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UNIFAE CENTRO UNIVERSITÁRIO MESTRADO EM ORGANIZAÇÕES E DESENVOLVIMENTO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

INDÚSTRIAS QUÍMICAS E O MEIO AMBIENTE ESTUDO DAS PERCEPÇÕES DE PROFISSIONAIS QUE ATUAM EM INDÚSTRIAS QUÍMICAS INSTALADAS EM UM MUNICÍPIO PARANAENSE

ANGELO GUIMARÃES SIMÃO

CURITIBA 2008


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ANGELO GUIMARÃES SIMÃO

INDÚSTRIAS QUÍMICAS E O MEIO AMBIENTE ESTUDO DAS PERCEPÇÕES DE PROFISSIONAIS QUE ATUAM EM INDÚSTRIAS QUÍMICAS INSTALADAS EM UM MUNICÍPIO PARANAENSE

Dissertação apresentada ao Curso de Pós–Graduação Stricto Sensu em Organizações e Desenvolvimento, UNIFAE – Centro Universitário, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Organizações e Desenvolvimento.

Orientador (a): Prof. Dr. José Edmilson de Souza-Lima

Curitiba, 10 de junho de 2008.


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Este trabalho é dedicado a minha esposa Carla, pelo carinho constante e por ter compartilhado comigo todos os momentos desta caminhada de construção do nosso futuro comum baseado na educação, e que agora novamente recomeça com o início do seu programa de mestrado.

A minha mãe Alcemira, ao meu pai Altevir e a todos os meus demais familiares pelo carinho, pela compreensão e pela administração dos momentos de ausência exigidos pelo mestrado.

Também dedico este trabalho em mesmo nível de importância, a todas as pessoas que ao longo da história da humanidade tiveram a coragem de abandonar as suas causas particulares para se dedicar a causas coletivas. É graças à atitude destas pessoas que podemos manter sempre acesa a esperança de uma sociedade mais justa e consequentemente de um mundo melhor.


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AGRADECIMENTOS Primeiramente a Deus. Apesar de não buscá-lo na Igreja, tenho a convicção de que ele sempre está comigo e de que sempre está presente nos momentos em que eu mais preciso dele. Aos profissionais das indústrias químicas que aceitaram participar desta pesquisa, os quais, mesmo sem ter total consciência, deram importantes contribuições para a construção de um mundo melhor. Ao meu amigo e orientador José Edmilson, pela humildade acadêmica, pelo exemplo da seriedade do seu trabalho, pela dedicação e pela disponibilidade demonstrada ao compartilhar os seus conhecimentos com o seu grupo de orientandos que aceitou o desafio de trilhar o caminho da complexidade. A família do Prof. José Edmilson por compreender a importância do seu trabalho, o qual exigiu a disponibilidade de seu tempo nos diversos sábados em que as reuniões de orientação foram realizadas. Aos amigos de longa data, Janaína e Carlos pelo incentivo do ingresso na vida acadêmica e pelos vários momentos que nela compartilhamos. Aos colegas da turma de mestrado de 2007, em especial aos colegas Dora, Júlio, Paulo Socher e Bernadete, colegas de orientação e com quem compartilhei a bela experiência de construção coletiva de um grupo de pesquisa. Aos amigos do observatório das indústrias, que em vários momentos, mesmo sem perceber, deram muitas contribuições para a realização desta dissertação. Em especial a minha amiga Erika, pelas várias trocas de idéias sobre a elaboração de uma pesquisa qualitativa.


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“O mundo está na nossa mente, a qual está no nosso mundo”.

“Nosso cérebro-mente ‘produz’ o mundo que produziu o cérebro-mente”

“Nós produzimos a sociedade que nos produz”

Edgar Morin


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RESUMO

A revolução industrial ocorrida a partir do século XVII inaugurou uma nova fase na relação existente entre sociedade e meio ambiente. Em razão da velocidade das novas tecnologias empregadas, a sociedade passou a contar com novas formas de produção que a possibilitaram desenvolver novos padrões de consumo, fatores que associados determinaram à ampliação da exploração dos recursos naturais e a deterioração do meio ambiente. Juntas, indústria de transformação, produtora, e sociedade, consumidora, tendem a ser responsabilizadas por parte das condições favoráveis que possibilitaram o surgimento da crise ambiental discutida na contemporaneidade. Como objetivo geral, este estudo procura estabelecer um diálogo com a parte mais criticada desta relação: a indústria de transformação, em especial indústrias químicas de um município paranaense, como forma de conhecer como estas estabelecem as suas relações com o meio ambiente. Neste estudo buscam-se respostas para o seguinte questionamento: como os profissionais que atuam em indústrias químicas instaladas em um município paranaense percebem as relações de sua organização com o meio ambiente? Como objetivos específicos este estudo busca apresentar o perfil ambiental das indústrias químicas analisadas; apresentar o perfil dos profissionais entrevistados em termos de formação e experiência de atuação no ramo industrial químico, caracterizar a forma como estes profissionais percebem o meio ambiente e como percebem as relações de sua organização com o meio ambiente. Para a realização deste estudo de percepção o tipo de pesquisa escolhido foi o exploratório, de natureza qualitativa. O método de abordagem empregado foi a pesquisa de campo e o modo de coleta de dados se deu por meio da realização de entrevistas semi-estruturadas. A análise dos dados e o delineamento da pesquisa foram realizados com base no método de análise de conteúdo. Como conclusão, são apresentadas as percepções que os profissionais que atuam nas indústrias químicas têm sobre as relações de suas organizações com o meio ambiente.

Palavras-chave: Meio ambiente. Indústrias químicas. Percepção.


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ABSTRACT

The industrial revolution occurred from the seventeenth century inaugurated a new phase in the existing relationship between society and environment. Because of the speed of the new technologies employed, the society become to rely on new forms of production that provided the development of new consumption patterns; considering these factors associated, they led to the extension of the natural resources exploitation and environment deterioration. Together, processing industry (producer) and society (consumer) tend to be responsible for the favorable conditions that allowed the appearance of environmental crisis discussed at present. As a general goal, this study tries to establish a dialogue with the most criticized part of this relationship: the processing industry, particularly the chemical industries of a community from Paranรก, as a way of being aware of how they establish their relationship with the environment. In this study answers have been pursued regarding the following question: how the professionals that work at chemical industries which are located in a community from Paranรก notice the relationship of their organization with the environment? Taking into account the

specific goals, this study aims to present: the environmental profile of

chemical industries analyzed; the profile of professionals interviewed regarding education/training and experience of working in chemical industry; and, characterizing the way these professionals notice the environment and how they realize the relationship between their organization and the environment. For the realization of this perception study the type of research chosen was the exploratory, from qualitative nature. The method of approach employed was the field research and the method of collecting data was carried out through semi-structured interviews. Data analysis and survey management were conducted based on the analysis of content method. In conclusion, the perception of the professionals who work at chemical industries, about the relationship between their organizations and the environment is presented.

Keywords: Environment. Chemical industries. Perception.


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LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Foto do Planeta Terra – Missão Apollo 8 ..................................................... 68 Figura 2 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da África .................................. 77 Figura 3 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da Ásia .................................... 77 Figura 4 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da América Latina e do Caribe 78 Figura 5 – Projeção do Aumento de Temperatura na Terra .......................................... 80 Figura 6 – Temperatura, Nível do Mar e Cobertura de Neve no Hemisfério Norte........ 81 Figura 7 – Evolução do Índice Planeta Vivo .................................................................. 82 Figura 8 – Evolução do Índice Pegada Ecológica ......................................................... 83 Figura 9 – Impacto Humano nos Ambientes Marinhos.................................................. 85 Figura 10 – Luzes da Terra ........................................................................................... 86 Figura 11 – Perspectivas Humanas em Relação ao Futuro .......................................... 93 Figura 12 – Processo Básico de Obtenção de Garrafas PET a partir da Nafta........... 153 Figura 13 – Empregos na Indústria Química Européia e Norte-Americana................. 164 Figura 14 – Volume de Vendas Mundial (2006) .......................................................... 165 Figura 15 – Crescimento Internacional da Produção Química (1996 – 2006) ............. 166 Figura 16 – Taxa de Crescimento de Vendas em Países e Regiões Selecionadas.... 167 Figura 17 – Participação nas Vendas Mundiais (1996 e 2006) ................................... 168 Figura 18 – Relação das 30 (Trinta) Maiores Companhias Químicas (2006).............. 169 Gráfico 1 – Faturamento Líquido Indústria Química Brasileira por Segmentos (2006) 172 Gráfico 2 – Faturamento Líquido da Indústria Produtos Químicos Industriais (2006) . 173 Gráfico 3 – Participação da Indústria Química no PIB Total Brasileiro (2000 a 2006) 174 Gráfico 4 – Participação da Indústria Química no PIB Industrial (2005)...................... 175 Gráfico 5 – Estimativa de Faturamento Líquido da Indústria por Segmentos (2007) .. 176 Gráfico 6 – Evolução da Produção Produtos Químicos Uso Industrial (1990 a 2006) 176 Gráfico 7 – Importações/Exportações Brasileiras em US$ Bilhões (2000 a 2006)...... 178 Gráfico 8 – Total de Indústrias Químicas por Setor (2005) ......................................... 180 Gráfico 9 – Total de Empregados na Indústria Química por Setor (2005)................... 183 Figura 19 – Mapa da Presença do Programa Atuação Responsável no Mundo ......... 206 Figura 20 – Classificação dos Dados .......................................................................... 226


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LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Legenda dos Mapas de Exploração das Florestas..................................... 76 Quadro 2 – Crescimento da População Mundial (1970 a 2000).................................... 79 Quadro 3 – Projeção da População Mundial (2010 a 2050).......................................... 84 Quadro 4 – Caracterização da Primeira e da Segunda Modernidade ......................... 103 Quadro 5 – Perspectivas da Sociedade de Risco ....................................................... 107 Quadro 6 – Retrospectiva Histórica da Indústria Química Mundial ............................. 125 Quadro 7 – Retrospectiva Histórica da Indústria Química no Brasil............................ 134 Quadro 8 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1920 e 1939 ................... 136 Quadro 9 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1940 e 1945 ................... 138 Quadro 10 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1946 e 1959 ................. 139 Quadro 11 – Pólo Petroquímico de São Paulo............................................................ 142 Quadro 12 – Pólo Petroquímico do Nordeste.............................................................. 143 Quadro 13 – Pólo Petroquímico do Sul ....................................................................... 144 Quadro 14 – Indústria Químicas por Tipo de Indústria................................................ 145 Quadro 15 – Fatos Ocorridos com a Indústria Química na Década de 1990 .............. 147 Quadro 16 – Classificação das Indústrias Químicas ................................................... 152 Quadro 17 – Capacidade de Produção dos Pólos Petroquímicos Brasileiros ............. 154 Quadro 18 – Classificações Adotadas pela Indústria Química Mundial ...................... 154 Quadro 19 – Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) ................... 158 Quadro 20 – Faturamento da Indústria Química Mundial (em US$ bilhões) ............... 162 Quadro 21 – Número de Empregados na Indústria Química (2000 a 2006).................163 Quadro 22 – Classificação ABIQUIM para Análises Estatísticas ................................ 171 Quadro 23 – Faturamento Indústria Brasileira em US$ Bilhões (2000 a 2006)........... 173 Quadro 24 – Total de Indústrias Químicas – Brasil, Região Sul e Paraná (2005)....... 180 Quadro 25 – Total de Indústrias Químicas por Região (2005) .................................... 181 Quadro 26 – Participação por Estados – Região Sul .................................................. 181 Quadro 27 – Número de Indústrias Químicas por Unidade da Federação (2005) ...... 182 Quadro 28 – Total de Pessoal Ocupado – Brasil, Região Sul e Paraná (2005) .......... 183 Quadro 29 – Pesquisas sobre os Efeitos Nocivos de Produtos Químicos .................. 186


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Quadro 30 – Acidentes Ocorridos com Indústrias Químicas/Produtos Químicos........ 188 Quadro 31 – Tratados, Acordos e Convenções para a Proteção do Meio Ambiente. . 196 Quadro 32 – Pesquisas de Opinião Pública sobre a Imagem da Indústria Química: .. 200 Quadro 33 – Dados sobre o Programa Atuação Responsável.................................... 202 Quadro 34 – Linhas de Pensamento sobre Percepção – Empirista X Intelectualista.. 208 Quadro 35 – Fontes de Dados X Indústrias Químicas Instaladas no Município.......... 233 Quadro 36 – Indústrias Químicas X Fontes de Dados ................................................ 236 Quadro 37 – Justificativas para a Não Inclusão das Indústrias na Pesquisa .............. 237 Quadro 38 – Total de Contatos Realizados ................................................................ 238 Quadro 39 – Justificativas das Empresas que não Aceitaram Participar da Pesquisa 239 Quadro 40 – Etapas Propostas para a Realização da Pesquisa................................. 241 Quadro 41 – Perfil Profissional dos Entrevistados ...................................................... 243 Quadro 42 – Atividades Desenvolvidas pelas Indústrias Químicas............................. 244 Quadro 43 – Tempo de Existência da Indústria X Tempo de Atuação no Município... 245 Quadro 44 – Declaração de Missão e Valores, SGA e Certificações Ambientais ....... 246 Quadro 45 – Indústrias Químicas X Matriz Energética................................................ 247 Quadro 46 – Gastos/Investimentos Realizados na Área Ambiental (Últimos 3 Anos). 248 Quadro 47 – Motivos para Gastos/Investimentos Ambientais ..................................... 253 Quadro 48 – Dificuldades Encontradas para Gastos ou Investimentos Ambientais.... 254 Quadro 49 – Indústria Química X Descrição dos Resíduos X Destino........................ 256 Quadro 50 – Ações Previstas na Área Ambiental para o Horizonte de 2015 .............. 259 Quadro 51 – Significados dos Entrevistados para Meio Ambiente.............................. 261 Quadro 52 – Relações das Organizações com o Meio Ambiente ............................... 277 Quadro 53 – Acidentes Ambientais ............................................................................. 270


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SUMÁRIO 1.

INTRODUÇÃO ............................................................................................. 14

1.1.

CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA.............................................................. 14

1.2.

ESPECIFICAÇÃO DO PROBLEMA ............................................................ 22

1.3.

OBJETIVOS ................................................................................................. 24

1.3.1.

Objetivo Geral............................................................................................... 24

1.3.2.

Objetivos Específicos ................................................................................... 24

1.4.

JUSTIFICATIVA DO ESTUDO..................................................................... 24

2.

FUNDAMENTOS TEÓRICOS ...................................................................... 30

2.1.

FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DO ESTUDO ............................... 30

2.1.1.

Considerações Iniciais.................................................................................. 30

2.1.2.

O Sucesso da Matriz Linear e suas Limitações............................................ 32

2.1.3.

Noções de Refutabilidade e de Paradigma .................................................. 37

2.1.4.

A Escolha pela Matriz da Complexidade ...................................................... 42

2.2.

MEIO AMBIENTE......................................................................................... 51

2.2.1.

A Busca por uma Definição Multidisplinar para Natureza e Meio Ambiente. 51

2.2.2.

Reflexões sobre a Relação Ser Humano e Natureza ................................... 61

2.2.3.

O Meio Ambiente e a Sociedade Contemporânea ....................................... 70

2.2.4.

O Reconhecimento da Complexidade Ambiental ......................................... 86

2.2.5.

A Proposta e o Discurso da Sustentabilidade .............................................. 91

2.2.6.

A Iminência da Consolidação da Sociedade de Risco ............................... 102

2.2.7.

As Organizações e a Sociedade de Risco ................................................. 116

2.3.

INDÚSTRIAS QUÍMICAS........................................................................... 121

2.3.1.

As Origens da Indústria Química no Mundo ............................................... 121

2.3.2.

As Origens da Indústria Química no Brasil ................................................. 134

2.3.3.

A Forma de Organização da Indústria Química ......................................... 150

2.3.4.

A Indústria Química na Contemporaneidade.............................................. 159

2.3.5.

Indústrias Químicas, Sociedade e Meio Ambiente ..................................... 184

2.4.

PERCEPÇÃO............................................................................................. 207


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3.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS................................................... 214 3.1.

CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ......................................................... 214

3.1.1.

Tipo de Estudo....................................................................................... 215

3.1.2.

Natureza ................................................................................................ 216

3.1.3.

Método de Abordagem .......................................................................... 220

3.1.4.

Coleta dos Dados .................................................................................. 220

3.1.5.

Análise dos Dados e Delineamento da Pesquisa .................................. 222

3.1.6.

Universo e Amostra ............................................................................... 231

4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DO ESTUDO.......................................... 240 4.1.

Perfil do Profissional................................................................................... 242

4.2.

Perfil Ambiental da Indústria Química ........................................................ 244

4.3.

Profissional e Meio Ambiente ..................................................................... 260

4.4.

Indústria Química e Meio Ambiente............................................................ 268

CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................ 281 REFERÊNCIAS........................................................................................................... 290 ANEXOS ..................................................................................................................... 296


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1. INTRODUÇÃO 1.1. CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA

A natureza levou de 4,5 a 5 bilhões de anos para constituir um Planeta repleto de exuberância e de diversidade de formas de vidas. Os encontros e desencontros destes diferentes tipos de vida ao longo da história do planeta Terra resultaram na formação de uma grande rede viva na qual todos os organismos, desde os mais simples até os mais complexos, aprenderam a desenvolver suas relações de interdependência1. Do constante aprimoramento destas relações, surgiram as condições propícias para a perpetuação e sustentação da vida. Desde os tempos mais remotos, desde o surgimento do primeiro sinal de vida no planeta Terra, os primeiros organismos vivos passaram a desenvolver contínuos processos de autopoiese2 com o ambiente onde se encontravam inseridos, como forma de sustentar o milagre da recriação da vida. Por meio do estabelecimento de uma definição quanto ao seu limite físico, estes diferentes tipos de organismos passaram a se organizar como indivíduos ou sistemas fechados, estabelecendo uma complexa relação de equilíbrio entre os ambientes interno e externo, fato reconhecido posteriormente pela ciência no conceito clássico definido por Claude Bernard, denominado homeostase3. Ao estabelecer esta distinção entre ambiente interno e externo, os organismos vivos passaram a realizar freqüentes trocas com o meio onde se encontravam inseridos, como forma de sustentar a vida por meio de processos metabólicos. De acordo com Margulis citada por Capra (2005, p. 26), “o metabolismo, a química

1

Para Rodrigues (1977) a interdependência envolve comportamento recíproco e de interação individual, caracterizados por situações de cooperação e de competição.

2 Segundo Capra (2005) a dinâmica da “autopoiese”, também conhecida como “autogeração” ou “autocriação” foi identificada como uma das características fundamentais da vida pelos biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela. O conceito de “autopoiese” associa duas características que definem a vida celular: o limite físico e a rede metabólica. De acordo com o autor, a teoria da autopoiese considera que “o sistema vivo se liga estruturalmente ao seu ambiente, ou seja, liga-se ao ambiente através de interações recorrentes” (CAPRA, 2005, p. 51). 3

Para Branco (2005) é conceito segundo o qual, o meio interno, possuindo características químicas e físicas notavelmente constantes e estando em contato direto ou indireto com o meio externo, variável e inconstante, deve possuir mecanismos de regulação responsáveis por sua estabilidade.


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incessante da autoconservação, é uma característica essencial da vida [...]. Através do metabolismo perene, através de fluxos químicos e energéticos, a vida continuamente produz, repara e perpetua a si mesma”. Ao longo do estabelecimento do complexo modo de funcionamento desta grande rede viva, apenas um entre uma infinidade de seres vivos se destacou em termos de capacidades intelectuais capazes de promover profundas modificações no meio ocupado: o ser humano. Desde os tempos mais remotos e visando garantir a sua própria existência em um ambiente hostil, o ser humano sempre buscou estabelecer uma relação de domínio sobre a natureza com base em sua capacidade criativa e inovativa. Esta capacidade, que o levou a grandes feitos e descobertas, também lhe possibilitou a criação de uma ciência orientada para o estabelecimento do controle sobre as demais formas de vida, submetendo estas aos seus interesses por meio de diferentes formas de domínio. Desta forma, o ser humano gradativamente se colocou em uma condição de maior importância sobre os demais seres vivos, situação considerada por diversos pesquisadores como um dos elementos-chave responsáveis pelo surgimento do desequilíbrio no funcionamento da grande rede viva. Com as especializações e fragmentações do saber, promovidos ao longo da história da ciência, o ser humano estabeleceu um pensamento simplificador, baseado em processos de redução e de separação, responsável pelo distanciamento observado entre as ciências naturais das ciências humanas, entre objeto e observador, entre o ser humano e a natureza. Baseado neste pensamento simplificador, que limita a produção de uma ciência de característica holística, o ser humano acabou por estabelecer a principal matriz de pensamento responsável pela formação dos arquétipos mentais predominantes em sua sociedade. Neste processo de formação, no qual a ciência passou a ser gradualmente comandada pelos interesses econômicos e estatais, a maior parte da sociedade também passou a ser privada do seu direito de pensar, delegando ou submetendo o seu destino às comunidades econômicas que controlam as produções científicas voltadas para interesses de caráter exploratório. Paralelamente a este processo, boa


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parte da sociedade também passou a aceitar como verdadeiro somente aquilo que é produzido pelos poderes vigentes e pela ciência, excluindo-se do processo de participação ativa da criação do seu modo de vida. A formação fragmentada do conhecimento, proposta pela matriz de pensamento linear, limitou os indivíduos e a sociedade em relação a sua capacidade de entendimento sobre outros fatores que determinam a sua existência. As exigências estabelecidas pelas necessidades de atendimento às demandas geradas por esta matriz de pensamento exigiram dos sujeitos à especialização em áreas específicas do saber, isolando-os de outras possibilidades para o desenvolvimento dos seus conhecimentos e para uma melhor compreensão do ambiente ocupado. Neste longo processo de formação do arquétipo mental linear, que demonstrou sua capacidade de predominância diante de outras alternativas de produção do conhecimento, o ser humano teve a sua condição de indivíduo anulada, passando a negar algumas de suas vontades próprias para assumir algumas verdades que não foram desenvolvidas em seu próprio interior, e sim determinadas pelo ambiente externo no qual se encontra inserido. Nesta condição, o ser humano passou a limitar a sua capacidade de produção de um conhecimento holístico e a sua sensibilidade em relação ao meio ocupado, passando a exercer atividades que lhe são determinadas pelos padrões vigentes na sociedade. Talvez este processo “evolucionário” justifique o afastamento do ser humano em relação à natureza e o seu interesse em dominá-la. Talvez estas condições impostas pela forma de pensamento dominante que o impedem de exercer a sua completa liberdade e determinar o seu destino, também o impeçam de enxergar e avaliar as suas relações com o meio ambiente onde vive. Nos 5 milhões de anos que demarcam a sua existência no planeta Terra por meio do surgimento do seu primeiro ancestral, o ser humano já contribuiu diretamente para a extinção de um número incontável de espécies animais e vegetais, para a destruição e contaminação de inúmeros habitats4 naturais e para a poluição dos solos,

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De acordo com Branco (2005, p. 93) “hábitat corresponde a uma parte do ambiente que é normalmente ocupada por uma espécie em particular”.


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da água e do ar. De acordo com Stuart e Simmons citados por Shedrake (1993, p. 46): Na Europa e nas Américas, é possível que os seres humanos tenham sido os responsáveis pela extinção, há cerca de dez mil anos, de muitas espécies de mamíferos, tais como o tatu gigante na América do Sul, os mamutes na Europa setentrional e o hipopótamo pigmeu no Chipre, devido à sua caça excessiva ou à destruição de seu meio ambiente.

No Brasil, pouco mais de 500 anos de ocupação foram necessários para a promoção de profundas modificações no ambiente natural, a exemplo da quase extinção da floresta atlântica e do sempre presente desmatamento da floresta amazônica. No caso específico do Paraná, pouco mais de um século de franca expansão e ocupação comandados pelos interesses dominantes foi necessário para reduzir de 98,32% para 7,59% as densas florestas que cobriam a quase totalidade da área do Estado (INSTITUTO AMBIENTAL DO PARANÁ (IAP), 2007) e para extinguir as últimas culturas de povos milenares que aqui habitavam, como os Xetá, última etnia nativa do estado do Paraná a estabelecer contato com os colonizadores (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2007). E o que se deve esperar para o futuro em termos da provável ampliação da utilização dos recursos naturais para o suprimento das demandas de consumo de uma população mundial que cresce de forma exponencial5? Apesar da aventura humana no planeta Terra ter iniciado há aproximadamente 5 milhões de anos de um total de 5 bilhões de anos que a natureza levou para constituir a sua complexa rede viva integrada, foi somente no início da década de 1960 que parte da sociedade voltou a sua atenção para os impactos produzidos pela humanidade no ambiente ocupado, ao longo do desenvolvimento de suas atividades. Após sucessivas rodadas de discussões ao longo destes últimos 45 anos, mencionadas por Santos, S. E. dos (2007) em sua reflexão sobre a origem e evolução histórica dos conceitos ambientais, novamente em 2007, as evidências apontadas pela comunidade científica sobre os seus efeitos do aquecimento global no curto e médio prazo estão recebendo uma maior atenção por parte das sociedades mundiais em 5

De acordo com Meadows (1978, p. 23) “uma quantidade apresenta crescimento exponencial quando cresce numa porcentagem constante do total, em um período constante de tempo”.


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relação à necessidade de uma urgente reflexão global para a realização de mudanças do paradigma social dominante6. Os resultados dos estudos científicos produzidos e divulgados pelos cientistas que integram o Intergovernmental Panel on Climate Change (2007) confirmam que o fenômeno do incremento da temperatura global deixou de ser apenas uma suposição científica para apresentar-se como uma eminente condição de risco para a manutenção da vida no planeta Terra. Esta importante confirmação científica, que contribuiu para consolidar o fenômeno “aquecimento global” como uma séria evidência da crise sócio-econômicaambiental em curso, também se demonstrou capaz de chamar a atenção de diferentes atores sociais para o estado crítico da saúde ambiental planetária e para as possíveis conseqüências dela decorrentes nos campos social e econômico em escala global. Esta confirmação contribuiu para a ampliação da percepção da sociedade global, ainda que em escala reduzida, quanto à gravidade dos impactos ambientais gerados pelas diferentes organizações sociais ao longo de sua história, em especial após o início da revolução industrial. O reconhecimento pela comunidade científica sobre o agravamento da crise entre “meio ambiente e sociedade” sugere a humanidade a necessidade de reflexões sobre suas ações e sobre a forma como compreende e desenvolve a sua relação com o ambiente natural. Sugere ainda reflexões mais profundas, capazes de questionar as características de funcionamento de sua racionalidade predominante, a qual determina a forma de ser e agir das sociedades contemporâneas e serve de abrigo para os elementos geradores da grande maioria das crises. Com base nesta necessidade, este estudo se apresenta para a sociedade como uma proposta para a promoção de reflexões e reavaliações sobre a forma como cada indivíduo ou organização estabelece a sua relação com o ambiente natural. Diferentemente da abordagem radical presente em relevantes trabalhos acadêmicos na área ambiental, não se busca aqui determinar responsáveis por este ou aquele tipo de atividade causadora de danos ao meio ambiente. Busca-se justamente pensar a crise

6

Para Egri e Pinfield (1999), o paradigma social dominante representa a visão tradicional de mundo da sociedade industrializada contra a qual se voltam as perspectivas ambientalistas.


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ambiental em curso como resultado de um conjunto maior de ações oriundas do tipo de racionalidade hegemônica adotada por diferentes tipos de atores que determinam os comportamentos da sociedade global. A urgência do estabelecimento de uma nova reflexão coletiva nas diferentes esferas das sociedades locais para a institucionalização de uma nova racionalidade apresenta-se de forma evidente, uma vez que ações isoladas se revelam não suficientes para reverter ou pelo menos minimizar o quadro de catástrofes ambientais anunciadas. Esta urgência do estabelecimento de uma reflexão coletiva e global se dá tanto no seio das sociedades periféricas como das sociedades centrais em função do processo

de

retro-alimentação

estabelecido.

Nas

sociedades

periféricas

são

desenvolvidas as atividades de produção extensiva orientadas para o atendimento das demandas dos grandes centros urbanos. Na periferia, o ambiente natural sofre freqüentes pressões, cedendo espaço para o desenvolvimento das atividades econômicas orientadas para o atendimento das crescentes demandas de consumo oriundas das sociedades centrais. Nas sociedades centrais são desenvolvidas as principais ações de produção que contribuem para o agravamento dos efeitos do aquecimento global e para a contaminação do meio ambiente. Nas sociedades centrais encontram-se as maiores concentrações populacionais e nelas são desenvolvidos padrões de consumo inconseqüentes que contribuem significativamente para o comprometimento do futuro da vida e do meio ambiente. Presentes tanto no seio das sociedades centrais como das sociedades periféricas e voltadas para a promoção e atendimento das demandas crescentes de consumo das sociedades humanas, as organizações industriais, em especial do setor químico, deparam-se com uma crescente ampliação dos níveis de exigências em termos da sua participação no processo de manutenção do meio ambiente. Tais exigências, oriundas de legislações mais abrangentes e do aprimoramento do comportamento de uma sociedade que se faz cada vez mais crítica, determinam a estas organizações o exercício de um real papel de responsabilidade junto à sociedade. Como agentes responsáveis pelo desenvolvimento econômico e social nos


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ambientes

onde

estão

inseridas,

as

indústrias

químicas

podem

contribuir

significativamente para o desenvolvimento de práticas de produção mais limpas orientadas para um maior respeito ao meio ambiente e para a formação de uma nova consciência coletiva em termos de produção e consumo. Algumas destas práticas, que afetam positivamente a sociedade e que determinam à formação de uma nova consciência coletiva, podem ser percebidas nas organizações industriais que assumiram o discurso da importância do respeito ao meio ambiente. Por meio de suas ações, estas indústrias demonstraram que são capazes de interferir positivamente no comportamento de seus clientes, fornecedores, funcionários e também nas diferentes esferas do poder público, por meio da institucionalização de práticas que visem à promoção de um desenvolvimento local e global alinhado com propostas sustentáveis alicerçadas no respeito ao meio ambiente. Por meio de ações como o marketing ecológico, o desenvolvimento de produtos biodegradáveis ou a utilização de embalagens recicláveis, estas organizações, bem intencionadas ou não em relação aos seus verdadeiros interesses com relação às causas ambientais, podem contribuir para a construção de um novo tipo de racionalidade mais compatível com as necessidades de preservação do meio ambiente e voltada para a concretização do sonho de construção de uma sociedade fundamentada em princípios sustentáveis. O objetivo deste trabalho é identificar como os profissionais de indústrias químicas instaladas em um município paranaense percebem as relações de suas organizações com o meio ambiente. Para o atingimento do objetivo proposto foram concebidos cinco capítulos para a fundamentação teórica. No capítulo 2.1, que trata da fundamentação epistemológica do estudo, foram analisadas algumas das principais características da matriz de pensamento linear e suas influências sobre a forma de ser e agir da sociedade contemporânea. Com base nesta reflexão, buscou-se apresentar algumas das insuficiências da matriz de pensamento linear para o desenvolvimento de um estudo de percepção de característica multidisciplinar, envolvendo as variáveis meio ambiente e indústrias químicas. Além das limitações da matriz de pensamento linear, são apresentados alguns dos motivos que levaram a escolha da matriz da complexidade para o


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desenvolvimento do presente estudo. A proposta de organização deste estudo possui características peculiares que o diferem das propostas de estudos desenvolvidas à luz da matriz do pensamento linear, onde normalmente o tema meio ambiente é tratado apenas como uma variável subordinada aos interesses e ao controle das organizações. A concepção da elaboração deste estudo parte de interesses particulares do pesquisador avivados ao longo de sua participação no programa de mestrado em Organizações e Desenvolvimento e do seu reconhecimento quanto à necessidade do desenvolvimento de novos estudos que versem sobre as relações das organizações industriais e o meio ambiente e que sejam capazes de caracterizar as empresas apenas como uma parte integrante de um conjunto maior de elementos que constituem o próprio meio ambiente. Por

este

motivo,

durante

o

desenvolvimento

deste

estudo

optou-se

primeiramente por caracterizar aspectos relevantes sobre meio ambiente e sociedade para somente depois caracterizar as indústrias químicas e a relação que estas estabelecem com o meio ambiente. Desta forma, no capítulo 2.2 busca-se promover algumas reflexões sobre meio ambiente e sociedade na contemporaneidade, na busca da construção de uma compreensão multidisciplinar para natureza e meio ambiente. Neste capítulo são também apresentadas algumas considerações sobre a relação ser humano e natureza, além de aspectos relacionados ao reconhecimento da complexidade ambiental e a iminência da consolidação do conceito de sociedade de risco proposto por Beck (2006). O capítulo 2.3 é reservado para a caracterização da indústria química no mundo e no Brasil, bem como a sua forma de organização e atuação. Em razão do pesquisador não possuir vínculos profissionais com o setor químico, se fez necessário resgatar alguns fatos históricos da indústria química, os quais foram incorporados no presente estudo na forma de tabelas, as quais visam possibilitar uma rápida leitura por parte daqueles leitores que já conhecem a realidade do setor. A opção pela manutenção e apresentação dos fatos históricos que tratam sobre o surgimento e a forma de organização da indústria química, bem como de alguns números que retratam de forma quantitativa a realidade do setor químico na atualidade, se deu pelo interesse


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do pesquisador em disponibilizar algumas informações sobre as indústrias químicas para os profissionais que participaram da pesquisa, os quais receberão uma cópia do trabalho em meio digital com sinal de retribuição pela sua participação. O capítulo 2.4 apresenta alguns conceitos relacionados à percepção, os quais serviram de referência para o desenvolvimento do presente estudo. Neste capítulo também são apresentados alguns conceitos específicos sobre percepção ambiental e a sua importância para o desenvolvimento de estudos que envolvam a variável meio ambiente. Por fim, o capítulo 3 trata dos procedimentos metodológicos adotados para o desenvolvimento da pesquisa e o capítulo 4 apresenta os resultados obtidos para este estudo de percepção, que busca revelar quais são as percepções de profissionais que atuam na indústria química de um município paranaense em relação ao meio ambiente e como as organizações onde trabalham consideram a questão ambiental no desenvolvimento de suas atividades produtivas.

1.2. ESPECIFICAÇÃO DO PROBLEMA As indústrias de transformação7 desempenham um papel histórico na sociedade em termos de promoção do desenvolvimento econômico e social das regiões onde se encontram inseridas e também em relação aos impactos ambientais decorrentes de suas atividades. Por meio do desenvolvimento de suas atividades, as indústrias de transformação movimentam a economia quando adquirem matérias-primas para a fabricação de seus produtos, contratam serviços de terceiros, geram empregos e renda para as populações das comunidades do seu entorno ou quando contribuem com tributos para as três esferas do poder público. 7

De acordo com Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), versão 2.0, elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007), a indústria de transformação compreende as atividades que envolvem a transformação física, química e biológica de materiais, substâncias e componentes com a finalidade de se obterem produtos novos. Segundo o próprio instituto, a fronteira entre a indústria de transformação e outras atividades nem sempre é clara, uma vez que a regra geral determina que as unidades da indústria manufatureira estão envolvidas com a transformação de insumos e materiais em um produto novo. Como a definição do que seja um produto novo nem sempre é objetiva, este fato gera dificuldades na determinação dos limites do que é considerado uma atividade da indústria de transformação (atualmente o CNAE possui 24 divisões de atividades econômicas).


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A importância que as indústrias de transformação representam em termos de desenvolvimento econômico para as diferentes regiões onde são implantadas pode ser constatada pelas recentes concessões fiscais oferecidas pelas esferas dos poderes estaduais e municipais para a atração de novos empreendimentos industriais. No Paraná, assim como em outros estados, a corrida pelo desenvolvimento industrial desencadeada na década de 1990 e baseada na concessão de benefícios fiscais, situação retratada por Santos, S. E. dos (2007), foi diretamente responsável pela implantação de novas indústrias que hoje contribuem significativamente para a dinamização da economia do Estado. Junto com o desenvolvimento econômico, as novas indústrias, em conjunto com as indústrias que estavam anteriormente instaladas, passaram a exercer uma maior influência sobre o meio ambiente das regiões onde foram implantadas, quer seja por questões relacionadas à ampliação da utilização de recursos naturais ou por questões relacionadas à ampliação da produção de resíduos industriais. Algumas cidades, a exemplo da Região Metropolitana de Curitiba, além de plantas industriais receberam também um considerável incremento populacional, fato que resultou em sérios problemas sociais, de ocupação espacial e de pressão quanto à utilização de recursos naturais, fato último retratado por Santos, S. E. dos (2007), quando analisa os impactos ambientais causados pela implantação do setor automotivo no Paraná. Estes impactos produzidos junto ao meio ambiente se agravam quando há a ausência de medidas que visem mitigar os efeitos produzidos pelo processo de ocupação e aumento da utilização dos recursos naturais, como a otimização de processos industriais, a substituição de insumos e matérias-primas não renováveis por renováveis, tratamento e destino de resíduos, entre outros. Em especial no setor de fabricação de produtos químicos, a ausência destas medidas pode representar danos irreparáveis ao meio ambiente, além de sérios impactos de ordem social e econômica. Este estudo busca identificar como as indústrias de transformação do setor de fabricação de produtos químicos instaladas em um município paranaense estabelecem as suas relações com o meio ambiente, por meio da obtenção de respostas ao seguinte questionamento:


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Como os profissionais de indústrias químicas instaladas em um município paranaense percebem as relações de suas organizações com o meio ambiente?

1.3. OBJETIVOS

1.3.1. Objetivo Geral Identificar como os profissionais de indústrias químicas instaladas em um município paranaense percebem as relações de suas organizações com o meio ambiente. 1.3.2. Objetivos Específicos • Apresentar o perfil ambiental das indústrias químicas analisadas; • Apresentar o perfil dos profissionais entrevistados em termos de formação e experiência de atuação no ramo industrial químico; • Caracterizar como os profissionais percebem o meio ambiente; • Apresentar como os profissionais percebem as relações de sua organização com o meio ambiente.

1.4. JUSTIFICATIVA DO ESTUDO

O interesse em realizar um estudo envolvendo as variáveis “Meio Ambiente” e “Indústrias Químicas” surgiu em meio a crescentes inquietações avivadas ao longo do mestrado, acerca da real relevância da realização do projeto de dissertação original, o qual buscava revelar os impactos da utilização de tecnologias de informação por produtores rurais cooperados. Com um enfoque determinista e simplificador, a proposta inicial de pesquisa gradativamente se demonstrou insuficiente em relação às expectativas deste pesquisador em realizar uma pesquisa científica de natureza multidisciplinar alinhada com interesses mais amplos da sociedade.


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A insatisfação crescente com a proposta de pesquisa original acabou por despertar reflexões sobre a necessidade de encontrar um tema de especial relevância para o contexto da sociedade contemporânea. Neste processo de busca, um antigo interesse pela área ambiental, esquecido em meio à predominância da até então desconhecida ação racional instrumental8 e que contribuiu para a subtração de anos de reflexão deste pesquisador sobre temas complexos, foi reavivado. A decisão de mudança do tema de estudo veio pelo reconhecimento e pelo interesse deste pesquisador em desenvolver um estudo envolvendo questões sociais e ambientais, que outrora estiveram mais próximas e que gradativamente foram ignoradas. Este abandono se deu em razão da predominância de sua preocupação com a dimensão econômica, a qual acabou determinando, em parte, pela sua escolha de graduação acadêmica na área de exatas, especificamente em uma área orientada para atendimento das necessidades de mercado: a informática. As evidências do distanciamento das questões sociais e ambientais estão representadas no estilo de vida adotado por este pesquisador, o qual obedece à maioria dos padrões de estilo de vida adotados pela sociedade contemporânea. As lembranças de um padrão de vida simples caracterizado pelo convívio social e por uma melhor utilização dos recursos naturais estão registradas na memória deste pesquisador. Lembranças de infância, da época em que os recursos financeiros eram mais limitados, que os apelos para consumo eram mais moderados e que a convivência com as pessoas era mais valorizada. Lembranças das muitas pescarias realizadas na infância nos Rios Tibagi, Guaraúna e Iapó antes da acentuação dos efeitos da poluição e da degradação do meio ambiente, quando em companhia do seu pai efetuou os primeiros reconhecimentos do ambiente natural e recebeu as primeiras noções sobre a beleza e a importância da preservação da natureza. Com a realização das disciplinas do programa de mestrado multidisciplinar, estas questões sociais e ambientais, que estavam até então adormecidas, foram 8

De acordo com Serva (1996, p. 342) a ação racional instrumental corresponde a “ação baseada no cálculo, orientada para o alcance de metas técnicas ou de finalidades ligadas a interesses econômicos ou de poder social, através da maximização de recursos disponíveis”.


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novamente despertadas pelas disciplinas Desenvolvimento Sustentável, com o Prof. Dr. Christian Luiz da Silva e Meio Ambiente, com o Prof. Dr. Cleverson Vitório Andreoli. Em sua disciplina, o Prof. Dr. Christian Luiz da Silva sensibilizou os mestrandos sobre a necessidade de se pensar um novo tipo de desenvolvimento além daquele unicamente baseado na dimensão econômica, um novo tipo de desenvolvimento, que também considerasse em mesmo nível de importância as dimensões social, ambiental, política, cultural e espacial diretamente impactadas pelas preocupações unicamente centradas na dimensão econômica. Com uma abordagem fundamentada, o Prof. Dr. Cleverson Vitório Andreoli apresentou em sua disciplina evidências sobre a situação crítica do planeta Terra e sobre o futuro da humanidade, as quais, além de provocar prolongados debates, serviram para revelar a ausência de sensibilidade e um certo distanciamento por parte dos mestrandos em relação às questões ambientais, incluindo este pesquisador – fato que revela uma forte evidência sobre as insuficiências oriundas da formação educacional de caráter unidisciplinar. As contribuições destas duas disciplinas se complementaram com as discussões em torno das definições sobre as racionalidades instrumental e substantiva9 das organizações, desenvolvidas pelo Prof. Alberto Guerreiro Ramos e apresentadas com fidelidade por um dos seus discípulos, o Prof. Dr. Belmiro Valverde Jobim Castor na disciplina denominada Delimitação de Sistemas Sociais. Em sua disciplina, o Prof. Dr. Belmiro Valverde Jobim Castor forneceu aos mestrandos relevantes informações para o entendimento das influências das diferentes racionalidades no funcionamento das organizações sociais e sobre o comportamento dos indivíduos que nelas trabalham, fatos que associados contribuíram significativamente para a decisão de elaboração deste estudo envolvendo organizações e meio ambiente. Outras importantes revelações sobre o processo de formação das matrizes de produção do conhecimento foram inicialmente obtidas junto aos amigos de longa data e também pesquisadores, os Professores Janaína Maria Bueno e Carlos Roberto 9

Para Castor (2007) a razão é a força ativa do psiquismo humano que habilita o indivíduo a distinguir o bem do mal, o conhecimento genuíno do falso, e a ordenar sua vida pessoal e social de acordo com ela. Para o autor, a racionalidade pode ser definida como funcional ou instrumental quando é definida pelo cálculo de consequências, enquanto que a racionalidade substantiva se preocupa com as qualidades éticas dos fins e não leva em consideração conseqüências adversas.


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Domingues, que em muitas rodadas de conversa no Lucca Café, compartilharam gratuitamente os seus conhecimentos sobre epistemologia adquiridos ao longo de suas carreiras acadêmicas, em especial na atual experiência vivida por eles no Programa de Doutorado em Administração da Fundação Getúlio Vargas – São Paulo, do qual ambos são integrantes. Nestes encontros, as primeiras noções sobre as matrizes de produção do

conhecimento

científico

envolvendo

o

positivismo,

o

pós-positivismo,

o

construtivismo e a teoria crítica foram gradativamente reveladas. Com a disciplina Epistemologia e Pesquisa Multidisciplinar, especialmente preparada e ministrada pelo Prof. Dr. José Edmilson Souza-Lima, foi proporcionado aos mestrandos à oportunidade de conhecer as várias formas de produção do conhecimento na sociedade contemporânea. Baseado em sua formação e experiência como professor e pesquisador, o Prof. Dr. José Edmilson Souza-Lima ofereceu em sua disciplina os estímulos necessários para que os futuros mestres em Organizações e Desenvolvimento articulassem seus trabalhos de pesquisa em torno de temas sociais, econômicos, políticos e ambientais, como forma de ampliar a sua compreensão para os diversos níveis de complexidade do mundo em que estão inseridos e sobre o qual atuam. Foi por meio desta disciplina e do conhecimento demonstrado pelo Prof. Dr. José Edmilson Souza-Lima em termos de seleção dos referenciais teóricos e da condução das atividades do grupo de pesquisa formado pelos alunos Angelo Guimarães Simão, Maria Auxiliadora Villar Castanheira, Maria Bernadete Wolochen, Julio César de Oliveira Sampaio de Andrade e Paulo Roberto Socher, que o entendimento sobre o real sentido de se produzir ciência com consciência foi consolidado e estabelecido por estes alunos que aceitaram o desafio de produzir suas dissertações à luz da teoria da complexidade e alinhadas com desafios emergentes enfrentados pela sociedade contemporânea. A experiência vivenciada por este pesquisador e por seus colegas ao longo do mestrado e a sua decisão de troca do tema escolhido para o desenvolvimento de sua dissertação pode ser traduzida nas palavras de Severino (2002). Para o autor, cabe ao pós-graduando em geral desenvolver um trabalho de reflexão e pesquisa baseado em um projeto político-existencial, em consonância com o momento histórico vivido pela


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sociedade concreta. Um projeto que revele a sensibilidade do pós-graduando às condições que sua sociedade vive e às exigências de sua transformação, em vista do seu crescimento constante. O autor ainda considera que as várias formas de trabalhos científicos têm em comum a necessária procedência de um trabalho de pesquisa e de reflexão que seja pessoal, autônomo, criativo e rigoroso. Para Cintra citado por Severino (2002, p. 113), necessita ser pessoal no sentido em que “qualquer pesquisa, em qualquer nível, exige do pesquisador um envolvimento tal que seu objetivo de investigação passa a fazer parte de sua vida”. Para Severino (2002, p. 113): A temática deve ser realmente uma problemática vivenciada pelo pesquisador, ela lhe diz respeito [...] não, obviamente, num nível puramente sentimental, mas no nível da avaliação da relevância e da significação dos problemas abordados para o próprio pesquisador, em vista de sua relação com o universo que o envolve.

Desta forma, este trabalho está vinculado à linha de pesquisa "Sustentabilidade e Desenvolvimento Local", na qual se busca analisar a participação das organizações no desenvolvimento e o seu papel como agente no processo de desenvolvimento local, bem como desenvolver pesquisas que versem sobre temas relacionados com o ambiente e o desenvolvimento. A escolha do tema de estudo foi motivada pela existência de estudos ou abordagens que apontam as indústrias de transformação, em especial as indústrias químicas, como vilãs do meio ambiente, assim como outros estudos que afirmam ou apontam evidências contrárias. Cabe a presente pesquisa fazer incursões nesse campo de disputas para verificar possíveis insuficiências das abordagens anteriores e tentar ir adiante a termos explicativos das relações entre indústrias químicas e meio ambiente. Outro fator que motivou a realização deste estudo foi a constatação do distanciamento ocorrido entre a formação universitária e as reflexões sobre os problemas sócio-ambientais, situação gerada em função da superespecialização das disciplinas e do interesse de grande parte das instituições de ensino superior, em especial as instituições privadas, pela adoção de estratégias educacionais centradas unicamente no atendimento das necessidades de mercado. Esta situação pode ser


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constatada em algumas citações presentes no estudo realizado por Morales (2007, p. 151), que considera que “... o pensamento moderno está impregnado de caráter utilitarista e pragmático”. Em seu trabalho de pesquisa, a autora cita Schön, para quem a racionalidade técnica, principalmente nos cursos de graduação, contribui para a formação de profissionais que saibam solucionar problemas instrumentais, por meio da aplicação de teoria e técnicas apropriadas derivadas do conhecimento sistemático. De acordo com Gonçalves e Carvalho citados por Morales (2007, p. 151) “se fez imperativo dominar o instinto, as paixões e as intuições, o que implica não considerar o ser humano e suas interfaces nesse processo, distanciando-o”. Neste sentido Morales (2007), considera que o ensino superior dá ênfase à formação de profissionais que sejam produtivos para o mercado, fato que contribui para que o conhecimento torne-se cada vez mais disciplinar, acompanhando a lógica das novas práticas de desenvolvimento por meio da técnica e da ciência. Para a autora “... a universidade, ao criar um ensino de resultados, inviabilizou o contato com os problemas sócioambientais, distanciando-se do saber totalizado” (MORALES, 2007, p. 151). Esta constatação revela uma grave falha em termos de formação das diversas especializações profissionais para o devido tratamento das questões ambientais nas organizações contemporâneas. Talvez este fato justifique a ausência de sensibilidade demonstrada por diferentes tipos de profissionais em relação a sua preocupação com o meio ambiente e consequentemente a carência de estudos organizacionais que tratem de questões ambientais, em especial estudos sobre as organizações que atuam no Estado do Paraná. Busca-se também por meio deste estudo, gerar dados e massa crítica para o meio acadêmico para o desenvolvimento de novas pesquisas relacionadas às questões das organizações e o meio ambiente. No meio profissional poderá contribuir para a promoção de reflexões e para o desenvolvimento de ações voltadas para a preservação do meio ambiente a partir de iniciativas geradas pelos diferentes tipos de profissionais no interior das organizações.


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2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS 2.1. FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DO ESTUDO 2.1.1. Considerações Iniciais Este capítulo visa apresentar as razões e os fundamentos epistemológicos que nortearam a concepção e a realização deste estudo. Por se tratar de um tema complexo e de natureza crítica, que aborda a discussão da relação polarizada existente entre meio ambiente e organizações industriais, se fez necessário primeiramente estabelecer e compreender os fundamentos epistemológicos que influenciam os processos de formação dos arquétipos mentais que determinam o modo de ser, pensar e agir da comunidade científica e, por conseqüência, das sociedades contemporâneas. Ao longo da investigação e da elaboração da revisão bibliográfica, surgiram diversas evidências que revelaram as insuficiências da adoção da abordagem linear para o tratamento de um tema com características complexas, evidências estas que foram

identificadas

de

forma

gradual

e

devidamente

consideradas

para

o

desenvolvimento do presente estudo. Compreender melhor a essência dos fundamentos epistemológicos partindo de uma formação cultural e acadêmica influenciada pela corrente positivista representou um desafio pessoal em termos de aprimoramento das estruturas de pensamento e de percepção deste pesquisador, no sentido de torná-las mais abertas e aptas para a discussão de temas multidisciplinares10. Ao longo do processo de iniciação e aprendizado para o desenvolvimento de pesquisas científicas multidisciplinares, se fez necessário conhecer e questionar em vários momentos a natureza de seu pensamento mecanicista e determinista, no sentido de possibilitar a adoção de novas estruturas cognitivas compatíveis para a realização desta pesquisa. Aos poucos esta experiência tornou-se um sentimento maior, alinhando-se ao sentimento da “crise de meia idade” definido por Jung e citado por Vasconcelos (2002, p. 19), originando assim uma forte necessidade para o reconhecimento e aprofundamento do seu processo de 10

Vasconcelos (2002) define que as práticas multidisciplinares correspondem a gama de campos de saber que propomos simultaneamente, mas sem fazer aparecer as relações existentes entre eles.


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individuação11 em relação às questões sócio-ambientais. Como forma de reforçar esta reflexão, Sheldrake (1993, p. 168) comenta: Naturalmente, é a experiência real, e não as limitadas abstrações da ciência, que tem mais importância para a conduta de nossas vidas. E é toda a nossa experiência, incluindo nossa herança cultural, que nos liga ao mundo em que vivemos, e não apenas os aspectos artificialmente limitados da experiência correspondentes a um experimento ou a uma observação científicos. Se não nos cabe viver vidas duplas, divididas entre uma realidade mecanicista impessoal e "objetiva" e o mundo "subjetivo" da experiência pessoal, precisamos encontrar um meio de estender uma ponte entre esses dois domínios.

Conhecer um pouco mais sobre a natureza e o funcionamento das matrizes epistemológicas da linearidade e da complexidade contribuiu significativamente para a formação de um entendimento mais profundo do comportamento de risco das sociedades contemporâneas, para um maior entendimento das possíveis origens e razões da atual crise ambiental, para uma melhor compreensão da delicada relação existente entre organizações industriais e meio ambiente, e para a realização de questionamentos sobre a necessidade de uma produção científica pluralista alinhada com reais interesses da sociedade. Com base no estudo do contexto do surgimento da ciência moderna, apresentada na disciplina de Epistemologia e Pesquisa Multidisciplinar, foi possível contrapor a noção simplificadora da linearidade com a noção emergente da complexidade, compreensão esta exigida para a realização de estudos mais abrangentes. Foi possível também perceber de que forma a matriz da linearidade limita a produção de um conhecimento científico holístico, de natureza inclusiva e orientada para a promoção do diálogo entre as ciências naturais e sociais, propostas encontradas na matriz epistemológica da complexidade. Abordar o tema meio ambiente e indústrias químicas à luz da matriz da linearidade, ou seja, somente a partir das teorias das ciências naturais ou somente a partir das teorias das ciências humanas e sociais, não seria suficiente para desenvolver 11

Vasconcelos (2002, p. 18) considera “fundamental diferenciar individualização, processo histórico e cultural em desenvolvimento nas elites das sociedades ocidentais de capitalismo central, e individuação, processo de diferenciação e maturação psicológica de cada indivíduo ou pessoa”.


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um estudo mais abrangente e que possibilitasse o conhecimento das percepções de profissionais da indústria química de um município paranaense sobre a relação de suas organizações com o meio ambiente. Promover este diálogo entre diferentes atores das ciências natural e humana passou a ser considerado então um dos desafios identificados como necessário para o desenvolvimento do presente estudo. 2.1.2. O Sucesso da Matriz Linear e suas Limitações

Apesar das limitações para o desenvolvimento de um pensamento científico mais amplo, o sucesso da matriz do pensamento linear, originada ou derivada dos trabalhos de René Descartes na primeira metade do século XVII e retratada em sua obra clássica “O Discurso do Método”, fez com que ela mantivesse sua condição hegemônica por mais de três séculos. Em razão deste sucesso, passou a ser adotada como a matriz epistemológica que determina a forma de produção de conhecimentos científicos ao longo da história e na contemporaneidade, influenciando diretamente as formas de organização social de grande parte da humanidade. A considerar o período de produção de seus estudos, realizados sob as influências religiosas repressoras da inquisição, Descartes contribuiu significativamente para a inauguração de um novo campo epistemológico baseado na racionalidade e na busca de explicações lógicas para os fenômenos observados, dando origem a uma ciência de natureza antropocêntrica em substituição ao dogma teocêntrico vigente na época. Embora questionada pelos denominados “pesquisadores de fronteira”12, em razão de suas características limitantes para o desenvolvimento do conhecimento científico, como o excessivo culto à razão e à verdade manifesta ou da disjunção sujeito-objeto e o estabelecimento da relação causa-efeito, o campo epistemológico proposto por Descartes ainda é o que mantém o maior número de representantes responsáveis por desempenhar o papel de perpetuação da lógica cartesiana na produção acadêmica e científica, a qual reproduz reflexos no contexto da vida social.

12

Termo utilizado por Souza-Lima (2007) para fazer referência aos pesquisadores que estão localizados na fronteira entre um paradigma vigente e um paradigma emergente.


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Talvez alguma justificativa para a razão desta perpetuação possa ser encontrada nas palavras de Sheldrake (2001, p. 20), ao assinalar que os mecanicistas “sempre temeram, e continuam a temer, que a aceitação da realidade de algo ‘misterioso’ ou ‘místico’ na esfera da vida implique o abandono das certezas laboriosamente adquiridas pela ciência”. Para Sheldrake (2001), a teoria mecanicista da vida proposta por Descartes, segundo a qual todos os animais e plantas são, essencialmente, máquinas complexas, em princípio plenamente explicáveis nos termos da física e da química comuns, foi proposta pela primeira vez como parte da filosofia mecanicista da natureza: o cosmo era uma máquina, como tudo o que nele se continha, inclusive os corpos humanos. Segundo o campo epistemológico mecanicista, “apenas a mente consciente e racional do homem era diferente, sendo espiritual em sua essência” (SHELDRAKE, 2001, p. 19). Para Sheldrake (1993, p. 59): O universo de Descartes era um vasto sistema matemático de matéria em movimento. A matéria preenchia todo o espaço; era a matriz universal. Sob uma forma sutil, ela rodopiava em vórtices; Descartes pensava que a terra e outros planetas eram levados a girar em torno do sol devido a tal redemoinho. Tudo no mundo material funcionava de maneira inteiramente mecânica, de acordo com necessidades matemáticas. Sua ambição intelectual era ilimitada; ele aplicava em tudo essa sua nova maneira mecânica de pensar, até mesmo às plantas, aos animais e ao homem. Embora os detalhes do seu sistema fossem logo substituídos pelo universo newtoniano, onde a matéria atômica se movimentava no vazio, ele assentou os alicerces da visão de mundo mecanicista tanto na física como na biologia. Na filosofia de Descartes, as almas foram eliminadas da totalidade do mundo natural; toda a natureza era inanimada, desprovida de alma, e morta em vez de viva. A alma também foi retirada do corpo humano, que se converteu num autômato mecânico, deixando-se apenas a alma racional, a mente consciente, alojada numa pequena região do cérebro, a glândula pineal. Desde o tempo de Descartes, a região favorecida deslocara-se um par de polegadas em direção ao córtex cerebral, mas, essencialmente, a idéia permanece a mesma. A mente, de certa forma, interage com a maquinaria do cérebro, embora a maneira como as duas estão relacionadas continue sendo um mistério impenetrável.

O esteio da filosofia de Descartes pode ser resumido por sua famosa frase em latim: “Cogito, ergo sum“ ou “Penso, logo existo”; conceito que proporcionou o surgimento da doutrina do dualismo. Contrariando as idéias originalmente defendidas pelo pensamento linear, defensores da teoria da complexidade, também denominada de não-linear e que será adotada para o desenvolvimento deste estudo, criticam


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abertamente o conceito de dualismo proposto por Descartes. Para Morin (1998), esta dissociação entre sujeito (ego cogitans) e objeto (res extensa) e para Capra (2005) a divisão entre a mente, a “coisa pensante” (res cogitans), e a matéria, a “coisa extensa” (res extensa), propostas por Descartes, determinaram o surgimento de um pensamento linear fundamentado em um paradigma simplificador, com características de redução e de disjunção. Segundo Morin (1998), redução porque passou a unificar tudo aquilo que é múltiplo e de disjunção porque passou a isolar os objetos uns dos outros, do seu ambiente e do seu observador. Morin (1998) complementa a sua reflexão mencionando que o estabelecimento deste pensamento isolou diversos campos das ciências como a Física, Biologia e Antropossociologia, tornando-as ciências totalmente isoladas e distintas, impedindo o estabelecimento de comunicações entre elas. Para outros autores como Vasconcelos (2002), este racionalismo dualista cartesiano, que separa o sujeito pensante do objeto (natureza/corpo) contribuiu para uma disjunção paradigmática: o mundo dos objetos submetidos à observação, experimentação e manipulação; e o mundo dos sujeitos racionais que pensam sobre a sua existência, os saberes e o universo. Para o autor, nessa bifurcação, as características híbridas e complexas dos fenômenos foram severamente reduzidas, possibilitando que a primazia antropocêntrica e otimista da racionalidade humana sobre a natureza/corpo contribuísse, entre outras coisas, para o vertiginoso processo de destruição ambiental dos séculos XIX e XX, assunto que será foco deste estudo, bem como para uma dificuldade estrutural na abordagem dos fenômenos subjetivos, psíquicos, das emoções e da corporalidade, que foram reduzidos no dualismo cartesiano tanto na abordagem idealista da consciência, quanto na abordagem mecanicista das ciências naturais. Para autores como Daly e Cobb, Ehrenfeld e Merchant citados por Egri e Pinfield (1999) este dualismo entre mente e matéria foi fundamental para a defesa pelos filósofos do século XVII, em especial Descartes, do domínio sobre a natureza como essencial para o progresso científico e social. Para Thomaz citado por Sheldrake (1993, p. 62) “a doutrina de Descartes, segundo a qual plantas e animais não passavam de máquinas, favoreceu sua meta explícita de fazer dos homens ‘senhores e possuidores da natureza’”. Da mesma forma, contribuiu também significativamente para a inauguração de um novo período de


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certezas e para a crença na objetividade da produção científica. Sheldrake (2001, p. 133) revela a sua apreensão em relação aos reflexos do processo de uma produção científica baseada na lógica linear: [...] muitos leigos ficam perplexos ante o poder e a aparente certeza do conhecimento científico. O mesmo acontece à maioria dos estudantes de ciência. Os manuais estão cheios de fatos supostamente inquestionáveis e dados quantitativos. Tudo leva a crer que a ciência seja superiormente objetiva. Aliás, a crença na objetividade da ciência é artigo de fé para muitas pessoas no mundo moderno. Ela é imprescindível para a visão de mundo dos materialistas, racionalistas, humanistas seculares e todos que advogam o primado da ciência sobre a religião, a sabedoria tradicional e as artes.

Sheldrake (1993, p. 66) busca justificar seus argumentos mencionando que “os sucessos práticos da ciência mecanicista dão testemunho da eficiência desse método; os aspectos quantitativos do mundo podem, de fato, ser abstraídos e modelados matematicamente”, porém, segundo o autor “tais modelos deixam de lado a maior parte da nossa experiência viva; eles constituem uma via parcial de conhecimento”. Para Sheldrake (1993, p. 66): [...] o prestígio que esse método adquiriu, graças à física, estabeleceu-o como o modelo do desprendimento científico, modelo cobiçado por biólogos, sociólogos, economistas e por todos os que aspiram à objetividade científica.

Evidências como a valorização excessiva dos métodos quantitativos e a superespecialização das disciplinas, que impedem a comunicação entre saberes fragmentados e que impossibilitam a adoção de uma abordagem capaz de promover reflexões multidisciplinares envolvendo questões sócio-econômicas-ambientais no meio científico-acadêmico, apontam para as insuficiências da forma de produção científica tradicional quanto a sua capacidade de assumir de forma exclusiva o enfrentamento das situações de risco enfrentadas pela sociedade contemporânea. Para Sheldrake (1993, p. 97) estas insuficiências foram inicialmente percebidas no meio científico quando: [...] em 1927, à medida que a teoria quântica se desenvolvia, tornou-se claro que, no nível microscópico, os processos físicos eram essencialmente indeterminados, previsíveis tão-somente em termos de probabilidades. Durante várias décadas mais, presumia-se que essa aleatoriedade tinha pouca relevância para o mundo do dia-a-dia. Mas durante os últimos vinte anos, ou quase isso, tornou-se geralmente reconhecido que o indeterminismo é inerente


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em sistemas em todos os níveis de complexidade: em "processos dissipativos" afastados do equilíbrio termodinâmico, onde pequenas flutuações podem ser amplificadas para produzir grandes efeitos (como na formação de células de convecção num fluido aquecido) (Prigogine e Stengers (1984)); em processos "catastróficos", tais como o quebrar das ondas, o fluxo turbulento de líquidos e as transições de fase (como na ebulição ou no congelamento); em fenômenos meteorológicos; em organismos vivos; em cérebros; em dinâmica da população e em ecologia; e no comportamento da economia. Esses tipos de processos não podem ser efetivamente modelados em termos da física determinista ao velho estilo. Novas abordagens matemáticas são necessárias, das quais a mais importante é a "teoria do caos" (para uma boa introdução não-técnica à teoria do caos, veja Gleik (1988)). Em modelos matemáticos de processos caóticos, tornados possíveis graças aos computadores, os sistemas de modelos não se assentam num equilíbrio simples, mas se desenvolvem em padrões complexos e não repetitivos.

Apesar de suas limitações, a estrutura de pensamento linear, responsável pelo surgimento da ciência, foi também responsável pela formação do pensamento mecanicista e determinista que impera desde as sociedades medievais até as sociedades industriais contemporâneas e que influencia no comportamento das organizações sociais nelas inseridas, justificando o surgimento da maior parte das crises sociais e ambientais planetárias até então percebidas. Para Egri e Pinfield (1999), as características deste pensamento serviram de alicerces ideológicos das Revoluções Científica e Industrial das sociedades contemporâneas e para autores como Beck (2006), aparecem nos principais comportamentos sociais de risco que determinam o rito de passagem de uma “sociedade industrial” para o que o autor denomina de “sociedade de risco13”, conceito que será abordado ao longo deste estudo. Em razão da existência de fortes evidências anteriormente apresentadas que implicam nas insuficiências da matriz linear para o atendimento das necessidades de produção do conhecimento científico e consequentemente para a reprodução da vida em sociedade, esta matriz passou a ser gradativamente criticada por pesquisadores que perceberam as suas limitações e que tiveram a coragem de propor novas alternativas a esta forma hegemônica de produção do conhecimento científico. Dentre os vários pesquisadores que inauguraram novas linhas epistemológicas para propor outras formas para o desenvolvimento do conhecimento científico, encontram-se Karl 13

Beck (2006) define sociedade de risco como a sociedade que substituirá a denominada sociedade industrial. Entre as características que definem esta sociedade, está a sua incapacidade de gerenciar a relação entre utilização de novas tecnologias e manutenção dos recursos naturais.


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Popper e Thomas Kuhn, representantes da matriz linear, e Edgar Morin, um dos propositores da matriz da complexidade. 2.1.3. Noções de Refutabilidade e de Paradigma

Popper é considerado um dos fundadores da linha epistemológica do racionalismo crítico, a partir da qual passam a ser abertamente criticadas e consideradas inimigas da sociedade aberta as perspectivas fundamentadas no positivismo como o historicismo, o coletivismo, o relativismo e o positivismo ético14. Apesar de reconhecer aspectos positivos do positivismo, como o fato de ter encorajado os homens a pensarem por si próprios e de tornar possível a ciência moderna, Popper (2003) denuncia aspectos negativos ao apontar que ao mesmo tempo, o positivismo constitui a base de quase todas as espécies de fanatismo e autoritarismo; que tem uma necessidade constante não só de interpretação e afirmação como também de reinterpretação e reafirmação; e que exige uma autoridade que pronuncie e estabeleça o que deve constituir esta verdade manifesta. Em sua obra “Conjecturas e Refutações”, Popper dá uma significativa contribuição à comunidade científica e consequentemente para uma profunda reflexão quanto a real importância da elaboração deste estudo, quando materializa a idéia de hipóteses e refutações, ao questionar sobre até que ponto uma teoria deve ser classificada como científica e se existe algum critério que determine o seu caráter científico. Popper (2003) revela que as suas inquietações em relação às teorias positivistas se devem ao fato de sempre se adequarem, de serem sempre confirmadas. No seu entendimento, estas afirmações que constituem aos olhos daqueles que as admiram o seu ponto mais forte, são na realidade a sua maior fraqueza. Baseado em suas reflexões e contrariando a idéia de verdade manifesta

14

Popper (2003) estabelece as seguintes definições para as diferentes perspectivas consideradas inimigas da sociedade aberta: a) historicismo: atribuição à história um sentido pré-determinado e não passível de alterações pelos indivíduos; b) coletivismo: consiste em atribuir ao coletivo um essência independente dos indivíduos que o compõem; c) relativismo: caracteriza-se pela negação da existência de verdade objetiva e/ou pela afirmação da arbitrariedade da escolha entre duas asserções ou teorias; e, d) positivismo ético: atitude que consiste em tentar reduzir normas à fatos.


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defendida originalmente por Descartes e mantida pelos seus seguidores, Popper (2003) propõe a idéia de que seria possível aprender com os próprios erros, acreditando que a compreensão da possibilidade de falhas e erros cometidos em uma investigação proporciona a imersão em uma série de críticas e autocríticas capazes de desenvolver ainda mais o conhecimento. Para Popper (2003), a possibilidade da refutação de uma teoria constitui um passo a frente, que aproxima o pesquisador da verdade, permitindo assim que o aprendizado possa surgir a partir de erros. Segundo Vasconcelos (2002, p. 51): [...] partindo da crítica ao positivismo lógico em direção a um evolucionismo racionalista em ciência, Popper afirma que toda observação indutiva é impregnada de teoria e/ou sustentada em instrumentos construídos a partir de teorias. O conhecimento é construído a partir de hipóteses permanentemente colocadas a teste e refutação, como verdades e soluções provisórias, com diferentes graus de corroboração, e não confirmação, como no discurso verificacionista neopositivista. Daí, a importância da característica de “refutabilidade” para o progresso da ciência: as verdades provisórias devem estar abertas à refutação, à busca e acumulação de evidências empíricas através da eliminação de erros, soluções, tentativas, testes de conseqüências dedutivas, refutação de conjecturas, etc. .

Popper (2003) parece acreditar que a propensão para procurar padrões de regularidade e para impor leis à Natureza conduz ao fenômeno psicológico do pensamento dogmático ou, em termos gerais, do comportamento dogmático15. Apesar de considerar o dogmatismo até certo ponto necessário, Popper (2003) considera que este fenômeno é um indício de uma crença forte, que mantém o sujeito agarrado às suas primeiras impressões. Contrapondo-se a este fenômeno, o autor defende a necessidade e a importância da teoria crítica, que uma vez estando pronta para modificar os seus princípios, que admita a dúvida e exija ser testada, apresentando assim um sinal de uma crença mais fraca, possibilita o desenvolvimento de novos conhecimentos com base no questionamento dos conhecimentos anteriores. O autor ainda ressalta a importância da atitude crítica, a atitude da promoção da livre discussão das teorias com a finalidade de identificar os seus pontos fracos e promover o seu aperfeiçoamento.

15

Popper (2003) define o comportamento dogmático com sendo aquele onde se espera encontrar regularidades em todo o lado, inclusive onde elas não existem.


39

Ao defender a idéia de que o conhecimento científico não se assenta no método indutivo e sim que a ciência deve se basear em hipóteses e refutações, Popper contribuiu significativamente com a comunidade científica ao demonstrar que a transformação e o aprimoramento do conhecimento científico dependem da oportunidade para o estabelecimento de novas hipóteses e da possibilidade de sua refutação. Desta forma, apesar de considerar científica apenas as teorias derivadas da matriz linear, Popper contribuiu indiretamente para a proposta da construção de um ambiente científico baseado na dialógica, diferente daquele unicamente caracterizado pela imposição de idéias. Para Vasconcelos (2002, p. 51): [....] a partir da crítica às pretensões fundacionistas, que acreditavam que o conhecimento era construído ou justificado por fundamentos seguros, sólidos e inquestionáveis, sejam eles racionalistas ou empiricistas, Popper (1963/1982) propõe que o caminho seja a eliminação do erro grosseiro e das tendenciosidades do pesquisador através da “tradição crítica”, ou seja, a crítica mútua exercida pelos cientistas, pela abertura da metodologia e dos resultados à análise e questionamento pela comunidade científica. Nessa perspectiva, Popper pode ser considerado como um precursor chave do chamado movimento pós-positivista, no qual o princípio da objetividade é reapropriado de forma não fundacionista: assume-se a existência de uma realidade externa regida por leis naturais ou históricas, mas que não podem nunca ser totalmente apreendidas, dada à precariedade dos instrumentos sensoriais e cognitivos humanos. Assim, a idéia de objetividade constitui muito mais um “ideal regulatório”, na medida em que o pesquisador pode apenas se aproximar dela, como o suporte da tradição crítica (exigências de clareza no relato da investigação e consistência com a tradição na área) e a comunidade crítica (julgamento dos pares). Dessa forma, não se garante a certeza dos resultados, mas apenas que as investigações estão livres de erros grosseiros. Além disso, enfatiza-se o “multiplismo crítico”, ou seja, a aplicação de estratégias de triangulação que fazem uso de várias fontes e tipos de dados, visando corrigir e compensar mutuamente os limites de cada uma das metodologias específicas.

Outra contribuição significativa para o desenvolvimento da ciência e que também propiciou o aperfeiçoamento da estrutura cognitiva necessária para o desenvolvimento deste estudo refere-se à noção de paradigma idealizada por Thomas Kuhn em seu livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”. Em sua obra, Kuhn (2005, p. 13) define ‘paradigmas’ como “as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes da ciência”. Kuhn (2005, p. 220) informa que o termo paradigma pode ser utilizado em dois sentidos diferentes:


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[...] de um lado, indica toda a constelação de crenças, valores, técnicas, etc., partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada [...] e de outro, denota um tipo de elemento dessa constelação: as soluções concretas de quebra-cabeças que, empregadas como modelos ou exemplos, podem substituir regras explícitas como base para a solução dos restantes quebracabeças da ciência normal.

Para Kuhn (2005), quando os fatos concretos não conseguem mais se encaixar dentro de paradigmas vigentes, acontecem as anomalias que vão forçar a emergência de novos paradigmas. Em função destas características, a noção de paradigma passou a ser aceita no meio acadêmico e amplamente aplicada pela comunidade científica pelo fato de permitir aos cientistas testar as suas hipóteses em relação aos paradigmas vigentes, como forma de testar a sua validade. Somente quando o paradigma não consegue mais resolver os problemas pesquisados e provoca anomalias, surgem então crises que vão dar origem há um novo paradigma. Para Vasconcelos (2002, p. 33), Kuhn introduziu a idéia de que: [...] a ciência não avança de forma linear, evolutiva e cumulativa, mas por meio de rupturas ou paradigmas, como verdadeiros sistemas de crenças e referências quase sempre incompatíveis uns com os outros, dentro dos quais as verdades científicas teriam formas limitadas e relativas de validade. Nessa mesma conjuntura, a crítica à especialização e à tecnoburocracia induziram a aspirações por práticas inter e transdisciplinares, capazes de fazer dialogar e produzir trocas entre os diversos campos de saber.

Em sua obra, o autor preocupa-se em diferenciar o conceito de ciência normal da definição de paradigma. Ele define a ciência normal como a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas, sendo essas realizações reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica. Quanto ao paradigma, o autor o define como aquilo que é compartilhado por membros de uma comunidade. Em especial no caso das comunidades científicas, são as realizações científicas universalmente conhecidas, que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade praticante de uma ciência. Para Vasconcelos (2002), a crítica à perspectiva popperiana e pós-positivista é desenvolvida inicialmente por autores como Kuhn, que, apesar de suas posições


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diferenciadas, caminham em uma direção mais relativista, apontando para a questão de que nas refutações, o que está sendo testado é um conjunto complexo de teorias e hipóteses auxiliares. É sempre possível fazer alterações nas hipóteses e teorias particulares sem alterar a teoria mais geral. Assim, torna-se difícil afirmar quando uma teoria global deve ser considerada refutada e substituída por outra. Para Vasconcelos (2002, p. 52): [...] nos períodos de “ciência normal”, os problemas e soluções são colocados dentro de um paradigma adotado, e os resultados discrepantes não ameaçam a teoria ou paradigma pela modificação de uma hipótese anterior. Entretanto, nas revoluções e crises das teorias científicas de grande amplitude, novos fenômenos são descobertos, conhecimentos aceitos são abandonados e há mudanças radicais na prática científica, em paralelo com as transformações nas visões de mundo na sociedade como um todo.

Ao que parece, o surgimento da crise ambiental em larga escala já anunciada e os reflexos negativos percebidos pela sociedade, em especial pelas organizações industriais que já esboçam preocupações com questões sociais e ambientais, sugerem profundas reflexões quanto à necessidade da refutação de padrões tradicionais de produção do modo de vida das sociedades contemporâneas e a necessidade do estabelecimento ou adoção de um novo conceito capaz de repensar a forma de produção científica e industrial. A noção de refutabilidade apresentada por Popper e de paradigma definida por Kuhn são aplicadas no contexto deste estudo sobre meio ambiente e indústrias químicas, numa tentativa de apontar algumas insuficiências do paradigma vigente e de contribuir para a construção de uma nova forma de se produzir ciência e sociedade, baseadas em ações orientadas para a promoção do diálogo e para a inclusão do outro. Para Vasconcelos (2002), a noção de “paradigma da complexidade” proposta por Edgar Morin torna-se crucial para o campo das teorias humanas e sociais, e chave para a construção de estratégias epistemológicas adequadas para práticas interdisciplinares explicitamente críticas, pluralistas, sem o apelo a um relativismo radical. Em função de suas características peculiares, este estudo será desenvolvido à luz da teoria da complexidade proposta por Edgar Morin, também denominada como teoria não-linear por autores como Fritjof Capra.


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2.1.4. A Escolha pela Matriz da Complexidade A elaboração do projeto de estudo com característica multidisciplinar envolvendo as variáveis “meio ambiente” e “organizações”, originadas de campos científicos distintos e determinados, apontou para as insuficiências da matriz linear em relação à concepção de uma pesquisa envolvendo um estudo de percepções. Na abordagem linear, as questões relacionadas ao meio ambiente e organizações normalmente são tratadas de forma isolada, como se fossem domínios absolutamente incomunicáveis ou como se um fosse submetido ao controle do outro, no caso o meio ambiente submetido ao interesse e controle por parte das organizações. Em razão destas insuficiências e da dinâmica envolvida na delicada relação existente entre as variáveis escolhidas, houve a necessidade de alinhar os objetivos deste estudo de forma a propiciar o diálogo entre duas áreas distintas da ciência, buscando promover um estudo multidisciplinar orientado para a promoção da aproximação entre ser humano e natureza, ou seja, entre organizações e meio ambiente, respectivamente. Tratar o objeto de estudo proposto da forma tradicional, ou seja, à luz do pensamento linear, sem promover o diálogo entre os dois campos científicos distintos envolvidos ou sem considerar a relação polarizada existente entre os diferentes tipos de atores relacionados ao tema, poderia representar como resultado o desenvolvimento de um estudo parcial de característica unilateral. Ao elaborar um estudo unicamente a partir do ponto de vista das organizações, a abordagem do meio ambiente poderia ser reduzida a uma variável controlada pelos interesses das organizações. Por outro lado, ao elaborar um estudo partindo unicamente do ponto de vista de atores que defendem a preservação do meio ambiente de forma mais extremada e intocável, o resultado do estudo poderia gerar um entendimento de características reducionistas da mesma forma como o tema é muitas vezes percebido pela maior parte da sociedade, ou seja, de que as organizações industriais são as únicas responsáveis pela destruição do Planeta. Este estudo se propõe, em termos de fundamentação teórica, a ouvir e a estabelecer um diálogo entre representantes de campos científicos distintos, das ciências humanas e naturais, de forma a ampliar a discussão sobre o tema a fim de que


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possam ser encontrados os elementos necessários para o desenvolvimento da proposta do estudo de percepção. A opção pela experimentação da matriz da complexidade como alternativa epistemológica para o desenvolvimento deste estudo surgiu a partir dos primeiros contatos com as formulações de Edgar Morin, apresentadas em seu livro “Ciência com Consciência”. Em sua obra, Morin define como princípio da complexidade aquele que estabelece a comunicação entre o objeto e o ambiente, que não sacrifica o todo à parte e estabelece uma relação entre as ciências humanas e naturais; criando um mecanismo para que a ciência possa refletir sobre ela mesma, reformando o seu modo de pensar. Como forma de defender a teoria da complexidade e conseqüentemente a idéia da necessidade da promoção da transdisciplinaridade16, Morin (1998) propõe à comunidade científica uma nova forma de se fazer ciência com consciência e de produção do conhecimento científico como alternativa ao modo tradicional17 de produção científica. Para Morin (2006, p. 35), a complexidade “à primeira vista, é um fenômeno quantitativo, a extrema quantidade de interações e de interferências entre um número muito grande de unidades”. Ela está presente em qualquer “sistema auto-organizador (vivo), mesmo o mais simples”, que “combina um número muito grande de unidades da ordem de bilhões, seja de moléculas numa célula, seja de células no organismo” (MORIN, 2006, p. 35). Morin alerta, porém que a complexidade não compreende apenas quantidades de unidade e interações que desafiam as possibilidades de cálculo: compreende também incertezas, indeterminações, fenômenos aleatórios. O autor considera que a complexidade, num certo sentido, sempre tem relação com o acaso.

16

Vasconcelos (2002) define que as práticas transdisciplinares correspondem aos campos de interação de médio e longo prazo que pactuam uma coordenação de todos os campos de saberes individuais e interdisciplinares de um campo mais amplo, sobre a base de uma axiomática geral compartilhada. O autor complementa sua definição informando que há uma tendência à estabilização e criação de campo de saber com autonomia teórica e operativa própria. 17

Para Morin (1998), o modo tradicional é o modo de produção de conhecimento que há mais de três séculos não faz mais do que provar suas virtudes de verificação e de descoberta em relação a outros modos de conhecimento.


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Para Morin (2006, p. 5 e 6) algumas interpretações equivocadas quanto a sua proposta para a complexidade se devem ao entendimento estabelecido para o conceito da “palavra” complexidade: [...] a palavra complexidade não tem por trás de si uma nobre herança filosófica, científica ou epistemológica. Ela suporta, ao contrário, uma pesada carga semântica, pois que traz em seu seio confusão, incerteza, desordem. Sua primeira definição não pode fornecer nenhuma elucidação: é complexo o que não pode se resumir numa palavra-chave, o que não pode ser reduzido a uma lei nem a uma idéia simples. Em outros termos, o complexo não pode se resumir à palavra complexidade, referir-se a uma lei da complexidade, reduzirse à idéia de complexidade.

O trecho revela que, para ele, a complexidade não se limita a apresentar soluções simplistas ou simplificadoras, mas a redefinir novos problemas de pesquisa. Em seus próprios termos, “a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico” (MORIN, 2006, p. 13). Como forma de possibilitar uma melhor compreensão para a proposta da complexidade, Morin propõe o entendimento de três princípios: o dialógico, o da recursão organizacional e o hologramático. Para o autor, as suas considerações sobre ordem e desordem podem ser concebidas em termos dialógicos, segundo os quais a ordem e a desordem projetam-se como dois adversários que se enfrentam na tentativa de um suprimir o outro, mas ao mesmo tempo e em certos casos, colaborarem e produzirem organização e complexidade. Para Morin (2006, p. 74), “o princípio dialógico nos permite manter a dualidade no seio da unidade. Ele associa dois termos ao mesmo tempo complementares e antagônicos”. Em relação ao desenvolvimento deste estudo, este princípio será considerado na tentativa de aproximação das variáveis-chave “meio ambiente” e “indústrias químicas”, uma vez que as relações existentes entre estas duas variáveis

se apresentam

em

diferentes

momentos

como

complementares

e

antagônicas: complementares no sentido que os diferentes tipos de organizações dependem do meio ambiente para o desenvolvimento de suas operações e antagônicas por que muitas vezes as organizações são julgadas pelo desenvolvimento de atividades consideradas prejudiciais ao meio ambiente. Para Morin (2006, p. 87):


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Não temos de um lado o indivíduo, de outro a sociedade, de um lado a espécie, do outro os indivíduos, de um lado a empresa com seu diagrama, seu programa de produção, seus estudos de mercado, do outro seus problemas de relações humanas, de pessoal, de relações públicas. Os dois processos são inseparáveis e interdependentes.

Com relação ao princípio da recursão organizacional, Morin (2006, p. 74) considera que “um processo recursivo é um processo onde os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores do que os produz”. Para Morin (2006, p. 74) “a sociedade é produzida pelas interações entre indivíduos, mas a sociedade, uma vez produzida, retroage sobre os indivíduos e os produz”, ou seja, “os indivíduos produzem a sociedade que produz os indivíduos”. Para o autor esta idéia recursiva é uma idéia em

ruptura

com

a

idéia

linear

de

causa/efeito,

de

produto/produtor,

de

estrutura/superestrutura, uma vez que tudo o que é produzido volta-se sobre o que o produz num ciclo autoconstrutivo, auto-organizador e autoprodutor. Este princípio será explicitado ao longo do desenvolvimento deste estudo, no sentido de compreender e caracterizar as relações recursivas existentes entre “meio ambiente” e “indústrias químicas”. Para Morin (2006), a complexidade envolve ainda o princípio hologramático, no qual a menor parte contém a quase totalidade da informação do objeto representado. Seguindo a idéia original de Pascal, que considerava não ser possível conceber o todo sem as partes e da mesma forma as partes sem o todo, Morin (2006, p. 74 e 75) ao desenvolver o princípio hologramático para a complexidade considera que “não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte”. Para Morin (2006, p. 74 e 75), “o princípio hologramático está presente no mundo biológico e no mundo sociológico”. Seguindo esta lógica, pode-se considerar que as diferentes atividades desenvolvidas pelas organizações no Planeta Terra geram em maior ou menor grau de intensidade influências sobre o ambiente global e este, quando em desequilíbrio, gera influências negativas sobre as diferentes partes que constituem o ambiente global, quer sejam elas elementos do mundo sociológico ou biológico. Morin (2006, p. 74 e 75) considera que a “própria idéia hologramática está ligada a idéia recursiva, que está ligada, em parte, à idéia dialógica”. Para o autor a idéia paradoxal contida no princípio hologramático imobiliza o espírito linear da mesma forma


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que na lógica recursiva, sabe-se muito bem que o adquirido no conhecimento das partes volta-se sobre o todo. Para Morin (2006, p. 74 e 75) “pode-se enriquecer o conhecimento das partes pelo todo e o do todo pelas partes, num mesmo movimento produtor de conhecimentos”. Como divulgador das formulações de Morin, Vasconcelos (2002) reforça algumas características dos fenômenos complexos: os fenômenos complexos são passíveis de desordem (caos, acaso, aleatoriedade, indeterminismo) e ordem (auto-organização, determinismo), em processo de interação contínua, mas que mantém os dois termos como antagônicos e complementares ao mesmo tempo; os fenômenos complexos são marcados pelos processos de emergência, pelos quais propriedades novas/diferentes surgem a partir da interação das partes ou dos diferentes níveis de realidade e organização, marcando a necessidade de diferentes epistemologias e paradigmas para a abordagem destas descontinuidades, às vezes dentro de um mesmo campo disciplinar; os fenômenos complexos são marcados pela retroação ou recursão organizacional, que diz respeito à recorrência de um efeito sobre as condições geradoras, exigindo a passagem de níveis epistemológicos diferentes; os fenômenos complexos são marcados pelos princípios da interação com o observador ou da implicação, pelo qual a análise ou intervenção em um fenômeno depende sempre da perspectiva do observador; o conhecimento acerca dos fenômenos complexos implica incertezas, descontinuidades e desconhecimento parcial, principalmente acerca dos níveis diferenciados de sua organização ou do sistema de interação entre eles ou entre níveis epistemológicos diversos. Refletindo sobre os modos de produção científica, Vasconcelos (2002, p. 62) considera que Morin contrapõe o “paradigma da simplicidade” com o que denominou de "paradigma da complexidade". A complexidade segundo Morin citado por Vasconcelos (2002, p.62) compreende: [...] o que foi tecido junto: de fato, há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico), e há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto do conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, as partes entre si. Por isso, a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade.


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As grandes crises sócio-econômicas-ambientais podem em parte ser explicadas pela ausência do entendimento das relações ocultas existentes entre os elementos que constituem as partes e o todo e em razão do distanciamento ocorrido entre o ser humano e o ambiente natural. Ao reforçar a sua crença na dominação e controle da natureza, o ser humano desenvolveu uma ciência que originou as condições necessárias para o estabelecimento de uma sociedade dominante alicerçada em uma racionalidade

instrumental,

prejudicando

ou

minimizando

desta

forma

o

desenvolvimento de uma sociedade orientada para a ação racional substantiva18. Para Morin (1998), desde que a ciência assumiu uma posição central e hegemônica, estabeleceu um pensamento simplificador demarcado pela separação do ambiente e seu observador e pela redução ou unificação daquilo que é diverso ou múltiplo. Morin (1998) acredita que este mesmo pensamento que gerou o distanciamento das ciências da natureza das ciências do homem; fez com que conceitos de indivíduo, homem e sociedade se perdessem em processos interdisciplinares19 ampliando os riscos dos saberes científicos serem acumulados apenas em banco de dados e de estarem sujeitos ao controle exercido pelos poderes econômicos e políticos. Como forma de contrapor as vantagens e desvantagens do desenvolvimento científico na atualidade, Morin (1998) menciona que o desenvolvimento científico disciplinar das ciências não traz unicamente as vantagens da divisão do trabalho, mas traz também os inconvenientes da superespecialização envolvendo o enclausuramento ou fragmentação do saber. O autor considera que este mesmo desenvolvimento científico promoveu um desligamento entre a ciência da natureza, responsável pela exclusão do espírito e da cultura responsáveis pela sua produção, daquilo que ele chama de ciências do homem, a qual adotou a noção de que somos incapazes de pensar apesar de sermos seres humanos dotados de espírito e consciência enquanto

18

Para Serva (1996, p. 340), a ação racional substantiva é a “ação orientada para duas dimensões: na dimensão individual, que se refere à auto-realização, compreendida como concretização de potencialidades e satisfação; na dimensão grupal, que se refere ao entendimento, na direção da responsabilidade e satisfação sociais”. 19

Vasconcelos (2002) define que as práticas interdisciplinares correspondem às práticas de interação participativa que inclui a construção e pactuação de uma axiomática comum a um grupo de campos de saber conexos, definida no nível hierarquicamente superior, introduzindo a noção de finalidade maior que redefine os elementos internos dos campos originais.


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seres vivos biologicamente constituídos. Para Morin (1998), o fenômeno da especialização das ciências antropossociais que envolvem os conceitos molares de homem, de indivíduo e de sociedade que perpassam várias disciplinas, são de fato triturados ou dilacerados entre elas, sem poder ser reconstituídos pelas tentativas interdisciplinares. Morin (1998) complementa sua reflexão em torno dos efeitos nocivos da fragmentação considerando que o seu resultado leva ao anonimato, ou seja, o saber deixa de ser pensado, meditado, refletido e discutido por seres humanos, integrado na investigação individual de conhecimento e sabedoria, se destinando cada vez mais a apenas ser acumulado em banco de dados para depois ser manipulado. Uma das citações do livro que teve um especial significado para a tomada de decisão quanto à escolha da teoria da complexidade para o desenvolvimento deste estudo é quando Morin (1998) alerta para a necessidade da não eliminação da hipótese de um neo-obscurantismo generalizado, produzido pelo mesmo movimento das especializações, no qual o próprio especialista torna-se ignorante de tudo aquilo que não concerne a sua disciplina e o não-especializado renuncia prematuramente a toda a possibilidade de refletir sobre o mundo, a vida e a sociedade, deixando esse cuidado aos cientistas, que não têm tempo nem meios conceituais para tanto. Como relatado anteriormente, durante a sua participação no programa de mestrado e em meio ao desenvolvimento desta investigação epistemológica, este pesquisador descobriu o quanto estava distante, em termos de reflexão, de outras áreas do saber além daquelas que correspondem à sua área original de formação. Tal situação é explicada por Morin (1998, p. 17) quando menciona que se trata de uma “situação paradoxal, em que o desenvolvimento do conhecimento instaura a resignação à ignorância e o da ciência significa o crescimento da inconsciência”. Como forma de reforçar esta situação paradoxal, Morin (1998) apresenta a sua concepção de uma ciência que necessita ser realizada com consciência mencionando que o progresso inédito dos conhecimentos científicos convive com o progresso múltiplo da ignorância; que o progresso dos aspectos benéficos da ciência convive com os aspectos nocivos e mortíferos; e que o progresso ampliado dos poderes da ciência convivem com a


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impotência ampliada dos cientistas a respeito desses mesmos poderes. Dessa forma, o pensamento de Morin contribuiu significativamente para a mudança da percepção deste pesquisador em relação à necessidade de se realizar uma produção científica com consciência. Em uma sociedade em que cada vez mais trabalhos acadêmicos são escritos para um número cada vez menor de leitores, há de se pensar na qualidade e na relevância daquilo que é produzido. Em um contexto em que muitas vezes os membros da academia são avaliados por métricas quantitativas e não pela qualidade de suas produções, se faz necessário repensar o sentido e o destino da produção do conhecimento científico, de forma a efetivamente torná-lo mais útil para o atendimento das reais necessidades da sociedade. A dificuldade da busca de soluções ambientais compatíveis com as expectativas dos diferentes atores da sociedade reflete as mesmas dificuldades encontradas na produção do conhecimento científico. Para Morin (1998), estas dificuldades se devem ao fato de que cada vez mais as disciplinas se fecham e não se comunicam com as outras. Os fenômenos são cada vez mais fragmentados, o que impede de se conceber a sua unidade, fato que exige o alcance de uma condição de transdisciplinaridade. Morin (1998) chama a atenção para o fato de que o desenvolvimento da ciência ocidental desde o século XVII não foi apenas disciplinar, mas também um desenvolvimento transdisciplinar, pois considera que a ciência nunca teria sido ciência se não tivesse sido transdisciplinar. O autor defende a idéia que precisamos ir do físico ao social e também ao antropológico, por que todo conhecimento depende das condições, possibilidades e limites de nosso entendimento, isto é, de nosso espíritocérebro de homo sapiens. Para Morin (2006, p. 68 e 69), “a visão não complexa das ciências humanas, das ciências sociais, considera que há uma realidade econômica de um lado, uma realidade psicológica do outro, uma realidade demográfica de outro, etc”. Segundo o autor: Acredita-se que estas categorias criadas pelas universidades sejam realidades, mas esquece-se que no econômico, por exemplo, há as necessidades e os desejos humanos [...] atrás do dinheiro, há todo um mundo de paixões, há a psicologia humana [...] a dimensão econômica contém as outras dimensões e não se pode compreender nenhuma realidade de modo unidimensional [...] a consciência da multidimensionalidade nos conduz à idéia de que toda visão unidimensional, toda visão especializada, parcelada é pobre [...] é preciso que


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ela seja ligada a outras dimensões; daí a crença de que se pode identificar a complexidade com a completude (MORIN, 2006, p. 69).

Faz-se importante esclarecer que a adoção da teoria da complexidade para o desenvolvimento deste estudo não implica em deixar de reconhecer a importância e as contribuições do pensamento linear e das especializações para o desenvolvimento da ciência e da sociedade. Em sua proposta da complexidade, apesar de apontar diversas limitações da matriz hegemônica positivista para a produção do conhecimento, Morin (1998) não nega as suas contribuições, mencionando que o conhecimento científico da forma como foi desenvolvido até então, determinou progressos técnicos inéditos, tais como a domesticação da energia nuclear e os princípios da engenharia genética. Corroborando as formulações de Morin, Sheldrake (2001) reconhece que de muitas maneiras, a abordagem mecanicista da vida mostrou-se eficaz: na agricultura, na agroindústria, na engenharia genética, na biotecnologia e na medicina moderna prestam tributo à sua utilidade prática. Para o autor: [...] no âmbito da compreensão fundamental, muito se aprendeu sobre a base molecular dos organismos vivos, a natureza do material genético, o DNA, as atividades químicas e elétricas do sistema nervoso, o papel fisiológico dos hormônios. (SHELDRAKE, 2001, p. 19)

Tal como destacou Sheldrake, Morin (1998) reconhece que a ciência é elucidativa no sentido de resolver enigmas, enriquecedora ao permitir a satisfação das necessidades sociais, considerando-a conquistadora e triunfante, porém demonstra que apesar da ciência possuir todos estes atributos positivos, cada vez mais apresenta problemas graves que se referem ao conhecimento que produz, à ação que determina e à sociedade que transforma. Com esta afirmação, Morin expõe a sua preocupação em relação às influências que a ciência, e consequentemente a sua forma de produção, exercem sobre a produção da vida em sociedade. Para Morin (1998), uma sociedade é produzida pelas interações entre indivíduos e essas interações produzem um todo organizador que retroage sobre os indivíduos para co-produzi-los enquanto indivíduos humanos, o que eles não seriam se não dispusessem da instrução, da linguagem e da cultura. O desafio da complexidade não nos faz renunciar para sempre o mito da elucidação total do universo, mas nos encoraja


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a prosseguir na aventura do conhecimento que é o diálogo com o universo. Para Morin (2006, p. 76), “a única coisa possível do ponto de vista da complexidade e que já se revela muito importante, é ter metapontos de vista sobre nossa sociedade”, condição que “[...] só é possível se o observador-conceptor se integrar na observação e na concepção”. Na busca deste diálogo com o universo se faz necessário avançar da condição unidisciplinar para a busca da multidisciplinaridade, e em um estado mais elevado pela busca pela transdisciplinaridade. Vasconcelos (2002) considera que de acordo com a perspectiva do paradigma da complexidade, a produção de conhecimento, e de forma mais direta nas ciências humanas e sociais, dependerá cada vez mais da experiência sócio-histórica, pessoal e da subjetividade dos pesquisadores. Para o autor o desenvolvimento da criatividade e da inovação nessa esfera se sustentará fundamentalmente na capacidade dos pesquisadores, enquanto indivíduos ou como grupos particulares de pesquisa, assumirem o seu processo de singularidade e individuação. Foi com base na proposta da complexidade de Morin e sob seus conceitos que foram construídas as bases epistemológicas que nortearam a realização deste estudo.

2.2. MEIO AMBIENTE

2.2.1. A Busca por uma Definição Multidisplinar para Natureza e Meio Ambiente A matriz do pensamento linear, que determinou a forma de produção científica e que produz influências diretas sobre a forma de ser e agir das sociedades contemporâneas

foi

também

responsável

por

promover

o

fenômeno

da

superespecialização e fragmentação das ciências, criando o distanciamento percebido entre as ciências do homem e as ciências da natureza. Este distanciamento ocorrido entre ser humano e natureza, determinou para a maior parte da humanidade, inclusive para diferentes comunidades detentoras de culturas milenares de relacionamento com o meio natural, a perda de sua capacidade em compreender, em um maior grau de amplitude, o ambiente do qual são apenas uma parte integrante.


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Para Sheldrake (1993), em nosso mundo particular, não-oficial, a natureza é mais fortemente identificada com a região rural em oposição à cidade, e, acima de tudo, com as regiões selvagens e intactas. Para o autor, muitas pessoas sentem uma ligação emocional com determinados lugares, frequentemente associados com sua infância, ou sentem uma empatia com animais ou com plantas, da mesma forma que são inspiradas pela beleza da natureza ou vivenciam um sentimento místico de unidade com o mundo natural. Segundo o autor: Durante a infância, as crianças frequentemente são criadas numa atmosfera animista de contos de fadas, de animais que falam e de transformações mágicas. O mundo vivo é celebrado em poemas, cantos e canções, e refletido em obras de arte. Milhões de pessoas que vivem na cidade sonham em dirigirse para o campo, ou mudar-se para lá, ou em possuir uma segunda casa em ambiente rural. (SHELDRAKE, 1993, p. 15)

Para Beck (2006, p. 32) quando alguém utiliza a palavra “natureza”, imediatamente se estabelecem alguns questionamentos: [...] que modelo cultural de natureza é aquele que se dá por suposto? A natureza dominada, explorada até o esgotamento pela indústria? Ou a vida rural dos anos cinqüenta (tal como se contempla hoje retrospectivamente, ou tal com contemplavam então as pessoas que viviam no campo)? A solidão das montanhas antes de existir uma guia intitulada passeios nas montanhas solitárias? A natureza das ciências naturais? Ou a que se vende nos folhetos turísticos do supermercado? A visão realista do homem de negócios, segundo a qual as intervenções industriais sobre a natureza sempre podem reparar-se plenamente? Ou a visão das pessoas sensíveis, comovidas pela natureza, que consideram que inclusive as intervenções em pequena escala podem causar danos irreparáveis?

Sheldrake (1993, p. 16) acredita que “o nosso relacionamento privado com a natureza pressupõe que esta seja viva e, pelo menos de modo implícito, usualmente feminina”. Para Sheldrake (1993, p. 21): Á semelhança das mães humanas, a natureza sempre evocou emoções ambivalentes. É bela, fértil, nutriz, benevolente e generosa. Mas também é selvagem, destrutiva, desordenada, caótica, opressiva e lida com a morte.

De acordo com Sheldrake (1993, p. 22): As próprias palavras que designam a natureza nas línguas européias são femininas – por exemplo, phusis em grego, natura em latim, la nature em francês, die Natur em alemão. A palavra latina natura significa, literalmente,


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“nascimento”. A palavra grega phusis vem da raiz phu cujo significado básico também estava associado a nascimento (Partridge (1958)). Desse modo, nossas palavras física e físico, assim como natureza e natural, têm suas origens no processo de dar à luz, de criar e de proteger (mothering).

Sheldrake (1993, p. 22) considera que “um dos significados fundamentais de ‘natureza’ é uma disposição ou caráter congênito, como ocorre na expressão natureza humana”. Para o autor: Este significado, por sua vez, está ligado à idéia da natureza como um impulso ou poder inato [...] numa escala mais ampla, a natureza é o poder criativo e regulador que opera no mundo físico, a causa imediata de todos os seus fenômenos (SHELDRAKE, 1993, p. 22).

Por essa razão, para Sheldrake (1993, p. 22) a “natureza passa a significar o mundo físico, ou natural, como um todo”. Quando a natureza é personificada “[...] ela é a Mãe Natureza, um aspecto da Grande Mãe, a fonte e o sustentáculo de toda a vida, e o ventre para o qual toda a vida retorna” (SHELDRAKE, 1993, p.22). Esta visão da natureza como mãe é retratada por diferentes culturas milenares ao redor do mundo, desde aquelas que já desapareceram até aquelas que de alguma forma ainda resistem às pressões exercidas pela sociedade contemporânea sobre suas culturas e seus domínios. Poucas definições elaboradas pela ciência tradicional se revelam capazes de retratar em profundidade e sensibilidade o sentido de natureza simbólica presente na sabedoria indígena, como aquela expressada pelo Chefe Indígena Duwamish (Chefe Seattle) no discurso que fez ao Presidente Franklin Pierce em 1854, em resposta a proposta de compra de suas terras pelo governo americano (ver Anexo 1). Em seu discurso, o chefe indígena contrapõe a visão utilitarista do homem branco em relação ao domínio da natureza com o significado que esta representa para o homem vermelho. Em suas palavras, o Chefe Seatle retrata com fidelidade o processo de apropriação da natureza percebido na sociedade contemporânea, dando um exemplo da sabedoria da cultura indígena, dizimada de forma assustadora por poderes hegemônicos ao longo dos últimos séculos em diversos locais no mundo.


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A declaração do Chefe Seattle, amplamente divulgada por movimentos ambientalistas, sugere inúmeras reflexões sobre a relação ser humano-natureza e os comportamentos desenvolvidos pela sociedade da qual a grande maioria de nós faz parte. Quando menciona “vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra”, o chefe indígena revela a força e a forma com a qual a sociedade contemporânea se apossou da natureza. De acordo com Sheldrake (1993, p. 25) na cultura indígena a terra é “sagrada tanto como a fonte de vida quanto como o receptáculo dos mortos”. Para o poeta grego Ésquilo citado por Sheldrake (1993, p.25), ela “dá vida a todas as coisas, sustenta-as e as recebe de novo em seu ventre”. Sheldrake (1993) apresenta evidências sobre este sentimento maior pela terra quando comenta que em muitas partes do mundo, as crianças recém-nascidas eram colocadas no chão e depois levantadas para representar seu nascimento do ventre da terra, e quando menciona que muitas pessoas que habitam modernas cidades industriais, desejam ser enterradas em sua terra natal, como forma de retornar ao seu ventre terrestre. Sheldrake (1993) considera que essas associações femininas desempenham um importante papel em nosso pensamento uma vez que revelam que a concepção de natureza está entrelaçada com idéias sobre as relações entre mulheres e homens, entre deusas e deuses, e entre o feminino e o masculino em geral. Em sua reflexão, o autor questiona: “se preferirmos rejeitar essas associações sexuais tradicionais, quais são as alternativas para a idéia da natureza como orgânica, viva e maternal?” (SHELDRAKE, 1993, p. 24). Segundo Sheldrake (1993) uma delas é a que considera que a natureza consiste apenas em matéria inanimada em movimento. Para o autor, nesse caso, apenas negamos o princípio mãe por estarmos dele inconscientes, uma vez que “a própria palavra matéria deriva da mesma raiz de mãe – em latim, as palavras correspondentes são materia e mater todo o ethos do materialismo está permeado de metáforas maternas” (SHELDRAKE, 1993, p. 24). Para Sheldrake (1993) esta idéia da natureza como um sistema inanimado e


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mecânico, oriunda do pensamento mecanicista, proporciona a confortadora sensação de que estamos no controle e a impressão gratificante da confirmação da crença de que o ser humano superou os modos de pensar primitivos e animistas. Sheldrake (1993, p. 21) considera que: A Mãe Natureza é menos amedrontadora se puder ser descartada como superstição, como um estilo poético ou como um arquétipo mítico confinado à mente humana, enquanto o mundo natural inanimado permanece onde está, para que o exploremos.

Para Sheldrake (1993, p. 15) “no mundo oficial – o mundo do trabalho, dos negócios e da política – a natureza é concebida como a fonte inanimada dos recursos naturais, da qual se pode tirar proveito para o desenvolvimento econômico”. Para o autor, a abordagem de diferentes tipos de atores que se fundamentam no pensamento mecanicista, a exemplo de cientistas, tecnocratas, economistas ou proprietários rurais que enxergam suas terras apenas para fins lucrativos, baseia-se, pelo menos durante as horas de trabalho, na suposição de que a natureza é inanimada e neutra. Para muitos desses e outros atores sociais, nada do que é natural possui uma vida, uma finalidade ou um valor próprio. Muitos acreditam que os recursos naturais existem apenas para serem desdobrados e que seu único valor é aquele que as forças de mercado ou os planejadores oficiais neles imprimem. Para Sheldrake (1993 p. 24) a concepção da natureza como máquina põe em jogo outro conjunto de metáforas: Muitos mecanicistas supõem que esse modo de pensar não tem equivalente em termos de objetividade, enquanto que, por outro lado, vêem a idéia de natureza viva como antropocêntrica, nada além de uma projeção, sobre o mundo inanimado que nos rodeia, de maneiras humanas de pensar. Mas certamente a metáfora “máquina” é mais antropocêntrica do que a orgânica. As únicas máquinas que conhecemos são feitas pelo homem. A fabricação de máquinas é uma atividade exclusivamente humana, e relativamente recente. Nos séculos XVII e XVIII, a concepção de Deus como o planejador e o criador da máquina do mundo o moldou à imagem do homem tecnológico. Além disso, ao tentar ver todos os aspectos da natureza como semelhantes a máquinas, projetamos tecnologias correntes sobre o mundo que nos cerca. Projeções de mecanismos de relojoaria e projeções hidráulicas estavam em voga no século XVII, bolas de bilhar e máquinas a vapor no século XIX, e tecnologias informáticas e de computação nos dias de hoje.


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Ao que parece, o desejo pelo estabelecimento do completo domínio do ser humano sobre a natureza é reforçado a cada dia pela lógica de funcionamento da matriz de pensamento linear. Para Hegel citado por Gray (2005, p. 15) ao que tudo indica, ”[...] a humanidade só se contentará quando estiver vivendo num mundo construído por si mesma”. Ao distanciar-se da natureza, limitando a sua visão a uma condição simplificadora e reducionista marcada pela substituição do simbólico pelo material, a humanidade, de forma simultânea, acabou por estabelecer as suas relações de domínio sobre o ambiente ocupado, orientadas para a exploração crescente dos recursos naturais sobre o falso pretexto da satisfação de suas necessidades de sobrevivência. Face ao sucesso do processo de formação do arquétipo mental linear, o termo “natureza” cedeu espaço ao termo “meio ambiente”, demonstrando nova evidência de que o que era antes sentido passou a ser coisificado. Um estudo envolvendo a variável “meio ambiente” representa um tema complexo, em termos da amplitude da proposta e do crescente envolvimento de diferentes tipos de atores oriundos das mais áreas e matrizes de formação acadêmica. Desta forma a construção do conceito meio ambiente vem sendo discutida, sendo definida de formas variadas por especialistas das mais diferentes áreas. Por esta razão, estudiosos consideram que a noção geral do termo “meio ambiente” não configura um conceito que possa ou que deva ser estabelecido de modo rígido e definitivo. A definição semântica da variável de pesquisa “meio ambiente” envolve aspectos relacionados à multi e interdisciplinariedade, em razão do tema ser objeto de estudo em diferentes áreas da ciência, inicialmente nas ciências naturais e mais recentemente das ciências humanas. Esta característica faz com que um estudo sobre o meio ambiente, orientado pela teoria da complexidade, adquira como principais características, um espaço inclusivo, caracterizado pelo diálogo e pelo debate. Em função destas características peculiares, o que seria então o meio ambiente? Para Beck (2006) esta e outras perguntas, como o que é natureza, o que é terra virgem e o que é humano nos seres humanos necessitam ser recordadas, redeclaradas,


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reconsideradas e rediscutidas em um contexto transnacional, embora ninguém tenha as respostas. A própria necessidade da busca de definições para o termo “meio ambiente” revela indícios do distanciamento ocorrido entre ser humano e natureza, a partir do momento em que o meio ambiente deixou de ser percebido, vivido e sentido, para ser apenas coisificado. Esta dificuldade em relação à obtenção de uma definição revela o distanciamento ocorrido entre as diferentes áreas do conhecimento e as suas dificuldades de estabelecer conceitos que sejam abrangentes e capazes de se aproximar de seu sentido e seu significado. Nestas tentativas de definições é possível perceber a distância entre sujeito e objeto, a partir do momento em que o próprio sujeito que estabelece suas definições não considera a sua própria participação ou quando assume uma visão antropocêntrica. Como representante das ciências humanas, em especial da Administração, Barbieri (2006, p.2) define que o “meio ambiente é tudo o que envolve ou cerca os seres vivos”. Para o autor, “a palavra ambiente vem do latim e o prefixo ambi dá a idéia de ‘ao redor de algo’ ou de ‘ambos os lados’” e “o verbo latino ambio, ambire significa ‘andar em volta ou em torno de alguma coisa’”. Barbieri (2006, p.2) reforça a sua definição para meio ambiente mencionando que “... as palavras meio e ambiente trazem per se a idéia de entorno e envoltório, de modo que a expressão meio ambiente encerra uma redundância”. O autor menciona que essa expressão é consagrada no Brasil e nos países de língua hispânica (medio ambiente); e que em Portugal e na Itália utiliza-se apenas a palavra ambiente. De acordo com Barbieri (2006, p.2) em outros idiomas como no idioma francês e no inglês “utilizam-se as palavras environnement e environment, respectivamente, ambas originadas do francês antigo environer que significa circunscrevem, cercar e rodear”. Para Barbieri (2006) o que envolve os seres vivos e as coisas ou o que está ao seu redor é o planeta Terra com todos os seus elementos, tanto os naturais quanto os alterados e construídos pelos seres humanos. Desta forma o autor considera que o meio ambiente compreende o ambiente natural e o artificial, isto é, o ambiente físico e biológico originais e o que foi alterado, destruído e construído pelos humanos com as


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áreas urbanas, industriais e rurais. Para o autor esses elementos condicionam a existência dos seres vivos, podendo-se dizer, portanto, que o meio ambiente não é apenas o espaço onde os seres vivos existem ou podem existir, mas a própria condição para a existência de vida na Terra. Seguindo a lógica da classificação oriunda do pensamento linear, Odum e Sarmiento citados por Barbieri (2006) tentam distinguir três tipos de ambientes:

a) O fabricado ou desenvolvido pelos humanos, constituído pelas cidades, pelos parques industriais e corredores de transportes como rodovias, ferrovias e portos; b) O ambiente domesticado, que envolve áreas agrícolas, florestas plantadas, açudes, lagos artificiais, etc...; c) O ambiente natural, a exemplo as matas virgens e outras regiões auto-sustentadas, acionadas apenas pela luz solar e outras forças da natureza, como precipitação, ventos, fluxo de água, etc..., e que não dependem de nenhum fluxo de energia controlado diretamente pelos humanos, como ocorre nos dois outros ambientes.

Os autores consideram que os elementos que constituem o primeiro tipo de ambiente como tecnoecossistemas urbano-industriais, se caracterizam por serem parasitas dos ambientes naturais e domesticados, uma vez que não produzem os alimentos que a sua população necessita, não limpam o ar e reciclam muito pouco as águas que utilizam. Para Barbieri (2006, p.3), “... esses ambientes não possuem capacidade de regeneração, uma característica importante dos ambientes naturais e até mesmo dos domesticados”. Para Odum e Sarmiento citados por Barbieri (2006) o ambiente de suporte à vida é aquela parte da Terra que satisfaz as necessidades fisiológicas vitais, provendo alimentos e outras formas de energia, nutrientes minerais, ar e água. Segundo Barbieri (2006, p.2): A vida ocorre apenas na biosfera, uma estreita faixa do Planeta constituída pela interação de três ambientes físicos: o ambiente terrestre ou litosfera, o aquático ou hidrosfera, e o atmosférico, que envolve os outros dois ambientes. A parte


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terrestre da biosfera é apenas a camada sólida superficial da litosfera; a da atmosfera é a camada rente à crosta terrestre denominada de troposfera e que alcança cerca de 11 km de altitude nos pólos e 16 km no equador. O meio ambiente, como condição de existência da vida, envolve a biosfera e estendese muito além dos limites em que a vida é possível.

Para Branco (2005), representante das ciências naturais, em especial da Biologia, palavras como “meio”, “ambiente” e “meio ambiente” possuem de um modo geral, significados imprecisos, principalmente ao que se refere a um emprego técnico consensual. De acordo com Branco (2005, p. 90) “os autores e dicionaristas franceses estabelecem entre os vocábulos milieu e environnement distinção idêntica a que fazemos entre ‘meio’ e ‘ambiente’...”. Segundo o autor, “... os ecólogos parecem evitar o emprego da palavra ‘meio’ para indicar o ‘meio externo’, preferindo empregá-la quando se referem ao meio interno, biológico, do animal ou vegetal”. De acordo com Branco (2005, p.90), o termo “ambiente” é indiferentemente empregado “... como adjetivo (o ar ambiente, o meio ambiente) ou como substantivo (o ambiente marinho, terrestre, etc...)”. Para o autor talvez este fato tenha contribuído para a consagração da expressão “meio ambiente” no sentido ecológico atribuído pelas autoridades brasileiras, quando estas iniciaram a política de proteção ambiental nacional. Evidências desta consagração podem ser percebidas no artigo 225 da Constituição Federal, que trata sobre a questão da proteção dos recursos naturais e que mais tarde influenciou outras interpretações e definições elaboradas pela sociedade brasileira, a exemplo da definição do artigo 207 da Constituição do Estado do Paraná: Art. 225 Todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações (BRASIL, 1988). Art. 207. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Estado, aos Municípios e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as gerações presente e futuras, garantindo-se a proteção dos ecossistemas e o uso racional dos recursos ambientais (PARANÁ, 2001).


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Para Branco (2005, p. 91): A palavra ‘meio’, tal como geralmente é empregada em biologia, tem uma conotação de substância, mais que de entorno [...] quando falamos em um ser que vive num ‘meio aquático’ parece que estamos nos referindo mais precisamente ao estado líquido em que ele reside, isoladamente, do que ao conjunto de seres e circunstâncias que convivem e interagem com ele nesse meio.

De acordo com o Grand dictionnaire encyclopédique Larousse citado por Branco (2005, p. 91), a palavra ‘meio’ é definida do ponto de vista biológico como: Conjunto de fatores que agem de maneira permanente ou durável sobre um animal, uma planta, uma biocenose, e aos quais os organismos vivos devem estar adaptados para sobreviver e perpetuar-se.

Já o termo “ambiente”, segundo o autor, não teria essa especificidade: “o ambiente é mutável e dinâmico em função da própria atividade vital que nele se desenvolve” (BRANCO, 2005, p. 92). Para Branco (2005) o termo “meio” possui uma conotação bioquímica e físicoquímica, fazendo com que a expressão “meio ambiente” adquira um caráter mais restritivo. Para o autor esta expressão se refere ao “meio circundante”, mas não abrange o conceito sistêmico que considera os próprios organismos como parte de ambiente. Branco (2005) considera que se a intenção dos autores da expressão era usar “meio” no sentido mais geral, referindo-se a “lugar no espaço”, então a expressão é simplesmente redundante. “Seria como dizer ‘lugar ambiente’, em vez de empregar simplesmente o substantivo ‘ambiente’” (BRANCO, 2005, p. 93). Para pesquisadores de fronteira o termo meio ambiente também é considerado restrito, motivo pelo qual ele é substituído pelo termo ambiente. Em sua concepção não linear sobre ambiente Leff (2000, p. 159 e 160) considera que: O ambiente está integrado por processos, tanto de ordem física como social, dominados e excluídos pela racionalidade econômica dominante: a natureza superexplorada e a degradação socioambiental, perda da diversidade biológica e cultural, a pobreza associada à destruição do patrimônio de recursos dos povos e a dissolução de suas identidades étnicas; a distribuição desigual dos custos ecológicos do crescimento e a deterioração da qualidade de vida. Ao mesmo tempo o ambiente emerge como um novo potencial produtivo, resultado da articulação sinérgica da produtividade ecológica, da inovação tecnológica e da organização cultural. O ambiente não é o meio que circunda as espécies e


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as populações biológicas; é uma categoria sociológica (e não biológica), relativa a uma racionalidade social, configurada por comportamentos, valores e saberes, bem como novos potenciais produtivos. Neste sentido, o ambiente do sistema econômico está constituído pelas condições ecológicas da produtividade e regeneração dos recursos naturais, bem como pelas leis termodinâmicas de degradação de matéria e energia no processo produtivo.

Apesar do reconhecimento da condição restritiva apontada por Branco (2005) em relação à utilização do termo “meio ambiente”, da recomendação de pesquisadores para a adoção do termo “ambiente” e do reconhecimento que a melhor expressão para retratar o ambiente natural é “ambiente” ou “natureza”, optou-se conscientemente pela aplicação da expressão “meio ambiente” como denominação da variável utilizada para o desenvolvimento deste estudo, como forma de facilitar a interpretação dos profissionais de indústrias químicas com relação à proposta de pesquisa. Esta decisão foi tomada em razão da consagração obtida pela expressão nos meios acadêmicos e empresariais e por estar presente no senso comum da sociedade como definição para um ambiente mais abrangente. 2.2.2. Reflexões sobre a Relação Ser Humano e Natureza Com o processo de franca expansão da sociedade, o significado de natureza viva tal como é entendido pelas culturas primitivas, cedeu espaço ao conceito de natureza dominada, passando a ser identificada por muitos, de forma reducionista, apenas como aquela que provê as matérias-primas necessárias para a subsistência do ser humano. Sheldrake (1993) considera que desde a época de nossos mais remotos antepassados até o século XVII, admitia-se como certo o fato de que o mundo da natureza era vivo. Segundo o autor, os filósofos gregos já haviam desenvolvido uma sofisticada concepção da natureza como um organismo vivo, na qual, apesar dos debates a respeito dos detalhes, o animismo ocupava posição central. De acordo com Collingwood citado por Sheldrake (1993), os grandes filósofos acreditavam que o mundo da natureza fosse vivo devido ao seu movimento incessante. Acreditavam que pelo fato deste mundo possuir movimentos regulares e ordenados, que ele “[...] não só era vivo como também inteligente, um animal imenso com uma alma e uma mente


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racional própria”. Para os gregos “cada planta ou animal participava psiquicamente do processo de vida da alma do mundo, intelectualmente na atividade da mente do mundo, e materialmente na organização do corpo do mundo”. (COLLINGWOOD CITADO POR SHELDRAKE, 1993, p. 53 e 54). No prefácio do recente livro de James Lovelock, denominado “A Vingança de Gaia”, Crispin Tickell revela fatos curiosos sobre as relações entre humanidade, ciência e meio ambiente. Segundo o autor, Leonardo da Vinci viu o corpo humano como o microcosmo da Terra, e a Terra como o macrocosmo do corpo humano, porém ele não sabia que o corpo humano é um macrocosmo dos elementos minúsculos de vida – bactérias, parasitas, vírus –, muitas vezes em guerra entre si, e juntos constituindo mais do que as células do nosso corpo. Ainda segundo Tickell, Giordano Bruno foi queimado na fogueira, mais de quatrocentos anos atrás, por sustentar que a terra estava viva, e que outros planetas também podiam estar. Em 1785 o geólogo James Hutton viu a Terra como um sistema auto-regulador e T.H. Huxley a percebeu da mesma forma em 1877. Já Vladimir Ivanovitch Vernadsky viu o funcionamento da biosfera como uma força geológica que cria um desequilíbrio dinâmico, que, por sua vez, promove a diversidade da vida. Segundo Sheldrake (1993) a essência do pensamento grego foi herdada por nossos antepassados medievais, porém, apesar disso, nos três últimos séculos observou-se que um número cada vez maior de pessoas cultas passou a pensar a natureza como isenta de vida, doutrina central da ciência ortodoxa baseada na teoria mecanicista da natureza.

Para Sheldrake (1993, p. 87) “na revolução científica do

século XVII, negou-se à natureza os tradicionais atributos da vida, a capacidade para o movimento espontâneo e a auto-organização. Ela perdeu a sua autonomia”. Para o autor: Esse processo foi levado às últimas conseqüências no século XVII, quando a natureza tornou-se nada mais que matéria inanimada em movimento, criada por Deus e mecanicamente obediente às suas leis eternas. A natureza deixou de ser reconhecida como mãe, e deixou de ser considerada viva. Tornou-se a máquina do mundo, e Deus, o engenheiro todo-poderoso.

Segundo Sheldrake (1993) na medida em que a idéia de que a natureza


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funcionava de forma mecânica, Deus foi automaticamente se tornando cada vez mais supérfluo, fato que contribuiu, por volta do final do século XVIII, para o seu desaparecimento da visão científica do mundo. Ainda segundo o autor, com o subseqüente crescimento do ateísmo, a natureza, sozinha, passou a ser considerada como a fonte de todas as coisas, gerando a crença do materialismo moderno, segundo o qual se acredita que “[...] a natureza (ou matéria) é a fonte de todas as coisas; toda a vida emerge dela, e para ela toda a vida retorna” (SHELDRAKE, 1993, p. 31). Desta forma, ao longo de mais de trezentos anos, a própria ciência baseada na matriz de pensamento linear e os poderes que a controlam passaram a promover a substituição do significado de natureza viva, oriundo de diferentes culturas milenares, por novos conceitos onde a natureza passou a ser entendida de forma mecânica apenas como matéria disponível para o atendimento das necessidades criadas pelos seres humanos. Ao final deste período, marcado pelo sucesso da construção e pela consolidação da matriz de pensamento linear, a ampliação dos efeitos indesejados percebidos no meio ambiente rapidamente contribuíram para revelar as insuficiências de um modelo de sociedade alicerçado na matriz de pensamento linear, do qual se origina a crença da possibilidade do desenvolvimento e do crescimento contínuo. Sheldrake (1993) considera que a teoria mecanicista da natureza conquistou seu prestígio graças aos sucessos da ciência e da tecnologia. Para o autor, na medida em que a própria ciência se desenvolve e que a visão de mundo mecanicista está se tornando progressivamente ultrapassada, a natureza está voltando à vida novamente no âmbito da teoria científica. À medida que esse processo vai ganhando impulso, torna-se cada vez mais difícil justificar a negação da vida da natureza. Com base em suas reflexões, Sheldrake (1993, p. 82) efetua o seguinte questionamento: [...] se o cosmos assemelha-se mais a um organismo em desenvolvimento do que a uma máquina deixando de funcionar, se os próprios organismos são mais semelhantes a organismos do que a máquinas, se a natureza é orgânica, espontânea, criativa, então por que continuar acreditando que tudo é mecânico e inanimado?

Sheldrake (1993) considera que o que justifica a poderosa razão para o apego à visão mecanicista reside no fato de ela ser mais cômoda; dela ainda constituir a


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ortodoxia da civilização industrial. Porém o autor alerta para o fato que ela pode não continuar sendo a mais cômoda por muito tempo: Decisões públicas estão reflorescendo, as velhas certezas políticas e econômicas estão se desfazendo e se dissipando. Dúvidas a respeito da abordagem mecanicista da agricultura e da medicina estão aumentando; a visão da natureza como algo a ser conquistado está perdendo o seu encanto; e o clima está mudando, tanto literal como metaforicamente (SHELDRAKE, 1993, p. 83).

Sheldrake (1993) chega a considerar que talvez, a mais forte das razões para se negar a vida da natureza esteja no fato de que admiti-la é algo que leva a conseqüências esmagadoras. Para o autor: Experiências pessoais intuitivas de natureza não podem mais ser mantidas no comportamento selado da vida privada, e descartadas como meramente subjetivas, pois, podem, na verdade, conter revelações da própria natureza viva, assim como de fato parecem contê-las no momento em que são vivenciadas. Maneiras de pensar míticas, animistas e religiosas não podem mais ser mantidas em xeque. Nada menos que uma revolução está se aproximando (SHELDRAKE, 1993, p. 83).

A partir da década de 1960, os impactos percebidos no meio ambiente apresentaram evidências sobre as insuficiências da matriz de pensamento linear e sobre as atividades danosas promovidas pela sociedade global. Neste período, os efeitos negativos produzidos pelas indústrias e pela ciência dominada pelos interesses econômicos passaram a ser percebidos com mais intensidade pela sociedade depois que Rachel Carson publicou, em 1962, o livro “Primavera Silenciosa”. Em sua obra, que em 2007 comemorou 45 anos e que é considerada por Colborn, Dumanoski e Myers (2002) como a obra que incentivou o início do movimento ambientalista durante o pós-guerra, a cientista e escritora expôs pela primeira vez para a opinião pública os efeitos nocivos do uso indiscriminado de pesticidas e agrotóxicos sintéticos no ambiente natural, alertando as sociedades globais para os riscos da contaminação química. Nesta mesma década, uma pequena parte da ciência passou a se dedicar em restabelecer a sua compreensão sobre os efeitos complexos da atividade humana sobre o ambiente natural e sobre ela mesma. Muitos dos componentes envolvidos na relação ser humano e natureza, que já eram de conhecimento de culturas milenares, passaram a ser redescobertos e comprovados de


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forma científica por diferentes pesquisadores ao redor do globo. De acordo com Tickell, foi em 1972 que James Lovelock apresentou para a comunidade científica as suas idéias sobre um Planeta vivo, por meio da apresentação de sua hipótese denominada “Teoria de Gaia”

20

, idéia que pareceu inaceitável para

muitos adeptos do pensamento convencional. De acordo com Lovelock (2006, p. 33): Desde o seu início, na década de 1960, a idéia de auto-regulação global do clima e da química foi impopular entre os cientistas da Terra e os cientistas da vida. Na melhor das hipóteses, eles a consideraram desnecessária como explicação dos fatos da vida e da Terra; na pior, condenaram-na imediatamente nos termos mais desdenhosos. Os únicos cientistas a receberem bem a idéia foram uns poucos metereologistas e climatologistas. Alguns biólogos logo desafiaram a hipótese, argumentando que um biosfera auto-reguladora jamais poderia ter se desenvolvido, já que a unidade de seleção era o organismo, não a biosfera.

Segundo Lovelock (2006, p. 34), foi ao retornar à discussão com os Darwinistas que em 1981 ele percebeu que, “[...] Gaia era o sistema inteiro – a união de organismos e meio ambiente material –, e era este sistema terrestre imenso que desenvolvia a autoregulação, não a vida ou a biosfera sozinha”. Porém, segundo o próprio Lovelock (2006), o reconhecimento pela ciência de que o planeta Terra é vivo, veio somente mais tarde em 2001, durante a realização de uma conferência em Amsterdã. Nesta conferência, em que estavam representadas quatro grandes organizações voltadas para a mudança global, mais de mil delegados assinaram uma declaração que teve como sua primeira afirmação importante: “O sistema Terra se comporta como um sistema único e auto-regulador composto de componentes físicos, químicos, biológicos e humanos” (LOVELOCK, 2006, p. 35).

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Sheldrake (1993, p. 157) menciona que o proponente da hipótese de Gaia é a de que a Terra é um organismo vivo auto-regulador. Segundo o autor, Lovelock começou a formular suas idéias quando pensava a respeito da maneira de detectar vida em Marte. Durante o desenvolvimento de suas pesquisas, Lovelock compreendeu que se os gases que constituem a atmosfera da terra estivessem em equilíbrio químico, como ocorre nas atmosferas de Marte e de Vênus, nossa atmosfera deveria apresentar cerca de 99 por cento de dióxido de carbono. Em vez disso, ela contém apenas 0,03 por cento de dióxido de carbono, bem como 78 por cento de nitrogênio e 21 por cento de oxigênio. Para o pesquisador, essa composição poderia ter surgido somente graças às atividades dos organismos vivos e somente poderia ser mantida graças à sua contínua atividade.


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Apesar do reconhecimento da comunidade científica, Lovelock (2006) menciona que muitos dos seus membros ainda agem como se o planeta fosse uma enorme propriedade pública possuída e compartilhada, se limitando à visão dos séculos XIX e XX da Terra ensinada na escola e na Universidade, de um planeta constituído de rocha inerte e morta, com vida abundante a bordo. Para Lovelock (2006, p. 44), muitos ainda acreditam que “[...] a evolução dos organismos ocorre de acordo com a visão de Darwin, e a evolução do mundo material das rochas, ar e oceano, de acordo com a geologia dos livros didáticos”. Para o autor na proposta da teoria de Gaia, estas duas evoluções que eram tratadas de forma distintas, fazem parte de uma só história da Terra, em que a vida e seu ambiente físico evoluem como uma entidade única. Lovelock (2006) apresenta novas evidências sobre a força da matriz do pensamento linear. O autor considera que apesar da Declaração de Amsterdã ter representado um passo importante rumo à adoção da teoria de Gaia como modelo de trabalho para a Terra, as divisões territoriais e dúvidas persistentes impedem que os cientistas que assinaram a declaração enunciem a meta da Terra auto-reguladora. Para Lovelock (2006), esse tipo de omissão permite que os cientistas se declarem partidários da Teoria de Gaia ao mesmo tempo em que continuam a elaborar suas pesquisas de forma isolada como antes. Sheldrake

(1993, p.

160 e

161)

acredita que “a hipótese Gaia é,

indubitavelmente, um dos passos mais importantes em direção a um novo animismo, razão pela qual ela é tão controversa”. Para o autor ”o seu apelo, amplamente difundido, depende da maneira pela qual ela volta a nos conectar com padrões de pensamento pré-mecanicistas e pré-humanistas”. Para Sheldrake (1993) não se pode disfarçar o fato de que a hipótese de Gaia envolve uma mudança radical de pontos de vista centrados no humanismo: Em Gaia, somos apenas uma outra espécie, não somos nem os proprietários nem os administradores deste planeta. Nosso futuro depende muito mais de um relacionamento correto com Gaia do que com o drama infindável dos interesses humanos (LOVELOCK CITADO POR SHELDRAKE, 1993, p. 161).

De acordo com Lovelock (2006, p. 19), a Teoria de Gaia, assim “como todas as teorias novas, levou décadas até ser, ainda que parcialmente, aceita, porque teve de


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aguardar por dados para confirmá-la ou negá-la”. Para o autor é sabido agora que a Terra de fato se regula, porém lamenta que devido ao tempo decorrido para a coleta de dados, que a descoberta de que a regulação estava falhando e de que sistema da Terra rapidamente se aproxima do estado crítico em que a vida corre perigo tenha vindo tarde demais. Para Sheldrake (1993, p. 153), “ao longo de toda a história, praticamente toda a humanidade (e a maior parte dela ainda hoje) aceita como verdadeiro o fato de que a Terra é viva”. O autor considera que a compreensão contemporânea emergente da Terra como viva, embora arraigada em velhos padrões de pensamento mítico, é fortemente influenciada por duas percepções caracteristicamente modernas: a visão obtida da Terra a partir do espaço, tal como foi observada pelos astronautas e pelos cosmonautas; e a compreensão de que nossas atividades econômicas estão mudando o clima global. Talvez a imagem da Terra vista do espaço pelos astronautas, represente uma das experiências mais significativas e compartilhadas por uma boa parcela da humanidade. Esta visão contribuiu de forma significativa para a materialização do planeta “vivo”, muito diferente da visão tradicional e limitada até então aprendida nos bancos escolares. Para Lovelock (2006, p. 131) “a Terra nunca havia sido vista como um todo até que os astronautas a observassem para nós de fora”. Neste momento, segundo Lovelock (2006, p. 131) “[...] vimos algo bem diferente de nossa expectativa de uma mera bola de rocha de tamanho planetário existindo dentro de uma camada fina de ar e água”. Uma destas visões da Terra obtidas por astronautas a partir do espaço e que contribuiu para reavivar e reforçar o significado da Terra como um planeta vivo foi obtida em 24 de dezembro de 1968, pelos astronautas que integravam o missão Apollo 8. Além do reconhecimento das formas e cores, esta imagem contribuiu para revelar o sentimento que os astronautas tiveram quando consideraram a terra como o seu lar:


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Figura 1 – Foto do Planeta Terra – Missão Apollo 8 Fonte: Lunar and Planetary Institute (2008) Sheldrake (1993, p. 27 e 28) faz considerações interessantes que retratam o sentimento de natureza tal como ele é muitas vezes percebido pela sociedade contemporânea: [...] contrastamos hoje a paz dos primeiros tempos com os conflitos que vivenciamos; nas sociedades “primitivas” reconhecemos um modo de vida harmonioso que perdemos – e que até mesmo essas sociedades estão perdendo rapidamente sob a influência da nossa civilização. Para milhões de habitantes das cidades modernas, a vida se torna mais tolerável ante a perspectiva de saírem a campo, de se retirarem para ambientes rurais, em fins de semana, ou de lá permanecerem durante todo o período de férias. Nas noites de sexta-feira, as estradas que saem das grandes cidades do mundo ocidental ficam intransitáveis. Há algo a ser encontrado “na natureza”, de que muitos de nós sentem necessidade.

Sheldrake (1993, p. 70) acredita que “retornar à natureza é uma imagem que evoca a sensação de voltar para casa, ou de se religar a fonte da vida”, porém “[...] poucas pessoas querem retornar à natureza por muito tempo”, uma vez que todos ”[...] somos os herdeiros de uma cultura e de um modo de vida que enfatiza a nossa


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separação”. Para Sheldrake (1993, p. 70): Somos os senhores da criação, os conquistadores da natureza. Todos os antigos medos ainda estão nos bastidores para nos assombrar: o colapso da civilização, a fome extrema, a pestilência, o barbarismo. Nossos sistemas políticos e econômicos ajudam a nos separar dos poderes destrutivos da natureza e da natureza humana, das forças que fazem surgir nossos medos mais básicos, da constante ameaça do caos. Várias teorias e atitudes habituais reforçam e estendem esse distanciamento primário, especialmente os hábitos de desprendimento científico. E, dessa forma, quanto maior for o senso de separação da natureza, maior será a necessidade de retornar.

Neste contexto em que o sujeito tenta se reaproximar do que foi por muito tempo considerado como apenas um objeto de estudo e não como algo essencial para a perpetuação da sua própria vida e das gerações futuras, há de se imaginar as dificuldades encontradas para o restabelecimento da ligação entre ser humano e natureza. Para Sheldrake (1993, p 70), “a natureza tem vários significados e inspira diferentes tentativas de retorno”. Talvez uma das formas de estabelecer este retorno passe pela compreensão da importância do ambiente natural para a manutenção da vida. Para Capra (2005, p. 23): Não existe nenhum organismo individual que viva em isolamento. Os animais dependem da fotossíntese das plantas para ter atendidas as suas necessidades energéticas; as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias em suas raízes; e todos juntos, vegetais, animais e microorganismos, regulam toda a biosfera e mantém as condições propícias à preservação da vida.

Para Branco (2005, p.9), “o meio ambiente diz respeito, objetivamente, à prevenção contra a extinção da vida em geral, e em particular, da vida humana”. Para o autor o ambiente adquire uma nova dimensão onde não é mais possível dissociar os organismos das circunstâncias que o cercam. Em suas considerações, Branco (2005, p. 104) reforça a visão mecanicista do mundo ao mesmo tempo de que apresenta evidências da existência do princípio hologramático proposto pela teoria da complexidade, quando considera que “o ser vivo não é mais um ser independente e de comportamento livre: ele é, antes, uma peça de uma máquina complicada, que não existe se não estiver associado às demais peças” [...] “ele é parte integrante do ambiente” que “não é mais um meio circundante”.


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Logo, pode-se concluir que refletir sobre as questões que envolvem a relação natureza e ser humano de forma unilateral, ou seja, pensar o meio ambiente sem incluir o ser humano ou sem envolver aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais e espaciais, a exemplo de inúmeras iniciativas já desenvolvidas, contribui apenas para antecipar a crise sócio-econômica-ambiental já anunciada. Por se tratarem de questões complexas, as questões ambientais exigem uma abordagem a partir da racionalidade e do comportamento da sociedade quanto à forma como o conjunto de indivíduos que a compõe estabelece as suas relações com o ambiente natural do qual é apenas uma parte integrante. 2.2.3. O Meio Ambiente e a Sociedade Contemporânea Com o passar dos séculos e graças às suas capacidades de organização, criação e inovação, os seres humanos passaram a assumir de forma gradual, uma posição diferenciada frente as diferentes formas de vida que integradas, constituem o ambiente natural. Com o processo de crescimento de ampliação de suas populações, os seres humanos passaram a estabelecer e a ampliar o seu poder de controle sobre o ambiente ocupado. Para Sheldrake (1993) as diferentes culturas apenas se diferem quanto à intensidade de seu impulso de domínio e quanto ao sentido de afinidade que as mantêm em equilíbrio com o mundo natural. De acordo com o autor, na história humana, em sua totalidade: [...] desde que o fogo foi subjugado pela primeira vez, desde que as primeiras ferramentas foram fabricadas, desde que os metais começaram a ser usados, desde que os primeiros animais foram domesticados e as primeiras plantas cultivadas, e desde que as primeiras cidades foram construídas - envolveu, em graus diversos, o domínio do homem sobre a natureza. (SHELDRAKE, 1993, p. 46 e 47)

Para Sheldrake (1993, p. 47) “o que o mundo moderno tem de único não é o fato do poder humano em si mesmo, nem o sentido de que a humanidade é alguma coisa sem paralelo, mas sim o enorme aumento do poder humano”. De acordo com o autor, “as justificativas filosóficas, teológicas e mitológicas para o poder humano sobre o


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mundo natural não constituem uma característica exclusiva da civilização moderna” [...] “elas são encontradas por toda parte”, sendo, portanto consideradas como “[...] concepções antropocêntricas da relação entre homem e natureza” (SHELDRAKE, 1993, p. 47). Segundo o autor: Até mesmo o imaginário heróico da conquista da natureza pelo homem, tão importante moderna ideologia do progresso, tem precedentes antigos. O arquétipo do herói conquistando a natureza selvagem aparece no mito babilônico de Marduk triunfando sobre Tiamat, o monstro das profundezas; no deus Egípcio Hórus vencendo o hipopótamo: no triunfo de Perseu sobre a Górgona, no de Apolo sobre Píton; e no São Jorge sobre o dragão. (SHELDRAKE, 1993, p. 47)

Nos séculos que marcaram o surgimento da ciência das especializações, as relações entre sociedade e meio ambiente passaram a ser tratadas de forma dissociada pelo poderes controladores da produção científica, situação que nos dias atuais é responsável pelos reflexos percebidos na forma de produção científica. Pela lógica da disjunção aplicada pela ciência para a produção de novos conhecimentos, os fenômenos relacionados ao ambiente natural passaram a ser estudados pelos representantes das ciências naturais enquanto que, os fenômenos sociais passaram a ser estudados pelas ciências humanas. Este processo de disjunção, que por um lado é considerado importante para o aprofundamento de conhecimentos científicos específicos, foi também responsável por negar oportunidades aos representantes das ciências humanas quanto a uma melhor compreensão das relações existentes entre sociedade e natureza. Da mesma forma, limitou os representantes das ciências naturais em termos da promoção de reflexões mais amplas sobre as relações existentes entre natureza e sociedade. Com o estabelecimento das especializações científicas, o que era único foi separado, limitando as pesquisas e a compreensão dos fenômenos observados às fronteiras préestabelecidas para o desenvolvimento do conhecimento científico. Este padrão para a produção científica gerou reflexos diretos na formação do arquétipo mental e consequentemente nos comportamentos apresentados pela sociedade contemporânea. Ao mesmo tempo em que a tornou detentora de inúmeros e importantes conhecimentos, inviabilizou a comunicação entre as diferentes disciplinas,


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impedindo que o conjunto da sociedade adquiri-se uma maior compreensão sobre os fenômenos observados. Um exemplo que comprova a disjunção ocorrida entre ser humano e natureza e que se apresenta como uma tentativa artificial de promover a reaproximação das massas com o ambiente natural envolve a construção do imaginário “Curitiba, Capital Ecológica” descrito por Souza-Lima (2006). Em seu estudo o autor demonstra que as diversas ações adotadas para a construção e o estabelecimento do imaginário esconderam outras realidades decorrentes do processo de crescimento urbano acelerado como o aumento da violência, o crescimento das favelas e a ampliação da poluição. Tais insuficiências do imaginário original, apontadas pelo autor, podem ser comprovadas quando da decisão política da criação de um novo imaginário “Curitiba, Capital Social”, situação que demarca com clareza o momento em que a proposta original passou a receber críticas em relação ao nível de atenção dispensada para as questões sociais, uma vez que priorizou ações relacionadas ao marketing ecológico em detrimento de ações voltadas para a promoção do desenvolvimento do ser humano. Este exemplo demonstra com clareza a noção de disjunção presente em políticas públicas fundamentadas na racionalidade instrumental. Trata-se de uma evidência da predominância do pensamento linear na esfera pública, assunto tratado por Socher (2008), em seu trabalho que trata sobre políticas públicas voltadas para o cidadão como ator principal da esfera pública. Situações como o exemplo da capital ecológica, amplamente divulgada pelo mundo afora como modelo de preservação ambiental, nos remetem a refletir sobre as formas superficiais com as quais a sociedade contemporânea tenta restabelecer suas relações com o meio ambiente, com algo que estava próximo e que com o tempo se tornou distante. Para compreender as situações geradas pela nossa sociedade no contexto atual e futuro, se faz necessário, como mencionado anteriormente por Morin (2006, p. 76), “[...] ter metapontos de vista sobre nossa sociedade”, o qual “[...] só é possível se o observador-conceptor se integrar na observação e na concepção”. Logo se faz necessário estabelecer um olhar diferente, assumir uma posição pró-ativa e crítica na


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busca do estabelecimento de um profundo envolvimento com a sociedade da qual fazemos parte e da qual emanam os inúmeros efeitos indesejáveis oriundos de nossas próprias ações e comportamentos. Trata-se de um exercício de enxergar e construir uma realidade diferente, na qual cada indivíduo, ao assumir novas posições em termos de produção e de consumo, passa a ser mais responsável pelas ações e comportamentos que desempenha na sociedade. Trata-se de um exercício que exige reflexão e desapego em relação às regras vigentes na sociedade que impõe o modo de vida coletivo contemporâneo. Infelizmente, boa parte dos indivíduos que integram nossa sociedade é desprovida do tempo e das condições necessárias para repensar o seu papel junto à sociedade que integram. Estes limites determinados pela lógica do pensamento mecanicista, responsáveis por manter os seres humanos presos aos padrões estabelecidos pela vida em sociedade, os impedem de planejar e refletir sobre suas ações e sobre a sociedade que desejam, e consequentemente, sobre a forma como a sociedade a qual pertencem estabelece suas relações com o ambiente natural. Para Sheldrake (1993) apesar da abordagem mecanicista ter propiciado progressos tecnológicos e industriais, e de ter oferecido melhores recursos para combater doenças, ela também forneceu armas para um poder inimaginável. Para o autor, as economias modernas são construídas sobre alicerces mecanicistas, e todas as pessoas são influenciadas por eles. Neste contexto, segundo o autor, o mundo vivo é concebido à imagem de uma economia capitalista e as características individualistas, egoístas e competitivas do homem, aceitas como verdadeiras pelas teorias econômicas da livre empresa, são então projetadas sobre os genes. Para compreender um pouco melhor a sociedade na qual estamos inseridos se faz necessário estabelecer algumas reflexões sobre diferentes períodos, como forma de representar o momento e as circunstâncias geradoras das mudanças responsáveis pela ampliação das crises sócio-ambientais percebidas na contemporaneidade. Várias são as tentativas entre os pesquisadores de fronteira para tentar definir este momento de transição, onde mudanças ou rupturas se revelam cada vez mais capazes de definir ou inaugurar o surgimento de novo período para a sociedade.


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Desde os tempos mais remotos, as diferentes sociedades promoveram alterações no ambiente ocupado. De acordo com Sheldrake (1993) embora pareça que as sociedades paleolíticas de caçadores-coletores tenham vivido em maior harmonia com a natureza do que as sociedades agrícola e industrial, elas também forjaram mudanças importantes em seu meio ambiente. Como exemplo, Ciochon, Olsen e James citados por Sheldrake (1993) mencionam que no sudeste da Ásia o Homo erectus pode ter caçado certas espécies de primatas até a extinção, e provocado mudanças definitivas nos habitats e nas populações de espécies como o orangotango e o panda. Segundo alguns pesquisadores, as primeiras mudanças provocadas por diversos tipos de sociedades no ambiente ocupado teriam provocado o seu rito de passagem da sociedade primitiva para a sociedade agrícola. Esta constatação pode ser percebida no exemplo de Gray (2005, p. 170): Só depois de extinguir os moas e devastar a população de focas da Nova Zelândia os primeiros colonos polinésios passaram a usar métodos mais intensivos de produção de alimentos. Ao exterminar os animais dos quais dependiam, esses caçadores-coletores condenaram à extinção seu próprio modo de vida.

Para Gray (2005), a passagem da caça-coleta para a agricultura é vista com freqüência, como uma mudança comparável à revolução industrial dos tempos modernos. O autor considera que quando este fato é visto dessa maneira, é porque ambas aumentaram os poderes dos humanos sem ampliar sua liberdade. O autor justifica as suas considerações ao mencionar que os caçadores-coletores normalmente têm o suficiente para suas necessidades; logo não têm que trabalhar para acumular mais. Por este motivo, o autor considera que aos olhos daqueles para quem a riqueza significa ter objetos em abundância, a vida destes indivíduos se assemelha a pobreza. Para Sahlins citado por Gray (2005, p. 171) isto se deve ao fato de que “estamos inclinados a pensar os caçadores-coletores como pobres por que não possuem nada; talvez seja melhor pensá-los, pela mesma razão, como livres”. Gray (2005, p. 171) estabelece uma comparação interessante entre o modo de vida das sociedades primitivas com as sociedades agrícolas:


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Caçadores-coletores têm alta mobilidade. Mas sua vida não requer mudanças contínuas para novo território. Sua sobrevivência depende de conhecer o meio local em seus mínimos detalhes. A agricultura multiplica o número de humanos. Assim, compele os agricultores a expandir a terra que trabalham. A agricultura e a busca de novas terras vão juntas. Como escreve Hugh Brody, "são os agricultores, com seu compromisso com terras específicas e grande número de filhos, que são forçados a constantemente se mudar, reassentar, colonizar novas terras (...) Como um sistema, e ao longo do tempo, é a agricultura, não a caça, que gera o 'nomadismo'.

Para Gray (2005) as populações de caçadores-coletores que passaram para o cultivo das terras aumentaram mais em relação a populações que mantiveram os hábitos tradicionais de subsistência. O autor acredita que: A passagem para a agricultura não teve uma razão única. Mas, onde quer que tenha ocorrido, foi tanto um efeito quanto uma causa do crescimento da população humana. A agricultura tornou-se indispensável por causa da população maior possibilitada por ela. (GRAY, 2005, p. 172 e 173)

A partir do estabelecimento das sociedades agrícola e industrial, em diferentes épocas e em diferentes locais do mundo, a humanidade passou a desenvolver e ampliar de forma crescente, o seu controle sobre a natureza para possibilitar o aumento da produção e de consumo de produtos. Com base neste domínio orientado por interesses de natureza econômica, criou-se as condições necessárias para que a população mundial crescesse de forma exponencial, fato que garantiu a expansão das suas atividades e consequentemente determinou a ampliação da exploração dos recursos naturais e os impactos observados sobre o ambiente ocupado. Evidências destas constatações podem ser verificadas em um recente estudo elaborado por Chomitz (2007), que trata sobre a pressão sofrida pelas florestas tropicais e bosques de savana ao redor do mundo. Segundo o autor, nestas regiões se concentram a maior parte da população pobre do planeta, a qual é composta por aproximadamente 70 milhões de pessoas, em sua maioria indígenas que habitam as áreas remotas das florestas, e outras 735 milhões de pessoas, que compõe a população rural que habita as áreas de florestas, savanas e arredores.


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Face aos diferentes tipos de pressões sofridos por estas áreas, Chomitz (2007) afirma que as florestas tropicais encolhem 5% a cada década, situação que segundo o autor, deve ser mantida ou ampliada com a manutenção da previsão de expansão de terras cultiváveis, pastos e plantações nas áreas de florestas naturais nos próximos 30 ou 50 anos. Para o autor, esta expansão é justificada tanto pela pobreza quanto pela riqueza, uma vez que uma enorme população rural depende da agricultura de baixa produtividade para subsistência, enquanto que, uma crescente população urbana cada vez mais rica, necessita dos produtos produzidos nas margens das florestas. Ainda segundo o autor, as florestas também sofrem pressões de madeireiros, uma vez que a população pobre necessita de lenha e a população rica necessita de madeira. A seqüência de imagens apresentada a seguir, demonstra os reflexos das pressões exercidas pelo conjunto da sociedade sobre a natureza, em especial sobre os biomas das florestas tropicais e savanas. De acordo com Chomitz (2007), as cores aplicadas nestas imagens possuem os seguintes significados:

Quadro 1 – Legenda dos Mapas de Exploração das Florestas Cor

Significado

Marrom

Representa as terras de mosaico de floresta e agricultura, onde a propriedade de terras é geralmente melhor definida, as densidades populacionais mais altas, e os mercados mais próximos. Nelas a gestão florestal natural geralmente não pode competir (da perspectiva do proprietário da terra) com a agricultura ou silvicultura de plantação. Embora a floresta seja esparsa, as taxas de desmatamento são altas, e a biodiversidade única é ameaçada.

Amarela

Representa as áreas denominadas de fronteiriças e contestadas, onde as pressões para desmatamento e degradação são altas ou crescentes, e o controle é geralmente instável e em conflito.

Verde

Representa as terras denominadas de áreas além da fronteira agrícola – onde existem muitas florestas, poucos habitantes (predominantemente indígenas) e onde há certa pressão sobre os recursos madeireiros.

Fonte: Adaptado de Chomitz (2007)


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Figura 2 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da África Fonte: Chomitz (2007)

Figura 3 – Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da Ásia Fonte: Chomitz (2007)


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Figura 4 - Mapa de Domínios das Florestas Tropicais da América Latina e do Caribe Fonte: Chomitz (2007)

Com o advento da criação de novas tecnologias pelo ser humano, do aumento das populações mundiais e da ampliação do consumo, as sociedades agrícola, urbana e industrial contribuem de forma crescente para ampliação do quadro de degradação do ambiente natural, extrapolando os seus limites de auto-recuperação. Para Colborn,


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Dumanoski e Myers (2002) o século XX é considerado um divisor de águas na relação entre o ser humano e a Terra, onde os poderes combinados da ciência e da tecnologia, aliados ao número pessoas que vivem sobre o planeta, transformaram a escala do impacto de localizado e regional para global. De acordo com dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) (2007) e apresentados no quadro 2, percebe-se que as discussões ocorridas em torno das questões sócio-ambientais ao longo das últimas décadas foram acompanhadas de uma explosão demográfica mundial, fato que contribuiu significativamente para o agravamento dos impactos ambientais até então registrados.

Quadro 2 – Crescimento da População Mundial (1970 a 2000) Ano

População

1970

3.698.676.000

1980

4.451.470.000

1990

5.294.879.000

2000

6.124.123.000

Fonte: Adaptado de Organização das Nações Unidas (ONU) (2007)

De 1970 a 2000, período em que as crises sócio-ambientais se intensificaram e passaram a ser discutidas em maior profundidade, a população mundial quase dobrou. Com este significativo incremento populacional, observou-se a ampliação da exploração dos recursos naturais em escala mundial para o atendimento das novas demandas de consumo, fato que contribuiu para o agravamento da crise sócio-ambiental já percebida e agora consolidada pelo fenômeno do aquecimento global. Lovelock (2006) menciona que o aquecimento global foi ligeiramente discutido por vários autores em meados do século XX, e que mesmo o grande climatologista Hubert Lamb, autor do livro Climate: Present, past and future publicado em 1972, dedicou apenas uma única página ao efeito estufa em uma obra de seiscentas páginas. De acordo com o autor, o tema só se tornou público por volta de 1988, em função da


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maior parte dos cientistas da atmosfera estar absorvida pela intrigante ciência da redução do ozônio estratosférico. Com relação ao aquecimento global, Lovelock (2006) apresenta um fato revelador ao rememorar as previsões de clima realizadas no final da década de 1980, retratadas no livro de Stephen Schneider, Global warming, de 1989, e que ilustram as idéias dos cientistas do clima em uma conferência realizada em 1987. Apesar dos conhecimentos limitados então disponíveis, os cientistas fizeram o possível para prever o clima futuro e apresentar os seus palpites na forma de linhas pontilhadas em um gráfico, onde a linha pontilhada superior representa um cenário que julgavam ser quase de ficção científica, de tão extremo. A título de ilustração, Lovelock (2006) acrescentou uma cruz como forma de destacar a situação atual mencionando ao lado a expressão “onde estamos agora”, conforme demonstrado na figura 5:

Figura 5 – Projeção do Aumento de Temperatura na Terra Fonte: Lovelock (2006, p. 56)


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Dados do Intergovernmental Panel on Climate Change (2007), confirmaram a manutenção da projeção de aumento da temperatura no globo terrestre. Por meio dos dados coletados, a ciência tradicional finalmente confirmou o que já estava sendo percebido e anunciado nas últimas décadas por ambientalistas e especialistas do ambiente natural: a projeção de manutenção do incremento das temperaturas para os próximos anos. Com base nos dados históricos sobre a mudança do clima no hemisfério norte, os cientistas apresentaram, além das evidências do aumento da temperatura, uma previsão para aumento do nível do mar e para a redução da cobertura de neve na região, conforme demonstrado na figura 6:

Figura 6 – Temperatura, Nível do Mar e Cobertura de Neve no Hemisfério Norte Fonte: Intergovernmental Panel on Climate Change (2007)


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Além dos dados fornecidos pelos cientistas que integram o Intergovernmental Panel on Climate Change (2007), as evidências dos impactos ambientais gerados pelo expressivo crescimento populacional e pela ampliação da utilização dos recursos naturais também podem ser observadas nos números apontados pelos índices “Planeta Vivo” e “Pegada Ecológica”, ambos elaborados pelo World Wildlife Fund (WWF) (2007). O índice “Planeta Vivo”21 retrata a saúde de diferentes ecossistemas, medindo as tendências no âmbito da diversidade biológica do planeta Terra. Com base em índices específicos obtidos pelo controle das populações de espécies selvagens (terrestres, de água doce e marinha), um único índice é gerado visando representar o nível de saúde destes diferentes ecossistemas. Percebe-se na figura 7 que, no mesmo período em que as primeiras discussões mundiais ocorreram e que houve também um sensível incremento de população mundial, o índice Planeta Vivo registrou um decréscimo de 30%, caracterizando assim mais uma evidência da deterioração dos ecossistemas naturais sem precedentes na história da humanidade.

Figura 7 – Evolução do Índice Planeta Vivo Fonte: World Wildlife Fund (WWF) (2007)

21

De acordo com o World Wildlife Fund (WWF) (2007), o Índice Planeta Vivo é um indicador do estado da biodiversidade do mundo, com base em tendências apresentadas desde 1970 até 2003, no âmbito de mais de 3.600 populações com mais de 1.300 espécies vertebradas de todo o mundo. É calculado como a média de três índices distintos que medem as tendências em populações de 695 espécies terrestres, 344 espécies de água doce e 274 espécies marinhas.


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O outro índice, denominado “Pegada Ecológica”22, aponta para a incapacidade do planeta Terra em atender a demanda gerada pelo aumento da população em relação a sua capacidade de renovação dos recursos naturais e absorção dos resíduos gerados pelas atividades desenvolvidas pelas diferentes sociedades humanas. Este índice considera a relação existente entre a população mundial e as áreas biologicamente produtivas utilizadas para o atendimento das necessidades humanas. Em seu registro histórico, percebe-se que na transição ocorrida entre os anos 1980 e 1990, a humanidade excedeu a capacidade natural do planeta Terra de repor os recursos naturais necessários para a sobrevivência dos seres vivos e de incorporar os resíduos gerados (ver figura 8).

Figura 8 – Evolução do Índice Pegada Ecológica Fonte: World Wildlife Fund (WWF) (2007)

Projeções realizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) (2007), demonstradas no quadro 3, apontam para a repetição do fenômeno do crescimento populacional ao longo das próximas quatro décadas. Dentro deste período, a população 22

De acordo com o World Wildlife Fund (WWF) (2007) o índice “Pegada Ecológica” mede a quantidade de terra biologicamente produtiva e a área de água necessárias para produzir os recursos que um indivíduo, uma população ou uma atividade consome e para absorver o resíduo que geram, fornecendo tecnologia dominante e gestão de recursos.


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mundial provavelmente triplicará o seu contingente em relação aos números observados no início da década de 1970, fato que certamente contribuirá para o agravamento da crise sócio-ambiental e para a escassez dos recursos naturais.

Quadro 3 – Projeção da População Mundial (2010 a 2050) Ano

População

2010

6.906.558.000

2020

7.667.090.000

2030

8.317.707.000

2040

8.823.546.000

2050

9.191.287.000

Fonte: Adaptado de Organização das Nações Unidas (ONU) (2007)

Esta estimativa em relação ao provável crescimento desenfreado das populações mundiais representa um grande risco para muitas gerações periféricas do presente que já não dispõem de recursos mínimos para a sua sobrevivência e também inclui as gerações futuras daquelas que hoje usufruem dos recursos naturais sem consciência. Percebe-se que a progressão exponencial do crescimento populacional, associada aos conceitos de crescimento vigentes nas sociedades agrícola e industrial alicerçados

unicamente em

um

sistema

econômico

centrado

em

processos

exploratórios, tende a reforçar algumas abordagens que acentuam a crença de que a humanidade está sendo conduzida para uma sucessão de crises mundiais das mais variadas naturezas: catástrofes naturais; ampliação da fome, da miséria e da violência; destruição dos recursos naturais com perda definitiva da biodiversidade; ampliação das disputas territoriais para o domínio e controle dos recursos naturais, entre outros. Outro estudo recente que demonstra os sérios impactos gerados pela sociedade global no ambiente natural, elaborado pelo National Center for Ecological Analisys and Synthesis (2008) da Universidade da Califórnia, trata sobre o impacto das atividades humanas nos ambientes marinhos. Este estudo revela o estado crítico em que se encontram os oceanos em função do incremento das atividades humanas:


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Figura 9 – Impacto Humano nos Ambientes Marinhos Fonte: National Center for Ecological Analisys and Synthesis (2008)

Os mesmos recursos tecnológicos que no passado possibilitaram aos astronautas revelarem a humanidade o seu sentimento pelo planeta Terra, no presente permitem acompanhar o processo de franca expansão das atividades humanas. Na imagem elaborada pelo Defense Meteorological Satellite Program (2007), a partir de diversas fotos de satélite agrupadas, é possível perceber os pontos onde se concentram a maior parte das populações mundiais e as principais atividades econômicas desenvolvidas no planeta. Por meio desta imagem é possível perceber o sucesso da expansão da população humana e do processo de ocupação no planeta Terra. Em razão deste sucesso, diferentes ambientes naturais deram lugar a ambientes artificiais construídos pela sociedade moderna, fato que representou a necessidade da ampliação das atividades industriais e consequentemente, determinou o aumento do consumo de recursos não-renováveis, a exemplo do petróleo, além da necessidade de criação crescente de alternativas energéticas capazes de atender as novas demandas, como as hidroelétricas, as usinas termoelétricas e as usinas atômicas.


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Figura 10 – Luzes da Terra Fonte: Defense Meteorological Satellite Program (2007)

Tais

atividades

contribuíram

significativamente

para

a

alteração

das

características originais do Planeta e para a alteração do clima em diferentes regiões do mundo, de acordo com os dados confirmados pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (2007) e recentemente reforçados pelos dados do Goddard Institute for Spaces Studies (2008), que revelam que o ano de 2007 foi o segundo mais quente do século, perdendo apenas para o ano de 1998. Pelas diversas evidências apontadas ao longo deste estudo, tudo indica que, se mantida a atual forma de relação das diferentes sociedades mundiais com o ambiente natural, desenvolvida com mais ênfase nas últimas cinco décadas, a sociedade global estará inaugurando um novo período em sua relação com o meio ambiente, um período caracterizado pela ampliação dos riscos.

2.2.4. O Reconhecimento da Complexidade Ambiental Apesar

das

importantes

evidências

apresentadas

neste

estudo

e

do

reconhecimento de instituições científicas sobre os efeitos nocivos resultantes das


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atividades humanas desenvolvidas ao longo de vários séculos, os motivos geradores desta realidade ainda estão distantes de serem compreendidos pela maior parte dos indivíduos que integram a sociedade contemporânea em função dos limites impostos pela sua racionalidade dominante. Para aproximar os diferentes indivíduos da crise ambiental anunciada, se faz necessário um número infindável de ações que permitam que estes possam refletir sobre as insuficiências de sua racionalidade, de forma que estas ações resultem em profundas transformações dos comportamentos da sociedade que integram. Para Leff (2003, p. 19) “as mudanças catastróficas na natureza ocorreram nas diversas fases de evolução geológica e ecológica do planeta”. Para o autor, o que difere estas mudanças da crise ecológica atual é que pela primeira vez não se trata de uma mudança natural; e sim de uma transformação da natureza induzida pelas concepções metafísica, filosófica, ética, científica e tecnológica do mundo. Para Leff (2003), a crise ambiental representa uma crise do nosso tempo, onde o risco ecológico questiona o conhecimento do mundo. Para o autor esta crise se apresenta a nós como um limite no real que re-significa e re-orienta o curso da história: limite do crescimento econômico e populacional; limite dos desequilíbrios ecológicos e das capacidades de sustentação da vida; limite da pobreza e da desigualdade social. Para o autor representa também a crise do pensamento ocidental: da “determinação metafísica” que, ao pensar o ser como um ente, abriu a via da racionalidade científica e instrumental que produziu a modernidade como uma ordem coisificada e fragmentada, como formas de domínio e controle sobre o mundo. Leff (2003, p. 19) considera que: A problemática ambiental, mais que uma crise ecológica, é um questionamento do pensamento e do entendimento, da ontologia e da epistemologia com as quais a civilização ocidental compreendeu o ser, os entes e as coisas; da ciência e da razão tecnológica com as quais a natureza foi dominada e o mundo moderno foi economizado.

Para Leff (2006) não basta postular a estabilização da economia e da população em algum momento no próximo século, sem questionar a possibilidade de deter a escala e desconstruir a economia para internalizar as condições de sustentabilidade


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ecológica. A ecologização da economia não é um problema de adequação de ritmos e escalas, mas de mudança de estrutura e construção de uma nova racionalidade. Leff (2006) acredita que dentro da perspectiva atual, é impossível manter um crescimento econômico sustentado, como também a idéia de manter a economia em um estado estacionário, uma vez que a racionalidade econômica – à diferença das sementes terminator – não tem inscritos em seu “código genético” os mecanismos de sua própria desativação. Para o autor, a inércia cumulativa da economia global alcançou uma escala que ultrapassa os limites de sustentabilidade do planeta, onde as externalidades do sistema geraram um estado de escassez absoluta, uma deseconomia global e generalizada. Desta forma, Leff (2006) considera que o destino do desenvolvimento sustentável estaria lançado numa encruzilhada, entre o fatalismo da morte entrópica e a esperança da vontade divina, fato que não oferece saídas à crise do sistema. O autor acredita que: O problema não está em definir as regras que devem normatizar o processo econômico, mas sim nas vias de transição para uma economia em estado estacionário. Mas não há sinais perceptíveis em parte alguma – depois de mais de trinta anos de ter-se apresentado os limites entrópicos do crescimento, mais de vinte anos de políticas neoliberais e mais de 15 anos de uma busca de soluções através do paradigma emergente da economia ecológica – de que a racionalidade econômica contenha os mecanismos para poder desacelerar-se e alcançar um estado estacionário (em equilíbrio com a natureza), sem que o processo leve a seu colapso, e com isso ao da própria natureza. A desconstrução da racionalidade econômica seria tão quimérica como tentar transformar um avião supersônico em pleno vôo em um helicóptero capaz de aterrisar neste mundo antes de estatelar-se contra o tempo. (LEFF, 2006, p. 231).

Ao defender sua proposta a construção de uma racionalidade ambiental23, Leff (2006) afirma que a economia não mostrou ser uma disciplina capaz de delimitar seu campo de conhecimento, de acolher outras racionalidades, de abrir-se à alteridade e à alternativa. Segundo o autor, a economia trata-se de: [...] uma razão totalitária, que se expande e globaliza, que impõe um processo de racionalização que vai ocupando todas as esferas da vida social e da ordem 23

Leff (2006) apresenta a necessidade de construção de uma nova racionalidade, que o autor denomina de racionalidade ambiental, capaz de orientar a construção da sustentabilidade a partir de um encontro de racionalidades, de formas diferentes de pensar, de imaginar, de sentir, de significar e de dar valor às coisas do mundo.


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ecológica. A economia tende, por sua própria “natureza”, a transpor a esfera de produção para capitalizar a natureza e a cultura. A incorporação pela economia das condições ecológicas de sustentabilidade, assim como sua desaceleração e reconversão para uma economia ecologicamente sustentável, não é um problema metodológico, de um ajuste de contas entre paradigmas teóricos; implica sobretudo um processo histórico no qual as estratégias de poder no saber levaram a institucionalizar e legitimar a racionalidade econômica (LEFF, 2006, p. 231).

Para Leff (2006) uma vez que o crescimento econômico não é sustentável e que a racionalidade econômica não contém os mecanismos para sua desativação, o autor julga necessário construir outra racionalidade produtiva, capaz de operar conforme os princípios da sustentabilidade. Leff (2006, p. 232) considera que: Se os recursos da natureza são limitados, se a segunda lei da termodinâmica é inescapável, se a seta do tempo é inelutável e se manifesta na desestruturação dos ecossistemas e na degradação do ambiente; se a capacidade da ciência e da tecnologia para reverter a entropia e para desmaterializar a economia é ilusória e incerta; então uma razão guiada pelo instinto de sobrevivência e pela erotização da vida deve levar a humanidade a procurar novas vias civilizatórias, antes de ficar enredada na complacência generalizada dentro do fanatismo totalitário da ordem econômica estabelecida, na crença de que isso representa um estágio mais alto do desenvolvimento da civilização e que expressa a vontade dos deuses. Além do propósito de incorporar os custos ecológicos dentro de uma racionalidade que os rechaça e exclui, é necessário formular uma nova economia que funcione sobre a base dos potenciais ecológicos do planeta, do poder, do saber, da ciência e tecnologia, e das formas culturais de significação da natureza.

Para Leff (2003, p.16) “a crise ambiental, entendida como a crise de civilização, não poderia encontrar uma solução pela via da racionalidade teórica e instrumental que constrói e destrói o mundo”. Para o autor: Apreender a complexidade ambiental implica um processo de desconstrução e reconstrução do pensamento; remete a suas origens, à compreensão de suas causas; a ver os “erros” da história que se arraigaram em certezas sobre o mundo com falsos fundamentos; a descobrir e reavivar o ser da complexidade que ficou no “esquecimento” com a cisão entre o ser e o ente (Platão), do sujeito e do objeto (Descartes), para apreender o mundo coisificando-o, objetivando-o, homogeneizando-o. Esta racionalidade dominante descobre a complexidade em seus limites, em sua negatividade, na alienação e na incerteza do mundo economizado, arrastado por um processo incontrolável e insustentável de produção (LEFF, 2003, p. 16).

Leff (2003, p. 16 e 17) considera que: A hermenêutica ambiental não é uma exegese de textos em busca dos precursores do saber ambiental, mas uma visão situada a partir da


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complexidade ambiental – entendida como expressão da crise de civilização –, de onde se desentranham as origens e as causas dessa crise, e da qual se projeta o pensamento (da complexidade) para a reconstrução do mundo. A hermenêutica abre os sentidos bloqueados pelo hermetismo da razão.

Para Leff (2003, p. 17) “na crítica radical das causas da crise ambiental nas formas de conhecimento do mundo, se projeta um futuro aberto, com base na diferenciação dos sentidos do discurso ambientalista”, na qual a “[...] reconstrução social se funda em um novo saber, a partir da pergunta pelas origens dessa racionalidade em crise” e “pelo conhecimento do mundo que tem sustentado a construção de um mundo insustentável”. Para o autor a crise ambiental problematiza o pensamento metafísico e a racionalidade científica, possibilitando “[...] novas vias de transformação do conhecimento através do diálogo e da hibridação de saberes” (LEFF, 2003, p. 17). Para Leff (2003) o ato de aprender a aprender a complexidade ambiental exige uma reapropriação do mundo desde o ser e no ser; um reaprender mais profundo e radical que a aprendizagem das “ciências ambientais” que buscam internalizar a complexidade ambiental dentro de uma racionalidade em crise. Para o autor, “neste sentido, o saber ambiental retoma a questão do ser no tempo e o conhecer na história; do poder no saber e a vontade de poder, que é um querer saber” (LEFF, 2003, p. 19). Para Leff (2003, p. 22): A complexidade ambiental abre uma nova reflexão sobre a natureza do ser, do saber e do conhecer; sobre a hibridação do conhecimento na interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade; sobre o diálogo dos saberes e a inserção da subjetividade dos valores e dos interesses na tomada de decisões e nas estratégias de apropriação da natureza. Mas também questiona as formas em que os valores permeiam o conhecimento do mundo, abrindo um espaço para o encontro entre o racional e o moral, entre a racionalidade formal e a racionalidade substantiva.

Para Leff (2003, p. 24 e 25): Na epopéia do ser humano por salvar sua falta em ser através do conhecimento, tentou colmar sua incompletude com a idéia absoluta, com uma razão ordenadora, com uma certeza e uma autoconsciência de seu lugar no mundo. Nessa empresa por compreender, por ordenar, por dominar e controlar, coisificou o mundo, desestruturando a natureza e acelerando o desequilibro ecológico; ao submeter a natureza às leis de suas certezas e seu controle, abriu


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as comportas do caos e da incerteza. Essa é a crise do nosso tempo; daí a necessidade de entender suas raízes no pensamento para aprender a aprender a complexidade ambiental que oriente a reconstrução do mundo atual.

Pelas razões explicitadas, Leff (2003, p. 40 e 41) considera que: A crise ecológica tem sido acompanhada pela emergência do pensamento da complexidade, a teoria de sistemas, a teoria do caos e as estruturas dissipativas. O fracionamento do corpo das ciências enfrenta a complexidade do mundo propondo a necessidade de construir um pensamento holístico reintegrador das partes fragmentadas do conhecimento para a retotalização de um mundo globalizado; os paradigmas interdisciplinares e a transdisciplinaridade do conhecimento surgem como antídotos para a divisão do conhecimento gerado pela ciência moderna.

Ao que parece, a complexidade da crise ambiental em curso exige uma urgente superação dos paradigmas dominantes baseados na matriz do pensamento linear para a reconstrução da realidade coletiva, de forma que possa representar o surgimento de uma realidade social baseada em um novo tipo de racionalidade de fato compatível com os interesses de manutenção da vida e de sustentação das gerações presentes e das futuras. Sem a superação da forma racional de pensar dominante que prioriza a dimensão econômica em detrimento de outras dimensões, parece pouco provável que os objetivos pretendidos pelos discursos que pregam o desenvolvimento sustentável e a sustentabilidade possam ser de fato atingidos. 2.2.5. A Proposta e o Discurso da Sustentabilidade

Desde o alerta de Carson, as quase cinco décadas que demarcaram o fim do século XX e o início do século XXI serviram de palco para discussões mundiais em torno das questões sociais e ambientais. Ao longo deste período, algumas transformações em termos de criação de novos instrumentos e aprimoramento das pesquisas científicas foram obtidas, mas ao que tudo indica, ao invés de neutralizar o surgimento de novas evidências em torno do agravamento da crise sócio-ambiental em curso, serviram apenas para demonstrar que os resultados desejados não foram plenamente ou suficientemente efetivados.


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Os diversos e diferentes estudos realizados ao longo deste período geraram profundas reflexões no meio científico quanto aos limites da racionalidade econômica e os seus reflexos indesejados na forma de ser e agir das sociedades contemporâneas. Apontaram também para os limites finitos dos recursos naturais, a desigualdade social, a distribuição desigual de renda, a situação caótica da fome e da pobreza de grandes contingentes populacionais, além da necessidade do estabelecimento de um novo conceito de desenvolvimento, na busca de estabelecer uma melhor relação de equilíbrio em termos econômico, social, ambiental, político e espacial. Um dos estudos mais relevantes desenvolvidos neste período e que ainda se mantém atual em termos de proposta para reflexões sobre a crise sócio-ambiental contemporânea foi publicado pelo Clube de Roma em 1972, sob o título Limites do Crescimento (também conhecido como relatório de Meadows, em homenagem a um de seus autores). Neste relatório foram retratadas as análises de um grupo multidisciplinar formado por cientistas, educadores, economistas, humanistas, industriais e funcionários públicos de nível nacional e internacional, sobre o complexo de problemas que afligiam os povos de todas as nações, os quais envolviam a população, produção agrícola, recursos naturais, produção industrial e poluição. Há mais de três décadas, Meadows (1972) já indicava que o dilema da humanidade residia no fato de que, apesar do homem ser capaz de perceber a problemática, não conseguia compreender as origens, a significação e as correlações de seus vários componentes. O relatório considerava que o fracasso ocorria, em grande parte, pela insistência dos seres humanos em examinar elementos isolados na problemática, sem compreender que o todo é maior do que suas partes; que a mudança em um dos elementos significa a mudança nos demais. Um dos fatores que faz do relatório do Meadows relevante para o contexto da crise sócio-ambiental em curso são algumas evidências por ele retratadas sobre o comportamento dos indivíduos. Meadows (1972) já apontava diferentes tipos de pressões e de problemas que as pessoas enfrentavam, os quais, ao mesmo tempo em que exigem delas a sua atenção e sua ação, as afastam da possibilidade de refletir sobre o seu futuro e da sociedade em um contexto mais amplo. No relatório, são


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apontadas algumas evidências destes comportamentos, como o fato das pessoas gastarem a maior parte do seu tempo tentando garantir para si e sua família o alimento do amanhã, de estarem interessadas no poder pessoal ou da nação onde vivem ou pela necessidade de preocuparem-se com uma guerra mundial no curso de sua vida. Tais situações foram ilustradas no relatório por meio da figura 11:

Figura 11 – Perspectivas Humanas em Relação ao Futuro Fonte: Meadows (1972, p. 14)

Nesta figura, as preocupações da humanidade estão assentadas nas dimensões de espaço e tempo, onde todo o interesse humano pode situar-se em algum ponto, dependendo do espaço geográfico que ele abrange e até onde se prolonga no tempo. Desta forma, de acordo com a representação gráfica, a maioria das preocupações das pessoas estaria concentrada no ângulo inferior esquerdo do gráfico, condição que as


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impediria de se preocuparem com situações relacionadas ao seu próprio futuro e ao futuro das próximas gerações envolvendo esferas maiores da sociedade. Para Meadows (1972, p. 16): A maioria da população mundial preocupa-se com questões que afetam somente a família ou os amigos, em períodos curtos de tempo. Outros olham mais à frente, ou têm visão mais ampla – uma cidade ou nação. Apenas muito poucas pessoas têm uma perspectiva global que se projeta em um futuro distante.

As questões levantadas pelo relatório de Meadows, contribuíram para o surgimento de novos debates em nível global. Ao longo das últimas cinco décadas, diversas plenárias mundiais foram estabelecidas na busca de novas alternativas para o crescimento e para o desenvolvimento, dentre elas, a que originou a expressão desenvolvimento sustentável. De acordo com Leff (2006, p.136 e 137) “nos anos 1980, as estratégias do desenvolvimento foram deslocadas pelo discurso do desenvolvimento sustentável”. Segundo o autor, embora essa noção já tivesse se insinuado a partir dos textos da Estratégia Mundial de Conservação, de 1980, foi no relatório denominado Nosso Futuro Comum, mais conhecido como Relatório de Brundtland, que se formulou a definição do desenvolvimento sustentável como “processo que permite satisfazer as necessidades da população atual sem comprometer a capacidade de atender às gerações futuras”. No Relatório Brundtland, publicado em 1987 e que em 2007 comemorou 20 anos, foram efetuadas diversas reflexões no contexto social, econômico e ecológico em escala global, valorizando a relação de interdependência entre estes elementos. Durante a realização do estudo foram propostas diversas medidas para a busca do desenvolvimento em condições de equilíbrio: controle do crescimento populacional, garantia de produção de alimentos a longo prazo, preservação dos recursos naturais, redução nos níveis de consumo de energia, desenvolvimento de pesquisas no campo de fontes energéticas renováveis, adequação da produção industrial com base em tecnologias ecologicamente adaptadas, controle da urbanização desenfreada, melhor adequação da relação cidade-campo e em especial, a satisfação das necessidades básicas das populações mais carentes.


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De acordo com Leff (2006), a intenção da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento era a de avaliar os avanços dos processos de degradação ambiental e a eficácia das políticas ambientais, de forma a criar uma visão compartilhada por todas as nações do mundo sobre as condições para alcançar a sustentabilidade ecológica e a sobrevivência do gênero humano. Segundo o autor, foi a partir deste momento que a noção de desenvolvimento sustentável converteu-se no referente discursivo e no “saber de fundo” que organiza os sentidos divergentes em torno da construção das sociedades sustentáveis. Para Leff (2006, p.133 e 134): O princípio da sustentabilidade emerge no discurso teórico e político da globalização econômico-ecológica como a expressão de uma lei-limite da natureza diante da autonomização da lei estrutural do valor. A crise ambiental veio questionar os fundamentos ideológicos e teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza e a cultura, deslocando a relação entre o real e o simbólico. A sustentabilidade ecológica aparece assim como um critério normativo para a reconstrução da ordem econômica, como uma condição para a sobrevivência humana e para um desenvolvimento durável; problematiza as formas de conhecimento, os valores sociais e as próprias bases da produção, abrindo uma nova visão do processo civilizatório da humanidade.

Para Leff (2006, p. 134), “a noção de sustentabilidade emerge, assim, do reconhecimento da função que a natureza cumpre como suporte, condição e potencial do processo de produção”. As evidências do agravamento das crises sócio-ambientais demonstram que as recomendações para o atingimento do estado de desenvolvimento sustentável não obtiveram êxito. Provavelmente parte da explicação deste fenômeno resida na explicação de Lovelock (2006, p. 16), quando menciona o significado da expressão “desenvolvimento sustentável” criada por Gisbert Glaser, consultor sênior do International Council for Science: O desenvolvimento sustentável é um alvo móvel. Representa o esforço constante em equilibrar e integrar os três pilares do bem-estar social, prosperidade econômica e proteção ambiental em benefício das gerações atual e futura.

Leff (2006) acredita que o discurso do desenvolvimento sustentável procura estabelecer um terreno comum para uma política de consenso capaz de integrar os


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diferentes interesses dos países, povos e classes sociais que plasmam o campo conflitivo da apropriação da natureza. Para o autor: A ambivalência do discurso do desenvolvimento sustentado/sustentável se expressa já na polissemia do termo sustainability, que integra dois significados: o primeiro, traduzível como sustentabilidade, implica na incorporação das condições ecológicas – renovabilidade da natureza, diluição de contaminadores, dispersão de dejetos – do processo econômico; o segundo, que se traduz como desenvolvimento sustentado, implica a perdurabilidade no tempo do progresso econômico. Se a crise ambiental é produto da negação das bases naturais nas quais se sustenta o processo econômico, então a sustentabilidade ecológica aparece como condição da sustentabilidade temporal do processo econômico. No entanto, o discurso do desenvolvimento sustentado chegou a afirmar o propósito de tornar sustentável o crescimento econômico através de mecanismos do mercado, atribuindo valores econômicos e direitos de propriedade aos recursos e serviços ambientais, mas não oferece uma justificação rigorosa sobre a capacidade do sistema econômico para incorporar as condições ecológicas e sociais (sustentabilidade, equidade, justiça, democracia) deste processo através da capitalização da natureza (LEFF, 2006, p. 137).

Desta forma, alguns pesquisadores como Lovelock (2006, p. 82), consideram que “as expressões ‘desenvolvimento sustentável’ e ‘energia renovável’ entraram no jargão da política, sendo empregadas pelos políticos para mostrar sua preocupação com o meio ambiente e suas credenciais verdes”. Com relação à apropriação indevida do termo, Leff (2006, 139) considera que: Se nos anos 1970 a crise ambiental tornou necessário que se colocasse um freio antes que o colapso ecológico fosse alcançado, a partir dos anos 1980 o discurso neoliberal anunciou a desaparição da contradição entre ambiente e crescimento [...] na perspectiva neoliberal, desaparecem as causas econômicas dos problemas ecológicos. A crise ambiental não é mais um efeito da acumulação de capital, mas resultado do fato de não haver outorgado direitos de propriedade (privada) e atribuído valores (de mercado) aos bens comuns. Uma vez estabelecido o anterior – afirma o discurso do desenvolvimento sustentado -, as leis clarividentes do mercado se encarregariam de ajustar os desequilíbrios ecológicos e as diferenças sociais, a equidade e a sustentabilidade.

Desta

forma,

para

Leff

(2006),

o

discurso

do

desenvolvimento

sustentado/sustentável foi vulgarizado até se tornar parte do discurso oficial e da linguagem comum. Para Redclift, Martínez Alier e Escobar citados por Leff (2006, p. 138):


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As contradições não apenas se fazem manifestas pela falta de rigor do discurso, mas também em sua colocação em prática, quando surgem os dissensos em torno do discurso do desenvolvimento sustentado/sustentável e os diferentes sentidos que este conceito adota em relação aos interesses contrapostos pela apropriação da natureza.

Para Leff (2006, p. 139) “o discurso do desenvolvimento sustentado promove o crescimento econômico negando as condições ecológicas e termodinâmicas que estabelecem os limites e possibilidades de uma economia sustentável”. Para o autor: A natureza está sendo incorporada ao capital mediante uma dupla operação: de um lado, procura-se internalizar os custos ambientais do progresso atribuindo valores econômicos à natureza; ao mesmo tempo, instrumentaliza-se uma operação simbólica, “um cálculo de significação” (Baudrillard, 1974) que recodifica o homem, a cultura e a natureza como formas aparentes de uma mesma evidência: o capital. Assim, os processos ecológicos e simbólicos são reconvertidos em capital natural, humano e cultural, para serem assimilados pelo processo de reprodução e expansão da ordem econômica, reestruturando as condições da produção mediante uma gestão economicamente racional do ambiente. (LEFF, 2006, p. 139 e 140)

Para Daly citado por Leff (2006, p.140) “a ideologia do desenvolvimento sustentado libera o mercado, desencadeando um processo incontrolado e desregulado de produção, um delírio da razão econômica, uma mania de crescimento”. Para Leff (2006), “o discurso da sustentabilidade aparece assim como um simulacro que nega os limites do crescimento para afirmar a corrida desenfreada em direção à morte entrópica do planeta”, onde “o discurso da sustentabilidade opera como uma estratégia fatal, uma inércia cega que se precipita em direção á catástrofe”. Para Leff (2006, p. 140), o discurso de Baudrillard se reflete e encontra seu referente no discurso do desenvolvimento sustentado e em manifestações da crise ambiental quando afirma que: Estamos governados não tanto pelo crescimento, mas por crescimentos. Nossa sociedade está fundada na proliferação, em um crescimento que continua apesar de não poder medir-se diante de nenhum objetivo claro. Uma sociedade excrescente cujo desenvolvimento é incontrolável, que ocorre sem considerar sua autodefinição, onde a acumulação de efeitos vai de mãos dadas com a desaparição das causas. O resultado é um congestionamento sistêmico bruto e um mau funcionamento causado por uma hipertelia: por um excesso de imperativos funcionais, por uma sorte de saturação [...] As próprias causas tendem a desaparecer, a se tornar indecifráveis, gerando a intensificação de processos que operam no vazio. Enquanto existir uma disfunção do sistema,


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um desvio de leis conhecidas que governam sua operação, sempre existirá a perspectiva de transcender o problema. Mas, quando o sistema se precipita sobre seus pressupostos básicos, desabordando seus próprios fins, de maneira que não é possível encontrar-se nenhum remédio, não estamos contemplando mais uma crise e sim uma catástrofe [...]. O que chamamos de crise é de fato a antecipação de sua inércia absoluta (BAUDRILLARD CITADO POR LEFF, 2006, p. 140).

Leff (2006) acredita que a racionalidade econômica resiste à sua desconstrução por meio da sustentação do discurso do desenvolvimento sustentado. Neste contexto “o ambiente é reapropriado pela economia, fragmentando e recodificando a natureza como elementos do sistema: do capital globalizado e da ecologia generalizada” (LEFF, 2006, p. 142). Para o autor: O discurso do desenvolvimento sustentado colonizou a natureza, convertendo-a em capital natural. A força de trabalho, os valores culturais, as potencialidades do homem e sua capacidade inventiva se transmutam em capital humano. Tudo é redutível a um valor de mercado e representável pelos códigos do capital. O capital clona as identidades para assimilá-las a uma lógica, a uma razão, a uma estratégia de poder para a apropriação da natureza como meio de produção e de reprodução da racionalidade econômica. Dessa maneira, as estratégias de sedução e de simulação do discurso do desenvolvimento sustentado constituem o mecanismo extra-econômico por excelência da pós-modernidade para manter o domínio sobre o homem e a natureza.

Para Leff (2006, p.143) “as políticas de desenvolvimento sustentado procuram conciliar os lados opostos contrários da dialética do desenvolvimento: o meio ambiente e o crescimento econômico”. Segundo o autor, neste discurso a tecnologia desempenharia o papel de reverter os efeitos da degradação entrópica nos processos de produção, distribuição e consumo de mercadorias, erguendo assim “[...] uma cortina de fumaça que mascara as causas da crise ecológica”. Em sua reflexão, Leff (2006, p. 143) considera que o discurso do desenvolvimento sustentado não significaria “apenas mais uma volta na porca da racionalidade econômica, mas um salto mortal, um vôo e um aperto na razão”. Para o autor o seu objetivo final não seria: [...] internalizar as condições ecológicas da produção, e sim postular o crescimento econômico como um processo “sustentável”, sustentado nos mecanismos do livre mercado e na tecnologia, que seriam meios eficazes para garantir o equilíbrio ecológico e a justiça ambiental (LEFF, 2006, p. 143).


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Leff (2006, p.145) acredita que assim: As estratégias do capital para reapropriar-se da natureza vão degradando o ambiente em um mundo sem referentes nem sentidos, sem relação entre o valor de troca e a utilidade do valor de uso. A economia do desenvolvimento sustentado funciona dentro de um jogo de poder que outorga legitimidade à ficção do mercado, conservando os pilares da racionalidade do lucro e o poder de apropriação da natureza fundado na propriedade privada do conhecimento científico-tecnológico. As estratégias fatais da globalização econômica conduzem a uma nova geopolítica da biodiversidade, da mudança climática e do desenvolvimento sustentado.

Leff (2006, p.145 e 146) considera que: No processo de objetivação do mundo, o valor de troca desvinculou-se de sua conexão com o real, a economia se desprendeu da condição de materialidade da natureza e da necessidade humana; a generalização dos intercâmbios comerciais se converteu em uma lei universal, invadindo todos os domínios do ser e os mundos de vida das gentes. Com a invenção da ciência econômica e a institucionalização da economia como regras de convivência universal, teve início um processo de cinco séculos de economização do mundo. Tal processo de expansão da racionalidade econômica chegou a seu ponto de saturação e a seu limite, por efeito de sua extrema vontade de globalizar o mundo devorando todas as coisas e traduzindo-as aos códigos da racionalidade econômica, razão que sustenta a impossibilidade de pensar e agir conforme as condições da natureza, da vida e da cultura. Esse processo econômico não apenas exsuda externalidades que seu próprio metabolismo econômico não pode absorver; mas, além disso, através de sua crença fundamentalista e totalitária, se encrava no mundo destruindo o ser nas coisas – a natureza, a cultura, o homem – para reconvertê-las a sua forma unitária e universal. Nesse sentido, o processo de globalização – os crescentes intercâmbios comerciais, as telecomunicações eletrônicas com a interconexão imediata de pessoas e fluxos financeiros que parecem eliminar a dimensão espacial e temporal da vida, a planetarização do aquecimento da atmosfera e, inclusive, a aceleração das migrações e das mestiçagens culturais – foi mobilizado e sobredeterminado pelo domínio da racionalidade econômica sobre os demais processos de globalização. A hipereconomização do mundo induz a homogeneização dos padrões de produção e consumo, e atenta contra um projeto de sustentabilidade global fundado na diversidade ecológica e cultural do planeta.

Para Leff (2006, p.147): No discurso do desenvolvimento sustentado, a fase atual do capital ecologizado e da capitalização da natureza aparece como um novo estágio no qual o capital seria capaz de exorcizar seus demônios e resolver contradições que o têm acompanhado desde sua acumulação originária até a globalização econômica atual. No entanto, tendo chegado ao seu limite e diante da impossibilidade de estabilizar-se como organismo vivo, o capital dá prosseguimento a uma inércia expansionista, que descarrega sobre a natureza os desejos do processo de “criação destrutiva” do capital. A geopolítica da biodiversidade e da mudança climática não apenas prolonga e intensifica os processos anteriores de


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apropriação destrutiva dos recursos naturais, mas também altera as formas de intervenção e apropriação da natureza, levando ao seu limite a lógica econômica, enquanto sua inércia de crescimento desborda os limites da sustentabilidade do planeta.

Leff (2006) menciona que economistas ecológicos como René Passet, Herman Daly, José Neredo e Joan Martínez Alier já perceberam as limitações que o mercado tem para regulamentar efetivamente os equilíbrios ecológicos, bem como sua capacidade para internalizar os custos ambientais através de um sistema de normas legais, de impostos ou de um mercado de licenças transacionáveis para a redução das emissões de gases que causam o aquecimento global do planeta. De acordo com o autor, estes economistas sugerem assim que: A economia deve contrair-se aos limites de uma expansão que assegure a reprodução das condições ecológicas de uma produção sustentável e de regeneração do capital natural, de um princípio de precaução baseado no cálculo de risco e na incerteza e em limites impostos através de um debate científico-político afastado do mercado.

Porém, Leff (2006, p.148) considera que a “racionalidade econômica carece de flexibilidade e maleabilidade para ajustar-se às condições de sustentabilidade ecológica do planeta” e que apesar do debate político ter sido enriquecido pelos aportes da ciência a respeito dos riscos ecológicos do desflorestamento, da erosão genética e do aquecimento global, este não logrou livrar-se das razões de força maior do mercado. Para o autor: A lei da entropia, que estabelece limites físicos e termodinâmicos do crescimento econômico, é negada pela teoria e pelas políticas de desenvolvimento sustentado. Mas a teoria crítica da economia baseada nas leis da natureza, antes de ter fundado a positividade de um novo paradigma econômico (de uma economia ecológica), abriu as comportas ao campo emergente da ecologia política, onde o debate científico se desloca para os conflitos ambientais. O tema sustentabilidade se inscreve nas lutas sociais pela apropriação da natureza, orientando a reflexão teórica e a ação política para o propósito de desconstruir a lógica econômica e construir uma racionalidade ambiental. (LEFF, 2006, p. 148)

Leff (2006, p.160) acredita que: A sustentabilidade emerge como uma fratura da razão modernizadora, que leva a construir uma racionalidade produtiva fundada no potencial ecológico da biosfera e nos sentidos civilizatórios da diversidade cultural. A racionalidade


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ambiental não é a atualização da razão pura na complexidade ambiental; é uma estratégia conceitual que orienta uma práxis de emancipação do mundo hiperobjetivado e do logocentrismo no conhecimento. É um retorno à ordem simbólica para ressignificar o mundo.

Para Leff (2006, p.172 e 173): A crise ambiental irrompeu em um mundo no qual a economia ficou desprovida de lei e de valor, no qual a natureza se desnaturaliza e se coisifica, em que a dialética procura ancorar-se nas leis da natureza, em que o mundo se converte em um hiper-realidade onde o simbólico parece perder sua referencialidade e sua conexão com o real. Exatamente nesse ponto, quando as estratégias do código econômico triunfam sobre a lei do valor, quando os conceitos perdem sua referência no real, quando o simbólico parece emancipar-se do fático e a ecologia fracassa em sua tentativa de enraizar o mundo na ordem da vida; quando o projeto da racionalidade científica entra em colapso e o mundo parece flutuar na incerteza e na relatividade dos signos, quando a hiper-realidade gerada pelas estratégias fatais do código parecem burlar o pensamento e o discurso do desenvolvimento sustentável seduz o interesse prático ao procurar o equilíbrio guiado por um mercado sem valores; quando o construtivismo e a hermenêutica conduzem o pensamento à conformidade e ao jogo de sentidos, mais além de qualquer determinismo ontológico; quando são vencidas a lei e a norma fundadas na natureza e na ética; nesse vazio ontológico e nesse reino da dissimulação, emerge a entropia como lei-limite da racionalidade econômica. A natureza se impõe às falácias, às ficções e às especulações do discurso do desenvolvimento sustentado: as de uma ordem simbólica autônoma desprendida de sua conexão com o real.

Para Leff (2006, p. 225 e 226) a tomada de consciência a respeito dos limites do crescimento, que surge da visibilidade da degradação ambiental desponta como uma crítica ao paradigma normal da economia. Para o autor: Na beira do precipício, soou o alarme ecológico anunciando uma catástrofe tão inesperada como impensável na auto-complacência do progresso científicoecológico, e a convicção, tanto no campo capitalista como no socialista, de que o desenvolvimento das forças produtivas abriria as portas para uma sociedade de pós-escassez e à liberação do homem do reino da necessidade. (LEFF, 2006, p. 225)

Desta forma Leff (2006), reforça que o paradigma econômico tem sido incapaz de assimilar a crítica apresentada pela lei da entropia e da racionalidade econômica. De acordo com o autor, diante das propostas de colocar um freio no crescimento e da transição a uma economia de estado estacionário, a teoria e as políticas econômicas procuram iludir o limite e acelerar o processo de crescimento, montando um dispositivo ideológico e uma estratégia de poder para capitalizar a natureza, de onde surge o


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discurso neoliberal e a geopolítica do desenvolvimento sustentável, reafirmando o livre mercado como mecanismo mais clarividente e eficaz para ajustar os desequilíbrios ecológicos e as desigualdades sociais. Ao que tudo indica, o desafio proposto para a sociedade contemporânea para o real atingimento do estado de desenvolvimento sustentável somente será possível se contemplar urgentes reflexões e mundanças nas características da matriz de pensamento que determina as ações emanadas de sua racionalidade dominante. 2.2.6. A Iminência da Consolidação da Sociedade de Risco

No “epicentro” da crise sócio-ambiental já anunciada, se encontram diferentes tipos de organizações sociais, que em sua grande maioria e no conjunto, contribuem para a perpetuação e o agravamento das evidências apresentadas. Muitas dessas organizações sociais, ao assumirem as premissas máximas de uma racionalidade centrada em aspectos econômicos orientados pela ação racional instrumental, falham por não considerar a adoção de alternativas compatíveis com o estabelecimento de um desenvolvimento de fato sustentável. Por força da racionalidade predominante na sociedade, a grande maioria das organizações sociais ainda atua exclusivamente com foco nos resultados econômicos, negando ou ignorando questões de caráter social e ambiental, notadamente vitais para a sobrevivência humana. Na busca de respostas para os objetivos definidos na proposta de realização desta pesquisa, se fez necessário primeiro compreender a realidade das racionalidades e das dimensões econômica, social, ambiental, política e espacial na qual a sociedade, e mais especificamente, as indústrias químicas se encontram inseridas. Em função do senso comum vigente na sociedade, no qual está impresso que as indústrias químicas representam

riscos

para

o

conjunto

do

meio

ambiente,

optou-se

para

o

desenvolvimento do presente estudo pela adoção da abordagem elaborada por pelo sociólogo alemão Ulrich Beck em seu livro denominado “A Sociedade de Risco Global”. Beck (2006) considera que em todo mundo, a sociedade contemporânea está submetida a uma mudança radical, fato que originou os debates sociológicos ocorridos na década de 1990 que tentam captar e conceituar esta reconfiguração, sobre a qual


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alguns autores colocam grande ênfase na abertura do projeto humano em meio a novas contingências, complexidades e incertezas. A partir do campo de estudos da sociologia, Beck (2006) cita algumas das abordagens e autores que tentam delimitar este período de transição: pós-modernidade (Bauman, Lyotard, Harvey, Haraway), modernidade tardia (Giddens), era global (Albrow) ou modernidade reflexiva (Beck, Giddens, Lash). Em sua abordagem Beck (2006) considera que a sociedade contemporânea vive um momento de transição em algum ponto entre a primeira modernidade e uma segunda modernidade ou modernidade reflexiva, as quais o autor caracteriza da seguinte forma:

Quadro 4 – Caracterização da Primeira e da Segunda Modernidade

Primeira Modernidade

Corresponde a uma modernidade baseada nas sociedades de Estados-Nação, onde as relações e redes sociais e as comunidades se entendem essencialmente em um sentido territorial, na qual as pautas coletivas de vida, progresso, controle, pleno emprego e exploração da natureza se encontram cercadas por cinco processos inter24 relacionados: a globalização, a individualização , a revolução dos gêneros, o subemprego e os riscos globais (como a crise ecológica e o colapso dos mercados financeiros globais).

Segunda Modernidade ou Modernidade Reflexiva

Período que se configura como um autêntico desafio teórico e político, no qual a sociedade deve responder simultaneamente a todos os desafios gerados na primeira modernidade, os quais o autor considera como conseqüências imprevistas da vitória da primeira modernização, simples, linear e industrial, baseada no estado nacional.

Fonte: Adaptado de Beck (2006) No período que o autor busca caracterizar como segunda modernidade, Beck (2006, p. 2 e 3) acredita que “está construindo-se um novo tipo de capitalismo, um novo tipo de economia, um novo tipo de ordem global, um novo tipo de sociedade e um novo tipo de vida pessoal”, fatos que a tornam diferente de fases anteriores do desenvolvimento social. Por essa razão o autor considera que em termos sociológicos e 24

Para Beck (2006) o processo de individualização surge quando os indivíduos passam a assumir um sentimento maior de subjetividade, momento em que assumem de forma ativa os destinos de sua sociedade. Segundo o autor, este processo surge da exaustão, dissolução e desencantamento das fontes de significado e específicas de grupos (com o a crença no progresso, a consciência de classe) da cultura da sociedade industrial (cujos estilos de vidas e idéias de segurança também foram fundamentais para as democracias ocidentais e para as sociedades econômicas até bem entrado o século XX) conduzem a todo o trabalho de definição que desde então se espera ou impõem aos próprios indivíduos.


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políticos se faz necessário uma mudança de paradigma, um novo marco de referência, a qual segundo ele não se trata de “pós-modernidade”, mas sim de uma “segunda modernidade”. Em sua proposta de caracterização de um novo momento demarcado pela iminência da consolidação de uma sociedade de risco global, Beck (2006) considera o risco25 como sendo o seu elemento principal. O autor justifica sua afirmação mencionando que apesar de toda a sociedade ter experimentado perigos, o regime do risco trata-se de uma função de ordem nova, uma vez que não é nacional, e sim global, e por estar diretamente relacionado com o processo administrativo e técnico de decisão. Para Beck (2006, p. 118 e 119): Os riscos sempre dependem de decisões: ou seja, pressupõem decisões. Surgem da transformação da incerteza e dos perigos em decisões (e exigem a tomada de decisões, que por sua vez produz riscos). As ameaças incalculáveis da sociedade pré-industrial (peste, fome, catástrofes naturais, guerras, mas também magia, deuses, demônios) se transformam em riscos calculáveis no curso do desenvolvimento do controle racional instrumental que o processo de modernização promove em todas as esferas da vida. Isto caracteriza as situações e os conflitos nova sociedade clássica industrial e burguesa. Em direção de sua expansão, este não só é válido para a aplicabilidade das capacidades de produção, ingressos fiscais, cálculo dos riscos de exportação e conseqüências da guerra, mas também para as vicissitudes das vidas individuais: acidentes, enfermidades, morte, inseguridade social e pobreza.

Desta forma, Beck (2006) considera que a sociedade industrial se inclina além do limite da segurabilidade, transformando-se involuntariamente em uma sociedade de risco através de seus próprios perigos sistematicamente produzidos, sendo que a racionalidade na qual se baseia se deriva da racionalidade que está no núcleo desta sociedade: a racionalidade econômica. Para Beck (2006, p. 121): São as companhias seguradoras privadas as que estabelecem ou indicam a barreira fronteiriça da sociedade de risco. Com a lógica do comportamento econômico contradizem as regras de segurança formuladas pelos técnicos e indústrias de perigo, ao afirmar que, no caso de riscos pouco prováveis, mas de graves conseqüências, embora seja possível que os riscos técnicos tendam a zero, os riscos econômicos são potencialmente infinitos. 25

Beck (2006, p. 5) entende como risco “o enfoque moderno da previsão e controle das conseqüências futuras da ação humana, as diversas conseqüências não desejadas da modernização radicalizada”.


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Desta forma, segundo Beck (2006), a sociedade de risco se caracteriza por ter invalidado as decisões que eram tomadas com base em normas fixas de calculabilidade associadas a meios e fins ou causas e efeitos. O autor acredita que a partir do momento que a sociedade passou a desenvolver atividades que deixaram de ser cobertas por seguros, a condição da iminência do risco foi institucionalizada. Como exemplos que evidenciam a existência do risco, Beck (2006) cita a ausência de seguros para a cobertura de desastres nucleares, contra os efeitos indesejados ocasionados pelo fenômeno do aquecimento global ou graves conseqüências que possam ser causadas por diversos tipos de tecnologias futuras, a exemplo das novas tecnologias que envolvem a engenharia genética. Para Beck (2006, p.5), “o conceito de risco e sociedade de risco combina o que estava excluído mutuamente há tempos: sociedade e natureza, ciências sociais e ciências naturais, construção discursiva do risco e materialidade das ameaças”. Beck (2006, p. 6) acredita que “os riscos se converteram em uma das principais forças de mobilização política, substituindo muitas vezes as referências e as desigualdades associadas à classe, raça ou gênero”. O autor acredita que de forma simultânea, a nova preeminência do risco vincula, por um lado, a autonomia individual e a insegurança no mercado de trabalho e em relação de gênero, por outro lado, influencia as mudanças científicas e tecnológicas. Para o autor a sociedade de risco global abre o discurso público e a ciência social aos desafios da crise ecológica, que na contemporaneidade se faz global, local, e pessoal ao mesmo tempo. Em seu estudo o autor apresenta algumas conseqüências da sociedade de risco, chamando a atenção para o fato de que a globalização do risco não significa uma igualdade global do risco. A título de exemplo, Beck (2006) menciona a primeira lei dos riscos ambientais a qual considera que a contaminação segue a pessoa pobre. O autor cita dados da Organização das Nações Unidas (ONU), que afirmam que mais de 2.400 milhões de pessoas vivem sem saneamento; 1.200 milhões carecem de água potável segura; um número parecido carece de habitações e serviços sanitários e educativos adequados; mais de 1.500 milhões sofrem de desnutrição, não pela falta de comida ou pela seca, mas pela crescente marginalização e exclusão dos pobres. O autor revela


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ainda dados curiosos sobre os hábitos de consumo de determinados segmentos abastados da sociedade global, mencionando que graças a acordos cruciais para o livre comércio, a exemplo da OMC e do Nafta, o consumo está praticamente fora de controle nos países mais ricos, o qual, segundo a ONU, foi sextuplicado em menos de vinte e cinco anos. De acordo com os dados da entidade, os vinte por cento mais ricos da população destes países consomem aproximadamente seis vezes mais comida, energia, água, transporte, petróleo e minerais em relação ao que consumiam os seus pais. Beck (2006) menciona que na atualidade se podem ilustrar os componentes constitutivos dos riscos do mercado global mediante a experiência da crise asiática, da mesma forma que em 1986 se podiam ilustrar os aspectos de risco tecnológico e ecológico global mediante o acidente nuclear ocorrido em Chernobil. Com base em seus estudos, Beck (2006) considera que vivemos em uma era de risco que é global, individualista e mais moral do que supomos26, onde a ética da auto-realização e sucesso individual são a corrente mais poderosa da sociedade ocidental moderna. O autor acredita que escolher, decidir e configurar indivíduos que aspiram a ser autores de sua vida, criadores de sua identidade, são as características centrais de nossa era. Para Beck (2006), se pensada até suas últimas conseqüências, a sociedade de risco significa sociedade de risco global. Nela seus desafios são os perigos produzidos pela civilização que não podem delimitar-se socialmente nem em termos de espaço, nem em termos de tempo. Para o autor, neste sentido, as condições e princípios básicos da primeira modernidade como o antagonismo de classe, estabilidade nacional, imagens da racionalidade e do controle linear, tecnoeconômico, são evitadas e anuladas. O autor considera que o conceito da teoria da sociedade de risco global pode ser respondida sob a luz de duas perspectivas:

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Beck (2006) acredita que apesar da geração do “primeiro eu” ser muito criticada, que o seu individualismo é mais moral e político em um sentido novo. O autor considera que a época atual é mais moral que a dos anos 50 e 60, que os filhos da liberdade têm sentimentos mais apaixonados e morais sobre uma ampla gama de questões, desde o trato ao meio ambiente aos animais, envolvendo questões de gênero, raça e direitos humanos no mundo.


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Quadro 5 – Perspectivas da Sociedade de Risco • • •

Realista ou Essencialista

• •

Construtivista ou Social-Construtivista

• •

• • •

Nesta perspectiva, as conseqüências e perigos da produção industrial desenvolvida agora são globais; Esta perspectiva se apóia em descobertas científicas e nos debates da destruição em curso (da camada de ozônio, por exemplo); Nela o desenvolvimento de forças produtivas está entrelaçado com o desenvolvimento de forças destrutivas e, em conjunto, ambas geram – a sombra de efeitos colaterais latentes – o romance dinâmico de conflito de uma sociedade de risco global. Esta perspectiva se expressa em coisas tais como o desastre de Chernobil, quando uma nuvem atômica aterrizou em toda a Europa e obrigou as pessoas a adotar mudanças importantes inclusive em sua vida privada cotidiana. Mas também se manifesta no conhecimento que tem qualquer leitor de jornais ou telespectador maduro das sociedades industriais de que o envenenamento do ar, da água, do solo, das plantas e dos alimentos não conhece fronteiras. Na perspectiva realista, falar da sociedade de risco global reflete a socialização global obrigatória devido aos perigos produzidos pela civilização. O novo estado do mundo é a base da crescente importância das instituições transnacionais. Os perigos globais correspondem, de forma realista, a modelos globais de percepção, fóruns mundiais de vida e ação pública, e finalmente – se a objetividade suposta dá bastante impulso para a ação – atores e instituições transnacionais. O vigor do realismo também pode observar-se em seu claro manuscrito histórico, segundo o qual o desenvolvimento da indústria ou da sociedade industrial atravessou duas etapas distintas. Na primeira, eram as questões de classe ou sociais as que tinham uma importância primordial; na segunda, são as questões ecológicas. Porém seria excessivamente simples supor que a ecologia superou a questão de classe; é bastante evidente, e é preciso destacar, que as crises ecológicas, do mercado de trabalho e econômicas se sobrepõem e é muito possível que se agravem mutuamente. Pelo lado realista, para contraste, a globalidade é baseada unicamente na auto-autoridade ostensiva dos perigos objetivos. O realismo concebe a problemática ecológica como fechada. É baseada na auto-evidência emprestada dos perigos realistas e a partir de atores, instituições, estratégias e recursos considerados decisivos em sua fabricação. Uma perspectiva social-construtivista em uma sociedade de risco global não se funda em uma globalidade cientificamente comprovada dos problemas, mas em coalizações de discurso transnacionais (Hajer citado por Beck (2006)), que esboçam dentro do espaço público as questões de uma agenda global. Segundo Beck (2006) até os anos 70 e 80 não se forjaram ou fizeram poderosas estas coalizões, e na década atual, especialmente desde a cúpula da terra do Rio, tem começado a transformar a paisagem temática em torno dos problemas do planeta. Isto requer a institucionalização do movimento ecologista e a construção de atores transnacionais que tentem abordar a gestão global dos problemas mundiais (WWF, Greenpeace, ministérios de meio ambiente, legislações, acordos nacionais e internacionais, indústrias, ciência, entre outros). Na perspectiva construtivista os diferentes atores necessitam ter êxito em suas atuações e afirmar-se continuamente contra poderosas contra-coalizações. Na perspectiva construtivista, os atores transnacionais já tem que ter conseguido que se aceite a sua política discursiva, de maneira que a globalidade de questões ambientais seja decisiva para as percepções e exigências de ações sociais. O construtivismo mantém o princípio de abertura em relação à discussão da problemática ecológica.

Fonte: Adaptado de Beck (2006)


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Com relação à perspectiva realista que fundamenta a sociedade de risco global, Beck (2006) chama a atenção para o fato de que basta uma visão superficial para mostrar como elas são fracas na realidade. O autor considera que um ponto de vista realista irrefletido esquece ou suprime o fato de que o realismo é consciência coletiva sedimentada, fragmentada, induzida pelos meios de comunicação de massas. Conforme sustenta Wynne citado por Beck (2006), o conhecimento público do risco muitas vezes não é conhecimento especializado mas sim profano, carente de reconhecimento social. O autor menciona que as imagens e símbolos ecológicos não possuem uma certeza intrínseca: são percebidos, construídos e mediatizados culturalmente; formam parte do tecido social do conhecimento, com todas as suas contradições e conflitos (movimentos sociais, televisão, imprensa diária, organizações ambientais, institutos de investigação, etc....). Para Beck (2006) a potência definidora do realismo descansa sobre a exclusão de questões que dizem mais em favor da superioridade interpretativa dos enfoques construtivistas, os quais o autor considera como sendo anti-realistas. Para Beck (2006) por mais contraditórios que possam ser os enfoques essencialista-realista e construtivista em seus métodos e suposições básicos, ambos estão de acordo em seus diagnósticos sobre a sociedade de risco global. Beck (2006) alerta para o fato de que, apesar de existirem pontos convergentes em relação às duas perspectivas, isso não deve ser considerado como um forte motivo para que sejam minimizadas as suas diferenças. Beck (2006) acha particularmente notável o fato de o realismo enfatizar questões relacionadas ao risco global enquanto que o construtivismo enfatiza as questões relacionadas à sociedade. Segundo o autor a diferença reside no fato de que para um, são os perigos (os cenários de desastre total) da sociedade de risco global os que constituem o centro principal de atenção; enquanto que para o outro, são as oportunidades, os contextos em que atuam os atores. Para um, os perigos globais devem dar lugar antes de mais nada a instituições e tratados internacionais. Para o outro, ao falar sobre os perigos ambientais já se supõem coalizões supranacionais de discurso comprometidas em uma ação com êxito. De acordo com Beck (2006) muitos acreditam que assumir a objetividade dos perigos

globais

é

potencializar

a

construção

de

instituições

transnacionais


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(centralizadas), cujo ponto de vista frequentemente se considera suspeito de ingenuidade, implica ou inclusive produz um considerável impulso de poder para levar a cabo uma política de “desenvolvimento sustentável”, segundo se denomina em uma nova frase mágica. Em sua proposta para a sociedade de risco, Beck (2006) propõe um novo marco conceitual, em que a análise sócio ecológica dos problemas ecológicos não seja tratada como problemas de meio ambiente ou o mundo que nos rodeia, mas sim como um mundo interior da sociedade. O autor sugere que este marco se inicie além do dualismo existente entre sociedade e natureza e de conceitos chave aparentemente evidentes, de natureza, ecologia e meio ambiente. Para Beck (2006) a sociedade de risco global compartilha o adeus ao dualismo sociedade-natureza, sugerindo uma única pergunta: como podemos administrar a natureza depois do seu fim? Para o autor esta pergunta que diferentes abordagens tratam de iluminar de formas diversas, é desenvolvida pela teoria da sociedade de risco global em direção do construtivismo institucional. Na concepção de Beck (2006) a natureza e a destruição da natureza são produzidas institucionalmente e definidas, nos conflitos de leigos e especialistas, dentro da natureza interiorizada industrialmente. Beck (2006) acredita que os temas e perspectivas centrais da sociedade de risco se relacionam com a incerteza fabricada dentro de nossa civilização: risco, perigo, efeitos colaterais, asseguramento, individualização e globalização. Logo, neste contexto, a teoria da sociedade de risco global traduz a pergunta pela destruição da natureza com outra pergunta: Como aborda a sociedade moderna as incertezas fabricadas autogeradas? Beck (2006) chama a atenção sobre a essência desta fórmula, na qual residem os riscos, que dependem de decisões e que em princípio podem controlar-se, e perigos, que escaparam ou neutralizaram as exigências de controle da sociedade industrial. O autor atribui à existência dos riscos ao fato de que normas e instituições desenvolvidas dentro da sociedade industrial podem falhar: o cálculo de riscos, o principio de segurança, o conceito de prevenção de acidentes e desastres, as medidas profiláticas. Como forma apresentar evidências sobre a sua existência, Beck (2006) reforça o fato


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de que indústrias e tecnologias consideradas controversas correspondem àquelas que não possuem um seguro privado ou que não conseguem um acesso a ele. Como exemplos, cita casos como a energia atômica, a engenharia genética (incluindo a pesquisa) e setores de alto risco da produção química. Para Beck (2006) a ausência de seguro revela que as companhias de seguro são dotadas de especialistas tecnológicos, que contestam o juízo de técnicos e autoridades importantes sobre o caráter inofensivo de produtos ou tecnologias que produzem. O realismo econômico predominante nas companhias de seguro lhes impede ter alguma relação com um suposto risco zero. Desta forma, para o autor, a sociedade de risco global avança fazendo equilíbrios além dos limites de segurança. Visto de outra forma, os próprios critérios que a modernidade industrial utiliza para cobrir os perigos que ela mesma gera podem converter-se em normas para a crítica. Para Beck (2006) na medida em que as decisões ligadas à dinâmica científica, técnico-econômica seguem organizando-se em um nível de estado nação e a empresa individual, as ameaças resultantes nos transformam em membros de uma sociedade de risco global. Segundo Beck (2006) no sistema do industrialismo desenvolvido do perigo nada pode se fazer em nível nacional para garantir a saúde e a segurança dos cidadãos, nele os perigos aumentam devido ao fato de serem anônimos. Para o autor as antigas rotinas de decisão, controle e produção oriundas do direito, da ciência, da administração, da indústria e da política são as responsáveis pela destruição material da natureza e pela sua normalização simbólica, processos que se complementam e se acentuam mutuamente. Acredita que não é a desobediência das normas mas sim as próprias normas que regulamentam a morte das espécies, rios ou lagos. Ao mencionar que o conceito de irresponsabilidade organizada indica a existência de um movimento circular entre a normalização simbólica e as permanentes ameaças e destruições materiais, Beck (2006) apresenta evidências sobre a existência do princípio de recursividade ou auto-geração citado por Morin. Para Beck (2006) na medida em que a administração do estado, a política, a gestão industrial e a investigação negociam critérios para determinar o que pode ser considerado racional e


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seguro, o buraco da camada de ozônio aumenta e as alergias se estendem massivamente. A teoria da sociedade de risco global, segundo Beck (2006) propõe a substituição do discurso tradicional sobre a destruição da natureza, no qual os efeitos colaterais invisíveis da produção industrial se transformam em conflitos ecológicos globais, pela idéia-chave de que os problemas ambientais se originam de uma profunda crise da primeira fase da modernidade industrial. Para o autor isto ocorre na medida em que os efeitos colaterais negativos de uma ação aparentemente calculada e que pode ser responsabilizada, passam a ser vistos como tendências capazes de erosionar o sistema de forma a deslegitimar as bases de sua racionalidade. Beck (2006) também considera que a situação da economia sofre uma mudança radical. Segundo o autor houve um tempo em que a indústria podia lançar projetos sem submetê-los a controles e regulações especiais, o qual foi seguido por um período de regulação estatal, no qual a atividade econômica só passou a ser possível com o marco da legislação trabalhista, as normativas de segurança, acordos de tarifa, entre outros. Em termos de uma sociedade de risco global, Beck (2006) considera esta como sendo uma mudança decisiva em termos da compreensão da sociedade de risco global, onde mesmo que todas as instâncias e regulamentações desempenhem o seu papel e que todos os acordos válidos sejam respeitados, os mesmos nem sempre representarão segurança. Para Beck (2006) o fato de que as normas sejam respeitadas não impede que a opinião pública efetue suas críticas sobre as organizações que considere poluidoras do meio ambiente, pois os mercados de bens e serviços são baseados em princípios instáveis, ou seja, fogem do controle das empresas que aplicam remédios domésticos, ocasiões que segundo o autor, revelam a insegurança fabricada em áreas centrais da ação e da gestão baseadas na racionalidade econômica. Desta forma para Beck (2006), na sociedade de risco global, os projetos industriais se convertem em uma empresa política, no sentido de que as grandes inversões pressupõem um consenso a longo prazo. Tal consenso, porém, já não é garantido – mas bem ameaçado – pelas antigas rotinas da simples modernização. O


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que poderia negociar-se e implementar-se a porta fechada, mediante a força das limitações práticas (por exemplo, os problemas de eliminação de resíduo, os métodos de produção ou o design dos produtos) fica agora potencialmente exposto a crítica pública. Para o autor, ao mesmo tempo em que a indústria aumenta a produtividade, corre o risco de perder sua legitimidade. A ordem legal já não garante a paz social porque generaliza e legitima as ameaças da vida e também da política. Em sua concepção para a sociedade de risco global, Beck (2006) acredita que diferentes ameaças globais como conflitos ambientais, pobreza e armas de destruição em massa podem muito bem complementar-se e acentuar-se mutuamente, ou seja, se faz necessário considerar a interação entre a destruição ecológica, as guerras e as conseqüências da modernização incompleta. Para Beck (2006) a junção de diversos fatores confirma o diagnóstico de surgimento de uma sociedade de risco global. O autor considera que as denominadas ameaças globais conduziram a um mundo no qual foi corroída a base da lógica estabelecida do risco e no qual prevalecem perigos de difícil gestão em lugar de riscos quantificáveis, onde novos perigos estão eliminando as fundações convencionais do cálculo de segurança e os danos perdem seus limites espaço-temporal, convertendo-se em globais e duradouros. Para o autor o princípio de culpa está perdendo a sua eficácia, uma vez que em muitas ocasiões, não podem ser definidas compensações financeiras aos danos causados e não faz sentido assegurar-se contra os piores efeitos possíveis da espiral de ameaças globais. Para Beck (2006) em termos de política social, a crise ecológica implica numa violação sistemática de direitos básicos, cujos efeitos gerados na sociedade a longo prazo não devem ser subestimados. Para o autor, os perigos produzidos na indústria, são exteriorizados para a economia, individualizados pelo sistema legal, legitimados pelas ciências naturais e apresentados como inofensivos pela política, situações que corroem o poder e a credibilidade das instituições e que só é evidenciado quando o sistema apresenta algum sinal de crise. Neste contexto surge um fenômeno que Beck (2006) denomina de subpolitização da sociedade mundial, onde a atividade das corporações mundiais e dos governos


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nacionais está se submetendo a pressão da esfera pública mundial. Segundo o autor, a participação individual-coletiva nas redes de ação global é surpreendente e decisiva; os cidadãos estão descobrindo que o ato de comprar trata-se de um voto direto que sempre podem utilizar de forma política. Para Beck (2006), à medida que se difunde a consciência do perigo, a sociedade de risco global se faz autocrítica. Neste novo contexto de sociedade global, Beck (2006, p. 106) chega a considerar que: O adversário mais influente da indústria da ameaça é própria indústria da ameaça. Expressando-se de outro modo, o poder dos novos movimentos sociais não só se baseia neles mesmos, mas também na qualidade e o alcance das contradições nas quais incorrem as indústrias que produzem e administram os perigos na sociedade de risco. Estas contradições se fazem públicas e escandalosas através de atividades provocadoras dos movimentos sociais. Por tanto, não existe unicamente um processo autônomo de encobrimento dos perigos, mas também tendências opostas que desvelam este encobrimento, mesmo embora sejam muito menos acusadas e sempre dependam do valor civil dos indivíduos e da vigilância dos movimentos sociais.

Para Beck (2006) os riscos presumem decisões e considerações de utilidade industrial, quer dizer, tecnoeconômica, diferindo-se dos desastres naturais préindustriais por sua origem no processo de tomada de decisão, os quais não se encontram nas mãos de indivíduos e sim de organizações e grupos políticos inteiros27. De acordo com Beck (2006) os perigos pré-industriais, não importa quão grande e devastador fossem, eram considerados golpes do destino que se descarregavam sobre a humanidade desde fora e que eram atribuídas a um outro: deuses, demônios ou natureza, ao contrário do que ocorre como os riscos industriais, gerados a partir do processo de tomada de decisões. Para Beck (2006) as pessoas, as empresas, as organizações estatais e os políticos são responsáveis pelos riscos industriais. Dito de outro modo, desde meados do século XX as instituições sociais da sociedade industrial tem enfrentado a possibilidade, historicamente sem precedentes, da destruição de todo vida no planeta por meio das decisões que se tomam. Isto distingue a nossa época não somente da primeira fase da revolução industrial, mas

27 Luhmann citado por Beck (2006) apresenta a diferença entre risco, o resultado de uma decisão, e perigo, que se refere às múltiplas pessoas ou grupos que são afetados e afligidos pelos riscos que os outros adotam (e que podem evitar).


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também de todas as demais culturas e formas sociais, não importa o quão diversas e contraditórias tivessem podido ser em seus detalhes. Para Beck (2006) o principal potencial sócio-histórico e político dos perigos ecológicos, nucleares, químicos e genéticos é baseado no colapso da administração, no colapso da racionalidade tecnocientífica e legal e das garantias de segurança políticas institucionais que estes perigos conspiram para todos. Este potencial reside no desmascaramento da anarquia concretamente existente que se desenvolveu a partir da negação da produção e administração sociais dos megaperigos. Para Beck (2006, p. 113 e 114) neste contexto “surge uma situação completamente distinta quando os perigos da sociedade industrial dominam os debates públicos, político e privado”, onde “[...] as instituições da sociedade industrial produzem e legitimam perigos que não podem controlar”. Beck (2006) considera que a transição da modernidade industrial para a modernidade do risco se produz de forma não intencional, não percebida, compulsivamente, no curso de uma dinâmica da modernização que se fez autônoma, seguindo a pauta das conseqüências não desejadas. Para o autor, as diferentes situações percebidas na sociedade de risco se criam em razão das verdades autoevidentes da sociedade industrial, como o consenso sobre o progresso, a abstração das conseqüências e os perigos ecológicos que dominam o pensamento e a conduta dos seres humanos e instituições. Logo Beck (2006) defende a idéia de que a sociedade de risco não é uma opção que possa se escolher ou rejeitar no curso do debate político. Surge por meio do funcionamento automático de processos autônomos de modernização que são cegos e surdos às conseqüências e perigos, situação que põe em questão a própria lógica de funcionamento da sociedade industrial. Para Beck (2006, p. 115 e 116): Na sociedade de risco, os conflitos sobre a distribuição dos males que produz se sobrepõem aos conflitos sobre a distribuição dos bens sociais (renda, emprego, segurança social) que constituem o conflito fundamental da sociedade industrial e conduzem às tentativas de solucionar-lo em instituições adequadas. Pode mostrar-se que os primeiros são os conflitos da exigência da responsabilidade. Estes conflitos se desatam em torno da pergunta de como se


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podem distribuir, evitar, controlar e legitimar as conseqüências dos riscos que acompanham a produção de mercadorias: tecnologia nuclear e química em grande escala, engenharia genética, ameaças ao meio ambiente, a escalada de armamentos e o crescente empobrecimento da humanidade que vive fora da sociedade industrial ocidental.

De acordo com Beck (2006), as sociedades modernas se deparam com os princípios e limites do seu próprio modelo na medida em que não se transformam, não refletem sobre as conseqüências e mantém uma política industrial do “mais do mesmo”. O autor considera que a transformação das conseqüências não desejadas da produção industrial em fonte de problemas ecológicos globais não é em absoluto, um problema do mundo que nos rodeia, ou seja, não é um dos denominados “problemas ambientais”, e sim uma crise institucional da própria sociedade industrial. Para Beck (2006) na sociedade de risco, o reconhecimento da incalculabilidade dos perigos produzidos pelo desenvolvimento tecnoindustrial impõem a auto-reflexão sobre os fundamentos do contexto social e uma revisão das convenções e princípios predominantes de racionalidade. Segundo o autor, na auto-concepção da sociedade de risco, a sociedade se faz reflexiva (no sentido estrito da palavra), ou seja, se converte em um tema e em um problema para si mesma. Desta forma, segundo Beck (2006) a sociedade de risco tende a ser ao mesmo tempo, uma sociedade autocrítica: Os especialistas em seguros contradizem os engenheiros especialistas em segurança. Enquanto os últimos declaram risco nulo, os primeiros consideram que se trata de um risco não assegurável. Os especialistas são relativizados ou destronados por não especialistas. Os políticos encontram a oposição das iniciativas cidadãs; a gestão industrial, a das organizações de consumidores. Os grupos de auto-ajuda criticam as burocracias. Em última instância, as indústrias responsáveis pelos danos (por exemplo, a indústria química responsável pela contaminação marinha) devem inclusive esperar encontrar a resistência de outras indústrias afetadas (neste caso, a pesca e as empresas que dependem do turismo costeiro). Estas podem desafiar, inspecionar, inclusive corrigir as primeiras.

Para Beck (2006, p. 128) ao longo da história mundial surgiram e desapareceram muitos candidatos a sujeito da crítica social: a classe trabalhadora, a inteligência crítica, a esfera pública, movimentos sociais das mais diversas tendências e composições, as mulheres, as subculturas, os jovens, entre outros.


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Para o autor o que difere a sociedade de risco de outras sociedades é o fato da base da crítica ser, antes de tudo, autônoma. Para Beck (2006), neste contexto, a autocrítica significa que dentro e entre os sistemas e instituições (e não somente nas margens e nas áreas de sobreposição dos mundos da vida privados) surgem linhas de conflito que podem organizar-se e são susceptíveis de coalizões. Para Beck (2006, p. 128), na sociedade de risco: Os centros de tomada de decisão e as leis objetivas do progresso científicotecnológico estão se convertendo em questões políticas. Isto sugere uma pergunta: coincide a crescente consciência da sociedade de risco com a invalidação dos modelos lineares da tecnocracia, modelos que, sejam otimistas ou pessimistas em relação ao progresso, fascinaram a sociedade e a sua ciência durante cem anos?

Para Beck (2006, p 139) “[...] a sociedade de risco começa onde os princípios de cálculo da sociedade industrial submergem e anulam a continuidade da modernização automática e tempestuosamente triunfante”, onde “a sociedade de risco nega os princípios de sua racionalidade”, os quais deixou para traz quando começou a operar além dos limites asseguráveis. Para o autor, “a sociedade de risco só se inicia quando o debate sobre a reparação e reforma da sociedade industrial se define com clareza” (BECK, 2006, p 140).

2.2.7. As Organizações e a Sociedade de Risco Com seria inevitável de ocorrer, a matriz de pensamento linear e mecanicista surgida no cerne da ciência gerou influências diretas sobre a maior parte das organizações sociais, em especial as organizações industriais. Como citado anteriormente, para Egri e Pinfield (1999) as características deste pensamento serviram de alicerces ideológicos das revoluções científica e industrial das sociedades contemporâneas. Ao assumir as premissas definidas da racionalidade econômica, as diferentes organizações industriais contribuíram para fortalecer os princípios da racionalidade instrumental em detrimento de outras alternativas. Como forma de garantir a expansão e o aumento dos resultados de suas operações, as organizações industriais


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gradativamente aprenderam a desenvolver mecanismos de proteção, como forma de garantir a rentabilidade de suas atividades. Para Demajorovic (2003, p. 33) “até meados da década de 1980, predominou no discurso empresarial uma resistência a qualquer iniciativa de minimizar os impactos socioambientais decorrentes da atividade produtiva”. De acordo com o autor, como forma de estabelecer defesas em relação aos problemas de degradação ambiental, os representantes empresariais desenvolveram o argumento de que custos adicionais para as empresas para o controle da poluição comprometeriam a lucratividade, a competitividade e a oferta de empregos, gerando prejuízos às partes interessadas, ou seja, trabalhadores, acionistas e consumidores. Nesse contexto, segundo Demajorovic (2003) a estratégia adotada pelas empresas, segundo o jargão econômico, passou a ser a de externalizar os custos ambientais, ou seja, transferi-los para a sociedade, poupando o verdadeiro causador de arcar com qualquer ônus para reverter o problema. De acordo com Demajorovic (2003), a partir de meados da década de 1980, a estratégia do discurso empresarial que enaltecia o papel exclusivo das empresas como fomentadoras da riqueza, encontraria cada vez menos respaldo na sociedade. Segundo o autor: Ao mesmo tempo que a mobilização em torno da questão ambiental multiplicava os debates sobre essa temática em diversos países, o setor público, por meio de suas agências ambientais, aprimorava a regulação ambiental, convertendo os danos e as ameaças ao meio ambiente em custo direto para os negócios (DEMAJOROVIC, 2003, p. 34).

Paralelo a estas questões, Demajorovic (2003) menciona que no mesmo período, a exposição pela mídia de tragédias ambientais provocadas por grandes empresas contribuiu para colocar o setor industrial como alvo prioritário dos protestos de grupos ambientalistas. Segundo Demajorovic (2003), apesar de muitos defensores da forma atual de progresso econômico acreditarem que as tragédias ou os problemas mencionados são fatalidades ou acidentes de percurso do processo necessário para o desenvolvimento indústria, cada vez menos o trinômio produtividade-progresso-riqueza se vê capaz de


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convencer a opinião pública. Para Demajorovic (2003) está cada vez mais evidente que o agravamento dos problemas ambientais está diretamente ligado a escolhas com respeito à forma de aplicar o conhecimento técnico-científico no processo produtivo. Logo, o autor considera que “as catástrofes e os danos ao meio ambiente não são surpresas ou acontecimentos inesperados”, são “[...] conseqüências inerentes da modernidade, que mostram, acima de tudo, a incapacidade do conhecimento construído no século XX de controlar os efeitos gerados pelo desenvolvimento industrial” (DEMAJOROVIC, 2003, p. 35). Fundamentado em Beck, Demajorovic (2003) menciona que o processo de industrialização é indissociável do processo de produção de riscos, uma vez que uma das principais conseqüências do desenvolvimento científico industrial é a exposição da humanidade a riscos e inúmeras formas de contaminação nunca observados anteriormente, que ameaçam os habitantes do planeta e o meio ambiente. Para o autor, o que “agrava o problema é a percepção de que os riscos gerados hoje não se limitam à população atual, uma vez que as gerações futuras também serão afetadas e talvez de forma ainda mais dramática” (DEMAJOROVIC, 2003, p. 35). Demajorovic (2003) afirma que a sociedade de risco não consegue se libertar da sociedade industrial, uma vez que é especialmente a indústria, unida à ciência, a principal responsável por gerar as ameaças que lhe dão origem. O autor considera que com um maior número de empresas competindo no mercado globalizado os riscos se ampliam, uma vez que o processo de decisão torna-se mais complexo para os gerentes em suas organizações. Como exemplos, o autor cita o avanço tecnológico que ameaça os trabalhadores com o desemprego, o aumento de riscos de acidentes em função do grande número de veículos circulando nos centros urbanos ou ao risco da ampliação da degradação ambiental em função da concentração de empresas em determinadas regiões. Para Demajorovic (2003) em razão do desenvolvimento de seu instrumental de controle, a sociedade industrial aprendeu a controlar e a conviver de forma menos traumática com boa parte desses riscos. De acordo com Douglas e Wildavsky citados por Demajorovic (2003), nunca nenhuma civilização anterior à contemporânea se


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demonstrou tão preocupada em desenvolver técnicas de cálculo de risco, com o objetivo de produzir uma infinidade de medidas compensatórias para uma população à mercê de um mundo cada vez mais incerto. Para o autor, ao desenvolver este instrumental para o enfrentamento das incertezas, muitas delas acabaram por incorporar o cálculo de risco28 em seu processo de tomada de decisão. Além disso, Demajorovic (2003) menciona que diversas empresas já são obrigadas pela regulação ambiental a apresentar estudos de risco, destinados a reduzir a possibilidade de ocorrência de acidentes industriais que afetem seus funcionários, a população e o meio ambiente. A ampliação das exigências exercida sobre as organizações pelas novas regulamentações e pela sociedade confirmam a existência dos riscos. Para Demajorovic (2003) diferentemente dos riscos da fase inicial de industrialização, os atuais riscos químicos, nucleares, ecológicos e de engenharia genética apresentam três características fundamentais: não podem ser limitados no tempo e espaço, dificultam a identificação do nexo causal entre o problema gerado e a sua origem e muitas vezes não podem ser compensados. De acordo com Beck citado por Demajorovic (2003) é impossível calcular os riscos gerados para os indivíduos que ainda não nasceram e que serão afetados pelo desastre de Chernobyl. Assim como Beck, Demajorovic (2003) considera que nada é mais representativo do que o posicionamento assumido pelas empresas de seguro em relação ao risco. Segundo o autor, as várias seguradoras que vislumbraram grandes oportunidades de negócios na década de 1980 em função do aumento das regulamentações ambientais, optando por incorporar o seguro ambiental em seus serviços tradicionais, rapidamente perceberam que a multiplicação dos acidentes revelava que a administração dos novos negócios não era tão simples. Diversas seguradoras, preocupadas com os bilhões de dólares destinados ao pagamento das indenizações em virtude do aumento das reclamações por problemas ambientais, as quais ameaçavam a própria solvência do

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De acordo com Shrivastava citado por Demajorovic (2003) este tipo de cálculo procura avaliar exclusivamente os riscos financeiros, ou seja, detectar a possibilidade de retornos monetários para o investimento realizado, considerando a volatilidade dos mercados financeiros, as flutuações da taxa de inflação, as mudanças tecnológicas, entre outros.


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setor, logo elevaram significativamente o valor dos prêmios, ao mesmo tempo em que diminuíram a cobertura de seguros29. Para Demajorovic (2003, p. 45 e 46): Por mais que esses cientistas ou empresários se apeguem à dificuldade de calcular com exatidão os danos socioambientais produzidos por atividades industriais, cresce a expectativa de que parcela significativa dos impactos previstos se concretizará no futuro caso o processo de degradação não comece a ser remediado no presente. Tal expectativa enfraquece o argumento de dificuldade de cálculo, tornando mais difícil que essa estratégia seja usada perante a opinião pública. Essa constatação, contudo, representa apenas uma das variáveis importantes que afetam as organizações. Na realidade, o processo social de reconhecimento de risco que está em curso, ainda que baseado muito mais em estimativas do que em sua real calculabilidade, forja o desenvolvimento de uma moral ecológica, criando uma variedade de novos desafios no ambiente em que atuam as indústrias.

Para Demajorovic (2003, p. 46) “o consenso criado em torno dos benefícios proporcionados

pelas empresas, fundamentado em sua contribuição para o

crescimento do emprego e do nível de renda, choca-se com a moral ecológica”. Para o autor: Esta não apenas questiona os aspectos econômicos e tecnológicos das ações empresariais, mas se materializa também nas pressões políticas, em um maior rigor das normas de comando e controle, no aumento dos custos de operação, na maior inferência no processo de tomada de decisão dentro das organizações e no reconhecimento, por parte do Poder Judiciário, das demandas de compensação por danos socioambientais, levando representantes das corporações ao banco dos réus. (DEMAJOROVIC, 2003, p. 46)

Demajorovic (2003, p. 47) considera que, “com efeito, os riscos da modernização, ao acelerar o processo de conscientização, alteram a distribuição do poder no âmbito da tomada de decisão nas empresas”. Para o autor: Questões como escolha do processo produtivo, planejamento da produção, desenvolvimento tecnológico e disposição dos resíduos, tratadas anteriormente como assuntos de soberania exclusiva dos gerentes e administradores de unidades industriais, extrapolam os muros das plantas industriais. Novos grupos e atores sociais entram em cena, exigindo que decisões tomadas nas altas

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De acordo com Demajorovic (2003) em 1995 o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou a Declaração de Compromisso Ambiental para a Indústria de Seguros. De acordo com o autor, no ano da edição do seu livro, mais de 70 seguradoras de 25 países assinaram o acordo para incorporar a variável ambiental em suas operações.


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cúpulas administrativas sejam revistas e que processos de produção sejam modificados.

Em função do novo contexto delineado pelo surgimento da sociedade de risco global e de seu histórico que será apresentado no próximo capítulo, as atividades desenvolvidas pelas indústrias químicas passam a ser mais bem observadas pela mídia e pelas comunidades onde se encontram inseridas, bem como melhor regulamentadas e fiscalizadas pelo Estado, em razão dos riscos que representam para a sociedade e para o meio ambiente. Por essa razão, este estudo busca revelar qual é a percepção que os profissionais que atuam em indústrias químicas têm da relação de sua organização com o meio ambiente, por meio do estabelecimento de um diálogo direto com os diferentes atores que atuam no universo definido para o desenvolvimento desta pesquisa.

2.3. INDÚSTRIAS QUÍMICAS 2.3.1. As Origens da Indústria Química no Mundo

O surgimento da indústria química mundial se confunde com diferentes períodos históricos vividos pela humanidade, desde os períodos mais remotos, onde foram descobertas as primeiras reações químicas, até os períodos mais recentes, que coincidem com o surgimento da sociedade industrial. Wongtschowski (2002, p. 8), considera que: Em seu sentido mais amplo, a química está presente em todas as facetas da vida do homem, desde o primitivo homem das cavernas ao homem atual. O fogo, uma das primeiras reações químicas que o homem aprendeu a dominar, a metalurgia do bronze e do ferro, o curtimento de couros, a fiação, o tratamento e tingimento dos primeiros tecidos, a obtenção dos primeiros remédios extraídos de plantas, a elaboração de alimentos fermentados (panificação e bebidas alcoólicas), a produção de lixívia para a limpeza pessoal e de utensílios, são todas atividades precursoras da indústria química, tal como é conhecida atualmente.

Com o aprimoramento de suas capacidades intelectuais e inovativas, o ser humano passou a construir e a ampliar o seu conhecimento sobre a química,


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conhecimento este que contribuiu significativamente para o surgimento de uma ciência capaz de proporcionar inúmeras descobertas a favor e contra a humanidade. As diferentes pesquisas desenvolvidas no interior desta ciência, inicialmente originadas pelo interesse dos seres humanos em estabelecer novas descobertas acerca do ambiente ocupado, gradativamente revelaram a sua capacidade de estabelecer controles sobre o meio natural. Com o advento da sociedade industrial, esta capacidade de controle desenvolvida pela ciência passou a ser gradativamente controlada pelos interesses estatais e industriais, confirmando o princípio de recursão organizacional definido por Morin (2006). O Estado e a indústria passaram a financiar a ciência com o interesse estratégico de criar novos produtos, capazes de assegurar seu poder hegemônico e de gerar novos recursos para financiar suas próprias estruturas, gerando assim um ciclo recursivo onde recursos crescentes passaram a ser aplicados na produção de pesquisas científicas orientadas para o desenvolvimento e o atendimento de novas demandas. Para Morin (1998) a atividade científica que era sociologicamente periférica, tornou-se uma poderosa instituição no centro da sociedade, subvencionada, alimentada e controlada pelos poderes econômicos e estatais. A estreita relação entre ciência e indústria pode ser percebida em Demajorovic (2003), quando menciona que os diversos produtos fabricados pela incipiente indústria química nos séculos XIX e XX tiveram origem em pesquisas desenvolvidas por membros de grupos científicos, dos quais se originaram nomes proeminentes da teoria química. A título de exemplo desta estreita relação, o autor cita o caso do professor de química Herbert Henry Dow, fundador da Dow Química, uma das mais importantes corporações do setor químico. Desta forma é possível perceber que a expansão e o crescimento da indústria química em termos de escala de produção e presença mundial são estabelecidos no período compreendido pelo surgimento e estabelecimento da sociedade industrial, momento em que este tipo de indústria passou a ser considerada por diferentes nações como estratégica para a instalação e desenvolvimento de outras indústrias, e consequentemente, com o advento da globalização, para o fortalecimento das


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economias dos Estados-Nação e para a manutenção do equilíbrio da balança comercial. Seguindo as premissas da racionalidade econômica e justificando o interesse demonstrado pelos Estados-Nação em relação ao desenvolvimento da indústria química, Demajorovic (2003, 65) considera que: A indústria química constitui um dos setores mais dinâmicos e vitais de qualquer economia industrializada, pois gera produtos finais amplamente demandados por consumidores e uma infinidade de insumos intermediários utilizados por outras indústrias em seus processos de produção.

Para Wongtschowski (1999, p. 25): Dado o papel representado pela indústria química, de “agente catalizador” do desenvolvimento industrial, muitas nações emergentes procuraram fomentá-la com o triplo intuito de criar um parque industrial gerador de empregos, transformar localmente matérias-primas em produtos de maior valor agregado, para exportá-los sob esta forma e livrarem-se das importações de produtos que passam a ser fabricados em seu país, melhorando seus saldos comerciais.

Para alguns autores como Jonhson citado por Demajorovic (2003, p. 65), “a indústria química transformou profundamente as relações dos seres humanos com o mundo natural, criando um novo tipo de dependência: a dos indivíduos por produtos químicos sintéticos”. Esta constatação pode ser confirmada em Demajorovic (2003), quando menciona a presença dos produtos químicos no cotidiano das pessoas, de forma direta (produtos farmacêuticos, fertilizantes, tintas, plásticos e borrachas) e indireta (insumos para as indústrias têxtil, automobilística, eletrônica, entre outras). Para Wongtschowski (2002) a indústria química tal como é compreendida na atualidade surge somente a partir do século XIX, oriunda do êxito da realização de duas tarefas: a de descobrir novos produtos e materiais por meio de ensaios em laboratório (química) e a de extrapolar estes ensaios para produções em escala industrial (engenharia química). Reforçando a primeira constatação de Wongtschowski (2002), Demajorovic (2003) acredita que o fato de vivermos em uma era química se deve a uma característica marcante do desenvolvimento da pesquisa de novas substâncias químicas desde sua primeira fase de florescimento no século XIX: a sua capacidade de


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inovar continuamente. Para Demajorovic (2003, p. 66) “é justamente a capacidade de inovar mais rapidamente do que os demais setores, oferecendo sempre novos produtos e modificando processos, que permitiu um notável crescimento à indústria química”. Clow citado por Demajorovic (2003, p. 66) considera que: [...] uma análise mais ampla das mudanças observadas no período, não restrita às tecnologias mecânicas, revela que a famosa Revolução Industrial iniciada na Inglaterra não resultou de fato em uma revolução e sim uma mudança evolutiva. A verdadeira ruptura, ou a “revolução química”, teria acontecido por ocasião de pesquisas anteriores, concomitantes e posteriores ao período da Revolução Industrial, que, direcionadas para o desenvolvimento de novas matérias-primas, estabeleceriam as bases para a formação e expansão da indústria química, principal vetor da mudança social e econômica do século XX.

De forma sintética, o Wongtschowski (2002, p. 8 e 9) menciona que a moderna indústria química mundial teve o seu desenvolvimento baseado em duas fontes distintas: i)

Indústria química alemã, desenvolvida por químicos a partir da química derivada do carvão, em unidades de pequeno e médio portes, em geral descontínuas, predominando por quase um século, a partir da segunda metade do século XIX;

ii)

Indústria química norte-americana: desenvolvida por engenheiros químicos a partir da química derivada do petróleo, em unidades de grande porte, em geral de produção contínua, predominando a partir da segunda metade do século XX.

Com base no estudo de Wongtschowski (2002), é apresentada no quadro 6 uma retrospectiva histórica, a qual apresenta as bases de formação e expansão da indústria química mencionadas por Demajorovic (2003). Nesta retrospectiva histórica é possível identificar diversos elementos que apontam para a existência de um estreito vínculo de sua trajetória com as bases que constituem a matriz de pensamento linear caracterizada pela presença predominante da ação racional instrumental, racionalidade esta que se tornou um poder hegemônico no processo de formação do arquétipo mental adotado para o desenvolvimento da sociedade industrial. Cabe ressaltar as influências geradas pelas duas grandes guerras no processo de industrialização mundial, as quais também são retratadas nesta retrospectiva histórica.


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Quadro 6 – Retrospectiva Histórica da Indústria Química Mundial Período • • Meados do Século XIX

• • •

1870 a 1880 • • • 1890 1897

• •

1900

1910

• •

1912 • • 1913 • • 1914 a 1918

• • •

Fatos Relevantes A Inglaterra era a sede da maior indústria química do mundo. A Alemanha ensaiava seus primeiros passos a caminho da industrialização. Indústrias inglesas e francesas dominam a produção mundial de corantes. Surgem as primeiras indústrias alemãs destinadas para a produção de corantes: Hoescht (1863), Bayer (1863), Basf (1865) e Agfa (1867). Com base em vantagens competitivas (racionalização de seus processos produtivos, emprego de cientistas e de investimentos em P&D) alicerçadas em seu sistema de educação, a Alemanha sobrepuja as indústrias de corantes inglesas e francesas, assumindo a liderança mundial no campo de corantes e logo depois no campo da indústria química em geral (liderança que perdurará por 30 anos, até o fim da Segunda Guerra Mundial). A liderança assumida pela Alemanha possibilita a passagem da química de síntese de corantes para a química farmacêutica, produtos químicos para fotografia, aditivos para a indústria de borracha e até polímeros. Em 1870, a empresa americana Standard Oil Company foi criada por John D. Rockfeller. Fundação da empresa americana Dow Chemical pelo professor de química do curso secundário Herbert Henry Dow. A fábrica foi instalada em Midland – Michigan, onde existiam grandes jazidas de sal-gema, de onde era extraído o bromo dos brometos existentes no sal-gema. A Bayer desenvolve a Aspirina. A Standard Oil Company detinha 80% da capacidade de refino e 90% dos oleodutos norte-americanos, sendo dividida em 1911 em várias companhias por decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos. A maior parte dos negócios da Standard Oil Company passou a então Standard Oil of New Jersey (atual Exxon). A Hoescht desenvolve o “Salvarsan”, primeiro anti-sifílico efetivo sintetizado pelo homem. O Massachusetts Institute of Technology (MIT) contribui de forma decisiva para o desenvolvimento da indústria química mundial, ao reconhecer a Engenharia Química como uma disciplina separada da Química. O químico alemão Fritz Klatte desenvolve o primeiro termoplástico a partir de cloreto de vinila, denominado de PVC. Síntese direta da amônia, considerada por especialistas como uma das maiores conquistas da química e da engenharia química. Processo desenvolvido por Fritz Haber, pesquisador da Universidade de Karlsruhe e Prêmio Nobel em 1918, e Carl Bosch, pesquisador da Basf e Prêmio Nobel em 1931. Período da Primeira Guerra Mundial. A indústria química mundial sofre uma série de mudanças importantes. A Alemanha transformou a sua indústria de corantes em indústria de produtos bélicos, produtos farmacêuticos e borracha sintética. Em 1914, os Estados Unidos já eram a segunda potência mundial na fabricação de produtos químicos. A Inglaterra que ocupava um papel secundário no cenário mundial vive um período de expansão. Em 1917, a Union Carbide, empresa americana fundada no final do século XIX para a produção de carbeto de cálcio, junta-se com a PrestContinua (...)


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• •

1919 - 1939

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O-Lite, a Linde Air Products Co. (originalmente uma filial de uma empresa alemã) e a National Carbon Company para constituir a United Carbide and Carbon Company. Período entre as duas grandes guerras, marcou o desenvolvimento da indústria química mundial, baseada em grandes investimentos em P&D voltados para a pesquisa aplicada. O Departamento de Engenharia Química do MIT substitui o processamento em batelada pelo processamento contínuo, além de desenvolver outros avanços nas áreas de troca térmica, extração, destilação e fluidodinâmica. A adoção do processamento contínuo em instalações de petróleo e de petroquímicos criou uma vantagem competitiva para os Estados Unidos em relação à Alemanha nesse campo. Em 1919 a produção de fibras artificiais era de aproximadamente 11 mil toneladas. A participação da indústria química mundial, no desenvolvimento das fibras têxteis, primeiramente nas artificiais (a base de celulose) e posteriormente nas totalmente sintéticas, foi tão notável quanto o desenvolvimento do campo dos polímeros. As primeiras fibras artificiais partiam da celulose, visando dar à mesma uma característica semelhante ao fio da seda. Outro tipo de fibra artificial, conhecido como acetato de celulose, parte também da celulose, mas modifica a molécula da mesma, introduzindo radicais acetato na molécula. A produção mundial de fibras artificiais sofreu um grande impulso nas décadas de 1920 e 1930 e começou a perder impulso na década de 1950, com a introdução das fibras sintéticas. Em 1920, a Union Carbide cria a Carbide and Carbon Chemicals Corp. para produzir e comercializar os produtos derivados do eteno. A Dow Chemical passou a produzir, além do bromo, cloro e soda cáustica, também cloreto de cálcio, fenol, cloreto de vinilideno (polímero conhecido como “Saran”) e etilcelulose. A partir da década de 1920, os cientistas começaram a desenvolver polímeros a partir do cloreto de vinila para a produção de PVC. O maior problema encontrado no PVC produzido era a sua extrema rigidez, problema que foi resolvido por meio do desenvolvimento de novos processos por empresas como a Union Carbide e BF Goodrich. Em 1921 a Union Carbide inaugurou a primeira unidade de craqueamento de gases naturais no mundo para a produção de eteno. Em 1923, a DuPont, empresa americana fundada em 1802 pelo Francês Eleuthère Isidore DuPont, discípulo de Lavoisier, cria a tinta de secagem rápida para atender a indústria automotiva da época. Em 1924 a Dow Chemical, em parceria com a empresa Ethyl Corporation produz o brometo de etila, utilizado para a produção do chumbo-tetraetila, antidetonante descoberto pela Ethyl. Neste ano a produção mundial de fibras artificiais passou para 60 mil toneladas. Em 1925, por iniciativa de Carl Bosch, são reunidas na Alemanha as sete maiores indústrias químicas, entre elas a Bayer, a Basf e a Hoechst para formar a sociedade Interessengemeinschaft Farbenindustrie Aktiengesellschaft (IG Farben), responsável pelo desenvolvimento de novos processos e produtos químicos. Nos Estados Unidos, a Union Carbide inaugura a primeira planta industrial para a produção de eteno a partir de etano de gás natural, planta para a produção de cloridina a partir do eteno e planta de etilenoglicol a partir de cloridrina. Neste mesmo ano, a empresa norte-americana Naugatuck Chemical Company, em função dos trabalhos do quimico russo I. I. Ostromislenski, inaugura a primeira unidade industrial de poliestireno para fabricar o produto Continua (...)


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“Victron”, utilizado para a produção de dentaduras. Apesar de boa parte da pesquisa de produção do estireno ter sido desenvolvida na Alemanha, em função do grande interesse que o país tinha em desenvolver a química da borracha sintética a partir deste produto, a primeira fábrica surge nos Estados Unidos. Em 1926 é fundada a companhia inglesa Imperial Chemical Industries (ICI), resultado da junção das quatro maiores indústrias químicas inglesas da época: Brunner, Mond & Company, Nobel Industries, Bristish Dyestuffs e a United Alkali. Esta junção de empresas visava fazer frente à empresa alemã IG Farben, formada no ano anterior na Alemanha. Em 1927 A Union Carbide inaugura a fábrica para fluído de refrigeração de motores à base de etilenoglicol. Neste mesmo ano, A Standard Oil of New Jersey negocia e assina com o grupo alemão IG Farben a licença do processo de hidrogenação à altas temperaturas do carvão em pó para a produção de hidrocarbonetos. O interesse dos americanos era dominar a técnica de hidrogenação a altas pressões, para aplicá-la na refinação de petróleos pesados que começavam a tornar-se mais freqüentes em suas refinarias. A Shell, de origem britânica holandesa, decidiu atuar no campo da química ligada aos derivados de petróleo, em parte porque sua grande concorrente, a Standard Oil of New Jersey estava fazendo o mesmo e em parte porque a IG Farben e a sua síntese de hidrocarbonetos a partir do carvão poderia por em perigo sua penetração no mercado de combustíveis. Em 1928 a Union Carbide inaugura as unidades de dietilenoglicol, trietilenoglicol e trietanolaminas. Em 1929 a Union Carbide inaugura a unidade de copolimerização de cloreto de vinila e acetato de vinila, produzindo um copolímero chamado “vinylite” que foi empregado nos discos da RCA Vitor. A Dow Chemical produz um elastômero sintético, a partir de dicloroetano e polissulfeto de sódio, que embora não fosse o substituto ideal da borracha natural, podia ser empregado em certos usos específicos, ficando conhecido com o nome de “Thiokol”. Neste mesmo ano, após os trabalhos de Carl Wulff na Basf e de Hermann Mark no desenvolvimento do processo de produção de estireno por desidratação do etilbenzeno e também da sua polimerização, a IG Farben construiu várias fábricas de poliestireno na década de 30, sendo também construída nos Estados Unidos pela DOW a primeira fábrica baseada neste processo. Em 1929, a produção mundial de fibras artificiais passou para aproximadamente 200 mil toneladas. As resinas acrílicas foram patenteadas pela IG Farben. Várias tentativas de extrudar a resina na forma de fibras, efetuadas pela Agfa em Wolfen na década de 1930, foram infrutíferas. Em 1930 a DuPont cria a primeira borracha sintética com características aceitáveis. A Union Carbide cria a primeira unidade de álcool etílico sintético, a partir do eteno. A Dow Chemical inicia a produção de magnésio, embora praticamente não houvesse mercado nos Estados Unidos, sendo toda a produção exportada para a Inglaterra, França, Alemanha e Japão. Logo em seguida inaugura uma planta de estireno, que era a maior fábrica americana deste produto na época. A Standard Oil of New Jersey negocia um acordo de troca de licenças com grupo alemão IG Farben, a partir do qual foi construída uma unidade piloto em Baton Rouge e cedido o pesquisador Paul Baumann, que foi o responsável pelas experiências nesta unidade durante 5 anos, chegando a desenvolver o processo de produção de ácido acético a partir do acitileno. Neste mesmo ano a Shell cria nos Estados Unidos a primeira unidade e diversas plantas industriais, desenvolvendo diversos processos e/ou produtos: butanol secundário, isooctano (processo ácido Continua (...)


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a frio), álcool isopropílico e acetona, alquilfenóis, alguilação de parafinas com olefinas, recuperação de tolueno por destilação/extração e butadieno via diclorobutano. No início da década de 1930, E. W. Fawcett e R. O. Gibson da ICI descobrem o polietileno, que atualmente é o termoplástico de maior produção mundial. Em 1934 o Nylon é descoberto pelo professor e pesquisador da Universidade de Harvard, Wallace H. Carothers, profissional contratado pela DuPont em 1927. Este polímero que veio a se tornar o maior sucesso comercial de produto químico no mundo (desenvolvimento em escala industrial iniciado somente em 1939). O químico alemão Paul Schlack, da firma Aceta (IG Farben), que já trabalhava com fibras têxteis desde 1928, ao ler a patente do Nylon depositada pela DuPont, imediatamente vislumbrou a possibilidade de produzir um fio semelhante, usando caprolactama. Em apenas alguns dias, o laboratório da Aceta estava produzindo um fio denominado “Nylon 6”, com propriedades diferentes das apresentadas pelo fio de Nylon fabricado pela DuPont e que partia do caprolactama, que continha 6 átomos de carbono. Neste mesmo ano a Union Carbide já produzia e comercializava 35 produtos químicos produzidos a partir do eteno e 15 a partir do propeno. Em 1935, a ICI desenvolve o polietileno de baixa densidade, registrando a sua patente nos Estados Unidos com poucos meses de antecedência em relação à Union Carbide. Este produto, atualmente conhecido como polietileno de baixa densidade e inicialmente aplicado para fins militares em radares de aviões em função de suas propriedades dielétricas, foi desenvolvido por Michael Perrin, responsável por determinar as condições exatas nas quais a reação se processava. Em 1938 alguns executivos da DuPont visitaram a fábrica da Aceta em Wolfen, e ficaram espantados com o progresso alemão na fabricação do “Nylon 6”, decidindo fazer um intercâmbio de licenças de fabricação, o que efetivamente ocorreu em 1939, poucos meses antes do início da Segunda Guerra Mundial. Em 1939 a Union Carbide compra a Bakelite Company, empresa produtora de resina fenol-formaldeído, utilizado para a fabricação de bolas de bilhar em substituição do marfim. A Dow Chemical constrói uma planta petroquímica na região da Costa do Golfo (Freeport – Texas) utilizando conceitos revolucionários para a época ao instalar equipamentos a céu aberto, sem tubulações de processo enterradas, o mínimo de edificações possível, o que acarretou economias de um terço à metade do que seria investido para fazer a mesma fábrica no clima frio dos Estados do norte dos Estados Unidos (este modelo se tornou padrão para a construção de unidades químicas em regiões de climas tropicais e temperados de todo o mundo). Neste mesmo ano, os químicos ingleses J. R. Whinfield e J. T. Dickson da Calico Printers Association, começaram a estudar as patentes de Carothers e ficaram surpresos ao verificar que este havia incluído, na descrição de uma das patentes, que poliésteres alifáticos (de cadeia reta) não eram adequados à formação de polímeros que pudessem ser transformados em fibras, por não apresentarem a estabilidade química das poliamidas (nylon) e terem ponto de fusão muito baixo, mas não citava os poliésteres aromáticos (contendo a estrutura de um anel benzênico). Esses pesquisadores testaram a reação de esterificação e polimerização entre o ácido tereftálico e o etilenoglicol, sob a ação de catalisadores, e logo chegaram à formação de um polímero que apresentava ótimas propriedades como fibra (algumas superiores ao nylon) além de um Continua (...)


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1939 a 1945

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ponto de fusão elevado (240 ºC). A esse poliéster deram o nome de “Terylene”. O primeiro processo prático para produção da acrilonitrila a partir do acetileno foi patenteado pela Bayer em 1939, trabalho desenvolvido por Otto Bayer e Peter Kurtz (resinas acrílicas). Ainda na década de 30, a ICI faz um acordo de licenças com o cartel que havia financiado as pesquisas do processo Bergius (ao qual pertenciam a Shell holandesa e a IG Farben), para utilizar este processo na produção de gasolina sintética a partir do carvão, criando duas unidades de gasolina sintética. Como estas unidades geravam muito propano e butano, e a ICI não sabia o que fazer com estes gases, procurou então desenvolver processos para produzir amônia e metanol, desenvolvendo então um processo de reforma catalítica de hidrocarbonetos leves, para servir como ponto de partida para a produção de amônia e metanol. Em razão do sucesso do processo, inúmeras empresas quiseram licenciá-lo. Este processo sintético de produção do metanol a partir de frações leves e gases naturais desenvolvido pela ICI é o mais empregado no mundo. Período da 2ª. Guerra Mundial no qual foi promovido um avanço sem precedentes no desenvolvimento da indústria química mundial. Com a impossibilidade de acesso às fontes usuais de matérias-primas, as nações em litígio foram obrigadas a lançar mão dos seus químicos e engenheiros químicos para sintetizarem e produzirem, a partir de matérias-primas locais, os produtos necessários aos esforços de guerra. A Alemanha contava com uma posição vantajosa, não só pelo grande número de cientistas e químicos de que dispunha, mas sobretudo pela empresa IG Farben, enquanto que os Estados Unidos não contavam com a mesma tradição química alemã. Graças à introdução do conceito de Engenharia Química, formulado pelo MIT e logo seguido por muitas universidades norte-americanas (California Institute of Technology – Caltech, e as de Wisconsin, Minnesota, Delaware, Purdue, Texas e Cornell entre outras), os Estados Unidos foram capazes de recuperar o tempo perdido, ficando ao fim da guerra, praticamente equiparados à Alemanha no desenvolvimento de indústrias químicas. Neste período dentre os processos e produtos desenvolvidos pelos norte-americanos destacam-se três: o craqueamento catalítico em leito fluidizado, a gasolina de avião e a borracha sintética. Neste período surge a maior realização da Standard Oil of New Jersey, o desenvolvimento do craqueamento catalítico em leito fluidizado, desenvolvimento este que teve uma participação muito ativa da equipe do MIT e que é a base do sistema de refino de petróleo no mundo inteiro, até a presente data. A Humble Oil Company, filiada da Standard Oil of New Jersey desenvolveu e produziu a maior parte da gasolina de avião utilizada pelos Estados Unidos durante a guerra. Em 1939, na área de defensivos agrícolas (“crop protection chemicals” ) e após 20 anos de pesquisa, o químico suiço Paul Müller descobriu o DDT, considerado o primeiro inseticida moderno, seguindo-se de várias outras descobertas como o BHC, aldrin, dieldrin, benlate, lindano, toxafeno, e clordano, entre outros. Pesquisas posteriores mostraram, entretanto, que muitos desses compostos apresentavam uma persistência residual na natureza, bastante prejudicial aos homens e animais e tiveram o seu uso proibido. Novos defensivos agrícolas foram então desenvolvidos, sem os inconvenientes daqueles. Em 1940, enquanto os Estados Unidos produziam 1 tonelada de borracha sintética por dia (planta piloto da Goodyear), a Alemanha produzia 20.000 toneladas por ano. No amplo acordo de trocas de Continua (...)


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licenças entre a Standard Oil of New Jersey e a IG Farben, de 1930, a Standard Oil of New Jersey recebeu informações sobre os dois processos alemães de fabricação de borracha sintética: a Buna S, à base de estireno e butadieno e a Buna N, à base de acrilonitrila. Quando em 1942 os japoneses invadiram a Malásia, acabando com o envio de borracha natural para o resto do mundo, foi a partir das informações das patentes alemãs que a Rubber Reserve Company começou o programa de desenvolvimento e produção de borracha sintética nos Estados Unidos. A produção da borracha sintética a partir do estireno e do butadieno exigia a fabricação de destes insumos. A borracha sintética seria produzida pela Goodyear, Goodrich, Firestone e U.S. Rubber (depois Uniroyal). O estireno seria produzido pela Dow, pela Union Carbide e pela Koppers, tendo como origem o benzeno que provinha da indústria metalúrgica (preparação do coque). O butadieno tinha duas origens distintas: indústria petrolífera (desidrogenação de butenos, craqueamento de nafta e cloração-deidrocloração de butenos) e álcool etílico obtido por via fermentativa. Durante o período da Segunda Guerra Mundial surgiram nos Estados Unidos muitas empresas de consultoria (algumas já existentes antes da guerra), que se dispunham a desenvolver novos processos ou melhorar os existentes, em laboratórios próprios ou dos próprios clientes, e que trouxeram uma contribuição notável ao desenvolvimento da indústria química. Dentre elas a Universal Oil Products – UOP, fundada em 1915 a partir da Standard Asphalt. Gustav Egloff, químico chefe do Departamento de Pesquisa da UOP havia feito antes do período da guerra, várias viagens à Alemanha para acompanhar o desenvolvimento da indústria química alemã, sobretudo a parte da síntese de combustíveis a partir do carvão. Acabou convidando em uma dessas ocasiões para trabalhar nos Estados Unidos o cientista Hans Tropsch, um dos cientistas envolvidos na criação da síntese. Em função do afastamento de Hans Tropsch, por motivos de doença, a UOP contrata o cientista russo Vladimir Nicolaevitch Ipatieff, uma das maiores autoridades em catálise da época e considerado juntamente como Paul Sabatier, químico francês, um dos “pais” da catálise. Embora Sabatier tenha ganho o prêmio Nobel por seus trabalhos em catálise, sabe-se hoje que os trabalhos de Ipatieff foram mais profundos e amplos que os de Sabatier. Além de consultor da UOP, Ipatieff ocupava uma cátedra de química na Northwestern University. Em 1941 a fibra de poliéster denominada de “Terylene” foi patenteada pela empresa inglesa Calico Printers Association sob grande segredo, atendendo a uma solicitação do governo britânico para todo o invento descoberto durante a Segunda Guerra Mundial que pudesse ter valor estratégico. Neste mesmo ano, o solvente necessário para transformar a poliacrilonitrila em fibra, denominado “dimetilformamida”, surge de trabalhos independentes desenvolvidos tanto pela Bayer como pela DuPont. Estranhamente, talvez devido aos esforços de guerra, ambas as empresas descontinuaram as pesquisas. Ao fim da guerra, só os norte-americanos tiveram condições de prosseguir com os trabalhos. As investigações sobre as condições da reação de polimerização e a utilização de comonômeros tinham avançado bastante, sendo possível produzir fibras tendo comonômeros como cloreto de vinila, vinil-piridina e ésteres acrílicos. As propriedades dessa fibra acrílica, sobretudo sua grande resistência à luz solar, imunidade ao ataque de traças e à formação de mofo e sobretudo seu poder de “afofamento” (“bulking power”), tornando-a muito semelhante a lã natural, levaram, além da DuPont, também a Union Carbide e a Monsanto a desenvolverem Continua (...)


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1949

1950

processos para a sua fabricação. Em 1943 J.R. Whinfield, agora trabalhando para o Ministério de Suprimentos, negocia com a ICI a cessão de patentes da Calico Printers Association, ao mesmo tempo em que a ICI deveria desenvolver a tecnologia de fiação no estado de fusão. A ICI foi escolhida não só porque já produzia uma das matérias-primas (o etilenoglicol), mas também porque tinha conhecimento das técnicas de fiação no estado de fusão, conhecimento obtido através de um acordo com a DuPont (Nylon Agreement), feito em 1939. O acordo da Calico com a ICI só foi efetivamente assinado em 1946, e a primeira fábrica de Terylene começou a operar em 1948. A Basf desenvolve um novo processo de produção de polietileno que era fabricado pela ICI em 1935. Nos Estados Unidos a produção de resinas vinílicas, que era pouco superior a 450 toneladas por ano em 1939, saltou para 54 mil toneladas por ano, em 1945. As fábricas atuais de PVC têm capacidade individual de 500 mil e 1 milhão de toneladas por ano. Com o fim da guerra, a Inglaterra resolveu revelar as patentes de inventos considerados estratégicos (e o Terylene foi um deles), dando oportunidade à DuPont de conhecer este invento, agora de propriedade da ICI, idêntico ao que ela mesma havia desenvolvido em 1944. Como as duas companhias tinham um acordo para a cessão de licenças; a DuPont para a produção do polietileno e a ICI para a produção do nylon, a DuPont reconheceu a precedência inglesa na descoberta da fibra de poliéster e acabou negociando com a ICI os direitos de utilização da patente inglesa. A fibra de poliéster tem características que a distinguem do nylon, como a extrema insensibilidade à água depois de estirada a frio, a grande resistência à maioria dos solventes, a possibilidade de imitar a resilência da lã quando “encrespada”, a possibilidade de “reter o vinco” após a lavagem (que foi o seu grande apelo na fase de marketing) e a possibilidade de misturar-se a fibras naturais, sobretudo ao algodão. Além disso, seu contato com a pele é considerado pela maioria das pessoas, como mais agradável que o nylon. De todas as fibras sintéticas, é a de maior produção mundial, correspondendo a aproximadamente 20% da produção da totalidade de fibras (incluindo as naturais e artificiais) nos Estados Unidos e Europa Ocidental e a 40% no Japão. Para entrar no mercado de fibras, a Monsanto, por não ter experiência industrial em processamento de fibras, resolveu fazer uma joint venture com a Amercian Viscose, na época a maior produtora de raion dos Estados Unidos, dando origem a Chemstrand. Como resultado desta parceria, foi montada a fábrica de “Acrilan” (nome dado pela Monsanto para a sua fibra acrílica), a qual inicia as suas operações no início dos anos 50. O produto entretanto apresentava um sério defeito, as fibras rompiam-se quando tensionadas (por exemplo, ao dobrar-se um cotovelo) e aparecia o substrato da fibra que não era tingido. O produto teve que ser recolhido e a Chemstrand quase foi à falência. A partir da década de 50 a indústria química mundial, agora liderada pelos Estados Unidos, passou por um desenvolvimento acelerado, introduzindo no mercado novos polímeros, que vieram a substituir em muitas funções outros materiais como o papel, madeira, vidro e metais. Também no campo das fibras sintéticas o avanço foi notável, em substituição às fibras naturais e às fibras artificiais à base de celulose. No campo dos defensivos agrícolas foram desenvolvidos dezenas de inseticidas, herbicidas e fungicidas. Os polímeros termofixos precederam os termoplásticos, tanto em desenvolvimento como na utilização prática. Continua (...)


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1980 • 1995

Como os produtos elaborados com alguns termofixos (como a resina fenolformaldeído) apresentavam odor residual e não podiam ser coloridos, foram desenvolvidas resinas do tipo uréia-formaldeído e melanina-formaldeído, que não tinham cor nem odor residual e podiam receber qualquer cor desejável. A American Cyanamid foi uma das primeiras empresas norte-americanas a produzir essa nova resina, que mais tarde ficou conhecida com o nome de “Fórmica”, ainda hoje muito utilizada. No início da década de 50, Karl Ziegler, do Instituto Max Planck, retorma as experiências realizadas pela IG Farben na produção do polietileno de baixa densidade para produzir o polietileno de alta densidade. A primeira fábrica deste produto foi implantada pela Hoechst, na Alemanha, em 1955. Em 1950, a DuPont construiu a sua primeira fábrica de fibra acrílica (que recebeu o nome de “Orlon”) em Camden, Carolina do Sul. Em 1952, a DuPont constrói uma fábrica de fibra cortada (“staple fiber”), tendo já neste ano, uma capacidade total de produção acrílicas de 17.000 toneladas por ano. Neste mesmo ano, a Union Carbide inaugura a sua fábrica de “Dynel”, fibra acrílica com 40% de acrilonitrila e 60% de cloreto de vinila, tendo capacidade de 3.600 toneladas por ano de fibra cortada. Esta fibra era lavável, não encolhia, podia ser tingida de qualquer cor, aceitava vinco permanente, tinha a textura da lã e custava exatamente a metade do preço da lã. A Bayer instala a primeira fábrica de fibra acrílica na Alemanha, para a produção de fibra cortada. Essa fibra recebeu o nome de “Dralon” e veio a se constituir em um importante produto de exportação da Bayer. A Monsanto retoma as pesquisas de laboratório para resolver os problemas apresentados pelo “Acrilan” em 1949 e o produto pode ser relançado, sem os inconvenientes do primeiro lançamento. A Monsanto compra a participação da American Viscose na Chemstrand e passa a ser a sua única proprietária. Com a introdução dos catalisadores chamados de 2ª. geração para a polimerização de olefinas e do tipo “metalocenos”, o número de tipos de polietilenos e polipropilenos com propriedades físicas e químicas diferentes pode chegar a alguns milhares. A produção mundial de fibras artificiais atinge o volume de 2.350 mil toneladas, correspondente a aproximadamente 6% da produção mundial de fibras, incluindo fibras naturais.

Fonte: Adaptado de Wongtschowski (1999)

O período analisado e apresentado por Wongtschowski (1999) permite a realização de algumas reflexões quanto ao tipo de racionalidade adotado para a expansão da indústria química no mundo, a qual se faz presente nos diferentes segmentos industriais que constituem a sociedade industrial contemporânea. Em razão de sua importância estratégica, a história da indústria química mundial se confunde com a história das duas grandes guerras, onde por meio dos dados apresentados por Wongtschowski (1999), é possível perceber que a indústria química e parte significativa


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das pesquisas científicas desenvolvidas na época passaram a ser amplamente controladas e conduzidas pelos poderes estatal e privado para a satisfação das necessidades militares e concomitantemente, para o atendimento de interesses de mercado. Para Demajorovic (2003, p. 66) a “tecnologia, pesquisa e ciência fundidas em busca da produtividade encontraram no setor químico o terreno ideal para o seu desenvolvimento”. De acordo com o autor: Não por acaso o setor é denominado ‘indústria baseada em ciência’, cuja principal característica é a contínua inovação propiciada pelas atividades de pesquisa e desenvolvimento das ciências relacionadas nas universidades ou em outras instituições de pesquisa.(DEMAJOROVIC, 2003, p. 66 e 67)

Desta forma, a lógica da atuação da indústria química orientada para a produtividade, similar a de tantas outras organizações atuantes na sociedade industrial, pode ser associada ao domínio exercido pela racionalidade instrumental sobre a ciência na busca do atingimento de resultados e da obtenção de lucros. É importante ressaltar também que, apesar da indústria química produzir prioritariamente resultados orientados para o atendimento dos interesses estratégicos ou econômicos dos poderes que a controlam, é também responsável por produzir inúmeros benefícios a favor da humanidade. Segundo Wongtschowski (1999), somente no campo de produtos farmacêuticos, o desenvolvimento foi enorme, a começar pela penicilina e toda a família de antibióticos hoje conhecida, dando origem à indústria bioquímica, um campo muito particular da indústria química e que está atravessando uma fase de progresso enorme, através da engenharia genética. Apesar dos benefícios proporcionados à humanidade apresentados pelo autor e de outros aqui não relatados, é importante ressaltar que a maior parte das iniciativas promovidas pela indústria química mundial, a exemplo de outros tipos de organizações que operam sob a lógica econômica, visa atender objetivos econômicos atrelados aos interesses daqueles que a financiam e que dela esperam obter retorno financeiro. Esta constatação pode ser verificada, uma vez que a maior parte dos produtos produzidos


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pela indústria mundial somente estão disponíveis para as parcelas da sociedade que dispõe de recursos financeiros para a sua aquisição. 2.3.2. As Origens da Indústria Química no Brasil

A fabricação de produtos químicos no Brasil se inicia com o processo de colonização do país, com a necessidade primária de produzir localmente os primeiros artigos necessários para viabilizar a fixação dos colonizadores no novo mundo. Já o surgimento e a expansão da indústria química no Brasil segue a mesma lógica da indústria química em outros lugares do mundo, caracterizada pelo interesse econômico do desenvolvimento de uma indústria em solo nacional orientada para o suprimento das demandas locais, para a redução da dependência internacional (importações) e para a ampliação das exportações. Em seu estudo, Wongtschowski (1999) apresenta uma retrospectiva histórica envolvendo fatos relacionados ao surgimento e a expansão da indústria química no Brasil, que possibilitam estabelecer relações diretas desta com a história da indústria química mundial e com a racionalidade adotada pelo processo de expansão da sociedade industrial:

Quadro 7 – Retrospectiva Histórica da Indústria Química no Brasil Período •

1500 a 1600

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1662 1702

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1808 • 1808 a 1844

Fatos Relevantes Instalação do primeiro engenho de açúcar no país. No final do século XVI a produção anual de açúcar na colônia chegava a 4.500 toneladas, geradas em 117 engenhos, localizados principalmente em Pernambuco e na Bahia. Associada à fabricação de açúcar ocorria a produção de aguardente. O sabão (produzido a partir de cinzas e de sebo de boi ou carneiro), o óxido de cálcio (obtido de sambaquis) e o hidróxido de cálcio foram produtos químicos fabricados desde cedo no País. Corantes de origem vegetal (como pau-brasil, anil, urucu) foram exportados já a partir de 1500-1530 em volumes crescentes. Início da produção de sal em escala comercial. Início da produção de salitre e, mais adiante, de pólvora. Ano em que D. João VI chegou ao Brasil. Neste ano, o Brasil já produzia açúcar, aguardente, sabão, medicamentos, potassa (carbonato de potássio), barrilha (carbonato de sódio), salitre (nitrato de potássio), cloreto de amônio e cal (óxido de cálcio). Produziam-se por extração, sal, drogas medicinais e resinas vegetais. Foram fundadas no País 5 fábricas de pólvora, 30 fábricas de sabões e velas, e 10 fábricas de produtos químicos diversos (medicamentos, potassa, hipoclorito de sódio, tintas e vernizes, graxas de lustro, tintas de escrever e água-de-colônia). Continua (...)


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1881

1883

1887

1889

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1893 1894

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1899

1890

1891

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1898

1903

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1905

1909

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1911 • • 1912

Fundada em Sorocaba, São Paulo, a empresa F. Matarazzo, inicialmente operando no ramo alimentício. Inaugurada em Tremembé, São Paulo, a Companhia de Gaz e Óleos Minerais, primeira fábrica de ácido sufúrico. Inaugurada no Rio de Janeiro, a Companhia de Ácidos para produção de ácido sufúrico. Inaugurada em Maraú, Bahia, a John Grant & Co. para produção de ácido sufúrico. Foi fundada em São Paulo a indústria Dierberger Óleos Essenciais, voltada para a produção de produtos químicos e essências (existente até os dias atuais). Fundada em São Paulo a firma Queiroz, Moura e Companhia para a produção de ácidos e produtos químicos. Quando da Proclamação da República, o Brasil já possuía indústrias nas áreas de extração mineral, vegetal e animal, indústria siderúrgica, de papel, de vidro, de cimento, de sabões e velas e de adubos e inseticidas. Em termos de fabricação de produtos químicos, existiam inorgânicos de síntese (hipoclorito de sódio, carbonato de potássio, cloro, ácidos clorídrico e nítrico, iodeto de potássio, iodeto de ferro, cloreto mercuroso, bissulfato de cálcio, hipofosfito de cálcio, nitrato de prata, iodeto de chumbo, carbonato básico de chumbo e sulftato de magnésio) e produtos orgânicos (clorofórmio, éter dietílico, nitrato de etila, ácido tartárico e tartaratos, ácido acético e acetatos, ácido nítrico e citratos, ácido láctico e lactatos, iodofórmio, nitrocelulose e glicerina). Constituição da Companhia Melhoramentos de São Paulo para a implantação de uma fábrica de papel em Caieiras, São Paulo. Constituição da Companhia Antártica Paulista em São Paulo, para a produção de cervejas e bebidas em geral. Fundada em São Paulo a S.A. Fábricas Orion, para a produção de artefatos de borracha. Neste mesmo ano, foi consituída em São Paulo a Companhia Química Duas Âncoras, para a produção de cêras para assoalhos, pastas para calçados e saponáceos, e que ficou conhecida posteriormente pelo seu agressivo marketing de “Cito, Póx e Parquetina”. Inauguração da Companhia Vidraria Sta. Marina, pertencente ao grupo francês St. Gobain. Fundação em Santos, São Paulo, do Moinho Santista, empresa pertencente ao grupo multinacional argentino Bunge, que posteriormente implantou um respeitável conjunto de indústrias químicas no país: Sanbra (1934), Quimbrasil (1936), Serrana (1938) e Tintas Coral (fundada em 1654 e vendida para a ICI em 1996). Inauguração da fábrica do Ministério da Guerra, em Piquete, São Paulo, para a produção de ácido sulfúrico, ácido nítrico, pólvora e explosivos. Sob o nome de S.A. Indústrias Reunidas F. Matarazzo, muda-se para São Paulo, onde implanta uma moagem de trigo. Essa empresa foi responsável posteriormente, pela implantação de um grande parque industrial de fábricas químicas: óleos e gorduras (1920), raion-viscose (1924), pequena refinaria de petróleo (1936) e ácido nítrico (1942). Criação da Bayer do Brasil sob o nome de Frederico Bayer & Companhia, pertencente à Bayer da Alemanha. Criação da Companhia Brasileira de Carbureto de Cálcio em 1912, pertencente ao grupo belga Solvay. Criação da S.A. White-Martins, posteriormente pertencente à Union Carbide dos Estados Unidos. Continua (...)


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1914 a 1918

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1918

1919

1951

1919 a 1939

Período da Primeira Guerra Mundial. A indústria química brasileira ressentiu-se muito da ausência de matérias-primas, quase todas importadas. Várias indústrias surgiram neste período, sendo importante ressaltar a S.A. Indústria Votorantim (1918) em Sorocaba, para a produção de cerâmica e que deu origem ao grupo Votorantim, bastante forte no campo das indústrias químicas, entre as quais destaca-se a Nitro Química em São Miguel Paulista, São Paulo (1935). Fundação da Companhia Aga de Gás Acumulado, no Rio de Janeiro em 1915, para a produção de acitileno (pertence ao grupo sueco Aga). Pelo Decreto Legislativo nº. 3216 de 16/08/1917 o governo oferecia vantagens a quem em concorrência pública se propusesse a estabelecer a indústria de fabricação, em larga escala, de soda cáustica, a fim de atender as necessidades das fábricas de tecidos, de sabão e outros artigos. Essa fábrica só veio a surgir em 1945, quando a multinacional Solvay iniciou a sua implantação, no Alto da Serra do Mar, na parada Elclor, município de Santo André, de uma fábrica de cloro e soda. A empresa Queiroz, Moura e Companhia, que a partir de 1912 passou a se chamar Sociedade de Produtos Químicos L. Queiroz, já possuía quatro estabelecimentos industriais: fábrica de pólvora na estação de Sabaúna, fábrica de sulfeto de carbono na estação de São Caetano, fábricas de ácido sulfúrico, ácido clorídrico, salitre, sulfeto de carbono, amoníaco, adubos polysu, superfosfatos e sulfato de sódio na estação Barra Funda e drogaria Americana na Alameda Cleveland. Atualmente atua sobre a denominação de Elekeiroz S. A., com fábrica na cidade de Várzea Paulista, São Paulo. Criação da Companhia Química Rhodia Brasileira, pertencente ao grupo francês Rhône-Poulenc. A Geon do Brasil em associação com a norte-americana BF Goodrich inauguram uma fábrica para produção de PVC. São Paulo: Kodak Brasileira Com. Ind. Ltda. (1920) e Hélios S.A. Ind. e Com. (1922).

Fonte: Adaptado de Wongtschowski (1999)

De acordo com Wongtschowski (1999), no período entre as duas grandes guerras (1919 a 1939), o Brasil assistiu a um crescimento contínuo de sua indústria química, condizente com o desenvolvimento dos outros ramos da indústria, visando a substituição de produtos químicos até então importados. Neste mesmo período, empresas originadas de grupos multinacionais vieram a se instalar no País, conforme demonstrado no quadro 8:

Quadro 8 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1920 e 1939 Ano de Fundação 1920

Kodak Brasileira Com. Ind. Ltda.

Município da Unidade Fabril São Paulo (SP)

1921

Usina Colombina

São Caetano (SP)

Nome da Empresa

Produtos Produtos para Fotografia Ácido Sulfúrico e Produtos Químicos Diversos Continua (...)


137

1921

S.A. Curtume Carioca Div. Química

Rio de Janeiro (RJ)

1921

Esso Química S.A.

Rio de Janeiro (RJ)

1922

Hélios S.A. Ind. e Com.

São Paulo (SP)

1923

Cia. Cerâmica Mauá

Mauá (SP)

1923

Pirelli S.A.

Santo André (SP)

1923

Merck S.A. Inds. Químicas

Rio de Janeiro (RJ)

1924 1924 1925 1926 1928

S.A. Inds. Reunidas F. Matarazzo Estabelec. Nacional Indústria de Anilinas S.A. ENIA Cia. Brasileira de Cimento Portland Perus Com. E Ind. João Jorge Figueiredo S.A. ICI do Brasil

1929

Cia. Fiat Lux de Fósforos de Segurança Indústrias Irmãos Lever

1929

Refinações de Milho Brasil

1928

Produtos Químicos para Curtume Produtos Derivados de Petróleo Tintas de Escrever, Papel Carbono, Fitas para Máquina de Escrever Cerâmica Cabos e Condutores Elétricos, Pneus e Artigos de Borracha Produtos Químicos e Farmacêuticos

São Paulo (SP)

Raion-viscose

São Paulo (SP)

Anilinas

Caieiras (SP)

Cimento

São Paulo (SP)

Cerâmicas

São Paulo (SP)

Produtos Químicos Diversos

São Paulo (SP)

Fósforos

São Paulo (SP)

1932

Cia. Brasileira Rhodiaceta, Fábrica de Raion Destilaria Sul Riograndense

1935

Globo S.A. Tintas e Pigmentos

Mauá (SP)

1935

Cia. Nitro Química Brasileira

São Miguel (SP)

1936 1936

Refinaria Ipiranga Cia. Eletro-Chimica Fluminense Indústrias Matarazzo de Energia S.A.

Rio Grande (RS) Alcântara (RJ)

Sabões e Sabonetes Amidos, Óleos, Dextrinas, Glicose, Outros Produtos Derivados do Milho Ácido acético, anidrido acético, raion acetato Refinaria de Petróleo Pigmentos e Óxidos de Ferro Ácido Sulfúrico, Ácido Nítrico, Fio de Raion Refinaria de Petróleo Soda Cáustica e Cloro

São Caetano (SP)

Refinaria de Petróleo

1929

1936

São Paulo (SP) Santo André (SP) Uruguaiana (RS)

1937

DuPont do Brasil S.A.

Barra Mansa (RJ)

1939

Inbra S.A. Inds. Químicas

Diadema (SP)

1939

Cia. Goodyear do Brasil Produtos de Borracha

São Paulo (SP)

1939

Cia. Firestone do Brasil

Santo André (SP)

Produtos Químicos Diversos Produtos Químicos Diversos Pneus, Câmaras de Ar, Artigos de Borracha Pneus, Câmaras de Ar, Artigos de Borracha

Fonte: Adaptado de Santa Rosa citado por Wongtschowski (1999, p. 76 e 77) De acordo com Wongtschowski (1999) em função da deflagração da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), a indústria química brasileira foi privada de sua fonte de matérias-primas importadas, as quais eram até então, abundantes e relativamente


138

baratas, devido à enorme concorrência que faziam entre si as empresas IG Farben (Alemanha) e ICI (Inglaterra) pela conquista de novos mercados. Segundo Santa Rosa citado por Wongtschowski (1999), criou-se nessa época uma mentalidade orientada para o improviso, numa tentativa de suprir a ausência das matérias-primas importadas por substitutas nacionais, com resultados econômicos, muitas vezes, duvidosos: enxofre importado por piritas brasileiras, carvão combustível por torta de algodão, extrair sais de potássio das cinzas da torta de algodão. Para o autor este período serviu para que fosse estabelecida a convicção entre o empresariado e técnicos do setor quanto à necessidade de estabelecer as bases definitivas da indústria química brasileira ao invés de promover a substituição de matérias-primas em situações emergenciais. O quadro 9 apresenta as iniciativas surgidas no período:

Quadro 9 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1940 e 1945 Ano de Fundação

Nome da Empresa

Município da Unidade Fabril

1941

Ind. Química Anastácio S.A.

São Paulo (SP)

1941

Cia. Brasileira de Alumínio

Sorocaba (SP)

1941

Fábrica de Pólvora do Ministério da Guerra

Piquete (SP)

1942

Ind. de Prod. Químicos Alca Ltda.

Itapira (SP)

1942

S.A. Ind. Reunidas Matarazzo

1942

S.A. Ind. Reunidas Matarazzo Societé Anonyme du Gaz de Rio de Janeiro

1943

Comendador Ermelino (SP) Sta. Rosa de Viterbo (SP) Rio de Janeiro (RJ)

1943

Inds. Andrade Latorre S.A.

Jundiaí (SP)

1944

E.R. Squibb e Sons do Brasil

São Paulo (SP)

1945

Ind. de Tintas e Vernizes “Super”

São Paulo (SP)

1945

Inds. Químicas Eletrocloro S.A. – Elclor

Santo André(SP)

1945

Ind. Química Mantiqueira

Lorena (SP)

Produtos Ácidos Graxos, Estearina e Glicerina Ácido Sulfúrico, Sulfato de Alumínio Ácido Sulfúrico, Ácido Nítrico, Pólvoras e Explosivos Ácido Láctico, Lactato de Cálcio, Lactato de Etila Película Transparente de Viscose (Papel Celofane) Ácido Cítrico Benzeno, Tolueno e Xileno Fósforos e Clorato de Potássio Produtos Farmacêuticos e Penicilina Tintas e Vernizes Soda Cáustica, Cloro, Ácido Clorídico , Hipoclorito de Sódio Explosivos, Peróxido de Hidrogênio (Água Oxigenada) e Ácido Oxálico

Fonte: Adaptado de Santa Rosa citado por Wongtschowski (1999, p. 79)


139

No período posterior a Segunda Guerra Mundial novos empreendimentos foram inaugurados. De acordo com Wongtschowski (1999) merece destaque o início da instalação em 1955, pela Petrobrás, de uma unidade de recuperação e purificação de eteno contido nos gases residuais, anexa a Refinaria de Cubatão, São Paulo. Segundo o autor, essa unidade iniciou suas atividades em 1957, abastecendo de eteno as unidades de estireno da Companhia Brasileira de Estireno e de polietileno de baixa densidade da Union Carbide, ambas em Cubatão e próximas à Refinaria. No quadro 10, são apresentadas as indústrias químicas instaladas no Brasil entre 1946 e 1959:

Quadro 10 – Empresas Químicas Instaladas no Brasil entre 1946 e 1959 Ano de Fundação

Nome da Empresa

Município da Unidade Fabril

1946

De La Rue Plásticos do Brasil S.A.

Rio de Janeiro (RJ)

1946

Cia. Siderúrgica Nacional

Volta Redonda (RJ)

1947

Nitro Química

São Miguel (SP)

1947

Alba S.A. Adesivos e Laticícios Brasil-América

Curitiba (PR)

1947

Ceralit S.A. Ind. e Com.

São Paulo (SP)

1948

Resana S.A. Inds. Químicas

São Bernardo (SP)

1948

Indústrias Químicas Brasileiras Duperial

Barra Mansa (RJ)

1948

Union Carbide do Brasil S.A.

Cubatão (SP)

1948

S.A. Indústrias Votorantim

Sorocaba (SP)

1948

Vulcan Artefatos de Borracha e Material Plástico S.A.

Mogi das Cruzes (SP)

1949

Elekeiroz

Várzea Paulista (SP)

1949

Cia. Brasileira Givaudan Inds. Farmacêuticas FontouraWyeth S.A. Bakol S.A. Ind. e Com.

São Paulo (SP)

Moldados de Resina FenolFormaldeído Alcatrões, Amônia, BTX, Naftalenos, Antraceno, Óleo de Creosoto e Piche Colódio (Dinitrocelulose), Nitrocelulose Industrial e Nitrocelulose para Pólvora (Trinitrocelulose) Formol e Hexametilenotetramina Ácidos Graxos, Sais de Ácidos Graxos, Óleos, Glicerina Resinas Alquidicas, Maléicas e Fenólicas, Anidrido Maléico e Resina de Poliéster em 1956 Ácido Sulfúrico, Ácido Nítrico, Nitrocelulose para Explosivos Polietileno de Baixa Densidade Película Transparente de Viscose (Papel Celofane) Folhas, Chapas Rígidas, e Chapas Flexíveis de Material Vinílico Ácido Sulfúrico e Superfosfatos Essências e Aromas

São Paulo (SP)

Produtos Farmacêuticos

São Paulo (SP)

Produtos Farmacêuticos

1949 1949

Produtos

Continua (...)


140

1949

Plásticos Plavinil S.A.

São Paulo (SP)

1949

Fongra Prods. Químicos

Suzano (SP)

1950

S.A. Inds. Reunidas F. Matarazzo Bristol-Labor S.A. S.A. Inds. Reunidas F. Matarazzo Refinaria Nacional de Petróleo S.A. Alba S.A. Inds. Químicas

1951

Cia. Química Industrial – CIL

1950 1950 1950 1950

Filmes de Material Vinílico Produtos Químicos Diversos

São Caetano (SP)

Soda Cáustica e Cloro

São Paulo (SP)

Produtos Farmacêuticos Pesticida Benzeno Hexaclorado

São Caetano (SP) Mataripe (BA)

Refinaria de Petróleo

Cubatão (SP)

Metanol Ácido Sulfúrico e Dióxido de Titânio Ácido Sulfúrico e Superfosfatos

São Paulo (SP)

Rio de Janeiro (RJ)

Soda Cáustica e Cloro

1951

Cia. de Superfosfatos e Produtos Químicos Pan-Americana S.A. Inds. Químicas Elekeiroz

Várzea Paulista (SP)

1951

Rhodia

Santo André (SP)

1951

Rilsan Brasileira S.A.

Osasco (SP)

1952

Rhodia

Santo André (SP)

1953

Quimbrasil

Santo André (SP)

1953

Cia. Eletroquímica Fluminense

Alcântara (RJ)

1953

Carborundum S.A. Ind. Brasileira de Abrasivos

Salto (SP)

1953

Inds. Químicas Eletro Cloro S.A.

Santo André (SP)

Anidrido Ftálico e Ftalatos Ácido Acético, Anidrido Acético e Acetatos Rilsan (Fibra de Poliamida de Classe do Nylon) Amônia Ácido Sulfúrico e Superfosfatos Soda Cáustica e Cloro Carbeto de Silício (Abrasivo) e Óxido de Alumínio (Coridón Artificial) Pesticida Benzeno Hexaclorado

1951 1951

Capuava (SP)

1953

Cia. Brasileira de Plásticos Koppers Cia. Brasileira de Estireno

1953

Usina Victor Sence S.A.

Campos (RJ)

1953

Cia. de Tintas e Vernizes R. Montesanto

São Paulo (SP)

1953

1953 1953 1954 1954

Fiação Brasileira de Raion “Fibra” S.A. Brascola Ltda. Nitro Química Matarazzo

São Bernardo (SP)

Poliestireno

Cubatão (SP)

Estireno Butanol por via Fermentativa, Acetato de Butila, Ácido Acético e Acetona Resinas Fenólicas, Maléicas, Alquídicas e Copais

Americana (SP)

Raion-Viscose

São Bernardo (SP) São Miguel (SP) São Caetano (SP)

Adesivos e Colas Soda Cáustica e Cloro Sulfeto de Sódio Cloreto de Cério, Silicato de Zircônio, Compostos de Tório e Urânio Pneus, Câmaras e Artigos de Borracha

1954

Orquima Inds. Químicas Reunidas S.A.

São Paulo (SP)

1954

Dunlop do Brasil S.A.

Campinas (SP)

1954 1954

Refinaria de Petróleo Manguinhos S.A. Refinaria e Exploração de Petróleo União S.A.

Rio de Janeiro (RJ) Capuava (SP)

Refinaria de Petróleo Refinaria de Petróleo Continua (...)


141

1955 1955 1955 1955

Nitro Química Quimbrasil Ind. Brasileira de Pigmentos S.A. Inds. Reunidas F. Matarazzo

São Miguel (SP) Santo André (SP) Mauá (SP)

Ácido Sulfúrico Pigmentos Inorgânicos Óxido de Zinco

São Caetano (SP)

Carbeto de Cálcio

1955

Rhodia

Campinas (SP)

1955

Quimbrasil Cia. Petroquímica Brasileira Copebrás Brasitex – Polimer Ind. Químicas S.A. Petróleo Brasileiro S.A. Petrobrás Cia. de Produtos Químicos Idrongal Anilinas Holandesas do Brasil S.A. Indústria e Comércio

São Caetano (SP)

Ácido Acético, Anidrido Acético, Acetatos, Álcool Isopropílico Fenotiazina

Cubatão (SP)

Negro de Fumo

São Caetano (SP)

Resinas Acrílicas

Cubatão (SP)

Refinaria de Petróleo

1955 1955 1955 1955 1956 1956 1956 1956 1957 1957 1958 1959

Cia. Rhodosá de Raion S.A. Coral S.A. Fábrica de Tintas, Esmaltes, Lacas e Vernizes Cia. de Petróleo da Amazônia S.A. Antoine Chiris Ltda. Rhodia Fábrica de Fertilizantes de Cubatão (FAFER) – Petrobrás Quimbrasil

Guaratinguetá (SP) Rio Claro (SP)

Produtos Químicos Diversos Anilina, Ácido Fórmico e Formiatos

São José dos Campos (SP)

Raion-viscose

Santo André (SP)

Resinas Sintéticas em Geral, Tintas e Vernizes

Manaus (AM)

Refinaria de Petróleo

São Paulo (SP) Campinas (SP)

Essências e Aromas Acetato de Polivilina Amônia, Ácido Nítrico e Fertilizantes Nitrogenados Fenol

Cubatão (SP) Santo André (SP)

Fonte: Adaptado de Santa Rosa citado por Wongtschowski (1999, p. 80 – 83)

Segundo Demajorovic (2003) a estratégia de ampliação da produção de químicos foi assegurada com a construção de gigantescas unidades produtivas a partir da década de 1960, quando as companhias de petróleo passaram a produzir petroquímicos. De acordo com Wongtschowski (1999), a grande arrancada e consolidação da indústria química brasileira ocorreu a partir desta década, com a criação dos três pólos petroquímicos: de São Paulo (1972), do Nordeste (1978) e do Sul (1982). O autor menciona alguns dados sobre constituição dos pólos e sobre as primeiras empresas que participaram de suas constituições: a) Pólo Petroquímico de São Paulo: surgiu da iniciativa da indústria privada nacional (Grupo Soares Sampaio, proprietário da Refinaria União em Santo André, São Paulo), depois de duas tentativas frustradas de parceria com as empresas norteamericanas Gulf Oil Corporation e Phillips Petroleum. O projeto somente pode ser


142

realizado com a participação da então recém criada Petroquisa30. No pólo petroquímico de São Paulo foram inicialmente instaladas as empresas apresentadas no quadro 11:

Quadro 11 – Pólo Petroquímico de São Paulo Nome da Empresa

Município da Unidade Fabril

Petroquímica União Ltda.

Santo André (SP)

Copamo – Consórcio Paulista de Monômeros Ltda. Poliolefinas S.A. Ind. e Com. Brasivil Resinas Vinílicas S.A. Rhodia Inds. Químicas e Têxteis S.A. Oxiteno S.A. Ind. e Com. Empresa Brasileira de Tetrâmero Cia. Brasileira de Estireno Union Carbide do Brasil Eletroteno Inds. Plásticas S.A.

Produtos Eteno, Propeno, Butadieno, Benzeno, Tolueno, O-xileno, Pxileno, Mistura de Xilenos e Resíduo Aromático

Santo André (SP)

Monômero de Cloreto de Vinila

Mauá (SP)

Polietileno de Baixa Densidade

Santo André (SP)

Cloreto de Polivinila

Paulínia (SP)

Fenol

Mauá (SP)

Óxido de Eteno

Mauá (SP)

Tetrâmero de Propeno e Cumeno

Cubatão (SP)

Estireno

Cubatão (SP)

Expansão da Unidade de Polietileno de Baixa Densidade

Santo André (SP)

Polietileno de Alta Densidade

Fonte: Adaptado de ABIQUIM citado por Wongtschowski (1999, p. 85) b) Pólo Petroquímico do Nordeste: surgiu na necessidade de expansão da produção brasileira de petroquímicos e da decisão pela implantação do segundo pólo petroquímico brasileiro, no lugar da ampliação do pólo petroquímico de São Paulo. Em 1969, o estudo encomendado pelo Conder – Conselho de Desenvolvimento do Recôncavo (empresa estatal da Bahia) a Clan – Consultoria e Planejamento recomendava a instalação do segundo pólo petroquímico na Bahia. Com base em uma decisão política, o General e então Presidente da República Emílio Medici,

30

De acordo com Wongtschowski (1999) a Petroquisa foi criada pelo decreto 61.891 de 28/12/1967, para desenvolver e consolidar a indústria química e petroquímica no Brasil, por meio de participações societárias em empresas do setor, mesmo minoritariamente, o que não era permitido à Petrobrás, por força da Lei 2004 que a criou. A Lei 2004 foi revogada pela Lei 9478 de 06/08/1997, que criou a Agência Nacional de Petróleo (ANP), sendo mais tarde regulamentada pelo Decreto 2455 de 15/01/98.


143

oficializou a localização do segundo pólo em Camaçari, decisão confirmada pela Resolução 02/70 do CDI em 21/07/1970. Para a criação do pólo, a Petroquisa ficou responsável pelo projeto da Central de Matérias-Primas e pela criação de estímulos para a implantação de unidades de segunda geração. Para implantar a Central de Matérias-Primas a Petroquisa cria a Companhia Petroquímica do Nordeste – Copene (1972). Neste pólo foram instaladas as seguintes empresas:

Quadro 12 – Pólo Petroquímico do Nordeste Nome da Empresa Copene Ciquine Petroquímica Ciquine Química Fisiba Melamina Ultra Metanor Nitrocarbono Pronor Acrinor Cobafi Copenor Cia. Petroquímica de Camaçari – CPC Deten Estireno do Nordeste EDN Isocianatos Oxiteno Nordeste Polialden Polipropileno Politeno

Produtos Eteno, Propeno, Butadieno, O-xileno, P-xileno, Mistura de Xilenos, Benzeno e Tolueno Octano, Butanol e Isobutanol Andrido Ftálico, Anidrido Maléico e Plastificantes Ftálicos Fibras Acrílicas Melamina Metanol Caprolactama e Sulfato de Amônio Dimetilereftalato Acrilonitrila e Ácido Cianídrico Tecido de Cordonéis de Nylon e de Poliéster Formaldeído, Hexametilenotetramina, Pentaeritritol e Formiato de Sódio Monômero de Cloreto de Vinila e Cloreto de Polivinila Alquibenzeno Linear Estireno, Poliestireno e Tolueno Tolueno Diisocianato Óxido de Eteno, Etileno-glicóis, Etanolaminas e Ésteres Glicólicos Polietileno de Alta Densidade Polipropileno Polietileno de Baixa Densidade

Fonte: Adaptado de Suarez e ABIQUIM citados por Wongtschowski (1999, p. 86 – 87)

c) Pólo Petroquímico do Sul: em 1975, apesar do pólo petroquímico paulista já se encontrar em plena atividade e do pólo do nordeste estar em construção, previsões de órgãos federais apontavam para a falta de produtos petroquímicos em 1981 e 1982, em níveis equivalentes a um novo pólo. Em função destas estimativas, é definida a sua localização no Rio Grande do Sul, no município de Triunfo, próximo à Refinaria Alberto Pasqualini, a qual seria responsável pelo fornecimento de Nafta. Em 1976, nos mesmos moldes da criação da Copene e para exercer a mesma função, é criada a Companhia Petroquímica do Sul Ltda. – Copesul. O quadro


144

abaixo apresenta as empresas instaladas no pólo em seus primeiros anos de atuação:

Quadro 13 – Pólo Petroquímico do Sul Nome da Empresa Copesul Poliolefinas Petroquímica Triunfo Polisul PPH Petroflex

Produtos Eteno, Propeno, Butadieno, Benzeno e Xilenos Polietileno de Baixa Densidade Polietileno de Baixa Densidade Polietileno de Alta Densidade Polipropileno Etibenzeno, Borracha Estireno-Butadieno

Fonte: Adaptado de ABIQUIM citado por Wongtschowski (1999, p. 88)

Para Nakano (2007) a formação de pólos consolidou-se como uma característica do setor, uma vez que tanto o eteno e o propeno, por se tratarem de gases, são mais facilmente transportados por dutos. De acordo com o autor, esta situação determina que as indústrias de primeira e segunda gerações se localizem em aglomerados. Nakano (2007) menciona que o setor petroquímico brasileiro se originou de uma iniciativa do governo federal, que na década de 1960 criou o Grupo Executivo da Indústria Química (GEIQUIM), responsável pela elaboração dos planos que culminaram na implantação dos pólos de São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul. Por meio da elaboração destes planos foi implantado um modelo que envolvia três elementos em sua composição societária: o capital privado nacional, o capital estrangeiro através do aporte de tecnologia e o capital público. Para Wongtschowski (1999) foi a partir da experiência de criação do Pólo Petroquímico do Nordeste que se consolidou o sistema dos “terços” ou “tripartite”

31

anteriormente adotado pela Petroquisa para a criação do pólo paulista. Neste sistema cada empresa teria um terço do seu capital nas mãos da iniciativa privada nacional, um terço com uma empresa estatal nacional (em geral a própria Petroquisa) e um terço

31

Segundo Wongtschowski (1999), por meio da adoção do sistema “tripartite” ficavam resguardados dois aspectos importantes no entendimento do governo federal: maioria do capital nas mãos da iniciativa privada (sócio privado nacional mais sócio privado estrangeiro) e maioria do capital nacional (sócio privado nacional mais sócio estatal nacional)


145

com uma empresa privada estrangeira (em geral fornecedora do conhecimento necessário para a implantação dos processos). Wongtschowski (1999) menciona que o modelo tripartite de participação acionária adotado pelas indústrias petroquímicas, já no pólo paulista, mas de maneira mais completa no pólo baiano, foi desfeito na década de 1980 por um grande número de empresas que o integravam. Segundo o autor, parte das empresas multinacionais, em geral detentoras de um terço do capital votante e fornecedoras do conhecimento necessário para a implantação dos processos resolveu vender sua participação aos acionistas brasileiros (privado e estatal). Além da indústria petroquímica, Wongtschowski (1999) menciona que outros tipos de indústrias químicas atingiram um notável desenvolvimento no Brasil entre as décadas de 1960 e 1990: fertilizantes32, cloro e soda cáustica33, química fina e alcoolquímica. No quadro abaixo são apresentados alguns dados relevantes apresentados pelo autor sobre estas indústrias:

Quadro 14 – Indústria Químicas por Tipo de Indústria Tipo de Indústria • • Fertilizantes

Fatos Relevantes Entre 1960 e 1994, o crescimento da produção de fertilizantes foi de 8,3% ao ano. Implantação em 1965 da Ultrafértil com um complexo de fertilizantes em Cubatão (São Paulo), para a produção de amônia a partir dos gases da Refinaria Presidente Bernardes. Produção de ácido sulfúrico, ácido nítrico, ácido fosfórico, nitrato de amônio, fosfato de diamônio e NPK, por iniciativa do grupo Ultra em associação com a Phillips Petroleum norte-americana, em 1965. Implantação em 1978 da Valefértil em Uberaba, Minas Gerais, com um complexo de grande porte para a produção de ácido Continua (...)

32

De acordo com Wongtschowski (1999), a indústria química sofreu um desenvolvimento notável a partir da década de 1960, com destaque para o Programa Nacional de Fertilizantes e Calcário Agrícola, definido pelo Governo Federal em 1974. 33 Segundo Wongtschowski (1999) este tipo de indústria caracteriza-se pela produção simultânea de cloro e soda cáustica, já que é resultante da eletrólise de uma salmoura de cloreto de sódio. O sal para a elaboração da salmoura tanto pode provir de minas subterrâneas (sal-gema), como de salinas que evaporam água do mar (sal marinho). O autor revela um dado interessante sobre a indústria de cloro e soda cáustica quando menciona que diferentes estágios de desenvolvimento de um país podem determinar que apenas a soda cáustica apresente interesse comercial (caso do Brasil na primeira metade do século) ou que apenas o cloro e seus derivados apresentem potencial de interesse. O autor considera que em ambos os casos a indústria de cloro e soda cáustica é prejudicada, pois gera um produto sem valor comercial e de difícil descarte em termos ecologicamente aceitáveis.


146

Cloro e Soda Cáustica

• • • • • •

• Química Fina •

• • Alcoolquímica •

sulfúrico, ácido fosfórico, fertilizantes fosfatados de alta e baixa concentração, fosfato de monoamônio e fertilizantes granulados, por iniciativa da Companhia Base do Rio Doce. Desenvolvimento e exploração das jazidas de fosfatos nacionais – em Jacupiranga, São Paulo, e Araxá, Minas Gerais, pela Serrana (pertencente ao grupo argentino Bunge); em Tapira e Patos de Minas, Minas Gerais, originalmente da Metago (empresa do governo estadual de Goiás) e atualmente exploradas pela Copebrás e Ultrafértil; Desenvolvimento e exploração das jazidas de sais de potássio (silvinita e carnalita) de Taquari-Vassouras, Sergipe, originalmente pela Petromin, que depois tornou-se Petromisa (Petrobrás) e atualmente arrendada à Companhia Vale do Rio Doce. 1948 – fundação da Eletrocloro (Solvay) em Santo André, São Paulo. 1951 – fundação da Pan-Americana no Rio de Janeiro. 1963 – fundação da Carbocloro em Cubatão, São Paulo. 1972 – fundação da Companhia Química do Recôncavo em Camaçari, Bahia. 1977 – fundação da Dow Química em Candeias, Bahia. 1977 – fundação da Salgema em Maceió (Alagoas) e Companhia Petroquímica de Camaçari em Camaçari (Bahia). A fusão destas duas empresas originou a Trikem em 1996. Criada para preencher uma das lacunas em termos de disponibilidade de produtos fabricados no Brasil como defensivos agrícolas, fármacos, corantes, pigmentos, catalisadores, aditivos, aromatizantes e flavorizantes. Suarez citado por Wongtschowski (1999) cita que 1982, dos 600 laboratórios produzindo fármacos e intermediários para a indústria farmacêutica, 520 eram nacionais e 80 eram estrangeiros. Entre os 50 maiores laboratórios responsáveis por 80% da produção, 45 eram estrangeiros e 5 nacionais. Em 1978, um estudo conjunto realizado pela Secretaria de Tecnologia Industrial, CDI, Ceme, Secretaria de Minas e Energia da Bahia, Fibase, Ceped e Petroquisa apontou para uma série de intermediários que poderiam ser produzidos no país. Em 1980 foi criada a Nordeste Química S.A. (Norquisa), que viria a desempenhar para as indústrias de Química Fina o mesmo papel que a Petroquisa desempenhou para as indústrias de 2ª. geração do pólo baiano. Entre as empresas pioneiras da indústria da química fina brasileira encontram-se: Norquisa, Basf Química da Bahia, CibaGeigy do Brasil, Enia, Ciquine Química, Policarbonatos, Carbonor, SmithKline do Nordeste, Nitroclor, entre outras. Precedeu a petroquímica em quarenta anos. Na década de 1920 a Rhodia produzia o cloreto de etila (para o lança-perfume), o éter dietílico e o ácido acético a partir do etanol. Na década de 1960 o País já produzia derivados acéticos a partir do etanol, na Rhodia e na Fongra (posteriormente adquirida pela Hoechst), butanol e acetona na Usina Victor Sence e eteno na Eletroteno (Solvay) e Union Carbide. Entre 1965 e 1971 a Coperbo, em Cabo, Pernambuco, produziu polibutadieno com butadieno obtido a partir do etanol. A unidade de butadieno permaneceu desativada até o início da década de Continua (...)


147

1980, quando foi modificada para permitir a produção de aldeído acético e eteno a partir do etanol. Estes produtos foram utilizados pela Companhia Álcoolquímica Nacional, localizada ao lado da Coperbo, para a produção de acetato de vinila monômero. Em 1969 a Eleikeiroz do Nordeste iniciou a produção de 2-etilhexanol, a partir do etanol, em Igarassú, Pernambuco. Na década de 1970, com a entrada em operação da Petroquímica União (1972) e da Copene (1978), o eteno petroquímico tornou-se disponível, iniciando-se uma competição entre o eteno derivado do etanol e o derivado da nafta. Em 1973, com a crise do petróleo, o Brasil passou a buscar fontes alternativas de matérias-primas visando a redução da dependência do petróleo importado. Em 1975 foi criado o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), gerido pela Comissão Nacional do Álcool. Para a indústria química o governo resolveu subsidiar a produção de álcool daqueles derivados orgânicos que pudessem ser produzidos alternativamente por rota petroquímica. Em 1982 o preço do etanol destinado às indústrias alcoolquímicas passou a ser equiparado ao preço da nafta petroquímica. O Decreto Lei 87.813 de 16/11/82 definiu a sistemática para a fixação do preço do álcool destinado à indústria química. Para os produtos que alternativamente também podiam ser produzidos pro rota petroquímica (eteno, dicloroetano, óxido de eteno, acetato de vinila) o preço do litro do álcool seria correspondente a 100% do preço FOB do litro da nafta. Para os produtos sem rota petroquímica alternativa (éteres glicólicos, ácido acético, aldeído acético, etilaminas) o preço do litro do álcool seria correspondente a 170% do preço FOB do litro de nafta.

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Fonte: Adaptado de Wongtschowski (1999)

De acordo com Wongtschowski (1999), a partir da década de 1990, os diferentes tipos de indústrias químicas sofreram os efeitos decorrentes da abertura de mercado, de desestatização e ampliação dos níveis de exigência da legislação ambiental, mesma época em que, segundo Nakano (2007), o governo federal retira a sua participação nas empresas. O quadro 15 apresenta algumas destas informações:

Quadro 15 – Fatos Ocorridos com a Indústria Química na Década de 1990 Tipo de Indústria • Petroquímica •

Fatos Relevantes Na década de 1990 a indústria petroquímica sofreu fortemente com a abertura comercial e a simultânea redução dos preços dos seus produtos no mercado internacional no período de 1990 a 1994. O processo de desestatização empreendido pelo governo federal após 1990 levou à saída da Petroquisa de praticamente todas as empresas, mantendo-se nas centrais petroquímicas – Continua (...)


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Fertilizantes

• • •

PQU, Copene e Copesul, com participações entre 15% a 18% do capital votante das empresas. Neste processo a Petroquisa foi substituída, em todos os casos, por um ou mais sócios com os quais ela anteriormente compartilhava o controle. Empresas que anteriormente possuíam controle compartilhado como Ciquine, Estireno do Nordeste, Nitriflex, Oxiteno, Nitrocarbono, Polialden e OPP passaram a ter um único sócio controlador. Outras como Acrinor, Alcoolquímica, Companhia Brasileira de Estireno, Ipiranga Petroquímica, Isopol e Proppet passaram, em etapas posteriores, a terem um controlador único. No caso da Copene o controlador, a Norquisa, passou a ser controlada por quatro dos principais grupos privados nacionais (Oderbrecht, Ultra, Suzano, Mariani); a Copesul passou a ter controle compartilhado entre Odebrecht e Ipiranga; a PQU entre Unipar, Union Carbide, Polibrasil, Oxiteno e Unigel; e a Polibrasil entre Shell e Suzano. A Petroflex passou a ser controlada pela Suzano, Copene e Unipar e a Politeno pela Conepar, Suzano e Sumitomo/Itochu. Antes do Plano Nacional de Desestatização (PND), a Petrofértil controlava as empresas Ultrafértil, Nitrofértil, Fosfértil, Goiasfértil e ICC (além de ter como coligadas as empresas Arafértil e Indag) e a Petrobrás controlava a Petromisa. Após a Lei 8.031 de 12/04/90 e o Decreto 99.463 de 16/08/90 que criou o PND, incluindo a desestatização da Petrofértil e o Decreto 99.226 de 27/04/90 que dissolvia a Petromisa, são vendidas as participações da Petrofértil em suas empresas controladas conforme os percentuais: Indag (33,33%), Fosfértil (77,42%), Goiásfértil (82,64%), Ultrafértil (100%) e Arafértil (33,33%). O Decreto 844 de 24/06/93 retira do PND a Petrofértil e a Nitrofértil, cujas unidades industriais passam a ser controladas diretamente pela Petrobrás. A partir de 1990 as reservas de silvinita e carnalita passaram a ser exploradas pela Companhia Vale do Rio Doce, por um prazo de 25 anos, mediante pagamento de royalties de 2,5% do valor da receita líquida, à Petrobrás. Com a desestatização da Petrofértil e a compra das suas controladas pela indústria privada de fertilizantes, iniciou-se um processo de reagrupamento das indústrias de fertilizantes. A Serrana, do grupo argentino Bunge, comprou a Fertisul, a IAP, a divisão de fertilizantes da Elekeiroz e consolidou seu controle sobre a Arafértil, da qual era parcialmente proprietária. A Fertiza comprou o controle da Fospar, única empresa que produzia superfosfatos no Paraná, além de adquirir 50% da Indústria de Fertilizantes de Cubatão, novo nome da Unidade Industrial de Mistura de Cubatão, até então pertencente a Adubos Trevo. Os outros 50% foram adquiridos pela Fertibrás. Em 1998, a Serrana, Manah e Banco América do Sul, compraram a Takenaka S.A. Indústria e Comércio. A Takenata detinha 6,18% de participação acionária da Fertifós, controladora da Fosfértil. Como a Serrana e a Manah possuiam cada uma 23,06% da Fertifós, com a compra da Takenaka, estas passaram a controlar acionariamente a Fertifós. Vale lembrar que a Fosfértil detém praticamente 100% do controle acionário da Ultrafértil. Continua (...)


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Cloro e Soda Cáustica

Química Fina •

Alcoolquímica

As indústrias de cloro e soda cáustica passaram a ser submetidas a vários tipos de pressão a partir da década de 1990, sendo as de natureza ambiental as mais significativas. Dentre elas destacam-se: o perigo potencial representado pelo cloro e seus compostos; eliminação dos clorofluorcarbonos, limitações na utilização de solventes clorados e reduções drásticas na utilização de cloro elementar como agente branqueador na indústria de papel; tendências dos usuários finais em diminuir ou eliminar a utilização do cloro e de seus compostos; campanhas sistemáticas de ativistas ambientais contra a produção de cloro e seus compostos (a tentativa de eliminação do uso do PVC foi emblemática); tentativa de paralização das unidades que operavam com células a mercúrio, que representavam, em 1996, 29% da capacidade das indústrias de cloro e soda em nível mundial e 22% no Brasil; enormes passivos ambientais das unidades que operam com células a mercúrio. Além das pressões, as indústrias de cloro e soda cáustica têm de enfrentar o problema crônico do desbalanceamento de consumo entre a soda cáustica e o cloro, gerando excesso de um dos dois produtos que tem de ser vendidos a preços marginais, já que apresentam grande dificuldade em sua destruição de forma ecologicamente aceitável. Foi o ramo da indústria química que sofreu os maiores impactos gerados a partir da abertura do mercado e das substanciais reduções de alíquotas de importação implantadas pelo governo Collor em 1990. Muitas unidades industriais foram desativadas, possibilitando que as empresas multinacionais ampliassem a sua participação e domínio do setor de química fina, sobretudo no campo dos fármacos e defensivos, que somados correspondem a aproximadamente 70% do mercado da indústria química fina no Brasil. Com a queda das barreiras alfandegárias, algumas multinacionais paralisaram suas unidades de química fina, achando mais vantajoso importar o produto diretamente de suas fábricas no exterior. Neste período surgiram movimentos de junções, reagrupamentos e aquisições tanto entre empresas nacionais como entre empresas nacionais e empresas multinacionais já instaladas no país. O objetivo central de tais movimentos era aumentar a competitividade das empresas, o que se esperava conseguir reduzindo custos fixos, simplificando as organizações e investindo nas relações com o cliente. A indústria alcoolquímica dividia-se basicamente em dois grandes grupos: o que transformava o etanol em eteno ou acetaldeído (produção de polietileno, dicloroetano, estireno, butadieno, ácido acético, solventes acéticos) e aquele que utilizava o etanol pela sua função química como álcool (produção de éteres glicólicos, ésteres e etilaminas). Com o retorno da cobrança da taxa de contribuição ao IAA em novembro de 1984, que o governo havia eliminado em 1983, para incentivar a exportação de produtos químicos produzidos via alcoolquímica, as indústrias do primeiro grupo pararam de consumir álcool, para consumir eteno obtido de nafta. Outras empresas passaram a importar diretamente o ácido acético que necessitavam para seus produtos, como a Rhodia e a Coperbo. Continua (...)


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O consumo de álcool etílico para a indústria alcoolquímica sempre foi pequeno, quando comparado com o álcool consumido como combustível. Situando-se na faixa de 400 a 500 milhões de litros por ano. No auge do programa Proálcool, foram produzidos anualmente, 15 bilhões de litros de álcool, estando a produção atual na faixa dos 12 – 14 bilhões de litros de álcool por ano.

Fonte: Adaptado de Wongtschowski (1999)

Novamente na retrospectiva histórica da indústria química nacional é possível perceber os traços da lógica racional predominante na sociedade industrial. Avaliando as informações disponibilizadas é possível perceber a grandeza e a complexidade da indústria química em termos econômicos, o número de atores envolvidos e da diversidade de produtos produzidos. Uma forte evidência do sucesso da matriz de pensamento linear pode ser identificada pela ausência do conhecimento de grande parte da sociedade mundial quanto às reais dimensões da indústria química, uma vez que em função da ação racional instrumental, grande parte desta sociedade passou a ser privada de pensar o próprio mundo do qual é parte integrante.

2.3.3. A Forma de Organização da Indústria Química Para Furtado (2003) existem dificuldades para o estabelecimento de fronteiras claras e aceitas no setor químico, cuja existência é atestada por inúmeros fatos do mundo real, envolvendo empresas, sindicatos e classificações de produtos. Para o autor indústrias como a farmacêutica ou a de alimentos, se utilizam de uma infinidade de processos químicos, fato que também permite caracterizá-las como indústrias químicas. Segundo Furtado (2003), a dificuldade de delimitar as suas fronteiras ocorre em função de que estas indústrias muitas vezes realizam afiliações sindicais duplas ou triplas, o que dificulta o acompanhamento e a definição da dimensão do setor. Para Furtado (2003), a química pela sua própria natureza, é criadora de substâncias, combinações de elementos e novas aplicações, enquanto que as empresas desenvolvem-se criando novas atividades, um processo que nem sempre


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respeita as fronteiras criadas por definições técnicas e censitárias. Para o autor, este problema de compatibilidade entre a realidade das empresas e das atividades econômicas, de um lado, e as definições estatísticas com seus números-resultados, dificilmente teriam condições de gerar uma solução única e unanimemente aceita. Segundo Furtado (2003), a indústria química transforma-se por meio de um processo expansivo com diferentes vetores, dentre os quais estão a escala, a comercialização e a tecnologia. Apesar de reconhecer a importância de cada vetor, o autor considera que é na tecnologia, com fundamentos científicos importantes e cada vez mais substantivos, que se encontra o motor mais importante para o seu desenvolvimento. Furtado (2003, p. 9) considera que: Os fundamentos científicos que permitem criar novos produtos e processos e alargar a fronteira desta indústria representam ao mesmo tempo um fator de expansão das empresas e um obstáculo à aplicação literal e sem nuanças de definições estatísticas estáticas. O peso da atividade petrolífera representa uma massa econômica e financeira que dá sustentação a diversas empresas petroquímicas, tanto quanto a produção de conhecimentos e a inovatividade das indústrias de base químico-farmacêutica alimenta a produção de novos produtos e processos nas indústrias química e petroquímica.

Para Cremasco (2005) a indústria, de um modo geral, pode ser entendida como um conjunto de atividades econômicas que visa a manipulação e a exploração de matérias-primas e fontes energéticas, bem como a transformação de produtos semiacabados em bens de produção ou de consumo34. De acordo com o autor, a indústria química é, resumidamente, um tipo de indústria de transformação, cujas atividades consistem na transformação de matéria-prima em produtos intermediários (indústrias de base ou pesada) e destes em bens de consumo (indústrias leves). Segundo Nakano (2007), o setor químico reúne um conjunto diversificado de empresas, onde a designação genérica “química e petroquímica” é em geral utilizada para classificar empresas de diversos setores: de produtos químicos básicos, como soda cáustica, ácido sufúrico, eteno e propeno, até perfumes e cosméticos, passando 34

Segundo Cremasco (2005) bens de produção, também conhecidos como bens de capital, são bens intermediários que servem para a produção de outros, enquanto que os bens de consumo atendem diretamente à demanda a médio e longo prazo.


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por fertilizantes, pesticidas e plásticos. Segundo o autor, este tipo de indústria produz insumos para diversos outros setores, sendo considerado um setor intensivo em capital, que exige grandes investimentos em equipamentos e instalações, e em muitos casos, licenciamento de tecnologia. Para o autor: De forma simplificada, pode-se classificar como “indústria petroquímica” a cadeia produtiva que se estrutura em torno da utilização de derivados do petróleo, principalmente a nafta petroquímica, da qual se produzem substâncias como o eteno, o propeno (também conhecidos como etileno e propileno, respectivamente) e os hidrocarbonetos aromáticos. A partir do eteno são produzidos, entre outros, plásticos como o polietileno, o PVC[1], o PET[2], a poliamida (o popular nylon) e os poliésteres, e a partir do propeno, o polipropileno, materiais esses que têm grande presença em nosso cotidiano: embalagens, utilidades domésticas, artigos eletro-eletrônicos, produtos têxteis, automóveis, etc. (NAKANO, 2007)

Ainda segundo Nakano (2007) a indústria petroquímica é um setor meio, ou seja, que não tem contato com o mercado consumidor final. Seus produtos são utilizados por outros setores produtivos como o têxtil, de embalagens, automotivo, eletroeletrônico, entre outros, fazendo parte dos estágios iniciais de diversas cadeias produtivas. De acordo com Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) 35

, as indústrias químicas brasileiras são classificadas da seguinte forma:

Quadro 16 – Classificação das Indústrias Químicas Geração 1ª. Geração

2ª. Geração

Descrição No Brasil, a nafta petroquímica, produto obtido em refinarias de petróleo, e o gás natural são as matérias-primas das centrais petroquímicas, que compõem a primeira geração. As centrais transformam a nafta, um produto derivado do petróleo, e o gás natural em produtos petroquímicos básicos, como o eteno e o propeno. É a chamada indústria downstream, que transforma os petroquímicos básicos em produtos intermediários, utilizados por outras empresas de segunda geração e finais (resinas termoplásticas, borrachas, fibras, detergentes, fertilizantes etc.). As empresas de segunda geração normalmente se localizam ao redor das empresas de primeira geração, configurando os chamados pólos petroquímicos. Continua (...)

35

Segundo o Anuário da Indústria Química Brasileira elaborado pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b), a entidade foi fundada em 1964, para representar o setor no País e no exterior. Empresas químicas de pequeno, médio e grande portes, bem como prestadores de serviços ao setor nas áreas de distribuição, logística, transporte e tratamento de resíduos industriais, são associadas da ABIQUIM. Em termos internacionais, a ABIQUIM faz parte do Conselho da Indústria Química do Mercosul (CIQUIM) e do Conselho Internacional das Associações de Indústria Química (ICCA).


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3ª. Geração

É o último elo da cadeia produtiva. A denominação “terceira geração” é empregada basicamente para o conjunto das empresas que transformam as resinas termoplásticas em produtos finais, como fibras têxteis, materiais para construção civil, autopeças, embalagens, brinquedos e utilidades domésticas, entre outras.

Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) Utilizando-se da mesma classificação adotada pela ABIQUIM, Cremasco (2005) apresenta um processo básico para obtenção de garrafas PET, a partir da nafta:

Figura 12 – Processo Básico de Obtenção de Garrafas PET a partir da Nafta Fonte: Cremasco (2005, p. 40)

De acordo com Cremasco (2005) a partir da destilação do petróleo é possível obter a nafta e o GLP, produtos que formam a base do setor petroquímico. A partir destes produtos são obtidos compostos orgânicos classificados como produtos de base ou de primeira geração (ex: etileno); produtos intermediários ou de segunda geração (ex: etilenoglicol), produtos finais ou de terceira geração (ex: resinas PET), para finalmente chegar na transformação (garrafas PET). Com a criação da Riopol em 2005, o Brasil passou a contar com quatro pólos petroquímicos, cujo detalhamento quanto a constituição societária e volumes de produção são apresentados na forma de diagramas extraídos do Anuário da Indústria Química Brasileira elaborado pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b) e disponibilizados para consulta nos Anexos 2 e 3 deste estudo:


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Quadro 17 – Capacidade de Produção dos Pólos Petroquímicos Brasileiros Empresa Braskem Copesul PQU Riopol Total

Localização Camaçari – BA Triunfo – RS Santo André – SP Duque de Caxias – RJ

Capacidade Instalada – Produção de Eteno (em t/ano) 1.280.000 1.135.000 500.000 520.000 3.435.000

Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) Wongtschowski (2002, p. 37) considera que “o estudo da indústria química deve ser precedido de uma concreta definição de quais produtos ou atividades nela estão incluídos”. Porém o próprio autor reconhece que “infelizmente as definições adotadas pelos estudiosos do setor ou pelas associações nacionais ou regionais da indústria química não são homogêneas”. Segundo o autor, para o conjunto da indústria química existem duas famílias de classificações: uma baseada em atividades e outra baseada em produtos. No quadro 18 são apresentadas estas classificações: Quadro 18 – Classificações Adotadas pela Indústria Química Mundial Tipo de Classificação

Objetivo

Por Produto

Utilizadas principalmente para efeitos tributários (definições de alíquotas do IPI, no caso brasileiro) e para efeitos aduaneiros (definição da Tarifa Externa Comum (TEC), no caso do Mercosul)

Denominação • •

• Por Atividade

Permitir a coleta, disseminação e análise de estatísticas econômicas

Fonte: Adaptado de Wongtschowski (2002)

Central Product Classification (CPC). Criada em 1991, é adotada pelas Nações Unidas. Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Criada em 1995, é adotada pelo Brasil e demais países que integram o Mercosul. North American Industry Classification System (NAICS), que substituiu a Standard Industrial Classification (SIC). Criada em 1997, é adotada pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos e agências estatísticas dos países do NAFTA (Estados Unidos, Canadá e México). International Standard Industrial Classification of All Economic Activities (ISIC). Criada em 1990, é adotada pelas Nações Unidas. Nomenclature Générale des Activités Économiques dans les Commnautés Européennes (NACE). Criada em 1990, é adotada pela Comunidade Européia. Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). Criada em 1996, é adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM).


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Alguns fatores como a quantidade de produtos químicos, a dinâmica da pesquisa para o desenvolvimento de novos produtos, o grande número de atores que atuam em nível mundial, os interesses econômicos e os diferentes padrões de classificação adotados pelas instituições para acompanhar o setor químico contribuem para dificultar o acompanhamento estatístico do setor. Wongtschowski (2002) afirmou, no ano de publicação de seu livro, que eram produzidos no mundo aproximadamente 70.000 produtos químicos, número que, segundo European Inventory of Existing Commercial Substances (2007), já atinge 100.195 substâncias. Wongtschowski (2002) cita a classificação por produto proposta por Charles H. Kline em 1976, pela qual são definidos quatro grupos de produtos químicos: commodities, pseudocommodities, produtos de química fina e especialidades químicas. De acordo com Wongtschowski (2002, p. 46), as características principais de cada grupo são: i)

Commodities: são compostos químicos produzidos em larga escala, frequentemente a partir de matérias-primas cativas, com especificações padronizadas, para uma gama variada de usos. Normalmente as commodities têm suas vendas concentradas em um número relativamente pequeno de clientes. São exemplos de commodities: amônia, ácido sulfúrico, eteno, metanol e gases industriais;

ii)

Pseudocommodities: são produtos diferenciados, que têm em comum com as commodities o fato de serem produzidos em larga escala, a partir de matérias-primas em geral cativas, quase sempre compradas por poucos clientes que são grandes consumidores. Diferenciam-se das commodities por não serem vendidas através de especificações de sua composição química, mas sim por especificações de desempenho, para uma ou mais finalidades. Alguns exemplos de pseudocommodities: resinas termoplásticas, fibras artificiais e elastômeros;

iii) Produtos de química fina: assemelham-se às commodities por serem nãodiferenciados e geralmente não patenteados. Entretanto, são produzidos em pequena escala, para um ou mais usos finais, de acordo com padrões geralmente aceitos, do tipo U.S. Pharmacopeia ou Food Chemical Codex dos Estados Unidos ou seus equivalentes em outros países. São geralmente vendidos para um pequeno número de clientes, em volumes pequenos. São exemplos: ácido acetilsalicílico, sacarina, aromatizantes e fármacos; iv) Especialidades químicas: são produtos diferenciados, fabricados em pequenas quantidades geralmente com matérias-primas compradas de terceiros, projetados para finalidades específicas do cliente e frequentemente vendidos para um grande número de clientes que compram pequenas quantidades. Exemplos: catalisadores, corantes, enzimas e aditivos em geral.


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Nakano (2007) apresenta uma importante contribuição para a melhor compreensão sobre a forma de atuação da indústria química, ao estabelecer uma relação entre a classificação de produtos apresentada por Wongtschowski (2002) e a classificação das indústrias químicas elaborada pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a), apresentada anteriormente: As empresas de primeira geração são produtoras de commodities. Nessas empresas o esforço tecnológico atual é fortemente voltado para o aumento de eficiência de processo, tanto para aumento de produtividade como para melhoria no grau de pureza do produto, através principalmente do desenvolvimento de melhores catalisadores e do controle de processo. A busca por eficiência por parte dessas empresas vem da preocupação com a competitividade da cadeia à jusante, e não do confronto direto entre elas: apesar de serem três as empresas de primeira geração, elas não competem entre si de fato, pois pela distância entre os pólos petroquímicos, seus clientes são, na prática, cativos. A inovação nessas empresas está localizada hoje principalmente em esforços de melhoria de processos: grau de pureza dos produtos, eficiência energética e redução de efluentes, desenvolvimento de catalisadores e controle de processos. Para essas atividades elas empregam corpo técnico reduzido, que divide seu tempo entre a operação e o desenvolvimento, e lançam mão com certa freqüência de acordos com universidades e centros de pesquisa para o desenvolvimento de novas soluções. Os produtos das empresas de segunda geração podem ser divididos em três categorias: commodities (por exemplo o óxido de eteno), pseudocommodities, as resinas plásticas (PVC, polietileno, polipropileno, PET, etc), e as especialidades: resinas especiais e os plásticos de engenharia. As resinas plásticas são diferenciadas por diversas características tais como: resistência mecânica e química, resistência à luz e temperatura, facilidade de transformação, brilho e transparência, etc. Parte dessas características são intrínsecas ao composto químico. Outra parte é obtida ou aprimorada pelo processo de polimerização, enquanto uma terceira parte dessas características são introduzidas ou melhoradas pelo uso de aditivos durante a transformação das resinas puras em compostos finais. Parte das características ainda podem ser melhoradas (ou pioradas) no processo de transformação dentro das empresas de terceira geração. No que tange o desenvolvimento de novos produtos, as empresas de segunda geração mantém seu olhar em dois pontos: no mercado final que consome os produtos plásticos, e nas empresas de terceira geração, seus clientes, que têm demandas específicas. A inovação nessas empresas está centrada em três aspectos: desenvolvimento do processo, desenvolvimento de catalisadores e desenvolvimento de aditivos. Parte do esforço tecnológico é interno, enquanto outra parte do desenvolvimento é obtido de fontes externas. As empresas de segunda geração funcionam como líderes ou coordenadores do processo de desenvolvimento: levando as necessidades levantadas junto às empresas de terceira geração para os fornecedores de aditivos, coordenando esforços com os fornecedores de equipamentos e fornecendo insumos, instalações e pessoal especializado para a busca das soluções.

A Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b), também considera que a classificação da indústria química já foi motivo de muitas divergências,


157

fato que dificultava a comparação e a análise dos dados estatísticos referentes ao setor. Segundo a entidade, em algumas ocasiões, indústrias independentes, a exemplo do refino do petróleo, eram confundidas com a indústria química propriamente dita, enquanto que outros segmentos tipicamente químicos, como os de resinas termoplásticas e de borracha sintética, não eram incluídos nas análises setoriais. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b), com o objetivo de eliminar divergências, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou uma nova classificação internacional para a indústria química, incluindo-a na revisão nº. 3 da International Standard Industry Classification (ISIC) e mais recentemente, na revisão nº. 4. No Brasil, segundo a publicação, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com o apoio da Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM), definiu, com base nos critérios aprovados pela ONU, uma nova Classificação

Nacional

de

Atividades

Econômicas

(CNAE),

promovendo

o

enquadramento de todos os produtos químicos nessa classificação. Desta forma, no ano de 2006, o IBGE redefiniu toda a estrutura da CNAE, estabelecendo que os segmentos que compõem as atividades da indústria química fossem contemplados, a partir de janeiro de 2007, nas divisões “20 – Fabricação de Produtos Químicos” e “21 – Fabricação de Produtos Farmoquímicos e Farmacêuticos”, de acordo com as definições estabelecidas pela Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) na versão 2.0: 20 – Fabricação de Produtos Químicos: esta divisão compreende a transformação de matérias-primas orgânicas ou inorgânicas por processos químicos e a formulação de produtos e a produção de gases industriais, fertilizantes, resinas e fibras, defensivos agrícolas e desinfetantes domissanitários, produtos de limpeza e perfumaria, tintas, explosivos e outros produtos químicos. Esta divisão compreende também a fabricação de produtos petroquímicos básicos e intermediários. A química fina e suas especialidades, com especificidades tecnológicas próprias, mesmo não compondo um segmento específico da CNAE, pode ser reconstituída, por aproximação, através da agregação das seguintes classes de atividades: (20.29-1), (20.51-7), (20.93-2), (20.94-1), (21.10-6), (21.21-1) e (21.22-0). 21 – Fabricação de Produtos Farmoquímicos e Farmacêuticos: esta divisão compreende a fabricação de produtos farmoquímicos, a fabricação de medicamentos e de outros produtos farmacêuticos, tais como: curativos impregnados com qualquer substância, preparações anti-sépticas, etc. Esta


158

divisão não compreende a fabricação de alimentos dietéticos, alimentos enriquecidos, complementos alimentares e semelhantes (divisão 10).

Na nova versão 2.0 do CNAE, as divisões 20 e 21 são ainda subdivididas em grupo e classe, visando estabelecer um detalhamento mais adequado da organização da indústria química brasileira:

Quadro 19 – Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) Divisão

Grupo

Classe

20

Denominação FABRICAÇÃO DE PRODUTOS QUÍMICOS

20.1

Fabricação de produtos químicos inorgânicos 20.11-8

Fabricação de cloro e álcalis

20.12-6

Fabricação de intermediários para fertilizantes

20.13-4

Fabricação de adubos e fertilizantes

20.14-2

Fabricação de gases industriais

20.19-3

Fabricação de produtos químicos inorgânicos não especificados anteriormente

20.2

Fabricação de produtos químicos orgânicos 20.21-5

Fabricação de produtos petroquímicos básicos

20.22-3

Fabricação de intermediários para plastificantes, resinas e fibras

20.29-1

Fabricação de produtos químicos orgânicos não especificados anteriormente

20.3

Fabricação de resinas e elastômeros 20.31-2

Fabricação de resinas termoplásticas

20.32-1

Fabricação de resinas termofixas

20.33-9

Fabricação de elastômeros

20.4

Fabricação de fibras artificiais e sintéticas 20.40-1

20.5

Fabricação de fibras artificiais e sintéticas Fabricação de defensivos agrícolas e desinfetantes domissanitários

20.51-7 20.52-5

Fabricação de defensivos agrícolas Fabricação de desinfetantes domissanitários Fabricação de sabões, detergentes, produtos de limpeza, cosméticos, produtos de

20.6

perfumaria e de higiene pessoal 20.61-4

Fabricação de sabões e detergentes sintéticos

20.62-2

Fabricação de produtos de limpeza e polimento

20.63-1 20.7

Fabricação de cosméticos, produtos de perfumaria e de higiene pessoal Fabricação de tintas, vernizes, esmaltes, lacas e produtos afins

20.71-1

Fabricação de tintas, vernizes, esmaltes e lacas

20.72-0

Fabricação de tintas de impressão

20.73-8 20.9

Fabricação de impermeabilizantes, solventes e produtos afins Fabricação de produtos e preparados químicos diversos

20.91-6

Fabricação de adesivos e selantes

20.92-4

Fabricação de explosivos

20.93-2

Fabricação de aditivos de uso industrial

20.94-1

Fabricação de catalisadores

Continua (...)


159

20.99-1 20

Fabricação de produtos químicos não especificados FABRICAÇÃO DE PRODUTOS FARMOQUÍMICOS E FARMACÊUTICOS

21.1

Fabricação de produtos farmoquímicos 21.10-6

21.2

Fabricação de produtos farmoquímicos Fabricação de produtos farmacêuticos

21.21-1

Fabricação de medicamentos para uso humano

21.22-0

Fabricação de medicamentos para uso veterinário

21.23-8

Fabricação de preparações farmacêuticas

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007a)

Com vistas a adotar uma classificação que possibilitasse uma aproximação dos dados obtidos neste estudo com outras pesquisas futuras desenvolvidas na área, optou-se pela adoção da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) – versão 2.0, como referência para a identificação das indústrias químicas envolvidas na presente pesquisa. 2.3.4. A Indústria Química na Contemporaneidade

A indústria química, assim como outros tipos de indústrias, se encontra inserida em um dos contextos mais dinâmicos do período reconhecido como sociedade industrial, onde suas capacidades, em termos de atendimento de novas exigências do mercado e da sociedade, necessitam ser frequentemente revisadas e atualizadas. Segundo Wongtschowski (2002), os últimos anos têm testemunhado profundas alterações na indústria química mundial. Companhias como a Ciba-Geigy, Hoechst, Rhône-Pounlec e Sandoz se transformaram primeiro em empresas especialistas em “ciências da vida” e em menos de três anos depois, em empresas farmacêuticas. Por meio de processos de fusão, estas empresas deram lugar a novas empresas: Novartis (fusão das áreas farmacêuticas da Ciba-Geisy e da Sandoz) e Aventis (fusão das áreas farmacêuticas da Hoechst e da Rhône-Poulenc). De acordo com o autor, a segunda metade da década de 1990 viu surgirem empresas como Acordis, Astaris, Avecia, Basell, Clariant, Cognis, Dynea, Imerys, Ineos, Noveon, Noviant, Sandia, Sensient, Solutia, Solvias, Solvin, Syngenta, Vantico e Wintech, enquanto que nomes tradicionais


160

como Albright-Wilson, Allied Signal, Arco Chemical, Hüls, Neste, Union Carbide, Upjohn e outros desapareceram. Segundo Nakano (2007), o setor químico é dominado por grandes grupos de presença internacional, que têm nos produtos químicos a sua principal atividade de produção ou uma expressiva porção de seu faturamento. Para o autor o setor passou por um processo de concentração na década de 1990, fator que contribuiu para a redução do número de empresas no contexto internacional. Hirutaka citado por Nakano (2007), apresenta algumas das principais fusões e aquisições ocorridas no setor: Basell (formada por ativos da Basf, Hoechst, Shell e Montedison), Borealis (Borealis e PCD), BP Solvay (BP, Amoco, Arco e Solvay), Chevron/Phillips, Dow (Dow e Union Carbide), Equistar (Lyondell, Millenium e Occidental) e Exxon Mobil. Segundo Nakano (2007), das sete empresas estudadas em detalhe por Hirutaka no início dos anos 2000 (Dow, Basf, BP Almoco, DSM, Exxon-Mobil, Nova e Solvay), três já haviam passado por processos de fusão. Para Nakano (2007) as grandes empresas internacionais são líderes em seus mercados em função de apresentarem um perfil integrado e de possuírem em geral base sólida na produção de petroquímicos básicos. Para o autor a estratégia comercial dessas empresas se caracteriza, por um lado, pelo domínio do mercado de produtos menos diferenciados (commodities) por meio de uma política agressiva de preços, fruto de sua alta capacidade de produção e do aproveitamento das economias de escala, e pelo outro lado, pelo avanço em direção aos produtos mais diferenciados, cuja margem é mais atrativa. Wongtschowski

(2002)

atribui

estas

transformações

a

globalização,

a

concentração, a especialização e a descentralização geográfica, as quais são definidas pelo autor abaixo:

a) Globalização: trata-se de um reflexo da mobilidade de capital, da revolução nas comunicações e da abertura generalizada dos mercados. Para Wongtschowski (2002), como conseqüência, a indústria química padronizou seus produtos em função das características da demanda de grande parte de seus clientes, fazendo


161

com que não haja relação geográfica direta entre cliente e fornecedor. Para o autor, clientes globalizados desejam que seus fornecedores atendam a demandas em qualquer lugar do mundo, com produto idêntico e em iguais condições comerciais. b) Concentração: processo de criação de empresas de grande porte que se beneficiam do poder de escala de produção. Wongtschowski (2002) cita o processo de concentração que ocorreu na indústria farmacêutica com a criação da GlaxoSmithKline em 2000 (produto final da fusão entre a SmithKline, Beecham, Glaxo e Burroughs-Wellcome), da Novartis e da Pharmacia (produto final da fusão da Pharmacia, Upjohn e da área farmacêutica da Monsanto em 2000). O autor cita que o fenômeno da concentração também ocorreu na indústria de petróleo, com a formação da BP Amoco (depois BP), da ExxonMobil, da TotalFinaElf e da ChevronTexaco; e na indústria de produtos químicos industriais, com a absorção da Union Carbide pela Dow em 1999 e da Degussa, Hüls, SKWTrostberg e Th. Goldschmidt pela Degussa em 2000. c) Especialização: Wongtschowski (2002) menciona que a especialização ocorre em muitos setores. Na produção de resinas plásticas há novas empresas, spin-offs36 ou jointventures37 de grandes empresas que reduziram seu foco: a Basell em poliolefinas, a Ticona em plásticos de engenharia, a Equistar em eteno e polietilieno, entre outras. Segundo o autor, a ICI, a nona maior empresa química mundial em 2000, reduziu de dez para quatro as suas áreas de atuação, transformando-se em uma empresa de especialidades químicas, empresas de produtos de limpeza e higiene pessoal como a Unilever e a Henkel venderam as suas atividades químicas e a DyStar passou a concentrar o negócio de corantes da Hoechst, da Bayer e da Basf. d) Descentralização Geográfica: Wongtschowski (2002) considera este como sendo um fenômeno relativamente novo na indústria. O autor cita como exemplos a

36

De acordo com Wongtschowski (2002), spin-off corresponde a separação de parte de uma empresa em uma nova entidade jurídica, guardando ou não vínculos acionários com a empresa da qual se separou.

37

De acordo com Wongtschowski (2002), joint venture corresponde a associação de duas ou mais empresas, com objetivos específicos, executada pela formação de uma nova entidade jurídica.


162

produção de derivados de gás natural que migrou para os países em que esse insumo é excedente e portanto de baixo custo: Canadá, Indonésia, Arábia Saudita, Kuwait e Venezuela abrigarão crescentemente unidades de produção de derivados de eteno; Chile, Nova Zelândia e Trinidad e Tobago abrigam grandes produtores de metanol; enquanto que a Malásia e as Filipinas atraem usuários de óleos láuricos.

A dinâmica de atuação e expansão da indústria química mundial pode ser melhor compreendida por meio da análise dos volumes crescentes de faturamento apresentados pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b). O volume crescente observado para os 18 (dezoito) países analisados pela entidade apresenta uma nova evidência inegável do sucesso econômico obtido pela sociedade industrial. A exemplo dos demais países, o Brasil ampliou o faturamento de sua indústria química no período de 2000 a 2006, o qual quase dobrou em apenas 6 anos, passando de US$ 43, 6 bilhões para US$ 81,6 bilhões (diferença de 87,16%), condição que o colocou em 9º. lugar no ranking da indústria química mundial em 2006. Quadro 20 – Faturamento da Indústria Química Mundial (em US$ bilhões) Países/Anos

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

Total Mundial Estimado

1.708,7

1.657,6

1.737,0

2.004,7

2.312,0

2.578,7

2.847,0

Estados Unidos China Japão Alemanha França Coréia Reino Unido Itália Brasil Índia Espanha Suíça Holanda Rússia Bélgica Irlanda Taiwan Canadá

449,2 99,6 220,4 124,8 75,9 56,4 72,1 59,9 43,6 35,3 33,1 24,1 29,0 27,4 30,4 22,5 39,3 25,0

438,4 107,3 191,2 120,0 76,3 50,4 70,4 59,1 38,8 32,5 33,6 26,8 27,6 29,1 30,5 23,0 26,8 24,8

462,5 121,6 181,6 125,2 80,1 54,9 73,2 66,2 37,3 33,1 35,8 30,6 28,8 30,3 33,2 29,2 28,0 25,8

487,7 152,9 201,2 154,4 99,8 64,3 81,4 79,4 45,5 40,6 44,5 38,1 35,7 33,4 41,5 36,6 33,3 30,1

540,9 189,8 223,3 176,8 110,6 78,7 92,0 89,9 60,2 52,5 51,4 44,8 44,6 37,5 46,8 41,3 40,4 36,1

604,5 245,1 227,2 190,3 119,2 88,6 93,0 93,9 71,6 66,8 55,2 49,4 46,8 40,9 48,5 43,3 45,6 41,0

637,3 310,1 222,6 203,7 125,4 104,7 100,8 99,4 81,6 76,4 58,3 55,0 53,4 53,1 52,0 49,9 49,6 44,6

Diferença Percentual entre 2000 e 2006 41,87% 211,35% 1% 63,22% 65,22% 85,64% 39,81% 65,94% 87,16% 116,43% 76,13% 128,22% 84,14% 93,80% 71,05% 121,78% 26,21% 78,40%

Fonte: Adaptado da Associação Brasileira da Indústria Química (2007b, p. 17)


163

Com exceção do Japão, que praticamente estabilizou o seu volume de faturamento no período analisado, todos os demais países obtiveram um considerável acréscimo. Cabe destacar o expressivo aumento de faturamento da China, que passou de US$ 99,6 bilhões em 2000 para US$ 310,1 bilhões em 2006 (diferença de 211,35%). De acordo com Hirutaka citado por Nakano (2007) o setor se caracteriza pela tendência crescente do estabelecimento de uma divisão internacional de trabalho e de produção entre países. Para Nakano (2007) os grandes grupos internacionais têm optado por fabricar produtos menos diferenciados em unidades localizadas em países periféricos, concentrando a produção dos diferenciados em suas unidades centrais, onde se localizam também os seus laboratórios de pesquisa e desenvolvimento. Seguindo mais uma vez a lógica predominante da ação racional instrumental orientada para a otimização das estruturas visando à obtenção dos melhores resultados, apesar do expressivo aumento dos volumes de faturamento, o número de empregos na indústria química mundial se manteve estável ou até mesmo foi reduzido, como é possível perceber nos dados de alguns países fornecidos pela ABIQUIM:

Quadro 21 – Número de Empregados na Indústria Química em Milhares (2000 a 2006) Países/Anos EUA Alemanha Japão Brasil França Reino Unido Itália Espanha Canadá Holanda Bélgica Suíça México Suécia Irlanda

2000 980 470 366 311 235 235 206 134 83 76 70 60 69 38 23

2001 959 467 364 310 240 230 207 137 88 75 73 62 66 38 24

2002 928 462 354 310 241 229 208 133 88 75 71 62 72 39 25

2003 906 464 345 315 241 222 204 137 88 73 72 62 63 38 25

2004 887 445 341 320 235 207 198 133 85 73 70 62 61 36 23

2005 879 441 n.d. 325 231 198 198 n.d. 84 n.d. 69 63 n.d. 36 n.d.

Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 17)

2006 n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d. n.d.


164

Dados apresentados pelo European Chemical Industry Council (2007), sobre o emprego na indústria química européia e norte-americana reforçam os dados apresentados pela ABIQUIM. Segundo a entidade, o número de empregos na indústria química européia apresentou um decréscimo de 2,1% nos 10 últimos anos, enquanto que nos Estados Unidos, o índice registrado aponta para um decréscimo de 2,7%, conforme indicado na figura 13:

Figura 13 – Empregos na Indústria Química Européia e Norte-Americana Fonte: European Chemical Industry Council (2007)


165

O fenômeno da descentralização geográfica mencionado por Wongtschowski (2002) pode ser percebido pelos dados apresentados pelo European Chemical Industry Council (2007) na figura 14, os quais retratam o crescimento da produção química do continente asiático, que passou a ocupar em 2006 o primeiro lugar em vendas em nível mundial, fato justificado pelo aumento da participação em vendas da China e da Índia:

Figura 14 – Volume de Vendas Mundial (2006) Fonte: European Chemical Industry Council (2007)


166

Na figura 15, são representadas as trajetórias de crescimento da produção química mundial, dado que revela a expansão de mercado e, consequentemente, a ampliação da utilização de recursos naturais:

Figura 15 – Crescimento Internacional da Produção da Indústria Química (1996 a 2006) Fonte: European Chemical Industry Council (2007)

Dados do European Chemical Industry Council (2007) indicam que as vendas de produtos químicos cresceu 5,5% nos últimos 10 anos. Estados Unidos, Europa e Japão apresentaram desempenho inferior ao percentual mundial, enquanto que países como a


167

China, Turquia, Índia e Brasil apresentaram desempenho superior, conforme demonstrado na figura 16:

Figura 16 – Taxa de Crescimento de Vendas em Países e Regiões Selecionadas Fonte: European Chemical Industry Council (2007)

Na comparação entre os anos de 1996 e 2006 elaborada pelo European Chemical Industry Council (2007) e apresentados na figura 17, percebe-se mais uma vez o crescimento da indústria química mundial, que passou de € 962 bilhões em 1996 para € 1641 bilhões em 2006. Neste mesmo gráfico, pode ser constatado o aumento da participação do continente asiático nas vendas mundiais (excluindo Japão), fortalecendo a tendência mundial da descentralização da produção:


168

Figura 17 – Participação nas Vendas Mundiais (1996 e 2006) Fonte: European Chemical Industry Council (2007)

O fenômeno da concentração citado por Wongtschowski (2002) pode ser constatado por meio da relação das 30 (trinta) maiores companhias químicas do mundo, elaborado pelo European Chemical Industry Council (2007). De acordo com a entidade, somente estas companhias foram responsáveis por € 526 bilhões de um total de € 1641 bilhões das vendas ocorridas no ano de 2006, conforme demonstrado na figura 18:


169

Figura 18 – Relação das 30 (Trinta) Maiores Companhias Químicas (2006) Fonte: European Chemical Industry Council (2007)

Nakano (2007) considera que devido ao processo de formação da indústria petroquímica nacional, ela ainda é caracterizada pelo seu baixo nível de integração, ou seja, as centrais e as empresas de segunda geração são em sua maioria isoladas, contrárias à tendência mundial de integração que possibilita vantagens de economia de escala na produção e diluição das despesas em pesquisa em desenvolvimento. O autor faz apenas uma ressalva para o caso da Braskem, que integrou a antiga Copene a empresas produtoras de resinas, PE, PP, PVC e PET. No Brasil as principais estatísticas sobre o setor são geradas e disponibilizadas pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) no site da entidade e por meio de suas publicações anuais. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b), apesar da entidade como associação representar a totalidade da indústria química brasileira, determinados segmentos da indústria química são representados e acompanhados estatisticamente por associações congêneres,


170

como FEBRAFARMA (produtos farmacêuticos), e ABRAFATI (tintas e vernizes), ANDA (fertilizantes), o SINDAG (defensivos agrícolas) e a ABIHPEC (produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos), entre outras. Confirmando a dificuldade de se estabelecer fronteiras e controles estatísticos para o acompanhamento dos segmentos e produtos químicos existentes, a própria Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b) menciona que a entidade não acompanha estatisticamente todos os segmentos e produtos químicos, concentrando-se com algumas exceções, no segmento de produtos químicos de uso industrial utilizados no âmbito de outros setores industriais e da própria indústria química. Ainda segundo a entidade, as estatísticas produzidas pela entidade acompanham cerca de aproximadamente 3.000 (três mil) produtos fabricados aproximadamente 800 (oitocentas) empresas, associadas ou não à entidade e que figuram no cadastro de associados da ABIQUIM e no Guia da Indústria Química Brasileira produzido pela entidade. Para um acompanhamento estatístico mais detalhado do setor, a ABIQUIM toma como base um painel formado por cerca de 200 (duzentos) produtos químicos de uso industrial. De acordo com a entidade, essa amostra segue, desde 1998, a classificação do IBGE. Objetivando maior precisão nos levantamentos setoriais, a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) subdividiu alguns itens, o que resultou no seguinte âmbito setorial:

a) Produtos químicos de uso industrial: produtos inorgânicos (cloro e álcalis, intermediários para fertilizantes, gases industriais e outros), produtos orgânicos (produtos petroquímicos básicos, intermediários para resinas e fibras e outros), resinas e elastômeros (resinas termoplásticas, resinas termofixas e elastômeros), produtos e preparados químicos diversos (adesivos e selantes, aditivos de uso industrial, catalisadores, produtos químicos para fotografia e outros);


171

b) Produtos químicos de uso final: produtos farmacêuticos; higiene pessoal, perfumaria e cosméticos; adubos e fertilizantes; sabões, detergentes e produtos de limpeza; defensivos agrícolas; tintas, esmaltes e vernizes, entre outros.

O quadro abaixo apresenta em detalhes, a classificação de produtos químicos para uso industrial, foco principal das estatísticas elaboradas pela entidade: Quadro 22 – Classificação ABIQUIM para Análises Estatísticas38 Classificação FABRICAÇÃO DE PRODUTOS QUÍMICOS INORGÂNICOS

FABRICAÇÃO DE PRODUTOS QUÍMICOS ORGÂNICOS

FABRICAÇÃO DE RESINAS E ELASTÔMEROS FABRICAÇÃO DE PRODUTOS E PREPARADOS QUÍMICOS DIVERSOS

Detalhamento da Classificação - Fabricação de cloro e álcalis - Fabricação de intermediários para fertilizantes - Fabricação de produtos químicos inorgânicos não especificados anteriormente - Fabricação de produtos petroquímicos básicos - Fabricação de intermediários para plastificantes, resinas e fibras - Intermediários para plásticos - Intermediários para plastificantes - Intermediários para resinas termofixas - Intermediários para fibras sintéticas - Fabricação de produtos químicos orgânicos não especificados anteriormente - Corantes e pigmentos orgânicos - Solventes industriais - Intermediários para detergentes - Intermediários para plastificantes - Plastificantes - Outros produtos químicos orgânicos - Fabricação de resinas termoplásticas - Fabricação de resinas termofixas - Fabricação de elastômeros - Fabricação de adesivos e selantes - Fabricação de aditivos de uso industrial

Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 15)

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 19):

38

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b), a abertura dos grupos de produtos grafados em itálico na tabela não aparece na Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) Em função da ABIQUIM já realizar um levantamento desses grupos em separado, a entidade optou por manter essas subdivisões.


172

Em 2006 o faturamento líquido da indústria química brasileira, considerando todos os segmentos que a compõem, alcançou R$ 177,7 bilhões, valor 2,3% superior ao de 2005. Medido em dólares, o faturamento líquido chegou ao recorde de US$ 81,6 bilhões, 13,9% acima do valor do ano anterior. Apesar do baixo crescimento da economia brasileira em 2006, ano em que o PIB registrou alta de apenas 3,7%, a indústria química teve um desempenho razoável. Houve aumento de 14,2% no volume de exportações, resultando em receita de US$ 8,92 bilhões, 20,8% mais que no ano anterior. As importações também cresceram e atingiram o recorde de US$ 17,38 bilhões, 13,3% mais que no ano anterior. O déficit na balança comercial brasileira de produtos químicos em 2006 ficou em US$ 8,46 bilhões, contra US$ 7,95 bilhões em 2005. No cenário internacional, destaca-se a forte elevação da cotação do barril de petróleo em 2006 e, consequentemente, da nafta petroquímica e do gás natural, com expressivo reflexo no preço internacional de diversos produtos químicos. A demanda internacional por produtos químicos, impulsionada pelo crescimento da economia mundial, tem se mantido em patamares elevados, sem a contrapartida, no mesmo ritmo, da elevação da oferta, o que vem se refletindo em pressões sobre os preços.

O gráfico abaixo apresenta a composição do faturamento líquido da indústria química brasileira por segmentos no ano de 2006. De acordo com os dados fornecidos pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b) é possível perceber a predominância da fabricação de produtos químicos de uso industrial, com vendas totais de R$ 98,7 bilhões, equivalentes a US$ 45,4 bilhões (55,6%) seguido pela fabricação de produtos farmacêuticos, com faturamento de R$ 23,8 bilhões, equivalentes a US$ 10,9 bilhões (13,3%). Na seqüência os demais segmentos somados responderam por US$ 25,4 bilhões, o equivalente a 31,1% do total.

Outros US$ 2,3 bilhões Tintas, Esmaltes e Vernizes US$ 2,1 bilhões

Total: US$ 81,6 bilhões

Produtos Químicos de Uso Industrial US$ 45,4 bilhões

Defensivos Agrícolas US$ 3,9 bilhões Sabões e Detergentes US$ 4,6 bilhões Adubos e Fertilizantes US$ 5,6 bilhões

Produtos Farmacêuticos US$ 10,9 bilhões

Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos US$ 6,9 bilhões

Gráfico 1 – Faturamento Líquido da Indústria Química Brasileira por Segmentos (2006) Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 20)


173

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b), no Brasil, no período de 1990 a 2006, destacaram-se os grupos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, produtos farmacêuticos e defensivos agrícolas, que apresentaram taxas de crescimento anual médio acima de 8,0%. Na série histórica, de 1990 a 2006, por segmentos da indústria química, são apresentados os faturamentos líquidos obtidos por cada um dos grupos: Quadro 23 – Faturamento Indústria Química Brasileira em US$ Bilhões (2000 a 2006) Segmentos Produtos Químicos de Uso Industrial Produtos Farmacêuticos Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos Adubos e Fertilizantes Sabões e Detergentes Defensivos Agrícolas Tintas, Esmaltes e Vernizes Outros Total

2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 22,8 19,6 19,4 24,1 33 39,4 45,4 6,7 5,7 5,2 5,6 6,8 9,2 10,9 3,4 3 2,8 3,1 3,9 5,5 6,9 3 3,2 3,3 4,3 5,6 5,5 5,6 2,3 2,1 2,1 2,1 2,6 3,9 4,6 2,5 2,3 1,9 3,4 4,2 4,2 3,9 1,5 1,4 1,1 1,3 1,5 1,9 2,1 1,4 1,5 1,5 1,6 1,8 2 2,3 43,6 38,8 37,3 45,5 59,4 71,6 81,6

Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 19) No gráfico 2 é apresentado um detalhamento do faturamento líquido da indústria de fabricação de produtos químicos industriais, que em 2006, conforme mencionado anteriormente, realizou um faturamento de US$ 45,4 bilhões, correspondendo a 55,6% do total de faturamento da indústria química brasileira: Produtos e Preparados Químicos Diversos US$ 8,3 bilhões

Total: US$ 45,4 bilhões Resinas Termoplásticas US$ 7,7 bilhões

Elastômeros US$ 1,1 bilhões

Petroquímicos Básicos US$ 7,4 bilhões

Cloro e Álcalis US$ 1,4 bilhões Gases Industriais US$ 2,2 bilhões Outros Inorgânicos US$ 2,5 bilhões

Resinas Termof ixas US$ 1,0 bilhão

Intermediários para Fertilizantes US$ 2,9 bilhões

Outros Produtos Químicos Orgânicos US$ 7,0 bilhões

Intermediários para Resinas e Fibras US$ 4,0 bilhões

Gráfico 2 – Faturamento Líquido da Indústria de Produtos Químicos Industriais (2006) Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)


174

O sucesso da indústria química se deve principalmente ao seu nível de inserção no segmento industrial, servindo de fornecedora de insumos e matérias-primas para a quase totalidade dos demais tipos de indústrias que operam na sociedade industrial. A Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 19) considera que “a indústria química participa ativamente de quase todas as cadeias e complexos industriais, inclusive serviços e agricultura, desempenhando papel de destaque no desenvolvimento das diversas atividades econômicas do País”. Com base em dados recentemente revisados pelos IBGE, a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b) menciona que a participação da indústria química no PIB total em 2006 foi de 3,1%, maior que a participação de 2% registrada nos Estados Unidos (maior indústria química do mundo). O gráfico abaixo demonstra a evolução histórica da participação da indústria química no PIB total brasileiro:

3,6 3,3 3,0

3,2

3,0

3,1

2,7

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

Gráfico 3 - Participação da Indústria Química no PIB Total Brasileiro (2000 – 2006) Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (2007b, p. 19)


175

De acordo com os dados recentemente apresentados pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) no Encontro Nacional de Indústrias Químicas (ENAIQ), ocorrido em dezembro de 2007, o setor químico ocupou em 2005 a terceira posição no PIB da indústria de transformação, respondendo por 11,3% do total, conforme indicado no gráfico 4:

Alimentos e Bebidas

17,6%

Coque, Refino, Petróleo e Combustíveis

13,0%

Produtos Químicos

11,3%

Metalurgia Básica

8,7%

Veículos Automotores, Reboques e Carrocerias

8,5%

Máquinas e Equipamentos

5,8%

Metal, Exclusive Máquinas e Equipamentos

4,1%

Artigos de Borracha e Plástico

3,8%

Celulose, Papel e Produtos de Papel

3,6%

Minerais Não Metálicos

3,2%

Edição, Impressão e Reprodução de Gravações

3,1%

Máquinas, Aparelhos e Materiais Elétricos

2,3%

Material Eletrônico

2,3%

Fabricação de Produtos Têxteis

2,2%

Indústria do Couro

1,8%

Outros Equipamentos de Transporte

1,8%

Móveis e Indústrias Diversas

1,7%

Outros

5,2%

Gráfico 4 – Participação da Indústria Química no PIB Industrial (2005) Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)

No mesmo encontro, a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) apresentou uma nova estimativa apontando para um novo crescimento do faturamento da indústria química brasileira em 2007, a qual passaria dos US$ 81,6 bilhões registrados em 2006 para US$ 101,3 bilhões.


176

Outros US$ 2,6 bilhões Tintas, Esmaltes e Vernizes US$ 2,4 bilhões

Total: US$ 101,3 bilhões

Defensivos Agrícolas US$ 4,9 bilhões

Produtos Químicos de Uso Industrial US$ 54,2 bilhões

Sabões e Detergentes US$ 5,5 bilhões Adubos e Fertilizantes US$ 8,9 bilhões Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos US$ 9,1 bilhões

Produtos Farmacêuticos US$ 13,6 bilhões

Gráfico 5 – Estimativa de Faturamento Líquido da Indústria por Segmentos (2007) Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) Seguindo a lógica da produção em escala, os valores crescentes de faturamento somente foram possíveis em função do aumento de produção. Baseado no princípio da recursividade apresentado por Morin (1998), pode-se imaginar que o aumento da produção significa a ampliação da utilização dos recursos naturais e consequentemente o aumento da geração de resíduos oriundos do aumento de produção, que quando produzidos em quantidade, podem prejudicar o meio ambiente, responsável pelo fornecimento de recursos naturais. 180,0

162,8 154,3 154,0

Índice 1990 = 100

160,0

139,2 136,1

140,0

138,4

145,1

134,2

125,8 123,3 113,6 115,3

120,0

117,4

106,2 100,0 99,9 96,2

100,0

80,0

60,0

40,0

20,0

0,0 1990

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

Gráfico 6 - Evolução Produção de Produtos Químicos de Uso Industrial (1990 a 2006) Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a)


177

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) o setor opera perto do limite de sua capacidade instalada. De acordo com a entidade, em 2006 a taxa de ocupação de capacidade manteve-se em 87%, mesmo percentual registrado nos dois anos anteriores, o que indica a necessidade de novos investimentos para a ampliação da capacidade e construção de novas unidades industriais. Recentes estudos realizados pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) mostram que as previsões de investimentos em aumento de capacidade previstos até 2011, no segmento de produtos químicos para uso industrial, somam US$ 14,2 bilhões. Segundo a entidade, este valor que sobe para US$ 15,6 bilhões quando computados projetos diversos em manutenção, melhorias de processo, segurança, meio ambiente e troca de equipamentos. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) a maior parte dos investimentos em expansão, aproximadamente US$ 11,6 bilhões, refere-se a projetos ainda em estudo, dependentes, para sua efetiva execução, do comportamento da economia brasileira e da disponibilidade de matéria-prima. As estimativas são de que esses projetos de investimento poderão gerar cerca de 5,8 mil empregos diretos. A entidade apenas ressalta que do total de investimentos previstos, um único projeto, o do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (COMPERJ), envolve o equivalente a US$ 8,4 bilhões. Outro dado interessante sobre a indústria química brasileira, diz respeito ao déficit da balança comercial brasileira. Historicamente, o Brasil sempre importou mais produtos químicos do que exportou, o que significa que o setor químico nacional contribui significativamente para o déficit da balança comercial brasileira. No gráfico 7 são apresentados os dados históricos desta seqüência.


178

15,3

14,5 10,7 10,8

4,0

2000

3,5

2001

10,1

3,8

2002

17,4

11,0

4,8

2003

Exportações

7,4

5,9

2004

2005

8,9

2006

Importações

Gráfico 7 – Importações/Exportações Brasileiras em US$ Bilhões FOB (2000 a 2006) Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b, p. 20)

Segundo o Relatório Anual 2006 disponibilizado pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a): As exportações brasileiras de produtos químicos cresceram 20,8% em 2006, superando o valor de US$ 8,9 bilhões. As importações somaram US$ 17,4 bilhões, com aumento de 13,3%. Ainda assim, o déficit na balança comercial brasileira de produtos químicos foi superior a US$ 8,4 bilhões, 6,4% mais do que o registrado em 2005, estabelecendo um novo recorde. Os produtos químicos representaram 6,5% de todas as exportações realizadas em 2006 pelo Brasil e 19% do total das importações. Os principais destinos foram os demais países do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai), com 25% do total exportado (US$ 2,2 bilhões), a América do Norte (Canadá, Estados Unidos e México), com 20% (US$ 1,8 bilhão), e a União Européia, com 17% (US$ 1,5 bilhão). As importações brasileiras de produtos químicos tiveram como principais origens a União Européia, com 30% (US$ 5,2 bilhões), e a América do Norte, com 29% (US$ 5,1 bilhões). Da Ásia, o Brasil importou mais de US$ 2,4 bilhões de produtos químicos, o que representa incremento de 27% em relação a 2005. As exportações brasileiras de produtos químicos para a Ásia somaram US$ 753 milhões, 10,7% mais que no ano anterior. Em volume, foram exportadas pelo País mais de 9,5 milhões de toneladas em produtos químicos. Essa movimentação representa aumento de 14,2% na comparação com 2005. O volume de importações, com crescimento de 8,9% foi superior a 21,4 milhões de toneladas.


179

Dados mais recentes, divulgados pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) no Encontro Anual da Indústria Química (ENAIQ) estimavam um US$ FOB 10,7 bilhões em exportações contra US$ FOB 23,8 bilhões em importações em 2007, estabelecendo, se confirmado, um novo recorde no déficit na ordem de US$ FOB 13,1 bilhões. Com relação a quantidade de indústrias químicas existentes no país, este número apresenta variações de acordo com os critérios adotados ou estabelecidos pelas entidades responsáveis durante a produção e publicação de dados estatísticos. Esta ausência de critérios comuns ou a mudança deles ao longo do tempo, justificam possíveis divergências que dificultam uma clara definição das fronteiras da indústria química. Apenas como um exemplo de divergência estatística, o Relatório Anual 2006 elaborado pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007a) menciona que em 2006 existiam no país cerca de 4.500 (quatro mil e quinhentas) indústrias químicas, enquanto que dados do Anuário Estatístico da Relação Anual de Informes Sociais (RAIS), elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (2007), apontavam para um total de 23.152 (vinte e três mil cento e cinqüenta e duas) indústria químicas em 2005. Esta variação se justifica pela dificuldade encontrada pelas diferentes entidades no correto dimensionamento do setor, por aspectos relacionados a mudanças de critérios (classificações), por critérios específicos definidos pela entidade responsável pela geração da informação ou por questões como a informalidade. Em função do nível de detalhamento das informações disponíveis, para o desenvolvimento deste estudo, optou-se pela adoção dos dados apresentados na Pesquisa Industrial Anual 2005 (PIA), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b) com base no CNAE 1.0 e que considera apenas empresas com 30 (trinta) ou mais pessoas ocupadas. Segundo a pesquisa, existiam no Brasil em 2005, 7.264 (sete mil duzentas e sessenta e quatro) indústrias do ramo químico (divisão 24 – Fabricação de Produtos Químicos), o que correspondia a 4,52% do total de indústrias de transformação. No quadro abaixo são apresentados os totais de indústrias


180

químicas em relação às indústrias de transformação em níveis: Brasil, Região Sul e Paraná:

Quadro 24 – Total de Indústrias Químicas – Brasil, Região Sul e Paraná (2005)

Brasil Região Sul Paraná

Total de Indústrias de Transformação 160.684 43.856 13.788

Total de Indústrias Químicas 7.264 1.357 498

Percentual 4,52% 3,09% 3,61%

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Do total de 7.264 (sete mil duzentas e sessenta e quatro) indústrias, o setor de fabricação de sabões, detergentes, produtos de limpeza e artigos de perfumaria é o que apresenta o maior número de indústrias, representado pelo total de 1.797 (mil setecentos e noventa e sete) ou 24% do total. Em seguida aparecem os demais setores conforme apresentado no gráfico:

1.259 ; 17%

999 ; 14% 827 ; 11%

775 ; 11%

224 ; 3% 47 ; 1% 1.797 ; 24%

184 ; 3%

1.153 ; 16%

24.1 Fabricação de Produtos Químicos Inorgânicos 24.2 Fabricação de Produtos Químicos Orgânicos 24.3 Fabricação de Resinas e Elastômeros 24.4 Fabricação de Fibras, Fios, Cabos e Filamentos Contínuos Artificiais e Sintéticos 24.5 Fabricação de Produtos Farmacêuticos 24.6 Fabricação de Defensivos Agrícolas 24.7 Fabricação de Sabões, Detergentes, Produtos de Limpeza e Artigos de Perfumaria 24.8 Fabricação de Tintas, Vernizes, Esmaltes, Lacas e Produtos Afins 24.9 Fabricação de Produtos e Preparados Químicos Diversos

Gráfico 8 – Total de Indústrias Químicas por Setor (2005) Fonte: Adaptado do Instittuto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)


181

Em termos de concentração, a região sudeste apresenta o maior número de empresas, com 4.487 (quatro mil quatrocentas e oitenta e sete) indústrias (61,78%). O segundo lugar é ocupado pela região sul, com 1.357 (mil trezentas e cinqüenta e sete) indústrias (18,68%). No quadro abaixo é apresentado o percentual de participação de cada região:

Quadro 25 – Total de Indústrias Químicas por Região (2005)

Região Sudeste Região Sul Região Nordeste Região Centro-Oeste Região Norte Total Brasil

Número de Indústrias Químicas 4.487 1.357 744 403 272 7.263

Participação (%) 61,78% 18,68% 10,24% 5,55% 3,75% 100,00%

Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Entre os Estados localizados na região sul, o Rio Grande do Sul se destaca em função da presença de um pólo petroquímico. O Paraná possuía em 2005, 498 (quatrocentas e noventa e oito) indústrias, representando um total de 36,70% de participação na região sul.

Quadro 26 – Participação por Estados – Região Sul

Rio Grande do Sul Paraná Santa Catarina Total Região Sul

Número de Participação Indústrias Químicas (%) 537 39,57% 498 36,70% 322 23,73% 1.357 100,00%

Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Em 2005 o Paraná ocupava uma posição significativa no contexto nacional em termos de número de indústrias químicas instaladas, se situava na 5ª. posição em nível nacional, logo após dos Estados que possuem pólos petroquímicos.


182

Quadro 27 – Número de Indústrias Químicas por Unidade da Federação (2005)

São Paulo Minas Gerais Rio de Janeiro Rio Grande do Sul Paraná Santa Catarina Bahia Goiás Pará Pernambuco Ceará Mato Grosso Espírito Santo Maranhão Mato Grosso do Sul Paraíba Amazonas Sergipe Rio Grande do Norte Distrito Federal Alagoas Piauí Rondônia Tocantins Acre Amapá Roraima Total Brasil

Número de Indústrias Participação Químicas (%) 2947 40,58% 902 12,42% 569 7,83% 537 7,39% 498 6,86% 322 4,43% 259 3,57% 249 3,43% 193 2,66% 135 1,86% 121 1,67% 74 1,02% 69 0,95% 56 0,77% 46 0,63% 44 0,61% 40 0,55% 39 0,54% 36 0,50% 34 0,47% 28 0,39% 26 0,36% 17 0,23% 15 0,21% 4 0,06% 3 0,04% 0 0,00% 7.263 100,00%

Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b) o número de pessoal ocupado na indústria química em 2005 era de 339.833 (trezentos e trinta e nove mil oitocentos e trinta e três) empregados. Dentro deste universo, o setor que detinha o maior número de empregados em 2005 era o de Fabricação de Produtos Farmacêuticos, sendo responsável por 91.261 (noventa e um mil duzentos e sessenta e um) ou 27%. Em seguida, são apresentadas as participações dos demais setores:


183

39.732 ; 12%

45.633 ; 13%

27.064 ; 8%

35.259 ; 10%

15.717 ; 5% 67.906 ; 20%

5.899 ; 2% 11.362 ; 3%

91.261 ; 27%

24.1 Fabricação de Produtos Químicos Inorgânicos 24.2 Fabricação de Produtos Químicos Orgânicos 24.3 Fabricação de Resinas e Elastômeros 24.4 Fabricação de Fibras, Fios, Cabos e Filamentos Contínuos Artificiais e Sintéticos 24.5 Fabricação de Produtos Farmacêuticos 24.6 Fabricação de Defensivos Agrícolas 24.7 Fabricação de Sabões, Detergentes, Produtos de Limpeza e Artigos de Perfumaria 24.8 Fabricação de Tintas, Vernizes, Esmaltes, Lacas e Produtos Afins 24.9 Fabricação de Produtos e Preparados Químicos Diversos

Gráfico 9 – Total de Empregados na Indústria Química por Setor (2005) Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

No quadro abaixo são apresentados os percentuais de pessoal ocupado nas indústrias químicas em relação às indústrias de transformação, nas esferas nacional, regional e estadual:

Quadro 28 – Total de Pessoal Ocupado - Brasil, Região Sul e Paraná (2005)

Brasil Região Sul Paraná

Total de Indústrias de Transformação 6.222.472 1.590.334 479.973

Total de Indústrias Químicas 339.833 43.421 16.964

Percentual 5,46% 2,73% 3,53%

Fonte: Adaptado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2007b)

Os números apresentados neste capítulo apresentam a dimensão econômica e a velocidade de expansão da indústria química na contemporaneidade. Além de revelar as dimensões do setor químico em nível mundial e nacional, estes números apresentam mais uma vez evidências do sucesso da racionalidade econômica no setor e apontam


184

para a manutenção de sua expansão no futuro, fato que poderá contribuir para níveis crescentes da utilização dos recursos naturais bem como para o aumento dos níveis de geração de resíduos que poderão contribuir de alguma forma para o agravamento da saúde ambiental planetária.

2.3.5. Indústrias Químicas, Sociedade e Meio Ambiente

O sucesso econômico alcançado pela predominância da racionalidade instrumental na sociedade contemporânea pode ser facilmente percebido pelos números que comprovam a expansão da economia mundial, o incremento da população mundial e o crescimento dos volumes de produção industrial. Infelizmente todas as vantagens obtidas pela capacidade humana de estabelecer o seu domínio sobre os meios de produção e sobre a ciência, e que em um primeiro momento prometiam o atingimento de melhores condições de vida, vieram acompanhadas por uma lógica exponencial de destruição da natureza e consequentemente da criação de novos riscos. De acordo com Lage e Valle (2004, p. 25) com os avanços tecnológicos alcançados no final do século XIX, os riscos se potencializaram: Os combustíveis líquidos, produzidos a partir do petróleo, introduziram novas variáveis – volatilidade, fluidez, inflamabilidade mais intensa que no carvão – que aumentam os riscos de acidentes e facilitam as contaminações por infiltração no solo e dispersão nas águas. A introdução do gás para iluminação e como combustível contribuiu para melhorar as condições do ar nas grandes cidades, se comparado com a queima do carvão, mas trouxe mais riscos de vazamento e o fator pressão, inexistentes com o uso do carvão. A evolução tecnológica trouxe também, como resultado, novos materiais produzidos pela síntese química – ácidos, anilinas, álcalis, bem como aplicações para novos elementos químicos – cloro, bromo, flúor, cádmio, cujos efeitos sobre a saúde humana e o meio ambiente eram ainda pouco conhecidos. Os primeiros experimentos com os elementos radioativos e o uso, ainda desprovido de proteções adequadas, das radiações ionizantes, agregaram novos fatores de risco de acidentes com a chegada ao século XX.

Os números apresentados neste estudo e que retratam o sucesso econômico obtido pela indústria química mundial, comprovam a predominância da racionalidade instrumental no mundo corporativo e o poder político e econômico por ela oferecido aos


185

controladores das atividades econômicas. De acordo com Demajorovic (2003, p. 72 e 73): Em diversos países desenvolvidos, particularmente nos Estados Unidos, poucos setores industriais se desenvolveram de forma mais independente dos governos do que o setor químico. Embora por vezes ajudado por empréstimos e contratos governamentais, apresentou, desde os anos de 1920, uma incrível capacidade de autofinanciar seu crescimento. Sem se preocupar com a intervenção do setor público ou a pressão da sociedade, as empresas tiveram, até a década de 1960, autonomia quase total para comandar seus próprios negócios.

Segundo Demajorovic (2003, p. 73): Nada parecia ameaçar, portanto, o crescimento promissor das indústrias químicas. Sempre inovando, transformando idéias em produtos comerciais e com uma eficiente campanha de divulgação que criava novas necessidades de consumo, o setor aumentava os lucros na medida em que conseguia assegurar um mercado ávido por absorver uma quantidade e variedade de produtos cada vez maior. Fibras sintéticas ganharam mercados antes dominados pelas fibras de algodão, garrafas plásticas passaram a ocupar espaços crescentes nas prateleiras dos supermercados, desbancando as tradicionais garrafas de vidro, e uma infinidade de novos pesticidas e adubos prometiam uma revolução verde no campo, incrementando a produtividade das diversas monoculturas.

Contudo, de acordo com Demajorovic (2003) a expansão crescente da produção e do consumo não significou apenas o aumento do faturamento do setor, do emprego e das condições de atendimento de novas necessidades dos consumidores, significou também o crescimento exponencial do volume de resíduos gerados. Para o autor, a análise restrita dos números encobriu uma faceta inerente ao desenvolvimento químico: o aumento dos riscos socioambientais. Para Demajorovic (2003), poucos setores industriais contribuíram tanto para a emergência

da

modernização

reflexiva

ao

criar

uma

variedade

de

riscos

socioambientais e, ao mesmo tempo, propiciar o crescimento da autocrítica, representada pela intensa mobilização da sociedade em torno da problemática ambiental. Apesar de considerar que a atividade química não seja a principal responsável pela geração de resíduos, Demajorovic (2003, p. 73) afirma que “nenhum outro setor produziu tamanha quantidade e variedade de resíduos tóxicos, com efeitos muitas vezes desconhecidos sobre o meio ambiente e os seres humanos”.


186

A ampliação da produção mundial de produtos químicos com a conseqüente ampliação da geração de resíduos industriais e urbanos propiciou que os efeitos não desejados passassem a ser gradativamente detectados por especialistas e pelas diferentes sociedades locais que habitavam localidades próximas às indústrias químicas poluidoras. De acordo com Demajorovic (2003), até os anos 1960 pouco se sabia sobre os subprodutos associados ao desenvolvimento industrial químico, em função do grande crescimento econômico e da prosperidade vividos nos quinze anos que se seguiram logo após o final da Segunda Guerra Mundial. De acordo com o autor, no mesmo momento em que grande parte da população nos países industrializados sorvia os benefícios de um boom econômico sem precedentes, continuava ignorando o fato de que alguns insumos e produtos estavam intoxicando trabalhadores e consumidores ou de que resíduos gerados, em quantidades cada vez maiores, eram simplesmente lançados em lixões a céu aberto ou em corpos d´água, sem qualquer tipo de tratamento. Algumas destas situações passaram a ser gradativamente identificadas por especialistas entre as décadas de 1950 e 1970, conforme apresentado no quadro 29:

Quadro 29 – Pesquisas sobre os Efeitos Nocivos de Produtos Químicos Ano 1950

1962

1969

Década de 1970

Pesquisa Dois pesquisadores da Universidade de Siracusa (Nova Iorque), Verlus Frank Linderman e Howard Burlington, alertavam para o fato de que o uso do Dicroro Difenil Tricloroetano (DDT) em excesso poderia alterar a química hormonal dos animais, levando a uma acentuada queda de fertilidade. Publicação do livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson – o primeiro livro a expor os efeitos nocivos do uso indiscriminado de produtos químicos. O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos publicou estudos indicando a maior incidência de tumores no fígado de camundongos expostos ao DDT. Foi o combustível ideal para que os ambientalistas aumentassem sua pressão para banir o uso do produto, uma vez que o câncer já constituía um tema particularmente sensível entre a opinião pública norte-americana. Em 1971, o presidente Nixon declarou guerra total à doença e, em 1972, a EPA decretou o fim do uso do DDT no país. Representou para as empresas químicas o início de grandes investimentos para cumprimento de regulamentações. Nos Estados Unidos, a partir dessa década, cerca de 10% de todos os investimentos em novas unidades industriais passaram a ser destinados a programas de controle de poluição. Além dos gastos com novos equipamentos industriais, as grandes empresas tiveram de criar estruturas para organizar e coletar as informações exigidas pelo governo. Segundo Piasecki citado por Demajorovic (2003) de 1970 a 1978 mais de um terço de todos os conflitos judiciais envolvendo unidades industriais nos Estados Unidos teve como protagonistas empresas do setor químico.

Fonte: Adaptado de Demajorovic (2003, p. 74 e 75)


187

De acordo com Demajorovic (2003, p. 76), estas situações ocorridas nos Estados Unidos contribuíram para o estabelecimento de uma nova relação entre empresas e órgãos de governo, uma vez que ambos não podiam mais ignorar a pressão dos grupos não-governamentais organizados. Segundo o autor, “as entidades públicas e privadas que tradicionalmente conjugaram seus esforços visando o crescimento econômico viram-se em lados opostos, pelo menos no que concerne à problemática ambiental”, uma vez que “novas leis impostas pelos órgãos ambientais passaram a controlar de forma mais restritiva produtos e processos industriais químicos” (DEMAJOROVIC, 2003, p. 76). Demajorovic (2003) menciona que apesar das mudanças decorrentes da pressão de grupos ambientalistas e da regulação ambiental mais restritiva, a posição da maior parte das empresas do setor químico continuava a ser tipicamente reativa. Segundo o autor: Para representantes da Chemical Manufactures Association (CMA), a maior união de indústrias químicas nos Estados Unidos, as empresas tratavam a nova situação regulatória como um complô dos grupos ambientalistas. O esforço de indústrias importantes no cenário mundial como a DuPont ou a Dow Química, entre outras, era barrar ou retardar a aprovação das leis de controle ambiental. Paralelamente, as empresas passaram a financiar grandes campanhas publicitárias para “educar” o público em geral sobre os benefícios da indústria química. O objetivo principal era reverter a imagem do setor perante a opinião pública visando reduzir os custos impostos pela legislação, que restringiam as possibilidades de crescimento do setor (DEMAJOROVIC, 2003, p. 77).

De acordo com Demajorovic (2003) os resultados esperados para as campanhas não atingiram o objetivo de mudar a opinião pública. De acordo com o autor, neste momento a preocupação ambiental, especialmente em relação à indústria química, já havia sido incorporada na sociedade dos países industrializados, resultando em um grande número de adesões aos diversos grupos envolvidos na luta contra os produtos tóxicos. Dentre as principais reivindicações dos grupos organizados destacavam-se: mudanças no consumo de matérias-primas, nos produtos, nos processos e no acesso às informações em poder dos governos e das indústrias. Com a ampliação da produção, dos resíduos e consequentemente dos riscos inerentes de sua própria operação, o setor químico mundial passou a sofrer maiores


188

pressões por parte da sociedade organizada em decorrência de acidentes de grandes proporções ocorridos nas mesmas décadas que demarcaram sua expansão. Estes acidentes serviram para reforçar a opinião pública quanto aos riscos envolvidos na fabricação, destino dos resíduos industriais, transporte e consumo de produtos químicos, fato que contribuiu para a ampliação da regulamentação do setor. De acordo com Demajorovic (2003, p. 78) “os inúmeros acidentes envolvendo indústrias químicas em diversos países colocaram no centro do debate os problemas associados ao consumo de produtos tóxicos, ao seu gerenciamento e à distribuição dos riscos decorrentes da expansão da atividade”. No quadro 30 são apresentados diversos fatos e acidentes ocorridos com produtos químicos e indústrias químicas em diferentes épocas e países, os quais revelam a existência de riscos na produção, no transporte, no destino de resíduos industriais e no consumo. Estes fatos somados, contribuíram direta e indiretamente para a formação de uma imagem negativa do setor perante a opinião pública:

Quadro 30 – Acidentes Ocorridos com Indústrias Químicas/Produtos Químicos

39

Ano

Local

1914

Europa

1928

Alemanha

1929 1930

EUA Bélgica

1932

Japão

1945

Japão

Fato Ocorrido Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), gases tóxicos são utilizados por ambos os lados em combate, causando cerca de 100 mil mortes. Este fato foi confirmado por um dos entrevistados que participou desta pesquisa, o qual revelou ao pesquisador que o seu pai havia lutado na 1ª. Guerra Mundial e que naquela época os gases produzidos por indústrias químicas já eram utilizados como arma de guerra. Acidente com gás venenoso fosgênio em um fábrica de Hamburgo mata 10 pessoas e envenena gravemente outras 150. Início da produção comercial de bifenilas policloradas (PCB´s). 39 Uma ocorrência de smog próximo a Liège causa 100 vítimas fatais. Indústria química instalada às margens da baía de Minamata passa a lançar no mar efluentes contaminados com mercúrio. Os efeitos do mercúrio sobre o organismo eram então desconhecidos. Bombas atômicas são utilizadas, ao final da Segunda Guerra Mundial, contra as cidades de Hiroshima e Nagasaki, causando mais de 120 mil mortes e provocando a contaminação radioativa de extensas áreas naquelas cidades. Continua (...)

De acordo com Mundo e Educação (2007) A palavra “Smog” é uma junção de duas palavras da língua inglesa: “smoke” e “fog”, respectivamente, fumaça e neblina. Smog é um fenômeno que ocorre principalmente nas grandes cidades, se caracterizando como a mistura de gases, fumaça e vapores de água, formando uma grande massa de ar. Mais precisamente, o smog é formado por óxidos de nitrogênio (NOx), compostos voláteis orgânicos (VOC), dióxido de sulfureto, aerossóis ácidos e gases.


189

1951

EUA

1952

Japão

1952

Inglaterra

1953

EUA

1953

Alemanha Federal

1954

Oceano Pacífico

1956

Iraque

1957

Inglaterra

1957

União Soviética

1960

Brasil

1961

Vietnã

1961

EUA

1961

URSS

1965

Japão

1966

Mar do Norte

1966

México

1966

EUA

1967

Mar do Norte

1967

Suécia

Indústria do Estado de Ohio lança, com autorização do governo, cerca de 200 toneladas de poeira radioativa no meio ambiente. Identifica-se que a contaminação por mercúrio lançado na baía de Minamata é a causa de disfunções neurológicas em pessoas e animais, acarretando mais de quinhentas vítimas humanas fatais entre aquelas que se alimentaram com peixes e frutos do mar da região. O smog ocorrido em Londres durante cinco dias, resultante da queima de carvão mineral, causa mais de 4 mil vítimas fatais. A área ocupada por um canal inacabado – o Love Canal, no estado de Nova York – e posteriormente usada como depósito de resíduos tóxicos, passa a ser habitada, acarretando graves conseqüências para a saúde dos seus moradores. Um acidente em uma indústria química, na cidade de Ludwigshafen, provoca emissões de tetraclorodibenzoparadioxina (TCDD), um dos tipos de dioxina, que afetam 55 pessoas. Um teste nuclear com bomba de hidrogênio, no atol de Bikini, contamina com radioatividade uma área com cerca de 18 mil quilômetros quadrados do oceano e atinge algumas ilhas habitadas, devido a mudanças imprevistas na direção dos ventos. O uso impróprio, para alimentação, de sementes de trigo tratadas com fungicidas com base de mercúrio provoca muitas mortes. Desastres desse mesmo tipo se repetem em 1960 e 1972 no Iraque, em 1963 no Paquistão e em 1966 na Guatemala. Acidente com um reator de plutônio, na usina de Windscale, libera quantidades de material radioativo que contaminam corpos d´água, animais e o leite, em uma vasta área de ilhas Britânicas, causando 35 vítimas comprovadas e aumento dos casos de câncer na população nos anos subseqüentes. Acidente em uma instalação nuclear, nos montes Urais, provoca a contaminação radioativa de uma vasta área e causa centenas de vítimas fatais devido à radiação recebida. Relatório publicado em 1992 relata que mais de 8 mil pessoas haviam morrido, até aquele ano, em decorrência desse acidente. O navio-tanque Sinclair Petrolore lança cerca de 60.000 toneladas de óleo ao largo da costa. O Presidente Kennedy autoriza o emprego da guerra química com o uso do agente laranja, desfolhante associado a dioxinas. Esta ação teve início em 1961 e terminou somente em 1971. Três técnicos morrem em um acidente com um reator nuclear experimental em Idaho Falls. Radiação disseminada no interior do primeiro submarino nuclear soviético mata o comandante e vários tripulantes. O navio-tanque Heimvard lança cerca de 50.000 toneladas de óleo próximo à ilha de Hokkaido. O navio-tanque Anne Mildred Broving lança cerca de 20.000 toneladas de óleo no mar. Navio desconhecido lança cerca de 35.000 toneladas de óleo na baía de Campeche, próximo de Vera Cruz. Reator experimental na região de Detroit funde-se parcialmente devido à uma falha no sistema de refrigeração. O navio-tanque Torrey Canyon lança cerca de 120.000 toneladas de óleo no mar, afetando os litorais da Inglaterra, França e Holanda. Quarenta lagos e rios são considerados contaminados com metilmercúrio originado, provavelmente, de sementes tratadas com mercúrio. Continua (...)


190

1968

África do Sul

1969

Suíça

1969

Portugal

1970

Ilhas Seychelles

1970

Suécia

1971

África do Sul

1971

Mar do Norte

1972

Omã

1973

Oceano Pacífico

1974

EUA

1974

Japão

1974

Chile

1975

Brasil

1975

Porto Rico

1975

Alemanha (República Democrática)

1975

EUA

1975

Japão

1975

Portugal

1976

Espanha

1976

Colômbia

1976

Itália

1976

Brasil

1977

EUA

1977

China

1978

Brasil

1978

França

O navio-tanque World Glory derrama cerca de 50.000 toneladas de óleo a 100 km da costa de Durban. Radiação emitida devido ao mau funcionamento de um reator experimental obriga à lacração da caverna onde estava instalado. O navio-tanque Julius Schindler lança cerca de 90.000 toneladas de óleo no oceano próximo à costa dos Açores. O navio-tanque Ennerdale lança cerca de 50.000 toneladas de óleo no oceano próximo a essas ilhas. O navio-tanque Othello lança cerca de 70.000 toneladas de óleo na baía de Tralhavet. O navio-tanque Wafra lança 40.000 toneladas de óleo no litoral. O navio-tanque Texaco Denmark lança cerca de 100.000 toneladas de óleo próximo à costa belga. O navio-tanque Sea Star lança cerca de 130.000 toneladas de óleo no golfo de Omã. O navio-tanque Napier perde cerca de 40.000 toneladas de óleo perto da costa chilena. Mario Molina e L. S. Rowland demonstram a relação entre os compostos de clorofluorcarbono (CFC´s) e a destruição do ozônio nas camadas superiores da atmosfera. O navio-tanque Yuyo Maru lança mais de 50.000 toneladas de óleo ao largo da costa da ilha de Honshu. O navio-tanque Metula lança cerca de 50.000 toneladas de óleo no estreito de Magalhães. O navio-tanque grego Tarik, fretado pela Petrobras, derrama cerca de 6.000 toneladas de óleo na baía de Guanabara. O navio-tanque Epic Colocotronis lança cerca de 60.000 toneladas de óleo no mar a 100 km da costa. Um curto-circuito na instalação nuclear de Lubmin causa um incêndio que quase provoca a fusão do núcleo do reator. Incêndio em usina nuclear no Alabama faz baixar o volume da água de resfriamento do reator a níveis alarmantes O navio-tanque British Ambassador lança cerca de 50.000 toneladas de óleo a 300 quilômetros da costa de Iwo Jima. O navio-tanque Jacob Maersk lança cerca de 90.000 toneladas de óleo na costa de Portugal, próximo ao porto de Leixões. O navio Urquiola encalha na costa e lança cerca de 95.000 toneladas de óleo na baía de La Coruña. O navio-tanque St. Peter lança cerca de 35.000 toneladas de óleo próximo à ponta de Manglares. Na cidade de Seveso, uma indústria lança acidentalmente no ambiente 2,5 quilos de dioxinas, provocando contaminação de moradores e obrigando o sacrifício de cerca de 70 mil animais. Movimentos de conscientização para a poluição gerada pelo Pólo Industrial de Cubatão exigem a recuperação ambiental da região. O navio-tanque Hawaiian Patriot lança cerca de 95.000 toneladas de óleo na costa de Honolulu, Havaí. O navio Borag lança cerca de 35.000 toneladas de óleo próximo de Chilung. O navio-tanque Amoco Cadiz derrama cerca de 6.000 toneladas de petróleo no litoral de São Paulo. O navio-tanque Amoco Cadiz lança cerca de 230.000 toneladas de óleo no oceano Atlântico, contaminando mais de 200 quilômetros da costa francesa. Continua (...)


191

1978

Indonésia

1978

Espanha

1978

Atlântico Norte

1979

Tobago

1979

Turquia

1979

Dubai

1979

EUA

1979

França

1979

EUA

1979

URSS

1979

Canadá

1979

EUA

1979

Alemanha Federal

1980

Mar do Norte

1980

Grécia

O navio-tanque Tadotsu perde cerca de 45.000 toneladas de óleo no estreito de Málaca, próximo a Dumai. O navio-tanque Andro Patria lança cerca de 50.000 toneladas de óleo próximo à costa do cabo Villano. A organização ambientalista Greenpeace tenta impedir o lançamento, pela Grã-Bretanha, de 2.000 toneladas de lixo nuclear no oceano. O navio-tanque Atlantic Empress lança cerca de 278.000 toneladas de óleo no oceano. O navio-tanque Independenza lança cerca de 95.000 toneladas de óleo no estreito de Bósforo, que separa a Europa da Ásia. O navio-tanque Patianna derrama cerca de 40.000 toneladas de óleo no mar, próximo a esse emirado. Um dos reatores da usina nuclear de Harrisburg, em Three Mile Island, funde parcialmente, liberando água radioativa. O navio-tanque Gino lança cerca de 35.000 toneladas de óleo próximo à costa da Bretanha. Uma plataforma de petróleo no golfo do México libera cerca de 170.000 toneladas de petróleo no mar antes de ser controlada nove meses depois, em 1980. Uma fábrica de armas biológicas situada em Sverdlovsk liberou acidentalmente uma nuvem de esporos de antraz, causando a morte de pelo menos 68 pessoas. Descarrilhamento de trem com produtos químicos provoca incêndio e escapamento de cloro, obrigando à evacuação de 226 mil moradores na cidade de Mississauga, na região de Toronto. O navio Burmah Agate lança 35.000 toneladas de óleo na entrada da baía de Galveston, Texas. Em Lengerich uma fábrica de cimento contamina a região com tálio, metal pesado venenoso, tornando as terras impróprias para a agricultura e desfolhando árvores. A plataforma Alexander Keillan naufraga no campo petrolífero de Ekofisk, matando 123 pessoas. O navio-tanque Irenes Serenad lança cerca de 40.000 toneladas de óleo no porto de Arzew.

1980

Brasil

Identificados casos de anomalias congênitas na populaç��o que vive na região do Pólo Industrial de Cubatão, no estado de São Paulo. Na década de 1980, entidades criam uma intensa movimentação da opinião pública em torno dos dramáticos impactos socioambientais provocados pelo descaso das indústrias instaladas em Cubatão, com a qualidade de vida da população da região. Em 1982, um ano depois da instituição da Política 40 Nacional do Meio Ambiente , foi iniciado um plano de controle das fontes de poluição nas empresas de Cubatão. Segundo estudos da época, as empresas instaladas na região eliminavam diariamente cerca de 236,6 toneladas de poeira, 2,6 toneladas de fluoretos, 8,7 toneladas de amônia, 61 toneladas de óxido de nitrogênio e 78,3 toneladas de dióxido de enxofre, entre outros gases.

1981

URSS

O navio-tanque Globe Asami lança cerca de 16.000 toneladas de óleo no mar Báltico, matando milhares de pássaros.

1981

Japão

45 funcionários são expostos a radioatividade, em uma usina em Tsuruga. Continua (...)

40

De acordo com Demajorovic (2003, p. 109) a “Política Nacional do Meio Ambiente representou um marco histórico ao introduzir a responsabilização por crimes ambientais e eleger o Ministério Público como importante ator para a solução de conflitos judiciais ligados à degradação ambiental”.


192

1982

Atlântico Sul

1982

Atlântico Norte

1983

África do Sul

1983

Golfo Pérsico

1983

Brasil

1983

Brasil

1983

Irã-Iraque

1983

México

1983

Qatar

1983

EUA

1983

GrãBretanha

1984

Índia

1984

Brasil

1984

Brasil

1984

México

1985

URSS

1985

Irã

1986

URSS

1986

URSS

1986

Suíça

O destróier Sheffield, da marinha britânica, suspeito de conduzir armas nucleares, é afundado pela aviação argentina durante a Guerra das Malvinas. A organização Greenpeace documenta o lançamento de rejeitos atômicos no oceano, por parte da Grã-Bretanha e Holanda. O navio-tanque espanhol Castillo de Bellver, carregado com cerca de 260.000 toneladas de óleo, afunda ao largo da costa de Table Bay. O navio-tanque Assimi lança cerca de 53.000 toneladas de óleo próximo à costa de Omã. 3 milhões de litros de óleo vazam de oleoduto em Bertioga, estado de São Paulo. Acidente com trem transportando gasolina em Pojuca, na Bahia. Furto do combustível derramado por membros da população local provoca incêndio que causa 99 mortes. Armas químicas são utilizadas por esses dois países em guerra, entre 1983 e 1988, causando milhares de mortes. Uma cápsula de cobalto-60, intensamente radioativa, é levada de um hospital em Juarez para um depósito de sucata. Seu conteúdo é utilizado por uma siderúrgica para fazer vergalhões de construção, contaminando centenas de prédios nos EUA, para onde o material foi exportado. O navio-tanque Pericles GC lança cerca de 50.000 toneladas de óleo na costa de Doha. Vazamento na Central Nuclear de Philipsburg resulta no lançamento de iodo-131 no ambiente. Constata-se que a usina de reprocessamento nuclear de Sellafield está lançando no mar resíduos oleosos radioativos. Vazamento de isocianato de metila, em uma planta química, em Bhopal, provoca morte de 3.400 pessoas (alguns cálculos chegam a 6.400) e afeta seriamente a saúde de aproximadamente 200 mil. Um incêndio e explosões na favela da Vila Socó, construída junto a oleodutos, em Santos, em São Paulo, mata mais de 100 pessoas. Incêndio, seguido de explosão, provocado por vazamento de gás no campo de Enchova, bacia de Campos, causa a morte de 37 pessoas. Incêndio em refinaria na Cidade do México, com explosões sucessivas de tanques de armazenamento e botijões de gás liquefeito de petróleo (GLP), tem como conseqüência a morte de cerca de quinhentas pessoas e ferimentos em mais de 4 mil. Explosão destrói uma base de submarinos nucleares causando 10 vítimas fatais imediatas e um número desconhecido de mortes posteriores provocadas por exposição à radiação. O navio-tanque Nova lança cerca de 70.000 toneladas de óleo próximo à ilha de Kharg. Experimentos com armas biológicas provocam mais de 1.000 mortes, supostamente devido a contaminação com antraz. Um dos quatro reatores da Usina Nuclear de Chernobyl, na atual República da Ucrânia, explode, causando intensa contaminação radioativa em toda a região, com efeitos em diversos países vizinhos. As autoridades soviéticas informaram a ocorrência de 31 mortes devido ao acidente e a necessidade de evacuação de mais de 100 mil habitantes das regiões vizinhas. De acordo com Demajorovic (2003) o acidente causou a morte de 10.000 pessoas e mais um número incalculável de casos de câncer em vários países da Europa. Dois acidentes, com intervalo de 6 meses, em duas plantas químicas distintas, na Basiléia, contaminam o rio Reno com pesticidas e mercúrio. Continua (...)


193

1987

Brasil

1988

Canadá

1988

Iraque

1988

EUA

1988

Canal da Mancha

1988

Mar do Norte

1989

EUA

1989

Mar do Norte

1989 1989

Ilhas Canárias Ilha da Madeira

1991

Kuwait

1991

Itália

1991

Itália

1991

Angola

1992

México

1992

Moçambique

1992

Espanha

1992

Holanda

1992

França

1993

Alemanha

1993

Ilhas Shetland

1993

Indonésia

Uma cápsula de césio-137, isótopo radioativo, deixada em um hospital desativado é violada por um sucateiro, libera radiação que contamina e mata várias pessoas em um bairro de Goiânia, em Goiás. O navio-tanque Odyssey lança cerca de 132.000 toneladas de óleo no oceano a 560 quilômetros da costa da Terra Nova. 5 mil curdos são mortos com gás mostarda e outras armas químicas utilizadas pelo exército iraquiano. Explosão de fábrica que produzia perclorato de amônia (combustível para foguetes), no deserto de Nevada. O cargueiro Anne Broere afunda com 24.800 litros de acrilonitrila tóxica. A plataforma de petróleo Piper Alpha explode, matando 167 dos 232 homens que trabalhavam em suas instalações. O navio-tanque Exxon Valdez encalha em um recife no estreito Prince William e lança cerca de 40.000 toneladas de óleo na costa do Alasca, matando milhares de animais e contaminando as águas da região numa extensão de mais de 2.000 quilômetros de costa. Gasto com a limpeza das costas atingidas e ações de indenização, pagas ou pleiteadas, superam a cifra dos US$ 10 bilhões. Próximo à costa da Alemanha, o cargueiro Oostzee enfrenta mar agitado transportando 4 mil tambores de epicloridrina. Um grave acidente é evitado por pouco, graças à pronta ação de salvamento realizada. O navio-tanque Khark 5 explode ao norte dessas ilhas, perdendo cerca de 80.000 toneladas de óleo. O navio-tanque Aragon perde cerca de 25.000 toneladas de óleo. Centenas de milhares de toneladas de petróleo queimam diariamente, durante meses, como conseqüência da destruição dos campos petrolíferos desse país promovida pelas tropas iraquianas, em retirada, durante a Guerra do Golfo. O ferry Moby Prince abalroa o navio-tanque Agip Abruzzo, causando 140 mortes e provocando a poluição com óleo na costa de Livorno, no mar Mediterrâneo. O navio-tanque Haven se incendeia próximo a Gênova e afunda no mar Mediterrâneo com 143.000 toneladas de petróleo. O navio-tanque ABT Summer se incendeia ao largo da costa de Angola, carregado com 260.000 toneladas de óleo. A cidade de Guadalajara é sacudida por uma explosão em seu sistema de esgoto municipal, causada por infiltração de combustível, acarretando mais de duzentos mortos, cerca de 15 mil desabrigados, 25 quarteirões destruídos e uma cratera de quase 2 quilômetros de comprimento. O navio-tanque Katina P lança cerca de 72.000 toneladas de óleo na costa africana. O navio-tanque Aegean Sea encalha e lança cerca de 80.000 toneladas de óleo na baía de La Coruña. Avião de carga transportando explosivos e produtos químicos cai nos arredores de Amsterdã, causando 43 mortes. Três funcionários são contaminados ao entrar em um acelerador nuclear de partículas, em Forbach, sem a proteção de roupas adequadas. Acidente em uma planta química próxima a Frankfurt provoca danos à saúde de 192 pessoas. O navio-tanque Braer, ao partir-se em dois, lança cerca de 85.000 toneladas de óleo no mar no Norte. O navio-tanque Maersk Navigator atinge a costa em Sumatra e perde uma quantidade desconhecida de óleo. Continua (...)


194

1995

Coréia do Sul

1995

Japão

1996

Brasil

1996

Alemanha

1996

País de Gales

1996

Filipinas

1997

Japão

1997

Canal da Mancha

1997

Filipinas

1997

Cingapura

1997

Alemanha

1997

Japão

1998

Espanha

1999

Antártica

1999

França-Itália

1999

EUA

1999

Japão

1999

Turquia

2000

Romênia

2000

Nigéria

2000

Brasil

Explosão provocada por vazamento de gás no metrô de Daegu provoca 101 mortes. Doze pessoas morrem no metrô de Tóquio, vítimas do gás sarin (também denominado gás dos nervos), lançado por fanáticos religiosos. Centenas de passageiros são intoxicados. A qualidade imprópria da água utilizada por um hospital de Caruaru, em Pernambuco, contamina equipamentos de diálise renal, causando a morte de vários pacientes. Dois acidentes sucessivos em indústria química de Frankfurt contaminam o ar e o rio Meno. O navio-tanque Sea Empress encalha e lança cerca de 70.000 toneladas de óleo na costa galesa. Na ilha de Marinduque mais de 1,6 milhão de metros cúbicos de rejeitos de uma mina de cobre escoam para o rio Boac e três de seus afluentes, afetando mais de 20 mil moradores na região. O navio-tanque russo Nakhodka parte em dois, e sua popa afunda na costa do Japão. Das 17.000 toneladas de óleo que transportava, 6.000 toneladas vazam para o mar, atingindo a costa. O navio Bona Fulmar, abalroado por outro, lança cerca de 4.000 toneladas de óleo no mar. Após uma explosão a bordo, o navio-tanque Petron lança cerca de 200.000 litros de óleo no mar na costa sul das Filipinas. O navio-tanque Evoikos, carregado de 120.000 toneladas de óleo, choca-se com um cargueiro e lança 25.000 toneladas de óleo no estreito de Cingapura. Cerca de 12 toneladas de toluilendiamina escapam de uma indústria química em Dormagen. Cerca de 100 automóveis têm sua pintura danificada. Não se registram vítimas humanas. O navio-tanque Diamond Grace encalha próximo a Tóquio e perde cerca de 1.500 toneladas de óleo. A ruptura de uma barragem de contenção de uma mina provoca uma avalanche de 5 milhões de metros cúbicos de lama contaminada com substâncias tóxicas, destruindo uma reserva natural e um santuário de pássaros. O navio-tanque Bahía Paraíso afunda próximo ao Cabo Horn, lançando no mar cerca de 1.000 toneladas de óleo diesel. Incêndio provocado por um caminhão no interior do túnel do monte Branco, que liga os dois países, provoca 35 mortes Cerca de 150 toneladas de óleo combustível são lançadas ao mar quando o navio graneleiro New Carissa parte-se ao meio na costa do Oregon. A parte da proa do navio é rebocada para alto-mar e torpedeada para que afunde. Um acidente na planta de reprocessamento nuclear de Tokai-Mura provoca a contaminação de mais de quatrocentas pessoas pela radioatividade liberada. O navio-tanque Volgoneft 248 afunda na costa francesa, dispersando cerca de 10.000 toneladas de óleo que contaminam mais de 400 quilômetros de costa. Uma barragem de mina se rompe próximo a cidade de Baia Mare, liberando 100.000 toneladas de lama que contaminam com cianeto parte da bacia do rio Danúbio, afetando também Hungria e Iugoslávia. Explosões em oleodutos, provocadas possivelmente por furos efetuados para roubar combustível, causam a morte de centenas de pessoas. A ruptura de um oleoduto libera cerca de 1,3 milhão de litros de óleo na baía de Guanabara, Rio de Janeiro. Continua (...)


195

2000

Holanda

2000

Brasil

2000

Inglaterra

2000

França

2000

Filipinas

2001

Equador

2001

China

2001

Brasil

2001

Brasil

2001

Brasil

2001

França

2001

Peru

2001

Brasil

2002

Equador

2002

República Tcheca

2002

África do Sul

2002

Iêmen

2002

EUA

2002

Espanha

2002

Japão

2002

Nigéria

Uma fábrica de fogos de artifício explode na cidade de Enschede, matando 20 pessoas, ferindo 150 e destruindo grande parte da cidade. A ruptura de um oleoduto libera cerca de 4 milhões de litros de óleo nos rios Barigui e Iguaçú, no Paraná. O navio Ievoli Sun, de bandeira italiana, conduzindo mais de 6.000 toneladas de produtos químicos (estireno, metil-etil, cetona, álcool isopropílico e outros produtos) afunda no canal da Mancha, numa região que anteriormente já fora utilizada para dispor rejeitos nucleares e munições. Operários em greve de uma fábrica têxtil descarregam propositalmente cerca de 5.000 litros de ácido sulfúrico no rio Meuse. Avalanche de lixo acumulado próximo a uma favela provoca centenas de mortes por soterramento em distrito urbano de Manila. O navio-tanque Jessica se acidenta nas ilhas Galápagos, derramando cerca de 660.000 litros de óleo combustível, afetando áreas ambientalmente preservadas desse arquipélago. O navio coreano Dayong lança 23.000 toneladas de estireno na foz do rio Yang-tse-kiang, próximo a Shangai, depois de colidir com outro navio. Uma explosão na plataforma de petróleo P36, da Petrobras, na bacia de Campos, mata onze pessoas. A plataforma afunda posteriormente. Ruptura de um duto de gás liquifeito de petróleo, provocada pela cravação de uma estaca no local, obriga a evacuação de cerca de 2.000 moradores no município de Barueri, em São Paulo. Não houve vítimas fatais. Ruptura de um duto lança um jato de 200.000 litros de óleo combustível sobre um condomínio residencial em Barueri, em São Paulo. Não houve vítimas fatais. Explosão de fábrica de fertilizantes na região de Toulouse causa 31 mortes e fere 2.442 pessoas. Explosão de fogos de artifício na cidade de Lima provoca 282 mortes e mais de 100 feridos. Acidente com o navio-tanque Norma provoca derramamento de 400.000 litros de nafta no porto de Paranaguá, no Paraná. O navio-tanque Taurus derrama cerca de 7.000 litros de óleo diesel na costa da ilha Isabela, no arquipélogo de Galápagos. Inundação provocada por chuvas intensas afeta uma indústria química, resultando na liberação de gás cloro para a atmosfera. O navio-tanque italiano Jolly Rubino, que transportava 31.000 toneladas de petróleo, incendeia-se ao largo da costa, provocando mancha de óleo com 11 quilômetros de extensão. O navio-tanque francês Limborg explode e incendeia-se ao largo da costa carregado com 397.000 barris de petróleo. Trem cargueiro descarrila próximo a Knoxville, Tennessee, com cerca de 300.000 litros de ácido sulfúrico, obrigando à evacuação de milhares de moradores da região. Não foram registradas mortes. O navio-tanque Prestige, registrado nas Bahamas, parte-se em frente à costa espanhola. Derrama mais de 11.000 toneladas de óleo combustível das 70.000 toneladas que transportava e, afunda, levando consigo o restante da carga. O navio de carga Hual Europe, registrado nas Bahamas, que transportava cerca de 4.000 automóveis, se incendeia depois de encalhar na costa japonesa. Acidente em uma fábrica de munições na cidade de Lagos mata mais de 1.000 pessoas pelo impacto da explosão. Outras 1.000 pessoas são mortas pisoteadas ou afogadas devido ao pânico. Continua (...)


196

2003

Brasil

2003

Brasil

2003

Nigéria

2003

China

2004

Argélia

2004

Irã

2004

Coréia do Norte

2004

Bélgica

2004

Japão

Ruptura de barragem de contenção de rejeitos de uma indústria de celulose provoca grande contaminação das águas dos rios Pomba e Paraíba do Sul, nos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Acidente com trem transportando produtos químicos provoca contaminação das águas que abastecem a cidade de Uberaba, em Minas Gerais. Explosão de oleoduto mata mais de 100 pessoas na região da Abia. O acidente foi causado pela faísca de um motor utilizado para perfurar o oleoduto a fim de roubar combustível. Explosão em um campo de gás natural na região de Chongqing libera uma nuvem de gases tóxicos que mata pelo menos 193 pessoas, deixa centenas de queimados e obriga a evacuação de 41.000 habitantes. Explosão em refinaria da cidade de Skikda mata 13 trabalhadores e fere pelo menos 74. Trem com vagões carregados de enxofre, fertilizantes, gasolina e algodão explode na cidade de Neyshabur, matando pelo menos 295 pessoas e ferindo mais de 200. Trem carregado com dinamite explode em Ryongchon, próximo a fronteira com a China, causando centenas de mortes e milhares de feridos. O acidente foi atribuído a um curto circuito elétrico. Perfuração acidental de gasoduto subterrâneo, causada por uma obra de construção civil em andamento próximo a Bruxelas, provoca explosão que resulta em 15 mortos e mais de 200 feridos. Vazamento de vapor não radioativo mata 4 trabalhadores e fere outros 7 na usina nuclear de Mihama, situada a 320 quilômetros a oeste de Tóquio. O acidente não liberou radioatividade.

Fonte: Adaptado de Demajorovic (2003) e Lage e Valle (2004, p. 198-214).

Os diversos acidentes ocorridos e a ampliação dos riscos foram acompanhados da realização de diversas plenárias ao redor do mundo, a partir das quais foram elaborados tratados, acordos, convenções e regulamentos como forma de mitigar os efeitos industriais não desejados. Dentre as diversas plenárias apresentadas no quadro 31 encontram-se algumas que tratam especificamente da produção e do uso de produtos químicos:

Quadro 31 – Tratados, Acordos e Convenções para a Preservação do Meio Ambiente Ano 1913 1925 1961 1963 1963 1968 1968

Evento Realização em Berna da Primeira Conferência Internacional sobre a Conservação da Natureza. O Protocolo de Genebra proíbe o uso de armas químicas e biológicas. Entra em vigor o Tratado Antártico, que estipula que aquele continente somente pode ser utilizado para fins pacíficos, não pode receber resíduos nem ter sua área utilizada para testes nucleares. Firmam um tratado que dá fim aos testes nucleares acima do solo. Acordo de proteção do rio Reno contra a poluição. Criação do Clube de Roma, dedicado a estudos relacionados com a degradação da natureza. Constatadas as primeiras evidências da destruição da camada de ozônio. Continua (...)


197

1969 1969 1969 1972 1972 1972 1973 1973 1978 1982 1983 1984 1984 1985 1985

1986

1987 1987 1989 1990 1991 1991

1992

1993

1993

Convenção Internacional sobre Responsabilidade Civil por Danos Causados por Poluição por Óleo. Convênio relativo à intervenção em alto-mar nos casos de acidentes com óleo. Convênio sobre responsabilidade civil na esfera de transporte marítimo de materiais nucleares. Publicado o primeiro relatório do Clube de Roma, intitulado Os Limites do Crescimento. Criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Realizada em Estocolmo a 1ª. Conferência Mundial das Nações Unidas para o Meio Ambiente e instituído o Dia Internacional do Meio Ambiente (5 de junho) Firmada a Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora (Cites) (Convenção Internacional sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas). Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios (conhecida como Marpol) Conferido pela primeira vez o selo ecológico Anjo Azul a produtos que se distinguem por suas qualidades ambientais. Publicação da Diretiva de Seveso. Assinada em Londres a convenção internacional que proíbe o lançamento de rejeitos nucleares nos oceanos. Implantado pela primeira vez o Programa Atuação Responsável, concedido pela indústria química, para assegurar maior rigor ao gerenciamento ambiental nas unidades desse setor industrial em todo o mundo. Após o acidente de Bhopal, o Congresso Norte-Americano aprova a legislação Sara Title II, voltada especialmente para as práticas de gerenciamento de unidades industriais químicas. Firmada a Convenção de Viena para a proteção da camada de ozônio. Em meados da década de 1980, a ampliação da pressão social resulta em uma atuação mais contundente dos órgãos ambientais nos grandes centros produtores: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia e São Paulo, determinando mudanças nas políticas socioambientais das empresas do setor químico. É aprovado nos Estados Unidos o Emergency Planning and Community Right do Know Act (EPCRA), também conhecido como Sara Title III. Este plano exigiu que todas as empresas do setor químico com dez ou mais empregados estimassem o volume das emissões de seus resíduos gasosos, líquidos e sólidos. Publicado o relatório da Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecido como Relatório Brundtland, produzido a pedido das Nações Unidas. Firmado o Protocolo de Montreal, que cria mecanismos para a eliminação das substâncias que esgotam a camada de ozônio. Firmada a Convenção da Basiléia, Suíça, que regula internacionalmente os movimentos transfronteiriços de resíduos tóxicos. Convenção Internacional sobre Preparo, Resposta e Cooperação em Caso de Poluição por Óleo (conhecida como OPRC/90) Firmado o Protocolo sobre Proteção Ambiental, anexo ao Tratado Antártico, que transforma a Antártica em reserva natural, com a totalidade de sua área protegida. A Câmara de Comércio Internacional publica a Carta Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Realiza-se no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, quando são assinados diversos acordos e convenções ambientais de alcance global, dentre eles a Agenda 21, cujo capítulo 19 trata do tema de Segurança Química: todos os produtos químicos devem ter todas as suas características conhecidas e informadas aos usuários, de modo a proteger a saúde humana e o meio ambiente. Criado o Comitê Técnico 207 da Organização Internacional para a Normalização (ISO) incumbido de criar um sistema de normas internacionais para a gestão ambiental, do qual resultaram as normas ISO 14000. Convenção de Londres sobre o Banimento do Despejo de Resíduos Radioativos nos Oceanos. Continua (...)


198

1993

1993

1994 1996 1996

1997

1997 1998 2000 2000

2001

2001 2001 2001

2002

Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (United Nations Framework Convention on Climate Change – UNFCCC), criado com o objetivo de estabilizar a concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera. A Justiça de Cubatão determinou a total interdição da unidade química da Rhodia em Cubatão em razão da contaminação da sua planta com produtos altamente prejudiciais à vida humana e ao meio ambiente, particularmente no que tange a recursos hídricos. Entre os produtos, destacam-se o hexaclorobenzeno e o hexabutadieno, relacionados a problemas de câncer e graves problemas de intoxicação. Segundo a Associação dos Contaminados Profissionalmente por Organoclorados (ACPO), até 1999, sete funcionários já haviam morrido por causa da contaminação ocorrida. Criação do Fórum Intergovernamental de Segurança Química (IFCS), com a missão de promover a implementação do capítulo 19 da Agenda 21. Publicação da Diretiva de Seveso II. Início da negociação da Convenção de Roterdã sobre segurança de produtos, a partir da qual foram estabelecidas regras para o Consentimento Previamente Informado de Produtos Químicos no Comércio Internacional (PIC), bem com o Sistema Globalmente Harmonizado para a Classificação e Rotulagem de Substâncias Químicas (GHS). Início da negociação da Convenção de Estocolmo sobre segurança química, a partir da qual foram estabelecidas regras para a eliminação de uma lista de produtos organoclorados e para o controle de dioxinas e furanos (Aldrin, Clordano, Dieldrin, DDT, Endrin, Heptaclor, Hexaclorobenzeno, Mirex, Toxafeno, Bifenilas Policloradas (PCB´s)). É firmado o Protocolo de Kioto, que estabelece metas para a redução das emissões de gases que contribuem para o efeito estufa. Convenção de Roterdã sobre Consentimento Previamente Informado para o Comércio Internacional de Certas Substâncias Químicas e Agrotóxicos Perigosos (PIC) 3ª. Reunião do Fórum Intergovernamental de Segurança Química (IFCS) em Salvador – Bahia, na qual são elaborados os documentos “Declaração da Bahia” e “Prioridades de Ação para Além do Ano 2000”. Regulamento para Uso de Dispersantes Químicos em Derrames de Óleo no Mar (Resolução Conama nº. 269, de 14/09/2000). Proposta do “White Paper” da Comunidade Européia para produtos químicos. Início das negociações do sistema de controle baseado no “Reauthorization and Evaluation of Chemicals” (REACH), para o registro de substâncias químicas e de suas aplicações para permitir a sua comercialização na Comunidade Européia. Firmada na Suécia a Convenção de Estocolmo para o banimento de 12 poluentes orgânicos persistentes (POP´s). Plano de Emergência para Incidentes de Poluição por Óleo Originados em Instalações Portuárias, Terminais, Dutos, Plataformas e Respectivas Instalações de Apoio (Resolução Conama nº. 293, de 12/12/2001). Convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Prevenção de Grandes Acidentes. Realiza-se em Johannesburgo, África do Sul, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, também conhecida como Rio + 10. Nela foi aprovado o “Plano de Ação de Johannesburgo” cujo parágrafo 23 trata de produtos químicos e estabelece que “em 2020 os produtos químicos devem ser fabricados de modo tal que levem à minimização de efeitos adversos à saúde e ao meio ambiente”

2002

Código Internacional de Gerenciamento para Operação Segura de Navios e Prevenção da Poluição (conhecido como Código ISM)

2003

Início dos trabalhos de Abordagem Estratégica para a Gestão Internacional de Produtos Químicos – SAICM (Strategic Approach to International Chemicals Management). Esta negociação destina-se a desenvolver a estratégia para garantir o atendimento do parágrafo 23 do Plano de Johannesburgo. Foram produzidos 3 documentos: a Declaração Política de Alto Nível (HLD), assinada por Ministros de Estado; a Estratégia Política Ampla (OPS) e o Plano de Ação Global (GPA). Continua (...)


199

2004 2004

2006

2006

Entra em vigor a Convenção de Estocolmo, firmada em 2001, que proíbe o uso de 12 poluentes orgânicos persistentes (POP´s). Entra em vigor a Convenção de Roterdã que trata sobre a segurança de produtos Conclusão da negociação da SAICM e a realização da 1ª. Conferência Internacional de Gestão de Produtos Químicos (International Conference on Chemicals Management – ICCM). Como resultado, os governos, as organizações não governamentais, as representações sindicais, as organizações de caráter científico e a indústria (química, incluindo agro-químicos, metais e outras) deverão implementar os elementos da SAICM, havendo a previsão de realização de eventos para avaliação dos progressos obtidos, que incluirão a 2ª. Conferência Internacional, proposta para 2009. Criação do Sistema REACH (Registro, Avaliação, Autorização e Restrição de Substâncias Químicas). Trata da criação de um sistema de registro com informações sobre os perigos e riscos de substâncias químicas, novas ou existentes, fabricadas na União Européia ou importadas de outros países. Com base nas informações prestadas pelas empresas, serão autorizados os usos de produtos químicos naquele bloco.

Fonte: Adaptado de Associação Brasileira de Indústrias Químicas (2007a), Associação Brasileira de Indústrias Químicas (2008), Demajorovic (2003), Lage e Valle (2004, p. 198-217). De acordo com Demajorovic (2003, p. 83): [...] embora outros setores industriais também sejam responsáveis por gerar acidentes ampliados ou maiores, grande parte dos eventos ocorreu em indústrias químicas de base, ou de primeira e segunda geração, que fabricam uma série de produtos empregados como matérias-primas em outras indústrias. O risco é inerente a essas unidades industriais em razão de seu próprio processo de produção e do tipo de produto gerado, e os riscos mais comuns são incêndio, explosões e vazamentos de gases, além da contaminação do ar, da água e do solo.

Os fatos ocorridos ao longo das décadas de demarcaram a expansão da sociedade industrial, confirmam a existência dos riscos e da incerteza em diferentes etapas dos processos de produção, distribuição e consumo, apontando para a existência de insuficiências nos conceitos de segurança e controle de riscos desenvolvidos a partir das premissas da matriz de pensamento linear. Estes casos demonstram, segundo Rasmussen citado por Demajorovic (2003), que as normas de segurança das empresas mostram-se inadequadas para evitar ou gerenciar as ocorrências; que as autoridades locais não possuem informações e a organização necessárias para mitigar seus efeitos sobre a população e o meio ambiente e, finalmente, que a população local desconhece os riscos das unidades industriais próximas, tornando-se extremamente vulnerável em casos de acidentes, uma vez que não está preparada para enfrentar eventos inesperados.


200

A ocorrência de acidentes químicos ampliados41 como os casos ocorridos na baia de Minamata no Japão, Bhopal e Seveso, associados com os danos ambientais causados por produtos químicos, como a destruição da camada de ozônio pelo uso indiscriminado de gases CFC´s e os diversos derramamentos de óleo em rios e oceanos, contribuíram significativamente para a ampliação da percepção de diferentes atores de sociedades locais sobre os riscos das atividades industriais em escala global, em especial do segmento químico. Esta situação pode ser evidenciada a partir dos resultados obtidos por diferentes relatos e pesquisas relacionadas, conforme demonstrado no Quadro 32:

Quadro 32 – Pesquisas de Opinião Pública sobre a Imagem da Indústria Química: Ano

1986

1988

Responsável

Dados Coletados •

Em 1986, uma pesquisa realizada em várias cidades brasileiras, demonstrou que mais de 56% dos entrevistados eram mais preocupados com a indústria química em comparação com outras indústrias. A maioria não confiava na indústria química e pensava que o governo deveria controlar a indústria química muito mais restritivamente e com uma legislação muito mais rigorosa.

• • •

As opiniões desfavoráveis aumentaram de 40% para 58% As opiniões favoráveis decresceram de 30% para 14% As pessoas que acreditavam que as empresas do setor químico não eram suficientemente regulamentadas aumentaram de 57% para 74% Aqueles que consideravam a indústria como essencial diminuíram de 49% para 38%

Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM)

Chemical Manufactures Association (CMA)

1998

Janice Mazurek – The Use of Unilateral Agreements in the United States: The Responsible Care Initiative

Na pesquisa de opinião pública favorável feita em dez setores industriais norte-americanos, no período de 1990 e 1995, o setor químico ocupou a segunda posição, perdendo apenas para a indústria de tabaco. O índice de pessoas que se declararam favoráveis ao setor sofreu um decréscimo de 27% em 1991 para 21% em 1995. Continua (...)

41 Segundo Freitas citado por Demajorovic (2003) acidentes químicos ampliados correspondem a eventos agudos, tais como explosões, incêndios e emissões, individualmente ou combinados, envolvendo uma ou mais substâncias perigosas com potencial de causar simultaneamente múltiplos danos ao meio ambiente e à saúde dos seres humanos expostos. O que caracteriza os acidentes químicos ampliados não é somente a sua capacidade de causar grande número de óbitos, embora sejam frequentemente conhecidos por isso. É também o potencial de gravidade e extensão de seus efeitos ultrapassarem os seus limites espaciais de bairros, cidades e países – e temporais – como a teratogênese, mutagênese e danos a órgãos-alvo específicos.


201

1999

1999

Ana Lúcia M. Guedes – Dissertação: Programas ambientais de empresas multinacionais no Brasil: estudos de caso no setor químico

Em sua dissertação de mestrado apresentou dados de uma pesquisa realizada no Brasil que apontava o setor químico como aquele que acarreta mais risco ou problemas socioambientais. O setor químico ocupou a primeira posição da lista com um índice de 68%.

Em uma declaração afirmou que a percepção da sociedade sobre a indústria química em diversos países é muito semelhante. De acordo com Demajorovic (2003), dados de pesquisas feitas em 1999 revelaram que na Argentina e na Inglaterra só as indústrias nuclear e de tabaco recebiam uma avaliação pior que a do setor químico. De acordo com o autor, na Argentina as pesquisas mostram que apenas 12% da população acredita que as empresas estão efetivamente preocupadas com a comunidade, e somente 13% considera que o meio ambiente é assunto prioritário para elas.

Pesquisa realizada pela ABIQUIM para avaliar a percepção dos públicos (externo e interno) e partes interessadas sobre os setores químico e petroquímico. A pesquisa do público externo envolveu amostras dos seguintes segmentos: público em geral, comunidades vizinhas a indústrias, formadores de opinião (jornalistas, organizações não governamentais, universitários, professores univertários, representantes do governo). A pesquisa revelou que o setor com imagem mais desfavorável era o químico e de petróleo, ambos com 38%. Esta pesquisa também foi direcionada ao público interno das empresas associadas (dos 694 questionários enviados a comissões e diretores das empresas associadas, foram devolvidos apenas 138). O resultado revelou que o público interno possui uma percepção diferente do público externo: 43% consideraram que a indústria química é insegura, enquanto que 5% consideram a empresa onde trabalham como insegura; 81% consideram que a indústria química agride o meio ambiente enquanto que 26% consideram que a empresa onde trabalham agride o meio ambiente.

Nelson Culer Representante da Câmara da Indústria Química e Petroquímica da Argentina

2001

Associação Brasileira de Indústrias Químicas (ABIQUIM)

2006

European Chemical Industry Council

Pesquisa de imagem realizada na Europa, onde a indústria química ocupa a 6ª. posição entre 8 diferentes tipos de atividades, ficando a frente somente das atividades relacionadas a energia nuclear e petróleo.

Fonte: Demajorovic (2003), Demajorovic e Soares (2006), Chiummo (2004) e European Chemical Industry Council (2007) Em razão das pressões exercidas pela sociedade organizada sobre os governos e as indústrias químicas e pela imagem formada pela opinião pública sobre o setor químico, este se viu obrigado a demonstrar preocupação com os efeitos não desejados


202

oriundos de suas atividades como forma de garantir a continuidade de suas operações, a exemplo da ação relacionada ao Programa Atuação Responsável42. De acordo com Lage e Valle (2004) o Programa Atuação Responsável, foi criado em decorrência dos sucessivos acidentes com grande repercussão e que afetaram a imagem da indústria química mundial deste o início da década de 1970. Segundo Demajorovic (2003) foi por meio deste programa que iniciou-se uma campanha integrada com o objetivo de modificar práticas gerenciais no campo socioambiental para reverter a imagem negativa do setor perante a opinião pública. No quadro 33 são apresentados alguns dados relevantes sobre o processo de criação e implantação do Programa Atuação Responsável no mundo:

Quadro 33 – Dados sobre o Programa Atuação Responsável Ano

Fatos

1984

O programa tem sua origem em uma iniciativa da Canadian Chemical Producers Association (CCPA).

1987

O programa Atuação Responsável foi levado para os Estados Unidos e Inglaterra.

1988

Implementado oficialmente em 1988 nos Estados Unidos por meio da Chemical Manufacturers Association (CMA).

1989

Criado o International Council of Chemical Associations (ICCA) com o objetivo de coordenar em nível mundial a implantação do programa Atuação Responsável, definido como um “compromisso do setor químico para a melhoria contínua em todos os aspectos relacionados à saúde, à segurança e ao desempenho ambiental, garantindo a transparência de suas atividades, planos e objetivos”.

1990

Início das primeiras discussões sobre o Responsible Care no Brasil.

1991

Criados os princípios diretivos e definidos os elementos do Programa Atuação Responsável. O nome “Atuação Responsável” foi proposto e aceito pelo Comitê Ambiental da ABIQUIM, e dois novos comitês foram formados para o programa. Líderes de empresas nacionais que já tinham programas ambientais deram suporte à iniciativa. Em outubro do mesmo ano, o comitê apresentou os princípios do Programa Atuação Responsável para a Diretoria da ABIQUIM. A diretoria não aceitou a proposta de imediato, solicitando seis meses para analisá-la. Continua (...)

42

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (2007a), o Programa Atuação Responsável (Responsible Care) foi criado no Canadá em 1984 com o intuito de reverter a imagem pública das indústrias químicas por meio de ações que visem promover a ampliação da segurança e a redução dos riscos relacionados à indústria química. Internacionalmente o programa é coordenado pelo Responsible Care Leadership Group – RCLG (Grupo de Liderança do Responsible Care) do International Council of Chemical Associations – ICCA (Conselho Internacional das Associações da Indústria Química) e no Brasil pela Associação Brasileira de Indústrias Químicas (ABIQUIM).


203

1992

Adoção do Programa Atuação Responsável pela Associação Brasileira de Indústrias Químicas (2007), no mesmo ano da realização da Conferência de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (UNCED), conhecida como “Eco 92”, realizada na cidade do Rio de Janeiro. A pressão de multinacionais atuando no país, especialmente norteamericanas, acabou revertendo a resistência à iniciativa, fazendo com que em abril de 1992 fosse endossado o programa Atuação Responsável brasileiro. Em maio do mesmo ano o programa foi oficialmente estabelecido no Brasil, com a participação de 50% dos associados da ABIQUIM (devido a participação de grandes empresas, o programa inicialmente envolveu aproximadamente 90% da indústria brasileira do setor em termos financeiros).

1993

A ABIQUIM desenvolve seis códigos de práticas (com guias e checklists) para o Programa Atuação Responsável: segurança de processos; segurança e saúde do trabalhador; transporte e distribuição; proteção ambiental; resposta a emergências e diálogo com a comunidade; e gerenciamento de produto.

1994

Disponibilização dos códigos de práticas. A ABIQUIM decidiu por não replicar os códigos e as guias de implementação do Responsible Care e colocou ênfase em liderança, participação do empregado e sistema de gestão. Nesta época, os membros da ABIQUIM não eram obrigados a assinar o compromisso com o Programa Atuação Responsável.

1995

A ABIQUIM promove a primeira auto-avaliação, processo que permite às empresas acompanhar o andamento da implementação das Diretrizes. Neste ano, somente 74 de 103 companhias submeteram-se a avaliação.

1996

Publicação de guias dos códigos de práticas. Neste ano, dos 156 membros da ABIQUIM, 118 ou 75% dos associados, que representavam mais de 90% das companhias líderes de mercado, assinaram o compromisso com o Programa Atuação Responsável.

1997

104 de 138 companhias químicas assinaram ou renovaram seu compromisso com o Programa Atuação Responsável.

1998

São gerados os primeiros indicadores. A ABIQUIM reporta que 70% dos seus 133 membros tinham adotado o programa. Neste mesmo ano o programa passa a ser obrigatório para os membros da ABIQUIM.

1999

De acordo com Mazurek citado por Demajorovic (2003) a iniciativa já atingia 43 países, cobrindo 87% da produção química mundial. Neste mesmo ano, segundo a ABIQUIM, dos 133 membros 75% tinham implementado o código de segurança de processo, 50% o de prevenção a poluição e transporte e distribuição, e 30% o de resposta a emergências e gerenciamento de produto. Neste ano as multinacionais americanas eram as mais avançadas na implementação do programa.

2000

A ABIQUIM realiza uma pesquisa de imagem da indústria química.

2001

A ABIQUIM divulga o primeiro relatório público.

2002

2003

A ABIQUIM desenvolve em conjunto com empresas certificadoras, o seu primeiro modelo de sistema de verificação externa do Programa Atuação Responsável, denominado VerificAR. Definição do novo modelo do Programa Atuação Responsável e início do processo de revisão, em função do modelo se mostrar complexo e burocrático, e da necessidade da sua atualização em relação a legislação brasileira e acordos internacionais (quando o programa foi lançado apenas algumas práticas gerenciais eram obrigatórias por lei), atendimento de novas demandas de empresas que já implantaram 100% do programa, Neste mesmo ano inicia-se a aplicação do VerificAR, com a participação de auditores de empresas certificadoras, profissionais de empresas associadas e representantes das comunidades vizinhas. Continua (...)


204

2004

Criação do Conselho Consultivo Nacional (CCN) reunindo diversas personalidades de diferentes áreas e setores; aprovação dos textos da Visão, Missão e Princípios Diretivos do Programa; início da redação do novo conjunto de práticas gerenciais do Programa Atuação Responsável.

2005

Produção do 1º. conjunto de diretrizes; iniciada a construção do novo espaço na internet dedicado ao Atuação Responsável (Canal AR) e; iniciada a revisão do VerificAR para possibilitar uma única auditoria integrada, considerando outros tipos sistemas de gestão. Apesar de amplo, o VerificAR não possuía total compatibilidade com as auditorias para normas de sistemas de gestão.

2006

Com a revisão do Programa Atuação Responsável, os antigos códigos e práticas deixam de existir. O seu conteúdo é integralmente adequado e incorporado nas novas Diretrizes, definidas no formato do ciclo do PDCA (Plain, Do, Check e Action) e elaboradas com base em diversas normas nacionais e internacionais de gestão (Ex: ISO), nos critérios do Prêmio Nacional de Qualidade (PNQ), nos indicadores do Instituto Ethos e outros instrumentos reconhecidos, tais como o Global Reporting Initiative (GRI) e o Balanced Scorecard, além das experiências das próprias empresas associadas.

Fonte: Associação Brasileira de Indústrias Químicas (2007), Demajorovic (2003, p. 95), Demajorovic e Soares (2006) e Relatório de Atuação Responsável (2007) O longo período exigido para o surgimento, para a aceitação, para a implantação e para adaptação do Programa Atuação Responsável revela a resistência e as dificuldades apresentadas pelas indústrias químicas baseadas na racionalidade econômica em adaptar-se a uma nova realidade compatível com um desenvolvimento de fato, sustentável. De acordo com Jonhson citado por Demajorovic (2003), foram as próprias empresas multinacionais que optaram pela adoção desta alternativa racional visando o lucro, com o objetivo de proteger a legitimidade da indústria química mundial para evitar legislações mais restritivas, para equilibrar as forças em jogo e para incrementar suas operações. Porém no Brasil, segundo o autor, a implementação do Programa Atuação Responsável encontrou diversas barreiras, visto que várias empresas nacionais questionavam a utilidade da iniciativa e sentiam-se inseguras sobre importar um programa na forma de “pacote fechado”. Segundo Demajorovic (2003, p. 112) isto se devia ao fato de que: Para muitos representantes de empresas químicas nacionais, a questão da imagem pública do setor limitava-se às corporações multinacionais, especialmente em seus países de origem. Empresários nacionais também argumentavam que a iniciativa poderia atrair ainda mais a atenção dos órgãos ambientais para o setor, culminando em uma legislação ambiental mais restritiva, ou reduzir o grau de soberania das empresas associadas na medida em que preconizava um programa uniforme a ser implementado indistintamente


205

por todos os associados. Por fim, as pequenas empresas, não associadas a conglomerados internacionais, preocupavam-se principalmente com a possibilidade de aumento dos custos que a iniciativa implicava sem gerar qualquer retorno financeiro.

Esta dificuldade para a aceitação do programa pelos responsáveis pelas indústrias químicas pode ser melhor compreendida pela definição de cinco fases propostas por Lage e Valle (2004): fase do desconhecimento, fase da contestação, fase da contemporização, fase da aceitação passiva e a fase da ação pró-ativa. Segundo os autores, a fase do desconhecimento é caracterizada pela ausência de conhecimento sobre os efeitos danosos de certos agentes químicos, como por exemplo, a contaminação do ser humano pelo chumbo, o efeito tóxico de metais pesados e a ação dos clorofluorcarbonos (CFCs) sobre a camada de ozônio. De acordo com Lage e Valle (2004) esta fase normalmente é seguida pela fase da contestação, onde os responsáveis pela produção ou utilização desses produtos não reconhecem o nexo causal, apesar de já possuírem dados suficientes para admiti-lo. Para os autores normalmente estas duas fases são seguidas pelas fases da contemporização e da aceitação passiva para que somente depois ocorra a fase da ação pró-ativa e consciente que visa eliminar, na origem, a causa identificada. O Programa Atuação Responsável desenvolvido pela entidade que representa a indústria química em nível mundial e que é adotado pelas entidades que representam as indústrias químicas em nível local apresenta algumas limitações. A primeira delas, a exemplo do Brasil, é que a exigência para a sua adoção é aplicada apenas para as indústrias químicas associadas à ABIQUIM. Logo, apesar do programa envolver as maiores indústrias químicas existentes no país, não atinge a totalidade das indústrias químicas instaladas no território nacional, principalmente pequenas e médias empresas. Outra questão relevante, diz respeito à dificuldade enfrentada para a sua adoção em escala global: provavelmente por razões políticas e interesses econômicos associados, países como a China e a Rússia, responsáveis por uma considerável participação na produção industrial mundial, representam uma lacuna em termos globais para a efetivação do programa, conforme ilustrado na figura 19:


206

Figura 19 – Mapa da Presença do Programa Atuação Responsável no Mundo Fonte: Associação Brasileira de Indústrias Químicas (2007a)

Demajorovic (2003, p. 97) considera que “o Programa Atuação Responsável apresenta-se para as indústrias químicas como uma nova forma de conduzir seus negócios, com base em compromissos éticos com a sociedade”. O autor menciona que os seus representantes não o consideram propriamente um programa, mas sim uma mudança cultural na maneira como a indústria química realiza seus negócios de forma a na prática, buscar melhorar a percepção do público em relação às formas de gerenciamento das unidades químicas. Demajorovic (2003, p. 97) acredita que o maior problema do programa, ou fragilidade perante a opinião pública, talvez esteja na forma escolhida para sua avaliação. Como se trata de um programa voluntário, o Atuação Responsável não impõe objetivos quantitativos para a redução da poluição ou prazos para que determinados tipos de emissão cessem ou diminuam. Seu critério de desempenho é verificar se os códigos referentes aos sistemas de gestão foram implementados pelos associados nos diferentes países. De acordo com o autor, nesse aspecto, o projeto assemelha-se à ISO 14000, uma vez que esta também não trabalha com indicadores de desempenho, limitando-se a certificar sistemas de gestão.


207

Demajorovic e Soares (2006) acreditam que algumas críticas continuam sendo feitas ao desempenho do programa no Brasil, uma vez que a ABIQUIM tem dificuldades de manter o apoio efetivo de todos os associados. De acordo como os autores, um dos problemas verificados é o baixo retorno das auto-avaliações principalmente das pequenas e médias empresas, em função destas não contarem com dados sistematizados que permitam o fornecimento das informações solicitadas. Outro fator apresentado pelos autores é o receio das empresas em divulgar dados e informações sobre seu desempenho, mesmo quando acordadas condições de garantia de sigilo. Este estudo apresentará a percepção de profissionais que atuam em indústrias químicas distantes da realidade enfrentada por grandes organizações do setor. Estas indústrias se revelam diferentes pelo fato de não serem associadas às entidades que a representam em nível nacional, por não possuírem vínculo com o Programa Atuação Responsável e por não serem consideradas em estudos relacionados a indústrias químicas. Este estudo busca estabelecer as percepções de um pequeno número de profissionais de empresas paranaenses do setor químico, para tentar identificar como estas estabelecem as suas relações com o meio ambiente.

2.4. PERCEPÇÃO

Para este estudo, que busca revelar algumas das percepções que os profissionais de indústrias químicas instaladas em um município paranaense têm das relações de suas organizações com o meio ambiente, foram considerados os conceitos de percepção propostos pela Chauí (2000), Comissão Mundial sobre Meio Ambiente (1991), Egler e Silva (2007), Sheldrake (2001) e Fernandes (2004). Em sua obra, Chauí (2000) menciona que na história da filosofia, as tradicionais linhas de pensamento empirista e intelectualista divergiram sobre as suas respectivas concepções sobre percepção. A exemplo dos fatos ocorridos em outros campos científicos fundamentados na matriz do pensamento linear, as tentativas de definição de


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um conceito para percepção também envolveram questões relacionadas à disjunção ocorrida entre sujeito e objeto, conforme demonstrado no quadro 34:

Quadro 34 – Linhas de Pensamento sobre Percepção – Empirista X Intelectualista Linha de Pensamento

Principais Características 



Empirista  





Intelectualista





Nesta linha, a sensação e a percepção dependem das coisas exteriores, causadas por estímulos externos que agem sobre nossos sentidos e sobre o nosso sistema nervoso, recebendo uma resposta que parte de nosso cérebro, volta a percorrer nosso sistema nervoso e chega aos nossos sentidos sob a forma de uma sensação (uma cor, um sabor, um odor) ou uma associação de sensações numa percepção (vejo um objeto vermelho, sinto o sabor de uma carne, sinto o cheiro da rosa, etc...); A sensação seria pontual, isto é, um ponto do objeto externo toca um de meus órgãos dos sentidos e faz um percurso no interior do meu corpo, indo ao cérebro e voltando às extremidades sensoriais. Cada sensação é independente das outras e cabe à percepção unificá-las e organizá-las numa síntese. A causa do conhecimento sensível é a coisa externa, de modo que a sensação e a percepção são efeitos passivos de uma atividade de corpos exteriores sobre o nosso corpo; Nesta linha de pensamento, o conhecimento é obtido por soma e associação das sensações na percepção e tal soma e associação dependem da freqüência, da repetição e da sucessão dos estímulos externos e de nossos hábitos; Nas teorias empiristas, a percepção é a única fonte do conhecimento, estando na origem das idéias abstratas formuladas pelo pensamento. Hume, por exemplo, afirma que todo conhecimento é percepção e que existem dois tipos de percepção: as impressões (sensações, emoções e paixões) e as idéias (imagens das impressões). Nesta linha, a sensação e a percepção dependem do sujeito do conhecimento e a coisa exterior é apenas a ocasião para que tenhamos a sensação ou a percepção. Nesse caso, o sujeito é ativo e a coisa externa é passiva, ou seja, sentir e perceber são fenômenos que dependem da capacidade do sujeito para decompor um objeto em suas qualidades simples (a sensação) e de recompor o objeto como um todo, dando-lhe organização e interpretação (a percepção); A passagem da sensação para a percepção é, neste caso, um ato realizado pelo intelecto do sujeito do conhecimento, que confere organização e sentido às sensações. Não haveria algo propriamente chamado percepção, mas sensações dispersas ou elementares; sua organização ou síntese seria feita pela inteligência e receberia o nome de percepção. Assim, na sensação, “sentimos” qualidades pontuais, dispersas, elementares e, na percepção, “sabemos” que estamos tendo a sensação de um objeto que possui as qualidades sentidas por nós; Nas teorias racionalistas intelectualistas, a percepção é considerada não muito confiável para o conhecimento porque depende das condições particulares de quem percebe e está propensa a ilusões, pois frequentemente a imagem percebida não corresponde à realidade do objeto; Para a concepção racionalista intelectualista, o pensamento filosófico e científico deve abandonar os dados da percepção e formular as idéias em relação com o percebido; trata-se de explicar e corrigir a percepção.

Fonte: Adaptado de Chauí (2000)


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De acordo com Chauí (2000, p. 152), “para os empiristas, a sensação conduz à percepção como uma síntese passiva, isto é, que depende do objeto exterior”, enquanto que “para os intelectualistas, a sensação conduz à percepção como síntese ativa, isto é, que depende da atividade do entendimento”. Ainda segundo a autora “para os empiristas, as idéias são provenientes das percepções. Para os intelectualistas, a sensação e a percepção são sempre confusas e devem ser abandonadas quando o pensamento formula as idéias puras”. Representando a filosofia, Chauí (2000) afirma que a partir do último século, este campo científico foi capaz de alterar estas duas tradições, criando as condições necessárias para a formulação de uma nova concepção do conhecimento sensível43. Para Chauí (2000, p. 152 e 153), estas mudanças foram trazidas pela fenomenologia de Husserl e pela Psicologia da Forma ou teoria da Gestalt44, sendo que ambas mostraram: i)

Contra o empirismo, que a sensação não é reflexo pontual ou uma resposta físico-fisiológica a um estímulo externo também pontual; ii) Conta o intelectualismo, que a percepção não é uma atividade sintética feita pelo pensamento sobre as sensações; iii) Contra o empirismo e o intelectualismo, que não há diferença entre sensação e percepção.

De acordo com Chauí (2000), as linhas empirista e intelectualista concordavam em um aspecto no qual consideravam que a sensação era uma relação de causa e efeito entre pontos das coisas e pontos de nosso corpo e a percepção era considerada a atividade que unia as partes numa síntese que seria o objeto percebido. Segundo Chauí (2000) a fenomenologia e a Gestalt demonstram que não há diferença entre sensação e percepção, uma vez que nunca temos sensações parciais, pontuais ou elementares, ou seja, sensações separadas de cada qualidade, que depois o espírito 43

Segundo Chauí (2000) Platão diferencia e separa radicalmente duas formas de conhecimento: o conhecimento sensível (crença e opinião) e o conhecimento intelectual (raciocínio e intuição), afirmando que somente o segundo alcança o Ser e a verdade. O conhecimento sensível alcança a mera aparência das coisas, o conhecimento intelectual alcança a essência das coisas, as idéias. Para Descartes, o conhecimento sensível (isto é, sensação, percepção, imaginação, memória e linguagem) é a causa do erro e deve ser afastado. O conhecimento verdadeiro é puramente intelectual, parte das idéias inatas e controla (por meio de regras) as investigações filosóficas, científicas e técnicas.


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juntaria e organizaria como percepção de um único objeto. A autora considera que na teoria fenomenológica do conhecimento, a percepção é considerada originária e parte principal do conhecimento humano, mas com uma estrutura diferente do pensamento abstrato, que opera com idéias. Para Chauí (2000, p. 156): A percepção sempre se realiza por perfis ou perspectivas, isto é, nunca podemos perceber de uma só vez um objeto, pois somente percebemos algumas de suas faces de cada vez; no pensamento, nosso intelecto compreende uma idéia de uma só vez, sem precisar examinar cada uma de suas “faces”.

Chauí (2000, p. 153) considera que sentimos e percebemos formas, ou seja, totalidades estruturadas dotadas de sentido ou de significação. No exemplo a seguir, a autora ilustra sua concepção de percepção: [...] ter a sensação e a percepção de um cavalo é sentir/perceber de uma só vez sua cor (ou cores), suas partes, sua cara, seu lombo e seu rabo, seu porte, seu tamanho, seu cheiro, seus ruídos, seus movimentos. O cavalo-percebido não é um feixe de qualidades isoladas que enviam estímulos aos meus órgãos dos sentidos (como suporia o empirista), nem um objeto indeterminado esperando que meu pensamento diga às minhas sensações: “Este objeto é um cavalo” (como suporia o intelectualista). O cavalo-percebido não é um mosaico de estímulos exteriores (empirismo), nem uma idéia (intelectualismo), mas é, exatamente, um cavalo-percebido.

Para Chauí (2000, p. 153-155), a percepção possui as seguintes características: i)

É o conhecimento sensorial de configurações ou de totalidades organizadas e dotadas de sentido e não uma soma de sensações elementares; sensação e percepção são a mesma coisa;

ii)

É o conhecimento de um sujeito corporal, isto é, uma vivência corporal, de modo que a situação de nosso corpo e as condições de nosso corpo são tão importantes quanto a situação e as condições dos objetos percebidos;

iii) É sempre uma experiência dotada de significação, isto é, o percebido é dotado de sentido e tem sentido em nossa história de vida, fazendo parte de nosso mundo e de nossas vivências; iv) O próprio mundo exterior não é uma coleção ou uma soma de coisas isoladas, mas está organizado em formas e estruturas complexas dotadas de sentido. Uma paisagem, por exemplo, não é uma soma de coisas que estão apenas próximas umas das outras, mas é a percepção de coisas que

44

De acordo com Chauí (2000, p. 152) “Gestalt é uma palavra alemã que significa: configuração, figura estruturada, forma”.


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formam um todo complexo e com sentido: o vale só é vale por causa da montanha, cuja altura e distância só podem ser avaliadas porque há o céu, as árvores, um rio e um caminho; o verde do vale só pode ser percebido por contraste com o cinza ou o dourado da montanha; o azul do céu só pode ser percebido por causa do verde da vegetação e o marrom da terra; essa paisagem será um espetáculo de contemplação se o sujeito da percepção estiver repousado, mas será um objeto digno de ser visto por outros se o sujeito da percepção for um pintor, ou será um obstáculo, se o sujeito da percepção for um viajante que descobre que precisa ultrapassar a montanha. Em resumo: na percepção, o mundo possui forma e sentido e ambos são inseparáveis do sujeito da percepção; v) A percepção é assim uma relação do sujeito com o mundo exterior e não uma reação físico-fisiológica de um sujeito físico-fisiológico a um conjunto de estímulos externos (como suporia o empirista), nem uma idéia formulada pelo sujeito (como suporia o intelectualista). A relação dá sentido ao percebido e ao percebedor, e um não existe sem o outro; vi) O mundo percebido é qualitativo, significativo, estruturado e estamos nele como sujeitos ativos, isto é, damos às coisas percebidas novos sentidos e novos valores, pois as coisas fazem parte de nossas vidas e interagimos com o mundo; vii) O mundo percebido é um mundo intercorporal, isto é, as relações se estabelecem entre nosso corpo, os corpos dos outros sujeitos e os corpos das coisas, de modo que a percepção é uma forma de comunicação que estabelecemos com os outros e com as coisas; viii) A percepção depende das coisas e de nosso corpo, depende do mundo e de nossos sentidos, depende do exterior e do interior, e por isso é mais adequado falar em campo perceptivo para indicar que se trata de uma relação complexa entre o corpo-sujeito e os corpos-objetos num campo de significações visuais, tácteis, olfativas, gustativas, sonoras, motrizes, espaciais, temporais e lingüísticas. A percepção é uma conduta vital, uma comunicação, uma interpretação e uma valoração do mundo, a partir da estrutura de relações entre nosso corpo e o mundo; ix) A percepção envolve toda nossa personalidade, nossa história pessoal, nossa afetividade, nossos desejos e paixões, isto é, a percepção é uma maneira fundamental de os seres humanos estarem no mundo. Percebemos as coisas e os outros de modo positivo ou negativo, percebemos as coisas como instrumentos ou como valores, reagimos positiva ou negativamente a cores, odores, sabores, texturas, distâncias, tamanhos. O mundo é percebido qualitativamente, efetivamente e valorativamente. Quando percebemos uma outra pessoa, por exemplo, não temos uma coleção de sensações que nos dariam as partes isoladas de seu corpo, mas a percebemos como tendo uma fisionomia (agradável ou desagradável, bela ou feia, serena ou agitada, sadia ou doentia, sedutora ou repelente) e por essa percepção definimos nosso modo de relação com ela; x) A percepção envolve nossa vida social, isto é, os significados e os valores das coisas percebidas decorrem de nossa sociedade e do modo como nela as coisas e as pessoas recebem sentido, valor ou função. Assim, objetos que para nossa sociedade não causam temor, podem causar numa outra sociedade. Por exemplo, em nossa sociedade, um espelho ou uma fotografia são objetos funcionais ou artísticos, meios de nos vermos em imagem; no


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entanto, para muitas sociedades indígenas, ver a imagem de alguém ou a sua própria é ver a alma desse alguém e fazê-lo perder a identidade e a vida, de modo que a percepção de um espelho ou de uma fotografia pode ser uma percepção apavorante; xi) A percepção nos oferece um acesso ao mundo dos objetos práticos e instrumentais, isto é, nos orienta para a ação cotidiana e para as ações técnicas mais simples; a percepção é uma forma de conhecimento e de ação fundamental para as artes, que são capazes de criar um “outro” mundo pela simples alteração que provoca em nossa percepção cotidiana e costumeira. xii) A percepção não é uma idéia confusa ou inferior, como julgava a tradição, mas uma maneira de ter idéias sensíveis ou significações perceptivas; xiii) A percepção está sujeita a uma forma especial de erro: a ilusão.

Egler e Silva (2007) evidenciam a presença da multidisciplinaridade nos estudos que tratam sobre percepção quando revelam que a compreensão dos campos da percepção não é tarefa de um único campo do conhecimento. Para as autoras, as teorias sobre percepção encontram-se em diversas áreas e possuem enfoques diferenciados sobre o que venha a ser percepção. Para Egler e Silva (2007), a percepção nos permite formar idéias, imagens e compreensões do mundo que nos rodeia, conceito que se aproxima da definição da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente (1991) a qual considera que a percepção é a maneira pela qual o homem sente e compreende o meio ambiente, natural ou criado por ele. Para Egler e Silva (2007, p. 3), a concepção de percepção na visão dos fenomenologistas é formada por dois mecanismos que se complementam: os sentidos e a cognição, os quais são influenciados por fatores externos e internos aos indivíduos. Como forma de ilustrar esta concepção, Egler e Silva (2007, p. 3) citam que: [...] um cego não pode possuir percepções do mundo igual a uma pessoa que detém a visão, até por que os estímulos externos são captados pelos sentidos audição, visão, tato, olfato, paladar. Não que um cego, por isso, possua uma percepção reduzida, mas dado a sua dificuldade de visualização ele poder utilizar outros sentidos, que o permitirá ter outras sensações da realidade e por isso interpretá-la de um outro modo.

Desta forma, Egler e Silva (2007, p. 3) consideram que:


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[...] a percepção é um processo ativo da mente, em que se é possível interpretar o mundo. Sendo que, há uma contribuição da inteligência no processo perceptivo, que é mediada pela motivação, pelos valores éticos, morais, interesses, julgamentos e expectativas daqueles que percebem.

Sheldrake (2001, p. 92) considera que “povos tradicionais do mundo inteiro raciocinam de modo diferente. Acreditam em sua experiência pessoal. A visão se projeta do corpo. Assim como a luz penetra nos olhos, a visão escapa dos olhos”. Fazendo referência a Piaget, Sheldrake (2001) menciona que as crianças de nossa própria cultura também pensam o mesmo e que perdem esta noção com cerca de 11 anos, quando aprendem que os pensamentos e as percepções não estão fora, mas dentro de suas cabeças. Desse modo, para o autor, a teoria triunfa da experiência e uma doutrina metafísica é aceita como fato objetivo. Do ponto de vista “erudito”, as crianças assim como os povos primitivos e ignaros são considerados gente confusa, por não conseguirem distinguir o interno do externo, o sujeito do objeto, os quais deveriam estar nitidamente separados. Sheldrake (2001, p. 92) acredita que da mesma forma que “[...] a luz penetra nos olhos, as imagens e percepções se projetam dos olhos para o mundo que nos cerca”. Para o autor: Nossas percepções são construções mentais que envolvem a atividade interpretativa da mente. No entanto, se são imagens em nossa mente, estão também fora de nossos corpos. Ora, se se acham tanto dentro da mente quanto fora do corpo, a mente deve estender-se para além do corpo. Ela se projeta para abarcar tudo o que vemos. Se contemplamos as estrelas distantes, nossa mente se estira por distâncias astronômicas até tocar aqueles astros. Sujeito e objeto, de fato, se confundem. Graças às percepções, o ambiente é trazido para dentro de nós, mas nós também vamos até ele.

Na questão específica de um estudo envolvendo a variável meio ambiente, a noção de percepção ambiental se faz importante. Para Faggionato citado por Fernandes (2004), a percepção ambiental pode ser definida como sendo uma tomada de consciência do ambiente pelo homem, ou seja, o ato de perceber o ambiente que se está inserido, aprendendo a proteger e a cuidar do mesmo. Para Fernandes (2004), cada indivíduo percebe, reage e responde diferentemente às ações sobre o ambiente em que vive. As respostas ou manifestações daí decorrentes são resultados das


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percepções (individuais e coletivas), dos processos cognitivos, julgamentos e expectativas de cada pessoa. O autor considera que um estudo da percepção ambiental é de fundamental importância para a melhor compreensão das inter-relações entre o homem e o ambiente, suas expectativas, anseios, satisfações e insatisfações, julgamentos e condutas. De acordo com Fernandes (2004) a importância da pesquisa em percepção ambiental para o planejamento do ambiente foi ressaltada pela UNESCO em 1973. O autor considera que um das dificuldades para a proteção dos ambientes naturais está na existência de diferenças nas percepções dos valores e da importância dos mesmos entre os indivíduos de culturas diferentes ou de grupos sócio-econômicos que desempenham funções distintas, no plano social, nesses ambientes. Para Marques citado por Fernandes (2008) a percepção ambiental desponta como uma arma na defesa do meio natural, e ajuda a reaproximar o homem da natureza, visando um futuro com mais qualidade de vida para todos, já que é capaz de despertar uma maior responsabilidade e respeito dos indivíduos em relação ao ambiente em que vivem. Além de revelar algumas das percepções dos profissionais da indústria química, este estudo busca criar oportunidades para que profissionais da área e a sociedade da qual são apenas uma parte integrante, reflitam sobre suas ações e sobre a necessidade do desenvolvimento de uma nova racionalidade que seja mais compatível com a correta utilização dos recursos naturais e a preservação do ambiente natural.

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 3.1. CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA Segundo Laville e Dionne (1999) o termo método deriva do grego methodos, formado por meta (para) e hodos (caminho), e poderia ser traduzido como “caminho para” ou então “prosseguimento, pesquisa”. Para Demo (1987, p. 19) a metodologia:


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[...] é uma preocupação instrumental, trata-se das formas de se fazer ciência. Cuida dos procedimentos, das ferramentas, dos caminhos. A finalidade da ciência é tratar a realidade teórica e prática. Para atingirmos tal finalidade, colocam-se vários caminhos. Disto trata-se a metodologia.

Este capítulo busca apresentar os “caminhos metodológicos” adotados para o desenvolvimento deste estudo exploratório de natureza qualitativa bem como apresentar os motivos e escolhas que justificam os procedimentos metodológicos adotados pelo pesquisador. Diferentemente das preocupações predominantes em pesquisas aplicadas de natureza quantitativa, a exemplo da pesquisa sobre a proposta de criação de um índice de qualidade do ambiente sustentável para os bairros de Curitiba, elaborada por Wiens (2007) ou da pesquisa sobre a influência e a percepção do setor automotivo na sustentabilidade ambiental da região metropolitana de Curitiba, elaborada por Santos, S. E. dos (2007), optou-se pela adoção de procedimentos metodológicos que favorecessem os princípios dialógico, recursivo e hologramático presentes na proposta de Morin para a complexidade, sem que isso represente a eliminação do rigor necessário para a realização de pesquisas. Para Laville e Dionne (1999, p. 11) é “... imprescindível trabalhar com rigor, com método, para assegurar a si e aos demais que os resultados da pesquisa serão confiáveis e válidos”. 3.1.1. Tipo de Estudo De acordo com Gil (2002) é usual classificar as pesquisas com base em seus objetivos gerais, classificando-as em três grandes grupos: exploratórias, descritivas ou explicativas. Quanto ao tipo de estudo esta pesquisa se caracteriza como sendo exploratória, pois segundo Gil (2002, p. 41) “têm como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito”. Para o autor estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de idéias ou a descoberta de intuições, sendo por tanto o seu planejamento bastante flexível, característica esta que possibilita a consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado.


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Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 65) “este tipo de pesquisa objetiva dar uma explicação geral sobre determinado fato, através da delimitação do estudo, levantamento bibliográfico, leitura e análise de documentos”. Para a autora “... a pesquisa exploratória, ao dar uma explicação geral, pode levantar um novo problema que será esclarecido através de uma pesquisa mais consistente”. Segundo Oliveira, M. M. de (2007, p. 65): [...] esse tipo de pesquisa desenvolve estudos que dão uma visão geral do fato ou fenômeno estudado [...] um estudo exploratório é realizado quando o tema escolhido é pouco explorado, sendo difícil a formulação e a operacionalização de hipóteses.

De acordo com Gil (2002) na maioria dos casos estas pesquisas envolvem um levantamento bibliográfico, entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com o problema pesquisado e análise de exemplos que estimulem a sua compreensão. 3.1.2. Natureza Com o objetivo de atender princípios presentes na proposta da complexidade, como o estabelecimento da dialógica entre campos científicos distintos, da participação do pesquisador e da comunicação entre o tema e o ambiente, optou-se pelo desenvolvimento de um estudo de natureza qualitativa, como forma de promover uma aproximação entre pesquisador, teoria, sujeitos e objetos envolvidos no tema de pesquisa. Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 37) a pesquisa qualitativa é “[...] um processo de reflexão e análise da realidade através da utilização de métodos e técnicas para compreensão detalhada do objeto de estudo em seu contexto histórico e/ou segundo sua estruturação”. Para a autora a pesquisa qualitativa “[...]

implica em estudos

segundo a literatura pertinente ao tema, observações, aplicação de questionários, entrevistas e análise de dados, que deve ser apresentada de forma descritiva”. A escolha pela realização de uma pesquisa de natureza qualitativa também se deu em razão das características complexas e subjetivas do tema de estudo proposto, envolvendo as variáveis “Meio Ambiente” e “Indústrias Químicas”, e como alternativa a forma tradicional de construção do saber científico, caracterizada pelos princípios da


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objetividade45, do empirismo46 ou da aplicação de métodos quantitativos. Algumas justificativas para esta decisão podem ser encontradas nas considerações de Demo (1987, p. 16), que considera que as “realidades sociais se manifestam de formas mais qualitativas do que quantitativas, dificultando procedimentos de manipulação exata” e de Flick (2004, p. 17), para quem a “relevância específica da pesquisa qualitativa para o estudo das relações sociais deve-se a pluralização das esferas da vida”. Para o autor: A mudança social acelerada e a conseqüente diversificação de esferas de vida fazem com que os pesquisadores sociais defrontem-se, cada vez mais, com novos contextos e perspectivas sociais; situações tão novas para eles que as suas metodologias dedutivas tradicionais – questões e hipóteses de pesquisa derivadas de modelos teóricos e testadas sobre a evidência empírica – fracassam na diferenciação de objetos (FLICK, 2004, p. 18)

Algumas limitações em termos da abordagem da objetividade empregada na forma tradicional da construção do saber científico podem ser encontradas nos preceitos básicos da pesquisa positivista, definidas por Guba e Lincoln citados por Mattos (2006, p. 355). Segundo os autores, na pesquisa objetiva: Só fatos, em si, devem ser considerados. O sujeito conhecedor não “deve” existir no texto científico. O trabalho de análise é, indiretamente, “tirá-lo de cena” exatamente pela objetivação total do resultado da observação, no caso a entrevista. O entrevistador apenas faz perguntas, fica de fora, e toda a investigação se volta para o objeto de interesse, as respostas do personagem em cena, para quem as câmeras se voltam, o entrevistado. Fatos são o que ele diz, o que fica gravado. A análise racional deles, preferencialmente em linguagem formal e clara, leva ao conhecimento objetivo, que pode assim tornar-se produto, eventualmente manipulado, aplicado e reproduzido.

Para Santos citado por Mattos (2006), hoje é consensual, inclusive entre as ciências empíricas, que a ficção de um conhecimento sem a marca cultural do autor, embora possível para fins práticos e tecnológicos, não se harmoniza com a idéia de

45

Para Laville e Dionne (1999, p. 27), o conceito de objetividade considera que “o conhecimento positivo deve respeitar integralmente o objeto do qual trata o estudo; cada um deve reconhecê-lo tal como é”. Segundo os autores, este conceito considera que “o sujeito conhecedor (o pesquisador) não deve influenciar esse objeto de modo algum; deve intervir o menos possível e dotar-se de procedimentos que eliminem ou reduzam, ao mínimo, os efeitos não controlados dessas intervenções” 46

Para Laville e Dione (1999) o empirismo se define como um conhecimento gerado à partir de uma experiência. Para os autores, o conhecimento positivo parte da realidade como os sentidos a percebem e ajusta-se à realidade. Desta forma qualquer conhecimento, tendo uma origem diferente da experiência da realidade parece suspeito, assim como qualquer explicação que resulte de idéias inatas ou anteriores a qualquer experiência.


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ciência racionalmente sustentável, e que os “fatos” também recebem codificação pessoal e social. Logo, para o autor, se faz necessário redefinir o conceito original de objetividade. Para Laville e Dionne (1999, p. 33) “em ciências humanas, os fatos dificilmente podem ser considerados como coisas, uma vez que os objetos de estudo pensam, agem e reagem”. Para os autores “são atores podendo orientar a situação de diversas maneiras...”, situação que coincide com o caso do pesquisador “... ele também é um ator agindo e exercendo sua influência”. De acordo com Laville e Dionne (1999, p. 34) “... o pesquisador não pode, frente aos fatos sociais, ter essa objetividade, apagar-se desse modo. Frente aos fatos sociais tem preferências, inclinações, interesses particulares” [...] “interessa-se por eles e os considera a partir do seu sistema de valores”. Para os autores “em ciências humanas, o pesquisador é mais que um observador objetivo: é um ator aí envolvido” (LAVILLE E DIONNE, 1999, p. 34). A concepção deste estudo trata-se de uma tentativa de contribuir para a redefinição do conceito de objetividade defendido por Santos citado por Mattos (2006) e de testar a proposta de transformação do conceito de objetividade definido por Laville e Dionne (1999), segundo o qual o pesquisador passa a ter consciência de que é ele quem provoca numerosas de suas observações e que sem a sua intervenção elas não aconteceriam. Para Laville e Dionne (1999, p. 39) “o papel do pesquisador passa a ser reconhecido, bem como sua eventual subjetividade47, que se espera todavia ser racional, controlada e desvendada”. Para os autores “é sob esse ângulo que, a partir de então, define-se a objetividade, relacionada mais ao sujeito pesquisador e seu procedimento do que ao objeto de pesquisa” (LAVILLE E DIONNE, 1999, p. 39). De acordo com Oliveira, M. M. de (2007, p. 60):

47

Oliveira, M. M. de (2007) sugere uma neutralidade científica, conceito pelo qual o autor deve evitar ao máximo a subjetividade, ou seja, o autor deve manter-se distante de suas emoções durante a construção do conhecimento de forma a evitar o “achismo” que pode interferir nos resultados da pesquisa. Segundo Minayo citado por Oliveira, M. M. de (2007, p. 102) a subjetividade “leva o pesquisador a sucumbir à magia dos métodos e técnicas, esquecendo-se do essencial, isto é, a fidedignidade às significações presentes no material e referida a relações sociais e dinâmicas”.


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A opção por uma abordagem qualitativa deve ter como principal fundamento a crença de que existe uma relação dinâmica entre o mundo real, objetivo, concreto e o sujeito; portanto, uma conexão entre a realidade cósmica e o homem, entre a objetividade e a subjetividade.

Para a autora na abordagem qualitativa, o pesquisador (a) deve ser alguém que tenta interpretar a realidade dentro de uma visão complexa. Parafraseando Cláudio Oliveira, Oliveira, M. M. de (2007, p. 60) menciona que “todos os conceitos, teorias e descobertas são limitados e aproximados” e que este tipo de postura do pesquisador “[...] se fundamenta no novo paradigma da ciência contemporânea, oposto ao antigo paradigma, que preconizava a verdade absoluta das coisas”. Para Laville e Dionne (1999, p. 41) “a idéia de problema está no centro do realinhamento das ciências humanas, como, aliás, das demais ciências” [...] “trata-se de compreender, considerando atentamente, a natureza do objeto de estudo, sua complexidade e o fato de ser livre a atuante, sempre cuidando para não deformá-lo ou reduzi-lo”. Para os autores, o pesquisador tem consciência que as compreensões assim produzidas são compreensões relativas e que dependem do talento do pesquisador para determinar o problema que escolhe para estudar, retraçar seus múltiplos fatores, escolhê-los e interpretá-los. De acordo com Laville e Dionne (1999) o que garante o valor deste saber é um princípio denominado objetivação48. Para os autores: É a mente do pesquisador que, a seu modo, e por diversas razões, efetua as escolhas e as interpretações. [...] é esse modo e essas razões que são o objeto da objetivação: de uma parte, do lado do pesquisador do qual se espera que tome metodicamente consciência desses fatores e os racionalize; de outra, do lado daquele ao qual serão comunicados os resultados da pesquisa, que espera que o pesquisador lhe informe tudo para que possa julgar a validade dos saberes produzidos. É esse princípio de objetivação que fundamenta a regra da prova e define a objetividade. Poder-se-ia dizer que a objetividade repousa sobre a objetivação da subjetividade (LAVILLE E DIONNE, 1999, p. 43 e 44).

A opção pelo desenvolvimento de um estudo de natureza qualitativa justifica-se pela busca da experiência da objetivação, da promoção de reflexões sobre o tema

48

Laville e Dionne (1999, p. 335) definem objetivação como a “operação pela qual o pesquisador torna consciente, para ele e para os outros, as coordenadas de seu problema de pesquisa e a perspectiva na qual o aborda”


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pesquisado, pela preocupação do estabelecimento de uma relação de equilíbrio entre objetividade e subjetividade e pela intenção do compartilhamento das percepções dos entrevistados e do pesquisador sobre o tema de pesquisa, de forma a produzir um estudo de características inclusivas sem intenções de ser conclusivo.

3.1.3. Método de Abordagem

O tipo de abordagem utilizada foi a pesquisa de campo, que de acordo com Fachin (2003, p. 153), é “qualquer pesquisa realizada em ambiente natural (campo), ou seja, não controlado (laboratório)”. Para Santos, A. R. dos (2002, p. 27 e 28) "chama-se fontes de pesquisa os lugares/situações de onde se extraem os dados de que se precisa" e que ainda segundo o autor podem ser "[...] o campo, o laboratório e a bibliografia". Ainda para Santos, A. R. dos (2002, p. 28), a pesquisa de campo é aquela que “recolhe os dados in natura, como percebidos pelo pesquisador. Normalmente a pesquisa de campo se faz por observação direta, levantamento ou estudo de caso". Para Barros e Lehfeld (2000, p. 89) “em pesquisas de campo, é comum o uso de questionários e entrevistas”. Para os autores, a escolha do instrumento de pesquisa dependerá do tipo de informação que se deseja obter ou do tipo de objeto de estudo.

3.1.4. Coleta dos Dados Para Appolinário (2004, p. 48), coleta de dados é a “operação através da qual se obtêm as informações (ou dados) a partir do fenômeno pesquisado”. Para Barros e Lehfeld (2000, p. 89) “a coleta de dados significa a fase da pesquisa em que se indaga e se obtêm dados da realidade pela aplicação de técnicas”. Para a realização da coleta de dados, foram utilizados como recursos metodológicos o diário de campo, o questionário e a entrevista semi-estruturada de natureza qualitativa.


221

Para Barros e Lehfeld (2000, p. 89) o diário de campo corresponde ao ”[...] registro de fatos observados através de notas e/ou observações”. Seguindo a recomendação dos autores, este instrumento foi utilizado para registrar as atividades diárias e as não efetivadas com suas justificativas, servindo também como uma agenda cronológica do trabalho de pesquisa. Nele foram registradas com exatidão as observações, percepções, vivências e experiências obtidas na pesquisa, incluindo impressões pessoais sobre o observado e o executado na pesquisa de campo. Para a coleta dos dados que compõem o perfil dos profissionais entrevistados e o perfil ambiental das indústrias químicas pesquisadas, foi aplicado um questionário antes da realização das entrevistas, visando criar uma aproximação entre o pesquisador e o entrevistado, além da obtenção de algumas informações preliminares necessárias para a realização da entrevista semi-estruturada. Para Barros e Lehfeld (2000, p. 90), trata-se do “... instrumento mais usado para o levantamento de informações”. Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 83): O questionário pode ser definido como uma técnica para a obtenção de informações sobre sentimentos, crenças, expectativas, situações vivenciadas e sobre todo e qualquer dado que o pesquisador (a) deseja registrar para atender os objetivos do estudo. Em regra geral, os questionários têm como principal objetivo descrever as características de uma pessoa ou de determinados grupos sociais.

Para a elaboração do questionário foi definida uma quantidade limitada de questões

abertas

e

fechadas,

apenas

as

consideradas

relevantes

para

o

desenvolvimento deste estudo, visando atender a recomendação de Barros e Lehfeld (2000), de evitar um excesso de questões que tornariam o seu preenchimento pelo entrevistado pesquisado exaustivo. Devido a natureza dialógica e qualitativa proposta para o estudo, optou-se pela realização de entrevistas individuais com diferentes tipos de profissionais que atuam nas indústrias químicas em atividades relacionadas ao meio ambiente, como forma de possibilitar ao pesquisador conhecer as percepções destes profissionais sobre as relações de suas respectivas organizações com o meio ambiente. Para a realização das entrevistas foram entrevistados profissionais diretamente relacionados com gestão ambiental da organização.


222

Para Richardson citado por Barros e Lehfeld (2000, p. 90) o termo entrevista é “[...] construído a partir de duas palavras, entre e vista. Vista refere-se ao ato de ver, ter preocupação de algo. Entre indica a relação de lugar ou estado no espaço que separa das pessoas ou coisas” [...] “o termo entrevistado refere-se ao ato de perceber o realizado entre duas pessoas”. De acordo com Barros e Lehfeld (2000, p. 91) “a entrevista é uma técnica que permite o relacionamento estreito entre entrevistado e entrevistador”. Corroborando com Barros e Lehfeld, Oliveira, M. M. de (2007, p. 86) considera que “a entrevista é um excelente instrumento de pesquisa por permitir a interação entre pesquisador (a) e entrevistado (a) e a obtenção de descrições detalhadas sobre o que se está pesquisando”. Para Laville e Dionne (1999) a entrevista oferece maior amplitude do que o questionário em relação à sua organização, uma vez que não está presa a condição de entrega de um documento para cada um dos interrogados. Para os autores, o entrevistador permite-se explicitar algumas questões no curso da entrevista, assim como reformulá-las para o atendimento das necessidades do entrevistado. Para o desenvolvimento deste estudo optou-se pela adoção de uma entrevista do tipo semi-estruturada, que segundo Laville e Dionne (1999, p. 188) corresponde a uma “série de perguntas abertas, feitas verbalmente em ordem prevista, mas na qual o entrevistador pode acrescentar perguntas de esclarecimento”. Oliveira, M. M. de (2007) recomenda a adoção deste tipo de entrevista como forma de se estabelecer um padrão de perguntas para cada pessoa ou grupo que se pretende entrevistar.

3.1.5. Análise dos Dados e Delineamento da Pesquisa

Para a análise dos dados e delineamento da pesquisa foi escolhido o método de análise de conteúdo de natureza qualitativa, por meio do qual se buscou a interpretação e a valorização das transcrições das falas dos entrevistados como elemento central para a análise dos dados coletados. Desta forma, como proposta para o desenvolvimento deste estudo, evitou-se de forma proposital, a aplicação do método de


223

análise de conteúdo tradicional, caracterizado pela realização de análises quantitativas de dados e pela utilização de softwares estatísticos. Esta decisão foi tomada primeiramente pelo interesse do pesquisador em tentar atribuir um maior nível de fidelidade em relação ao tratamento dispensado aos dados coletados, buscando com isso a preservação da originalidade destes e das idéias espontâneas resultantes da transcrição literal das entrevistas. Outro motivo que contribuiu para esta tomada de decisão foi o princípio da precaução, numa tentativa de evitar a utilização autômata de recursos computacionais para a análise dos dados. Para Mattos (2006) a tecnicização, que por um lado permite a multiplicação da produção acadêmica e facilita a vida de mestrandos e pesquisadores menos experientes, por outro, representa um risco de substituição dos significados originais por conceitos “pré-moldados”. Em sua análise sobre os possíveis riscos inerentes ao uso inadequado destas ferramentas, o autor confronta a recente multiplicação de softwares de análise de conteúdo com o que antes disso advertia Bardin: Isto [“a atitude de vigilância crítica”] sem que se caia na armadilha: construir por construir, aplicar a técnica para se afirmar a boa consciência. Sucumbir à magia dos instrumentos metodológicos, esquecendo a razão do seu uso (BARDIN CITADO POR MATTOS, 2006, p. 353).

Em relação a análise de conteúdo e baseado em Bardin, Mattos (2006, p. 354) considera que: [...] prevalece, na prática, uma conciliação estranha entre “o rigor e a descoberta”. A análise exaustiva “satisfaz as consciências”’ que precisam saber-se seguras contra uma “projeção da própria subjetividade”, mas só se completa na “descoberta dos conteúdos”, um salto não-objetivável, ou como diz a autora “uma função heurística: a análise de conteúdo enriquece a tentativa exploratória, aumenta a propensão à descoberta”.

Para Mattos (2006) o problema metodológico da análise de conteúdo consiste em encontrar uma resposta para a seguinte questão: Como saltar legitimamente da fala de um entrevistado e, em seguida, de vários deles, para um significado interpretativo? O autor considera que isso é precedido ou, pelo menos, intermediado, por um trabalho de organizar as informações resultantes das entrevistas, para que seja possível proceder a inferências maiores, inclusive à luz de teorias supostamente pertinentes ao


224

caso. De forma mais restrita, Mattos (2006) considera que a questão está exatamente neste trabalho de organização, e seu caráter problemático reside no fato de que ele não pode estar dissociado da própria produção, pelo pesquisador, do novo significado interpretativo, afinal, sua criação pessoal. Para Mattos (2006) há dois imperativos inseparáveis que, por parecerem irreconciliáveis, tornam-se geradores de todas as dificuldades dos pesquisadores: criar significados e garantir objetivação em todo o trabalho. Para Mattos (2006, p. 351) “a reconciliação está na concepção pragmática e dialogal da linguagem produzida na entrevista”. Desta forma para o autor: A objetivação torna-se possível por que a linguagem é um fenômeno social (fatos, atos de fala, algo identificável e ocorrente entre pessoas), e seu significado só surge desta relação. Assim, para produzir entendimento autêntico, ou seja, pertinente e sustentável em relação ao que enuncia, o pesquisador tem que jogar com os fatos da relação lingüística. A compreensão exige a prática da objetivação. (MATTOS, 2006, p. 351)

Para Laville e Dionne (1999, p. 214) o princípio da análise de conteúdo consiste em desmontar a estrutura e os elementos do conteúdo coletado para esclarecer suas diferentes características e extrair a sua significação. Para os autores: A análise de conteúdo não é, contudo, um método rígido, no sentido de uma receita com etapas bem circunscritas que basta transpor em uma ordem determinada para ver surgirem belas conclusões. Ela constitui, antes, um conjunto de vias possíveis nem sempre claramente balizadas, para a revelação – alguns diriam reconstrução – do sentido de um conteúdo (LAVILLE E DIONNE, 1999, p. 216).

Por se tratar da primeira experiência deste pesquisador no desenvolvimento de um estudo de natureza qualitativa, foram utilizados para a análise dos dados e o delineamento deste estudo as recomendações de Laville e Dionne (1999), de Mattos (2006) e de Oliveira, M. M. de (2007). Para Laville e Dionne (1999, p. 216) “uma das primeiras tarefas do pesquisador consiste, pois, em efetuar um recorte dos conteúdos em elementos que ele poderá em


225

seguida ordenar dentro de categorias49”. Para os autores “dado que a finalidade é evidentemente agrupar esses elementos em função de sua significação, cumpre que esses sejam portadores de sentido em relação ao material analisado e às intenções da pesquisa”. Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 93): [...] em pesquisa é preciso se estabelecer categorias para que se faça um trabalho sistematizado e coerente [...] portanto, vamos ter em mente que a palavra categoria está relacionada à classificação ou, mais precisamente, a um agrupamento de elementos que são sistematizados pelo pesquisador (a) após a pesquisa de campo, ou durante a análise de conceitos em livros didáticos, textos e documentos.

De acordo com Oliveira, M. M. de (2007) as informações obtidas durante o desenvolvimento de uma pesquisa podem ser classificadas em três níveis: categorias teóricas, categorias empíricas e unidades de análise. a) Categorias Teóricas: para a autora as categorias teóricas vão surgindo na medida em que as leituras vão sendo assimiladas, no momento em que surge a necessidade de afunilamento dos conteúdos. Este afunilamento das leituras pertinentes ao objeto de estudo implica no estabelecimento de critérios para o aprofundamento do conteúdo que possam direcionar a posterior construção dos instrumentais de pesquisa. b) Categorias Empíricas: segundo Oliveira, M. M. de (2007) com base no quadro teórico, mais precisamente a partir da definição do tema central de estudo, das leituras convergentes e da definição das categorias teóricas, é que são definidos e construídos os instrumentais para a pesquisa de campo. Desta forma cada questão ou tópico adotado para a realização das entrevistas serve como referencial para a criação das categorias empíricas, possibilitando a sistematização dos dados pesquisados;

49 Legendre citado por Oliveira, M. M. de (2007, p. 93) define categoria como sendo um “agrupamento de informações similares em função de características comuns”. Para Larousse citado por Oliveira (2007, p. 93) “categoria é a classificação que se faz em função de certos princípios gerais e que tenham identidade comum”.


226

c) Unidades de Análise: para Oliveira, M. M. de (2007) as unidades de análise correspondem aos dados e informações obtidos com a aplicação dos instrumentais de pesquisa (entrevistas/questionários). Para a autora dizem respeito a fala dos atores sociais, a qual fornece os dados e informações que devem ser sistematizados para facilitar o processo de análise.

Para um melhor entendimento sobre a estrutura de classificação proposta por Oliveira, M. M. de (2007) para a classificação de dados em uma análise qualitativa, a autora propõe uma representação gráfica conforme demonstrado na figura 20:

Categorias Gerais

Categorias Empíricas

Unidades de Análise

Figura 20 – Classificação dos Dados Fonte: Oliveira, M. M. de (2007)

Para Laville e Dionne (1999) além do recorte dos conteúdos, a definição das categorias analíticas ou rubricas, anteriormente denominadas de categorias empíricas por Oliveira, M. M. de (2007), sob as quais virão a se organizar os elementos de conteúdo agrupados por parentesco de sentido, é uma tarefa que se reconhece primordial. Para os autores: A ordem desses dois momentos da análise de conteúdo pode variar: às vezes, o pesquisador define primeiro suas categorias, mas em outros casos sua determinação é precedida do recorte dos conteúdos, especialmente quando essas categorias são construídas de maneira indutiva, isto é, ao longo dos progressos da análise. (LAVILLE E DIONNE, 1999, p. 219)


227

Para Laville e Dionne (1999, p. 219) existem três modos para a definição das categorias:

a) Modelo Aberto: onde as categorias não são fixas no início, mas tomam forma no curso da própria análise; b) Modelo Fechado: onde o pesquisador decide a priori categorias, apoiando-se em um ponto de vista teórico que se propõe o mais frequentemente submeter à prova da realidade; c) Modelo Misto: situa-se entre os dois, servindo-se dos dois modelos precedentes: categorias são selecionadas no início, mas o pesquisador se permite modificá-las em função do que a análise aportará.

Em função de sua característica dialógica, foi empregado neste estudo o modo de definição das categorias pelo modelo denominado misto. Para Laville e Dionne (1999, p. 222) “a construção de uma grade mista começa, pois, com a definição de categorias a priori fundadas nos conhecimentos teóricos do pesquisador e no seu quadro operatório”. Segundo os autores, o pesquisador, ao adotar este modo de definição das categorias “[...] não quer se limitar a modelos pré-determinados; espera poder levar em consideração todos os elementos que se mostram significativos, mesmo que isso o obrigue a ampliar o campo de suas categorias, a modificar uma ou outra, a eliminá-las, aperfeiçoar ou precisar as rubricas”. Isto posto, foram inicialmente identificadas as categorias teóricas definidas por Oliveira, M. M. de (2007). Durante o desenvolvimento da fundamentação teórica deste estudo foram identificadas as categorias teóricas “Meio Ambiente”, “Indústrias Químicas” e “Percepção”, com base nas quais foi desenvolvida a revisão teórica. Logo em seguida, partindo das categorias teóricas e da definição do conceito de modo misto proposta por Laville e Dionne (1999), foram inicialmente definidas e propostas as seguintes categorias e unidades de análise:


228

a) Categoria Analítica: Perfil Ambiental da Indústria Química

Unidades de Análise: •

Ramo de atuação

Classificação do Cadastro Nacional de Atividade Econômica (CNAE)

Classificação da organização quanto ao porte

Tipo de empresa (matriz ou filial)

Tempo de existência da organização (em anos e meses)

Tempo de atuação no município (em anos e meses)

Produtos fabricados

Declaração formal de valores e missão (se considera o meio ambiente)

Sistema de gestão ambiental

Tempo de existência do sistema de gestão ambiental (em anos e meses)

Certificações na área ambiental

Descrição dos cargos dos profissionais relacionados com a gestão ambiental

Matriz energética

Percentuais de gastos ou investimentos ambientais realizados nos últimos 3 anos com base na receita bruta (%)

Descrição dos gastos ou investimentos em gestão ambiental nos últimos 3 anos (%)

Descrição dos cursos realizados na área ambiental nos últimos 3 anos

Considerações sobre a legislação aplicada a indústria química (nível de adequação)

Principais motivações para gastos ou investimentos na área ambiental (além das exigências legais)

Principais dificuldades encontradas para a realização de gastos ou investimentos na área ambiental (além da questão financeira)

Histórico de acidente ambiental ocorrido na organização

Geração de resíduo industrial (descrição e destino)

Controle para emissão da poluição


229

Registro de reclamação da comunidade em relação às suas operações

Seguro para acidentes ambientais

Ações na área ambiental previstas para o horizonte de 2015.

b) Categoria Analítica: Perfil do Profissional

Unidades de Análise: •

Cargo

Gênero

Faixa etária

Formação

Tempo de experiência como profissional (em anos e meses)

Tempo de experiência do profissional na indústria química (em anos e meses)

c) Categoria Analítica: Profissional e Meio Ambiente

Unidades de Análise: •

Percepção do profissional sobre meio ambiente

Percepção do profissional sobre a sua relação com o meio ambiente

Percepção do profissional sobre o meio ambiente em suas tomadas de decisão

Influências internas e/ou externas sofridas pelo profissional quanto a tomada de decisões relacionadas ao meio ambiente

Importância atribuída pelo profissional do meio ambiente para a sua organização

d) Categoria Analítica: Indústria Química e Meio Ambiente

Unidades de Análise:


230

Percepção do profissional sobre como a indústria química é vista pela sociedade em relação às questões ambientais

Lembrança de acidente ambiental provocado por indústrias químicas

Riscos que a indústria química representa ao meio ambiente

Lembrança de acidente ambiental ocorrido na organização

Nível de risco que as atividades desenvolvidas pela organização representam para o meio ambiente

Nível de suficiência das ações ambientais para evitar ou minimizar possíveis impactos ambientais

Pressões exercidas sobre a organização para a adoção de medidas que visem a preservação do meio ambiente

Percepção do profissional sobre a relação de sua organização como o meio ambiente

Percepção do profissional sobre o futuro da relação da indústria química com o meio ambiente

As duas primeiras categorias analíticas “Perfil Ambiental da Indústria Química” e “Perfil do Profissional” surgiram da necessidade identificada pelo pesquisador durante o planejamento do instrumento de pesquisa, de conhecer melhor os sujeitos e os objetos envolvidos na pesquisa. A elaboração das questões pertencentes à categoria “Perfil do Profissional” foram inspiradas nas recomendações de Oliveira, M. M. de (2007) quanto à definição do perfil do entrevistado. Já a elaboração das questões pertencentes à categoria “Perfil Ambiental da Indústria Química” foram inspiradas pelo contato com as pesquisas realizadas para a Cepal por Oliveira, K. P. de (2005), que trata sobre o panorama do comportamento ambiental no setor empresarial no Brasil e na Pesquisa Gestão Ambiental na Indústria Brasileira realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) (1998). Por meio dos dados coletados para estas duas categorias, foi possível conhecer algumas características relevantes dos sujeitos e objetos envolvidos na pesquisa, fato que possibilitou uma maior aproximação do pesquisador, um melhor encaminhamento da


231

entrevista com os entrevistados e consequentemente um melhor tratamento dos dados coletados. A terceira categoria analítica, denominada “Profissional e Meio Ambiente”, foi criada como o objetivo de buscar um entendimento sobre quais são as percepções individuais que os diferentes tipos de profissionais envolvidos com a gestão ambiental da organização têm em relação ao meio ambiente. Esta categoria foi criada pelo pesquisador com o objetivo de tentar explicitar qual é a percepção de cada tipo de profissional em relação ao meio ambiente, independentemente das atividades que são praticadas pelas suas respectivas organizações. A quarta e última categoria, denominada “Indústria Química e Meio Ambiente”, foi criada com o objetivo de buscar revelar quais são as percepções dos profissionais da indústria química sobre a relação de sua organização com o meio ambiente. Esta categoria foi criada com o intuito de responder o problema de pesquisa proposto para esta pesquisa:

Como os profissionais de indústrias químicas instaladas em um município paranaense percebem a relação de suas organizações com o meio ambiente?

As perguntas de pesquisa foram desenvolvidas a partir das unidades de análise e agrupadas de acordo com a sua respectiva categoria, com o objetivo de facilitar as atividades de realização das entrevistas e de tabulação dos dados coletados. As perguntas de pesquisa são apresentadas no instrumento de pesquisa (Anexos 4 e 5) e ao longo do capítulo que trata da apresentação dos resultados obtidos no estudo.

3.1.6. Universo e Amostra Segundo Oliveira, M. M. de (2007, p. 87) “em pesquisa, o termo população ou universo significa a totalidade de pessoas que habita uma determinada área geográfica, ou o conjunto de elementos que compõem o objeto de nosso estudo”. Para a autora,


232

“nem sempre é possível pesquisar a totalidade desses elementos, ou todas as pessoas e grupos que se situam na área que delimitamos para nossa pesquisa de campo”, logo “[...] cabe ao pesquisador (a), a partir da totalidade (universo), definir o tamanho de sua amostra50”. “Sendo a amostra uma representação da população ou universo da pesquisa, faz-se necessário estabelecer critérios no processo de seleção para que ela seja significativa” (OLIVEIRA, M. M. de, 2007, p. 88). Para o desenvolvimento deste estudo, optou-se por uma amostra nãoprobabilística intencional. Amostra não-probabilística porque “o pesquisador (a) determina a quantidade de elementos ou o número de pessoas aptas a responder um questionário” e intencional em função de que “[...] o pesquisador (a) decide analisar um determinado fenômeno sem ter a preocupação de fazer generalizações em relação ao universo da pesquisa” (OLIVEIRA, M. M. de, 2007, p. 88 e 89). Para a delimitação do universo de pesquisa, optou-se pela adoção da limitação geográfica de um município do Estado do Paraná, o qual foi selecionado por ser considerado de pequeno porte e por possuir um número significativo de indústrias químicas instaladas. A escolha deste parâmetro de delimitação foi também motivada pelo interesse de que a pesquisa retrata-se as percepções de profissionais de indústrias químicas que compartilham um mesmo ambiente geográfico. Por razões do compromisso de confidencialidade assumido junto aos profissionais que participaram da pesquisa, os dados que permitem identificar o município, as indústrias químicas e os profissionais envolvidos na pesquisa não serão revelados. Esta condição foi assumida na proposta original da pesquisa com o objetivo de viabilizar a sua realização, sendo mantida ao longo do desenvolvimento do estudo. Para a identificação das indústrias químicas que compõem o universo de pesquisa deste estudo, foram cruzadas informações cadastrais de 7 (sete) fontes de dados distintas, conforme apresentado no quadro 35:

50

Para Oliveira, M. M. de (2007, p. 88) “[...] a amostra é um subconjunto ou parte dos elementos que compõem o universo”.


233

Quadro 35 – Fontes de Dados X Indústrias Químicas Instaladas no Município Entidade Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP) Associação Comercial e Industrial do Município Prefeitura Municipal Junta Comercial do Paraná (JUCEPAR) Instituto Ambiental do Paraná Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado do Paraná (SINQFAR)

Fonte de Dados

Total de Indústrias Químicas Instaladas no Município

Catálogo das Indústrias do Paraná 2006

11

Relatório Cadastral

33

Relatório Cadastral

47

Relatório Cadastral

41

Relatório de Licenças Ambientais Fornecidas para Indústrias Químicas Guia da Indústria Química Brasileira 2007 Relação de Associados Disponível no Site da Entidade na Internet (www.sinqfar.org.br)

64 1 0

Fonte: O Autor (2008) O resultado do cruzamento de todas as fontes de dados apontou para um total de 119 (cento e dezenove) indústrias químicas instaladas no município, número superior ao total de empresas originalmente previsto para a realização do estudo. Este dado revelou a fragilidade das fontes de dados pesquisadas em termos de abrangência e de nível de atualização, situação geradora de divergências e que pode ser atribuída a fatores como: a vinculação voluntária das indústrias aos cadastros das entidades, ausência de padrão nos critérios aplicados para a classificação das indústrias, a ausência da adoção de procedimentos periódicos para a sua atualização e a informalidade. É provável que algumas destas fontes de dados ainda considerem indústrias que já encerraram suas atividades ou que desenvolvem atividades diferentes daquelas que caracterizam uma indústria química. Cabe ressaltar que no caso da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP), a vinculação dos dados das indústrias que integram o Catálogo das Indústrias do Paraná 2006 dependia do interesse de adesão das próprias indústrias e que no caso do Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado do Paraná (SINQFAR) e da Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM), o total apresentado compreende apenas o número de indústrias que são associadas às respectivas entidades. No caso específico destas duas entidades representativas do setor, os números revelam um baixo nível de associação das indústrias químicas do


234

município pesquisado em relação às entidades que as representam no contexto estadual e nacional. No caso do Sindicato das Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado do Paraná (SINQFAR), foi efetuado em 04 de dezembro de 2007 um contato por telefone com a entidade, no intuito da obtenção dos dados cadastrais das indústrias químicas instaladas no município selecionado para o estudo. Neste contato o pesquisador foi informado que a entidade não possuía dados sobre as indústrias químicas instaladas no Estado do Paraná e que somente possuía dados de seus associados, os quais não poderiam ser disponibilizados em razão de uma decisão tomada em assembléia. Por este motivo, para a confirmação do total de indústrias químicas instaladas no município foram utilizadas as informações dos associados disponibilizadas no site da entidade (www.sinqfar.org.br), as quais apontaram a inexistência de indústrias químicas associadas ao sindicato patronal no município, apesar da região possuir um número representativo de indústrias instaladas. Com o intuito de levar ao conhecimento da entidade a proposta do estudo a ser realizado, foi encaminhada no mesmo dia uma carta via correio eletrônico ao Presidente do referido sindicato mencionando os objetivos da pesquisa (ver Anexo 6). Até o fechamento deste estudo, o sindicato não havia manifestado interesse pela pesquisa. No caso do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), as informações sobre as indústrias químicas juntamente com o histórico sobre autuações e acidentes ambientais envolvendo indústrias químicas instaladas no município, foram solicitadas por carta encaminhada via correio eletrônico no dia 11 de dezembro de 2007 (ver Anexo 7). Em resposta a solicitação, o instituto limitou-se a informar que haviam no município 36 (trinta e seis) indústrias licenciadas, sendo que destas apenas 15 (quinze) eram efetivamente classificadas como indústrias químicas e 21 (vinte e uma) consideradas como indústrias potencialmente impactantes devido à intensa utilização de produtos químicos. Quanto ao número de autuações ambientais ocorridas no município do período correspondente a 01 de janeiro de 2003 a 11 de dezembro de 2007, o instituto informou que de um total de 138 (cento e trinta e oito) ocorrências, 30 (trinta) foram por lançamento de efluentes líquidos fora dos padrões exigidos em legislação própria e 108 (cento e oito) por construção, reforma e/ou sem a devida licença ambiental (não


235

obrigatoriamente

indústrias

químicas).

Em

relação

aos

acidentes

ambientais

envolvendo indústrias químicas no mesmo período, o IAP informou que houveram 2 (duas) ocorrências. Em razão do IAP ter disponibilizado apenas totais sem o fornecimento dos dados cadastrais e o detalhamento das autuações e acidentes envolvendo indústrias químicas, novos contatos foram estabelecidos com o intuito da obtenção dos dados originalmente solicitados. Depois de muita insistência, por meio de vários contatos por telefone, por correio eletrônico e de uma visita pessoal, o IAP disponibilizou em 1º. de abril de 2008 uma nova relação de indústrias químicas instaladas no município, a qual apontou um total de 64 (sessenta e quatro) empresas, total diferente do apresentado no primeiro retorno. Em relação aos dados sobre autuações e acidentes ambientais, o IAP informou que o detalhamento sobre os mesmos não poderiam ser disponibilizados, uma vez que a grande maioria das ocorrências ainda estava sendo discutida juridicamente, fato que impedia a sua disponibilização para efeitos de divulgação pública. A ausência da disponibilização dos dados cadastrais como telefone e endereço das indústrias químicas instaladas no município nos relatórios fornecidos pela Prefeitura Municipal, pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e pela Junta Comercial do Estado do Paraná (JUCEPAR) representaram um fator limitante para a realização desta pesquisa. A Prefeitura Municipal informou que não dispunha destes dados em função de estar implantando um novo sistema, motivo pelo qual os dados cadastrais das indústrias químicas instaladas no município não estavam disponíveis. No caso do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e da Junta Comercial do Estado Paraná (JUCEPAR), estes dados não foram disponibilizados nos relatórios fornecidos. Do total das 119 (cento e dezenove) indústrias químicas apontadas, foram identificados os dados de contato de apenas 36 (trinta e seis) empresas, por meio dos dados cadastrais disponíveis em algumas das fontes de dados pesquisadas (FIEP, ABIQUIM e Associação Comercial e Industrial do Município), de pesquisas complementares realizadas na internet (sites locais) e na lista telefônica do município. O quadro 36 revela a situação cadastral das 36 (trinta e seis) indústrias químicas em relação às fontes de dados pesquisadas:


236

Quadro 36 – Indústrias Químicas X Fontes de Dados Indústrias Químicas Indústria 1 Indústria 2 Indústria 3 Indústria 4 Indústria 5 Indústria 6 Indústria 7 Indústria 8 Indústria 9 Indústria 10 Indústria 11 Indústria 12 Indústria 13 Indústria 14 Indústria 15 Indústria 16 Indústria 17 Indústria 18 Indústria 19 Indústria 20 Indústria 21 Indústria 22 Indústria 23 Indústria 24 Indústria 25 Indústria 26 Indústria 27 Indústria 28 Indústria 29 Indústria 30 Indústria 31 Indústria 32 Indústria 33 Indústria 34 Indústria 35 Indústria 36

FIEP X X

X X X

X X

Associação Prefeitura Comercial Municipal X X X X X X X X X X X X X X X X

X X X

X X X X X X X X X X X X X X X

X

X X X X X X X X

IAP ABIQUIM

SINQFAR

X X X X X X

X X

X X

X X X X X X

X X X

X

X X X X X X

X

X X

X

X

X

X X X X X

X

Junta Comercial do Paraná

X X

Fonte: O Autor (2008) Das 36 (trinta e seis) indústrias químicas identificadas, apenas 23 (vinte e três) foram consideradas para efeitos de desenvolvimento desta pesquisa. As justificativas pelas quais 13 (treze) empresas foram desconsideradas são apresentadas no quadro 37:


237

Quadro 37 – Justificativas para a Não Inclusão das Indústrias na Pesquisa Indústrias Químicas Indústria 24 Indústria 25 Indústria 26 Indústria 27 Indústria 28 Indústria 29 Indústria 30 Indústria 31 Indústria 32 Indústria 33 Indústria 34 Indústria 35 Indústria 36

Justificativas para a não Inclusão das Indústrias na Pesquisa O proprietário informou que a empresa não é classificada como indústria química em função de não fabricar substâncias químicas. A empresa apenas utiliza matéria-prima oriunda da indústria química no processo de fabricação de produtos cirúrgicos Empresa não localizada Empresa não localizada Empresa não localizada Empresa não localizada O proprietário informou que a empresa não fabrica produtos químicos, apenas atua no ramo de comercialização e distribuição de adesivos. Empresa não localizada O proprietário informou que a empresa deixou de atuar no ramo de fabricação de produtos químicos para atuar no segmento de reciclagem de resíduos industriais, incluindo resíduos gerados por indústrias químicas. Os resíduos são preparados para serem incinerados em fornos de cimenteiras Empresa encerrou suas atividades O proprietário informou que a empresa não fabrica produtos químicos, apenas atua no ramo de comercialização e distribuição de tintas. O proprietário informou que a empresa não fabrica produtos químicos, apenas aplica esmaltes nas telhas que fabrica. Empresa não localizada Empresa ainda estava em fase inicial de instalação de sua unidade industrial no município

Fonte: O Autor (2008)

No início do mês de dezembro de 2007 foram iniciados os contatos com as 23 (vinte e três) indústrias químicas consideradas para a realização do estudo. Nesta ocasião o pesquisador realizou uma visita a cada uma das empresas no intuito de confirmar a sua localização e de realizar o convite oficial por meio da entrega de um ofício nominal. No convite constavam: o detalhamento dos objetivos da pesquisa, as condições de confidencialidade estabelecidas para a realização da pesquisa, orientações sobre a possibilidade de não-participação e dados de contato do pesquisador para o esclarecimento de eventuais dúvidas das empresas convidadas (ver Anexo 8). Além dos dados sobre a realização da pesquisa, as empresas convidadas também receberam uma cópia do instrumento de pesquisa (Anexos 4 e 5), como forma de contribuir para a sua tomada de decisão quanto a participação na pesquisa.


238

Das 23 (vinte e três) indústrias contactadas, apenas a Indústria 10 efetuou um retorno para o convite, informando a sua impossibilidade de participação na pesquisa. As demais indústrias demandaram um esforço adicional do pesquisador quanto à necessidade de realização de novos contatos para a confirmação do seu interesse em participar na pesquisa, conforme demonstrado no quadro 38:

Quadro 38 – Total de Contatos Realizados Indústrias Químicas Indústria 1 Indústria 2 Indústria 3 Indústria 4 Indústria 5 Indústria 6 Indústria 7 Indústria 8 Indústria 9 Indústria 10 Indústria 11 Indústria 12 Indústria 13 Indústria 14 Indústria 15 Indústria 16 Indústria 17 Indústria 18 Indústria 19 Indústria 20 Indústria 21 Indústria 22 Indústria 23

Número de Contatos

Status

1 1 2 2 3 4 13 4 6 0 9 7 7 7 4 10 8 3 2 5 7 8 9

Entrevista Realizada Entrevista Realizada Entrevista Realizada Entrevista Realizada Entrevista Realizada Entrevista Realizada Entrevista Realizada Entrevista Realizada Entrevista Realizada Convite não Aceito Convite não Aceito Convite não Aceito Convite não Aceito Convite não Aceito Convite não Aceito Retorno Pendente Retorno Pendente Retorno Pendente Convite não Aceito Convite não Aceito Retorno Pendente Retorno Pendente Retorno Pendente

Fonte: O Autor (2008)

Do total das 23 (vinte e três) indústrias convidadas, 9 (nove) empresas ou 39,13% aceitaram participar da pesquisa. Apesar das várias tentativas realizadas pelo pesquisador para que um número maior de empresas participasse da pesquisa, 8 (oito) empresas ou 34,78% não aceitaram o convite e 6 (seis) empresas ou 26,09% não efetuaram retorno para os contatos estabelecidos.


239

As 8 (oito) empresas que não aceitaram participar da pesquisa apresentaram as seguintes justificativas:

Quadro 39 – Justificativas das Empresas que não Aceitaram Participar da Pesquisa Indústrias Químicas

Justificativas

Indústria 10

O proprietário informou que a empresa estava nos meses de maior volume de produção e que os profissionais relacionados com a área ambiental não dispunham de tempo para participar da pesquisa.

Indústria 11

Depois de vários contatos realizados, o proprietário da empresa enviou uma mensagem eletrônica ao pesquisador informando: “Desculpe-nos a demora em responder sua solicitação a respeito do assunto acima, nossa empresa estava em férias coletivas no período em questão, sobre sua solicitação queremos salientar que estamos lisonjeados pela escolha de nossa empresa, mas, não podemos ajudá-los, por diversos motivos, e o principal deles é que não somos uma Indústria total de transformação, ou seja a maioria de nossos produtos já vêem manipulados apenas fracionamos e envasamos os produtos já acabados,outra questão é a respeito dos resíduos, nossa empresa não tem resíduos para serem lançados fora, todo nosso resíduo é remanipulado e reaproveitado para uso.Desta forma achamos muito difícil que para um trabalho de mestrado como este, possamos ser úteis, já que não temos muitas das informações que com certeza serão necessárias para conclusão do seu trabalho. Achamos que o melhor seria V.Sa., encontrar empresas do ramo químico que fabricam as matérias primas para transformação, as quais poderiam lhes dar melhores subsídios para seu trabalho. Agradecemos seu interesse por nossa empresa e ficamos a sua disposição para dirimirmos possíveis dúvidas a respeito.” Observação: a justificativa relacionada ao período de férias coletivas informada pelo proprietário não foi informada em nenhum dos 9 (nove) contatos estabelecidos com a empresa. A secretária responsável pelos retornos sempre informou que o proprietário não se encontrava na empresa ou que esta ocupado, realizando outras atividades. Apesar do retorno negativo em relação à participação na pesquisa, o pesquisador efetuou um retorno para a mensagem eletrônica informando que mesmo diante das situações informadas pela empresa, que teria interesse que a empresa participasse do estudo. Até o fechamento deste estudo, a empresa não havia se manifestado sobre o novo convite.

Indústria 12

Depois de vários contatos realizados, o proprietário da empresa enviou uma mensagem eletrônica ao pesquisador informando:” 1. Agradecemos ao oficio recebido e as chamadas referente ao tema. 2. Gostaríamos de oportunizar este tema para um futuro devido a modificações estruturais que estão em curso na fábrica neste momento. Por favor, se possível, contatar-nos para o segundo semestre deste ano. Agradeço a compreensão.”

Indústria 13

Depois de vários contatos realizados, no último contato telefônico estabelecido pelo pesquisador com o proprietário da empresa, este informou que a empresa passava por uma reestruturação e que somente teria condições de agendar uma reunião para 2009, quando a nova fábrica estivesse concluída. Continua (...)


240

Indústria 14

Depois de vários contatos realizados, o responsável pela empresa informou que a empresa estava passava por mudanças estruturais e que naquele momento não seria possível participar da pesquisa. O responsável pela empresa informou que talvez fosse possível a participação na pesquisa a partir da metade do ano.

Indústria 15

Depois de vários contatos realizados, o proprietário informou por meio de sua secretária que a empresa não participaria da pesquisa em função de diversos compromissos internos.

Indústria 19

Depois de vários contatos realizados, uma funcionária da empresa informou que os proprietários ainda não haviam analisado o convite, afirmando de forma enfática que caso os proprietários da empresa tivessem interesse em participar da pesquisa, eles estariam efetuando um retorno. Até o fechamento deste estudo, a empresa não havia se manifestado sobre o novo convite.

Indústria 20

Depois de vários contatos realizados, um funcionário da empresa estabeleceu um contato com o pesquisador para informar que a empresa não participaria da pesquisa em virtude da química responsável pela área do meio ambiente estar de licença maternidade e do responsável pela produção estar afastado por licença médica.

Fonte: O Autor (2008)

Das 6 (seis) empresas que não efetuaram um retorno, apesar das várias tentativas de contato, a Indústria 22 chama a atenção por se tratar da única empresa instalada no município que é associada à Associação Brasileira de Indústrias Químicas (ABIQUIM). Apesar desta característica e do seu porte, a empresa não retornou a nenhum dos 8 (oito) contatos que foram realizados por meio de visita para entrega do convite, telefonemas e mensagens eletrônicas. Uma das hipóteses encontradas para a ausência de retorno por parte desta indústria reside no fato de que suas instalações se encontram dentro dos limites de uma Área de Proteção Ambiental (APA). Esta APA, criada com o intuito de proteger a bacia hidrográfica que fornece água para um reservatório de abastecimento existente próximo às instalações da empresa, foi estabelecida em data posterior à instalação da indústria no município.

4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DO ESTUDO

A proposta original de pesquisa apresentada no convite encaminhado para as empresas, previa a realização das entrevistas em duas etapas distintas, conforme apresentado no quadro 40:


241

Quadro 40 – Etapas Propostas para a Realização da Pesquisa Etapas

Descrição das Etapas

Etapa 1

Entrevista com o principal executivo da empresa, para definir o perfil ambiental e identificar quais são os profissionais diretamente envolvidos com as questões ambientais na indústria química entrevistada.

Etapa 2

Entrevista com o principal executivo da empresa e com os profissionais identificados na etapa 1 (químicos, coordenadores da área de qualidade/SGA, entre outros)

Fonte: O Autor (2008) Esta divisão em etapas pretendia estabelecer uma melhor condição para a realização das entrevistas e por subseqüência, uma melhor qualidade dos resultados. Desta forma, a primeira etapa propunha uma entrevista com o principal executivo da empresa, como forma de realizar uma primeira aproximação entre o pesquisador, o sujeito e o objeto de pesquisa; identificar o perfil ambiental da empresa e os profissionais diretamente envolvidos com a área ambiental. Na segunda etapa, a proposta consistia na realização de entrevistas com diferentes profissionais de uma mesma empresa, como executivos, coordenadores de produção, químicos, entre outros, como forma de possibilitar o cruzamento de suas respostas e analisar pontos convergentes e divergentes no discurso. Em função da existência de uma realidade diferente da idealizada pelo pesquisador, a proposta original para as entrevistas não pode ser efetivada. Alguns fatores se demonstraram limitantes para a realização da proposta das entrevistas em duas etapas como a ausência de disponibilidade de tempo por parte dos profissionais das empresas entrevistadas, a dificuldade de acesso ao principal executivo da empresa (grandes empresas), a ausência de quadro técnico composto por diferentes tipos de profissionais (pequenas empresas) e a própria condição da necessidade de convencimento de algumas empresas para que estas participassem da pesquisa. Das 9 (nove) empresas entrevistadas, apenas na Indústria 3 foi possível entrevistar o principal executivo e o profissional responsável pela área ambiental, motivo pelo qual a pesquisa foi realizada com 10 (dez) entrevistados.


242

Outro fator limitante relacionado à realização das entrevistas ocorreu em função da disponibilização do instrumento de pesquisa anexo ao convite. Esta situação, criada com o objetivo de possibilitar que as empresas convidadas avaliassem a proposta de pesquisa na íntegra antes de decidir sobre a sua participação, possibilitou que os profissionais da Indústria 1 e da Indústria 6 realizassem o preenchimento do questionário em substituição da realização da entrevista. Em virtude das duas empresas não terem aberto a possibilidade de realização de entrevistas, as suas participações foram tratadas para efeitos de apresentação dos resultados deste estudo, por meio da transcrição das respostas dos questionários. Esta decisão foi tomada em virtude da importância das empresas e de suas respostas para o contexto da pesquisa. Conforme citado anteriormente no capítulo dos procedimentos metodológicos, no tópico específico que trata sobre os procedimentos adotados para a análise de dados e o delineamento da pesquisa, como proposta para a realização deste estudo foram idealizadas 4 (quatro) categorias de análise: perfil do profissional, perfil ambiental da indústria química, profissional e meio ambiente; e indústria química e meio ambiente. Estas categorias serão utilizadas como forma de organização para a apresentação dos resultados da pesquisa.

4.1. Perfil do Profissional As entrevistas com os profissionais da indústria química revelaram a existência de uma diversidade de perfis profissionais em termos de cargos, faixa etária e tempo de experiência profissional e de atuação na indústria química. Dentre os 10 (dez) entrevistados, 8 (oito) ou 80% são do sexo masculino e 2 (duas) do sexo feminino. Deste total, 7 (sete) ou 70% se declararam proprietários da empresa, 1 (uma) ou 10% técnica ambiental, 1 (um) ou 10% encarregado de produção e 1 (um) ou 10% gerente de produção. Com relação à faixa etária, 4 (quatro) ou 40% dos entrevistados declarou ter entre 41 e 50 anos, 3 (três) ou 30% ter acima de 60 anos, 1 (uma) ou 10% ter entre 51 e 60 anos, 1 (um) ou 10% ter entre 31 e 40 anos e 1 (um) ou 10% ter entre 20 e 30


243

anos. Desta forma percebe-se que boa parte da amostra, composta por 8 (oito) entrevistados é constituída por profissionais acima de 41 (quarenta e um) anos, dado que revela a constituição de um grupo que possui maior tempo de experiência profissional e de experiência na indústria química, conforme indicado no quadro 41:

Quadro 41 – Perfil Profissional dos Entrevistados Indústria Química

Entrevistado

Cargo

Gênero

Faixa Etária

Formação (Ano de Conclusão)

Tempo de Experiência Profissional

Tempo de Experiência na Indústria Química

22 anos

10 anos

Indústria 1

Entrevistada 1

Técnica Ambiental

Feminino

Entre 41 e 50 anos

Engenharia Agronômica (1985) Especialização em Gerenciamento Ambiental (2004)

Indústria 2

Entrevistado 2

Proprietário

Masculino

Entre 31 e 40 anos

Analista de Sistemas (Incompleto)

25 anos

15 anos

Indústria 3

Entrevistado 3

Encarregado de Produção

Masculino

Entre 20 e 30 anos

Farmácia (2006)

14 anos

10 anos

Indústria 3

Entrevistado 4

Proprietário

Masculino

Acima de 60 anos

1º. Grau

47 anos

22 anos

Indústria 4

Entrevistado 5

Proprietário

Masculino

Acima de 60 anos

1º. Grau

48 anos

43 anos

Indústria 5

Entrevistado 6

Proprietário

Masculino

Acima de 60 anos

1º. Grau

60 anos

55 anos

Indústria 6

Entrevistado 7

Proprietário

Masculino

Entre 41 e 50 anos

2º. Grau (Incompleto)

15 anos

Não Informado

25 anos

25 anos

Indústria 7

Entrevistado 8

Gerente de Produção

Masculino

Entre 41 e 50 anos

Técnico em Contábeis (1982) Técnico em Química (1988) Administração (2000)

Indústria 8

Entrevistado 9

Proprietário

Masculino

Entre 41 e 50 anos

Engenheiro Civil (1984)

28 anos

5 anos

Indústria 9

Entrevistada 10

Proprietária

Feminino

Entre 51 e 60 anos

2º. Grau

31 anos

31 anos

Fonte: O Autor (2008)


244

As entrevistas com os profissionais também revelaram uma diversidade em termos de formação educacional e apontaram que apenas 2 (dois) profissionais ou 20% possuem formação relacionada com a área química e que apenas 1 (uma) profissional ou 10% possui formação na área ambiental.

4.2. Perfil Ambiental da Indústria Química

As 9 (nove) indústrias que participaram desta pesquisa estão distribuídas em 3 (três) regiões distintas do município, o que revela a inexistência de um zoneamento industrial que concentre as indústrias químicas instaladas no município. Destas indústrias, 4 (quatro) estão localizadas em áreas industriais e 5 (cinco) em áreas urbanas. Dentre estas indústrias, 2 (duas) possuem instalações visivelmente precárias em função das condições físicas de suas instalações e 2 (duas) desenvolvem suas atividades em instalações que carecem de adequações e melhorias em termos de infraestrutura. As indústrias pesquisadas desenvolvem as atividades apresentadas no quadro 42:

Quadro 42 – Atividades Desenvolvidas pelas Indústrias Químicas Indústrias Químicas Indústria 1 Indústria 2 Indústria 3 Indústria 4 Indústria 5 Indústria 6 Indústria 7 Indústria 8 Indústria 9

Descrição das Atividades Cosméticos e Alimentos Nutricionais Tintas e Vernizes Produtos Fitoterápicos Água Sanitária Água Sanitária Resinas Uréicas Graxas e Óleos Fertilizantes Fertilizantes

CNAE 21.21.1.03 Não Informado Não Informado Não Informado Não Informado Não Informado Não Informado Não Informado Não Informado

Localização Área Urbana Área Industrial Área Urbana Área Urbana Área Urbana Área Industrial Área Urbana Área Industrial Área Industrial

Fonte: O Autor (2008)

Dentre as indústrias químicas entrevistadas, apenas a Indústria 1 conhecia o seu respectivo código da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). As demais empresas desconheciam a existência do Cadastro Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) ou do seu respectivo código, dado que revela a ausência de


245

conhecimento dos entrevistados com relação a este aspecto burocrático que rege a classificação das atividades da indústria de transformação no país. Por este motivo, diferentemente da proposta original do estudo que previa classificar as atividades desenvolvidas pelas indústrias químicas entrevistadas por meio da utilização do Cadastro Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), foram adotadas as descrições das atividades fornecidas pelas próprias empresas. Quanto ao porte, 6 (seis) indústrias ou 66,67% declararam que eram micro empresas (até 19 empregados), 1 (uma) ou 11,11% declarou que era uma pequena empresa (de 20 a 99 empregados) e 2 (duas) indústrias declararam que eram de porte médio (de 100 a 499 empregados). Todas as unidades visitadas correspondem a matriz da empresa, sendo que destas, 5 (cinco) indústrias ou 55,56% iniciaram as suas atividades dentro do próprio município, conforme indicado no quadro 43: Quadro 43 – Tempo de Existência da Indústria X Tempo de Atuação no Município Indústrias Químicas Indústria 1 Indústria 2 Indústria 3 Indústria 4 Indústria 5 Indústria 6 Indústria 7 Indústria 8 Indústria 9

Tempo de Existência (Anos)

Tempo de Atuação no Município (Anos)

22 15 20 30 16 4 31 5 31

16 11 12 30 7 4 31 5 31

Fonte: O Autor (2008)

No quadro 44 é possível perceber que a maioria das indústrias químicas pesquisadas possui um longo tempo de atuação no município, números justificados pelo fato de que as empresas são nacionais e na maioria dos casos de origem local. Com relação à declaração formal de missão e valores, Sistema de Gestão Ambiental (SGA) e certificações na área ambiental, as indústrias apresentaram as seguintes respostas:


246

Quadro 44 – Declaração de Missão e Valores, SGA e Certificações Ambientais Indústrias Químicas

Missão e Valores

Indústria 1 Indústria 2 Indústria 3 Indústria 4 Indústria 5 Indústria 6 Indústria 7 Indústria 8 Indústria 9

Sim Não Não Não Não Não Não Não Não

Sistema de Gestão Ambiental (SGA) Sim Não Não Não Não Não Não Não Não

Certificações Ambientais Não Não Não Não Não Não Não Não Não

Fonte: O Autor (2008) A pesquisa revelou que 8 (oito) indústrias ou 88,89% não possui declaração de missão e valores, sistema de gestão ambiental e certificações ambientais. A única exceção é a Indústria 1, que possui uma declaração formal de missão e valores que contempla a questão ambiental e um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) que conta com um profissional dedicado para o gerenciamento das atividades relacionadas às questões ambientais. Apesar da empresa não possuir certificações ambientais, a exemplo da ISO 14000, a empresa conta com a certificação ISO9001/2000. No caso da Indústria 7 a empresa informou que iniciou os procedimentos para a implantação da certficação ISO 9000, mas que os mesmos foram interrompidos em função da abertura de uma nova filial. Durante os preparativos para a implantação da ISO 9000, a empresa somente conseguiu implantar um Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ), o qual também se encontra paralisado em função da prioridade de implantação da nova filial. Quando questionado se algum cliente já havia exigido alguma certificação na área ambiental, o Entrevistado 8 informou: “Ainda não, são poucas as empresas que colocam isso como uma pré-condição, porque o Brasil é um país continental onde você tem diversos tamanhos e diferentes necessidades. Num futuro próximo, daqui uns 5 ou 6 anos, eu não vejo antes disso, você vai ter um universo maior de empresas exigindo isso: certificação ISO 9000 para ter rastreabilidade e ISO 14000 e 18000, seria segurança, meio ambiente, até a parte de saúde ocupacional e terceiro setor. Quando uma empresa exige alguma coisa na qual nós não nos enquadramos, nós colocamos a solicitação no nosso cronograma, se ela puder esperar nós fazemos negócio, se não atende nós não mudamos o nosso foco em função da exigência daquela empresa” (Entrevistado 8).

Alguns entrevistados, em especial das indústrias de menor porte demonstraram desconhecimento sobre missão e valores, sistema de gestão ambiental e certificações


247

ambientais. No caso específico das certificações, a maior parte deste grupo de entrevistados confundiu o questionamento realizado com as licenças ambientais exigidas para a operação da empresa, fato que revela um certo distanciamento das certificações ambientais da realidade destas indústrias. Quanto a matriz energética, a maior parte das indústrias declarou que se utiliza, em maior proporção para o seu processo produtivo, da eletricidade fornecida pela Companhia Paranaense de Energia Elétrica (COPEL). Algumas empresas declaram fontes energéticas complementares, conforme demonstrado no quadro 45:

Quadro 45 – Indústrias Químicas X Matriz Energética Indústrias Químicas Indústria 1

Matriz Energética Energia Elétrica (100%)

Observação

Indústria 2

Energia Elétrica (95%) Óleo Combustível (5%)

O óleo combustível é utilizado para o funcionamento de uma caldeira

Indústria 3

Energia Elétrica (100%)

Indústria 4

Energia Elétrica (100%)

Indústria 5

Energia Elétrica (100%)

Indústria 6

Energia Elétrica (95%) Lenha (5%)

Indústria 7

Energia Elétrica Lenha

O entrevistado não soube informar os percentuais

Indústria 8

Energia Elétrica Pó de Serra Óleo Combustível

O pó de serra é utilizado para o funcionamento de uma caldeira, o óleo combustível para o funcionamento de um trator e a energia elétrica é utilizado para o funcionamento das máquinas do processo produtivo. O entrevistado não soube informar os percentuais

Indústria 9

Energia Elétrica (90%) Lenha (10%)

Fonte: O Autor (2008)

Com relação aos gastos ou investimentos realizados na área ambiental nos últimos 3 (três) anos, as indústrias informaram:


248

Quadro 46 – Gastos/Investimentos Realizados na Área Ambiental (Últimos 3 Anos) Indústrias Químicas

Percentuais de Gastos ou Investimentos

Indústria 1

2005 (0,019%) 2006 (0,008%) 2007 (0,102%)

• •

Tratamento de Efluentes Separação de Resíduos e Disposição Adequada

Indústria 2

2005 (1%) 2006 (1%) 2007 (1%)

Contratação de empresa para co-processamento de resíduos

Indústria 3

2005 (5%) 2006 (5%) 2007 (5%)

• • •

Estação de Tratamento de Efluentes Despesas com Laboratório (Análises de Efluentes) Consultoria na Área Ambiental

Indústria 4

2005 (0%) 2006 (0%) 2007 (0%)

Não realizou gastos ou investimentos

Indústria 5

2005 (0%) 2006 (0%) 2007 (0%)

Não realizou gastos ou investimentos

Indústria 6

2005 (3%) 2006 (2%) 2007 (2%)

• • •

Recuperação de Água (Re-uso na Produção) Sistema de Decantação dos Resíduos (Re-uso na Produção) Captação de Água para Sistema de Resfriamentos

O entrevistado mencionou que os gastos ou investimentos com a área ambiental não possuíam um centro de custo e que por este motivo, ele não saberia informar os percentuais. Os únicos gastos ou investimentos realizados nos últimos três anos foram a elaboração de um plano de contingência e de um plano emergência para situações de acidente que possam ocorrer na planta.

Descrição dos Gastos/Investimentos

Indústria 7

Não soube informar

Indústria 8

2005 (3%) 2006 (3%) 2007 (3%)

• • • • •

Reflorestamento no Entorno da Empresa (Contenção de Pó) Lavadora de Gases Sistema de Sucção da Fábrica Enclausuramento dos Barracões Tanque de Decantação

Indústria 9

2005 (0,5%) 2006 (0,5%) 2007 (0,5%)

• • •

Lavadora de Gases Filtros de Manga Lonas (Tipo Cortina)

Fonte: O Autor (2008)

Com exceção da Indústria 1, que apresentou percentuais precisos baseados em controles internos, as demais empresas apresentaram percentuais estimados de gastos ou investimentos realizados, o que demonstra evidências da ausência de controles específicos para o gerenciamento dos recursos aplicados na área ambiental, apesar das realizações efetuadas na área. Este dado confirma a observação efetuada por


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Demajorovic e Soares (2006) quando mencionam que a ausência de controles sistematizados em empresas de pequeno e médio porte impede que estas disponibilizem dados para pesquisas realizadas na área. Percebe-se no quadro 46 que a maioria das empresas realizou investimentos na área ambiental, com exceção da Indústria 4 e da Indústria 5, as quais mencionaram durante as entrevistas que enfrentaram nos últimos anos dificuldades financeiras em função de um contínuo decréscimo de produção, fato que contribuiu em parte para que os proprietários não realizassem novos investimentos em suas respectivas fábricas. Conforme relatado pelos entrevistados, boa parte dos gastos ou investimentos foram realizados em atendimento a exigências legais e a freqüente atuação do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) no município. Cabe ainda ressaltar que, no caso da Indústria 3, os percentuais investidos são mais altos que os apresentados pelas demais empresas, em função da redução do faturamento observada nos últimos 3 (três) anos, o que fez com que os valores investidos passassem a representar um percentual maior em relação à receita bruta. Com relação aos cursos realizados na área ambiental nos últimos 3 (três) anos, apenas a Indústria 1 e a Indústria 6 informaram ter realizado algum tipo de curso. A Indústria 1 informou que realizou os cursos de resíduos sólidos urbanos e da indústria e de gerenciamento de resíduos de laboratório (físico e químico), enquanto que a Indústria 6 informou que realizou o curso de prevenção, segurança e meio ambiente. Desta forma, 7 (sete) indústrias ou 77,78% não participaram de nenhum tipo de curso relacionado com a área ambiental, dado que revela que os diversos gastos ou investimentos realizados por estas empresas na área não contemplaram a formação e a atualização dos profissionais. Quando questionados sobre o nível de adequação da legislação aplicada à indústria química, a maior parte dos entrevistados informou que considerava a legislação pertinente e que estavam de acordo com as exigências estabelecidas. Para o Entrevistado 9, a legislação está cada vez mais rigorosa. Quando questionado sobre se achava o rigor bom ou ruim, o Entrevistado 9 informou:


250

“Eu acho que, claro que para a gente tem que gastar mais dinheiro e as coisas ficam mais difíceis, mas é uma tendência que não depende da gente e a gente tem mais é que se adaptar. Não vou dizer que eu gosto né, é uma coisa que não depende da gente e a gente sabe que é um processo que cada vez será mais exigido” (Entrevistado 9).

A Entrevistada 10 mencionou: “Eu acho que eles estão certos, tem que fazer alguma coisa porque senão daqui a alguns anos ...[hesitação]. Eu acho que tem que exigir mesmo” (Entrevistada 10).

Quando questionada se as exigências impactavam muito no desenvolvimento das atividades de sua empresa, a Entrevistada 10 afirmou: “Não, eu acho que tem que ter mesmo. Eles procuram orientar, dão um parecer, se não estiver certo eles dão um prazo para você regularizar aquilo” (Entrevistada 10).

O Entrevistado 8 fez algumas considerações importantes sobre nível de adequação da legislação, apresentando algumas evidências sobre a fragilidade da estrutura e dos processos de controle exercidos pelos órgãos de fiscalização. Na sua opinião: “O nível de adequação da legislação está correto. Como eu sou químico vou falar da área técnica não como representante da área gerencial da empresa. Correto está, só que eu penso que a forma como é cobrado das empresas é que não é apropriada. Os órgãos ambientais, seja a prefeitura ou o próprio IAP, o pessoal dos dois órgãos ambientais eles não conhecem como deveriam os ramos aos quais eles vão fiscalizar, e muitas vezes você tem uma legislação e depende da resposta que eles recebem do profissional, eles tomam aquilo como grade fidedigna, e nem sempre isso é verdadeiro. Eu falo isso, como eu tenho conhecimento técnico, eu te digo isso com o máximo de propriedade: com certeza há uma legislação, ela poderia ser melhor aplicada, se tivéssemos um pessoal que conhecesse mais da sua região, ou seja, das várias empresas que atuam na região, e se for uma empresa do setor químico, quais produtos fabrica. Nós temos aqui 15 a 20 matérias-primas, algumas são poluidoras em potencial e outras nem tanto. Só que eu teria de olhar as especificações do produto, e nem sempre o que é colocado ali é levado a risca. Existem alguns riscos deste produto em termos de transporte, de manipulação, de armazenagem, etc, que se eles tivessem mais conhecimento (a fiscalização) com certeza, talvez tivessem algumas outras exigências pertinente a parte preventiva. O corretivo, já aconteceu o evento, não tem o que fazer. Então aí eu diria o seguinte: nós teríamos um outro aparato técnico relativo à prevenção e até a efetiva cobrança. Apesar da empresa já ter 31 anos, nós temos um plano de emergência que tem 9 anos, ou seja, ficamos praticamente 21 anos sem plano de emergência. Não havia exigência porque as leis ambientais eram outras. As necessidades cresceram e o staff de profissionais do IAP não foi incrementado. O que mais eu acho que complica não é a questão da quantidade de pessoal, é o fato de que eles não se atualizam em relação aos ramos de atividade. Eu trabalho no mercado há 25 anos, eu tenho que fazer cursos para me manter no mercado. Se o meu ramo me exige isso, o ramo deles também. O Estado não tem esta condição, e eu vejo que o Estado fiscaliza e multa, mas se a multa não é bem fundamentada, a empresa derruba a multa, isto é líquido e certo. Para você fundamentar uma multa você tem que ter muito conhecimento técnico, não é da legislação,


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isso eles tem, é do ramo de atividade da empresa autuada. Eu diria que falta talvez uma atualização ou uma reciclagem profissional. Estou no mercado há 30 anos, quando eu fiz engenharia química, a química era de um jeito, hoje já não é mais assim, já mudou muita coisa. A química é dinâmica e por ser dinâmica quem trabalha com a química precisa ser dinâmico, senão não acompanha a tecnologia, não acompanha a evolução. Por isso é que eu digo, a legislação existe, não há profissionais para fazer a fiscalização, então você não têm contingente suficiente, e pior que isto, quando há contingente ou quando fiscaliza, ele não consegue falar com os profissionais do mercado com propriedade. Você dá uma resposta para ele, e ela é uma resposta às vezes politicamente correta, mas ele não pode contestar porque falta argumentação, não tem contra-argumentação, ou seja, eu mostro os meus conhecimentos técnicos e aí isso causa uma certa inibição, e a pessoa acaba não pressionando mais. Se eu falar que não polui, não polui” (Entrevistado 8).

Quando questionado se estas questões poderiam ser atribuídas à dinâmica do setor químico, o Entrevistado 8 respondeu: “Eu estou falando para você como um profissional da química não como empresa, eu não concordo com a justificativa da dinâmica da química, porque se eu sou um profissional da empresa e aqui eu respondo pela parte técnica e se eu disser para você que a química é mais rápida do que eu profissional eu estou errado. E se eu sou um órgão fiscalizador/normatizador é pior ainda, ou seja, eu não vou estar concatenado com o mercado, não justifica. E aí é assim, ou o Estado é competente para fiscalizar, e se para fiscalizar ele tem que ter informações do mercado que somos nós para se auto-regulamentar para depois fiscalizar seria o correto. A química é dinâmica, OK, tudo é dinâmico. Eu concordo que esta dinâmica dificulta mas acho que o Estado é pesado em relação a isso e esse peso faz com que ele faça mal feito, então ele faz pró-forma e a empresa faz pró-forma também e é o pró-forma que gera esses acidentes ambientais homéricos que ocorrem não só no Brasil, no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e em qualquer lugar, porque lá também tem isso. Na Europa, como é que eles fazem: novas empresas são rigorosamente fiscalizadas, as mais antigas para se adequar custa muito caro, então eles tem lá uma certa condenscendência e fazem o que, eu vou lhe dar um prazo X por complascência mesmo, e esse prazo ele vai se dilatando. Você faz algumas coisas, faz um dos termos que está colocado lá, e assina um termo de ajuste e tem uma dilação de prazo, isto vai se estendendo. Só que quando você chega na última exigência que estava naquela relação de termos de ajuste, já houveram modificações ou na planta de processos ou na matéria-prima, e aí você não tem esse time acertado e aí que está o problema. Eu concordo com você que a dinâmica dificulta, que é preciso as pessoas e os funcionários que administram os órgãos ambientais estejam em sintonia com o mercado. Quando você faz um pedido de autorização de processo, você tem que fazer o EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental), até nisso é uma coisa que é um pouco complicada, porque muitas vezes você não tem um OK para uma planta funcionar, e o motivo nem sempre é um motivo tecnicamente justificável. Então tem os dois lados, por isso que eu digo que neste caso específico se o Estado, vamos dizer assim, como órgão fiscalizador fizer a sua parte já ajuda muito. Mas eu penso que você não pode pegar alguém da academia, levar para um órgão ambiental e achar que a pessoa vai ser o big boss, o expert” (Entrevistado 8).

Em seu depoimento, o Entrevistado 8 apresenta evidências sobre um certo distanciamento existente entre órgãos fiscalizadores e empresas: “Eu acho que tem que ter uma sintonia fina entre a empresa e o órgão fiscalizador e eu penso que qualquer tipo de legislação que possa ocorrer, deveria ser feita de forma


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conjunta, a empresa não está se negando a participar. É muito comum você ter câmaras técnicas nos órgãos ambientais, só que são câmaras técnicas que tratam de eventos que já aconteceram. Então não há uma aproximação das empresas em relação aos órgãos ambientais. Estes órgãos deveriam auxiliar muito mais a empresas e dar referências sobre o que fazer para não errar, do que esperar para multar. E aí que eu acho que existe uma discrepância, há uma certa fobia da empresa em relação ao órgão ambiental, e quando ele vem para dentro da empresa ele acaba inibindo, então você mostra somente aquilo que ele quer ver. Deveria ser o contrário. Não sei se você acompanhou, teve acho que fazem 2 ou 3 anos atrás aproximadamente, teve uma normativa do IAP que tinha que fazer uma auditoria compulsória. A FIEP (Federação das Indústrias do Paraná) entrou com uma liminar contra o IAP e derrubou isso. As empresas que fizeram, fizeram, só que isto perdeu efetividade. Isso foi uma das coisas mais certas que já ocorreram, porque você ia verificar na sua planta de produção quais eram as suas mazelas. É melhor você gastar para prevenir do que você ter um evento que você gasta 3 ou 4 vezes mais, e pior, se você tiver um evento na sua planta, você vai ter que adequar, então você vai gastar com o evento e gastar com a adequação. Quando você faz a auditoria compulsória, como nós fizemos, você percebe de A a Z quais são os seus problemas e aí você apresenta para o órgão ambiental um cronograma de acordo com o seu time (tempo), seja de orçamento, de condição técnica. Você contrata uma auditoria que vem para a sua fábrica, ela faz uma análise crítica, isenta, porque ela é paga para aquilo, e ela é co-responsável e eu levo aquilo e protocolo no IAP. Quando eu levo o protocolo no IAP eu tenho um cronograma que eu vou dizer para o IAP, eu tenho 10 nãoconformidades, e das 10 eu vou fazer 5 em 2008 e 5 em 2009, desde que eu diga a ele, ao IAP que as 5 não-conformidades que ficaram pendentes não vão gerar riscos eminentes” (Entrevistado 8).

Alguns dos entrevistados reclamaram sobre alguns aspectos relacionados às questões burocráticas, a amplitude da fiscalização, da postura autoritária de alguns fiscais, das limitações do órgão fiscalizador em termos de disponibilizar orientações antes de realizar as cobranças. Com relação às questões burocráticas e a disponibilização para orientações, o Entrevistado 6 menciona: “São muitas exigências. Sem atenção para com a pessoa que está trabalhando. Se você precisa de alguma coisa eles mandam você ver na internet. Vire-se, o problema é seu” (Entrevistado 6).

Quanto à amplitude da fiscalização, o Entrevistado 3 considera que: “Apenas gostaria que a fiscalização e a cobrança fossem as mesmas para empresas e residências. Eu acredito que a maior parte da poluição é doméstica. Apesar da legislação ser moderna, não são realizadas muitas cobranças” (Entrevistado 3).

Quando questionados sobre quais eram, além das questões legais, as principais motivações para a realização de gastos ou investimentos ambientais, os entrevistados informaram:


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Quadro 47 – Motivos para Gastos/Investimentos Ambientais Entrevistado Entrevistada 1 Entrevistado 2

• • • • •

Entrevistados 3e4 •

Entrevistado 5 Entrevistado 6 Entrevistado 7

• • • •

Entrevistado 8

• Entrevistado 9

Entrevistada 10

• •

Motivos Informados Preservação do meio ambiente. Uso seguro e responsável dos recursos naturais. “Preocupação com o meio ambiente e com a imagem da empresa”. Para o Entrevistado 4 “Interesse em isenção de impostos para medidas adotadas para preservação do meio ambiente”. Para o Entrevistado 3, “Melhorar o desempenho da empresa”. Segundo ele “eu tenho responsabilidade: eu sei por exemplo que se peixes começarem a morrer e as autoridades comprovarem a minha responsabilidade, a empresa vai fechar. Eu sei que se eu fabricar um creme e muitas pessoas tiverem problema de pele, a empresa vai fechar. Como o meu compromisso é com a empresa e não com a fiscalização, eu vou lutar para que isso não aconteça. A conseqüência disso é que a empresa terá que estar a altura das exigências das autoridades. Além do desempenho, saber que você está poupando problemas para a empresa” Fortalecer a marca da empresa (apelo ambiental - produtos naturais - respeita o meio ambiente). O Entrevistado 3 acredita que “o cliente vai gostar mais da empresa se a empresa tiver uma imagem limpa. É legal perceber que os clientes estão buscando empresas ecologicamente corretas. Com o tempo todas as empresas terão que se adequar. As empresas que não se adequarem não vão conseguir continuar no ramo. É importante passar esta percepção para os clientes e para as autoridades”. Não realizou gastos ou investimentos na área ambiental. Não realizou gastos ou investimentos na área ambiental. Preservação do meio ambiente em nossa unidade fabril. O Entrevistado 8 informou “Critério ético eu diria. Porque que digo critério ético: porque nós temos profissionais e profissionais. No caso eu gerencio a área de produção e respondo pela área técnica. Se eu estudei química e eu sei que tem a lei de Lavosier que na natureza nada se cria, tudo se transforma, você tem que pensar como homem de produção e se eu tenho parte da produção que eu não consigo aproveitar e que vai gerar um resíduo qualquer, certo, ele tem que ser bem destinado de forma adequada. Aí entra o critério ético, mesmo que não tenha uma legislação. Se eu sei que aquela matéria-prima é potencialmente poluidora e se eu descartar de forma errada no meio ambiente eu vou gerar um problema. Então a primeira coisa é o critério ético, certo, e uma outra questão é o critério de que tudo que não se resolve hoje você vai gerar um passivo ambiental para empresa que é quase incomensurável, porque você não consegue fazer uma análise extrapolando valores dos números de hoje para daqui 5 a 10 anos. Se eu contamino por exemplo um lençol freático, ele não é estático, ele caminha. Então eu vou ter uma contaminação, se ela for levantada a montante ou a jusante, vai perceber que a partir das empresa onde nós estamos, ou seja, eu vou ter uma maior contaminação. Como é que eu posso quantificar o quanto aquilo contaminou para frente. É o tipo de passivo que eu não tenho como mensurar a não ser numa condição generalizada”. Exigências de clientes certificados (um dos clientes estabeleceu um prazo de 5 anos para a empresa adequar-se). Reclamações de vizinhos em relação ao pó e aos odores emitidos pela empresa. A Entrevistada 10 informou “Eu acho que é necessário, por tudo, pela saúde, prevenção, para o futuro”.

Fonte: O Autor (2008)


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Quando questionados sobre, além da questão financeira, quais seriam as principais dificuldades encontradas para a realização de gastos ou investimentos na área ambiental, os entrevistados informaram:

Quadro 48 – Dificuldades Encontradas para Gastos ou Investimentos Ambientais Entrevistado Entrevistada 1 Entrevistado 2

• • •

Entrevistados 3e4

Entrevistado 5 Entrevistado 6

• • •

Entrevistado 7 •

Entrevistado 8

Entrevistado 9 Entrevistada 10

• •

Dificuldades Encontradas “A burocracia existente nos órgãos ambientais”. “Custo para montar a gestão de processamento de resíduos é alto”. “Uma das principais dificuldades é encontrar empresas especializadas (prestadores de serviços e treinamento)”. Outra dificuldade apontada foi em relação à mão-de-obra e sua manutenção “A empresa demorou para encontrar um profissional capacitado na área química, que permitisse estabelecer a atual preocupação que a empresa tem com o meio ambiente. Muitos profissionais se preocupavam apenas com coisas supérfluas”. Não investiu na área ambiental. Não Investiu na área ambiental. “Muitas informações só são encontradas quando de uma fiscalização ficamos sabendo do que é preciso ser realizado dentro da indústria. Faltam mais informativos referentes a aplicações especificas para cada segmento de mercado químico”. “Desculpe, a questão financeira não é o problema, talvez a questão seja você priorizar. Nós, tudo que tem que ser feito na área ambiental é feito. O que importa é o seguinte: o órgão fiscalizador quando vier aqui tem que ter propriedade de dizer o que precisa ser feito. Se ele disser que tem que fazer 10, fazemos 10, se ele disser para fazer 100, fazemos 100. Eu não diria que a questão financeira seja uma questão que hoje impacta. Pelo nosso nível de faturamento e pelo pouco capital ou pelo pouco investimento necessário na área ambiental, tudo que tiver que ser feito seria feito com certeza. Não é a questão financeira que pega para a gente não fazer não. Aí é mais por que nós como empresa, aí eu vou falar como empresa e não como profissional da área técnica, priorizamos outras questões que é fazer o dia-a-dia em termos de produção e aí isso não fica no primeiro plano. Nós não temos um setor específico que só pense meio ambiente”. “Encontrar profissionais qualificados”. “Eu acho que só financeira mesmo, eu acho que não tem outras dificuldades. No nosso segmento existem profissionais que fornecem serviços especializados”.

Fonte: O Autor (2008)

Com relação aos históricos de acidentes ambientais ocorridos na empresa, 6 (seis) indústrias ou 66,67% informaram que não possuíam nenhum registro de ocorrências. Este dado não pode ser confirmado em função da não disponibilização de informações detalhadas pelo IAP sobre acidentes e autuações envolvendo indústrias químicas no município. Apenas 3 (três) indústrias ou 33,33% informaram registros de


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acidentes ambientais: as Indústrias 1, 3 e 7. No caso da Indústria 1, a Entrevistada 1 informou que: “Sim, de mínimo impacto, no ano passado, quando precisávamos descartar efluente da estação de tratamento de efluentes. Por questão técnica operacional, foi parte com lodo biológico, que ocasionou sobrecarga nas lagoas de tratamento” (Entrevistada 1).

No caso da Indústria 3, o Entrevistado 3 informou que: “Depois que a gente começou a cuidar da água e fazer exames de laboratório, foram identificados problemas de contaminação na tubulação interna, que exigiu uma manutenção de limpeza. Foi uma contaminação de extratos vegetais em nível microbiano (matériasprimas utilizadas pela indústria). Desde o início da instalação da estação de efluentes, há dois anos e meio, já foram feitas aproximadamente 440 amostras da indústria, sendo que apenas 1 vez a gente falhou. Foi uma ocorrência importante, o IAP quis autuar" (Entrevistado 3).

Já na Indústria 7, o Entrevistado 8 informou que ocorreram dois eventos: “Um que foi eu diria o mais expressivo, que deve fazer entre 7 a 8 anos, e um outro que foi interno, interno os dois foram, só que um extrapolou os limites da empresa, e o segundo não, foi contido internamente. Graças a nós termos o histórico do primeiro e a escola do primeiro fez com que nós fossemos mais eficientes no segundo e logicamente contivemos ele na área de produção” (Entrevistado 8).

O Entrevistado 8 mencionou que os acidentes estavam relacionados a derramamento de óleo de um tanque de armazenagem. Segundo ele: “Um dos acidentes foi externo por que o óleo vazou para a área externa da empresa. Nós fizemos uma análise da extensão, do local onde ocorreu o vazamento na parte interna e externa para fazer uma bioremediação, a aí não teve maiores problemas não” (Entrevistado 8).

Quando questionados sobre a geração de resíduos, 5 (cinco) indústrias ou 55,56% informaram que não geram resíduos. Dentre estas empresas, a Indústria 4 e a Indústria 5 informaram que não geram nenhum tipo de resíduo industrial, em função das características de produção da água sanitária, a qual permite o total aproveitamento das matérias-primas sem a necessidade de geração de resíduos. As 3 (três) outras indústrias que informaram não gerar resíduos (Indústrias 6, 8 e 9) mencionaram que o seu processo industrial ocorre dentro de um circuito fechado, onde eventuais resíduos são incorporados novamente na linha de produção.


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As 4 (quatro) empresas que informaram gerar resíduos industriais declararam as seguintes descrições e destinos para os resíduos:

Quadro 49 – Indústria Química X Descrição dos Resíduos X Destino Indústria Química

Descrição do Resíduo

Destino

Indústria 1

Resíduos Líquidos Resíduos Sólidos

Indústria 2

Borra de Tinta

Estação de tratamento de efluentes Separação e disposição adequada Empresa especializada em tratar os resíduos industriais para serem incinerados no forno de cimenteiras Estação de tratamento de efluentes Catadores de papel e usinas de reciclagem Adubo orgânico para hotel fazenda pertencente ao proprietário da empresa Empresa de reciclagem de óleo Empresa especializada em tratar os resíduos industriais para serem incinerados no forno de cimenteiras e empresas de reciclagem

Indústria 3

Resíduos Líquidos Resíduos Sólidos Resíduos de Fabricação de Extratos Vegetais Resíduos Líquidos

Indústria 7

Resíduos Sólidos

Fonte: O Autor (2008)

Com relação aos resíduos, o Entrevistado 3 faz uma declaração que revela a presença da ação racional instrumental descrita por Serva (1996) nos negócios corporativos em relação às questões ambientais e a geração de resíduos: "A questão ambiental era secundária, somente depois que se atingiu a qualidade dos produtos é que a gente começou a se preocupar com o resíduo" (Entrevistado 3).

Com relação à existência de controles de emissão de poluição, 5 (cinco) indústrias ou 55,56% informaram que não possuem controles pelo fato de não realizarem emissões gasosas na atmosfera. As 4 (quatro) empresas ou 44,44% que informaram

possuir

controles,

mencionaram

que

seguem

as

determinações

estabelecidas pela legislação com relação a contratação de uma empresa especializada para a elaboração de relatórios de emissões, os quais são periodicamente disponibilizados aos órgãos ambientais. No caso da Indústria 7, o Entrevistado 8 detalhou como funcionam os procedimentos para controle de emissão de gases e de monitoramento do lençol freático: “Nós fornecemos periodicamente ao IAP alguns documentos para que nós tenhamos a nossa licença de operação mantida. Ou seja, das caldeiras nós temos que semestralmente


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fornecer os mapas de emissões. Nós temos um contrato com uma empresa que faz o levantamento e o laudo para envio ao IAP (caldeiras). Nós temos pontos de monitoramento na parte interna, que eu diria que foram feitos a mais ou menos nove anos, que é para verificar até que ponto nós estamos mantendo o lençol freático tal como era antes de nós nos instalarmos aqui. A cada três meses é feita a drenagem dos poços, fazem a coleta dos poços, fazem a análise da água, preenchem o documento que é enviado ao IAP para protocolo. Temos duas empresas terceirizadas que fazem estes controles” (Entrevistado 8).

Na questão relacionada à existência de registro de reclamações da comunidade em relação às suas operações, apenas 3 (três) indústrias informaram possuir registros de reclamação. No caso da Indústria 3, o Entrevistado 3 informou que se tratava de apenas uma ocorrência: “Sim, apenas uma vez quando a estação de tratamento de efluentes foi instalada. Foi apenas uma reclamação verbal do supermercado vizinho em relação ao cheiro exalado, situação que em uma semana foi resolvida” (Entrevistado 3).

No caso da Indústria 8, o Entrevistado 9 também informou um único registro: “Somente reclamação verbal. Os vizinhos reclamavam do pó. Por este motivo investimos recursos em melhorias, a exemplo do reflorestamento do entorno da fábrica” (Entrevistado 9).

No caso da Empresa 7, segundo o Entrevistado 8, a situação foi um pouco mais séria, uma vez que o fato ocorrido quase determinou a mudança de endereço da empresa, conforme explica o Entrevistado 8 “Como a fábrica já está aqui há mais de 20 anos, nós tínhamos uma série de problemas. O nosso produto era feito, na parte de graxas, era feito em tacho aberto, inicialmente. Então toda a parte de voláteis do processo ficava no ambiente interno do prédio e uma parte saia. Então nós temos um cheiro específico do nosso processo produtivo e aí ao longo do período, houveram uma série de reclamações, fizeram até um abaixo-assinado junto ao IAP e ele veio aqui, e aí de uma forma muito companheira porque eles nos ajudaram nisso, foram nos dando algumas orientações em relação ao nosso problema. Em cima desta situação de reclamações nós fomos para o mercado, vimos alguns equipamentos para o nosso processo, saímos de tanque aberto para tanque fechado, depois colocamos lavador de gases, depois condensador, aí junto com a equipe técnica fizemos algumas alterações de processo (temperatura de cozimento, tipos de voláteis, mudança de matérias-primas). Logicamente hoje, não temos nenhuma reclamação e temos o Ok do IAP, ou seja, não há problemas com a comunidade. Já tivemos sim, como eu falei, já chegou até a ter abaixoassinado para que nós saíssemos daqui em função disso, mas isso já está totalmente sanado” (Entrevistado 8).

Da mesma forma que as pressões exercidas pela sociedade organizada foram fundamentais para que o governo e o setor químico assumissem uma nova atitude em


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relação ao tratamento dispensado para as questões ambientais, a exemplo de novas legislações e da criação do Programa Atuação Responsável, nos casos relatados pelas 3 (três) indústrias percebe-se que as reclamações dos vizinhos foram essenciais para que os problemas fossem solucionados. Foi a partir destas reclamações que as 3 (três) empresas buscaram adotar medidas para resolver os problemas apontados, de modo a garantir a continuidade de suas operações. Para confirmar a existência de riscos inerentes às atividades de fabricação e de manipulação de produtos químicos, e para confirmar a afirmação de Beck (2006), de que a condição da iminência do risco se torna institucionalizada a partir do momento que a sociedade passa a desenvolver atividades que deixaram de ser cobertas por seguros, os profissionais entrevistados foram questionados se suas respectivas indústrias químicas possuíam algum tipo de seguro para acidentes ambientais. Em suas respostas, alguns dos entrevistados confirmam a situação de iminência do risco retratada por Beck (2006) ao revelarem que não possuem seguro. O Entrevistado 2 informa que: “A dificuldade para a obtenção de seguro é muito grande para a própria empresa, todos os anos são realizadas tentativas porém o seguro nunca é obtido, devido ao nível de exigências das seguradoras. As seguradoras não fazem este tipo de seguro e quando fazem algum tipo de orçamento de apólice, os custos são altos: exige troca das portas de madeira, fiação elétrica, sistemas de comandos eletrônicos e motores a prova de explosão. A empresa já investiu mais de R$ 50.000,00 em melhorias, mas mesmo assim ainda não conseguiu atender os requisitos das seguradoras. O último investimento realizado para atendimento de uma das exigências das seguradoras envolveu a transferência da armazenagem dos produtos da parte interna para a parte externa e mesmo assim o seguro não pode ser realizado” (Entrevistado 2).

O Entrevistado 3 informou que a sua empresa não possui em função do seguro ser muito caro e das exigências das seguradoras. O mesmo ocorre com o Entrevistado 5, quando menciona: “Não possuo seguro, as companhias seguradoras impõem muitas exigências. A minha empresa atende apenas as exigências do bombeiro e da medicina do trabalho” (Entrevistado 5).

O Entrevistado 6 menciona que a sua empresa não possui seguro em função da falta de recursos para a sua contratação, enquanto que a Entrevistada 1, informa que a opção pela não contratação de seguros se deve ao fato de que considera que a


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atividade desempenhada pela empresa não gera riscos significativos de acidentes ambientais. No caso das Indústrias 6, 7, 8 e 9, os entrevistados mencionaram que possuíam seguro de suas instalações, porém ficaram em dúvida sobre a cobertura e até mesmo a existência de seguros para acidentes ambientais. Segundo o Entrevistado 8: “No ramo seguro, patrimonial, predial, não sei como se chama, há sim uma cláusula específica quanto a isso. Eu não sei dizer qual é o teor desta cláusula porque eu não conheço estes detalhes” (Entrevistado 8).

Já o Entrevistado 9 foi categórico em afirmar que não, uma vez que as empresas de seguro nunca haviam ofertado para sua empresa uma proposta de seguro nesta área. O mesmo ocorre com a Entrevistada 10 quando afirma que: “Até hoje as seguradoras nunca ofereceram este tipo de produto. Eu nunca vi, a gente faz seguro aqui para o escritório, caminhão, carro e patrimonial e as seguradoras nunca mencionaram” (Entrevistada 10).

Como forma de avaliar qual é o nível de planejamento das indústrias químicas em relação às questões ambientais futuras, a última questão desta categoria buscou identificar se haviam nestas empresas ações previstas na área ambiental para o horizonte de 2015. As respostas obtidas para estes questionamentos foram as seguintes:

Quadro 50 – Ações Previstas na Área Ambiental para o Horizonte de 2015 Indústrias Químicas • Indústria 1

Indústria 2

Indústria 3

Indústria 4 Indústria 5

• • • • • • • • • • •

Ações Previstas Separação e correta destinação do material de laboratório (incineração, reciclagem, compostagem). Manutenção das ações já realizadas. Melhorar a estrutura interna da empresa. Contratar uma empresa especializada para atendimento de situações de emergência (na atualidade a única alternativa é o bombeiro). Implantação de um sistema de prevenção de incêndio. Promover ações para separação de lixo reciclável. Obtenção de certificações. Realizar novos investimentos em segurança do trabalho. Realizar adaptações no processo produtivo para o re-uso da água Instalações próprias (adequadas). Não há projetos previstos. Não há projetos previstos. Continua (...)


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Indústria 6

Indústria 7

Indústria 8 Indústria 9

• • • • • • • •

Promover ações para a conservação do verde. Investir em melhorias. Readequação e treinamento do quadro profissional em função da criação da nova filial no Rio de Janeiro. Criação de um novo plano de emergência. Criação de um novo plano de contingenciamento . Criação de uma nova brigada de incêndio. Melhorar o sistema de lavagem de gases em relação a sua eficiência. Não há projetos previstos.

Fonte: O Autor (2008) Como mencionado anteriormente, o principal objetivo da categoria de análise “Perfil Ambiental da Indústria Química” foi o de possibilitar uma aproximação entre o pesquisador, sujeitos e objetos de pesquisa, uma vez que o pesquisador não atua no setor químico e não possui vínculos de relacionamento com os entrevistados que participaram desta pesquisa. Com base na realização desta primeira etapa da pesquisa foi possível estabelecer uma aproximação entre pesquisador e entrevistados, com a intenção de que as categorias de análise “Profissional e Meio Ambiente” e “Indústria Química e Meio Ambiente” pudessem ser melhor exploradas. 4.3. Profissional e Meio Ambiente Esta categoria de análise foi criada com a intenção de possibilitar que os profissionais envolvidos na pesquisa, como indivíduos, revelassem quais eram as suas percepções sobre meio ambiente antes de realizar suas considerações sobre a relação de suas respectivas indústrias químicas e o meio ambiente. Por entender a importância do indivíduo no contexto das organizações, uma vez que é dele que partem as decisões que podem, de acordo com Beck (2006), dar origem aos riscos, esta categoria se demonstrou fundamental para a exploração do tema de estudo proposto. Com relação aos questionamentos efetuados para esta categoria, o Entrevistado 7, que optou pelo preenchimento do questionário ao invés da realização da entrevista, foi o único dentre os entrevistados a não fornecer respostas. Quando do estabelecimento de um novo contato do pesquisador para a obtenção das respostas ausentes no questionário, o Entrevistado 7 alegou que não havia respondido as questões por opção própria, por receio da divulgação de suas opiniões em função de


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representar a indústria química. Mesmo diante da reafirmação do compromisso de confidencialidade assumido pelo pesquisador com relação à não disponibilização de dados que possibilitassem a identificação do município, das indústrias químicas e dos entrevistados participantes da pesquisa, o Entrevistado 7 manteve a sua opção de não responder aos questionamentos desta categoria. Para esta categoria foram criadas 5 (cinco) questões, as quais serão utilizadas como estrutura de tópicos para a apresentação dos resultados obtidos. a) Para você, o que é meio ambiente? Com relação ao significado de meio ambiente, os profissionais entrevistados realizaram declarações que possibilitam uma melhor compreensão sobre como o meio ambiente é por eles percebido. Em sua maior parte, as respostas foram fornecidas logo após momentos de hesitação e em muitos casos, de forma objetiva ou cercadas de insegurança, fatos que podem indicar evidências do distanciamento ocorrido entre ser humano e meio ambiente. Em alguns casos, as respostas revelam um total distanciamento ou desconhecimento dos entrevistados sobre o que venha a ser meio ambiente.

Quadro 51 – Significados dos Entrevistados para Meio Ambiente Entrevistados Entrevistada 1 Entrevistado 2

Entrevistado 3

Entrevistado 4

Significado para Meio Ambiente “É tudo que pode afetar a vida, não distinguindo o homem dos demais seres vivos” “Onde nós vivemos. Onde tudo ocorre. Devemos ter preocupação com o meio ambiente. Cuidar com o futuro dos herdeiros” “É onde a gente mora, é onde a gente trabalha”. Em seu depoimento, o Entrevistado 3 falou muito sobre religião, tentando estabelecer uma comparação, mencionando que o meio ambiente e a religião estão em todos os lugares. Para o Entrevistado 3 “A TV cria um imaginário que faz com que as pessoas pensem que o meio ambiente é algo que não faz parte da vida delas”. “Todo mundo entende meio ambiente somente como plantar árvores, preservação da água. Eu entendo o meio ambiente, primeiro passo é educação, é educação da comunidade por que ela faz parte do meio ambiente. Primeiro educação e conscientização. O meio ambiente para mim faz parte do ambiente das empresas, da comunidade onde as pessoas trabalham, é o relacionamento funcional dos funcionários e familiares. O entendimento sobre o meio ambiente começa na educação básica, que pode ser feita dentro de casa ou no trabalho. Depende do relacionamento das pessoas e da evolução do homem dentro do meio, ele também faz parte do meio ambiente”. Continua (...)


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Entrevistado 5

Entrevistado 6

Entrevistado 8

Entrevistado 9

Entrevistada 10

O Entrevistado 5 não conseguiu definir o que é para ele meio ambiente. Falou em aquecimento global, em usar a TV para orientar e educar a população, padronizar os carrinhos dos catadores e da falta de iniciativas para educação da população. “A preservação do nosso planeta. Tem tantas coisas para falar: a primeira coisa é a educação do indivíduo. Vou lhe contar de que maneira eu fui criado: quando eu era criança meu pai me deu uma bala, eu descasquei uma bala, coloquei ela na boca e joguei o papel no chão. Meu pai falou para mim: meu filho, não se joga papel no chão, papel não se pode jogar no chão. Eu ri para o meu pai e meu pai segurou na minha orelha até eu juntar. É assim que precisa ser feito, assim que eu aprendi. Toda vez que eu pego uma bala eu lembro do meu pai. Meu pai era alemão e eu não quero dizer com isso que alemão seja melhor que os outros” “Dependendo do que você fala e de onde você está, você vai ter definições e definições de meio ambiente. Para nós aqui meio ambiente é onde nós estamos trabalhando e seria o que, desde a parte de equipamentos, pessoas, matériasprimas e o ambiente interno e externo. Para mim, meio ambiente é isso, e eu como profissional devo trabalhar de maneira tal que devo conseguir manter este sincronismo de forma que um ajude ao outro. Só que aí existe um pouco de utopia, eu não consigo fazer produção sem ter o impacto ambiental, eu tenho que minimizar este impacto. Então eu penso que qualquer atividade, só o fato de eu me locomover da minha casa até aqui, eu gero impacto ambiental, normalmente prejudicial ao meio ambiente, tem que fazer com que o impacto seja o menor possível. O meio ambiente para mim é qualquer lugar onde nós estamos inseridos, onde nós temos todos os tipos de interação com coisas, objetos, produtos, serviços e até lazer” “É a nossa casa. Para a gente ..., bom eu vou ser bem sincero, para a gente que está nesse ramo é um problema, a gente sempre tem que estar às voltas com isso aí. O mercado exige que a gente tenha todas as adequações mas a rentabilidade do negócio não permite fazer quadro, contratar profissionais para cuidar desta área. Para a gente que é uma empresa pequena representa algum entrave. As exigências muitas vezes são feitas pensando em empresas mais estruturadas, que possuem pessoal. Aí as empresas que não tem toda esta estrutura, tem dificuldades de se adequar. Não tenho um profissional assim contratado full-time, trabalho com terceiros que não tem um foco dedicado para a empresa. Muitas vezes você precisa indicar as soluções para os terceiros. Desde que você tenha recurso e profissionais especializados, você resolve qualquer problema” “Meio ambiente... é tudo, o mundo... como que eu poderia te explicar..., é uma coisa necessária para a sobrevivência, para os animais, para os seres humanos, sem ele não há vida”

Fonte: O Autor (2008)

Nas respostas é possível perceber a ausência de simbolismo e a presença do antropocentrismo de Descartes, quando por exemplo, o meio ambiente é considerado apenas como algo necessário para a sobrevivência dos seres humanos. Em algumas respostas percebe-se indícios da racionalidade instrumental, em especial na fala do Entrevistado 9, quando considera que o meio ambiente representa um problema em termos de gestão.


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Dentre as respostas, uma em especial chamou a atenção do pesquisador em termos de clareza e posicionamento. Em sua fala, ao considerar que o homem faz parte do meio ambiente, o Entrevistado 4 se aproxima do princípio hologramático proposto por Morin (1998), o qual considera que não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte. Quando menciona a importância da educação básica para a compreensão do meio ambiente, o Entrevistado 4 revela que a percepção sobre o que é meio ambiente não depende apenas do nível de educação formal, uma vez que a sua formação é primária, e que envolve outros aspectos como a experiência de vida e a formação cultural, esta última no caso do entrevistado, de origem japonesa.

b) Como você enxerga a sua relação com o meio ambiente? Quando questionados sobre como os entrevistados enxergavam a sua relação com o meio ambiente, algumas respostas revelaram indivíduos sensíveis às questões ambientais, porém presos a perspectiva realista definida por Beck (2006). O Entrevistado 2 acredita que: “Poderia fazer mais pelo meio ambiente, eu faço pouco hoje. Ter recursos para manter uma entidade, fazer um reflorestamento, aquisição de novos equipamentos. Queira ou não queira, nós hoje somos poluidores do meio ambiente, poderia dar maiores contribuições para o meio ambiente” (Entrevistado 2).

O Entrevistado 3 declarou que busca ter cada vez mas cuidado, principalmente com o lixo e a preocupação com o futuro dos filhos. Ele comentou que sua sensibilidade para o tema vem de sua educação familiar, do pai que é agricultor e que sempre atou em projetos sociais, além de fazer compostagem do lixo biológico e da separação e destino do lixo em sua propriedade rural. Ao ser questionado se encontrava dificuldades para ir além da separação do lixo, o Entrevistado 3 apresentou novas evidências sobre o distanciamento ocorrido entre ser humano e natureza, retratado anteriormente por Sheldrake (1993): “Eu nunca tinha pensado nisso, as noções de limpeza, de higiene da criança são totalmente urbanas, gostam de brincar em shoppings, ambientes que aparentemente são limpos mas que geram muita sujeira. Para onde vai o lixo do shopping?. A criança vai se afastando das conseqüências, do descuido ambiental e ela vive esta maquiagem. Ela sempre vai viver


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dentro do shopping, do apartamento, nunca vai tomar uma água do rio. Nós seres da cidade, o ser humano de um modo geral está se afastando da natureza e está perdendo a responsabilidade por que não é o primeiro a sentir os efeitos mas é o primeiro a causar os efeitos, diferente os seres humanos que possuem um maior contato com a natureza como os agricultores e os índios” (Entrevistado 3).

Em sua resposta, o Entrevistado 4 revela traços de uma racionalidade substantiva ao mencionar sua proximidade com a natureza por meio de suas ações, as quais se aproximam de algumas das características presentes na perspectiva construtivista definida por Beck (2006): “Eu me considero um homem consciente. Tenho procurado mecanismos que possam se adaptar a nossa comunidade, que possam servir para o conjunto da sociedade. Eu vivo a relação com o meio ambiente na minha chácara, muitas plantas que existem na chácara onde eu moro foram plantadas pelo meu pai. Não é só falar, é praticar. Desde pequeno eu recebi noções sobre o meio ambiente na minha educação, meu pai sempre dizia: derrubou uma árvore plante duas. Por isso é que eu falo que o meio ambiente começa dentro de casa, educando, conscientizando, participando. No Japão as crianças recebem educação orientadas para um maior contato com a natureza. Desde cedo, todos aprendem a cuidar do ambiente, todos são responsáveis pela limpeza do ambiente que utilizam. É importante conscientizar desde criança. Na chácara são recolhidas aproximadamente 200 garrafas pet que vem no rio e que ficam presas em três grades, além de outras coisas. Há um tempo atrás houve uma grande mortandade de peixes no rio que corta a chácara, ocorrida em função da contaminação de agrotóxicos aplicada em uma plantação de tomate. Eu solicitei ao meu caseiro para que rastreasse a origem da poluição e quando ele descobriu eu fui falar com o proprietário para que ele tomasse as medidas necessárias para evitar novos acidentes. Deixei claro que se ele não tomasse as providências necessárias, faria uma denúncia para a fiscalização” (Entrevistado 4).

Apresentando dificuldades em definir a sua relação com o meio ambiente, o Entrevistado 5 menciona: “A natureza não tem explicação. O ser humano precisa de mais orientação. É necessário proibir a concentração urbana. Se cada um fizer a sua parte seria importante” (Entrevistado 5).

Como forma de demonstrar que preserva o meio ambiente, o Entrevistado 6 fez questão de mencionar um fato ocorrido com ele: “Dia desses eu me deparei com um rapazinho que estava ameaçando quebrar uma árvore nova, que estava crescendo. Eu falei para ele: meu amigo esta árvore é uma vida, é uma vida que está aí. Como é que você vai pegar uma árvore dessa, que demora tempo para crescer, deixe que nasça. Mas está melhorando, eu considero que nos últimos anos está melhorando” (Entrevistado 6).

Apresentando novas evidências da presença da racionalidade instrumental, as Entrevistadas 1 e 10 consideram de forma objetiva que a sua relação com o meio


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ambiente é boa. Da mesma forma o Entrevistado 8 mencionou que considera a sua relação pessoal com o meio ambiente bastante coerente em diferentes níveis: casa, família e trabalho. Segundo ele: “Como eu ocupo um cargo de gerência eu tenho uma certa autonomia sobre a atividade, meus conhecimentos na parte técnica potencializam a autonomia em relação ao que eu posso ajudar e contribuir junto a alta administração. Então é assim, eu penso que eu estou sintonizado com o que eu preciso fazer para minimizar os impactos e faço tudo o que é possível de trabalhos para minimizar e procuro colocar para as pessoas abaixo ou acima do meu nível hierárquico todo tipo de informação para que isso seja difundido e implementado, porque só a palavra não resolve, tem que ter ação. Eu penso que a minha condição hoje é inserido e comprometido para minimizar o impacto” (Entrevistado 8).

O Entrevistado 9 faz uma revelação em tom de desabafo que revela limitações oriundas da racionalidade econômica vigente na sociedade industrial, a qual rege o comportamento da grande maioria das organizações: “Eu gostaria de ter condições de atender até mais as exigências. Às vezes a gente se sente frustrado por que acaba não tendo condições de atender 100% as exigências. A gente sempre acaba tendo que se adequar às exigências dos órgãos ambientais. Eu gostaria de ter uma empresa mais enquandrada, em cima das normas, quando na realidade a gente consegue no máximo ficar dentro das normas” (Entrevistado 9).

Quando questionado sobre a sua relação pessoal com o meio ambiente, o Entrevistado 9 afirmou: ”Particularmente, eu procuro fazer a minha parte. Eu separo lixo, na minha casa nós separamos o lixo. Busco reciclar, consumir produtos recicláveis de indústrias que não agridam o meio ambiente, produtos com selo de qualidade. Eu particularmente procuro agir desta forma, faz bem agir desta forma” (Entrevistado 9).

Com base nas respostas, é possível perceber que a maior parte do grupo de entrevistados se aproxima da perspectiva realista definida por Beck (2006). Em apenas uma das respostas foi possível identificar traços ou características presentes na perpectiva construtivista.

c) Você considera o meio ambiente em suas tomadas de decisão?


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Quando questionados se o meio ambiente era considerado durante as tomadas de decisão, todos os entrevistados foram unânimes em informar que sim. O Entrevistado 3 afirmou: “Eu considero sim, mas ele é um dos fatores que eu considero. A primeira preocupação na tomada de uma decisão é que ela esteja de acordo com as normas sanitárias. A segunda preocupação é a rentabilidade/viabilidade financeira. Em terceiro as questões burocráticas de registros junto aos órgãos competentes, entre eles o IAP. O IAP é colocado por último, em função da necessidade de estar bem embasado para solicitar a autorização” (Entrevistado 3).

Para o Entrevistado 4 o meio ambiente é muito mais importante que qualquer outra questão. Em sua resposta ele dá novas evidências da presença da racionalidade substantiva em seus comportamentos e ações quando menciona: “Considero que o meio ambiente seja mais importante que o econômico em função da minha concepção sobre o que é o meio ambiente. Não adianta eu ser economicamente perfeito, se o meio ambiente faz parte do homem dentro deste processo, e ele não tiver capacidade de evolução e relacionamento” (Entrevistado 4).

Demonstrando novamente a predominância da racionalidade instrumental em sua organização, o Entrevistado 8 declara: “Sempre, eu sempre. Só que aí eu não vou destoar do nosso objeto social, que é produzir e vender lubrificantes. Se o impacto ambiental for de encontro à condição de produção eu tenho que ser flexível com a minha convicção, e aí eu tenho que ser um pouco permissível em algumas condições. Senão eu seria radical e não poderia estar aqui como eu estou há 20 anos. Eu acho que isso é um trabalho feito par e passo, eu não posso a toda hora ser impositivo, tem que ser negociador, e aí eu penso que eu poderia ter um aliado que seria o próprio Estado, que ajudaria muito. A empresa se enquadra quando você tem leis e fiscalização, só um ou só outro não vai resolver, é preciso ter um trabalho conjunto” (Entrevistado 8).

d) Você sofre alguma influência interna e/ou externa para considerar o meio ambiente em suas tomadas de decisão? De que tipo? Quando questionados se sofriam alguma influência interna e/ou externa para considerar o meio ambiente em suas tomadas de decisão, os entrevistados informaram que sofrem influências de diferentes naturezas: cumprimento da legislação, interesses econômicos, questões relacionadas à imagem da empresa, questões financeiras e reclamações dos vizinhos. O Entrevistado 3 considera que:


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“No momento não, porque estou atendendo as exigências legais. Porém considero que a maioria das empresas sofre influências relacionadas a questões financeiras, os empresários nunca falam sobre o meio ambiente. A maior pressão ocorreu antes da implantação quando da estação de tratamento, agora são apenas as fiscalizações” (Entrevistado 3).

Para o Entrevistado 8, as pressões internas e externas ocorrem da seguinte forma: “Na parte interna, a alta administração não tem como objeto principal o meio ambiente e sim a parte de produzir e gerar lucro. Na parte externa, como a gente atende as exigências da legislação, não há pressões externas que comprometam as atividades” (Entrevistado 8).

e) Em um contexto geral, como você considera a importância do meio ambiente para a sua organização?

Para encerrar os questionamentos da categoria “Profissional e Meio Ambiente”, os entrevistados foram questionados sobre como, num contexto geral, consideram a importância do meio ambiente para as suas respectivas organizações. Apresentando evidências de um comportamento utilitarista, alguns dos entrevistados consideram em sua maioria que o meio ambiente é importante pelo fato de ser fornecedor da matériaprima necessária para a produção dos produtos que as respectivas indústrias fabricam. Como exemplo desta afirmação, o Entrevistado 2 considera que para a produção de tintas o meio ambiente é: “100% importante para a empresa, pois a produção das resinas provém de matérias-primas de florestas plantadas, a exemplo do pinus que gera o breu” (Entrevistado 2).

Da mesma forma, o Entrevistado 3 caracteriza que o meio ambiente é importante em termos de fornecimento de matéria-prima: “A empresa utiliza diversas matérias-primas que não são sintetizadas na indústria, que são oriundas do meio natural, a exemplo da água. Quanto mais suja estiver a água, maiores serão os gastos em produtos químicos para limpeza” (Entrevistado 3).

Confirmando novamente a sua posição baseada na racionalidade instrumental adotada pela sua empresa, o Entrevistado 8 acredita que: “É importante, mas não é preponderante. Nós tomamos decisões considerando o meio ambiente, mas não colocando o meio ambiente em primeiro plano. Então o primeiro propósito é o que: a matéria-prima, produzir e vender. Sempre que possível comprar de uma


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empresa que não polua, produzir de forma que não polua e transportar da forma que não polua. Mas o primeiro objetivo é comprar, produzir e vender. Não é assim vou comprar uma matéria-prima que seja a menos impactante, produzir da maneira menos impactante, e transportar da forma menos impactante. É importante mas não é preponderante. Eu acho muito importante, eu acho importante. Se a gente quiser continuar com a empresa precisa estar adequado com as normas ambientais, se você não estiver adequado você não vai conseguir vender, não vai conseguir prosperar com o negócio” (Entrevistado 8).

4.4. Indústria Química e Meio Ambiente

Esta categoria de análise foi criada com a intenção de encontrar respostas sobre as relações das indústrias químicas e o meio ambiente, em especial a partir das percepções de profissionais que atuam em empresas instaladas em um município paranaense. Para esta categoria foram criadas 9 (nove) questões, as quais serão utilizadas como estrutura de tópicos para a apresentação dos resultados obtidos.

a) Na sua opinião, como a indústria química é vista pela sociedade em relação às questões ambientais?

Com relação a esta questão, boa parte dos entrevistados confirmou a condição verificada nos resultados de diferentes pesquisas apresentadas neste estudo (quadro 32), de que a indústria química é mal vista pela sociedade. Para o Entrevistado 2: “Todos os acidentes ambientais de grande proporção estão relacionados com a indústria química, principalmente acidentes envolvendo estatais” (Entrevistado 2).

O Entrevistado 8 confirma a imagem negativa da indústria química perante a sociedade. Para ele a indústria química é vista: “Como vilã, com certeza. A indústria sabe disso, a sociedade sabe disso e os órgãos ambientais sabem disso. Só que eu penso que a evolução tecnológica e de processos produtivos estão à frente da questão de legislação e pior que isso, se houver uma maior fiscalização, ou você vai ter que produzir menos, ou mudar algumas matérias-primas que vai impactar no aumento de preços, que não vai ter compromisso seu socializado, próximo ao seu cliente. Então eu penso que em detrimento dessas decisões que teriam efeitos colaterais é que existe este rótulo negativo das indústrias químicas e a indústria sabe disso, o mercado, a sociedade e também os órgãos ambientais. Não é uma visão positiva, é sempre vista como uma empresa ou que não polui que vai poluir ou já poluiu muito” (Entrevistado 8).


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Em sua resposta, o Entrevistado 9 também confirma a imagem negativa da indústria química: “Acho que ela é vista como uma indústria poluidora, pelo próprio processo. É diferente uma indústria química de uma indústria de software, por exemplo, de um prestador de serviço, que fica dentro de um escritório, separa lixo, coloca uma lixeira e acha que faz sua parte. A gente faz notificações de processo, tem fornalha soltando fumaça, tem máquina circulando matéria-prima, então ela naturalmente é mais difícil de se adequar ao meio ambiente. No caso do setor metalúrgico, que pega o material pronto, não interessa se para produzir aquele ferro tenha poluído para caramba dali para trás, mas eles pegam o ferro bonitinho, limpinho, dentro do plástico, daí pegam uma lixeirinha e separam o plástico de um lado, os resíduos de limalhas de ferro do outro lado, então eles são ambientalmente super corretos. A gente não, a gente está na parte anterior da deles, a gente tem que fazer movimentação, tem que fazer processos de produção que geram resíduos, que geram poluição, então eu acho que as indústrias químicas nesse ponto, são vistas um pouco como poluidoras, pois naturalmente elas poluem alguma coisa. Já poluíram muito mais, hoje já com as normas as empresas estão se adequando, mas ainda existem resíduos de produção” (Entrevistado 9).

A Entrevistada 10 também acredita que a indústria química é mal vista, porém confirma a necessidade de sua existência: “Muitos acidentes envolvem produtos químicos na natureza, resíduos. Porém é necessário, se não houver indústrias químicas [hesitação]... eu acho que é um mal necessário” (Entrevistada 10).

O Entrevistado 4 assumiu um posicionamento de que a indústria química não é a única culpada pela poluição ambiental. Ele considera que a indústria química é vista pela sociedade: “Sempre como poluidora, que estraga a natureza. Os meios de comunicação divulgam muito os acidentes envolvendo a indústria química e meio ambiente. Porém eu acho que a indústria química não é a única poluente, o conjunto da sociedade é responsável pela poluição” (Entrevistado 4).

Já o Entrevistado 5 e o Entrevistado 6 apresentam evidências sobre o distanciamento da sociedade em relação às questões ambientais e o nível de importância que ela atribui a indústria química. Eles acreditam que: “A sociedade não tem conhecimento do que é uma indústria química. O povo não conhece a realidade de uma indústria química” (Entrevistado 5). “Não sei, eu acredito que não se importam, está entendendo. Um sabonete que fazem, é cheiroso, está bom, é um desodorante que está cheiroso. Eles não ligam está entendendo, eles ligam para o preço, o preço da prateleira, isso aí é que eles ligam. Eles não se importam, não há interesse, você está entendendo. No meu ver, no meu parecer eu acredito


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que eles não conhecem o funcionamento de uma indústria química, eles não dão valor para isso” (Entrevistado 6).

A Entrevistada 1, ao se aproximar do discurso do desenvolvimento sustentável, acredita que: “No passado, a indústria química recebia uma conotação apenas de poluidora. Com a atual legislação, mais rígida e atuante, hoje ela é vista como uma necessidade humana que pode ser ambientalmente sustentável” (Entrevista 1).

Ao considerar aspectos regionais, o Entrevistado 3 faz considerações relevantes: “Depende da região. Eu acredito que os pólos químicos da região não são de química pesada, nós temos uma indústria voltada para a indústria cosmética. O Paraná, diferente de São Paulo, que tem uma indústria maior, é um Estado mais ligado em questões relacionadas ao meio ambiente. Em São Paulo, a indústria é mais mal vista, uma vez que a poluição industrial é mais facilmente percebida. A questão de acidentes ambientais é mais comum em São Paulo do que no Paraná. No Paraná eu acredito que a indústria química é bem vista” (Entrevistado 3).

b) Você lembra de algum acidente ambiental provocado por indústrias químicas?

Quando questionados se lembravam de algum acidente ambiental provocado por indústrias químicas, os entrevistados em sua grande maioria, lembraram de acidentes envolvendo a Petrobrás. No quadro 53 são apresentados os acidentes ambientais envolvendo produtos químicos ou indústrias químicas que foram mencionados pelos entrevistados:

Quadro 53 – Acidentes Ambientais Entrevistados Entrevistada 1 Entrevistado 2 Entrevistado 3 Entrevistado 4 Entrevistado 5 Entrevistado 6

• • • • • • • • • • •

Acidentes Ambientais Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR Contaminação do Rio dos Sinos em Porto Alegre – RS Vazamento de gás em Bophal – Índia Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR Acidente com a plataforma da Petrobrás no Rio de Janeiro – RJ Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR Derramamento de Óleo no Porto de Paranaguá – PR Acidente nuclear de Chernobil – Ucrânia Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR Derramamento de Óleo no Porto de Paranaguá – PR Lembrou de um acidente ocorrido há 30 anos atrás na cidade onde morava. Um concorrente seu, ao fabricar hipoclorito de sódio, teve problemas de vazamento na sua linha de produção. Como a empresa também fabricava Continua (...)


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Entrevistado 7 Entrevistado 8 Entrevistado 9 Entrevistada 10

• • • • •

álcool, o fogo rapidamente tomou conta da fábrica. Na época os bombeiros foram na fábrica do Entrevistado 6 para pegar máscaras, porque na época eles não dispunham de equipamentos para trabalhar com produtos químicos. Não lembrou de nenhum acidente Derramamento de Óleo pela Petrobrás em Araucária – PR Contaminação da Shell em Paulínia – SP Contaminação por chumbo pela Indústria Plumbum – Adrianópolis – PR Não lembrou de nenhum acidente

Fonte: O Autor (2008) Como é possível perceber no quadro 53, a grande maioria dos entrevistados lembrou de acidentes ocorridos no Paraná, fato que pode revelar que os efeitos ocasionados por acidentes químicos são mais facilmente percebidos nas regiões onde ocorrem. Um dos fatores que provavelmente contribuiu para que acidentes ocorridos no Paraná tenham sido mais lembrados em relação a acidentes ocorridos em outros lugares do mundo pode estar associada a ampla cobertura jornalística local, situação que somente se repete em escala global quando acidentes ambientais atingem grandes proporções. A simples lembrança pelos entrevistados, de acidentes envolvendo indústrias químicas ou produtos químicos, reforça a questão dos riscos que este tipo de indústria de transformação representa para o meio ambiente, para as sociedades locais onde suas plantas industriais se encontram inseridas e consequentemente para as sociedades globais quando efeitos não desejados dos produtos que fabricam ou dos resíduos que geram atingem grandes proporções que extrapolam os limites de suas plantas industriais.

c) Você considera que a indústria química representa algum risco para o meio ambiente?

Quando questionados se a indústria química representa algum risco para o meio ambiente, a grande maioria dos entrevistados considerou que sim. A Entrevistada 1 acredita que a indústria química representa um risco elevado, principalmente se for priorizado apenas o lado econômico, enquanto que o Entrevistado 2 acredita que a indústria química representa riscos em termos de vazamentos e explosões. Da mesma


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forma Entrevistada 10 acredita que sim, por causa dos produtos que podem degradar a natureza. Além de afirmar categoricamente que sim, o Entrevistado 3 apontou mais uma evidência da existência do risco, além da questão dos seguros apontada por Beck (2006): “Com certeza. Quando você trabalha na indústria química, independente do cargo, você recebe um bônus no seu trabalho chamado risco de insalubridade. Isto não existiria se fosse uma atividade boa. Só o fato desta condição existir, isto já é uma revelação que a atividade pode representar algum risco de contaminação. Uma pessoa que entra em contato todos os dias com produtos químicos pode desenvolver uma mutação genética, uma doença, uma alergia. E os animais, as bactérias que vivem nos rios, na terra, no ar que as indústrias químicas estão poluindo todos os dias, sem serem vigiadas. Se estes animais tivessem câncer e morressem seria uma realidade. O problema é que muitos destes animais que tem câncer e morrem, eles tem resíduos de produtos químicos que caem na cadeia alimentar. Eu acredito que a indústria química representa muito risco para o meio ambiente, para a saúde e eu reforço que a legislação que é bastante adequada, não permita que as indústrias que não se adequaram dentro de um prazo de tempo adequado continuem funcionando” (Entrevistado 3).

O Entrevistado 8 também acredita que sim, mencionando que os riscos não ficam restritos ao ambiente interno das indústrias: “Sim, pela própria atividade que ela desempenha, desde o primeiro ponto. Por mais que ela tenha precaução em sua planta de processo, as matérias-primas que são ou tóxicas ou poluidoras em potencial elas precisam ser transportadas do ponto de produção da matériaprima até o ponto de industrialização e isso gera um risco eminente do ponto A ao ponto B, ou do ponto A ao ponto C, e indo além, o produto acabado, há bem pouco tempo que existe legislação específica do DNIT (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes) que normatiza cargas perigosas. O condutor da carga perigosa não tem total ciência do que está transportando devido a sua má formação. Quando você transporta, nós temos uma 51 malha viária muito precária que oferece riscos eminentes. Mesmo com SASSMAQ e tudo, você não tem condição viária de transportar com segurança. Se eu adotar segurança na minha planta e o meu transporte tiver segurança, você não tem uma malha viária com segurança. Você não tem uma condição preventiva e preditiva para você fazer um embarque de uma carga perigosa que você tenha toda a precaução, inclusive em função disso há acidentes freqüentes pelo mundo, não só no Brasil. Por isso que eu acho que há um certo descompasso entre a indústria química poluidora e a condição de chegar matéria-prima até ela e de sair produtos dela para o mercado consumidor, porque você tem uma série de participantes neste ciclo produtivo, com elos fracos que podem se romper, quando já não estão rompidos” (Entrevistado 8).

O Entrevistado 5, além de mencionar a questão do risco, se utiliza de uma justificativa associada a lógica instrumental para determinar a necessidade de


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existência das atividades de sua empresa, apesar da existência de possíveis riscos. Ele considera que: “É uma faca de dois gumes, conforme o tipo de produto fabricado. Porém dela depende a sobrevivência dos empregados” (Entrevistado 5).

Seguindo a mesma lógica defendida pelo Entrevistado 5, de que o risco depende do produto fabricado, o Entrevistado 6 afirma que: “Depende do que você vai fabricar. Uma indústria de soda eu não posso fazer aqui. Se você vai fazer um detergente, um amaciante de roupa, um desinfetante não vai prejudicar, diferente da fabricação do hipoclorito de sódio que exige uma estrutura própria. Se eu fosse fazer aqui os órgãos ambientais não permitiriam” (Entrevistado 6).

O Entrevistado 4 também concorda com a questão da existência do risco, o qual segundo ele, normalmente ocorre na ganância das empresas em obter resultados, momento em que deixam de se preparar adequadamente para realizar as suas atividades. Dentre os entrevistados, apenas o Entrevistado 9 e o Entrevistado 7 apresentaram opiniões diferentes para a questão do risco que a indústria química representa para o meio ambiente: “Não existem riscos, desde se trabalhe dentro das normas de segurança e ambiental” (Entrevistado 9). “Desde que respeitadas as legislações não vejo dessa forma” (Entrevistado 7).

d) Você lembra de algum acidente ambiental ocorrido na sua organização?

Quando questionados se lembravam de algum acidente ocorrido em sua organização, todos os entrevistados mantiveram as mesmas respostas fornecidas para esta mesma pergunta, quando realizada na categoria “Perfil Ambiental da Indústria Química”. Esta questão foi propositalmente colocada de forma repetida no instrumento

51

De acordo com a ABIQUIM (2007) a sigla SASSMAQ corresponde a Sistema de Avaliação de Segurança, Saúde, Meio Ambiente e Qualidade. Trata-se de um serviço integrado desenvolvido pela entidade para a prevenção e atendimento de acidentes rodoviários envolvendo produtos químicos


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de pesquisa com o intuito de verificar se os entrevistados manteriam as informações originalmente informadas ou se ao longo da entrevista revelariam outras situações ocorridas e não mencionadas.

e) Você considera que as atividades desenvolvidas pela sua organização representam algum risco para o meio ambiente?

Quando questionados se as atividades desenvolvidas pela sua organização representavam algum risco para o meio ambiente, os Entrevistados 4, 5, 6, 7, 9 e 10 foram categóricos em afirmar que não. Para o Entrevistado 4: “Nenhum, de acordo com a estrutura da empresa hoje considero ser risco zero” (Entrevistado 4).

O Entrevistado 6 também acredita que não, em virtude do seu processo de fabricação ser fechado e que somente haveria risco se em sua planta industrial fosse fabricado o hipoclorito de sódio. Ele considera que os produtos que fabrica contribuem com a sociedade quando menciona que a água sanitária está matando até a dengue. A Entrevistada 1 e o Entrevistado 3 acreditam que: ”Desde que cumpridas as normas legais, os riscos são mínimos” (Entrevistado 1). “Os produtos cosméticos e os alimentos que fabricamos são feitos para passar sobre a pele ou para ser ingeridos. É óbvio que o nível de toxidade destes produtos tem que ser o menor possível” (Entrevistado 3).

O Entrevistado 3 e o Entrevistado 2 consideram que os maiores riscos estão na manipulação da matéria-prima: “O maior risco está na utilização da matéria-prima e nas atividades de manipulação dos produtos químicos” (Entrevistado 3). “Os funcionários que efetuam o manuseio são preparados e a empresa inclusive deixou de utilizar insumos que representassem risco de contaminação” (Entrevistado 2).

Para o Entrevistado 2 e para o Entrevistado 8, os riscos não se limitam ao ambiente interno da empresa:


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“Durante o transporte pode ocorrer algum risco de vazamento” (Entrevistado 2). “Até chegar para nós e sair da nossa planta para chegar no nosso cliente, nós podemos ter problemas mas não problemas gerados diretamente por nós, mas nós somos coresponsáveis. Se eu tenho um caminhão nosso indo para o Rio Grande do Sul, vai ser via rodoviária, vai passar por vários locais que vão estar vulneráveis, principalmente pela máconservação das estradas” (Entrevistado 8).

Apesar de considerar que as atividades desenvolvidas pela sua empresa não representam riscos, o Entrevistado 8 apresenta evidências da existência do risco em duas de suas colocações, quando menciona: “Então com certeza a nossa atividade em si, não gera risco, a não ser que ocorra um problema de processo” (Entrevistado 8). “Às vezes a gente não conhece o risco. Eu gerencio a empresa há 10 anos, eu estou tão acostumado com o que eu faço que eu às vezes não tenho a visão crítica da minha atividade, crítica do risco. Um pessoal de fora que venha aqui, vai olhar no detalhe, ele vai fazer questionamentos para mim e para nossos colaboradores, e aí ele vai fazer um raio X sobre como está a nossa planta” (Entrevistado 8).

f) Você considera que as ações ambientais desenvolvidas em sua organização são suficientes para evitar ou minimizar possíveis impactos ambientais?

Com relação a esta questão, 9 (nove) entrevistados ou 90% afirmaram que sim. A Entrevistada 1 acredita que: “Sim, pois há uma melhoria contínua na medida em que os processos de fabricação vão sendo alterados” (Entrevistada 1).

O Entrevistado 3 também considera que ações ambientais desenvolvidas pela empresa são suficientes mencionando alguns fatores: “A energia utilizada pela empresa é limpa (energia elétrica), o consumo de matérias-primas é controlado (interesse econômico) e os resíduos líquidos são tratados. Eu poderia somente me preocupar com o destino do lixo biológico que é separado, porém depois que passa do portão eu não sei para onde vai” (Entrevistado 3).

Dentre os entrevistados, apenas o Entrevistado 8 acredita que as ações ambientais promovidas pela empresa não são suficientes. O Entrevistado 8 menciona que:


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“Não, não são suficientes não. Falando tecnicamente, com certeza nós podemos ter muito mais artifícios e até modificação em equipamentos que você possa aí sim ter alguma coisa próxima do zero, só que vai demandar investimentos” (Entrevistado 8).

Quando questionado se esta situação poderia significar riscos, o Entrevistado 8 informou: “Existe, porque é assim, vai depender de um cuidado excessivo com o elemento humano para se precaver de uma condição que não é a mais apropriada. Por mais que você tenha, usando uma analogia: eu posso daqui a Curitiba de várias maneiras, ir de carro, de ônibus ou a pé. Mesmo de carro eu posso ir com um carro 1.000, 2.0 ou 4.3 por exemplo, e aí ou vou poder ir mais rápido ou mais confortável, eu vou daqui até lá sem problema nenhum. Da mesma forma é o sistema produtivo, eu posso fazer tudo o que eu faço hoje de outra forma, muito mais segura. Só que aí vai depender de como eu vejo a questão ambiental no meu escopo de trabalho, na minha empresa. Então se há algum tipo de risco, seguramente sim, porque eu não tenho a melhor condição tal qual eu poderia ter, pelos padrões de hoje. Como a planta existe há 30 anos, eu tenho hoje sistemas de processo muito mais moderno, só que eu tenho o que, eu tenho o pay-back do meu investimento. Se eu faço uma aquisição de uma máquina qualquer, enquanto ela não se depreciar, eu não vou trocá-la. Como máquina é um bem durável, mesmo que ela se deprecie eu não troco pela depreciação, eu vou trabalhar com ela mais tempo, até que eu não tenha nessa máquina produtividade, o que é perda. Então não é por questões de eu ser ecologicamente correto, ainda é por questões econômicas. Então seguramente o que nós temos hoje não é o supra-sumo, isto sem sombra de dúvidas, porém eu não tenho riscos eminentes. Agora se eu for analisar criticamente o processo produtivo, eu consigo ver lacunas onde pode ocorrer o erro. O que eu faço é ter procedimentos de trabalho que eu vou me salvaguardar. Se o elemento humano falhar, o que pode acontecer, aí sim eu vou ter aquela lacuna maior e isso potencializa o risco” (Entrevistado 8).

g) A sua organização recebe pressões de alguma natureza para a adoção de medidas que visem a preservação do meio ambiente? Quando questionados se a organização recebe pressões de alguma natureza para a adoção de medidas que visem a preservação do meio ambiente, os entrevistados mencionaram que eram questionados somente pelos órgãos de fiscalização como o IAP, a Vigilância Sanitária e a Polícia Civil, esta última em função da possibilidade de alguns produtos químicos serem utilizados para fabricação de entorpecentes. Dentre os entrevistados, apenas o Entrevistado 1 afirmou sofrer pressões do mercado em relação à necessidade de se criar uma imagem ambientalmente correta da empresa, enquanto que em nenhuma das respostas foram citadas pressões exercidas por Organizações Não Governamentais (ONG) ou por outros tipos de entidades, como associações de moradores.


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h) Como você enxerga a relação de sua organização com o meio ambiente? Uma vez reconhecida a posição pessoal e individual de cada um dos entrevistados sobre meio ambiente, foi possível realizar uma primeira aproximação sobre como estes profissionais enxergavam a relação de suas respectivas organizações com o meio ambiente. Em boa parte das respostas, é possível perceber a predominância da racionalidade instrumental:

Quadro 52 – Relações das Organizações com o Meio Ambiente Entrevistados Entrevistada 1

Entrevistado 2

Entrevistado 3

Entrevistado 4

Entrevistado 5

Entrevistado 6

Entrevistado 8

Entrevistado 9

Relações das Organizações com o Meio Ambiente “A empresa tem programa de gerenciamento de todos os seus resíduos, uso racional de recursos, programa com a comunidade local e compromisso com seus funcionários, a fim de minimizar os impactos por ela causados”. “Considero ser uma ótima relação, se encontra em uma situação de poluir o quanto menos. É claro que sempre polui um pouco, mas a preocupação é sempre poluir menos”. “Está fazendo um bom trabalho, tem muitos problemas de outras naturezas dentro dela, que são desafios que ela precisa vencer, como problemas de mercado, de vendas. A empresa se encontra agora em um momento de explorar um novo mercado, de aumentar as vendas, por questão de sobrevivência. Neste momento as questões ambientais estão em segundo plano, porém os cuidados já implantados estão sendo mantidos como a estação de tratamento de efluentes e os testes de laboratório. Com relação às exigências legais, ela está cumprindo com suas obrigações”. “A empresa ainda tem muitas coisas que precisam ser melhoradas. O básico e principal que é o tratamento da água do esgoto já foi feito. Falta maiores investimentos em educação orientada para a higiene, para evitar a contaminação por bactérias”. “Boa, contribui com o meio ambiente. Existem cuidados que são tomados na empresa”. “Nós respeitamos muito o meio ambiente. Eu não deixo queimar lixo lá fora, não deixo queimar a grama, nem queimar plásticos por que polui. Até um vidro quebrado nós separamos. Até injeção, eu que sou diabético levo para um hospital para não jogar no lixo. O meu princípio é religioso: ama ao teu seu próximo como a ti mesmo”. “Como a nossa empresa não é profissionalizada como um todo, ou seja, é uma empresa de dono e não de profissionais, eu não acho que ela tenha uma postura de todo integrada com a questão ambiental. Então hoje as preocupações giram mais em torno do faturamento do que com a consciência ambiental. E eu não estou falando por outras empresas, estou falando desta empresa onde eu trabalho há mais de 20 anos. Houve melhorias, houve, mas só a custa de acidentes ou por força da legislação, daí é que eu digo se ela fosse mais efetiva esta consciência da empresa seria por obrigação, pelo menos, mais coerente e mais preparada para atuar de forma preventiva”. “É harmônica, apesar de que eu vejo também que todo tipo de atividade acaba denegrindo um pouco o meio ambiente. Faz parte da vida do ser humano, você gasta recursos que não são renováveis, este estoque de matéria-prima não é renovável, é um bem não renovável, é um mineral retirado da natureza que gera Continua (...)


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Entrevistada 10

impacto ambiental”. “Faço todo o possível para fazer tudo certo, para não prejudicar nada no meio ambiente”.

Fonte: O Autor (2008)

Com relação aos relatos, boa parte dos entrevistados acredita que as suas empresas estabelecem um bom relacionamento como o meio ambiente. Em algumas respostas é possível perceber o reconhecimento de que as atividades desenvolvidas pelas empresas geram impactos ambientais. O Entrevistado 8, em especial, apresenta em seu depoimento indícios da predominância da racionalidade instrumental na organização quando menciona que as preocupações da empresa estão voltadas muito mais para as questões relacionadas ao faturamento do que para as questões ambientais. Em seu depoimento, o Entrevistado 8 revela fatos comuns a muitas empresas, quando menciona que a empresa somente passou a efetivamente se preocupar com a questão ambiental depois que dois acidentes ocorreram e por força das exigências legais.

i) Como você enxerga o futuro da relação da indústria química com o meio ambiente?

A última questão realizada aos entrevistados diz respeito ao futuro da relação da indústria química com o meio ambiente. Para esta questão, algumas respostas revelam a sensibilidade de alguns dos entrevistados em relação às questões ambientais e quanto aos limites de expansão da racionalidade econômica. A Entrevistada 1 e o Entrevistado 4 pensam que: “Se prevalecer o lado econômico, estaremos abreviando nossas vidas e das próximas gerações. E sem retorno rápido e com custo econômico e social” (Entrevistada 1). “Se eu for considerar hoje esta evolução, eu acho que vai ser muito nefasta. A continuidade nesta gana do ganho, esquecendo o meio ambiente. Eu não estou falando da pequena empresa, e sim da grande empresa. É extramente perigosa. Quanto maior o consumo maior a gana” (Entrevistado 4).


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O Entrevistado 3 demonstra sua crença na ciência e na sua capacidade de resolver todos os problemas: “Eu acredito que a principal solução para esse problema, vai ser alguma maluquice que eles vão inventar para limpar o meio ambiente, por exemplo, fabricar alguma substância para soltar no ar para fazer o seqüestro de carbono, jogar bactérias no oceano que consumam o lixo. Eu acredito que a ciência vai encontrar soluções mais inteligentes para que o homem continue tendo a possibilidade de poluir, já que ele gosta de fazer isso. Eu acredito que as propostas que estão sendo discutidas no mundo não serão capazes de salvar o meio ambiente. A única chance de sobrevivência do planeta terra e dos animais é criar novas tecnologias de reaproveitar os resíduos a nosso favor” (Entrevistado 3).

Quando questionado se a tecnologia seria capaz de estabelecer esta condição, o Entrevistado 3 respondeu com convicção que: “A química consegue fazer qualquer coisa. Porém o homem ignora algumas soluções pelo fato de algumas reações químicas serem inviáveis financeiramente” (Entrevistado 3).

Quando perguntado se a própria indústria química pode desenvolver novas tecnologias ou novos processos para resolver a sua relação com o meio ambiente, o Entrevistado 3 informou que sim. Para ele: “Cada vez mais a química produz soluções, porém ainda estão distantes da prática. As indústrias químicas ainda aplicam técnicas tradicionais oriundas do período de sua descoberta, aplicando sobre elas poucas inovações, principalmente em função dos custos financeiros” (Entrevistado 3).

Algumas respostas apresentaram divergências. O Entrevistado 2 demonstra possuir uma opinião diferente do Entrevistado 7: “Dentro da nova filosofia na conservação do meio ambiente, somos o segmento que mais se preocupa com o futuro da preservação ambientais” (Entrevistado 7). “As indústrias químicas deveriam se preocupar mais com o meio ambiente, fazer mais investimentos. As empresas receptoras de produtos químicos deveriam receber mais treinamentos para reduzir as chances de acidentes ambientais” (Entrevistado 2).

Reforçando a lógica da racionalidade econômica, o Entrevistado 6 e o Entrevistado 8 novamente demonstram preocupações com a manutenção do seu negócio, quando consideram que: “As indústrias pequenas vão desaparecer, existe muita burocracia. Para fazer uma autorização da vigilância sanitária são muitas exigências, muitas delas que nós nem entendemos” (Entrevistado 6).


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“No futuro a médio e longo prazo eu diria que nós vamos ter menos empresas porque nós vamos ter mais exigências e por questões de investimentos em plantas de processo você vai ter um afunilamento, ou seja, se você não se adequar não vai conseguir continuar produzindo. O que acontece, você vai ter um tempo para se adequar, então você vai operar durante este tempo e quando chegar no deadline você vai ter que resolver: ou você aporta o capital e se ajusta ou você vai ser responsável por algo maior ou você vai estancar a atividade e mudar de ramo, para um ramo com menos exigências. Como nós temos uma questão ambiental cada vez mais, cobrando ou cobrada, os dois lados, com certeza nós vamos ter uma situação de menos empresas no mercado. A minha visão no médio e longo prazo são menos empresas, e as que ficarem terão um responsabilidade ecológica maior por questões de obrigação não por opção, por exigências. Tem que trabalhar a governança corporativa, a empresa que tem capital aberto com ações na bolsa, aí ela tem por questões de governança corporativa, aí é com empresas grandes que podem perder valor se não tiverem essa consciência ecológica muito clara” (Entrevistado 8).

Em suas respostas, o Entrevistado 9 e a Entrevistada 10 se aproximam do princípio dialógico presente na complexidade de Morin (1998). Para o Entrevistado 9 o futuro será cada vez mais harmonioso enquanto que para a Entrevistada 10 será uma batalha: “Será cada vez mais harmonioso, porque hoje ainda a gente está na fase de estar se adequando às normas. Vai chegar num ponto que isso vai ser normal, vai fazer parte do processo. Isto aí vai ser uma condição para o funcionamento, se não estiver adequado não vai continuar funcionando. As pressões serão cada vez maiores, por isso que eu acho que vai deixar de ser um problema. Aquilo que é um problema a tendência é você resolver e vai surgindo propostas de equipamentos e processos que se adequem a essas novas normas mais rigorosas e isso aí vai fazer parte da produção da empresa, e a gente nem vai lembrar que existe meio ambiente, tudo fará parte do processo, ou você se adequa ou você fecha” (Entrevistado 9). “O meio ambiente vai exigir e até as indústrias chegarem naquilo que é necessário vai ser uma batalha. Vai ser necessário muita pressão e multas, e outras coisas, para entrar mesmo no que tem que ser, até todo mundo se adaptar e ter uma visão que tem que preservar o meio ambiente e evitar acidentes” (Entrevistada 10).


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CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta inicial de revelar as percepções de profissionais de indústrias químicas de um município paranaense sobre as relações de suas respectivas organizações com o meio ambiente gradativamente se transformou em um espaço maior para a promoção de reflexões sobre como este pesquisador e cada um dos mais de seis bilhões de indivíduos que integram a sociedade contemporânea estabelecem as suas relações particulares e coletivas com o meio ambiente. Representou também um desafio em termos de aproximação e de compreensão dos reais fatores que determinam a crise ambiental, a qual Leff (2003) considera como sendo uma crise do nosso tempo, onde o risco ecológico torna-se capaz de questionar o conhecimento do mundo. Compreender um pouco mais sobre as diferentes realidades e a complexidade das relações estabelecidas entre sociedade e meio ambiente, em especial as indústrias químicas e o meio ambiente, exigiu o reconhecimento do modo de funcionamento da matriz de pensamento linear de produção científica bem como as influências que esta gera sobre as ações e comportamentos desenvolvidos pela sociedade industrial, os quais se apresentam na contemporaneidade como os principais elementos geradores da crise sócio-econômica-ambiental em curso. Contrapor a noção hegemônica da linearidade com a noção da complexidade representou um desafio pessoal para este pesquisador em termos de reflexões sobre os limites estabelecidos pelo seu próprio arquétipo mental para o desenvolvimento de um estudo de características multi e interdisciplinares. O reconhecimento destas limitações fizeram este pesquisador sentir uma forte necessidade de substituir as certezas produzidas pela forma de produção do conhecimento tradicional por uma nova proposta de produção do conhecimento iluminada pelos princípios da complexidade. Com base nas diferentes evidências apontadas ao longo deste estudo, foi possível perceber que o sucesso econômico obtido pela sociedade industrial e as inúmeras descobertas científicas trouxeram consigo não apenas os benefícios da modernidade, mas também a ampliação dos riscos e dos efeitos indesejados, a exemplo da degradação dos recursos naturais e do aumento da geração de resíduos.


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Mais do que isso, estas evidências foram capazes de apontar que tais efeitos indesejados não resultam apenas de ações isoladas promovidas por um ou outro tipo de ator social, a exemplo das indústrias químicas, mas sim de ações paralelas de produção e consumo desenvolvidas em escala global pelos diferentes atores que operam sob a lógica da racionalidade econômica. Ao apresentar algumas das limitações da racionalidade econômica vigente, as quais apontam para o agravamento da crise sócio-ambiental anunciada, este estudo buscou caracterizar alguns dos desafios que necessitam ser enfrentados pela humanidade na busca pelo atingimento da sustentabilidade. Ao longo do seu desenvolvimento, buscou-se tornar evidente a grandeza dos desafios que necessitam ser enfrentados, a exemplo da reflexão de Leff (2006), de que não basta postular a estabilização da economia e da população em algum momento no próximo século sem questionar a possibilidade de deter a escala e desconstruir a economia para internalizar as condições de sustentabilidade ecológica. O autor considera que a ecologização da economia não se trata de um problema de adequação de ritmos e escalas, mas de mudança de estrutura e construção de uma nova racionalidade produtiva capaz de operar conforme os princípios da sustentabilidade e de promover o diálogo entre diferentes racionalidades, a partir da qual se espera que sejam criadas novas vias de transformação do conhecimento através do diálogo e da hibridação dos saberes. Com o objetivo de gerar uma contribuição para a sociedade em termos da promoção de reflexões que possibilitem uma melhor compreensão da crise sócioeconômica-ambiental, este estudo buscou inspirações no princípio hologramático da complexidade ao tentar caracterizar a realidade do todo e das partes, ao promover reflexões sobre uma das partes mais criticadas nas relações estabelecidas entre sociedade e meio ambiente: as indústrias químicas. Pelos fatos que foram apresentados ao longo deste estudo, é possível perceber que o processo de expansão da indústria química mundial se confunde com a própria história de surgimento e expansão da sociedade industrial, uma vez que esta é considerada como uma indústria de base necessária para o desenvolvimento de outros tipos de indústrias. Da mesma forma como observado no processo de expansão de


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outros setores que constituem a ociedade industrial, o sucesso obtido pela indústria química mundial e os inúmeros benefícios que ela gerou para a humanidade também foram acompanhados por uma crescente ampliação dos riscos e pela produção de efeitos indesejados, no mesmo momento em que os novos conhecimentos científicos passaram a ser gradativamente patrocinados pela iniciativa privada e submetidos aos interesses e controles impostos pela lógica da racionalidade econômica. Em razão da necessidade de ampliação da produção para o atendimento das demandas crescentes de consumo e do compromisso de geração de resultados impostos pela racionalidade econômica, estas indústrias passaram por um período de franca expansão dos seus próprios processos produtivos, os quais, quando fugiram do controle de seus controladores, foram responsáveis pelos graves acidentes ocorridos em diferentes épocas e locais, os quais em seu conjunto contribuíram para a construção da imagem negativa da indústria química por diferentes sociedades em nível local e global. Diante

da

impossibilidade

de

estabelecer

um

diálogo com

todos

os

representantes da indústria química mundial, este estudo buscou se aproximar da realidade de uma pequena parcela de indústrias químicas instaladas em um município paranaense, a partir da promoção de um estudo das percepções dos profissionais que nelas operam. Diferente da realidade apresentada por entidades representativas e por grandes multinacionais do setor por meio da promoção de campanhas e da produção de peças publicitárias, esta pesquisa se deparou com empresas de menor porte que se distanciam da realidade das grandes organizações industriais. Durante as visitas para a entrega dos convites e realização de entrevistas, este pesquisador se deparou com indústrias químicas diferentes das que havia inicialmente idealizado por meio de contatos com pesquisas e trabalhos especializados, fato que demonstra o poder e a influência dos diferentes tipos de mídias e estudos científicos no processo de construção das percepções da sociedade em relação às organizações industriais. Durante as suas visitas, o pesquisador teve a oportunidade de conhecer a localização e a estrutura física das empresas. Conforme os dados detalhados na categoria “Perfil Ambiental da Indústria Química” algumas das empresas se


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encontravam instaladas em áreas urbanas enquanto que outras apresentavam uma infra-estrutura visivelmente precária para a realização de suas atividades. Durante as visitas foi possível perceber que boa parte dos imóveis ocupados pelas indústrias não foi projetado para abrigar indústrias químicas, situação que pode ser comprovada pelas descrições dos gastos e investimentos efetuados pelas indústrias na área ambiental (ver quadro 46). Ao longo do estabelecimento deste diálogo com representantes da indústria química local, este pesquisador teve a oportunidade, como representante da sociedade, de realizar uma série de questionamentos na busca de revelar algumas das percepções que os profissionais que atuam nestas indústrias tem das respectivas relações de suas organizações com o meio ambiente. Os questionamentos relacionados com a categoria “Perfil do Profissional” revelaram um baixo nível de formação educacional dos profissionais entrevistados em relação às atividades que desempenham na indústria química. Os dados informados indicam que as formações educacionais de uma parcela significativa dos profissionais entrevistados não possui vínculos diretos com as atividades desenvolvidas pela indústria química. Este dado, associado ao tempo de experiência na indústria química, revelou uma faceta interessante dos profissionais entrevistados: a de que seus conhecimentos sobre as atividades desenvolvidas são oriundos do seu tempo de experiência profissional na indústria química e não de uma formação específica na área química. Ao efetuar os questionamentos da categoria “Perfil Ambiental da Indústria Química” foi possível perceber que boa parte dos profissionais das indústrias químicas entrevistadas desconhecia o Código Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), apesar deste ter recentemente sofrido ajustes para alinhar a classificação das atividades desenvolvidas pela indústria química nacional com os padrões internacionais estabelecidos para a classificação da indústria química mundial. Este dado revela o distanciamento da maioria das indústrias químicas entrevistadas em relação às suas entidades de representação em nível nacional, as quais divulgam com freqüência por meio de publicações, revistas especializadas e sites na internet as atividades que


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realizam em prol das indústrias químicas. Da mesma forma foi possível perceber o distanciamento destas empresas da realidade dos Sistemas de Gestão Ambiental (SGA) e das certificações ambientais, uma vez que a maioria dos profissionais entrevistados confundiu certificação ambiental com licença ambiental. Os questionamentos realizados na categoria “Perfil Ambiental da Indústria Química” também revelaram que as indústrias químicas entrevistadas realizaram gastos ou investimentos na área ambiental em função de exigências da fiscalização. Boa parte dos gastos ou investimentos efetuados foram realizados para a melhoria da infraestrutura física das empresas, principalmente para o tratamento de resíduos gerados no processo de produção. Os motivos e as dificuldades encontrados para a realização dos gastos e investimentos foram apresentados no quadro 47 e no quadro 48. A questão dos riscos inerentes às atividades desenvolvidas pelas indústrias químicas foi confirmada por meio das respostas efetuadas para o questionamento sobre os acidentes ambientais ocorridos com as indústrias químicas entrevistadas e para o questionamento sobre a existência de seguros. Em suas respostas, alguns dos entrevistados revelaram o histórico das ocorrências de acidentes ocorridos em suas respectivas indústrias, fato que justifica alguns dos motivos pelos quais as companhias seguradoras oferecem resistência para a liberação de seguros de cobertura para empresas que atuam neste ramo de atividade. Para os questionamentos efetuados para a categoria “Profissional e Meio Ambiente” alguns fatos ocorridos chamaram a atenção. O primeiro deles diz respeito a resistência do Entrevistado 7 em fornecer respostas para os questionamentos desta categoria. Este fato revelou o receio do entrevistado, como representante da indústria química, em fornecer respostas que pudessem comprometer a imagem da indústria química. O segundo fato diz respeito a dificuldade apresentada pela maior parte dos entrevistados em definir o que é meio ambiente. Esta dificuldade se apresentou para o pesquisador como uma forte evidência do distanciamento ocorrido entre ser humano e natureza. Para a categoria “Indústria Química e Meio Ambiente” foram estabelecidos os principais questionamentos desta pesquisa. Já na primeira questão sobre a imagem da


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indústria perante a sociedade, boa parte dos entrevistados demonstrou sinceridade ao afirmar que a indústria química é mal vista, confirmando os dados de pesquisas semelhantes descritos no quadro 32, que trata das pesquisas de opinião pública sobre a imagem da indústria química. Quando questionados sobre a lembrança de algum acidente ambiental provocado por indústrias químicas, novamente os entrevistados demonstraram sinceridade aos citar vários acidentes ocorridos, em especial, acidentes ocorridos no Estado do Paraná. Da mesma forma, quando questionados se a indústria química representa algum risco para o meio ambiente, a grande maioria dos entrevistados respondeu que sim, além de apresentar uma nova evidência da existência dos riscos nas atividades desenvolvidas pelas indústrias químicas: a questão do bônus pago a trabalhadores da indústria química por riscos de insalubridade. Contrariando as respostas anteriormente fornecidas, boa parte dos entrevistados considera que as atividades desenvolvidas pela sua respectiva organização não representam riscos para o meio ambiente. Da mesma forma, a grande maioria dos entrevistados considera que as atividades ambientais desenvolvidas pela sua organização são suficientes para evitar ou minimizar possíveis impactos ambientais, fato que demonstra a predominância do sentimento de certeza na tecnociência oriundo da matriz de pensamento linear. Quando questionados sobre como enxergavam a relação de sua respectiva organização com o meio ambiente, a grande maioria dos profissionais entrevistados mencionou que considerava ser uma relação de boa qualidade, que as indústrias estavam desenvolvendo ações para minimizar o seu impacto ambiental. Porém em algumas respostas foi possível perceber novamente a predominância da racionalidade econômica, quando mencionado que por razões financeiras, as questões ambientais eram colocadas em segundo plano. Além de possibilitar que os profissionais das indústrias químicas revelassem algumas de suas percepções sobre as relações de suas respectivas empresas com o meio ambiente, esta pesquisa revelou vários dados relevantes sobre a realidade da indústria química em nível estadual. O primeiro deles diz respeito a ausência no Estado


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do Paraná e em especial no município pesquisado, de um cadastro que contenha todas as informações cadastrais das indústrias químicas instaladas no município e dos respectivos produtos químicos que fabricam. A ausência deste controle revela mais uma condição favorável para a eminência da sociedade de risco proposta por Beck (2006), uma vez que não foi possível obter com precisão uma relação das indústrias químicas existentes no município bem como das atividades que cada uma desempenha. Outro dado relevante diz respeito a ausência de uma estrutura adequada por parte do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) para o atendimento das solicitações efetuadas pela comunidade. Durante os contatos realizados com o instituto, ficou evidente que os próprios funcionários públicos tem receio de disponibilizar dados sobre as indústrias químicas paranaenses. Os dados parciais obtidos junto ao instituto e que foram apresentados nesta pesquisa foram disponibilizados somente depois de muita insistência por parte do pesquisador. A ausência de dados detalhados sobre as autuações ambientais e os acidentes ocorridos no município pesquisado, impediram que o pesquisador comparasse as respostas dos entrevistados com os fatos ocorridos no município. Além das dificuldades apresentadas para o fornecimento dos dados solicitados, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) também não conta com nenhum serviço de consulta em seu site na internet que possibilite o acesso on-line a dados de licenças ambientais, autuações ambientais e acidentes ambientais ocorridos no Estado. No entendimento do pesquisador, a ausência da disponibilização pública destes respectivos dados impede a participação efetiva da sociedade na fiscalização das indústrias que operam no Estado do Paraná. Outro fato que chamou a atenção do pesquisador diz respeito a ausência de preparo demonstrada por parte de algumas indústrias químicas convidadas a participar da pesquisa em realizar a devida análise e tratamento de suas correspondências. Apesar do convite nominal conter todas as orientações sobre como o convidado deveria proceder no caso do seu interesse de participar da pesquisa e deste convite ter sido entregue pessoalmente pelo pesquisador nas indústrias químicas selecionadas, muitas


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empresas exigiram a realização de contatos adicionais para a confirmação de sua participação, sem os quais as entrevistas não teriam sido realizadas. Algumas das indústrias, apesar de novas tentativas de contato realizadas, não deram nenhuma satisfação para o pesquisador, apesar deste ter disponibilizado no convite formal todas as orientações sobre como o convidado deveria proceder caso não tivesse interesse de participar da pesquisa. Na percepção do pesquisador, esta ausência de cuidado para solicitações realizadas pela sociedade, em especial a comunidade acadêmica, podem estar associadas a fatores como: ausência de interesse das indústrias na participação de pesquisas, ausência de preparo das indústrias químicas em relação ao atendimento de solicitações efetuadas pela sociedade, receio de exposição pública, entre outros. O desenvolvimento deste estudo possibilitou dentre outras coisas, uma maior aproximação do pesquisador com relação à realidade da indústria química brasileira, de uma parte que normalmente não é contemplada em pesquisas desenvolvidas por entidades do setor. Diferentemente da realidade das grandes indústrias químicas que atuam no setor e que são responsáveis pelos maiores volumes de produção, as indústrias químicas entrevistadas figuram dentre aquelas muitas empresas brasileiras que apresentam maiores dificuldades de adaptação em termos de questões e condições relacionadas ao pleno atendimento das exigências legais estabelecidas na área ambiental. Nas entrevistas realizadas foi possível perceber as limitações financeiras que estas empresas enfrentam para a realização de novos investimentos na área ambiental e para a contratação de mão-de-obra especializada para a aplicação de novos procedimentos que possibilitem a adoção de melhores práticas produtivas. Este quadro, associado com a predominância da racionalidade instrumental e econômica no ambiente de negócios e a ausência de infra-estrutura adequada do Estado para o exercício da fiscalização e controle das atividades desenvolvidas pelas indústrias químicas, apresenta as condições necessárias para a efetivação do conceito de sociedade de risco defendido por Beck (2006). A simples ausência de procedimentos regulares para a atualização de algumas bases de dados cadastrais pesquisadas, as quais deveriam servir como referência para o estabelecimento dos controles sobre as operações desenvolvidas pelas indústrias químicas no Estado do Paraná, já revela a


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fragilidade e a existência das condições necessárias para o surgimento e efetivação da presença dos riscos. Espera-se agora que o espaço criado para reflexões por meio deste estudo possa ser compartilhado com todos aqueles que buscam refletir sobre suas próprias ações e de suas organizações com vistas a criar melhores condições para a construção e reprodução da vida em sociedade.


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ANEXO 1 – Carta do Chefe Indígena Duwamish (Chefe Seatle)

O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade. Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas - elas não empalidecem. Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho. O homem branco esquece a sua terra natal, quando - depois de morto - vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem - todos pertencem à mesma família. Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada. Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d'água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão. Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam


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esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu - como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto. Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende. Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum - os animais, as árvores, o homem. O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres. Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós - os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si. Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra - fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.


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De uma coisa sabemos. A terra não pertence, ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará. Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso. Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios desejos. Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será, quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravos domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver. Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Proteje-a como nós a protegíamos. "Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse": E


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com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração - conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.


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ANEXO 2 – Estrutura da Indústria Petroquímica Brasileira

Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b)


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ANEXO 3 – Estrutura da Indústria Petroquímica Brasileira

Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) (2007b)


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ANEXO 4 – Instrumento de Pesquisa – Perfil Ambiental da Empresa

Perfil Ambiental da Indústria Química 1. Ramo de Atuação: 2. Código(s) do Cadastro Nacional de Atividade Econômica (CNAE): Código: _____________________ CNAE 1.0 ( ) CNAE 2.0 ( ) Código: _____________________ CNAE 1.0 ( ) CNAE 2.0 ( ) Código: _____________________ CNAE 1.0 ( ) CNAE 2.0 ( ) Código: _____________________ CNAE 1.0 ( ) CNAE 2.0 ( ) 3. Classificação da Organização quanto ao Porte: ( ) Micro – até 19 empregados ( ) Pequena – de 20 a 99 empregados ( ) Média – de 100 a 499 empregados ( ) Grande – acima de 500 empregados Obs: Classificação CNI para pesquisas

4. ( ) Matriz ( ) Filial 5. Tempo de Existência da Organização (em anos e meses): 6. Tempo de Atuação no Município (em anos e meses): 7. Produtos Fabricados: 8. Possui uma declaração formal de valores e missão? Caso positivo, esta considera o meio ambiente? 9. Possui Sistema de Gestão Ambiental: ( ) Sim Tempo: __________ ( ) Não 10. Possui Alguma Certificação Relacionado a Área Ambiental? Qual(is)? 11. Nome e Descrição dos Cargos dos Profissionais Relacionados com a Gestão Ambiental: 12. Matriz Energética (descrever tipo e percentual de utilização): ( ) Gás Natural

- _____%

( ) Carvão Mineral

- _____%

( ) Lenha

- _____%

( ) Bagaço de Cana

- _____%

( ) Óleo Combustível

- _____%


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( ) Coque de Carvão Mineral

- _____%

( ) Hidroeletricidade

- _____%

( ) Carvão Vegetal

- _____%

( ) ______________________ - _____%