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Minha cidade disfarçada

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uando cheguei em São Paulo, menino ainda, um capiauzinho migrante paranaense, duas coisas me incomodavam: meu nome, que os vizinhos húngaros estranhavam, e o nome da minha cidade. Com meu nome fui aos poucos me acostumando, e também com as variações que davam a ele. Mas Rolândia parecia nome feio, estrangeirado demais para a minha cabeça de matuto recém-chegado à civilização. Quando completei 14 anos, arranjei meu primeiro emprego e precisei tirar carteira de trabalho. Ainda não sabia ler. Quando, orgulhoso, mostrei a carteira aos amigos alfabetizados, fui informado que minha cidade natal não era Rolândia, mas Caviúna. Surpreso, pedi aos meus pais esclarecimento sobre o assunto, mas eles também não tinham resposta para a minha curiosidade. Eram migrantes oriundos das cidades vizinhas, situadas na divisa com São Paulo. Pouco sabiam da história da cidade que os acolhera para cultivar café, esperançosos com a propalada fertilidade da nova terra. A duplicidade de nomes continuou me intrigando. Em 1987 eu já era considerado filho ilustre de Rolândia. Recebi da cidade uma comovente homenagem e aproveitei a ocasião para melhor conhecer sua história e a misteriosa origem de seu nome. A cidade fora fundada em 29 de junho de 1934 por alemães judeus perseguidos pelo nazismo, e seu nome era uma homenagem ao herói medieval Roland, sobrinho do lendário Carlos Magno. Fugindo do Holocausto, os fundadores foram obrigados a trocar todos os bens que tinham na Alemanha por títulos de terra na floresta que cobria todo o norte do estado do Paraná. No livro A Travessia da Terra Vermelha – Uma saga dos refugiados judeus no Brasil, Lucius de Mello faz um impressionante relato do sofrimento dos fundadores de Rolândia. Ameaçados por movimentos pró-nazistas surgidos no Sul do País, eles mudaram o nome da cidade para Caviúna em dezembro de 1943. Só em 1947, com o fim da Segunda Guerra e a derrota dos nazistas, a cidade voltou a ser Rolândia. Eu, portanto, nasci mesmo em Rolândia, em 22 de janeiro de 1946, às catorze horas e trinta minutos, quando ela, disfarçada de Caviúna, serviu de abrigo seguro para seus heroicos fundadores. Em 25 de novembro de 2010, recebi da minha amada cidade o título de cidadão emérito e a promessa de restauração da pequena estação de onde parti quando começava a sonhar meus sonhos. Lugar em que espero ver, ainda em vida, minha história e obra guardadas junto à bela história da terra onde nasci. Elifas Andreato

Os povos podem o que querem. Uma raça, uma nacionalidade ou um povo só não é capaz do que não sabe querer. Rui Barbosa

índice 5 carta enigmática 8 você sabia? 12 PAPO-CABEÇA Fernanda Montenegro

16 Ilustres Brasileiros Carlito Maia

22 eSpecial

É o amor

26 JOGOS E BRINCADEIRAS 27 O Teco-teco www.almanaquebrasil.com.br

28 Viva o brasil Monte Verde

31 brasil na tv CANTOS E LETRAS 32 em se plantando, tudo dá

Cogumelo

34 bom humor: nosso e dos leitores capa Soledad Cifuentes

ARMAZÉM DA M E MÓRIA NAC IONAL Diretor editorial Elifas Andreato Diretor executivo Bento Huzak Andreato Editor João Rocha Rodrigues Editor de arte Dennis Vecchione Editora de imagens Laura Huzak Andreato Editor contribuinte Mylton Severiano Redatores Bruno Hoffmann e Natália Pesciotta Revisora Liliane Benetti Assistentes de arte Guilherme Resende, Rodrigo

Terra Vargas e Soledad Cifuentes Gerente administrativa Fabiana Rocha Oliveira Assistente administrativa Eliana Freitas Assessoria jurídica Cesnik, Quintino e Salinas Advogados Jornalista responsável João Rocha Rodrigues (MTb 45265/SP) Impressão Gráfica Oceano

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Solução na p. 26

brasileiro eleito para governar dois estados diferentes. Os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) foram a maior marca das gestões no governo fluminense. Eram escolas planejadas pelo educador Darcy Ribeiro com construções de Niemayer. “Tu sabes do que me ocupo quando não estou pensando em política? Eu durmo”, disse certa vez. Polêmico, era alvo constante de críticas da imprensa. Não se importava em se indispor com a mídia. Por anos cultivou uma briga homérica com a Globo. Protagonizou momentos emocionantes em debates políticos na tevê. E criou definições e apelidos que pegaram: “filhote da ditadura” para Paulo Maluf; “gato angorá” para o ex-governador fluminense Moreira Franco; “sapo barbudo” para Lula. Morreu em 21 de junho de 2004, sem alcançar o sonho acalentado desde os anos 1960: tornar-se presidente do Brasil. (NP)

“Dizem que vai esquentar”, antecipou a Folha de S. Paulo sobre o evento que seria realizado em 6 de junho de 1968, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Descontentes com a Tropicália, que consideravam alienada, estudantes organizaram um encontro com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Décio Pignatari e Augusto de Campos. “Saber comer e deglutir são atos críticos, como fazem Gil e Veloso”, argumentou Pignatari. De nada adiantou. A foto ao lado registra o evento, pouco antes de bombinhas e bananas começarem a voar sobre os artistas. Por pouco o evento não terminou em pancadaria.

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Arquivo/AE

le é uma figura de nome e sobrenome conhecidos. O que poucos sabem é que se chamava Itagiba até adotar o prenome do líder de uma revolução do Rio Grande do Sul. Nasceu em Carazinho, hoje município de Passo Fundo, filho de camponeses paulistas. O gaúcho teve Getúlio Vargas como padrinho na política e também como padrinho do casamento com uma irmã de João Goulart. Quando o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo, fez campanha para que a elite aceitasse a posse do cunhado, como mandava a lei. Planejava candidatar-se à presidência para sucedê-lo. Mas, por causa de discursos dos dois que arrepiaram os mais conservadores, o golpe militar veio antes e fez com que partissem para o exílio. Carismático, com discurso inflamado e sotaque carregado, ferrenho defensor da boa educação pública, foi o único político

Junho 2011


6/6/1906

1°/6/1964

Com direção de J. Carlos, a revista Careta entra em circulação, estampando caricatura do presidente Afonso Pena. Sem medo de cara feia, vingou por 50 anos.

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Millôr Fernandes reúne Ziraldo, Jaguar, Sérgio Porto e outros jornalistas para fazer a revista Pif Paf. Por debochar da ditadura, a publicação não chegou à nona edição.

Abaixo-assinado deixou divórcio mais uma década fora da lei m maio, houve muita polêmica pela decisão do Supremo Tribunal Federal de reconhecer a união estável entre homossexuais. Situação parecida ocorreu em 1966, quando coube ao Congresso Nacional votar um projeto que incluiria o divórcio no Código Civil. Houve chiadeira de grupos religiosos e outros setores encurvados à direita. A TFP (Tradição, Família e Propriedade), grupo católico com ideais pra lá de conservadores, encabeçou a campanha contra a separação. Lançou um abaixo-assinado para impedir que o projeto sequer fosse levado à votação. Intitulado “Em prol da família brasileira”, o manifesto conseguiu pouco mais

de um milhão de assinaturas em 50 dias. Resultado: o divórcio levou mais 11 anos para ser reconhecido pela lei. Em texto publicado nos jornais em 25 de junho de 1966, o grupo explicou a sua posição. Também atacou os favoráveis ao divórcio, chamando-os de “setores comuno-progressistas”. Ainda citou uma quase agressão que os membros da TFP teriam sofrido de seus adversários, tratando de exaltar a polícia política da ditadura: “O Dops fê-la cessar desde logo, com seu conhecido zelo pela tranquilidade pública”. (BH) Laura Ha

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No site do Almanaque, leia o manifesto da TFP contra o divórcio.

Dzi Croquettes colocaram purpurina nos palcos e na vida

Divulgação

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asceu no bar o nome de um dos grupos teatrais mais revolucionários que já tivemos. A paródia ao norte-americano The Coquette teve inspiração no petisco sobre a mesa. “Como croquete, todo mundo é feito de carne”, pensaram. A música Tá Boa, Santa? define: Não sou dama nem valete / Eu sou um Dzi Croquette. Os 13 homens peludos no palco, ora trajando vestidos, ora apenas enormes asas de borboletas,

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dia do y orgulho ga

manifestação do movimento gay brasileiro, ao mesmo tempo com discurso político”. As bandeiras ali eram da inovação, revolução de comportamento, libertação sexual. Claro, não demorou para que surgissem problemas com a censura do governo militar. A comunidade Dzi, que vivia na mesma casa, embarcou para Europa sem produtor ou agenda. Em Paris, o grupo virou coqueluche. “No dia em que eu morrer, quero que o espetáculo que substitua o meu seja o do Dzi Croquettes”, elogiou Josephine Baker. Ninguém esperava que a vedete morresse mesmo e que sua vontade fosse cumprida. Assim ela tirou os artistas da penúria, na qual estavam por conta de um empresário larápio. Os rapazes logo quiseram voltar ao Brasil, e o grupo acabou se desfazendo, apenas três anos depois de sacudir do Rio a Paris. (NP)

sempre com muita maquiagem e brilho, tinham algo de andrógino. Uniam textos cômicos a incríveis números de dança, combinando linguagem de cabaré com samba e bossa nova. O dançarino norte-americano Lennie Dale, saído da Broadway, encontrou no grupo seu paraíso e acrescentou profissionalismo aos corpos talentosos. Os Dzi Croquettes lotaram cabarés e teatros cariocas em uma época de repressão. Tiveram até as primeiras tietes brasileiras. Pudera: foram eles que criaram o termo para as garotas que não perdiam uma apresentação. As mais fiéis chegaram a formar um grupo secundário – quem não lembra ou nunca ouviu falar de As Frenéticas? “Eu, hein?”, “Meu amor, te contei...” “Já foi!”. A turma que participava da cena usava as gírias próprias do vocabulário “dzi”. Em documentário sobre a trupe, Gilberto Gil defende que talvez tenha sido “a primeira

No site do Almanaque, confira o trailer do documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez.

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Fases da Lua

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minguan te


de quem são estes olhos?

O dono destes olhos nasceu na fluminense São Gonça lo, em 8 de junho de 1970. Começou a trabalhar aos 10 anos, em uma borracharia, e logo criou gosto pelos bailes da periferia e por cantar na noite. Com a morte de um irmão, viveu como sem-teto por três anos, até passar num teste para participar de um musical. Diga lá quem é o popular cantor que vai do samba ao rock. Confira a respos ta na página 26

ADÃO É BRASILEIRO?

Por prever paraíso no Brasil, português acabou enforcado

l dia mundia do meio ambiente

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DANIEL TEIXEIRA/AE

udo era entulho, lixo e descaso num terreno abandonado no bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo. Trinta anos atrás a sujeira já incomodava seu Nakao, filho de imigrantes japoneses que fincou raízes profundas no solo paulistano. Incomodou tanto que ele decidiu agir. Com as forças dos próprios braços, juntou sozinho o entulho, cada galho, cada folha. Usou o que era resto para nivelar o terreno. Plantou sobre ele um abacateiro apenas. Não foi suficiente. Depois, um pinheiro, uma mangueira para fazer companhia. E de semente em semente plantou um bosque. Com capricho, teve o cuidado de usar técnicas agrícolas para reduzir a velocidade da água escorrendo sobre a terra e evitar deslizamentos em época de chuvas. Dia a dia vinha com uma muda nova, todas produzidas no quintal da casa dele, ali pertinho. A mulher, dona Mieko, se rendeu ao talento do marido. Sabe que se casou com Nakao e, depois, com a dedicação ao terreno que nem é deles. “Tenho orgulho do que ele faz”, resume. Seu Nakao nasceu em Lins, interior de São Paulo. Passou a adolescência em Okinawa, onde serviu no exército japonês durante a Segunda Guerra. Tinha 16 anos. De volta ao Brasil, casou-se, teve filhos, netos e se aposentou em 2003. Aos 81 anos, não tem ideia de quantas mudas plantou, mas foram muitas. Agradecidos pelo esforço do vizinho, moradores da região querem que o jardim do seu Nakao seja transformado em parque. Para ele, reconhecimento nem é tão importante. Mais vale a garantia de que o que semeou será mantido para as futuras gerações. (Laís Duarte) No site do Almanaque, confira uma reportagem televisiva sobre o jardim de seu Nakao.

m Quinto Império mundial em Portugal, com mil anos de felicidade terrena, era o que previa no século 17 o padre Antônio Vieira. Pedro de Rates Henequim, também português, mas que viveu no Brasil no século seguinte, mudou o anúncio: o Quinto Império seria em algum lugar entre as serras do interior brasileiro. Dizia mais: aqui teria sido criado Adão, de quem descenderiam os índios. Esqueça a maçã. Eva fora expulsa do Éden por comer uma banana. O profeta chegou em Minas Gerais aos 20 anos, em 1702. Voltou a Portugal 20 anos depois, para divulgar o seu Tratado do Paraíso Restaurado. Fez sucesso nas ruas de Lisboa, mas, depois de fascinar muita gente, não demorou para chamar atenção também da Inquisição. “Herege”, julgou o Santo Ofício. Em 21 de junho de 1744, foi à forca em praça pública. Enquanto os processos de heresia costumavam juntar cerca de 20 folhas, o de Henequim era um calhamaço de mil páginas. É que mais do que atentar contra a Bíblia, ele conspirava contra a Coroa. No seu entender, enquanto o Brasil estivesse sob domínio português, a profecia não seria possível. (NP)

SAIBA MAIS Um visionário na Corte de D. João V – Revolta e milenarismo nas Minas Gerais, de Adriana Romeiro (UFMG, 2001).

o baú do Barão

“Um imbecil pobre é um imbecil. Um imbecil rico é um rico.”

Nossa homenagem a Aparício Torelly, o Barão de Itararé.

Junho 2011

Reprodução

Seu Nakao U transformou terreno baldio em bosque 5/6

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junho t a mb é m t e m 1 Dia Internacional da Criança 2 Dia do Padroeiro dos Navegantes 3 Dia do Divino 4 Diada Criança Vítima de Agressão 5 Dia do Meio Ambiente 6 Dia do Doador de Órgãos (SP) 7 Dia Nacional da Liberdade de Imprensa 8 Dia do Citricultor 9 Dia do Porteiro 10 Dia da Língua Portuguesa 11 Dia do Educador Sanitário 12 Dia dos Namorados 13 Dia Nacional do Turista 14 Dia da Manicure 15 Dia do Paleontólogo 16 Dia da Unidade Nacional 17 Dia do Funcionário Público Aposentado 18 Dia Nacional do Químico 19 Dia do Cinema Nacional 20 Dia do Diplomata 21 Dia do Intelectual 22 Dia do Aeroviário 23 Dia do Lavrador 24 Dia Mundial dos Discos Voadores 25 Dia Nacional da Academia de Letras 26 Dia do Ilícito 27 Dia Nacional do Voleibol 28 Dia das Comunicações Sociais 29 Dia do Pescador 30 Dia Nacional do Bumba Meu Boi

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Brasileiro foi eleito duas vezes presidente de Portugal 25/6 dia doante

credite: o único político a chegar duas vezes à presidência portuguesa – imigr e o que levou os dois golpes militares da história de Portugal – nasceu no Brasil. Bernardino Machado viveu no Rio de Janeiro até os 10 anos, quando, em 1851, a família mudou-se para a terrinha. Lá formou-se em Matemática e Filosofia e entrou para a academia como professor. Mas seu destino era mesmo a política. Bernardino foi eleito senador e ocupou diversos cargos públicos ainda na Monarquia. Com a República, continuou em cena: concorreu já nas primeiras eleições à presidência. Venceu a terceira, em 1915, no mandato em que comandou o país na Primeira Guerra Mundial. Banido por uma “junta Bernardino Machado revolucionária” militar, ainda voltou a se eleger nos anos 1930. Não estava fadado a terminar um mandato: o segundo foi interrompido pelo governo militar que durou mais de quatro décadas. Morreu em 1944, no dia do aniversário de Salazar, ditador que o destituiu. Anos antes, em uma de suas vindas ao Brasil, declarou: “Há muito que ambicionava rever a terra onde nasci e o povo que foi meu amigo e educador na minha infância”. Por esforço do luso-brasileiro, foi criada a embaixada portuguesa no Brasil. Para ele, não só pelas histórias que se cruzaram, mas por sua própria trajetória de vida, Brasil e Portugal eram “unidos pelo espírito de família”. (NP) No site do Almanaque, acesse texto com as memórias da infância carioca de Bernardino Machado.

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lut dia do

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Malba Tahan vetou coroa e luto no próprio funeral

cho horrível essa literatura funerária, sem expressão: Homenagem eterna, Recordação sincera, O último adeus etc.” Não faltou sinceridade à carta derradeira que Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan, deixou para a família. Apesar de andar muito saudável e bem-disposto, o matemático e escritor já havia preparado instruções para quando sua hora chegasse. Faleceu pouco após ministrar uma palestra no Recife, aos 79 anos, em 1974. O enterro no Rio de Janeiro seguiu à risca suas próprias exigências. Além de pedir o funeral “mais modesto possível” e “caixão de terceira classe”, o autor de O Homem Que Calculava deixara claro que não queria flores com dedicatórias como as do começo deste texto. As coroas deveriam ser devolvidas com “delicado cartão”: “O ofertante será informado do desejo do morto. E ele (o ofertante) que

Júlio César de Mello Souza.

faça da coroa o uso que quiser. Considero a coroa.... Ora, para que revelar agora o que penso das coroas...”. A carta ainda citava Silêncio de Um Minuto, de Noel Rosa, para pedir que esposa e filhos não usassem luto: Roupa preta é vaidade / Para quem se veste a rigor / O meu luto é a saudade / E a saudade não tem cor. O grande número de pessoas que compareceu ao Cemitério do Caju para a “modesta despedida” ofertou flores anônimas. O aniversário do escritor virou Dia Nacional da Matemática, mas, na morte, nada de vaidades. A única mensagem lida aos presentes, conforme a recomendação do homenageado, foi preparada por ele mesmo. Defendia uma causa que abraçara com afinco em vida: o fim do isolamento e do preconceito contra os doentes de hanseníase. (NP)

No site do Almanaque, leia mais trechos do “manual fúnebre” escrito pelo matemático.

cancer

Como o caranguejo, símbolo de seu signo, o canceriano só age quando tem certeza de que não corre riscos. Pode até parecer áspero, mas a casca dura protege uma essência sensível. Por isso, a melhor forma de lidar com um canceriano é oferecer segurança e compreensão. As únicas coisas que um nativo de câncer valoriza mais do que sua intuição são as tradições, lembranças e memórias.

Reprodução

Kiwi, morango, uva, manga, abacate, berinjela, caqui, mexerica.

Reprodução

estação colheita


NOS TEMPO S DAS VACAS M

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GRAS A expressã o para tem p os de esc assez fo i retirada d e uma passagem b íblica do An tigo Testamento . O Gênesis registra certa ocasi ão em que o re i do Egito tem u m sonho: vê sete vacas gordas sen do devorad a s por outras sete muito fraca s. Quando ele acorda, a visão é de ci frada por José, fi lho de Jacó : a s gordas representa vam sete an o s de abundância ; as magras, sete anos seguintes d e esc assez.

Por pouco São Paulo não tem duas usinas nucleares

Plínio Santos/AE

Origem da expressã o

Figueiredo: energia nuclear no litoral paulista.

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guape 4 e Iguape 5. Duas usinas nucleares para fazer companhia às de Angra dos Reis. Era essa a intenção do governo do presidente João Baptista Figueiredo que, em decreto de 4 de junho de 1980, determinou a desapropriação de 23.600 hectares em Iguape, litoral sul paulista, para o início das obras. As máquinas começaram a escavar em seguida. Mas vieram os protestos de ambientalistas. O secretário especial de Meio Ambiente Paulo Nogueira Neto aceitou um convite de um ativista para sobrevoar o local. Lá de cima, ficou maravilhado com a diversidade do lugar. E prometeu: “Agirei para tentar evitar as usinas”. Deu certo. Não só pelos protestos. O governo também resolveu concentrar energia em Angra. Seja como for, seis anos depois seria criada a Reserva Ecológica da Jureia-Itatins, com uma das maiores biodiversidades do País, intocável por lei. Mas as ações de Figueiredo deixaram sequelas. Ainda hoje existem marcas dos estragos feitos pelos tratores. (BH) No site do Almanaque, leia o decreto presidencial de criação das usinas nucleares.

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Luiz ainda se sente o dono do boi de Parintins

enigma figurado 11

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uiz Pereira é o oitavo e último dono do boi-bumbá Caprichoso, que, todo fim de junho, rivaliza com o Garantido no Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas. Antes dos bois estarem organizados em associações folclóricas, eram famílias que tinham a propriedade dos grupos – mais precisamente, o chefe da família, com escritura de posse e tudo, tal qual um bem. A missão de Luiz à frente do Caprichoso começou em 1969, após a morte do sogro. Sua posse marcou a saída do boi azul e branco da então distante comunidade do Aninga para a cidade de Parintins, onde foi crescendo com cada vez mais adeptos. Luiz transparece saudade ao lembrar da

confecção dos tambores com latas de manteiga cobertas com couro de preguiça. E também dos cavalinhos da vaqueirada, que na alegoria representam os guardiões do boi. “Eu comprava as coisas, mandava fazer as roupas, os chapéus de crepom. Tudo era dado para as pessoas brincarem”, recorda. Por 30 anos a brincadeira aconteceu no terreiro de seu Luiz. Até que, com o argumento de que o espaço já não dava conta do folguedo, um brincante propôs trocar a posse do Caprichoso para uma casa de alvenaria. Surgia a Associação Folclórica Boi-bumbá Caprichoso. Luiz foi nomeado sócio fundador número um e recebeu a carteira que hoje exibe com um misto de mágoa e orgulho. “Me reconheceram com um diploma, mas não fazem uma única toada falando de mim no bumbódromo”, queixa-se. Reconhecido pela população parintinense como o legítimo dono do Caprichoso, ele mesmo afirma: “Eu ainda me sinto o dono do boi”. (Yusseff Abrahim, de Manaus-AM – OVERMUNDO)

SAIBA MAIS Confira fotos, textos e vídeos sobre o Festival Folclórico de Parintins em www.overmundo.com.br.

Reprodução/AB

Yusseff Abrahim

dia nacional do bumba meu boi

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la nasceu no interior da Bahia, em 18 de junho de 1946. Quando criança, sonhava em ser atriz, mas a primeira vez que subiu ao palco, em uma peça de Nelson Rodrigues, foi como cantora. Ao substituir Nara Leão em um show antológico, com apenas 19 anos, atingiu projeção nacional. Na década seguinte, com sua poderosa voz, tornou-se a primeira brasileira a vender um milhão de discos. E aí? Já desvendou quem é a menininha na foto, posando ao lado da prima e do irmão que também se tornaria famoso?

R.: Conf ira a respo sta na página 26 Junho 2011


Por João Rocha Rodrigues

FERNANDA MONTENEGRO

Muitas vezes no Brasil a gente acerta por carência

LAURA HUZAK ANDREATO

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Ela soma mais de seis décadas de carreira. Começou a trabalhar aos 15, no rádio. Aos 20, nos primórdios da televisão, já havia ganhado lugar nas telinhas – foi a primeira atriz contratada da tevê brasileira. Pouco depois já brilhava nos palcos. “De lá para cá, posso dizer que foi teatro todos os dias.” Fernanda se considera de uma geração privilegiada, para a qual não faltou trabalho, paixão nem estímulos. “Somos de uma geração ainda com muita influência do humanismo, e já botando um pé no contemporâneo.” Protagonista de algumas das cenas mais comoventes do cinema brasileiro, em filmes como Central do Brasil, A Falecida e Eles Não Usam Black-tie, vê nessas produções uma característica comum que, segundo ela, diz também muito sobre o Brasil: as dificuldades que o destino impôs, sejam elas financeiras ou políticas, proporcionaram momentos de rara beleza. É o que ela chama de acerto na carência. “Brasil, Brasil, Brasil, berço das artes reunidas. Acho que é isso que nós somos.” www.almanaquebrasil.com.br


Você começou a trabalhar cedo, aos 15 anos. Não foi um início prematuro? Eu sou de uma geração que acumulou muito trabalho na vida. Não só eu. Há uma leva de gente que nasceu no fim dos anos 1920 e no começo dos 1930 que pegou outro Brasil. O pós-guerra, o rock, a revolução de 1968, a contracultura. Foi uma época de deixar a gente sem fôlego. Comecei a trabalhar em 1945, na Rádio Ministério da Educação e Cultura. Eu tinha 15 anos e fiquei 10 anos na emissora. Entrei para ser radioatriz, depois atuei como locutora, redatora. Fiz muitas coisas diferentes, como adaptação de autores, romances, contos e novelas para radioteatro. Foi um aprendizado muito importante. Em janeiro de 1951, começou uma programação na TV Tupi do Rio de Janeiro e fui a primeira atriz contratada de televisão. Dois anos depois, casei com o Fernando Torres e fomos para a companhia da Henriette Morineau. A partir daí, posso dizer que foi teatro todos os dias. Como foram os primeiros anos de televisão? Era tudo ao vivo. Durante dois anos conciliamos a tevê com o Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo. Era uma loucura. Não sei como não morríamos de tanto trabalhar. A gente trabalhava de terça a domingo no TBC. Nos fins de semana fazíamos até cinco espetáculos. Às vezes, tínhamos que ensaiar madrugada adentro, depois das peças. Como os teleteatros era apresentados às segundas, embarcávamos no famoso Douglas rumo ao Rio à meia-noite de domingo, e voltávamos na terça. Eu devo ter feito uns 400 teleteatros assim. Da maior qualidade, no que diz respeito aos textos usados, à dramaturgia, às adaptações. Como diria Brecht, foram anos muito difíceis, muito lutados, mas foram os melhores anos das nossas vidas.

ta, de gozação para cima das esquerdas. Mas o Glauber, como mágico que era, com o olhar para o futuro, o colocou novamente no debate – pensou inclusive em levá-lo às telas. Mas quem fez isso foi o Leon Hirszman. A Falecida foi o primeiro longa do Leon, e também o meu primeiro. Fizemos sem dinheiro algum. Sem nada. Foi um filme do querer. A Falecida tem uma das cenas mais lindas do cinema brasileiro, em que a sua personagem toma um banho de chuva. Como ela aconteceu? Eu fico emocionada quando falo dessa cena. Não tinha mais dinheiro, não tinha mais nada. A cena foi um ato de coragem de todos nós. Leon não queria palmeira nem mar naquele Rio de Janeiro de A Falecida, mas aquele ambiente dos subúrbios, abafado, seco, sem ar. E assim estava aquele dia, o último de gravação. Já era umas cinco da tarde quando os bombeiros chegaram e arrumaram a mangueira. Ajeitaram um guarda-chuva para o câmera, que era o Dib Lufti. Eu coloquei a roupa – não tinha substituição; se estragasse, acabava a cena. E o Leon disse: “Vai, Fernanda, resolve aí. Cria uma situação entre você, o Dib e essa chuva”. E assim foi feito. Acabou a cena, acabou a água, acabou o filme. É assim: às vezes a gente acerta na carência. Muitas vezes no Brasil a gente acerta por carência. E aí sai bonito.

Shakespeare diz que o ator é feito da matéria dos sonhos. É muita responsabilidade. Como podemos dar conta disso?

Do que você sente mais saudade daquela época? Do fazer sem premeditação. Da volúpia do fazer. A gente não pensava nas consequências, nos resultados, se teríamos fôlego para chegar lá. Quando a gente é jovem, a reflexão é muito imediata. Não se trabalha tanto para o futuro, mas para aquele momento. Cada hora é uma hora fulminante. Existe-se plenamente. No outro dia, da mesma maneira. Tudo com muita verticalidade. Somos de uma geração ainda com muita influência do humanismo, e já botando um pé no contemporâneo. Saindo do Douglas, que demorava três horas para ir de São Paulo ao Rio, e em pouco tempo chegando à Lua; depois, à era da informática. É como sair de uma pré-história e chegar num mundo futuro.

A sua estreia no cinema foi em A Falecida, de Nelson Rodrigues. Mas no teatro que a sua companhia fazia, na virada para os anos 1960, ele já tinha importância. Essa aproximação não causava espanto nas esquerdas? De certo modo, sim. Para a Companhia dos Sete, Nelson escreveu O Beijo no Asfalto. Depois, Toda Nudez Será Castigada, que ele fez para mim. Nessa época, ele escreveu duas novelas para a televisão, e foi terrível, porque a censura não deixava suas obras serem veiculadas às 20h. A primeira, Morta Sem Espelho, com música de Vinicius de Moraes e Baden Powell, foi para as 22h. Foi Glauber Rocha quem começou a falar que Nelson Rodrigues era o maior autor deste País. Foi quando começou a recuperá-lo. Nessa época, o Nelson escrevia com uma visão absolutamente de direi-

Outra cena clássica, sua e do cinema nacional, foi em outro filme de Leon Hirszman, Eles Não Usam Black-tie: você e Gianfrancesco Guarnieri catando feijão. O contexto em que o filme foi feito contribuiu para aquele momento? Sem sombra de dúvidas. O Brasil vivia as greves do ABC. A vida lá fora era muito mais perigosa, violenta e urgente do que podia ser aquele filme. Helicópteros, exércitos, operários, políticos. Filmamos essa cena também no último dia, num amanhecer, umas seis da manhã. Antes de rodar, Leon também falou uma coisa forte e bonita: “Quero fazer uma homenagem aos grandes mestres do cinema russo”. Eu e Gianfrancesco entendemos perfeitamente o que ele queria dizer.

Esse também foi um filme feito com baixo orçamento? Sim. É novamente aquela questão do acerto na carência. Também não tínhamos dinheiro algum. Mas tudo estava combinado: filmaríamos em uma fábrica desativada, as fardas seriam da polícia, os carros teriam o emblema da polícia. Mas, diante da crise, quem ia ceder a fábrica desativada não cedeu, quem ia emprestar os uniformes não emprestou, os carros não podiam mais ter o emblema da polícia. Dependendo do que se resolvesse no ABC naquele momento, não se sabia o que seria de nós, que havíamos feito aquele filme, nem do Brasil. Mas foi tudo resolvido. E o final dessa história é que Lula virou presidente. E a sua cena preferida, qual é? Todo filme tem uma cena emblemática. No Central do Brasil ela está no fim do filme. É muito bem resolvida a despedida entre o menino e a mulher, a carta que é escrita, a comoção de terem se achado e não terem ficado juntos. Em Casa de Areia também há uma cena de que gosto muito, em que, com 90 anos, falo comigo mesma, como filha, com 60. Gosto muito das personagens que fiz no cinema. Todas têm uma linha de conotação social; são perfis de mulheres bem brasileiras e bem Junho 2011

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ligadas a uma carência social. Acho que há muito da Zulmira, de A Falecida, na Dora, de Central do Brasil. E até na mulher do Casa de Areia. Não posso me queixar das personagens que vivi. Fui muito olhada pelos deuses. Central do Brasil é um filme marcante da retomada do cinema brasileiro. Você guarda boas recordações desse período? Mais uma vez, o filme foi feito de forma simples, com o mínimo de equipe. Nunca tinha visto uma equipe tão pequena. Não havia nem continuísta. E nós nos mandamos para o Brasil miserável, esse Brasil do sertão mais profundo. De repente, o filme ganhou o mundo daquela forma tão avassaladora. Não falo nem do Oscar. O filme nasceu mesmo no Festival de Berlim, que é um festival absolutamente sério. Não tem badalação à toa. O pessoal lá encara cinema com a maior profundidade. Há uma discussão séria, intelectual; uma coisa muito alemã, consequente. A noite de estreia foi muito bonita para o Vinicius, que fazia o Josué. Ele tinha 10 anos e saiu do Complexo do Alemão para um palco realmente alemão. Foi a primeira carinha que entrou depois de a plateia se levantar para aplaudir o fim do filme. Aí o cinema veio abaixo. Foi em Berlim que percebemos que o filme tinha fôlego. Você guarda alguma fala nos palcos que te marque, que te defina? São tantos os textos de teatro que encenei na vida... De pronto, não sei se lembro de algo. Até me culpo um pouco por isso. Mas tem uma frase ou outra que fica das peças. Em A Moratória, de Jorge Andrade, lembro que em determinado momento dizia: “É demais, mamãe. É demais”. Em Os Interesses Criados, de Benavente, havia duas: “Perdidos nos veremos para toda a nossa vida. Que será de mim?”. E também “A vida é dura, à galera, e nela tenho remado muito”. Era Raul Cortez quem dizia. Essa de vez em quando tenho dito a mim mesma. Tem uma outra do Rilke que também acho bonita: “Quem, se eu gritasse, entre os anjos, me ouviria?”. Quando a gente faz uma peça, sempre fica uma frase chave. Se a gente encontra um colega que fez a mesma peça, ele lembra uma, eu lembro outra, e a gente sabe exatamente que roupa vestíamos, como estávamos, o que pretendíamos da vida. Basta encontrar essa pessoa. LAURA HUZAK ANDREATO

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É essa intensidade do teatro que te seduz, que te move para seguir nos palcos? Não há teatro sem intensidade. Teatro é uma coisa, um espaço, uma doença, uma vocação, uma profissão muito fora dos códigos de qualquer coisa que se faça. Falo do ponto de vista do ator. Talvez seja a única profissão da qual não fica nada. Se você é um escritor, o autor da peça, aquilo fica. O cenógrafo guarda o croqui; o figurinista, os desenhos, a própria roupa. Mas a profissão do ator só existe enquanto ele está ali. No dia seguinte, ele pode não ser a mesma coisa. Ele pode sentir uma www.almanaquebrasil.com.br

dor, uma perda, um ganho, e algo se modifica dentro dele. A plateia parece que está vendo a mesma coisa, mas não. Está vendo um outro momento de um ser humano que está tentando dar conta de uma entidade, personagem, ou, em última análise, como acredito, de um outro ser humano. Como explicar? Shakespeare diz que o ator é feito da matéria dos sonhos. É muita responsabilidade. Como podemos dar conta disso? Há quem acredite que o ator guarda em si todos os personagens que representou. Você concorda? Eu sou de um tempo em que se ensaiava até 12 horas por dia. Evidentemente, depois disso, ficamos com aquilo impregnado. O sujeito passa a ter uma vida dupla, a ser um esquizofrênico. Ao mesmo tempo, tem a vida comum em volta, as ligações de família, os amores. Junto, corre uma outra intensidade que às nove da noite é preciso colocar em cena. Tem gente que saiu de casa para ver isso. E essa gente aceita que você se transforme. O outro ser humano é generoso, ele não acha que você é louco. Ele acha que você está recebendo, incorporando, representando ou interpretando algo que toca muito a ele também, ou porque faz ele chorar ou porque faz rir de se urinar. Acho que nós, atores, somos necessários, senão já teríamos nos acabado. Senão, depois de um tempo, na Grécia, essa coisa tinha morrido. Se continuou através dos milênios é porque alguma utilidade nós temos, apesar de não desempenharmos profissões utilitárias, como padeiro, pedreiro, médico, engenheiro, biólogo, costureiro, gari. Esses sim são prioritários, ou não tem pão na mesa. Mas nós não acabamos. Nós continuamos. Quem mais te impressiona hoje nos palcos? Acho que é a Bibi Ferreira. Ela está aí, com 89 anos. Outro dia houve uma homenagem para ela e me deram um apanhado de sua vida: anos 1920, anos 1930, anos 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1990, 2000, 2010... Ninguém bate essa mulher. Ela é atriz, produtora, diretora. Ela dirigiu comédia, drama, revista na praça Tiradentes. Canta ainda de você ficar de boca aberta. Olho para ela e pergunto: “Meu Deus, quantas pessoas passaram por essa mulher?”. Para encerrar, o que mais te toca na cultura popular brasileira? Eu acredito em “cultura”. Não acredito na contraposição da cultura popular com a cultura erudita. Não conheço nada mais erudito do que esses cantores de feira, essas quadrinhas, modinhas e desafios. Não conheço nada mais erudito do que moda de viola ou chorinho. Tem coreografia mais rica do que a desses reisados? Do que a das escolas de samba, aquelas velhas baianas? Tem um samba enredo que diz assim: “Brasil, Brasil, Brasil, berço das artes reunidas”. Acho que é isso que nós somos.


MAIA CARLITO

” o t s i x e o “Sonho, log Por Natália Pesciotta

Sérgio Andrade/Folhapress

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ma multinacional norte-americana convidou a agência de publicidade Magaldi-Maia a apresentar proposta de campanha para os óculos Ray-Ban. Cliente grande, negócio imperdível. A caminho da reunião de apresentação, Carlito Maia leu uma notícia no jornal: guerrilheiros vietcongues haviam invadido a embaixada americana. Não pôde conter o espírito de revolucionário. “Vocês hoje em Saigon, hein? Top top”, ironizou assim que entrou na sala de reunião, fazendo o gesto com as mãos. Perdeu o cliente, claro. Mas a satisfação de fazer a brincadeira valia mais. Segundo o escritor Frei Betto, Carlito foi “o último cavalheiro de uma geração romântica. Um homem que se pautava por princípios, nunca por conveniência”. Lembrava com orgulho da avó que, nascida em tempos de Império, se chamava América do Brazil Republicano Moura Maia. Conservou a

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Para ele não bastava muita criatividade. Um dos grandes nomes da primeira geração de publicitários brasileiros foi dos últimos românticos, como definiu Frei Betto. Nunca abriu mão da ética e dos ideais. Deixou como marca, além das flores que enviava aos amigos, frases que definem o homem, o País, o mundo. E a ele próprio, como atesta o título deste texto.

característica progressista da tradicional família mineira. Carlos Maia de Souza nasceu em Lavras em 1924 e, antes da família se mudar para Santos, passou a infância no interior de Minas. Vivia no casarão dos avós, onde também funcionava um hotel. No quintal, uma jabuticabeira era plantada a cada nascimento na família. Assim foi com ele e seus cinco irmãos. Mais tarde Carlito também homenagearia seus cinco filhos, guardando os jornais do dia em que nasceram. Era mesmo um homem da comunicação. Aliás, sempre preferiu esse termo a “publicitário”.

É uma brasa, mora?

Carlito tinha 30 anos quando entrou no curso de publicidade. Nessa época, anos 1950, já morava na “Poluiceia Desvalida” havia uma década. “Amo São Paulo com todo o meu ódio”, dizia.


Nasceram da criatividade dele os nomes Tremendão, para Erasmo Carlos; Ternurinha, para Wanderléia; e Jovem Guarda, para o movimento. Na cidade, primeiro trabalhou como office boy, depois como representante comercial de um fabricante de caixinhas de fósforo personalizadas. Por sugestão do irmão, prestou vestibular para a recém-criada Escola de Propaganda do Museu de Arte Moderna (atual ESPM), a primeira do Brasil. Passou em primeiro lugar. A partir daí, figurou na equipe de várias agências importantes, até criar a sua Magaldi-Maia & Prosperi. Sucesso fulminante, foi das agências mais criativas e inovadoras da publicidade brasileira. Fosse anúncio de imóveis, cartão de natal ou campanhas de marketing, os quatro Carlos sócios da agência – Carlos Queiroz Telles, Carlos Prosperi, João Carlos Magaldi e Carlos Maia de Souza – sempre tentavam fugir do padrão. A técnica de Carlito era escrever e jogar fora, escrever e jogar fora inúmeras vezes, até que algum dos outros berrasse que o trabalho já estava bom. Nasceram da criatividade dele os nomes Tremendão, para Erasmo Carlos; Ternurinha, para Wanderléia; e Jovem Guarda, para o movimento. Quando criou para a Record o nome do programa dos bons moços do rock brasileiro, se inspirou em um texto de Lenin que se referia ao proletariado como “a jovem guarda a quem o futuro pertence”. Dizem que criou ainda a expressão “É uma brasa, mora?”. A Magaldi-Maia ainda tinha projetos para Roberto Carlos e companhia quando fechou as portas, por peripécias de um contador desonesto. Carlito se daria bem como funcionário de outras agências. Mas acabaria por fixar-se na Rede Globo, onde seu trabalho recebeu vários prêmios. Entre as campanhas sociais que criou na emissora estava o Futeboys, um campeonato de office boys. O torneio “Este ano o Corinthians vai ser campeão” foi disputado por todos os times brasileiros que carregavam o nome do alvinegro paulista. Por acaso, naquele 1977 o Timão finalmente venceu o campeonato estadual, quebrando um jejum de mais de 20 anos sem títulos.

Latifundiário floral

Carlito pôde aliar a vida profissional às suas crenças. Dizia que ter convivido com a pobreza no Rio Grande do Norte, onde serviu o Exército aos 17 anos, o fizera um “homem de esquerda”. Nunca se separou das bandeiras e do boné do MST, por exemplo. “A luta é entre os sem-terra e os sem-vergonha”, dizia. Foi personagem marcante na fundação do Partido dos Trabalhadores e continuou colaborando com campanhas publicitárias e na afirmação da imagem do partido. São seus os slogans “Lula Lá” e “Sem medo de ser feliz”, criadas para a candidatura de Lula à presidência. Nunca deixou também de espalhar entre amigos os característicos buquês de flores – e tinha “mais amigos do que a quantidade de pétalas dos buquês que ele mandava”, segundo o cronista Lourenço Diaféria. As flores vinham sempre em momentos de comemoração, desafios, lançamentos ou estreias, acompanhadas de frases e pensamentos dos autores preferidos. Mandava “beijares e abraçares” ou um “putabracito do Carlito”. Diaféria chegou a supor que o amigo fosse um “latifundiário floral”. Drummond agradecia o “farto material educativo-filosófico-humanista”. Além de artigos na imprensa, Carlito deixava frases em todos os cantos. “Não precisamos de muita coisa. Só precisamos uns dos outros”, “Evite acidentes: faça tudo de propósito”, “Uma vida não é nada. Com coragem, pode ser muito”, “O que eu fiz na vida? Amigos”, “Sonho, logo existo”. Depois de sua morte, em 22 de junho de 2002, o jornalista Eugênio Bucci escreveu: “Carlito jamais foi unanimidade, mas chegou muito perto. Foi velado com homenagens do PT, do MST e da Globo.” E completou: “Por meio de Carlito, o Brasil sonhou seus melhores sonhos”. SAIBA MAIS Carlito Maia – A irreverência equilibrista, de Erazê Martinho (Boitempo, 2003).

O melhor produto do Brasil é o brasileiro CÂMAR A CASCUDO

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O Calculista das Arábias

ligue os pontos

Nossa homenagem a Júlio César de Mello e Souza, o Malba Tahan

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a marca da tevê fundada por descendentes de ucranianos. Além de emissora de rádio, a empresa tinha revista com mesmo nome.

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b O poderoso grupo já tinha emissora de rádio antes de ser canal de televisão. A programação de novelas, seriados e humorísticos foi a primeira transmitida em cores. c Propriedade de polêmico empresário, foi a

primeira emissora da América do Sul. Lançou nas telinhas programas clássicos como Os Trapalhões e Sítio do Picapau Amarelo.

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d Terceira maior emissora comercial do mundo, tem o programa em rede nacional mais antigo em exibição – no ar todas as noites desde 1969.

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Um homem muito rico – e bastante sábio – chamou o filho mais velho para a varanda de sua fazenda. Queria que o primogênito tomasse conta das posses da família. “Meu filho, pretendo dar à sua responsabilidade todo o gado da minha propriedade. Mas, para isso, quero que você olhe para as vacas pastando lá fora e me diga quantas são”. Para facilitar a tarefa, deu algumas breves informações numéricas: “Somando as patas e orelhas das vacas obtemos um total de 1.541. E um dos animais tem apenas uma orelha”. O jovem titubeou por alguns instantes e, para satisfação do pai, logo acertou a quantidade de vacas no pasto. E você, caro leitor, saberia fazer o mesmo?

acervo da família

a A contagem regressiva de oito segundos era

Adaptado de Matemática Divertida e Curiosa, de Malba Tahan (Record, 2009).

teste o nível de sua brasilidade

Palavras Cruzadas

Rodovia que cortaria Norte e Nordeste, anunciada pelo governo em 19/6/1970: (a) Presidente Dutra (b) BR-3 (c) Transertaneja (d) Transamazônica Não participou do show Doces Bárbaros, que estreou em 24/6/1976: (a) Tom Zé (b) Gal Costa (c) Gilberto Gil (d) Caetano Veloso Adversário do Brasil na final da Copa da Suécia, conquistada em 29/6/1958: (a) Chile (b) Itália (c) Suécia (d) Tchecoslováquia Palácio residência da presidência da República, inaugurado em 30/6/1958: (a) Catete (b) Planalto (c) Alvorada (d) Guanabara J. Carlos, carioca nascido em 18/6/1884, foi: (a) Sambista (b) Ilustrador (c) Político (d) Radialista Antes “coisa de malandro”, teve escola oficializada em 9/6/1937: (a) Futebol (b) Samba (c) Candomblé (d) Capoeira

Respostas Seu Jorge Divulgação

O CALCULISTA DAS ARÁBIAS Como uma das vacas não tem uma orelha, é preciso somar uma unidade ao total de patas e orelhas (1.541), correspondente à orelha que está faltando. Esse total (1.542) deve então ser dividido por 6 (número de patas e orelhas de cada vaca). Logo, 1.542/ 6 = 257 vacas.

Cantora de Meu Mundo Caiu, nascida em tradicional família paulistana em 6/6/1936: (a) Maysa (b) Márcia (c) Elizeth Cardoso (d) Hebe

BRASILIÔMETRO 1b; 2d; 3a; 4c; 5c; 6b; 7d; 8a.

valiação

SE LIGA NA HISTÓRIA 1d; 2a; 3b; 4c. ENIGMA FIGURADO Maria Bethânia. O QUE É O QUE É? Copa. CARTA ENIGMÁTICA ”Ele foi o único político a governar dois estados: Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro ” (Leonel Brizola).

DE QUEM SÃO ESTES OLHOS?

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Cláudio Manuel da Costa, nascido em 5/6/1729, teria sido o companheiro que traiu: (a) Lampião (b) Tiradentes (c) Zumbi (d) Jesus Cristo

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Conte um ponto por resposta certa

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De craque em craque, o Brasil se tornou o maior do mundo H

oje somos considerados o país do futebol. Afinal, ganhamos cinco Copas do Mundo. Mas nem sempre foi assim. A nossa história vitoriosa só começou a ser escrita em 1958. Antes disso, Uruguai e Itália eram as grandes seleções do planeta, com dois títulos cada. No Mundial da Suécia, em 1958, as coisas não estavam muito boas para o Brasil, com vitórias apertadas. Pelé e Garrincha entraram na terceira partida, e aí a coisa mudou de figura. O futebol da dupla – ao lado de outro gênio, Didi – foi espetacular. Pelé marcou seis gols, Garrincha encantou com seus dribles e o Brasil alcançou a elite do futebol mundial. Em 1962, no Chile, Pelé se machucou logo na segunda partida. Coube a Garrincha ser o herói do bicampeonato. Já no Mundial do México, em 1970, só havia craques em campo: Pelé, Rivellino, Gérson, Tostão... E eles novamente levantaram a taça. Brasil, tricampeão. Duas vezes mais chegamos ao topo: em 1994, graças à genialidade de Romário, e em 2002, pelo talento de Ronaldo e Rivaldo. Daqui a três anos a Copa será no Brasil. Será que outro jogador brasileiro colocará seu nome na história do futebol? Você arrisca um palpite?

JÁ PENSOU NISSO? Juntos, Pelé e Garrincha são invencíveis

Ouvir o locutor gritando “Gooooool do Brasil!” é muito bom, né? Agora imagina uma partida em que a mesma comemoração acontecesse a cada 25 segundos... Pois é o que ocorreria caso todos os gols que o Brasil fez em Copas saíssem num mesmo jogo. Desde o gol inaugural de Preguinho na Copa de 1930 até o último, de Robinho, em 2010, foram 210 tentos. Ou o mesmo que um a cada 25 segundos numa partida com duração de 90 minutos. A seleção brasileira de todos os tempos pode ser muito boa, mas esse goleiro imaginário seria um baita de um frangueiro.

Pelé e Garrincha jogaram 40 partidas juntos pela seleção, entre 1958 e 1966. Foram 35 vitórias do Brasil e cinco empates. O santista e o botafoguense nunca perderam jogando juntos com a amarelinha. Mas não deslumbravam os espectadores só pela invencibilidade, mas também pelo futebol encantador. “O Garrincha é um verdadeiro assombro. É um jogador que jamais vi igual”, disse o técnico da União Soviética durante a Copa de 1958. Depois da final, um zagueiro sueco afirmou: “Após o quinto gol de Pelé, eu queria era aplaudi-lo”.

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Sabe quem é o homenageado do mês? Para descobrir seu nome, basta preencher o diagrama abaixo. O número de cada quadrinho indica uma letra colorida escondida na linha correspondente do texto lá de cima. Por exemplo: primeiro quadrinho, linha 1: L. E assim por diante.

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Ele foi o primeiro jogador brasileiro a ser artilheiro de uma Copa do Mundo. Balançou as redes oito vezes durante o Mundial de 1938, na França. O seu apelido é igual ao nome de um chocolate muito conhecido. Sabe quem é o craque?

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Garrincha driblou, dobrou, e trouxe o troféu.

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MONTE VERDE

Um mergulho nas coisas simples Terra mineira da boa, sublinhada pela solenidade dos grandes espaços, das enormes pedras e das edificações alpinas, Monte Verde oferece o melhor do inverno caipira: chaminés fumaçando, comida de primeira e uma paisagem que encanta gente do mundo todo.

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frescor do ar geladinho e o aroma revigorante e mentolado dos ciprestes anunciam: a estância de Monte Verde está próxima. Se o viajante chegar com o dia amanhecendo verá um inesperado bônus em dose dupla: a fumacinha das chaminés indicando que a noite fria foi aquecida pelas lareiras, e a bruma espessa que custa a se desmanchar, mesmo com a quentura do sol. Localizada na Serra da Mantiqueira – do tupi-guarani, “a serra que chora” –, a 1.600 metros de altitude, a vila se aconchega em um vale abrigado dos ventos, perfumado por eucalipto citriodora e pipocado de casas que remetem às moradias dos camponeses alemães, húngaros e suíços. Uai, e “pra mode quê” esse jeitão europeu em pleno solo caipira? “Causa quê” o primeiro a descobrir tanta formosura escondida, serpenteada por um rio de águas cristalinas, o Jaquari, foi o senhor

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Verner Grinberg, nascido na Letônia. Chegou a cavalo, vindo de Camanducaia, e com o dinheiro que tinha no bolso comprou as terras de famílias mineiras. Batizou o lugar com a tradução de seu sobrenome (Grin, verde; e Berg, montanha) e começou a dar forma ao sonho de criar uma cidade em meio às montanhas e cachoeiras. Verner abriu picadas, construiu rede elétrica, captação de água, olaria, ergueu a igreja batista e a escola, trouxe uma professora e, em 1954, vendeu o primeiro lote urbano da vila. E quem não gostaria de construir ali uma casa de campo avarandada para serenar a mente nos fins de semana? Ou mesmo uma pousadinha com caramanchão florido para receber os viajantes, e um restaurante com a boa comida feita em fogão a lenha? Assim, simples assim, Monte Verde foi crescendo no município de Camanducaia.


Ziguezagueando pelas montanhas Hoje, o gostoso é flanar pelas ruas, tomando um chocolate quente para aconchegar o estômago, ou curtir horas saboreando um fondue, tradicional iguaria suíça a base de carne ou queijo. Depois da comilança, vale caminhar pelas ruas centrais e se abastecer das queijadinhas, sequilhos, goiabadas e pés de moça feitos de leite, chocolate e amendoim, para ir espichando as lembranças boas da vila quando chegar em casa. E, ainda, curiosar, nas lojas, malhas, cachecóis e boinas feitos com lã grossa e macia, e nas lojinhas de artesanato que expõem peças salpicadas de flores ao estilo folclórico bauernmalerei. Essa técnica, que significa “pintura de camponês” em alemão, se originou nos longos meses em que os campos ficavam cobertos de neve. Homens e mulheres tinham tempo de sobra para decorar os móveis, janelas, portas e até o teto com objetos de cores vivas, antecipando a primavera. Em uma gélida manhã de Monte Verde, alguém deve ter notado que baixas temperaturas, esfriar e tiritar rimam com brincar. Inventaram longas caminhadas, saltos de asa-delta e cavalgada. Folias que afugentam a preguiça, esquentam o corpo. E desfazem a distância que separa o adulto da infância. Desde então, é um tal de ziguezaguear, subindo e descendo pelas trilhas da Mantiqueira. As mais tranquilas, com duração de pouco mais de uma hora, são as da Pedra Redonda, a do Chapéu do Bispo e a do Platô. Já para a Pedra Partida são necessárias quase três horas entre ir e voltar. Mas o esforço é compensado em dias claros: de seu cocuruto pode se avistar até a Pedra do Baú. As trilhas do Selado, da Fazenda Santa Cruz e a do Pico da Onça requerem bom preparo físico em percursos que podem demorar cerca de cinco horas. Os que sabem das coisas aconselham sempre levar um agasalho e uma lanterna, pois a névoa chega num zás-trás, tão ligeira quanto o corre-corre dos esquilos. Monte Verde convida ao devaneio, a ficar imaginando as formas das nuvens e ouvindo o rataplã nos ocos das árvores – são os pica-pausamarelos procurando bichinhos. E, mais do que tudo, a ficar pensando nos trens bons que essa terra mineira tem. Alguém pode querer melhor final feliz para um dia que começou com a neblina em dose dupla?

Preste atenção

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Repare nas centenárias araucárias – curi ou curiy, no idioma tupi–, que pipocam pela mata que abraça Monte Verde. Cada pinha produzida pela árvore pode pesar cerca de cinco quilos e conter uns 700 pinhões. Altamente nutritivo e energético, o pinhão, colhido de abril a agosto, é dieta de inverno do porco-espinho, do esquilo, da cutia e da paca, e, entre as aves, do tucano, da gralha-azul e de algumas espécies de papagaio, que também ajudam a dispersar as sementes.

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Monte Verde tem mais

Galeria de Arte Paula Ungler A ceramista, que escolheu viver em meio ao verde das montanhas, expõe arrojados objetos utilitários, como xícaras, canecas e bules de chá, além de peças para ornamentar os jardins, como luminárias, fontes e comedores para pássaros.

Pra virar criança

O ar puro e o friozinho das montanhas, além de estimularem as atividades, despertam o lado infantil dos visitantes: deslizar pelos cabos da tirolesa, vencer os obstáculos do arvorismo, andar de quadriciclo, descer as corredeiras do rio Jaguari em uma boia e rodopiar na pista de patinação no gelo.

Parada do Ito

No quilômetro 6 da estrada que une Camanducaia a Monte Verde fica gostoso paradeiro para se abastecer dos trens bons da roça mineira: queijo curado ou fresco, mel silvestre, geleia de jabuticaba, de amora ou de pimenta, suco de uva branca, além de doces de nata, de leite com ameixa e de abóbora com coco. 30

Não deixe de saborear Na Galeria das Flores, procure pelo bolo mais tradicional do lugar. A lojinha tem quase o tamanho de um armário, onde mal cabe a caprichosa senhora herdeira da receita do Bolo de Especiarias da Vovó.

s e rviç o A TAM oferece voos diários para São Paulo, saindo das principais cidades brasileiras. De São Paulo até Monte Verde são 170 quilômetros. Onde ficar Pousada Moinho Velho • Com mesinhas no bem cuidado jardim pontilhado de ciprestes, plátanos e araucárias, oferece piscina, sauna, chalés com lareiras para as noites mais frias, além de ambientes aconchegantes para saborear um bom vinho. Fone: (35) 3438-1346. www.pousadamoinhovelho.com.br. Pousada e Chalés El Brujo • Um dos mais tradicionais da vila, tem charmosos chalés em estilo húngaro e saboroso café colonial com tortas, biscoitinhos, geleias e bolos. Aproveite a estadia para fazer ali um curso de bauernmalerei. Fone: (35) 3438-1211. www.pousadaelbrujo.com.br. www.almanaquebrasil.com.br

Onde comer Restaurante Mont Vert • No almoço o forte são os filés ou as trutas, e, à noite, o fondue suíço ou mix de queijos e mix de chocolates. Rua Rolinha, 71. Fone: (35) 3438-2083. Mamma Tera • Um dos primeiros da vila, o restaurante destaca no cardápio o nhoque recheado com mozarela de búfala, em generosa porção de molho de tomate. Rua Rolinha, 100. Fone: (35) 3438-1912. Para não se perder Companhia 4x4 • Nas trilhas e passeios, o ideal é ter a companhia de quem conhece Monte Verde como a palma da mão. Fone: (35) 3438-1558.


os no ar Episódios fresquinsódhios inéditos do seu programa

mês saem do forno epi ao Sem mais espera. Este atrações diferentes par s temos novidades e poi e, con par llo pre Me se a E ian do. Luc preferi preocupe: Brasil na tevê. Não se iros, Ciências sile Bra tres bom e velho Almanaque Ilus s, ssa esentando Coisas No do Brasil e muito mais. tinua semanalmente apr , Papos- Cabeça, Cantos Faz se que É o que o Com as, Doméstic do estúdio – você vai ver o Almanaquias da folga ruas do as pel o and ont Mas dessa vez tiramos apr a m de Robson Nunes and s do o impagável personage ressões e novos achado as brincadeiras, novas exp nov s, afio des : o Almanaque oto rem e País. Novos trol con seu . Pode engatilhar o ários de exibição em baú estão te esperando sil. Confira as datas e hor Bra de tter nha teli sua a vai encher e as novidades pelo Twi naquebrasil. E acompanh .br. www.tvbrasil.org.br/alma om il.c : www.almanaquebras e pelo site do Almanaque

Nós e as novelas programa 3

• Do rádio à tevê, um passeio pelas mais inesquecíveis novelas brasileiras.

Bandeiras do Brasil programa 1

• Pra começar, um delicioso Papo-Cabeça com a maior de nossas atrizes: Fernanda Montenegro. • Paulinho da Viola desfila toda a nobreza de seu samba no Cantos do Brasil. • O Almanaque ganha as ruas do País para descobrir o que dizem os sonhos. • E as curiosidades das nossas bandeiras tremulam, enchendo a sua tela de brasilidade.

• No Cantos do Brasil, a Osesp mostra por que é a maior orquestra da América Latina. • Índio além do cocar: um Papo-Cabeça com o escritor Daniel Munduruku. • E este Almanaque Brasil que você tem em mãos, Como É que se Faz?

Forrobodó no Almanaque programa 4

Somos os maiorais

• Toca o fole, sanfoneiro, não deixe o salão esfriar: o forró marca presença no Coisas Nossas.

• Do maior sanduíche à maior avenida, trazemos dados insólitos que colocam o Brasil no topo do mundo.

• No Papo-Cabeça, o maestro Julio Medaglia conta histórias e desmistifica a música erudita.

• Todo o funk, groove e samba-rock do Trio Mocotó marcam presença no Cantos do Brasil.

• Chá pra quê? O Ciência Doméstica investiga o poder das ervas em infusão.

• Você imagina como pode ser difícil afinar um piano? Pois nós revelamos Como É que se Faz.

• E no Ilustres Brasileiros, Barão do Rio Branco, o homem que expandiu nossas fronteiras sem dar um só tiro.

programa 2

• O quadro É do Baú revira as lembranças dos telespectadores com as bonequinhas Fofoletes.

Tatiana Parra e Andrés Beeuwsaert - Aqui

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(Borandá). Elegância e sofisticação. Talvez sejam os melhores termos para definir o disco da cantora brasileira e do pianista argentino. As músicas – entre instrumentais e cantadas – são assinadas por artistas como Pixinguinha, Edu Lobo, Capinan, Paulo César Pinheiro. Há até um poema de Jorge Luis Borges musicado pelo também argentino Pedro Aznar.

Tropicália – Um caldeirão cultural, de Getúlio Mac Cord (Ferreira). O engenheiro passou duas décadas colhendo depoimentos de figuras significativas para o movimento. Cada narrativa – de ícones como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rogério Duprat e Jards Macalé, por exemplo – é um fragmento para se remontar a história. Tom Zé explica a graça dos relatos, no prefácio: “A primeira pessoa arrasta, toma conta”.

Quatro a Zero - Alegria (Tratore). Há 10 anos

Patativa do Assaré – O sertão dentro de mim,

foi fundado o grupo paulista de choro, com propostas renovadoras para o gênero musical. Desde então apresentouse em mais de 50 cidades pelo País e lançou dois CDs – um em homenagem ao maestro Radamés Gnatalli e outro com choros do interior de São Paulo. Agora, composições próprias marcam a maturidade do grupo.

de Gilmar de Carvalho e Tiago Santana (Toada). O repentista sertanejo é dissecado pelo olhar íntimo de quem conviveu com ele. Em fotos e textos, os autores cearenses narram a vida do grande poeta da sua terra. O escritor Xico Sá, outro cearense orgulhoso, defende no prefácio que Patativa é o Guimarães Rosa da poesia, pela eficácia em traduzir o sertão em palavras. Junho 2011 Setembro 2010


COGUMELOS Fungi

Que reino é esse? Eles vêm chamando atenção da ciência pela quantidade de substâncias benéficas que contêm – de valor alimentício e medicinal. E vão ajudar a matar a fome da humanidade com deliciosas iguarias. Que tal o cogumelo juba-de-leão, que tem sabor de lagosta?

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M

arina Wilkens tem um ano e três meses e come cogumelo há dois anos. “Desde a barriga da mãe”, explica o pai, “e continua até hoje: adora papinha de cogumelo”. Os pais de Marina, na zona rural de Garopaba, 90 quilômetros ao sul de Florianópolis, há quatro anos cultivam o fungo. Vendem sob a etiqueta Gula – das iniciais de seus nomes: Gustavo e Laura. Escolheram como carro-chefe o hiratake, terceiro mais popular no Brasil, depois do champignon – que produzem em menor escala – e do shiitake. “O hiratake é o mais fácil de cultivar para quem está começando”, aconselham. O forte da produção é o Pleorotus ostreatus – o píleo (chapéu) lembra uma ostra. E é bonito de se ver, pois frutifica amarelo, rosa, marrom, cinza-azulado, salmão. O casal acaba de ampliar o cultivo, que começou num latão de cem litros e já emprega quatro funcionários. Com empréstimo do Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar (Pronaf), construíram um “berçário”. Depois de ter pousada e restaurante, Gustavo percebeu o nicho escancarado no sul: tinha de importar cogumelo de São Paulo. A Gula abastece duas redes de supermercados

em Florianópolis e restaurantes da região. Sai tudo. “Compramos uma desidratadora para aproveitar o que sobrasse”, contam, “mas só usamos para testar, faz oito meses”. Perguntamos sobre a carga diária de trabalho. Umas sete horas? Ele riu: “Tem dia de vinte horas. Hoje saí às três da madrugada para fazer entregas”. A trabalheira compensa, e o casal planeja voar mais alto: cultivar um exótico, Hericium erinaceus, na Europa barba-de-bode ou juba-de-leão, que já testaram e aprovaram: tem sabor de lagosta. O que Laura e Gustavo nos transmitem é que a procura em nosso país avança veloz, apesar de ainda haver preconceito. A avó de Gustavo, quando ele disse que ia cultivar cogumelos, perguntou: “Filho, isso não é tóxico?”. Mas, para se ter ideia do potencial, informam eles, o consumo per capita no Brasil é de apenas 40 gramas por ano, enquanto na Europa é de três quilos: 75 vezes mais. E nos passam o argumento definitivo de que seguem no rumo certo: “Nos próximos 50 anos, teremos de produzir a mesma quantidade de alimentos que produzimos desde que a humanidade passou a se dedicar à agricultura, 12 mil anos atrás”. Eles pensam no futuro dos bisnetos, os netos de Marina.


Nem bem animal nem bem vegetal

A

Iolanda Huzak

Dá ao nosso corpo o que ele não fabrica

T

em muita proteína e, alguns, todos os aminoácidos essenciais – os que, necessários à vida, o organismo não fabrica. Baixo teor de gordura. Rico em minerais, fibras, vitaminas B e C. Antibactericida, antioxidante, antiviral, antitumoral; regula a pressão; fortalece a imunidade, rins, fígado, coração, nervos, pulmões. Baixa o colesterol.

Iolanda Huzak

chavam que, por ter raiz, caule e copa, ele fosse vegetal. Descobriram que possui quitina, encontrada na pele de animais. E tem tanto mineral, que se poderia encaixar também nesse reino. Concluíram que ele é único: do reino dos fungos – fungi, em latim. A “raiz” se chama micélio; o “tronco”, estipu; a copa, ou chapéu, se chama píleo, e é o “fruto” que brota do micélio. Popularmente, é tudo cogumelo. A palavra latina cogumellus significa caldeirãozinho, como a forma do champignon, convidado especial do estrogonofe.

Trabalho que recompensa

O

casal da Gula adota processo chinês introduzido pela Embrapa: jun cao, “vindo da grama”. No caso, trigo. O que o triticultor joga fora, encontra serventia. Compram barato a “impureza”. O processo: 1) Põe-se a palha no misturador, molha-se e mistura-se, formando o substrato. 2) Passa-se este para um mesão de tampo cercado, que num ponto possui uma abertura onde uma funcionária encaixa saquinhos plásticos especiais e enche um a um com 2 quilos. 3) No forno, são aquecidos a 95 graus para pasteurizar. 4) Na “sala limpa” inocula-se a semente (sacos e sementes compram em São Paulo). 5) Na sala de produção vem a indução. Pelo trigésimo dia, abrem talhos nos sacos para a frutificação dos cogumelos. Foi o espetáculo que vimos: uns mil saquinhos explodindo em coloridos frutos. Um ciclo dura 35 dias e cada “fornada” dá três safras, cada saco fornecendo 400 gramas por vez. Entregam em bandejas de 200 gramas a R$6 cada. Podem faturar até R$25 mil por mês.

Próxima edição do Almanaque: na Univille, em Joinville, a busca da cura do câncer. Enquanto aguarda, fique com esta excitante informação: cogumelo aumenta a potência sexual.

SAIBA MAIS Dieta Mediterrânea com Sabor Brasileiro, de Fernando Lucchese (L&PM, 2005). No Reino dos Cogumelos, reportagem de Luciana Franco, publicada na revista Globo Rural 253, novembro de 2006.

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Tempos modernos

Um índio vai ao cartório solicitar mudança de nome. O escrivão pergunta: – Qual é o seu nome? – Grande Nuvem Azul Que Leva Mensagem Para o Mundo. – E como quer se chamar agora? – E-mail.

Esposas perdidas

No supermercado, os carrinhos de dois senhores se chocam: – Puxa, me desculpe, não vi você aí porque estou procurando a minha esposa... – Que coincidência. Também estou procurando a minha. – Como é a sua senhora? – Ela é alta, morena, lábios carnudos e está de minissaia. E a sua? – A minha? Esquece, vamos procurar a sua!

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A cara do pai

Na maternidade, o pai de primeira viagem recebe a visita de um funcionário. – Olha lá, Marcão! Meu filho está no terceiro berço à esquerda. – Nossa, Miranda. Parabéns, ele é a sua cara. – Como você sabe? Ele está virado de bruços!

Causos de

Rolando Boldrin

O Dito popular É esse o nome: Dito. Ou melhor, Dito Preto, ou então, como ele às vezes se apresentava brincando: – Benedicto da Silva Preto. Quando nos encontrávamos num botequim cheio de gente, ele olhava para a plateia e dizia, me abraçando: – Cai com nóis. E logo emendava, mostrando que sabia bem a gramática portuguesa: – Ou conosco, como queiras... Era só risada. Seu sobrenome verdadeiro nunca ninguém soube. O pai chamava simplesmente Vigilato; morreu com 100 anos. Dito Preto, daquela cidadezinha do interior, sua política, músicas caipiras no altofalante nos domingos, as meninas ingênuas e safadinhas, o senhor prefeito saudando na calçada, de braços com a primeira-dama. O prefeito também respeitava o Dito Preto, que era diferente na cor, mas muito maior do que ele por dentro. Eu virei artista de tevê, cinema, teatro; virei cantor, compositor e outros bichos. Ele continuou até o fim como engraxate de uma barbearia na pracinha daquela cidadezinha do interior. Mas era, ele sim, por direito de dom e nascimento, um grande artista brasileiro. A bênção, Dito.

O que é meu é seu

O capiau, muito do pão-duro, recebeu a visita de um amigo. A certa altura, o camarada quis saber sobre a amizade deles: – Se você tivesse 10 fazendas, cumpadi, você me dava uma? – Claro que dava, uai! – Se você tivesse 10 automóveis, você me dava um? – Claro que sim! – E se você tivesse 10 camisas, você me dava uma? – Aí não... – Por que não? – Porque eu tenho 10 camisas, ara!

Estrada errada

O capiau trabalhou sem folga durante anos até que conseguiu comprar um carrão. A primeira coisa que fez foi pegar a estrada para testar a potência da máquina. Estava no limite da velocidade quando avistou uma placa que tirou seu humor: “Reduza a 70 km”. Ele obedeceu. Logo adiante, mais uma placa: “Reduza a 40 km”. O caipira já estava soltando fogo pelas ventas quando avistou outra sinalização: “Reduza a 20 km”. “Ô diacho! Assim não é possível!”, resmungou. Andou mais um pouco até que uma placa maior finalmente anunciou: “Bem-vindo a Reduza”.


Almanaque Brasil 146 - Junho de 2011  

O Almanaque Brasil é um verdadeiro armazém da memória nacional, capaz de promover uma viagem pela história do País, em temas como música, ci...

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