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Monotipia

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25 É, pessoal... dois anos. Para comemorar esta data querida (pá e tal...), preparamos esta edição bacaníssma, cheia de gente boa. Está imperdível.

Martins de Castro Monalisa Marques Editores

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Marco Bravo

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Monotipia: Fale sobre sua formação, enquanto

as primeiras faculdades. Só me graduei mesmo depois

ilustrador.

dos 40! No ensino fundamental então fui uma lástima!...

Marco Bravo: Faço mestrado na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, em Portugal, com muito trabalho prático e teórico para desenvolver. Sou formado em Belas Artes na EBA - Escola de Belas artes da UFRJ e, antes disso, estudei em mais três outras faculdades. Dito assim, parece até que sou um exemplo de carreira acadêmica, mas não é bem assim. Nunca fui bom aluno, sempre me pareceu impossível me concentrar nos estudos. A verdade é que não levei adiante

Mas, na adolescência, fui salvo pelo SENAC Artes Gráficas. Lá, encontrei um mundo novo e tive o prazer de aprender com professores que se tornaram meus amigos – e o são até hoje! Essa experiência no SENAC me deu a qualificação necessária para trabalhar nos mercados publicitários e editoriais, conseguindo bons empregos nas áreas de criação e ilustração. Durante esse tempo, criei um diversificado portfólio e, depois dessa parte resolvida, pude me dedicar à vida acadêmica.

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MT: Quais são as suas principais influências, no que se refere a movimentos e/ou artistas? MB: São muitas é claro, um ilustrador vive de apreender. A própria prática de buscar referências te leva a conhecer grandes nomes. Eu vejo que há momentos. Aos 17 anos, vi numa livraria o livro “Fairies” de Brian Froud, até então desconhecido no Brasil. Fui arrebatado por esse livro e nunca aproveitei uma publicação tão intensamente quanto essa... hoje, aquela temática inusitada para a época virou lugar comum, cheio de gente tatuada com suas figuras, mas mesmo assim continuo encantado. Também já fui apaixonado por Nick Bantock, por conta dos livros “Griffin and Sabine”. Outra grande influência foi o Ilustrador John J. Muth, este último, acredito que tenha sido uma das maiores, guardo até hoje é a Graphic Novel “Dracula” que ele escreveu e ilustrou. Atualmente, estou fascinado por Hans Bellmer e toda a sua obra. Ele é meu atual guru. Faço muitas injustiças ao citar apenas esses nomes, pois vivo também na companhia de Man Ray, Jenny Saville, Marina Abramovic, Francesca Woodman, Koppa, Gigger e mais, mais, mais...

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MT: Há alguma predileção no que se refere a formatos e materiais? MB: Não necessariamente. Até sou repreendido por alguns amigos por usar aquarela em papéis vagabundos... Particularmente, eu até gosto quando um papel se enruga e perde seu formato rígido para dar lugar ao indisciplinado amassado. Uso de tudo. Claro que o óleo sobre tela tem prioridade para o meu trabalho, mas sempre que posso fujo das regras, tanto na arte quanto na vida.

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MT: Como é a dinâmica de produção das suas ilustrações? MB: Acho que a chave para um bom trabalho é criar. O fazer é importante, mas tento primeiro fazer na minha mente. Da Vinci, no “Tratado de laPitura”, afirma que a arte é “cosa mentale” e o pintor deve ser “universale”. Baseado nessa desculpa tão erudita, dou-me ao luxo de pensar dias sobre uma ilustração para realizar em apenas poucas horas. É difícil explicar aos clientes que meu processo envolve um longo tempo de “maturação mental”. Geralmente, eles acham que nós fabricamos ilustrações em série, mas não é bem assim, ou melhor, não deveria ser. E, na prática, sempre me vejo a virar noites para entregar trabalho, pois a parte de pensar antes de começar a por as mãos na massa é indispensável.

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MT: Quais costumam ser suas preocupações narrativo-descritivas, no que concerne à construção de um ritmo visual, em suas ilustrações? MB: É uma pergunta chave. Se quisermos sistematizar o processo produtivo da ilustração, primeiro encontraremos uma variedade multifacetada de demandas. Vou me ater ao universo editorial, onde, acredito com toda convicção, que a ilustração deve por princípio ser autônoma e não simples reprodução visual de um texto ou ideia literária. Ouso mesmo em dizer que quanto menos relação narrativo-descritiva tiver, mais enriquecedor é o trabalho. Não consigo entender um ilustrador que faz apenas o que lhe é pedido, um ilustrador tem o dever de acrescentar ao discurso, não pode ser uma figura que apenas executa um trabalho, é mais. Já vi coisas inacreditáveis. Acho pior quando vejo ilustrações finamente rebuscadas que apenas seguem o texto. Isso acaba depondo contra, não vale de nada. Em contrapartida, ilustrações “muito mais simples” ganham vida quando suscitam leituras independentes. Eu parto do princípio de que se entendes a leitura de um texto, não precisas de uma ilustração para mostrar do que se trata. A ilustração é um dado novo, vivo e autônomo. Enfim, nada de legenda...

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MT: O que você tem produzido para além de ilustrações? MB: Pinto muito. No ano de 2012, apesar de estar em Portugal, meu trabalho tem sido exposto, tanto por aqui, em Paris, e muito no Brasil. Ganhei uma medalha de ouro no primeiro salão de artes plásticas que participei no início do ano e, no segundo salão de artes, uma de prata aí no Brasil, no concorridíssimo salão do Clube Militar, nesse último fiquei realmente surpreso, pois minha pintura, que é muito contemporânea, chegou muito longe num salão supostamente “tradicional”. Sinal dos tempos mesmo.

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MT: O que você tem lido ultimamente? MB: Por conta dos estudos, leio muitos trabalhos de arte e textos de artistas, mas me interesso mesmo por livros sobre ciências e coisas assim. Hoje, os autores científicos têm conseguido escrever de uma maneira muito mais acessível para nós leigos, em palavras simples e de fácil compreensão. Um grande exemplo foi o livro “O andar do bêbado” que, apesar do poético título, é um livro que fala de matemática e estatísticas... (?) Pois é, eu sempre fui um péssimo aluno, especialmente de matemática, mas devorei esse livro como um tubarão na frente de uma carcaça. Conheça mais do Trabalho do Marco em http://bravostudio.com.br/pt/

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Trilogia à Arte

André Lasak

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Arte do pó que sustenta TERRA Arte do nó que sustenta LAÇO Arte do solo que sustenta CHÃO Arte do polo que sustenta IMÃ Arte do colo que sustenta SONO Arte do pulo que sustenta SALTO Arte da sola que sustenta CALÇO Arte da perda que sustenta DOR Arte da pena que sustenta ASA Arte do vento que sustenta VOO Arte da cena que sustenta TRAÇO Arte da queima que sustenta FÓSFORO Arte da cana que sustenta ÁLCOOL Arte do nada que sustenta TUDO Arte do tudo que sustenta NADA

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A arte não está No quadro não está No esquadro não está No desenho não está Na musa não está Na escultura não está Na moldura não está Na criatura não está No criador não está No coração não está Na beleza não está Na tristeza

A ARTE ESTÁ ONDE VOCÊ QUER VER ONDE VOCÊ POSSA VIR A SER ARTE

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Arte em fato Artefato ilusório Do tempo numa tela Da tela a óleo Espreita uma face Entre faces entre olhos OLHOS Observam tempos remotos Conservam semblantes mortos Tortos amorfos observatórios

Do tempo sobram Papéis amarelados Ideias repensadas Mitos lendários Mistérios insolúveis Segredos intrincados Sonhos não ACABADOS

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Daniel Werneck

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Monotipia: para começar, fale sobre sua forma-

que admirava, foi ótimo conhecer um quadrinista de

ção, enquanto ilustrador.

verdade, e também vários colegas iniciantes. Aquilo

Daniel Werneck: Comecei a desenhar como qualquer

me incentivou a continuar fazendo meus quadrinhos.

criança, rabiscando a parede de casa. Depois comecei a

Na mesma época também trocava muitas cartas com

concentrar esse esforço todo em pedacinhos de papel,

fanzineiros do Brasil inteiro, era uma época muito

que eu pacientemente dobrava grampeava. Lá pelos sete

legal, e bem antes do acesso à internet se tornar uma

anos já fazia réplicas completas dos gibis que ganhava

coisa comum em casa, eu já tinha todos esses amigos

dos adultos, com capa, logomarca de editora, preço, co-

em vários estados do Brasil, trocando zines, fitas cas-

luna do editor e tudo mais.

sete, revistas repetidas e desenhos originais. Sinto falta dessa época; Facebook é divertido, mas nada se

Em 1998 entrei na Escola de Belas Artes da UFMG, onde

compara a receber envelopes pelo correio quase todos

me formei em Belas Artes com habilitação em Cinema de

os dias, cheios de desenhos e novidades.

Animação. Depois também comecei a habilitação em Gravura, mas interrompi o curso quando passei no mestrado em artes, na mesma escola. Terminei o doutorado

MT: Quais influências, no que se refere a mo-

em 2010, quando já atuava como professor nessa mesma

vimentos e/ou artistas,você identifica no seu

escola.

trabalho? DW: Isso é um assunto complexo! Acho que me tor-

Também fiz um curso de quadrinhos com o italiano Pie-

nei pesquisador acadêmico e professor justamente por

ro Bagnariol, quando era adolescente, que me ajudou

ser meio obcecado em pesquisar referências e a histó-

bastante naquela época. Depois de passar muitos anos

ria da arte. Tenho tantas influências que é difícil apon-

estudando sozinho em livros e copiando os quadrinhos www.monotipia.com


tar apenas algumas. O que faço normalmente é trabalhar

uma influência para esse projeto específico. Mas ao

orientado a projetos: cada coisa nova que começo tem

mesmo tempo também precisei da ajuda dos qua-

uma pasta de referências própria, onde vou depositando

drinistas de guerra e terror dos anos 1960, filmes

tudo o que acho que faz sentido ali. Por exemplo, adoro o

sobre a guerra do Vietnã, xilogravuras japonesas do

trabalho do Lorenzo Mattotti, mas se estou desenhando

século XIX, bandas de heavy metal contemporâ-

um mangá de samurais, dificilmente aquele estilo colori-

neas, camisetas de skate dos anos 1980, caligrafia

do e pintado dele vai me ser útil.

chinesa, a história do budismo na China, e muito mais...

O que gosto de fazer é misturar influências e referências, pois é assim que se encontra novas formas de fazer as

Quanto mais elementos diferentes consigo mistu-

coisas, assim se desenvolvem os olhares mais interessan-

rar, melhor para o resultado final. Essa nuvem de

tes. Por exemplo, nesse quadrinho de samurais que estou

referências me ajuda a pensar em tudo: na história,

fazendo agora, estou buscando referências no expressio-

nos diálogos, no design dos personagens, no mate-

nismo alemão e naquilo que os nazistas chamaram de

rial de desenho, no formato das páginas, em tudo

"arte degenerada". Além de ser um estilo com o qual eu

mesmo. É uma forma de pensar diferente, não ne-

me identifico, e que consigo fazer algo parecido (sou

cessariamente visual, musical, ou verbal, mas um

grande fã do Egon Schiele por exemplo, e agora estou

meio-termo entre elas, uma espécie de nuvem de

descobrindo melhor a obra do Oskar Kokoschka), tam-

idéias que mais tarde vai se consolidar na forma das

bém tem a ver com o que quero passar na história. O fato

obras finalizadas.

de ter sido uma forma de representação visual proibida pelos nazistas não me atrai apenas pessoalmente, mas

Além disso tudo, existe uma beleza intrínseca quan-

faz parte do conceito da história, então definitivamente é

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do se descobre que tantas coisas aparentemente

Quanto ao computador, só utilizo para finalização e

diferentes compartilham de uma mesma origem.

montagem de arquivos, letreiramento, coisas do tipo. É

Os desenhos dos animadores da Disney dos anos

como se fosse toda uma editora ou uma gráfica dos anos

1940 se parecem muito com os estudos dos ex-

1980, mas eu posso fazer tudo sozinho. Ele só interfere

pressionistas alemães dos anos 1920, a pintura de

no processo criativo porque é a principal ferramenta que

Van Gogh se parece muito com as gravuras japo-

utilizo para pesquisar. Normalmente começo por ele,

nesas do século XIX, as capas dos discos de heavy

coletando imagens de várias fontes na internet. Depois

metal por sua vez refletem os memento mori da

vou para o reino do papel, com meus lápis e tintas, e só

idade média, e assim por diante.

volto na hora de scannear. Desenhar diretamente no computador é algo que não entendo. Já fiz muito isso, mas nunca me dei bem. Falta alguma coisa. Me sinto

MT: Há alguma predileção no que se refere

tolhido, censurado, limitado. Seria como trocar uma

a formatos e materiais? (Se sim, quais? Se

churrasqueira por um forno de microondas.

não, por quê?) DW: A questão dos materiais é um pouco mais objetiva e pragmática, mas igualmente confusa.

MT: Conte sobre a dinâmica de produção dos

Cada projeto exige um material diferente. Aprendi

seus quadrinhos.

isso por instinto, mas sedimentei esse conheci-

DW: Como disse antes, cada história tem sua técnica e

mento vendo uma entrevista do mestre Alberto

seu processo. No projeto atual ainda estou experimen-

Breccia. Ele dizia que não podia escolher uma

tando qual vai ser a melhor maneira de trabalhar. Qua-

única técnica e se prender a ela, porque ao fazer

drinhos são uma coisa muito complexa, e cada pequeno

quadrinhos, cada novo projeto é uma história di-

elemento interfere em todos os outros. Por exemplo, se

ferente, e cada história pede uma técnica que se

você define o tamanho final em que o livro será impres-

adeque a ela. Também é assim no mundo do cine-

so, isso já direciona a escolha do tamanho dos originais,

ma de animação.

a quantidade de quadrinhos que cabem em cada página, quanto texto pode ser escrito em cada página, etc. A

O ideal é conhecer o máximo de técnicas possível,

complexidade da história também determina a técnica

para ter sempre um repertório rico que pode se

de desenho a ser empregada - não faria sentido por

adaptar a qualquer nova situação. Desenho, cola-

exemplo pedir ao Geoff Darrow desenhar um roteiro do

gem, pintura, técnicas digitais - vale tudo, desde

Chris Ware.

que a serviço da idéia por trás de tudo, do conceito do projeto, da história que precisa ser contada.

Como tenho um emprego complicado e dois filhos pequenos que exigem muito do meu tempo, acabo produ-

Em meu trabalho atual, como se trata de uma his-

zindo meus quadrinhos nos poucos espaços que tenho

tória de samurais e zumbis, estou procurando uti-

entre uma tarefa e outra. Muita coisa acontece dentro do

lizar materiais que dialoguem tanto com a arte

ônibus, no intervalo das aulas, durante o banho, ou na

japonesa da época dos samurais (pincéis e tintas

hora de dormir. Passo mais tempo criando os quadri-

de sumi-e) quanto com o mangá contemporâneo

nhos durante o sono do que sentado na prancheta. Atu-

(penas G e nanquim, retículas).

almente trabalho com as páginas em formato A4 porque são mais portáteis, e posso levá-las para todo lugar que eu vou. É comum me encontrar desenhando com uma www.monotipia.com


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pranchetinha no colo, no sofá da sala, na cantina da escola, no ponto do ônibus. É uma coisa bem de guerrilha mesmo, faço o que dá na hora e no lugar que dá. Se eu ficar esperando surgir a hora certa de fazer, ou o local perfeito, nunca vou conseguir fazer nada. Gosto de trabalhar sozinho porque meu processo é muito caótico e acontece vinte e quatro horas por dia. Quando a história está fluindo, só penso nisso o tempo inteiro. Esqueço de tomar banho, fico acordado a madrugada inteira pensando, depois caio da cama às oito para

clima estranho que me agradou, era ao mesmo tempo

anotar mais coisas. Passos horas enfurnado em bibliote-

realista e surreal, masculina e feminina, fria e quente.

cas, fazendo anotações, experimentando materiais. Pa-

Mexeu comigo e com os editores que a aprovaram rapida-

rece que baixou um espírito, e fico possuído até a histó-

mente.

ria ficar pronta. Corta para o início de 2012, quando estava trabalhando em algumas páginas para a revista MAD. Inspirado pelas MT: Ok, vamo falar de samurais zumbis.

olimpíadas, desenhei uma série de ilustrações mostrando

DW: Na hora em que tive a idéia, pareceu que foi por

como seria a atuação dos atletas zumbis em sua primeira

acaso, subitamente, mas aos poucos fui lembrando de

participação no evento. Entre várias piadinhas cretinas,

todos os pequenos pedacinhos de coisas que foram se

desenhei um zumbi cheio de flechas enfiadas no corpo, e

juntando ao longo do tempo até formarem a idéia com-

outro segurando uma espingarda. Falei sobre isso no

pleta. Acho que tudo começou no tsunami que provocou

Twitter, em inglês, e na hora de digitar "shotgun" o dedo

o acidente na usina nuclear de Fukushima. A reação de

escorregou e não apertou a letra t. Uma amiga apontou o

algumas pessoas me deixou enojado, e mais uma vez fui

erro e ali nasceu o nome "shogun of the dead". Foi quan-

confrontado com a aparente diferença cultural que exis-

do veio a luz da inspiração e comecei a escrever o projeto.

te entre ocidente e oriente. Mas será que ela existe mesmo? O Brasil tem a maior população japonesa fora do

Dali em diante, fiz um download de milhares de pequenos

Japão em todo o mundo: são 1.800.000 brasileiros ja-

elementos que se acumulavam no fundo da minha memó-

poneses, quase o dobro do que existe nos Estados Uni-

ria, como pequenas peças de um quebra-cabeças que es-

dos.

perava para ser montado. Me aprofundei no tema da relação cultural Brasil-Japão e descobri que alguns antropó-

Fui convidado a desenhar a capa para uma coletânea de

logos argumentam que os povos desses dois países depen-

contos e poesias que seria lançada para angariar fundos

dem de uma mesma população vinda da Polinésia. A lín-

para as vítimas do acidente. Pesquisando sobre o tema,

gua japonesa nativa é muito parecida com o tupi-guarani,

decidi desenhar uma paisagem inundada, mostrando

e o kuarup se parece assustadoramente com o sumô. Aos

apenas um portal shintoísta erguido sobre a água. Sain-

poucos fui acrescentando elementos de outras obsessões

do dele, uma misteriosa mulher flutuava sobre a água.

minhas: a segunda guerra mundial, filmes de kung fu,

Em primeiro plano, de costas, um enorme samurai com

Akira Kurosawa, Lobo Solitário, pincéis e penas, histórias

uma armadura bem detalhada. A cena ficou com um

de terror de culturas não-cristãs, e assim por diante.

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Quanto aos zumbis samurais, as lendas orientais são cheias de assombrações e necromancia. Também existem muitos tipos de personagens mortos-vivos que não são necessariamente zumbis, como as múmias, os fantasmas e os vampiros. Esse universo do limiar entre a vida e a morte é muito rico na mitologia de toda a nossa espécie. A curiosidade de saber o que acontece depois que morremos, e se existe algo lá, ou se podemos conversar com os mortos, tudo isso é fascinante para qualquer ser humano, mesmo

MT: Sobre o Shogum dos Mortos, como foi a

quando usado apenas como fantasia. No meu caso, uso

pesquisa de referências históricas, do visual e

sempre como metáforas para alguma coisa: pessoas que

da linguagem dos personagens?

parecem que estão vivas, mas estão mortas por dentro;

DW: À medida em que as idéias foram saindo da

soldados que voltam da guerra e, traumatizados, não con-

memória para as anotações, comecei a me aprofun-

seguem mais lidar com o mundo dos vivos; pessoas que

dar em pesquisas mais direcionadas.

convivem diariamente com a morte e passam a ter uma visão diferenciada sobre esse tema; pessoas que não usam

A primeira coisa a fazer era decidir: como fazer um

o cérebro adequadamente e agem sempre sob o comando

quadrinho de samurais depois de Lobo Solitário? É

de outras, obedecendo ordens sem questionar suas pró-

uma das maiores obras da história dos quadrinhos.

prias ações, etc.

Ou eu tentaria fazer igual, e ficaria no máximo parecido, uma cópia medíocre, ou então eu teria que en-

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contrar uma nova maneira de lidar com esse tema

abrir seu edital, mas ele foi atrasando, atrasando... No fi-

nessa linguagem. Fui atrás de outros quadrinhos de

nalzinho de outubro eu fui ao Fest Comix em São Paulo, e

samurai, e encontrei um pouco de tudo. O realismo

ver aquela multidão de gente curtindo quadrinhos me deu

naturalista de "Vagabond" me deixou um pouco en-

o empurrão que estava precisando. Enchi uma cesta da-

tediado. Preferi o exagero de "Blade of the Imortal",

quelas com mangás e outros quadrinhos, e levei a pilha de

que além do desenho mais solto também tinha essa

papel para estudar em casa. Foi então que eu reli um de

temática dos mortos e vivos. "Lady Snowblood" tam-

meus quadrinhos favoritos, que não lia há muitos anos: o

bém ajudou a refrescar o estilo para mim. Encontrei

arco "Chemako", do Ken Parker. Eu gosto tanto daquela

um quadrinho italiano desenhado pelo mestre Sér-

história, que lê-la reforçou minha crença nos quadrinhos.

gio Toppi, e me lembrei dos mangás brasileiros fei-

Foi ali no avião, voltando para Belo Horizonte, que decidi:

tos pelo Júlio Shimamoto e pelo Cláudio Seto.

preciso fazer esse projeto acontecer. Então no comecinho de Novembro de 2012 eu comecei a rabiscar e escrever o projeto mais a sério, ignorando a Lei de Incentivo.

Então chegou a hora de misturar outras influências. Para fazer um quadrinho de zumbis samurais realmente bom, eu não poderia fazer nem um quadrinho

Decidi fazer o financiamento por crowdfunding não ape-

de zumbi, nem um quadrinho de samurais. Precisa-

nas porque a Lei de Incentivo estava demorando, mas

ria ser uma terceira coisa. Foi então que comecei a

também porque eu precisava saber se o livro teria leitores,

puxar elementos dos quadrinhos de guerra, e de ter-

e quem seriam eles. Saber que existiriam um número X de

ror. Minha principal referência nesse campo são os

leitores esperando para ler os capítulos a cada mês me da-

quadrinhos da E.C., e alguns artistas que trabalha-

ria um senso de propósito essencial para completar a tare-

ram neles, especialmente Jack Davis e Bernie Krigs-

fa hercúlea que ainda tenho pela frente.

tein. Também gosto muito de uma revista que teve apenas 4 edições, chamada "Blazing Combat", que

Então fiz os desenhos e testes de design e materiais em

recentemente foi reunida em um livro único, lança-

Novembro e Dezembro de 2012. Mandei o projeto final

do inclusive no Brasil.

para o Catarse no finalzinho do ano, quase no reveillon. Terça-feira, dia 15 de Janeiro, quando o projeto for lança-

Por cima disso tudo, algumas influências mais pon-

do no site deles, estarei começando a desenhar a primeira

tuais, mas que foram úteis: Hugo Pratt, Mike Migno-

página do livro, e vou continuar nesse ritmo até o lança-

la, Alex Toth, Paul Grist, Bill Sienkiewicz...

mento dele, em Novembro de 2013.

MT: Quanto tempo levou dos primeiros ras-

MT: Quais são suas preocupações narrativas no

cunhos até a HQ ganhar o mundo?

que concerne ao ritmo da história?

DW: Eu comecei a rabiscar o samurai da capa do

DW: Me preocupo muito com vários pequenos elementos

livro em meados de 2011, e os zumbis da MAD foram

que podem fazer uma página funcionar ou fracassar.

no primeiro semestre de 2012. Em agosto de 2012 eu estava esperando a Lei de Incentivo à Cultura

Um deles é o conceito de spread. Eu nunca penso uma pá-

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gina isolada. Quando a pessoa abre o livro, ela vê sempre duas páginas ao mesmo tempo, uma ao lado da outra. Eu preciso considerar que o primeiro quadrinho da página da esquerda é o primeiro do spread, e ele vai ser lido até o último quadrinhos da página da direita. Também levo em consideração o ato de virar a página. Isso pode funcionar como se fosse um corte ou uma transição na linguagem cinematográfica. Dentro da página, posso ter um tempo mais lento, com pouquíssima coisa acontecendo de um quadrinho para o outro, mas quando a página é virada, isso é um trauma maior no fluxo do tempo, e deve ser levado em consideração. Outra coisa importantíssima é a composição dos quadrinhos e das páginas. Os balões de texto também precisam ser levados em consideração, a ordem de leitura deles precisa ser clara e conduzir o olhar do leitor. O que vem dentro deles também é essencial: a fonte precisa ser bem legível, ter um bom tamanho, e com boas margens em relação à linha de contorno do balão. Evito dividir palavras usando hífen, e também procuro usar letras maiúsculas e minúsculas para facilitar a leitura. Tenho usado um termo muito importante em quadrinhos que é "compressão", ou seja, a quantidade de história enfiada em cada página. O tempo nos quadrinhos é muito flexível, de um quadrinho para outro pode se passar 1 ano ou 1 segundo, só depende do autor definir isso. É preciso criar um ritmo preciso, o quadrinista tem que ser um maestro que regula o timing da história, acelerando e desacelerando, comprimindo e descomprimindo dependendo do que a história pedir.

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MT: O que você tem produzido para além dos

der os objetos um a um, olhando no olho dos leitores,

quadrinhos?

apertando a mão deles, autografando e desenhando

DW: Eu sou professor de animação na UFMG, e traba-

nos livros. O retorno é muito mais real. Além disso

lho como curador do FIQ. Fora isso, todos meus outros

existe toda uma comunidade muito unida e divertida

projetos estão suspensos por causa do Shogum dos Mor-

de leitores, quadrinistas, jornalistas, organizadores

tos. Morro de saudades das minhas bandas de rock e de

de festival - algo que nunca encontrei nos festivais de

fazer filmes, mas no momento, preciso me concentrar

animação que já freqüentei.

100% nesse projeto. É o único jeito de conseguir executálo. MT: Que quadrinhos você tem lido ultimamente? E o que além deles? MT: Por que quadrinhos?

DW: Eu procuro manter uma dieta equilibrada: 40%

DW: Eu sempre gostei muito de desenhar e de contar

quadrinhos que são diretamente ligados à pesquisa

histórias. Cinema de animação também é uma ótima

do Shogum dos Mortos, 40% quadrinhos de boa qua-

maneira de contar histórias com imagens, e com som

lidade em geral, independentemente de serem in-

também, que é algo com que gosto muito de trabalhar.

fluências para o projeto ou não, e 20% de qualquer

Mas animação custa muito caro e demora muito para

coisa que aparecer pela frente. Esses 20% eu supro

produzir. Histórias em quadrinhos são algo que eu posso

com webcomics, tirinhas, coisas do tipo. Ultimamen-

fazer sozinho, e só custa o preço de algumas folhas de

te eu não tenho lido nenhuma, a não ser o Ryotiras,

papel, lápis e canetas.

do Ricardo Tokumoto, que é minha favorita atualmente. Gosto demais do trabalho dele, e o livro ficou

Além disso, a cena de quadrinhos é muito mais emocio-

muito bom.

nante. Se você fizer um filme de animação, o máximo que você vai conseguir é projetá-lo em alguns festivais,

Olhando aqui em volta, os quadrinhos que encontro

passar na televisão, ou na internet. Por mais que milhões

espalhados pelo meu escritório nesse exato momento

de pessoas vejam seu filme, é uma coisa muito impesso-

são: Lobo Solitário (Koike, Kojima), Yamato (Leiji

al. Eu gosto de quadrinhos, gosto de ir na gráfica impri-

Matsumoto), East Coast Rising (Becky Cloonan), um

mir os livros, depois levá-los até uma grande festa, e ven-

DVD sobre o Cláudio Seto, Time² (Howard Chaykin),

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Judge Dredd, O Homem e Seus Símbolos,

Quanto a mim: vai ser um ano de dormir pouco e sonhar

(organizado pelo Jung), Crepúsculo dos Ídolos

muito. Desenhar como um louco e completar minha pri-

(Nietzsche), Um livro acadêmico sobre tudo que o

meira ""graphic novel"". Brincar mais com meus filhos.

Nietzche escreveu sobre tragédia, From Hell(Moore,

Ajudar a organizar o melhor FIQ de todos os tempos. Fa-

Campbell), Casanova (Matt Fraction, com Gabriel Bá

zer um livro que dê orgulho não somente a mim, mas a

e Fábio Moon) e Blazing Combat.

todos os leitores que estão me ajudando a construir esse projeto com seu apoio moral.

E estou acompanhando o garimpo que o Matt Fraction está fazendo no blog dele, colocando os melhores

Resumindo: só quero viver uma vida menos chata, e aju-

quadrinhos dos primeiros números de "Fantastic

dar as pessoas a fazer o mesmo!

Four" da época do Jack Kirby.

MT: Quais suas perspectivas para 2013?

Saiba mais sobre Shogum dos Mortos em

DW: Acho que o FIQ 2013 vai ser maravilhoso, e vai

http://issuu.com/shogumdosmortos

ter uma enxurrada de novos lançamentos. Muita gente reclamou que 2012 foi uma droga, mas acho que em 2013 vai ter muita coisa boa acontecendo. O lançamento da editora "Offset" nos Estados Unidos é apenas um exemplo do tipo de coisa nova que vamos aproveitar. O mercado mundial está muito interessante, tem muita coisa boa nova saindo nos EUA (especialmente pela Image e pela Fantagraphics), na Europa e no Japão. As micro-editoras estão aparecendo em todo lugar. Tem cada vez mais artistas complementando o trabalho mainstream com projetos paralelos. Enfim, muita coisa boa acontecendo!

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FefĂŞ

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Monotipia: Fale sobre sua formação, enquanto ilustradora e quadrinhista. Fefê Torquato: Eu sempre desenhei como todo mundo faz quando é criança, mas quando a maioria parou eu continuei, de uma forma despretensiosa, por divertimento. Nunca pensei em trabalhar com isso. Minha formação são cursos extracurriculares de arte que a minha escola oferecia durante o 1o.s grau e mais tarde resolvi fazer um dos cursos de Artes Plásticas da EMBAP (Escola de Música e Belas Artes do Paraná) só pensando em estudar mais sobre história da arte e continuar desenhando. Mais tarde, precisando trabalhar urgente, pensei sobre o que eu sabia fazer que pudesse render algum trabalho. Desenhar. Começou assim, meio de má vontade, não sabia nada sobre ilustração, em como ela poderia ser utilizada, e foi como se surgissem mil novas possibilidades na minha vida. Os quadrinhos vieram em seguida, não lia quadrinhos quando era criança além da Turma da Mônica, e quando voltei a desenhar senti a necessidade de usar os desenhos como uma

forma de comunicação, uma forma de dizer coisas que eu não coseguiria de outra forma. Recentemente eu ouvi que eu só escrevo sobre mim, e é verdade. Por mais fantasiosa que seja uma história minha, ela sempre será inspirada em algum fato real, que eu tenha presenciado ou vivido.

MT: Quais influências, no que se refere a movimentos e/ou artistas,você identifica no seu trabalho? Fefê: A arte moderna é o meu período preferido da arte. Eu me inspiro em vários movimentos deste período, o impressionismo, cubismo, fauvismo. Quando eu era pequena adorava Salvador Dalì, ficava delirando nas imagens das pinturas dele na hora do recreio, era como um universo paralelo, mas também dividia esse tempo com os livros de 3D então acabei superando essa fase! Depois na adolescência passei pela fase do Klimt, acho que muito ilustrador passa por essa fase, ainda gosto bastante mas não é mais minha maior re-

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ferência, hoje eu o considero meio exagerado em alguns pontos. E agora meus preferidos são Matisse e Picasso. Eu não sei qual influência deles no meu trabalho, é uma coisa tão distante, noutro nível artístico, que eu nem ouso!! Mas uma coisa que eu tento aprender com eles é a ousadia. Ter coragem de errar, de experimentar e de ousar sem temer o erro. Eu disse que eu tento, não que eu consigo! Em relação à ilustradores eu gosto muito do trabalho do Jim Flora pra Columbia Records e pra RCA. Como eu não consigo fugir do geométrico, da linha reta e do traço forte, e me inspiro muito nele. Também admiro muito o trabalho do Saul Bass, eu tenho uma queda gigantesca pela estética dos anos 50, minimalista, gráfica e com um uso genial da cor. E outro cara que eu sigo regularmente é o Liniers. O trabalho dele é uma combinação de sensibilidade e humor como eu raramente vi por aí. Eu me inspiro também na literatura, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Luis Fernando Veríssimo, pode parecer um grupo incoerente mas eles têm em comum o humor, o que eu acho imprescindível em qualquer situação.

MT: Há alguma predileção no que se refere a formatos e materiais? Fefê: A ilustração digital é o maior conforto, com o ctrl-z ali não tem coisa melhor. Mas eu estou tentando voltar aos poucos a usar técnicas mais artesanais, lápis, nanquim, aquarela, canetas, lápis de cor. Já pintei muito com guache, acrílica e tinta à óleo, e nunca fui naturalmente boa com pintura. Nunca tive a paciência necessária. Mas também antes as expectativas eram outras, era um curso de Artes Plásticas, a gente tinha que mirar longe, muito longe. Com a ilustração eu me sinto muito mais livre, e ao mesmo tempo mais próxima de fazer algo interessante. Então quero voltar a pintar. Uma coisa que também me interessa bastante é o grafite, mas ainda tive poucas oportunidades de brincar com isso, quem sabe mais pra frente. MT: Conte sobre a dinâmica de produção das suas ilustrações e HQs. Fefê:Eu não tenho um método, até onde eu reparei. Aliás eu sou muito desorganizada e desperdiço bastante tempo. Tenho muitas ideias de hqs, todas semidesenvolvidas anotadas num caderninho. Quanto melhor a ideia

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mais tempo eu me enrolo pra passá-la pro papel, como eu disse antes, as expectativas me atrasam muito. Algumas eu escrevo em forma de conto, e depois tenho um segundo trabalho para adaptá-las aos quadrinhos, o que me atrasa mais um pouco. Tenho menos imaginação no que diz respeito à ilustração, eu preciso de uma história. Eu não tenho o costume de desenhar toda hora, como eu vejo por aí com vários ilustradores, que carregam pra cima e pra baixo sketchbooks, morro de inveja, mas é como ficar jogando papo fora eu não consigo, só faço as coisas com um objetivo. E depois eu fico meio constrangida em desenhar em público... Eu tento me soltar um pouco com projetos como o Diário Ilustrado que eu tenho feito todo dia desde novembro do ano passado. Não que a minha vida seja interessante a ponto de precisar ser registrada, eu só comecei a fazer o diário pra tentar não ser tão exigente e crítica comigo mesma. Eu quero simplesmente produzir, por no papel de vez, sem cobrança. Quem sabe agora eu não finalize enfim as minhas hqs encalhadas!

MT: Quais costumam ser suas preocupações narrativas, no que concerne à construção de um ritmo visual, em suas HQs? Fefê: O meu desenho é geométrico, e um tanto duro, eu penso. Por isso a história tem que ser fluida. E uma coisa muito importante pra mim é o humor. Não a comédia, mas o humor. Esse seria o elo de comunicação entre a ilustração e o texto, bom isso seria o ideal e é o que eu quero alcançar um dia. Até agora eu só terminei uma pequena hq, "Vendavais", e fiquei muito longe desses objetivos... Quem sabe na próxima eu me aproximo. No mais são tirinhas sobre a vida. Eu sou bem menos exigente em relação a elas. Meu traço é bem cartum, e até certo ponto eu acho divertido. Como a GataGarota por exemplo, a GataGarota é a minha versão da Mulher Gato. É só brincadeira, pra rir, ou sorrir pelo menos. Então eu não me cobro tanto a perfeição e experimento mais, o que às vezes dá certo e às vezes não.

MT: O que você tem produzido para além dos quadrinhos? Fefê: Quando eu não desenho, eu desenho, e quando eu não desenho eu escrevo, e quando eu não escrevo

eu estudo música. Minha vida é praticamente feita de hobbies. Eu faço minhas tirinhas e sonho em fazer dinheiro com isso. Eu estudo música e sonho fazer uma carreira disso. Mas nesse exato momento eu só matuto por ideias de como divulgar o meu trabalho para assim conseguir mais trabalho. É um ciclo vicioso! Contanto que ele rode pra frente...

MT: Por que quadrinhos? Fefê: Eu acho que toda pessoa que escolhe alguma carreira artística está em busca de alguma forma de comunicação. Eu sei que eu estou. Acho que essa é uma forma que eu encontrei pra dizer coisas que eu não consigo expressar de outra forma. É como eu enxergo o mundo, é o meu ponto de vista. Pra mim é sempre autoral, mesmo inventado. Não sei se eu vou fazer alguma coisa relevante com isso, minha ambição nesse sentido sempre foi destinada à música, e tamanha ambição só conseguiu diminuir o prazer em fazer música. Por isso agora meu maior objetivo é muito pessoal e próximo, quero fazer o que eu gosto, da forma que eu achar melhor e se eu acertar o alvo, ótimo! Mas não vou mais me guiar por isso. MT: Que quadrinhos você tem lido ultimamente? E o que além deles? Fefê: Eu leio muita webcomic. Pra citar alguns: Ryan Andrews (www.ryan-a.com) escreve uns quadrinhos muito malucos e intrigantes. Sam Alden (gingerlandcomics.tumblr.com) também tem um traço que eu invejo. Tem um francês que é meu grande ídolo, chamado Gilles Roussel, ele assina Boulet (www.bouletcorp.com) e escreve no blog dele sobre as coisas mais comuns do cotidiano mas de uma maneira inteligente, inspiradora e super engraçada! Também tem a Kate Beaton (www.harkavagrant.com) que é genialmente engraçada. E tem um cartunista chamado Francisco Javier Olea (oleismos.blogspot.com) que tem cartuns muito bons que eu acompanho sempre. No mais os únicos livros que eu tenho lido são sobre história da música, "História da Música Ocidental" de Donald J. Grout e Claude V. Palisca, por exemplo. É a terceira vez que eu leio e sempre decubro algo novo! Eu adoro história de uma maneira geral, e acho que todo mundo que gosta mesmo de música deveria ler este livro ouvindo todas as referências, é uma experiência incrível!

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Conheça mais do Trabalho da Fefê em http://www.blogdafefe.com.br/

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Thais Gualberto

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Monotipia: Fale sobre sua formação, enquanto ilustradora e quadrinhista. Thais Gualberto: Aqui em casa sempre tive acesso aos quadrinhos dos meus irmãos e dos meus pais. Antes mesmo de começar a ler, eu folheava os gibis da Turma da Mônica, depois comecei a ler Mafalda, Maria (do Henrique Magalhães), Peanuts e o que mais encontrasse pela casa, além de Menino Maluquinho, Senninha, Barbie... Criança gosta de quadrinho, mesmo quando não entende o que se passa. Aí já na infância eu comecei a fazer quadrinhos. Criei um personagem chamado Bago (cujo traço, guardadas as devidas proporções, era uma cópia da Turma da Mônica) e uma editora chamada Coxo, onde além do Bago eu fazia também alguns livros infantis. Mas parei na infância mesmo. Só retomei esse negócio de fazer quadrinhos e editoração depois dos vinte. Eu não sou ilustradora, nunca vendi um desenho, acho que ainda preciso melhorar muito. Nunca fiz nenhum curso de desenho, mas também não pretendo. Tenho medo de ficar engessada. Lá pela adolescência, quando comecei a assistir animes e ler mangás, voltei a desenhar. Foi a época em que eu treinei mais. Até hoje tento me libertar da influência do traço do mangá, mas de vez em quando me pego fazendo uns olhos grandes e uns narizes pequenos. Aí passei quase dez anos sem desenhar, então não evoluí muito de lá pra cá... Nessa época eu fiz umas dez tirinhas com situações baseadas na minha vida, mas eu não investia em material, então a arte não ficava muito boa e eu ficava frustrada, desistia logo. Sem contar que achava muito trabalhoso desenhar, cobrir, escanear... Sou meio preguiçosa. Mas em 2009 fiz a primeira tirinha da Olga e curti muito. Os meus amigos também curtiram e quando eu me dei conta, estava gostando de fazer quadrinhos, então resolvi levar o negócio a sério. Além do mais, na sua gênese a Olga era extremamente simples, só cabelo, boca e óculos,

eu desenhava tudo com o mouse e a produção era mais simples e rápida, eu podia fazer mais de uma tirinha por dia, se quisesse. Depois que eu comecei a acrescentar mais detalhes e quando eu comprei a mesa digitalizadora comecei a fazer outras coisas além da Olga.

MT: Quais influências, no que se refere a movimentos e/ou artistas,você identifica no seu trabalho? TG: Não sei se eu utilizo deliberadamente influências de outros artistas ou movimentos no meu trabalho. Eu faço as minhas coisas dentro das minhas limitações, experimentando uma coisa aqui, outra ali. Mas eu gosto de ler os quadrinhos nacionais independentes. Gosto de ver as inovações nos traços, nas linguagens. Isso me inspira. Minhas leituras preferidas são as revistas tipo a Tarja Preta, Prego, Golden Shower, Ragu. Tudo que a gente apreende acaba servindo de referência, né? Mas sinceramente, não consigo identificar uma influência específica. Talvez depois eu me lembre de algo, mas agora não me vêm nada à cabeça. Os beats, quem sabe.

MT: Há alguma predileção no que se refere a formatos e materiais? TG: Apenas pelo físico. Não gosto de ler no computador. Mas quanto ao resto não, nenhuma.

MT: Conte sobre a dinâmica de produção das suas ilustrações e HQs. TG: Eu tenho um problema sério para criar. Eu odeio tudo que eu me esforço para criar. Sempre ando com um caderninho na bolsa para anotar as ideias que eu tenho, senão fico sem ideias para executar, porque eu não lembro de nada. Antes de fazer quadrinhos eu escrevia contos no meu blog e o processo era o mesmo. Por isso que eu nunca consegui criar nada longo. Com quadrinhos

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também não. Aí eu geralmente acabo fazendo só tirinhas ou no máximo alguma história de uma página. O pior é que eu me condicionei a condensar o meu pensamento em três quadros, então acaba se tornando uma dificuldade hercúlea fazer algo diferente. Para a Sanitário #2 eu estou preparando uma história de nove páginas, mas só porque fiz algo baseado em um conto antigo meu. Entretanto, tô fazendo só dois quadros por página, então se eu mantivesse o esquema de seis quadros por página seria uma história com apenas três páginas.

MT Quais costumam ser suas preocupações narrativas, no que concerne à construção de um ritmo visual, em suas HQs? TG: Geralmente minha preocupação é desenvolver histórias que caibam em três ou seis quadros. Essa história nova pra Sanitário eu fiz um storyboard, mas geralmente nem isso, anoto apenas os diálogos. Meu único método é pensar na melhor maneira de distribuir as informações nos quadros. É tudo meio instintivo.

MT: O que você tem produzido para além dos quadrinhos? TG: Trabalho com editoração numa fundação cultural e tentei aprovar o projeto de um curta que eu escrevi em 2009, mas já foi reprovado em dois editais. Então basicamente, nada. De vez em quando escrevo alguns poemas no meu blog, mas bem despretensiosamente, não pretendo virar poeta. Estou bem focada nos quadrinhos, dentro e fora do Coletivo WC.

MT: Por que quadrinhos? TG: Não sei. Sempre gostei de ler quadrinhos e em alguns momentos da vida fazer também. Acho que o fato de receber feedbacks positivos quando comecei a

fazer as tirinhas da Olga ajudou. De vez em quando algum conhecido chega pra mim e diz "eu adoro a Olga!" e eu adoro isso. Eu cresci em um ambiente artisticamente favorável e desde criança experimentei de tudo um pouco. Desisti do teatro, desisti da música e com os quadrinhos as coisas começaram a dar certo. Aí eu vi que gostava de fazer aquilo. Quando eu queria trabalhar com cinema era muito frustrante pra mim porque morando na Paraíba é difícil fazer cinema, aqui rola mais na guerrilha. Como eu tenho uma filha pequena, também ficava difícil sair daqui. Sem contar que o cinema é que nem um esporte de equipe, tem muita gente dependendo de você e se você fizer merda pode botar tudo a perder. E eu nunca me dei bem nos esportes de equipe, sempre pegava as bolas erradas. Com quadrinhos não, eu me sinto mais à vontade e posso fazer isso de qualquer lugar do mundo.

MT: Que quadrinhos você tem lido ultimamente? E o que além deles? TG: Acho que os últimos quadrinhos que eu li foram o RyotIRAS Omnibus (do Ricardo Tokumoto. N.E.) e o Muchacha do Laerte. Um dos maiores desafios da minha vida atualmente é arranjar tempo para tudo que eu devo e que eu quero fazer. O resultado disso é que além de histórias a desenhar tenho um monte de leituras empacadas me esperando. Ganhei de natal do meu tio os quadrinhos que eram dele e ainda não consegui parar pra ler. Tem altas preciosidades ali, inclusive o primeiro número da Circo. Ganhei também Diomedes, do Mutarelli, mas atualmente estou lendo um livro sobre Billie Holiday (sou fanática por ela) e a sua relação com a primeira canção americana sobre o racismo, Strange Fruit. O livro é lindo, sempre me impressiono com as edições da Cosac Naify. E a música é uma loucura.

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Roger Vieira

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Monotipia: Fale sobre sua formação, enquanto ilustrador e quadrinhista. Roger vieira: Minha formação acadêmica é em pedagogia, artisticamente sou autodidata, mas não por opção, aqui no Recife os cursos para os aspirantes a ilustradores e quadrinistas são escassos ou não existem; quando iniciei nos quadrinhos tinha uns 16 anos, como não haviam cursos, nem ninguém próximo a mim com mais experiência, e com boa vontade de ensinar...tive que comprar muitas revistas, livros, frequentar bibliotecas, baixar ebooks, ler entrevistas e fui aprendendo assim... sempre ouvi dos desenhistas mais experientes que a prática é o segredo para o desenvolvimento do artista, levei isso ao pé da letra, todo lugar que vou levo meu sketchbook para fazer anotações, esboçar ideias, anotar nome de autores e até aqui, acho que os resultados foram satisfatórios. rsrs

MT: Quais influências, no que se refere a movimentos e/ou artistas,você identifica no seu trabalho? RV: São várias, sempre mudam e quase todos são quadrinistas ou ilustradores. No inicio gostava muito de quadrinhos japoneses, tinha como referência máxima o katsuhiro otomo, hiroaki samura, yoshitaka amano e moebius( esse não é japonês). Depois conheci alguns artistas que desenham pro mercado americano e fiquei um bom tempo curtindo os trabalhos deles, normalmente eram caras que usavam um desenho mais limpo e se preocupavam bastante com a narrativa...Nessa época eu até fiz uns trabalhos freelancers para editoras e clientes norte americanos. Em seguida me envolvi muito com pintura manual (um desejo antigo), e acabei conhecendo alguns artistas brasileiros ótimos e que me influenciaram bastante: cárcamo, Julia bax, Davi calil, Lelis, dentre outros.

Atualmente tenho curtido bastante artistas como: laureline matiussi, Thierry Martin, Olivier deloye, aurelie neyret, Tony Sandoval, os mestres Sergio Martinez e Carlos nine. Sou fissurado em ficar na internet buscando artistas diferentes, salvando imagens e aprendendo com esses caras.

MT: Há alguma predileção no que se refere a formatos e materiais? RV: Quem me conhece, sabe que sou fã assumido dos materiais tradicionais, gosto de usar nanquim, canetas descartáveis, aquarelas, pinceis, limpa tipos, papeis com diferentes texturas, réguas, godês... adoro ir comprar os materiais , ter os desenhos originais, carregá-los nas pastas, ver os erros e as sujeiras nas folhas. Mas vale lembrar que atualmente resolvi experienciar mais o meio digital e estou curtindo bastante, faço as cores de meus quadrinhos no photoshop, faço ilustrações totalmente digitais, as vezes até faço esboços e testes de cores no photoshop, antes de pintar manualmente. A economia e rapidez são fatores positivos na arte digital.

MT: Conte sobre a dinâmica de produção das suas ilustrações e HQs. RV: Basicamente, quando as inspirações e ideias estão bem sólidas na mente, começo buscando referências,principalmente quando a ilustração ou quadrinho é ambientado em determina cultura, região, país, época.. Depois começo a rabiscar em sulfite mesmo, testando cores, ângulos, desenhando as roupas, os personagens em vários ângulos. Até que num momento sai alguma coisa que me agrada. Daí é só levar pra frente, ou seja: desenhar em tamanho original, limpar o desenho na mesa de luz, preparar as tintas e colorir.

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Com quadrinho o processo é bem parecido, com o roteiro já escrito, começo fazendo vários desenhos dos personagens, é nessa hora que defino como serão as roupas,acessórios, silhueta...depois vou rabiscando as cenas, enquadramentos e como ficará disposição dos quadros nas páginas. Após esse planejamento, desenho em A3 fino a página inteira, depois passo na mesa de luz, faço a arte final, escaneio e faço as cores no photoshop.

MT: Quais costumam ser suas preocupações narrativas, no que concerne à construção de um ritmo visual, em suas HQs? RV: Eu sempre pensei que os quadrinhos não são o melhor meio para exibição de desenhos perfeitos. Acredito que ali, naquela pequena folha em branco é o local para se contar histórias..claro que o desenho tem que ser compreensível e ter sentido. Mas jamais se pode priorizar o desenho, esquecendo que quem lê uma revista em quadrinhos, acima de tudo quer entender a história, se divertir, dar risada, se emocionar ou aprender alguma coisa. Tenho grande preocupação em passar a mensagem que inicialmente me dispus a passar, mas meu maior desejo é que o leitor olhe uma página minha e não fique nervoso ou confuso com a carga de informação ou profusão de imagens, quero que quando ele bata o olho na página, sinta-se convidado a ler todo o resto da história.

MT: Sobre "Brevestory", do que a história trata? RV: Brevestory é um projeto que faz uns quatro anos que venho planejando começar. Fiquei uns três anos me dedicando ao mercado americano e deixei meus

projetos pessoais de lado. No meio de 2011 decidi retomar meus projetos e logo me surgiu a ideia da webcomic. A intenção é trazer histórias curtas de no máximo 10 páginas e com temas variados, a primeira segue uma linha cômica. As próximas podem ser sérias, e com ambientação diferente...O legal é se experimentar mesmo. Penso que lá funciona para mim como um laboratório de ideias, quero me testar, para num futuro próximo lançar uma HQ que há muito venho idealizando. Normalmente as ideias para Brevestory surgem enquanto estou estudando, lendo ou ouvindo música, assistindo filmes... às vezes uma frase num livro, a letra/ melodia de uma música ou até mesmo situações que observo quando estou caminhando pela rua, que me remete a algum tema ou cena, vou logo esboçar e desenvolver algo.

MT: Qual será a sua periodicidade? RV: O ideal é produzir uma história por mês, mas nunca se sabe. Também tenho outros projetos e obrigações que podem adiar a publicação de alguns trabalhos.

MT: Há planos para publicá-la em meios físicos? RV: Sim, mas é algo que está um pouco distante ainda. Quem sabe quando tiver bastante história, fazer uma seleção das mais bacanas e lançar em formato de graphic novel.

MT: O que você tem produzido para além dos quadrinhos? RV: Estudando bastante pintura tradicional. Tenho praticado com acrílica, pastel óleo e principalmente a aquarela. Foi com ela que mais me identifiquei e senti

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que poderia seguir em frente. Também faço oficinas de quadrinhos e ilustrações em faculdades, dou aula de quadrinho em escolas da cidade e estou ilustrando um livro de RPG chamado: Despertos.

esperar o outro estar livre pra tocar o projeto, sozinho você pode fazer tudo e o melhor... sem gastar muito dinheiro!

MT: Por que quadrinhos? RV: Ao contrario do que algumas pessoas pensam, quando criança eu não gostava de ler quadrinhos, mas sim de desenhar, ilustrar, copiar desenhos e ver animações na TV. Quando tinha uns 16 anos um amigo me mostrou uma página que outros amigos dele tinham feito, quando vi de perto eu adorei, era a oportunidade que eu tinha de contar algumas histórias e mentiras que eu tinha na mente. O que me mais me atrai nos quadrinhos é que você não precisa de várias pessoas para fazer a história, não tem que

MT: Que quadrinhos você tem lido ultimamente? E o que além deles? RV: Ultimamente tenho lido umas adaptações de clássicos literários para o quadrinhos que a delcourt publicou, acabei de ler oliver twist; umas histórias curtas de Kafka que o Peter kuper adaptou para os quadrinhos; uns artigos do gazy andraws e uns livros do Flavio Calazans. Também tenho lido alguns textos e artigos sobre teoria das cores, pintura tradicional e digital e os meus velhos livros de história/arqueologia e filosofia.

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Pedro Cobiaco

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Monotipia: Fale sobre sua formação, enquanto ilustrador e quadrinhista. Pedro Cobiaco: Bem, eu me formei em Harvard e... Hahaha, brincadeirinha. Essa pergunta é complicada, não sei bem como responder, acho que nem me formei ainda, hahahah, é um processo eterno, nunca acaba. ( mais ou menos igual a fila dos correios ). Minha formação é bem auto-didática, mas ao mesmo tempo não é. Hahahah. É auto-didática no sentido de tentar aprender sozinho, coisa que faço sempre, estudando tudo que eu acho que valha a pena, dissecando o trabalho de todos meus artistas favoritos. Mas ao mesmo tempo não é, porque tive muita ajuda de fora até hoje, a começar por meu pai, Fábio Cobiaco, que é um grande cartunista, e passando por vários amigos com quem convivi que foram mestres pra mim, como o Grampá e o Coutinho. Incluo também meus colegas de mesma idade que eu que também fazem quadrinhos, como o Jopa e o Calvin ( meu editor parceiro e meu parceiro não-editor no coletivo de quadrinhos Trapezistas de Estrada), ou o Montanaro ( que também trabalha na Folha ). Esse aprendizado com as pessoas que estão no mesmo patamar em que estou é pra mim tão importante quanto o que tenho com os grandes mestres da área, esse negócio de se desenvolver lado a lado é crucial, é o que aconteceu em vários movimentos artístico importantes.

Minha formação em questão de influências é gigantesca ( como a de todos que trabalham com arte ), não dá pra ficar só nos quadrinhos, vai além, muito além. Literatura, cinema, música, teatro, cotidiano, é importante beber de todos os jarros, não ficar só nos quadrinhos. Ao menos eu considero importante, hahah

Adoraria ficar aqui citando nome de todos/todas que me influenciaram e ajudaram, direta ou indiretamente, em minha formação. Mas levaria décadas e ainda assim eu esqueceria uma boa leva de gente hahahha, então nem me arrisco.

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MT: Quais influências, no que se refere a movimentos e/ou artistas,você identifica no seu trabalho? PC: Hum... como eu disse, tudo que eu vejo me influência de algum modo, então inevitavelmente eu teria que listar todas minhas influências. Isso eu não consigo, mas dá pra fazer uma tentativa leve :)

Na escrita: Tolkien ( em especial O Hobbit ), Martin, John Fante ( Pergunte ao Pó é um dos meus livros favoritos ), Bukowski ( Destaque para alguns contos em especial, como Kid Foguete, 15 Centímetros ), Poe ( Adoro principalmente os poemas, meio redundante citar o Corvo, mas é o que mais gosto, e também adoro as histórias protagonizadas por Dupin, como Os Crimes da Rua Morgue ), Sir Arthur Conan Doyle ( Sherlock Holmes é talvez meu personagem favorito de toda a literatura), Machado de Assis ( tudo. Destaco As memórias Póstumas de Brás Cubas,mas todo o resto é excelente, inclusive alguns contos escritos sob pseudônimos), Moore ( Tudo. O unico cara que fez uma hq do super man ser interessante ), Gaiman ( Preciso ler mais, mas do que li, gostei de tudo ), Michael Chabon ( dele só li A Solução Final, mas bastou para eu adorar o autor ), autores mais recentes como o Daniel Galera ( Barba Ensopada de Sangue virou um dos meus livros preferidos logo após terminar a leitura ), a lista é mais que longa. Como dá pra perceber, são todos escritores completamente diferentes, mas acho que isso é bom, sei lá hahhaha.

Sou também apaixonado por folclore, em especial o japonês, também adoro o Irlandês, o Nórdico. Estudo muito livros antigos de cantigas e lendas de folclores mais antigos ainda. Tudo que eu gosto, de uma maneira ou outra, alguns mais outros menos, está impresso no meu trabalho. Não gosto de um

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gênero ou movimento específico, e sim de vários.

Entre os pintores, os que mais admiro - obviamente esquecerei vários nomes, minha memória é péssima - são também de movimentos bem variados: Frida, Klimt, Van Gogh, Schiele, até caras mais recentes como o Ashley Wood, o Gary Baseman, novamente, a lista é colossalmente longa, cito só os principais de quem me lembrei mais rápido.

Nos Quadrinhos, meu favorito é provavelmente o Mignola. O que ele faz é a essência do que eu adoro fazer, e ele faz do melhor jeito possível. Me explico: Me refiro não só ao que ele faz com a arte, essa síntese perfeita em que nada é obsoleto no traço, essa composição absurda com rios de preto guiando o olho direto pra onde ele quer que guie. Me refiro também ao que ele fez com o Hellboy, esse negócio de criar uma mitologia própria a partir de muitas outras, acrescentando um toque pessoal. Tem muito, mas muito mesmo, muito folclore no trabalho do Mignola. Irlandês, nórdico, milhares de outros. Ele mistura isso com as outras influências dele, Jack Kirby, Lovecraft, bota tudo num caldeirão e transforma em ouro. É também o que caras como Tolkien fizeram. Essa alquimia perfeita da criação do universo em que se passa a história, isso é crucial, e algo que um dia espero alcançar. Tem, é claro, os mestres absolutos como o Eisner, o Laerte, o Nine, o Moebius, o Crumb, o McCay, o Kirby, o Otomo, o Toryiama, o Mazzuchelli ( Asterios Polyp é minha graphic novel favorita ), o Colin. Adoro também o trampo de caras fodas, como o meu pai, o Grampá, o Coutinho, o Angeli, o Moon e o Bá, o Glauco, o Craig Thompson, do Sienkiewicz, do Ware, dos caras da Beleléu, da Samba, do Spielgman, do Clowes, do Burns, dos Cafaggi, do Ryot, da galera do Rasos, é muita, mas muita gente. Nem preciso falar de novo que a lista é super longa.

Enfim, esqueci gente pacas, com certeza, mas em suma é isso. Adoro ler, e estou sempre descobrindo novos artistas que acabo por admirar.

Tem também os campos da ilustração, da música, da animação, do cinema... Putz, é coisa demais. E nem para por ai, tudo MESMO influência, pessoas que habitam ao meu redor, etc. Hahahah, realmente é impossível falar tudo.

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MT: Há alguma predileção no que se refere a formatos e materiais? (Se sim, quais? Se não, por quê?) PC: Acho que não. Tem os materiais que eu mais uso, que são: Qualquer lápis que estiver à mão para fazer o... lápis ( duh ), e pincel W&N com nanquim para finalizar. Papel geralmente formato a3 específico para quadrinhos.

Mas estou sempre dando uma pirada e experimentando tudo. Aquarela, guache, acrílica, óleo, giz, tudo. Agora mesmo estou trampando em uma história curtinha que vai ter tudo quanto é coisa, de lápis de cor até acrílica, só falta botar papel higiênico na página, hahahhaha, estou experimentando ao máximo nessa.

Muitas vezes meus experimentos ficam uma legítima merda, hahahha, mas acho que só a diversão do processo faz valer. Ter tesão em fazer a parada é o crucial. Sem contar o aprendizado, e o fato de que é sempre bom tentar tudo, a gente nunca sabe o que pode agradar ou não. Algumas das melhores coisas saíram de caras que sabem essa importância da experimentação. Pega um Elektra Assassina do Sienkiewicz ( puta sobrenome maldito esse ), e vê aquilo ali. É demais! O cara usa tudo! Nanquim, acrílica, estilete, etc. Foi depois de ler essa graphic que comecei a ter vontade de pirar em tudo. Ou pega então qualquer coisa do McKean, puta que pariu, como não ficar inspirado?

Não sei quem fez uma hq pintada com tinta de parede. Porra, é isso ai, experimentar com tudo é o caminho. Se quiser desenhar uma história inteira usando uma pena de gaivota e tinta de cabelo pra finalizar, tá valendo, hahahhahah

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MT: Conte sobre a dinâmica de produção das suas ilustrações e HQs.

PC: Dinâmica de produção não é um bom termo no meu caso, acho que o mais correto seria "lerdeza de procrastinação", hahahhaha

Falando sério, eu não tenho muito ritmo, mas quando tem que sair, sai.

Isso, é claro, se encaixa só nos meus projetos pessoais. Ilustrações editoriais, as tiras pra Folha, essas coisas eu sempre forço pra sair no prazo certinho, e sempre acaba saindo.

Mas nos meus projetos, gosto de tomar meu próprio tempo, fazer do jeito que eu quero fazer, e no final sai um produto bonito, então tá ótimo.

Enquanto na ilustração editorial eu tento ser mais dinâmico e objetivo, conciliando isso com a criatividade, nas minhas hqs ou ilustrações pessoais eu já piro.

Pro Askafroa, por exemplo, passei dois meses só pesquisando mitologia e folclore, trabalhando a mutação e o encaixe disso no universo em que se passa a hq, etc.

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MT: Quais costumam ser suas preocupações narrativas, no que concerne à construção de um ritmo visual, em suas HQs? PC: Primeiro vem o básico: o leitor tem que entender o que está acontecendo. Não adianta a página ter uma construção toda louca de ver, com um puta desenho lindodetalhado, se o leitor bater o olho e não entender porra nenhuma ( a não ser que a idéia seja que ele não entenda mesmo ). Me preocupo em fazer a ação clara - repare que eu disse clara, e não mastigada -, em fazer o traço legível. Nessas horas me inspiro muito em animadores que gosto, afinal na animação essa clareza é ainda mais importante. Estudo bastante o trabalho de caras que fizeram escola no passado - e fazem até hoje - como o Milt Kahl, o Kimball, animadores franceses também, tudo é bom de estudar. Também estudo bastante os caras de agora, como por exemplo um animador que tem um blog de dicas que tem me sido super util. O animador, no caso, é o Rad Sechrist, e o blog é esse: http://radhowto.blogspot.com.br/ .

naquilo, suar sangue na página. O leitor vai perceber que você se esforçou pra fazer aquilo ali, e vai levar em conta. Você mencionou o ritmo. O ritmo também é outra coisa crucial. É importante saber como acelerar ou desacelerar o ritmo de uma hq, e isso vai de tudo, desde o número e a disposição de quadros na página até o traço mais ou menos detalhado, as linhas de movimento, tudo isso importa.

As minhas preocupações seguintes são de deixar o trabalho bonito. Também não quero que seja só legível, hahah, quero que o leitor olhe e se deleite no desenho. Trabalho bastante nas texturas, finalizo com capricho e controle, viajo nos cenários, penso bem a composição. Quer dizer, ao menos eu tento fazer tudo isso. Se esforçar é crucial. O leitor não é burro. Ele percebe quando o cara só é ruim, e quando o cara simplesmente fez tudo nas coxas. Mesmo se você não for um super desenhista ( como eu mesmo não sou ), o importante é ralar

No final, eu checo se tudo que eu queria com aquela página foi conseguido ali. Claro que é sempre preciso ter em mente as limitações do meu desenho. Se eu sinto que não foi, tento consertar na página mesmo. Se sinto que não tem jeito, eu jogo fora e começo de novo. Melhor tardar e acertar do que criar algo ruim dentro do prazo inicial. Ao menos eu funciono assim. Cada um funciona de um jeito, o importante é a página ficar boa no final.

Pra entender melhor ritmo de página eu tento estudar bastante caras como o Eisner, o Mazzucheli. Autores japoneses também são mestres nisso, caras como o Otomo tem que ter a obra bem dissecada, vale muito a pena.

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MT: Sobre Askafroa, do que a história trata? (Fale o quanto quiser sobre enredo, personagens, o tempo que vc levou pra amadurecer os elementos que compõe a HQ) PC: Hum, prefiro deixar isso sob a névoa por enquanto. Quero que as pessoas leiam a hq e descubram por elas mesmas. Preciso saber se as pessoas vão entender e gostar graças ao que elas terão em mãos ( metaforicamente, já que de inicio será digital hahaha ), ao invés de gostarem e entenderem graças a alguma explicação ou descrição prévia que dei. O que já disse, e posso dizer novamente aqui, é que será primariamente uma hq de aventura, uma hq de entretenimento, um quadrinhos de mistério e porradaria, uma história no estilo antigo de hq que se perdeu nos últimos anos, mas é claro, com outros elementos que eu quero botar na história. : )

MT: Qual será a sua periodicidade? PC: Não tenho planos em relação a isso. Queria publicar uma boa quantia de histórias por ano, mas isso vai depender de como as coisas vão ser. É preciso ter em mente que farei tudo por conta própria, e de graça. Mas acho que pelo menos uma história a cada 3 meses é uma garantia certeira. Se tudo correr como o esperado, talvez uma a cada um ou dois meses. Só o tempo dirá.

MT: Há planos para publicá-la em meios físicos? PC: Sim. Tanto em revistas que vão conter outras histórias não relacionadas a essa, quanto em uma coletânea anual só com hqs, contos, ilustrações e textos passados no universo de Askafroa. Meio que uma coletânea com as hqs já publicadas, novas hqs, e muito, mas muito conteúdo extra. Mas por enquanto, isso está no papel. Torço pra que venha a acontecer. :)

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MT: O que você tem produzido para além dos quadrinhos? PC: Bem, em breve estreio uma loja de arte com meu pai. Estamos fazendo trocentas coisas pra vender por lá, hahah, desde originais até posteres, camisetas. Também produzo muita coisa pessoal, só por diversão mesmo

Ah, e aproveitando o espaço e - desculpinha - contrariando a pergunta, agora estou trabalhando também no Gigantoche, um projeto de hq com o escritor fodón Douglas MCT, autor de Necrópolis. Vai ficar bonito!

Também tenho escrito bastante, mas como geralmente odeio meus textos, nunca publico em lugar nenhum. Ao menos, não como Pedro Cobiaco. ; )

MT: Por que quadrinhos? PC: Porque não? Hahaha É bem simples, na verdade. O que eu realmente gosto é de contar histórias. E conta-las através dos quadrinhos foi o jeito mais prazeroso que encontrei de realizar tal coisa.

Os quadrinhos são um território bem mais inexplorado que outras mídias, além de tudo. Mas acho que no final das contas, essas coisas eu conclui depois de já ter escolhido fazer hq. Escolhi isso por que senti que deveria escolher, e não me arrependi em nenhum momento até agora. Algumas coisas já estão meio que printadas na nossa alma desde o começo, não dá pra fugir, o negócio é abraçar. Eu amo fazer quadrinhos desde sempre, amo desenhar, amo escrever, não consigo ficar sem fazer as duas coisas, então que modo melhor de unir as paixões que os quadrinhos?

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MT: Que quadrinhos você tem lido ultimamente? E o que além deles? PC: Tenho lido Hellboy in Hell, nova série do Mignola que é provavelmente uma das melhores coisas já feitas em quadrinho, tenho lido vários B.P.R.D's, parei na saga desenhada pelos gêmeos ( Moon e Bá ), que ficou linda. Tenho lido muitas webcomics em minhas pesquisas para o Askafroa, além das que eu já lia antes, hahaha, como as do Petisco, as tiras do Ryot, Quadrinhos Rasos, Gnut, do Paulo Crumbim, Quadrinhos A2, que é também do crumbim, só que unindo forças com a mulher dele, a também desenhista - e também fodona - Cris Eiko, tenho lido algumas coisas antigas do Moore, como uns quadrinhos que ele escreveu de super-heróis ( Arqueiro Verde, Super Man, e mais uns outros. Uma das poucas leituras de super-heroi que gosto ), tenho tirado meu atraso de Little Nemo, e estou esperando um box de livros do Gaiman chegar pra tirar meu atraso com a obra dele também ( Dele li Violent Cases e Orquídea Negra, de quadrinhos, os dois excelentes ), tenho comprado muita coisa que saiu pela Companhia, como o genial V.I.S.H.N.U., uma graphic não só excelente pela qualidade artística, de roteiro e de concepção, como também por não ter nada semelhante no mercado, e tenho lido várias hqs mais antigas aqui do arquivo do meu pai, umas revistas Calafrio, Cripta do terror, coisas de fora como LOCAS, do Jaime Hernandez, ou Crônicas de Palomar, do Gilbert Hernadez ( as duas são obras lindas, gosto da pegada punk do LOCAS e desse lirismo pé no chão, esse realismo mágico do Palomar ), estou sempre lendo revistas CIRCO, Piratas e Chiclete que acho por aqui ( acho que já li todas umas mil vezes, pero todo bien haha ), e é isso. Leio muita coisa que pipoca na minha timeline do facebook também, tem todo um grupo de quadrinistas de internet novo surgindo no facebook, vale a pena ficar ligado em páginas como Dadaísmo em Quadrinhos e Quadrinhos Insones.

Recentemente li também Habibi, que é maravilhoso. Aquela ornamentação que o Thompson deu ao quadrinho, aquele trato cuidadosíssimo a arte, ao roteiro, tudo foda. O cara é de outro mundo.

Como eu disse, minha memória é uma merda, então tem muito mais que eu vou lembrar depois que a entrevista já estiver no ar, hahahha, mas tá valendo.

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