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JORNAL DA APRS

Nº 10 | Julho de 2021

XV Congresso Gaúcho de Psiquiatria Transcendendo Fronteiras: Novos Horizontes em Saúde Mental

13 a 16 de Outubro – 2021 – online pág. 12

Entrevista com Marion Minerbo, convidada confirmada para o XV Congresso Gaúcho de Psiquiatria

pág. 16 a 23

Homenagem a Iván Izquierdo, Luiz Carlos Mabilde e Marlene Araújo que nos deixaram recentemente

pág. 30 e 31

Drops em um novo formato, agora em vídeo comentado por Luís Souza Motta


Expediente do Jornal – JA

EDITORIAL

Esta é uma publicação da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul Av. Ipiranga, 5311/ 202 90610-001 | Porto Alegre | RS | Brasil (51) 3024.4846 | 98193.7387 www.aprs.org.br – aprs@aprs.org.br JORNAL DA APRS facebook – aprs.psiquiatria

Mariana Paim Santos* Em tempos de pandemia, novas formas de conexão são criadas. Neste momento, podemos transcender fronteiras tanto através do acesso à tecnologia quanto da ajuda ao próximo. Yuval Noah Harari em seu livro “Notas sobre a Pandemia” reforça sobre a importância da troca de informação científica confiável e da solidariedade global durante uma pandemia para termos uma proteção real. Esta reflexão do autor está em sintonia com o tema do próximo Congresso de Psiquiatria da APRS, o qual será Transcendendo Fronteiras: Novos Horizontes em Saúde Mental.

DIRETORIA Gestão 2019/2021 PRESIDENTE

Flávio Milman Shansis VICE-PRESIDENTE

Fernando M. Schneider DIRETORA CIENTÍFICA

Andrea Poyastro Pinheiro DIRETOR CIENTÍFICO ADJUNTO

Lúcio Cardon

DIRETORA DE NORMAS

Andréia Sandri

DIRETORA TESOUREIRA

Caroline Peter Scherer DIRETORA DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

Berenice Rheinheimer DIRETOR DE DIVULGAÇÃO

Rafael Mondrzak

DIRETORA DE INOVAÇÃO E TECNOLOGIA

Mariana Paim Santos

CONSELHO FISCAL – TITULARES

Fernando Lejderman Laís Knijnik Lizete Pessini Pezzi

CONSELHO FISCAL – SUPLENTES

Alba Tereza do Prado Prolla Ana Lucia Duarte Baron Tiago Crestana CONSELHO EDITORIAL DO JORNAL 13ª edição | Julho 2021 EDITORA

Mariana Paim Santos CORPO EDITORIAL

Betina Marianate Cardoso Mariana Almeida Pedro Victor Santos DIRETOR DE DIVULGAÇÃO

Rafael Mondrzak

PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO

Marta Castilhos

SECRETARIA DA APRS Coordenadora administrativo-financeira

Ana Paula Sarmento Cruz administrativo@aprs.org.br Secretária sênior

Sandra Maria Schmaedecke – RP 1464 aprs@aprs.org.br Auxiliar de Secretariado

Nataniele Oliveira do Nascimento atendimento@aprs.org.br Os artigos assinados são de inteira responsabilidade dos signatários e não representam necessariamente a opinião institucional.

O Congresso irá abranger a Psiquiatria Clínica, a Psicoterapia e a Neurociências. Teremos a discussão do filme “Ya no estoy aquí”, o qual está na plataforma do Netflix. Ademais, o Congresso irá abordar o impacto da pandemia no terapeuta, a psiquiatria voltada para os excluídos, quando o digital pode prejudicar a Saúde mental, Psiquiatras pelo mundo: Saúde Mental durante a pandemia em diferentes continentes e diversos outros assuntos que estão mais detalhados nesta edição. Ao fazer uma livre associação sobre transcender fronteiras, penso em igualdade, diversidade, conexão mesmo estando longe, mesmo sendo diferente do outro. Ao falar sobre isto, Valter Hugo Mãe, em “O filho de mil homens” escreve: “O Crisóstomo então levantou-se, atravessou o quarto, saiu, foi ver o Camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor. O miúdo perguntou: porque dizes isso, pai? O pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que és.” Visto que não testemunhamos uma epidemia desta proporção há pelo menos cem anos, muitas adaptações tiveram que ser realizadas para possibilitar o congresso. Por isso, o Congresso será totalmente na modalidade online, facilitando o alcance de um maior público. Ainda pensando na reflexão de Harari ao abordar a solidariedade, nesta edição tem uma reportagem que trata deste tema de extrema relevância. Desde abril deste ano o Grupo de Voluntariado da APRS está destinando 5% da mensalidade para instituições associadas, como a AGAFAPE (Associação dos Familiares e Pacientes Esquizofrênicos), Avesol (Associação de Voluntariado e Solidariedade que ajuda diversas instituições) e o Grupo Marias (grupo de apoio a mulheres em situação de violência doméstica). Este ano perdemos três grandes mestres, Iván Izquierdo, Luiz Carlos Mabilde e Marlene Araújo,sendo merecidamente aqui homenageados. Uma novidade nesta edição do jornal é o Drops em novo formato, o sócio terá acesso aos artigos através de links que direcionam para o YouTube, tornando a experiência mais interativa. E o já conhecido Drops Vitaminado que é a parte do Drops que traz comentários críticos sobre um artigo. A edição ainda conta com um novo espaço sobre Humanidades médicas, dica de filme, lançamento de livro, espaço do sócio e bem-vindas aos novos associados. Boa leitura! Abraço, Mariana

Sumário

*Editora do Jornal da APRS.

A Palavra do Presidente – Flávio Milman Shansis. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 XV Congresso Gaúcho de Psiquiatria. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 Programação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 a 8 Premiações. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 Convidadas confirmadas para o XV Congresso Gaúcho de Psiquiatria. . . 10 a 12 Nova sede . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 Dica do Filme “O que ficou para trás” / Pedro Víctor Santos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 e 15 Homenagem a Luiz Carlos Mabilde Adeus, amigo / Sidnei Schestatsky . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 Nosso amigo Mabilde / Cláudio Laks Eizirik. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Homenagem a Iván Izquierdo O Mestre dos Mestres / Márcia Kauer-Sant’Anna. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 O legado de um verdadeiro Mestre/ André F. Carvalho. . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 Depoimento em homenagem ao Professor Izquierdo / Carlos Alexandre Netto . . 20 Ao Mestre, com nossa melhor memória / Flávio Milman Shansis . . . . . . . . . 21 Homenagem à Marlene Silveira Homenagem à Dra. Marlene / Hans Ingomar H A Schreen . . . . . . . . . . . . . . . 22 Perdemos Marlene de repente, não mais que de repente / Paulo Berél Sukiennik. . 23 Literatura e Memória, um regalo vitalício / Betina Mariante Cardoso. . . . . 24 a 26 Espaço do Sócio Como sobrevivemos (mais uma vez) ao fim do mundo / Mariana Almeida . . 27 Exercício para um Diário / Ana Cristina Tietzmann. . . . . . . . . . . . . . . . 28 e 29 Drops . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 e 31 Projetos Voluntariado APRS / Andreia Sandri. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 Novos Associados. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 Lançamento de Livro Sócios da APRS lançam o primeiro manual de internação psiquiátrica . . . . . 33


PALAVRA DO PRESIDENTE

Não falta coragem à APRS Flavio Milman Shansis* Queridos colegas, Como gostaríamos de poder dizer que as atividades da APRS voltaram a ser presenciais. Como gostaríamos de estarmos nos reencontrando em longos e saudosos abraços. Como gostaríamos de confirmar que o nosso XV Congresso Gaúcho de Psiquiatria ocorreria, de fato, em Bento Gonçalves em outubro próximo. Infelizmente, nada disso ocorreu, nem ocorrerá a curto prazo. Seguimos tempos difíceis. Nesse meio tempo, perdemos alguns colegas para essa pandemia. Nossas atividades seguem todas remotas. Nossos encontros são apenas abanos por telas de computador e precisamos, por medidas de cuidado com a saúde de nossos associados, familiares e funcionárias, realizar o nosso Congresso de maneira apenas remota. Em um país que não sabe cuidar dos seus, seguimos firmes na proteção física e mental de todos que têm feito da APRS essa “casa da gente”. Cuidamos dos nossos e, ao longo da maioria dos meses de 2020, diminuímos em 25% o valor das mensalidades. Sabemos o quanto a pandemia atingiu também o orçamento de todos nós. Mas cuidamos também da comunidade na qual estamos inseridos. Neste ano, 5% do orça-

mento mensal da APRS foi transformado em cestas básicas e, mensalmente, estamos as entregando a associações não governamentais. A pandemia aumentou, ainda mais, o fosso social em nosso país. Mas, apesar de tudo isso, seguimos como se diz “firmes e fortes”. E, por mais incrível que pareça, nesse mês de julho de 2021, a atual gestão tomou uma decisão histórica: adquirimos, a partir da concordância unânime de uma Assembleia Geral Extraordinária dos Associados, uma sede própria. Pela primeira vez a APRS será dona de seu espaço e isso nos enche de orgulho. Fruto, óbvio, de várias gestões que nos antecederam e para o qual tomamos a decisão que nos parece acertada. Estamos extremamente orgulhosos e logo, logo nossos Associados conhecerão a nova sede. A inauguração está prevista para dezembro próximo.

A vida segue assim, como diz Guimarães Rosa: “A vida é assim, esquenta e esfria, aperta e depois afrouxa e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

* Flávio Milman Shansis

Na APRS, não nos falta é coragem.

Presidente APRS.

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CONGRESSO GAÚCHO DE PSIQUIATRIA

XV Congresso Gaúcho de Psiquiatria

4 dias de intensa troca científica

A programação científica do congresso foi organizada para oportunizar a melhor experiência ao congressista, sendo que os cursos e eventos paralelos estarão distribuídos ao longo dos três primeiros dias. No dia 13/10 teremos ainda as atividades ligadas a neurociências; dia 14, psiquiatria clínica, e, dia 15, psicoterapia. No sábado pela manhã, dia 16, teremos conferências internacionais, debate e discussão do filme, a cerimônia de premiação dos melhores trabalhos científicos e o encerramento do evento.

Quarta-feira,

13 de Outubro de 2021

9h30 - 12h

9h15 - 9h30 Boas vindas Curso 1 Neurociências na prática clínica: Psiquiatria Intervencionista - Hoje e amanhã

Curso 2 A clínica diária para além do psiquiatra: Evidências de intervenções de áreas não farmacológicas para transtornos psiquiátricos

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Realidade virtual na psiquiatria: qual o potencial? Fotobiomodulação para depressão Quando e como usar esketamine no consultório? Qual a evidência clínica da Theta Burst Stimulation? TDCS na prática clínica

Ritmos Biológicos e Ativação Comportamental Nutrição e Saúde Mental: Quais dietas para que diagnósticos? Reabilitação Neurocognitiva Quando Indicar um Acompanhante Terapêutico?

13h15 - 13h30 Intervalo Cultural 13h30 - 16h

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Evento Paralelo Núcleo de Psiquiatras em Formação n n n n n

Jogos e gamificação em Saúde Mental; Discussão de Caso Clínico em Tele Psiquiatria O que são jogos? Gamificação em saúde mental Aplicações terapêuticas dos jogos em Psiquiatria Atividade: Residentes em ação: quando o supervisor se torna supervisionado


Evento Paralelo Núcleo de Sexualidade Avanços em Pesquisa sobre Sexualidade e Gênero

n Mesa de Debate: Avanços em Pesquisa sobre Sexualidade e Gênero n Nucleo de Estudos de Sexualidade - APRS n Presença de Fantasias Sexuais Parafílicas em uma amostra universitária. n Hipersexualidade e Compulsão Sexual: Dificuldades Diagnósticas e a CID11. n As implicações do consumo problemático de Pornografia on-line: recomendações clínicas. n Bissexualidade: histórico, correlatos científicos e saúde mental da população bissexual. n Discussão n Estudos sobre estratégias de coping e qualidade de vida em pessoas trans - dados preliminares. n Distúrbio de Diferenciação Sexual: discussões diagnósticas e aspectos da sexualidade. n Grupos terapêuticos em Disforia de Gênero: acompanhamento e práticas clínicas Relatos através de um estudo de caso n Heterogeneidade clínica da Disforia de Gênero: dimensões psicológicas e tópicos terapêuticos. n Disforia de Gênero na Infância e Adolescência. n Discussão

Neurociências 16h15h - 16h30 Apresentação Oral

16h30 - 19h30

Melhores Pôsteres Neurociências

O papel dos marcadores inflamatórios nos Transtornos Psiquiátricos

n Quais sintomas depressivos estão associados a alteração em marcadores inflamatórios? n Novos achados relacionados a marcadores inflamatórios no transtorno bipolar. n Alteração de marcadores inflamatórios e do estresse oxidativo no trauma e TEPT.

Novidades no uso de antipsicóticos atípicos no tratamento dos transtornos psiquiátricos.

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Novos antipsicóticos no tratamento da depressão Novos antipsicóticos no tratamento do Transtorno Bipolar Novos dados sobre o risco de neutropenia grave em usuários de clozapina: Resultados de 5847 pacientes portadores de transtornos mentais graves

Metabolismo, atividade física e Transtornos Psiquiátricos

n Psicopatologia associada à obesidade: marcadores biológicos e de neuroimagem n Como abordar o ganho de peso relacionado aos transtornos psiquiátricos e psicofármacos n Para quais sintomas psiquiátricos a atividade física possui eficácia?

19h30 - 19h45 Intervalo Cultural

Quando o uso do universo digital pode prejudicar a Saúde Mental?

19h45 - 21h45

Transmissão via Estúdio Como enfrentar a invasão das drogas sintéticas? Neurobiologia, avaliação e tratamento.

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Quinta-feira,

14 de Outubro de 2021

9h15 - 9h30 Boas vindas Curso 3 Transgeracionalidade: a transmissão da herança psíquica entre as gerações

Curso 4 Ferramentas da TCC em tempos de (pós) Covid-19

Curso 5 Abordando o TDAH de adultos através de sua complexidade e paradoxos

9h30 - 12h

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Da Grécia Antiga aos estudos genômicos do século XXI O que nos contam as trajetórias que veem se desenhando do TDAH ao longo da vida. Podemos ter segurança de estarmos prescrevendo psicoestimulantes para adultos com TDAH ou estaríamos praticando doping cognitivo em pessoas estressadas e cansadas. Psicoterapias do mundo real e do possível com pacientes adultos com TDAH.

13h15 - 13h30 Apresentação Oral Melhores Pôsteres Psiquiatria Infância e Adolescência 13h30 - 16h15

Evento Paralelo Departamento de Infância e Adolescência

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Evento Paralelo Departamento de Psiquiatria Forense

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As crianças e os Adolescentes durante a Pandemia da COVID-19 III Simpósio de Psiquiatria da Infância e Adolescência da APRS Pandemia e Transtornos Mentais em Crianças e Adolescentes Efeitos da pandemia em pacientes TEA Visão psicanalítica dos efeitos da pandemia em crianças e adolescentes Pandemia e aprendizagem.

Painel: “A difícil fronteira entre o estresse ocupacional e o assédio.” “Mal estar na academia: abuso e violência no meio universitário” “Os diferentes assédios e as minorias” Discussão de filme: “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky

Psiquiatria Clínica 16h15h - 16h30 Apresentação Oral Melhores Pôsteres Psiquiatria Clínica 16h30 - 17h30 Manejo do risco de suicídio na emergência: Estratégias que funcionam para previnir uma nova tentativa 17h30 - 18h30 Discussão de caso clínico: Aspectos transdiagnósticos 6


18h30 - 19h30

Psiquiatras pelo Mundo em um Debate Além de Fronteiras: saúde mental durante a pandemia em diferentes continentes n n n n n

Rússia China Etiópia Egito Japão

19h30 - 19h45 Intervalo Cultural Transmissão via Estúdio 19h45 - 20h45 O legado da pandemia: Do silício ao divã - Quais inovações tecnológicas e de prestação de serviços são promissoras? 20h45 - 21h45 Novos Horizontes em Saúde Mental: a psiquiatria voltada para os excluídos

Sexta-feira,

15 de Outubro de 2021

9h15 - 9h30 Boas vindas 9h30-12h

Curso 6 Atualização em Psiquiatria da Infância e Adolescência

n Depressão n TDAH

Curso 7 Epigenética, Genética e Espiritualidade; os genes determinam nossa fé

12h - 13h30 Almoço Evento Paralelo Departamento de Espiritualidade Abordagem da espiritualidade e da religiosidade na clínica e na psicoterapia

Evento Paralelo Depto de Psicoterapia Psicoterapia, pandemia e virtualidade Mesa 1 A Prática psicoterápica em tempos de pandemia

13h30-16h15

n Conexões e desconexões na psicoterapia on-line n Psicoterapia em tempos virtuais: do que eu não abro mão? n A psicoterapia ao redor do mundo em tempos pandêmicos: uma experiência multicultural

Mesa 2 Sonhos, pesquisa e reflexões: como a pandemia nos afeta?

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Sonhos e pandemia: o que andamos sonhando em tempos de distanciamento social? Impressões e dificuldades do atendimento remoto durante a pandemia: uma análise quantitativa em uma amostra brasileira A psicologia das massas nos tempos atuais: 1921/2021 7


Psicoterapia 16h15h - 16h30 Apresentação Oral Melhores Pôsteres Psicoterapia 16h30 - 17h30 Conferência Internacional 1 17h30 -18h45 Caso Clínico 18h45 - 19h45

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O psicoterapeuta no divã e a pandemia Os desafios e o impacto da pandemia no psiquismo do terapeuta O terapeuta desconcertado: Vulnerabilidade, incerteza e desamparo no setting analítico A mente do terapeuta em tempos de pandemia e isolamento social

19h30 - 19h45 Intervalo Cultural 20h - 22h

Transmissão via Estúdio Perché gli italiani? Contribuições contemporâneas de autores psicanalíticos italianos

n Antonino Ferro n Giuseppe Civitarese n Stefano Bolognini

20h45 - 21h45 A pandemia nos fez melhores ou piores seres humanos? Reflexões entre psicoterapeutas

Sábado,

16 de Outubro de 2021

8h - 9h Conferência Internacional 2 9h - 10h Conferência Internacional 3 10h - 11h Conferência Internacional 4 Saúde Mental e Prevenção do Suicídio durante a Pandemia da Covid-19 11h - 12h Transcendendo Fronteiras: Migração e Saúde Mental Discussão do filme “Ya no estoy aquí” 12h - 12h30 Premiação Pôsteres e Encerramento 8


Premiações

As submissões de trabalhos já estão abertas. Confira a programação científica e inscreva seu trabalho no site www.congressoaprs.com.br

Prêmio

Iván Izquierdo Neurociências

Prêmio

David E. Zimerman

Psicoterapia

Prêmio

Juliano Moreira Psiquiatria Clínica

Prêmio

Ieda Bischoff Portella Psiquiatria da Infância e Adolescência

Premio XV Congresso Gaúcho de Psiquiatria

Votação Popular

n Será concedido ao trabalho exposto durante o Congresso que obtiver maior pontuação na votação popular feito por meio do aplicativo oficial do evento e que esteja inscrito em acordo com as instruções normativas. n O trabalho será premiado com: inscrição gratuita ao autor principal no próximo Congresso de Psiquiatria da APRS e certificado de reconhecimento do mérito do trabalho.

20/08 Data limite para resumos 23/08 Lista dos aprovados 12/09 Data limite Posters 30/09 Prazo para comissão definir os 3 melhores trabalhos de cada área. 9


CONGRESSO GAÚCHO DE PSIQUIATRIA

Danuta Wasserman, Helen Herrman Rosine Jozef Perelberg e Marion Minerbo convidadas confirmadas para o XV Congresso Gaúcho de Psiquiatria Presidente eleita da WPA (2025-2028). Professora de Psiquiatria e Suicidologia no Karolinska Institutet (KI), Danuta Wasserman é a Chefe Fundadora do Centro Nacional para Pesquisa de Suicídio e Prevenção de Doenças Mentais (NASP) em KI, Estocolmo, Suécia desde 1993. Ela também é a Diretora do Centro Colaborador da OMS para Pesquisa, Desenvolvimento de Métodos e Treinamento em Prevenção de Suicídio e consultora especializada do Escritório da OMS em Copenhagen e Genebra desde 1995. A professora Wasserman foi Presidente da European Psychiatric Association (EPA) 2013-2014. Ela é ex-presidente da International Academy of Suicide Research(IASR) e também presidente honorária do Instituto Sueco-Estoniano de Suicidologia. Em nível nacional e nórdico, a dra Danuta Wasserman construiu um Centro Nacional de Pesquisa de Suicídio e Prevenção de Doenças Mentais (NASP) e uma forte rede de pesquisa nórdica sobre a prevenção de transtornos mentais. Em 1995, foi a primeira na Europa a receber a cátedra de Psiquiatria e Suicidologia no Karolinska Institutet. Também recebeu vários prêmios de pesquisa significativos, como o prêmio Stengel por contribuições notáveis​​ no campo da pesquisa e prevenção do suicídio. “Saúde Mental e Prevenção do Suicídio durante a Pandemia COVID-19” será o assunto de Danuta no XV Congresso.

Helen Herrman

foi presidente da WPA no triênio 2017-2020. É a atual Diretora do Centro de Colaboração em Saúde Mental da OMS em Melbourne, Austrália. Recebeu o prêmio Officer of the Order of Australia. É membro da Comissão de Saúde Mental e Desenvolvimento Sustentável do Lancet e coordenadora do Comitê Lancet-WPA em depressão a ser lançado em 2021. É Professora de Psiquiatria e Diretora de Pesquisa na Orygen Youth Health Research Centre e no Centre for Youth Mental Health, Universidade de Melbourne, em Victoria, Austrália. Ela recebeu o prêmio de Practioner Fellowship do National Health and Medical Research Council of Australia, com conhecimentos especializados no desenvolvimento da saúde mental e promoção dasaúde mental. Desde 2001 tem prestado consultoria em países do Pacífico Ocidental no desenvolvimento dos serviços e política de saúdemental e promoção da saúde mental. 10


Rosine Perelberg é membro,

analista didata e presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise, professora visitante na Unidade de Psicanálise na Universidade de Londres e membro Correspondente da Sociedade Parisiense de Psicanálise.

Ela nasceu no Rio de Janeiro, onde completou seu bacharelado em Humanidades e fez mestrado em Antropologia Social no Museu Nacional Social, UFRJ, antes do seu doutorado em Antropologia Social na Escola de Economia em Londres. Ela escreveu e editou 12 livros, os quais inclui Time, Space and Phantasy; Freud: A Modern Reader (traduzido para o português: Freud uma Leitura Atual, 2011) Murdered Father, Dead Father: Revisiting the Oedipus Complex (Pai Assassinado, Pai Morto, editora Blucher, 2021) and Sexuality, Excess and Representation, todos publicados pela Routledge e a Nova Biblioteca de Psicanálise. Psychic Bisexuality ganhou em 2019 o prêmio por melhor edição de livro pela American Board & Academy of Psychoanalysis.

* Luciano Isolan

Mestre e Doutor em Psiquiatria/UFRGS. Membro Graduado da SPPA.

* Tiago Crestana

Médico (PUCRS). Psiquiatra (HCPA). Membro aspirante da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA). 11


CONGRESSO GAÚCHO DE PSIQUIATRIA

Luciano Isolan* e Tiago Crestana* entrevistam

1.

Quais aspectos você considera mais relevantes na sua trajetória pessoal e profissional?

Formei-me em medicina em 1980 pela Santa Casa de São Paulo. Entre 1985 e 1989 fiz minha formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Em 1997 defendi meu doutorado no departamento de psiquiatria da UNIFESP. Depois da minha formação, dois acontecimentos foram fundamentais para ampliar minha visão de mundo psicanalítica. Um foi o meu doutorado, em que estudei as relações entre psique e mundo para entender a compulsão a comprar. Outro foi o trabalho institucional com adolescentes com transtornos emocionais graves. Em seguida me voltei para a psicopatologia psicanalítica, entendida como formas de ser e de sofrer e sua determinação inconsciente. Em Neurose e não neurose (Blucher, 2019, terceira edição) procuro discriminar, do ponto de vista clínico e metapsicológico, esses dois grandes campos do sofrimento psíquico. O adoecimento psíquico se dá num vínculo intersubjetivo, e é em outro vínculo intersubjetivo – a situação transferencial – que este poderá ser tratado. Escrevi Transferência e contratransferência (Blucher, 2020 segunda edição) para transmitir o desenvolvimento dessa ideia.

2.

O que você considera essencial na formação dos jovens psicoterapeutas nos dias de hoje?

É fundamental desenvolver e se apropriar de um modo de pensar propriamente psicanalítico para melhor conduzir uma análise. Os/as jovens colegas conhecem muita teoria, mas é comum 12 12

Marion Minerbo

que esta permaneça menos ou mais dissociada do que praticam. Em dois livros (Diálogos sobre a clínica psicanalítica e Novos diálogos sobre a clínica psicanalítica, ambos pela Blucher) encarei o desafio de transmitir conceitos e teorias de forma encarnada na clínica, mostrando como a teoria ilumina a clínica, e esta, por sua vez, torna os conceitos necessários e vivos.

3.

Poderia nos contar um pouco a respeito do tema de sua conferência?

Vou falar sobre Depressões dentro de um recorte psicanalítico. Começarei reconhecendo três tipos de infelicidade. 1. infelicidade difusa, mais próxima do tédio; 2. por desempoderamento generalizado; e 3. por autodepreciação. Cada uma delas está relacionada a uma forma clínica de depressão: 1. sem tristeza, tamponada por defesas do tipo comportamental; 2. com tristeza, por falta de autonomia em relação ao objeto e impossibilidade de viver para si; e 3. melancólica, com microdelírios de perda do amor do objeto. Em seguida, passando da clínica à metapsicologia, proporei a hipótese de que os núcleos inconscientes subjacentes às três depressões se organizam em resposta a modos específicos de presença do objeto primário: 1. operatório; 2. em codependência; e 3. por desinvestimento / ou investimento negativo do sujeito. Por fim, retornando à clínica, procurarei mostrar como a compreensão da metapsicologia nos ajuda a reconhecer as características do campo transferencial-contratransferencial, e a conduzir as análises em cada caso. 12


APRS

EM BREVE

Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul Edifício Workstyle Rua Miguel Tostes, 201 sala 1014 Bairro Rio Branco 90430-061 / Porto Alegre / RS Na manhã do dia 02 de Julho de 2021, o presidente da APRS, Flávio Milman Shansis, assinou a escritura pública de compra e venda da nova sede da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. A assinatura se deu com os sócios da Construtora Saute MGus. A compra da sede foi autorizada após ser aprovada, por unanimidade, na Assembleia Geral Extraordinária de Associados realizada em 11 de maio de 2021. A sala já está totalmente quitada, com todos os impostos e despesas cartoriais pagos. A Diretoria da APRS Gestão 2019 – 2021, juntamente com o Conselho Fiscal, celebra este passo importantíssimo na história da APRS. Seguiremos, como sempre, filados à Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS); porém, agora, em sede própria. A nova sede está localizada no Edifício Workstyle, à rua Miguel Tostes número 201 sala 1014, no Bairro Rio Branco, Porto Alegre. Já foi contratada a empresa Finkelstein Arquitetos LTDA que deu início aos estudos preliminares para execução da obra. Com localização mais central, em prédio com dois auditórios e em melhores condições de trabalho para nossas funcionárias, estaremos disponibilizando, aos nossos associados, um excelente ambiente para eventos científicos e convivência. A inauguração da nova sede está prevista para início de dezembro próximo. 13


DICA DE FILME

Transcendendo Fronteiras: Migração e Saúde Mental

“O que ficou para trás” *Pedro Víctor Santos de revisitar suas lembranças, dão a nós, que os acompanhamos, a possibilidade de compreender que aquilo que fica para trás não vai embora. Ao longo do filme nos deparamos com questões sobre ser arrancado de sua casa, do horror que é não ter um lar, e de como não existe a possibilidade de esquecer. Nas paredes da casa se escondem os fantasmas. Estão lá, por trás das aparências, e são parte fundamental da estrutura, aquilo que sustenta tudo. Basta o buraco na parede para nos mostrar o fio que puxa as lembranças mais dolorosas e que não se desejaria ter. Para que o casal possa viver sua vida onde estão, é necessário se adaptar à nova realidade em uma terra desconhecida e que fecha os olhos às tradições daqueles que chegam. O ambiente se mostra hostil e até mesmo aqueles com quem se poderia identificar - os jovens negros da cidade - se mostram não acolhedores e reproduzem violências típicas do Ocidente diante de culturas desconhecidas. “Volta para a África” diz um dos jovens negros à personagem protagonista. Em 2020 a Netflix lançou o filme de produção inglesa “O que ficou para trás” (His House, dir. Remi Weekes). O longa-metragem tem como mote acompanhar um casal de refugiados do Sudão do Sul se adaptando à nova vida que lhes é dada na Inglaterra. Com uma premissa de assombração, que traz fantasmas e sustos ao espectador, seria esperado um filme para comer pipoca e não se preocupar muito com tramas. No entanto, o espectador se depara com reflexões que podem assustar ainda mais, causando sentimentos inquietantes. Ao trazer o tema da adaptação a uma nova realidade de vida, nos vemos ao lado dos protagonistas, descobrindo aos poucos aquilo que ocorre com eles e, conforme avançam e tomam coragem 14

O XV Congresso Gaúcho de Psiquiatria tem como tema central “Transcendendo Fronteiras: Novos Horizontes em Saúde Mental”, para nos convidar a expandir nossa mente em busca de soluções para a realidade na qual vivemos, onde as culturas são ao mesmo tempo globais e locais, e que a história, diferente da tipicamente ocidental, traz o desconforto àqueles que recebem os imigrantes. Apesar de sermos uma sociedade conectada, cujas fronteiras são cada vez mais fáceis de serem cruzadas e de pessoas transitarem entre elas de forma nunca antes vista - vide a disseminação do coronavírus globalmente -, é possível enxergar que há uma parcela da população que conhece bem o que é ter portas fechadas para si, enquanto assistem a outras pessoas tendo as portas escancaradas para elas.


casa, a briga se dá através da língua falada: a língua estrangeira falada por um, que tenta desesperadamente dizer aos ingleses que ele pode se encaixar, e a língua nativa dita por outra. Um reflexo da maneira como os personagens tendem a lidar com os conflitos que os levaram até o momento em que os conhecemos. O sofrimento sem nome que ambos carregam e tentam lidar, individualmente, leva ao aumento do isolamento. A dificuldade para enxergar o esforço do outro aumenta o espaço entre ambos. Sozinhos nas ruínas da memória, isolados de seus parceiros, ficam expostos às assombrações e aos ataques dos fantasmas. Vem a real ameaça: a ameaça à vida. Mas há salvação na luz. E é claro desde o início o incômodo que o filme quer causar lançando questões sobre cidadania. A frieza do outro com os diferentes faz com que sintamos o desconforto que é não ser reconhecido como uma pessoa. “Não como cidadãos”, diz um dos personagens que entrevista o casal, ao explicar que eles serão recebidos na Inglaterra. Uma condição para desumanizar. Um indivíduo mergulhado em desumanização tenta, a todo custo, mostrar que é humano. O conflito entre o casal se dá através da dinâmica entre o marido que tenta abraçar os comportamentos ocidentais sem questionar e a esposa que se agarra às tradições de berço. Dentro da

Assistir a “O que ficou para trás” me remeteu à boa safra do cinema de horror da última década, com obras carregadas de significado como “O Babadook”, “Corra!”, “Nós” e “Hereditário”, filmes que usam o horror para expressar experiências dolorosas ao ser humano. Uma maneira de enxergarmos as dores que não conseguimos facilmente expressar, mas que sabemos que estão lá, escondidas nas paredes, e que por vezes nos assustamos em buscar sabê-las, mas são partes estruturais de nós mesmos. “O que ficou para trás” é um filme sobre a tentativa de esquecer e a descoberta do elaborar e de lidar com os fantasmas que existem em nós.

O horror pode passar e virar esperança.

* Pedro Víctor Santos Médico pela Faculdade Pernambucana de Saúde. Residência em Psiquiatria e Psiquiatria da infância e adolescência pelo HCPA. 15


HOMENAGEM A LUIZ CARLOS MABILDE

Adeus, amigo Sidnei Schestatsky* É difícil dimensionar as emoções despertadas pela trágica morte do Dr. Luiz Carlos Mabilde, em 14 de janeiro passado. Não só vínhamos todos, há mais de um ano, tentando lidar com a catástrofe da pandemia e do desgoverno que cavalgava, quando, inesperadamente, o Mabilde chocou-se com uma improvável ponte, próximo a Bento Gonçalves, cidade da Cláudia, sua recém falecida esposa, por quem seguia enlutado. Nos conhecíamos há cinquenta anos, contemporâneos na Especialização em Psiquiatria da UFRGS, na então Divisão Melanie Klein do

À esquerda Sidnei Schestatsky, ao centro Luiz Carlos Mabilde e à direita Cláudio Laks Eizirik

HPSP. Depois, seguimos convivendo na SPPA e nos aproximamos ainda mais, emocionalmen-

tria e Psicoterapia Analítica”. Posteriormente

te, durante todo o período em que comparti-

concentrou suas publicações em torno da su-

lhei do longo e penoso sofrimento da doença

pervisão em psicanálise. Dias após a sua mor-

da sua amada esposa. Culto, talentoso, íntegro,

te, em uma destas chamadas ironias do desti-

leal, com opiniões firmes e sorriso conciliador,

no, chegou uma comunicação da International

o Mabilde, à velha moda da cultura psiquiátri-

Psychoanalytic Association anunciando que seu

ca gaúcha, transitou com naturalidade tanto na

trabalho (“Confidences and Inconfidences in

Psiquiatria (professor e supervisor permanente

pychoanalytical supervision as a convergence

e atuante dos Cursos do CELG – CEPOA e Curso

of three models training”) havia recebido um

para Supervisores), além de ter sido Presiden-

prêmio de melhor trabalho sobre treinamento

te, em duas gestões da própria APRS), como na

psicanalítico atual, e o convidando para apre-

Psicanálise, como Psicanalista Didata e Supervi-

senta-lo no próximo Congresso da IPA, em Van-

sor da SPPA.

couver, julho de 2021...Não foram apenas os amigos, colegas, familiares, alunos e pacientes

Teoria e Técnica da Supervisão Clínica sempre

que perderam um modelo de profissional ético,

foi um dos seus principais temas de interesse.

humano e comprometido. Foi uma triste perda

Em 1991, editou o livro “Supervisão em Psiquia-

para nossa própria Psicanálise.

*Sidnei Schestatsky

Psiquiatra (UFRGS). Psicanalista (SPPA). Mestre em Saúde Pública (Harvard University). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS. Professor Titular (aposentado) de Psiquiatria da UFRGS. 16


HOMENAGEM A LUIZ CARLOS MABILDE

Nosso amigo Mabilde Cláudio Laks Eizirik* Luiz Carlos Mabilde foi um dos mais destacados psiquiatras e psicanalistas de nosso Estado, tendo dedicado sua longa e produtiva carreira profissional à pratica, ao ensino, à publicação e à vida institucional da Psiquiatria, da Psicoterapia de Orientação Analítica e da Psicanálise. Mabilde foi Presidente da APRS, por duas gestões, Editor da Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (hoje Trends), Presidente e Diretor do Instituto da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, Membro da Casa de Delegados da IPA, membro de diversas comissões da APRS, da SPPA, da FEBRAPSI, da FEPAL e da IPA. Quando faleceu, tragicamente, era um ativo membro do Comité de Análise à Distância, da IPA, representando o Brasil. Em seu contínuo e dedicado percurso institucional, Mabilde sempre demonstrou grande capacidade de liderança e integração, com ideias inovadores e talento para o trabalho em equipe e o estímulo a seus colegas. Tanto em seu trabalho clínico e de supervisor, e também como professor e coordenador de seminários e em seus trabalhos teóricos e clínicos, Mabilde revelava um especial talento para a captação do inconsciente, um profundo conhecimento da teoria psicanalítica e uma notável capacidade didática e de sistematização de conceitos e

abordagem de situações complexas. Seu último trabalho, um belo estudo sobre Confidências e Inconfidências em Supervisão Psicanalítica, foi escolhido como o melhor trabalho internacional sobre formação analítica, para ser apresentado no próximo congresso da IPA, em julho deste ano. Infelizmente, a mensagem com a notícia deste reconhecimento chegou tarde demais. Além de todos esses aspectos, aqui apresentados de forma sintética, o Mabilde era um querido amigo, uma pessoa afetuosa, sensível, bem humorada, de posições claras, capaz de expor e defender seus pontos de vista, sem precisar atacar ou denegrir quem pensava diferente. Convivi em inúmeros momentos e situações pessoais e profissionais com o Mabilde. Compartilhamos o trabalho em comissões, por muitos anos, mesas de chope, mensagens, conversas, alegrias e tristezas. Seus e suas amigos e amigas acompanharam sua profunda dor com a perda de sua querida esposa Cláudia. Ficamos agora com a dor, a tristeza, a saudade, os exemplos e as lembranças de um afetuoso convívio. Nosso amigo Mabilde deixa um legado de amor e de capacidade de enfrentar e vencer adversidades, que abraçamos com gratidão e reconhecimento.

*Cláudio Laks Eizirik

Psiquiatra. Psicanalista. Doutor em Medicina pela UFRGS. Membro efetivo e analista didata da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA). Professor Emérito de Psiquiatria da UFRGS. 17


HOMENAGEM A IVÁN IZQUIERDO

O Mestre dos Mestres Márcia Kauer-Sant’Anna* É com grande carinho que guardo na memória a oportunidade de ter sido orientada pelo mestre ‘delas’. Difícil descrever o privilégio e o impacto de um cientista como Prof. Iván Izquierdo na vida de uma, na época, aluna de iniciação científica, que depois virou sua aluna de doutorado. Quando iniciei em seu laboratório ele já era um expoente internacional no estudo das memórias, e todos seus detalhes encantadores. Ainda assim, sua porta ficava aberta e quando espiávamos, estava sempre com um olhar curioso e a postos para alguma discussão da vida, da ciência, do universo e, não raro, era daquela salinha que os alunos saiam vibrando com mais uma ideia extremamente instigante e inovadora para estudar. Contribuiu afetivamente na formação de tantos alunos que se tornaram mestres e puderam formar outros ainda com este entusiasmo de um cientista “raiz”, que vibra com a descoberta pura e seus caminhos criativos.

isso é verdade na fisiologia cerebral, na fisiologia da vida real, ele, o mestre dos mestres, nunca será esquecido.

Contribuiu afetivamente na formação de tantos alunos que se tornaram mestres e puderam formar outros ainda com este entusiasmo de um cientista “raiz”, que vibra com a descoberta pura e seus caminhos criativos.

Seus estudos avançaram muito o campo das neurociências. Foram destaques a descoberta dos benzodiazepínicos endógenos, mais cedo na carreira, seguido pelo mapeamento extenso dos mecanismos das memórias, durante a maior parte da sua carreira, e ainda, mais adiante, o mapeamento da extinção da memória. Como ele gostava de falar, “tão importante quanto lembrar, é esquecer”. Ainda que tenha nos ensinado que

* Márcia Kauer-Sant’Anna

Professora Associada e Chefe do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal (UFRGS). Coordenadora do Laboratório de Psiquiatria Molecular. 18


HOMENAGEM A IVÁN IZQUIERDO

O legado de um verdadeiro Mestre André F. Carvalho* Durante meu curso médico na Universidade Federal do Ceará tive a honra de ser orientado pelo Professor Manassés Claudino Fonteles que é membro da Academia Brasileira de Ciências. Nutri neste período da minha vida um amor genuíno pela pesquisa médica que perdura até nossos dias. Na época em que estava mais próximo de concluir o curso perguntei ao meu então orientador que área da medicina (eu me identificava na época com diversas especialidades) eu deveria seguir. Ele imediatamente respondeu que eu deveria seguir a psiquiatria. Fiquei no início confuso já que eu havia trabalhado com fisiologia renal na época. O Prof. Manassés me recomendou fortemente que eu fizesse minha residência médica em Porto Alegre e que posteriormente fizesse me doutorado direto com o Prof. Iván Izquierdo que todos sabíamos ser um dos grandes ícones mundiais na área de neurobiologia da memória. Segui à risca o conselho. No ano de 2002 (após conclusão da minha residência médica em psiquiatria), conheci o Prof. Izquierdo que foi extremamente receptivo e me recebeu de “braços abertos”. Logo percebi tratar-se de um ser humano especial. Homem extremamente afável, meritocrático, humilde, e dono de uma mente científica brilhante. Com o “mestre” (como o Prof. Izquierdo era conhecido por seus alunos) aprendi os princípios básicos da ética acadêmica e do compromisso com a ciência que vêm norteando minha carreira até aqui.

Foi com extremo pesar que recebi a notícia do falecimento do mestre no dia nove de fevereiro deste ano. Estou morando em Toronto. Não consegui me despedir do meu amado mentor. Um hiato abriu-se na neurociência mundial e também no coração e nas mentes daqueles que como eu tiveram a grande oportunidade de beneficiarse de tão notável mentoria! Desejo que o mestre esteja descansando em paz e espero que sua família tenha recebido o acolhimento necessário após tão sofrida perda, mesmo nos árduos tempos em que estamos vivendo.

* André F. Carvalho

Médico psiquiatra. Pesquisador sênior da Deakin University (Austrália). 19


HOMENAGEM A IVÁN IZQUIERDO

Depoimento em homenagem ao Professor Izquierdo Carlos Alexandre Netto* A curiosidade e a vontade de fazer perguntas à Natureza são motores da ciência e também proporcionam encontros improváveis. Conheci Iván Izquierdo em 1979, como monitor da disciplina de Bioquímica da UFRGS; eu queria entender o funcionamento do cérebro e da memória. Ele já era um cientista de renome internacional e eu um universitário oriundo da escola pública, curso noturno. Fui por ele acolhido, como todos os jovens que o procuravam, e aí teve início minha carreira acadêmica. Em 15 anos de uma relação de aprendizado, de afeto e de intenso crescimento intelectual, tive a fortuna de viver e de ajudar a responder algumas das perguntas às quais Izquierdo se dedicou em sua brilhante carreira. O envolvimento do sistema opióide cerebral na modulação da memória, a importância da novidade para a evocação, a teoria da de-

pendência de estado e os primeiros estudos da reconsolidação das memórias foram as principais. Como cientista aberto a questionamentos e visões discordantes, o Mestre sempre apoiou experimentos com os quais não concordava totalmente; em geral, os resultados revelavam que ele tinha razão em discordar. Izquierdo também foi um ser humano singular e extremamente generoso, em palavras e ações. Suas cartas de recomendação eram, de fato, declaração de profunda amizade e respeito, e seu apoio financeiro, especialmente após o retorno de meu Pós-doutorado, foram essenciais para o início de minha carreira científica independente. Até hoje, mesmo sendo cientista senior e experiente gestor institucional, me considero aprendiz do querido Mestre Izquierdo. Nossas memórias continuam me ensinando!

Momento em que tive a honra de entregar o Título de Professor Emérito da UFRGS ao Professor Izquierdo, durante Cerimônia de Outorga no Conselho Universitário, em junho de 2014.

* Carlos Alexandre Netto

Neurocientista e Professor de Bioquímica, foi orientado pelo Professor Izquierdo na Iniciação Científica, no Mestrado e no Doutorado. Foi reitor da UFRGS por dois mandatos (2008 – 2016). 20


HOMENAGEM A IVÁN IZQUIERDO

Ao Mestre, com nossa melhor memória Flávio Milman Shansis* Foi no meado dos anos 90 que tive o privilégio de me aproximar do Mestre, o Professor Iván Izquierdo. Na realidade, fui aproximado pelas mãos do querido Carlos Alexandre Neto, o Alex, nosso ex-Reitor da UFRGS. À época, em 1995, havíamos formado um grupo de estudos em Neuroquímica junto à Residência de Psiquiatria do HCPA. Faziam parte do grupo, além do Alex, outro Professor do Departamento de Bioquímica da UFRGS, o igualmente querido Renato Dutra Dias. Os dois professores nos coordenavam nessa tarefa. Éramos alguns psiquiatras abertos a aprender com eles: Aristides Cordioli, Marcelo Fleck, Gisele Gus, Eugenio Grevet, Luciana Nerung e eu. Pois foi a partir deste grupo que fui encaminhado para conversar com o Mestre sobre um possível mestrado. Recebido na Bioquímica, pelo Mestre, já famoso e importante pesquisador, recebi dele o mesmo tratamento que dava a todos os que o procuravam. Foi extremamente receptivo, curioso e empático. Aceitou me orientar em um ensaio clínico com humanos, mesmo trabalhando basicamente com modelo animal. O tempo ao seu lado, e de tantos queridos colegas que faziam parte do seu Laboratório de Memória - primeiro no antigo prédio de Biociências e depois no novo prédio da Bioquímica - foi um tempo de riquíssimo aprendizado. Não apenas sobre os mecanismos de memória, mas de como formar um verdadeiro time de pesquisadores, de como ser líder e, ao mesmo tempo, ter a humildade para ouvir um aluno de primeiro semestre de graduação com o mesmo respeito com que ele discutia com um pesquisador internacional. Depois do mestrado, segui com o Mestre em um doutorado não acabado, quando ele se mudou para a PUCRS. Seguimos nos encontrando em muitos Congressos e Simpósios. Tive a honra de convidá-lo algumas vezes para participar de eventos da APRS, para os quais nunca recusou. Nos encontramos, nos últimos anos, em várias ocasiões em um restaurante japonês perto de nossas ca-

sas e, em cada encontro, o mesmo sorriso abertamente generoso e o mesmo abraço afeticvamente carinhoso. Hoje, como professor e coordenador de um Programa de Pós-Graduação, tendo uma equipe com mestrandos e alunos de iniciação cientifica a liderar, o modelo que me vem à mente é o modelo do Mestre. O modelo de um verdadeiro pesquisador, sensível, ávido por conhecimento, preocupado com sua equipe e um grande contador de histórias. Histórias em que ele ria muito ao contá-las e fazia a todos nós rirmos juntos. Conversas que iam dos intrincados mecanismos da memória, a questões futebolísticas, à indignação com os desmandos do país e que terminavam, muitas vezes no seu “amigo” Jorge Luís Borges. Foi dessas conversas que conheci “Funes, el memorioso”, assim como foi dessas conversas que, encantado, conheci aquele brasileiro/argentino que, tivesse vivido em um país mais ao norte, teria, com certeza, recebido um Prêmio Nobel de Ciência. De uma forma ou de outra, o Mestre Iván Izquierdo, contribuiu para a Ciência como um todo e também para a Psiquiatria Gaúcha em particular, formando muitos de nós que seguimos esse pacto transgeracional de transmissão de conhecimento. Querido Mestre, estarás para sempre na nossa Memória e daqueles que nos sucederem.

* Flávio Milman Shansis

Ex-orientado do Mestre Iván Izquierdo. 21


HOMENAGEM À MARLENE SILVEIRA

Homenagem à Dra. Marlene Hans Ingomar H A Schreen* Na década de 1960/70 vieram fazer formação psiquiátrica atraídos pela Psiquiatria Dinâmica em Comunidade Terapeutica na Clínica Pinel candidatos para Residência em Psiquiatria de vários Estados do Brasil e mesmo do exterior. A pernambucana Marlene Silveira – com parentes morando aqui – foi a primeira que veio, e logo a seguir Carmem Tuma, do Pará em 1965, que junto com a gaúcha Themis Groisman, de Santa Maria/RS, e o forâneo gaúcho retornado Harri Graeff (médico e prefeito em Pato Branco/Paraná) constituíram um grupo de Residentes muito especial, singular, amigo, ativo e unido, de forte atuação conjunta.

Uma vez concluída a Residência, Carmem voltou a Belém do Pará (casada com o psiquiatra Rotta), enquanto Themis iniciou atividade psiquiátrica em Porto Alegre e Graeff despontou na liderança associativa da antiga Sociedade de Neurologia e Psiquiatria, depois SPRS (hoje, APRS) e mais adiante na AMRIGS. A Marlene casou com Jairo Araújo constituindo uma linda família. Iniciou formação psicanalítica, especialmente dedicada à infância, onde colaborou intensamente no desenvolvimento da área na SPPA e no Instituto Vida Solidária.

Desenvolvia atividade paralela social e educacional. Assim, quando a AMRIGS criou o IVS (Instituto Vida Solidária) em 2005, lá estava a Marlene atendendo com sua equipe as crianças da Vila carente, atividade até hoje existente. E agora que nos deixaste como faremos sem o teu afeto, teu sorriso, teu entusiasmo? Vamos sentir muito a tua falta!

* Hans Ingomar H A Schreen

Psiquiatra (Clinica Pinel/UFRGS), ex-Presidente SPRS/APRS (1974-1979); ex-Presidente AMRIGS(1979-1982).

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HOMENAGEM À MARLENE SILVEIRA

Perdemos Marlene de repente, não mais que de repente Paulo Berél Sukiennik* Inevitável evocar Rubem Braga no seu texto “Despedida” ao homenagear a querida Marlene Silveira Araújo: ”E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim… Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que se tem saudades…”. Psicanalista de crianças, psicanalista de crianças dentro dos adultos, professora, supervisora, amiga, pioneira. Partida abrupta, traumática, impactante, absurda. Faleceu da forma que a vida é: enigmática e inominável por vezes, mas com muita vida dentro de si. Modelo de identificação, mestre do acolhimento, apaixonada por alunos, pelo ensino, pelos pacientes e pela psicanálise. Difícil de acreditar que se foi porque não se foi. Está viva nos corações e mentes de quem a conheceu, de quem teve o privilégio, como eu, de ter sido supervisionado e aprendido com ela , antes de tudo, a ser.

Obrigado por tudo Marlene. Por deixar essa herança cheia de pulsão de vida que segue existindo dentro de cada um que conviveu contigo. O “Estar com” o paciente descrito por Sándor Ferenczi, ensinava-nos na prática das supervisões individuais ou coletivas. O “Holding” de Winnicott nos mostraste nos relatos dos teus casos. A “Função Continente” de Bion nos orientaste nas discussões clínicas. A paixão pelo infantil valorizaste nas deliciosas risadas. Estás viva,querida mestre, porque não aceitaremos tua partida terrena. Continuaremos a navegar na fascinante jornada rumo ao encontro do outro: nosso chão de fábrica. Como pessoa, como psiquiatra, como psicanalista, eras, antes de tudo, especialista em gente, em alma. Perdemos uma dura batalha nas trincheiras contra a peste. Fez-se da amiga “próxima, distante. Fez-se da vida uma aventura errante. De repente, não mais que de repente…” (Vinicius de Moraes). Marlene: um beijo com admiração, carinho e gratidão.

* Paulo Berél Sukiennik

Psiquiatra e Psicanalista. Membro Associado da SPPA.

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HUMANIDADES MÉDICAS

Literatura e Memória, um regalo vitalício Betina Mariante Cardoso* Por coincidência, finalizo a escrita deste texto hoje, 23 de abril, Dia Mundial do Livro. E a escrita a seguir é sobre literatura, livros, escritores. E sobre a importância do tema para a Medicina. Nesta, a Psiquiatria. E, finalmente, essa página com a data de hoje é sobre transcender fronteiras da psiquiatria, encontrando novos horizontes em Saúde Mental, tema do nosso Congresso Gaúcho, no próximo outubro. E por falar em fronteiras, aqui abordo aquelas entre Medicina e Literatura, que acabaram por compor, dentro das Humanidades Médicas, a área de Medicina Narrativa.

e, para mim, inesquecível, de uma riqueza cultural ímpar. O momento que gravei e consigo ainda recordar em cores foi quando Dr. Iván Izquierdo falou da grande importância da leitura literária para a memória. Referiu também que, pelo fato de ser necessário construir imagens pelas palavras, é um exercício precioso para o cérebro. Este não recebe a figura pronta da personagem ou das cenas, mas elas passam a existir para cada um como reais, pela transformação da palavra em vida, “alquimia” que o cérebro faz frente ao texto literário.

Essa área nasceu em torno do ano 2000, no que já era a estabelecida união entre as Humanidades e a Medicina, mas o termo em si foi cunhado pela médica americana Rita Charon, que vinha de uma formação específica em Literatura. Charon fundou a Medicina Narrativa na Columbia University de Nova Iorque, promovendo em alunos da faculdade e, hoje em dia, de outras áreas da saúde, o contato com o texto literário e com as Artes de forma geral. Seu objetivo, desde o início, foi promover os princípios da integração entre os campos. A seguir, o porquê.

Por coincidência, na época eu estava justamente lendo o clássico “A montanha mágica”, de Thomas Mann, para ilustrar elementos de um artigo sobre o funcionamento do paciente crônico nas condições médicas. Era então acadêmica do quarto ano da Medicina na PUCRS, atendendo nas equipes do sexto andar alguns dos pacientes que marcaram meu percurso, por sua reação à cronicidade. Mais do que isso: por suas histórias narradas muitas vezes em carne viva, com o peso do tempo, do que não foi feito e do que não será. Narrativas. Os relatos do protagonista do livro, Hans Castorp, que eu já parecia conhecer de vista, se fundiam com o que escutava nas visitas ao leito de cada paciente. E foi naquele momento, enquanto o neurocientista falava em literatura, memória e imaginação, que compreendi a importância que esse tecido de palavras com significado, o texto, tinha para mim como aluna de Medicina: me ajudava a ouvir o paciente nas camadas do seu contar. Eu escutava, imaginava, simbolizava, sentia. Aquilo não

Mas vou começar contando como cheguei a essa história. Foi em novembro de 1999, período de alegria literária em Porto Alegre pela Feira do Livro, que assisti a uma conversa entre o neurocientista Prof. Dr. Iván Izquierdo e o poeta Prof. Dr. Armindo Trevisan. Ambos escritores, falavam de literatura, de memória, de Jorge Luis Borges e de Funes, personagem do conto borgeano “Funes, el memorioso”. A prosa foi longa, 24


tinha um nome, não para mim. Era apenas uma aproximação que me trazia fascínio. No último ano, para a escrita do artigo para a Acta Médica, escolhi estudar o tema da adesão ao tratamento médico e ilustrar com trechos do livro “A morte de Iván Illitch”, de Tolstoi. O tempo foi passando, as leituras e a escrita foram acontecendo e, com isso, a escuta se ampliava. Foi no começo do segundo ano da Especialização em Psiquiatria que descobri o Programa de Medicina Narrativa, li sobre Dra. Rita Charon e me encantei pelo tema. A expressão contemplativa e sorridente do neurocientista, naquela conversa, enquanto explicava o papel da leitura literária na memória, cinco anos antes, volta e meia surgiam na lembrança. E isso me fazia ler mais. E ler mais me fazia ler melhor, o que levava a escutar melhor os pacientes. E assim por diante. Essa ideia me remete, pela memória, a um trecho do livro “Como funciona a ficção”, de James Wood:

te do que Rita Charon e seu grupo de pesquisa chamam de “Escuta atenta”, uma das ferramentas do programa. A segunda dessas ferramentas, não menos importante, é o exercício da escrita criativa. O desenvolvimento dessa potencialidade aprimora a capacidade de descrição, facilitando, no exemplo específico da Psiquiatria, o registro da Psicopatologia na anamnese. A propósito, para Aristóteles, Anamnesis significava busca ou recordação. Voltamos à questão da memória e, com ela, ao Dr. Iván Izquierdo. Em um de seus livros, Memória, ele refere: “A criatividade tem sido definida por Jaime Vaz Brasil como a conjunção de duas ou mais memórias. Não se cria a partir do nada: cria-se a partir do que se sabe, e o que sabemos está em nossas memórias (...)”. (IZQUIERDO I., 2011, p.127)

Em outra parte do livro, encontro uma referência que me tocou muito sobre o tema:

“Essa lição é dialética. A literatura nos ensina a notar melhor a vida; praticamos isso na vida, o que nos faz, por sua vez, ler melhor o detalhe na literatura, o que, por sua vez, nos faz ler melhor a vida.” (WOOD, J. 2012, p.63)

O trecho acima pode ser aplicado à Medicina Narrativa. A literatura promove, no aluno de Medicina, melhora da capacidade de escuta das narrativas do paciente, pois amplia o perceber da expressão metafórica e simbólica. Além disso, aprimora as potencialidades de observação, interpretação e sensibilização, promove o acesso às competências culturais em Medicina e permite escutar, nas vozes dos pacientes, todas as linguagens do sofrimento. Neste sentido, tem sido apresentado o benefício da Literatura também no desenvolvimento da empatia, necessária durante a formação médica. No contexto da Medicina Narrativa, essa aplicação à empatia aplica-se ao fato de que, durante a leitura, o indivíduo precisa sair de si para o universo do personagem, treinando assim colocar-se no lugar do outro. Todos esses elementos fazem par-

“Podemos afirmar, conforme Norberto Bobbio, que somos aquilo que recordamos, literalmente. Não podemos fazer aquilo que não sabemos, nem comunicar nada que desconheçamos, isto é, que não esteja na nossa memória. Também não estão à nossa disposição os conhecimentos inacessíveis, nem formam parte de nós os episódios dos quais esquecemos ou os quais nunca atravessamos. O acervo de nossas memórias faz com que cada um de nós seja o que é, um indivíduo, um ser para o qual não existe outro idêntico.” (IZQUIERDO, I. 2011, p.11, grifo do autor).

Então, quando lemos, além de beneficiarmos nosso cérebro na construção da memória e da imaginação através da palavra, estamos também ampliando o conjunto daquilo que somos, através da narrativa ficcional. Isso amplia quem somos e, mais ainda, amplia nossa capacidade de 25


escuta dos pacientes sobre quem eles são. Quanto maior nossa bagagem, melhor nossa recepção das histórias que nos são contadas. E nosso ofício, como médicos, é composto dessas histórias, sobretudo na Psiquiatria. De acordo com a pesquisadora norte-americana Eloisa Palafox, contá-las é um dos comportamentos da evolução do homo sapiens, enquanto sabemos que ler é um comportamento humano complexo, através do qual aprendemos através de...histórias. Em Psiquiatria, essas são representadas através do que o paciente nos conta em sua narrativa, mas também através de como somos capazes de guardar esses elementos de sua biografia em nossa memória e traduzi-los na escrita detalhada da psicopatologia. Dessa forma, quanto melhor “lemos” um paciente na escuta, melhor será a descrição que faremos dele. Quanto mais lermos literatura, maior é o incremento à memória, mais amplos ficamos, melhor ouvimos e melhor nos comunicamos com o paciente em sua linguagem, pois, como referido acima, aguçamos o ouvido para escutar “todas as linguagens do sofrimento”. A neurociência tem trazido cada vez mais descobertas sobre o benefício da literatura para o cérebro; a Medicina Narrativa tem conversado de modo cada vez mais interativo com outros profissionais das áreas da Saúde e das Humanidades, cada vez mais se trabalha o desenvolvimento das Humanidades Médicas nas faculdades estrangeiras. Que bom ver o crescimento deste campo no mundo e, sim, chegando também por aqui, devagarinho. E sempre que se fala no tema, meu referencial é o Professor Iván Izquierdo contando a importância do livro para nossa memória e imaginação. Aquele ponto foi o começo do aprendizado de como ler histórias nos ajuda a ouvi-las em nuances de cor, sons,

* Betina Mariante Cardoso

cheiros e até com os gostos que a narrativa desperta. A fronteira entre a Saúde Mental e a Literatura sempre foi destacada, não é novidade essa interface. Talvez a novidade esteja na forma operacionalizada que a Medicina Narrativa trouxe para essa aproximação, como forma de ensino. Leitura e escrita literária tornaram-se ferramentas do aprendizado médico e, por que não dizer, psiquiátrico. Como trabalhar com os residentes em Psiquiatria através de trechos, de personagens, de obras completas? Quais as formas disponíveis e como criar o aprendizado através delas? Como estimular alunos da graduação em Medicina e nas especializações em Psiquiatria a deixarem, no meio de uma rotina corrida durante o percurso formativo, tempo para o texto literário? Parece utopia, sim. Mas é possível que, em passos miúdos, esse caminho vá sendo trilhado, as fronteiras sendo exploradas, a sensibilização para o tema sendo percebida. Sendo, no gerúndio. Um gerúndio esperançoso. Por enquanto, basta a curiosidade, a pesquisa, a pergunta do “será que funciona mesmo?”, pois é assim que começa esse despertar para as Humanidades Médicas e, aqui referida, a Medicina Narrativa. Pra começo de conversa, sugiro o livro: “The Principles and Practice of Narrative Medicine”, de Rita Charon e autores convidados. E, sobretudo, por enquanto basta que a leitura literária nos desperte, nos faça pensar e promova em nós a amplidão através da memória, segundo o neurocientista que, em 99, me deu este ensinamento tão valioso e a vontade de saber mais sobre o tema. Gracias pela leitura! Um abraço, Betina Mariante Cardoso

Médica (PUCRS) e Psiquiatra (UFRGS). Mestrado em Psiquiatria (UFRGS). Mestrado em Teoria da Literatura (PUCRS).

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ESPAÇO DO SÓCIO

Como sobrevivemos (mais uma vez) ao fim do mundo Mariana Almeida* Dezembro de 2019. Acompanhamos os primeiros casos de COVID-19 na cidade de Wuhan, na China, com o distanciamento geográfico e afetivo de quem viu outras ameaças sanitárias surgirem, como a SARS e a H1N1, sem força suficiente para tirar-nos do nosso eixo. Celebramos as festas de final de ano e tocamos nossa vida normalmente. Em 13 de Janeiro de 2020, a primeira notificação da doença fora da China é reportada pela Organização Mundial da Saúde, na Tailândia. A partir de então, o cenário piora, com o surgimento de contaminações em pessoas que não haviam visitado o país asiático e a disseminação da doença pelo mundo. No Brasil, o primeiro caso de COVID-19 é detectado em 26 de fevereiro, quando o continente europeu já registrava centenas de contaminações. Março de 2020. A OMS declara que vivemos uma pandemia, e os primeiros casos de transmissão comunitária em solo brasileiro começam a surgir. Tomados de medo, sem entendermos muito bem o vírus e toda a sua gama de sinais e sintomas, passamos a adotar o distanciamento social, a lavar as mãos frequentemente, a usar máscara como acessório indispensável, a preferir, sempre quando possível, o home office e a adaptar uma série de atividades para a modalidade online. As escolas e as universidades recorrem ao ensino à distância, seja com aulas online, seja através de atividades remotas; a telemedicina se impõe como uma realidade incontornável; atividades de toda espécie, dos exercícios físicos às aulas de música, são feitas através de plataformas como Zoom, Google Meet e Hangouts, que muitos de nós pouco usávamos ou sequer conhecíamos. Ao longo do ano, veremos o avanço no número de contágios e de mortes, as vacinas surgirem no horizonte como uma esperança, e o termo “novo normal” tornar-se tão corriqueiro que todo o resto nos parece uma memória distante, quase impalpável. De toda forma, acreditamos que 2021 será melhor.

Abril de 2021. Com a vacinação em curso, a passos muito mais lentos do que gostaríamos e do que seria o ideal, vemos o Brasil bater recordes diários de mortes. O cenário mundial ainda é incerto, embora traga notas positivas aqui e acolá. Adaptados às inúmeras telas que passaram a fazer parte das nossas vidas, porém carentes de calor humano, estamos todos muito cansados de viver a maior pandemia desde a Gripe Espanhola, que ceifou mais de 50 milhões de vidas entre 1918 e 1920. Se prever o futuro sempre foi uma ilusão de controle, isso, hoje, é mais verdadeiro do que nunca. Para nós, psiquiatras, os tempos pandêmicos trouxeram experiências muito distintas, mesmo antagônicas. Se, por um lado, observamos uma piora dos sintomas em muitos de nossos pacientes, ou mesmo um aumento na incidência dos casos de depressão e de ansiedade, por outro, não deixa de ser espantoso observar como, apenas um ano após o começo disso tudo, muitos de nós nos encontramos adaptados a uma realidade que jamais poderíamos ter vislumbrado. O teleatendimento, antes objeto de bastante controvérsia, tornou-se corriqueiro; os congressos e eventos científicos à distância são, hoje, uma realidade que veio para ficar, possivelmente com a adoção de modelos híbridos após o término da pandemia; vários de nossos pacientes, e mesmo nós mesmos, embora estejamos todos inegavelmente cansados do “novo normal”, seguimos com nossas vidas, ousando mesmo sonhar com um retorno a tempos de abraços e aglomerações. É fato: não temos como prever quando este pesadelo acabará. Entre inúmeras perdas e lutos, no entanto, como tantos antes de nós que viveram tempos muito difíceis, como guerras, desastres naturais e catástrofes de toda sorte, adaptamo-nos da melhor forma que conseguimos às circunstâncias, e perseveramos, num exercício diário de resiliência. A capacidade humana de sobreviver a toda sorte de adversidade deve ser celebrada, e, certamente, estudada sempre, pois pode nos dar valiosas ferramentas para nossa prática clínica.

* Mariana Almeida

Médica (PUCRS). Residência em Psiquiatria e Psiquiatria Forense pelo HCPA. Perita Médico-Legista/Psiquiatra do Instituto Geral de Perícias do Rio Grande do Sul. 27


ESPAÇO DO SÓCIO

Exercício para um Diário Ana Cristina Tietzmann* Sexta-feira, 04 de dezembro,2020. Acordo antes do despertador mas volto a dormir. Ao som do segundo toque, penso: hoje não posso tirar aquele cochilo fatal que acaba em correria. Não adianta, acabo demorando demais em frente ao guarda-roupa e conferindo o Instagram. Bebo um iogurte e saio em seguida, quase 10 minutos atrasada. O dia está claro, ensolarado, temperatura amena. Sinto que estou confiante. No trajeto, lembro que esqueci de fazer o exercício do diário para a oficina literária de amanhã. É um dia interessante para relatar. Incomum, para a maioria das pessoas. Para observar e sentir o momento, não ligo o rádio. Também preciso me concentrar no trânsito, tentar recuperar aqueles minutinhos perdidos. Por sorte, pego uma “onda verde” nas sinaleiras do bairro, sem precisar parar. São minutos preciosos, preciso chegar até as 7h. Mais relaxada, ligo o rádio para ouvir alguma atualização sobre a situação dos hospitais. Por coincidência, está bem na hora do boletim diário da pandemia: hospitais de Porto Alegre começando a ficar lotados novamente. Moinhos de Vento e Mãe de Deus estão com 100% dos leitos COVID ocupados. Desta vez, fico mais assustada. Há alguns meses não sentia isso. Medo do vírus. Sinto uma ponta de angústia quando lembro que estou indo para o hospital e, entre outras coisas, tenho a agenda cheia. Penso que não falei com a minha mãe nos últimos dias. O que ela deve

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estar aprontando esta semana? Será que está usando a máscara nova que levei para ela? Chego na garagem e estaciono. Desde o início da pandemia, não deixo mais o carro para o manobrista. É mais seguro para todos, já que trabalho em ambiente de risco, exposta. Já peguei o jeito, segundo ele. Lembro que ainda não sei o seu nome, apesar de encontrá-lo todos os dias. Ainda dentro do carro, coloco a máscara N-95. Pego a mochila e saio caminhando em passo acelerado pela avenida Independência. Entro pela porta da Garibaldi para acessar o elevador até o bloco cirúrgico. Satisfeita, vejo que consigo bater o ponto eletrônico às 6:59 e o elevador está aberto. Mais um passo e consigo pegar carona com uma colega, técnica de enfermagem, que já me conhece. Ao entrarmos no vestiário feminino, vejo que a residente já está terminando de se vestir. Coloco a roupa, touca, propés e guardo a mochila. Quando entro no bloco cirúrgico, vários técnicos de enfermagem ainda estão em conversas matinais e a sala de cirurgia ainda vazia. Cheguei antes do anestesista! Quem diria! para quem tinha saído atrasada, uma pequena vitória. A primeira paciente é a mesma adolescente da semana passada. Transtorno Bipolar, 17 anos. Está na quarta sessão. A residente já tinha as orientações da equipe assistente, a paciente estava tranquila pois já conhecia o procedimento. Havia feito no Hospital de Clínicas. O anestesista chega


em seguida, prepara as medicações, regulamos o aparelho, todos a seus postos, cronômetro ligado, e... tudo corre bem. Em seguida, a paciente é levada para a sala de recuperação. Enquanto a equipe prepara novamente a sala, vou conversar com a segunda paciente. É sua primeira sessão. Na pasta, o diagnóstico é de depressão grave. Ela tem 26 anos e me diz que está calma, também já conhece o procedimento. Fico pensando na tristeza de ter que lidar com uma doença tão grave nesta idade, a ponto de estar precisando de ECT – Eletroconvulsoterapia. De qualquer forma, tem o privilégio de ter conseguido a vaga. Muitas não têm acesso a este tratamento que, literalmente, pode salvar suas vidas.

em frente. Abro a sala, a janela, ligo o computador, organizo a sala, limpo as cadeiras e alguns brinquedos com álcool 70%. Dou uma olhada na agenda: vários pacientes do interior, por isso chegam mais cedo. Muitos passam a madrugada viajando nos transportes das prefeituras já que, praticamente, não existem psiquiatras de infância no interior.

Os procedimentos transcorrem tranquilamente. O anestesista, e a enfermagem, já não têm mais preconceito e não se assustam pois vêem as pacientes melhorando. A residente, no final do primeiro ano de residência em psiquiatria, já domina a técnica. Eu, depois de tantos anos, não fico mais ansiosa com a responsabilidade de ser a preceptora e “cirurgiã” em sala. Afinal, minha escolha pela psiquiatria foi para ajudar as pessoas a encararem seus problemas de frente. Acabei aprendendo também.

Manhã cheia, vieram todos. Só tive tempo de tomar alguns goles de água entre um paciente e outro. Precisei indicar internação para um menino de 13 anos. Já tínhamos combinado na última consulta, caso não respondesse ao novo medicamento, não teríamos escolha. Fiquei chateada, mas não tinha dúvidas de que era necessário. A situação estava muito grave e a família sem condições de suportar. A equipe do CAPS também concordava, ia acabar acontecendo uma tragédia se ele não fosse hospitalizado. Uma outra adolescente, que tive que mandar internar no final de outubro, por risco grave de suicídio, veio para revisão e estava se mantendo muito bem. Foi ela quem acabou usando os lápis coloridos para me fazer um desenho, enquanto conversávamos sobre seu novo amigo. Saio do hospital às 13h20, cansada e com fome. Vou direto para casa.

Saindo do bloco cirúrgico às 8h10, pego o elevador até o térreo e atravesso, pelo corredor da Emergência Pediátrica, para o prédio do ambulatório. Subo pelas escadas até o quinto andar. Estou atrasada novamente. Já tem um paciente esperando, segundo a estagiária da recepção. Guardo a mochila no armário, visto o avental branco, pego o material de desenho (para os pequenos), o carimbo e os receituários especiais. Pego a chave da sala, atravesso o corredor interno, onde os alunos de medicina esperam os professores. Dou um bom dia apressado e sigo

Novo ritual, tirar sapatos, limpar as chaves com álcool, lavar as mãos e trocar de roupa, ainda a tempo de entrar na reunião remota do grupo de pesquisa em Bioética. Assisto a palestra de um convidado chileno, sobre a Declaração de Bioética e Direitos Humanos, enquanto almoço um sanduiche. Às 15h30, teoricamente, inicia meu final de semana. Escrevo o texto para o diário no final da tarde. Ao revisar a agenda, descubro que estou na escala de sobreaviso até domingo, e penso: amanhã, espero que ninguém me telefone durante as preciosas horas da oficina de escrita.

*Ana Cristina Tietzmann

Psiquiatra e consultora em Bioética Clínica. Atualmente, também, tem se dedicado à área da literatura, tendo publicado seu primeiro livro de poemas “Canto Próprio” no final de 2019 pela editora Artes e Ofícios. 29


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Nesta edição o Drops tem uma inovação, pode-se ter acesso ao conteúdo dos artigos selecionados através dos links abaixo, os quais apresentam vídeos feitos pelo sócio Luís Motta

1 Clique aqui para ouvir o comentário de Luís Souza Motta https://youtu.be/hM_LHjGDYWo

2 Clique aqui para ouvir o comentário de Luís Souza Motta https://youtu.be/6nLKMNvcZv8

3 Clique aqui para ouvir o comentário de Luís Souza Motta https://youtu.be/Lbip2qxpHBY

4 Clique aqui para ouvir o comentário de Luís Souza Motta https://youtu.be/RVu2FN2nRMU

* Luís Souza Motta

Médico Psiquiatra. Mestrando em psiquiatria na UFRGS. Preceptor do serviço de internação psiquiátrica e emergência Psiquiátrica do HSL/PUCRS. CEO da Hope Neuropsiquiatria. 30


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Lucas Primo* em outras escalas, remissão e bem-estar) apontaram a favor da psilocibina. Há que se ter muito cuidado na interpretação: a probabilidade de falsos positivos, por acaso, em desfechos secundários é muito grande.

Em abril de 2021 foi publicado no New England Journal of Medicine um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, com o objetivo de comparar a eficácia do uso de psilocibina (um fungo alucinógeno, utilizado muitas vezes sob a forma de “chá de cogumelo”) comparando-a com escitalopram (Cahart-Harris, R.L. et al, 2021) para o tratamento de depressão maior. Previamente, 2 ensaios clínicos foram publicados tanto na revista Lancet Psychiatry (Cahart-Harris, R.L., 2016) e na JAMA Psychiatry (Davis, A.K, 2020). Com essas três revistas de peso no pano de fundo, o The New York Times coloca na sua reportagem de capa (Jacobs, A., 2021): “A revolução psicodélica está chegando. A psiquiatria talvez nunca mais seja a mesma”. Diante desse cenário, temos de analisar criticamente o artigo. Para utilizarmos uma evidência na prática, ela precisa de duas características: ser precisa e válida. A precisão é o quanto o resultado do estudo aponta em uma única direção, sem muita variabilidade entre os participantes. Já a validade é o quanto essa direção está no lugar certo, representando o que, de fato, se quer medir. Analisemos o quanto esse estudo se aproxima dessas características. Quanto à precisão, o artigo é um estudo de fase II. Ou seja, ele é pequeno, que visa “provar um conceito” e garantir que a intervenção seja segura. No ensaio clínico, participaram 59 pacientes com depressão moderada a grave (29 no grupo escitalopram e 30 no grupo psilocibina), o que certamente não é representativo da totalidade dos pacientes com depressão. Ainda assim, apesar do tamanho, o estudo tinha 80% de probabilidade de encontrar uma real diferença entre os dois grupos, caso ela realmente existisse. Porém, não houve diferença entre o grupo que recebeu psilocibina e escitalopram no desfecho principal (melhora dos sintomas). Os autores ressaltam que os desfechos secundários (como melhora

Já quanto à validade, costumamos avaliá-la através dos vieses, como seleção, aferição e confusão. O viés de seleção é quando os pacientes selecionados não representam a população-fonte de que se quer obter informação. E parece ser o caso: os pacientes foram selecionados por auto-encaminhamento, o que gera alguns problemas. Por exemplo, aproximadamente 35% dos participantes, apenas, eram mulheres, diferente do que seria esperado em uma população de pacientes deprimidos (em geral, acomete 2 mulheres para cada homem). Além disso, cerca de 30% já havia feito uso de psilocibina alguma vez, o que é bastante, comparado à população geral. É possível de se supor que os participantes representassem um grupo de pessoas inclinadas a acreditar em tratamentos alternativos, aumentando o efeito placebo. O viés de aferição ocorre quando os pesquisadores tendem a avaliar melhor o grupo da intervenção em que acreditam, e normalmente é minimizado com o mascaramento – ou seja, os avaliadores não sabem o que o paciente usou. É difícil de sustentar a eficácia do mascaramento nesse estudo: pacientes que usaram psilocibina têm efeitos psicodélicos observáveis, difíceis de mascarar. Esses efeitos não foram sequer medidos, pois os pesquisadores afirmaram acreditar que eles poderiam ser mediadores do efeito terapêutico. De fato, um paciente em cada grupo (cerca de 3% do total) descontinuou o tratamento por supor – acertadamente – o conteúdo do tratamento que estava recebendo. Por fim, o viés de confusão é quando acreditamos que o resultado (melhora da depressão) se deve por outros fatores que não o estudado (psilocibina). A melhor maneira de controlá-lo é através da randomização, como é o caso desse estudo. No entanto, há um fator confundidor na própria intervenção: o efeito psicodélico da psilocibina, que pode aumentar muito o efeito placebo, algo a que pacientes com depressão são muito sensíveis. Como é um fator inerente da intervenção, seria necessário mais tempo de observação (o estudo avaliou por 6 semanas), para avaliar se o efeito seria sustentado. Em resumo, infelizmente, no patamar de evidências que estamos, não temos um novo tratamento robusto para a depressão maior. O melhor dado que temos não é preciso e tem validade questionável. Mais estudos são necessários e a questão está longe de ser encerrada. Por ora, os dados de psilocibina ainda não estão prontos para serem utilizados na prática.

* Lucas Primo

Psiquiatra (HCPA), doutor em psiquiatria (UFRGS), preceptor de psiquiatria do HMIPV/UFCSPA, professor de psiquiatria da UNISINOS, professor de epidemiologia da MEDCEL 31


EM BREVE PROJETOS

Voluntariado APRS Andreia Sandri* O grupo de trabalho voluntário da APRS surgiu da constatação de que era hora da nossa Associação, que tanto vem se desenvolvendo cientificamente, cuidar desse aspecto tão importante para a saúde mental de todos nós, porque fazer o bem, faz bem, para quem faz e para quem recebe. Em tempos tão difíceis como os que estamos vivendo, em que solidariedade e empatia são tão necessárias, e tão escassas, tivemos a ideia de criar esse grupo e nos unirmos a pessoas que também pensam assim! Assim, em maio de 2020 nasceu o “Amigos da APRS”, formamos com a certeza de que “juntos somos mais fortes”, convidamos algumas instituições para se juntarem a nós e, assim, foi criado o grupo. Ser voluntário é doar, entre outras coisas, tempo e energia, é ser humano...é fazer parte da solução, por entender que, unidos, podemos enfrentar os problemas. Hoje, estão trabalhando conosco a AGAFAPE, a AVESOL, PONTO ONLINE e o ROTARY, a quem agradecemos muito por terem acreditado e se juntado a nós nesse caminho. A primeira ação do grupo foi a live de lançamento desse nosso projeto, em que participaram Dra. Ana Cristina Tietzmann – Coordenadora do Departamento de Psiquiatria Comunitária da APRS, Michele Casser Csordas – Assistente Social do CAPS do

HCPA, Priscila Guimarães – Assistente Social – Representante da AGAFAPE e Dra. Andréia Sandri – Diretora de Normas da APRS e Coordenadora do Voluntariado APRS em 25 de julho de 2021 com o apoio da Ponto ONLINE, e teve como tema o voluntariado. Na sequência, tivemos outra live, em 11 de setembro de 2020 com o tema: Alterações observadas e sugestões de manejo: a população da AGAFAPE em foco durante a pandemia, da qual participaram Dra. Ana Cristina Tietzmann, Cristina Clarency La Porta – Familiar de usuário, Daniela da Silva – Psicóloga e Dra. Andréia Sandri com o apoio da Ponto ONLINE e foi voltada para o público da AGAFAPE, tratando do tema saúde mental na pandemia, com enfoque nessa população específica. Também fizemos doação de cestas básicas à população de usuários do CAPS do HCPA. Atualmente, o grupo está envolvido na divulgação e apoio do Projeto Marias, voltado a mulheres em situação de vulnerabilidade, com extrema dificuldade financeira e, muitas, vítimas de violência doméstica. Em abril a APRS entregou 40 cestas básicas à Rosana Kasper, coordenadora do Grupo Marias, através da doação dos 5% das mensalidades de seus Associados. Esta foi a primeira ação realizada com a doação de 5% das mensalidades de seus Associados. Estas doações continuarão mensalmente até o final de 2021.

Nosso objetivo é seguir ajudando a quem precisa e estamos à disposição para receber sugestões.

*Andreia Sandri

Médica Psiquiatra e Mestre em Clínica Médica (PUCRS). Preceptora do ambulatório de psicoterapia de orientação analítica (HSL/PUCRS).

Novos Associados Efetivo

Marta Helena Rubbo Pacheco

Aspirante

Cristina Denise Friske

Acadêmico

Ana Carolina Rossetto Costa 32 Carolina Campos Gubeissi

Carolina Stedile Sixto Chanandra Wiggers Cesconetto Gabriela Rumi Grossi Harada Laura de Brizola Perdonssini Lauren Lima do Brasil Marco Antonio S. Vaz Martina Estacia da Cas Rafel Bittencourt de Oliveira Renata Vogt da Rosa Sofia da Costa Hilgert Sylvia Katry Vieira Martins

Vitor Pereira Contini Vitória L. da Rocha Moreira

Residentes

Bruna Ribas Ronchi Camilla Muller Buligon Fábio Koseki João Pedro Zanon Maria Alice Pedron Carneiro Marina Mosele Guidi Monique Wickert


LANÇAMENTO DE LIVRO

Sócios da APRS lançam o primeiro manual de internação psiquiátrica Colegas associados, orgulhosamente anunciamos mais um lançamento: o livro Manual de Internação Psiquiátrica (Editora Manole, 2021) acaba de sair do forno. Inicialmente projetado como um compilado de revisão teórica e experiência clínica de psiquiatras do Hospital São Lucas da PUCRS (HSL/PUCRS), o livro acabou recebendo contribuições importantes de outros colegas, como os das internações psiquiátricas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e do Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (HPV). Assim, profissionais experientes no trabalho em ambiente de internação, com a participação fundamental de médicos residentes de psiquiatria de diversos serviços, construíram o primeiro livro nacional dedicado exclusivamente ao ambiente de cuidados terciários em psiquiatria. O livro é escrito predominantemente por colegas gaúchos, diversos deles colegas na APRS, mas também traz colaborações importantes de outros locais, como a do Dr. Neury Botega da UNICAMP (Capítulo sobre suicídio). A obra procurou enfocar as características específicas e as vicissitudes do trabalho no ambiente de internação psiquiátrica, abordando desde o processo de admissão, a prescrição do paciente internado, os cuidados e riscos do paciente em enfermaria e o processo de avaliação de alta e transição de cuidados. O livro é uma contribuição seminal, que não pretende esgotar um tema tão amplo e complexo, mas trazer um primeiro apanhado qualificado do mesmo para literatura nacional. Esperamos que ele contribua academicamente e clinicamente para formação de recursos humanos e os cuidados com aqueles que são nossa razão de existir: os pacientes.

Alícia Souza de Andrade

Kyuana Azeredo de Lima

Marco Antonio Pacheco

Lucas Spanemberg

Médica e Cursista de Psiquiatria (PUCRS). Bolsista de apoio técnico no programa de Telepsiquiatria (UNIVATES).

Médica e Cursista de Psiquiatria (PUCRS).

Médico Psiquiatra. Mestre em Clínica Médica (PUCRS). Chefe do Serviço de Psiquiatria e Coordenador do Programa de Residência Médica em Psiquiatria (HSL/ PUCRS).

Médico (UFCSPA). Psiquiatra (PUCRS). Doutor em Psiquiatria (UFRGS). Professor do Curso de Especialização em Psiquiatria (PUCRS).

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Acesse e confira: www.congressoaprs.com.br


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