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Crônicas do III Concurso Literário Biblioteca da Área de Engenharia e Arquitetura

UNICAMP 2016


Biblioteca da Área de Engenharia e Arquitetura Danielle Ferreira Thiago - Diretora Referência, Ações Pedagógicas e Circulação Maria Solange Pereira Ribeiro – Coordenadora do Concurso Comissão julgadora: Marcelo Raimundo da Silva – Espaço da Escrita/UNICAMP Cyntia Sonetti V. Oliveira – Espaço da Escrita/UNICAMP Ademilde Félix – DGRH/UNICAMP Edwin Mauricio Loboschi – ETEC/Campinas Formatação: Marcel González Hofstatter – Bolsista SAE Capa: Fernanda Santos – Bolsista SAE

Crônicas do III Concurso Literário das Engenharias – 2015. Unicamp/Campinas, SP: Biblioteca da Área de Engenharias e Arquitetura, 2016. 106 p. 1.

Literatura. 2. Crônicas. I. Título.


Apresentação

É com satisfação que apresentamos nesta publicação as 23 crônicas inscritas no III Concurso Literário da Biblioteca da Área das Engenharias e Arquitetura – BAE de 2015. Esta iniciativa faz parte de um trabalho da Área de Referência e Informação da Biblioteca, relacionada a ações para incentivo à cultura, leitura e a criação literária destinada aos alunos das Engenharias. Diante desta realidade, a Biblioteca cumpre seu papel de ser ambiente de incentivo ao conhecimento e cultura e temos certeza que esta iniciativa, de trazer nossos alunos para o mundo da escrita, é um complemento importante para o seu aprendizado e sua trajetória acadêmica além de dar visibilidade aos muitos talentos que temos no universo acadêmico. Boa Leitura! Danielle T. Ferreira Bibliotecária e Diretora Técnica BAE


SUMÁRIO Contrários Complementares .................................................................................8 A Palavra Que Falta.................................................................................................. 18 A máquina do tempo ............................................................................................... 22 O combustível da ciência ...................................................................................... 30 As duas lâminas da mesma espada ................................................................. 36 A Droga ........................................................................................................................... 40 O voo do origami ....................................................................................................... 44 Cartas para a ciência ............................................................................................... 52 Rotina .............................................................................................................................. 56 Uma Breve e Sofrida Realidade Fictícia ....................................................... 60 Daniel Candeloro Cunha ....................................................................................... 60 Infinito ............................................................................................................................ 66 Pena de Dédalo........................................................................................................... 72 Mais uma aula ............................................................................................................. 76 Entre amigos................................................................................................................ 80 A ficção no descontrole.......................................................................................... 84 Uma estrada pavimentada de sonhos talvez destinada a lugar nenhum .......................................................................................................................... 86 Uma vida de luxo ....................................................................................................... 90 Viajando Entre Mundos ......................................................................................... 94 (IN)CERTEZA ............................................................................................................ 100 De volta para um outro futuro........................................................................ 102 Desconstrução do espontâneo ....................................................................... 104 Universidade e as suas fronteiras ................................................................. 108


CONTRÁRIOS COMPLEMENTARES Letícia Cabral Sátiro Luiz – 1° lugar Faculdade de Engenharia Mecânica Ciência era um rapaz de poucos amigos. Seu tempo era dividido entre as atividades no laboratório em que trabalhava, livros repletos de equações e o hobby de jogar xadrez consigo mesmo. Alto e magro, com olhos azul-escuros escondidos atrás de óculos redondos. O cabelo castanho e liso estava sempre despenteado. Pouca era a importância que Ciência dava para a sua aparência, considerada por ele como algo supérfluo frente a todo o resto que ocupava a sua mente. Era começo de manhã quando Ciência abriu a porta do apartamento em que morava para ir para o laboratório. Na sua mente, ele recapitulava as atividades esquematizadas para o dia, raciocinando a respeito de cada uma das etapas dos experimentos planejados para certificar-se de que nenhum detalhe seria negligenciado. Entorpecido nos próprios pensamentos, ele sequer notou que a porta do apartamento em frente ao seu estava aberta. Uma nova vizinha acabava de se mudar para o apartamento que há meses estava desocupado. Ficção era uma bela moça, com cabelos longos e lisos de um negro forte e olhos cor de mel. Tinha curvas acentuadas que juntas delineavam um corpo estonteante. Ao invés de um laboratório, ela frequentava diariamente a companhia de teatro em que trabalhava como atriz. A moça não gostava de livros abarrotados de números, mas se perdia nas histórias fictícias dos mais variados tipos que tanto lia. O 8


hobby favorito dela era escrever contos de fantasia, de mistério e de ficção científica. Ficção ouviu o barulho de porta se abrindo e correu até o corredor com a intenção de conhecer quem morava no apartamento ao lado. Ao ver o rapaz, sorriu e o cumprimentou desejando-lhe um bom dia. Percebendo que ele não a ouvira nem sequer notara a sua presença, ela pôs-se em frente ao rapaz. Ciência só percebeu a presença da moça quando já havia esbarrado nela e derrubado ambos pela escada abaixo. Assustado e ainda processando o ocorrido nos últimos segundos, ele viu a moça com olhos cor de mel espremida pelo seu próprio corpo contra o chão. Ele se ergueu num pulo e logo ajudou Ficção a se levantar. O coração de Ciência batia forte, o sangue circulava rapidamente pelas suas veias e uma sensação estranha afligia o seu abdômen. Suas mãos suadas ainda seguravam os braços da moça e os seus olhos ainda pousavam fixos nos dela. O raciocínio lógico dele, porém, substituiu logo o turbilhão de sensações que o seu corpo experimentava. Ele sabia que tudo o que precisava fazer era aplicar o método científico para entender o que estava ocorrendo com o seu corpo. O pensamento de Ciência seguiu ligeiro pelo caminho que estava tão familiarizado em percorrer: “Primeiro, faça uma pergunta. Por que meu corpo tem estas sensações? Segundo, construa uma hipótese. São reações naturais desencadeadas por um ser da mesma espécie e do gênero oposto. Terceiro, teste a hipótese. A dopamina é o neurotransmissor produzido quando humanos sentem atração sexual e sua presença provoca exatamente os sintomas que sinto neste momento. Por fim, analise os dados e conclua. Eu sinto atração por esta 9


moça, droga!”. Finalizada a sua análise, ele sabia que apenas precisava focar o seu pensamento em algum outro assunto e logo o seu corpo voltaria ao normal. Tirou as mãos dos braços da moça, desviou o seu olhar e cuidou de escapar logo daquela situação embaraçosa. — Desculpe-me, eu não percebi a sua presença – disse Ciência meio desajeitado. — O que lhe deixa tão distraído? – perguntou Ficção com a sua voz de veludo, franzindo ligeiramente as sobrancelhas. — Vou fazer experimentos complicados hoje. Estava me certificando mentalmente de que o meu planejamento não tem erros. — Qual é o problema com cometer erros? — Qual é o problema?! Ele retrucou de maneira rude, considerando que tal indagação só poderia ser uma provocação. O tom de sinceridade da pergunta, porém, fez com que ele tentasse uma explicação que para ele era simplesmente óbvia. — Por exemplo, se eu ajustar incorretamente a potência do emissor de radiação infravermelha que utilizo como fonte de aquecimento, posso provocar uma explosão. — Entendo. Podem ser grandes os estragos causados pelo Superman com os raios infravermelhos que ele é capaz de emitir através dos próprios olhos, por ser um Kryptoniano – disse ela com naturalidade. Ciência voltou a olhar nos olhos de Ficção meio incrédulo e decidiu, depois de ouvir o comentário que julgou ser de tamanha tolice, que não valia a pena continuar aquela conversa. — Preciso partir pois já estou atrasado – adiantou ele checando o seu relógio de pulso. 10


— Foi um prazer conhece-lo. Meu nome é Ficção, sou sua nova vizinha. — Igualmente. Eu sou o Ciência. Ela ainda ficou o observando pelas costas até que ele se perdeu da sua vista. Ao contrário de Ciência, Ficção nunca impunha freios às suas emoções, mas apenas se deleitava com elas. Apesar do descuido com a aparência, da aura de estranheza e da atitude de indiferença do seu novo vizinho, havia algo nele que a encantava. Imaginativa como era, a mente dela já havia arquitetado um plano para seduzir o rapaz. Ela sabia que ele não era um alvo fácil, mas a sua criatividade perspicaz era capaz de vencer as mais árduas empreitadas. A primeira tentativa foi convidá-lo para assistir a uma peça teatral em que ela era a protagonista. Ficção explicou que, na peça, ela atuava como a mais poderosa das fadas de um reino mágico ameaçado de extinção. A resposta de Ciência foi um bilhete cru jogado friamente por debaixo da porta dela: “Poderes, fadas e magias não são factíveis. Invariavelmente, são criações que violam as mais bem estabelecidas leis da natureza. Agradeço pelo seu convite, mas devo recusá-lo pois não posso desperdiçar o meu tempo com assuntos irreais”. Ficção era tão familiarizada com os mais variados sentimentos de seres humanos ou fantasiosos dos vários livros que lia – orgulho, esperança, vaidade, alegria, ódio, compaixão, vingança, remorso, paixão… – que ela já havia adquirido uma aguda capacidade de empatia e uma certa imunidade a quaisquer ameaças ao seu forte equilíbrio emocional. Assim, longe de ser ofendida pelo bilhete dele, a moça só teve a sua curiosidade em relação ao rapaz ainda mais aguçada.

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Outras tentativas foram feitas, com o mesmo grau de insucesso. O convite para jantar numa feira de iguarias das mais variadas culinárias: “Sigo uma dieta recomendada pelo doutor que cuida da minha saúde. Confio que ele me indicou os percentuais corretos diários de carboidratos, proteínas, gorduras e fibras pois a receita médica veio acompanhada de uma extensa referência bibliográfica, sendo todas as fontes citadas de muito renome. Portanto, julgo prudente seguir com rigor a instrução alimentar dada pelo doutor, a qual infelizmente não inclui iguarias das mais variadas culinárias.”. O convite para uma aula de dança de salão: “Entendo que o meu corpo não me serve como mais do que um adequado suporte para o meu cérebro, este sim de utilidade vital. Portanto, desde sempre tenho me dedicado ao desenvolvimento do meu cérebro ao invés do meu corpo. Por consequência, meu corpo é inábil para atividades diferentes daquelas cruciais para o meu trabalho de cientista e para a minha sobrevivência. Sinto muito, mas não sou capaz de lhe acompanhar em uma dança.”. O convite para observar uma bela noite estrelada: “A magnitude de um astro é maior quanto maior é o seu brilho. Em um céu noturno límpido, ou seja, suficientemente distante de iluminação artificial, astros de magnitude seis podem ser observados a olho nu. Porém, no clarão das grandes cidades, pode ser que nada mais do que a estrela de magnitude zero chamada Vega – a mais brilhante da constelação de Lira – seja observável a olho nu. Portanto, não desejo lhe acompanhar neste passeio pois a poluição luminosa tornou o céu de lugares urbanizados como este em que vivemos desinteressante para mim”. A este ponto, Ficção já não sabia mais o que poderia fazer para conseguir a atenção do rapaz que, mesmo não intencionalmente, a conquistara. A personalidade de 12


Ciência era de uma espécie com a qual ela nunca havia lidado antes, nem mesmo nas histórias em que lia. Certa vez, Ficção estava acionando os mecanismos criativos da sua mente para dar fim a uma história que estava escrevendo. Surpreendentemente, alguma falha parecia ter paralisado o seu elaborado engenho gerador de ideias. Raras eram as situações em que tal ocorrido estacionava a astuta mente dela. Ela sabia, porém, que a correção destas raras falhas só era possível com a busca de inspiração através de novos conhecimentos. Foi então que lhe ocorreu pedir ajuda ao seu vizinho, que tudo parecia entender a respeito do mundo científico. Já era noite quando ela tocou a campainha do apartamento de Ciência. Como esperado, ele abriu a porta com um semblante de insatisfação por ter interrompido o estudo que fazia do livro que carregava nas mãos, ainda aberto na página em que havia parado. — Sei que acabei de interromper algo importante que estava fazendo e sinto muito por isso – disse ela assertivamente. Inconscientemente, Ciência sentiu seu ego sendo tocado pelo reconhecimento por parte da moça de que o que ele estava fazendo era importante. Desarmado, ele se sentiu sem alternativa senão ouvir o que ela tinha a dizer. — Diga do que se trata a sua visita, Ficção. — Li o artigo publicado por você na revista ‘Tecnologias Disruptivas’. Meus parabéns pela publicação em uma revista de tamanho prestígio. Ficaria honrada se você pudesse despender um pouco do seu precioso tempo me falando mais sobre a sua pesquisa – disse a moça consciente de que agora falava no mesmo idioma que o rapaz. 13


O peito de Ciência estava inchado de tão envaidecido que ele se sentia. Um sorriso de orgulho se manifestava nos seus olhos, que diferentemente dos seus lábios não conseguiam negar a pompa que o dominava quando era reconhecido pelo seu trabalho. Logo ele a convidou para entrar, numa afabilidade que fazia a moça duvidar se aquele era o mesmo rapaz inatingível que ela havia conhecido. Ciência começou a falar ininterruptamente, desenhando no quadro negro enorme que havia em sua sala e abrindo livros em páginas cujos números estavam impressos em sua memória. Ele explicou de forma vívida para Ficção o que o texto seco do artigo que ela havia lido tentava transmitir. Repentinamente, uma onda de tristeza profunda paralisou os olhos azul-escuros do rapaz em um lugar distante, substituindo por completo a euforia que havia tomado posse dele. — O único problema é que estes átomos sob condições nenhuma se unem experimentalmente, mesmo quando toda a teoria existente indica positivamente a possibilidade desta conexão – disse ele em tom melancólico. Tudo aquilo que atravessava o portal encantado que era a mente de Ficção sofria uma transformação. Os números adquiriam braços, pernas e armas poderosas com as quais guerreavam entre si. Os gráficos de curvas polinomiais viravam serpentes voadoras das mais vivas cores. O núcleo dos átomos a respeito dos quais o rapaz falava com tanta propriedade convertia-se em uma aranha vilã de tamanho gigantesco, capaz de criar teias elípticas flutuantes ao seu redor para capturar seres minúsculos – chamados de elétrons por Ciência – que lhe serviam de escravos. O problema que afligia o rapaz fez a moça pensar que duas aranhas gigantescas só se uniriam se o 14


compartilhamento de escravos aumentasse a eficiência do trabalho servil em seus reinos, mas não deveriam elas ter juntas escravos demais, dado que muitos deles teriam força o suficiente para provocar uma rebelião. — Não seria o caso de que a quantidade de elétrons conjunta destes átomos unidos é demasiadamente alta? – indagou Ficção ouvindo em sua mente o burburinho da revolta dos escravos contra as aranhas que os reinavam. A pergunta dela serviu como uma ponte na complexa rede de raciocínio de Ciência, ligando aqueles dois últimos pontos que restavam para que ele conseguisse responder à questão que tanto o atormentava. Com um olhar de agradecimento, pediu a moça que lhe contasse como ela havia pensado naquilo e ficou assombrado ao ouvir a história das aranhas e seus escravos. Ciência percebeu, finalmente, que o sucesso do seu trabalho não dependia só de lógica, mas também de imaginação, uma capacidade que a moça de olhos cor de mel na sua frente tinha em um nível espantoso. Ela, por sua vez, também se sentia agradecida pois o conhecimento extraordinário demonstrado por ele naquela conversa já havia lhe dado a inspiração necessária para não só finalizar a sua história, como também para servir de matéria prima para muitas outras que ela ainda escreveria. Não foi preciso muito tempo até que Ciência não mais conseguisse resistir ao batimento forte do seu coração, ao sangue circulando rapidamente pelas suas veias e àquela sensação estranha que afligia o seu abdômen todas as vezes que via Ficção. O seu esforço torturante para racionalizar todas aquelas sensações já não tinha mais efeito. Ficção e Ciência se completavam de uma maneira tão perfeita, 15


que os atritos gerados pelas suas abissais diferenças eram em muito superados pelos benefícios de sua união. Eles formavam, juntos, um casal de contrários complementares.

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A PALAVRA QUE FALTA Victor Shih Liu – 2° lugar Faculdade de Engenharia Mecânica Caminho pela famosa Avenida Paulista em São Paulo: passos apressados marcham pelas calçadas, reuniões e discussões reverberam pelas paredes de concreto e os olhares mantém-se fixos nas agendas, nos compromissos. Depois de mais uma aula do curso de Filosofia que estou frequentando, entro em uma padaria onde encontrarei meu avô. Sento, e adianto um café pois os suspiros de Nietzche suscitados naquela aula ainda ecoam em minha mente. Sinto que falta uma palavra que me direcione melhor na relação com o mundo. Como somos complexos! Pensei. Imaginamos realidades que transcendem, ou não, a comprovação da Natureza pela inépcia de entender o mundo e seus enigmas. Me fazia as típicas perguntas sem resposta: “o que conhecemos é, de fato, real? ” Sou interrompido pela chegada dele: sorridente e bem disposto como sempre. Cumprimentamos-nos com um forte abraço ao passo e que eu já pedia o café puro para meu avô. Contei-lhe como está a faculdade, sobre os trabalhos, estágios e sobre minha experiência de morar sozinho. Quando perguntei como estava, não pude deixar de notá-lo pensativo. Insisti e ele disse que nunca havia imaginado viver em um mundo como o de hoje: conversar e ver pessoas por meio de pequenos aparelhos que englobam diversas tecnologias; ter a facilidade de comprar um objeto sem ter que sair de casa; ter resultados cada vez mais completos e soluções variadas para a 18


maioria de suas condições de saúde. E isso é apenas uma pequena parcela das inovações atuais. Como somos grandiosos; pensei. Estava prestes a comentar quando completou: “adquirimos tudo isso pelo contato

com

a

Natureza.

Sem

essa

interação,

não

haveria

conhecimento”. Refletimos. Os seres humanos são únicos pela capacidade de elaborar uma estrutura lógica cognitiva; por isso, conseguimos manipular os elementos da Natureza de modo a satisfazer nossas vontades e a tentar compreender o Cosmos. Vejamos o tempo: o tempo só existe aos olhos dos ponteiros de um relógio analógico; criamos de nossa imaginação a principal base para as ciências modernas. E ainda assim, seria ela real? Por sermos individualmente conscientes, somos sujeitos à conjuntura de eventos que nos permeia e carregamos conosco os nossos respectivos valores; daí as diversas culturas da civilização moderna. Nesse sentido, o mundo se mostra de certa maneira para cada um de nós, de acordo com a intenção de cada ser. O problema é que os pioneiros do conhecimento, os escafandristas de Chico Buarque, hodiernamente, são subordinados aos detentores de poder políticoeconômico. É por esse condicionamento que as águas esmeraldinas do Rio Doce padeceram; que jovens inocentes deram seus últimos sopros de vida em uma festa parisiense; que crianças, em meio à guerra, rendem-se a uma câmera fotográfica por pensarem que é uma arma; que conflitos culturais seculares ocorrem, pois os povos foram designados a constituir um mesmo estado. Como somos tolos, pensei.

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Suspiramos, em silêncio. Em meio ao sapateado dos transeuntes e aos ruídos da padaria, eis eu e meu avô: pensativos, inquietos em mente e pacatos nos rostos. Um vazio no peito e um sentimento de pequenez afloram sobre mim. Atingiremos um ponto em que realidades palpáveis atuais serão meros caracteres de tinta nos livros de amanhã? Até quando a Natureza aguentará nossos danos pela “ânsia de conhecimento? ” A noite se estende pelas ruas e resolvemos pedir a conta. Caminhamos até o carro e levo meu avô para sua casa. No caminho, lembro de um livro de Lois Lowry, e conto uma parte a ele: na história, os cidadãos de uma cidade muito moderna, considerada perfeita, não sabiam o que era neve. Isso ocorreu porque ela prejudicava as plantações e, nos relevos, dificultava o transporte de cargas; assim, extinguiram as condições ambientais para ela existir. Para eles, tratava-se de uma mera construção literária; a Natureza já não a comprovava. Ele ouve atentamente e parece não duvidar que acontecimentos análogos ocorram no porvir. Ao chegarmos, despeço-me de meu avô. Fico muito contente por tê-lo visto hoje e por termos dividido ideias. Passo longos dez segundos abraçando-o. Enfim, dou “tchau”. Ligo o carro e reflito sobre o que concluímos sob o céu de São Paulo: cabe a nós, enquanto seres humanos reestruturarmos nosso relacionamento com o mundo que conhecemos. Na vida gregária, nem complexos, nem grandiosos, muito menos tolos, a palavra é que sejamos íntegros. Só assim, teremos chances de sanarmos nossa dificuldade de compreender o Cosmos e ter mas ciência da fronteira

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entre o que é e o que não é comprovado pela Natureza. Esse limite somos nós, seres humanos.

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A MÁQUINA DO TEMPO Marina Weyl Costa – 3° lugar Faculdade de Engenharia Mecânica Neila girou cuidadosamente a chave de fenda. Estava com câimbras. A máquina do tempo era delicada e bela. Não poderia ter pressa

em

consertá-la.

Não

poderia

forçar suas

minúsculas

engrenagens. Tudo tinha que ser meticuloso e preciso, na imprecisão que era o mundo. Ironicamente, tinha para si todo o tempo do mundo. Nada mais importava, só consertar a máquina do tempo. Uma gota do seu suor caiu no visor da máquina, e Neila pegou um lenço para enxugar rapidamente. Conscientemente, sabia que uma gota de suor não causaria danos, mas tinha medo. A máquina estava parada, e a sensação que Neila tinha era que o próprio mundo parara também. Resolveu ela própria parar. Não sabia há quantas horas estava trabalhando no conserto, não tinha como saber. Olhou pela janela e viu que lá fora começava timidamente a clarear. Há quanto tempo não respirava o ar lá de fora? Sentia-se segura entre as paredes encardidas da oficina; o ar lá de fora lembrava a fumaça nos seus pulmões e o sangue escorrendo pelo peito perfurado de Star. Pensar em Star doía mais do que a costela quebrada e as queimaduras. Estava quente demais na oficina, por isso o suor escorria. Então, num ato de bravura, Neila decidiu que era a hora de encarar o céu. 22


Neila devia seu nome ao céu: filha de um casal de astrofísicos, nascida no meio da corrida espacial. Se fosse um menino, seria Neil, como o Armstrong. Veio menina, virou Neila – educação superior não inibe neologismos brasileiros cafonas, ouviu um amigo da mãe cochichar. À época, nem sabia o que era neologismo, e foi pesquisar. Descobriu assim muito jovem que cientistas podiam julgar que invenções que não faziam mal a ninguém eram ruins, e que adultos podiam fazer comentários tão maldosos quanto os meninos que quebraram seu protótipo de foguete construído de palitos de picolé, sob a alegação de que ela era menina e que, por isso, deveria era brincar de casinha. “Um pequeno passo para um homem, um salto gigante para humanidade”, disse Neil Armstrong, ao pisar na lua. Era como Neila se sentia agora, ao pisar na rua. As teorias da conspiração diziam que o homem nunca chegou na lua e que aquela bandeira não tinha como bruxulear. “Bruxulear” servia para fogo e não para bandeira, Neila sabia; mas gostava da palavra porque lembrava bruxa. Quando criança, Neila viu imagens daquelas mulheres de vestido preto voando na frente da lua. Antes do homem chegar na lua, a mulher voava na frente da lua! Neila queria ser uma bruxa e a primeira mulher a chegar na lua, montada em uma vassoura. Uma professora da escola lhe explicou que ela não podia querer ser uma bruxa, porque as bruxas eram más, e lhe mostrou um livro onde uma bruxa feia fazia uma princesa loira de salto alto machucar o dedo em uma agulha e dormir até um príncipe vir salvá-la. Neila não era loira e não gostava de saltos altos. Preferia um grande salto para a humanidade. Neila não queria dormir até um príncipe lhe acordar. 23


Neila olhou para os braços queimados do acidente, a pele feia e aberta. Certamente, deixaria uma feia cicatriz. Bruxulear era para fogo. Eis que virara mesmo bruxa, como aquelas medievais. O acidente fora sua fogueira. Respirou fundo, e doía respirar. Era impressão ou ainda tinha a fumaça em si? Não tinha bandeira para fincar, mas sentia que ela própria era uma bandeira – eu existo, eu estou viva, essa ainda é a minha rua. Fincava o pé descalço no asfalto, e sentia o ar no peito bruxulear. A rua que lhe trouxera e lhe roubara Star. Star tinha cabelos pretos feito o universo e olhos cinzentos como o asfalto. Era estranho pensar que houve um tempo em que não entendia o que sentia por Star. Neila e Star sempre foram esquisitas. Neila, com aquele nome, e tão miúda, e aquele papo sobre as estrelas erradas... Enquanto as outras meninas tinham na parede pôsteres do Cristopher Reeve de SuperHomem e liam histórias de amor, Neila tinha fotos tiradas com uma câmera e um telescópio, e lia as revistas de seus pais. Sempre fora uma aluna brilhante, mas nunca tivera uma amiga. Até a chegada de Star. Star mudou-se para a casa na frente da de Neila, para sua escola e para sua vida, em poucos meses, nessa ordem. Star também devia seu nome ao céu. Não o físico, mas o divino. Nome bíblico: Ester. Ia ao culto todos os domingos e rezava antes das refeições. O pai era pastor e a mãe dona de casa, e esta sempre lhe ensinou que um dia ela também viria servir a um marido e a um lar. Os dois irmãos mais velhos a vigiavam feito soldados, mas Ester nunca tirara um único dedo da linha. Já estava com quinze anos, já tinha corpo de moça, mas vestia sempre as roupas castas que a mãe mandava. Não 24


trocava olhares indevidos com moços e não questionava, porque não via por que questionar. Até que Neila e Star colidiram feito galáxias. Era um projeto de escola. Feira de ciências. Nenhuma das duas tinha grupo, foram colocadas juntas. — Nem esquenta, posso fazer sozinha – disse Neila – Tenho uma ótima ideia, e é o que geralmente acontece. — De jeito nenhum! – respondeu Ester. — Por quê? Acha que é pecado? — Não. Quer dizer, eu também acharia errado. Mas acontece que eu também tenho uma ideia excelente. Neila levantou uma sobrancelha. — Sobre o que você quer falar? — Você já ouviu falar do Stephen Hawking? Neila levantou as duas sobrancelhas. Naquele instante, tornaram-se amigas. Naquela manhã, decidiram que o trabalho seria uma apresentação sobre o universo. Nos dois meses que se seguiram até a feira, releram “Uma breve história do tempo” juntas, exploraram a biblioteca dos pais de Neila, passaram noites olhando o telescópio que a menina tinha e batendo fotos, e conversaram sobre tudo. — Você acha que em algum momento conseguiremos viajar no tempo? - perguntou Neila à Star em uma dessas noites. — Acho que sim. Basta conseguirmos entrar em um buraco de minhoca. Ou viajarmos próximo da velocidade da luz. Também conta como viajar no tempo, não?

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— Acho que sim. Imagina só, sairmos daqui agora e voltarmos no futuro, daqui a séculos! — Espero que as pessoas lá sejam melhores. — Melhores como? — Que se amem mais. Star olhou para o relógio de pulso que usava. Estava com a família há gerações. Viajara no tempo. — Deveríamos colocar esse relógio na nossa apresentação – disse. - Representa a máquina do tempo que a gente vai construir um dia. E... Neila, também quero te dar um apelido. — Eu já me chamo Neila. Não preciso de apelido. — É injusto. Star é fofo, você precisa de um também. — Quando você descobrir um planeta, batiza ele com o meu nome – ela disse. — Batizo. E esse será nosso mundo. — Nesse sistema solar, a estrela central se chamará Star. Star sorriu, e o sorriso dela era mais bonito que a lua. O coração de Neila batia rápido, tão rápido que ela mal conseguia respirar. O corpo todo estava quente... levantou o rosto e olhou Star nos olhos – aqueles olhos cinzentos infinitos! Os lábios de Star tremiam. Neila não conseguia mais pensar. Ficou na ponta dos pés e encostou seus lábios nos lábios de Star. Todo o sentimento do universo estava condensado em um ponto dentro de Neila. O beijo foi o Big Bang.

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O sentimento explodiu e começou a se expandir. E ela teve certeza que aquele amor viajaria por toda a eternidade e alcançaria todas as fronteiras do universo. O dia seguinte era a feira de ciências. Neila e Star deram as mãos por baixo da mesa, enquanto os visitantes olhavam sem muito interesse todas as fotos que elas tinham batido do céu e o relógio de Star lá no meio. Não importava. Estavam juntas. Prontas para viajar no tempo, no espaço, na vida. Foi o irmão mais velho de Star quem viu as mãos juntas primeiro. E Neila não viu de onde a mão dele veio. Só sentiu seu braço sendo puxado violentamente, e um tapa que fez seus óculos voarem. — Larga minha irmã, sua sapatão! Seus ouvidos zuniam. Foi tudo rápido demais. O outro irmão de Star puxando-a pelos cabelos. O irmão mais velho a atirando para longe. As fotos sendo rasgadas. Algumas pessoas intervindo. Chegou em casa com o rosto machucado pelos tapas e inchado de chorar. Estava trancada no quarto quando ouviu uma buzina na janela. Star estava numa moto, com o rosto muito machucado. Tremia. — Vamos fugir pro nosso planeta! – disse. E Neila sem pensar pulou a janela e subiu na garupa. Não tinham andado um quarteirão quando o carro dos pais de Star começou a segui-las. Era o irmão mais velho que dirigia. Star acelerou. Cruzou um sinal vermelho. E encontrou um caminhão. No segundo antes de desmaiar, Neila viu que o vidro do caminhão quebrara e perfurara o peito de Star.

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Foi sua mãe quem lhe entregou o relógio, quando acordou no hospital. Estava quebrado, é claro. Tão logo pôde voltar para casa, Neila começou a se dedicar a consertar a máquina do tempo. Naquela primeira noite em que conseguiu encarar o céu depois do acidente, antes do sol nascer, Neila viu uma estrela cadente.

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O COMBUSTÍVEL DA CIÊ NCIA Jonas Henrique Rodrigues de Oliveira – 4º lugar Faculdade de Engenharia Química Tomava meu café-com-leite. Na TV, uma matéria sobre o eclipse da noite anterior. O céu naquele dia estava nublado, não pude acompanhar. Na internet, desde matérias satirizando a cor da lua – vermelha, comunista; até colegas de profissão – uma cristã, futura engenheira, defendendo que aquele fenômeno não era um sinal do Apocalipse, como alguns de seus colegas mais religiosos insistiam em dizer. Uns dias antes, li a entrevista de um portador de esclerose lateral amiotrófica (ELA, doença responsável pela destruição progressiva de neurônios) ao jornal El País. Ele acredita que todos podem, e devem ter uma ideia geral de como funciona o universo e do nosso lugar nele. Contrariando todos os prognósticos, é difícil imaginar que esse paciente possua hoje seus 73 anos e participe de diversos eventos, vários anos após ser diagnosticado com ELA. Seu nome é Stephen Hawking. O primeiro caso, puramente científico ao meu ver, até mesmo banal para quem já estudou física, ganha facetas ficcionais e até religiosas, enquanto o segundo sugere explicações sobrenaturais para uma vida que persistiu contrariando a medicina e, portanto, a ciência;

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uma vida de quem refuta a religião para explicar a origem do universo e considera que as leis da ciência sejam o bastante para isso. Entro na sala de aula um tanto perplexo com aqueles pensamentos. Me pergunto qual o limite, a fronteira exata entre a ciência e a ficção, se é que realmente existe uma linha, tênue que seja, capaz de separar esses dois conjuntos. A aula já não me atrai. Vasculho em minhas memórias, meus primeiros contatos com a ciência. Lembro-me das minhas aulas de Astronomia, em que, apesar da fascinação em descobrir os planetas e seus nomes, seus anéis, suas cores, me perguntava o que significava dizer que aquele grande queijo flutuante chamado Lua era o satélite natural da Terra. Anos mais tarde, já tendo entendido, achei que faltou imaginação àquela professora. Manuel Bandeira, grande modernista que ironicamente (ou não) morreu um ano antes de fincarem uma bandeira no grande queijo, traduziu de maneira poética este meu sentimento: “Despojada do velho segredo de melancolia, / Não é agora o golfão de cismas, / O astro dos loucos e enamorados, / Mas tão somente / Satélite”. Agradeço, então, por ter tido uma professora de literatura capaz de reacender em mim o lado poético que a ciência me traz, anos mais tarde. Já em uma aula de História, o professor me dizia, com aquele preconceito típico em relação à Idade Média, que as pessoas daquela época não acreditavam que a Terra fosse redonda. Confesso que para mim, sempre fora difícil conceber que uma força, algo tão abstrato, nos prendesse à superfície de um corpo tão imenso, mas solto no meio do infinito. Naquela aula de História, pude me sentir como um homem medieval: não fazia sentido no meu cérebro habituado com um mundo 31


tão pequeno (casa, escola e sítio da minha vó) que o planeta fosse redondo. Por que as ruas eram todas retas, então? E as montanhas? Como não caíam para o lado? Naquele momento, foi a mim que imaginação não ajudou. Começo, então, a visualizar a imaginação presente nesta fronteira. O dicionário sugere que a ciência seja o corpo de conhecimentos

sistematizados

adquiridos

via

observação,

identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente. Mas não seria

a

imaginação

combustível

essencial

neste

corpo

de

conhecimentos? Vou almoçar com um amigo. Ele me conta que na Grécia Antiga, muito antes de Descartes e sua segmentação dos saberes, a Física estava intimamente ligada à Filosofia. O estar no mundo, seus motivos (se é que existem) e o mundo e o universo tal quais sejam, tudo isso era tema comum a estes dois tipos de estudos. Me dizia que, dentro da tradição aristotélica, era possível formular todas as leis que governam o universo unicamente através do pensamento, sem se fazer necessária qualquer comprovação objetiva. Sou enfim capaz de observar o tão essencial ingrediente nos pensamentos do grande Aristóteles. Me disse também que, nos tempos de Aristóteles, se cultivava a visão geocêntrica (proposta pelo próprio), a qual foi aceita e adotada pela Igreja até Copérnico e Galileu. Me pergunto se só a imaginação era suficiente a Aristóteles, num momento em que a falta de pragmatismo da Filosofia era predominante. Afinal, quando estudamos física, começamos por Newton, não é mesmo?

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Ele não me dá tempo para responder as minhas próprias perguntas. Continua com Aristóteles, o qual somente mediante a observações da posição relativa da estrela Polar em suas viagens para o Egito, estimou, há mais de 2 mil anos o diâmetro da Terra. Através da observação dos eclipses e da sombra da Terra projetada na Lua, concluiu que a Terra tinha um formato próximo ao de uma esfera. Peço desculpas mentalmente, então, a Aristóteles e começo a me perguntar por que meus professores não me disseram tudo isso. Saio do restaurante insatisfeito e não me contenho: vou à biblioteca. Começo por Galileu. Este foi entregue à Inquisição por um velho amigo que se tornara papa. A falta de imaginação daqueles que viviam em sua época, a rigidez dos princípios religiosos e, preponderantemente, os interesses políticos na manutenção desses princípios renderam-lhe uma prisão domiciliar perpétua. Einstein se mostra mais relutante em sua imaginação: lutou contra o nazismo e fez sua genialidade prevalecer. Reconheceu que o mistério da vida, aquele que permeou a filosofia aristotélica, é também objeto da religião. Para ele, aqueles que reconhecem algo de impenetrável a sua inteligência submetem-se a esta ordem suprema. E ao se reconhecerem limitados, não podem apreender a perfeição do mistério da vida. Assim, se constitui a religião e, somente por isso, ela toma essa função, de explicar tal mistério. Não tinha nada contra a religião em si, mas para ele “Deus não joga dados”. O físico ganhador do Prêmio Nobel, em seu livro “Como vejo o mundo”, afirmou: “O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência”. E, nesse sentido, vejo que somente aqueles que são capazes de 33


contemplar este mistério, satisfazem-se com mais perguntas ao invés de respostas. E mesmo que encontrem modelos, fórmulas, teorias ou hipóteses, me parece que tudo não passa de imaginação. Saio da biblioteca, entro no carro. No rádio, toca aquela música de Gil: Quanta. Ao tratar de mecânica quântica, o compositor refere-se a algo que, como estudante, trato por coisa mínima, porém fundamental. De tão infinitésima, passa a ser abstrata e seria possível de existir somente na ideia, na mente. E dessa abstração, o eu-lírico consegue chegar ao granulado do mel, ao ondulado do sal. No refrão utiliza-se de um jogo entre as ideias de ciência (“Quântico dos quânticos”), e da arte, ao citar o livro “Cântico dos cânticos” da Bíblia, uma das partes mais poéticas deste livro sagrado, a qual celebra o amor. Por fim, é capaz de resumir toda a sua ideia através dos versos: “Teoria em grego quer dizer / O ser em contemplação”. Apesar de tão bem tratar da ciência, mesmo que poeticamente, Gil ainda contou com uma célebre presença na abertura do álbum que carrega o mesmo nome da canção. O grande físico César Lattes não foi menos surpreendente: “O infinitésimo é uma ficção matemática. Quantum é o mínimo de ação (energia x tempo). O Quantum de ação é o mais real do que a maioria das grandezas físicas: seu valor não depende do movimento em relação ao observador”, escreveu na abertura do álbum. Me pergunto: como que a mais real das grandezas físicas pode ser uma ficção matemática? Me recordo de Hawking, em seu livro “Uma Breve História do Tempo”: “[...] Numa visão simplista, a teoria é apenas um modelo do universo, ou uma parte restrita de seu todo; um conjunto de regras que referem quantidades ao modelo de observação que se tenha escolhido. 34


Ela existe apenas em nosso raciocínio e não apresenta qualquer outra realidade (seja lá o que isto signifique). [...]”. Fica cada vez mais difícil para mim, discernir entre ficção e ciência. Chego em casa, ligo a TV. Outra notícia: encontraram água em Marte, indícios de que pode haver vida em outro lugar do universo. “Para meu cérebro matemático, de números puros, pensar em vida extraterrestre é algo muito racional. O verdadeiro desafio é descobrir como esses extraterrestres podem ser”, disse Stephen Hawking naquela mesma entrevista. Paro por um instante. Percebo estar diante de um dilema que não se desfaz diante de tantas reflexões ... Mas todos estes devaneios me mostraram que aquela fronteira que eu procurava é, a todo momento, superada. E nessa corrida, chegam mais longe os que têm mais combustível: a imaginação!

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AS DUAS LÂMINAS DA MESMA ESPADA Pedro Guilherme Sanches Contieri – 5º lugar Faculdade de Engenharia Mecânica Minha mãe costumava dizer que a curiosidade matou o gato. Na minha inocência de criança, ficava apavorado: coitado do gatinho, onde ele foi se meter para merecer isso? Foi atropelado por um carro por querer saber o que havia do lado oposto da rua? Ou talvez se engasgou com um osso de galinha tentando bisbilhotar no lixo? Será que o mesmo aconteceria comigo se eu tentasse pegar um pouco de brigadeiro da panela que minha mãe ainda não tinha retirado do fogo? A causa, nunca soube ao certo, mas o mistério era o que tornava a frase tão arrepiante: o bichano pagou com a própria vida, seu mais precioso bem, o preço de meter o nariz onde não foi chamado. É interessante que, na virgindade da alma de uma criança, reza a mais pura humanidade. Somos curiosos por natureza, inclusive nos menores e mais singelos detalhes do nosso cotidiano, como abrir uma revista de fofocas, ou até mesmo querer saber como estará o tempo no próximo final de semana para tomarmos a decisão certa de viajar ou não para a casa de praia. A necessidade de compreender o mundo ao nosso redor caminha conosco junto com o caminhar das civilizações, desde o berço da sociedade. Buscar entender o nosso meio é o modo que o ser humano encontrou de entender a si próprio. 36


O diferente, o novo, o incerto foram os pontos de partida para a criação de mitologias, religiões dos mais diversos povos, de todos os cantos do planeta Terra. Tentar explicar os raios nas tempestades, a causa de doenças e pragas, ou qualquer mistério que foge do nosso controle inspirou (e ainda inspira) as maiores histórias produzidas durante nossa existência. É o cerne da natureza humana: o que está fora de nossas mãos avançou além da nossa zona de conforto e somos fadados a sempre querermos retornar a ela. Sim, exatamente, o misterioso é desconfortável. O misterioso nos instiga, nos faz questionar. Afinal, o que há no topo daquele monte na Grécia? O que há de tão mágico no fruto daquela árvore que nos foi proibido de comer? É a habilidade de questionar, única entre os seres do planeta, que consiste no núcleo de nossa humanidade. A ciência nasce da nossa sede por explicações, por buscarmos essa compreensão, porém de maneira sistemática, experimental com base em repetições e observações, invariante de pessoa para pessoa, criando, portanto, verdades universais. O mais curioso de tudo, no entanto, é percebermos que o ponto de partida de uma pesquisa científica é uma tese. Em outras palavres, é a partir de uma ideia que queremos testar que começa todo o trabalho de um pesquisador. Algo, muitas vezes, abstrato. A ciência e a ficção, que frequentemente são colocadas em faces opostas de uma moeda são, em essência, a mesma coisa. Enquanto as histórias nos dão a liberdade para transcendermos os limites do mundo que conhecemos, a ciência nos mantêm firmes ao chão, onde acontece a vida real. Ambas se complementam, suprindo a carência que temos por desvendar o misterioso. Limitar-se a uma delas em detrimento da outra é limitar a capacidade humana. E algo que não 37


conhecemos é nossos limites, principalmente os limites de nossos sonhos! Foi com a cabeça nas nuvens que superei a morte do gatinho, imaginando que, onde ele estivesse, estaria brincando com seus amigos, feliz e se divertindo, enrolado em novelos de lã fofinhos e coloridos. Mas foi com base em um experimento científico que eu descobri que o brigadeiro pode ser muito mais prazeroso quando esperamos ele esfriar um pouco antes de comer. Se hoje conseguimos acender uma lâmpada foi porque, em algum momento no passado, a mesma lâmpada se acendeu na imaginação de um grande cientista.

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A DROGA Rodolfo Cavaliere da Rocha – 6º lugar Faculdade de Engenharia Mecânica Roberto estava em sua terceira noite sem dormir. Á base de café e energético, Roberto levava seu experimento. Finalmente seus ratinhos estavam se recuperando da doença. Sua droga tinha dado certo! Lentamente seus sinais vitais iam melhorando, os batimentos se normalizavam, e tudo parecia um mar de rosas para Roberto. Aluno de doutorado na Faculdade de Medicina, bolsista FAPESP e frequentador assíduo dos barzinhos de Barão Geraldo, Roberto desenvolvia uma nova droga para tratar a terrível febre dos montes da Malásia, uma doença bacteriana que acomete uma tribo isolada na Ásia, e causa a morte de cerca de 0,5 pessoas por ano (uma a cada dois anos). Sua tarefa envolvia testar novas substâncias para tratá-la, inicialmente em animais e, em seguida, em seres humanos, como de praxe nesse tipo de pesquisa. Ibuprofeno não funcionava nos ratinhos. Claritromicina também não. Raios, até Tylenol ele tentou, e nada! Naqueles dias, ele havia recebido algumas amostras de um novo composto, descoberto acidentalmente no mofo do sanduíche de um aluno de iniciação científica na Austrália, prontamente patenteado pelo seu orientador – claro, deixando aquela nota de rodapé de crédito para 40


seu orientado. Isometilsulfetofenilbenzenolamina era essa substância. Aparentemente, ela combatia com sucesso bactérias similares às da doença de Roberto...ou melhor, de suas cobaias! Com o apoio constante de seu orientador, o Professor Doutor Sebastião Gonzalo das Neves II - que passou a maior parte do tempo entre as Bahamas, a Riviera Francesa e o Taiti - Roberto havia chegado a uma fase crucial de seu trabalho. Segundo o cronograma, havia pouco tempo para apresentar resultados; logo, deveria se apressar com os experimentos. Pouco antes de ver seus ratinhos – carinhosamente batizados de Mickey, Jerry e Rémy, seus únicos companheiros de laboratório – Roberto se lamentava. “Não devia ter enrolado tanto...”, ele pensava. “Deveria ter me organizado...”. Roberto viveu entre o bar, o Facebook e sua cama nas semanas anteriores, e não moveu um dedo de seu trabalho até os últimos dias. O que acontecia era um milagre. Logo na primeira dose os seus ratinhos começavam a se recuperar. Passados alguns minutos, eles haviam recobrado a consciência, e voltavam a andar sozinhos pela sua gaiola. Roberto estava em êxtase. “Encontrei a cura”, ele pensava. Depois de tanto trabalho, tanto sofrimento, sua pesquisa começava a dar certo! Já pensava nas próximas etapas. Os relatórios, a qualificação, os artigos e, finalmente, sua tese. Nada disso seria tão difícil como foram seus últimos dias. Entorpecido pelo seu sucesso, Roberto demorou a notar que havia algo errado. Seus ratinhos estavam maiores? Como isso 41


aconteceu? Os bichos, que eram brancos, lentamente adquiriam uma coloração

esverdeada,

seus

dentes

cresciam

e

se

tornavam

ameaçadores. Seus dedos passaram a apresentar garras, mais ou menos no momento em que eles ficaram grandes como Rottweillers. Em segundos seus ratinhos destruíram as gaiolas. Pulavam nas bancadas como loucos, quebrando tudo o que viam pela frente. Em um determinado momento, pararam os três. Ao mesmo tempo, miraram o olhar para aquele rapaz cansado, apavorado, acuado em um canto, que os havia deixado daquela maneira. Lentamente, o cerco se fechou ao redor de Roberto. Ele chorava como uma criança. “É o meu fim!”, ele pensava. Nunca concluiria o doutorado. Nunca escreveria um artigo. Nunca poderia ver o orgulho nos olhos de seus pais. Raios, nem mesmo uma namorada ele teve na vida! “Eu sou muito jovem pra morrer!”, ele gritou. E, naquele momento, tudo mudou. Ao se ver inteiro, sonolento, ainda sobre sua cadeira é que ele se deu conta de que havia sonhado. As noites sem sono tinham dado seu efeito. Eram quase seis da manhã. A droga não deu certo. Seus ratinhos estavam mortos.

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O VOO DO ORIGAMI André Gustavo Cardoso Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação I) Ah a semana... a semana e uma invençao, como todas as outras... Todas as outras palavras, digo. Diz-se que possui “7 dias”, e ainda assim a mensuramos o tempo todo, os numeros tambem mentem. Semanas de provas correm ao lado da luz, uma distraçao dos contadores de tempo, muito embora o tedio adore estende-las de metros a quilometros. E mesmo tudo uma mera questao de nomenclatura, terças tornam-se segundas em feriados prolongados, e sextas ja parecem sabado apos o almoço. As medidas, regras, invençoes e convençoes humanas sao tentaçao, torta fresca de maças assada num forno, um forno de chamas gregas, reacesas por italianos ha algumas tantas semanas atras... Nao tenho pretensao de convencer ninguem de coisa alguma, acho muito inconveniente, mas os exemplos, ah! Os exemplos sao tijolos, e tambem tijoladas! Valem muito!

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Eis que, ao caminhar, e so depois de muito caminhar, depara-se com os tais exemplos. Levanto o olhar e me deparo com tijolos, um poema escrito sobre 7 tijolos, uma breve historia dos nossos tempos, nos Muros do meio do caminho, lido no Amanhecer de um dia qualquer: II) Lunedì A lua, e o mìnimo de luz O roubo, e a ausencia de oculos Os oculos, calçados de quem anda A lua, o roubo e os pes em ulcera E a estagnaçao! Martedì No pos-escuridao, a guerra! No princìpio, chamas e caos! O Relampago era Deus O trovao, sua voz O Sol era Deus O calor, seu poder E Deus era entao, o desconhecido Deus nao morreu! Pois o teleologico Deus do qual se fala em igrejas fabricadas Nem nunca existiu! 45


A apoteose das criaçoes da mente humana Somente nasce quando o corpo se encontra com as verdades sem palavras Ou as palavras belamente inspiradas Pois a beleza e um bravo argumento! A Guerra! A guerra do homem, nao contra deuses alheios Mas contra seu proprio, pela derrota dos vìrus, parasitas internos invisìveis Aos quais muitos sucumbem, por dispararem, somente com balas de canhao Mercoledì Outros, tampouco guerreiam Mas tentam comprar a propria salvaçao Dinheiro este que nem pode lhes recuperar Preserpina Como se o amor mercadoria fosse E como se nao pudesse florescer tambem nos solos do submundo Giovedì Eis que precisamente ao meio dia dos nossos tempos A luz solar vem nos trazem um pouco de dignidade Ainda que timidamente Uma esfera jogada assim de uma torre torta, segundo os rumores. Timidamente sim! Pois e a noite que os tìmidos dao suas caras!

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Venerdì O tatear no escuro traz o odio! Pois os deuses que vem do pavor Nao frutificam em esclarecimento Conquanto o romance, despretensioso e honesto, com os ares do mundo So poderia resultar em Deus! Pois vem do amor Sabato Eis que nos chega o dia do Sim! Um protesto ao descanso! Sim a liberdade, a ousadia, as (des)venturas e a contradiçao! Domenica E eis que nos chega o dia do Nao! Um protesto ao passado tatuado em cruz! O “dia do senhor” e hoje, o dia do descanso! Reconhecimento de nosso amor proprio III) Pelo passar das semanas, bìpedes falantes desenvolvem sua forma propria de absorver, como folhas de ipe absorvem a luz do sol, porem, 47


repleta de metodos e regras e medidas, e regras dos metodos e procedimentos, e gramaticas, e formulas, e categorias, e formalizaçoes, e cadernos que muitos carregam debaixo dos braços suados como outros suas bìblias! Entretanto esses metodos resultam, amiude, num vaidoso currìculo e pouco se ocupam das exuberantes cores de tais arvores, qual cegueira, cuja cura se da, se e somente se, regras extrapoladas sao. So se compreende de fato quando nos faltam as palavras, e o folego e a razao, assim como o calculo, e a visao... a vaidade... a noçao de 2... e a ordem, o sentido e a respiraçao... transpiraçao... e a calefaçao... conexao, tunelamento e servidao... a surpresa e a indignaçao... a intromissao e a apariçao . .. … Os saberes do mundo, “gases O2”, nao sublimam, sao sublimes, nao conhecem gaiolas industrializadas. Estas sao nossas, e dos livros didaticos, nao feitos dos mesmos tijolos que levantaram os Muros, onde o poema fora escrito. E fosse tal parede derrubada o poema se materializaria, assim, ja nao seria mais poesia. IV) A poesia das coisas, do cozinhar de bom grado, e a fe! Forte, e tao, e tanto! Pois se propoe a buscar, enquanto falsos deuses prometem um ceu, 48


o que ja hoje brilha em azul-infinito Ainda nao sabiam ler os que nos disseram: temam! Ah! E temam! Mas somente o que deve se-lo Como o saber, senso que vem com a arte enquanto poesia, que e claridade e escuridao Amem! Amem o temor! Pois ele, e somente ele, que vem da duvida! O dinheiro, as semanas, os quilometros, a matematica e as outras lìnguas, teto de vidro Amor e concreto armado e pisos de taco As lìnguas traem-se, e o instinto, e traìdo! A ficçao somos nos, todo o resto e, sem precisar dize-lo! Fronteiras sao como a Matematica e a Fìsica Esta está em nos e e sentida mesmo quando nao compreendida Aquela vem de nos e e ficçao, embora retorne em harmonia com a realidade, e dança de deuses difusos A matematica e so uma das tantas lìnguas de interface: humanos x universo Ah a imaginaçao, tao parte da realidade, um ìma e seu campo! Assim, Deus criou o mundo nos 7 dias Em nosso lexico se traduziria descuriosamente em “milenios” talvez E que o leiamos sem dicionarios nem caracteres! 49


Pois nem axiomas nem fabulas regem, mas especulam Para o poema escrito em papeis de origami levantar voo e ganhar os ceus sem fronteiras

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CARTAS PARA A CIÊNCIA Bruna Moura de Barros Faculdade de Engenharia Mecânica Um garotinho esperava ansiosamente o dia 25 de dezembro. Sim, o Papai Noel finalmente chegaria. Com ele, estaria o tão sonhado brinquedo. A criança havia feito todas as especificações do presente, colocado uma cartinha endereçada ao Polo Norte na árvore de natal, conforme a tradição. Ás dez horas da noite ele dormiu, afinal não poderia ver o Papai Noel, caso contrário, não ganharia seu presente. Uma noite para uma criança, dias de planejamento para os pais. O menino havia colocado a cartinha na árvore. Aproveitando-se de um momento de distração, os pais a haviam pego, lido e escondido. A mãe aproveitava quando o filho estava na escola e pesquisava onde comprar o tão desejado brinquedo. Neste ano, a criança não havia pedido um presente fácil. Quando finalmente encontraram o presente pedido, mais uma surpresa desagradável: o preço era alto e o presente só poderia ser encontrado fora do país. Foi-se mais tempo perdido, ligando para os tios, avós, primos de segundo, terceiro, quarto e quinto grau, para descobrir se alguém viajaria para o exterior e se a família estaria disposta a fazer uma vaquinha. Encontraram uma prima distante que viajaria para os Estados Unidos. O dólar estava caro, mas depois de ligarem para as duas avós e dois tios ricos da criança, haviam conseguido juntar o dinheiro. 52


Encontraram a prima em um fim de semana, esconderam bem o presente em casa. Tudo por um momento, por um sorriso. No dia 25, o garotinho correu para a árvore de natal e lá estava uma grande caixa, coberta por um papel de presente colorido. Seu coração batia rápido, o Papai Noel existia! E não o tinha decepcionado! Rasgou rapidamente o papel, viu o seu brinquedo e ficou mais feliz. Saiu correndo pela casa gritando: "Eu sabia que ele existia! Eu sabia que ele viria!" Os pais olhavam a cena com um enorme sorriso no rosto, o esforço havia valido a pena. Quem é a criança? Esse grande povo conhecido como humanidade. Escrevemos nossos sonhos em cartas, na forma de ficção e temos esperança que algum dia a ciência as tire da árvore.

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ROTINA Daniele de Moraes Amador Barbosa Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação Acordo. Escovo os dentes, tomo café da manhã, troco de roupa, saio correndo para o ponto de ônibus. Enquanto corro, trombo com uma pessoa. A pessoa parece desnorteada, olhando para mim fixamente caída no chão. Perdi o ônibus. “Você está bem?”, pergunto, e ele, que aparenta ser um jovem de uns 20 anos, parece que volta à realidade e responde “Ah... sim, sim, obrigado”. Continuo meu caminho, então, até o ponto de ônibus para pegar o próximo, sabendo que já estou atrasada para o trabalho. Enquanto isso, aviso, pelo celular, a alguns colegas de trabalho que atrasarei. O menino vem atrás de mim, começo a gelar de medo. Você pode me chamar de paranoica porque ele poderia estar indo ao ponto de ônibus como eu, mas quando nos trombamos, ele estava indo na direção contrária. Acabamos parados juntos no ponto de ônibus. Percebo que ele me olha bastante, fico sem graça e, às vezes, olho para ele e dou um riso sem graça. “Isso vai parecer estranho...”, ele diz. Vixe Maria, lá vem alguma cantada do tipo “eu sinto que já te conheço há anos”... Ele diz: “Daqui a pouco o Fernando vai te oferecer uma carona e não é para você aceitá56


la”. O quê?? Como ele sabe isso, e quem ele acha que é pra me dizer o que fazer? — Como assim?? – perguntei. — Eu sei que parece estranho, mas acredite em mim. — E por que eu acreditaria em você se nunca te vi na vida? — ... Ainda. Imagine o frio na barriga que esse mistério me deu. Ele continua: — Assim, é... que eu sou tipo... seu... f-i-l-h-o... e... Ok, agora estou convicta de que esse cara está sob efeito de algum entorpecente, só vou concordar com tudo... — e... se você pegar essa carona, algumas coisas vão acontecer e meu pai nunca vai esquecer, aí ele vai ficar paranoico achando que você tem um caso com o Fernando e vai acabar hmm... te matando. Por isso eu vim do futuro pra pedir só que você não pegue essa carona. — HAHAHAHAHA, ok... E, então, eu recebo uma mensagem no celular do FERNANDO: “Você quer uma carona? Estou saindo de casa e posso passar aí ;)”. Ok, isso ficou estranho, como o moço sabia que isso ia acontecer? E essa piscadinha no fim da mensagem é suspeita; de fato coisas podem acontecer como o moço disse. Mas o resto da história é surreal, por que eu teria um filho com um cara maluco desses, que resolveria me matar de ciúmes? — É a mensagem que eu disse, né? Por favor, responda que não. — Cara, isso tá bem engraçado e divertido, mas eu não posso atrasar pro trabalho...

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— Não, mãe, eu juro que tô falando a verdade! Você nasceu no dia 28 de setembro de 1992 e... [aqui ele contou um segredo sobre mim, que não posso contar e é desnecessário para a narrativa, então simplesmente saiba que fiquei muito assustada] — Ei! Como você sabe isso??? — Você contou pra mim e pra minha irmã. — Ah tá... A única coisa que você quer que eu faça é não pegar essa carona? —É Envio uma mensagem ao Fernando dizendo que o ônibus vai passar logo, logo e não precisa, obrigada. — Mas moço, você está ciente de que interferir no passado pode ter consequências graves no futuro? É muito perigoso isso que você está fazendo. — Eu sei, meu pai vai te dar uma carona agora e vai ficar tudo bem! — Você não poderia ter contado isso, agora eu sei quem é seu pai e pode ser que ele não seja seu pai porque agora eu sei que ele é seu pai... Apareceu um unicórnio na rua, envolto por dois pães de fôrma. Acordo. Escovo os dentes, tomo café da manhã, troco de roupa, saio correndo para o ponto de ônibus. Percebo o déjà vú. Não trombei com ninguém, peguei o ônibus e cheguei ao trabalho normalmente. Esse sonho me deixou pensando o dia inteiro... acredito que os sonhos são a fronteira entre ficção e realidade, por isso coisas surreais e sem lógica acontecem lá, parecem aceitáveis na hora e só ficam esquisitas quando acordamos. Por exemplo, de repente eu acreditei no 58


menino e fiz o que ele pediu... e não tem Fernando nenhum no meu trabalho! Viagens no tempo? Unicórnios? Alguns sonhos podem se tornar realidade sim. Muitas coisas que existem hoje devem ter vindo de sonhos. Porém, outras vão ficar na imaginação mesmo. E só quando dormirmos, o mundo do possível e o do impossível vão existir concomitantemente e nossa incredulidade deixará de agir para que as coisas mais legais aconteçam.

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UMA BREVE E SOFRIDA REALIDADE FICTÍCIA Daniel Candeloro Cunha Faculdade de Engenharia Mecânica Fim do dia, sentada no sofá de sua sala, assistia às notícias com olhos e ouvidos passivos. Seu espírito ausentava-se, libertava-se das pressões mundanas e deixava relaxar o corpo oco minimamente estimulado pela emissão televisiva – gente sofrendo por raiva, gente sofrendo por fome, gente sofrendo por não ter pelo que sofrer, meteorologia. Esta última, por razões certamente existentes, mas ininteligíveis a sua consciência, nome irônico para algo que conhece tão pouco sobre si mesmo, fê-la retornar subitamente com peculiar interesse. Estudo do céu, previsão do tempo. Inferir sobre algo que ainda não aconteceu apenas com um germe de propriedades físicas mensuráveis da atmosfera. Mas não apenas inferir, acertar! Ainda que certo seja apenas o passado, ter a certeza, em seu sentido probabilístico usual, do que está por vir. Sentiu-se atordoada pela resolução, precisou levantar-se, desligar a televisão e andar um pouco pela casa. Era uma casa pequena, vivia sozinha afinal. A caminhada mais longa que podia ser feita era ir da sala à ducha no banheiro, passando ao lado da cozinha e através do quarto, aqui mencionados apenas para que nenhum cômodo se sentisse discriminado pela omissão, devidamente evitada. Foi, voltou, foi novamente e a ansiedade contevese. Mas para que tanto alarde por algo tão cotidiano? Indagou-se. Concluiu que o choque viera da sensação de afastamento da realidade, de mitificação da avançada ciência que os humanos desenvolvemos. 60


Vivemos em condições muito diversas às daquele mundo sensível dos que precisavam de deuses e profecias para explicar a caótica sucessão de eventos que compunha o imponderável. Os sentidos foram substituídos por instrumentos eletrônicos de medida; os deuses, por leis físicas; as profecias, por modelos matemáticos; o imponderável foi delimitado, tornou-se manipulável, transponível. Nem mesmo os alquimistas poderiam acreditar, disse para si em voz baixa, enquanto estendia o raciocínio e alcançava novas revelações. Fusão, fissão – a transmutação dos metais perdeu seu caráter irreal. Manipulação genética, clonagem – a criação de homúnculos de matéria inanimada deixou de ser fantasiosa ficção. E o mais impressionante é a alienação que nos envolve, rematou. Algo que há uma geração só poderia ser encontrado nas mais lunáticas das mentes, ou então algo com genérico teor extraterrestre, não necessariamente lunar, hoje é tido como óbvio. Óbvio, repetiu constatando a descaracterização da palavra. Isso que dizia respeito a algo publicamente claro, tangível e evidente, agora apenas adjetiva o que é particularmente corriqueiro para o locutor, por mais oblíquo que seja. Hoje vivemos o surreal e cremos em sua distorcida obviedade! Ao retornar à sala, olhou para aquele aparelho e sentiu-se esvaziar. Como uma caixa como essa é capaz de reproduzir imagens e sons com tamanha perfeição, como essas informações sensoriais podem ser transmitidas através de cabos, através do ar, através do nada?! Sabia que era capaz de pesquisar sobre o assunto por algum tempo e adquirir um entendimento quase preciso do funcionamento do artefato, mas o ponto não era esse, nunca seria capaz de compreender minimamente essa massa tecnológica mutante de crescimento 61


exponencial, de volume descomunal – encolhia-se. Questionava o que via, pois não parecia possível, considerava o impossível, pois não conseguia mais distingui-lo como tal. A reflexão seguiu turbulenta e contraditória, repetidamente desmontou e remontou as pilhas lógicas de seu complexo até, por reflexo defensivo talvez, simplesmente bloquear-se. Frustrada pela inconclusividade de seus pensamentos e sem saber como continuar, buscou por amparo em seus arredores. Precisava de uma baliza, um apoio simples e seguro que pudesse ser perfeitamente entendido, um totem que apenas por existir garantisse de alguma forma fundamental a possibilidade de delimitar fronteiras às potencialidades da realidade. Encarou seu telefone por não mais que um instante, até um imponente calafrio atravessar-lhe a coluna – recuou. Estranha mania, apoiou o queixo no peito para pensar melhor – viu uma marca de sujeira no tapete. Estranha reação, sorriu como se tivesse encontrado o que procurava e assoviou duas notas precisas e harmoniosas. Veio correndo até ela e começou a roçar-se em suas pernas – latiu dois grunhidos difusos e dissonantes. Seu cão, criatura de tanto demérito que por não ser cômodo não tinha nem sido mencionada até então, dormia em algum canto escondido quando foi interrompido pela invocação. Agora, pensando caninamente, como mais poderia pensar, movia-se freneticamente de um lado para o outro como que aguardando a ocorrência de um evento extraordinário ao qual teria sido convocado. Sua ama começou a emitir uma gama de sons, alguns altos acidentados, outros graves naturais, algumas longas breves, outras ritmadas colcheias, revezadas batidas de língua e de lábios, projeções vocálicas, intensificações dinâmicas, 62


movimentos corporais, expressões faciais – não entendia nada além das pausas. Desanimado pela quebra de expectativa, apenas por respeito, manteve-se atento o quanto pôde. Adormeceu novamente. Não adiantava, depois do longo monólogo indagando sobre a existência daquele cachorro, conseguiu-se somente um animal entorpecido pelo tédio e outro cada vez mais confuso pela descoberta de novas dúvidas metafísicas para atormentar seu espírito. Percebeu que perdia o foco, divagava sobre assuntos correlatos, mas não essenciais, não chegaria a lugar algum dessa maneira. O que queria saber afinal? Suspirou e arriscou uma resposta, que, no caso, é uma pergunta: será que algo é realmente impossível, será que há de fato uma divisão entre o real e o irreal? Direcionou o olhar para seu ouvinte, isso considerando que ele era capaz de ouvir algo enquanto esperneava-se no chão sonhando que perseguia um pássaro para tirar-lhe a vida ou uma bola de tênis para descobri-la morta. O que é o mundo para você? Acordar, perambular por aí, morder os móveis, comer, dormir. Você não sabe nada sobre ciência, sobre como funciona a natureza, nem mesmo de onde surge a ração em sua tigela. Para você, a ração surgir na tigela todas as manhãs é algo tão certo quanto a gravidade, sua não ocorrência é uma ilegalidade física, é impensável, irreal. Entretanto, para mim é evidente que essa não ocorrência pode facilmente vir a ocorrer, bastando eu decidir, sem ao menos avisá-lo ou pedir sua opinião, que de agora em diante terá que caçar o próprio alimento. Talvez para nós também o irreal só o seja, pois ainda não ocorreu. Talvez haja um desconhecido ser superior que a qualquer momento, com um simples puxar de

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alavanca, pode inverter a gravidade e lançar todos nós para sufocarmos no espaço – teve outro calafrio. Interrompeu-se, por um instante para certificar-se que o anúncio da catástrofe não iria ocasioná-la – a Terra continuou atraindo sem repulsa, podia seguir em frente. Pensando assim, tudo é possível. A tecnologia humana, com todo o seu instrumental matemático consistente em si próprio, com toda a classificação de suas energéticas partículas ondulantes e cargas elétricas magnetizantes, não é capaz de produzir mais que probabilidades. Ela apenas pode dizer o que é recorrente na natureza, menos que isso, o que é recorrentemente observado por nossos míopes meios de sensoriamento. Afinal, não temos como saber realmente de nada, nossa existência poderia ter iniciado ainda hoje e terminar ao final dessa fala e nunca viríamos a saber disso. Uma

tristeza

envolveu-lhe

o

peito.

Seriam

as

coisas

efetivamente assim? Tudo o que podemos fazer é apoiar nossos corpos nessa bola gigante embaixo de nós, acreditar na ciência que construímos e esperar que ela continue funcionando até nosso fim? Como é forte o medo do que não se pode controlar ou tampouco conhecer. Foi Sócrates quem, prestes a beber cicuta, não se deixou abater pela fatalidade – dizia que, caso houvesse continuidade, a morte não seria um fim, mas um recomeço; e que caso fosse ela a aniquilação do ser, não haveria mais ser para sofrer pelo revés. Seria agora a mesma coisa? O que ganho ao antecipar algo que foge às minhas potências e cujas consequências são apenas assustadoras porque misteriosas, mas inofensivas? Ainda assim, quem é capaz de pensar apenas o que convém e não tudo o que sendo pensado se pensa? Sem 64


saber por quê, fechou os olhos por um momento – sentiu um terceiro e último calafrio.

"Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do

que

eu

ao

ouvi-la,"

Giordano Bruno, 1600.

65


INFINITO Débora Maia Silva Faculdade da Engenharia Civil e Arquitetura Voava. Um ponto carmesim no céu royal da Itália do século XVI. Ganhava altura, serpenteava e reinava sozinha contra o vento. Outros se juntaram ao redor de Bruno, olhos espremidos contra o sol para não perder a pipa de vista. — Dá mais linha! — incentivou Antônio, um braço apoiado no ombro de Bruno. — Vamos ver até onde ela vai — disse Pedro. — Será que chega no teto? — alguém questionou da roda que aumentava. Bruno, que até agora focava total atenção em sua pipa, soltou uma risada que ressoou no pátio do monastério. —Teto? —disse ele entre novos risos — Mas o céu não tem teto! O céu não tem limite! Foi um balde de água fria na roda dos meninos. Alguns tiveram que suprir um grito de surpresa, e os mais sensatos deram uns passos para trás, distanciando-se de tal blasfêmia. — Bruno — tentou Antônio, olhos inquietos entre os outros amigos e o dono da pipa — É claro que o céu tem limite. O reverendo nos ensinou isso ainda no primeiro ano. Seguindo a faísca de rebeldia crescendo em seu coração, Bruno deu mais linha na pipa como se para provar seu ponto. — Mas digo a vocês! O céu não tem teto e nem limite! 66


Antes de pensar suas vezes, Bruno pisou em sua linha, cortando-a. Liberada da tensão, a pipa carmesim voou livre numa turbulência invisível. — A pipa não vai parar nunca! — Continuou Bruno — Depois do céu, ela vai pro grande vazio: para o infinito! O que Bruno menos esperava aconteceu. As caras de surpresa se desmancharam em caretas que logo viraram risadas, estas mais altas que as dele. — É brincadeira! — Pedro, com lágrimas nos olhos, explicou aos outros. — Bruno conta histórias! — Não! — protestou o rapaz, um rubor aquecendo seu rosto — Não é história! Isso só fez seus amigos rirem mais. Vendo a rebeldia se transformar em vergonha, Bruno tentou mais uma vez. — Nesse infinito há estrelas! Mundos! Estrelas de fogo como o sol, e outros mundos como o nosso! Foi a gota final. Sem a pipa e com a maluquice de Bruno, os alunos se dispersaram, rindo e comentando sobre a criatividade do rapaz. Outros, os mais sensatos, já cortaram qualquer tipo de amizade com alguém que pudesse falar de tantas heresias. — Esquece essas histórias, Bruno. Vem, a lição vai começar. Com as bochechas ainda rosadas, Bruno seguiu Antônio, cabeça baixa por ter sido motivo de piadas. Giordano Bruno viria ser a primeira pessoa a relatar a existência de algo além do céu, de estrelas e de planetas distantes num espaço negro. Ele pregaria sua “história” até a morte, que seria lenda e dolorosa sob a Inquisição do Santo Ofício. Rebelde como sempre fora, 67


encarou a morte nos olhos sabendo que acreditava em verdades, e jogou um desafio aos seus sentenciadores como última declaração. A pipa de Bruno nunca chegou ao espaço, mas sua história se tornou ciência. Pena de Dédalo Arfava, cada vez mais alto. O vento em seus cabelos, o frescor das nuvens, o frio na barriga para cada rajada que enganava o movimento de suas asas. O inexplicável sentimento de finalmente ter achado o seu lugar. Depois de tantos anos terrenos, custaram-lhe minutos pés acima para enfim encontrar-se. Certamente, seu pai estaria orgulhoso. Após anos tentando convencê-lo a tomar o manche, o pequeno finalmente estava nos céus. Os pássaros que compartilhavam o azul com o menino hesitavam em se aproximar. Não voava em formação. Ele, ou aquilo, voava só. As acrobacias e mudanças de vento seguramente seriam mais fáceis, entretanto vê-lo ali sozinho na imensidão infinita do firmamento era nada menos do que agonizante, incompreensível. Assistindo ao show aéreo de um homem apenas, as gaivotas contornavam o picadeiro imenso. Gabando-se entre as penas esvoaçantes, o ser alado voava sempre mais alto. Quanto mais alto melhor. Como seu pai sempre dizia. De súbito, levantou-se da cama. Pelo susto, seu coração batia mais rápido que o ponteiro dos segundos de um relógio. Bum. Bum. Bum. Os pulos do seu peito iriam acordar todos da casa. Tentou afogar o seu turbilhão de pensamentos com um gole d’água, ao menos sua fisiologia sedente ele conseguia controlar. E se fosse verdade? Se pudesse tocar o céu como toca o copo, tatear os ventos alísios, assistir à rotação da Terra como ninguém nunca viu. Ver a lua de perto, que tal? 68


Em cima da bancada, em frente às orquídeas, estava a pilha de livros que foi presente daquele que só o convida a ter bons predicados. Responsável, interessado, sério; seu pai enumerava adjetivos enquanto se escondia atrás do jornal durante a janta. Ora, se cabritos tornavamse cabras, e potros seriam sempre cavalos, que atrevimento da natureza fazer um descendente mutante que não fosse tal qual seu genitor. Entre volumes de John D. Anderson e Jorge Homa, nem as capas duras e gravuras chamavam sua atenção. Gravuras não como as confundidas com ilustrações, não, elas eram feitas de prensas legítimas, tradicionais, e para sua idade, pré-históricas. Para que tanta letra, número, norma, folha? Era revoltante o tempo que se perderia para se memorizar aquela quantidade absurda de informação. Livros seriam mais interessantes arremessados. Talvez sua trajetória oblíqua em direção ao solo faria com que ele se interessasse pela mecânica, ou no mínimo, pela aerodinâmica para descobrir quais deles voariam mais longe. Não leria os livros que seu pai leu. Seguir seus passos e tornar-se um grande arquiteto era igualmente desprezível. Sonhar com os céus, e firmar uma carreira em terra? Jamais. A luz se acendeu e toda a calma que seu peito tinha finalmente reestabelecido foi-se embora. Sua mãe tinha o mesmo costume de dar de beber à sede cada vez que seus sonhos rispidamente eram interrompidos por um abrir de olhos. Ela não estava surpresa em vê-lo ali. De frente ao livro com capa em relevo, trocaram olhares como se conversassem, e o olhar inteligível materno despediu-se com um terno “boa noite”.

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Diferentemente do velho, ela entendia e permitia que ele tomasse o seu caminho da sua forma. Ela o havia gerado por 8 meses e 1 semana. Conhecia-o melhor do que conhecia a si mesma. Ele ainda não sabia, nem desconfiava, mas Deus o abençoaria e ele seria um grande comandante. De volta ao seu quarto, ela tateou o chão com os pés para não fazer barulho e não se machucar nas surpresas da escuridão. O pai, imóvel, respirava em um ritmo senoidal absolutamente perfeito. A respiração harmônica escondia os tormentos de um sonho turbulento. Deitado de barriga para cima, ele via seu filho mais além do que os olhos podiam alcançar. Ele tinha suas mãos penduradas nos joelhos, ainda sujas de cera e com resquícios da penugem de seu mais brilhante e ominoso invento, carregadas com o peso do dolo. Sentado na fortaleza que as próprias mãos criminosas ergueram. O garoto loiro, suava no meio da noite. De volta à cama, não percebeu que ventos do Oeste haviam mudado a direção de seu faz-deconta morfeico. O calor do verão que se aproximava chegou muito mais cedo do que o previsto. O vento nos cabelos já não o refrescava mais. A satisfação cedeu lugar a um incompreendido descontentamento, e seu gozo foi-se embora junto com a primeira pena que se soltou da asa. E depois a segunda. E depois a terceira. Os pássaros observavam atônitos ao que se passava. Nunca um animal nascido alado fora tão ousado e imprudente. Que lhe sirva de lição. Não sabia, entretanto, que de nada lhe serviria uma lição, já que morto o garoto certamente estaria em instantes. A confusão de suas asas não mais permitia o bater suave acompanhado da brisa. A súbita e

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enérgica ascendida, agora caía. Usava então seus braços, que mimetizavam asas. Ainda assim, caía. Era o fim. E a memória que ele guardava com tanto apreço, apesar de agoniante, hipnotizava-o enquanto já sabia qual seria o seu último e triste pouso. O voo AZA 895, guiado pelo nostálgico e sonhador anti-herói da história, seria notícia no mundo inteiro em questão de instantes. O capitão que afundava com seu navio, o chefe de Estado que caía e levava seu país com ele. Dessa vez, ele caía em plena lucidez. Um rebite mal avaliado, uma trinca propagada. Os contornos perfeitamente desenhados na fuselagem do avião despressurizado mostravam aberta uma cicatriz que jamais se fecharia. Da cabine do piloto, observava-se o chão chegando cada vez mais rápido. Ele sentia o vento que congelava o seu corpo, as nuvens que umedeciam suas roupas, e o frio na barriga igual ao que ele se lembrava. Era como se ele revivesse o seu sonho de 10 anos atrás. O sonho que fazia dele o filho de Dédalo, que entre analogias e metáforas esdrúxulas, caiu do mesmo tombo. As penas de alumínio, contorcidas no chão, à primeira vista, não se mostravam como se fossem da máquina aérea que fora tão minuciosamente projetada. O anjo caído jazia no mesmo assento que ele voara por mais de 6000 horas. Na poltrona, com pesar, o cinto não livrou o corpo do abraço de luto. Do céu, algo se desprendia e caia bem devagar. Não era água, pois caia vagarosamente, caçoando da pressa de quem a via. Logo atrás, uma segunda repetia a primeira. E depois, a terceira pena encerada caiu. E caindo foi até tocar o colo do menino que finalmente havia se tornado piloto. 71


PENA DE DÉDALO Guilherme Mateus Magalhães Faculdade de Engenharia Mecânica Arfava, cada vez mais alto. O vento em seus cabelos, o frescor das nuvens, o frio na barriga para cada rajada que enganava o movimento de suas asas. O inexplicável sentimento de finalmente ter achado o seu lugar. Depois de tantos anos terrenos, custaram-lhe minutos pés acima para enfim encontrar-se. Certamente, seu pai estaria orgulhoso. Após anos tentando convencê-lo a tomar o manche, o pequeno finalmente estava nos céus. Os pássaros que compartilhavam o azul com o menino hesitavam em se aproximar. Não voava em formação. Ele, ou aquilo, voava só. As acrobacias e mudanças de vento seguramente seriam mais fáceis, entretanto vê-lo ali sozinho na imensidão infinita do firmamento era nada menos do que agonizante, incompreensível. Assistindo ao show aéreo de um homem apenas, as gaivotas contornavam o picadeiro imenso. Gabando-se entre as penas esvoaçantes, o ser alado voava sempre mais alto. Quanto mais alto melhor. Como seu pai sempre dizia. De súbito, levantou-se da cama. Pelo susto, seu coração batia mais rápido que o ponteiro dos segundos de um relógio. Bum. Bum. Bum. Os pulos do seu peito iriam acordar todos da casa. Tentou afogar o seu turbilhão de pensamentos com um gole d’água, ao menos sua fisiologia sedente ele conseguia controlar. E se fosse verdade? Se pudesse tocar o céu como toca o copo, tatear os ventos alísios, assistir à rotação da Terra como ninguém nunca viu. Ver a lua de perto, que tal? 72


Em cima da bancada, em frente às orquídeas, estava a pilha de livros que foi presente daquele que só o convida a ter bons predicados. Responsável, interessado, sério; seu pai enumerava adjetivos enquanto se escondia atrás do jornal durante a janta. Ora, se cabritos tornavamse cabras, e potros seriam sempre cavalos, que atrevimento da natureza fazer um descendente mutante que não fosse tal qual seu genitor. Entre volumes de John D. Anderson e Jorge Homa, nem as capas duras e gravuras chamavam sua atenção. Gravuras não como as confundidas com ilustrações, não, elas eram feitas de prensas legítimas, tradicionais, e para sua idade, pré-históricas. Para que tanta letra, número, norma, folha? Era revoltante o tempo que se perderia para se memorizar aquela quantidade absurda de informação. Livros seriam mais interessantes arremessados. Talvez sua trajetória oblíqua em direção ao solo faria com que ele se interessasse pela mecânica, ou no mínimo, pela aerodinâmica para descobrir quais deles voariam mais longe. Não leria os livros que seu pai leu. Seguir seus passos e tornar-se um grande arquiteto era igualmente desprezível. Sonhar com os céus, e firmar uma carreira em terra? Jamais. A luz se acendeu e toda a calma que seu peito tinha finalmente reestabelecido foi-se embora. Sua mãe tinha o mesmo costume de dar de beber à sede cada vez que seus sonhos rispidamente eram interrompidos por um abrir de olhos. Ela não estava surpresa em vê-lo ali. De frente ao livro com capa em relevo, trocaram olhares como se conversassem, e o olhar inteligível materno despediu-se com um terno “boa noite”.

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Diferentemente do velho, ela entendia e permitia que ele tomasse o seu caminho da sua forma. Ela o havia gerado por 8 meses e 1 semana. Conhecia-o melhor do que conhecia a si mesma. Ele ainda não sabia, nem desconfiava, mas Deus o abençoaria e ele seria um grande comandante. De volta ao seu quarto, ela tateou o chão com os pés para não fazer barulho e não se machucar nas surpresas da escuridão. O pai, imóvel, respirava em um ritmo senoidal absolutamente perfeito. A respiração harmônica escondia os tormentos de um sonho turbulento. Deitado de barriga para cima, ele via seu filho mais além do que os olhos podiam alcançar. Ele tinha suas mãos penduradas nos joelhos, ainda sujas de cera e com resquícios da penugem de seu mais brilhante e ominoso invento, carregadas com o peso do dolo. Sentado na fortaleza que as próprias mãos criminosas ergueram. O garoto loiro, suava no meio da noite. De volta à cama, não percebeu que ventos do Oeste haviam mudado a direção de seu faz-deconta morfeico. O calor do verão que se aproximava chegou muito mais cedo do que o previsto. O vento nos cabelos já não o refrescava mais. A satisfação cedeu lugar a um incompreendido descontentamento, e seu gozo foi-se embora junto com a primeira pena que se soltou da asa. E depois a segunda. E depois a terceira. Os pássaros observavam atônitos ao que se passava. Nunca um animal nascido alado fora tão ousado e imprudente. Que lhe sirva de lição. Não sabia, entretanto, que de nada lhe serviria uma lição, já que morto o garoto certamente estaria em instantes. A confusão de suas asas não mais permitia o bater suave acompanhado da brisa. A súbita e

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enérgica ascendida, agora caía. Usava então seus braços, que mimetizavam asas. Ainda assim, caía. Era o fim. E a memória que ele guardava com tanto apreço, apesar de agoniante, hipnotizava-o enquanto já sabia qual seria o seu último e triste pouso. O voo AZA 895, guiado pelo nostálgico e sonhador anti-herói da história, seria notícia no mundo inteiro em questão de instantes. O capitão que afundava com seu navio, o chefe de Estado que caía e levava seu país com ele. Dessa vez, ele caía em plena lucidez. Um rebite mal avaliado, uma trinca propagada. Os contornos perfeitamente desenhados na fuselagem do avião despressurizado mostravam aberta uma cicatriz que jamais se fecharia. Da cabine do piloto, observava-se o chão chegando cada vez mais rápido. Ele sentia o vento que congelava o seu corpo, as nuvens que umedeciam suas roupas, e o frio na barriga igual ao que ele se lembrava. Era como se ele revivesse o seu sonho de 10 anos atrás. O sonho que fazia dele o filho de Dédalo, que entre analogias e metáforas esdrúxulas, caiu do mesmo tombo. As penas de alumínio, contorcidas no chão, à primeira vista, não se mostravam como se fossem da máquina aérea que fora tão minuciosamente projetada. O anjo caído jazia no mesmo assento que ele voara por mais de 6000 horas. Na poltrona, com pesar, o cinto não livrou o corpo do abraço de luto. Do céu, algo se desprendia e caia bem devagar. Não era água, pois caia vagarosamente, caçoando da pressa de quem a via. Logo atrás, uma segunda repetia a primeira. E depois, a terceira pena encerada caiu. E caindo foi até tocar o colo do menino que finalmente havia se tornado piloto. 75


MAIS UMA AULA Henrique Takashi Idogava Faculdade de Engenharia Mecânica Entra a professora, atarefada sem saber como dar aquela aula densa para toda a turma, com mais de cem alunos. Como iria passar o conteúdo e entreter os alunos sem que suas mentes trabalhem a uma frequência cerebral abaixo do sono? O tema era difícil e interessante: avanços da Física Moderna. Para iniciar a aula, ela pergunta: — Quais são as novas fronteiras da ciência? O que falta o Homem inventar? Alunos tímidos e quietos desviam olhares, nenhum se arrisca a levantar a mão. A professora insiste com uma pequena provocação. — Vamos lá, não é possível! Essa geração está sem criatividade. Não tenham medo de dizer: carros voadores ou maquinas do tempo como as dos filmes. Por exemplo, estão fazendo pesquisas com célulastronco e a possibilidade de impressão de órgãos em impressora 3D. Imaginem, imprimir um fígado, um rim para alguém que precise! Os alunos ainda estavam dispersos, a professora tentou mais uma vez: — Será que as novas conquistam parecem imaginação? Estamos lidando com ciência ou ficção? Estamos vivendo mais uma época de luzes da humanidade ou simplesmente uma fantasia, assim como na obra de Cervantes, onde o humor era o disfarce da impossibilidade de dar realidade a um ideal. Estamos realmente produzindo conhecimento científico ou presos a uma burocracia 76


infinita, acumulando mais e mais papelada para comprovar fatos já antes comprovados? Os alunos ficaram despertos, muitos alunos estavam atentos agora. — Bem, a resposta é simples. É necessário entrar no campo de ficção às vezes para sair da caixa e encontrar algo novo. Nos último ano do século XIX, em 1900, Lord Kelvin, presidente da Royal Society britânica, proferiu que não havia mais nada a ser descoberto pela Física, senão medidas mais precisas. Tudo era explicado pelas três Leis de Newton. Vocês conseguem imaginar se tivéssemos parado em 1900? Pensem nisso! A professora aproveitou o gancho e o silencio da classe e iniciou a sua aula. Introduziu os trabalhos de Einstein, Planck e Heisenberg para

provar

que

Kelvin

estava

equivocado.

Somente

nas

primeiras três décadas, toda a Física foi reescrita com o surgiram de duas grandes áreas: a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade. Um dos alunos, talvez provocado pela frase da professora, falou durante a aula: — Tudo bem, houve grandes invenções, mas grande parte dessa pesquisa que a senhora falou não vemos no nosso cotidiano. Imaginem andarmos à velocidade da luz e podermos viajar para o futuro. Esses estudos acabaram sendo mais teorias para nos dar na faculdade do que conceitos práticos. A educadora, com seu olhar calmo, pede para que o aluno esvazie os bolsos na mesa. Imediatamente a classe toda acorda e olha diretamente ao aluno. Como em um espetáculo romano, ele tira o smartphone. 77


— Fique sabendo que o funcionamento de seu celular, das ondas de rádio e da comunicação por satélite só foi possível com as teorias desses sonhadores dos últimos cem anos. Espero que vocês também possam ultrapassar a barreira de imaginação e ciência para poderem responder as questões mais simples que o homem leva séculos para se perguntar. A aula fluiu bem, ao final os alunos estavam atordoados de tanta informação.

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ENTRE AMIGOS José Americo Nabuco Leva Ferreira Faculdade de Engenharia Eletrica e de Computaçao Noite de quinta-feira. Cinderela, Cachorro, Tesoura, Macarrao e Olheira se encontram para comer um sanduìche, uma tradiçao que começara quando eles tinham se conhecido no primeiro ano de faculdade e ja completara tres aniversarios. O plano era tambem assistir a um filme que acabara de ser lançado e aparecia em todas as conversas sobre viagens espaciais do momento: Interestelar.

— Voces acham que a humanidade vai colonizar outros planetas algum dia? - pergunta Cinderela ao fim do filme.

— Com certeza, isso e so uma questao de tempo - responde Macarrao.

— Alias - diz Cachorro enquanto ainda mastiga - eu acho que o tempo e a unica coisa que nos separa desses cenarios do futuro. Quando esse negocio de maquina começou, era so para os capitalistas donos da alguma fabrica. Hoje, um bom pedaço da populaçao tem acesso a maquinas de transporte, de resfriamento ou ate de lavar roupas.

— Mas nem tudo isso foi pensado como um cenario futuro. afirma Cinderela - Algumas invençoes simplesmente surgiram no dia-adia sem nunca terem aparecido em nenhuma obra de ficçao.

— Faz sentido. – responde Cachorro – Um dos limites das obras de ficçao, assim como em qualquer obra, e a criatividade do autor. Nao 80


tem como voce pensar em tudo que vai ser inventado no futuro.

— So que todas essas invençoes serao pensadas por pelo menos uma pessoa, ja que elas ainda tem que ser inventadas. – adiciona Olheira – A ciencia tem a mesma limitaçao da ficçao nesse sentido.

— A vantagem da ficçao e que ela nao se atenta a todos os detalhes. Um anime ou um filme de super-heroi definem regras fìsicas para um mundo paralelo e evoluem a historia sem ficar explicando exatamente como as coisas acontecem. Ja imaginou explicar conservaçao de massa pro Hulk? - questiona Cachorro.

— Um assunto que esta em alta faz um tempo e cai completamente nisso e inteligencia artificial (IA). Matrix, Homem Bicentenario, Exterminador do Futuro e ate 2001 falam de um mundo com robos pensantes, mas sequer explicam de onde veio essa tal consciencia - comenta Macarrao.

— Interessante que ate o Azimov tirou isso de IA das obras dele. - diz Olheira.

— Mas e melhor nem entrarmos nas obras dele, esta cronica nao pode ficar tao grande. - observa Cinderela.

— Que? — Deixa pra la. — De qualquer forma – continua Olheira – acho que e muito difìcil falar de IA de uma forma que venda. Quem quer saber de um mundo em que os carros sao dirigidos por um sistema central inteligente em cada cidade e nao ha mais acidentes?

— Com certeza e muito mais simples apelar para uma guerra entre humanos e maquinas e jogar a historia para um perìodo pos81


apocalipse, como ate Wall-e faz – concorda Cinderela.

— Mas e aì que aparecem algumas questoes eticas que fazem o enredo da historia. Gattaca, por exemplo, nao cria um mundo tao perigoso, mas ja fala de alguns problemas de criar seres humanos geneticamente selecionados. - diz Macarrao.

— E olha que nos ja fazemos isso com comida ha tempos. Alias, hoje tem ate planta geneticamente modificada disponìvel no mercado. afirma Cachorro – E ja existe tecnologia ate para fazer isso com animais.

— Tesoura, voce nao falou nada ate agora. O que voce acha desse negocio de ficçao e ciencia? - Pergunta Cinderela.

— Ah, a discussao ate passou por esse ponto, mas o assunto mudou e eu deixei pra la. Acho que a ficçao e um trabalho no mundo das ideias, como o Cachorro ate tinha falado, voce justifica aquilo que voce acha importante e elabora em cima daquilo. Ja na ciencia, tem uma causa e efeito em todos os fenomenos. Ninguem pergunta de onde vem a energia luminosa que aparece na varinha do Harry Potter quando ele fala “Lumus”, mas a retina de todo mundo na sala recebe mais energia, permitindo enxergar o que esta em volta.

— Bom ponto. Gente, vou pra casa, amanha tem aula de manha e ja deu meia-noite. Todos se despedem e cada um volta para seu canto: república, kitnet ou moradia. No caminho para casa, Cinderela continua pensando na conversa e percebe que, embora a tecnologia e ciência avancem continuamente com o passar do tempo, os amores, as decepções, as vitórias e os sentimentos retratados nas histórias de ficção não mudam,

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seja o autor um poeta grego, um trovador da Idade MÊdia ou um roteirista de um filme contemporâneo.

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A FICÇÃO NO DESCONTROLE Luana Domingues Fernandes Faculdade de Engenharia Mecânica A partir do momento em que conseguimos trazer uma ideia para o mundo real, ultrapassamos a fronteira entre a ficção e a ciência. Antes de criarem o elevador, ele era somente uma ideia, uma ficção, na cabeça de várias pessoas. A partir da vontade de criação, houve o estudo intenso das variáveis que permitiriam o nascimento dessa máquina. Então, ocorreram experimentos para provar se era viável continuar com o projeto; até que, um dia, o pensamento inicial que foi despejado em um papel através de contas e veio para o mundo real com o nome de tecnologia. Por mais simples pensar que a ficção acaba quando a transformação da ideia em realidade começa, quase ninguém entra em um elevador pensando que ele foi uma ideia um dia, assim como quase ninguém se pergunta como que uma tela touch de celular funciona, a menos que essas tecnologias quebrem. Sendo assim, começa um pensamento contrário: tentamos entender qual o pensamento inicial para a criação da ciência, do objeto, para conseguirmos arrumar o aparelho que foi danificado. Ou seja, hoje em dia, por estarmos bastante acomodados com a ciência que nos cerca, só conseguimos notar como esta nasceu quando perdemos o controle sobre ela e precisamos pensar como quem a criou um dia. 84


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UMA ESTRADA PAVIMENTADA DE SONHOS TALVEZ DESTINADA A LUGAR NENHUM Monique Pires Gravina de Oliveira Faculdade de Engenharia Agrícola Um bom observador perceberia que a filha de Joana sempre teve certeza da carreira que queria seguir. Aos seis anos de idade, decidiu ir fantasiada de “cientista maluco” em um carnaval na escolinha. Aos nove, se dedicou a organizar informações sobre ofídios, baseada nos dois livros de Biologia que encontrara em casa. Nos anos seguintes, respondia sem hesitação o que queria ser quando crescesse: cientista, bióloga, botânica, engenheira. Já adulta e comprometida com a questão ambiental, concluiu que “por que não todos esses?”. Seria pesquisadora. Ingressou na Engenharia determinada a investigar como diminuir os impactos ambientais das atividades humanas. Ao longo dos anos, cada vez mais certa do que queria fazer, se deparou com o processo seletivo da pós-graduação, para o qual precisaria escrever um projeto de pesquisa. Foi quando seu mundo desmoronou. Não fazia ideia de por onde começar o documento. Resolveu recorrer à mãe, que atuava no campo há quase trinta anos. Joana era responsável pela emissão de vistos para todos os que desejavam cruzar a bem guardada fronteira entre as propostas imaginadas para o futuro da humanidade e a concretização dessas ideias. Por exemplo com o desenvolvimento do celular, que muitos associam ao comunicador do seriado “Jornada nas Estrelas”, 86


certamente foi o departamento de vistos norte-americano que concedeu a autorização aos visionários que souberam colocar em prática a ideia louca de comunicação à distância e sem fio. Bom, ao menos era assim que sua filha gostava de imaginá-la, desde que, quando criança, a mãe tentou lhe explicar o que fazia. Joana se divertia com a criatividade da filha, ao mesmo tempo em que ficava intrigada com como elas poderiam ser tão diferentes. Se por um lado ela havia batizado a menina com seu próprio nome, por outro a filha reagia dizendo que era sua Joaninha e que as sardas nas bochechas eram apenas mais uma prova. Comia jujubas com a mãe e, rindo, dizia que eram pulgões. Na verdade, Joana era secretária em uma agência de fomento. Quando ingressou no emprego, vivia empolgada com a possibilidade de viver no mundo dos “Jetsons” – e de ter sua própria Rosie. Diversas vezes, ela se perguntava por que desde “Metropolis” e “Leis da Robótica”, ninguém ainda havia conseguido resolver o problema dos robôs. Honestamente, não entendia como alguém poderia sequer pensar em como tornar essas ideias reais, mas olhava sua filha e tinha um vislumbre de resposta. Nesses trinta anos, porém, o trabalho de Joana havia mudado completamente. Cuidava da burocracia, mas ainda assim era capaz de perceber as mudanças: as ideias que ela teve a oportunidade de folhear pareciam ganhar em comprimento de título o que perdiam em originalidade. Os mesmos figurões emplacavam projetos sempre muito parecidos, enquanto outros pesquisadores não conseguiam ganhar espaço. Em um desabafo com sua Joaninha, ouviu a filha descrever o processo nos dias de hoje como fugitivos tentando cruzar uma 87


fronteira. Os soldados garantem que ninguém que não tenha os papéis em ordem atravesse. Alguns, porém, com os devidos contatos, passam com papéis improvisados, que enganam ou repelem um olhar mais cuidadoso. Sempre se surpreendendo com a capacidade da filha de criar, Joana torcia para que ela conseguisse seu espaço na academia. O mundo não podia se dar ao luxo de desprezar seu talento. As longas conversas com alguns acadêmicos, porém, desanimavam-na. Ela enxergava

sonhadores

soterrados

por

centenas

publicações

necessárias para validar uma ideia. E, posteriormente, a ausência de publicações soterrando os sonhos e a ambição destes jovens. Lembrava-se de uma palestra de um Sir Ken Robinson, que ela sequer conhecia, mas que falava em inflação acadêmica. Uma montanha de papéis era o obstáculo entre sua Joaninha e o sonho que ela queria alcançar. Joana foi abruptamente trazida de volta do mundo de suas preocupações pela filha: - Mãe? Sonhando acordada? Achei que eu era a única aqui em casa que fazia isso. Sorriram juntas, afastando os pensamentos negativos que ocupavam a mente da mãe, e voltaram a discutir o projeto.

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UMA VIDA DE LUXO Raúl Lima Coasaca Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura Quando criança, eu tinha a costume de acreditar em tudo; desde em disco voador até em anões, ou em uma cidade de baratas ou em um paraíso de aranhas, etc., etc. Eu era muito tenaz e curioso e recebia muitas punições por isso; ainda lembro quando recebi meu primeiro carrinho que era automático. Surpreendentemente batia com algum objeto e parecia sentir sua presença e conseguia evadi-lo. Maravilhado pelo evento, quis descobrir qual era a mágica; foi assim desmontei o carrinho, tirei todas as partes até que não consegui distinguir mais qual era, qual foi depois que levei uma punição terrível (o carrinho era caro na época), mas aprendi que minha imaginação pode levar a caminhos desconhecidos, nem todos eles agradáveis, porém muito interessantes. Já na escola, tímido depois de tantas punições por destruir quase todos meus brinquedos e alguns que não eram meus também, achei dois grandes amigos. No início, eram amigos “normais”, se cabe o termo, mas depois fui descobrindo que viviam em mundos totalmente diferentes e que isso fez que fossem ainda mais amigos. Eu ficaria no meio deles ainda tímido e curioso. Cada um deles tinha grandes sonhos. Nessa época, podíamos mudar o mundo apenas pensando diferente, a ‘força’ estava conosco. Foi assim que passaram grandes anos de uma juventude acidentada entre um mundo de cheio de histórias, formas e figuras, cores e matizes, versos e contos e um mundo cheio cálculos, observações e hipóteses, medições e experimentos. Mas sempre com 90


um sonho na frente e um monte de críticas nas costas. Se pudesse contar as vezes que escutei “o que você faz não tem nem pé nem cabeça”, seria que realmente escutava o que diziam; mas sempre evitávamos escutar essas coisas. Quando você vive em mundos diferentes ao mesmo tempo, é difícil decidir em qual deles quer ficar, porque mesmos que sejam ambos sonhadores eram únicos e diferentes; era assim que se criavam grandes debates em nossas conversações boêmias. Eu agora entendia mais o que o pequeno príncipe sentia ao viajar por vários mundos. Antoine de Saint-Exupéry era um génio! Foi assim que decidi viajar por outros mundos, onde encontrei rosas, vacas, ratos, anjos, etc. Passava sempre observando, analisando, apreciando. Eu me sentia bem comigo mesmo, mas chegou o tempo em que não consegui visitar mais mundos; foi assim que percebi que nunca avistei para meu próprio mundo. E ai! Cadê meu mundo? Nossa! Esteve viajando tanto que não reparei no meu próprio mundo. Foi aí que chegou a solidão. Solidão pode parecer ruim para qualquer pessoa, mas tem muitas vantagens, não só porque você consegue fazer o que você quiser, mas também porque você descobre o que realmente quer fazer. Por exemplo, imagine um mundo onde não há regras para nada. Você consegue o sucesso fazendo qualquer coisa que você realmente quer fazer, parece maravilha, né? Mas o mundo é assim! Se tirarmos tudo o que já tínhamos aprendido até agora, realmente poderíamos observar o nosso próprio mundo e apreciar a beleza que ele tem. Você vai descobrir que dentro de seu mundo existe uma vida de luxo, porque nós nascemos para isso. 91


Devo confessar que a primeira coisa que fiz quando descobri que podia fazer o que eu queria, é fazer nada. Sim! Fazer nada. Estava cansado de fazer sempre o que alguém mais dizia. Se não era a família, era o vizinho, ou eram os professores, ou a sociedade, ou até o presidente! Enfim, sempre era fazer o que alguém pense que está bem. Por isto, a primeira coisa que quis fazer foi fazer nada. Mas não passou muito tempo. Após assistir a todos os filmes de Star Wars, descobri que queria fazer de verdade: trazer o equilibro à ‘força’. Ou, pelo menos, seu equivalente em nosso planeta. E, assim decidi ser sanador do meio ambiente ou ser mais conhecido como experto em saneamento e ambiente. Atualmente, eu continuo acreditando em várias coisas esquisitas, mas a história da ciência é escrita por pessoas que realmente pensam diferente, pessoas que acreditam no inacreditável, pessoas que conseguem sonhar acordados. Finalmente, acabei fazendo observações e hipóteses, medições e avaliações, descrevendo resultados, escrevendo crônicas e artigos, versos e relatórios, pondo matizes num acorde de violão, etc., etc. Descobri que cada mundo em que passei deixou um pouco de essência dentro do meu e vice-versa. Agora não existem mais limites entre a ciência e a ficção, mas o que o próprio homem quer dar. Acredite sempre em você, porque você é a humanidade.

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VIAJANDO ENTRE MUNDOS Rodolfo de Souza Zanuto Faculdade de Engenharia Mecânica Do surgimento ao ser E lá estava o ser, existindo em algum lugar do espaço x tempo, em um planeta onde gigantes já haviam passado, de Dinossauros a Newtons, de Jesus Cristo a Albert Einstein, mundos se unindo, numa era globalizada, onde o globo já não era mais o centro do universo, onde matéria e energia se fundiam uma na outra, onde alma e espírito se distinguiam do próprio corpo. Mas para aquele jovem ser, nada disso importava, ele estava apenas existindo, alojado e aquecido em um ambiente de imensa proteção e conforto, no mais belo ato de amor já proporcionado pelo criador, onde muitos poderiam chamar de paraíso, boiando num líquido materno viscoso, com alimento em abundância que chegava constantemente através de um tubo umbilical, num pleno gozo divino. No entanto, como tudo nesta vida, aquele paraíso também teve seu fim, e em pouco tempo aquele imenso volume que estava disponível no princípio já tinha se tornado pequeno e apertado, seu corpo pedia por movimentos que já não eram possíveis serem feito, até que chegou um determinado dia, em que em um movimento mais brusco, sua perna estourou a borda superficial que segurava todo aquele líquido viscoso, sendo ele forçado a atravessar por uma cavidade apertada de formas irregulares com poucos centímetros de área transversal, contra superfícies de durezas nunca sentidas antes 94


comprimindo seu corpo, num processo de muito esforço e dor, até que se completasse a passagem completa de seu corpo, que foi seguida de um sufocamento, um tapa dolorido nas nádegas até a tragada assustada de ar final trazendo a vida, e ufa! Na verdade, toda essa história é lembrada e imaginada muito mais pelos olhos dos outros seres mais antigos e pela imaginação popular do que pelas suas próprias lembranças, para ele, parecia até mesmo que havia chegado naquele mundo vindo direto do vácuo cósmico, aquele imenso oceano vazio de energia universal potencial inesgotável, e se materializando direto já com alguns anos de idade, como que num salto quântico, digno de uma onda que diminuiu bruscamente sua vibração até tornar-se uma partícula. Um mundo estranho Alguns anos se passaram, e neste momento, o ser já tinha até nome, Grokar, um nome poderoso, conhecido pelo universo afora, com significação vinda de línguas marcianas, que se referia ao observador que se tornou o próprio observado, aquele que, atingiu o entendimento mais profundo. Sem dúvidas, um nome bastante forte, que, no entanto, para Grokar, neste seu mundo atual, servia apenas como mais um motivo para zoação. Diferentemente de seu primeiro mundo, de gozo pleno no paraíso, onde um universo pacífico e amoroso girava ao redor de seu umbigo, neste novo mundo, apesar de diversos momentos de alegria, Grokar começou a se deparar também com diversos monstros psicológicos, enormes e grotescos, mais terríveis e temidos do que seu próprio nome; o mostro do medo, da angustia, do ódio, da preguiça, da vergonha, e o maior de todos, o da ignorância. 95


Batalhas épicas começaram a ser travadas, enquanto mundos começavam a se chocar, o da infância com o da adolescência, e esse ainda com o da vida adulta, e, em pouco tempo, o brincar já tinha perdido o sentido e o trabalhar tinha se tornado um martírio. O caminho que seguia, moldado pela sociedade daquele mundo, começava a lhe sufocar, uma tortura que se tornava maior a cada despertar do relógio. Mas de tanto sentir, o observador começa a se observar, e Grokar observou diversas algemas invisíveis o acorrentando, algumas sociais e outras pessoais, algumas familiares e outras mundanas; e assim como no mundo quântico, o simples fato de observar modifica o observado, foi quando aquele mundo começou a perder o sentido, percebeu então que todas aquelas algemas eram feitas apenas de ilusão, aquela mesma substância encontrada nos sonhos, que pode acorrentar mas também libertar, e, de repente, aquelas correntes começaram a se transformar. E o que era pesado como aço começou a se tornar leve como pena, padrões doentios daquele mundo já não o seguravam mais, estava finalmente pronto para sonhar, e voar para uma nova dimensão. E assim ele foi... Um novo mundo Tem vezes, em que ir para um outro mundo, não requer necessariamente uma longa viagem. Muito pelo contrário, algumas vezes, o outro mundo está muito mais perto do que imaginamos, basta apenas mudarmos o foco, e assim foi com Grokar, que parou de olhar tanto para fora, e começou a olhar para dentro, viajando para as profundezas de seu próprio ser, encontrando lugares nunca vistos 96


antes, até atingir o mais absoluto silêncio, onde pôde sentir novamente aquela sensação de absoluta paz experimentada anteriormente apenas no mundo uterino, encontrando-se finalmente consigo mesmo, e até com o que muitos chamariam de Deus. Descobrir um mundo novo, no entanto, não fez seu mundo antigo desaparecer, muito pelo contrário, agora podia senti-lo ainda mais vivo, pulsando através dos seus bilhões de habitantes, suas percepções aumentavam a cada dia, a cada momento mediativo, de silêncio, uma nova porta da consciência se expandia. Rituais sagrados, com plantas de poder, aumentavam ainda mais suas percepções. Com o tempo começou a se conectar com os animais daquele planeta, dos maiores mamíferos aos menores insetos. Matar um simples aracnídeo já não era mais algo banal, todas aquelas árvores e plantas sendo devastadas em nome da limpeza urbana lhe causavam imensa dor, e em níveis mais profundos, conectava-se até mesmo com uma simples gota d'água e toda sua estrutura atômica. Mas, a cada conquista, também um novo desafio, e a consciência que fora expandida, agora também cobrava, já não permitindo apenas assistir àquele mundo inacabado, cheio de trabalho a ser feito, inerte, ela lhe cobrava ação. Era inegável a delícia que encontraste naquele mundo interior, de paz, sagrado, mas também era inegável que, por algum motivo, estava agora materializado, em forma de ser humano, num planeta que muitas vezes lhe mostrava muito estranho e inóspito, mas que também em outras, lhe apresentava imensa beleza e amor. E para que mundo eu vou? Uma das primeiras grandes viajem que Grokar fez em sua vida, ocorreu ainda na infância, e foi pelo universo. Tentando entender todas 97


aquelas estrelas, em suas galáxias, com inúmeros planetas, ficava imaginando o tamanho daquilo tudo, e o fim, e até o depois do fim. Com o passar dos anos, aquela imaginação sobre o universo exterior se voltou também para o interior, para a matéria, com suas células, moléculas, átomos que lembravam seu próprio sistema solar, com elétrons que giravam ao redor de um núcleo cheio de energia, que já fora até transformada em bombas, mas que em tempos atuais se subdividia em prótons e nêutrons formados por quarks, que em níveis mais sutis se tornava a própria flutuação de energia do vácuo quântico. Após fazer as pazes consigo mesmo, começou a sonhar com seu mundo perfeito, o mundo do amor, um lugar pacífico onde as pessoas se respeitam em suas intimidades, multiversos convivendo num mesmo espaço x tempo, interconectados pela vibração quântica, com empatia e sadios. Um lugar onde o ar fresco e puro carregava toda energia cósmica, águas límpidas corriam pelas veias das cidades, cheias de vida, alimentando um pulmão verde que estava espalhado por todos os lugares, embelezando o local com flores e provendo alimentos em abundância para uma população que trabalhava com muita alegria. Mas de repente ele acordava, e ao sair de casa, sua vizinha de cara fechada não lhe dizia nem ao menos bom dia. No trânsito, era xingado por andar dentro do limite de velocidade. As águas que corriam pela cidade estavam pútridas e fedorentas. Ao seu lado, um grande caminhão lhe lançava uma fumaça preta na cara, cheia de carbono tóxico, do outro lado, um garoto abria uma bala e lançava o papel pela janela, aaai. Enquanto isso, Grokar continuava existindo, ainda sem saber como será seu próximo mundo, quando estiver liberto de sua matéria 98


pesada, mas sabendo que, por enquanto, habitava um mundo com inúmeros desafios. E assim, como um grande guerreiro da paz, vestiu sua armadura do amor, equipou-se com suas flechas da sabedoria e saiu cavalgando seu tempo pelo espaço.

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(IN)CERTEZA Taina Martins Magalhães Faculdade de Engenharia Civil e Arquitetura Não passou de um sonho. Rodrigo acordou assustado, ao mesmo tempo maravilhado, com o sonho que tivera. Envolto em seu computador, seus artigos, reagentes e pacotes de comida, Rodrigo pegou no sono ao realizar mais uma tentativa de encontrar a proporção perfeita entre os 5 medicamentos com que trabalhava, na tentativa de encontrar a cura para sua doença. Rodrigo sofre de uma espécie de degeneração cerebral há 2 anos, e vem trabalhando com a tentativa da cura há 1 ano e meio. Em seu sonho, Rodrigo estava no laboratório realizando os testes, misturando porções de miligramas exatas de cada medicamento, quando, por um acidente, inala o medicamento produzido. Rodrigo, que após 1 ano da detecção da doença já não podia mais andar sem auxílio da cadeira de rodas, sentiu um latejar diferente nas pernas. Um latejar que foi aumentando do dedão do pé até a cintura, transformando-se em dor intensa, com a qual Rodrigo pensou não ser capaz de lidar. Apesar da dor, ele sabia que algo bom tinha acontecido. Apesar de estar correndo contra o tempo, Rodrigo decide ir para casa descansar. Correndo porque com a doença, em breve sua capacidade de raciocínio ficaria debilitada também, e os experimentos não poderiam ser continuados. No caminho, fica pensando no sonho, tentando relembrar a proporção utilizada. Havia memorizado alguns valores, mas tinha certeza que já tentara aquela solução anteriormente. 100


Confiar em sua certeza, porém, era algo que Rodrigo não praticava mais. Distraído no caminho, Rodrigo de repente vê uma luz forte, um carro se aproximando, fecha os olhos e assustado, acorda do sonho em seu laboratório. Era noite, estava envolto em seu computador, seus artigos, reagentes e pacotes de comida. A história se repetia, havia dormido de tanto cansaço em seu trabalho, na busca árdua pelo medicamento perfeito. Sabia, porém, que aquele sonho que tivera enquanto sonhava não foi em vão. Foi ao banheiro, jogou uma água no rosto e voltou ao trabalho, com a certeza de que aquela seria a última tentativa, pois seria a que finalmente resultaria no medicamento perfeito. Misturou as proporções, inalou o medicamento, sentiu a perna latejando, as dores subindo em seu corpo. Estava acontecendo, ele ia se curar. Feliz foi para casa, não queria dormir com medo de que fosse mais um sonho. Liga a televisão, estava passando um seriado médico, coincidentemente uma história parecida com a sua, a mesma doença, os mesmos medicamentos. Rodrigo pisca os olhos, está ficando pesado, sonolento, deve ser efeito do medicamento. Quando acorda, suas pernas estão diferentes, porém ainda precisa do auxílio da cadeira de rodas. Não se recorda exatamente de quantas horas dormiu, nem o que havia feito antes. Possui apenas alguns flashs da televisão, uma mistura de sonhos com realidade, sonhos com ciência. Mas tinha certeza que aquela aventura não tinha sido apenas um sonho. Certeza?

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DE VOLTA PARA UM OUTRO FUTURO Talita Fredericci Faculdade de Engenharia Agrícola Todos sonhamos com um mundo repleto de tecnologia e facilidades, onde não mais precisemos dirigir nossos automóveis, limpar nossas casas, ou mesmo trabalhar. Sonhamos que existam robôs que façam toda a rotina burocrática por nós, ou que, quem sabe ainda, possamos voar por aí com o click de apenas um botão. Não é mesmo? Milhares de dólares são investidos na produção de filmes hollywoodianos todos os meses para a criação de histórias como estas. Instigando nossa imaginação e fazendo-nos nos perguntar qual será nossa realidade daqui quem sabe 10 ou 20 anos. Um destes filmes datados de 1985 é denominado aqui no Brasil como "De volta para o futuro 2", mostra uma destas realidades, onde um cientista (Ator Christofer Loyd como "Dr. Emmett Lathrop Brown") cria uma máquina do tempo em seu carro( "Delorean"), e através dessa máquina podem viajar no espaço-tempo. E advinha quando/aonde os personagens vão parar? 21 de outubro de 2015 às 04:29 PM.O futuro chegou! Ou será que não? Bom, nos filmes são mostrados carros voadores, robôs operando em lugar de humanos em um posto de gasolina e, até, um skate flutuante. Não podemos dizer que essas coisas não existem hoje, afinal há projetos, por todo o mundo, de criação e aperfeiçoamento de robôs, alguns que tocam piano, outros que lutam entre si, ou, até, alguma 102


parte automatizada de uma fábrica. Porém, nossa tecnologia ainda não se tonou trivial e de fácil acesso à população. A maior parte está em fase de testes e ao alcance das mais hegemônicas empresas. Em compensação, sinto, ao assistir esse filme agora, que nosso futuro impôs prioridades ao focar o desenvolvimento de nossa tecnologia, como comunicação e saúde por exemplo. Temos hoje, em nossas mãos, telefones que cabem no bolso (em ambos os sentidos) e tem pleno acesso à internet, gravam vídeos, respondem comando de voz, enviam e recebem e-mails, tiram fotos etc. O que estreitou os laços pelo mundo todo, numa fluência hiperveloz de informações. E ainda mais importante do que este avanço, temos condições para criar vacinas e remédios cada vez mais eficazes para o tratamento de doenças com que, na época nem sonhávamos. Como, por exemplo, o tratamento do HIV, Ebola, Influenza A, e até mesmo para o câncer, quem vem devastando há anos grande parte da população mundial. Portanto, parando para analisar a "barreira" entre a tecnologia e a ciência, não é em si uma barreira, mas sim uma questão de prioridades envolvida, que decide se essa ficção se tornará uma realidade nos próximos anos. Há 30 anos atrás, por exemplo, sonhar com um smartphone era uma total utopia, apenas ficção. Hoje, já é uma realidade graças a toda a ciência e investimentos injetados. Nosso futuro pode não ser o mesmo dos filmes, mas, com certeza, não é menos futuro por isso. É apenas um futuro diferente, um outro futuro.

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DESCONSTRUÇÃO DO ESPONTÂNEO Tatiane Kemechian Faculdade de Engenharia Mecânica Quando era apenas uma criança, costumava observar o céu durante a noite, pois ele me despertava fascínio e curiosidade, já que todos os pontos brilhantes que enxergava possuíam um mistério que não conseguia desvendar. Ao contemplar a imensidão noturna, minha mente formulava uma série de perguntas, que, com toda a perspicácia e intelectualidade que dispunha nos meus áureos anos de infância, eram respondidas baseadas na minha vivência, ou seja, no meu vasto conhecimento de mundo através de histórias e desenhos animados. Mesmo morando em uma cidade grande, na qual o céu é encoberto pela poluição e ofuscado pelas luzes, o fato de existir uma camada negra enigmática me encobrindo já bastava para elaborar e criar teorias que pareciam tão certas a meu ver infantil culto. Por que existiam estrelas que brilhavam mais do que as outras? Por causa que elas funcionavam utilizando pilhas recarregáveis. Por que algumas vezes elas se ordenavam de maneiras peculiares? Pois elas estão tentando passar uma mensagem para a Terra e a única maneira de fazerem isso é arrumando-se em formas distinguíveis. Por que as estrelas cadentes se movimentam? Por causa que elas também precisam visitar as suas amigas. E a mais intrigante: como a lua muda seu formato? Já que o alimento preferido das estrelas é o queijo, e a lua é feita de queijo, frequentemente ela é cortada e distribuída a todas. 104


Olhando para trás e analisando essas minhas teorias fantasiosas, percebo o quanto infringi as leis da ciência e os anos de estudos utilizados para explicar os astros e o universo. Criei a minha própria realidade com toda a inocência e a espontaneidade de uma criança,

acreditava

assiduamente

que

minhas

ideias

eram

extremamente originais e que merecia ganhar prêmios por desenvolvêlas. No entanto, cresci, não consegui o reconhecimento esperado por causa de minhas hipóteses, perdi a ingenuidade criativa e em troca ganhei a vida adulta com todos os seus princípios. Meu céu foi desconstruído, remontado através de fórmulas matemáticas e fundamentado por extensas teorias indecifráveis. Nesse processo, as pessoas grandes me fizeram aceitar que tudo que havia construído era apenas ficção, fruto da minha imaginação fértil sem conhecimentos concretos. No entanto, mesmo tendo todas as minhas premissas despedaçadas, o meu interesse por entender o enigma do céu e do universo cresceu junto comigo, então resolvi procurar entender o por que a sociedade considerava minhas hipóteses tão absurdas. Mergulhei em livros, estudei a Ciência, conversei com diversas pessoas inteligentes nesse assunto, pesquisei sobre as verdades obtidas experimentalmente, aprendi Cálculo, desvendei as fórmulas complexas e, ao final, possuía as respostas maduras para as minhas perguntas de anos atrás. Depois de dominar esse vasto conhecimento, percebi o motivo pelo qual os adultos não me diziam suas teorias quando eu era criança. Talvez eu realmente não se seria capaz de suportar a complexidade dos fatos e aceitar que a lua não era feita de queijo. Contudo, comecei a perceber, que para desenvolver essas teorias profundas, eles também 105


precisaram de muita imaginação e curiosidade. Entretanto, quais eram as diferenças entre minhas ideias de quando criança e as deles, se ambas são frutos de uma criação? Quais são as provas de que os adultos estavam certos e minha versão em miniatura não estava? Fundamentalmente, não podemos menosprezar nenhum dos lados, pois para uma criança a fantasia é a sua realidade e, ao amadurecer, o que muda é somente a sua a perspectiva de como enxergar os fatos ao seu redor. Talvez não seja mais capaz de aceitar que as estrelas são movidas por pilhas, mas agora consigo acreditar na existência de buracos negros que são tão surreais quanto a primeira afirmação. A sutileza que separa o conceito do que é realidade daquilo que é ficção faz com que esses dois mundos façam parte de um só, pois tudo passa a ser uma questão de ponto de vista. Logo, não se pode dizer que uma criança esteja errada, já que não há como provar que existe uma verdade universal que se encaixe em todas as perspectivas. Por essa fronteira ser transparente e volúvel, conseguimos, por exemplo, ler um livro, de modo que a sua história se torne realidade e ocorra a fusão da ilusão com o raciocínio lógico. E é exatamente essa condição que mais sinto falta da época em que acreditava que nuvens eram feitas de algodão doce, o de possuir a espontaneidade de atravessar esse limite sem saber, o de transitar entre esses dois mundos naturalmente, o de ter o pensamento livre de barreiras sobre o que é certo ou errado e nem fronteiras dividindo a realidade da ficção. Portanto, da próxima vez que alguma criança vier me perguntar sobre a origem do universo ou sobre o porquê de as estrelas não caírem do céu, não tentarei convencê-la sobre as fórmulas 106


matemáticas, nem inventarei mais histórias sem sentido, apenas ouvirei as suas fantasias e mergulharei na sua imaginação da realidade.

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UNIVERSIDADE E AS SUAS FRONTEIRAS Vinicius Lima Lustoza Faculdade de Engenharia Mecânica Acordo todos os dias em torno das 07:00 horas. Tomo meu café da manhã, algumas frutas e um copo de leite, sempre acompanhado de alguns amigos – estudantes de Engenharia, Medicina, História e Química. Nunca são os mesmos na mesma semana, já que moro numa casa com mais 13 universitários e cada um deles tem o seu próprio horário. Satisfeito, depois da refeição e de uma curta conversa, praticamente a mesma de sempre (“você tem aula do que hoje? ” “estudou pra prova?” ”E a sua IC (iniciação cientifica)? ”) vou para a universidade. É só entrar nela que já me sinto diferente, como se estivesse passando por uma transformação. É uma sensação única, exclusiva de quem frequenta este lugar - pelo menos ao meu ver. Estar num local onde ideias circulam e se renovam, das mais diferentes áreas, é de arrepiar a espinha dos apaixonados pelo saber. A arquitetura excêntrica dos institutos, a arborização do campus e os estudantes encantados com toda essa realidade que parece ficção fazem disso a universidade. Este é o ambiente no qual vivo o meu curso e o dos outros. Trocamos ideias, inseguranças, medos e prazeres dos nossos cursos. Essa permuta de conhecimento é algo que nunca tive no dia a dia antes de estar aqui. É algo enriquecedor aprender sobre Medicina ou História, áreas ausentes na grade do meu curso, sem assistir a uma única aula, só com as conversas de colegas. 108


Contudo, estou falando tanto da universidade e, até agora, não falei nada sobre ela de fato. Venho pra cá praticamente todos os dias; contei a você um pouco da admiração que tenho sobre este lugar, e nunca me fiz esta pergunta antes: “o que é a universidade? ” Pois bem, primeiramente vou tentar mostrar o meu ponto de vista pragmático sobre “o que é a universidade”; em seguida, serei conveniente com o que sinto por ela. Serão dois pontos de vista, um racional e outro emocional, que não se excluem; pelo contrário, se complementam. Do ponto de vista racional, a universidade é a fronteira, entre a ciência e a ficção. Ou melhor: ela não é só uma fronteira como também propõe fronteiras, conflitos, problemas ainda não solucionados aos estudantes que estão dispostos a solucioná-los, tentando transformar a nossa ficção em ciência. Hoje, um paraplégico poder andar; um surdo voltar a ouvir; a cura da AIDS; produzir combustíveis renováveis que substituam de fato os não renováveis; compreender toda a obra de Machado de Assis; viver numa sociedade mais justa. São ficções que podem se tornar ciência humana, exata ou biológica. Mas tornar-se-ão um dia. Durante as tardes, despendo tempo nos estudos da minha Iniciação Científica sobre Mecânica Biomédica. Algumas noites da semana ministro aula em cursinhos populares. Todas estas atividades apresentam algum vínculo com a universidade. Do amanhecer ao anoitecer, eu vivo nesta fronteira. Agora que fui pragmático, vou lhe mostrar o outro ponto de vista: lembra-se de quando era criança? Você sonhava com tudo aquilo que lhe causava admiração – vou dar exemplos da minha tenra idade: 109


astronauta, professor, bombeiro, jogador de futebol, cientista, entre outros que já sonhei ser um dia. E as crianças não só sonham enquanto crianças, como também têm a profunda convicção de que podem ser o que sonham, e nada é capaz de impedi-las (nada mesmo!). Então, vamos lá: aqui, na universidade, a ciência é ciência. Nós somos crianças novamente. A ficção, nossos sonhos. E a fronteira, a vontade de mudar o mundo. A universidade nos faz querer mudar a realidade, nos faz sonhar como se fôssemos crianças novamente, e nós temos a profunda convicção de que é possível atingir os nossos sonhos. Por mais loucos e difíceis, por mais impossíveis que eles pareçam ser, nós podemos atingi-los. No fundo, nós queremos romper com a fronteira da ficção e a ciência atingindo-os. Os dois pontos de vista convergem para o mesmo norte, o de que a universidade é capaz de nos fomentar a esperança dentro de nós. Ela nos faz enxergar esta fronteira que antes nos parecia sólida, imensa e indestrutível, e agora, ao corrigir nossa mente míope, nós a enxergamos como um tênue fio de seda, que se torna cada vez mais frágil quando nossa vontade de mudar e nossa persistência se tornam cada vez maiores. Dentre todas as fronteiras da vida que nós precisamos atravessar, superar e vencer, na universidade encontro as que mais me provocam. Aquelas me fazem um ser humano melhor! São as fronteiras entre a ciência e a ficção, sem as quais não haveria tantas provocações, e muito menos esta crônica.

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Cronicas 2015 versão final  
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