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Ano LX | JANEIRO 2014 | Assinatura anual | Nacional 7,00¤ | Estrangeiro 9,50¤

DIREITOS HUMANOS

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aumento das migrações exige cooperação internacional

Consolata abre novas missões Pág. 12 África do sul prepara era pós-mandela Pág. 16 manuscrito de lúcia Pág. 34 em exposição


CONSOLATA É CHEIA DE GRAÇA, POR DEUS AGRACIADA PARA LEVAR AO MUNDO A CONSOLAÇÃO DE JESUS. CONSOLADOS SÃO OS EVANGELIZADOS, PORQUE AMADOS DE DEUS. CONSOLAR É LEVAR A TODA A PARTE A CONSOLAÇÃO DE DEUS SALVADOR. COMO MARIA TORNAMO-NOS SOLIDÁRIOS COM TODOS. SOLIDARIEDADE É O OUTRO NOME DA CONSOLAÇÃO. COMO ELA SOMOS PRESENÇA CONSOLADORA EM SITUAÇÕES DE AFLIÇÃO. POR SEU AMOR COLOCAMOS A NOSSA VIDA AO SERVIÇO DO HOMEM TODO E DE TODOS OS HOMENS. ALLAMANO DEU-NOS MARIA POR MÃE E MODELO. POR ISSO CHAMAMO-NOS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA

NOSSA SENHORA DA CONSOLATA Apoie a formação de JOVENS MISSIONÁRIOS

Funde uma bolsa de estudos. A oferta é de 250EUR e pode ser entregue de uma só vez ou em prestações. Pode dar-lhe o seu próprio nome ou outro que desejar. São-lhes concedidos, entre outros, os seguintes benefícios: fica inscrito no livro de benfeitores dos Missionários da Consolata; participa nas orações e nos méritos apostólicos dos missionários; beneficia de uma missa diária que é celebrada por todos os benfeitores.

MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA

www.fatimamissionaria.pt | www.consolata.pt Rua Francisco Marto, 52 | Apartado 5 | 2496-908 FÁTIMA | tel: 249 539 430 | fatima@consolata.pt Rua Dª Maria Faria, 138 | Apartado 2009 | 4429-909 AGUAS SANTAS MAI | tel: 229 732 047 | aguasantas@consolata.pt Rua Capitão Santiago de Carvalho, 9 | 1800-048 LISBOA | tel: 218 512 356 | lisboa@consolata.pt Rua da Marginal, 138 | 4700-713 PALMEIRA BRG | tel: 253 691 307 | braga@consolata.pt Rua Padre João Antunes de Carvalho, 1 | 3090-431 ALQUEIDÃO | Telefone 233 942 210 | alqueidao@consolata.pt Rua Estrada do Zambujal, 66 - 3º D | Bairro Zambujal | 2610-192 AMADORA | Telefone 214 710 029 | zambujal@consolata.pt Alameda São Marcos, 19 – 7º A e B | 2735-010 AGUALVA-CACÉM | Telefone 214 265 414 | saomarcos@consolata.pt Quinta do Castelo | 2735-206 CACÉM | Telefone 214 260 279 | cacem@consolata.pt


editorial

“E vós sois todos irmãos” Contra a “cultura do descartável” e a “globalização da indiferença”, o Papa Francisco propõe a “fraternidade”, que não é um “assistencialismo estéril”: “Voltemos a ver no outro um irmão, não um antagonista ou um inimigo, e conseguiremos construir uma verdadeira paz para a humanidade”. É este o tema da Jornada Mundial da Paz, celebrada desde há 47 anos no primeiro dia de janeiro, por vontade expressa de Paulo VI: “Fraternidade, fundamento e caminho para a paz”. Desde o início do seu pontificado, Francisco pretende superar a “cultura do descartável”, que conduz ao desprezo e abandono dos mais fracos, com a “cultura do encontro”. A fraternidade como “dimensão essencial do homem”, que se aprende na família e ensina a ver os outros como “irmãos a acolher e a abraçar” e não como “inimigos e concorrentes”. A fraternidade como antídoto ao egoísmo individual e coletivo, e à “globalização da indiferença” que “lentamente nos faz habituar ao sofrimento do outro”. Para onde nos leva essa fraternidade? Radicada na paternidade de Deus e no seu “amor pessoal, pontual e concreto” por cada ser humano, só ela impede que se fique “indiferente diante do destino dos irmãos”. Assiste-se hoje “com preocupação”, diz o Papa, ao aumento de formas de pobreza sempre novas, para cuja superação seriam suficientes “políticas eficazes que promovam o princípio de fraternidade” e não de rejeição. A fraternidade é então premissa para vencer todas as formas de pobreza e dar um rosto humano à sociedade. Só a fraternidade faz cessar

as guerras. Perante os muitos “conflitos que se consumam na indiferença geral”, o Papa levanta a sua voz para dirigir um forte apelo a quantos semeiam violência e morte, com as armas: “Renunciai à via das armas e ide ao encontro do outro com o diálogo, o perdão e a reconciliação para reconstruir a justiça, a confiança e esperança ao vosso redor”. Crimes contra a fraternidade e obstáculo para a paz são as violências, a corrupção, as organizações criminosas, a devastação dos recursos naturais, a exploração do trabalho, os tráficos ilícitos de dinheiro, a especulação financeira, a prostituição, o tráfico de seres humanos, os abusos contra menores, a escravidão, a tragédia da migração. Só um autêntico espírito de fraternidade pode vencer estes dramas sociais. Só a fraternidade, finalmente, ajuda a guardar e a cultivar a natureza, colocando-a ao serviço de todos. O Papa denuncia mais uma vez o escândalo de milhões de pessoas que sofrem e morrem de fome e pede que se encontre o modo de tirar benefício dos frutos da terra, evitando “que se alargue o fosso entre aqueles que têm mais e os que devem contentar-se com as migalhas”. Por uma exigência de justiça, equidade e respeito por cada ser humano. Darci Vilarinho

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sumário Rua Francisco Marto, 52 Apartado 5 2496-908 FÁTIMA Nº1 Ano LX – JANEIRO 2014 Tel. 249 539 430 / 249 539 460 Fax 249 539 429 geral@fatimamissionaria.pt redacao@fatimamissionaria.pt assinaturas@fatimamissionaria.pt www.fatimamissionaria.pt FÁTIMA MISSIONÁRIA Registo N.º 104965 Propriedade e Editora Delegação Portuguesa do Instituto Missionário da Consolata Contribuinte Nº 500 985 235 Superior Provincial António Jesus Fernandes Redação Rua Francisco Marto, 52 2496-908 Fátima Im­pres­são Gráfica Almondina, Zona Industrial – Torres Novas Depósito Legal N.º 244/82 Tiragem 25.700 exemplares Diretor Darci Vilarinho Diretor executivo Francisco Pedro Redação Darci Vilarinho, Francisco Pedro, Juliana Batista Colabora­ção Alceu Agarez, Ângela e Rui, Carlos Camponez, Cláudia Feijão, Elísio Assunção, Leonídio Ferreira, Luís Maurício, Lucília Oliveira, Norberto Louro, Patrick Silva, Teresa Carvalho; Diaman­tino Antunes – Moçambique; Tobias Oliveira – Roma; Álvaro Pa­­che­co – Coreia do Sul Fotografia Lusa, Ana Paula, Elísio As­sunção e Arquivo Capa Lusa Contracapa Ana Paula Ilustração H. Mourato e Ri­car­do Neto Design e com­po­sição Happybrands e Ana Pau­la Ribeiro Ad­mi­nis­tração Cristina Henriques Assinatura Anual Nacional 7,00€; Estrangeiro 9,50€; Apoio à revista 10,00€; Benemérito 25,00€; Avulso 0,90€ Pagamento da assinatura multibanco (ver dados na folha de endereço), transferência bancária nacional (Millenniumbcp) NIB 0033 0000 00101759888 05 transferência bancária internacional IBAN PT50 00 33 0000 00101759888 05 BIC/SWIFT BCOMPTPL cheque ou vale postal (inclui o IVA à taxa legal)

TAREFAS PARA HOJE

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16 África do Sul de olhos no pós-Mandela 03 EDITORIAL “E vós sois todos irmãos” 05 PONTO DE VISTA A economia em 2014 06 LEITORES ATENTOS 07 HORIZONTES O cabo da boa esperança 08 MUNDO MISSIONÁRIO Refugiados sírios entre a guerra e a neve

Arcebispo de Delhi preso pelos direitos dos Dalit Problema da terra mantém Brasil em guerra Visitas especiais “ocupam” convento em África 10 A MISSÃO HOJE O amor verdadeiro está sempre primeiro 11 PALAVRA DE COLABORADOR Gosto de fazer o bem 12 A MISSÃO HOJE Consolata reforça presença em África e na Ásia 13 DESTAQUE O homem feito humanidade 14 ATUALIDADE Migrações exigem mudança de mentalidade 22 GENTE NOVA EM MISSÃO Ser missionário é ser mensageiro da paz 24 TEMPO JOVEM Retomar o voo 26 SEMENTES DO REINO Viemos adorá-lo 28 O QUE SE ESCREVE 29 O QUE SE DIZ 30 GESTOS DE PARTILHa 31 VIDA COM VIDA Da náusea à missão 32 OUTROS SABERES Sabedoria de um governante 33 2014 ano allamano Com as pessoas no coração 34 FÁTIMA INFORMA Manuscrito do terceiro segredo de Fátima

em exposição


ponto de vista

A economia em 2014 texto João César das Neves

Que nos espera em 2014? O futuro a Deus pertence, e isso só pode ser coisa boa. Economicamente a situação é ambígua, mas tem alguns traços claros. A recessão acabou em 2013 e são muitos os sinais de recuperação na atividade. Os indicadores positivos de uma inversão de tendência, muitos deles informais e bem visíveis nas ruas, são cada vez mais frequentes. Claro que ninguém antecipa um ano próximo de grande crescimento, com estimativas geralmente ainda bem inferiores a um por cento. Mas é muito bom que há vários meses as surpresas venham positivas. De qualquer maneira, após as quedas acentuadas dos últimos anos, qualquer alívio é bem vindo. Em particular, as melhores notícias estão no desemprego, que consensualmente tem sido o pior elemento desta crise e que finalmente começou a dar de si. A taxa, que já em 2013 várias organizações internacionais previam viesse a estar acima dos 18,5 por cento, começou a descer a meio do ano e encontra-se nos 15,6 por cento. Mais uma vez, repete-se aqui o padrão geral: não se devem esperar descidas acentuadas e, de qualquer maneira, o nível é ainda assustadoramente elevado. Mas é indiscutível que os cenários mais pessimistas foram abandonados e se entrou numa nova fase mais clara. A meio do ano terminará o programa de ajustamento acordado com os nossos parceiros e será questionada a possibilidade de Portugal financiar-se sem ajuda externa. O problema anima os debates políticos, aliás mais ocupados em confrontar

personalidades e interesses partidários que ajudar o bem nacional. Essa questão pontual, embora com importância inegável, está longe de ser a decisiva. O que é central, independentemente de haver ou não segundo resgate, é que o país perceba que, apesar das políticas de aperto e dos cortes conseguidos, o esforço tem de continuar, porque as contas estão longe de estar equilibradas. O nosso Estado continua a gastar muito mais do que o país pode pagar. E isso não é problema da Europa, da troika ou dos mercados, mas dos cidadãos portugueses. É compreensível a relutância em mais austeridade, mas enquanto o défice não for eliminado, teremos de continuar nessa trajetória. 2014 não pode ser um ano para regressar aos maus hábitos de despesas e favores que nos trouxeram a esta terrível situação. Não faltam os interesses que, tendo hibernado nos últimos anos, com os referidos sinais positivos começam a sair da toca para a refeição. Se cairmos de novo nessa velha armadilha, 2014 será o início de nova desgraça cíclica. Deste modo, o início de ano mostra bem o resultado de três dolorosos anos de ajustamento. O lado da economia, sofrendo o embate em cheio, adaptou-se, cortou custos, alterou estratégias, e começa a mostrar os efeitos desse esforço. Infelizmente o lado público, apesar de alguns sinais encorajadores, ainda mudou muito pouco e resiste à indispensável dieta. Não sendo de prever que o Estado se emende em 2014, ao menos que a sociedade comece a sentir os efeitos dos seus esforços. E, acima de tudo, confie que o futuro a Deus pertence.

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leitores atentos

Renove a sua assinatura Faça o pagamento da assinatura através dos colaboradores, se os houver, ou nas casas da Consolata, ou através de multibanco, cheque ou vale postal. Ou ainda por transferência bancária: NIB 0033 0000 00101759888 05. Refira sempre o nú­­me­ro ou nome do assinante. Na folha on­de vai escrita a sua direção, do lado esquerdo, encontra o ano pago e o seu número de assinante. Agradecemos que os nossos es­ti­mados assinantes renovem a assinatura para 2014. Só as assinaturas atualizadas poderão beneficiar do pequeno apoio do Estado ao porte dos correios. Os do­­na­tivos para as missões são de­dutíveis no IRS. Se desejar recibo, deverá enviar-nos o seu número de contribuinte. Muitos leitores chamam à FÁTIMA MISSIONÁRIA “a nossa revista”. É bom que assim pensem e assim procedam. A revista é feita por muitas mãos e lida por mais de 100 mil leitores. Ela é mesmo nossa! Somos uma grande família.

Diálogo aberto Entregamos o produto do nosso

mealheiro para o projeto da Costa do Marfim. É o conteúdo do nosso “porquinho”, onde fomos colocando ao longo do ano todas as migalhas em vista do projeto. Como Mulheres Missionárias da Loureira aproveitamos para agradecer tudo o que fazem na Consolata para nos despertar e acompanhar neste serviço às missões. Sabemos que o dinheiro não é tudo, mas, com a graça de Deus vamos também fazendo outras coisas pela causa missionária. Que o beato 6

Um grande carinho

Envio cheque para a renovação da minha assinatura. O resto é para o que for mais urgente. Rezo sempre por todos os missionários que estão ao serviço dos irmãos. Sou uma fã dos nossos missionários que partem por esse mundo além a fim de ajudarem tantas pessoas necessitadas, enquanto outros, sem coração, esbanjam o que faz falta a tanta gente. Aqui fica um grande carinho para todos os que trabalham nesta causa. Adelina

Parece incrível

Saúde e boa disposição a quantos trabalham nesta nossa revista tão bela, que nos vai trazendo notícias do mundo inteiro: umas mais alegres do que outras. Mas é o que se passa no nosso mundo. Parece incrível que no nosso século ainda haja situações tão duras para tanta gente. Gosto de ler e reler tudo o que esta nossa Fátima Missionária traz. E obrigado por todo o vosso trabalho. Maria José

Allamano do céu interceda por cada uma de nós e suas famílias.

A minha adesão

Envio esta quantia para renovação da assinatura. O resto vai para as missões. É pouco, mas é de todo o coração. Muito obrigado por tantas informações sobre o mundo missionário. A revista é simplesmente maravilhosa e rica de conteúdo espiritual. Fiquem com a certeza da minha adesão à vossa causa para o bem das pessoas mais necessitadas. Gracinda

Admiro o vosso trabalho

Queria expressar toda a minha admiração pelo vosso trabalho. Primeiro da equipa da Fátima missionária. Depois por todo o serviço desenvolvido nas missões por aqueles que lá trabalham. As notícias que nos vão chegando através da revista são úteis para conhecer por dentro essa realidade tão esquecida pelas pessoas. Bem hajam por nos despertarem para essa causa. Oxalá que as pessoas, na retaguarda, não deixem de vos apoiar. Luís Carlos

da Hora Allamano em comunhão com toda a família da Consolata. Mulheres Missionárias da Loureira – Leiria Depois intervêm também com a feitura de alfaias litúrgicas, toalhas, bordados e afins para o altar que Sou testemunha de todo o serviço serão enviados para as missões. que este grupo das Mulheres Aproveitam todas as ocasiões para Missionárias da Consolata da angariar fundos, não esquecendo Loureira presta às missões. Não a difusão da nossa Fátima só pela quantia de 685 euros que Missionária. Quem dera que vieram entregar para o nosso noutras localidades surgissem projeto, mas também por toda a grupos de mulheres assim. Bem oração e dedicação em favor da causa missionária. Todos os meses se hajam. DV reúnem por duas vezes: na segunda quarta-feira de cada mês, para a oração e uma pequena instrução e no dia 16 de cada mês para a oração


horizontes

O cabo da boa esperança texto TERESA CARVALHO ilustração HUGO LAMI Rita vive no Brasil há sete anos. O nascimento de Sofia e a grande ligação ao marido têm apaziguado a sua saudade de todos quantos deixou em Portugal. Hoje regressa de visita. O coração não saltita de alegria como da última vez que visitou a família. A viagem tem uma missão específica: salvar o pai e a avó. O pai, alcoólico, sem trabalho desde há muitos anos, reside com a avó que o protege e sustenta. O envelhecimento e o cansaço da avó retiraram-lhe a autoridade que a mantinha protegida dos comportamentos mais violentos do filho. Agora, fragilizada pela idade e pela perda de algumas faculdades físicas e mentais, sofre os efeitos da degradação crescente que o álcool ajudou a moldar no comportamento do filho. As múltiplas tentativas de vários serviços para que José aceitasse fazer um tratamento foram fracassadas. Por isso, os esforços concentram-se agora em proteger a Dª Lúcia, proporcionando-lhe um centro de convívio para idosos. O lar tinha sido por ela recusado por não poder proteger o filho que continua a tratar como o seu “menino”, apesar da violência que este lhe inflige. Esta foi a primeira casa que Rita quis visitar. O estado em que encontrou o pai superou as suas piores expetativas: encontrou-o caído, adormecido e molhado pelo efeito do álcool, envolto num cenário de sujidade e destruição. Esta imagem apanhou-a de surpresa e derrubou a esperança que vinha alimentando. Como poderia ajudar a erguer alguém já tão destruído? O sentimento de compaixão foi suplantado pela

revolta de saber que aquele homem, seu pai, usou a sua vida para “isto”. Apenas “isto”. Traiu a sua condição de homem e o sonho da Rita desde menina, quando imaginava que o pai, um dia, aproveitaria a vida e perceberia quanto ela o amava. O desânimo do primeiro momento deu lugar à ação imediata. Marcou consulta para o pai e impôs-lhe tratamento alcoólico, abordou os serviços de apoio à avó para tentar um lar onde possa residir, deu à casa um ar de lar e assumiu o comando da vida de ambos.

sol entrou. E à distância, continua a monitorizar a situação e a enviar reforços que ajudem a balizar um percurso diferente. Sabe que o pai poderá ser o alcoólico de sempre, mas deixou mais uma vez claro que, no outro continente, bem perto dele, a filha ainda não desistiu e convida-o ao mesmo: esta viagem de Rita transformou a “Tormenta” em “Boa Esperança”. É um ótimo recomeço!. O futuro está em aberto para ser preenchido com aquilo que José decidir – com aquele sol que o amor faz brilhar, esperamos!

Antes de regressar ao Brasil, Rita deixou-os com um rumo onde o Janeiro 2014

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mundo missionário texto E. AssunçãO fotos LUSA

Refugiados sírios entre a guerra e a neve

ARCEBISPO DE DELHI PRESO PELOS DIREITOS DOS DALIT

As condições dramáticas em que vivem as centenas de milhar de refugiados sírios fugidos à guerra tornam-se ainda mais dramáticas com a chuva gélida e a neve que se abateram sobre o Mediterrâneo Oriental. A tempestade Alexa, de dezembro passado, tornou-lhes a vida insustentável. “No imenso campo de refugiados de Zaatari, a tempestade fez voar as tendas e todos sofrem”, refere Wael Suleiman, diretor da Cáritas da Jordânia. “Desde o início da emergência, os refugiados já atingiram os 200 mil e o número continua a aumentar, apesar da neve e do gelo. Não conseguimos fazer face a esta maré de mulheres, crianças e homens que fogem da guerra para uma vida de privações e sofrimentos”. No início de dezembro, os refugiados sírios em território jordano eram já 322 mil. Situação tão dramática atinge também os refugiados do Líbano.

Anil Couto, arcebispo católico de Delhi, na Índia, foi interpelado pela polícia. Juntamente com bispos e líderes de outras confissões, o arcebispo participava numa marcha pacífica de protesto a favor dos direitos dos dalit. A caminho do Parlamento indiano, os manifestantes sofreram cargas violentas da polícia, que prendeu um grande número de pessoas. Anil Couto e outros bispos foram interpelados pela polícia e os líderes cristãos só “foram libertados ao fim da tarde”. No entanto, foi apresentada uma queixa contra a polícia de Delhi por ter agredido e batido em religiosas e padres católicos. O pretexto exigia também a abolição do decreto presidencial de 1950, que legaliza a discriminação, negando direitos iguais a cristãos e muçulmanos de origem dalit. Tal discriminação foi aplicada aos sikh em 1956 e aos budistas em 1982.

Missão em Angola

Tobias Oliveira, missionário da Consolata português em Roma

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Quando em 1954 dei entrada no seminário da Consolata em Fátima, por detrás da minha decisão estava em parte o facto de eu ter um tio padre o qual nessa altura trabalhava em Angola onde praticamente exerceu todo o seu ministério sacerdotal. Isso levava-me a considerar Angola como um meu possível campo de missão, mas tal nunca pôde ser porque a minha família da Consolata não estava presente nesse país, ou como então se dizia nessa província ultramarina. Passados todos estes anos eis que aqui em Roma a Direção Geral do Instituto, depois de longo estudo e reflexão, decide expandir a nossa presença em África e


PROBLEMA DA TERRA VISITAs especiais “ocupam” MANTÉM BRASIL em guerra CONVENTO EM ÁFRICA Os bispos do Brasil, mais uma vez, levantam a voz “em defesa da vida, da justiça e da paz entre indígenas e agricultores” do país. Num documento intitulado “Povos indígenas e agricultores”, os prelados exprimem a sua preocupação pela “angústia” causada pelo adiamento da resolução “dos conflitos da terra”. Publicado em finais de novembro, o documento afirma: “O momento é crítico e requer uma ação urgente e eficaz”. Os bispos apontam duas soluções: “O reconhecimento dos direitos históricos e constitucionais dos povos indígenas sobre as suas terras tradicionais; e o reconhecimento dos títulos fundiários concedidos em boa fé”. É “inaceitável” que o governo central e os governos estaduais retardem e impeçam a solução destes problemas. Aumenta a incerteza, a angústia e o risco de conflitos perigosos entre indígenas e agricultores. Ambos são “vítimas de um modelo errado de ocupação do território brasileiro”, afirmam os bispos.

“Hospedamos no Carmelo mais de 2.000 pessoas. É difícil contá-las a todas. Vêm dos mais variados bairros e a maior parte são crianças com as suas mães”, explica o missionário carmelita Frederico Trinchero, de 35 anos, superior do convento Notre Dame, de Bangui, capital da República Centro-Africana. O convento acolheu um primeiro grupo de 600 pessoas, a 5 de dezembro, quando deflagraram os violentos combates entre os rebeldes Seleka e as milícias “anti balaka”. Num segundo momento, a situação piorou e juntaram-se-lhes centenas de pessoas: “Acolhemos a todos de braços abertos, instalando-os o melhor possível”. As condições precárias de segurança impedem a chegada ao convento de alimentos e medicamentos. Mas os “prezados hóspedes”, como lhes chama o padre Frederico, organizaram-se o melhor possível para suprir as carências e privações. Cerca de 2.000 pessoas têm de conviver num espaço mais ou menos igual a um campo de futebol.

escolhe Angola como próximo campo de missão. Iniciaremos em Viana, não muito longe de Luanda, e os primeiros missionários para lá destacados – um colombiano, um venezuelano e um queniano – preparam-se para entrar no país lá para junho próximo. Se é verdade que Angola me atraía desde criança, a abertura agora decidida chegou um bocadinho atrasada para as minhas pernas, mas é belo notar que a mesma vai ser confiada a um africano e dois sul americanos. Caros leitores, dai graças a Deus por este grande dom que nos foi concedido para 2014.

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a missão hoje

Exortação apostólica do Papa Francisco faz um apelo à cultura do encontro

O Amor verdadeiro está sempre primeiro texto ANTÓNIO COUTO* foto LUSA Vejo a exortação apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, a primeira e programática do seu pontificado, como uma torrente de “óleo de alegria” a inundar, lubrificar e tonificar todos os recantos de uma Igreja que se quer em “vestido de festa”, jubilosamente saindo de si mesma, das amarras do medo, do comodismo, da indiferença, do quietismo, de toda a rigidez autodefensiva, do telónio da administração seja do que for. É, na verdade, necessário e urgente passar da “simples administração” para um “estado permanente de missão”. Requer-se, portanto, uma nova cultura e postura de evangelização, que vá muito para além de uma simples pastoral de manutenção. Deve notar-se que, nas comunidades cristãs primitivas, o termo “Evangelho” é um nome de ação e não de estado. 10

Significa “anunciar a notícia feliz da ressurreição de Jesus”, pelo que não pode ser confundido com um livro que gera vidas colocadas na estante. “Evangelho” significa então “evangelização”, e evangelização implica movimento e comunicação, e requer tempo, dedicação, formação, inteligência, entranhas, mãos e coração. Da paleta de tintas do Papa Francisco sai uma Igreja pobre, leve e bela, com uma “tarefa diária: cada um levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra”. A esta Igreja bela não serve o velho hábito daquilo a que ele chama o “deveriaqueísmo” – que somos nós cómoda

Se não sair ao encontro dos outros, sobretudo dos pobres, se não os tiver sempre presentes e não nutrir por eles um carinho particular, a Igreja perde credibilidade e o seu critério chave de autenticidade e de autoridade. A autoridade na Igreja é sempre por transparência. Transparência de Cristo, deixar passar Cristo. “Nós só nos devíamos lembrar dos pobres”, aí está a condição que rege a missão do apóstolo Paulo, “o maior missionário de todos os tempos” e “modelo de cada evangelizador”


palavra de colaborador e vaidosamente sentados a discutir “o que se deveria fazer”. É o “excesso de diagnóstico” ou o “excesso de meios, míngua de fins” (Edmund Pellegrino). Sim, este não é o tempo do “deveriaqueísmo”, mas o tempo de a Igreja inteira sair de si mesma, do seu estatismo autorreferencial. Este é o tempo da leveza e da agilidade do Evangelho, de a Igreja “primeirear”, levando a todos, sobretudo aos pobres, o anúncio do Evangelho, que é “a primeira caridade” e “o primeiro serviço que a Igreja pode prestar ao homem e à humanidade inteira”. O ícone feliz desta maneira de viver bem pode ser “Nossa Senhora da prontidão, que sai ‘à pressa’ da sua povoação para ir ajudar os outros”. Se não sair ao encontro dos outros, sobretudo dos pobres, se não os tiver sempre presentes e não nutrir por eles um carinho particular, a Igreja perde credibilidade e o seu critério chave de autenticidade e de autoridade. A autoridade na Igreja é sempre por transparência. Transparência de Cristo, deixar passar Cristo. “Nós só nos devíamos lembrar dos pobres”, aí está a condição que rege a missão do apóstolo Paulo, “o maior missionário de todos os tempos” e “modelo de cada evangelizador”. É bom que a Igreja viva em permanente sintonia com as frequências do Sermão da Montanha, em que os primeiros destinatários da felicidade são os “pobres de espírito”, que são os que não têm espaço político, económico, social, educacional, cultural, humano: aqueles que não têm espaço vital, que não têm espaço nenhum, com quem ninguém conta, nem contam para ninguém. Para levar a todos e a todos envolver nesta onda de felicidade, é preciso uma Igreja feliz, liberta de todas as amarras, do formalismo e do calculismo da administração, da frieza da indiferença, do medo que tolhe os movimentos e leva ao pecado da estagnação e da auto-preservação, poço de águas inquinadas. *Bispo de Lamego e presidente da Comissão Episcopal da Missão e Nova Evangelização

Gosto de fazer o bem texto DARCI VILARINHO É a terceira vez que falamos da Folgosa da Maia. Mas nunca é demais referir-nos a uma vila que tanto tem feito pelas missões. Digam-no os missionários que ao longo destes anos passaram por lá. Refiro-me desta vez à Ana Dores Pinto Sousa que fui visitar na sua própria casa. Perante o nosso agradecimento diz simplesmente: “Gosto de ajudar e de fazer o bem”. Mulher simples, cheia de fé. Vive com o marido reformado e é mãe de três filhos. O mais novo, quando já estava no 3º ano da universidade, faleceu de acidente, há dez anos, mesmo em frente da sua casa. Foi um duro golpe que pôs em crise a sua fé: “Fui abaixo, mas levantei-me”, diz ela com coragem. “A minha fé ainda ficou mais forte e fiquei mais desejosa de fazer o bem… Vai tudo em favor do meu filho”, remata ela corajosamente. Na verdade, Deus lá tem os seus desígnios, mas tenho visto pouca gente com uma fé tão forte. A vida não pode parar. Corações ao alto! Com a ajuda da dona Amália, da Legião de Maria, tem a seu cargo toda a zona de São Frutuoso da Folgosa, para a recolha de assinaturas. E o seu gesto não ficará em vão.

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a missão hoje

Consolata reforça presença em África e na Ásia

abrir duas novas frentes de missão: uma em Luanda, Angola, e outra em Taipé, na ilha de Taiwan. Os primeiros missionários começam a adaptar-se às novas comunidades no início de 2014.

texto Francisco Pedro foto LUSA

Quase 100 anos depois, o IMC cumpre o sonho do fundador, o beato José Allamano, que em 1920, por falta de missionários, teve que recusar o convite que lhe fora feito para criar uma missão em Angola. Das três dioceses monitorizadas, durante os últimos três anos, a escolha recaiu na de Viana, por ficar nos arredores de Luanda, onde se concentram cinco milhões de pessoas com necessidades de apoio, e pelo facto de se tratar de uma comunidade que fica na periferia urbana.

A vontade de alargar a presença missionária no continente asiático e o desejo antigo de levar a esperança da consolação ao povo angolano impulsionaram o Instituto Missionário da Consolata (IMC) a

Angola será assim o oitavo país de África onde os Missionários da Consolata trabalham, depois do Quénia, Etiópia, Tanzânia, Moçambique, África do Sul, Congo, Uganda e Costa do Marfim. Os três

O Instituto Missionário da Consolata vai abrir duas novas frentes de missão. Uma em Angola, outra em Taiwan. Os primeiros missionários serão enviados no início deste ano

sacerdotes destinados a Luanda terão um período de preparação e adaptação ao país, estando a abertura da missão prevista para junho. Em Taipé, na província de Taiwan, República da China, a tarefa dos três missionários já indigitados irá revelar-se mais

A Igreja Católica conta cerca de 300 mil fiéis na ilha, [Taiwan] num universo de 23 milhões de habitantes, e confronta-se com a forte implantação de outras religiões consideradas maioritárias, como o budismo, o taoismo, o confucionismo e, sobretudo, com as chamadas religiões difusas ou tradicionais espinhosa, pela necessidade do estudo do mandarim, sem o qual é praticamente impossível trabalhar com eficácia. A Igreja Católica conta cerca de 300 mil fiéis na ilha, num universo de 23 milhões de habitantes, e confronta-se com a forte implantação de outras religiões consideradas maioritárias, como o budismo, o taoismo, o confucionismo e, sobretudo, com as chamadas religiões difusas ou tradicionais. “Temos a certeza de que, por ora, terá que ser uma presença modesta mas relevante, capaz de criar uma ligação entre o Instituto e este mundo, a língua e a cultura chinesas”, afirmou o Superior-Geral do IMC, Stefano Camerlengo, sublinhando que a abertura ao continente asiático “constitui um grande passo” para a congregação, que nasceu para a África e é hoje essencialmente ‘africana’, quer na formação missionária, quer na composição vocacional.

A abertura de uma missão em Taiwan constitui um grande desafio para os missionários

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destaque

Nelson Mandela (1918-2013)

O homem feito Humanidade texto CARLOS CAMPONEZ foto LUSA Há uma contradição insanável nas muitas palavras e nos discursos que nas últimas semanas foram pronunciados a propósito da morte de Nelson Mandela: quanto mais celebramos a vida do homem, que Mandela sempre quis ser, mais corremos o risco de erguer o mito, a que ele sempre renunciou. A construção do mito ficou a dever-se, sem dúvida, ao discurso que os próprios media foram criando em torno de Mandela: logo que se soube da sua morte, há muito prevista devido ao periclitante estado de saúde, saíram dossiers, programas especiais sobre Mandela, preparados há semanas, talvez mesmo há meses. Mandela era

mortal – sabíamo-lo todos – e foi nessa inexorável condição humana que partiu. Porém, a dimensão de Mandela vai para além dos media, por muito que eles tenham contribuído para a sua mediatização. Mandela lutou pacificamente contra o regime do apartheid, recorreu à violência quando sentiu que essa seria a solução num regime que não dava sinais de mudança. Considerado um terrorista, foi condenado à prisão, de onde sairia 27 anos mais tarde, com 71 anos de idade. Quando muitos viram na sua libertação a chegada do momento do ajuste de contas, Mandela não só falou numa paz que parecia utópica como a cumpriu durante o seu mandato de Presidente, acabando por refundar a África do Sul “unida, não racial, não sexista, democrática e próspera”, como recordou o atual presidente, Jacob Zuma.

Valor de Humanidade

A África do Sul que deixou está ainda longe do seu ideal. Serão precisas ainda várias décadas para que o nível de vida entre brancos e negros em termos económicos se equipare. Porém, os próximos

dirigentes sul-africanos irão certamente ter de responder pelo legado de exemplo e de esperança deixado por Mandela, perante um povo que encontrou um referencial de homem político… E essa é uma situação ímpar na história recente de África. Mas também o é para o mundo, como sublinharam os líderes mundiais nas cerimónias fúnebres. Foi na condição de exemplo que Mandela desafiou a própria condição humana e se aproximou da dimensão divina, qualquer que seja a noção que disso tenham os homens de diferentes credos e religiões, ou mesmo os não crentes. Ironicamente, por mais que Mandela tivesse dito que não era um santo, essas palavras parecem jogar a favor da construção do mito que ele recusava que se fizesse de si. Mas talvez que o que muitos veem de perfeição na imagem de um santo, mais não seja do que o desejo e o valor universal que todos temos de humanidade.

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atualidade

ALERTA Conflitos obrigam 16 milhões de pessoas a fugir de casa

Migrações exigem mudança de mentalidade A tragédia de Lampedusa (Itália), onde recentemente morreram 366 migrantes que tentavam chegar à Europa, veio chamar de novo a atenção para o problema dos fluxos migratórios. O Papa Francisco tem sido incansável a pedir um novo modelo para enfrentar o fenómeno das migrações texto FRANCISCO PEDRO foto LUSA Todos os anos tentam entrar no espaço da União Europeia mais de 100 mil migrantes ilegais. Se a isto juntarmos os números recorde de deslocados internos e de refugiados, resultantes de conflitos armados como os da Síria, República Democrática do Congo ou República Centro-Africana, facilmente se percebe o aumento crescente da quantidade de pessoas que abandona o seu país, na sequência da guerra, da fome ou de catástrofes naturais. Só em 2013, segundo as Nações Unidas, mais de 16 milhões de pessoas passaram por esta aventura. Desesperados, muitos destes migrantes acabam nas garras de traficantes humanos sem escrúpulos, ou nunca conseguem chegar aos países de destino, como aconteceu com as 366 pessoas que morreram no Mediterrâneo, em outubro de 2013, ao largo da ilha de Lampedusa, em Itália. A tragédia levou o Papa a desafiar o mundo a abandonar “a cultura da indiferença” e a olhar de forma mais humana para a situação destas pessoas, obrigadas a fugir de casa por razões alheias à sua vontade. “Os migrantes e refugiados não são peões no tabuleiro de xadrez da humanidade. Trata-se de crianças, 14

mulheres e homens que deixam ou são forçados a abandonar as suas casas por vários motivos, que compartilham o mesmo desejo legítimo de conhecer, de ter, mas, acima de tudo, de ser

Portugal retoma tendência de emigração Os movimentos migratórios

em Portugal registaram uma alteração significativa nos últimos anos, devido à crise económica e social que afeta o país. Os dados mais recentes disponibilizados pela Base de Dados Pordata indicam uma queda acentuada da entrada de imigrantes em território nacional e um aumento da taxa de emigração. Dos 43 mil imigrantes entrados em 1998, passou-se para 19 mil em 2011. Ao contrário, em 2011 mais de 43 mil portugueses foram procurar novas formas de vida noutro país da União Europeia, um número bastante mais alto do que os 11 mil emigrantes registados em 1998.

mais”, alertou o Sumo Pontífice, na mensagem que escreveu para a Jornada Mundial dos Migrantes e Refugiados, que se celebra no dia 19 de janeiro. Para Francisco, a realidade das migrações, com as dimensões que assume nesta época de globalização, “precisa ser tratada e gerida de uma maneira nova, justa e eficaz, o que exige, acima de tudo, uma cooperação internacional e um espírito de profunda solidariedade e compaixão”. “Nenhum país pode enfrentar sozinho as dificuldades associadas a esse fenómeno que, sendo tão amplo, já afeta todos os continentes com o seu duplo movimento de imigração e emigração”, acrescenta o Santo Padre. Segundo o Papa, “a chegada de migrantes, prófugos, requerentes de asilo e refugiados” gera, por norma, “desconfiança e hostilidade nas populações locais”, que temem perturbações na segurança social, receiam perder a identidade e a cultura e têm medo que se alimente a concorrência no mercado de trabalho ou, ainda, que se introduzam novos fatores de criminalidade. Sendo assim, Francisco pede uma mudança de comportamentos, passando-se “de uma atitude de defesa e de medo, de desinteresse ou de marginalização”, para uma atitude que tenha por base a “cultura do encontro”, a única capaz de construir “um mundo mais justo e fraterno, um mundo melhor”. Depois do acidente de Lampedusa e da deslocação do Sumo Pontífice à ilha italiana, o debate político sobre os fluxos migratórios também conquistou espaço na agenda da União Europeia. Os Estados membros aprovaram uma declaração conjunta defendendo


ONU e União Europeia planeiam novas medidas para enfrentar o aumento das migrações

“ações firmes para prevenir a perda de vidas no mar” e propuseram-se delinear uma série de medidas para gerir melhor os movimentos de migrantes, entre elas o reforço das fronteiras e do patrulhamento marítimo, sobretudo nas rotas mais usadas pela migração. O relator especial das Nações Unidas sobre os direitos humanos dos migrantes, François Crépeau, foi mesmo mais longe, ao defender

a integração da Organização Internacional para as Migrações (OIM) na orgânica da ONU e a criação de canais reguladores, que respondessem às necessidades de trabalho não reconhecidas nos países de destino. “Se os Estados reconhecessem tais necessidades laborais, incluindo trabalhos de baixas qualificações e abrissem mais canais de migração, nomeadamente sanções para os empregadores sem escrúpulos que

exploram os migrantes irregulares, tal resultaria em menos travessias ilegais de fronteiras, menos contrabando de imigrantes, menos perdas de vidas e violações dos direitos dos migrantes”, concluiu o especialista em direitos humanos.

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dossier

DESAFIO Combate às desigualdades continua por vencer

África do Sul de olhos no pós-Mandela Este ano é de eleições na África do Sul e pela primeira vez, desde que a democracia multirracial triunfou, Nelson Mandela não estará vivo para relembrar aos políticos negros e brancos que o longo caminho iniciado há duas décadas ainda está em boa parte por percorrer. Com a economia a crescer apenas dois por cento ao ano, o combate às desigualdades continua a ser um grande desafio para o ANC, o partido dominante que deverá voltar a vencer de forma esmagadora, apesar das cisões texto LEONÍDIO PAULO FERREIRA* fotos LUSA

Os apupos populares que recebeu o presidente Jacob Zuma a 10 de dezembro no estádio de Joanesburgo onde o mundo estava a homenagear Nelson Mandela devem ser lidos como um alerta pelo ANC, o partido que lutou 16

contra o fim do regime racista do apartheid e sob a liderança de ‘Madiba’ conquistou em 1994 o direito de voto para os negros, hoje mais de dois terços dos 51 milhões de sul-africanos. É que na primavera voltará a haver eleições

na maior potência económica de África e há quem adivinhe nova quebra nos resultados da força governamental. Além do desgaste causado pelos escândalos pessoais do Presidente (como os gastos públicos na sua casa por questões


de segurança) também a economia cresce pouco, o que trava o combate às desigualdades sociais, muito marcadas ainda pela cor da pele. Zuma, que esteve dez anos preso por lutar contra o regime racista,

tornou-se em 2009 o terceiro presidente negro eleito pelos sul-africanos. Mandela, que passou três décadas na prisão até ser libertado em 1990, fora o primeiro, Thabo Mbeki foi o segundo. Ao contrário de ‘Madiba’,

o nome tribal carinhoso de Mandela, os seus sucessores estão longe de ser figuras consensuais e sobretudo Zuma, que chegou a ser julgado por corrupção e até por violação, só chegou ao poder depois de ter afastado Mbeki da Janeiro 2014

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O bispo Desmond Tutu, outro herói da luta anti-apartheid e Nobel da Paz em 1984, apressou-se a criticar aqueles que adivinham “a chegada do dia do juízo final” para a África do Sul, agora que o pai da nação morreu. O clérigo anglicano relembrou que Mandela, falecido a 5 de dezembro com 95 anos, mostrou bem aos seus herdeiros políticos e não só que o país precisa de todos e que não há feridas do passado que não possam ser saradas através do perdão e da reconciliação

liderança do ANC, pondo fim ao mito da coesão no partido.

antecederam a sepultura final na aldeia de Qunu, a 15 de dezembro.

Ora, é a Zuma que cabe agora mostrar que os valores morais de Mandela, em especial o conceito de nação arco-íris, são capazes de sobreviver à morte do líder admirado tanto no seu país como planeta fora, como prova a presença de uma centena de atuais e ex-chefes de Estado e de governo nas cerimónias fúnebres que

O bispo Desmond Tutu, outro herói da luta anti-apartheid e Nobel da Paz em 1984, apressou-se a criticar aqueles que adivinham “a chegada do dia do juízo final” para a África do Sul, agora que o pai da nação morreu. O clérigo anglicano relembrou que Mandela, falecido a 5 de dezembro com 95 anos, mostrou bem aos seus

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herdeiros políticos e não só que o país precisa de todos e que não há feridas do passado que não possam ser saradas através do perdão e da reconciliação.  Depois de terem negociado o fim do apartheid, tarefa imensa do presidente Frederik de Klerk, os brancos (hoje nove por cento da população) decidiram na sua esmagadora maioria acreditar no futuro sob a liderança do ANC. Ao mesmo tempo, o partido de


no ANC. Por um lado, radicais como Julius Malema exigem ações contra o domínio da economia pelos brancos, por outro setores moderados apontam o dedo ao ANC por ser ineficaz a lidar com a economia. O certo é que dos 70 por cento de votos em 2004 o partido baixou para 66 por cento em 2009 e agora deverá voltar a baixar, mesmo que a Aliança Democrática, de Helen Zille, tarde em convencer o eleitorado que não é o partido dos brancos e dos mulatos, mas sim uma potencial alternativa de governo. A África do Sul até acolheu a última cimeira dos BRICS, o grupo das potências emergentes, mas o seu crescimento económico de dois por cento em 2013 é anémico comparado com os da China ou da Índia. E com esse ritmo é impossível fazer o desemprego baixar da fasquia dos 25 por cento, o que impede milhões de jovens, em especial negros, de sonharem com uma vida melhor. Muitos sentem-se traídos pelo ANC e a morte de 33 mineiros em finais de 2012 numa mina em confrontos com a polícia reforça a ideia de que o partido prefere os poderosos aos pobres, mesmo se estes lutam apenas por salários mais justos.

Mandela pôs de lado as ideias de revolução socialista e apostou antes numa progressão pouco a pouco dos negros. Medidas de incentivo conseguiram criar uma elite negra e até uma numerosa classe média, mas continua a ser gritante o fosso social baseado na cor da pele: dois terços dos negros são pobres contra cinco por cento dos brancos. Zuma é criticado pela falta de resultados e ameaçado de cisões

Para os brancos sul-africanos, que agradecem a Mandela o esforço conciliador, o momento é também de incerteza. Muitos vivem em bairros prósperos, afastados da criminalidade que é um dos dramas do país, mas sabem que as desigualdades têm de ser atenuadas. Um estudo recente mostrava que os nove por cento de sul-africanos brancos possuíam 76 por cento das ações em bolsa.  * jornalista do DN

DE BARTOLOMEU DIAS A MANDELA 1488 O navegador português

Bartolomeu Dias cruza o Cabo da Boa Esperança. Extremo sul de África era habitado há mais de mil anos por vários povos africanos vindos de norte, que se juntaram aos bosquímanes.

1497 Vasco da Gama, a caminho

da Índia, dá o nome de Natal a uma porção do litoral sul-africano, hoje uma província do país.

1662 O holandês Jan van Riebeeck funda uma colónia junto à atual Cidade do Cabo.

1795 Início da expansão britânica na África do Sul, com a conquista da Cidade do Cabo.

1835 Colonos de origem holandesa, os boéres (fazendeiros), criam a nordeste do Cabo o Transvaal e o Estado Livre de Orange. 1867 Descoberta de diamantes. 1879 Os britânicos derrotam os zulus na região de Natal. 1880 Primeira guerra entre os britânicos e os boéres.

1885 Descoberta de ouro no Transvaal. 1899 Segunda Guerra Boer. Acaba quatro anos depois com a vitória britânica. 1910 Independência da África do Sul, uma união das colónias britânicas do Cabo e de Natal e das repúblicas boéres do Transvaal e do Estado Livre de Orange. 1912 Fundação do Congresso Nacional Africano (ANC).

1919 Antiga colónia alemã da

Namíbia fica sob administração da África do Sul. Janeiro 2014

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1948 Partido Nacional, fundado em 1914, assume o poder e institui o regime de apartheid, que legaliza a segregação racial.

pelas sanções internacionais, De Klerk liberta Mandela.

1993 Nova Constituição negociada

1960 Protesto negro em Sharpville

para pôr fim ao apartheid. Mandela e De Klerk recebem o Nobel da Paz.

1964 Nelson Mandela, líder da ala

1994 Primeiras eleições multirraciais. ANC vence com mais de dois terços dos votos. Mandela torna-se Presidente e escolhe De Klerk como um dos dois vice-presidentes.

termina com 70 mortes. ANC é ilegalizado.

armada do ANC, é condenado a prisão perpétua.

1976 Confrontos no Soweto com

1995 Sul-africanos ganham

as forças policiais fazem 700 mortos.

1989 No auge do isolamento

internacional do país, Frederik De Klerk torna-se Presidente.

mundial de râguebi no seu próprio país, com Mandela a usar o campeonato para unir a nação. Famoso filme ‘Invictus’ testemunha o que se passou.

1990 África do Sul concede a

1998 Comissão Verdade e

independência à Namíbia e acaba com o seu envolvimento na guerra civil angolana. Pressionado

humanidade ao mesmo tempo que considera ANC responsável por violações dos direitos humanos. 

1999 Mandela retira-se. ANC volta a vencer e Thabo Mbeki é o novo Presidente.

2009 Jacob Zuma é eleito Presidente, mas ANC dá sinais de divisões. 2010 África do Sul recebe Mundial de Futebol.

2013 Morre Mandela. Quase uma

centena de atuais e ex-chefes de Estado e de governo assiste ao funeral. Os presidentes dos Estados Unidos, do Brasil e de Cuba discursam na cerimónia.

Reconciliação faz análise do passado violento do país e define apartheid como crime contra a

Zimbabué

População 51 milhões.

Botwsana Namíbia

Moçambique Pretória Suazilândia Joanesburgo

Capitais Pretória (capital executiva) e Cidade do Cabo (sede do parlamento). Maior cidade Joanesburgo. Línguas Onze com estatuto oficial,

Oceano Atlântico

ÁFRICA DO SUL

Lesoto

Cidade do Cabo

Um colosso africano Não é o maior país do continente (título cabe à Argélia depois da partição do Sudão) nem o mais populoso (aí ganha a Nigéria), mas a economia faz da África do Sul a mais poderosa das nações a sul do Sara. O seu PIB equivale a um quarto do de

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incluindo inglês, afrikaans (derivado do holandês), xhosa e zulu.

Religiões Maioria cristã (protestantes e católicos), islão, animismo, judaísmo e hinduísmo. Etnicidade Maioria negra, 10 por

todo o continente. Destaca-se ainda pela sua influência diplomática, em grande parte legado do prestígio de Nelson Mandela.

cento de mulatos, nove por cento de brancos, minoria indiana.

Esperança média de vida 53

anos para os homens e 54 anos para as mulheres.

Nome oficial República da África

Moeda Rand.

Área 1,2 milhões de quilómetros

Economia Riqueza mineira (ouro e diamantes) e indústria automóvel e de maquinaria.

do Sul.

quadrados.


QUATRO FIGURAS EM DESTAQUE

JACOB ZUMA

Nascido em 1942 numa família zulu, é Presidente da África do Sul desde 2009. Integrou a ala armada do ANC na juventude e passou dez anos na prisão por tentar derrubar o regime racista branco. Foi vice-presidente de Thabo Mbeki até ser afastado devido a suspeitas de corrupção. Chegou também a ser julgado por violação. Ilibado, Jacob Zuma desafiou Mbeki e tirou-lhe a liderança do ANC em 2007. Em 2014 lutará pela reeleição, apesar da crescente impopularidade e de cisões no partido, como a liderada por Julius Malema, hoje um dos seus grandes inimigos. É célebre por ter várias mulheres, segundo a tradição do povo zulu. 

JULIUS MALEMA

Destacou-se como líder da juventude do ANC pelas suas tomadas de posição racistas e chegou a ser apontado como o futuro líder da África do Sul por Jacob Zuma. Mas caiu em desgraça junto do Presidente, incomodado com os cânticos de morte aos brancos, e acabou por ser expulso do ANC. Julius Malema tem hoje 32 anos e apesar dos problemas com a justiça, incluindo suspeitas de enriquecimento ilícito, mantém ambições políticas, tendo mesmo criado um movimento político chamado Combatentes da Liberdade e da Economia, que visa desafiar o ANC. Zuma tem procurado não lhe dar demasiada importância, apesar dos constantes ataques.

HELEN ZILLE

Filha de imigrantes alemães, fala várias línguas, como o inglês, o afrikaans e o xhosa. Aos 62 anos, lidera o principal partido da oposição, a Aliança Democrática, e depois de ter sido uma bem sucedida presidente da câmara da Cidade do Cabo, conquistou o lugar de governadora da província do Cabo Ocidental, a única que escapa ao ANC. Jornalista, foi uma combatente anti-apartheid, e chegou a ser condenada a uma pena de prisão suspensa. Na sua casa, Helen Zille acolhia ativistas anti-regime durante a década de 1980. O seu grande desafio é conquistar eleitorado negro, pois o seu partido é visto como sendo de brancos e mulatos.

MAMPHELA RAMPHELE

Teve dois filhos com Steve Biko, combatente anti-apartheid que morreu em 1977 sob custódia policial, e foi obrigada ao exílio interno por contestar a supremacia branca. Médica, não desanimou e criou uma clínica para os pobres que se tornou mítica, e aproveitou ainda para estudar antropologia e gestão. Agora, Mamphela Ramphele, de 65 anos, formou um partido, o Agang (“Construir’), que visa desafiar a governação do ANC. Antiga vice-reitora da Universidade da Cidade do Cabo, antigo quadro do Banco Mundial, ex-gestora de uma empresa mineira, é amiga pessoal de Hellen Zille, líder da Aliança Democrática, que a queria no partido.

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gente nova em missão

convite Janeiro mês de oração e compromisso

Ser missionário é ser mensageiro da Paz

O que é a Paz?

“Deixo-vos a minha paz, a minha paz vos dou” (Jo 14, 27). A paz é um dom de Deus, é o sonho de qualquer missionário. Mas para que seja alcançada é preciso oração Olá pequenos missionários! Feliz Ano Novo! Janeiro é um mês bonito, é o primeiro do ano e, apesar do frio, as crianças regressam e compromisso. A paz não é o de guerra, a paz é quando felizes à escola; tudo regressa à normalidade. O Natal de Jesus está contrário partilharmos o pão e não houver no coração de todos, por isso não devemos esquecer a caridade que fome, é quando todos tiverem é para ser praticada todos os dias do ano. O dia de Ano Novo, acesso às ferramentas básicas que o primeirinho do ano é também Dia Mundial da Paz. Sabiam? Então permitam alcançar a verdadeira felicidade. Paz é quando somos e o que é a paz para vocês? rosto de Jesus Cristo e se o somos não há injustiça, há partilha, há texto ÂNGELA E RUI ilustrações RICARDO NETO amor. É a paz que Jesus nos dá.

Dia 1 de janeiro, Dia Mundial da Paz O Dia Mundial da Paz, inicialmente chamado simplesmente de Dia da Paz foi criado pelo Papa Paulo VI no dia 8 de dezembro de 1967, para

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que fosse celebrado sempre no primeiro dia do ano civil, 1 de janeiro, a partir de 1968 até à atualidade.

LEVAR A Paz ao mundo

Pois é, vocês missionários são todos mensageiros da paz. Não se esqueçam disso. Os Missionários da Consolata são um exemplo muito interessante. Porque não experimentam fazer na catequese um pequeno projeto sobre os Institutos Missionários Católicos? Decerto descobrirão como funciona “no terreno” esta vocação de se levar a paz ao mundo.


Sabias que

As Grandes Guerras Mundiais afetaram o evento da entrega do Prémio Nobel da Paz. De 1914 a 1916, durante a Primeira Grande Guerra Mundial, o Nobel não foi entregue. Apenas em 1917 (ainda durante o conflito), a Organização da Cruz Vermelha foi distinguida. Da mesma forma, na Segunda Grande Guerra Mundial, também não houve premiados entre 1938 e 1944. “A paz é fruto da justiça e efeito da caridade. É, antes de mais nada,

dom de Deus. Nós os cristãos, acreditamos que a nossa verdadeira paz é Cristo: n’Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros; n’Ele, há uma única família reconciliada no amor. A paz, porém, não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída”. Mensagem do Papa Bento XVI 45º Dia Mundial da Paz

O meu momento de oração Querido Jesus: O meu maior sonho É que todos possamos viver na paz Na Tua paz Por isso vou trabalhar arduamente Vou cultivar os valores mais importantes E não vou desanimar Pois na minha oração sei que ganharei as forças necessárias Neste novo ano o meu compromisso é contigo Vou ser um verdadeiro missionário Em casa, na escola e na catequese Para que vejam em mim um pedacinho de Ti Que és Tudo para todos. Pai Nosso…

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tempo jovem

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Retomar o voo texto LUÍS MAURÍCIO foto LUSA A sensação provocada pelo fracasso é um daqueles sentimentos que desequilibram a vida de qualquer pessoa, pois esta emoção dolorosa e inevitável mexe nas seguranças mais profundas da estrutura de qualquer tipo de personalidade. Ninguém está livre de fracassar na vida. O que importa é saber como enfrentar o fracasso e como nos libertamos dos possíveis bloqueios e armadilhas que este sentimento provoca em nós.

depois de um fracasso? Desagrado e frustração são os sintomas à flor da pele depois de experimentarmos que o puzzle da nossa vida fica desarmado após uma violenta sacudidela. É verdade que se sofre com o fracasso, mas não se pode negar que, se a experiência do fracasso se afronta com decisão, valentia e espírito de superação, o crescimento e a aprendizagem sobre a arte de viver estão garantidos. Pessoalmente estou convencido que o fracasso, assumido com maturidade, torna-se na outra cara do sucesso. Assumir o fracasso

Abrir as asas, retomar o voo e tentar outra vez, é o motivo fundamental da nossa vocação humana, pois fomos chamados a rasgar os céus e a destravar o tempo para encontrar o sentido profundo da nossa existência neste mundo Conheço um bom número de pessoas que há muito “sobrevivem” nas suas vidas sem experimentar a felicidade e, curiosamente, a palavra comum que une estas pessoas é a palavra “fracasso”. Fracassei no meu matrimónio, fracassei na minha carreira, fracassei na minha vocação, fracassei nos meus objetivos. A palavra fracasso, que provém do italiano, encerra dois possíveis significados com os quais me identifico muito: “estar no meio do abanão” e “partir algo em pedacinhos”. Quem de nós não experimentou estas sensações

“retomar o voo” ou de recomeçar torna-nos pessoas psicologicamente e espiritualmente saudáveis. A nossa estrutura humana foi criada para realizar os sonhos e para recomeçar sempre. Embora as noites frias da solidão nos queimem e as sombras do medo nos flagelem, é preciso recuperar o sorriso e dar espaço ao fogo que levamos dentro de nós para que nos aqueça os sentidos e nos mostre novos caminhos. Abrir as asas, retomar o voo e tentar outra vez, é o motivo fundamental da nossa vocação humana, pois fomos chamados a rasgar os céus e a destravar o tempo para encontrar o sentido profundo da nossa existência neste mundo.

com maturidade exige que a pessoa não generalize o aspeto pontual ou concreto do fracasso para todos os âmbitos ou dimensões da sua vida. Por exemplo, um fracasso laboral não pode influenciar o meu modo de amar ou viver a minha vocação fundamental. A atitude normal é que a pessoa, após um tempo conveniente, avalie o seu fracasso e à luz da sua descoberta possa corrigir-se e superar-se para evitar cair outra vez no mesmo. Quem prefere eternizar o fracasso com intensidade e sentimentos derrotistas está a caminho de uma enfermidade iminente. Cultivar em nós a atitude de Janeiro 2014

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sementes do reino

A mirra, usada para ungir os cadáveres, desde já vem recordar a morte cruenta do Salvador.

Saboreio a Palavra

Viemos adorá-lo

Faça uma visita a um presépio e contemple a cena. Imagine-se parte deste episódio, que vem iluminar a nossa vida. Agradeça a Deus que nos vem visitar

Enquanto alguns se obstinam em não ver a nova luz que brilha nos céus de Belém, um grupo de estrangeiros deixa a sua terra para descobrir e adorar essa mesma luz. A Epifania é a festa da universalidade desta luz. entanto, não se pode esquecer Não é exclusiva de alguns, é para No que naquela época era habitual todos os povos sinalizar o nascimento de uma texto PATRICK SILVA foto DR

Leio a Palavra

Mt 2, 1-12 “Tinha Jesus nascido em Belém…” assim começa o trecho do Evangelho, no qual por três vezes encontramos a palavra “Belém”. A repetição não é por acaso, mas uma maneira de mostrar a importância do local. Belém era a cidade de David, e por isso tinha que ser dessa cidade que o descendente de David deveria chegar. Uma estrela é o sinal que os três procuram para descobrirem onde está a verdadeira luz. A referência à estrela foi motivo de muitas reflexões, dos mais variados tipos. 26

personagem importante com o aparecimento de uma estrela. Deste modo o evangelista quer desde logo informar que estamos perante alguém muito especial. Os três são chamados “Magos”: a palavra é de origem grega e pode ter uma variedade de significados: mágicos, feiticeiros, astrólogos. Mais uma vez, o importante é a intenção do autor, o qual, ao afirmar que estes vêm de um lugar distante, revela como Jesus não é só para um pequeno grupo de pessoas, mas será a luz e salvação de todos os povos, será universal. Três são também os dons oferecidos ao pequenino. Ouro, por ser o novo rei. Incenso, por ser filho de Deus. E mirra. Um dom que quase parece de mau gosto!

As personagens do Evangelho têm atitudes muito diferentes. Os Magos deixam a sua terra na sincera procura do grande Rei. O primeiro encontro é com um rei pequeno, Herodes, que fica perturbado com a notícia de um grande Rei e tenta enganar os Magos, ao dizer que também o quer encontrar. Porém, só os Magos o encontram. É um encontro que se transforma em adoração: “Prostraram-se e O adoraram”. Este encontro foi tão profundo, que o regresso foi por outra estrada. Não é mais possível percorrer a mesma estrada. Quem se encontra com o Salvador, não pode percorrer os caminhos que antes percorria.

Rezo a Palavra

Faça uma visita a um presépio e contemple a cena. Imagine-se parte deste episódio, que vem iluminar a nossa vida. Agradeça a Deus que nos vem visitar.

Vivo a Palavra

Destes textos podemos extrair algumas atitudes que questionam a nossa vida. A primeira é a atenção dos Magos. Foram os únicos que viram a “estrela”. Quem sabe quantas estrelas brilham sem que nunca as vejamos, como Herodes e companhia. A segunda é a coragem dos Magos de deixar tudo e partir à descoberta da luz. Hoje, acomodados ao nosso conforto, permanecemos instalados, parados, sempre à espera que os outros venham. Finalmente, viram o Menino, reconhecem-no como Rei e adoram-no como Deus. Um percurso a ser imitado por todos nós.


intenção missionária

A Palavra faz-se missão JANEIRO

01

Santa Maria, Mãe de Deus Num 6, 22-27; Gál 4, 4-7; Luc 2, 16-21 Com a rainha da Paz Como é bom começar este novo ano com a invocação do nome de Maria, a Rainha da Paz, a Mãe da nossa esperança. Com muitos anseios e um programa bem claro de unidade dentro de nós e à nossa volta. A construir e a difundir. Há trabalho para todos. Quem semeia a esperança colherá a paz. Que o teu Evangelho, Senhor, nos ajude ao longo deste ano a percorrer os teus caminhos no respeito e amor a toda a gente.

05 Epifania do Senhor

Is 60, 1-6; Ef 3, 2-6; Mat 2, 1-12 Um foco de luz A vinda dos Magos do Oriente revela a vontade divina de salvar, em Jesus, todos os homens. Que todos O conheçam é o objetivo desta festa missionária. Os braços de Maria apresentam-no ao mundo. Mas cada um poderá ser um ponto de referência para que o mundo acredite. Os que, por graça de Deus, já viram a estrela, sejam os olhos de quem caminha pela noite dentro. Que a minha vida, Senhor, vivida à tua luz, te revele a todos os que ainda não te conhecem.

12 Batismo do Senhor

Is 42, 1-7; Act 10, 34-38; Mat 3, 13-17 Uma marca indelével Que diferença entre mim, batizado, e os que não o são? Que sinais de Cristo mostro eu a quem não acredita? Quantos de nós se recordam que o nosso batismo, recebido no nome da Santíssima Trindade e na certeza do amor de Deus por cada um, é a investidura da nossa missão na terra: ser luz para o mundo?

Torna-nos conscientes, Senhor, do batismo que recebemos, para que, amados pelo Pai, sejamos testemunhas do teu Reino.

19 2º Domingo Comum

Is 49, 3-6; 1Cor 1, 1-3; Jo 1, 29-34 Luz das nações “Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra”. É Jesus que, objeto das complacências do Pai, recebe d’Ele a missão de iluminar com a sua Palavra todos os povos da terra. Também nós, iluminados pela mesma luz, somos chamados a viver a mesma missão. Que a tua Igreja, Senhor, resplandeça no mundo, por meio de nós, como luz das nações.

26 3º Domingo Comum

Is 9, 1-4; 1Cor 1, 10-13.17; Mat 4, 12-23 “Vem e segue-me” Jesus não quis fazer tudo sozinho. Precisou de colaboradores que livremente o ajudassem na sua missão. Fê-los amigos, tornou-os apóstolos e pescadores de homens. E continua a lançar o mesmo convite na praia do nosso mundo: vem e segue-me, junta-te a mim, vive e proclama o que Eu anuncio. “Deixa que o mundo siga a sua aventura, deixa que o homem retorne à sua casa, deixa que a gente se entregue à sua riqueza, mas tu vem e segue-me”. DV

Para que os cristãos das diversas confissões caminhem rumo à unidade desejada por Cristo

Construir pontes De 18 a 25 de janeiro, decorre

a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, este ano subordinada ao tema “Estará Cristo dividido?” Com certeza que não, mas divididos andam ainda, depois de tantos anos, os discípulos de Jesus. São esses que devem mostrar que a procura da unidade é fundamental para que o mundo creia. Não é só uma semana de oração, mas de empenhamento de todos os cristãos a ultrapassarem com o seu estilo de vida barreiras, preconceitos e divisões, olhando sobretudo para aquilo que os une e valorizando o positivo de cada Igreja cristã. O diálogo é sempre fecundo. Dentro do mundo católico, entre cristãos de Igrejas diferentes, com os crentes de várias religiões ou até com as pessoas de outras convicções e culturas, que colaboram para a construção da paz e da fraternidade universal. Como resposta à pergunta “estará Cristo dividido?”, São Paulo pede que os cristãos cresçam em caridade uns para com os outros e para com todos. Não se instalem numa vida ordenada e tranquila, mas fechada em si mesma. Sejam comunidades abertas, para irem ao encontro de todos, e sejam sensíveis aos problemas e às necessidades dos outros. É próprio da caridade saber acolher qualquer pessoa e construir pontes, reconhecendo o positivo de cada um. DV

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o que se escreve Dia-a-dia com Santa Teresinha

O tempo ao sabor da fé

Esta obra apresenta diversos artigos escritos semanalmente por Nuno Brás, bispo auxiliar de Lisboa, no jornal “Voz da Verdade”. “Ter de escrever todas as semanas convida-me a estar mais atento ao que se passa à minha volta, na Igreja e no mundo”, diz o autor do volume, que acrescenta: “Estes textos – selecionados e ordenados pela editora – são fruto da procura pessoal de olhar o tempo que passa com a visão da fé cristã e com o seu sabor.” Autor: Nuno Brás Martins 248 páginas | preço: 14,00 € Paulus Editora

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Dia-a-dia com Padre Pio

Aqui está mais um livro sobre a jovem Teresa de Lisieux. É uma seleção de textos extraídos da sua autobiografia “História de um alma”, das suas cartas, poemas, orações e últimas conversas, que nos poderão acompanhar durante os 365 dias do ano. É um valioso instrumento para iluminar cada dia com a sabedoria de Santa Teresinha, há bem pouco tempo proclamada doutora da Igreja. Seleção de textos: Nestor Saporiti 270 páginas | preço: 8,00 € Paulus Editora

O Padre Pio é uma figura ainda pouco conhecida do público português. Esta seleção de textos extraídos do seu epistolário e de vários volumes da sua vida revela sentimentos profundos de um sacerdote em união contínua com Deus e muito atento a transmitir a todos o amor misericordioso do Pai, de quem este santo foi instrumento precioso. Com um pensamento para cada dia, o livrinho permite-nos conhecer melhor esta figura exemplar. 190 páginas | preço: 6,00 € Paulus Editora

Contos Africanos

As crianças da Europa falam ao Papa Francisco

É uma bela publicação que reúne vários contos tradicionais africanos que remontam a um passado anterior à escrita, contados em grupo por via oral por inúmeras gerações. Falam de virtudes e defeitos, de amigos e inimigos, de heróis e de justiça. Recorrendo às pessoas, aos animais e à natureza, transmitem valores morais, divertimento e emoção. As ilustrações de Ricardo Neto, bem conhecido dos leitores da Fátima Missionária, não podiam ser mais eloquentes. Reescrita e adaptação: Margarida Braga 48 páginas a cores | preço: 8,00 € Edições Papa-Letras

É um livrinho, bilingue, com 38 desenhos e mensagens para o Papa Francisco, enviados por crianças que vivem nas periferias de cidades europeias, pertencentes a outras tantas conferências episcopais da Europa. De Portugal foi selecionada a carta da Leonor: “Querido Papa Francisco, eu chamo-me Leonor e estou a escrever para ti porque admiro muito o teu trabalho! Fiquei muito feliz por saber que tínhamos um novo Papa. Pareces ser muito generoso, responsável, com fé e muito bondoso. Espero que continues a ser como és”. 96 páginas | preço: 7,90 € Paulus Editora


o que se diz Porquê receber o sacramento do Crisma?

Se o batismo nos faz discípulos de Cristo, o crisma chama-nos a ser seus apóstolos. Com tal sacramento descem sobre nós os dons do Espírito Santo que nos tornam capazes de nos empenhar na missão apostólica. É naturalmente um livrinho oportuno para quem se está a preparar para receber o sacramento da Confirmação. Autor: Cardeal Jorge Medina Estevez 60 páginas | preço: 6,00 € Paulus Editora

Todos entendem “A linguagem do Papa Francisco é tão coloquial e incisiva que

todos a entendem, mais ainda quando diz, sem formalidades, que o ‘evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral’; quando afirma, com frontalidade, que ‘a Igreja não é uma alfândega’, mas ‘a casa paterna, onde há lugar para todos’. Nem sequer lhe falta humor, rindo-se dos maus costumes: ‘o confessionário não deve ser uma câmara de tortura’, mas ‘o lugar da misericórdia’.” Rui Osório | Voz Portucalense | 4 de dezembro de 2013

Evangelizar com novo estilo “O novo ardor e dinamismo, que o Espírito, o tempo e o mundo

atual exigem, tem de traduzir-se num estilo evangelizador quotidiano, onde a alegria marca a identidade, o ritmo e o rumo. Acolher, testemunhar e celebrar a alegria do Evangelho no quotidiano, eis a missão que nos espera! Sem pressa, com humildade e criatividade, com uma ousadia acolhedora, estendendo a mão para levantar e erguendo a voz para denunciar”. Luís Miranda | Correio de Coimbra | 5 de dezembro de 2013

Economia de comunhão “O empresário é, antes de tudo, um gerador de riquezas e de Orar com os 5 dedos

É um método de oração, muito simples e acessível a todos, ensinado, há alguns anos, pelo cardeal de Buenos Aires, hoje Papa Francisco. Partindo dos cinco dedos da mão convida a rezar por nós próprios, pelos nossos familiares e amigos, pelos que nos ensinam e curam, pelos governantes, pelos doentes ou por aqueles que têm algum problema. As fotografias selecionadas ilustram perfeitamente o texto bem conseguido. Organização: Darlei Zenon 16 páginas | preço: 2,50 € Paulus Editora

trabalho, fazendo com que os pobres sejam incluídos na produção de bens, e deixem de ser apenas ‘consumidores’ de ajudas. Precisamos de ideias inovadoras que gerem lucros. Impõe-se aliar a comunhão dos lucros à comunhão dos talentos, para implementar projetos locais de desenvolvimento que envolvam os mais necessitados e promovam a reciprocidade”. José Maria Raposo | Cidade Nova | dezembro 2013

O desafio qualitativo “Não se é cristão para ser número, é-se cristão para ser luz e sal.

Nem os missionários são enviados para alistar sócios; são enviados para que a toda a criatura chegue a boa nova de Cristo, em total liberdade e opção consciente. Não importa o número; importa o testemunho”. Artur de Matos | Boa Nova | dezembro 2013

A novidade do método “Os bispos na Europa dizem e escrevem muitas vezes que ‘temos

muito que aprender da Igreja missionária’, mas são declarações que não têm aplicação concreta na pastoral ordinária de dioceses e paróquias. Agora chega o Papa Francisco que, de um modo imprevisto, desconcerta todos com a sua maneira de agir e de falar e conquista os corações, mesmo de muitos não cristãos. (…) Traz a novidade do método missionário”. Piero Gheddo | Além-Mar | dezembro 2013

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gestos de partilha

Costa do Marfim Mulheres Missionárias da Consolata (Fátima) 685,00€; Anónimo 13,00€; Julieta Pereira 30,00€; Rosa Gonçalves 29,00€; Fátima Matias 10,00€; Helena Barros 60,00€; Madalena Guerra 35,00€; Elvira Pereira 13,00€; Rosa Matias 218,00€; Anónimo 25,00€; Emília Pinto 5,00€. Total geral = 11.234,65€. Bolsa de Estudo Florinda Carreira 250,00€; Irmã Ana Pereira 250,00€; Clotilde Inácio 250,00€; Amélia Francisco 250,00€; João Barros 250,00€; Ludovina Morais 400,00€; Hermínio Bonito 250,00€; José Alves 250,00€; Teresa Machado 250,00€; Ad gentes 250,00€; Ad gentes 250,00€; Eugénia Talefe 250,00€; Conceição Portela 100,00€; Noémia Canavarro 10,00€. Gurué – Moçambique Maria José Moreira 5,00€. Crianças de Angola Augusta Carvalho 20,00€. Ofertas várias Conceição Monteiro 53,00€; Fernanda Ferreira 31,00€; José Santos 79,00€; Anónimo 120,00€; Isabel Rodrigues 26,00€; Estrela Cainé 43,00€; Ana Falcão 34,00€; Fernando Queirós 86,00€; Maria Luz Albuquerque 50,50€; António Marques 33,00€; Deolinda Figueiredo 36,00€; Henrique Macedo 86,00€; Celeste Pires 25,00€; Agostinho Gameiro 30,00€; Adelaide Simão 25,50€; Emília Fernandes 33,00€; Joaquim Crespo 33,00€; Céu Gomes 40,00€; Anónimo 36,00€; Zélia Sêco 43,00€; Maria Trindade Pereira 100,00€, Joaquim Nunes 86,00€

Contactos Pode enviar a sua oferta para a conta solidária dos MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA: NIB 0033.0000.45365333548.05 IBAN: PT50.0033.0000.45365333548.05 SWIFT/BIC: BCOMPTPL ou para uma das seguintes moradas: Rua Francisco Marto, 52 | Apartado 5 | 2496-908 FÁTIMA | Telefone 249 539 430 | fatima@consolata.pt Rua D.ª Maria Faria, 138 | Apartado 2009 | 4429-909 Águas Santas MAIA | Telefone 229 732 047 | aguasantas@consolata.pt Rua Cap. Santiago de Carvalho, 9 | 1800-048 LISBOA | Telefone 218 512 356 | lisboa@consolata.pt Quinta do Castelo | 2735-206 CACÉM | Telefone 214 260 279 | cacem@consolata.pt Rua da Marginal, 138 | 4700-713 PALMEIRA BRAGA | Telefone 253 691 307 | braga@consolata.pt Rua Padre João Antunes de Carvalho, 1 | 3090-431 ALQUEIDÃO | Telefone 233 942 210 alqueidao@consolata.pt Rua Estrada do Zambujal, 66 - 3º D | Bairro Zambujal | 2610-192 AMADORA | Telefone 214 710 029 | zambujal@consolata.pt Alameda São Marcos, 19 7º A e B |2735-010 AGUALVA-CACÉM |Telefone 214 265 414 |saomarcos@consolata.pt

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vida com vida

e atrizes. Aos 40 anos era dono duma discoteca. Mas nele ia crescendo a hidra da náusea, um vazio que lhe roía o coração. Um dia, uma das empregadas da discoteca disse-lhe: “Olhe, Mário, venda tudo o que tem, dê o dinheiro aos pobres e entre para irmão numa ordem religiosa”. Escreveu-nos, e foi recebido na nossa comunidade de Washington. Depois de duas semanas foi ter com o superior e disse-lhe: “Olhe, padre, enganei-me; isto não é vida para mim!” Mas o padre José disse-lhe: “Mário, quem põe mão ao arado e olha para trás, não é digno do Reino de Deus: olhar para trás é uma coisa muito, muito má…”. Impressionado, o Mário ficou, professou, e foi mandado para as missões da África. Em Garissa, uma zona desértica do Quénia, fundou uma aldeia para órfãos, com piscina e tudo. Ali produzia melões, tomates, papaias, uvas e bananas que vendia a restaurantes de Nairobi. Desde a sua conversão, repicava-lhe muito na alma a frase de São Paulo sobre Jesus Cristo, frase que o empurrava sempre para a frente: “Sei muito bem em Quem pus a minha confiança!” (II Tim 2, 12). Obrigado a voltar ao seu país, trabalhou com ardor na animação missionária em escolas e igrejas dos Estados Unidos.

DA NÁUSEA À MISSÃO O senhor Mário Petrino passou metade da sua vida ao deus-dará. Quando finalmente se converteu, a reviravolta foi bem útil ao Reino de Deus texto Aventino Oliveira ilustração H. Mourato Nasceu na Itália em 29 de novembro de 1913. Os pais emigraram para os Estados Unidos com os filhos quando o Mário era garoto. Ao chegar o tempo de ir para a escola, protestou o Mário que a escola não era coisa decente para seres

humanos, e que a vida era para gozar, não para trabalhar. Internado numa escola-reformatório, voltou a casa pouco depois com um bilhete do diretor que dizia: “Incorrigível”. Cresceu, vagabundeou por várias terras, tornou-se amigo de políticos

A saúde parecia ainda boa aos 89 anos, mesmo depois de cinco bypasses. No dia 19 de fevereiro de 2003, o irmão Mário passou a maior parte da manhã a rezar o terço sozinho na nossa capela. Depois do almoço sentiu-se indisposto. Foi ao médico, e ali no consultório caiu no chão com um ataque de coração. O velho produtor de melões de Garissa estava maduro para o Alto, ele que agora “bem via em Quem tinha posto toda a sua confiança!”

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outros saberes

SABEDORIA DE UM GOVERNANTE texto NORBERTO LOURO foto LUSA Li em qualquer lado, mas não me lembro onde, que este mundo está a ser governado preponderantemente por gente medíocre. Tal afirmação pareceu-me exagerada, porque generalizante. Não haja dúvida que, como andam as coisas, com os políticos sempre debaixo de fogo e a poderem auferir melhores salários e melhor vida nas empresas, governar não parece muito apetecível.

É provável até que a fuga dos mais dotados da arte de governar se torne uma realidade ou já o seja. E o cidadão se alheie cada vez mais do dever de dar as mãos para a construção dum mundo melhor. Morreu há dias Nelson Mandela que soube ser governante. Dizia que “os verdadeiros líderes devem estar prontos a sacrificar tudo pela liberdade dos seus povos”. “No meu país, é preciso ir para a cadeia, para depois ser Presidente”. De facto esteve preso durante 27 anos. Aos cidadãos negros e brancos, que se odiavam e guerreavam, confessou: “Cada vez estou mais convencido que quem faz a história são as pessoas comuns.

“Cada vez estou mais convencido que quem faz a história são as pessoas comuns. A sua participação nas decisões que dizem respeito ao futuro é a única garantia da democracia e da liberdade” Nelson Mandela

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A sua participação nas decisões que dizem respeito ao futuro é a única garantia da democracia e da liberdade”. E acrescentou: “A estrada para a liberdade nunca é cómoda e muitos terão que atravessar vales fustigados pelo vento e pela morte antes de chegar ao cimo da montanha dos próprios desejos”. E sugeriu-nos um conselho provocador: “Aprendi que coragem não é ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não tem medo, mas o que supera esse medo”. E deixou-nos esta herança sobre o modo de ser recordado: “Para mim bastaria uma simples lápide com a escrita: Mandela… Em vida, só fiz o meu dever e, por isso, vou dormir para a eternidade”.


2014 ano Allamano

Com as pessoas no coração texto DARCI VILARINHO foto ARQUIVO Quando em 1901, José Allamano, reitor do santuário de Nossa Senhora da Consolata, em Turim, Itália, decidiu concretizar o seu sonho de fundar um instituto missionário, colocou como princípio básico um estilo familiar, onde todos se amassem e entreajudassem como irmãos e se prestasse atenção às alegrias, sofrimentos e fadigas de cada próximo. A sua deveria ser uma instituição missionária diferente: que estivesse presente no meio do povo de uma maneira simples e fraterna, privilegiasse os contactos pessoais, e estivesse atenta aos problemas e necessidades concretas das pessoas. Para Allamano a espiritualidade missionária é uma espiritualidade de presença, de relacionamentos pessoais, de atenção aos outros. Queria missionários que tivessem as pessoas no coração, que estivessem atentos a tudo o que se passa à sua volta, que privilegiassem as situações necessitadas de consolação, que cuidassem dos mais fracos e marginalizados, que tornassem as pessoas felizes já nesta vida e que espalhassem a fragrância do amor e da amizade. Persuadido de que o sacerdote deve ter a peito os problemas das pessoas, que as dioceses devem abrir-se à missão universal e que a evangelização de todos os povos “é a obra mais divina entre as divinas”, José Allamano fundou dois institutos missionários que desde o início do século XX se distinguiram precisamente pelo seu modo de “estar com as pessoas”.

Um ano com Allamano, porquê? Os missionários e as missionárias da Consolata decidiram dedicar o ano 2014 à figura ímpar do seu fundador, beato José Allamano. Para que seja mais conhecido e amado. Para que inspire a doação de homens e mulheres do nosso tempo. Para que seja mais invocado e a Igreja o inscreva no cânone dos seus Santos

Relacionar-se, conhecer a cultura dos povos, promover o ambiente, formar agentes de pastoral local são alguns dos pontos basilares dos missionários da Consolata, desde os primórdios da evangelização do Quénia, para onde Allamano enviou os primeiros quatro missionários, em 1902. Regenerando, a partir de dentro, as culturas mediante a força salvífica do Evangelho, os missionários de Allamano deram particular relevo à promoção humana e

ao desenvolvimento dos povos. Surgiram escolas e ambulatórios ao mesmo tempo que se levantavam as primeiras capelas. Allamano e os seus filhos estavam convencidos de que não há fé sem dignidade humana e que uma evangelização que não liberte e dignifique não é cristã. É uma visão que contrasta com a miopia do seu tempo e abre caminhos novos para o homem, tornando-o feliz já nesta terra.

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fátima informa

Manuscrito do terceiro Segredo de Fátima em exposição texto LUCÍLIA OLIVEIRA foto SANTUÁRIO DE FÁTIMA É o ex-líbris da exposição que está patente até 31 de outubro, no Convivium de Santo Agostinho, no Santuário de Fátima. A carta, datada de 3 de janeiro de 1944 e escrita pela vidente Lúcia de Jesus, em Tuy, Espanha, contendo o terceiro segredo de Fátima, foi enviada para o Vaticano, de onde saiu pela primeira vez, para integrar esta mostra. Foi a peça que mais atraiu a curiosidade das centenas de pessoas que estiveram presentes na abertura da exposição “Segredo e Revelação”. O bispo da diocese de Leiria-Fátima, António Marto, não escondeu a “comoção” ao ver o manuscrito. A autorização para que o documento

“E tu? Sofres muito?”

“E tu? Sofres muito?”, é o tema da conferência de 12 de janeiro, integrada no ciclo de conferências “Envolvidos no amor de Deus pelo mundo” que o Santuário de Fátima promove no quarto ano do ciclo do centenário das aparições. O orador é Américo Pereira, da Universidade Católica Portuguesa, e a iniciativa decorre a partir das 16h00 na basílica de Nossa Senhora do Rosário.

Jornadas de turismo

A Obra Nacional da Pastoral do Turismo realiza as suas primeiras jornadas a 10 e 11 de janeiro, na Casa de Nossa Senhora do Carmo. Em análise estará a “Dimensão 34

pudesse estar patente ao público foi dada pelo Papa Francisco a 10 de junho de 2013. A exposição é “considerada a mais importante pelo seu conteúdo e pelo seu alcance universal, quer para o mundo quer para a Igreja”, sublinha António Marto. Num percurso que põe em destaque as três partes do chamado segredo de Fátima, a exposição evoca a aparição de julho de 1917, no quarto ano da celebração do centenário

evangelizadora do turismo”, com os trabalhos divididos em quatro mesas: “Igreja e Turismo”, “Património Religioso e Turismo”, “Santuários e Peregrinações”, “Serviços Diocesanos de Pastoral do Turismo: práticas em curso”.

Conhecer São Paulo

O Centro Bíblico dos Capuchinhos realiza a 25 de janeiro, festa de conversão de Paulo, um encontro sobre “Hinos das Cartas de Paulo”, uma sessão integrada no ciclo “Rezar a fé com os salmos”. A iniciativa decorre no Centro Bíblico, podendo as inscrições ser efetuadas pelo telefone 249 530 210 ou pelo e-mail sndb@difusorabiblica.com.

das aparições da Cova da Iria. A interpretação teológica do terceiro segredo de Fátima (revelado a 13 de maio de 2000, aquando da beatificação de Francisco e Jacinta Marto), feita pelo cardeal Joseph Ratzinger, agora Papa emérito Bento XVI, é o fio condutor da exposição. A mostra pode ser visitada diariamente, entre as 9h00 e as 19h00. A entrada é livre.

Janeiro em agenda 09-27 Atelier de Artes para depois dos 40 – Museu de Arte Sacra e Etnologia 18 Conversas Contemporâneas da Consolata: Ecologia e Espiritualidade 18 Retiro sobre a figura do padre João De Marchi no Seminário da Consolata


Rua Francisco Marto, 52 | Apartado 5 | 2496-908 FÁTIMA tel: 249 539 460 | geral@fatimamissionaria.pt www.fatimamissionaria.pt

OUTRA VISÃO

DO MUNDO

| un’altra visione del mondo | mwingine mtazamo wa dunis another view of the world | otra visión del mundo | inny pogląd na świat une autre vision du monde | wona wunyowani wa lapo eine andere sicht der welt | djobe mundu di oto manêra 다른 세계관

APENAS

7 EUROS

POR ANO


Alguém sabe o que é a vida? A vida… Alguém sabe o que é a vida? Esse alento divino, essa ilusão Que faz bater, certinho, o coração? Faúlha desprendida duma estrela Que brilha e que perpassa fugazmente E num sopro se apaga de repente. A vida é um belo livro de aventuras Que se lê, dia a dia, sem parar, E se aprende, ora a rir ora a chorar. É como um grande palco sempre aberto, Em que os atores entram a granel P’ra compor, bem ou mal, o seu papel. Maria Ramajal Jorge in Poetas e Trovadores, 2007


Fatimamissionariajaneiro2014