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AdriAnA Londoño + AnA CAr BAnsky + BeAtriz GriMAL GALeGALe CACá MAChAdo Chris Couto CLáuCio And MAGnoLi denise WeinBerG + erivALdo oLiveirA + eroM Co WurM FáBio FurtAdo FAust WiLker GiordAno CAstro + heLenA Modé + henrique Fo BittenCourt + JoCA AndreAzz JuLiAnA MAiA + kiko riese LeonArdo LessA + LeoPoLdo deLFino + LuCAs torres + LuC de AnGeLis + Luís MeLo + Lu ABuJAMrA + MAriA terezA Cr CABrAL + MAuriCio FLorez + M rinALdi + nAtALiA LAGe + nAt orLAn + otAvio MArtins + PA Pedro viLeLA + Pedro WAGn diniz + rACheL BruMAnA + r riCArdo BezerrA + riCArdo setton + ruBens veLLoso + sérGio roveri + vAdiM nikitin +


roLinA MArinho Ldi + BernArdo + CeLso Curi + dré + deMétrio + dioGo LiBerAno + ordeiro + erWiM to roiM + FrAnCis + GiovAnA soAr + ontes + JerôniMo zA + JoseFA PereirA er + Leo LAMA o PACheCo + LuCAs CiAnA PAes + LuiGi uís reis + MárCiA ruz + Mário sérGio MikA Lins + MiriAM táLiA MendonçA + AtríCiA BerGAntin ner + PoLLyAnA rACheL WhitereAd o GALi + roBerto sArAh oLiveirA + + viLLy riBeiro + XAM

agradecimentos Adriana V. de Castilho Ana Carla Fonseca Reis Antônio Martinelli Astrid Fontenelle Bel Gomes Caetano Vilela Camila Biondan Carol Fanjul Cibele Forjaz Cinthia Kiste Dário José Fernando Yamamoto GACInt USP Gero Camilo Gustavo Vaz Kiko Marques Luana Ferrari Marcy Junqueira Marisa Riccitelli Martim Pelisson MASP Mateus Araújo Matheus Nachtergaele Oficina Oswald de Andrade Paulo Faria PIVÔ Renata Assumpção Renatto Souzza Revista USP Ruy Malheiro Sandra Oskman Sesc Ipiranga Tomie Othake Wesley Kawaai


editorial

S

air e tomar as ruas. Sair e ver no rosto do jovem um país que se reforma. Sair e encontrar na realidade um tanto daquilo que

ser real. Mas há também o outro lado. A poesia que sustenta o sonho, e que precisa da arte como

ruy filho

impulso. Então temos aqui um tanto dos dois. Um pedaço do brasileiro que tenta, outro do brasileiro que voa. Uma campanha que dá conta de ser o instante exato do encontro entre os dois. Acordar pra Cultura. Ocupar calçadas e gastar sapatos. Gastar os palcos e ganhar desejos. O Brasil muda.

patrícia cividanes

E se arrisca. Como arriscado é de fato todo aquele que se entende artista. Como Luis Melo. Como muitos outros. E se são outros os parametros dos encontros, então discutir o fazer teatral é fundamentalmente correr ao diálogo mais preciso sobre os meios de encontrar. Feito um cruzar casual em uma esquina, dentre centenas de tantos outros, e receber um beijo como recompensa. Porque talvez seja essa a manifestação mais necessária para aquilo que se quer diferente. Respeito. Então se toma a rua e se descobre as vias de um futuro. Então conversamos, e Demétrio Magnoli esclarece que tudo em sua forma é uma espetacularização das vontades. Aquilo que se deseja na verdade é construído por alguém. Tanto quanto a mitologia de um ditador comporta a magia de uma ilusão. Mas sem isso perdemos nossa essencia. É preciso se iludir e desejar. Subir ao palco como máquinas desejantes, para então fornecer o improvável. Antes que o sonhe acabe. Antes que tudo pare. Como o fim de uma vontade, o fim de uma revista. Esta edição dedicamos também a revista Bravo!, seus sonhos e ruas percorridas. Que continuem! Tudo pode ser apenas a ilusão de um espetáculo. Mas ainda bem que existem as criancas e os doces olhos dos 10 anos. Seguimos. A Antro+ já está nas ruas. A estrata é infinita para todos nós.

Agosto de 2013

SP / BR


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ACordAr para a

CuLturA POR natalia lage

POSITIVO


expediente

editores

Ruy Filho Patrícia Cividanes

antropositivo@gmail.com AqUI ANONIMATO NãO TeM Vez. qUeM TeM VOz, TeM TAMBéM NOMe e é SeMPRe BeM-VINDO

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é uma publicação trimestral, com acesso virtual e livre, voltada às discussões sobre teatro e política cultural.

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foto de capa: FAUSTO ROIM

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VISITANDO Luigi de Angelis IDA/VOLTA por Bernardo Galegale FOTO PALCO Roberto Setton CIRCUNFeRêNCIAS POLíTICA DA CULTURA Demétrio Magnoli DIÁLOGO X2 A Dama do Mar VeRTICAL por Rubens Velloso CAPA Luis Melo POR Aí Teatro Rápido POR AqUI Sede do Faroeste OUTROS TeMPOS CONTAçãO Beatriz Grimaldi VISITANDO Celso Curi DIÁLOGO X2 Ah! A Humanidade... CARTA ABeRTA para Juca Ferreira CONTAMINAçãO Festival de Avignon TODO OUVIDO Cacá Machado VISITANDO Perversos Polimorfos OBS por Ruy Filho HOMeNAGeM Magiluth MÁqUINA De eSCRITA por Sérgio Roveri e Kiko Rieser CALeNDÁRIO SeLF-PORTRAIT TRAçO Ricardo Bezerra


visitando


luigi de

Angelis Entre a farsa e a fábula a confirmação do ator como mecanismo maior por

ruy filho

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Luigi de Angelis, diretor do espetรกculo e um dos idealizadores do Fanny & Alexander, em foto de Enrico Fedrigoli.


O

que você espera quando preguiçosamente se acomoda em uma poltrona de teatro? apenas uma peça? Um viver estético capaz de lhe fazer perceber diferentemente tudo ao seu redor? nada? se houver mais de um milhão de respostas prontas e programadas à pergunta, ainda arrisco dizer serem poucas. Particularmente, não espero. sou dos que se entregam ao instante. descubro assim minhas decepções e sobressaltos, e sigo pelas plateias em busca de algo que me impeça de querer sair. o paradoxo, todavia, está exatamente nessa procura. Afinal, quanto mais se frequenta e assiste, menos aquilo que se encontra é capaz de lhe surpreender ou calar. Então não bastam estratégias. É preciso virem com a amplitude de observações tão

se o corpo limita-se à regência, por sua vez é também tornada caricatural (sem qualquer sentido pejorativo ao termo) a figura de um Hitler que se transforma no monstro que o conhecemos, enquanto sua persona se sobrepõe às intenções dos personagens do filme. Há aí o deslocamento do ator que passa a representar Hitler como base de composição para a representação de todos os personagens do filme, assim como algumas das mais fundamentais onomatopeias (ventanias, destroços que se chocam durante o temporal, latidos de totó, o cão de dorothy, os macacos do exército da Bruxa Má, engrenagens dos equipamentos do Mágico de oz etc), e, se não bastasse, também a clássica trilha sonora. se por um lado é rápido o entendimento do que será o espetáculo, por outro, assistir Marco Calvacolli realizá-lo é como acompanhar o impossível. técnicas e treinos não dimensionam ao espectador as dificuldades reais, físicas, daquilo que se realiza. E é impossível não nos desprendermos de

particulares capazes de tornar a surpresa não o reconhecimento de uma nova técnica ou qualidade, mas a percepção de outra construção da linguagem, mesmo que sustentada por instrumentais comuns. Em outras palavras, enxergar caminhos outros no que sempre estivera disponível, oferecendo-me algo maior do que meramente o próprio olhar. ao juntar Hitler ao Mágico de oz, o diretor italiano Luigi de angelis faz do espetáculo Him um desses dispositivos do improvável óbvio. Utilizando-se da escultura de Maurizio Cattelan para compor uma referência física ao ditador, Marco Calvacoli realiza a primeira parte do dispositivo: sua improbabilidade. Esta pode ser percebida em duas partes. sendo a primeira a dificuldade física em se manter durante duas horas ajoelhado, com poucos movimentos limitados aos de um regente de orquestra; e a segunda, a técnica precisa no dublar o filme em tempo real, enquanto o assistimos projetado no fundo da cena.

Hitler, abandonando-o como representação, para situá-lo na persona simbólica da figura histórica e toda a amplitude envolvida em seu imaginário. É quando chegamos na segunda parte do dispositivo. a surpresa e pertinência de sua obviedade. se retornarmos ao passado, teremos um Hitler surgido em uma alemanha pós Primeira Guerra, quando a identidade alemã se dissolvia entre os escombros. o homem que treinava seus discursos assistindo suas próprias falas gravadas, ofereceu à nação ferida o redimensionamento de sua identidade. Criou-se, no primeiro momento, o suficiente para que a alemanha voltasse a se perceber e desejar novamente ser a face de uma possível potência mundial. não se imaginava, então, que o homem capaz de convencer uma civilização fosse conduzir essa nova identidade a patamares tão absurdos e destrutivos, culminando na segunda Guerra. desde então, Hitler concentra em sua mitologia a consternação do que pior pode


haver no homem. Mas não apenas isso. Quem era esse homem? Quem o fizera ou permitiu que se tornasse o que virou? Essas e tantas outras perguntas jamais poderão ser respondidas, se não de modo fabular. Pois não se tratam de respostas objetivas e explicativas. ao contrário. a cada possibilidade de explicação, mais a magia sobre sua mitologia cresce e o envolve em uma espessa camada de proteção. não se trata,

portanto, de observá-lo como uma pessoa, tão pouco como signo, mas como persona cuja manifestação, e não sua existência, determinou ao mundo e ao homem olhar a si mesmo por lentes até então desconhecidas. a obviedade situada como segunda parte do dispositivo utilizado na composição de Him, está na exata percepção de ser este o argumento de o Mágico de oz. dorothy, a garota desprezada

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“O espetáculo traz mais perguntas do que respostas”

O ator Marco Cavalcoli como personagem de “Him”.


e aterrorizada pela tentativa de lhe tirarem o cão de estimação, acaba por ser absorvida em um temporal, sendo conduzida a uma terra desconhecida, dominada pela demarcação inquestionável de um maniqueísmo prático. só existe uma possibilidade para cada escolha, ao menos é o que os personagem da fábula acreditam, até serem surpreendidos pela descoberta de ser o mágico todo poderoso um farsante.

a compreensão de ser a existência dividida entre o Bem e o Mal, como propõe o maniqueísmo, surge, antes dessa configuração, em uma observação de ser mal tudo aquilo que é físico, enquanto ao espírito serve-lhe o sentido maior do bem. Foi com decartes que se incluiu a condição da consciência ao jogo dessa divisão, quando, então, a dualidade passou a tratar o homem como submerso a um estado

de contemplação sobre si mesmo e seus semelhantes, a partir dos valores que determinavam sua consciência. o personagem do mágico, portanto, é tanto ator, por possuir consciência de sua farsa e escolhê-la como meio de sustentar seu existir, quanto monstruoso, ao se valer de uma imposição tramada sobre os demais como sub-

terfúgio para constituir para si a plenitude do poder, induzindo e condicionando o outro a lhe servir. Basta lembrar que ele pede a dorothy, Espantalho, Leão e Homem de Lata que matem a Bruxa e lhe tragam seu poder. a semelhança narrativa ao desdobramento de um Hitler que se prepara como ator para assumir o personagem central de uma salvação e


O ator Marco Cavalcoli em cena de “Him” e, à direita, em sua versão civil, em retrato de Enrico Fedrigoli.


“A provocação só existe para quem se quer se sentir provocado”

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que mais tarde se revela um tirano incontrolável, são óbvias, portanto. ambos expressão a condição de ingenuidade da menina e do povo alemão, e a capacidade de se atribuir ao medo certo carisma e respeitabilidade, sem qualquer comprovação de sua realidade. Mas quantos artistas propuseram essa relação? aí está a grandeza do espetáculo. a capacidade do dispositivo conduzir o espectador ao reconhecimento daquilo que desconhecia já possuir como observação do homem. a essa condição se dá o fato de tudo ali ser tratado como arquétipo e não mais personagem. Para Luigi de angelis, Hitler era um ator extraordinário, e construir um espetáculo como Him, no qual o sistema de dominação formal de uma linguagem determina sua realização, é também tocar no ponto do falso ator, o falar sobre o quan-

to resta de poder do ator no espectro mais amplo da cena, quando esta se desliga do teatro dramático. Para tanto, confrontar personagem com figura histórica oferece ao espectador um curto circuito na figura que se reconhece, explica Luigi. Esse atravessamento na figura histórica, continua, implica também na necessidade de indagar sobre as funcionalidades e perspectivas dos sistemas formais de um e outro. Era preciso, então, encontrar um olhar menos viciado aos sentimentos imediatos trazidos pela figura de Hitler. E o caminho encontrado foi realizar diversos laboratórios sobre o mal com crianças. Para Luigi, a maneira como os sistemas formais passaram a ser trabalhados no espetáculo, implica também atribuir ao entendimento da figura de Hitler, apoiada sobre a representação de outra qualidade de sua


Francesca Mazza em cena de “West”, que faz parte da trilogia “O-Z”.

subjetividade, advinda na sobreposição do filme, o questionamento sobre o que nele de fato tornaria a representação algo interior e não mera construção exterior. Novamente é o filme quem pode nos fornecer pistas mais diretas. as falas dos personagens, dita como são por Hitler, transferem à figura ora tons patéticos, ora verdades plausíveis e, ainda, artificialidades programadas. difícil, porém, é nos atentarmos quando essas variações ocorrem verdadeiramente na soma entre filme/ator e quando são projeções idealizadas por nós mesmos. ou seja, o quanto ali é a projeção manipulada a partir da colagem de nosso próprio imaginário sobre Hitler?

Responder a isso seria tornar o processo decifrável e meramente demonstrativo. Exatamente o que Luigi diz não ser interessar. a proposta é provocar o espectador a se confrontar com os seus próprios vazios, para tê-los, então, como pergunta real sobre a obra. tornar o inexplicável a imanência de uma sensação possível de resposta. Afinal, como explicar Hitler senão pela imanência de seu próprio enígma? Por último, pergunto a Luigi sobre o quanto se espera do espetáculo que sirva a uma provocação. É Rachel Brumana, responsável por Him ter vindo ao Brasil, produtora e também intérprete nessa conversa que


Laccusandit aut is abo. Desequas esequia doloreste consequam quid et faccaecus illicipis


me explica a resposta de Luigi. não tem que explicar, ele disse. Mas não exatamente isso. Explicar, diz Rachel, em italiano, tem o sentido de alisar as ondulações. Luigi acredita que não cabe ao teatro essa ação, ao contrário, prefere mostrar as ondulações, torná-las argumentos, vazios expostos, o vazio da pedra, diz. denominando por pedra, cada um ali sentado na plateia. Him faz parte de uma trilogia e de muito mais. Exposições, instalações, publicações..., onde a somatória no conviver com as diversas linguagens e suas singularidades tornam o discurso mais profundo e emblemático de como podemos oferecer outros caminhos ao esvaziamento de nossas certezas históri-

À esquerda, Francesca Mazza em cena de “West”. Nesta página, cena de “Discorso Giallo”, em foto de Enrico Fedrigoli.

cas. sobretudo quando estas fundamentam suas representações na artes. Luigi e a excepcional qualidade do trabalho de Marco Calvacolli regem, tal qual o personagem ajoelhado no proscênio, seus espectadores. só que, desta vez, a música que desenham sobre os presentes não serve de ilusão e sonhos, mas de instrumento de revelação de nossas próprias condições.


ida / volta

por Bernardo galegale

São Paulo, 28 de fevereiro de 2013 (15h) Última reunião com Gustavo Vaz. Apenas um de nós diretores vai seguir viagem... Eu não falo alemão. Ele também não. No próximo mês, nossos encontros e conversas serão apenas por Skype. Irônico. “O feitiço voltou contra o feiticeiro”. frankfurt, 02 de março de 2013 (11h) Aterrissei Sozinho. Resolvi já sentir o clima lá fora antes de retornar ao aeroporto. Frio. Muito Frio. O calor da minha boca embaçou meus óculos. Ao voltar, fui parado pela inspeção. “Brasil? Samba!” etc... Quase perdi a conexão. munique, 02 de março de 2013 (14h) Aterrissei Sozinho. ...é impossível entender a língua... Esperei me buscarem. Esperei. Comi um lanche. Esperei mais. Cheguei a duvidar se aquilo era verdade. Finalmente ouço palavras em português e escapo dos meus pensamentos. A sensação de falar alto e não ser compreendido em público é de liberdade. Mas com um pouco de vazio. Mais viagem. Trem, metrô, U-Bahn, S-Bahn...


feldafing, 02 de março de 2013 (17h) Caí na real e percebi que vou morar em um castelo. Nosso ‘palco’ é um castelo com vista para o lago! E neve, muita neve! Fiquei como uma criança.

Q

Uma criança de São Paulo que iria dirigir um espetáculo transmídia em alemão. munique, 04 de março de 2013 (18h)

ww

Rodoviária. Chegada das atrizes brasileiras que falam alemão. A Camila veio de Berlim e a Gabi de Augsburg. Conhecemo-nos por Skype apenas. Agora ficaremos quase duas semanas morando na mesma casa (castelo!) e inseridos num processo artístico nada convencional.

V

q

Festa em bar bávaro à noite, junto aos outros artistas brasileiros, parceiros de viagem. Ótima recepção! Ânimo para iniciar o processo. (Iniciar?) Eu dormi para acordar no dia seguinte. feldafing, 05 de março de 2013 (14h) Reunião por Skype e primeiro ensaio: “O espetáculo é uma vivência e o processo é aberto. Ainda não concebemos um final, porque o público atravessa o processo, interfere no rumo da história, transforma os personagens”.

ww

As atrizes se tornam parceiras. feldafing, 08 de março de 2013 Reunião com Gustavo Vaz. Por Skype... O ensaio foi ótimo.


a

Estamos conquistando e entendendo. Estamos nos conquistando e nos entendendo, também. Saber onde está pisando é mais importante do que enxergar aonde se quer chegar. feldafing, 10 de março de 2013 Início do espetáculo no Facebook! Camila é Helga Wozel.

(:

O público, de 25 pessoas, cumprimenta Helga e inicia conversas com ela. Alívio... Parecem ansiosos e interessados! Mal sabem eles que o “final da história” ainda não existe. (E o Google Translate é o mais novo membro no processo...) munique, 11 de março de 2013

m

Gravação da vídeo-performance de Helga Wozel no centro da cidade. É arte. É na rua. E foi na chuva. O café de depois demorou mais que a performance em si. Voltamos para nosso castelo e continuamos desenvolvendo o roteiro junto ao público.

;

Um espetáculo de 11 dias não tem descanso. Tem pausas. munique, 17 de março de 2013 Transmissão ao vivo pela internet. Desafio novo. Tecnologia inédita no trabalho é um risco.


O Gustavo acompanhou de São Paulo a cena que se desenrolou dentro de um Café. O público também. Estão fisgados. Potencializar o encontro, a presença. Teatro é presença. Voltamos para nosso castelo e continuamos desenvolvendo o roteiro junto ao público. A relação público-personagens está pegando fogo! Ótimo! feldafing, 21 de março de 2013

qq

Dia do espetáculo. O público nos visita em nosso castelo para encontrar pessoalmente os personagens da história.

l

Conversar, abraçá-los, cheirá-los, desafiá-los. E vice-versa. Sentir. É o que acontece. Festa no castelo! É um Baile de Máscaras! (...) A experiência foi única. Sempre é. (...)

G

Cai a ficha de que meu processo foi a vivência. E o espetáculo, mesmo chegando ao seu final, continuava em aberto.

a

de 24 a 30 de março de 2013 munique, viena, SalzBurg, munique, neve! O frio e a neve não são mais novidades e provocam saudades de São Paulo. E começam a deixar saudades também. São Paulo, 1 de aBril de 2013

a

Aterrissei. Sozinho. No dia da mentira.

Bernardo galegale dirige com gustavo vaz a eXComPanhia de teatro. no começo do ano, o espetáculo “eu - negoCiando SentidoS” foi convidado a se apresentar na alemanha.


c a m

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acordar para a

cultura por mika lins


eles nĂŁo acabam quando terminam

lançamento

agosto 2013

especial

www.antropositivo.blogspot.com


foto.palco

S Retrato de Paulo José para “Arena Contra Arena”, em 2004.


Setton

roberto

Reconhecer no artista a qualidade de uma intimidade que s贸 um artista consegue enxergar


f

otografar teatro pode ser ao mesmo tempo muito simples ou complexo. Depende mais da ca-

pacidade em transmitir aquilo que se configura em cena, do que propriamente técnica. É claro que ter um bom manuseio dos instrumentais ajuda a entender melhor aquilo que se fotografa. Mas é preciso mais. E Roberto Setton é desses raros fotógrafos que fazem da captação de um instante um verdadeiro diálogo com os atores. São imagens empregnadas de conversas particulares, intromissões definitivas sobre a existência da cena, instantes que suspendem os próprios instantes para se consolidarem como construções de vozes e silêncios. A fotografia de Roberto atua na dinâmica de um reconhecimento do que pode haver de mais interno e pessoal no artista. Traz à tona os valores que muitas vezes são percebidos apenas por seus criadores. E, dessa maneira, consegue oferecer ao observador a compreensão de uma poética inerente ao estado atingido ao se ocupar um palco. Ao conviver com suas imagens, o observador tem a real impressão de se tornar novamente espectador. A particularidade do olhar de Roberto faz de sua máquina fotorgráfica não um mero instrumento, mas um segundo palco ao indizível da arte”.

Miriam Muniz sob as lentes de Setton, no espetáculo “Arena Contra Arena”, em 2004.

RUY FILHO


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Renato Borghi e Luciana Borghi em “Cadela De Vison”, de 2008; e em “Renato Borghi em Revista”, de 2006.


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Leona Cavalli em cena de “Um Bonde Chamado Desejo”, com direção de Cibele Forjaz; À direita, Felipe Rocha em “Ele precisa começar”, de 2009.


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Eucir de Souza em CorpoConferência # 1”, de 2008, áudio-instalação inspirada na conferência de Jacques Derrida - o animal que logo sou.


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Milton Gonçalves, em retrato para “Arena Contra Arena”.


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Cena de “Arena Conta Danton”.


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Regina Braga em retrato realizado em conjunto com Marcos Pedroso para “Desarticulações”, que fica em cartaz em São Paulo até 25 de agosto no MIS.


Emílio de Mello em “Ensaio. Hamlet”, da Cia. dos Atores.

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Cenas de “Vem Vai - O Caminho dos Mortos” da Cia Livre de Teatro, de 2007.

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Emílio de Mello em “Ensaio.Hamlet”, da Cia. dos Atores. Á Direita, Enrique Diaz em “A Gaivota”.


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Felipe Rocha em cena de “A Gaivota”.

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A atriz Mariana Lima em “A Paixão Segundo G. H..”

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Bel Garcia em “Ensaio.Hamlet”, da Cia. dos Atores.


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Isabel Teixeira em cenas de “Rainha [(s)]. Duas atrizes em busca de um coração”.

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Isabel Teixeira e Georgette Fadel respectivamento, em cenas de “Rainha [(s)]. Duas atrizes em busca de um coração”.


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Para conhecer mais o trabalho de Roberto Setton, clique www.robertosetton.com.br/ bocadecena.asp


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circunferênciAs

HISTÓRIAS ATUAIS E DE SEMPRE NAS ARTES VISUAIS 58

espaço reservado para tudo aquilo que vai além do teatro, e ajuda a construí-lo


30 × bienal - Transformações na arte brasileira da 1a à 30a edição Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera De 19/9 a 08/12 http://www.bienal.org.br

A

Bienal Internacional de São Paulo comemora 30 anos com uma exposição especial, reunindo boa parte dos trabalhos dos artistas brasileiros que participaram durante esse período, como representação nacional. A oportunidade de acompanhar o desenvolvimento da arte local merece destaque pelo oferecimento de um panorama que inclui muitos dos nosso melhores artistas, além de possibilitar a observação histórica das manifestações estética por aqui, já que a mostra

perspassa diversos instantes políticos e econômicos da histórica recente brasileira. Nomes incônicos como ABRAHAM PALATNI, ANNA BELLA GEIGER, GERALDO DE BARROS, MARIA MARTINS e HÉLIO OITICICA se juntam a importantes representantes contemporâneos como CARLITO CARVALHOSA, MARCIUS GALAN, CILDO MEIRELES, JAC LEIRNER, JOSÉ RESENDE, entre outros. Um evento ímpar na consolidação de um vocabulário simbólico do que houve e há de mais expressivo nas nossas artes visuais.


circunferênciAs

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O Museu de Arte de São Paulo, MASP, apresenta a exposição LUCIAN FREUD - CORPOS E ROSTOS. O artista, neto do psicanalista, um dos mais importantes pintores do século XX, tem suas obras mostradas no país pela primeira vez. São pinturas, gravuras e fotos de seu ateliê, selecionadas pela curadoria de Richard Riley e Delphine Allier e colaboração de Teixeira Coelho. Vale conferir a potência de um olhar único sobre a representação do homem. 28/06 a 13/10 http://masp.art.br


#antrocamarim VAMoS cATAlogAR o qUE AcoNTEcE PoR TRáS DA cENA HojE? Antro+ te convida a criar um panorama do teatro atual através das cochias e bastidores. Envie uma foto de bastidor do seu espetáculo para antropositivo@gmail.com ou poste direto no instagram com #antrocamarim


circunferênciAs

O Instituto Tomie Ohtake inaugura na primeira semana de agosto a exposição Repertório para aproximação de suspensos - José Bechara. A segunda exposição no instituto do artista carioca agora se apoia na construção de obras em vidro, gerando a desconfiança entre pintura e escultura, trazendo o observador para dentro da obra em um relacionamento mais próximo ao de espectador. 06/08 à 22/09 www.institutotomieohtake.org.br

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LUIZA BALDAN residente durante o mês de julho na GALERIA PIVÔ apresenta sua pesquisa CORTA LUZ (foto maior), curante o mês de agosto. A partir setembro, também é possível ver a exposição de RODOLPhO PARIGI (foto menor) e seus estudos em colagem sobre um atlas da anatomia. Corta Luz - De 3 a 31/08 Individual Rodolpho Parigi abertura 21/09 www.pivo.org.br


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AcoRDAR para a

cUlTURA POR LEOPOLDO PAChECO

positivo 75

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política da cultura amplificada

Magnoli e a teatralização das manifestações no brasil


polĂ­tica da cultura

amplificada


N

unca antes na história desse

to, eu e Patricia. E feita a primeira pergunta,

país... Sim e não. Já vivencia-

imediatamente passamos a ouvintes.

mos movimentos populares,

Demétrio explica ter aceito a conversa pela

buscas por direitos, liberdades

importância que enxerga no tema. Mas, antes

e outras questões. Entretanto,

de qualquer conclusão, traça uma aprofundada

desta vez, as manifestações

análise sobre as características das manifesta-

que tomaram as ruas brasilei-

ções . No começo, diz, os movimentos surgem

ras possuem características peculiares. A espe-

como política de minoria, cuja intenção é

tacularização parece ser parte do mecanismo.

atingir questões específicas da representação

Parece? A revista Antro+ foi buscar alguém para

de quem as organiza. Esse é um processo que

aprofundar mais significativamente essa sensa-

ocorre há muito tempo, continua. A ação, en-

ção. Precisávamos de um olhar que envolvesse

tretanto, ganha relevância na medida em que

criticamente história, política, sociologia, geo-

procura gerar efeitos maiores que o próprio

grafia urbana, para obtermos a clareza de fa-

movimento. O processo, consolidado como

tos ainda tão nublados a olhos não preparados.

exposição de exigências e respostas, confirma

Porque fomos treinados ao despreparo durante

sua eficácia principalmente pela organização

décadas. As gerações nascidas a partir da dita-

dos trabalhadores pelo PT. Ganha notoriedade,

dura militar, meu caso, sofreram um processo

ainda maior, através da liderança de Lula. E se

controlado de deseducação de sua capacidade

configura, assim, um estilo de reinvindicações

reflexiva sobre o que fosse, e vivemos, agora,

e manifestações que permeia a presença de

a prática disso na percepção de sensações que

sindicatos e agentes políticos.

não conseguimos transformar em discursos con-

Hoje, as manifestações se preparam por ou-

textualizados e aprofundados ao tempo. Então,

tra forma de ação. Com o tempo, aprendeu-se

precisávamos de alguém com quem conversar. E

com as ONGs e outras organizações a importân-

conseguimos exatamente o único que nos inte-

cia de tornar os movimentos reconhecidos como

ressava ouvir nesse momento.

operação pública, sobretudo pela utilização da

Obter seu contato foi um aventura. Tantas

mídia no acompanhamento dos processos. De-

explicações sobre a relevância da conversa,

métrio explica estar a diferença no fato de ago-

deu-nos mais interesse na aproximação. Quan-

ra as manifestações correrem essencialmente

do seu email retornou tornando o encontro con-

na frente das emissoras de tvs. Desta maneira,

creto, marcamos a única data possível. Apre-

basta a presença de uma câmera e a estratégia

ensão e ansiedade. Não é todo dia, em que se

de uma intervenção eficiente sobre a rotina da

consegue conversar intimamente com Demétrio

cidade, para que a manifestação vire notícia.

Magnoli. Acompanho suas reflexões pelo Globo-

Nesse sentido, diz, o que vemos é mais o simu-

news e jornais, sou leitor de seus livros, mas,

lacro de uma manifestação popular, do que ela

nesse instante, o que mais queria era poder ouví-lo. Deixar sua fala invadir minhas dúvidas, para extrair das minhas sensações as respostas que me faltam e dialogam em ausência com minhas insônias. Fomos ao seu apartamen-

em si. Não que a indignação não

“O Estado no Brasil é hostil às pessoas.”

seja real e os motivos coerentes. Eles os são em muitas medidas. Mas a manifestação acaba se apropriando de discursos legítimos para compor seu simulacro de popularidade . A massa 7

6


política da cultura

amplificada

é levada a crer na validade de qualquer argumento, condicionada que está pela espetacularização de sua ação. Se por um lado, nenhuma manifestação que tenha a potência de servir ao noticiário adquire reconhecimento, por outro, ain-

68

da é necessário tornar o imagi-

“Se um grupo se declara vítima, ele passa a ser entendido como vítima.”

na Comissão, levaria a deturpar os argumentos legítimos em outros, tais como perseguição religiosa, por exemplo. Para Demétrio, existe um valor trágico em tudo isso, que permeia desde a falsa construção de um estado de espirito nacional, até a continuidade metodológica

nário sobre o agir um levante genuinamente

de um sistema de imposição de presença con-

popular, em uma espécie de retroalimentação

duzido por profissionais da política.

de confirmações afirmativas. Por isso, explica,

Reconhecer essas estratégias não é nada fá-

entender as manifestações atuais como mo-

cil. E a imprensa se viu jogada de um lado ao

vimentos gerados pelo povo, acaba sendo um

outro, sem velocidade suficiente para compre-

equívoco comum. Todavia, alguém, com inte-

ender sua posição. O problema, no entanto, é

resses localizados em determinados objetivos,

ampliado pela aceitação de uma existência viti-

traçou sua idealização e organização. Demé-

mizada do indivíduo, igualmente comprada por

trio diferencia as ruas tomadas no Brasil dos

boa parte da mídia, como meio de refletí-la e

outros acontecimentos mundo afora, como os

assim gerar alguma possibilidade de interesse.

ocorridos na Turquia, por exemplo. Lá, ao seu

Vitimização essa, aceita pela nova classe me-

modo, a mobilização se configurava inicial-

dia, em busca daquilo que entende por direi-

mente ao acaso, ganhando espaço e redimen-

tos universais, mas que, na prática, traduz-se

sionamento via as redes sociais, para só depois

por exigir do Estado tudo aquilo que acredita

evoluir como ação organizada. Aqui, por sua

ser sua necessidade. No fogo cruzado que ex-

vez, tudo começa na idealização e no chama-

plode em qualquer tentativa de julgamento

mento via as redes sociais, para só depois se

dessa mentalidade, a imprensa acaba por não

tornar a face de uma manifestação.

oferecer a tradução política dos movimentos,

A confusão entre as possíveis similaridades

perdendo o encontro com o seu leitor, ouvinte

não se restringe ao entendimento das suas

ou telespectador, distanciando a pertinência de

origens. A própria maneira como a política se

sua presença junto aos acontecimentos, bus-

utiliza do manifestar-se expõe a viciosa espe-

cando como saída igualmente usar-se do es-

tacularização das ações. Ele cita o caso das

petáculo como meio de atravessar a falta de

ocorridas contra o pastor Feliciano, quando

encontro entre os lados.

nomeado para a Comissão de Direitos Huma-

Nenhum momento na nossa história foi tão

nos, realizada em frente as câmeras por as-

pleno de espetacularizações. Seja o encontro

sessores parlamentares. Alguns, contratados

realizado com lideranças mundiais no Rio+20,

exatamente por aqueles quais questionavam,

a Copa das Conderações, a Jornada Mundial da

exerciam seus protestos como funções deter-

Juventude culminando com a vinda do Papa,

minadas pelos parlamentares. Dessa maneira,

Copa do Mundo, Olimpíadas..., enfim, nunca o

o exercício de exposição contínua do pastor e

espetaculoso esteve tão presente na constru-

o nível de agressividade contra sua presença

ção de um certo reconhecimento sobre a


política da cultura

amplificada

grandeza do país. Enquanto isso, a inflação retorna sem previsão de controle,

A espetacularização das manifestações, portanto, atinge níveis mais

a confiança internacional se esvai, e o de-

profundos que os mais evidentes. O

semprego parece mesmo que voltará a dar

Brasil atual se configura no mascara-

algumas cartas por aqui. O que poderia ser

mento, tanto dos números reais consequentes

uma chance em mil, ou meia dúzia delas em

ao equivoco de sua gestão, quanto aos movi-

mil, é derrotado pela ousadia de uma classe

mentos que se colocam como contraposições

política cada vez mais voltada ao próprio in-

aos poderes. Nada por aqui está livre desse

teresse. Basta entender os custos da Copa do

processo. Talvez porque tenhamos trocado

Mundo. Por aqui, custará cerca de 14 bilhões

a política pelo marketing, penso eu. Afinal,

de reais; o triplo da realizada na Africa do Sul,

nossa presidente, ao precisar apresentar uma

cujos valores já se revelaram escandalosos.

primeira resposta às ruas, preferiu reunir-se

Nada disso parece interessar, verdadei-

com Saldanha, o publicitário responsável pela

ramente. Grita-se contra a Copa, como se

imagem do governo, ao invés de lideranças po-

fará contra tudo o que aparecer no caminho,

líticas e/ou populares.

aleatoriamente, sem maiores argumentos e

Agora assistimos ao esvaziamento ou des-

conseqüências. Demétrio é direto ao afir-

gaste das manifestações, é preciso dar tempo

mar que o Brasil esta emburrecendo, limita-

para descobrirmos, após Dilma oferecer uma

do cada vez mais a raciocinar por chavões.

série de medidas como respostas aos gritos e

Nada parece ser amplo por aqui, tudo pode

cartazes. Medidas essas, de peblicito à refor-

ser aparentemente resolvido em sua superfi-

mas estruturais, insustentáveis constituciona-

cialidade. E traz como exemplo, a face des-

mente, mas que parecem ter surtido o efeito

se Brasil que permite manifestações públicas

apaziguador de sua intenção. Um novo espe-

próximas a hospitais, fechando seus acessos,

táculo começa com a aproximação das elei-

enquanto impede que as mesmas ocorram

ções presidencial e estaduais. Ou talvez seja

nas proximidades dos estádios, onde tería-

sempre o mesmo de sempre. Apenas os

mos como pano de fundo as marcas dos pa-

atores mudaram. E agora somos nós

trocinadores dos eventos.

a conduzirmos esse falso espetáculo.


c a m

p

a

n

h

a

acordar para a

cultura POR sarah oliveira

pOSitivO


diĂĄlogo. x2

por helena modĂŠ e ruy filho


do mar

dama a

Helena ModĂŠ (10 anos) assistiiu e conversou com a revista sobre seu primeiro Bob Wilson


helena modé: Olá

Helena Modé

10 anos/colaboradora Antro+

ruy filho: oi querida hm: Então... rf: vamos começar? hm: Sim !

74

rf: desde que assistiu a peça, ficou alguma inquietação pra você? pergunto isso, porque é um tipo de teatro diferente da maioria.

hm: Sim, uma impressão minha foi que a peça, as maquiagens os cenários e tudo mais eram bem diferentes e contemporâneos ! Desculpa pela demora para responder. A internet não estava funcionando bem... rf: interessante vc dizer isso. o que quer dizer com “bem contemporâneo”? não tem problema. vamos no tempo que a internet deixar...


direção, cenário e conceito de luz: robert Wilson teXto: Susan Sontag, baseado em Henrik ibsen elenco: lígia cortez ondina clais castilho Hélio cícero luiz damasceno Felipe Sacon PArticiPAção eSPeciAl: Bete coelho

À esquerda, detalhe da iluminação, marca de Bob Wilson. nesta, detalhe de cena com Bete Coelho e ondina Castilho.

hm: O que eu quero dizer com “bem contemporâneo” é que a peça é uma peça diferente das que você vê normalmente, ela é uma peça mais “maluca” (de um jeito bom), você repara que ela é interpretada de um modo diferente, por exemplo, na peça eles falam de um modo diferente do nosso. As maquiagens são diferentes. E várias outras coisas que você repara ao ver a peça.

rf: entendi. o bob tem um jeito muito particular de trabalhar cada uma dessas coisas, cenário, a fala e tudo mais. é o que chamamos na arte de vocabulário do artista. o artista nos surpreende com uma maneira de ver as coisas, e que é dele. como se nos ensinasse a falar outra língua. quando isso acontece, tudo fica mais bacana, não acha?

hm: Sim, eu acho! Na minha aula de artes nós estamos aprendendo mais ou menos sobre isso. Sobre a marca que o artista deixa em cada uma das suas obras. Aquela marca que só de você olhar para a obra já sabe que foi aquele artista que fez. Isso acontece muitas vezes por causa do jeito do artista...O que eu acho muito interessante. Porque torna o artista mais “exótico” vamos dizer...

rf: exótico. essa é uma maneira de ver as coisas que não tinha pensado. vc achou o bob wilson exótico? hm: Sim! Porque se você pensar bem, cada um tem o seu jeito, o que torna cada um exótico. Ou seja, tem gente que tem o jeito parecido com o da outra, mais no fundo no fundo tem alguma coisa de diferente que o torna exótico.


86

montagem com cenas de a dama do mar.


rf: no caso do bob, o jeito dele de fazer teatro, a estética dos trabalhos, se tornou referência no mundo inteiro. quando o jeito de um artista passa a ser o modelo, vc acha que ainda pode continuar sendo exótico?

igual a vc. E, às vezes, todos acham que só porque uma pessoa te copia é que ela não é criativa. Mas, na verdade, ela gostou do seu jeito e quis copiar, mas lá no fundo ela vai dar um toquinho do jeito dela!

hm: Sim, porque outras pessoas podem ter o Bob como inspiração. Mas, por mais que você tenha um jeito bem bem bem parecido com o do Bob, você vai ser um pouco diferente dele. Por isso que, mesmo se a pessoa se tornar um modelo, ela vai continuar a ser exótica, as pessoas podem achar o jeito de alguém parecido com o de outro, mas tem uma característica que não vai ser igual, o que deixa vc exótico.

rf: pergunto sobre os atores, pq deve ser bem difícil um artista se entregar a um jeito tão particular de fazer as coisas, e que, nem sempre, é o jeito que o próprio ator escolheria fazer.

rf: isso é que torna a pessoa verdadeiramente um artista, então. a capacidade em ser original, gerar um modelo a partir de seu jeito de criar e ver as coisas e, ainda assim, se manter referência. legal esse olhar. e o que achou da peça em si? acha que esse jeito desafia, complica ou sei lá o quê, o trabalho dos atores? hm: É muito legal pensar que vc é original ! Que não tem ninguem

hm: Eu gostei muito da peça! E eu acho que ser ator/atriz é difícil por isso, porque cada vez que vc vai fazer uma peça vc tem que se adaptar ao jeito do diretor, mas o que deixa a peça mais legal é que a plateia quando vê a peça percebe que cada ator/atriz contribuiu com um pouco do seu jeito. rf: também penso assim. gostei muito principalmente dos trabalhos da bete coelho, da ondina e da lígia cortez. me passaram exatamente isso que vc disse. eram um tanto o que o bob queria, mas eram também um tanto elas mesmas. algum deles te chamou atenção?

hm: O ator/atriz que mais me chamou atenção foi a Lígia Cortez, primeiro porque reparei no jeito de ser dela, segundo porque ví que ela representava o papel de ser triste, não ter infancia, não ter liberdade muito bem, e terceiro porque achei muito legal conhecer ela por traz de todas as maquiagens e ver se o jeito dela se adaptou muito ao jeito do Bob ou se não se adaptou. rf: representar ser triste é muito difícil. pq não é só se fazer de triste, mas ser a própria tristeza. nesse sentido, o trabalho do bob e da susan sontag, que adaptou a peça, faz com que esses aspectos se tornem mais evidentes. hm: É verdade. O que é muito dificil no teatro é representar emoções fortes como ficar feliz, triste e etc.. E o trabalho do bob deixa essas emoções evidentes para a plateia. rf: O curioso é que o jeito dele mostrar isso em cena é ao contrário, é pela imagem quase congelada, sem a exposição da emoção (no sentido banal da palavra).

hm: O que eu achei muito interessante é que o bob deixa cada sentimento ser representado com uma outra ação que não é correspondente mas que o torna revelador... rf: será que a imagem pode superar a capacidade da palavra em representar as coisas, e, por isso, emociona mais? ou pq a imagem é mais abstrata, depende de como a entendemos, e isso varia de pessoa à pessoa? hm: Como eu disse, cada um tem o jeito de representar as coisas, o que torna cada vez mais interessante o modo das pessoas descobrirem isso; e cada vez aprender outras coisas com cada pessoa. E eu acho que tem gente que acha que a palavra é capaz de superar a imagem, mas também tem gente que acha que a imagem é capaz de superar a palavra, ou também tem gente que acha que o som supera todas as coisas. Mais isso depende do jeito de ser de cada um. rf: e como é pra vc? hm: Eu tenho duas opinioes. a primeira é que acho que a imagem/desenho supera varias


coisas. e a segunda é que a interpretação supera outras coisas tambem! rf: entendi. o bob faz exatamente isso. ele desenha a imagem que revela a estrutura de uma interpretação. hm: Então eu acho que tenho uma impressão parecida com a dele! rf: acho que sim. mas hj, será que não falta a palavra como meio de encontro entre as pessoas e as ideias? hm: Pois é, isso é muito interessante, porque no dia da peça o mais importante é a imagem e o som. hoje o mais importante é a palavra. rf: um paradoxo difícil de solucionar, né? hm: Muito difícil. rf: a questão é: será que a arte tem que resolver as coisas? digo, ser um meio de fazer dar certo o encontro entre as pessoas e ideias. ou ela deve ser simplesmente aquilo que pode causar no espectador um encontro com ele mesmo? o q vc acha?

32

hm: o que eu acho é que a arte é um modo de encontro com o jeito


À esquerda, cena do espetáculo com Bete Coelho, luiz damasceno e hélio Cícero. nesta, ruy filho e helena modé no saguão do Sesc Pinheiros.

de cada um, porque cada um pode sentir a arte do seu jeito. por exemplo: Uns vão ao teatro e só reparam no roteiro, outros vão e reparam no cenario e etc.. Talvez o paradoxo seja tão dificil de se solucionar que muitas pessoas censuram outras por causa do seu jeito de ser. rf: falta permitir que cada seja como quiser. também penso assim. hm: Principalmente agora que matam uns aos outros por causa do gosto ou opção sexual de cada um. rf: nossa, agora vc foi fundo! rs. mas é exatamente isso! hm: KKKK rf: me diz outra coisa... vc falou sobre a tristeza e a infância na personagem da lígia. fiquei curioso, com a sua idade, como é esse olhar sobre a infância. ou a falta dela, como vc colocou. hm: Eu, quando ouvi a história dela de que o pai dela morreu afogado e de que a mãe dela estava no hopício, percebi que a infância dela tinha sido mais complicada, não tendo nem a mãe

nem o pai para cuidar dela. E depois vi que ela representava muito bem a tristeza da infância. rf: há muita tristeza na infância? na peça ou de modo geral? hm: Na peça há muita tristeza, porque a filha foi convencida a ir com o professor dela se casar e tudo mais. Porém o professor ia só tirar a liberdade dela como aconteceu com a dama do mar. Eu acho que na infância não há tristeza e sim muita diversão, mas muitas crianças tem uma infância triste porque ou perderam pai ou a mãe, ou os dois, o que leva a uma infância muito “puxada”

bjs. Adorei a conversa e muito obrigada pela peça e pelo bate papo foi uma experiência muito legal. Se precisar continuar deixe uma mensagem que te retorno hj à noite.

mesmo na hora de vc ir. deixa um beijo pra todos aí. e obrigado pela conversa. adorei. e quando der, te apresento a bete coelho. vc vai ver que pessoa bacana tb! ;)

rf: tá ótimo, querida. combinamos até ao meio-dia e já está

rf: são várias realidades. que bom que vc pensa assim. pra vc foi legal assistir uma peça com questões tão doídas? hm: Muito legal, a peça é bem é interessante. As questões são realmente fora do real. Mas é bem interessante o fato desse conflito maluco, das focas e tudo mais... rf: gosto de conflitos malucos. quanto mais, melhor! hm: Ruy, desculpa mais tenho que ir almoçar e ir para escola. Então 2

3


vertical

Uto pias pos sĂ­ veis

por ruBens velloso


início

As artes, as redes, as ruas, as praças já apontam, ainda que timidamente, para uma outra forma de vivermos juntos.

Não mAis os coNceitos-verdAdes Queremos conceitos-graminha que brotam entre coisas sólidas e se alastram sem direção unindo pontos antes dispersos. A máquinA políticA que inventAmos não resiste mAis, é risível. o corpo social vai inventar um outro corpo

político, livre, enredado, sem donos ou patrões. essas formas de potências já aparecem como uma possibilidade concreta de uma outra história para a Humanidade. seremos todos umA outrA ficção possível diluídAs NumA iNteligêNciA coletivA.

Mais do que políticas públicas, poéticas públicas

HAverá? Deu três passos e pronto, estava despencando em alta velocidade no vazio. Sem hesitar. Bem, não foi assim tão fácil, houve antes de tomada a decisão, uma certa paralisia, uma espécie de coma, onde o corpo e a mente se aquietam, se esvaziam e aí o que resta é um incontrolável impulso para um longo mergulho em direção ao nada.

a velocidade do corpo no espaço se alternava entre a vertigem incontrolável e a suavidade de uma pluma, os dois estados se mesclando de acordo com as necessidades de cada momento.

o corpo e a mente se decompondo em finíssimas partículas que se espalhavam pelo ar, mas ele sentia que elas apenas estavam partindo para se reorganizar num outro lugar. tão longe e tão perto, era essa a sensação que lhe vinha enquanto pensava para onde todos os seus pequenos fragmentos se encaminhavam, talvez procurando por suas origens e ali estabelecer outros começos.

meDo? não, não sentiA meDo.

em queDA livre (primeira narrativa) Haverá um dia, um único dia, intransferível, em que uma espécie de Bing Bang particular nos lançará em um universo desconhecido, num caldo primordial de possibilidades que

ele sempre considerou o fracasso como uma presença da qual nenhum artista consegue se afastar, e era isso que o definia como um poeta.

nos tirará do chão da mesmice, ampliando no desmonte, à assombrosa ideia de estar vivo.

não ter receio de fracassar.


afinal, tudo que lhe restava naquele momento era experimentar a incrível liberdade de estar em sua totalidade, em uma articulação poética.

pensou em todo

o passado e o futuro atravessavam a

murmurou sorriNdo:

fugacidade do presente, gerando uma nova

ser ou não ser, eis a questão.

forma de memória que já não pertencia só a

ser e não ser, pode ser uma solução

ele, mas a todo o universo.

mAs HAviA umA difereNçA, ele Não viA o micropArticulA, iNveNtAdA iroNicAmeNte

humano um resíduo do que ele foi um dia:

umA metáforA Do universo.

O tempo fluía em todas as direções,

lembrou-se de borges e seu AlepH,

em algum lugar esquecido habita

À

medida que caia percebia que seu corpo/

mente nunca fora um envelope lacrado e que em nosso tempo na

terra

fomos, através da

por um cego, pelo lAdo de forA.

linguagem, construindo extensões corporais

ele estava dentro dela, em um puro estado quântico, vivenciando todas as incertezas.

e neurais que expandiam nossas potências e fraquezas para além do indivíduo nos transformando em singularidades

(capturar-

atualizar- doar) nos lançando

numa espécie de eternidade.

As religiões, as ideologias, as ciências, as artes, o Eu, se diluíam e se misturavam formando um oceano de possibilidades para compreender o que restava do Humano. via o brilho intenso das luzes das cidades,

um mergulHo (segunda narrativa)

A respeito das certezas do mundo:

a escuridão enigmática das florestas, ouvia todos os sons e percebia as diferenças entre os

performANce iNdiscipliNAr

seres não como uma anomalia, mas como uma expressão da multiplicidade do desejo.

“Até um relógio quebrado está certo duas vezes por dia”

entenDeu que em Algum momento

Navegamos num mar de incertezas.

ABAnDonAmos A nossA primeirA

dito assim você inventa uma primeira certeza.

82

nAturezA e entrAmos no ABerto DA linguAgem, que no início se mAnifestAvA

Então, munido de um pequeno espírito

como poesiA, Até ser tomADA pelos

aventureiro enfuna as velas e lentamente

territórios, pelAs inDiviDuAliDADes,

avança pela zona de arrebentação, das

pelo poDer, trAnsformAnDo

marolinhas em direção a um horizonte

tuDo em prosA.

preenchido por um azul vazio intenso.


existe.

Já em águas mais profundas você flutua e sente uma pressão no seu corpo exercida pelo céu e pelo mar.

você está no meio do nada. você é o nada. para garantir a continuidade da navegação você começa a construir uma imagem, uma ilusão do que é e ai pensa: no mínimo vai

três longos mergulhos intercalados por uma respiração rápida.

depois retoma as braçadas de forma compassada, sem desespero.

servir como bússola.

Já percebeu que apesar do mar revolto, você flutua.

mas o nada é brutal, imenso, avassalador e ai vêm o primeiro paradoxo: se ele tem toda essa potência porque eu o sinto como nada? então você resolve tentar outras denominações: o desconhecido, o vazio, o que eu não sei,

e AproveitAnDo essA percepção constrói umA terceirA certezA:

o nADA tem DuAs nArrAtivAs

zonas sem luz,

uma fora de mim, que eu herdei

falha e conexão,

que é e que não é minha.

o inexplicável, e por ai vai.

u ma

narrativa do mundo , das linguagens

esse é o exAto momeNto em Que se

do mundo , dos seus desejos , suas vontades ,

resolve AbANdoNAr A embArcAção e

suas catástrofes , da sua beleza e da sua

como se obedeceNdo Ao cHAmAdo de umA sereiA mergulHAsse em águAs profuNdAs iNdo defiNitivAmeNte em direção Ao Que você ANtes cHAmAvA do NAdA. depois do primeiro mergulHo, QuANdo voltA procurANdo o Ar iNveNtA A seguNdA certezA – o vAzio Que se esteNde pelo HorizoNte é vivo, tem texturA, sAbor, cores, movimeNtos, eNfim, e este é o pArAdoxo!

escuridão , a outra é a minha , desta ilusão que ouviu o canto da sereia .

pronto, você Deixou De ser um relógio queBrADo.


De repente uma onda inesperada te empurra para

e novamente elas tentam se aproximar. tão

as profundezas. Com grande dificuldade você

longe tão perto, tão longe tão perto, num

volta e ao chegar à superfície a necessidade de

breve momento se sente um interprete de

ar é imensa. no meio dessa luta, não sabe por

narrativas, um antecipador do devir e continua

que, lembra de um poema de Borges que sempre

no meio das calmarias ou turbulências

achou belo, mas às vezes um pouco hermético:

nadando em direção ao horizonte do nada. e ai você estrutura a quarta certeza, a sua

Sólo una coSa no hay. ES El olvido dioS quE Salva El mEtal Salva EScoria y cifra En Su profética mEmoria laS lunaS quE SErán y laS quE han Sido.

(rESpiração curta E rápida) ya todo ESta. loS milES dE rEflEjoS

epifania, a sua teoria das cordas, numa revelação ofegante você flutua no meio do oceano e grita para quem quiser ouvir:

eu....... nós.............. os possíveis

quE EntrE loS doS crEpúSculoS dEl día

construir

tu roStro fuE dEjando En loS ESpEjoS

Articulações poéticas para o escuro do

y loS quE ira dEjando todavía.

Contemporâneo, não significa abandonar ou

(uma longa) y todo ES una partE dEl divErSo criStal dE ESa mEmoria, El univErSo;

negar as linguagens já constituídas, mas, fazê-las explodir em pequenos fragmentos e recompô-los numa trama indisciplinar e porosa sempre aberta para outras possibilidades.

no tiEnEn fin SuS arduoS corrEdorES

(duaS longaS) y laS puErtaS SE ciErra tu paSo; Sólo dEl otro lado dEl ocaSo

arquEtipoS y ESplEndorES (trêS curtaS E rápidaS)

Uma superfície por onde trafegam livres singularidades que podem estar, em múltiplos espaços, fluir no tempo e vivenciar infinitas personas. Puro fluxo.

vEráS loS

Já com a respiração controlada, retomando as braçadas, você cria uma imagem para as duas narrativas que inventou.

Às vezes elas afundam abraçadas e emergem em pontos distantes uma olhando para a outra tentando se aproximar. outras vezes conversam,

menos que nADA dada a inútil presunção de superioridade que alguns humanos tomam para si, baseada no que fazem no que acreditam, na cor da pele, na sexualidade, no poder econômico ou institucional, em alguma moralidade obtusa ou em uma religião qualquer, torna-se necessário revelar que a natureza, a quem pertencemos, refuta esta estúpida ilusão de um território, especial e particular, e afirma o que qualquer manual de física básica torna claro:

nadam juntas, até que uma súbita correnteza as afasta para pontos

84

distantes do mar.

toDo ser é iluminADo, mAs nenHum tem luz própriA.


c a m

p

a

n

h

a

acordar para a

cultura por otรกvio mArtins

positivo


capa

Luis M

1.08

0.33


s Melo

E a arte de desafiar a si mesmo por

ruy filho

fotos

fausto roim

5.49


excess

silenciar o

e dar espaรงo ao

88

fundamental


so

S

abe quando você é surpreendido por um artista? Aquele instante único e inesperado em que você está disperso pela rotina, entra em uma sala de teatro em busca de alguma coisa, e o ator tem a ousadia de ser mais do que isso, de ser artista? Acontece. É raro, porém possível. Mas o quão raro é isso ocorrer mais de uma vez com o mesmo ator? E três? Após a terceira, então, a decisão: preciso falar com ele. Escrevo-lhe e marcamos no Sesc Ipiranga o encontro. Há sempre um tanto de timidez em mim, quando me deparo com verdadeiros artistas. Então vou disponível ao que vier. E assim fomos, eu, Patrícia e Fausto. Chegávamos no horário. Tudo caminhava para a segurança de um arranjo aos interesses dos dois lados. Só não contava vê-lo ali, na banca de jornal, fora da segurança de minha xícara de café ocupando minhas desajeitadas mãos, de meu caderno e caneta que tanto me ajudam a controlar o olhar. Faltam ainda poucos minutos. E preferi deixar meus passos se desacelerarem. Pode sempre parecer muito tolo agir assim, mas é como funciona para os tímidos. E, principalmente, para os fãs tímidos. Até que surgiu o contato. Até que fomos ao teatro. Até que pedimos nossos café. Respeito ainda mais pessoas que tomam café, pois me identifico com elas. E nos ajeitamos do lado de fora na comedoria. Foi quando percebi, estava na frente de Luís Melo. Eu e as crianças que nos interpelavam pedindo autógrafos sempre respondidos pacientemente, os noveleiros que o aconselhavam não se casar ou tomar cuidado com o vilão. Estendido também a mim, o carinho e respeito de seu olhar deram o início de uma conversa que levou décadas para acontecer. Primeiro silêncio. Começo dos anos 1990. Chegava em São Paulo, por volta das 19h, em plena Avenida Paulista, e encontrava um amigo com um ingressos em mãos. Fomos assistir Nova Velha História, direção de Antunes Filho. Na verdade, fomos ver Luís no papel de Lobo Mau, cujo texto surgia em fonemol, língua (se é que se pode nomeá-la assim) inventada no CPT. Ali, no homem-bicho que olhava à lua suspensa, encantei-me com a capacidade de um ator ser o meio mais preciso para me levar ao sonho. Saí do teatro sem nenhuma vontade de falar. Ao menos, não pela fala comum. Interessado que estava em tornar a vida a fala de uma poesia. Segundo silêncio. Quatro ou cinco anos depois. O mesmo palco e diretor. E o mesmo ator em Gilgamesh. Quer dizer, artista. O homem, em um determinado instante, apenas corria no mesmo lugar. A cena era simples, se pensada em grandes questões. Não era mais a fala a hipnose. Mas a entrega.

Ensaio fotográfico nas dependências do Sesc Ipiranga, Sp.


A capacidade em tornar a ação algo suspenso sobre a narrativa e fazer de seu tom etéreo o encontro com o imaginário. Luís novamente me emudecia. Ao menos, sem fôlego sobre o tanto que precisava e gostaria de dizer sobre um pouco de tudo. Terceiro silêncio. Ontem, por assim dizer. Ele ali, sem fala, apenas corpo e gesto, exposto como nunca o vira, interiorizado em uma atmosfera própria de uma caixa de música de Tim Burton. A deformidade existente no ser, o expressionismo caricaturando a realidade em pesadelo, a doçura de uma fábula que percorre a escuridão das infâncias e seus mistérios. E eu, novamente sem fala. Ao menos, sem vontade de intervir com minha própria voz na musicalidade que transbordava daquele universo sobre o palco. Então aprendi que o mais importante ao artista é de fato gerar em si um estado permanente de inquietação. E que depende mais daquilo que lhe é oferecido do que propriamente a realização apresentada. Mas nem sempre é fácil consolidar esse encontro. Seja porque o artista poucas vezes se permite ao inquieto, seja porque o oferecido a ele não sugere caminhos para construir o sentimento. Para Luís Melo, hoje conhecido por uma trajetória exemplar nos palcos, além de trabalhos em cinema e televisão, o fundamental no presente dá-se na qualidade possível de certo resgate do teatro, unindo maneiras novas de dramaturgia àquilo que o antigo pode oferecer ao descobrimento de outros caminhos. Presentificar a cena, pode-se dizer, então, mais do que meramente realizá-la. Torná-la a existência de um instante específico, no qual o convívio com sua manifestação torna capaz transpor o espectador ao limiar entre o assistir e o pertencer. O que parece ser a tônica obvia de um argumento, na verdade confronta o pragmatismo de uma cena

cada vez mais objetivada pelas facilidades, onde o fazer teatral pouco oferece de desafiador e muito menos de inquietação para qualquer parte. Realizar satisfatoriamente o básico parece dominar a produtificação do artista hoje, que passa a ser ele mesmo o produto, antes mesmo do espetáculo ser material de mercado cultural, invertendo as dinâmicas mais banais que o sustenta. Luís foge a tudo isso. Impõe a si o encontro com linguagens tão especificas e particulares que eleva seu existir ao devaneio poético mais sublime. Não cabe ao artista ser sua produtificação, facilitar seu existir. Ao contrário. Cabe-lhe o risco. Exige-lhe o perigo. Desafia-lhe os instintos e técnicas. E faz voar ao infinito. Luís, assim, alcança a importância do artista ser superior ao profissional, e como a profissão de ator se confirma à necessidade da expressão de uma maneira inquieta de se posicionar sobre o presente. Portanto, se podemos aqui diferenciar um de outro, enquanto o artista é o elo de presentificação de uma obra, o ator é o meio de oficialização e produtificação de sua resposta. E a diferença grita em cena, quando um ou outro domina o fazer. Com Luís, o artista é soberano e imperativo sobre o ator, inquestionavelmente. Buscar o simples torna-se essencial nessa tentativa em construir outros processos e paradigmas, afirma. A simplicidade, qual nomeia, não significa, todavia, limpar a cena, esvaziar a imagem. Até porque, isso requer complexidades muitas vezes ainda maiores. Trata-se de recuperar na estrutura simbólica a pertinência dos silêncios, nos quais o existir representa o próprio signo de narração, enquanto se constrói e contextualiza sua validade. Silenciar o excesso e dar espaço ao fundamental. Hoje, o


“ter a simplicidade como ato de criaçÃo É um dom”

1

9


o gesto

oa

prepara


ator

para uma dimensテバ maior


94


teatro brasileiro muitas vezes se confunde durante essa busca. Por vezes somos confrontados por excessos que nada oferecem, apenas poluem sem tornar a poluição simbólica, como se o excesso fosse suprir a falta de um bom argumento. Outras vezes, a ausência gratuita, expondo o intérprete a uma existência descontextualizada, por não ser capaz de ser ele mesmo suficiente para dar conta daquilo que o argumento julga ser interessante. Esse conflito entre o muito e o pouco, tudo e nada, passa pela capacidade em filtrar no interprete o valor de sua presença. E, então, teremos o ator como a presentificação de uma urgência estética. Algo como a potência de um olhar à Lua ou do correr sem sair do lugar. Ou mesmo, assistir o movimento de um peixe solitário no aquário, como ocorre em Ausência. Como trazer eficiência a isso é a questão. O gesto é fundamental, argumenta Luís Melo, enquanto a palavra acaba por determinar significados àquilo que descreve. Todavia, não se trata de hierarquizar gesto e palavra. O paradoxo depende mais do entendimento de ambos como estruturas narrativas. Vide o fonemal do Lobo, por exemplo. Se nos atentarmos para a condição de ser tudo aquilo apresentado sobre o palco a manifestação de um signo independente de sua participação narrativa na estrutura geral do espetáculo, então palavra e gesto podem coincidir os desejos e alavancar de modos distintos os mesmos objetivos. Para isso é necessário um ator disponível mais à construção de esvaziamentos do que preenchimentos psicologizados. A palavra, por ter em si a nomeação daquilo que revela, é sistematicamente utilizada no teatro como meio literal de demonstrar uma informação. Esse é o incomodo maior. Tal função não se justifica mais, após meio século de uma cena onde

“eu nÃo Quero faZer. eu preciso!

o contemporâneo discorda sobre o servir à representação de um realismo fotográfico do homem e do cotidiano. A verticalização do uso da palavra se dará no instante em que esta for compreendida em aspectos outros, incluindo aí a capacidade simbólica de induzir significado pela sua estrutura sonora, a pertinência de sua subjetividade não informativa, proximidade poética ao contexto etc. Por isso, falar é algo tão questionado. Por isso o gesto se revela meio de discurso, ainda que não lhe caiba mais o papel da mimese e mímica. Se tudo aquilo que se coloca em cena é inerentemente signo, então podemos tratá-lo como corpo, tanto quanto o corpo do ator. E se tudo, essencialmente, é corpo, matéria física narrativa, o gesto passa a ser qualquer movimento que conduza a compreensão simbólica a um percurso narrativo. Sendo assim, quando Luís defende o gesto como “meio para levar o ator a uma dimensão maior”, fala também na percepção de ser o movimento do signo a estrutura mais profunda na confirmação da narrativa de uma imagem. Ausência, seu mais recente trabalho no teatro, é a prova dessa eficiência. O espetáculo se constitui do existir de corpos em constates movimentos, visuais, sonoros, físicos e Luís, perpassando a condição de serem gestos narrativos para alcançarem a qualidade de sobreposições de poéticas singulares. Inverter a condição de submissão do gesto à palavra oferece a uma obra outros instrumentos para acessá-la. Porém, não se trata de esvaziar a importância da palavra ou lhe provocar o silêncio em falta, mas o de respirar a desnecessidade da palavra pela força narrativa na condução dos gestos e as estruturas simbólicas que os permeiam. Não


faZer do teatro a

subjetividade do presente

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dizer é diferente de não falar, portanto. O silêncio em cena é igualmente dizer algo. Falar, soprar palavras, então, pode vir a ser a redundância daquilo já revelado por outros meios. Para Luís, seja pelo gesto ou pela fala, o importante é conquistar no teatro a capacidade de oferecer ao espectador a subjetividade do presente. Distanciá-lo da realidade para lhe oferecer afastamento suficiente para que a enxergue, como diria Giorgio Agamben. Para tanto, faz-se necessário compreender de modo mais profundo aspectos aparentemente sólidos do trabalho do ator, diferenciando representação e interpretação. Se nos desvincularmos dos vícios das nomenclaturas estabelecidas pelas correntes estéticas como meio de dogmatização do conhecimento, interpretar algo nada mais é do que oferecer ao outro a observação pessoal sobre a coisa em si. Ou seja, recriá-lo a partir de valores e interesses de quem o interpreta. Por sua vez, representar passa a ser a qualidade em permitir servir-se como meio para a manifestação da coisa em si, sem intervir na sua compreensão, mas estruturando aquele que a representa como interface de concretude. Em outras palavras, há muita diferença interpretar ou representar a solidão, por exemplo. No primeiro, o ator narra a partir do estado de sua


LuĂ­s posando pra as lentes de Fausto Roim.


condição; no segundo, passa a ser simbolicamente a solidão como estado de potência. Luís Melo alcança a grandeza de atingir o presente em estado bruto, por isso a subjetividade é exposta como face primeira da narrativa. E, a maneira como determina ao gesto um vocabulário de representação e não de interpretação, conduz o espectador ao encontro com o tempo em pleno acontecimento, pois lhe oferece o distanciamento essencial. Se por um lado a pesquisa é fundamentalmente a observação da manifestação desse vocabulário na composição do presente, por outro é preciso oferecer espaço para seu desenvolvimento e experimento. O Campo das Artes, como denomina, não se trata de um argumento filosófico, apenas. É um espaço real, próximo à Curitiba, no qual Luís prepara e organiza um centro de estudos às artes. Campo também não é somente uma metáfora, mas a localização geográfica em si. Desse modo, o artista oferece a experiência e o experimentar, completando o refinamento de um discurso técnico e estético que se desdobra cada vez mais como observação e reconhecimento do homem atual. Fazer do teatro o apontamento de um instante. Torná-lo a sustentação de um silêncio preenchido por suspensões e subjetividades. Traduzir ao gesto ao invés de usar o gesto para traduzir algo. Luís Melo se prepara a décadas para chegar ao impressionante nível de seu discurso cênico, fazendo da vida um vocabulário de observação de si mesmo e do outro, tornando tudo teatro, para assim ser simples. Ou, simplesmente artista, pelo qual o ator surge em caminhos múltiplos e infinitos. E dele a arte. E dela um pouco mais de cada um de nós. Após a conversa, um abraço de despedida, uma ou outra palavra de agradecimento. Enquanto percebo que naquela tarde voltava pra casa em silêncio. Inquieto e extasiado. Novamente. E pela quarta vez.


por aí onde TeaTro rápido lisboa/pT

15 minutos Em Lisboa, um espaço destinado ao convívio com o experimentalismo de maneira inventiva e funcional


os


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À esquerda, acima, entrada do Teatro rápido. Nas fotos menores, detalhes das salas ocupadas com espetáculos. À direita, corredor de acesso às salas.


E

le surge no coração de Lisboa, como definem, em Chiado. Um espaço voltado para experimentações contemporâneas, no qual a curta duração dos espetáculos leva o público ao encontro de mais de uma produção por programa. Possibilitar o encontro com a produção atual implica em desenvolver modelos de acesso diferenciados. É o que se propoe o TR. Criado em maio de 2013, a programação oferece 4 espetáculos de 15 minutos, em 4 salas distintas, nas quais, cada apresentação se repete por 5 vezes na mesma noite. O microteatro, nome dado aos experimentos cênicos, busca ampliar o contato do espectador com trabalhos mais investigativos e linguagens não tão comuns. A ausência desse comprometimento pelos espaços formais já reconhecidos, abriu a necessidade de abrigar as experiências não comerciais, o que

é raro, se tratando de empreendimentos culturais. Agora, o Teatro Rápido surge demonstrando que o teatro alternativo pode ser também um excelente nicho de mercado. Tamanha ousadia promete reestruturar a cena portuguesa rapidamente, já que artistas e espectadores poderão traduzir suas percepções em convívios mais intensos. Se estiver em Lisboa, já sabe onde ir. A experiência é imperdível, e ainda pode ter a sorte de assistir alguns dos futuros nomes da cena contemporânea portuguesa em pleno nascimento. Boa viagem.

tEAtRo RÁPiDo >> Rua serpa Pinto, 14. Lisboa, Portugal (+36-1) 215 1600 http://teatrorapido.blogspot.com.br


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acordar para a

cultura por denise weinberg

positivo


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cultura por erom cordeiro

positivo


por aqui

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onde sede do faroeste s達o paulo


FaroESTE

AMARELO Uma sede, alguns novos andares e o encontro com os coletivos no centro de São Paulo

a

Cia. Pessoal do Faroeste mudou de endereço outra vez. Calma. Eles ainda estão na Luz, na mesma Rua do Triunfo. Mas, agora, ocupam também outro espaço. três andare em um edifício de propriedade de Seu Raimundo, um baiano residente em São Paulo. Os espaços servirão para abrigar coletivos de artistas. Situado na Rua General Osório, 23, o Amaralinho, agora denominado pelos artistas como Luz do Amarelinho, abre espaço para criadores em teatro, artes visuais, cinema em forma de ocupação criativa. Desenvolver a relação entre coletivos e possibilitar o desdobramento desses encontros é um desafio e tanto, em uma cultura urbana cada vez mais na defensiva e carente de espaços alternativos. Por isso e por tudo o que pode vir a fomentar por aqui, o Amarelinho se firma como um lugar fundamental a ser acompanhado por todos os


detalhes da fachada da sede da companhia e de suas dependências. Na página ao lado, espaço cênico.

interessados. De produtores a artistas, de patrocinadores a teóricos. A Cia. do Faroeste avança em seu projeto inicial de dialogar com o presente na construção de temas sociais, cujo encontro com o outro se dá pela politização do discurso estético. É torce para que o Amarelinho se revele a potência que todos nós precisamos para que o exemplo possa se multiplicar por outros cantos da cidade.

CIA. PESSOAL DO FAROESTE e LUZ DO AMARELINHO >> Rua do Triunfo, 301 >> Rua General Osório, 23 / SP-SP Tel.: (11) 3362-8883

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www.pessoaldofaroeste.com.br


outros tempos por ruy filho

P谩ssaros fantasmas Uma cidade destruida pelo pr贸prio sistema que a criou. Um homem em busca de companhia. Outro que registra o mundo sobre as paredes. Enquanto um grupo se despede de tudo de maneira nada habitual


A

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cidade ouvia pequenos gritos. Restavam poucos espalhados entre as vielas. Muitos desapareceram quando o efeito do gás lacrimogênio se deu. Outros, simplemente deixaram de existir. Não se sabe como, ou se fora alguém. Apenas evaporaram. E, se no primeiro instante, parecia óbvio se tratar de uma ação policial, logo se pode perceber o erro. Afinal, também eles não eram mais encontrados. Nenhum. Também os políticos. Ninguém. Então quem? E por que alguns ainda existiam? E por que gritavam, se não haveria contra quem reagir? O homem vestido com o macacão laranja tipico dos funcionarios municipais caminhava sem tantas preocupações. O som que buscava era outro. Aquele não mais ouvido durante décadas, perdido em sua lembrança de infância, na mesma Detroit de agora. Não exatamente a mesma. Os carros, marca da civilização industrial capitalista de outrora, agora estacionavam suas paralisias tempo o suficiente para que as plantas encontrassem entre os assentos e engrenagens ambientes propícios para sobreviverem. Xam, a alaranjada figura solitária, insistia e continuava. Por dentro de um edifício, pelas portas abertas das casas, pelos parques. Duas curvas depois de quase quatro horas, o primeiro susto. O homem riscava sobre os muros substituindo as imagens de Basquiat sem qualquer pudor. O que está fazendo?, berrou Xam, não destrua tudo. Tudo?, você tem certeza que há ainda o que ser destruído? Evidente, disse Xam de modo conclusivo. O homem levanta seus baldes de tintas, arruma suas coisas e, sem nenhuma cerimonia, apenas some pelas vielas. Ali, tampando a imagem anterior, os desenhos impostos alcançam tamanha sensibilidade e poética que levaram Xam a correr para encontrá-lo. Mas, ruas vazias são infinitamente mais propícias ao desaparecimento. Foi quando Xam viu outra pintura, e mais ao final do quarteirão. Era claro que se seguisse os rastros dos desenhos poderia chegar ao homem. E, por um instante, se esqueceu dos sons que buscava. E distraído, correu por todas as ruas que ainda não conhecia. Os gritos pareciam mais altos. Fossem quem fossem, ele logo os encontraria. A cidade se transformara na medida em que se afastara do centro.

Montagem com imagens do limite da cidade de Detroit, e grafismos de Bansky (à esquerda) e Basquiat (à direita). Na página anterior, um dos edifícios abandonados na Detroit atual.


Nesta, detalhes das instalações de rachel Whiteread (arquitetura em concreto) e Erwim Wurm (casa na topo do edifício). Na página ao lado, orlan e vitrais de Detroit atual.


A ordem da civilidade se alterava de modo inigmático. Havia casas sobre os prédios, invertidas em seus eixos, quase em queda, mas milimetricamente projetadas para ali permanecerem. Xam, na sua ingenuidade de um mero gari, descobria outras possibilidades. O estranhamento deixara de ser e atingia a magia de um encantamento. Como se ele estivesse mudado de sentido. Como se nada fosse verdadeiramente o que a cidade sempre lhe mostrara. Aos poucos, a cidade inteira estava invertida. E, então, o homem passou do encantamento para a compreensão mais radical de sua solidão. Os desenhos continuavam. Grafitados, livres, poéticos e claramente discursivos sobre o que poderia ser aquela cidade. As paredes cinzas eram blocos definitivos de concretos. E, rodeando-as, Xam descobriu que tambem todas as entradas e portas e janelas. De todas as construções. De todos os espaços, fossem residências, escolas, bibliotecas. Tudo havia sumido. Foi o homem que lhe encontrou, e não o contrário. É mais facil de ser visto, quando se usa um macacao laranja. Quem é voce?, perguntou Xam. Se eu lhe disser que, mesmo eu, não sei... Quem são as pessoas? Um pouco de mim e de você, ou do que deveriamos ser, respondeu o homem. Mas por que? O homem se afasta, acende um cigarro e diz, feito um velho andarilho da cidade, esta não é a primeira vez. O que? A cidade, esta não é a unica, elas foram vendidas, uma a uma, começou com um quarteirão em Londres, agora aqui, uma verdadeira plástica urbana. Não pode ser tão simples assim, disse já sentado num canto de rua, soltando o capacete branco. Não foi, ela causou isso. Quem? A mulher francesa que mudava a si mesma como um camaleão; com a desculpa de encontrar sua verdadeira imagem, ela deu a ideia e, agora, são as próprias cidades que estão cirurgicamente sendo modificadas por seus compradores.

A tarde chegava ao fim, quando o homem se levantou. Preciso ir, boa sorte. Para onde?, perguntou em um sobressalto Xam. Enquanto virava o quarteirao, Xam grita, pelo menos o seu nome!. Bansky, pode ser assim que as pessoas lhe falem de mim. Sozinho, novamente, a figura laranja sumia com o chegar da noite, quando, ao acender de um poste, percebe brilhar um pequeno metal na mesma curva por onde o grafiteiro sumira. O relógio antigo de bolso congelava um momento preciso, poucas horas noite adentro. No verso, um endereço e telefone. Foram os gritos que trouxeram Xam de volta ao presente. Havia outros, é fato. Mas quem? No único e igualmente solitário orelhão, Xam liga ao número anônimo. Você vem?, pergunta a garota ainda jovem. Sim. E desligou sem ter certeza de nada, para seguiu ao endereço. O edificio abandonado e destruído pelas manifestações dos dias anteriores marcava o número exato no endereço que o relógio trazia. Arriscou-se a tocar a campainha e a porta eletronicamente aberta revelaou-lhe um pequeno bilhete. Siga ao teto. Era sua única informação. Foi o que fez. Enquanto percebia alem dos gritos, música ao fundo. Ao chegar, um homem aparentando 31 anos. Aguardávamos o último. Eu?, diz Xam. Venha comigo, por favor. Eu não vou entrar, já mais agressivo e desconfiado. Não tenha medo, lhe garanto que essa experiência poderá mudar sua vida. O alçapão de acesso por onde viera estava trancado. Não havia como voltar ou fugir, e pular do 12o. andar não era uma opção. Austin subiu as escadas e somiu dentro da caixa d’água. Então a música retorna. E os gritos. E, de repente, a jovem garota do telefone surge e diz venha, está perdendo, e essa será nossa despedida! No interior da caixa d’água, pequenos barcos serviam de alojamento a outras 9 pessoas.


Nesta, caixas para pássaros espalhados por Xam pela cidade. Nas fotos menores, detalhes de uma das caixas d’água invadidas para a realização do Night Heron.

Mais ao canto, dois músicos dedicalhavam seus instrumentos, enquanto o som era amplificado pelos canos da cidade e se espalhavam sem controle. De tempos em tempos, um barco se aproximava também dos canos e todos gritavam. Se despediam da cidade fantasma em uma festa proibida. Uma pequena resistência poética em um mundo falido e esquecido. Senhoras e senhores, eu sou Austin e esse é o Night Heron, disse o homem, antes do sol apontar na borda da caixa d’água, e eles são integrantes do Lisbon Players, grupo fundado em 1947 e o primeiro a perder tudo após o quarteirão onde seu teatro ficava ser vendido, lembrem-se desta única noite, lembrem-se de que nenhuma manifestação é mais eficiente do que a própria poesia. A noite terminou assim. Xam e seu macacão laranja perambulando sozinhos pelas ruas. Mas diferentes. Ele desistira de entender as casas de ponta cabeça, as janelas e portas concretadas, os desaparecimento... A cada espaço, assim como seu repentino amigo Bansky, passou a viver escondido pelas vielas, enquanto a nova cidade era construída por seus novos donos. Não para desenhar sobre os muros já limpos e renovados. Onde menos se esperasse lá estavam suas intervenções. Dezenas de casas de passarinhos e gaiolas vazias presas nos lugares mais improváveis. E uma única frase. Você não os ouve mais porque agora estão livres de vocês.


contação por Beatriz Grimaldi

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ele ama Mirna


Drama de palco

U

ma sala bem pequena. Uma sala para dois corpos sem recheio. Esvaziados como bexigas que perderam o ar. Chiando e se debatendo. Apartamento. Chiando e se debatendo. As paredes são desbotadas, amarelo-pálido, cheias de bolhas, Mirna e Ele, do lado de dentro do apartamento. As paredes e o desejo de seus donos são flácidos. Se estreitam cheios de trincas até alcançarem a porta. Mirna e Ele, tem os cabelos cor de palha. São altos e magros. Longílineos. Eles, as roupas, os móveis, quase sem cor. Apenas a boca de Mirna é pintada de vermelho. A boca de Mirna que não para. A incansável boca de Mirna. O vermelho e o som de cidade: acelerar de carros, betoneira, serra elétrica, buzinas, miados, helicóptero. Tudo muito distante e baixo. Na rua e na casa freadas bruscas. Pneus e falas: “Acabou, Mirna”, foi isso que você disse. Eu quase me lembro e no mesmo instante esqueço. Esquecer é um esforço. A sala era de paredes claras desbotadas e sua voz corria em círculos. Sua voz girando atrás do rabo, repetidas vezes. Você, rei de uma única fala: “Acabou, Mirna, eu não te quero mais”. Sua fala trançada em minhas artérias, sugando meu oxigênio. Eu, cinquenta por cento de ar. Um quilo e meio de cérebro guardados em

uma caixa de ossos, com um único pensamento: “Acabou Mirna”. A massa se encolhe, mas não se desentrega. Repetindo mil vezes, mil e uma vezes e duas e três e falta o ar, o choro não escorre, e cinco, e as pernas tremem, mil e seis vezes. Vertigens. ”Acabou, Mirna.” Às vezes penso que foi o medo. O medo me fez crer que ouvi você falar. Sinto meu coração acelerado, as mãos tremerem, meu corpo todo. A boca seca. “Mirna, acabou. Eu não te quero mais”. Um quilo e meio de cérebro não pesaria muito se não me prendesse ao chão. Mirna está sentada em uma cadeira pequena e baixa na sala de jantar. A mesa tem só dois lugares. Nos pratos, macarrão e ovos mexidos esfriam enquanto ela fala. Seus olhos pouco piscam. O que foi que você disse? O que foi que você disse? O que foi que você disse? Tento me lembrar. Tento esquecer. Sua fala enroscada nos meus cílíos, na coxa esquerda, na porta. Por todos os cantos. No ar que passa pelos meus dentes: “Dessa vez estou indo embora Mirna. Essa é a última vez, entendeu? Entendeu Mirna? Acabou.” Sua fala esfarrapada subindo como parasita pelas paredes, atravessando portas e frestas, descendo pelas minhas pernas, invadindo meu sexo, se enraizando no úmido. Nessas infiltrações. Em todas as paredes.


contação

Mirna, sibila um longo psiu. Não é a primeira vez. Faça silêncio. É disso que eu preciso, do seu silêncio. Assim. Esse som que não tem sua palavra é tão melhor. Essa ausência. Levanta-se e caminha até a fotografia dele, um poster de tamanho natural de 1.80 m, pregado na parede esquerda. Ela arrasta uma cadeira com a mão direita. Uma ação lenta. Os pés pouco saem do chão, não fazem barulho. O rosto de Mirna, não tem expressão. Coloca a cadeira em frente ao poster. Para atrás da cadeira, os braços ao longo do corpo. Fala olhando para a fotografia: Cale-se um pouco e sente-se. As palavras precisam de silêncio. Elas não podem ocupar todo espaço. As suas, eu me lembro bem, invadem os poros do mundo. As letras se juntam num pelotão a me espremer. Inúmeras vezes expelidas em minha direção. Eu tento dizer: Parem! Mirna despenca lentamente. Levanta-se. Eu digo mais uma vez: Parem! Mirna despenca lentamente. Levanta-se. Parem! Mirna sobe em cima da cadeira, cola a boca na fotografia. Desabotoa o vestido, que deixa cair no chão.Tira os sapatos. Eu disse a você que não era hora de sons. Eles nos atordoam, nos fazem oscilar, como pêndulos. Frente e trás. Frente e trás. Eles nos atordoam. Nunca sabemos se vamos cair. O ruído dos seus passos não sai da minha cabeça. Esse som das solas de borracha marcando o chão, freadas bruscas. Passos de número 42, querendo ir. Não deixe que eles saiam de perto de nós. Você já fez isso tantas vezes.

Mirna, nua, roça seu corpo na fotografia. Vamos fale. Isso foi agora, não foi? “Acabou, Mirna! Eu não te quero mais.” Não Foi? O quente do seu gozo escorria pelo meu rosto, você lembra? Os ossos pontiagudos do meu quadril se encaixavam nas suas costas. Você lembra? Meus dentes no seu pescoço. Meus seios arrepiados nos seu cabelos, na sua boca. Você lembra? Você poderia ter dito tantas outras coisas.Tantas outras coisas. Mirna caminha até a mesa. Deita o rosto sobre a comida. A boca vermelha e suja. O macarrão e os ovos mexidos espalhados por todo corpo. As mãos na boca e na comida. Acaricia seu corpo,toca sua pele. Passeia os dedos pelas trincas. Ouve-se um som de água, descendo pela tubulação, misturado aos seus gemidos. A água segue na direção mais profunda. A água retida é um armazenamento morto. Ela grita: Agora chega! Apaguem as luzes. As luzes do palco diminuem. Voltem para suas casas. Eu continuarei aqui. “Acabou, Mirna”! Fechem as cortinas. O barulho da água e a voz de Mirna. O palco escuro. Uma, duas, mil vezes. “Acabou, Mirna”. A infiltração é um processo lento. Muito lento. “Acabou, Mirna”.

TODA CASA/CENáriO, PrOTEgE OS iNDivíDuOS DE fENôMENOS NATurAiS ExTEriOrES, MAS NãO DOS MALES DA ALMA.


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Pensar o teatro sem a perspectiva da tecnologia como efeito, recuperando a magia do fazer teatral por fotos

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Ensaio fotográfico nas dependências da Oficina Oswald de Andrade.

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almoço durante o Festival de Curitiba, por muitas vezes coincidia com encontrá-lo. Então ficava a obrigação de dividir com ele a mesa. não por compromisso ou protocolo. Pelo contrário. Celso Curi, um dos curadores, é dessas figuras do teatro que não se pode perder a chance de se sentar ao lado. são tantas as histórias e tantas as risadas que os almoços ganhavam o toque do bom-humor necessário ao dia, antes de encarar a maratona de espetáculos. E assim foi. Melhor, foram. Até que, entre uma anedota, uma história de bastidores, uma lembrança, o apontar um ou outro espetáculo que assistira mundo afora, Celso me diz se encantar cada vez mais com a capacidade e eficiência das montagens com baixo emprego de tecnologia, as tendo encontrado com mais frequência por aí. Esse assunto me interessa, respondi no ato. E marcamos, meses depois, um encontro para conversar sobre isso. Na sala da Oficina oswald de andrade, em são Paulo, onde acabara de assumir a direção, falamos um pouco mais atentamente sobre sua observação sobre o teatro contemporâneo com tais características. E, como não poderia deixar de ser, também de muitas outras coisas. Mas, perdoem-me, a maioria das histórias que dividimos, desde que nos conhecemos, e já faz um bom tempo, são sempre impublicáveis. inicio recuperando seu comentário em Curitiba sobre o encantamento de espetáculos que se configuram mediante o pouco uso de tecnologias. Claro que esse é um ponto relativo, visto que os instrumentais tecnológicos estão sempre em evolução e necessitam de conhecimentos e usos específicos. Mas, aqui, não se trata de compreendê-los como dificuldades de manipulação e manutenção, e sim do outro lado dessa história. o uso recorrente e cada vez mais da tecnologia como substituição de outros recursos estéticos possíveis ao teatro. É a diferença entre uma cenografia e a projeção de

um ambiente, por exemplo. A trilha com colagem de músicas retiradas de cds e músicos ao vivo, e assim por diante. O fundamental é perceber que menos tecnologia não significa necessariamente menos coisas em cena, estruturas menores, diz Celso. nesse sentido, continua ele, não se utilizar dessas possibilidades tecnológicas podem determinar inclusive o encarecimento final de um trabalho. E, as vezes, com diferenças realmente gigantescas. Afinal, se é possível alugar um excelente projetor de ponta por 2 mil reais, quanto custa a construção da cenografia, montagens, desmontagens e armazenamento da estrutura entre as temporadas? Esse talvez seja um dos principais argumentos, quando nos referimos a espetáculos desprovidos de grandes patrocínios. A tecnologia facilita seu existir em muitos aspectos, pois simplifica, ao seu modo, a necessidade material, espacial e gerencial. todavia, há outro fator igualmente determinante, situado mais no espectro de criação do que financeiro. A dificuldade em se obter um eficiente trabalho de cenotécnica, ou seja, de construção e acabamento. Nesse sentido, faltam profissionais que saibam mais do que apenas realizar o projeto, como já foram os profissionais mais antigos que chegavam a ser contratados dos próprios estabelecimentos e não somente das companhias. Profissionais que conseguiam solucionar os projetos com seus artifícios práticos, possibilitando o sonhar e a concretude dos maiores delírios. Hoje, limitados a realizadores terceirizados, em sua imensa maioria, a cenotécnica necessita chegar idealizada dentro de suas máximas especificações. É claro que também os artistas desconhecem como realizar tecnicamente suas vontades. sem conhecimento, contudo, limita-se a capacidade criativa, por permanecer igualmente limitado aos mesmos artifícios e recursos. Por isso a tecnologia auxilia os novos de maneira tão fundamental. Por necessitar de um conhecimento rapidamente possível de ser apreendido e replicado. também, por dimensionar o espetá-


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culo a um certo e perigoso estereótipo de categoria da linguagem contemporânea, a tal multimídia. O problema se coloca no quase nunca encontrarmos um vídeo, por exemplo, que interaja como a ampliação da linguagem cênica justificando a necessidade simbólica de tê-lo. Muitas vezes, o vídeo é a mera substituição do cenário; portanto, cenário, apenas. se durante o Barroco, o fundo de cena incluía o pano pintado como localização narrativa, hoje o vídeo acaba servindo ao mesmo papel, o de pano de fundo pós-moderno. Estendendo essa mesma relação para outras funções e caraterísticas do teatro, temos o esgotamento de aspectos da criação teatral, sem que ainda tenham sido de fato experimentados pelos artistas.

O incômodo de Celso, qual compartilho, ocorre exatamente nessa nova maneira de se observar o teatro. Não significa ser ou não favorável ao uso da tecnologia, mas tê-la em cena como atributo fundante de uma linguagem que a necessite. O encantamento do teatro se perde entre recursos equivocados, quaisquer que forem, tecnológicos e não. Entretanto, “fazer a magia acontecer com muito pouco”, diz, parece ser um conhecimento que se esvai dia a dia. Está na capacidade ilusória do teatro construir mais do que narrativas, cabe-lhe induzir a pertinência de um imaginário simbólico, retórico e conceitual capaz de oferecer ao espectador o reconhecimento da presentificação do instante em que o assiste, sem que o mesmo seja didático e literal. Sem isso, a


magia, como coloca Celso, acaba esquecida. A cena se torna a obviedade de efeitos, enquanto a teatralidade da presentificação permanece esquecida. Nada é mais instigante do que assistir algo que se reconhece mas não se explica. E isso, de fato, o teatro abre mão cada vez mais, em troca de efeitos fáceis e criativamente menos desafiadores. Para Celso, há mais sistemas intervindo na criação do artista hoje, levando-o a essa tentativa de objetivar o produto final. E uma delas é a burocracia impositiva sobre a própria criação. o artista passa mais tempo preenchendo papéis do que criando, afirma. O fato dos editais exigirem antecipadamente as resposta àquilo que ainda não foi sequer pesquisado e experimentado, es-

“O trabalho de repetição de hoje é mais a fixação de algo que ainda não se deu.”


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“As Leis de incentivo empobreceram a criação.”


tabelece, desde antes, afirmar suas necessidades estéticas e técnicas. E não existe outra maneira disso ocorrer ao artista que não pelo se proteger com recursos igualmente mais objetivos em seus resultados. Desta maneira, a tecnologia que pode muitas vezes parecer gratuita e excessiva, na verdade revela-se resultante de uma estrutura que exige ao artista o fim antes do começo. O que pode parecer apenas um erro no lidar com a criação esconde, no entanto, onde o buraco de fato está. não é tão simples como um mero erro de estratégia por conta da burocratização na distribuição de recursos. É mais. Escolhe-se por esses mecanismos privilegiar o produto em detrimento ao artista. Por conseguinte, o que deverá ser é mais significativo em uma avaliação do que sobre o quê se propõe debruçar e descobrir. Afinal, quem nunca passou pela experiência de entregar um projeto com rascunhos de cenários, figurinos, mapas de luz, antes mesmo de ter certeza do que iria procurar naquilo tudo? A consequência a essa escolha, oriunda da falta real de escolhas possíveis ao preenchimento dos modelos impostos, levou o artista a abandonar o tempo de preparação do trabalho, resume. ao se dedicar mais aos formulários do que à sala de ensaio, os trabalhos acabam limitados a sua primeira camada de sua potência. Sem conseguir fugir do óbvio ou superficial, portanto, o que se percebe é uma imensa sequência de repetições, de uns aos outros, no que Celso definiu como sendo fixando algo ainda em processo, mas não pronto ao estado de solidificação. Seu questionamento não trata especificamente de tempo, como é comum ouvir como contra-argumento por parte dos artistas. nem sempre a verticalidade de uma investigação se consolida com a longevidade do processo. Ainda que o dito teatro de pesquisa no Brasil fortaleça esse imaginário, muitos são os espetáculos que não se sustentam exatamente pela elasticidade do tempo de seu processo. Isso porque, novamente, o artista estende o tempo como meio de ampliar os recursos financeiros necessários e não pela necessidade de oferecer melhores investigações artísticas. A burocratização da criação, por fim, conduz o artista a pensar mais nos meandros de convenci-

mentos aos mecenas públicos e privados. E isso interfere, inclusive, na maneira como o processo e seu desenvolvimento definem as camadas de aprofundamento da proposta. Por último, Celso problematiza a ausência do próprio artista nas plateias. diz haver muito poucos vendo teatro. Fato que, limitado mais ao movimento de sociabilização do artista do que dialogo com a produção contemporânea, desenha o artista a certo isolamento e solidão. Até que ponto a arte pode sobreviver na ausência do outro parece ser muito bem respondido no opinião generalizada de que o teatro se faz para o espectador, sem o qual não se tem o teatro. Todavia, o artista pode sobreviver na ausência do outro? Até que ponto se pode desenvolver a particularidade de um olhar, de uma linguagem, sem que se permita contaminar a criação com conhecimento e domínio do fazer teatral? Até que ponto ser artista não esta intrinsicamente ligado a um estado constante de curiosidade também sobre o outro? Como estamos, no Brasil, caminhamos em contramão ao que de mais relevante Celso tem assistido mundo afora. Ele que, além de possuir um amplo reconhecimento da cena atual por ser idealizador e organizador do Guia off - 17 anos em sP e 7 no Rio -, pertence a uma rede latinoaericana de produtores culturais. não precisamos, obviamente, seguir o resto do mundo. Não sempre. Mas, quando o mundo percebe que se afastara da eficiência no fazer e da inventividade como constituição da linguagem, oferece aos demais a experiência de algo que então pode ser percebido e apreendido. no Brasil, ainda nos encantamos com a tecnologia. ainda nos limitamos aos produtos. ainda continuamos a repetir uns aos outros por falta de indentidade. Cada um deve e pode fazer o teatro em que acredita. Isso é inquestionável. Mas, pode-se afirmar com tanta convicção que temos a consciência de nossas escolhas? Então, antes de voltar para a sala de ensaio, que tal se perguntar se realmente aquele televisor velho no canto da cena é algo a ser verdadeiramente considerado? talvez o que nos falte seja mesmo a coragem para mudar de canal.


c a m

p

a

n

h

a

acordar para a

cultura por leo lama

positivo


c

a

m p

a

n

h

a

acordar para a

cultura por miriam rinaldi

positivo


diรกlogo. x2

por ana carolina marinho e maria teresa cruz

ah, a

human


anidade! s a r t u o e boas s e õ ç n e t n i

Entre ruínas, a tentativa de sobreviver ao caos e a falência das linguagens


ana carolina marinho: Poderia começar com uma frase na peça que me fez ajeitar a postura da cadeira, “nós temos o hábito de não perdermos o hábito” maria teresa cruz: te fez se ajeitar a cadeira? que engraçado! e por que? sabe que não percebi a frase... acm: É mesmo? Em certa medida, foi com essa frase que percorri o restante da peça... mtc: Passou despercebido por mim... mas de fato, especialmente na primeira esquete é muito disso que se fala. Eu como jornalista me senti ridicularizada, porque é aquilo: uma falta de sentido completo nas entrevistas coletivas que só acontecem por hábito. acm: Sim, e um conjunto de perguntas e respostas que sempre acontecem por hábito.

84

mtc: nada mais do que aquilo. Convencionouse chamar um padrão de verdade, de versão oficial quando esta é dada em uma entrevista coletiva. mas o que é aquilo senão algo pré fabricado.


acm: Exato. É exatamente essa escolha por permanecer nesse hábito ou por sair dele, esse ponto, em que eu me atenho. mtc: O pretenso comprometimento com a verdade, que aparece aliás em todas as esquetes, o comportamento préfabricado de algo que convencionou-se chamar de normal é das maiores bobagens já inventadas. Me vi testemunhando o ridículo, porque senti que o título “ah, a humanidade e outras boas intenções” nos remete a isso. -É aquela história da máxima “de boa intenção o inferno está cheio”. Ou, ainda, a velha desculpa: “não foi por mal”. Ninguém se compromete. a ação nunca é genuína, sempre é pré-fabricada. Na cena da coletiva, por exemplo, o entrevistado não sabe o que ocorre, mas precisa saber. Mas o que pergunto é: precisa mesmo? acm: Sim! É como se o tempo todo precisássemos nos justificar, como se o interlocutor quisesse sempre saber, mas sequer perguntamos seu interesse, se é que há interesse, porque até os desejos são préfabricados.

mtc: Gostei desse negócio de desejos préfabricados. Esse conceito fica muito evidente na segunda esquete, quando duas pessoas estão tentando convencer quem está do outro lado de que podem ser minimamente interessantes. Aliás, é impagável, porque afinal, não fazemos isso, em menor ou maior grau, diariamente? Não buscamos a aprovação diária? acm: Mas tive a sensação que existia ali nas esquetes, com exceção da reconstrução da foto, um ponto nevrálgico entre o emudecer e o romper o hábito. Sim! E nos justificamos em todas as ações, em todos os passos, essa coisa de estarmos habituados as câmeras, parece que não podemos ser incoerentes, ser desajustados, porque todos estão vendo. mtc: O eterno panóptico da moral e dos bons costumes, que ninguém quer quebrar. A história de sair da linha e se sentir exposto. Mas, por favor, desenvolva a história da esquete da foto... acm: Quando para se da conta que a câmera nao estava ligada é engraçado, porque ai se

constata que todas as justificativas que foram dadas ao outro, foram dadas a si, porque nao existia outro, tampouco uma câmera ligada. Quando o cara se da conta. É aquele sorriso de canto de boca que você da quando se da conta de seu receio consigo mesmo... mtc: Porque no fundo a gente tenta dizer que consegue ser a gente mesmo, mas essa moral do outro também está interiorizada em nós e ora nos censurando ora nos sabotando... do tipo: “me descobriram” (risos) acm: Isso. Acho que um dos maiores receios é o de o outro descobrir suas fragilidades, entao, antes que isso aconteça, eu mesmo digo todas elas. mtc: E a gente tem tanto medo do julgamento. E ao mesmo tempo julga tanto. acm: Né? É o receio de que o outro fale de algo que você não saiba. mtc: Mas sobre a gente? Ou sobre algum assunto que a gente não domine? Ou os dois? acm: Estava falando sobre a gente, mas cabe nos dois, e como cabe. Vê


esse momento em que estavam todos na rua, vê esse novo ato médico, ainda que ninguém saiba ao certo, ainda que ninguém tenha estudado ou sequer perguntado e pesquisado, todos opinam, todos defendem um ponto. Por acaso, na primeira esquete, tive uma impressão de um diálogo com tudo isso. Ele dizia sobre o fracasso do time, sobre a impossibilidade de conduzir alguém para algum lugar, sobre o ano difícil, sobre os fatos que quase não conseguem ser narrados, sobre o que ainda faltava ser perdido, se é que ainda havia algo a perder e eu pensava que ele dizia isso sobre agora, sobre esses novos acontecimentos com os quais é difícil se distanciar para falar sobre.

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mtc: Até por causa das redes sociais, hoje vivemos em pequenas ditaduras, que somos nós mesmos, nossa mente. E talvez essa insana e quase estúpida busca por respostas gere justamente a aflição

em que o personagem se colocava a cada palavra, a cada frase, o andar tenso, como você bem disse, buscando justificativas. Mas quem as tem quando ainda se esta imerso no momento? acm: Por isso que eu acho que existe um ponto entre o emudecer e o quebrar o hábito. Lembro daquele história que dizia Walter Benjamin sobre os soldados terem voltado mudos dos campos de concentração. A experiência foge tanto do campo das palavras que emudecer é talvez o ato mais sincero. mtc: Acredita que emudecer é um passo para fazer a quebra? Ou será que emudecer é de fato não conseguir fazer a quebra? Nesse sentido, portanto, a ideia é não ficar buscando justificativas, até porque elas não existem. A ausência de palavra também é uma resposta. Isso fica claro naquela esquete surreal da comissária, quando é exatamente isso que ela

tenta: explicar o que não tem explicação. acm: E os personagens na peça escolhem falar e aí vem essas palavras em vendaval, essas frases que parecem estar no ritmo do pensamento, frenético e surreal. Né? mtc: E a tentativa de compaixão se transmuta em um discurso perplexo e irreal. De fato, a peça toda flerta muito com o surrealismo, não como escola artística, mas no sentido radical. Como linguagem acho mais próxima do realismo fantástico, que no final das contas é a nossa vida quantas coisas absurdas a gente lida diariamente? Já parou pra pensar? E é exatamente isso que você citou, o fluxo de pensamento dos personagens é fragmentado. acm: Exato, a experiência foge tanto do que se tem como hábito, acho até que por isso se chama experiência. mtc: Mas você diz de experimentar? Acha que os personagens

se permitem isso ou apenas estão (ao menos em alguns dos casos) copiando o que já existe? acm: Digo sobre a experiência que aconteceu, a queda do avião e as mortes, por exemplo. Como falar sobre isso para a família, para quem você sabe que todas aquelas justificativas que você dá aos outros, imprensa e curiosos, por exemplo, não cabe. mtc: Entendi. e é um fato. Especialmente a imprensa, em casos como esse, fica histérica na busca de respostas, na busca de um culpado. Mas talvez a falta de experiência da porta voz (de experienciar uma perda, quero dizer) acabe facilitando a criação do injustificável. Para a interlocutora, a histeria que se manifesta naquele discurso bizarro – e por que não surreal? – é uma tentativa de dizer: eu estou sangrando com vocês. Mas na real não está. No fundo, está


pouco se lixando e só quer terminar aquilo logo. Está no piloto automático. Aliás, automatizar as ações, os pensamentos, como nos engessa! acm: Huuum, que interessante ler isso... Porque eu tive mesmo a sensação de que aquele momento ela estava saindo do piloto automático. mtc: Não achou a histeria dela fake? acm: Tive a sensação de

que ela até tinha tudo planejado sobre o que dizer, mas não deu, não coube, ela precisou falar mais, e falar exaltado, e falar fragmentado e falar sem sentido. Aí percebia a tentativa dela de se recompor, mas em vão. mtc: É uma leitura possível, sem duvida. Mas aí fico me questionando sobre a intenção... acm: Você fala isso pelo texto, pelas interpretações?

mtc: Acho que mais pela intenção na interpretação, não o texto. Bem ou mal ela foi jogada ao leões, assim como o entrevistado da primeira esquete. Lembrei da leitura bíblica de Daniel na cova dos leões... Ela estava exposta. Mesmo porque senti, agora me atendo ao aspecto mais técnico, que o texto era, de uma forma geral, o menos importante nas esquetes. O que fazemos quando nos sentimos expostos?

Nos protegemos como? De varias maneiras: atacando, estabelecendo uma relação maluca com os fatos, escondendo informações? como? como você se protege? acm: É, agora eu que estou me atendo ao fato das constantes repetições desse discurso, estou junto com vocês, não sei o que dizer, mas é exatamente essa pessoa que está do lado de lá, longe e que passa incólume. Eita!


mtc: Você me remeteu a uma situação de vida sobre algo que já ouvi algumas vezes: “uma mentira repetida muitas vezes se torna verdade” acm: Costumo me proteger lançando todos os argumentos contrários a mim que você pudesse lançar, justificando ou qualificando eles. mtc: bravo! É o que deveríamos fazer, isso é agir. Mas eu não consigo, eu sou mais reativa e acabo dando substrato para a pessoa me pegar no contrapé (Risos) e aí entro numa seara das intenções (termo presente no titulo da peça), que a gente sempre tem que fazer essa pergunta mental: o que pretendo com isso? acm: Não sei, tenho a sensação de não agir assim ou de agir demais e sem necessidade. Tal como o personagem que depois descobre que a câmera nem estava ligada...

32

mtc: a pergunta “o que pretendo com isso” cabe

em todas as cinco esquetes. É de fato o personagem que você citou peca pela não ação, pela inércia ou até pela certeza de algo que não se tem certeza. Queria tentar conseguir um ponto que conjumine as esquetes, você acha que tem? Eu senti uma similaridade no sentido e intenção do assunto exposto em todas elas, mas não consigo explicar e nessa estou caindo no velho hábito de catalogar as coisas... O cenário de destruição é na verdade a concretização do que está no subtexto das esquetes? A desconstrução do ser humano que tenta sempre ser bom, embora no fundo seja hipócrita e cheio de questões? Nesse caso, o conceito de bom como sendo verdadeiro. acm: Sim, isso, cheio de boas intenções. Excesso de boas intenções. Sabe aquela velha historia da senhora que sempre comia a casca do pão e dava o miolo para o marido e, no fim da vida, ela

resolve uma vez ao menos ficar lá com o miolo e o marido diz: Graças a Deus, eu não gosto do miolo, mas você sempre quis a casca... Confesso que sem a da foto, eu diria sobre essa sensação de romper o esperado, de agir ou reagir. No fim da peça, o Balu e Mogli cantando “necessário, somente o necessário...” fico talvez com esses excessos de algo... Talvez de sinceridade? Não sei, mas talvez haja excesso... De que? O que que é necessário, afinal? mtc: Que linda essa perspectiva. De fato saí pensando o que é o necessário e acho que o necessário, como está exposto no texto do Murilo Hauser, no programa, você teria coragem de dizer exatamente tudo que guardou no coração a vida inteira? acm: Essa história do velho e da velha, ela com a boa intenção de dar miolo a ele faz ele ficar com a parte que menos gosta... Tinha essa frase no programa?


TEXTO: Will Eno DIREÇÃO: Murilo Hauser

mtc: Sim. A gente fica na intenção e muitas vezes não diz e as coisas se esfarelam, as relações, pela falta do dizer (ou do não dizer, enfim). A gente pensa que está fazendo um bem, mas está mesmo? Pra quem? acm: Acho que esses excessos de boas intenções não são ruins por serem intenções, mas por acharem-se boas sem perguntar ao outro. mtc: É até arrogante né? Quem somos nós, afinal, para dizer o que é o outro e o que faz feliz o outro? E nesse sentido, dá pra formular uma pergunta para cada esquete, nessa linha... acm: Eu tive a sensação de que a comissária e o técnico, por exemplo, estavam nesse momento em que o pensamento ainda que descontinuo é quem manda, sem tanta mediação. Ainda que as situações fossem completamente midiatizadas, ora pelo público, ora pela imprensa, ora pela família da tragédia dos aviões e ora por aquele cara que ficou ao lado do casal no ‘carro’. mtc: Sim, algo como um fluxo contínuo,

talvez. E, por fim, olhando o que acabo de questionar pinçando as esquetes, acredito que, de fato, o questionamento sobre o que é necessário permeia tudo. As perguntas que poderiam ser feitas em cada esquete: “você, treinador, tem mesmo que saber nos explicar o que ocorreu? você não pode não saber, simplesmente?”, “o que em você é atraente para o outro?”, “como é a dor de perder alguém em um desastre? você sabe ou acha que sabe?”, “o que estavam sentindo de fato os que estavam expostos naquela fotografia de dor? É reproduzível?”, e por fim, “qual é a real urgência das coisas?”

CONCEPÇÃO DE PROJETO: Guilherme Weber e Murilo Houser ELENCO: Celso Frateschi Érica Migon Guilherme Weber Renata Hardy

acm: É, acho que as cenas são cheias de excessos e essa seja a contradição. Excesso de justificativas pelo medo de ser visto como frágil ou fracassado, talvez. É isso, Maria? mtc: Sim, sem dúvida a gente se excede por medo. Sempre. As amarras que impomos pelo medo, a vigilância eterna do superego é o que impede o fluir da vida. 2

3


ca r t a a b e r t a remetente destinatário

Ruy Filho

Juca Ferreira

O

i Juca, tudo bem? Como estão as coisas por aí? É um pouco estranho dizer “por aí”, porque, no fim, parece que não estamos no mesmo barco. Mas, enfim, acho que a sensação acaba sendo essa mesma. Sabe Juca, tenho te acompanhado muito de perto, desde que entrou no lugar de Gil no Ministério. Tem uma coisa, me parece ser uma característica sua, que me incomoda um pouco. Tá bom, eu assumo. Incomoda muito. Vou voltar no tempo, pra tentar te explicar melhor e não ficar apenas como uma birrice minha. Lembra quando participou de um encontro no TUCA com artistas de todas as áreas? Eu tava lá. Pouco antes daquela tarde acabar, o Abujamra pediu a palavra e lhe dirigiu a última pergunta. Lembra disso? Era algo mais ou menos assim... Nós podemos acreditar nisso tudo que o senhor falou? Então... Isso nunca mais me largou. Acreditar eu acredito. Nas palavras, quero dizer. Porque sempre são pontuais e conseguem oferecer panoramas amplos sobre as condições da gestão cultural. Mas, quando começaram os encontros com o você, já como Secretário em São Paulo, e mesmo aquele jantar..., aquele, você sabe, o senhor chegou atrasado e tal, aí ficamos distribuídos pelas salas fazendo perguntas, você respondendo. Não? Claro que você se lembra, Juca, tenho certeza. Foi do caralho aquela noite. Uma puta ideia da galera. Bom, nesses


encontros todos, tenho percebido a tal característica que me incomoda. Você nunca entra em conflito, não é mesmo? Os artistas estão sempre com a razão, mesmo quando falam coisas completamente antagônicas uns aos outros, tudo sempre poderá ser estudado, analisado, reciclado, recortado, combinado... Sei lá. É estranha essa sua postura. Porque, na prática mesmo, a sensação que fica é que você é muito bom em se virar em encontros. Me lembro de um trocadilho que ouvi desde pequeno, em que dizia que a esquerda adora marcar reunião para decidir a próxima reunião. Sabe que com você sinto exatamente assim? É tanta conversa, é tanto querer ouvir os artistas, é tanto disso e daquilo que, resposta a tudo isso mesmo, as transformações radicais que tanto precisamos, o chacoalhar as estruturas por dentro, nada parece acontecer. A cada novo encontro, a impressão que tenho é que tudo aquilo que é levantado não vai resultar em nada mesmo, e que só servirá pra programar o próximo e o próximo o próximo. E assim o tempo passa. Tem uma boa sacada nisso. Ficamos sempre com a ideia que tudo está em movimento, ainda que nada esteja fundamentalmente mudando. Baiano é fogo mesmo. Vocês sabem conduzir a coisa, são bons de lábias, sabem seduzir. Isso faz parte do jogo, eu sei. Política é assim. Ok. Tem outra coisa que queria lhe dizer. Mas aí é só reclamação mesmo. Quando você traz como resposta os


1 42

dados das coisas realizadas, sei lá, posso estar enganado, e isso nem é com você apenas, é com o político brasileiro em geral, você passa a sensação de que trabalhar é um favor que vocês nos prestam. Loucura isso. É tão pouco o que se faz nas esferas públicas pelo brasileiro. Na Cultura, então, dá pra contar na mão do Lula e sobra dedo, que trazer uma ou outra ação como se fosse um grande acontecimento chega a ser cínico, não acha? Juca, e aí? O tempo vai passando, as conversas acumulando, não está na hora de fazer a coisa acontecer? De prometer o possível e não aquilo que as pessoas querem ouvir? Elas não percebem que, muitas vezes, aquilo que você promete não depende de você. Não é ingenuidade deles, é desconhecimento técnico mesmo. Tem que passar pela Câmera dos Vereadores, modificar leis, ou ter novos repasses orçamentários que só podem ser dados nos gastos do próximo ano, ao contrário de quando você diz que vai fazer já... Mas você promete. E a gente aqui, ouve. E você continua prometendo. E nós continuamos ouvindo. Fala a real, você não vai conseguir fazer nada do prometido, não é? Vai continuar essa brincadeira de sociabilizar com a geral, como fez muito no Ministério, é assim? É curioso tudo isso, porque, se pensarmos em relação ao seu antecessor, as pessoas não gostavam do cara, mas a postura e ações dele eram claras, então que curtia sabia o que curtia, e quem não sabia do que reclamar; já contigo, os artistas te adoram, se sentem acarinhados, ouvidos, mas ninguém sabe quais são suas propostas. É sempre tudo


muito genérico. E o brasileiro é tão carente de tudo que acaba preferindo ganhar só sorriso mesmo. Parece que isso basta. Então, como fazemos? Te mandei a análise sobre os 10 anos do Fomento ao Teatro, você leu? Passou pelo menos os olhos nela? Prestou atenção? Não tô esperando uma resposta. Prefiro que ela venha reestruturando o Fomento. No fundo, eu queria mesmo é não conseguir te encontrar mais perambulando por aí, foto tua com a moçada na rua, e ter respostas efetivas sobre as coisas. Nada mudou, desde que você entrou. E não me venha com detalhes de que fez isso ou aquilo, porque é isso, cara, o trabalho de um Secretário é fazer mesmo, não é favor. Só que, quando se fala de Cultura, a coisa se revela na rotina, na rua, na perspectiva diferente que se coloca pra quem cria e atua nela. Não sinto mudar nada. Pra mim, tá tudo meio igual. Porra, Juca, casa em ordem, Fernando na prefeitura, Dilmão lá em cima, vai desperdiçar tudo isso? Daqui a pouco o povo sai às ruas outra vez, um escorrega e deixa a cadeira livre. Aí essa puta oportunidade vai ralo abaixo. Enfim, meu nego, to aqui. Bora conversar sempre, claro, mas não mais numa roda, num jantar, num encontro. Esse tempo passou. Tira a rede das paredes da Secretaria, guarda a água de coco, pega essa caneta bic aí na sua mesa e mãos à obra. Tá na hora de decidir e fazer. Deixa agora o blá blá blá pra quem tem tempo. Vamos nessa. Enfim... Um cheiro, meu nego.


CONTAMINAçãO

por claucio andré

avign


filet

non Um brasileiro de carona no mais importante festival de teatro do planeta


Q

uando ganhei a bolsa

dos os espetáculos todos os dias. O mês de julho

de intercâmbio para

inteiro. Sem contar o festival IN (o internacional).

estudar em 2013 na

São mais de cem teatros e escolas espalhadas na

Inglaterra, eu já sa­

cidade. O programa é um calhamaço de 400 pági­

bia onde ia passar

nas, com divisão por teatro, estilo, horário e até

parte do mês de Ju­

um índice por autor (os campeões são Molière,

lho: no sul da França.

Shakespeare e Feydeau Georges, com 16, 11 e 8

Desde meus primeiros anos estudando teatro,

cada). Devido ao número de turistas circulando,

os professores comentavam sobre o Festival de

tem até uma indicação dizendo se o espetáculo é

Avignon e sua importância, principalmente no

apropriado para nãofrancófonos.

quesito “artistas do momento”. Chance dada

Na briga por público, os grupos espalham milha­

é gol. Lá fui eu, de barraca no mochilão e ne­

res de cartazes e flyers pela cidade e emporca­

nhum francês de experiência.

lham tudo. Mas alguns inovam no chamativo. Teve

Comprei os ingressos logo que abriu a bilhe­

trupe que construiu uma sacada móvel para dei­

teria online. Embora muito espetáculo tenha se

xar a atriz Julieta esperando ali por horas, teve

esgotado em 30 segundos, descobri ao vivo que,

quem subiu no caminhão de lixo para lançar os

chegando 1h antes na fila, dá pra comprar in­

flyers ao vento, e até ciclista estilo anos 20 puxan­

gresso no dia. Familiar.

do um piano enquanto o músico tocava.

O calor da região me surpreendeu: 35oC de

Mas esse é o festival Off; o In é mais “cool”,

dia. Nessa época do ano o sol raia por 14 horas,

blasé que se disputa. Percebi que há uma segrega­

e o efeito de forno se prolonga. Na bagagem

ção entre quem é Off e quem é In, o que envolve

eu trouxe duas blusas; sem elas caberiam duas

tanto o preço dos ingressos quanto a acessibilida­

regatas, bermudas e chinelos.

de (ou presunção) cultural de seu público.

Quando fui procurar hospedagem (no mesmo dia em que comprei ingressos), já havia nada dis­

o que vi

ponível. Hotel, albergue, ponte, nada. Consegui

Avignon no século XIV foi escolhida para ser

um lugar num camping que fica a 6 Km do centro.

uma das residências dos Papas, e nove deles che­

O jeito foi encurtar a vergonha e estender o de­

garam a morar lá. Hoje, o seu centro e maiores

dão: tanto indo quanto vindo, peguei carona para

construções são patrimônio cultural da Unesco.

o festival em todos os dias. Geralmente pessoas

É no Palais des Papes, o maior palácio gótico do

humildes ou ligadas às Humanas oferecem lugar,

mundo, que fica a Cour d’Honneur, talvez a prin­

foi o que notei. Até com marroquino não falante

cipal imagem que se tem quando se fala no festi­

de frances e inglês eu peguei carona.

val In. O palco é gigante; são mais de 2 mil assen­

Logo que me hospedei no camping percebi que

tos; e tem todo aquele super ar de importância

lá tinha, ao menos, umas cinco trupes de artistas

de ser a céu aberto e cercado pelas paredes do

em geral, com direito a van caindo aos pedaços e

palácio. Quando um espetáculo começa ainda é

acordeons improvisando no piquenique. Deu pra

dia e os pássaros cantam e voam em círculos en­

ter uma noção do que estava rolando na cidade.

tre a fortaleza, como diria Banquo. Pena que no

Mas vou pular as impressões parceladas pra fazer

espetáculo Par des Villages isso foi o que de mais

uma imagem mais precisa da coisa. Assim que

interessante aconteceu.

cheguei no centro mesmo deparei com uma vila­

Pois é. Mesmo no In tem muita coisa de gos­

zinha cheia de turistas e artistas de teatro. O fes­

to duvidoso. Muito artista é convidado para es­

tival paralelo, o OFF (um fringe francês) tem mais

trear aqui uma nova obra, então dá pra sacar

de 1.200 espetáculos em cartaz. Todos os dias. To­

que às vezes o convite é um tiro no escuro, sob


Detalhe dos refletores no palco principal. Na foto menor, publicações com a programação. Na página anterior, a Cour d’Honneur no Palais des Papes.


Cartazes acumulados pelas ruas e espaços da cidade, oferecem um panorama da programação.

plásticas e recursos exclusivamente teatrais que foram utilizados. Eram escolhas que sintetiza­ vam um clássico no presente, sem contudo for­ confiança total no nome do diretor em questão.

çar sua modernização para melhor adequação de

Tem gente que usa 30 metros de palco para fi­

linguagem contemporânea, o que eu acho muito

car parado o tempo todo, dando o texto só no

louvável.

carão, e por 4 horas, como foi o caso do Stanis­

1 48

lay Nordey. Téspis já fazia melhor.

Outro que vale a pena comentar é Cour d’Honneur (Jérôme Bel). A idéia foi trazer ao pal­

Em compensação, aqui é a chance de ver es­

co da Cour d’Honneur (Palais de Papes) alguns es­

petáculos incríveis e ideias novas para teatro,

pectadores de antigas edições do festival e deixá­

dança, teatro e dança, músicateatroedança,

los contar, eleseles, suas experiências no teatro

performusidanceatro etc. Por exemplo, vi Faust

em Avignon enquanto espectadores. Alguns casos

I + II (Nicolas Stemann). Uma maratona de oito

tiveram a participação de atores que estavam nas

horas e meia de duração, contando seus três in­

próprias histórias, em outros os contadores refi­

tervalos. O espetáculo, em alemão com legenda

zeram o movimento no palco que marcou suas

em francês, era tão artisticamente agradável e

memórias. O diretor foi inteligente de selecionar

inteligente que, mesmo eu não falando nenhuma

diversificadamente, a ponto de ter tanto crianças

dessas línguas (importante dizer) pude compre­

quanto idosos, assíduos por teatro e casuais, po­

ender o que se passava e apreender as imagens

bre e rico, gostando e não gostando, público in e


público off. É o relato do ponto de vista de quem

está mais na moda que figurino. Quase tudo que

completa o elo teatral, que é o público. É por isso

vi fez uso de microfone embutido, algumas vezes

que ao final do espetáculo dava pra sentir no ar

sob o pretexto de poder distorcer a própria voz

uma satisfação, um espírito renovado, agora por

e criar efeitos mirabolantes, outras sem pretexto

parte do público fora do palco.

nenhum, pois o espaço nem era tão grande assim

impressões

e a mirabolância era bem vovó. Dois. A maioria das peças aqui faz uso da perfor­

Percebi três coisas no apanhado geral. Um, a

matividade como expressão. Não conheço tanto

tecnologia avança e está cada vez mais presen­

de performance, mas deu pra sacar as escolhas.

te. Projeção em alta definição, por exemplo, foi

Ser personagem na peça, com comeco, meio e

utilizada em muitos. O mesmo para falar de câ­

fim, foi exceção por aqui. Com o advento da tec­

mera na mão filmando a cena e compondo com o

nologia, essas opções ficam ainda mais evidentes,

projeção da filmagem a própria cena. Microfone

e, como já disse, em algumas vezes faz todo sen­

também. De haste, de mão e de rosto. Nos dois

tido, em outras parece a coisa pela coisa. Mas faz

espetáculos da Angélica Lidell, diretora e atriz, há

parte do arriscar.

um momento solo em que ela pega o microfone

Três. Há diversos palcos alternativos. Pra não

e reconta suas impressões sobre o tema do pró­

falar dos pátios dos colégios, do próprio palácio e

prio show; tem hora que faz muito sentido, outra

do novo La Fabrica, tem mais três espaços além

que parece masturbação. Alem disso, microfone

dos muros. Como o pé de um aclive, onde no


isolamento da civilização Ludovic Lagarde mostrou seu Rei Lear em exílio, em Lear is in Town. Com isso, abriu­se vaga para convidar muitos artistas africanos. Senegal, Costa do Marfim, Congo, Moçambi­ que, Nigéria, mas especialmente as excolônias francesas. E nestes casos o espaço no festival foi utiliza­ do, com raras exceções, para uma “autoafirmação cultural” (me falta vernáculo, leia sem julgamen­ to). Temas como ‘comparação do sistema eleitoral aqui X o europeu’, ‘danças nossas em contraste com a visão francesa’, ou ainda uma exposição so­ bre como alguns nigerianos ganham a vida, bem feira de ciências. Gosto desse intercâmbio, mas não quando fica no ar o tom de condescendên­ cia. Drums and digging (dança), La fin du western (show interativo) e Lagos Business Angels (“expo­ sição”) para dar exemplos.

Finalmentes O grande lance de vir a Avignon é sem dúvida ter a chance de ver coisas que não irão ao Bra­ sil, algumas loucuras cênicas e, sobretudo, esse clima de teatro em todos os poros da cidade. Eu gastei uma boa grana com os ingressos, mas valeu a pena: melhor ver de tudo do que correr o risco de ir a poucos espetáculo e, nesses poucos, só ver coisa maçante. Ou mesmo não ver teatro, já que a diversidade aqui atinge níveis incatalogáveis. Aliás, não falar a língua dos espetáculos foi um puta aprendizado. Junto à palavra diversos sinais também são emitidos, e se a composição é inteligente, teatral, viva, a conexão aconte­ ce. Brook feelings. Falar francês ajuda bas­ detalhes das vielas e outros espaços na cidade.

tante, principalmente na hora de se perder nas ruas assimétricas da vilazinha, mas não deve ser empecilho. A revoar.


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acordar para a

cultura POR luciana paes

positivo


CacĂĄ

machado

A autoria de um olhar especial sobre a musicalidade possĂ­vel da cena

Foto: viCente De Mello

todo ouvido


“U

m criador que transita com fluidez entre os universos acadêmico e artístico. Transita e, muitas vezes, alia um ao outro, o que é ainda melhor. Nosso encontro foi marcado por um diálogo criativo dinâmico, e arrisco afirmar que o diálogo que mantem com cada criador é igualmente vivo. Mas acredito mesmo que ainda mais irrequieto e vivo é o diálogo que mantém com a sua música. Com Cacá nada fica quieto. Imaginem que eslavosamba, seu primeiro CD autoral de canções, não apenas subverte e transforma um dos generos musicais mais conhecido e amado no Brasil, como incorpora músicas que compôs para o teatro. E, olha, se o trabalho de equipe, de grupo, é uma das importantes características do teatro, Cacá exercitou-a em seu cd pois lá também as colaborações são muitas e maravilhosas. Só posso desejar que venham novos espetáculos e novos CDs!” MARCiA ABUJAMRA diretora e produtora

Para conhecer uma das músicas de Cacá Machado, composta especialmente para o espetáculo “Um Bonde Chamado Desejo”, com direção de Cibele Forjaz, clique no botão abaixo.

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visitando

perversos poli-

morfos A danรงa como movimento de encontro ao corpo por fotos

ruy filho

fabio furtado


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alar sobre dança contemporânea requer investir também sobre o que venha a ser o contemporâneo. E são muitos os caminhos possíveis a isso. Escolher algum, implica igualmente no expor uma visão de mundo particular. não sou do universo da dança. não a estudo profundamente. não a entendo em suas bases técnicas com segurança. não a recorro em minhas criações. todavia, muitas vezes, até mais que o teatro, inquieta-me de maneira como estabelece um diálogo genuíno e crítico com o outro, a estética, a filosofia e as dimensões do presente. dito isso e, obviamente, nada explicado, fui conversar com a Cia. Perversos Polimorfos. não apenas por seus trabalhos me provocarem as inquietações que descrevi, mas por desconfiar haver neles algo mais próximo a algumas condições do teatro, levando as produções ao habitar limites híbridos. o que também não quer dizer que a companhia faça o conhecido por dança-teatro. Há mais de dança do que de todo o resto, isso e inquestionável. Mas há no modo de olhar a dança perspectivas implícitas de estruturas próprias da cena teatral. na plateia do teatro sérgio Cardoso, passamos a investigar o quando disso realmente faria algum sentido. E me surpreendi descobrindo haver muito mais. Ricardo Gali, diretor da companhia, explica que suas coreografias partem mesmo de outros interesses. não se trata de fazer um teatro físico, insiste, mas de construir pela ação uma dramaturgia. Em outras palavras, a ação leva às leituras dessa possível dramaturgia que, em momento algum, se propõe ser dominada. ativar o processo de revelar no movimento a ação que lhe narra, faz com que os espetáculos da Perversos Polimorfos se apresentem entre o improviso e o

treinamento. o que não quer dizer um trabalho menos acabo. a liberdade entre o existir do performer em relação à dramaturgia, eleva o nível à precisão de serem os corpos discursos e não representações. E aí está toda a diferença. trata-se, normalmente, um performer como sendo a superfície onde se estampará determinados conceitos em específicos contextos narrativos. Subverter esse sistema transfere a linguagem para outra configuração. Nesse caso, trata-se o performer como o conceito narrativo disponível a determinados contextos quais deverão ser estampados. a esse percurso de criação, denominam por Dramaturgia Coreográfica. Muitos dos caminhos escolhidos pela companhia esbarram pelas reflexões do filósofo português José Gil, explicam. Sobretudo dois conceitos estruturantes: o de movimento total e de imagem nua. Para o filosofo, é preciso diferenciar movimento e repouso, naquilo que lhe confere hierarquia. Em um primeiro instante, afirma, não há o repouso, pois não é possível determinar qualquer paragem de movimento. o reconhecido por repouso, então, é uma fração perceptível do movimento em seu estado de ação. Portanto, conclui, começa-se pelo movimento. avançando mais, Jose Gil diferencia também a qualidade daquilo que oferece ao corpo o movimento. Entende o gesto tradicional como aquele que surge pela intenção, internamente, gerando o movimento decorrente de uma escolha prévia. Já o que denomina por gesto dançado, inverte a relação entre interioridade e exterioridade do desejar, e se faz pelo preenchimento de uma gramática dançada, pela qual o movimento e trazido ao corpo. Está na qualidade em destruir e construir linguagens, portanto, maior eficiência na formação de planos de imanência.


Cenas de “Imagem-nua e outros contos”.


Trazer ao corpo o movimento que lhe sugere a necessidade de um gesto


Cenas de “Imagem-nua e outros contos”.


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Cenas de “Imagem-nua e outros contos”.

Sobre o conceito de imagem nua, o filósofo explica que a imagem carrega conteúdos não conscientes de sentido, e que a experiência estética é uma experiência especifica de dissolução do sujeito. a inversão da natureza do gesto proposta por Jose Gil leva, na pratica, à necessidade de Ricardo se colocar no trabalho de maneira igualmente invertida. não se trata de ocupar a função de um coreografo, mas a de um diretor de movimento que parte, sobretudo, de estruturas dramatúrgicas outras. Dirigir o gesto significa aqui aceitar a independência do movimento não mais gerado no performer, mas pertinente como apropriação. se por um lado esses aspectos oferecem estratégias novas, toda diferença implica na construção de outros vocabulários para o espectador. tal condição determina ao espetáculo mais verticalidade e também hermetismo. Para Ricardo, ainda que hermético, o espetáculo tem que buscar comunicar. o problema, levanta, é a simplificação de que para comunicar é preciso subestimar a plateia. Como então construir um novo vocabulário ao espectador, se o desconhecimento da profundidade na qual se baseia impede seu reconhecimento? talvez a pergunta seja uma aparente inquietação retórica. Mas não. no fundo, o que mais se coloca como desafio não é apenas o costume com a diversidade de vocabulários. os milhares de espetáculos são a melhor condição de diversificar e oferecer. Falta, todavia, o discurso advindo da reflexão, principalmente acadêmica. Nesse sentido, para a companhia falta material teórico disponível. Há pouca informação, concluem. as universidades de dança, em certos aspectos, são ambientes novos ao academicismo. Pouca ou quase nenhuma literatura pode ser encontrada sobre o fazer contemporâneo, os criadores, as

criações. Complica ainda mais quando o assunto é produzir investigações filosóficas. sem debates públicos que deveriam ser amplificados pela imprensa, sem o conhecimento difundido não como verdade mas como sobreposição e acumulação à serviço comparativo de conceitos, muito pouco se pode, verdadeiramente, esperar do encontro com o espectador. todavia, os artistas continuam. Como a Cia. Perversos Polimorfos. E como outras. Sobre o hermetismo, especificamente, Ricardo propõe que a relação possível junto ao espectador seja capaz de causar potências suficientes para gerar interesses pelas lacunas reveladas. a força de atração daquilo que não se entende ou não se reconhece ou, ainda, não se encontra, magnetiza o espectador ao desafio do entendimento, reconhecimento e descoberta. Há nisso um sabor fundamental que leva o espetáculo a deixar de ser um produto hermético para se constituir preceito de criatividade conjunta. se o entendimento ocorre naquilo que não se compreende, em último grau, descobrir-se-á que o espectador, por um processo defensivo cognitivo, gerou para si as correlações necessárias para fornecer sentido e coerência ao assistido. Não significa dizer, por sua vez, que o público inventa a narrativa ou os conceitos, mas que esbarra em uma qualidade latente de conhecimento, que nem mesmo ele é capaz de desenhar, e, no entanto, se faz nele por existir exterior à sua revelação. Entre outras palavras, pode-se dizer que, assim como o movimento prescinde o gesto, conforme demonstra Jose Gil, o conceito de um espetáculo, seja ele qual for, dá-se ao espectador prescindindo sua manifestação. Por sua vez, é possível traçar uma correlação ao conceito de imagem nua, os conteúdos não conscientes de sentido, ao de descoberta. visto 61

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Cenas de “Imagem-nua e outros contos” e “Ansia”.


se tratar uma descoberta a percepção de aspectos igualmente não conscientes de sentido até o momento de sua revelação. os trabalhos da Perversos Polimorfos provocam e atuam sobre esses aspectos. Manipulam o teor hermético das escolhas - seja da dramaturgia coreográfica, seja da imagem nua que se oferece - dialogando no improviso provocado ao ator pela existência de um movimento que o antecede, com uma qualidade singular de observação sobre o performer e sua representação, levando o sujeito/dançarino a se dissolver como mera experiência estética narrativa e não mais como afirmação de identidades. Por ser a dança uma linguagem mais subjetiva - se pensarmos no como o teatro acaba por empreender certo didatismo mesmo em estruturas mais aber-

tas -, perceber a experiência estética narrativa e a dissolução do sujeito não é uma tarefa nada fácil. Corre-se o risco, evidentemente, de nada ou muito pouco ser alcançado. não é o caso da Perversos Polimorfos. as escolhas explicitam o universo no qual o espectador será incluído. Do grafiteiro e artista plástico Bansky à dramaturga sarah Kane, passando pelo mais recente espetáculo onde investigam as fábulas infantis que se firmam sobre o existir contemporâneo, há sempre o fator de ser o homem atual uma presença melancólica, envolvido em estruturas simbólicas complexas que caminham pelo subliminar, pela crueza objetiva e muito da solidão urbana de agora. se essas escolhas são consequentes a um viver de umas às outras, pouco importam. a relevância está na des-


“Me coloco em um lugar de prazer, como se fosse alguĂŠm da plateia.â€?


Cena de “Ansia”.

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configuração do sujeito frente a valores exteriores a suas escolhas. o que nos faz retornar a Jose Gil e a exterioridade do movimento. se tido o mundo como um acontecimento inerente ao existir, mas agente sobre o ser exigindo-lhe e provocando ações, ver-se-á o quanto o sujeito nesse processo não é possível de ser parâmetro. Pois, enquanto a ideia de sujeito o colocaria no centro de suas escolhas, o movimento total definido pelo filósofo, ao ser aplicado como conceito ao todo, expõe a fraqueza da centralidade do Eu sobre nossas ações. dessa maneira, a companhia consegue realizar um malabarismo conceitual e filosófico preciso e autodidata. Gera, no fazer, produção após produção, valores que extrapolam os discursos comuns da dança. Problematiza o dançar para mais do que a tecnicidade da precisão de uma coreografia. Leva o performer a ser menos dançarino, menos ator, menos performático e mais a multiplicação de tudo isso, sem definir aquilo que se torna, priorizando aquilo que o leva a precisar ser. E isso é raro. E é ótimo, porque o que nele existe, o faz de modo particular e potente. se sobram lacunas, como disse Ricardo ser o interesse de suas dramaturgias coreográficas, estas estão mais na qualidade e eficiência em desconfigurar aquele que assiste como apenas um individuo a mais, enquanto o transfere ao vazio de ser ele mesmo sua própria imagem nua. E nada é mais importante ao fazer artístico atual do que não traduzir, não explicar, não regrar, não dogmatizar. Eu, ou sei lá o que ou quem em mim, estaremos na primeira fila sempre que eles acenderem as luzes para começarem seus mergulhos. Afinal, flutuar no abismo é muito mais poético do que permanecer seguro à beira do precipício. E a Cia. Perversos Polimorfos parece dominar a maneira como manipula e provoca nossa vontade do salto. Feito um movimento que exige nosso gesto. Com eles, simplesmente me descubro já estar no ar.

Cenas de “Ansia”.


obs

por ruy filho

qual o tamanho do seu

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rancisco aterriza no Rio de Janeiro. O novo Papa tem a qualidade de ser carismatico. Jovens de todos os cantos do planeta se aglomeram entre 3 milhões de pessoas e realizam o encontro nas areias de Copacabana. A fé na Igreja Católica, sob os valores determinados pelo Vaticano, é a palavra do momento. E tudo parece bem. Da vitalidade e excelentes discursos do pontífice, aos milhões de devotos e sua benevolência em se manterem pacíficos arrebanhando mais e mais fiéis. Mais ao lado, porém, a Marcha das Vadias traz outras palavras. Contradiz as diretrizes da Igreja que se mantém distante de rever sua intrangigência contra temas mais complexos, como aborto, liberdades sexuais, casamento gay, uso de preservativos etc. Em uma espécie de show improvisado para chocar os transeuntes desavisados, e assim chamar atenção para suas reinvindicações, tomam as ruas com corpos seminus, imagens de santas, crucifixos e o que mais der. Não há tanta novidade. Alguém se esfrega na santa, enquanto outro arrebenta a estatueta de gesso, há ainda aquele que, com ajuda de um preservativo, enfia um crucifixo no outro, simulando uma relação anal. Ok, então. Os dois lados deram seus recados. Mas se trata realmente disso?

Não vou julgar a questão em si. Sou ateu. E não estou junto ao movimento das Vadias. Então posso me ocupar em encontrar nos dois aquilo que lhes torna idênticos. Antes, porém, de avançar sobre isso, busco entender porque tanta tentativa em fazer com que o Vaticano mude de opinião. Ora, a instituição possui seus principios, retrogrados ou não, não importa, ela os tem, e quem estiver convencido ou pensar igual, ou mesmo aquele que ainda descontente tem nela os caminhos quais entende por correto para se chegar a Deus, esses todos, que permaneçam. Mas isso significa jogar com regras claras. E as diretrizes da Igreja podem ser tudo, menos confusas. Do outro lado, aquele que se mantém crente a Deus, mas não aceita a rigidez católica, que busque outras instituições, novos caminhos ou nenhum. Faça de sua fé seu encontro com o divino sem dever nada a ninguém. Portanto, o que tento entender é o tamanho ódio contra quem se propõe existir de uma certa maneira. A fé em questao me parece existir menos em Deus e mais na instituição, e por conta disso os animos afloram. O que assistimos de maneiras diferentes apoiados em diversos argumentos e setores, seja religioso, político, social, é a cul-


espelho? tura da reciprocidade cega. Luta-se contra a violência e repressão por entendê-las erradas em sua maneira de impôr e determinar o convívio e o existir. Todavia, age-se igualmente violento e repressor para questionar esses mesmos valores. Se A é contra B pela maneira como B age contra A, mas B responde a A com a mesma violência que B utiliza contra A, na soma maluca dessas forças o que se tem é que B age com os mesmo argumentos que condena e que o faz se igualar a A. Entao B é contra... B? O que se pode tentar entender disso tudo é que nenhum dos lados mais sabe o que está fazendo. Ambos se espelham e sustentam as mesmas formas de ações: a contraposição categórica de escolhas divergentes, a destruição de qualquer valor que sirva de argumento, a parcialidade da defesa, a instauração agressiva dessa defesa que impossibilita respostas intermediarias, ausência de diálogo, verdades absolutas a partir de distorções comprometidas etc. Masturbar-se com um crucifixo, além de ser uma clássica cena de filme de terror, tem como busca banalizar a Igreja e seus dogmas. Mas, se a Igreja é tao banal, então por que se importar com ela? Seguir a vida não é mais simples?

Enquanto as ruas assistem os manifestantes exibirem seus fetiches contra a religião, o país avança sorrateiramente para deixar de ser um Estado laico. As pesquisas recentes apontam, como segunda força na corrida presidencial de 2014, Marina Silva. A mesma que possui uma gama expressiva de votos de tantos que se manifestam contra a situacao atual, contra os poderes impostos, e que acreditam estar nela a renovação da face política brasileira. Esquecem-se ou ignoram, todavia, de ser a candidata também a face da nova política evangélica, da foto tirada junto à Feliciano, de ser contra os mesmos valores que o Vaticano e muitos outros mais. Marina levará ao Planalto um Estado evangelizado, tornando, de vez, a bancada dos pastores a ser uma das maiores forças executivas e legislativas do país. Suas bandeiras a favor do ambientalismo fizeram com que o verde das matas cegasse a todo resto. A Marcha das Vadias respira sua tentativa de liberdade e oposição. Mas, repito, ainda que ateu, parece que, a se consagrar o futuro qual se revela hoje, sentiremos falta dos limites impostos ao prazer em devorarmos hóstias. O Vaticano pode ser abandonado, mas você está mesmo preparado para abandonar o país?


homenagem

mag A zorra responsรกvel de um teatro incontrolรกvel


giluth Cena de “Viúva, porém honesta”, em foto de Victor Jucá.

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Cena de “Viúva, porém honesta”, em foto de Victor Jucá.


V

ocê precisa conhecê-los. Taí uma indicação que me assusta e reduz muito minha vontade de aproximação. Porque, quase sempre, a decepção se torna tão violenta frente às espectativas, que, talvez, o melhor mesmo seja não ir, não conhecer, não se decepcionar. Só que desta vez fui. Talvez fosse saudade do tempo em que cresci no nordeste, aquela vontade de reconhecer um tanto de sotaque, dos valores, da humanidade inexistente no sul há tempos. Talvez nada disso mesmo, apenas curiosidade. o fato é que fui. e me encantei. Com a força, com a vontade de fazer, com a fome de palco, com a verdade da bagun’ça, com o despreendimento, com sei lá mais o quê. Certas coisas não se explica tão facilmente, não. Só sei que o encantamento aconteceu. aqueles moleques, porque são assim em suas almas, trouxeram de volta muito do que vi no teatro quando me entreguei a ele. magiluth. Que porra de nome é esse? a junção das iniciais dos nossos nomes. Quer resposta mais inconsequente e deliciosa do que essa? esse peculiar bando de maluco ofereceu-me a percepção de um teatro nordestino que em nenhum momento renega suas raízes, mas sabe ser contemporâneo à modernidade dos discursos e pertencer ao universalismo urbano que atinge a todos nós. Com uma cena refinada, escapando do excessivo tom tradicionalista muitas vezes recorrente às produções regionais, o grupo se aventura entre a invencionice de uma construção particular da cena e o coexistir crítico à sua condição geográfica. Há nisso a inteligência de quem sabe e muito o que venha a ser teatro. e também a qualidade em saber se divertir com o subverter as regras e valores impostos pelo tempo, pelo mercantilismo e sistemas de dominação cultural. o magiluth renova a imagem aprisionada de uma arte nordestina, ao não ser simplesmente ela. atua pela qualidade das escolhas e a capacidade de identificar em todos nós um tanto desse país que o sul insiste ignorar. não se trata de um teatro turístico. não se trata de um teatro folclórico. não se trata de um discurso de oprimidos culturais, sociais, econômicos. não se trata de um olhar rancoroso. nada disso. então o quê? Uma porrada na cara. e com estilo. Feito uma briga de rua organizada entre amigos, apenas pelo prazer da diversão, enquanto se organiza escondido uma outra configuração daquilo que se quer quando crescer. e eles cresceram. Conviva com isso! Ruy Filho


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Cena de “Viúva, porém honesta”.


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Cenas de “Viúva, porém honesta”, em foto de Sergio Silvestre. 17

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“Para além da inegável qualidade dos espetáculos do Magiluth, o que mais me impressiona no trabalho do grupo é a força que existe na reunião desses artistas. Como espectador, me ca tiva e emociona ver o jogo entre os atores presentificado pelo prazer de estarem juntos em cena. A cada nova montagem percebo a preocupação em promover, antes de mais nada, um encontro afetuoso, vigoroso e inventivo com o público. Que bom ser contemporâneo deles!” leonaRdo leSSa

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ator do Grupo Teatro Invertido (BH/MG)


Cenas de “Viúva, porém honesta”. À esquerda, foto de lamartiny Santos e , nesta página, Sergio Silvestre. 17

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Fotos de Maurício Cuca do espetáculo “o canto de Gregório”. 17

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“O Magiluth é geralmente percebido como um feliz encontro de jovens muito talentosos, capazes de contagiar a plateia, de antemão, somente pelo prazer que demonstram em estar no palco, somente pela facilidade com que entram (vivem) em estado de jogo. Essa visão não está errada, mas diz pouco sobre eles. De perto, o Magiluth se revela um grupo de obstinados trabalhadores. Malucos, carregam o próprio piano enquanto aprendem a fazer música. Teatro para eles é uma questão de vida ou morte. O resto é besteira.” luíS ReiS

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coordenador de artes cênicas da UFPE


nesta página, cena de “o canto de Gregório” por Maurício Cuca. À esquerda, “luiz lua Gonzaga”, em foto de leo leite.

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espetáculo “Corra”fotofrafado poe Val lima.


“Há os que dizem que tudo que o Magiluth faz, de alguma forma, outros já realizaram. Que, na realidade, esses garotos são crias de muitas referências. Mas quem saberá dizer o que é o novo? Isso é mesmo o mais importante? Para o Magiluth me parece que não. O que importa é o trabalho continuado de pesquisa, experimentação, troca, as horas gastas na sala no Bairro do Recife, as experiências acumuladas a cada nova montagem, as discussões e as soluções que daí surgem. Um jogo de cumplicidades entre eles mesmos que é levado ao palco e sentido pelo público.” Pollyanna diniz

jornalista e crítica, idealizadora do blog Satisfeita, Yolanda?

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Cenas da peça “ato”. nesta página, foto de Mario Sergio Cabral e, à esquerda, foto de Val lima.

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o olhar de Fred Cintra sobre o espetáculo “ato”.

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nesta página, “ato”, por Fred cintra. À direita, “aquilo que meu olhar guardou para você”, em foto de Maurício cuca.


“Pegue um pouco de lama do mangue, a energia pulsante do frevo, uma dose de companheirismo, um punhado de atrevimento juvenil, paixão, insistência e trabalho. De algum modo, esses ingredientes me fazem lembrar o grupo Magiluth. Vejo que esses “caboclos de lança” criam uma arte que nasce do desejo de tentar escrever outra cena possível para o teatro pernambucano, da coragem de desrespeitar os modelos estabelecidos, de rir de si mesmo e do risco em assumir um projeto poético tão singular. O melhor de tudo isso? Eles estão conseguindo! Para eles, o meu melhor aplauso!.” Francis Wilker Diretor do Teatro do Concreto/ DF

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Cenas de “aquilo que meu olhar guardou para você”, por Maurício Cuca.


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“O Grupo Magiluth tem no seu DNA uma força e irreverência características de nós nordestinos. Eles conseguem extrapolar os limites de Recife e ser um grupo que começa a apresentar bons direcionamentos para a pesquisa em teatro de grupo no cenário brasileiro. As obras criadas pelo grupo não fazem concessões, são feitas com e para o público, não querendo dizer que este os limita, pelo contrário, parece que a missão principal deste coletivo é surpreender quem os assiste. Há uma força sonora em cada imagem provocada e um risco eminente na aposta de um teatro da convivência ou numa releitura “showbusiness” de um texto clássico. Eles não são os “He-Man” mas parecem gritar: “Eu tenho a força”. E têm mesmo!” henRique FonteS

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Casa da Ribeira/ Grupo Teatro Carmin Coletivo Atores à Deriva - Natal-RN


o olhar de Maurício Cuca sobre “aquilo que meu olhar guardou para você” e “1 torto”, respectivamente. 17

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o cenário de “1 torto”, captado por Maurício Cuca.

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acordar para a

cultura por joca andreazza


máquina de escrita Há alguns anos, o coletivo diálogos foi criado para acompanHar com resenHas reflexivas os espetáculos que se apresentassem nas satyrianas (sp). no ano passado, dois textos se destacaram dentre a centena de espetáculos apresentados. a antro+ traz aqui as duas peças na íntegra. boa leitura.


máquina de escrita

quaLquer dia, cOm VOcÊ, cOmiGO, cOm quaLquer um Sérgio Roveri


S

érgio róveri explode os caminhos comuns e apresenta uma dramaturgia inclassificável e poderosamente singular. São 15 personagens divididos entre um casal de

atores. Mas são mais do que os intérpretes, pois são igualmente narradores, pensamentos, lembranças, sensações... do salto de um a outro, em falas quase sempre curtas, da palavra transferida constantemente, elabora uma narrativa que compreende e necessita do formado oferecido. Nunca há a pausa, sempre o próximo momento. E aí está a liberdade e grandeza de uma estrutura impossível de ser copiada em processos mais banais. Subvertendo a lógica de que o contar uma história deve se dar pela revelação dos acontecimentos, a dramaturgia conduz a compreensão da narrativa pelos hiatos criados no tempo e no roteiro, ao pularem as falas de um a outro. ao propor que um seja também o próximo na descoberta do que virá. Ou a sensação, apenas. ou o mesmo, em tempos acelerados em ações futuras. Ao fim, compreende-se sem a necessidade do todo. o processo torna o espectador ativo na interpretação daquilo que não necessita ser revelado, tornando mais prazeroso o convívio com a dramaturgia e cena. roveri renova sua escrita. abusa da estratégia de construção como alguém que evidentemente domina o processo e o uso da palavra como poucos. Faz da possibilidade do assistir algo prazeroso, desafiador, também àqueles voltados à criação. E consegue algo mais, como se tudo isso não bastasse: desenhar uma história poética, interessante e emocionante. Gosto muito de sair do teatro com a certeza de ter aprendido um pouco mais.

ruy filho para o Coletivo Diálogos cobertura Satyrianas/Dramamix 2012


máquina de escrita

Homem e mulHer sentados de frente para o público. eles têm as mãos entre as pernas, num gesto que pode sinalizar tanto timidez quanto distanciamento. um guarda-cHuva apoiado na perna do Homem. eles olHam diretamente para frente. eles não se olHam.

Mulher: a massa de ar quente que atua sobre o estado deve ganhar mais força a partir de hoje. as temperaturas, na capital, podem atingir a marca de 32 graus no período da tarde. como tem ocorrido nos últimos dias, o calor pode provocar fortes pancadas de chuva entre o fim da tarde e o início da noite. hoMeM: e eu não tinha guarda-chuva. Mulher: os bombeiros e a defesa civil continuam em alerta em função dos alagamentos que já deixaram centenas de desabrigados. hoMeM: até semana passada eu ainda tinha um guarda-chuva. mas a mulher que trabalha em casa às quintas-feiras, a quem eu sempre chamei de faxineira e agora devo chamar de secretária, porque é assim que todas as pessoas que têm faxineira agora chamam suas faxineiras, de secretárias, pediu meu guarda-chuva emprestado quando terminou o trabalho – quase uma hora antes do habitual. Mulher: amanhã eu devolvo, sem falta. hoMeM: ela disse. Mulher: eu esqueci o meu. hoMeM: eu imagino que sim. Mulher: e eu ainda preciso pegar meu filho na escola. E depois são dois ônibus até em casa.

hoMeM: ela escolheu um dia de chuva para me dizer que tinha filhos. Mulher: dois. o que vai na escola é o menor. o outro já trabalha. É o que ele me diz quando sai. Homem entrega o guarda-chuva para a mulher. Mulher: É só até amanhã. hoMeM: ela prometeu. Mulher: É mais por causa do menino. hoMeM: amanhã não é seu dia de vir. Mulher: eu passo aqui no caminho da outra casa. eu trabalho numa outra casa. hoMeM: eu imagino que sim. Mulher: eu passo aqui e devolvo o guarda-chuva. É caminho. hoMeM: ela não passou. Mulher: o menino acordou doente. com tosse. não tinha com quem deixar. hoMeM: o guarda-chuva era novo. eu perdi os outros. iria perder este também, mas não é disso que estou falando. Mulher: nem na outra casa eu fui. ia ganhar 90 reais. hoMeM: o tecido era preto. Mulher: 100% poliéster. hoMeM: como? Mulher: a etiqueta. eu vi. hoMeM: e o cabo era preto. mas de um preto diferente do preto do tecido. era


QUALQUER DIA, COM VOCÊ, COMIGO, COM QUALQUER UM

como se cada parte, tecido e cabo, tivesse sido feita em lugares diferentes. sem que ninguém tivesse combinado que tipo específico de preto cada parte deveria ser. Mulher: eu não podia devolver. mesmo se o menino não tivesse acordado doente. não tinha mais o que devolver. o vento virou o guarda-chuva do avesso e entortou três varetas. encharcou primeiro o menino. hoMeM: eram nove horas quando eu ouvi a previsão do tempo.

hoMeM: desci. Mulher: a moça da televisão ensinou fazer uma árvore de natal com um esqueleto de guarda-chuva. hoMeM: cheguei no carro. Mulher: a gente só precisa de algodão e umas bolas coloridas. me ajuda, menino? hoMeM: Eu tô doente, mãe. Mulher: você não presta pra nada.

Mulher: a massa de ar quente que atua sobre o estado deve ganhar mais força a partir de hoje. as temperaturas, na capital, podem atingir a marca de 32 graus no período da tarde. como tem ocorrido nos últimos dias, o calor pode provocar fortes pancadas de chuva entre o fim da tarde e o início da noite.

hoMeM: entrei no carro.

hoMeM: peguei o interfone.

hoMeM: eu não perguntei.

Mulher: no litoral de santa catarina as ondas podem chegar a dois metros de altura.

Mulher: ele pensou.

hoMeM: eu não estou em santa catarina. isso não me interessa.

Mulher: ele disse.

Mulher: mas alguém está. e eu sou paga para ler até o fim. hoMeM: bom dia. por acaso a faxi....a mulher que trabalha aqui deixou um guarda-chuva na portaria? Mulher: não, senhor. hoMeM: obrigado. Mulher: Eu fiquei com aquele esqueleto de guarda-chuva na minha casa.

Mulher: outro dia daqueles, hein... hoMeM: a vizinha. Mulher: ontem eu levei três horas para chegar.

hoMeM: eu imagino... a chuva.

hoMeM: e hoje, igual. Mulher: vamos logo. hoMeM: O filho da vizinha. Mulher: não vê que a mamãe está conversando. o que a mamãe te ensinou? hoMeM: deixa. não faz mal. Mulher: desculpa. hoMeM: O filho da vizinha.

03

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máquina de escrita

Mulher: Hoje ele começa na natação.

Mulher: o portão abriu. ele saiu atrás.

hoMeM: parabéns.

hoMeM: como ela corre.

Mulher: e o que você responde agora?

Mulher: aqui eu saio desta história.

hoMeM: deixa.

hoMeM: e eu?

Mulher: obrigado.

Mulher: você também.

hoMeM: O filho da vizinha. Ele é criança.

hoMeM: mas eu estava gostando.

Mulher: posso sair com o meu primeiro?

Mulher: você é criança. você sai comigo.

hoMeM: ela perguntou.

hoMeM: mas...

Mulher: eu ainda preciso comprar a toca para ele nadar.

Mulher: ou eu não te dou a toca. (pausa) – não faz bico.

hoMeM: ela saiu primeiro. eu, logo atrás. o porteiro não me viu. o porteiro fechou o portão na minha frente.

hoMeM: buzina.

Mulher: ele buzinou.

hoMeM: parou.

hoMeM: duas vezes.

Mulher: buzina.

Mulher: calma!

hoMeM: porra.

hoMeM: ela gritou.

Mulher: tri-li-li-li-li-li-li

Mulher: não está vendo que ninguém me dá passagem?

hoMeM: o celular.

hoMeM: ela pensou que fosse para ela. Mulher: todo dia é isso. hoMeM: desculpas. Mulher: ele me pediu. hoMeM: não foi pra você. É o portão. Mulher: mas ninguém me dá... hoMeM: aproveita agora, mãe. Mulher: não grita comigo. eu não sou cega. hoMeM: ela foi. ela acenou.

Mulher: andou.

Mulher: eu não posso falar agora. hoMeM: É um minuto. Mulher: não posso. tem marronzinho. hoMeM: me liga urgente. Mulher: o que é? hoMeM: e o marronzinho? Mulher: foda-se. hoMeM: ei, moço! Mulher: fala, chefe. hoMeM: quanto tá o guarda-chuva?


QUALQUER DIA, COM VOCÊ, COMIGO, COM QUALQUER UM

Mulher: qual? hoMeM: o grande. o preto.

Mulher: vintinho na volta, doutor? hoMeM: quanto?

Mulher: 25.

Mulher: 20.

hoMeM: na outra semana era 20.

hoMeM: você tá louco?

Mulher: na outra semana não choveu.

Mulher: pro panetone.

hoMeM: anda, porra.

hoMeM: toma dez.

Mulher: Caralho, eu tô comprando.

pausa.

hoMeM: vai levar ou não?

Mulher: não vai levar o guarda-chuva, doutor?

Mulher: Ó, te dou 20 trocado. Mulher: só desta vez, hein. hoMeM: andou. Mulher: parou. hoMeM: buzina. Mulher: tic-tic. tic-tic. tic-tic. tic-tic. hoMeM: seta para a direita. Mulher: eu vi a vaga antes.

mulher entrega o guarda-chuva ao Homem. hoMeM: peguei o guarda-chuva. tranquei o carro. voltei. tranquei de novo. Já estava trancado. nunca se sabe. Mulher: fica frio, doutor. eu estou aqui. hoMeM: e na volta? Mulher: eu estou aqui agora. hoMeM: por que eu ainda pergunto?

hoMeM: paciência.

Mulher: agora ele anda. ele sua. ele para. ele olha para o céu. ele pensa:

Mulher: eu estava manobrando...

hoMeM: cinza.

hoMeM: pa-ci-ên-cia.

Mulher: ele diz:

Mulher: estúpido.

hoMeM: Hoje não demora.

hoMeM: dei de ombros.

Mulher: É bom ter um guarda-chuva.

Mulher: grosso.

hoMeM: É isso que eu penso.

hoMeM: dei de ombros. Mulher: Careca filhadaputa.

Mulher: e aqui eu entro nesta história. eu me sento ao lado de uma banca de jornal. eu o vejo.

hoMeM: É a tua mãe, lazarenta.

hoMeM: não é feia.

Mulher: fui embora. eu tenho medo.

Mulher: o banco é de concreto. cabem três pessoas. mas eu estou só. ele caminha.

hoMeM: cagona!

05

2


máquina de escrita

hoMeM: não é mesmo feia. mas. o que é? Mulher: É um guarda-chuva novo. ainda no plástico.

se fosse um taco de beisebol. hoMeM: ela está com as mãos entre as pernas. paciência.

hoMeM: pib do brasil deve crescer só 2% este ano.

Mulher: Os dedos da mão dele ficam brancos por causa da pressão.

Mulher: ele lê as notícias.

hoMeM: dedos de quem faz força.

hoMeM: tanto lugar para ela sentar. Justo ali?

Mulher: o sangue saiu da mão. o sangue chegou à cabeça.

Mulher: ele para de ler. ele olha para um pôster.

hoMeM: lateja. lateja. lateja.

hoMeM: eu conheço esta mulher. Mulher: Não eu. A mulher do pôster. Eu também conheço. hoMeM: É uma mulher linda. Mulher: Não eu. A mulher do pôster. hoMeM: Perto dela, ela fica feia. Mulher: agora sou eu. hoMeM: muito feia. Mulher: qualquer uma no meu lugar ficaria. hoMeM: eu me aproximo dela. Mulher: Ele olha para o pôster. E depois para mim. hoMeM: Para ela. E depois para o pôster.

Mulher: da mão que segura o guardachuva. hoMeM: ela não vai ter tempo. paciência. Mulher: o guarda-chuva me acerta do lado esquerdo do rosto. hoMeM: ela bate com o lado direito no alumínio da banca. Mulher: eu faço plaft! hoMeM: não é um bom alumínio. amassou. Mulher: o dono da banca sai. hoMeM: o guarda-chuva continua erguido no ar. Mulher: o dono da banca corre. hoMeM: polícia. polícia.

Mulher: ele fecha um pouco os olhos.

Mulher: eu cuspo. eu olho o cuspe no chão. sangue.

hoMeM: eu mordo os lábios.

hoMeM: Eu fico mudo.

Mulher: ele segura o guarda-chuva como

Mulher: eu o olho.


QUALQUER DIA, COM VOCÊ, COMIGO, COM QUALQUER UM

hoMeM: Eu fico mudo. Mulher: quando eu tinha seis anos, eu arranquei um dente de leite. sozinha.

hoMeM: o policial da esquerda. Mulher: sim. só um gosto de infância na boca. hoMeM: o senhor nos acompanha.

hoMeM: ela não chora.

Mulher: ele se levanta.

Mulher: eu nunca mais tinha sentido este gosto na boca.

hoMeM: eu olho para ela. veja.

hoMeM: eu não sei o que... Mulher: não é um gosto bom. É só antigo. hoMeM: ela abre a mão. ela estende a palma para cima.

Mulher: ele aponta. hoMeM: A chuva borrou o pôster. Mulher: sim. hoMeM: agora você é mais bonita que ela.

Mulher: Hoje ela veio mais cedo.

Mulher: a senhora quer um copo de água?

hoMeM: É da chuva que ela fala.

hoMeM: pergunta o dono da banca.

Mulher: do que mais?

Mulher: eu faço com a cabeça que não.

hoMeM: eu me sento ao lado dela.

hoMeM: a senhora quer nos acompanhar?

Mulher: ele abre o guarda-chuva.

Mulher: pergunta o policial da direita.

Homem e mulher se aproximam. ele abre o guarda-chuva. eles se aninham debaixo do guarda-chuva.

hoMeM: eu faço com a cabeça que não.

hoMeM: ela deixa as mãos fora do guardachuva.

hoMeM: pergunta o policial da esquerda.

Mulher: a mancha de sangue no chão. veja. sumiu.

Mulher: a senhora conhece este homem?

Mulher: eu faço com a cabeça que não. hoMeM: então o quê?

hoMeM: foi ele.

Mulher: o quê o quê?

Mulher: o homem da banca.

hoMeM: nós temos de levá-lo.

hoMeM: um policial de cada lado.

Mulher: mas. precisa algemar?

Mulher: o que aconteceu aqui?

hoMeM: ele é um tipo perigoso.

hoMeM: o policial da direita.

Mulher: eu não sei.

Mulher: a senhora está bem?

hoMeM: ele a agrediu.

07

2


máquina de escrita

Mulher: eu faço com a cabeça que sim. hoMeM: e então? Mulher: eu olho para ele. hoMeM: assim. molhada. assim eu gosto. Mulher: eu olho com carinho para ele. ele adivinha.

QUALQUER DIA, COM VOCÊ, COMIGO, COM QUALQUER UM

a canção para neste ponto. Mulher: isso é mentira. hoMeM: não tocou esta música. Mulher: não tocou nenhuma música. hoMeM: nunca toca.

hoMeM: ela quer me perguntar alguma coisa?

Mulher: as coisas simplesmente acontecem.

Mulher: Posso ficar com o guardachuva?

hoMeM: e não precisam de música.

hoMeM: eu faço com a cabeça que sim. Mulher: para quando você voltar. hoMeM: eu vou com os policiais. Mulher: aqui ele começa a sair desta história.

Mulher: aqui ele sai desta história. hoMeM: meu guarda-chuva. Mulher: ele ainda teve tempo de dizer. hoMeM: talvez não seja 100% poliéster. Mulher: eu olho na etiqueta. não era.

tocam os primeiros versos da canção santa chuva, de marcelo camelo, do grupo los Hermanos.

hoMeM: eu entro no camburão.

Vai chover De novo Deu na tevê Que o povo já se cansou De tanto o céu desabar E pede a um santo daqui Que reze a ajuda de Deus Mas nada pode fazer Se a chuva quer É trazer você para mim.

hoMeM: eu ainda a vejo pela janela com grades. Ela fica menor.

Mulher: eles empurram a cabeça dele.

Mulher: Eu fico mais um pouco ali. Eu vou embora. eu tento dormir naquela noite. eu viro na cama. no dia seguinte, o rosto inchado. como uma saudade. hoMeM: como uma saudade. Mulher: como uma saudade que dói no lugar errado.

2 08

hoMeM: para!

setembro de

2012


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acordar para a

cultura por chriS couto


mรกquina de escrita

a casa da FOnte dOs anJOs Kiko Rieser e Heitor Nunes


r

epensar a relação do teatro com a linguagem realista é parte das questões mais complexas da atualidade. A dificuldade começa no vício simplista em compreender por realismo as diretrizes que estabeleceram os aspec-

tos formais no início do século, atuantes até hoje, ainda que de forma caricata e estrutura sem quaisquer fundamentos que justifiquem o uso. Por onde começar, então? Pela necessidade de sua coerência. É preciso determinar o uso de maneira a constituir um vínculo com o real mais apropriado e significativo. “A Casa da Fonte dos Anjos” atinge a qualidade que se espera a essa estratégia. Não se trata de representar a realidade ao pé da letra, mas da sugestão das possibilidades subjetivas ao material dramático que só podem ser alcançadas se vividas de maneira real. É preciso estar em estado de teatro para que as entrelinhas e silêncios dramatúrgicos surjam como potências poéticas. E, para tanto, a estratégia cênica se faz fundamentalmente realidade. Afinal, de que outra maneira o público poderia se sentir tão igualmente participante e cena? A peça, dentro do carro, traz a possibilidade de assistir os atores em cena e também a de presenciar a história. Mas nem sempre isso é o suficiente para consolidar a realidade. E é nesse aspecto que o texto avança em passos largos. Vivencia-se a perspectiva das subjetividades do pai e filho, nunca totalmente reveladas, mas implícitas na condição própria do carro, trajeto e destino. Desta maneira, assistimos e pertencemos à cena. Estamos e participamos do processo. Reconhecemos e desconfiamos o tempo todo. É pela qualidade da dubiedade e do se assumir teatro que a realidade como manifestação teatral se coloca em cena. Quem finge, se não todos, inclusive o público? A cena, portanto, realizada como foi, amplia a percepção da realidade sem distanciar o espectador ou carona em nenhum momento. A experiência conduz a outra questão: será que não devemos livrar os palcos do realismo barato, caricaturado pelas tentativas de fingir o real, e oferecerlhes outras qualidades de poéticas? Possivelmente sim. O realismo sobreviverá, é fato, desde que se coloque novamente próximo ao real, aos dispositivos que reconhecemos como manifestações do real. O texto resolve o dilema. Caminha para escolhas novas e possíveis. Emocionar-se é sempre permito.

ruy filho para o Coletivo Diálogos cobertura Satyrianas/Dramamix 2012


máquina de escrita

Inverno de 2012

filho – essa mesma!

Personagens:

PAi – que bom! duas vezes bom! uma porque eu lembrei, outra porque eu adoro anjinhos.

filho – 20 e Poucos anos, veste-se de forma dIscreta, talvez use óculos PAi – entre 60 e 70 anos, sofre de uma doença degeneratIva Precoce em estágIo InIcIal, usa rouPas e maquIagem femInInas (o cenárIo é um carro, dentro do qual o PúblIco está acomodado. o fIlho se aProxIma, dando aPoIo ao PaI com um braço, enquanto carrega uma mala com o outro, até chegar ao lado dIreIto do veículo. o PaI anda com dIfIculdade. o fIlho ajuda o PaI a entrar, guarda a mala no Portamalas e entra também no automóvel. olha Para o PaI, que está com o olhar PerdIdo no horIzonte, e resPIra fundo.)

filho – Pai, põe o cinto, por favor. (Pausa.) PAi – você não tinha um carro verde? filho – não, o vovô é quem tinha um carro verde. (Pausa.) Põe o cinto, por favor? (o PaI Põe o cInto. o fIlho faz o mesmo.) filho – tá tudo bem? a gente pode ir? PAi – claro! (Pausa curta.) mas pra onde a gente tá indo mesmo? filho – Praquela casa que a gente visitou no fim de semana passado, lembra? PAi – aquela que tem a fonte com os anjinhos?

filho – eu acho um tanto quanto estranho você gostar de anjos. PAi – você não gosta de anjinhos? filho – acho que gosto, não sei. PAi – então! todo mundo gosta de anjinhos! filho – mas acho estranho você gostar. PAi – Por quê? filho – esquece. PAi – (brincalhão.) é comigo mesmo. filho – (Profundamente constrangido.) eu não quis dizer isso. PAi – tá tudo bem! esqueça isso você também! tá vendo? nem sempre é ruim esquecer! (Pausa curta.) de quem é esse carro? filho – meu. PAi – você não tinha um carro verde? filho – seu pai é quem tinha um carro verde. uma variant. verde musgo. PaI e filho – (falando juntos.) cor de catarro! (eles riem.) filho – você tomou o seu remédio das cinco? PAi – sabe que eu não sei?! filho – caralho!


a casa da fonte dos anjos

(fIlho saI esbaforIdo do carro, abre o Porta-malas, revIra a mala do PaI, tIra um comPrImIdo, fecha o Porta-malas e volta Para dentro.) filho – não tomou mesmo, o de hoje ainda tava na cartela. me desculpa, pai! eu esqueci completamente de te dar na hora certa. tá vendo?! eu não consigo nem cuidar direito de você. vai ser bom você ir pra lá, vai ser bom. lá eles não vão esquecer de te dar remédio, vão cuidar de você 24 horas por dia. e tem anjinho, é bonito, você vai gostar, aposto que vai. me perdoa! PAi – tudo bem, tá perdoado, eu também esqueci! (rindo desbragadamente.) aliás, você tá esquecendo muita coisa! filho – engraçadinho! (Pausa.) me perdoa! PAi – eu já disse que te perdoo. filho – eu não tô falando do remédio. (o fIlho vaI dar o comPrImIdo Para o PaI, mas ele se recusa a abrIr a boca, fazendo um som gutural de negação, como “hum, hum”.) filho – que foi? PAi – assim é ruim, quero água. filho – eu esqueci de trazer. (começa a olhar em volta, procurando alguma garrafa que pudesse estar perdida, mas não encontra nada. abre o porta-luvas e encontra uma garrafinha com água pela metade.) só tem essa água velha. PAi – tudo bem. água velha pra uma velha!

PAi – Cabeça de velho. Me fez ficar velho antes do tempo. filho – não é cabeça de velho, pai, é só... (Pausa breve.) toma o remédio. (ele dá o comPrImIdo na boca do PaI, em seguIda lhe dá água e guarda a garrafa no Porta-luvas.) filho – agora vamos. (o fIlho dá PartIda no carro e o Põe em movImento. fIcam um temPo em sIlêncIo. o PaI vaI levanta um Pouco a saIa Para coçar a Perna e nota um hematoma.) PAi – o que é isso? que mancha é essa? como isso veio parar na minha perna? que coisa horrível! (começa a esfregar o hematoma, PrImeIro com a Palma da Pão, dePoIs com as unhas.) filho – calma, pai. PAi – Isso tem que sair, tem que sair! filho – (tentando segurar a mão do Pai.) Para, pai! você vai se machucar ainda mais desse jeito. PAi – (muito exaltado.) eu preciso tirar isso da minha perna! filho – Para, pai! Para! você não vai conseguir tirar assim. você quer que eu bata o carro?! Para com isso! quando a gente chegar a gente passa alguma coisa.

filho – velho, pra um velho!

(o PaI se acalma um Pouco e Para de esfregar a Perna)

PAi – como queira.

PAi – Como eu fiz isso?

filho – e velho não, você ainda tá longe disso.

filho – você caiu da escadinha da cozinha.

13

2


máquina de escrita

PAi – eu nunca na minha vida subi naquela escadinha. você sabe que eu não subo em nada porque me dá labirintite.

filho – não. só não quis contar, mas agora eu quero. não sei por que, mas agora eu quero. a primeira vez que eu te vi vestido assim... eu lembrei da minha mãe. lembrei como se ela estivesse presente ali. acho que eu nunca quis admitir, mas foi uma sensação boa, sabia?

filho – (mudando de assunto.) Por que você pôs esses brincos?

PAi – você gostou de me ver vestido igual a ela?

PAi – não são bonitos?

filho – não. gostei num primeiro momento, depois eu já não gostei, mas aquela primeira visão, eu senti como se ela estivesse ali. engraçado, né?

PAi – na escadinha de armar da cozinha? filho – na escadinha de armar da cozinha.

filho – eram os preferidos da mamãe. ela ficava linda com eles! PAi – e eu? filho – o quê? PAi – tô bonita com eles? (Pausa.) filho – tá, pai, pior que tá. (longa pausa.) você sabe que lá tem gente que não vai aceitar muito bem você vestido assim, né? PAi – Por quê? tá muito decotado? filho – não, pai, não é o decote... PAi – é brincadeira! Posso estar esquecendo as coisas, mas eu sei que as pessoas continuam iguais. e também não tô nem aí pro que vão pensar. Isso eu escolho esquecer. filho – eu ainda não me acostumei. PAi – não sei por quê... já faz tanto tempo. (Pausa curta. Preocupado.) não faz? filho – tem coisas que eu também queria poder escolher esquecer. PAi – a minha doença, por exemplo?! filho – (Pausa longa, depois lembra-se de algo engraçado.) tem uma coisa que eu nunca te falei... PAi – esqueceu, também?

PAi – que bom saber disso! Isso eu queria escolher não esquecer. (Pausa curta.) algumas memórias podiam substituir as outras. filho – você já tá tentando substituir coisas demais! PAi – como assim? filho – vestido assim! PAi – e o que você acha que eu tô tentando substituir? (Pausa. exaltando-se.) hein? fala! (Pausa longa. já muito exaltado.) coisa mais absurda! filho – calma, pai! calma! (Pausa. o Pai se acalma.) talvez, pra você seja mais fácil resolver as coisas simplesmente substituindo. lembra do spike? PAi – não. nome de cachorro... filho – ele era um cachorro. meu cachorro. ele morreu quando eu tinha uns doze anos. Eu fiquei triste pra caralho por causa disso, passei o dia trancado no meu quarto, chorando. no dia seguinte, o que aconteceu?! você me apareceu com um outro cachorro! PAi – não compare sua mãe a um cachorro. eu queria, eu adoraria poder te explicar por que comprei esse cachorro, mas eu estaria inventando,


a casa da fonte dos anjos

porque eu, porque eu simplesmente não lembro. não lembro do spike, não lembro, também não lembro desse outro. não lembro da gente ter tido cachorro. Provavelmente eu fiz isso pra... Como se diz? Pra tentar amenizar sua dor, pra você não se sentir sozinho. não acho que eu tenha tentado substituir o... filho – spike. PAi – o skipe! filho – spike! PAi – Isso, skipe! mas, acredite, eu não tô tentando substituir a sua mãe. seria impossível tentar. até porque eu mesmo não conseguiria me esquecer dela. eu posso esquecer tudo, até meu nome, mas sua mãe, não. sua mãe, não. quando eu tiver morrido e só sobrarem os restos, os ossos e o cabelo... e os dentes, acho que os dentes também ficam, não é? Sua mãe ainda vai estar lá, cravada na memória dos meus restos. nem que eu quisesse eu conseguiria esquecer dela. filho – você não tem como saber, você não escolhe os arquivos que sua memória vai deletar. PAi – Posso acreditar nisso em paz ou você também vai me tirar isso? filho – eu não queria te levar pra lá, tá legal?! PAi – não tô falando disso, não tô falando de você, só tô dizendo que faz um tempo que eu simplesmente tô perdendo tudo! (Pausa.) Pra onde você tá me levando mesmo?

PAi – eles não se importam. eles não julgam ninguém... eles são bons. são puros. têm forma humana, mas não são humanos. não são homens e também não são mulheres. são anjos! (Pausa longa.) filho – acho que eu sempre te julguei, pai. mas eu era tão novo e não me sentia capaz de cuidar de você sozinho. eu ainda não me sinto capaz. e ainda sou novo, mas tô ficando velho sem o tempo ter passado em mim. é como se eu visse o tempo passando na janela, sabe? como uma paisagem, algo fora de mim. e eu sendo transportado, ficando velho, atravessando os anos sem ser atravessado por eles. não que eu não tenha amadurecido, pelo contrário, mas parece que eu não vivi esse tempo que passou. eu nunca fiz uma viagem sozinho, por exemplo. uma viagem com meus amigos ou com a gabi, só nós dois. e em alguns momentos eu fiquei com raiva de você por isso, mas depois eu ficava com o dobro, com o triplo de raiva de mim mesmo por pensar uma coisa dessas. e eu não entendia você vestido assim. eu te julguei, sim, pai, mas porque eu tinha medo. e também um pouco de vergonha. eu tinha medo, mas me calava. me calei durante muito tempo, porque... porque eu achava que você queria substituir a falta que ela me fazia. e acho que, no fundo, eu também queria isso. queria que ela voltasse. nem que fosse através de você. mas ao mesmo tempo queria isso só pra mim, de um modo completamente egoísta. eu fui covarde com você, pai. duplamente covarde. PAi – Por que você tá me falando tanta coisa agora? filho – não sei, achei que era o momento.

filho – a casa da fonte dos anjos, pai. lembra?

PAi – você não vai me abandonar lá sem me visitar como alguns filhos fazem, né?

PAi – ah, é... os anjinhos!

filho – (surpreso e enfatizando bem o que diz.) claro que não! óbvio que não! vou te visitar sempre, sempre, toda semana, várias vezes por semana.

filho – você disse que gostava deles. PAi – eu gosto dos anjos. e eles não vão criticar minhas roupas. filho – claro que não, eles são estatuetas.

PAi – você tá com medo que eu te esqueça? Isso não vai acontecer. você e sua mãe eu não esqueço, tá nos ossos.

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máquina de escrita

filho – você já me esqueceu semana passada. PAi – foi um instante, um... lapso! só isso, um lapso. como todos os outros lapsos que tenho. mas esquecer mesmo, isso eu não vou. sua vó também, ela também eu nunca vou esquecer. nunca vou esquecer o perfume dela. ou o gosto do pavê que ela fazia, meu doce preferido. tirando quando ela fazia no natal, aí eu odiava, porque o tio Ivan sempre fazia a maldita piada do pavê e eu tinha vontade de tacar a porcaria do pavê na cara dele. o que eu mais odiava era o apoio, a cumplicidade que ele esperava. Ele fazia a piada e ficava olhando a gente nos olhos, esperando que a gente risse. eu me recusava. acho que ele via na minha cara o meu completo desprezo por aquilo tudo. tá vendo, filho?! Eu me lembro de tudo isso com detalhes. lembro do seu avô puto no meio da estrada pra Itanhaém quando o carro quebrou. naquela época a gente tinha que passar pela areia pra chegar na praia, a estrada não existia. ela até existia, mas não era inteira, ela parava no meio... era interrompida! aí às vezes entrava água e o carro enguiçava. mas o lado bom é que não tinha congestionamento. era uma época boa, apesar de tudo. nessa época, quando seu vô, sua vó e seus tios não tavam em casa, quando eu tava sozinho, eu vestia a roupa da sua vó. experimentava os vestidos e ficava horas me olhando no espelho. quando eu ouvia o carro chegando eu me trocava correndo, morrendo de medo que vissem o que eu tava fazendo. filho – Por que você nunca me contou que você se vestia de mulher antes?

2 16

PAi – eu nunca contei pra ninguém. antes eu tinha vergonha. agora, nos últimos tempos, não sei, vai ver que esqueci de contar. essa é outra coisa boa de esquecer. eu sempre vou ter essa desculpa pra qualquer coisa que eu não fizer. (Pausa curta.) Sabe, esquecer é uma merda. uma grande merda! dá uma baita sensação de impotência. eu vejo minha cabeça, meu cérebro, meu próprio cérebro me boicotando e não posso fazer nada pra evitar. mas também tem seu lado bom. agora eu posso me vestir como eu quero, como eu sempre quis. e tô mais

a casa da fonte dos anjos

é me lixando pro que os outros vão pensar. Podem me xingar na rua, meia hora depois eu vou esquecer mesmo! é claro que eu podia, que eu devia ter feito isso tudo antes, mas eu não tinha coragem. filho – como eu. PAi – besteira! você não herdou meu medo, minha covardia. Pelo contrário, você tá sendo muito corajoso me levando pra essa casa. eu sei que não é fácil pra você. mas você só tá fazendo o que tem que ser feito. tá na hora de você se encontrar também, ter seu espaço. vá viajar com seus amigos, com a sua garota. Eu vou ficar bem. eles vão cuidar bem de mim. ninguém conseguiria fazer isso sozinho. e olha que você cuidou de mim muito melhor do que qualquer outra pessoa poderia fazer. eu vou ficar bem. Não totalmente, você sabe, nós dois sabemos. mas vou envelhecer... e esquecer. mas acho que vou esquecer em paz. você ainda é jovem, tem que aproveitar. cuidar de gente velha não dá camisa pra nignuém, meu filho! (Os dois riem suavemente.) eu sei que você também vai ficar bem. filho – não esquece que eu te amo? PAi – nunca! (em algum momento brevemente anterIor o fIlho estacIonou o carro.) filho – chegamos. PAi – que lugar bonito! deve ser ainda mais bonito por dentro. será que tem jardim? filho – tomara que tenha! (os doIs se abraçam calorosa e demoradamente. o fIlho saI do carro, tIra a mala do Porta-malas, abre a Porta do PaI e lhe estende a mão. o PaI levanta sem a ajuda do fIlho e os doIs camInham juntos em dIreção à casa da fonte dos anjos.)


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acordar para a

cultura Por Ruy FilhO E PAtRíCiA CiViDANEs

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AUTORRETRATO: o ato de transformar em imagem sua própria identidade.

se lf -p o rt ra it *

pe um r c au son ale a an torr liza ndá e ive tr d rio r a o e a sp sar tos co c e ia d m pa ada cia nte e is s im ra pr s mê u s, e e ab sad sso r us o e , ad o

ca le nd ár io


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traço

por RICARDO BEZERRA

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“Discurso do Coração Infartado”, direção de Ricardo Alves e atuação de Silvana Stein. CIT- Ecum, São Paulo, 02 de julho de 2013


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ANTRO POSITIVO ED.07  

revista trimestral, com acesso livre, sobre teatro e políticas culturais. Editores: Ruy Filho e Patricia Cividanes

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