Sueste, quando concluído o ramal até Setúbal e das Oficinas do Caminho-de-ferro, em 1861.

-de-ferro, instalação da indústria corticeira e da Companhia União Fabril. Durante muitos anos acorrem à vila, expressivamente denominada de “Brasil em miniatura”, pelo jornal “O Eco do Barreiro”, de 4 de Outubro de 1930, trabalhadores, famílias inteiras, vindos de todo o país em busca do pão e do sonho por uma vida melhor. Gente, na sua maioria, de língua igual e falas várias a que a vila se acostuma e aglutina, compondo um perfil de diversidade cultural e solidariedade quotidiana expressa na forte rede associativa.

Desta rede destaco as associações de classe dos ferO Caminho-de-ferro confere ao nosso Concelho uma roviários, dos corticeiros, da “malta do saco”, uma maior centralidade no território que, hoje, designa- notável rede de associações humanitárias, nas quais mos de Área Metropolitana de Lisboa, porque vem os ferroviários são verdadeiros precursores: os Bomdiversificar e reforçar as boas acessibilidades fluviais, beiros Voluntários do Sul e Sueste (1894), o “Armalevando mais longe a nossa ligação a Sul do Tejo. zém de Consumo” da Caixa de Socorros Mútuos do Caminho de Ferro (1896), a Casa do Ferroviário Com o Caminho-de-ferro entramos no processo de (1922), o Instituto dos Ferroviários (1927). industrialização e com este assistimos a um desenvolvimento vertiginoso do ponto de vista urbanístico Há 150 anos o comboio representou a modernidade, e demográfico - as quintas dão lugar às fábricas e aos revolucionou os transportes e as mentalidades, criou bairros. Processo marcado por três momentos: aber- uma classe de ferroviários, hierarquizada, distribuída tura da Linha do Sul e Sueste e Oficinas do Caminho- por múltiplas profissões novas, com um saber-fazer “Revista digital “FUNDIÇÃO” - “JUNHO 2012” Nº1 Pag - 15

novo transmitido de geração em geração, muitas vezes dentro do mesmo grupo familiar.

mente diverso e ativo. Porque esta preservação de uma parte significativa do nosso processo cultural e identitário é fundamental para a participação e a coUma classe consciente do seu progresso pessoal e esão social, na escolha e no trilhar de caminhos de social, consciente dos seus direitos e deveres, e do futuros. contributo dado ao desenvolvimento da terra que, A celebração destes 150 anos, numa altura em que já, era sua. decorre uma consulta pública sobre o Plano de Urbanização do Território da Quimiparque e área envolO Caminho-de-ferro é motor do Barreiro Contempo- vente, pode ser encarada como uma oportunidade râneo e, durante estes 150 anos, tem sido uma das que nos permita a realização de um dos núcleos desbases do seu desenvolvimento. Deste Complexo In- ta Rede Museológica Participada e que designamos dustrial Ferroviário, ainda, nos resta um importante de Centro Histórico Ferroviário do Barreiro. património material: Oficinas e antiga Estação, Rotunda das Máquinas, Estação Ferro-Fluvial, Arma- O património material e imaterial existente permizém Regional, Bairro Operário, material circulante, te-nos propor, como contributo para reflexão, as maquinaria oficinal e ferramentas, um importante seguintes valências para o núcleo a criar, que deve guindaste… funcionar em sintonia com o Museu Nacional Ferroviário, com sede no Entroncamento. E, também, nos resta um património imaterial plasmado nas vivências de muitos barreirenses e particu- PRIMITIVA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA- NÚCLEO larmente de ferroviários que nos podem ajudar a re- OFICINAL constituir os processos técnicos, a sua aprendizagem, o valor económico do trabalho produzido, as sociali- Relacionado com as técnicas, a investigação e a forzações nos espaços de lazer, solidariedade, família, mação, unindo pontes entre o passado, o presente e trabalho e luta. o futuro nestas áreas e reanimando as peças de maEstes barreirenses e ferroviários, muito justamente, esperam ver preservado para as gerações futuras este património material e imaterial que dá corpo ao Barreiro industrializado, moderno e cultural, social-

quinaria existentes nas oficinas da EMEF.

ROTUNDA DAS MÁQUINAS-NÚCLEO SOBRE A HISTÓRIA DO DIESEL

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Realizando a articulação entre a história do diesel no Barreiro com a exposição de uma ou mais locomotivas e a existência de um centro de convívio ferroviário como local de encontro, produção, recuperação e venda de materiais.

CONTEMPORÂNEO- MEMÓRIAS DE TRABALHO, SOLIDARIEDADE E LUTA

Organizado de forma interativa e como um tributo aos homens e mulheres, que nos seus quotidianos nos Caminhos-de-ferro, nas Corticeiras, na CompaESTAÇÃO FERRO-FLUVIAL-NÚCLEO DO RIO nhia União Fabril, foram guardando e reinventando uma história de progresso e solidariedade de que Ligado à história dos transportes fluviais e dos esta- justamente nos orgulhamos e queremos ver preserleiros navais no estuário do Tejo e na ribeira do Coina, vada, transmitida a todos e sobretudo às gerações ao longo dos séculos. Com componente de restaura- mais jovens, porque esta história é o lastro identitáção, aproveitando a vista de rio, animação (música, rio do nosso futuro. pintura, teatro, dança, cinema) na zona da gare e turismo nas vertentes fluvial e ambiental. Esta valência Extrato da comunicação realizada por Carla Marina preencherá uma necessidade da Área Metropolitana Santos, em representação da Associação Barreiro, de Lisboa, que ao estuário do Tejo deve parte muito Património, Memória e Futuro, no Colóquio Intersubstancial do seu presente e futuro. nacional sobre os 150 Anos do Caminho-de-ferro no Barreiro: Sessão 4 – O Património Ferroviário, MuARMAZÉM REGIONAL: NÚCLEO BARREIRO seus e Arquivos.

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PRIMEIRA ETAPA: FREGUESIA DO LAVRADIO

“Revista digital Nº1 Pag - 18“FUNDIÇÃO” - “JUNHO 2012” Nº1 Pag - 18

CRÓNICAS DE UMA BREVE VIAGEM AO BARREIR0 REVISITADAS E ALARGADAS

As “Crónicas de uma breve viajem ao Barreiro”

cia e capacidade não é igual na generalidade, a sua acção regista várias e graves lacunas. Os recursos financeiros são escassos; a formação de quadros em qualidade e número é deficitária; existem muito poucos laboratórios especializados; aos programas dos vários níveis de ensino falta actualização; é necessária legislação.

Cumprindo esta finalidade, resolvemos revisita-las e alargá-las, na revista que agora lançamos. Desejando, de forma simples, breve e acessível, divulgar o nosso património edificado e natural; dar informações que motivem e aumentem o interesse pela nossa história; contribuir para o estreitamento dos laços com a terra em que vivemos; motivar coletivamente para a salvaguarda da nossa história e património, protegendo-os das agressões a que diariamente estão sujeitos.

Para além destes problemas, a incapacidade cultural para percepcionar a importância da área e a transversalidade dos recursos e respostas necessárias a uma verdadeira política de preservação de âmbito nacional, ainda hoje, é uma realidade.

nasceram da exposição “FotomemóriasBarreiro” que a Associação Barreiro – Património, Memória e Futuro concebeu para ser a primeira de muitas “viagens” possíveis sobre a história e o património do nosso concelho.

Primeira etapa: Freguesia do Lavradio

Já vai longa a conversa e, como a partir desta data, será também possível “viajar” pela nossa terra com a exposição “FotomemóriasBarreiro”, lendo o seu jornal, fica aqui a promessa de retorná-la na segunda etapa.

Agora, vamos ao LAVRADIO, palavra que nos surge A salvaguarda dos nossos bens culturais é um longo em 1298, num documento relativo à troca de uma caminho e os que a ela se têm dedicado – sabem-no vinha em Alhos Vedros, por outra no Lavradio. bem. Esta “Carte de Escambo”, assim se chamava o dito Apesar dos esforços internacionais iniciados com a documento, é prova da longa existência da vinoviti“CARTA DE ATENAS”; apesar das intervenções su- cultura neste território. Os vinhos produzidos eram pra-nacionais de organismos como a UNESCO e di- de grande qualidade, sobretudo os tintos. ferentes associações internacionais, muito continua por fazer a este nível. E quem não se lembra do delicioso vinho licoroso “BASTARDINHO”? Em cada país a intervenção dos governos, cuja eficá-

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QUINTA DOS LOIOS

Quinta dos Loios, conhecida como o Convento dos Loios por pertencer á congregação de Stº Eloy. A sua arquitectura tem marcas quinhentistas. A corte, nas suas deslocações ao Lavradio, provavelmente aqui se hospedava. As Marinhas de Sal, no Lavradio, alargavam-se da Praia dos Moinhos à Quinta dos Loios, o que mostra a importância da actividade salineira. No séc. XVIII encontramos, junto à quinta, o topónimo rua das Marinhas.

CABO DO ALCOITÃO

Cabo do Alcoitão, neste antigo Cabo existiam Moinhos de Maré (séc.XVI) e Marinhas de Sal (desde o séc. XIV). No séc. XVI, um dos moinhos pertenceu a Brás Afonso, filho natural de Afonso de Albuquerque, capitão-mor da Índia. Outro teve como proprietário, por volta de 1509, rui Galvão, escrivão campo de visão, mas imediatamente atrás deste Cabo, encontramos a Ponta da Passadeira, onde à 5 mil anos existiu um povoado Neolítico que associava a ancestral actividade recolectora à inovação tecnológica – desenvolvendo um centro de produção cerâmico. “Revista digital “FUNDIÇÃO” - “JUNHO 2012” Nº1 Pag - 20

Património Industrial do Barreiro: Contributos para a história da Indústria Moageira

É fácil estabelecermos com os moinhos de vento e de maré uma relação imediata de carácter emocional. A sua beleza e simbolismo; A relação que estabelecem com elementos vitais como o vento e a água inscrevem em nós, de forma natural, um imaginário de sonhos.

vivências, viajar pela literatura, pintura, fotografia, desenhar um directório bibliográfico e cartográfico, criar roteiros, registar tecnologias sobre estes ex-líbris do Barreiro são algumas das finalidades deste espaço temático que vos acompanhará, ao longo de várias edições, da Revista Fundição.

Porém este património de pedra, paisagístico e intimista, carrega uma história desvendada em memórias e estudos, em documentos dispersos. Desta forma rompem o silêncio e dão-nos a conhecer a nossa história. Por isso são parte significativa da nossa memória social e cultural, são suporte da nossa vida, da nossa identidade e estímulo para o futuro

A consciência da importância da indústria moageira no Concelho e a certeza de que a molinologia, recorrendo à etnologia, à história das técnicas e à história económica, assume uma dimensão técnica específica, difícil e complexa a reclamar o estudo de especialistas, determinam esta escolha, esperando com ela estimular o interesse e a atenção de investigadores.

Os moinhos de vento e de maré constituem um segmento importante de uma actividade industrial mais vasta, que se desenvolve, ao longo dos séculos, neste território que configura o Barreiro, e marca, a nível nacional e internacional, a nossa importância durante largos período do desenvolvimento de Portugal.

Esperamos, ainda, que aqueles, que como nós partilham o sonho e sempre se fascinaram ao olhar os moinhos, tenham acesso a um conhecimento mais profundo sobre este fragmento do nosso passado que continua, de forma vigorosa a modelar a nossa paisagem.

Dar a conhecer a sua história, coligir registos, fixar

Carla Marina e Maria João Quaresma

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Contributos para a Elaboração de um Projeto de Salvaguarda do Património e História do Barreiro

1.O conhecimento da nossa história e identidade é essencial para o estímulo de soluções futuras, conferindo-lhes coerência. O Barreiro Moderno é herdeiro de um precoce destino industrial, fomentado pela nossa localização geográfica no estuário do Tejo, lugar de sínteses técnicas e culturais ao longo dos séculos - frente à Capital. Percurso servido por importantes recursos: madeira, carvão, azougue, areias sílicas e argilosas, sal, vinho e pelos rios Tejo e Coina acessibilidades fundamentais, lugares do nosso encontro. Ao longo dos séculos este território, através de unidades produtivas especializadas, ocupou posição de destaque nos processos de desenvolvimento do País, com relevo para os períodos da Expansão Marítima e Industrialização. Numa trajetória em que a organização industrial em complexo é uma realidade a merecer destaque e reflexão: o Complexo Oleiro da Mata da Machada, o Complexo Real de Vale de Zebro, os Complexos Moageiros, o Complexo Industrial da Companhia União Fabril ou o Complexo do Caminho de Ferro. Os vestígios fabris provam a existência de uma linha diacrónica na qual se desenha uma identidade marcada pelo trabalho, por uma cultura tecnológica ligada ao gesto diário e profissional e pontuada por uma diversidade cultural, que até ao século XIX se articulam com os sectores primários. São as mãos, em gestos quotidianos, que encontramos desde o Neolítico, quando a olaria se transforma numa especialização funcional do agregado que vivia na Ponta da Passadeira. A partir do século XIV, outras mãos moldam, no Complexo Oleiro da Mata da Machada, entre diversas tipologias, as formas do biscoito e do pão-de-açúcar. Ali perto, no Complexo Real de Vale de Zebro, outras fabricam o biscoito, alimento base das tripulações durante a Expansão, do Terço da Armada Real e dos Fortes de Costa. Nos Moinhos de Maré, outras mãos transformam em farinha os grãos de cereais, alimentando Lisboa e a confeção de biscoito. Outras trabalham na Ribeira do Coina ou nos

vários estaleiros de construção naval que surgem ao longo da nossa história. Outras, ainda, fabricam em gestos profissionais os mais diversos objetos em vidro, iniciando na Real Fábrica de Vidros de Coina, no século XVIII, a tecnologia que nos tornará famosos na Marinha Grande. Na primeira metade do século XIX, não podemos deixar de referir, a construção dos modernos Moinhos de Vento e o surto da Industria das Moagens a Vapor que representam “uma rutura significativa na paisagem rural”, segundo Jorge Custódio, citado por Ana Nunes de Almeida, no livro “A Fábrica e a Família” (1993), de acordo com a mesma fonte e passo a citar “a moagem teria assim tido um papel pivot no processo de transformação do Barreiro que, se não criou a vila industrial, pelo menos a fez entrar na era da protoindustrialização”. Será com a inauguração da Linha do Sul, em 1859, ligando-nos a Vendas Novas, com a entrada em funcionamento da Linha do Sul e Sueste, depois de concluído o ramal até Setúbal e das Oficinas do Caminho-de-ferro, em 1861, que o Barreiro não voltará a ser o mesmo. O Caminho-de-ferro vem diversificar e reforçar as boas acessibilidades fluviais, levando mais longe a nossa ligação a Sul do Tejo, conferindo ao Concelho uma maior centralidade no território que, hoje, designamos por Área Metropolitana de Lisboa. Está, desta forma, aberto o caminho ao processo de industrialização e simultaneamente a um desenvolvimento vertiginoso do ponto de vista urbanístico e demográfico - as quintas dão lugar às fábricas e aos bairros. Três momentos marcam este processo: abertura da Linha do Sul e Sueste e Oficinas do Caminho-de-ferro, instalação da indústria corticeira e da Companhia União Fabril. Durante muitos anos acorrem à vila, expressivamente denominada de “Brasil em miniatura”, pelo jornal “O Eco do Barreiro”, de 4 de Outubro de 1930, trabalhadores, famílias inteiras, vindos de todo o país em busca do pão e do sonho por uma vida melhor. Gente, na sua maioria, de língua igual e falas várias a que a vila se acostuma e aglutina, compondo um perfil de diversidade cultural e solidarieda-

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de quotidiana expressa na forte rede associativa. Por tudo o que temos vindo a referir: a existência de atividade produtiva transformadora com especializações funcionais em diversos períodos da nossa história; a existência de bens patrimoniais que a atestam; o significado destas produções nos vários períodos da história de Portugal; a pequena dimensão do Concelho e a sua centralidade. Todas estas razões parecem apontar para a elaboração de um projeto em rede, com interesse para o País, porque neste território ainda é possível realizar uma leitura da evolução tecnológica da atividade produtiva ao longo dos séculos, com interesse local, regional e nacional, que englobe o património material e imaterial.

com programas de turismo social, cultural e ambiental. Em casos específicos, como por exemplo o ferroviário, com associações nacionais e internacionais.

Um projeto deste fôlego, que se compromete com a coerência histórica da nossa identidade, respondendo, ao mesmo tempo a uma lacuna no Pais, necessita do estabelecimento de parcerias nacionais, públicas e privadas, bem como de concursos comunitários. Uma vez estabelecido o conceito será necessário elaborar o projeto global. O que impõe um conjunto de reflexões prévias, que, segundo nossa opinião, devem ter em consideração as questões levantadas por Jorge Henrique Pais da Silva, na obra “Pretérito Presente”- Conservar porquê? Conservar para quem? Conservar como? Conservar o quê?

Salvaguardar encarando este ato como um contributo educativo, valorizador da formação dos indivíduos, criando dinâmicas de animação ligadas ao ensino formal, não formal e informal.

2. Conservar Porquê? É urgente continuar: a recolher este passado, a realizar o seu estudo e divulgação. É urgente a sua recuperação e fruição. Porque são ações que integram um processo cultural mais vasto de valorização do Barreiro, das suas gentes e da cidadania; porque a memória coletiva é instrumento fundamental do desenvolvimento humano potenciador de um futuro mais participado, socialmente mais coeso e seguramente melhor.

3. Conservar Para Quem? Não esgotando a complexidade das respostas, salientaríamos a necessidade primeira de salvaguardar para a população local, regional e nacional, sempre em articulação

4. Conservar Como? Bem mais complexa, ainda, nos parece a resposta a esta questão, no entanto tentaremos deixar alguns tópicos para reflexão futura. Salvaguardar com a participação da população, sensibilizando-a e implicando-a na elaboração do projeto, na monitorização da sua realização e funcionamento.

Encarar a salvaguarda como uma intervenção criativa e um fator de desenvolvimento no perfil da cidade, do ponto de vista da qualidade de vida nos âmbitos urbanístico, social, cultural, económico e ambiental. É essencial ter um projeto, uma estratégia, desenvolver parcerias sinergéticas, que nos permitam concretizar uma Rede Museológica Participada com distribuição de custos de recuperação e reprodução. É essencial conquistar o interesse local, regional, nacional e internacional, porque a nossa história e património têm essa importância e devem de ser tratadas com essa importância. É essencial que o projeto promova programas de recolha, estudo e divulgação do património imaterial e de salvaguarda progressiva do património material, refletindo todos os momentos significativos do nosso percurso, já enunciados. Enunciados neste texto.

(a continuar)

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ASSOCIAÇÃO BARREIRO PATRIMÓNIO MEMÓRIA E FUTURO

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Fundição