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XXIX

POLÍTICA E SAÚDE

MAI.2019

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ALTERNATIVA

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CULTURA


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A edição que o leitor tem em mãos nasce com o objetivo de aproximar dos estudantes da nossa faculdade uma realidade que cada vez mais lhes deve pertencer. Num ano que se pode revelar determinante para o panorama político nacional e europeu, a vontade de trazer mais (e melhor) informação sobre os potenciais sismos políticos que se avizinham constituiu a génese para a presente edição. A XXIX Edição da revista RESSONÂNCIA emerge assim com um foco particular na relação entre a Política e a Saúde, pondo em destaque uma realidade decisiva para o futuro de todos nós. Por outro lado, as visões alternativas sobre o mundo científico começam a ganhar um espaço cada vez maior na atualidade. Tendo abandonada a crença positivista de que só a ciência contém as grandes respostas para a Humanidade, a sociedade moderna apresenta-se como um desafio para o médico do século XXI, confrontando-o com uma variedade de perspetivas sobre factos científicos, outrora tidos como estabelecidos. Tendo isto em consideração, a presente edição apresenta um separador dedicado exclusivamente à Medicina Alternativa. Finalmente, a XXIX edição contempla, uma vez mais, um separador Cultural que nos lembra que o tempo efémero que possuímos não pode ser reduzido exclusivamente à nossa esfera profissional. A RESSONÂNCIA termina assim mais um ano na esperança de ter cumprido o seu maior objetivo: o de continuar a surpreender e interessar aos leitores, peça sem a qual nada disto faria sentido. A eles, um tremendo e sincero Obrigado.

Humberto Freire e João Bastos, Coordenação-Geral da Revista RESSONÂNCIA


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CRÓNICA 1 O MITO DO SÍSIFO

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POLÍTICA E SAÚDE OS PROTESTOS DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE

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QUANDO O INFORMADO GANHA AO FORMADO

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GRANDE REPORTAGEM P Ú B L I C O O U P R I VA D O - Q U A L A M E L H O R S O L U Ç Ã O PA R A U M S I S TE M A D E S AÚ D E PA R A TO D O S ?

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ALTERNATIVA CONSEQUÊNCIA S DA S TNS NO SNS

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D I E T A Q U E P O D E S A LVA R O M U N D O

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O PA P E L D O M A R K E TI N G N A P R O M O Ç ÃO DA S AÚ D E

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CULTURA C A FA R N U M - O C AO S DA R E A LI DA D E

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P L ATO N

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CONAN , O OSÍRIS

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LUZ , C ÂMAR A . . . E NOÇ ÃO?

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CRÓNICA 2 G E S TÃO DA E M O Ç ÃO

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CRÓNICA 1

JOÃO BASTOS

O mito do Sísifo Existem momentos em que o tempo sofre uma fratura e perde a sua dimensão. São fugazes, intempestivos e sobretudo intensos. Tendem a emergir dentro da nossa consciência como uma espécie de revelação, normalmente catalisados por uma música singular, um texto inesperadamente arrebatador ou mesmo uma emoção nova extasiante. Estas estranhas impressões enlevam o espírito e lembram-nos que por entre os meandros do nosso dia a dia rotineiro, a experiência humana constitui ainda a peça mais indecifrável de entre tudo aquilo que conhecemos. Uma pergunta, no entanto, emerge forçosamente: Por que razão estes momentos são tão raros? A verdade é que num século onde tudo nos é prontamente acessível, temos pouco tempo. Muito pouco tempo. Pouco tempo para pensar, pouco tempo para a família, pouco tempo para os amigos. Enfim, pouco tempo para viver. Vivemos centrados naquilo que é mais valorizado na sociedade, naquilo que é, afinal, o pilar da civilização moderna: o trabalho. A valorização (e atrevo-me a dizer hierarquização) de cada indivíduo pela sua capacidade produtiva encontra-se de tal forma incrustada no nosso subconsciente que raramente merece qualquer tipo de questionamento. Nem mesmo no século onde a filosofia existencialista alardeava derrubar as últimas barreiras que limitavam a liberdade humana, atreveuse este esquema cognitivo a revelar a sua natureza parasitária. Mas não nos adientemos.

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O MITO DO SÍSIFO

Segundo Max Weber, a ética protestante foi a verdadeira responsável pela libertação do homem dos grilhões católicos do pecado associado à usura, abrindo assim caminho para o espírito capitalista. Com a perspetiva protestante, a procura de riqueza pela adoção de um estilo de vida metódico, profundamente ascético (e atrevo-me a dizer castrador) surge pela primeira vez como um ideal querido por Deus. O que é realmente condenável do ponto de vista da moral protestante é o indivíduo descansar sobre as suas posses, gozar a riqueza e deixar-se levar pelos prazeres da carne. O ascetismo secular protestante liberta assim o indivíduo do peso psicológico tradicionalista associado à acumulação de riqueza. A sede e a procura de lucro passam não só a ser permitidos como desejados por Deus. A adoção de um estilo de vida disciplinado centrado no trabalho ainda mais. Atualmente, o espírito de procura incessante de acumulação de bens sem outro propósito senão a própria acumulação já não necessita de qualquer base moral. Aliás, a sede de lucro é tida como uma paixão saudável, uma espécie de desporto para diferenciar os mais aptos. Embelezado por uma verborreia sem fim de termos que enaltecem o indivíduo, este prolongamento tentacular da cultura hiperindividualista tenta fazer desparecer qualquer enquadramento coletivo. Afinal, nas palavras de Margaret Tatcher “There’s no such thing as society. There are individual men and women and there are families.” Na prática, a perda de um contexto coletivo traduz-se na volatilidade constitucional do sistema, produzindo instabilidade não só macrofinanceira como também individual onde os sujeitos são abandonados a uma lógica predatória que descarta os indivíduos que não têm o “espírito” requerido. Quem almeja singrar na vida tem pois de a viver centrada no trabalho.


CRÓNICA 1

Mesmo nos momentos em que o dia a dia encontra uma saída fugaz do vórtex do mundo laboral, a cultura hipermoderna surge como um adversário formidável para a contemplação da existência. Com efeito, após ter sofrido um incessante processo de mercantilização, a cultura do séc. XXI tornouse perita em direcionar o olhar e a consciência do público para o mundo fictício do espetáculo. Os bens culturais que atualmente chegam à grande população são regidos pela lógica do mercado e não conseguem oferecer respostas nem suscitar questões. A perda dos modelos utópicos do séc. XX que funcionavam como contra-modelos da sociedade produziu um vazio ideológico que a cultura simplesmente não conseguiu preencher. Pelo contrário, aliás. Os media tornaramse profissionais não só na normalização da sociedade atual como principalmente na sua conceptualização como único modelo possível. A cultura surge desta forma como um aliado indispensável à alienação do indivíduo face à sua própria dimensão e futuro. Sísifo foi condenado a, por toda a eternidade, fazer rolar uma grande pedra de mármore até ao cume de uma montanha. Alcançado esse topo, a pedra, por uma força irresistível, voltaria sempre ao ponto de partida gerando um ciclo torturante. Embora as similitudes do nosso dia a dia com esta tarefa mitológica sejam por vezes avassaladoras, não entreguemos o nosso fugaz tempo aqui a uma alienação ascética obsessivamente focada no trabalho. Afinal, ao contrário de Sísifo a nossa experiência é efémera e é dessa efemeridade que nasce a verdadeira essência daquilo que significa viver.

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POLÍT

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POLÍTICA E SAÚDE

RÚBEN SIMÕES

Os protestos dos Profissionais de Saúde Vivemos um tempo perigoso. Um tempo enganador… Onde somos banhados com direitos, que depois nos são ardilosamente negados na hora de deles fazermos uso, por meio de decretos e despachos, assinados por personagens enigmáticas que se escondem atrás da suposta imparcialidade das Instituições que representam. É muito agradável de se ouvir, apregoado aos sete ventos, os ideais de liberdade, de respeito pelos direitos dos trabalhadores. Andamos todos com Abril na boca. Todos nos respeitamos, o Estado e os Privados preocupamse muito com as necessidades dos seus queridos colaboradores. Fazem-se juras de amor e de proteção eterna… Dos abusos fiscais, dos cortes nos vencimentos, dos congelamentos das carreiras. Depois, colocamos a cruz no sítio certo, subscrevemos os programas que nem lemos. Finda a campanha eleitoral, e lá guardamos Abril no saco outra vez, até à próxima.

Encontramos na Constituição da República Portuguesa, no Artigo 57.º, categoricamente proclamado na alínea 1: “É garantido o direito à greve.” Na alínea 3 do mesmo artigo, por sua vez, consta: “A lei define as condições de prestação, durante a greve, de serviços necessários à segurança e manutenção de equipamentos e instalações, bem como de serviços mínimos indispensáveis para ocorrer à satisfação de necessidades sociais impreteríveis.” Ora esta aparente restrição ao direito no seu pleno, tem compreensivelmente a sua lógica, na medida daquilo que é o bom senso de ter de assegurar, aquilo que são os serviços mínimos para garantir a saúde, segurança e correto funcionamento da sociedade. Trocando por “miúdos”, garantir que não desatamos todos à pedrada ou coisas bem piores, que, por vezes, mesmo amarrados com regras, nos passam pela cabeça. Talvez ainda resquícios que todos temos do quadrúpede que fomos um dia… É lógico que tem de haver serviços mínimos, que há atividades que não podem parar pelas repercussões que isso traria.


OS PROTESTOS DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Um dos setores, onde, naturalmente, o direito a esta forma de protesto, é mais sensível, é a Saúde, que não pode parar. Por muito que estejam revoltados com a falta de condições para trabalhar, sabem que o seu compromisso profissional é um dever maior que não podem deixar de salvaguardar. Quando se chega ao ponto de um profissional de saúde fazer greve, algo já está muito mal… Dirão muitos: “Um médico já ganha bastante, e os enfermeiros ganham quase tanto como um médico e estudam menos anos…”. Mas, se quisermos pensar seriamente nas questões, concluiremos que há problemas muito graves no Serviço Nacional de Saúde a dificultar a ação dos Profissionais que querem trabalhar, e que continuam a ser “varridos para baixo do tapete”.

Como é possível que os turnos de 24h seguidas nas urgências ainda não tenham sido abolidos? Quem ganha com isto? Das duas, uma: ou os médicos passam metade do turno a dormir, ou vão prestar forçosamente um mau serviço. E um mau serviço pode ser um erro insignificante como pode ser matar uma pessoa, ou contribuir para isso. Se parece uma noção óbvia de que se trata de uma violência laboral extrema? Parece. Mas o que é facto é que continua. Neste exemplo, como no caso da progressão na carreira dos Enfermeiros, ou no caso do adiamento constante da nova ala pediátrica do Hospital S. João, dos serviços sobrelotados, das assimetrias que se observam em muitos hospitais e que obrigam muitos doentes a fazer centenas de quilómetros em busca de tratamento nos grandes centros, e dos quais não podem prescindir, ficam várias questões… Será que médicos e enfermeiros só querem mais dinheiro? Ou será que a sua luta tem propósito? Todos sabemos que o dinheiro é a força motriz de todo o Sistema. Todos sabemos que satisfazer

a reivindicação salarial dos Enfermeiros custaria anualmente cerca de 230 milhões de euros ao Estado. Mas conforme a Saúde é uma atividade basilar que requer prioridade de serviços mínimos, não deveria requerer mais prioridade em certos investimentos? Será que o dinheiro que salva os Bancos da gestão danosa, e as empresas falidas não deveria ser priorizado na construção de uma ala para que crianças com doenças gravíssimas não tenham de estar mais a ser tratadas em contentores? Com isto, não pretendo justificar greves dos Profissionais de Saúde, apenas explicar o outro lado da balança. Infelizmente (como ainda recentemente se viu na questão da greve dos Motoristas de Mercadorias Perigosas), muitas vezes, só quando as greves vão além dos Serviços Mínimos e incomodam pelo impacto que geram, é que se consegue chamar à atenção para o diálogo entre as partes envolvidas. Infelizmente, é uma verdade, e a História o comprova nas lutas levadas a cabo pelos mais diversos direitos que hoje nos são reconhecidos. Com isto concluo que os milhares de cirurgias e consultas que ficam por realizar a cada dia de greve dos Médicos ou dos Enfermeiros, violam o código deontológico e ético da profissão. É verdade, sim. Cada dia de greve deve ser muito bem refletido pela classe e por cada um. Tudo isto é uma balança, difícil de equilibrar. Por um lado temos a luta legítima por melhores condições, de quem passa anos a estudar e que se dedica diariamente ao seu trabalho, que é uma causa, embora, seja a sua obrigação; e por outro temos a causa em si, que são os doentes, e que não merecem, nem devem sofrer, por conflitos económicos e laborais que lhes são alheios (já lhes basta o que os leva aos Serviços de Saúde).

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POLÍTICA E SAÚDE

INÊS ABREU

Quando o informado ganha ao formado Todos nós conhecemos o poder que os bons oradores possuem. Aqueles que sabem jogar com as palavras conseguem influenciar as nossas mentes de forma quase imperceptível, independentemente de terem ou não razão nos seus argumentos. Vemos isso no nosso dia a dia. Enquanto estudantes, sabemos que aquele colega que não sabia nada se safou na oral porque tem a confiança que falta àquele aluno conhecedor mais tímido. Enquanto adultos, vemos a velhota a comprar um produto inútil a um vendedor de rua porque ele lhe garante resultados miraculosos.

Contudo, mais grave ainda é quando o bom orador consegue influenciar decisões políticas simplesmente pela força das palavras e não da evidência. Revisitemos o mais recente debate dos prós e contras sobre medicinas alternativas, que surgiu em consequência da discussão quanto ao financiamento por parte do SNS das Medicinas Alternativas e do veto do Presidente da República sobre o interesse público à Escola Superior de Terapêuticas Não Convencionais. Não me querendo debruçar sobre o porquê de mentes iluminadas terem aprovado tal

ideia ao ponto de ser necessário o veto do chefe de estado (situação que já me deixou algo alarmada), considero no mínimo assustador o que observei naquele programa. O debate é a prova viva de como o povo valoriza mais o charlatão que sabe falar do que o conhecedor com formação. As pessoas o que querem são resultados rápidos, baratos e incríveis. Todos queremos isso. O problema é que tal é raro. Em medicina baseamonos na evidência, obtida por ensaios clínicos aleatorizados, duplamente cegos e com placebo. O cumprimento destes critérios é essencial,


QUANDO O INFORMADO GANHA AO FORMADO

pois sabemos como os resultados podem ser tão facilmente enviesados pelos mais pequenos erros. A evidência que obtemos daqui, claro está, nem sempre é a que queremos. Às vezes algo que tinha todos os motivos para funcionar, não funciona. Às vezes funciona, mas não muda assim tanta coisa como estávamos à espera. E às vezes até faz pior. E temos que jogar com estes resultados para montar medidas que levem a uma melhoria da saúde das populações. O nosso objetivo não é sermos estrelas de cinema a quem as pessoas fazem fila para pedir autógrafos. Já os incríveis representantes das medicinas alternativas (tal como muitos políticos), prometem às pessoas o que elas querem ouvir, sem terem qualquer certeza se conseguem cumprir tais promessas. E as pessoas vão atrás, ficam cativadas por ideologias teóricas não concretizáveis na prática. Neste sentido, chamo a atenção para a mais recente aprovação de três novas vacinas para o PNV: Meningite B, Rotavírus e HPV para os rapazes. Quanto desta decisão é baseada na evidência e quanto é atribuível a uma ideologia teórica? Não me interpretem mal, as vacinas são um dos melhores eventos da medicina e graças a elas tem sido possível obter melhorias fantásticas ao nível da saúde populacional. Contudo, a integração de uma vacina no PNV implica ter em conta o custo-benefício das mesmas e, para isso, temos que avaliar um número razoável de variáveis tais como: prevalência e incidência a doença, eficácia da vacina, custos de produção… Se formos pela evidência, a introdução destas três novas vacinas terá um custo acrescido ao estado que corresponde a cerca de metade do custo total do PNV (18 milhões de euros) e com que ganhos?

>> O HPV estima-se ser responsável por 160 a 180 casos de cancro nos homens por ano, enquanto que nas mulheres é responsável por praticamente 100% do cancro do colo do útero. Logicamente, o impacto da vacinação nos homens será muito reduzido relativamente às mulheres. >> A vacina para a meningite B ainda apresenta baixa concordância entre o seu conteúdo e as estirpes em circulação, para além de que ainda não deu provas de criar imunidade de grupo. >> O rotavírus não tem uma prevalência em Portugal que justifique a vacinação universal da população. Por todas estas razões, esta alteração ao PNV poderá implicar cortes noutras áreas da saúde, não tendo o benefício acrescido para a população que seria desejado. Porque estão deputados, pessoas sem qualquer conhecimento na área, a aprovar as vacinas que devem integrar ou não o PNV? E mesmo antes das Legislativas? Vivemos cada vez mais num mundo das aparências e do que fica bem na teoria… A evidência e o que se aplica na prática é deixado de lado, mas a que custo? Só o tempo nos dirá o impacto que todas estas medidas terão na saúde da população.

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RAND EPORTAGE


GR ANDE R EP OR TAGEM

A NTÓ N I O V E LH A • VA S CO LO B O

Público ou Privado Qual a melhor solução para um sistema de saúde para todos? Em 1946, foi aprovada a Constituição da Organização Mundial de Saúde (OMS), na qual podemos ler: Gozar do melhor estado de saúde que é possível atingir constitui um dos direitos fundamentais de todo o ser humano, sem distinção de raça, de religião, de credo político, de condição económica ou social. Tanto o Banco Mundial como a OMS designaram a cobertura universal de saúde como um objetivo primário. Contudo, os moldes segundo os quais os cuidados de saúde são geridos, administrados e financiados geram mais discórdia. Atualmente, a discussão no panorama político português tem sido marcada por diversas propostas antagónicas de remodelação da Lei de Bases da Saúde, legislação que estabelece o quadro do sistema nacional de saúde e, particularmente, do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Contudo, o debate rapidamente cedeu a simplificações e dicotomias, nomeadamente a do público vs. privado. Surge na opinião pública a perceção de que estamos perante uma bifurcação e que só podemos tomar um de dois caminhos. Será mesmo assim? D I F E R E N T E S S I S T E M A S

S A B O R E S D E

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S A Ú D E

Antes de mais, o que é um sistema de saúde? Genericamente, corresponde ao conjunto das organizações que prestam serviços médicos

(hospitais, centros de saúde, etc.) e que providenciam o seu financiamento (governos, comunidades locais, companhias privadas de seguros, etc.). Dada a sua enorme variedade, os sistemas de saúde podem ser agrupados de várias formas: 1) Modelo Beveridge - baseado num serviço nacional de saúde, de acesso universal, providenciado e financiado pelo governo através do Orçamento de Estado; não exclui a existência de prestadores de saúde privados, que podem ou não receber financiamento estatal (ex.: Portugal, Reino Unido, países escandinavos, Espanha, Nova Zelândia, etc.); 2) Modelo Bismarck - baseado na segurança social, nomeadamente através de seguros obrigatórios (que revertem para “fundos de doença”, que qualquer contribuinte usa com base nas suas necessidades); o Estado vigia um sistema de contratos entre utentes, fornecedores de serviços e seguradoras (ex.: Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Japão e Suíça); 3) Modelo nacional de seguro de saúde - Modelo nacional de seguro de saúde - inclui elementos dos anteriores: os prestadores de cuidados são privados, mas o financiamento vem de um programa de seguro gerido pelo Estado, para o qual todos contribuem; não há objetivos lucrativos nos seguros (ex.: Canadá, Taiwan, Coreia do Sul, etc.);

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P ÚB L IC O OU P R I VA DO QUAL A MELHOR SOLUÇÃO PARA UM SISTEMA DE SAÚDE PARA TODOS?

4) Modelo out-of-pocket - não há um sistema de garantia de acesso universal a cuidados de saúde, sendo estes pagos diretamente pelos utentes; apresenta tendencialmente maus outcomes e é característico dos países em desenvolvimento (ex: África, Índia, China, América do Sul, etc.); 5) Modelo Semashko - diretamente controlado pelo Estado, que é proprietário de todas as infraestruturas, financiador de todos os procedimentos e alocador dos serviços à população (ex.: Rússia, Bulgária, Polónia, República Checa, etc.). Perante isto, relativamente à natureza do financiamento dos sistemas de saúde, encontramos uma panóplia de métodos que inclui fundos governamentais, seguros de saúde ou sociais obrigatórios (financiados de forma pública, privada ou ambas), seguros de saúde voluntários (privados), fundos pessoais, ONGs e até corporações. No geral, cada país aplica vários destes métodos, diferindo na sua dominância relativa.

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Segundo o relatório Health Systems in Transition, a atual percentagem do PIB direcionada para a saúde (9,5%) está em linha com os gastos a nível europeu. Em 2010, a tendência de crescimento dos gastos públicos, que se verificava desde os anos 90, inverteu-se e deu lugar a um aumento da despesa privada. Em 2014, o setor público contribuía para 66,2% dos gastos em saúde (menor que a média europeia: 76,2%), e o setor privado para os restantes 33,8%, dos quais 5,4% provinha de seguradoras e 27,5% de gastos out-of-pocket (taxas e co-pagamentos cobertos diretamente pelos utentes em produtos farmacêuticos, exames laboratoriais e imagiológicos ou, controversamente, taxas moderadoras) - este último está entre os mais altos a nível europeu e constitui um grave fator de inequidade. No geral, o SNS oferece cuidados universais e compreensivos aos cidadãos e contratos com privados permitem ao SNS, como financiador,

alcançar as necessidades dos utentes em testes laboratoriais, imagiologia, diálise e reabilitação. No entanto, os tempos de espera elevados permanecem um problema major, com impacto no acesso, equidade e proteção financeira (os utentes procuram no setor privado respostas que não alcançam no SNS), e poderão constituir a explicação para a magnitude de pagamentos sob a forma de gastos out-of-pocket. Recentemente, estes e os do setor privado têm aumentado, apesar da oferta de serviços no SNS não ter diminuído, paralelamente a um aumento em isenções, o que sugere que cidadãos com maiores rendimentos se têm virado para os cuidados privados devido à insatisfação com o SNS.

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C A M I N H O S

A D I A N T E

Segundo o relatório Um Futuro para a Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, o SNS é financiado de três formas principais: 1) receita de impostos; 2) co-pagamentos e taxas pagas pelos utentes; 3) subsistemas e sistemas privados de seguros de saúde. Segundo o relatório, há um consenso geral na população a favor da manutenção do financiamento do SNS pelos impostos, e da sua acessibilidade de forma equitativa e universal. A margem para aumentar os impostos gerais é reduzida, pelo que se sugere aumentar os impostos sobre os produtos pouco saudáveis e criar incentivos para comportamentos saudáveis. Quanto aos co-pagamentos, reconhecem-se as suas desvantagens: evidências indicam que reduzem a utilização dos cuidados de saúde, tanto os inadequados como os necessários, tendo um efeito negativo sobre os mais desfavorecidos. Além disto, quando elevados, requerem isenções para os grupos mais vulneráveis, e levam os utentes com mais meios a optar por um seguro privado. Dada a sua natureza regressiva (ignoram os rendimentos do pagador), implicam um maior risco de famílias e cidadãos com menores rendimentos se confrontarem com custos incomportáveis.


GR ANDE R EP OR TAGEM

Os subsistemas de saúde (sendo o maior a ADSE, subsistema voluntário e pago, para funcionários públicos e os seus familiares) têm como principal vantagem a possibilidade de recorrer diretamente ao setor privado pagando uma reduzida quantia, sem aprovação prévia do subsistema. Pela sua natureza, os subsistemas apenas estão ao alcance de pessoas com garantia de emprego, deixando tendencialmente de parte os mais idosos e os mais pobres, que comportam os maiores problemas de saúde e poderão não ter emprego. Dada a sua condição, também não conseguem comportar os planos de seguros privados, apenas disponíveis para quem tenha meios suficientes. Desta forma, o alargamento da ADSE é frequentemente apontado como potencialmente adverso para a sua sustentabilidade. Quanto ao setor privado, há evidência que indica que a concorrência pode melhorar a qualidade e os tempos de espera nos serviços, desde que cumpridos uma série de prérequisitos respeitantes à liberdade e informação do consumidor, e à regulação do setor. Em 2010, a OMS recomendou a Portugal que se esclarecesse e regulamentasse o papel do setor privado “através de um enquadramento político coerente”. O relatório sugere, assim, a adoção de uma abordagem pragmática, fazendo participar o sector privado, com fins lucrativos e não lucrativos, na sua missão de proporcionar serviços de qualidade, exigindo transparência e respeito pelos mesmos valores que o setor público. Na base desta iniciativa estará a criação de um Acordo Público-Privado que defina esse quadro legal, visando o benefício da população e dos doentes e não apenas os proveitos do setor privado.

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Em 1979, foi fundado em Portugal o SNS, estabelecido como um sistema universal do tipo Beveridge. Segundo o relatório Um Futuro para a Saúde, apesar das falhas que motivam a

discussão sobre a reformulação da Lei de Bases da Saúde, reconhece-se que temos um SNS funcional, com padrões elevados e profissionais qualificados, baseado na universalidade, equidade, solidariedade e no acesso a cuidados de saúde de qualidade. Existe, assim, uma base sólida para construir um sistema mais adaptado aos desafios presentes e futuros: novas tecnologias, envelhecimento da população, aumento da incidência de doenças crónicas, alterações climáticas, resistências aos antimicrobianos, agravamento das desigualdades económicas, etc. Neste contexto, é relevante considerar o desgaste da crise financeira de 2008 sobre a robustez do nosso serviço de saúde. Até agora, demonstrou extraordinária resiliência, não tendo sofrido decréscimos nos rankings de eficiência. No entanto, um relatório recente elaborado para o Gabinete de Conselheiros de Política Europeia prevê que as desigualdades crescentes (em parte consequência da crise financeira) se tornarão o maior desafio a enfrentar pela Europa, à medida que a fase aguda da crise se dissipar. Não existe um modelo ideal para um sistema de saúde. Dependerá sempre do contexto nacional mas, genericamente, os modelos europeus baseados na solidariedade apresentam os melhores outcomes, conforme a última avaliação do Commonwealth Fund. A arquitetura financeira não garante a viabilidade do sistema de saúde, mas uma deficiente arquitetura financeira pode destruílo. As reformas na saúde deverão antecipar as desigualdades entre os cidadãos, e ser implementadas de forma progressiva, avaliando outcomes e impactos sobre todos os envolvidos.

Mas será suficiente? Onde entram os médicos? Como deve ser tudo gerido? Como são as coisas lá fora? Consulta agora a continuação Médicos ou Políticos - Qual a melhor solução para a gestão de um sistema de saúde? na edição online da RESSONÂNCIA, onde procuraremos responder a estas questões.

Bibliografia: Constitution of the World Health Organization. Preamble; Beckfield, J., Olafsdottir, S. and Sosnaud, B. (2013). Healthcare Systems in Comparative Perspective: Classification, Convergence, Institutions, Inequalities, and Five Missed Turns. Annual Review of Sociology, 39(1), pp.127146; Physicians for a National Health Program. (2019). Health Care Systems - Four Basic Models; Bump, J. (2015). The Long Road to Universal Health Coverage: Historical Analysis of Early Decisions in Germany, the United Kingdom, and the UnitedStates. Health Systems & Reform, 1(1), pp. 28-38; OECD. (2019). Health resources - Health spending - OECD Data; Simões, J., Augusto, G., Fronteira, I., Hernández-Quevedo, C. (2017) Portugal: Health system review. Health Systems in Transition; 19(2):1–184. Crisp, L. et al (2014). Um Futuro para a Saúde. 1st ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian; Cylus, J., Papanicolas, I., Smith, P. and WHO Regional Office for Europe. (2016). Health System Efficiency. Geneva: World Health Organization. Björnberg, A., Phang, A. Y. (2019). Euro Health Consumer Index 2018. Stockholm: Health Consumer Powerhouse.

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TER TIVA


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A LT E R N AT I VA

MARIA H. VIEGAS

Consequências das TNC no SNS

Nos últimos 100 anos, o conhecimento cada vez mais detalhado da biologia humana e o contributo da epidemiologia para avaliar a eficácia e segurança de cada tratamento, pelo desenvolvimento exponencial da ciência, permitiram-nos duplicar a nossa esperança média de vida. A Medicina começou a adoptar progressivamente um modelo de Medicina Baseada na Evidência (MBE) como guia da decisão clínica. Paralelamente a este progresso, temos assistido à promoção de um conjunto de práticas que se recusam a submeter ao mesmo rigor e escrutínio científico que a MBE, as Terapêuticas Não Convencionais (TNC), nomeadamente acupunctura, fitoterapia, homeopatia, naturopatia, Medicina Tradicional Chinesa, osteopatia e quiropraxia que, após serem legalmente reconhecidas pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS), começam agora a pedir para ser integradas no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Quais seriam as potenciais consequências? Dos vários estudos realizados, incluindo ensaios randomizados com controlo placebo, não foi possível demonstrar a eficácia das TNCs. Os estudos publicados com resultados positivos têm sido excluídos por falhas metodológicas graves. As TNCs baseiam-se em pressupostos que falham sistematicamente em demonstrar, mas se alguma das TNCs vier a demonstrar validade, será prontamente integrada na Medicina. Ao integrarmos práticas que carecem de evidência científica e as colocarmos ao mesmo nível da MBE, estamos a legitimar e a tornar igualmente válidas práticas que carecem de comprovação científica, promovendo junto do doente noções de falsa equivalência, contribuindo para a desinformação. Podemos questionar-nos qual será o limite. Se a inexistência de base científica e a ineficácia


CONSEQUÊNCIAS DAS TNC NO SNS

não chegam para excluir uma terapêutica do rol de cuidados a prestar ao cidadão, podemos considerar que práticas como o tarot são igualmente válidas de serem integradas no SNS. Como podemos favorecer umas práticas em favor das outras se a evidência não é o critério? Perante as alegações de melhoria dos pacientes, sucessivos estudos realizados têm concluído que os efeitos de melhoria atribuídos pelos doentes se baseiam essencialmente no efeito placebo.

Sendo placebo não será inofensivo e se pretendendo ser complementar não será até benéfico por permitir que a pessoa se sinta melhor? Aqui importa referir vários aspectos. Primeiro, a Operação Nariz Vermelho contribui para melhorar a qualidade de vida dos doentes e, no entanto, não se pode considerar um cuidado de saúde. Segundo, o uso das TNCs leva ao atraso no correcto diagnóstico e tratamento do doente, colocando os doentes em risco, e à não adesão ao tratamento médico. Um exemplo ilustrativo foi o de uma doente espanhola com um tumor da mama que desistiu dos seus tratamentos para se tratar com homeopatia, chegou ao hospital com metástases avançadas e o peito em “carne viva”, e faleceu. Ou o caso do jovem diabético de 13 anos, nos EUA, a quem foram prescritos óleos essenciais em vez de insulina, levando-o à morte. Por fim, o efeito placebo não anula a possibilidade da existência de toxicidade e potencial dano para o doente. Ao contrário dos medicamentos, que são submetidos ao escrutínio do INFARMED, os suplementos e produtos das TNCs não têm de ser submetidos a ensaios clínicos nem demonstrar a sua eficácia e segurança antes de serem aprovados para venda

livre. Permite-se, assim, a venda de produtos cuja farmacocinética e farmacodinâmica se desconhece. Quanto à acupunctura, não foi possível demonstrar, sem sombra de dúvidas, que é mais do que um placebo, nem mesmo nas dores lombares crónicas, tendo sido descontinuada das recomendações oficiais do NHS, que passou a recomendar o exercício físico como um método mais eficiente. Aqui importa distinguir a acupuntura chinesa (AC) da acupunctura médica, que baseia o diagnóstico na anatomia e na fisiologia, ao contrário dos conceitos sem base cientifica da AC. O problema é que ainda não “passou” no teste dos ensaios científicos mais rigorosos. Dos estudos que validavam a acupunctura, foi demonstrado que vários se referiam ao efeito placebo, sem o destacarem, enviesando o estudo, e sofriam de falhas metodológicas graves. Está demonstrado que muitas pessoas se sentem melhor (embora muitas outras não), mas não é possível atribuí-lo, com certeza, à inserção das agulhas. Pode apenas dever-se ao facto de a pessoa saber que está a ser tratada ou de ter recebido mais atenção do terapeuta do que numa consulta de cinco minutos com um médico focado no computador. Importa ainda salientar que a acupunctura precisa de ser regulada para que as pessoas não corram o risco de sofrer lesões graves ou infecções, mas como uma terapêutica de bem-estar e não de saúde. Alguns dos riscos associados à prática da acupunctura dentro das TNCs foram desde desmaios ao desenvolvimento de pneumotóraxes fatais. As TNCs fazem frequentemente um apelo a variadas falácias, entre elas: Falácia Naturalista, Falácia da Antiguidade e Apoio em testemunhos. Quanto à primeira, é importante denotar que um produto por ser natural não é necessariamente seguro. Por exemplo, a reserpina, antigo hipertensor derivado de uma planta, foi descontinuada por ter demonstrado efeitos secundários inaceitáveis. Uma revogação que resultou do escrutínio continuado da medicina quanto às suas terapêuticas. No

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âmbito da naturopatia, podemos destacar as inúmeras interações farmacológicas do Hipericão. Quanto à toxicidade, nem mesmo a homeopatia sai incólume, tendo surgido várias denúncias de toxicidade, uma das mais preocupantes com o produto Hyland’s que vitimou centenas de bebés, nos EUA. Quanto à falácia da antiguidade, basta comparar a esperança de vida com o avanço da medicina e a de há 100 anos. Por fim, um problema do apelo aos testemunhos é que estes não constituem uma fonte de evidência científica. Porquê? Porque ao contrário de um estudo randomizado duplocego, em que podemos eliminar vários viéses e factores de confundimento, os testemunhos baseiam-se não só numa melhoria subjectiva influenciada pela expectativa e crença do doente na eficácia da terapêutica, como em factores psicológicos, nomeadamente na boa relação terapêutica, essenciais para o efeito placebo. Alguns dos problemas que motivam o doente a usar as TNCs são inclusive doenças com uma história natural auto-limitada (ex.:Oscilococcinum e constipação). Um médico guia-se pela legis artis no decorrer da sua prática clínica, assegurando que o doente recebe os melhores cuidados disponíveis, sendo criminalmente responsabilizado se aplicar tratamentos que se sabem não ter eficácia em detrimento de uma terapia médica. No entanto, os terapeutas das TNCs raramente têm sido penalizados, escapando impunes às consequências dos seus actos. Podemos alegar que a inclusão das TNCs no SNS poderá contribuir para a sua regulamentação e providenciar a liberdade de escolha do utente. No entanto, a introdução, no SNS, de práticas sem fundamentação científica ou benefício concreto à saúde, permitindo a sua livre expansão no SNS, é, pelo contrário, um retrocesso civilizacional objetivo, que terá consequências deletérias para a saúde dos portugueses. O SNS, enquanto serviço de qualidade e

rigor científico contínuo, não deve admitir práticas de saúde sem que estas sejam primeiro cientificamente validadas. É dever do SNS oferecer cuidados assentes na melhor evidência científica, numa atitude de constante evolução, para que o doente possa ter a certeza que apenas recebe tratamento cuja eficácia foi demonstrada. No entanto, é essencial que as terapias alternativas sejam regulamentadas, não como intervenções terapêuticas, mas na área do lazer e bem-estar, e isso não cabe ao SNS. Além disso, o SNS é um sistema de recursos limitados. Numa análise de custo-benefício da integração das TNCs no SNS rapidamente se conclui que estas seriam um desperdício de recursos para um sistema em dificuldades. Ademais, é de recordar que a Medicina Dentária ainda não teve a sua completa integração no SNS… Os países onde as TNCs se encontravam instituídas, como o Reino Unido, têm vindo a remover progressivamente o seu apoio às mesmas pela sua demonstrada falta de eficácia e plausibilidade à luz dos conhecimentos científicos. A Espanha procedeu à sua exclusão dos serviços de saúde e faculdades, tendo inclusive o Ministério da Saúde espanhol desenvolvido uma campanha destinada a informar os seus cidadãos. Estes são sistemas que aceitaram as TNCs nos seus serviços de saúde e mais tarde perceberam que não tinha qualquer fundamento, estando de momento a reverter o processo. Caso Portugal integrasse as TNCs no seu SNS, estaria em contraciclo com estes países e a ignorar a sua experiência. Os doentes recorrem ao SNS para receberem o melhor tratamento que a ciência lhes pode oferecer, sendo necessário perceber que a relação médicodoente é dos factores mais importantes para a adesão terapêutica e melhoria do doente, não podendo ser descurada. Revisão: COMCEPT


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CATARINA CARDOSO

Dieta que pode salvar o mundo A mundialização permitiu melhorar as condições de vida das populações, favorecendo o seu desenvolvimento geral: contribuiu para uma melhor exploração dos territórios e uma melhor distribuição dos recursos; conduziu ao enriquecimento de certos territórios e permitiu a difusão do progresso em numerosas áreas tais como a medicina, a produção de energia ou a tecnologia. Contudo, à luz de vários anos passados desde o início da liberalização das trocas de bens materiais, imateriais e indivíduos, compreende-se que este sistema não garante a colmatação das lacunas alimentares de muitas populações, menos integradas nesta rede, quer quantitativamente quer qualitativamente. Em 2017, mais de 820 milhões de pessoas, ou seja, 11% da população mundial, sofriam de subnutrição e consumiam dietas de baixa qualidade que causam deficiências de micronutrientes, contribuindo para um aumento substancial da incidência de obesidade e doenças relacionadas com a dieta, incluindo doença coronária, acidentes vasculares cerebrais e enfartes do miocárdio.

Com 7,7 biliões de pessoas atualmente para alimentar, as necessidades agrícolas são multiplicadas. Em 2050, conta-se com uma população mundial de 9,7 biliões de pessoas e, em 2100, de 11 biliões, o que por si só já se apresenta como um desafio. Além da saúde das populações, o sistema agrónomo e capitalista atual revela outras consequências nefastas. No que toca ao ambiente, acentua os problemas de poluição e degradação da atmosfera. De facto, com a prosperidade do comércio alimentar, cujo valor passou de 224 biliões de dólares em 1972 para 38 biliões em 1998 e representa agora cerca de 11% do comércio global (maior que o comércio do petróleo), existe uma necessidade acrescida de transportes que leva a um maior consumo de carburantes poluentes. Este fenómeno acentua o aquecimento global e o esgotamento de certos recursos. Além disso, o modelo agrónomo atual prevê a utilização de fertilizantes e inseticidas para reduzir os cultivos de fraca qualidade e para acelerar o seu crescimento, e inclui métodos de irrigação excessiva que permitem combater climas quentes e secos onde a chuva é escassa. Tudo isto contribui para a degradação, empobrecimento e salinização dos solos. Desde logo, é notória a dificuldade em providenciar segurança alimentar e de salvaguardar o desenvolvimento durável, protegendo os territórios naturais.

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DIE TA QUE P ODE S A LVA R O MUNDO

Por outro lado, assistimos gradualmente a uma transição alimentar onde dietas tradicionais ricas em fibra e grãos são substituídas por dietas que incluem níveis cada vez elevados de açúcar, óleos e comida de origem animal. Ora, o consumo acrescido de carnes tem por trás a produção intensiva de cereais para alimentação do gado, que implica gastos de água inacreditáveis e leva a uma massificação da desflorestação. A FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) prevê que, em 2050, se se mantiver este estilo alimentar, 70% das terras agrícolas no mundo será destinado a alimentação dos animais. É assim urgente encontrar alternativas que protejam os ecossistemas locais, salvaguardando ao mesmo tempo a alimentação saudável das populações. Soluções ao encontro do Acordo de Paris de 2010 e dos Objetivos de Desenvolvimento Durável das Nações Unidas foram elaboradas. De facto, a dieta vegan, agora em voga, não é considerada uma solução visto que os peritos consideram que exerce um grande peso na produção de grãos tal como a soja, cuja produção é muito dispendiosa em termos de água. Contudo, a dieta proposta põe, da mesma forma, de lado o consumo de carnes vermelhas e carnes processadas, associando-as a riscos elevados de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2, e ao aumento da mortalidade. Exclui ainda açúcares adicionados, grãos finados e vegetais ricos em amido. Por outro lado, a dieta dá importância ao consumo preferencial de vegetais, frutos, grãos não processados, frutos secos, legumes e óleos não saturados, calculando ainda o consumo moderado de carnes brancas ou peixe/marisco. É regulamentado que se deve ingerir por dia

0,8 g de proteína por 1 kg de peso corporal e, portanto, outras fontes de proteína mais sustentáveis deve ser contabilizadas. O programa proposto específica intervalos de quantidade de consumo por grupo de alimento, permitindo ainda alguma volatilidade e adaptação da dieta ao padrão cultural de cada população, induzindo uma maior adesão. Aplicando este modelo, é previsível a alimentação dos 10 biliões de habitantes em 2050, calculando um aporte de 2500kcal/dia (adaptado às necessidades energéticas médias de um homem de 70 kg com 30 anos de idade e de uma mulher de 60 kg com 30 anos cujo nível de atividade física é de moderado a alto), o que protege a sua saúde e promove o seu bem-estar a nível físico, mental e social. Contudo, aumentando ligeiramente o consumo de carnes, toda esta estabilidade de processo é posta em causa.

Em conclusão, uma dieta equilibrada, não extremista e à base de produtos locais seria o ideal em termos nutritivos e ambientais. Neste âmbito, surge a noção de dieta flexitarian, onde o consumo de carnes é reduzido a 2 a 3 vezes por semana e a base é o consumo de vegetais, legumes e frutas. Neste caso, evitando teorias absolutistas, mais facilmente se vê uma adesão das várias populações que não vêem as suas opções alimentares muito restritas, e também uma diminuição da morbilidade e mortalidade associadas à malnutrição. Numa perspetiva adicional, estão a ser impostas, em diversos países da União Europeia, medidas de controlo de gasto e desperdício alimentar, mais uma vez na tentativa de controlar a sobreprodução desnecessária de alimentos e a degradação ambiental consequente.

Bibliografia: Willett, W., Rockström, J., Loken, B., Springmann, M., Lang, T., Vermeulen, S., Garnett, T., Tilman, D., Declerck, F., n.d. The Lancet Commissions Food in the Anthropocene : the EAT – Lancet Commission on healthy diets from sustainable food systems. doi:10.1016/S01406736(18)31788-4


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ANTÓNIO LOPEZ

O papel do marketing na promoção da Saúde No século XX, os media eram constituídos pela imprensa escrita, pelo rádio e pela televisão, atraindo a atenção do grande público para o mundo ao seu redor de uma forma nunca antes vista. Com o surgimento da Internet tudo mudou. Para além de transmitir conhecimento e nos conectar, os media passaram a desempenhar outro papel – consciencializar o público sobre a utilidade de alguns produtos e serviços por via da publicidade. Um típico anúncio indica o serviço ou produto, onde, por quanto, por quem e a razão pela qual deve ser adquirido. Estima-se que esta indústria gastou cerca de 267 biliões de dólares em 2016. Hoje em dia, os anúncios conseguem alcançar um tal grau de profundidade, gerando a crença de que, se o produto for adquirido, todos os problemas do consumidor serão resolvidos. Aqui começa a base do consumismo da nossa sociedade… Todos os dias, nós, indivíduos com necessidades, vontades, procuramos satisfazêlas através de escolhas. Este processo de tomada de decisão é complexo, sendo influenciado por fatores que se interrelacionam – o produto,

o indivíduo e o seu contexto. Existem várias etapas na decisão de compra: reconhecimento da necessidade, procura de informação, avaliação de alternativas, compra, consumo e avaliação pós-compra. O mercado funciona em torno da lei da oferta e da procura - dois conceitos interdependentes, sendo os dois lados da mesma moeda. Correlacionando o papel de ambos os conceitos com o processo de tomada de decisão e aplicando a sua relação ao século XXI, é visível que este está comprometido. A irracionalidade da racionalidade da espécie humana nasce. Por isso, muitos de nós, quanto mais temos (e vemos), mais queremos. E este ciclo não pára, nem com a falta de dinheiro. São inúmeros os episódios na História que exemplificam o quanto a tirania cresce quando o nosso número de opções aumenta. Diria Ovídeo que “a abundância fez-me pobre”. Toda a publicidade faz-nos crer que podemos sempre adicionar coisas à nossa vida, ter mais saúde, confiança. No entanto, o melhor que faríamos, o que teria mais valor seria subtrair, de forma a tornar a nossa vida mais simples.

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O PAPEL DO MARKETING NA PROMOÇÃO DA SAÚDE

Focando-nos em produtos que prometem dar-nos mais saúde, dois estão muito em voga em Portugal: Calcitrin e o Cogumelo do tempo (da Viva Melhor). Muito já foi dito, escrito, tendo sido sendo até apresentada uma providência cautelar em 2015. O Calcitrin é um suplemento alimentar que se apresenta como uma boa opção para a manutenção de ossos saudáveis. Diversas figuras públicas como a Simone de Oliveira deram a cara pelo mesmo. Seguindo as indicações na embalagem, este fornece cerca de 373 mg de cálcio e 221 mg de fósforo, elementos essenciais para a constituição do osso, 240 mg de carbonato de magnésio e 10 µg de Vitamina D3, fundamentais para a fixação do cálcio, 24 mg de vitamina C, um precursor da síntese de colagénio, e 16 mg de sulfato de condroitina, um bom coadjuvante no tratamento da osteoartrite, inibindo a síntese de prostaglandinas (mediadoras de processos inflamatórios) e contribuindo para a formação de matriz extracelular. O que se pode pôr em causa neste caso? As doses? De facto, a dose de sulfato de condroitina está bastante abaixo do que seria benéfico. E o magnésio deveria estar sob a forma de cloreto, visto que a biodisponibilidade para o organismo seria maior. Contudo, os outros elementos estão dentro dos limites que podem ser ingeridos por dia. O Cogumelo do tempo advoga ser uma excelente solução anti-aging. Na sua constituição, encontra-se o resveratrol, a riboflavina, a coenzima Q10, gingko biloba e noz pecan. Fazendo uma pesquisa pelas bases de dados científicos (pubmed), encontramse estudos que enumeram os benefícios do resveratrol, um antioxidante presente no vinho, que tem efeitos anti-cancerígenos, neuroprotetores, e aumenta a sensibilidade das células à insulina. A coenzima Q10 é uma molécula que está presente naturalmente no nosso organismo, ajudando-o a produzir

energia, diminuindo com a idade, estando o seu défice ligado a problemas cardíacos, diabetes e doenças neurodegenerativas. A gingko biloba é uma das plantas mais antigas no mundo, estando presente em fármacos (ex.: Biloban). Apresenta efeitos benéficos no que toca à circulação e na melhoria da função cognitiva. A riboflavina (Vitamina B2) tem um papel crucial na transformação dos alimentos em energia. Por fim, as nozes pecan, ricas em gorduras monoinsaturadas, contribuindo para a normalização dos níveis de colesterol, e em magnésio. No entanto, três perguntas surgem: será que este produto contém mesmo todos os componentes que indica ter? Será que os mesmos funcionam de forma sinergística? Será que a maneira como é publicitado é a mais adequada?


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Em suma, o que se pode concluir destes produtos? Serão uma ameaça à saúde das pessoas? Terão todos os efeitos que advogam ter? Não há respostas certas, nem verdades absolutas. E cada produto é um produto. O problema da indústria dos suplementos alimentares é que não é submetida a tantos testes e ensaios como os fármacos. Não estando submetidos ao mesmo regime de intensivos testes, tornam-se depois suscetíveis a que se criem mitos, falsos dogmas ou sites como o scimed, plataforma criada por médicos que se intitulam como paladinos da verdade na luta contra os suplementos alimentares. Torna-se urgente rever este ponto e regulamentar todos os produtos para que se consiga distinguir o que é bom do que apenas aparenta ser bom. Um dos grandes problemas dos fármacos prende-se com o facto de que muitos destes tratam sintomas e não a causa, levando o público a procurar alternativas menos dispendiosas, “mais naturais”. Pode-se falar de lobbies da indústria farmacêutica e de muito mais. O ser humano tende a odiar e desprezar aquilo que realmente não conhece, pelo que urge uma mudança de mentalidades. Não há milagres, nem medicamentos perfeitos. Há sempre efeitos secundários e, sendo nós uma singularidade (com genética e contexto próprios), cada produto tem que ser adaptado tal como toda a medicina deve ser, personalizada. O importante a reter é que é possível conciliar fármacos e suplementos porque todos eles pretendem melhorar a nossa saúde, a nossa qualidade de vida e o nosso bem-estar.

Bibliografia: [https://www.] smallbusiness.chron.com/role-advertising-media-24611.html (consultado em 18/04/2019), ohiostate.pressbooks.pub/ stratcommwriting/chapter/role-of-advertising-in-society/ (consultado em 18/04/2019);Lucas, Maria Raquel (2006). Handbook of Consumer Behaviour, International Program in MBA Agribusiness Management, Leonardo da Vinci project (PL/04/B/F/PP-174 455), Capítulo 3 – Consumers as decision-makers, p. 53-69 ; Lindon, Denis, Lendrevie, Jacques, Rodrigues, Joaquim Vicente, Dionísio, Pedro (2008), Mercator XXI: Teoria e Prática do Marketing, Ed. D. Quixote, Lisboa; Bonjour, J. P. (2011). Calcium and phosphate: a duet of ions playing for bone health. J Am Coll Nutr.,30(sup5), 438S-448S.; Castiglioni, S., et al. (2013). Magnesium and osteoporosis: current state of knowledge and future research directions. Nutrients, 5(8), 3022-3033; Bikle, D. D. (2016). Vitamin D and bone. In Handbook of nutrition and diet in therapy of bone diseases (pp. 2063-2068). Wageningen Academic Publishers; Camarena, V., Wang, G. (2016). The epigenetic role of vitamin C in health and disease. Cell Mol Life Sci, 73(8), 1645-1658; Bishnoi, M., et al.. (2016). Chondroitin sulphate: a focus on osteoarthritis. Glycoconjugate journal, 33(5), 693-705; Stanevičienė, I. et al.. (2016). Multiplicity of effects and health benefits of resveratrol. Medicina, 52(3), 148-155; Acosta, M. J., et al. (2016). Coenzyme Q biosynthesis in health and disease. Biochim Biophys Acta Bioenerg., 1857(8), 1079-1085; Diamond, B. J., Mondragon, A. (2017). Ginkgo biloba. Complementary and Integrative Treatments in Psychiatric Practice. Washington: Am J Psychiatry, 149; Pinto, J. T., et al. (2016). Riboflavin. Adv Nutr., 7(5), 973-975; Atanasov, A. G., et al. (2018). Pecan nuts: A review of reported bioactivities and health effects. Trends Food Sci Technol. 71, 246-257.

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CULTUR A

CAROLINA MOREIR A • ZITA MATIA S

CAFARNAUM O caos da Realidade

E tu, Cafarnaum, querias elevar-te até ao céu? Serás rebaixada até ao inferno!” Evangelho segundo São Lucas, 10; 15

“Enquanto cumpriam uma pena de 5 anos por um crime violento, um rapaz de 12 anos processa os seus pais por negligência”. É esta a sinopse de Cafarnaum, o mais recente filme da atriz e realizadora libanesa Nadine Labaki (Caramel e Where Do We Go Now?), nomeado para o Óscar de melhor filme estrangeiro em 2019. Partindo desta premissa aparentemente surreal, vê-se que Labaki transcreve a realidade para construir ficção, apagando os limites de ambos, ao ponto de ser quase impossível distinguir. A própria realizadora afirma: “Não tenho o direito de imaginar esta história”. Seguimos Zain, um rapaz cuja idade nem o próprio sabe, pelas ruas de uma Beirute caótica, desordenada e suja, numa luta diária para sobreviver, acompanhado por tantos irmãos, que torna impossível objetivar o seu número, e por pais negligentes e incapazes de amar. Após a última gota de água, Zain parte para se tornar independente com a esperança de se livrar deste ciclo de abuso sufocante.

Zain al Rafeea, o ator que dá vida ao Zain da ficção, é a grande alma deste filme, um refugiado sírio com uma presença em ecrã tão arrebatadora e carismática que é impossível não partilhar a sua dor e desespero. Todas as personagens são interpretadas por atores amadores, seres cuja história de vida espelha a do filme. Desta proximidade tão grande entre histórias de vida pessoal e o enredo da acção, nasce este quase documentário, que o é sem o ser. Tanto o trabalho de câmara como a autenticidade emprestada pelos atores às personagens inspiradas neles próprios contribuem para envolver o espectador; sofremos pelas e com as personagens em acontecimentos fora do seu controlo. No meio de um desalento enorme e um sentimento de impotência, a acção oferece-nos pequenos momentos de humor e calor que nos deixam respirar, relembrando as características universais da humanidade – a esperança e a capacidade de sorrir e amar independentemente das circunstâncias.

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CAFARNAUM O CAOS DA REALIDADE

©Todos os direitos reservados

A perspetiva duma criança permite entranhar o espetador na vulnerabilidade e frustração de ser definida por circunstâncias fora do seu controlo, à mercê dum sistema indiferente que escolhe ignorar a sua história de vida. Vemos esta realidade também imposta aos adultos nas populações marginalizadas de Beirute como nos refugiados Sírios, metade dos quais estão alojadas no Líbano, sem rumo à vista. Ouvimos esta mesma canção constantemente quase como ruído de fundo num ecrã diferente - nas notícias domésticas e internacionais: nestes momentos assumimos um papel pouco diferente do juiz no tribunal perante o Zain. Com Cafarnaum, Labaki desafia-nos a prestar atenção e julgar cada uma destas histórias como se fosse a da criança praticamente órfã, antes de mudar de canal. No fundo, o protagonista encarna o símbolo de Cafarnaum, a cidade bíblica onde se fizeram milagres, também caracterizada pela sua falta de fé. Na literatura francesa, o nome da cidade tornou-se sinónimo de caos. Labaki, a realizadora, juntou os dois sentidos e, do meio do caos, criou um milagre. Sabemos que não existem filmes perfeitos mas, se houvesse, seria este.


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INÊS COSTA LOURO

Platon

Fotografia de Rita Ribeiro, PLATON (2019)

Um corrimão trabalhado. Degraus que parecem não ter profundidade, mas que a vão ganhando quando a procuramos. Uma parede gasta, usada, velha, uma parede com história e que viu muitas histórias.

cada pessoa decide apresentar ao mundo. Ver alguém que não conhecemos através de uma fotografia é poder imaginar tudo: um nome, uma identidade, um passado, uma história, uma vida.

Tudo que está à minha volta sossega. Neste mar de preto, branco e cinzento, todo o ruído se acalma. Não se conseguem ouvir as vozes incessantes das pessoas que descem as escadas, mas quase que as conseguimos ouvir respirar e ver os seus peitos mexer. Sobem e descem ao mesmo ritmo, ao som de uma melodia que só nós ouvimos. Quando se olha para elas, é impossível não pensar na história que escondem por detrás do seu retrato monocromático. Mas tudo o que podemos fazer é imaginar. Nunca saberemos ao certo o que acontece para além de um rosto, nem para além da personagem que

Agarrados ao corrimão, continuamos a nossa viagem e descemos uma cornucópia de escadas, dando-nos a impressão de que estamos a andar em círculos, sem destino, sem objetivo, sem conclusão. Somos só nós, em direção ao vácuo, em direção a algo profundo que se encontra a uma distância aparentemente incalculável. Lá em baixo, o ruído ainda é menor: estamos isolados do mundo. Há quem olhe à sua volta, há quem olhe para baixo. Nós olhamos para cima: o que é que vemos?


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CULTUR A

FR ANCISCO EUSTÁQUIO

CONAN, O OSÍRIS No início de 2018, Tiago Miranda, funcionário de uma sex shop em Lisboa, lança o seu terceiro álbum “ADORO BOLOS” no Bandcamp. Foi composto, gravado com um microfone de Singstar, produzido e editado pelo próprio na sua sala de estar, na esperança de vingar de vez no mundo da música, sob o pseudónimo Conan Osiris. No final do mesmo ano, após encher o ZDB, tocar no Festival Paredes de Coura e esgotar o Tivoli no Super Bock em Stock, Conan concorre ao Festival da Canção com “Telemóveis”, acabando por vencer no início do ano seguinte e tornar-se representante de Portugal na Eurovisão 2019. A razão da curiosa ascensão súbita de Conan ao estrelato parece prender-se com a sua melodia cacofónica, simultaneamente inovadora e polarizadora. Não haverá consenso quanto ao estilo musical onde se insere, bebendo de uma mixórdia absurda, desde o Fado ao Techno, do Worldbeat ao Canto Andaluz, do Funk Cigano ao Indiehouse. O próprio Osiris afirma “o meu estilo é uma coisa misturada (…) não sei tocar nada, nunca tive formação musical nenhuma, apenas aprendi a montar músicas digitalmente”. Ainda assim, destaca a sua versatilidade: “se eu fizesse uma parceria com os Moonspell*, acho que o pessoal ia aceitar na mesma.”. Não obstante, a sua música mantém um teor coeso, sendo facilmente identificável em poucos segundos. Conan cunhou um estilo próprio de mistura de sons antagónicos, de

forma nunca antes vista, atraindo o mercado de ouvidos exaustos das músicas pop e indie da rádio. As letras que acompanham a melodia de Conan Osiris também se destacam do mainstream. Em “NADA NADA NADA NADA”, ouve-se “nessa praia, um bongo e uns bolinhos uma sandes de carne assada e um rissol”. Em “CELULITITE”, uma ode à celulite e à autoapreciação do corpo imperfeito, Conan canta “Ali pisaste, ali ficaste, ali partiste a party com o lípido que abanaste”. É nítida a influência de temas quotidianos, com o objetivo de aproximação com o público, em contraste com os assuntos elitistas das músicas pop tradicionais. O tom sarcástico e cómico das letras cria um novo patamar artístico, interessando o público pela sua inovação, mundanidade e humildade, à semelhança da música “pimba” portuguesa. Por outro lado, a utilização do nonsense, estilo de influência folk definido como um humor perturbado e sem sentido, alinha-se perfeitamente com a sua melodia e estética de palco. Já tendo sido experimentado na literatura, com Lewis Carroll em “Alice no País das Maravilhas” e na pintura e na escultura, com o Surrealismo e Dadaísmo, a transladação e ressurgimento do nonsense na música adequase à sua linha pós-modernista e vanguardista, fascinando o público que se alinha com esta vertente audaz e experimental. A aleatoriedade


CONAN, O OSÍRIS

contrasta, ainda assim, com uma métrica pensada, pontuando as batidas da melodia com os “p” e “t” de cada palavra e criando um ritmo adequado para os bares urbanos mais underground, onde Conan se começou a impor. A mensagem de cada música não é, assim, imediata, obrigando introspeção e relação emocional com a mesma, ao contrário do habitual no círculo mainstream. O público-alvo não será aquele que pretende imediatez, mas sim o que não se importa de perder tempo a dissecar as metáforas estapafúrdias por detrás de “ADORO BOLOS” ou “Telemóveis”. Ainda assim, Conan recusa-se a revelar as várias camadas de leitura por detrás das músicas, ainda que isso leve ao seu descrédito, “O público imagina o que quer (…) o pessoal é que não quer entender”. Toda a essência do estilo musical e letra de Conan Osíris é, também, transposta perfeitamente para o palco. João Reis Moreira, o seu bailarino de 23 anos, carrega a mesma

energia musical no corpo, mantendo esta componente pragmática e livre. De facto, nunca teve formação de dança e improvisa em todos os espetáculos, inclusivamente no Festival da Canção, em que os únicos movimentos previamente definidos foram o salto inicial e a simulação de lançamento de uma flecha. As suas emoções e influências multiculturais transpõem-se para o palco de forma caótica mas coesa, refletindo a melodia aparentemente aleatória de Conan. Um fã de Conan define-o como “uma sandes de pão de alfarroba e sementes de chia com Nutella, bacon, queijo da serra, banana, regada com molho francesinha. Pões na boca e achas que vais vomitar. Em vez disso (…) descobres quem realmente és”. Conan não é certamente um estilo para todos, exatamente porque o seu objectivo é reinventar o que é para todos. Mas, se calhar, era disto que precisávamos.

*Banda portuguesa de Heavy Metal

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CATARINA MONTEIRO

Luzes, Câmara... e Noção? ><As histórias de amor que enriquecem Hollywood desde sempre suscitaram suspiros aos mais românticos. Quem é que não quer um “ e viveram felizes para sempre”, não é? Porém, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e, pelos vistos, os casamentos também. A verdade é que o número de divórcios tem subido freneticamente. Falta de paciência, dirão alguns. Ecos de evolução das mentes e mentalidades, dirão outros. ><Esta lengalenga é feita de curvas e contracurvas, já que encontrar a cara-metade é tarefa meticulosa e pouco provável. E aqueles que procuram um príncipe ou princesa via online veem-se emaranhados num cenário de apps e afins que, por mais cálculos astrológicos que façam, não conseguem encontrar o Aquário perfeito para os Peixes que por aí nadam à procura, não do Nemo, mas do “true love”. Como há muito peixe no mar, os Deuses das

questões cardíacas têm agraciado a indústria televisiva portuguesa com ideias pitorescas para entreter (e inspirar) os telespectadores nas noites solitárias de domingo. Em pleno século XXI, a programação oferece a fórmula revolucionária para acender paixões e promover o acasalamento entre Homo sapiens sapiens (?) de sexos opostos. Parece que o tinder baixou as audiências e já passou de moda. Pois bem, regressa o estilo à la Idade Média em que o senhor feudal, guarnecido de belas propriedades, se pode dar ao luxo de adquirir uma companhia feminina. É com programas como Quem quer casar com o agricultor ou Quem quer casar com o meu filho, apresentados no serão noturno familiar, que as cadeias televisivas privadas rivalizam para lucrar nas audiências, sujeitando gerações de várias idades, incluindo futuros promissores da Humanidade, a assistir ao menosprezo do papel da mulher na sociedade. Claramente, foi


a i m p o r t â n c i La UdZa, Cr Âe pM rAeRsAe.n. .t aEç Nã oO ÇdÃaO d? o e n ç a m e n t a l em ícones da cultur a popul ar

para ver um “cardume” de mulheres a afagar o ego e procurar aceitação de um espécime XY que as nossas antecedentes e progenitoras se definharam na batalha pelos seus direitos… Afinal de contas, quem quer ter regalias iguais às dos seus semelhantes masculinos? Quem é que quer ter direito de voto? Quem é que quer respeito, igualdade e justiça? Não exaltemos mais os ânimos da ironia… Contudo, é preciso discutir e não esquecer estas questões seculares pois assistimos, na atualidade vigente, ao reemergir de políticas fundamentalistas

cujo programa eleitoral resume o feminismo à insignificância. Além disso, o quotidiano desta “Ocidental praia Lusitana” tem sido abalado com inúmeras mortes de companheiras, esposas… às mãos “machudas” das suas “caras-metade”. Não vale a pena sonhar com histórias da Carochinha e, quanto aos planos televisivos de domingo, mais vale fazer swipe left, aproveitando para pôr o habitual zapping em prática até ao novo episódio de “Quem quer estudar com o aluno de medicina” (isso ninguém quer).

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CRÓNICA 2

RAQUEL MOREIRA

Gestão da Emoção Os dicionários definem Emoção como um “conjunto de reações que ocorrem no corpo e no cérebro, geralmente desencadeadas por um conteúdo mental”. Tentando desvendar os mistérios da consciência, uma existência virtual que gera emoção, esta redação visa o reconhecimento do ego excessivo e das maravilhas de ser-se humilde e feliz. Baseada nos ensinamentos do escritor e psiquiatra Augusto Cury, teve como inspiração o atual estado decadente da nossa sociedade. Passemos, então, ao motor desta mensagem.

Querida “Nova Geração”, Eis que chega a vossa vez. Uma realidade cheia de oportunidades e com uma incrível disponibilidade de informação que vos podem trazer benefícios, se as agarrarem e utilizarem bem. Hoje, são mal vistos perante a comunidade adulta, que vos julga infantis e sem instrução. Um grupo de “ignorantes” voluntários, que poderiam tornar-se brilhantes se ao menos se envolvessem na comunidade, se se instruíssem acerca realidade em que vivem. Mas vocês cresceram na era digital, onde o cosmos está à distância de um clique. Com a facilidade de acesso à informação, é de constar que são ingénuos na matéria emocional. Possuem milhões de notas na vossa memória, mas não sabem experienciar as vossas vivências, não sabem percebê-las conscientemente e refletir, gerando emoções. Numa rede que vos liga a tanta gente, ainda não aprenderam a ligar-se a vós mesmos.

Facto é que muitos de vós pertencentes à “socialite” da comunidade onde se encontram inseridos, se se virem sem acesso ao mundo virtual que têm do dia para a noite, ficarão à beira do desespero. Não saberão o que fazer, encontrar-se-ão numa solidão depressiva. E porquê?! Porque não sabem passar tempo convosco próprios. Não sabem aproveitar a vida na vossa própria companhia, começando depois a abominar-se a vós próprios. Ver-se-ão numa realidade desconfortável e triste e serão vocês os doentes da vida. Não me entendam mal! O tédio esporádico e pontual é fundamental para definirmos e reorganizarmos os nossos pensamentos, a nossa criatividade. Mas se não praticado, a recorrência de ideias é reduzida e seremos para sempre “discos riscados” de conteúdo alheio. Atualmente, idolatram as celebridades com as quais mais se identificam, desde a que tem uma voz mais afinada àquele defensor dos direitos humanos. Mas esquecem-se de ser fãs de vós próprios. Como não conseguem passar tempo sozinhos, não vos conhecem bem. Não têm tempo de definir valores e os vossos próprios padrões de felicidade. Deste modo, aqui me apresento para vos deixar a seguinte mensagem: namorem com a vida. Façam dela o que quiserem, desde que esta vos traga a “alegria eterna”. Sejam criaturas felizes e completas, não praticando esta realidade durante uma ou duas semanas, mas fazendo dela uma missão de vida. Tendo dito isto, um até já meus caros gestores emocionais, e que encontrem a vossa felicidade num abrir e fechar de olhos.

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