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SE PETER PAN FOSSE HOMEM BOMBA TODOS NÓS SERÍAMOS GAROTOS PERDIDOS


Personagens: Good Boy Fucking Blond Paralisia Cerebral Boy Nervous Man Paint Boy F.A.N.T.


(Um foco acende no centro do palco, vemos F.A.N.T. de costas para o público, ela segura uma cerveja long neck colada ao peito enquanto tenta acertar a música que quer num som vagabundo, finalmente ela acha, fica ao gosto do diretor, mas sugerimos Terrible Angels do Cocoroise, ou Only You do Portishead. Assim que a escolhe ela bebe um gole, dois de uma vez se estiver com sede, três de uma vez se a noite estiver uma merda para ela, ela começa a fazer um striptease sem jamais largar a cerveja, ela chora umas lágrimas, ela fica apenas de calcinha e sutiã, embora seja absurdamente linda, a coisa mais feliz em cena é a cerveja, fica ao gosto do diretor, mas talvez seja assim por toda a peça. Este foco apaga e outro acende, num dos cantos do palco vemos Good Boy lendo uma revistinha do Homem-Aranha.)

GOOD BOY – Eu nunca fui bonito, na minha vida toda eu nunca fui bonito, nem por dentro, nem por fora, eu nunca achei nada que me fizesse uma falta fodida, uma coisa que não me cansasse uma hora ou outra, só umas coisas babacas que uma hora ou outra acabam voltando, que são como a posição mais confortável pra sentar numa cadeira horrível, dessas cheias de design que não aceitam uma bunda na cara delas, a posição não melhora o fato da cadeira ser ruim, mas é a melhor posição que você acaba encontrando e uma hora ou outra você acaba voltando pra ela. Eu sempre aceitei uma bunda na minha cara, eu sou a cadeira velha que fica quando todo o conjunto de mesa e cadeiras da cozinha quebrou, aquela pra qual só uma bunda sorri. Eu nunca fui bonito e de repente uma bunda sorrindo foi o melhor que eu consegui e não é nenhum fodido que vai rir das minhas pernas arranhadas e das minhas costas tortas. Um cara com umas dores já coladas no álbum de figurinhas, mas que tem algumas repetidas pra quem quiser dar uns tapas em cima e tentar virar do avesso, mas quem quiser tem que saber que tem troco. Eu nunca fui bonito, e sempre tive umas mãos imensas que cobriam a cara toda, que cobriam tudo num tapa só. Uma vez eu tava olhando pra cima de dia e eu levantei uma mão pra tirar o sol dos olhos, quando eu olhei de novo eu tinha coberto o céu inteiro, dava pra ver tudo ao redor, mas o céu tava todo coberto, se eu desse um tapão naquela hora talvez ele virasse do avesso, mas eu baixei a mão, a posição era desconfortável. O céu é uma cadeira cheia de design, ele não quer nenhuma bunda em


cima dele. Vez em quando eu cubro o céu inteiro, eu tenho que mudar de posição porque é desconfortável, mas acabo repetindo uma hora ou outra, minha mãe me disse que no céu todas as coisas são bonitas, eu nunca fui, talvez por isso eu tenha mão grandes o suficiente para cobri-lo.

(Foco acende no canto oposto do palco, aparecem Paint Boy e Nervous Man, eles estão dividindo uma cerveja e jogando vintage videogame).

PAINT BOY – Ficar tonto na segunda cerveja é uma benção, é como morrer no meio de um boquete. NERVOUS MAN – Nem me fala, deve ser bom né?! Aquela boca bem aberta tentando engolir tudo, e o rosto ficando mais vermelho porque a respiração dela tá presa pra não engasgar, e a saliva pingando quente no saco. (Começa a esfregar as mãos como se quisesse esquentá-las). Deve ser bom pra caralho morrer numa hora dessas! PAINT BOY – Calma aí amiguinho, não vai brincar de confeiteiro aqui não, não tô afim de ver ninguém apertar o saco e deixar o glacê sair pelo biquinho. NERVOUS MAN – Vai se foder, você e o biquinho! Deixa eu te contar, sabe o que eu achei semana passada?! Eu acordei de pau duro e vi uma dessas revistinhas da turma da Mônica, era um almanaque da Magali. Cara vou te contar, tinham páginas e páginas dela com aquele bocão aberto, algumas dela com a boca aberta e a língua pra fora, eu não agüentei, é uma imagem perfeita, parece uma pequena boneca inflável feita pra principiantes. PAINT BOY – Nada pra você, não é Yoda? NERVOUS MAN – (Segurando o próprio saco) A força mais forte neste é. Só sei que fiquei uma tarde da minha vida imaginando se o traço do desenho da boca da Magali seria o mesmo debaixo daquele vestidinho amarelo.


PAINT BOY – Deve haver uma vala comum em algum lugar para pessoas como você, se não houver eu tenho ma pá no quintal, assim que você acabar de falar merda a gente pode começar a cavar.

(Foco no fundo do palco, Fucking Blond e Paralisia Cerebral Boy estão sentados numa calçada, o primeiro tenta acender um cigarro)

P.C. BOY – Voncê é ummmerda. FUCKING BLOND – Vai se foder, presta atenção velho! O que eu tô te dizendo é que às vezes eu me sinto meio fisgado. P.C. BOY – Como um peixe? Minhã vó dinz qu-eu pareçuuum peixe, pou causa do meu olho. FUCKING BLOND – Não, eu me sinto meio fisgado, eu não consigo falar do que importa, não o que importa pro mundo de merda aqui fora, eu não consigo falar de alguma coisa que fale de mim, nem com vocês, é só um monte de piadas, de histórias de bebedeira, às vezes acho que se ficar em casa por um fim de semana, eu vou me perder de vocês pro resto da minha vida e não vou conseguir dizer nada, nada que valesse a pena. P.C. BOY – Én que voncê fi/fi/fica com a canbeça enfiada noocu e naum vê que én iso que dá pra ser, ummmerda. FUCKING BLOND – Vai ver você tá certo mesmo. Não sei, mas pra mim funciona como um instinto de espécie, sabe essa coisa toda de fome no mundo, conflito religioso, chacina no morro, prostituição infantil, câncer terminal, mãe doente, filho com fome, polícia contra ocupantes, crime de ódio, e como a maioria das pessoas vê nisso uma coisa preocupante, mesmo que só esteja mantendo a merda da pose e fingindo um instante na frente da foto da menininha magricela cheia de mosca na cara, ou da menina estuprada no acostamento e morta com oito tiros, ou o cara morto pela torcida organizada rival, que foi decapitado com uma faca de churrasco, e depois teve a cabeça usada como bola de futebol, isso não me interessa, eu não paro nem pro arrepio de fingimento, eu continuo o que quer que eu esteja fazendo, nem que seja bater uma punheta na hora do jornal nacional, pra mim isso é todo


mundo se fodendo da melhor forma, e não é melhor por qualquer coisa do tipo “ele mereceu” ou “é o mundo hoje em dia”, isso não cola comigo, pra mim tudo vai acontecendo até o cara no telhado acertar a mira e PUM! Sua cabeça fica mais dividida que um arquipélago da Indonésia, sua casa vai parecer um campo de paintball com manchas em todos os móveis. Eu não sinto nada, tô pouco me fodendo pra isso tudo, só não me importo, como ignorar uma mulher enquanto discute, como tentar dormir porque já tá escuro, é um instinto natural, ignorar as pequenas coisas, ignorar o bicho geográfico subindo pro cu do mundo, grande coisa pra mim é derrubar uma garrafa pela metade, é nunca estar seguro por causa do batom que ela usa ou o jeito que a mão dela entra pela sua calça, é tragar o cigarro e não estar conseguindo mais colocar o trago todo pra fora num sopro só. P.C. BOY – Estuparam meirmão no ancostamento, ele mim/ mim/ mimchamou de retardado poque eu dinse que ele e_a ummmerda.

(O foco volta para Good Boy que agora está sentado na cama fumando um cigarro, F.A.N.T. sai do banheiro e procura sua bolsa, não a encontra).

GOOD BOY – Se manda daqui. F.A.N.T. – Quando é que você vai dar um jeito nessa porra dessa bagunça? GOOD BOY – Quando você se mandar daqui. F.A.N.T. – Por que você é sempre tão imbecil? GOOD BOY – Sobra menos pra eu me preocupar. F.A.N.T. – Eu não entendo porque você tá tão diferente comigo. GOOD BOY – Eu sei que isso não é nada inspirador pra uma mulher Alpha como você, mas não é por sua causa, você não tem porra nenhuma a ver com isso. Só tô sem um pingo de paciência pra ouvir ou contar historinhas, ou ver quem quer que seja, então se manda daqui! F.A.N.T. – Não é a primeira vez que você faz isso.


GOOD BOY – Que bom! Então quer dizer que o anjinho já tem treinamento, vamos colocá-la em período de experiência, você podia ficar lá fora hoje, do lado da porta, e receber os visitantes que vierem sentar no colo do Papai Noel e explicar que não é uma boa hora e que é melhor que saiam daqui! F.A.N.T. – Eu não devia nem ter voltado. GOOD BOY – Você voltou há um mês, depois de sumir por um ano e eu nem sei o porquê. F.A.N.T. – Porque a janela não tem trava e você nunca colocou. GOOD BOY – Pra quê?! Eu não tenho porra nenhuma, só umas cópias de livros, um colchão e um cinzeiro. E depois nem os ladrões aparecem por aqui. F.A.N.T. – Você tá puto comigo porque eu sumi? GOOD BOY – Eu não tô puto com você, eu não estou nem aí com o fato de você ter sumido, só tô afim de ficar por aqui, só. F.A.N.T. – Você é um merda, não sei porque eu acabei voltando. GOOD BOY – Às vezes eu acho que nós temos tanto em comum. F.A.N.T. – Eu te liguei e você não atendeu. Depois atendeu e largou o telefone, tudo o que eu conseguia ouvir do outro lado era o garçom perguntando se você queria coração de boi ou fígado acebolado pra acompanhar a cerveja, daí me pego pensando em que tipo de buraco você estaria naquela hora e de repente me peguei tendo a idéia imbecil de aparecer. GOOD BOY – É muito bom ver que a sua memória continua bem, é muito bom mesmo, eu não lembro de sentir um prazer tão brutal desde que... desde que você sumiu. F.A.N.T. – (Achando a bolsa e pegando-a) Você me obriga a ouvir cada merda. GOOD BOY – Mas eu não tô te obrigando a nada, se o motorista do táxi aceitar sangue ou órgãos humanos como pagamento, eu até te ajudo com o que tenho. (Curto silêncio. F.A.N.T. caminha até a porta e se vira para Good Boy). F.A.N.T. – Tô de saída. GOOD BOY – Entende uma coisa, eu só quero ficar só e esperar a madrugada se esticar em cima de mim e fazer o que ela sabe melhor: encher meu copo e me colocar na cama quando


tiver de saída. É isso, não tem uma revelação ou um segredo. Pensar numa lista de pessoas que chorariam vendo um filme lado b vagabundo sobre uma fábrica de whisky falso, escrever um Haiku ruim, que não tem conserto, sobre fumar debaixo do chuveiro: Os cigarros não acabados Todos apagados Entopem o ralo. Uma merda qualquer, um monte de hábitos sem sentido que se repetem porque além de não terem nada pra oferecer, não pedem nada em troca.

(Foco acende em Paint Boy, que continua jogando sozinho alguma coisa no videogame).

PAINT BOY – Essas bonecas infláveis novas, que tem todos os detalhes de uma mulher, são uma merda, elas estragam em um ano. Se é tão caro podia ser algo que durasse mais. Eu queria ter um pau de borracha com bateria interna, que não tivesse validade, daí era só colocar uns amortecedores mecânicos legais nos joelhos e nos calcanhares pro movimento ficar mais suave. Seria legal se ela tivesse aquelas unhas postiças enormes e cílios postiços, mas tinha que parecer uma menininha apesar do exagero, quem sabe se ela usasse aparelho, é pode ser, mas ela tinha que ter uns peitos imensos, um litro e meio em cada um seria legal, daí ela teria que usar aqueles coletes posturais, ele tinha que ser preto pra parecer com aqueles espartilhos. Eu sempre quis ter olhos azuis, eu ficaria melhor, um par de lentes azuis, dois pares, um pra mim e um pra ela, ela não pode já ter olhos azuis, mulher de olho azul tem cara de gato, aquela cara doída e escrota ao mesmo tempo. Se ela tivesse aquele buraco que você tem quando usa sonda, seria legal, sempre imaginei como seria meter ali, a gente podia aproveitar o momento e gravar tudo e tirar umas fotos e fazer um fotoblog. Eu acho maneiro esses apetrechos de sadomasoquismo, as roupas são legais, mas não curto apanhar não, mas sempre achei que pra quem gosta de sentir dor as roupas deles são bonitas e tudo, mas são muito falsas, sempre imaginei como seria se aqueles pinos de metal nas roupas de vinil fossem como aqueles pinos que os acidentados usam pra remontar os ossos, sempre imaginei como seriam esse pinos saindo do braço de uma gostosa dessas. Eu podia


ter um cronômetro digital, só o visor, na base do meu pau, aí eu ia poder saber se o meu tempo tá legal, se tô na minha marca, ele podia alarmar pra me avisar que eu já cruzei meu recorde, eu podia aproveitar e ligar ele num marca-passo, pra que caso eu me adiantasse ele controlar a pressão e impedir que acabe rápido, ela podia ter a boca com aroma de cerveja daí sempre que eu acabasse o serviço eu enfiava um beijo nela e ficava com minha cara colada na dela. Tem gente que acha isso doentio, porque ela não existe. Se ela existisse faria diferença?! A data de validade está na etiqueta de todo encontro humano, basta prestar atenção. Tudo que existe é perecível, basta achar a maneira de fazer com que aconteça. Vamos ver se você ainda acha que faz diferença.

(Foco vai para Fucking Blond que está com Nervous Man no canto oposto do palco, eles estão sentados num colchão sobre o chão).

F.B. – Não sei cara, eu simplesmente não consigo dizer, sabe quando você toma heroína e acha que está falando, mas no fim das contas não tá saindo nada. N.M. – Tem certeza de que não tá saindo, tenta de novo, como se você tivesse fazendo sozinho, num movimento repetido, até você conseguir colocar pra fora. F.B. – Sei lá cara, eu acabo não resolvendo nada do que eu quero, não é falta de vontade nem algo do tipo, é só que no fundo eu não me movo, eu tento fazer e nada, e o ato de querer é tão útil a qualquer tentativa quanto o amor é a uma lata de cerveja, os dois estão ligados em algum momento mais distante, mas são apenas dois desequilibrados tentando seguir um os passos do outro, um show cômico sobre a incapacidade instintiva de um cão parar de lamber as próprias bolas ou uma metáfora herdada da tosse de um fumante compulsivo ser idêntica aos sons arranhados dos gatos que tentam expelir da garganta uma bola de pêlos, um vício, um instinto, uma bobagem, começo a fazer qualquer coisa que queira, e mal inicio encontro um quadrinho velho ou um disco legal e fico com os dois, sem prestar atenção a nenhum deles também. Eu abro os olhos e de alguma forma penso, tem algo atrás da porta, está empurrando ela... e se quando eu tentar abrir de repente saltar no meu rosto, do nada, se eu abrir a porta e aquilo que escondido atrás dela simplesmente pular, eu não tenho medo, eu acho, eu vivo bebendo nos mesmos bares, um itinerário fixo,


e ando por aí pra encontrar comida barata de madrugada pra que a ressaca não caia tão pesada no outro dia, sabe eu faço algumas coisas e de certa forma quero fazê-las, mas fazer e querer não dão em nada. Eu acabo sempre encrencado com um monte de coisas que eu não coloquei no lugar há tempo. N.M. – (Ensaia movimentos de masturbação) Não se preocupa em colocar em lugar nenhum, tenta ver que está em suas mãos e é você quem tem que mover isso, você vai saber como e vai querer fazer de novo e de novo e isso vai se tornar natural. F.B. – Eu sinto que o problema é que eu falo demais, não alguma coisa importante, eu sirvo de espelho para alguma realidade vencida, para uma representação sórdida de um canastrão que atiça o cachorro para que ele o morda e o público possa rir, eu sou um câner que me matou no útero, um apanhado de desordens, um boneco que dubla piadas que viu em filmes ou que ouviu nas estórias de outras pessoas, mas aquele que fala mesmo, está do outro lado do espelho, um idiota anônimo, o anonimato em si, o cara na frente do espelho que está sendo dublado. N.M. – Você pensa demais nesse outro lado, não precisa dar atenção a isso, se coloca no seu lugar, segura firme a situação e não a deixe escorrer entre os seus dedos, de algum jeito pelo próprio hábito algum prazer acontece em tudo isso, embora seja tão imediato quanto repetido. (Curto silêncio) E então, vai fazer o favor que eu te pedi. F.B. – Claro velho, sem problema. Amanhã eu dou um pulo lá no bar e falo com ele.

(Foco acende em P.C. Boy)

P.C. Boy – Umo dia eu tavaaa comaminhamãe, eun tava na banrriga da mmminhamãe.m~eu pai chengooo puto din raiva eim casa.meinha mãe foi brigar coum ele, ele finco calado e naum disse na\na\nada. A mãe fincava dinzendo quin ele tinha que ter avisado quin ia voultatarde, quein ele ta---va fendendo a bebida. Un pai fincou ca\calado, dinsse que ia prou banho.~Ela falô pran o pai í pra cozinha, pra cozinha quin o jantar já tava elado na mesa. Eun tava bein caladinho na banrriga da mmminhamãe, ninguéin tin-a falado commigo. MMMinhamãe continuoum berrando coum o pai mensmo depois quin ele fõi


commer a janta na cozinha canlado i-ual a mim, mas tavam fanlando cu ele, a mãe tanva berrando, meun pai fincou puto e pegou a cand\cand\candeira e deu na barringa da mãe, ele banteu na barriga dela e euntava lá dentro, un pai que-ia quin eu tivesse dinto al-uma ôisa, mais eunnaum sabia o quin e\e\era, eile fico iperando, eile deixô a mãe lá nun chão, eile ficou iperando até de ma-in-nhã. Foi quando meinha vó gegou, ela conmeço a berrar com un meu pai e me lenvou comamamamãe pro hospital, me tiraram de lá de dentro e eun finquei calado, aí eun num sabia um que vazer e demorei um bom tempo mas jorei, mas eiles tiveram de me colocar nu aquário, a vó dinz quin é po isso qui eun naum falo di-eito, poque como eun num jorei eun finquei muito tempo num aquário, minha bo\bo\boca fico iual a dum peixe, é por isso que eun falo assim, uando eun naum sei o quin dizer eun joro que é pra ninguém mim bater, pra saber que eu tô ouvindo e son naum tenho o quin\quin\quin dizer.

(Foco – Fucking Blond e Good Boy estão sentados na sala de uma casa. Há um pequeno pacote de heroína na mesa e ambos estão com os cintos afivelados em seus respectivos braços).

F.B. – Meus olhos estão fervendo. G.B. – (Passando o pico) Vai ficar pra amanhã. F.B. – Tá beleza... (injetando) cara eu queria poder explicar isso, que sensação fodidamente boa. Já cansei de acordar com a cabeça na privada do bar depois de um pico desses e mesmo assim a primeira coisa que me dá vontade de fazer é rasgar um riso no meio da cara. G.B. – É uma sensação boa, desde pequeno eu acho isso, quando eu era menor eu prendia a respiração enquanto lia o seu amigo de sempre o Homem Aranha. Eu prendia até quase explodir e daí soltava tudo de uma vez e olhava pra revistinha, e tava lá o homem aranha voando, ou eu completamente tonto, eu sempre preferi ver como o Homem Aranha voando. Depois eu descobri como fazer aquilo com a acetona da minha mãe, eu abria o vidro e puxava com o nariz e com a boca, já era eu e não mais o Homem Aranha voando. Depois veio o melhoral, ácido acetil salicílico, eu fingia que tava com febre e minha mãe me dava


um e deixava a cartela do lado da cama pra quando viesse me dar outra dose, um dia ela demorou e eu tomei outro, nesse dia a febre era real e deu quinze minutos fui lá e tomei outro e mais outro, acabei tomando uns oito de uma vez, eu podia ser o Homem Aranha boa por horas a fio. Minha mãe acabou descobrindo e depois disso ela passou a guardar os comprimidos fora de alcance, ela me disse algo, algo que nunca vou esquecer, algo que deixou uma cicatriz em mim, afinal eu venho de uma família católica e para os católicos é para isso que Deus serve, para deixar cicatrizes em criancinhas. Ela me disse que cada comprimido era um pedaço de Deus, que ele tinha quebrado do próprio corpo para nos curar. Eu perguntei como Deus ainda tinha um corpo, se tantas pessoas tomavam remédios seu corpo deveria ter desaparecido. Minha mãe me disse que ele pegava aqueles que tomavam remédios demais sem precisar, e tomava os seus corpos para refazer parte do dele. Ela disse que se eu continuasse tomando os remédios sem precisar Deus tomaria meu corpo, e quando outras pessoas precisassem de remédios eram pedaços de mim que ele daria, pedaços de mim! Uns anos depois eu comecei a fumar e a beber, o pessoal me dizia que sempre que eu tava nas últimas eu falava da minha mãe, contava que ela tinha sumido um dia e me largado na frente da escola, me largado de vez, por isso a galera começou a me chamar de Good Boy, porque sempre que eu tava nas últimas eu contava essa estória sobre a minha mãe, sobre como eu esperei tanto tempo. Descobri no jornal que ela se suicidou, overdose de pílulas para dormir, ao menos é o que dizia na matéria, estampada com uma fot do corpo ela deitada de bruços numa poça de vômito. Sempre que eu tomo ácido eu lembro da minha mãe, como se tivesse tomando um pedaço dela. (Curto Silêncio) Eu tenho toda a coleção do Homem Aranha naquela caixa ao lado do colchão, mas eu nunca mais fui o Homem Aranha, às vezes abro uma revista velha e prendo a respiração, eu fico tonto e tudo, mas eu não consigo ver o Homem Aranha voando de novo, é só uma imagem um pouco embaçada, talvez eu não tenha mais fôlego suficiente, talvez seja o fôlego, tenho quase certeza que deve ser (toma outro pico).

(Fucking Blond começa a rir descontroladamente)

F.B. – Cara... olha isso... um braço meu tá quente e o outro gelado, completamente gelado.


G.B. – (Sarcástico) Você quer que eu ligue pros jornais agora... F.B. – (Letárgico) Mas é muito louco velho... eu ri... tanto que fiquei até tonto. G.B. – Pega lá uma revistinha.

(F.B. sorrindo se arrasta bem devagar até a caixa e pega uma revistinha)

G.B. – Procura uma página em que ele esteja voando pendurado entre os prédios.

(Fucking Blond começa a procurar entre as páginas e aparentemente desmaia).

G.B. – Velho, o que foi? (Curto silêncio) Fala alguma coisa porra! (Curto silêncio) Fala seu puto!

(Good Boy se levanta e vai até Fucking Blond)

G.B. – (Dando tapas na cara de F.B.) Qual é cara, vai abre os olhos! Bora irmãozinho, volta a rir seu filho da puta! Puta que pariu, não acredito nisso. F.B. – (Sorrindo e cantando) Cuidado ele é o Homem Aranhaaaaa. G.B. – (Puxando uma arma da calça e apontando pra cabeça de Fucking Blond) Vamos lá então Homem Aranha! Voa! Quero ver agora, vamos lá! Voa! F.B. – Qual é cara! Não tem para quê isso velho, tava só zoando contigo. G.B. – (Baixando a arma) Eu sei... desculpa aí. F.B. – Pô cara, baixa isso. G.B. – (Sentando-se no colchão) Não grila não, ela nem tá carregada. Senta aí.


(Fucking Blond se senta aliviado na cadeira)

(Foco em Paint Boy que conversa com Nervous Man, enquanto joga videogame)

P.B. – E aí cara, você passou lá? N.M. – Passei sim e falei com ele, tá confirmado. Ele vai passar por lá daqui a pouco. P.B. – Que bom! Fica mais fácil até dele trazer mais, já que ele conhece o Good Boy desde moleque, quem sabe ele não negocia uma quantidade melhor. N.M. – Se ele tiver sorte, quem sabe... P.B. – Que aconteceu contigo cara? N.M. – Sei lá, a conversa com ele foi esquisita pra cacete. P.B. – O que ele te disse? N.M. – Ele só tava esquisito, falou que não queria ou não conseguia, eu não me lembro bem... não conseguia... não queria... enfim, que não podia falar do que importava pra ele. P.B. – Porra! De novo esse papinho! Não tenho saco pra essas coisas, a gente fala do que dá e enquanto dá, se tiver saco. Quem guardou o sono ou as palminhas pra depois de ouvir se fodeu, e foi bem feito. Ah velho! Ele tem que entender que não dá pra esperar vomitar leite depois de beber uma garrafa toda de whisky, ele tem que entender que você não pode foder a vida do mesmo jeito que ela te fode, você é pequeno demais e você se vira como pode, se molda quando o cerco fecha. A vida encolhe, às vezes ela junta tudo que tem e dispara, uma bala só e tá tudo dito. Ela fica imensa, ela não se levanta nem se move. O que a gente tem da vida é só a capacidade de encolher. A gente não se molda não, não nos termos que se aplicam, a gente vai cortando uns pedaços para encolher, vai empilhando em outros lugares, vai servindo pra alguém, perdendo os pedaços, perdendo-se com o tempo, os pedaços vão sendo arrancados pra que a gente possa continuar entrando, continuar cabendo na vida, na nossa vida, mas a gente não tem a mesma capacidade de crescer, nunca é impossível mover a gente, basta um cano empurrado contra a cabeça, um empurrão e a gente se move, não importa pra onde a gente se move. “Pra onde?” é uma questão de tempo, não é fácil perder


tempo, não é fácil perder a maioria das coisas, a gente se mete onde dá e fica, se encolhe para caber, mas a gente só fica lá até o cano da arma voltar a encostar na cabeça e voltar a apontar pra gente de novo e foder tudo. Perder tempo exige prática, um bom treino, madrugadas sem sono. A vida é isso aí, prática em perder tempo. N.M. – Eu aproveito meu tempo do melhor jeito que posso, quando você tá sozinho coisas estranhas passam pela sua cabeça, coisas comuns na verdade, que você olha mais de perto, por mais tempo, o estranho é como isso acaba mudando você no meio do caminho, e quando o carro capota com você dentro, não é exatamente uma montanha russa de parque de diversões, quando o carro capota tudo ao redor se estilhaça e amassa ao seu redor, espremendo você enquanto eleva vôo, no parque vocês só voam juntos, seguros e ilesos, há uma linha que separa isso. Diversão e dor, um ciclo imperfeito, ou como diriam os mais bêbados, sexo e morte, alívios inevitáveis. O estranho é como isso acaba mudando você. P.B. – Eu vi ontem na TV uma notícia sobre uma menina que ficou presa na roda gigante, eles conseguiram resgatar o resto das pessoas e ela foi ficando, num certo ponto os bombeiros perceberam que não havia uma escada grande o suficiente pra chegar até o acento em que ela estava. Então começaram a pensar num outro jeito de tirar ela de lá, eles não tinham nada preparado, o único jeito era subir na roda gigante depois que acabava a escada pra chegar até ela, no fim das contas ela acabou escorregando na volta até a escada e caiu, a morte foi automática, o impacto deve ter transformado o corpo dela numa poça no chão, ao lado do vômito de todas aquelas crianças assustadas girando na roda gigante. Não havia nenhuma escada grande o suficiente, a maldita roda tava lá há um tempão, e não tinha nenhuma merda de escada daquele tamanho, ou um segundo plano qualquer. Podia dar errado, um dia a roda podia travar, talvez já tivesse passado pela cabeça de alguém que uma merda dessas fosse acabar acontecendo, mas é melhor achar que não acontece, que não tá por perto, e comprar mais um ingresso, pegar um lugar melhor na roda e torcer pra estar onde a escada alcança, pra estar a salvo.

(F.A.N.T. entra em cena)

P.B. – E aí maninha?


F.A.N.T. – Como é que você tá? P.B. – Levando, e você? F.A.N.T. - Empurrando a vida pra ver se pega da terceira pra quarta marcha. P.B. – De onde você tá vindo a essa hora? F.A.N.T. – De uma festa de boas vindas. P.B. – Pra quem? F.A.N.T. – Quando eu descobrir eu te conto. P.B. – Senta aí. (F.A.N.T. senta) F.A.N.T. – O que porra vocês estão fazendo a essa hora na frente da TV? N.M. – A gente já pagou e agora tá esperando uma encomenda. F.A.N.T. – Se vocês tivessem dito antes eu tinha dado alguma coisa também. N.M. – Além de não ter dado, por que o mau-humor? F.A.N.T. – Não sei, é que quando você some por um tempo você espera que as coisas mudem, que sem você por perto elas avancem um pouco, mas parece que dá na mesma, de qualquer maneira não era você que estava atrapalhando ou ajudando qualquer coisa, você descobre que “Você” é só uma desculpa que você usa pra prestar ou não atenção nos outros. N.M. – (Passando o controle para Paint Boy e ficando de pé) Vou ao banheiro. P.B. – Cuidado lá hein! N.M. – Fica tranqüilo, nem eu consigo fazer nada no teu banheiro com aquele cheiro, e olha que a última vez que você foi à minha casa você chamou o meu banheiro de “o masturbatório” por causa do cheiro de... bem, deixa isso de lado (Nervous Man sai). F.A.N.T. – Amanhã tô saindo daqui. P.B. – Já e de novo. F.A.N.T. – Fiz merda em ter voltado. P.B. – Você só percebeu agora?


F.A.N.T. – Como assim? P.B. – As ligações, os buracos, o fato de ele nunca retornar as ligações. Você sumiu porque achou que faria falta pra ele, e até deve ter feito, mas ele não morreu por isso e nem vai, porque você não é no fim das contas aquela coisa que não se recupera. Você se mandou, mas foi só os pombos comerem a trilha de migalhas de pão que você voltou pro lugar mais próximo que você conhecia. F.A.N.T. – Sempre que a gente transava e eu dormia, ele levantava da cama e acendia um cigarro e ficava com a cara enfiada na abertura da janela soprando a fumaça, eu acordava às vezes e ficava olhando pra ele, e ele percebia e sabia, mas nunca devolvia o olhar, ele nunca virava a cara e quando virava fingia que eu não estava lá. Quando a gente tem alguém por perto é bem assim, só uns pedaços, só umas partes são necessárias, mas aí ou a gente insiste em querer todos os pedaços, e quem o faz insiste pra que o outro retribua, aí é que tudo vem abaixo, que a porcaria toda fica a espera apenas do encaixe do detonador. As pessoas deveriam aprender mais se olhando no espelho, chegar em casa, arrancar a roupa, parar na frente do espelho e olhar aquilo tudo inchado e suando, mas aí é que tá o ponto, se você quer ver o rosto você focaliza-o e todo o resto além do limite do rosto se torna periférico, uma coisa parcial, disforme, e mesmo assim nem dá pra sacar o rosto todo ao mesmo tempo, só uma parte, e o que já era parcial antes já cai para terceiro plano, e sempre há algumas coisas mais próximas que você desconsidera e outras mais longe que você já nem nota. É bem ridículo tudo isso, mas tecnicamente só dá pra ver uma coisa só quando o foco aumenta tanto que você já não sabe o que é a coisa, e ainda há o resto que continua parcial, e então se empilham juntos um do outro sobre a mesma parcialidade: o que não dá pra saber de perto e o que não dá pra saber de longe. As perspectivas não me animam. Quando eu me olho no espelho, eu escolho os pedaços, as partes, e quanto mais eu tento chegar perto de algo que eu possa realmente ver, mais ridícula eu me sinto, ou mais ridícula eu assumo a condição. O que sobra é escolher o que é ridículo num foco e o que é parcialmente ridículo segundo este. Eu sempre entendi quando o cara do tempo no jornal fala “parcialmente nublado”, nosso pai vivia gritando “Que merda é essa de parcialmente nublado, ou está, ou não!” Embora pareça uma coisa sem sentido, é sempre uma questão de onde o foco se coloca. Quando eu abria os olhos e via ele de pé na janela fumando seu cigarro na janela depois de transarmos, era isso, dependia do foco, quase sempre eu tentava


enxergar o rosto dele ver se ele me olhava de algum jeito, mas quase sempre o rosto dele estava enfiado na abertura da janela, e o que eu via era a janela, só a janela, nesse momento tudo o que eu podia ver e que fazia parte dele era apenas parcial para mim que tentava ver o rosto dele, os olhos dele. Quanto mais perto ele ficasse ou eu ficasse dele, ou deixássemos um ao outro ficar, era apenas essa a sensação, eu só me sentia mais ridícula tentando realmente ver algo cada vez mais borrado. Se naquele momento ele decidisse virar o rosto do nada e me visse, escolhesse me ver, e olhasse pra uma parte de mim, o que ambos teríamos com todo o esforço possível era um espelho com algo num foco ridículo e algo parcialmente ridículo, ser íntimo de outra pessoas deve ser isso, não sei. P.B. – (Curto silêncio) O Good Boy é um cara na dele, é aquele tipo de cara que você olha nos olhos e sabe que ele é tão fodido, que se você perdesse um braço ou uma perna, ou os dois, pra salvar o cara, ainda sentiria que ele não te deve nada e que falta pouco pra ele te dizer isso e te expulsar. F.A.N.T. – Foi por isso que eu voltei no fim das contas, eu me mandei de cidade em cidade, on the road, into the wild, e no meio do vazio, na estrada de uma cidade que eu não conhecia pra outra, a única coisa que me servia pra marcar o caminho de volta na memória era a cara de fodido dele. P.B. – É mana, você nunca teve dedo bom pra homem, sua mão para escolher algo é tão ruim, que se você tivesse uma cesta com maçãs e enfiasse a mão pra puxar uma, você não puxaria uma podre, você demoraria tanto pra escolher uma, indecisa, indo pra perto e pra longe da cesta, que no fim o que você faria era escolher a menos podre. Foi assim com o Good Boy, foi assim com o outro antes dele, foi assim no café-da-manhã, foi assim quando você escolheu essa roupa amassada de manhã. F.A.N.T. – Ei! Olha aqui bem perto do meu rosto que eu acho que ainda sobrou um ponto que você não acertou quando me arrebentou aos chutes com essa. P.B. – Deixa pra lá maninha, você é uma garota legal, dessas que gostam da nova MPB e fumam cigarro mentolado. (Curto silêncio) Cadê o cara do banheiro?

(Foco acende no outro hemisfério do palco, Nervous Man está no banheiro).


N.M. – Uma punheta para os mesmos bares, um punheta para os mesmos dias, uma vontade de gozar na cara do mundo, pra ver se quando ele tirar a porra da cara ele acaba limpando o resto, uma overdose alugada num quarto invencível, um medo nos ossos de estragar com um motivo, com um sentido, o pouco que tem pra se dizer, se estrepar, se recuperar, se estrepar, se imaginar voltando. Uma punheta para todas que são loiras apenas em cima, uma punheta pra todos aqueles em pó, em pedra, em cápsula, em maço. Uma punheta para o aluguel barato com água e luz incluso, e mais tudo que se incluir por pouco, por menos. Uma punheta para as mulheres sorridentes nos rótulos dos shampoos. Uma punheta com o braço dormente, como se fosse outra pessoa. Uma punheta pra todas que dormem de boca aberta e que babam, que são o parque aquático da insônia alheia. Uma punheta no engarrafamento pra que Deus não tenha só fumaça pra engolir. Um, dois, três, quatro, cinco, quando o branco diminui e tudo fica mais transparente. Uma punheta pra zerar a quilometragem da vida pela terceira vez, pra apostar nas cartas erradas pela quarta vez. Uma punheta na sala de espera do pouco que se tem pra dizer, sem evitar se repetir, nem piorar. Eu julgo a coisa que eu vejo, se fosse para julgar o trajeto eu seria maratonista, eu sou uma punheta: nas mãos. Agora. Uma vontade. Uma imagem de algo que realmente não está aqui. E de repente tudo vira do avesso, quando o que estava dentro sobe aqui pra fora só porque eu quis, algo pra mim só porque eu quis. O branco diminui e tudo fica mais transparente.

(Foco acende em Good Boy e Fucking Blond)

G.B. – Às vezes eu acho que não me lembro mais como podia ter acontecido, aquele monte de coisas que eu quis há muito tempo, e que agora só me fazem uma falta imbecil, como se faltasse algo antes de eu me convencer que não queria mais mexer com as mãos limpas na minha vida. F.B. – Eu senti isso uma vez, e eu achei que podia ter sido a pior coisa do mundo, o que a gente não entende é que o pior é como tudo. (Good Boy dorme derrubando a arma da mão, F.B. a apanha e passa a mirá-la pelo quarto durante o resto dessa seqüência). O pior é que


tudo pode ser mais, sempre que eu estou vendo um filme, eu faço um milhão de coisas ao mesmo tempo, e fico pausando e pausando, e olhando pras cenas congeladas, pensando se eles sufocarão algum dia ou quanto o filme precisa esperar pra que eu possa vê-lo por completo, se eu pudesse fazer isso com outras coisas, eu não sei como seria, talvez depois de ter parado tudo por tanto tempo eu nem conseguisse lembra o que eu tinha que fazer, ou o que eu queria com aquilo tudo, minha vida tem se mantido no pause, já faz algum tempo que é assim, uns cenários repetidos, um roteiro barato pra rodar. É por isso que eu não consigo ver o filme inteiro, eu pauso uns pedaços e às vezes fumo uma carteira de cigarros inteira e vou dormir vendo a cena travada na tela e no display do aparelho, eu anoto o tempo algumas vezes para saber pra onde voltar ou adiantar. (Olhando e apontando a arma para Good Boy) Puta merda Good Boy, onde você descola essas coisas cara? Eu nunca ia achar que você tinha um desses em casa, lembra a gente moleque com aquelas pistolas de água vagabundas. Lembra que uma vez a gente tava brincando por aí com elas e eu acabei acertando no seu olho, você ficou puto comigo e me enfiou a mão na cara. Eu me sinto mal por isso ainda, só às vezes, e nem é pelo que aconteceu, é a sensação estranha que me deu naquela hora, você me bateu e foi exagerado e tudo, mas eu fiquei mal pra cacete por você, o jeito que você ficou quando separaram a briga, era um choro doído, você parecia o moleque mais fodido do mundo, parecia que eu tinha tirado tudo de você. (Aponta a arma para o olho de Good Boy) Aí hoje você me aponta isso e se desculpa em seguida, e voltou tudo isso, como se tivesse pausado aquele dia nesse ponto, e só hoje a coisa tivesse voltado a se mover de novo. (Puxa o gatilho estourando a cabeça de Good Boy. Longo silêncio) CARALHO! Caralho, caralho, caralho, caralho, caralho, caralho, caralho, caralho, caralho. Que merda seu filho da puta, você não disse que essa porra tava descarregada, olha aí seu veado mentiroso... eu não acredito... eu não acredito. (Sentando-se no chão ao lado do corpo com a arma na mão).

(Foco acende, estão Paralisia Cerebral Boy, Paint Boy, e Nervous Man sentados bebendo de frente para o jogo pausado na tela da TV).


N.M. – Porra cara! Não tem um copo limpo na tua casa. Leva a mal não, é que o babão aí (Apontando a garrafa para P.C. Boy) põe meio litro de saliva dentro da garrafa sempre que dá um gole. P.B. – Velho, não tem copo limpo não, se você quiser vai lá, encosta a barriga na pia e manda bala. E a gente não estaria aqui bebendo esse Hi-Fi de cuspe e vodca, se você tivesse acertado tudo direito com nosso confiável amigo atravessador. P.C. Boy – Min dá um poco. N.M. – Vai tomar no seu cu! Vocês já me encheram o saco com essa conversinha. Eu já disse que acertei tudo com ele, com os dois, já era pra estar aqui, mas não está e vocês querem que eu faça o quê?! Se vocês quiserem eu tiro as caspas do cabelo, ponho numa colher e derreto pra vocês se picarem. P.B. – Não enche o saco também! Sei que essa merda é coisa daqueles dois, que devem estar dormindo um do ladinho do outro, fazendo depilação à sucção, com a boca no saco um do outro e injetando pico na veia. Que saco, deixa só eu encontrar esses putos amanhã. P.C. Boy – An gente naum tem outra coisa pra be\beber, ensa voca tá um lixo. N.M. – É vodca seu merda. P.B. – E só tem isso mesmo, faz um mês que tá largada por aqui, mas é tão vagabunda que sempre que eu decido tomar um porre ela escapa com vida. P.C. Boy – Voncê tem acetona? P.B. – Porque diabos eu teria acetona em casa seu animal.

(F.A.N.T. passa pelo fundo da sala).

P.B. – E aí, já tá saindo? F.A.N.T. – Ia esperar mais um pouco, mas decidi me mandar logo. Vocês ainda estão esperando a tal encomenda? P.B. – Pra você ver. Não tá levando nada, mala e o escambau?


F.A.N.T. – Deixa isso tudo por aí, se um dia eu pisar por aqui já tenho o que vestir, e como você anda só usando esses trapos aí, se quiser pegar algo emprestado fica à vontade. P.B. – Pra mim não precisa não, mas tenho uma boneca inflável que ia ficar linda vestida como você. F.A.N.T. – Tá bom, já deu! Tô me mandando antes que você decida fazer uma explicação prática da sua vida na cama. P.C. Boy – Voncê tem acetona? F.A.N.T. – Pega lá no meu quarto, tá em cima da cama. Tô indo maninho. P.B. – Se cuida.

(Paralisia Cerebral Boy sai de cena e volta rapidamente com o pequeno vidro de acetona na boca, puxando e puxando).

N.M. – Ô! Vê se pelo menos você lembra que tem amigos te esperando. P.B. – Passa isso pra cá. (Toma para si o vidro de acetona e começa a cheirar). N.M. – (Após cheirar, deitando no colchão) É bom né? P.C. Boy – Panrece quin voncê tá vuano.

(O foco acende em Fucking Blond, ele está sentado no mesmo local, com o rosto inchado devido ao choro extenso, a arma está no chão e ele segura uma ponta do cinto na boca criando pressão no braço. Com a outra mão empunha a seringa e se pica. Good Boy está em seu colo, com a cabeça completamente ensanguentada, morto).

F.B. – Tudo aquilo voltou, aquela cara que você fazia como se eu tivesse tirado tudo de você, como se eu tivesse atirado uma bala de verdade na sua cara ao invés de água. (Blackout. Luzes retornam, Fucking Blond abraça Good Boy) É assim, tão imbecil que acaba sem dor nenhuma, você dormindo, voando pelos prédios da cidade alguém apaga a luz e não


acende de novo. Um silêncio sem sentido de uma explicação que nunca acontece, uma falta completamente previsível: do que dizer, do que fazer. (Fucking Blond tenta colocar um gole de bebida na boca de Good Boy, derramando na tentativa tudo sobre seu rosto) Feliz aniversário velho amigo... é... é... é... Não sei cara, eu simplesmente não consigo dizer, sabe quando você toma heroína e acha que está falando, mas no fim das contas não tá saindo nada. (Black-out).

Se Peter Pan Fosse Homem Bomba, Todos Nós Seríamos Garotos Perdidos  

Peça teatral do performer, diretor e dramaturgo André Bezerra (24), residente em Natal-RN. A peça em questão constrói a composição de divers...

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