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“a dívida impagável: lendo cenas de valor contra a flecha do tempo”

denise ferreira da silva


“a dívida impagável: lendo cenas de valor contra a flecha do tempo”

O transtorno começou bem antes do 9 de julho de 1976, quando o percebi, mas 9 de junho é o dia do qual me lembro. Era meu aniversário de vinte e seis anos. Foi também o dia em que encontrei Rufus – o dia em que ele me chamou para si pela primeira vez. - Octavia E. Butler1

denise ferreira da silva Quando se encontram pela primeira vez, Rufus é uma criança, um menino de no máximo 3 ou 4 anos, se afogando no rio enquanto à margem, sua desesperada mãe gritava por socorro. Quando Dana finalmente rompe o vínculo matando-o, Rufus é um homem que herdou a fazenda e os escravos de seu pai, e que decidiu agir como dono de escravos forçando-a a ser sua amante. Por seis vezes Dana é forçada a voltar no tempo para a Maryland do pré-guerra Civil dos Estados Unidos da América do Norte, para salvar a vida de Rufus; algumas dessas jornadas são breves, outras parecem durar o tempo de toda uma vida. E de certa maneira, é isso. É o tempo da vida de Rufus. Contudo, é também o tempo de vida de Dana: sua estendida e expandida vida intemporal, que perdura através da escravidão e para além de sua ordem, estendendo para sempre a obrigação de manter o donoantepassado vivo. Notavelmente improvável, o fardo de Dana na novela Kindred de Octavia E. Butler é historicamente incompreensível. Toda vez que a escritora afroamericana de ficção científica posiciona Dana no passado para salvar a vida do *O conceito de dívida impagável foi introduzido em Paula Chakravartty e Denise Ferreira da Silva, “Accumulation, Dispossession, and Debt: The Racial Logic of Global Capitalism – An Introduction,”, American Quarterly 63, no. 3 (setembro de 2012). Este texto foi inicialmente escrito para uma apresentação no evento “O tecido do Capitalismo”, realizado no dia 4 de novembro de 2016, na série “Apatride Society and the Political Others: Integrated World Capitalism and the Ithageneia Condition Coordenada por Max Jorge Hinderer Cruz, Nelli Kambouri, and Margarita Tsomou, e parte do programa

publico de Documenta 14, em Atenas. Esta tradução esta baseada na versão ampliada do texto que foi publicada em Quinn Latimer and Adam Szymczyk (Eds). The Documenta 14 Reader. Munique and New York: Prestel Publishing. Gostaria de agradecer Quinn Latimer pelos comentários e sugestões na versão em inglês e a Amilcar Packer por traduzir o texto para o português. 1. Octavia E. Butler – Kindred (Boston: Beacon Press, 2004), p.12. Em português, Octavia E. Butler - Kindred: Laços de sangue. Editora Morro Branco (São Paulo, 2017).

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senhor-proprietário da avó de Dana, sua heroína perfoma uma ação que preserva

Seguindo a pista de Kindred de que separabilidade, determinação e sequencialidade

o seu presente, sua própria existência. Toda vez em que ela reverte a flecha do

sustentam o conhecimento do que acontece na atualidade (como é acessado pelos

tempo – como o que se tornou aquilo que permite o que aconteceu, ela viola os três

sentidos), mas não em virtualidade (como é acessado pela intuição), é possível imaginar

pilares onto-epistemológicos (a teoria do conhecimento, a teoria do ser e a teoria da

implicações profundas, isto é, conexões que excedem o espaço-tempo. Em se tratando

prática) – a saber, separabilidade, determinação e sequencialidade – que sustentam

disso, a improbabilidade da tarefa de Dana, (manter Rufus vivo) e sua resolução (matá-lo)

o tempo linear.2

desaparecem, assim como sua intuição descobre que sua dívida com Rufus, sua própria vida, não recai somente sobre ela. Apesar de Dana não ter determinado a sua própria vinda

Certamente, toda vez que Dana retorna à Maryland do pré-guerra civil, ela rompe

4

à existência, manter-se viva é de sua responsabilidade, seu fardo – isto é, é algo que ela

a separabilidade; vivendo como escrava, sua existência atravessa o tempo linear.3

possui ou tem. Apesar de Rufus manter-se vivo ser necessário para a sua existência, o fato

Ainda que, não sem custos. As fixidezes do tempo-espaço formal assumem diferentes

dele ser o dono dela é também uma ameaça direta à sua vida. Matando Rufus, Dana liberta-

formatos, incluindo a própria parede na qual seu braço fica preso durante sua última

se de uma obrigação que não lhe cabia, porque na atualidade (no espaço-tempo), devido ao

viagem de retorno do passado, após ter esfaqueado seu dono-antepassado, quando

tempo linear, não se é responsável pela existência do próprio antepassado. Mantendo-se

ele tentava violenta-la. Porém, parte dessa incompreensibilidade desaparece quando

viva, contudo, Dana permanece endividada aos seus antepassados porque, novamente

se nota como Kindred reencena determinação e sequencialidade. Toda violação da

na atualidade, devido ao tempo linear, eles são responsáveis pela sua existência. Quando

separação do tempo-espaço, pelas viagens de Dana contra a flecha do tempo, é

Rufus, seu pai-dono a ameaça com violência total (estupro e morte), ela paga a dívida –

determinada por uma ameaça à vida de Rufus; cada uma segue a sequência linear de

liberando-se da obrigação de mantê-lo vivo; ela rompe paradoxalmente a relação pela

seu tempo de vida. Apesar disso, embora a vida de Rufus determine a sua relação –

necessidade de autopreservação. Eticamente, a dívida de Dana é uma dívida impagável:

que se desdobra espaço-temporalmente na Maryland do pré-guerra Civil dos Estados

é uma obrigação moral que carrega, mas que não deveria ter que saldar, pois a relação

Unidos da América do Norte – a obrigação de Dana somente faz sentido se, ignorando

que essa reconfigura é mediada por uma forma jurídica, um título, o que não se aplica às

a separabilidade, a intuição liberta a imaginação para mover e apreender a implicação

relações entre pessoas (parentesco ou amizade), isto é, entidades morais modernas (iguais e

profunda (o nível quântico do emanharamento) de tudo o que aconteceu e ainda está

livres). Economicamente, a dívida de Dana é impagável, já que a forma jurídica do título que

porvir na existência espaço-temporal.

governa a relação econômica (propriedade) dono-escravo autoriza o uso da violência total de modo a extrair o valor total criado pelo trabalho escravo, o que resulta em descendentes de escravos existindo em escassez. Então, sim, Dana deve (eticamente) a dívida que não

2. Para uma melhor explicação desses pilares, vale referir-se a Denise Ferreira da Silva “Sobre Diferença sem Separabilidade”, 32a Bienal de São Paulo: Incerteza Viva, ed. Jochen Volz e Júlia Rebouças, catálgogo da mostra, Fundação Bienal de São Paulo (São Paulo, 2016) pp. 57-65.

3. Para uma contextualizaçãoo do uso de transversalidade ver Denise Ferreira da Silva “Toward a Black Feminist Poethics: The Quest(ion) of Blackness Toward the End of the World,” The Black Scholar 44, no. 2 (Summer 2014), pp. 92–94.

cabe (economicamente) a ela pagar. Remodelando a violação à sequencialidade de Kindred, o método aqui ignora a separabilidade e recompõe o valor atentando para a violência fundante do capital global.

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6

Porquê? Por que é projetada como contribuição para um programa ético-político de

imagem, no sentido de Walter Benjamin,5 que estou chamando de dívida impagável

descolonização, isto é, o retorno do valor total expropriado do trabalho escravo e das

– uma obrigação que se deve mas que não cabe a si mesmo pagar. Essa imagem

terras nativas. Em ambos níveis experienciais e conceituais a separabilidade torna essa

dialética foi inspirada na recente “crise dos subprime” nos Estados Unidos, que ajudou

articulação particular da reinvindicação de descolonização incompreensível porque a

a inaugurar o derretimento financeiro de 2007 e 2008. Estou falando, claro, dos

temporalidade linear (ou sequencialidade) organiza ambas. Por um lado, há descrições

empréstimos com taxas de juro exorbitantes e variáveis que levou a falências afetando

do que acontece em nossas experiências diárias em termos de eventos separados, que se

primeiramente compradores de casa afro-americanxs e latinxs despossuídxs, que foram

sucedem ou simultâneos, que podem ou não estar relacionados uns aos os outros. Quando

culpabilizadxs pela crise financeira que transformou a paisagem econômica global

uma relação é atribuída, ela geralmente toma o formato da identidade ou eficiência:

de maneira muito dramática. Contudo, isto não é uma análise da mais recente crise

eventos estão relacionados porque são do mesmo tipo ou em termos de causa e efeito.

financeira.6 A dívida impagável, enquanto imagem dialética, guia uma leitura do valor

Por outro lado, conceitos e categorias, descrevem o que acontece de uma maneira que

simultaneamente nas cenas econômica e ética, o que nos permite ver como o capital

reencena as operações de espacialidade, descrições do que acontece no tempo. De fato, a

é a mais recente configuração da matriz moderna de poder e, enquanto tal, uma que

espacialidade é reconfigurada quando (a) o que é simultâneo é compreendido em termos

conta com dispositivos de conhecimento (conceitos e categorias), uma gramática ética

de variação ou de modalidade; ou (b) quando o que é sucessivo consiste em um estágio no

(princípios e procedimentos) e arquiteturas jurídico-econômicas (práticas e métodos),

progresso, retrocesso ou desaparecimento de um existente particular. Então, o que estou

que derivam sua força de como a necessidade, concebida como critério para a verdade e

propondo é que a descolonização requer descrições de eventos e de existentes que violam

figuração do poder, opera por meio de separabilidade, determinação e sequencialidade.

a separabilidade em ambas instâncias, sem reencenar o Mesmo hegeliano. Do evidenciar a violência enquanto se viola as separações impostas pelos pilares O que estou fazendo nesse ensaio, ao pensar sem a separabilidade ou pensamento

onto-epistêmicos modernos, decorre que apresento uma leitura das cenas de valor,

fractal, não é uma descrição de eventos e existentes, mas um engajamento com a

econômicas e éticas, projetadas para sustentar o argumento de que o capital global

descrição clássica do materialismo histórico da produção de valor. Embora isso seja

sobrevive do valor total da expropriação do trabalho escravo e da terras nativas.7 E

ainda um exercício kantiano, a saber, uma crítica, disso não decorre o procedimento

mais particularmente, esse exercício apresenta o procedimento do pensamento que

típico, que é operar por meio da teoria para expor as condições inerentes de possibilidade e fundamentos de validação.4 Ao invés disso, estou apresentando um método que nada mais é do que a descoberta das componentes e movimentos de uma

4. Para um exercício que se move para além da crítica e apresenta uma alternativa, ver Stefano Harney and Fred Moten, The Undercommons: Fugitive Planning and Black Study (Wivenhoe, UK: Minor Compositions, 2013).

5. A imagem dialética aparece em inúmeros textos de Walter Benjamin como por exemplo no Passagens, (Ed. UFMG, 2006). A autora se refere a versão inglesa, The Arcades Project (Cambridge: Cambridge University Press, 2002), p. 463. 6. Para um conjunto de análises da “crise do subprime”, que aborda suas dimensões raciais e globais, ver Paula Chakravartty e

denise Ferreira da Silva, eds., Race, Empire and the Crisis of the Subprime (Baltimore: John Hopkins University Press, 2013). 7. Para uma similar, porém, diferentemente enquadrada crítica racial e tendencial da acumulação, ver Anthony Farley, “Colorline as Accumulation,” Buffalo Law Review 56, no. 4 (December 2008), p. 953.

7


sustenta essa (mais alongada) formulação de minha figura guia: a Dívida impagável

haviam tomado emprestado. Inaptos, “indignos” mutuarias, negras e latinas da classe

recobra expropriação, o modo de extração de lucro característico da colônia moderna,

trabalhadora e baixa classe média carregavam uma dívida impagável – assim como a

que é o momento da matriz jurídico-econômica do capital e que performa a apropriação

personagem Dana de Butler – precisamente porque a relação que reconfiguram é uma

do valor total exigida para a criação do capital por meio do uso da violência total. O que

na qual funcionam como instrumentos financeiros e não como pessoas. Eticamente, sua

essa formulação engendra é uma leitura da descrição do valor de Marx em uma

inabilidade em obter e pagar empréstimos fez de suas hipotecas valiosos instrumentos

matriz nacional – a Inglaterra do século XIX –, que já está implicada em figurações

financeiros. Isto é, os bancos lucraram com a propriedade de inabilidade em pagar

prévias e posteriores da matriz moderna do poder, a saber, o colonial e o global.

dessas mutuarias – esse risco implicou altas taxas de juros, estas que os bancos utilizaram para seduzir especuladores financeiros. Economicamente, as mutuarias não deveriam saldar a dívida precisamente porque, em primeiro lugar, foi sua inabilidade

Colonial \ Racial \ Capital “A descoberta das terras auríferas e argentíferas na América, o extermínio, a escravização

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em pagar que os tornou valiosos instrumentos. Os empréstimos subprime foram

e o soterramento da população nativa nas minas, o começo da conquista e saqueio das

desenhados para extrair valor do déficit financeiro de suas mutuarias, a saber, a falta de

Índias Orientais, a transformação da África numa reserva para a caça comercial de peles-

ativos e garantias, que as tornou ferramentas de subjugação colonial e racial.

negras caracterizam a aurora da era da produção capitalista. Esses processos idílicos constituem momentos fundamentais da acumulação primitiva.” - Karl Marx8

Não obstante a aceitação geral das dimensões raciais da crise financeira global, as analises da relação entre o racial e o capital permanecem insuficientes. Apesar dessa

Em novembro de 2016, antes da eleição de Donald Trump para a presidência dos

relação se manifestar em diferentes camadas e de várias maneiras, críticos do capital

Estados Unidos, a crise financeira global de 2007 e 2008 foi o evento racial mais

global lidam com a diferença racial como matéria já organizada pela separabilidade, já

importante do século, precisamente porque os empréstimos subprime expõem como a

que trabalha com/dentro de sequencialidade e determinação. Deixem-me situar meu

racialidade funciona no capital global. Talvez o aspecto mais perturbador do escândalo

argumento no contexto dos escritos sobre a colonialidade do poder de Aníbal Quijano

dos empréstimos subprime é a figuração da escassez como excesso. O que os tornou

e Sylvia Wynter. Partindo de análises materialistas históricas convencionais, ambxs

lucrativos para instituições financeiras – e as seguranças amparadas no sistema

pensadorxs enfrentam a tríade colonial, racial capital, de diferentes perspectivas. Até

hipotecário que as tornou tão atrativas aos especuladores – foi o fato de que aquelas

certo ponto a minha própria posição em relação a essa tríade está em ressonância com

pessoas que os detinham, assim o faziam justamente pela sua falta de ativos. Devido

ambas: como Quijano, acredito que o racial reconfigura o colonial no nível político-

à sua despossessão econômica, as pessoas que fizeram empréstimos subprime foram

simbólico; como Wynter, acredito que o faz em combinação à noção de humano. Mas as

forçadas a pagar mais via exorbitantes taxas de juros, cobradas pelo dinheiro que

semelhanças entre nossas análises param por aqui.

8. Karl Marx, Capital, vol. 1, The Process of Production of Capital, ed. Friedrich Engels, trans. Samuel Moore and Edward Aveling (London: Lawrence and Wishart, 1996),

p. 749. Karl Marx. O Capital: Crítica da Economia Política, Livro I, O processo de Produção do Capital Trad. Rubens Enderle, (Boitempo Editorial), p.998.

A moldura da tese de Quijano sobre a relação entre raça (diferença racial), colonialismo e capital é a clássica separação sociológica entre estrutura e cultura (ou

9


ideologia) ou do econômico e do social. Isso permite a tese de que a raça emerge como

10

Por outro lado, a contribuição de Wynter ao tema da colonialidade do poder é

“mecanismo de dominação” colonial, “princípio de classificação social”, que faz a

emoldurada por uma distinção entre ciência e cultura, que assume ares de separação entre

distinção entre dois tipos de trabalho, remunerado (brancx/europeu) e não remunerado

verdade e ideologia.12 Com a ajuda de uma vasta lista de trabalhos antropológicos, ela expõe

(não-brancx/não-europeu). De acordo com Quijano, raça – ou a colonialidade do poder –

um universalismo – a capacidade humana de produzir e esconder de si mesma ambas

opera no capital global guiando a distinção entre trabalho remunerado (brancx/europeu)

suas existências coletivas e suas explicações dessas ou “ditos descritivos” –, que explica

e trabalho não remunerado (das “raças colonizadas”).9 Disso resulta uma totalidade

e promete transcender hierarquias culturais modernas. Para Wynter, a colonialidade do

heterogénea, isto é, uma “colonialidade capitalista do poder global” que se constitui por

poder ou raça, é o descritor hierárquico que governa as respostas europeias modernas à

meio das articulações de todas as “formas históricas de controle do trabalho em torno

questão ontológica de quem somos, assim como responde à questão ética de como devemos

da relação capitalista salário-trabalho” e que assume a forma de atribuição de “todas

viver e agir de modo a tornar a modalidade branca/europeia de ser humano como a

as formas de trabalho não remunerado às raças coloniais” e “trabalho remunerado

única verdadeira apresentação do que é, de fato, o humano. Ela argumenta que, os “ditos

ao colonizadores brancos”.10 Sem violar a noção materialista histórica clássica de que

descritivos” europeus modernos (tais como o perfeito paraíso medieval versus a terra caída)

o trabalho remunerado distingue o capital, Quijano corrige a teoria dos sistemas de

e constrói o Homem europeu como representante de tudo aquilo que é verdadeiramente

mundo com o argumento da raça – que emerge sob o colonialismo enquanto mecanismo

humano. Enquanto isso, as modalidades de ser de outros povos e de descrever o humano,

de controle do trabalho –, que agora organiza o capital global ao introduzir uma

representam os outros “não-humanos”. Localmente significante (inventado pelos

hierarquia na categoria do trabalho, que facilita a exploração de não-brancxs/não-

europeus) e culturalmente específica, a “raça”, escreve ela, seria portanto, de fato, o terreno

europeus em todo o mundo. Ao longo da análise, a raça permanece como evidência,

não supranatural mas não menos extra-humano (no lugar reocupado dos tradicionais

matéria social e não como categoria econômica que, ao ser considerada, permite uma re-

ancestrais/deuses, Deus, terra).13 Apesar dos ditos descrivos modernos terem relevância

contextualização do conceito econômico de capital que pode compreender sua mais nova

econômica, para além disso, seu efeito primário é sustentar a “estigmatização sistêmica,

configuração, a saber, “uma colonialidade capitalista do poder global”.11

inferiorização social e privação material dinamicamente produzida”, em particular da população negra em todo o mundo.14

9. Aníbal Quijano, “Coloniality of Power, Eurocentrism, and Latin America,” Nepantla: Views from South 1, no. 3 (2000), pp. 533–80. Disponível em espanhol < http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sursur/20100624103322/12_Quijano.pdf >. 10. Ibid., p. 539. 11 “Na medida em que as relações sociais que estavam sendo configuradas eram relações de dominação”, argumenta Quijano, “essas identidades foram consideradas constitutivas das hierarquias, lugares e papéis sociais

correspondentes e, consequentemente, do modelo de dominação colonial que estava sendo imposto. Em outras palavras, a raça e a identidade racial foram estabelecidas como instrumentos de classificação social básica.” Ibid., p. 534. 11. Sylvia Wynter, “Unsettling the Coloniality of Being/Power/ Truth/Freedom – Towards the Human, After Man, Its Overrepresentation – An Argument,” CR: The New Centennial Review 3, no. 3 (Fall 2003), pp. 257–337.

Para Quijano e Wynter, desde os primeiros momentos do colonialismo, a função da diferença racial tem sido de facilitar a apropriação europeia do trabalho e da terra nas Américas e em outros lugares no espaço global. A diferença é que para Quijano, a classificação racial estabelece a Força de Trabalho propriamente dita (brancxs/ europeus) e, para Wynter, estabelece o Humano propriamente dito (brancx/europeu).

12. Ibid., p. 264. 13. Ibid., p. 266.

14. Butler, Kindred, p. 62

11


Ao pensar por meio da relação entre o racial e o capital suas aproximações, no entanto,

“Sobre criolos”, eu disse. “Eu não gosto dessa palavra, lembra? Tente me chamar de preto ou negro ou até mesmo de cor”.

têm pouco a oferecer. De fato, para ambas, a classificação racial e as hierarquias raciais

“Para quê serve dizer tudo isso? E como você pode ser casada com ele?”

são exteriores (a) economicamente, como a própria produção capitalista de valor, que

“O quê?”, retomou ele irritado, esquecendo sua perna, então caiu para trás. “Eu não sou

requer trabalho remunerado, para Quijano; e (b) eticamente, ao potencial (universalista ou “transcultural” ou “acultural”) do pensamento europeu moderno que se fia em

“Rufe, com’é que você gostaria que chamem você, de lixo branco, quando falam de você?” lixo!”, ele sussurrou. “Sua negra maldita...” “Aquieta, Rufe.” Eu coloquei minha mão em seu ombro para acalmá-lo. Aparentemente eu atingi o lugar que estava mirando. “Eu não disse que você era lixo. Eu perguntei como você

territórios extra-humanos, para Wynter. Por essa razão, ambxs pensadorxs fornecem

acharia se fosse chamado de lixo. Eu vejo que você não gostaria. Eu tampouco gosto de ser

uma descrição da tríade colonial, racial e capital, aceitavel, precisamente porque a

chamada de negra.”

temporalidade linear nos força a confrontar o ponto de partida, que é que o racial, como

língua estrangeira. Talvez estivesse.

mecanismo colonial, permanece anterior ao capital global enquanto tal.

Ele permaneceu em silêncio, franzindo a testa para mim como se eu estivesse falando uma “De onde viemos”, eu disse, “é vulgar e um insulto que brancos chamem negros de crioulos. E também, de onde viemos, pessoas brancas e negras podem se casar.” “Mas é contra a lei.”

12

O que proponho, então, é uma figuração fractal da tríade colonial, racial e capital que, ao violar a separabilidade, faz colapsar seus efeitos (anterioridade e

“É aqui. Mas não é de onde viemos”

13

“De onde vocês vêm?” - Octavia E. Butler

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exterioridade) e, ao invés de descrevê-la como uma relação, expõe uma implicação profunda: ao reter suas diferenças, mantêm profundamente emaranhadas em/

como/com uma e a outra. O que decorre é uma composição (e, enquanto tal, uma

“Portanto, a relação das duas auto-consciências é tal o que elas se provam a si mesmas e uma a outra através de uma luta de vida ou morte. Devem travar essa luta, porque precisam elevar a

decomposição e uma recomposição) que explica a figura da dívida impagável. Porque

certeza de ser para-elas mesmas à nível da verdade, ambos no caso do outro e no seu próprio

desenhar a fractal nessa superfície plana é impossível, o leitor terá que confiar em

o ser essêncial da auto-consciência não é [apenas] ser, nem a forma imediata como ela surge,

mim – minha escrita –, enquanto descrevo os movimentos que montam essa figura, o que é chave para desmantelar o capital global. Duas simples questões guiam meu

case. A liberdade e conquista somente qudo se poe a vida em risco; so assim se prova que nem o seu submergir-se na expansão da vida; mas que nao há nada na auto-consciência que não seja um momento evanescente; que nao seja apenas puro ser-para-si mesmo. O indivíduo que não arriscou a vida pode bem ser reconhecido como pessoa; mas não alcançou a verdade

exercício: a primeira, como se herda a obrigação? E a segunda, porque não cabe

desse reconhecimento como uma auto-consciência independente. Da mesma forma, assim

pagar? Minha resposta é ignorar os pilares onto-epistemológicos que sustentam a

como cada um arrisca sua vida, cada um deve igualmente procurar à morte do outro; pois ele

descrição materialista histórica da produção capitalista. O que a torna possível, como

um “outro”, esta fora de si mesmo e dever deve livrar-se de sua propria auto-exterioridade ”

nao valoriza o outro mais do que a si mesmo; o seu ser essencial se lhe apresenta na forma de

espero tornar evidente, é uma figuração das cenas de valor econômicas e éticas que

- G.W.F. Hegel16

evidenciam a violência. Cenas de valor e a dialética racial “O menino aprendeu a falar dessa maneira da sua mãe”, eu disse suavemente. “E de seu pai e provavelmente dos escravos eles mesmos.” “Aprendeu a falar de que maneira”, perguntou Rufus.

15. Butler, Kindred, p.62. 16. G. W. F. Hegel, Phenomenology of Spirit, trans. A. V. Miller (Oxford: Oxford University Press, 1977), pp. 113–14,

traduzido por Denise Ferreira da Silva. Em português: G. W. F. Hegel, Fenomenologia do Espírito (Parte I), (Ed. Vozes: Petrópolis, Rio de Janeiro; 1992), pp. 128–129.


A temporalidade linear, enquanto renderização da separabilidade e da determinação,

da cena ética do valor de modo em que aquilo que foi sujeito à expropriação violenta

responde pelo ofuscamento de como o colonial participa na produção do capital. Pois

(terra e corpos) se torna significante de déficit moral (próprio e de outros). Em segundo,

a separabilidade, disfarçada em sequencialidade, sustenta a descrição clássica do

vamos considerar o ofuscamento categorial da violência colonial no texto histórico

materialismo histórico que limita a emergência da produção capitalista à Inglaterra do

materialista, particularmente na resposta de Rosa Luxemburg à pergunta sobre a

fim do século dezenove. No entanto, a maneira como a separabilidade se torna o suporte

origem do capital na tentativa de dar conta do imperialismo.

primordial do pensamento moderno não é algo que será abordado nesse exercício. Ao invés disso, estou interessada na maneira como funciona em teses sobre o colonial e

14

Meu primeiro movimento nessa figuração da dívida impagável, é então atacar a escrita

o capital e em como ofusca aquilo que expõe a sua implicação. Ao situar a tarefa, me

da diferença racial como sendo um datum. Como já fiz esse trabalho em outro lugar,17

permito recapitular a figuração inicial da separabilidade articulada na filosofia política

proponho de início a tese de que a força ética da racialidade reside no imageamento do

moderna clássica, que postula a necessidade da lei e do estado em restringir e punir a

espaço global como mundo ordenado que deriva sua autoridade da força da necessidade

violência contra a liberdade (ética) e propriedade (jurídica) individuais. Permitam-me

ao ser articulada em universalismo científico.18 A racialidade é um arsenal politico

também relembrar como mais tarde, no último quarto do século dezenove, a liberdade,

simbólico, que foi consolidado no final do século dezenove para demarcar as fronteiras

firmemente aterrada na cena ética moderna, é utilizada em discursos pela abolição da

para as operações de princípio, que distinguiria o pensamento moderno, a liberdade. Essa

escravidão (liberdade) e a independência das colônias (soberania nacional), enquanto

formulação da racialidade difere das de Quijano e Wynter de maneira muito importante:

a racialidade (por meio da distinção entre civilizado e primitivo ou o tradicional) iriam

diferentemente delas, eu não abordo a diferença racial como sendo uma evidência (dado)

justificar as incursões coloniais europeias na África, Sudeste Asiático e Oriente Médio,

social (Quijano) ou biológica (Wynter), que se torna a base para dispositivos culturais ou

assim como a expansão da “fronteira” Norte Americana. O que sublinho aqui é como o

ideológicos e que instituem hierarquias nas configurações sociais modernas. Tenha-se

colonial, com suas práticas violentas e métodos de apropriação do valor total criado por

certeza de que essa explicação da subjugação racial reencena consigo a resolução moral;

terras nativas e pelo trabalho escravo, iriam rapidamente ser resolvidas em um texto

da expropriação colonial como efetuada pelo conhecimento racial.

moral – seja como um mal, além do qual a Europa havia se desenvolvido (devido a seu apreço pela liberdade), ou um bem, no qual a Europa estava mais uma vez engajada (pelo

Minha abordagem à racialidade segue o método que Foucault emprega em sua

dever de espalhar a liberdade). Um tal texto consistentemente esconde o significado

descrição da sexualidade”: eu a leio como um arsenal, um conjunto de dispositivos de

econômico colonial. Porquê? Talvez porque essa distinção entre necessidade/violência

conhecimento produtivo. Emoldurada pelo suporte da separabilidade, determinação

e liberdade/propriedade é refigurada no nível onto-epistemológico nas separações que escondem o colonial no argumento que é anterior ao capital. Vamos rastrear esse apagamento em dois momentos. Primeiramente, por meio da explicação de como a racialidade performa esse colapso da violência colonial no valor

17. Para a apresentação deste movimento e uma descrição das condições de emergência e os efeitos da implantação da universalidade científica, ver Denise Ferreira da Silva, Toward a Global Idea of Race (Minneapolis: University of Minnesota Press, 2007).

18. Ver Denise Ferreira da Silva, “NoBodies: Law, Raciality, and Violence,” Griffith Law Review 18, no. 2 (August 2009), pp. 212–36.

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16

e sequencialidade, a racialidade foi consolidada seguindo as regras do discurso

humana ou de diferença humana, necessária para assegurar as necessidades

característico do conhecimento moderno. Isto é, seus conceitos e categorias assim

do capital na era do pós-Iluminismo. O que me interessa aqui é o trabalho da

como seus objetos, método e formulações presumem e estabelecem uma conexão

racialidade na resolução do colonial na própria explanação da subjugação racial,

formal ou eficiente entre o fenômeno (o atual, espaço-tempo) sob observação ou

consolidando-a como sendo quase impossível de fornecer uma descrição adequada

investigação. Consideremos, por exemplo, um precedente, o índice facial que

de suas dimensões econômicas. Isso acontece nas primeiras décadas do século

supostamente estabelecia uma relação entre o formato e tamanho da cabeça e

vinte, quando o conhecimento racial retorna a visões do final do século dezoito de

capacidade mental. Implantada em um contexto onde a humanidade já governava a

diversidade humana e centra o histórico (e o cultural) na especificação das condições

cena ética, o papel principal da racialidade tem sido o de fabricar uma explicação da

humanas. Ao tomar o que fora o produto de um primeiro momento do conhecimento

diversidade humana, que nega a possibilidade de que traços mentais “observáveis”

racial como evidência, mas sem deslocar a diferença racial, a sociologia das relações

(mentais e intelectuais) poderiam mudar com o tempo. Desde, como Hegel e outros

raciais consolidou um argumento que atribui às causas sociológicas – prejuízos,

postularam, o pós-Iluminismo marcou o momento onde as capacidades mentais

discriminação, segregação – , da subjugação racial à presença de física e mentalmente

europeias atingiram o mais alto grau de desenvolvimento (em termos de condições

diferentes “outros da Europa” em configurações sociais construídas por brancxs/

jurídicas, econômicas e morais) possível para seres humanos racionais, a racialidade

europeus colonizadores e suas descendentes. Com isso ela consolidou a tese que eu

construiu consistentemente o corpo racial para significar as limitações dos outros da

chamo de dialética racial, que transubstancializa a expropriação colonial em moral

Europa, sua falta de capacidade para evoluir e se desenvolver.

(a irracionalidade dos prejuízos raciais e crenças) e déficits naturais (traços corporais que expressam a não-europeidade), analiticamente ofuscando dessa maneira os

Seguindo as leis da universalidade científica, proponho que, por restringir a liberdade aos indígenas da Europa, a racialidade funciona conjugada com a

métodos e práticas jurídico-econômicas (violência total e expropriação do valor total) responsável pela despossessão econômica.

humanidade na gramática ética do pós-Iluminismo. Não porque, como Wynter e Butler argumentam,19 a humanidade (e seus atributos ou igualdade e liberdade)

A essa altura, deveria ser evidente como a dialética racial torna a heroína de

pertencem a uma cultura particular que postula a si mesma como universal, mas

Butler, Dana, e as mutuarias dos “subprime”, proprietários de uma dívida que

porque, devido ao fato de a própria distinção entre universal e particular ser uma

não lhes cabe saldar. Pois essa produz uma figuração racial do humano, na qual a

invenção moderna, o papel da racialidade – seja como diferença racial ou diferença

posição ética do outro, como na famosa passagem de Hegel do senhor e do escravo,

cultural – tem sido tornar possível a articulação da própria ideia de particularidade

emerge em violência – na luta entre vida e morte. Porém, a imagem do outro que o conhecimento racial fabrica é um efeito de dobra da violência, a saber, a violência jurídica total que assegura a expropriação colonial e a violência científica produtiva

19. O argumento de Sylvia Wynter foi discutido acima. Para uma crítica da universalidade de Butler, ver Judith Butler, “Restaging the Universal,” in Butler, Ernesto Laclau, and Slavoj

Žižek, Contingency, Hegemony, Universality (London: Verso, 2000), p. 27.

das ferramentas do conhecimento moderno que transubstanciam a expropriação colonial em um déficit natural, isto é, racial.

17


sequencialidade, produz efeitos similares aos do conhecimento racial.21 Contudo, para ela, isso

Acumulação Primitiva Eu fechei os meus olhos relembrando o homem grande, ouvindo novamente seu conselho

ocorre no posicionamento da imposição colonial da expropriação da terra (e seus recursos)

para Nigel de como desafiar os brancos. Aquilo mexeu com ele.

e do trabalho em um momento anterior à acumulação, isto é, temporalmente anterior ao

“Você acha que o traficante o levou durante todo o caminho até Nova Orléans?”, perguntei.

capital. Luxemburg começa com a separação entre a própria produção e a reprodução

“Sim. Ele estava recebendo junto uma carga para enviá-los para lá.” Balancei minha cabeça. “Pobre Luke. Agora há canaviais na Louisiana?”

capitalista e a acumulação primitiva ou as “dificuldades pelas quais os modelos capitalistas de

“Cana, algodão, arroz, eles cultivam de tudo por lá.”

produção emergem de uma sociedade feudal.22 ”Isso é materialismo histórico clássico e apesar

“Os pais do meu pai trabalharam nos canaviais lá de antes de ir para a Califórnia. Luke poderia ser meu parente.”

disso a diferença é que ele descobre que a acumulação primitiva nunca deixa de acontecer:

“Apenas certifique-se de não terminar como ele.”

para poder apropriar-se de meios dos produção, força de trabalho e criar um mercado, o

“Eu não fiz nada.”

capital confia no estado na utilização da violência total e taxação extrema.

“Não vá por aí ensinando mais ninguém a ler.” “Oh.”

18

“Sim, oh. Eu talvez não seja capaz de impedir Papai se ele decidir te vender.” “Me vender! Ele não me possui. Nem mesmo pela lei daqui. Ele não tem qualquer

Lembrem-se que a tese de Luxemburg de que a acumulação primitiva emerge

documento dizendo que ele me possui.”

em um contexto onto-epistemológico povoado por descrições antropológicas de

“Dana, não fale bobagens.”

povos e lugares não-europeus , que ela captura com o termo “economia natural”

“Mas...” “Certa vez, na cidade, vi um homem se gabar de como ele e seus amigos haviam pego um

– o que também inclui não somente o “feudalismo” mas também o “comunismo

negro livre, rasgado seus documentos e o vendido para um traficante.”

primitivo” e a “economia camponesa patriarcal”.23 Desse modo, segundo a versão da

Não disse nada. Ele estava certo, era evidente. Eu não tinha direitos – e nem documentos

evolução de Darwin (assim como a de Hegel da história do mundo), todas as três são

para serem rasgados. “Só tenha cuidado”, disse ele calmamente.

temporalmente anteriores à Europa capitalista moderna e faz sentido que Luxemburg

Consenti. Pensei que pudesse escapar de Maryland se tivesse que fazê-lo. Eu não pensei

explique o segundo momento do colonialismo (no século dezenove e inicio do vinte,

que fosse ser fácil, mas pensava que poderia fazê-lo. Por outro lado, eu não conseguia perceber como alguém mais sábia do que eu era em relação aos fluxos do tempo poderia

isto é, o imperialismo) utilizando a mesma frase que Marx emprega para descrever o

escapar da Louisiana, cercada como estava por agua e estados escravagistas. Eu teria que

primeiro momento do colonialismo. A separabilidade opera aqui já como um efeito do

tomar cuidado, tudo bem, e estar pronta para correr se achasse que havia qualquer risco de ser vendida.” - Octavia E. Butler20

materialismo histórico e do conhecimento racial, no qual outros modos de produção econômica e existência social se tornam “matéria/questão” que permite inovação conceitual; isto é, o que está para ser determinado por meio da tese da acumulação do

Agora vamos começar o trabalho de desfazer a escrita materialista histórica da expropriação colonial como sendo anterior à exploração capitalista. Começo com a tese

capital que responde ao interior próprio da reprodução ao anterior (agora racialmente e/ou geograficamente presente) como acumulação primitiva. Do ponto de vista do

de Rosa Luxemburg sobre a acumulação primitiva na qual ela desenvolve a explanação materialista histórica para o imperialismo, onde a separabilidade, operando por meio da 20. Butler, Kindred, pp. 138–39.

21. Rosa Luxemburg, The Accumulation of Capital (London: Routledge, 2003). Em português: Rosa Luxemburg, A Acumulação

do Capital (Ed. Nova Cultura; 1985). 22. Ibid., p. 345. (London: Routledge, 2003) 23. Ibid., p. 349. (London: Routledge, 2003)

19


materialismo histórico clássico, as teses de Luxemburg sobre a acumulação fazem a

(e a realidade) de se tornarem produtores independentes, como camponeses nas terras

produção de capital e a reprodução contingente de algo que excede suas condições

“recém-descobertas”. Novamente, nessa distinção, o modo colonial de apropriação do

sociais características e modos de produção de valor.

valor desaparece na sequencialidade porque, para Marx, foi superado pelo capital. Este é principalmente um efeito de determinação, de como a categoria materialista histórica

No entanto, a descrição de Luxemburg herda a dupla desautorização que escreve a

20

do trabalho transubstancia métodos e práticas jurídico-econômicas coloniais para a

especificidade do capital na apresentação clássica do argumento materialista histórico. Ao

expropriação do valor total criado pela terra nativa e trabalho escravo. Consideremos

ler o Capital, encontramos afirmações explícitas e implícitas que remetem a expropriação

como Marx divide a forma jurídica moderna da propriedade privada em duas categorias:

colonial ao passado do capital. Em relação à escravidão, o deslocamento da violência

primeira, não capitalista, onde não há separação entre o dono dos meios de produção

total não ocorre em afirmações específicas, mas no consistente uso de Marx do escravo

e o trabalhador; e segunda, capitalista, onde há uma separação entre o dono dos meios

como metáfora para marcar a falta de liberdade “real” do trabalho assalariado, enquanto

de produção e o trabalho. Obviamente, estão excluídos os métodos e práticas jurídicas

ao mesmo tempo dirige a sua tese crucial sobre como a liberdade e a forma de contrato

coloniais de violência total que, em primeiro lugar, disponibilizaram a “propriedade

distinguem o modo próprio da produção capitalista. Em relação à conquista, a história é

pública”, que os imigrantes tornados colonizadores rapidamente reivindicariam como

um pouco mais complicada. Por um lado, o espaço colonial também é o local da “chamada

sendo “propriedade privada”. Em suma, a determinação desempenha papel crucial

acumulação primitiva”, uma vez que os massacres de populações nativas facilitaram a

como o trabalho, nessa figura do conceito jurídico da propriedade privada, ofuscando o

apropriação de metais preciosos, tornando-os disponíveis para investimento. Por outro

significado do valor total apropriado na formação colonial antes do capital. Vou elaborar

lado, as colônias também oferecem uma situação contrastante, o que ajuda a delimitar

isso por meio de uma leitura da explicação do valor em Marx e, em particular, por meio

a região do capital. Ao comentar a “teoria da colonização” de Edward Gibbon Wakefield,

do exemplo que escolhe para a apresentação da teoria do valor. Vejam isso:

Marx rejeita análises que as colocam no âmbito do capitalismo com uma distinção entre dois tipos de propriedade privada, que derivam de dois modos distintos de apropriação. Em primeiro lugar, há propriedade privada dos meios de produção, conforme encontrada nas colônias, que é característica da produção pré-capitalista, e na qual o proprietário é também trabalhador; em segundo lugar, há a propriedade privada capitalista, “na qual

“De acordo com a lei geral do valor, se o valor de 40 libras de fio = ao valor de 40 libras de algodão + o valor de um fuso inteiro, isto é, se o mesmo tempo de trabalho é necessário para produzir cada um dos dois lados dessa equação, en- tão 10 libras de fio equivalem a 10 libras de algodão e 1/4 de fuso. Nesse caso, o mesmo tempo de trabalho se expressa, de um lado, no valor de uso do fio e, de outro, nos valores de uso do algodão e do fuso.”25 - Karl Marx

[meios de produção e subsistência] servem ao mesmo tempo como meio de exploração e sujeição do trabalhador”.24

Por que o trabalho escravo que produziu o algodão não entra nesse cálculo de valor, nem mesmo como trabalho morto? Aqui, mais uma vez, a determinação faz o

Por essa razão, Marx argumenta que as terras disponíveis nas colônias criaram um

trabalho de obscurecimento, embora neste caso por meio da maneira como a forma

problema para o capital, pois deu aos potenciais trabalhadores assalariados esperança

jurídica da propriedade circunscreve as condições sociais de produção capitalistas.

24. Marx, Capital, p. 753.

25. Ibid., p. 339.

21


Para Marx, assim como para Luxemburg, a produção capitalista de valor propriamente

22

Recostada nos pilares da separabilidade, determinação e sequencialidade, a tese

dita só existe sob certas condições ético-jurídicas, quando a apropriação do valor produzido

da colonialidade, a ferramenta da racialidade e o arsenal materialista histórico da

pelo trabalho ocorre em condições de igualdade e liberdade e as relações entre o trabalhador

transubstancializa a expropriação colonial em evidência ou matéria prima. A alteração

e o dono dos meios de produção é mediada por contrato. Somente sob esta condição pode

ocorre no nível mais profundo, como resultado da dominação jurídica, por conta da

haver apropriação de mais-valia – daquela que exceda o preço pago pelo tempo de trabalho

“matéria”, ora como sendo resíduo ou categoria prévia (temporalmente) ou ocorrência

–, isto é, a exploração. Aqui novamente, os pilares onto-epistemológicos modernos realizam

natural (empiricamente). Consequentemente, a tarefa torna-se desenhar procedimentos

a distinção entre o capital e as modalidades contemporâneas e relacionadas de apropriação

capazes de reverter esse processo. Ignorando a determinação e a sequencialidade,

do valor. A separabilidade explica o pressuposto de que a produção econômica constitui um

minha contribuição consiste aqui na figuração do capital enquanto arquitetura

aspecto distinto da existência humana coletiva; a determinação, por sua vez, opera ao nível

jurídico-econômica que implica dois modos de governança – a colônia e o governo –

da delimitação de categorias de conceitos e a análise de que, para cada modo distinto de

que foram arranjadas e consolidadas ao longo dos últimos quatrocentos anos. Cada

produção econômica, é possível identificar uma relação social específica de produção, modos

modo de governança garante diferentes modos de apropriação da terra e do trabalho,

de apropriação do trabalho; sequencialidade, finalmente, funciona completamente.

respectivamente, por meio de um acordo amarrado legalmente ou ameaça e uso da violência (conquista e escravidão). Além disso, cada um se refere a modos distintos de apropriação de valor, sendo mediados por uma forma jurídica particular – contrato

Acumulação e expropriação Eu estava trabalhando em uma agência de trabalho temporário – nós, os regulares,

e título –, que permitem seu modo particular de uso de trabalho para a reprodução

chamamos isso de mercado escravo. Na verdade, era exatamente o oposto da escravidão.

do capital. No trabalho assalariado há apropriação parcial do valor-criado, o que vou

As pessoas que a dirigiam não poderiam se importavam para nada se você aparecia ou não

chamar de exploração sob obrigações legais; no trabalho escravo, há apropriação do

para fazer o trabalho que lhe ofereciam. De todo modo, elas sempre tinham mais gente à procura de emprego do que empregos...

valor-criado total, o que vou chamar de expropriação sob coerção violenta.27

Você fica sentada e permanece sentada até que o despachante ora te manda para um emprego ora para casa. O lar não significa dinheiro. Ponha outra batata no forno. Ou se em desespero, venda um pouco de sangue em uma das lojas na rua em frente à agência. Eu fizera isso apenas uma vez.

Quando a analise do capital corresponde aos dois modos de apropriação do trabalho, não é mais um absurdo exigir o retorno do valor total fornecido pelo

Ser enviado significava salário mínimo – menos a parte do Tio Sam – por quantas horas você fosse necessário. Você varreu pisos, recheou envelopes, inventariou, lavou pratos, arranjou batatas fritas (verdade!), limpou banheiros, marcou preços em mercadorias... você fez todo tipo de coisa que te mandaram fazer. Era quase sempre um trabalho estúpido, e, no que diz respeito à maioria dos empregadores, era feito por pessoas estúpidas. Não-pessoas alugadas por algumas horas, alguns dias, algumas semanas. Não importava. - Octavia E. Butler26

26. Butler, Kindred, pp. 52–53.

27. A expropriação, para Rosa Luxemburg, lembra o mecanismo que o estado implantou para facilitar a acumulação de capital, levando à “destruição e aniquilação de todas as unidades sociais não capitalísticas que obstruem seu desenvolvimento” (Accumulation of Capital, p. 350). No entanto, ao contrário de Luxemburg, não penso na colônia como a fronteira do capital. Ao invés

disso, como Bartolomé de Las Casas, C. L. R. James e Frantz Fanon descreveram, a colônia é uma estrutura econômica jurídica moderna, projetada e administrada por pensadores e decisores europeus. Penso aqui no papel de John Locke na redação das Constituições Fundamentais da Carolina, em 1669, caracterizada por violência absoluta.

23


trabalho escravo e terras nativas. Por um lado, redefine a dimensão econômica

um sistema de produção no qual, por razões jurídicas, enquanto propriedade, o

da subjugação racial, já que não pode mais ser explicada como sendo o efeito de

escravo conta como meio de produção (uma coisa ou ferramenta). No entanto, e

preconceitos inapropriados, crenças ou ideologias inconvenientes, ou como modo de

se assumirmos que, em certa medida em que ela/ele é um ser humano capaz (por

controle do trabalho que permanece exterior ao capital (para Quijano), nem como

meio do desgaste se sua força vital) de transformar matéria-prima e outros meios

uma construção cultural (ou ideológica) que representa não-europeus como não-

de produção em mercadoria (algodão, açúcar, etc.), o escravo é trabalho vivo e,

humanos (para Wynter). Ao evidenciar ambas violências, a jurídica (colonial) e a

enquanto tal, ela/ele possui capacidade produtiva e, portanto, não é uma coisa: não

simbólica (racial), a analise da subjugação racial inicia o reconhecimento de que,

deveriam contar como meio de produção (c)?

por exemplo, os escravos emancipados não foram apenas despojados dos meios de produção, do valor total criado pelo seu trabalho e pelos seus antepassados, mas

24

Meu ponto aqui é que, do lado positivo da acumulação de dinheiro (para ser

que também foram apreendidos por um arsenal político-simbólico que atribuiu

transformado em capital) tornada possível pela escravidão, há um excesso (s = sp +

sua despossessão econômica a um defeito moral e intelectual inerente. Do ponto

v) que não está registrado na clássica explicação materialista histórica da acumulação

de vista econômico, é possível reconsiderar a trajetória pós-escravidão dos negros

capitalista. Esse excesso é o valor do trabalhador (salário), do seu tempo de trabalho

nos Estados Unidos como uma acumulação de processos de exclusão econômica

que é retido pelo dono. (No entanto, devemos notar que essa transferência não é

e alienação jurídica – escravidão, segregação, encarceramento em massa –, que

exaustiva: enquanto o produto do trabalho pode ser apropriado, o trabalho – a

têm deixado uma percentagem desproporcional dessas pessoas economicamente

própria capacidade produtiva –, não pode. De acordo com a lógica da formulação

despossuídas. A acumulação negativa, se não um oximoro, descreve perfeitamente

liberal do trabalho e da propriedade, que constitui o cerne do materialismo histórico,

esse contexto. O que a escravidão como modalidade de expropriação produziu é um

na medida em que é um atributo intrínseco ao ser humano, a capacidade trabalho

sujeito econômico que, como Dana de Butler, possui menos (-) capacidade produtiva

em si não é alienável. O que o trabalhador vende, por exemplo, segundo a descrição

precisamente porque seu trabalho nunca foi contado como sua propriedade, da

histórico-materialista, não é força de trabalho, mas tempo de trabalho). Além disso,

maneira como Marx diz que o salário dos trabalhadores o é.

o excesso retido pelo proprietário de escravos corresponde ao deficit econômico atribuído aos descendentes de escravos – o que eu chamo de acumulação negativa –, e

A equação de valor (puramente econômica, independente da situação jurídica

que as ferramentas da racialidade transubstanciaram em deficit natural, mas que não

do trabalhador, livre ou não), é: c (valor dos meios de produção [ferramentas e

é mais do que o efeito da expropriação colonial e posteriormente, a violência jurídica,

matéria-prima]) + v (valor do trabalho [salário]) + sp (valor produzido pelo trabalho

simbólica e cotidiana.

- valor dos trabalhadores) = valor da mercadoria. Porém, na escravidão, a equação não é a mesma: c (valor dos meios de produção) = v (valor do trabalhador) + s

Ao longo desses cento e cinquenta anos de apresentação da versão clássica do

(valor produzido pelo trabalho); isto é, não há mais-valia ou diferença entre o valor

materialismo histórico, a produção capitalista propriamente dita não dizimou a

produzido pelo trabalho e o do trabalhador. Geralmente, a escravidão é lida como

expropriação colonial. De fato, o oposto é verdadeiro. Na maior parte das vezes, os

25


últimos cento e poucos anos testemunharam episódios recorrentes de reencenação

Recentemente descobri que apenas um movimento metafísico, um retorno

da forma colonial de expropriação de terras, mão-de-obra e recursos, garantida

ao que Kant chamou de Coisa (Das Ding), nos livrará da dívida impagável.

por arquiteturas jurídico-econômicas outras às do estado-nação. Certamente, hoje,

Graças à resiliência do programa kantiano, esta é uma tarefa para a intuição e

encontramos a formação jurídica colonial operando no capital global; pensemos,

a imaginação. Ao explorar essa opção, minhas fontes de inspiração tem sido as

por exemplo, nos vários lugares de intensa e baixa intensidade violência contínua

falhas da física quântica e os escritos da autora afro-americana de ficção científica

– no Oriente Médio, em todo o continente africano, nos bairros economicamente

Octavia Butler. Ambas inspiram uma imaginação da existência além do mundo

despossuídos e nas áreas rurais na América Latina e no Caribe, ou nos bairros negros

atual da separabilidade, determinação e sequencialidade, e convidam a um tipo

e mestiços dos Estados Unidos. Isso não somente facilita a expropriação de terras,

de pensamento que também responde ao virtual (nível quântico), onde esses

recursos e mão-de-obra, mas também transforma esses espaços em mercados de

pilares não operam. Ao violar a lei da separabilidade, somos capazes de deslocar

armas e toda uma gama de serviços e bens fornecidos pela indústria da segurança.

os impedimentos conceituais mais resilientes – a saber, as formas jurídicas de propriedade e de contrato privado –, para a análise da relação entre o capital e o

26

colonial, assim como para o entendimento de como o racial funciona no capital.

Traversalidade “Podia sentir a faca na minha mão, ainda escorregadia pelo suor. Uma escrava era uma

Como, por exemplo, entender a dívida impagável de Dana no Kindred de Butler sem

escrava. Qualquer coisa poderia ser feita a ela. E Rufus era Rufus – errático, alternadamente

reconhecer que o que quer que aconteça em sua vida do final do século XX não

generoso e vicioso. Eu poderia aceitá-lo como meu antepassado, meu irmão mais novo, meu

é apenas sequencialmente, mas também imediatamente o efeito do que acontece

amigo, mas não como meu dono, e não como meu amante. Ele entendeu isso uma vez. Virei bruscamente, me afastei dele. Ele me agarrou tentando não me machucar. Eu estava

na Maryland do pré-guerra civil? Nem o karma nem a redenção podem explicar

ciente do intento dele não me machucar, mesmo ao levantar a faca, mesmo ao afunda-la em

a natureza da dívida de Dana. Nada do que aconteceu a ela ou do que ela faz

sua lateral. Ele gritou. Eu nunca havia ouvido alguém gritar dessa maneira – um som de animal. Ele gritou

acontecer – proteger outros escravos, ensinar-lhes a ler e sua recusa à submissão –,

novamente, um lamento desagradável e mais baixo.

é apresentado a ela como sendo uma oportunidade para pagar dívidas antigas. Ela

Ele perdeu o fôlego por um instante, mas segurou meu braço antes que eu pudesse fugir...

não estava salvando a si mesma ao pagar seus pecados. Nem estava seguindo um

Puxei a faca livre dele de alguma maneira, levantei-a e a retornei abaixo de suas costas. Dessa vez, ele apenas grunhiu. Ele desmoronou ao meu lado, seja como for, ainda estava vivo,

destino que foi projetado por suas ações (em vidas) anteriores ou equívocos. Sempre

ainda segurava meu braço. . . .

que esteve de volta à escravocrata Maryland, Dana esteve sempre sob amaça – sua

Eu estava de volta a casa – na minha casa, no meu próprio tempo. Mas de alguma maneira eu ainda estava presa, unida à parede, como se meu braço estivesse saindo – ou entrando nela.

vida e membros estavam em perigo. Ela viveu sob a ameaça de ser pega como sendo

Do cotovelo até as extremidades dos dedos, meu braço esquerdo tornou-se parte da parede.

uma escrava-fingindo-não-ser-assim ou uma não-escrava, visto como um possível

Olhei para o local onde a carne se juntava ao gesso, olhei para aquilo sem entender. Era o ponto exato em que os dedos de Rufus haviam se agarrado.

rebelde. Além de seus antepassados ​​donos de escravos e escravos, Dana não tinha

Puxei meu braço em minha direção, puxei com força. E, de repente, veio uma avalancha de dor, uma insuportável agonia vermelha! E eu gritei e gritei.” - Octavia E. Butler28

28. Butler, Kindred, p.260 n 61.

perigo para o proprietário de escravos, ou, ainda pior, interpelada como fugitiva ou negócios no Maryland do século XIX. O que é que ela devia?

27


De fato, por que ela pôde ser continuamente convocada a salvar a vida do senhor de escravos Rufus? Por que ela teve que dar um membro como pagamento final? Não houve contrato. Ela nunca fez uma promessa verbal ou escrita. Ela simplesmente estava viva, mudando para a sua casa própria, sua casa (o direito de viver lá quando quisesse), o que lhe custou um braço. Em uma entrevista posterior, Butler nos dá, seus leitores, algumas maneiras de dar sentido a isso: “A ideia era realmente fazer com que as pessoas sintam o livro. Esse é o ponto em fazer uma pessoa negra moderna explorar a escravidão, não apenas como uma questão de uma-um, mas voltando e fazendo parte de todo o sistema”. 29 Ler o livro não oferece a uma pessoa negra moderna o suficiente para decidir se Butler cumpre seu objetivo, 28

isto é, transmitir o que é experimentar “todo o sistema” da escravidão. Contudo, porque elas carregam sua dívida impagável, as pessoas negras de hoje – como aquelas que viveram e morreram na Maryland pré-guerra civil – entendem o custo (pagar com um membro para) da liberdade.

29. “A Conversation with Octavia Butler”, em Writers & Books website oficial, acesso 12 de outubro de

2012. Online: https://wab.org/if-all-ofrochester-readthesamebook2003-2 (site descontinuado).


oficina imaginação política

lugar de agência e afetos entre modos de fazer, aprender e cuidar intervenção nos sistemas de (re-)produção e invenção de mundos implicação ética nas contradições e paradoxos das coletividades OIP é uma iniciativa implicada em práticas discursivas e performativas envolvidas com imaginação radical e justiça social. Suas principais atividades consistem em grupos de estudo, leituras públicas, debates e oficinas, práticas de escrita e tradução coletiva, impressos e publicações on-line, buscando distribuir e desenvolver ferramentas. Oip foi iniciada em 2016 como uma proposta de Amilcar Packer para “Incerteza Viva 32ª Bienal de Arte de São Paulo” e é composta por Valentina Desideri, Jota Mombaça, Michelle Mattiuzzi, Rita Natálio, Thiago de Paula e Diego Ribeiro. Em 2017, a Oficina desloca suas atividades para a Casa do Povo integrando o projeto “futuros possíveis” realizado com apoio do PROAC Editais.

Texto primeiramente publicado como: Denise Ferreira da Silva, “Unpayable Debt: Reading Scenes of Value against the Arrow of Time,” in The documenta 14 Reader, ed. Quinn Latimer and Adam Szymczyk (Munich: Prestel 2017).

FANPAGE OIP

FONTES NEUZEIT S, GEORGIA E UNIVERS


Denise Ferreira da Silva é professora titular e diretora do Instituto de Justiça Social (The Social Justice Institute GRSJ), da University of British Columbia no Canadá, é Senior Faculty Fellow, do St John’s College, University of British Columbia e Professora na Faculty of Art, Design, and Architecture, Monash University e Professora Convidada de direito na School of Law, Birkbeck-University of London, assim como Editora na Living Commons Press.

Profile for oficina de imaginação política

Denise Ferreira da Silva - “A Dívida Impagável: Lendo Cenas de Valor Contra a Flecha do Tempo”  

“O que estou fazendo nesse ensaio, ao pensar sem a separabilidade ou pensamento fractal, não é uma descrição de eventos e existentes, mas um...

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