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Ele tinha quase 50 anos quando deu vida ao Menino Maluquinho. Hoje, ao completar 80, segue com todo o gás povoando a imaginação das crianças com histórias e personagens inesquecíveis. Texto: Natália Pesciotta Arte: Guilherme Resende

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uando pequeno, o filho de Zizinha e Geraldo adorava as histórias de Gulliver, Alice no País das Maravilhas e os contos dos irmãos Grimm lidos pela mãe. Até que caiu em suas mãos um gibi do Super-Homem, em um tempo em que quadrinhos eram considerados inimigos da leitura. “Entendi aí o meu futuro”, afirma um dos maiores escritores infantis do País. A literatura para crianças foi quase um acaso, mas ele estava preparado: sabe encarar os pequenos de igual para igual. “Para falar com eles não é preciso usar diminutivo nem ficar de nhe-nhe-nhem. Criança gosta de ser levada a sério”, ensina ele. A teoria deu certo. Conhecido pela fundação e engajamento no Pasquim durante a ditadura, o mineiro de Caratinga mudou o enfoque da sua vida profissional depois do sucesso de O Menino Maluquinho, em 1980. Aos 80 anos, completados em 24 de outubro (apropriadamente, mês das crianças), acumula cerca de 150 obras publicadas. Vendeu aproximadamente oito milhões de livros no mundo inteiro, 350 mil só no exterior. Sem falar nos filmes, peças teatrais e séries baseados em suas histórias. Até apresentador de programa ele virou, com o ABZ do Ziraldo, que vai ao ar na TV Brasil. O fã do menino-prodígio Robin, dono de uma coleção de 300 coletes, adorador do “era uma vez” e profundo conhecedor do código alfabético da Zizinha continua achando que uma criança maluquinha torna-se um adulto bacana. E segue insistindo na equação que o norteia: quanto mais os pequenos gostarem de ler, melhor o País será.

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Em 1960, Ziraldo trocou bom emprego em agência publicitária por cargo e salário menores na revista O Cruzeiro. Em compensação, acabou conseguindo emplacar seus personagens entre tradicionais quadrinhos de Luluzinha, Bolinha e Roniquito. Assim nasceu A Turma do Pererê, primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor. Quatro anos depois, com o golpe militar, acabaram-se O Cruzeiro e o gibi. Mas deu tempo de os personagens inspirados na cultura popular e em amigos de infância do autor garantirem lugar na lembrança de quem viveu aquele tempo – e, mais tarde, em álbuns de figurinhas e programa de tevê.

PERERÊ Usa o cachimbo só para fazer mágica; tem um redemoinho domesticado para as aventuras. boneca Namorada de Pererê, é filha de um fazendeiro da região.

GERALDINHO ALAN

TUIUIÚ

“Os bichinhos heróis dessas aventuras são figuras clássicas da lenda brasileira. Toda história que a mãe preta, o avô contador de caso ou as tias mais amorosas contaram para seus meninos têm figuras semelhantes.”

Pedro Vieira Como a onça, o macaco, a tartaruga e o joão-de-barro, o tatu habilidoso homenageia um amigo de infância do autor.

GALILEU Grande e forte, a onça só assusta. Na verdade, é boazinha.

Por muito tempo, a página das cores da bandeira mais bonita em Flicts foi ilustrada com o estandarte do Reino Unido. O símbolo verde, amarelo e azul só entrou na edição de 1985: “Ninguém podia amar a bandeira do Brasil naquela época”, diz Ziraldo.

em 1985 Ziraldo publicou Fábula das Três Cores, com a liberdade para ufanar o verde, o azul e o amarelo. No posfácio, conta que nunca esqueceu que, quando era escoteiro, viu a flâmula hasteada na Itália e chorou de emoção. “Não quero ensinar nada a ninguém. Sou apenas um rapaz (?) latino-americano que hoje sabe que tem — e assume inteiramente o adjetivo — um acendrado amor pela pátria.”

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TININIM Valente, mas com mania de doença, é o melhor amigo de Pererê.

O primeiro homem a pisar na Lua, em 1969, deu a ideia da primeira trama infantil de Ziraldo: uma cor sem lugar no mundo, mas com destaque garantido em solo lunar. Detalhe: o livro foi feito em um fim de semana. Em visita ao Brasil no ano do grande feito, o astronauta pioneiro Neil Armstrong conheceu o livro e confirmou: “A Lua é flicts!”.

Ziraldo assina o maior livro infantil em páginas e em número de ilustrações – mais de 600. ABZ junta 26 livros publicados antes, cada um deles sobre uma letra do alfabeto. Depois, a obra virou título de programa de televisão, no ar desde 2009.


“Os meninos que recebem amor e afeto são felizes e viram sujeitos legais”, sentenciou Ziraldo durante um debate sobre infância. “Sua tese merece um livro!”, sugeriu alguém. Daí veio a inspiração, em 1980, enquanto fazia a barba: “Era uma vez um menino maluquinho...”. Em 15 dias, Ziraldo fez os desenhos do garoto com “fogo no rabo”, “vento nos pés” e “pernas que davam para abraçar o mundo”. Já conhecido pelos trabalhos na revista O Cruzeiro e no jornal O Pasquim, o sucesso na bienal daquele ano foi inevitável: os 5 mil exemplares impressos de O Menino Maluquinho não foram suficientes. A edição se esgotou no lançamento. Hoje, na centésima nona edição brasileira, o livro já foi impresso quase três milhões de vezes para vários lugares do mundo, além de ter virado gibi, dois filmes, peça de teatro, minissérie e até ópera! Para Ziraldo, o sucesso não tem fim porque “tudo muda, só não muda a alma humana”.

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“Infância verdadeira é isso que Ziraldo conta em figura e verso gostosos que nem torta de chocolate. Quem viveu assim sabe. Quem não viveu... que pena!”

A panela virou símbolo de toda a trupe do Menino Maluquinho. Pode-se dizer que as orelhas de Mickey estão para os personagens de Walt Disney assim como a panela de ponta-cabeça está para esta turma aqui:

Carlos Drummond de Andrade

LúCIO

NINA Irmã mais nova do Bocão e bem sagaz, faz de tudo para ser aceita pela turma.

JULIETA Namorada de Maluquinho. Inteligente e decidida, não perde uma fofoca.

Pode procurar: a famosa panela na cabeça do Menino Maluquinho não aparece nem uma única vez dentro do livro. Apenas na capa. Foi uma solução para vestir o garoto de Napoleão, a figura histórica mais associada à maluquice. Ziraldo colocou a mão do personagem dentro de um paletozão azul e o calçou com sapatos de adulto. Depois lembrou da panela que ele mesmo, quando criança, usava na cabeça para brincar de capitão.

MALUQUINHO Agitado, bagunceiro e criativo, nunca recusa uma aventura.

CAROLINA

JUNIM O mais novo e mais caçoado da turma. É cri-cri e muito esperto.

BOCÃO Fiel escudeiro, sempre pronto para um petisco, vive confundindo as coisas.

A ilustração de Pedro Álvares Cabral no caderno de Maluquinho contou com a ajuda da mulher do autor. Vilma desenhou o português com a mão esquerda para parecer feito por uma criança. Nas traduções do livro para outros países, essa página é sempre adaptada para elementos da história local. Só na versão coreana a editora não quis modificações: “É uma obra de arte, não vamos mexer em nada”. Trata-se de uma das grandes satisfações de Ziraldo. Outra é a edição especial dos 40 anos de Flicts no Japão: “Como objeto, é o livro mais bonito que eu já vi na minha vida”.


Estava pronta a história em homenagem a tia Eni, professora de Ziraldo no grupo escolar em que estudou durante dois anos no Rio de Janeiro. Mas, na hora de ilustrar Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, o autor se desesperou: “Só sei desenhar homens narigudos e mulheres ‘boazudas’. Não sei desenhar moça bonita!”, concluiu. Nisso, Tereza de Paula Penna tocou a campainha. Ela organizaria com Ziraldo uma exposição sobre Alceu Penna, seu irmão e ex-colega do ilustrador na revista O Cruzeiro, falecido havia 15 anos. “Quando abro a primeira página Garotas de um dos álbuns que ela trouxe, minha professora salta inteira na do Alceu página e me diz: ‘O Alceu me mandou aqui’.” As Garotas do Alceu deram a cara dos anos 1940. Com seus penteados, gestos, sorrisos e olhares, Ziraldo construiu a professora daquele tempo. “A professorinha permanece em nossa memória não pelas blusinhas que ela usou de verdade, mas por aquelas que viu publicadas em O Cruzeiro e sonhou em vestir todos os dias.” “Enforquei muito coleguinha do grupo escolar com elas”, afirma o escritor sobre as palavras que ilustram o jogo da forca que aparece em Uma Professora Muito Maluquinha. Quer saber quais são? O código alfabético que a professora usa com os alunos não foi invenção de Ziraldo. Sua mãe usava a escrita cifrada para registrar memórias secretas e em cartas para as filhas. Depois, todos os netos aprenderam o Código da Vovó Zizinha.

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Resposta: Pterodáctilo e istmo. brinca “Músicos fazem um réquiem, os rajás fazem palácios (como o Taj Mahal), os escritores fazem sonetos. Eu escrevi sobre ela quando pude”, disse Ziraldo depois da morte de Vilma, sua mulher por 40 anos. Lançado em 2002, Menina Nina – Duas razões para não chorar dirige-se a uma neta para falar sobre morte com crianças. Além de homenagem à esposa, a obra serviu de conforto para a família e a si próprio. Em montagem teatral da história, todo mundo participou: a filha Daniela Thomas fez o cenário e o filho Antonio Pinto cuidou das canções.

Ziraldo sobre a coleção de meninos galácticos. Já foram lançados O Menino da Lua, O Menino do Planeta Urano, O Menino da Terra, Os Meninos de Marte e O Capetinha do Espaço. A ideia é ter pelo menos nove livros, para cada planeta do Sistema Solar. “Fazendo um por ano, tô garantido!”, diverte-se ele. SAIBA MAIS

Assista ao documentário Ele Era um Menino Feliz – O Menino Maluquinho, 30 anos depois, de Caio Tozzi e Pedro Ferrarini: www.eleeraummeninofeliz.blogspot.com.br. No site do Almanaque, leia entrevista com Ziraldo: www.almanaquebrasil.com.br/personalidades-arte/8031-ziraldo.html


Almanaque Brasil 162 – Especial Ziraldo