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ANO 18 EDIÇÃO 147 JULHO 2019

EXEMPLAR DE ASSINANTE

Conheça a história dos pioneiros e Entrevista: empresas que fazem girar nossa economia. Ibanes Rocha


Lago

SERRA DA MESA

O

lago é, com certeza, o cartão-postal da cidade. Oferece a pesca de entretenimento aos aficionados da modalidade e ainda opções para aqueles que buscam relaxamento e novas aventuras. Muitos se hospedam na pousada Canto da Serra com este fim. Mas há também os que preferem as brincadeiras com jet ski ou um passeio de caiaque. Fica a critério de cada um: pescar, passear de lancha ou de canoa, acender um fogo e ali mesmo fazer a sua refeição são atividades possíveis e estimulantes, que todos os frequentadores podem experimentar. O lago também revela a história dos índios avás-canoeiros que ali viveram. Muitos o consideram um local sagrado, onde permanece a lembrança de seus ancestrais

É lindo.


Restaurante flutuante

NIKEI

A

apenas 100 metros da pousada fica o restaurante flutuante NIKEI, de propriedade do Sr. Yutaka, um japonês que chegou, viu, gostou e ficou. Os pratos e aperitivos são variados e misturam sabores locais com a tradicional gastronomia japonesa. Vale a pena conferir.

Memorial

SERRA DA MESA

O

Memorial Serra da Mesa fica bem em frente à pousada. Ele abriga um museu que contempla a história dos índios avás-canoeiros e tudo o que fez parte dessa etnia.

O Memorial está aberto a visitação e dispõe de uma área imensa com uma cidade em miniatura, habitações indígenas, esculturas e um majestoso anfiteatro.

E é logo ali.


Cidade

SERRA DA MESA

U

ruaçu, na linguagem indígena, significa “pássaro grande”. Uma pequena cidade goiana, deliciosa, com muitos atrativos, bares e restaurantes. Uruaçu conserva e prestigia suas raízes com as tradicionais cavalhadas e procissões. A cidade possui um comércio variado, onde podem ser encontrados produtos do dia a dia, abrangendo moda, papelaria, informática, entre outros. E tem certamente o encanto luxuoso da atmosfera de paz, que poucas cidades conseguem oferecer.

É incrível.


POUSADA

RANCHO CANTO DA SERRA

L

ocal que reúne lazer e tranquilidade, em um encontro com a História e a natureza, às margens do belo lago Serra da Mesa, que tanto valoriza a paisagem. Chalés equipados com cozinha completa e churrasqueira, elegantemente decorados, bem confortáveis, com capacidade para abrigar até 6 pessoas e suítes funcionais com capacidade para receber até 3 hóspedes. Tudo emoldurado por uma vista magnífica e repousante. MEIOS DE ACESSO A estrada que leva à pousada é toda asfaltada, bem sinalizada, e está em ótimo estado de conservação. Saindo de Brasília, pegue a Estrutural em direção a Águas Lindas de Goiás e siga em frente. Você vai passar por Cocalzinho, Dois Irmãos, Barro Alto, até chegar à BR-153. Siga em frente até chegar ao acesso ao Lago e ao Memorial da Serra da Mesa. Após o Posto da Polícia Rodoviária Federal, pegue a primeira à esquerda e siga até a pousada. De Brasília a Uruaçu, a distância é de 270km, segundo o Google Maps. Partindo de Goiânia, pegue a GO-080. Você vai passar por Nerópolis, antes de alcançar a BR-153. Já na BR-153, após passar por Jaraguá, você chegará a São Luís do Norte. Poucos quilômetros adiante estará Uruaçu. De Goiânia a Uruaçu, a distância é de 280km, segundo o Google Maps.

(61) 99988-0822 www.ranchocantodaserra.com.br


Sumário 12

Ibaneis Rocha concede entrevista exclusiva para a 61 Brasília

20 Dhi Ribeiro: A voz da coragem

36 Daniel Briand: o

francês pioneiro em Brasília.

42 O homem que fez Brasília sorrir

56 Paixão e doação

a serviço de Brasília

46 Marconi

24 CESAR PÉRES

E A SAGA DE UMA FAMÍLIA PIONEIRA

Antônio de Souza, o pioneiro de Brasília e empresário de sucesso...

28 E Brasília

48 A guardiã do

amanhecia em Roma

32 Seu nome é

Chiquinho, seus olhos são azuis e se... 8 [61]

amor incondicional em forma de empresa.

40 Coluna Gente

22 Anchieta

Hélcias: testemunha viva da história do Brasil

52 Sasse: a arte do

legado de JK

60 Alexandra da

Silva: Transportadora escolar com espírito de mãe

62 Foco,

determinação e velocidade são constantes na vida do piloto brasiliense Lucas Foresti


SUMÁRIO

66 Palhaço

Mandioca Frita faz a alegria de Brasília

e modernidade na gestão da Barbearia do Onofre

dedicação são as marcas do Dr. Manoel Arruda

68 Malunga: maior

80 Edmar MothÉ, o

94 Uma História de

mercado de orgânicos do Brasil, com mais de 3 mil produtos, inaugura quarta loja.

vendedor que deu dois Sucesso mundos a Brasília

96 “circunstâncias

da vida” da oficina ao Teatro.

82 Casa do

72 Nilton Novato,

um botafoguense nato!

Holandês: a charcuteria holandesa aos moldes brasilienses

74 Do concreto

86 Alexandre Matias

e dos peões para os perfumes e às mulheres

78 Jorge de

Oliveira Bezerra equilibra tradição

98 Mário Jampaulo

comemora solidez e anuncia serviço emergencial

Jr

88 Segredos dos

Cavalcante

92 Trabalho e 9 [61]


MATÉRIA

Carta Ao Leitor Publicher Edson Crisóstomo crisostomo@61brasilia.com Diretora de Projetos Especiais Nubia Paula nubiapaula@61brasilia.com Diretora de Redação Raquel Paternostro revista@61brasilia.com Equipe de Reportagem Carol Cascão, Natasha Dal Monlin, Nayara Storquio, Samantha Fukuyoshi, Luiza Frazão, Glaucia Chaves, Luiz Humberto de Faria Del’ Isola Colaboradores Antônio Testa, Carla Ribeiro, Cerino Design Gráfico Higor B. Valin Aviso ao Leitor Acesse o site da editora 61 Brasilia para conferir na íntegra o conteudo de todas as revistas da editora: www.61brasilia.com SCLN 115 bl. A sl. 215 Cep: 70876-540, Brasilia - DF Comercial (61)3553 6116 - 99867 4059 www.61brasilia.com - revista@61brasilia.com Redação Comentários sobre o conteúdo editorial, sugestões e criticas às matérias: redacao@61brasilia.com

Não é permitida a reprodução parcial ou total das matérias sem a prévia autorização dos editores. A editora 61 Brasilia não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados.

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Prezados Leitores, O perfil de nossa cidade mudou! Brasília está longe de ser uma cidade com vocação exclusiva para o funcionalismo público. Desde a sua fundação, pioneiros com visão estratégica e dinâmica construíram com muito trabalho, a nossa atual realidade. Hoje, Brasília inspira - e transpira inovação e empreendedorismo. Por isso, resolvemos homenagear 61 pessoas que fizeram e fazem a história da cidade. Nesta edição, contamos a história de 26 personagens de diferentes gerações, nacionalidades e áreas que constroem Brasília com o seu talento. A partir da Próxima 61 Brasilia, apresentaremos para vocês uma história por edição, já que temos muitas outros assuntos, também importantes para contar para vocês. Nossa equipe preparou esta revista com muito carinho e dedicação. Permaneça conosco na internet por meio do nosso portal www.61brasillia.com e nossas redes sociais @revista_61brasilia. Esperamos vocês por lá também. Desejamos uma boa leitura!


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ENTREVISTA

Ibaneis Rocha concede entrevista exclusiva para a 61 BrasĂ­lia foto renato alves/ag brasilia

Edson CrisĂłstomo e Raquel Paternostro

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Conversamos com o govenador sobre os sete primeiros meses de sua gestão. Ibaneis não foi poupado de assuntos polêmicos e respondeu com prontidão questões de interesse dos moradores do Distrito Federal. Confira em primeira mão os bastidores de algumas decisões e os planos para o seu mandato.

61- Qual foi a sua maior surpresa positiva, e a maior surpresa negativa ao ter acesso aos dados e números referentes à governança no GDF? Ibaneis – Não sei se houve alguma surpresa positiva. Durante a transição enfrentamos muitos problemas com dados imprecisos, documentação pela metade, projeções mal feitas ou até irreais. Tanto que, quando assumi o governo, muito do que havíamos planejado nos meses após a eleição não pode ser realizado de imediato; tivemos que refazer os planos, readequar as datas e buscar ainda mais recursos. Esperávamos um rombo em torno de R$ 3 bilhões, embora o governo passado dissesse que as contas estavam em ordem; no final das contas o rombo financeiro chegou a mais de R$ 8,5 bilhões. Para se ter uma ideia, tivemos que pagar contas de mais de R$ 1 bilhão só na área de saúde, que corria o risco de um colapso.

61- Daqui há 20 anos, como o senhor espera que seu governo seja lembrado? Qual a marca na história do GDF que o senhor imagina registrar? Ibaneis – Não tenho isso em mente. A minha preocupação é fazer o melhor possível, modernizar a administração pública do DF e prestar bons serviços públicos à população. Quero entregar uma saúde pública boa, eficaz e confiável, e investimentos para isso não têm faltado; quero avançar na área da educação, o que já está acontecendo, com reconhecimento da população, e espero modernizar o sistema de segurança. Os primeiros resultados, obtidos apenas com uma mudança de gestão, já são significativos, com a queda nos índices de todo tipo de delito. Muito mais virá nos próximos meses porque vamos usar a informática e a inteligência no combate ao crime.

61- Para melhorar a educação no GDF. Em sua opinião, é melhor que mais gente tenha acesso ao ensino público, ou que mais famílias consigam pagar mensalidades em escolas particulares?

Ibaneis – O Estado tem obrigação de oferecer uma educação de qualidade aos moradores do DF. Se algum pai decidir matricular o filho em escola particular será por escolha pessoal, mas o nosso objetivo é oferecer a melhor educação. Para isso, temos feito várias inovações, apostando em parcerias com outras secretarias – como segurança, cultura e esportes – e até embaixadas, no projeto de oferecer escolas bilíngues. Estamos investindo em tecnologia, nos professores, buscando a excelência no ensino.

61- A carga tributária de Brasília é uma das maiores do país. Existe algum planejamento para sua diminuição com vistas ao incentivo à abertura de empresas e desoneração para os empreendedores? Ibaneis – Nós já começamos a reduzir impostos e incentivar novos empreendimentos. O ICMS e o ISS já deveriam ter sido reduzidos, mas a mensagem tinha que ter sido enviada pelo governo passado. Eu tenho dito que quem cria emprego e traz desenvolvimento é o empresariado e nós estamos criando um ambiente saudável para os negócios no Distrito Federal. Estamos investindo 70 milhões de dólares na infraestrutura dos polos de desenvolvimento econômico em Ceilândia, Santa Maria e Samambaia para receber mais empresas, incentivando na formalização de empresas, dando segurança jurídica para o empresário, abrindo oportunidades para quem quiser aproveitar as oportunidades. O objetivo é transformar o Distrito Federal numa área econômica pujante. Estamos organizando a cidade, por exemplo, com a readequação do Setor de Indústrias Gráficas, trabalhando na desburocratização, com a transferência da Junta Comercial para a alçada do DF, o projeto de concessão de alvarás em apenas sete dias, aprovação mais célere de projetos de construção – foram 364 só no primeiro semestre, um recorde – e a descentralização dos processos com a inauguração de 10 postos da CAP avançadas.

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ENTREVISTA

61- Como está a fiscalização e recuperação das estruturas dos viadutos de Brasília? A população pode se sentir segura para trafegar sem riscos de quedas? Ibaneis – Brasília envelheceu muito rapidamente. Não houve manutenção dos equipamentos públicos e o resultado foi visto na negligência que provocou a queda do viaduto do Eixão sul. Nós estamos monitorando e realizando reparos permanentemente. A ação na rodoviária do Plano Piloto diz bem como estamos tratando o problema: o monitoramento mostrou que houve uma abertura atípica e acelerada nas estruturas e imediatamente o trânsito na plataforma superior da rodoviária foi suspenso e foram iniciadas obras para resolver o problema e dar segurança as mais de 700 mil pessoas que passam pelo local todos os dias. Da mesma forma, estamos fazendo a requalificação da W3 Sul em parceria com os empresários, um projeto que dormia nas gavetas dos governos há mais de 20, quase 30 anos. Por enquanto são duas quadras, mas os projetos para o restante da avenida estão sendo feitos.

61- Recentemente, houve um grande impasse com a classe artística referente ao cancelamento do edital de fomento à cultura, para utilização da verba na recuperação do teatro nacional. Em sua opinião, qual a importância dos equipamentos culturais para o fomento e difusão artística? Ibaneis – Havia problemas com o edital original e tivemos que cancelar, mas o Fundo de Apoio a Cultura vai continuar e o próximo edital vai obedecer a todas as regras. Ao mesmo tempo temos que recuperar os equipamentos. O Teatro Nacional está abandonado há quase sete anos, no centro da capital da república, uma construção que reúne obras de alguns dos mais importantes artistas brasileiros, além de fazer parte da história da nossa capital. Estou buscando alternativas para que o teatro possa ser reformado e gerido por uma entidade. Também estamos recuperando o Museu de Arte de Brasília, espaço importante, além de buscar o resgate de teatros menores, recuperar a concha acústica; ou seja, recuperar os espaços para que os nossos artistas possam mostrar seu talento.

61- Tem sido muito comentado na imprensa, o seu alto padrão de consumo, como a compra da nova residência, do avião e até em compras na feira... O que o senhor tem a declarar sobre o assunto? Ibaneis – Todo meu dinheiro foi ganho de forma honesta e com muito trabalho. Eu vim de uma família humilde, meu pai era professor, minha mãe trabalhou como auxiliar de enfermagem. A forma como eu gasto meu dinheiro só diz respeito a mim. E eu ainda faço questão de arcar com minhas despesas. Como prometi na campanha, não uso carro oficial

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pago pelo governo, não moro em casa oficial, pago minhas passagens e estadias, uso meu próprio avião.

61- Existe previsão de ampliação do Metro para Asa Norte? Ibaneis – Existe. Precisamos saber como conseguir o dinheiro para expandir o metrô, mas antes temos que arrumar as linhas que temos. Os trens estão sucateados, ou pior, sendo “canibalizados”: um cedendo peças para o outro andar. Os trilhos precisam de revitalização, estamos terminando mais duas estações na Asa Sul e ainda estamos criando o modelo de alimentação para aumentar o volume de passageiros.

61- Como está a previsão da integração das ciclovias? Ibaneis – Eu sou ciclista, gosto de pedalar, ando a cidade toda aos domingos, quando me sobra tempo. Mas as grandes distâncias impedem que as ciclovias do Distrito Federal sejam um modal de transportes de uma cidade para outra. Ninguém vai sair pedalando de Brazlândia para trabalhar no Plano Piloto, por exemplo. As ciclovias precisam ligar pequenas distâncias com eficiência, ainda mais agora para aproveitar as bicicletas compartilhadas. É um modal para pequenas distâncias. Mas vamos continuar expandindo a malha cicloviária do DF.

61Sobre o estudo para cobrança de estacionamentos em quadras residenciais e alguns pontos da cidade. Em que fase está o estudo? Como o senhor acha que esta cobrança vai impactar no transito e na vida da população? Ibaneis – Os estacionamentos pagos ainda estão em estudo, mas são inevitáveis. Toda grande cidade do mundo usa o sistema, a fim de organizar principalmente as áreas de maior fluxo de automóveis. Mas ainda não temos o modelo para o DF. Nossa esperança é que ajude a organizar principalmente as áreas centrais das cidades e, no caso particular do Plano Piloto, as entrequadras. Do jeito que está, todos ficam insatisfeitos.

61- O senhor não se arrepende de deixar sua vida confortável para se aventurar na política? Ibaneis – De forma nenhuma. Eu estou muito feliz. Estou vendo as coisas tomando forma. No início foi tudo muito difícil, nos deparamos com problemas que não contávamos, muito mais graves do que podíamos imaginar. A questão da dengue é o exemplo mais claro: a falta de cuidados com a prevenção no ano passado levou o Distrito Federal a enfrentar a maior crise da doença de sua história, inclusive com muitas mortes. Agora as coisas estão entrando nos eixos. E eu gosto de resolver problemas. O ruim é ser cobrado para, em seis meses, resolver problemas que se acumularam por décadas, mas nem isso me desanima. Eu tenho certeza que, daqui em diante, vamos melhorar muito a qualidade de vida da nossa população.


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FATOS, FOTOS E FRASES

“Öxalá na próxima eleição nos estejamos exorcizados dos erros básicos de politica econômica” Samuel pessoa sócio da consultoria reliauce, pesquisador IBRE-FGV

“Lula está em um processo avançado de esclerose” João Doria Governador (PSDB)

“Somos um país de renda média e também um dos mais desiguais , atrasado portanto” Arminio Fraga Economista e Ex presidente do Banco Central

“O que as pessoas querem é emprego para poder comer. Enquanto se discute sexo dos anjos , as pessoas morrem de fome“ Davi Alcolumbre Presidente Senado

“Menos Twitter, menos namoro e mais trabalho “ desejo popular

“Dê a educação o valor que ela merece” Rafael Parente Secretário de educação DF

“Esta na hora de derrubar muros e construir pontes“ “Meu peito é uma porta que ninguém vai atender“

Regina Casé Atriz

Arnaldo Antunes Músico e Poeta

“Enquanto eles choram eu vendo lenços” Nizan Guanaes Publicitário

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Dhi Ribeiro: A voz da coragem Por Samantha Fukuyoshi Sozinha com a cara e muita sede de viver, Edilza Rosa Ribeiro saiu de Salvador e veio para Brasília aos 27 anos tentar a sorte, para a nossa sorte Sozinha com a cara e muita sede de viver, batizada com o nome Edilza Rosa Ribeiro saiu de Salvador e veio para Brasília aos 27 anos tentar a sorte em um teste para a banda Trem das Cores em 1994. A proposta inicial era passar seis meses como cantora da banda, ela até retornou a Salvador, mas percebeu que tinha se apaixonado por Brasília e queria voltar. Aos poucos como nome artístico ela aderiu o apelido Dhi Ribeiro. “No começo da minha carreira, coloquei bastante Y e acento, mas no final o apelido Dhi prevaleceu. Deixei o H, para jamais me esquecer de onde vim, da Bahia”. Nascida em Nilopólis - RJ, ela se mudou aos 9 meses com a família para Salvador. Antes de seguir e criar raízes em Brasília, na capital soteropolitana morou em bairros como Saúde, Liberdade, Mussurunga. Como tudo o que aconteceu em sua vida, a carreira de cantora também surgiu pela força do destino. “Eu era uma menina de periferia e agradeço a Deus ter sido criada em Salvador, porque traduz muito do meu trabalho, na minha formação como pessoa, principalmente como mulher negra. Salvador foi importante para inspirar o meu trabalho na música”. Ela se recorda com carinho da infância. O pai gostava do carnaval, a mãe e a avó a levavam desde menina para ver as escolas de samba dos bairros, os blocos. “A minha família sempre teve uma relação grande com a música, meu avô, Herondino Ribeiro, é um os fundadores do bloco Filhos de Gandhy”. Conta ela se referindo a um dos tradicionais blocos baianos de afoaxé, fundado em 1949. O bloco formado por homens, até hoje desfila no carnaval em Salvador, se inspirou nos ideais de Não-violência e paz de Mahtama Gandhi. Em seu cortejo é comum que os integrantes distribuam colares azul e branco e borrifem a alfazema por onde passam. Nomes como Carlinhos Brown e Gilberto Gil estão entre os artistas que já conduziram a multidão em cima do trio elétrico junto com o grupo. .

Como tudo começou Antes de se apaixonar pelos palcos, Dhi Ribeiro foi modelo. “Eu iniciei a minha vida profissional aos 17 anos, nas passarelas por acaso”. Ela conta que foi só fazer companhia a amiga Delsa até a agência Girafa Produções. A amiga queria preencher um formulário para tentar ser chamada para um teste de modelo “O rapaz que nos atendeu perguntou se eu não queria uma ficha também. Eu respondi que não tinha condições de pagar o curso de modelagem. Ele me respondeu: só preenche, é de graça”. Após 15 dias, o telefone toca, ela recebe um convite da agência para um teste de modelagem. Teste feito, a boa notícia: ela passou. Em seguida Dhi foi chamada para desfilar na 1ª Feira Nacional do Alto Verão de Salvador. “A princípio acreditei que era só para um dia, mas eu fiquei a semana toda desfilando para várias grifes famosas”. Dhi ficou cerca de 10 anos no mundo da Moda, se tornou modelo nacional bem rápido. “Assim que eu entrei na carreira, me chamaram para fazer várias Semanas da Moda, a desfilar pela Beneton e outras marcas. Isso me deu uma base para ficar tranquila financeiramente e ajudar a minha família. Depois surgiu a música e no começo eu fui conciliando as duas coisas, mas cantar era muito mais por diversão”. A trajetória profissional foi recordada quando ela participou do programa da Rede Globo, The Voice em 2017 por sua colega de passarela na adolescência e também da música, Ivete Sangalo. Na ocasião a já conhecida cantora baiana falou: “Ela tem uma aparência familiar” e Dhi respondeu: “Tenho sim, nós desfilamos pela

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mesma agência”. Então, no palco do programa, elas relembraram de suas carreiras e eventos que participaram juntas. Quando viu que a carreira musical tinha chance de funcionar, Dhi não pensou duas vezes e abandonou as passarelas pelos palcos e os microfones. “Sou grata por tudo o que aconteceu na minha vida, mas para a modelagem eu sinceramente só virei às costas. Um dia eu desfilava, no outro eu segui para a música e não voltei mais. Se aparece uma oportunidade e eu vejo que tenho condições, eu só vou, topo”, relata.

Sincretismo religioso De família humilde, a artista relata que seus primeiros contatos musicais foram na igreja. “A musicalidade nós temos desde pequenos, apenas não percebemos”, explica. Ainda na infância ela participou de Coral da Igreja Católica, mas também tinha fortes referências da umbanda. “A minha vó era umbandista, mas naquele tempo ninguém dizia que era umbandista ou candomblecista, para os costumes da época tinha que ter educação católica” A menina dividia seu tempo entre as missas de domingo e as obrigações às terças-feiras na sessão na casa da avó. “A igreja ficava em frente a casa de minha avó, então muitas pessoas praticavam, mas pouco se falava no assunto”, destaca. A participação na igreja, dos grupos jovens a fizeram a aprender a tocar instrumentos musicais, a conviver com a música. “Aquela menina que andava com o violão embaixo do braço, eu não imaginava que se tornaria cantora”. Ela cogitou outras carreiras e até iniciou uma graduação em Salvador. “Eu pensava em ser médica ou historiadora. Medicina eu já vi que não era para mim, pois não me dava bem com sangue. Até fiz por um tempo a faculdade de Educação Física, mas na juventude eu não programava muito as coisas, eu deixava a vida me levar”.

Luta contra o câncer Mesmo com uma alegria nata de viver, a artistas passou por dois momentos bem difíceis em sua história, mas que não retiraram sua fome de cantar. Em 2010, ela foi diagnosticada pela primeira vez com câncer no útero. “Eu retirei um tumor. Após 22 dias da cirurgia, eu já tinha compromisso no clube Ascade (Brasília) com o Jorge Aragão e o Diogo Nogueira em fazer uma homenagem ao aniversário da dona Ivone Lara”. Dois anos depois, um novo tumor apareceu em seu corpo, desta vez, no estômago. “Eu fiz a cirurgia em janeiro, quando foi em fevereiro eu pedi para o médico não retirar os pontos. Por segurança, eu usei essas cintas modeladoras para manter o pique, pois eu me apresentaria no Carnaval em Salvador”.

Paixão por Brasília Ela enxerga a música como “um agente modificador da minha vida”. Segundo a artista o preconceito por ser mulher e negra foi uma constante em sua vida. “Há muito preconceito, o velado e o descarado”, mas isso não a abalou. “Eu saí das estatísticas de futuro comum para uma mulher negra e da favela, e virei de fato uma pessoa, dona do meu caminho”. O que a atraiu para permanecer em Brasília foram as oportunidades que surgiram em sua trajetória musical. “Eu tive oportunidade de lidar com músicos de alto nível e isso me deu um


CAPA

Dih RibeiroConcerto Sala Villa Lobos.jpg

estímulo para continuar a fazendo o que eu estava fazendo. Eu vi que podia me profissionalizar aqui e a cidade nos dá essas oportunidades”. Ela conta da sensação de pertencimento quando vê Brasília da janela do avião. “Sabe quando você vê as luzes, a cidade de Sobradinho lá de cima, eu me sinto em casa”. Moradora do Guará, ela fala de seus hobbys favoritos. “Eu gosto de ouvir música no carro e passear pela Avenida das Nações, ou ir a feiras fazer compras. Quando a minha filha era pequena íamos muito ao Parque da Cidade, usava bastante o espaço das churrasqueiras. ”

Música como caminho Como tudo o que ocorreu na vida de Dhi Ribeiro, com a música também não foi diferente. Ela relata que a convite de uma amiga foi ver o ensaio de uma banda de conhecidos. “Eu era muito tímida, tinha 21 anos. Cheguei e vi que eram pessoas que tinham estudado comigo. Aí na brincadeira eu atendi aos pedidos dos amigos e cantei”. Como se fosse hoje ela se recorda da primeira música que cantou em um palco em 1988, chamada “A minha Pele de Ébano” consagrada pela voz de Margareth Menezes. Quando subiu no palco e se sentiu a vontade, não quis mais sair. Até que ela foi chamada para axé no trio elétrico, no Carnaval de Salvador. “Em 1993, eu fui cantora revelação do Carnaval quando sai com o bloco As Muquiranas” – Conhecido do público soteropolitano por reunir foliões com fantasias femininas. Ela é conhecida por seu trabalho no samba, mas diz que é uma artista versátil. “Me rotularam como sambista, mas eu sou uma cantora que caminha por várias fontes de inspiração.” Do prêmio de revelação, ela foi convidada para vir a Brasília trabalhar com a Banda Trem das Cores. “O convite era para ficar 6 meses, mas eu fiquei 1,5 ano, depois eu sai e fui arriscar outras coisas”. Tentou carreira solo, entrou nas bandas Companhia do Suingue, backvocal do Coisa Nossa e fui aprendendo muito nessa época.” Antes de começar a carreira solo, em 2001, Dhi recebeu um convite para uma temporada no Circo Lídia Togni, na Itália. Já casada, ela foi antes e 11 meses depois o marido Tobias e a filha Luna Vitória, com 2 anos, foram para lá. “Eu trabalhava demais na Itália, a minha filha precisava estudar, eu vivia na estrada. Decidimos voltar para o Brasil. Se eu posso cantar lá, eu posso cantar em qualquer outro lugar também. Voltamos felizes para o País”. Entre os músicos que ela cita com carinho, estão

Evandro Barcellos (fundador do Clube do Choro), Emanoel Santos, Manga Vieira . “O Evandro me chamou para a primeira banda de samba aqui, alguns trabalham comigo na minha carreira solo, como o Manga, Valério Xavier, Fêlix Júnior, Adil Silva. O convite para o seu primeiro CD aconteceu também de forma inesperada. Em 2007, Dhi foi chamada para substituir uma colega em uma apresentação no Restaurante Feitiço Mineiro na Asa Norte (DF). “O Jordy Gerson (CEO da gravadora Universal) estava lá e me assistiu, disse que queria fazer algo por mim. Um ano depois, o presidente e o diretor artístico da empresa também me assistiram e me chamaram para gravar um cd”. A sua carreira musical foi apadrinhada por Jorge Aragão, Dhi já tocou com grandes nomes da música brasileira, como o padrinho musical, Diogo Nogueira, Leci Brandão, entre outros. Em 2009 foi lançado o primeiro disco “O Manual da Mulher”, a música “Aula de Matemática” fez parte da trilha da novela Tempos Modernos (2009). E no mesmo álbum, a música de autoria de Paulinho Resende e Juninho Peralva e interpretada por Dhi, “Para Uso Exclusivo da Casa” se destacou em duas novelas. A primeira como trilha sonora da novela “Lado a Lado” (2012) com o casal Celinha (Isabela Garcia) e Guerra (Emílio de Mello) e a Força do Querer (2017) embalou o romance de Bibi Perigosa (Juliana Paes) e Rubinho (Emílio Dantas). Este último um convite especial da própria autora da novela, Glória Perez.

Projeção e novidades Além das músicas cantadas por ela integrarem as trilhas de novelas, a artista foi jurada do Programa Raul Gil, participou de programas como Domingão do Faustão e Jô Soares. Ela se apresenta com frequência no continente africano, com passagens por Angola e Moçambique. “Lá as pessoas gostam muito da minha música”. Desde o primeiro palco até hoje já se vão mais de 30 anos. Em tempos que os artistas optam por não investir mais em produzir CD, ela decidiu gravar o novo disco, que se chama “Leme da Libertação” e conta com 23 músicas, gravado no Clube do Choro. “Esse novo trabalho é um apanhado entre eles, temas como a mulher empoderada, a diáspora negra pelo mundo. Também canto alguns samba-enredos”. A artista explica que pretende lança-lo este ano, em data a ser definida.

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MATÉRIA

Anchieta Hélcias: testemunha viva da história do Brasil Da Redação Aos 75 anos, Anchieta Hélcias não pretende se aposentar e continua empreendendo. Agora, no ramo de energia limpa na SUNLUTION, que vai introduzir no Brasil e na América do Sul a inovadora tecnologia Hydrelio. Nesse sistema, a energia é gerada pelas placas fotovoltaicas fixadas sobre flutuadores instalados nos espelhos d’água das represas de abastecimento de água, das hidrelétricas e dos reservatórios e canais para irrigação. Anchieta iniciou sua carreira no jornalismo, como repórter do Jornal do Commércio do Recife aos 16 anos, passando por várias editorias, até que se especializou na de Economia. “A conjuntura da época não era favorável à reportarem política.” Por isso cursou Ciências Econômicas. E quando foi para São Paulo, fez sua pós graduação na área enquanto repórter especial na Folha de São Paulo.

Suape, mais do que um porto Sua tese de conclusão de curso foi “Infraestrutura como indutora do desenvolvimento econômico de Pernambuco e do Nordeste” – onde defendeu a construção de Complexo Industrial Portuário, no conceito de integração porto-indústria, com base nos já existentes Portos de Marseille-Fós na França e de Kashima no Japão. Indicou que o porto deveria ser localizado na região do cabo de Santo Agostinho, em razão da profundidade da enseada de Suape. Retornando ao Recife, assumiu a Editoria de Economia do Jornal do Commércio. Em paralelo, começou campanha para mudar o modelo de indução do desenvolvimento então impulsionado pela SUDENE: defendia a sua tese, apresentando-a para políticos, entre esses o seu amigo o deputado federal Marco Maciel, que viu potencial naquele trabalho e o levou ao então “escolhido” a ser governador, o ex-ministro do Tribunal Militar, Eraldo Gueiros Leite – relembra Anchieta. Em janeiro de 1970, o já governador Gueiros, o convidou para a equipe de governo para viabilizar o projeto do Porto Suape: “iniciei na Companhia de Desenvolvimento, na presidência da empresa. Continuei no governo de José Francisco de Moura Cavalcanti na Secretaria de Indústria e Comércio. Nos dois governos passei quase oito anos. Saí, quando fui convidado para ir Brasília” – recorda.

Brasília: Articulação na Abertura Política Em 1966/67 Anchieta foi correspondente da Visão no Nordeste – que era a maior revista de Economia do país. Tornou-se amigo do dono da editora, Said Faraht, que, em 1974, vendeu a revista e assumiu a presidência da Embratur, no governo Ernesto Geisel, que os fez trabalhar juntos em diversas agendas. Desses encontros resultou a verba para construção do Centro de Convenções de Olinda. Anchieta continua: “Em 1978 Farhat deixa a Embratur para integrar a equipe de coordenação do Escritório Político do general João Figueiredo, candidato à Presidência, escolhido pelo presidente Ernesto Geisel para sucedê-lo.” E completa: “Para Figueiredo, Farhat coordenou o que chamávamos de ‘Marketing da Abertura’: torna-lo conhecido, expondo o compromisso que o havia levado à candidatura: restabelecer a Democracia, devolvendo o poder aos civis; anistiar os presos políticos e os exilados; restabelecer o pluripartidarismo e assegurar eleições diretas para governadores e prefeitos das capitais.” “Fiquei surpreso quando Farhat me ligou numa quinta-feira, convocando para estar em Brasília no sábado daquela semana, para uma reunião com o general Figueiredo. Adiantou que o general agendara para agosto um encontro no Recife com as lideranças do Nordeste, e que ele (Farhat) havia solicitado a minha colaboração, para elabora-

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ção do discurso do candidato no evento. Arrematou: Figueiredo aprovou! Sabe tudo sobre você.” Recorda, com orgulho. “Naquele sábado Farhat levou-me à Figueiredo, que nos instruiu sobre o discurso: ‘Vou me posicionar pelo Desenvolvimento Auto Sustentado (influência do economista Mário Henrique Simonsen); expor o que me fez candidato: restabelecer o poder civil, o que sempre repetirei em todos os momentos’. Explicou o porquê: ‘É importante que os meus companheiros de quartel assimilem que o ciclo militar encerra no meu governo; que a oposição entenda e apoie, não a mim, mas o programa da abertura; que tenhamos o apoio da população. Para acontecer, preciso de muita divulgação!’ – foi enfático”, relembra Anchieta de sua primeira conversa com Figueiredo. Após o evento no Recife, o governador Moura Cavalcanti promove recepção, com almoço, no Palácio Campo das Princesas. “Concluído, aconteceu reunião que fui convidado, sem saber o porquê: além de Figueiredo e do governador, estavam Farhat, Venturini e Marco Maciel, então nomeado candidato à sucessão do governador.” O general fez o convite, em forma de veredito: ‘Queremos que vá para Brasília trabalhar com Farhat, colaborando nos discursos e nas relações com a imprensa; e no que mais precisar”. Uma semana depois mudou-se para Brasília. Aqui pretendia ficar por oito meses, até a posse presidencial, por não mais desejar trabalhar em governos. Mas permaneceu na cidade, quando foi convidado para coordenar um importante projeto para o setor privado. A partir daí, a esposa e os filhos, ainda crianças, também vieram para a capital.

Programa Pró Álcool Enquanto trabalhava na Transição do Governo, Anchieta foi convidado por Mario Garnero, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e do BrasilInvest, para auxiliá-lo no programa de consolidação do automóvel a álcool, razão do presidente Geisel ter criado o Pró Álcool. Sua missão seria de articular as demandas da indústria automobilística; buscar compatibilizá-las com as dos produtores de álcool, a fim de agrega-las em única reinvindicação dos dois setores industriais. Anchieta aceitou o desafio! Na primeira análise que apresentou apresentada à ANFAVEA, apontou dois gargalos: os plano de produção do álcool e o de automóveis teriam de ser compatíveis: “Naquele tempo, havia momento que faltava álcool e sobrava automóvel, em outro, era ao contrário” – explica; observou que sem estrutura de logística para distribuição nacional do combustível, fazendo-o chegar à todos os postos de abastecimento do país, a comercialização dos automóveis a álcool ficaria restrita às regiões Nordeste e Sudeste, onde se plantava de cana de açúcar.


VISÃO DE BRASILIA Em três meses os problemas foram solucionados: estabeleceu-se a compatibilização da produção do álcool com a de veículos; à Petrobras Distribuidora foi determinada a responsabilidade pela oferta do combustível em todo território nacional.

Recadastramento Eleitoral/ Articulação Política/ Constituinte Concluído o projeto Pró Álcool, ingressou no Serpro como Analista Consultor. Onde participou do Projeto de Recadastramento Eleitoral, recenseamento que possibilitou unificar nacionalmente os títulos dos eleitores, tornando real o número de votantes. “Depois da Serpro, o Dr. Ulysses Guimaraes me convoca para integrar a equipe de assessores nos trabalhos da Constituinte”, relembra Anchieta: “dos maiores políticos com quem convivi”. Considera “a fase importante para o meu aprendizado”.

Lobby Concluída a tarefa na Constituinte, Anchieta, Cláudio Mendes e Paul Godoy, criam o primeiro escritório de lobby do Brasil, inspirados nos dos Estados Unidos, que atuam no Congresso e no Executivo representando os diversos segmentos da sociedade civil formatando e defendendo Políticas Públicas específicas. O nome da empresa era : EAP Escritório de Assessoramento Político. “Fomos aprender nos Estados Unidos como funcionava o trabalho do lobby e a legislação que o regula. Decidimos adaptá-la à brasileira, levando a ideia ao jurista Walter Costa Porto, que elaborou minuta de Projeto de Lei e a apresentou ao senador Marco Maciel.” “É o Projeto da Lei do Lobby, aprovado no Senado, foi remetido à Câmara, onde, de vez em quando é debatido, mas não progride.” Anchieta ironiza: “Falta de lobby para fazer aprovar a Lei do Lobby.” Anchieta entende e ressalta que “a Imprensa erra quando denomina por ‘lobistas’ os bandidos de gravatas, expostas quando pegas nas operações policiais, tipo Mensalão e Lava a Jato – explica”. Anchieta ficou pouco tempo no EAP: em julho de 1989 foi convidado para nova atividade, na qual passou 29 anos.

Aviação Civil: abertura do mercado. O comandante Omar Fontana, presidente da Transbrasil, o convidou para trabalhar na “proposta de recapitalização” da empresa – à época sob intervenção federal, em razão dos prejuízos que tivera com o Plano Cruzado. Anchieta aceitou, após analisar a conjuntura financeira da Transbrasil e das outras empresas da Aviação, que também sofriam idêntica crise. Em dezembro 1989, três meses antes do final do governo Sarney

é aprovado o plano de recuperação, e acaba com a intervenção e o controle da empresa devolvido ao comandante Fontana. “Comecei o trabalho na Transbrasil, onde passei 10 anos, como diretor, membro do Conselho de Administração e Controle e acionista, lutando para que o Congresso e Governo estabelecessem uma Política Pública que assegurasse a abertura do mercado, sob o princípio da oferta e da procura; estimulasse a concorrência permitindo a liberdade tarifária; que estabelecesse a permissão para as empresas decidirem os destinos e os horários dos seus voos; que extinguisse o protecionismo e o monopólio de voos para o exterior”. Quebrado o monopólio dos voos para o exterior, Anchieta convenceu o comandante Fontana e a Transbrasil passou a operar voos de Brasília para os USA, nas rotas Brasília-Washington-Nova Iorque e Brasília-Miami-Orlando, que, rentáveis, despertaram o interesse de outras empresas. Em janeiro de 1998, Marco Maciel , vice-presidente, concorria à reeleição com Fernando Henrique, convidou Anchieta para integrar a equipe de coordenação das estratégias da campanha. O presidente da TAM, o comandante Rolim Amaro, ao saber que ela havia se desligado da Transbrasil, telefonou dizendo: “Agora não escapas! Venha trabalhar comigo na TAM. Estou preparando a empresa para crescer e operar voos internacionais; precisa de ambiente favorável. Estou montando uma boa equipe”. Anchieta informou a Rolim o compromisso assumido com Maciel. Combinaram voltarem a falar logo que concluída a campanha presidencial. Com FHC/Maciel eleitos, Anchieta entra na TAM e continua na luta pela liberalização da Aviação Civil: “Em 29 anos na aviação, com um grupo de executivos das empresas do setor, passo a passo conseguimos a Política Pública que tornou a Aviação Civil compromisso do Estado.” Em dezembro de 2016 Anchieta deixou a LATAM

Reiventar-se é preciso Para se reinventar, estudou o emergente mercado das Inovações Tecnológicas, e escolheu estrategicamente o da Energia Renovável. “Sem energia nada se faz. O mundo e o Brasil têm fome de energia, mas que seja a realmente limpa”. Explica Em 2017 foi convidado a se integrar na SUNLUTION. Vários os projetos de geração solar flutuante estão sendo desenvolvidos pela SUNLUTION, em parceria com empresas internacionais de grande porte, produtoras de energia renovável. Anchieta prevê que, em mais cinco anos a empresa esteja gerando 1,5 Gigawwats, fazendo o Brasil líder mundial de produção de energia fotovoltaica sobre espelhos d’agua.

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CESAR PÉRES E A SAGA DE UMA FAMÍLIA PIONEIRA

Djalma, Alberto, Cesar Péres, Paulo, Randolfo e José Antônio

Quem conviveu com o pioneiro Cesar Péres, certamente se encantou com o seu carisma e otimismo, integridade e capacidade de trabalho. Da Redação

Ele nasceu em 1916, na Borda da Mata, pequena cidade do sul de Minas Gerais Sua mãe, Maria Péres da Silveira, era mulher forte e determinada. Seu pai, Augusto Antônio Péres, era homem pacato, muito digno e religioso, com formação em filosofia pelo renomado Colégio Caraça de Minas Gerais e, profissionalmente, exerceu honrosos cargos, como o de juiz de paz, promotor ad hoc, dentre outros. Casar Péres foi um dos 17 filhos do casal,

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sendo que somente 12 deles chegaram à idade adulta. Vocacionado a batalhar e assumir responsabilidades, Cesar Peres começou a trabalhar ainda na infância para ajudar os pais, que contavam com salário modesto para o sustento de família tão numerosa. Demonstrando, desde cedo, extraordinária habilidade para o comércio, na adolescência foi para Pouso Alegre, cidade vizinha, em busca de melhores


CAPA

JK, Jorge Salim , Israel e Cesar

oportunidades. Lá, foi trabalhar em estabelecimento de família judia, que, ao conhecer sua capacidade e seriedade, passou a considera-lo como filho. Nesse convívio, conquistou respeito e amizade de muitas outras famílias de judeus em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, locais onde lhe foram oferecidas boas oportunidades de trabalho. Muito jovem, ainda, César conseguiu ter seu próprio negócio, no ramo de tecidos, confecções e calçados. Casou-se aos 22 anos com Terezinha de Jesus Paiva Péres, nascida na cidade vizinha de Cambuí, e teve nela uma valorosa companheira por sessenta e dois anos ou, melhor dizendo, pelo resto da vida. Tiveram cinco filhos, José Antônio, Maria Aparecida, Jésus, Regina e Júlio César, os quatro primeiros nascidos em Pouso Alegre e o caçula na capital paulista. Depois de atuar em diferentes empreendimentos entre Minas Gerais e São Paulo, no final de 1959, foi incentivado por seu irmão Alberto Péres, que na época era deputado estadual por Minas Gerais, a acompanha-lo na decisão de mudança para Brasília. Como César Péres era um grande admirador de JK, viu com entusiasmo a possibilidade de participar do esforço de edificação da festejada “Capital da Esperança”, então prestes a ser inaugurada. Assim, em 30 de janeiro de 1960, rumou para Brasília, acompanhado do filho José Antônio, levando, logo a seguir, esposa e demais filhos. Além de Cesar e Alberto, muitos outros integrantes da família Péres percorreram o mesmo caminho, a maioria com seus cônjuges e filhos. Foi assim com Djalma, Paulo, Vilma, José Marcos, Antônio, Randolfo, José Cobra, e, mais tarde, Benedita e família. Era o começo da saga da família Péres no

Planalto Central, que já remonta há quase 60 anos. Todos encontravam seus nichos de atuação, fascinados pela cidade que oferecia boas oportunidades de prosperidade e, também, de educação e formação dos filhos. A construção civil foi a principal área de atuação escolhida pelos Péres pioneiros, tanto como construtores, quanto como comerciantes de materiais de construção. Os irmãos Cesar, Alberto e Djalma criaram a Construtora IPÊ, nome alusivo a “Irmãos Péres”. A construtora tinha sua base de atuação em Taguatinga, local escolhido pela pujança econômica daquela cidade satélite. Lá empreenderam, de forma pioneira, obras de relevo. Cesar Péres tornou-se uma liderança política do local e, presidindo o PSD, teve oportunidade de estabelecer excelente relacionamento com o Presidente Juscelino Kubitscheck. Foi no Diretório do PSD de Taguatinga que, mais tarde, o então Senador Juscelino Kubitscheck lançou oficialmente a campanha JK65 (manchete do Correio Braziliense de 09/05/1963). Após o término do governo de JK e com as frustrações decorrentes dos fatos históricos que vieram a seguir, houve significativa retração no ritmo das obras civis na capital, por isso, os sócios da Construtora Ipê resolveram paralisar as atividades da empresa. Cesar Péres, então, procurou um segmento de atuação que fosse menos vulnerável às instabilidades políticas e passou a se dedicar ao ramo de panificação. Ele chegou a ter uma rede de panificadoras. Alberto Péres, que, além de advogado e professor, havia criado uma Faculdade de Direito em Pouso Alegre, liderou a criação do CEUB,

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entidade que presidiu por muitos anos. Djalma e Paulo Péres o acompanharam na implantação da instituição de ensino superior, da qual César Péres participou apenas como cotista. Na esteira do CEUB, a família Péres teve, ainda, importante papel no incentivo ao futebol profissional do Distrito Federal. Criou, no início da década de 70, o CEUB Esporte Clube. Presidido por Adilson Péres, com Cesar Péres e Filhos participação efetiva de Ayrton e Jésus Peres, foi o primeiro time de futebol brasiliense a disputar a divisão principal do campeonato nacional, empolgando torcedores brasilienses e fazendo nascer neles o sentimento de bairrismo. José Antônio Pérez, filho de César Péres, foi empresário de destaque em Brasília. Dentre outras realizações, foi dono da Ipê Utilidades Domésticas, empreendimento com três grandes lojas de eletrodomésticos no Distrito Federal. No início da década de 80, Cesar Péres retornou às atividades de construção civil em sociedade com o filho Júlio César, engenheiro civil. Juntos, reativaram a Construtora Ipê e deram a ela nova vida e impulso. Foram sócios por mais de dez anos, até o momento em que o guerreiro César Péres se permitiu justo descanso, deixando a maratona das obras com Júlio César, que prosseguiu em caminho solo. Na comemoração dos seus 80 anos, Cesar Péres recebeu uma bonita homenagem de Márcia Kubitscheck, que enalteceu, em discurso e placa comemorativa, sua história de pioneiro e de companheiro político de Juscelino Kubitscheck. Junto com Terezinha, César foi porto seguro para filhos, noras, genros e netos. O casal já partiu, ele em 2001 e ela em 2014, assim como já partiu grande parte dos Péres pioneiros, patriarcas e matriarcas, que conduziram os seus familiares para a epopeia da construção da Nova Capital. As sementes plantadas, no entanto, continuam dando frutos. A família Péres vem crescendo em sucessivas gerações e se ramificando pela capital, chegando atualmente a mais de 150 integrantes, que dignificam o DNA que carregam. Os Péres são parte integrante da vida brasiliense, se destacando como profissionais liberais, na iniciativa privada e em órgãos públicos, no magistério, no mundo empresarial, na medicina, na música, na tecnologia e no esporte, em atividades jurídicas, jornalísticas, religiosas, sociais e tantas outras. Hoje, a família Péres integra, inclusive, os Poderes Judiciário e Legislativo, com Dorival Borges de Souza, neto de Cesar Péres, como Desembargador do TRT da 10ª Região, e Flávia Arruda, neta de Paulo Péres, como Deputada Federal. Cesar Péres se mantém vivo nos seus legados, nos exemplos deixados, em seus filhos, netos e bisnetos. Júlio César, dando continuidade ao projeto que o pai começou, tornou-se referência no segmento da construção civil na capital. Dentre várias atuações relevantes, foi presidente do SINDUSCON por duas gestões, secretário de obras no governo de Rodrigo Rollemberg, além de contabilizar um notável legado em obras da Construtora Ipê para o Distrito Federal. E, assim, segue a saga.

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O casal com os filhos.


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E Brasília amanhecia em Roma

Tradicional restaurante de Brasília nasceu antes mesmo da inauguração da capital. É um “prato” cheio de história com cheiro de parmegiana e filé ao molho madeira Por Carolina Cascão

S

e as portas não fossem fechadas pouco mais que 5 horas da amanhã, Brasília amanheceria em Roma, digo no Restaurante Roma. O estabelecimento “bombava” durante toda a madrugada no final de semana, palavras do proprietário, o belga Simon Pitel. Era a parada obrigatória depois da “balada” (ou do rolê, como dizem hoje em dia) -, afinal “saco vazio não pára em pé” e uma suculenta parmegiana ou uma sopa de cebola bem quente descem melhor que um “engov antes e outro depois”. Fórmula positiva para um dia seguinte sem pileque. Além do papo com pão -, conversar e comer aqueles pãezinhos com manteiga e azeitonas, couvert servido até os dias atuais, era perfeito para esperar a canja de galinha, era o tempo certo para as derradeiras cervejinhas. Mas era preciso fechar as portas porque no dia seguinte já cedo, as “vitrines” de frangos assados tinham que estar a todo vapor para receber outro público faminto, era preciso “bombar” o sábado com frango assado acompanhado de um casco de coca-cola. Se não fosse assim não seria sábado. Era preciso disposição para escutar a buzina do Chacrinha logo mais. O Roma faz parte da história de Brasília! É um sobrevivente à moda antiga. Tem um lugar cativo na w3 sul. Nasceu seis dias antes da inauguração da capital, no dia 15 de abril de 1960; sobreviveu a 18 presidentes, três repúblicas, à ditadura militar, à direita e à esquerda. E continua lá! A suculenta parmegiana com um digno filet alto, assim como o peixe à belle meunière, continua sem fazer “botox” ou qualquer outro processo de rejuvenescimento. Passaram-se 60 carnavais e 15 copas do mundo de futebol, e o restaurante Roma, para a nossa sorte, continua a vida, guarda memórias, resgata a história, mas como ninguém é de ferro (e para acompanhar a modernidade), hoje em dia, oferece serviço delivery e entrega todo o menu (continua o original) em casa.

O início de tudo Simon Pitel, belga da capital Bruxelas com descendência judaica, comprou o restaurante em 30 de março de 1964 do italiano Luigi

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Brandi. Motivado pelo sócio belga, cujo nome “fantasia” era Marcelo, dotado de muita cultura e conhecimento, Simon aceitou o desafio. “Ele cozinhava bem numa cozinha caseira, mas numa industrial as coisas eram bem diferentes. Precisamos nos adaptar e a aprender administrar. Não sabia cozinhar e não sei até hoje”, revelou. A sociedade acabou depois de uma “traição”. A esposa de Marcelo, também traída naquela ocasião, deu com a língua nos dentes e revelou que Marcelo, no passado, era membro da SS, tinha sido militante do partido nazista e seguidor de Adolf Hitler. Para Simon isso era muito grave, pois a família viveu a guerra na pele. E de 1.800.000 de prisioneiros, apenas três mil pessoas conseguiram sobreviver, dentre eles, os pais de Simon -, que deixaram o campo de concentração, assim que a segunda guerra acabou. “Marcelo sumiu por um mês. Se sumisse por 150 dias, por lei, não teria mais o restaurante. Quando ele apareceu, quis desfazer a sociedade”, disse. Simon chegou primeiramente no Rio de Janeiro. Foram 15 dias num navio semi cargueiro que saiu da Bélgica rumo ao Brasil. Lá, ele morou na casa de uma tia em Copacabana. Ela mesma o empregou na loja de roupas, mas que não durou lá muito tempo -, afinal o salário não permitia que ele tomasse quantas cubas libres quisesse. “Num parâmetro econômico, ganhava mil cruzeiros por mês -, o que não era suficiente nem muito equilibrado diante de 200 libras por cada drinque”, disse. Nesse meio tempo, Simon conheceu um romeno que falou sobre Brasília. Motivado por ele, começou a vender relógios na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante. “Morei 10 dias num hotel e depois voltei ao Rio para comprar mais relógios”. Como uma coisa puxa a outra, em um curto espaço de tempo, ele comprou uma loja e abriu um empório, uma espécie de mercadinho, onde se vendia de tudo, inclusive, relógios, na 945 da Avenida Central da Cidade Livre. Depois disso, Simon, após vencer uma concorrência pública, começou a vender os uniformes da polícia local de Brasília. “Encomendava todas as roupas no Rio de Janeiro. E, nessa época,


Por Núbia Paula

Simon Pitel no restaurante Roma

morava num quartinho dentro do quartel da polícia, na Velhacap, hoje Candagolândia”.

O menu é o mesmo, mas com pequenos ajustes.

Serviço: Restaurante Roma

Endereço: 511 – w3 sul. Asa Sul, Brasília Telefones: (61) 3346.4030 / 3434 Horários: Segunda a sexta das 11h30 - 15h e 18h30 - 00h Sábados e feriados das 11h30 - 17h e 18h30 - 00h Domingos das 11h30 - 17h site: http://restauranteroma.com.br/

“A honestidade dos ingredientes é a alma do restaurante. Se anuncia filé mignon tem que servir filé mignon”, afirmou Simon. Poucos ajustes foram feitos no cardápio, apenas como maneira de acompanhar a atualidade acrescentou-se o salmão, o peixe abadejo (procedência argentina), a picanha e o entrecôte (corte de carne bem francês). “O peixe que era surubi foi substituído pelo abadejo e salmão”, disse. O cardápio é muito variado e os pratos sempre foram requintados, mas com aquele toque caseiro para um almoço e jantar fartos. Durante todos esses anos, grande parte do público ia direto da Esplanada dos Ministérios para o restaurante Roma. Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor e Jarbas Passarinho eram frequentadores assíduos. “Canja de galinha não faz mal a ninguém”, canta Jorge Ben Jor, um dos artistas, como também Cauby Peixoto e Tônia Carrero que já experimentaram o peixe à belle meunière ou a tradicional lasanha do Roma ou a sopinha de cebola da madrugada. Ou ainda, quem sabe, a canja de galinha. Já que não faz mal a ninguém...

Garçons fieis em 4 cores de uniforme Manuel Leite da Silva, 65 anos, é garçom

há 44 anos na casa. “Não me vejo trabalhando em outro lugar”. Antes do Roma, ele viveu os tempos “áureos” também no Caravelle, outro clássico da década de 60, em Brasília, localizado na 507 sul. Antônio Sipaúba de Souza, 63 anos, completará em junho, 33 anos de casa. Ele afirma com carinho, o amor ao restaurante, e lembra com orgulho a data que pisou pela primeira vez no estabelecimento, no dia 19/06/1986. No total, eles já vestiram quatro uniformes diferentes durante os 55 anos de restaurante Roma: nos tons rosé, azul claro, bege e branco.

Breve explicação da jornalista As palavras iniciais do texto, embora eu tenha apenas 40 anos e era criança na época, foram realmente vivenciadas. Tirando a parte do pileque, acompanhei meus pais algumas vezes na sopinha da madrugada após baladinha -, e gostei muito, tanto que ficou na memória. Porque filho que é filho é criado mesmo para acompanha os pais sem dizer uma palavra e, o melhor de tudo, achar o máximo. É sentir-se tão grande que arrisca até uma piada entre uma ou outra colher de pudim da casa (que existe até hoje). Para mim, o sábado sem frango assado do Roma não era sábado. O Chacrinha podia não comparecer ao programa de tv, mas o frango não tinha essa mordomia. O Roma faz parte da história de Brasília! E o melhor de tudo: faz parte do meu coração.

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Seu nome é Chiquinho, seus olhos são azuis e se... ...o coração fosse proporcional à estatura, Chiquinho, dono do Beirute Bar e Restaurante, seria Chicão -, ultrapassaria os seus 1,60m de altura, tamanha a generosidade. Tradicional em Brasília, localizado na esquina da 109 sul, o bar existe há 53 anos, emprega quase 100 funcionários, já publicou 4 livros e guarda muita memória. Por Carolina Cascão Cansado da fome que tava, da fome que tinha, o personagem da música “Pau-de-arara”, composta por Carlos Lyra, com versos de Vinícius de Moraes, conta a história do cearense que pegou “o restinho de coisa que tinha” e rumou ao Rio de Janeiro. Coincidências à parte, e se emendar com um “estou indo pra Brasília. Neste país lugar melhor não há”, de Renato Russo, temos a fórmula matemática perfeita para descrever a história de Francisco Marinho, 82 anos, o nosso Chiquinho, a lenda da movimentada esquina da 109 sul, o motivo principal da existência do Beirute Bar e Restaurante. “Eu vinha cansado da fome que tava, da fome que eu tinha Eu não tinha nada, que fome que eu tinha Que seca danada no meu Ceará Eu peguei e juntei um restinho de coisa que eu tinha Duas calça velha, uma violinha E num pau-de-arara toquei para cá

E de noite ficava na praia de Copacabana” (Carlos Lyra, com versos de Vinícius de “O novo estabelecimento constitui mais um passo da iniciativa particular nesta cidade, que muito contribui para a integração definitiva da nova capital da República”. “A cozinha árabe é disputada por todos que a conhecem, seja qual for a nacionalidade de seu apreciador. Assim sendo, lá podemos saborear pratos que já são nossos conhecidos, como, por exemplo: Kibe Naye (quibe cru), Kibe Ballê (quibe frito), Kibe Mashuê (quibe assado), Mexuê (espetinho), Baba Ganouj (berinjela assada), Tabule (salada árabe), Marshi Kussa (abobrinha recheada), Malfuf (charuto de repolho), Hômus (grão de bico), além de outras iguarias típicas apetitosas que só os árabes sabem preparar”. (trechos da publicação, na época, “Sua Revista”) Moraes) Digo que o Chiquinho é nosso sim. Dentre tantos

03/05/1984. Credito: Arquivo/CB. Frequentadores do bar Beirute, de maos dadas, cantam o hino nacional pelo fim da emergencia.

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CAPA

Franciscos, Marias, Josés e Antônios que sofreram por causa da seca do sertão, sobretudo na década de 50 -, apenas um tornou-se cidadão honorário de Brasília: o nosso querido Chiquinho, nascido em Ipú, a 180 km de Fortaleza. A narrativa faz parte de muitos -, lutaram e comeram o que nunca se imaginaria, acalmar um estômago que grita era impotência demais quando mais se precisava da onipotência. Mas se não fosse a condição climática do Nordeste, não teríamos Chiquinho, tampouco o Beirute, que quase fechou as portas, diante de uma crise financeira, em 1970, quatro anos após a inauguração. O Bar do Abrãao, antes de tornar-se Beirute, foi fundado em 16/04/1966, por dois libaneses, Youssel Maaraoui e Youssel SarkisnKaawai -, que chegaram na segunda leva dos candidatos a pioneiros de Brasília, com pouco mais de 40 mil dólares. Na época existiam dois grupos, a dos pioneiros que chegavam para a construção da cidade e a dos moradores. Chiquinho, ao lado dos dois irmãos, o Bartolomeu (Bartô) e o Aluízio, equilibravam suas bandejas entre as mesas de tampo branco e bancos de madeira; e no ofício de garçom, desde 1967, e seus irmãos, desde o princípio do restaurante, serviam quitutes árabes e chopinho gelado para jornalistas, políticos, artistas...futuros presidentes, jogadores de futebol...pais, filho dos pais, netos...

comprar o estabelecimento veio em sabor de filé a parmegiana e o parcelamento a pagar o investimento, em três boas porções de quibe -, já que na vida nada vem de mão beijada. Para a nossa sorte, Chiquinho e os irmãos conseguiram mais essa vitória. Mas antes disso, Chiquinho já tinha vendido cocada, rapadura e feijão. Parece-me, inclusive, que teria tentado aprender a arte de um alfaiate, emendando com a função de balconista de farmácia, depois o “faz tudo” numa mercearia, e o ingresso aos serviços do Exército. Bem antes de chegar a Brasília, Chiquinho, aos 18 anos, levou 10 dias num pau-de-arara (transporte utilizado até os dias atuais no Nordeste) em busca de melhores condições de vida no Rio de Janeiro. Morou em Bangu, onde comprou um bar, sentiu cheiro de mar e aprendeu a amar e... casar. A paraibana, Maria das Neves, ? anos, (segundo minha tia avó é indelicado perguntar a idade de uma mulher) é a companheira eterna e mãe de seus três filhos: Marcelo Marinho, 47 anos, Francisco Emílio Marinho, 44 anos e Kellen Marinho, 40 anos.

Quando Abrãao guardou a “viola na sacola”... E foi embora no paude-arara da vida, nasceu o lendário e tradicional Beirute Bar e Restaurante. A coragem para

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Chiquinho e Filhos

Marcelo ajuda o pai no Beirute desde os 14 anos -, e Francisco, desde os 18. Embora um tenha formação em odontologia e o outro em publicidade, a formação familiar foi a que prevaleceu. O primo Célio Marinho também trabalha nesta gestão familiar. Juntos, os quatro “Marinhos” empregam quase 100 funcionários -, o que significa que quase 100 famílias são beneficiadas pelo Beirute, uma instituição brasiliense, mais que um restaurante. “Passei dois anos tentando entrar para a equipe do Beirute. Queria demais trabalhar aqui. Diziam que eu era muito magrinho e não aguentaria o batente. Mas consegui. Sinto-me feliz no Beirute. Chiquinho nos passa segurança e gosta de verdade de nós”, diz Arnaldo Dutra, garçom há 14 anos no estabelecimento. Antes de ir a Brasília, depois de deixar o Rio, Chiquinho tentou novamente o Ceará ao comprar uma mercearia. Mais um sinal de que não era mais possível fugir do destino, Brasília era mesmo o sonho prestes a realizar. “Meus irmãos já estavam na capital. Faltava eu. Após dois dias à minha chegada, comecei a trabalhar como garçom no ‘Beirute’”, disse. Entre idas e vindas, dessa vez, “a bordo” de um fusca, a cara do Brasil na década de 70, lá se

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foi Chiquinho buscar a esposa no Rio de Janeiro e voltar para o Planalto Central. E começar, de fato, uma família, uma nova geração, a brasiliense.

“A casa é sua. Sente-se, peça um café e faça uma poesia” As palavras de Chiquinho são uma prova de que cultura e gastronomia andam de mãos dadas. À exemplo disso, o Beirute já lançou alguns livros, como o Beirute Final de Século e Beirute: aromas, amores e sabores. E a título de curiosidade, alguns pratos foram batizados com nome de pessoas que fizeram história no estabelecimento, como o Filet à Samuca, em homenagem ao jornalista carioca, Samuel Wainer Filho, que escrevia sobre política na época. O prato consiste num filet grelhado, acompanhado de batata e queijo, ambos gratinados, e ervilhas deliciosamente temperadas na manteiga. A versão Filet à Samunique, em homenagem ao filho deste jornalista, o também jornalista Samuel Wainer Filho, é acompanhada com arroz. No Beirute, o quibe evolui, mesmo diante de um cardápio tradicional e praticamente intacto desde a década de 70, a iguaria é apresentada em roupagens diferentes. “Uma vez perguntaram se tinha quibe com ovo, daí surgiu o Kiberovo. Depois


CAPA perguntaram sobre o quibe com queijo, daí surgiu o Kibeirute”, explica Chiquinho. E por aí vai...com um choppinho na caneca ou no copo, experimentase facilmente o quibe em suas várias versões. Outros pratos árabes tradicionais estão no cardápio, como o grão de bico, a berinjela em pasta, a coalha, o chanclich, os espetinhos, as kaftas...enfim, o menu é enorme -, possivelmente todos serão agradados. Além das novidades que sempre surgem no cardápio: o Cinquentinha Brasília é um deles. Perfeita combinação de linguiça suína, levemente picante, refogada na cebola, acompanhada de batata sauté picante. Um chopp bem gelado é a harmonização do prato. Aliás, o Beirute tem a própria cerveja e chopp, batizados de Beira -, claro, além dos outros rótulos comerciais. Não me espanta se poesias, cujos versos ensaiados estejam estampados num guardanapo, com marcas de azeite (o fiel Galo até os dias de hoje), tenham nascido ali. Ou mesmo frase espontânea, naquele tradicional papel em letras nas cores vermelha e verde, que embala a parmegiana e recebem um durex (digo aquele pedaço de fita adesiva), pronto para levar para casa.

Festa na escola era com quibe Francisco Emílio, o filho do meio de Chiquinho, lembra que em dia de festa na escola, cada um levava um prato. “Seria surpresa se eu chegasse sem os quibes”, disse. Essa desfeita jamais poderia ser feita. O quibe era a vedete dos lanches em dias especiais na escola. Sem ele, a alegria não seria completa. Se é com “q” ou com “k”, não importa. Faz sentido da maneira que se lê no cardápio, kibe com “K”, porque quibe, deriva da palavra kubbeh, que significa bola em árabe. Aquele bolinho feito com massa de semolina, recheado com carne (não misturado e, sim, recheado!), quente ou frio, cru ou frito ou assado. Ou até esfriado, naquele ponto que se come na escola nos lanches em grupo...tudo é bom.

Tradição: café da manhã com os funcionários

Serviço: Bar Beirute Asa Norte CLN 107 (61) 3272-0123 Asa Sul CLS 109 (61) 3244-1717

Digo que Chiquinho tem quatro filhos, três criados e o mais velho que não vive sem o pai, o Beirute. Todos os dias, o pão com manteiga com café, e bolo é tradição. É o momento do turno dos funcionários que trabalham de dia esquentar as turbinas para abrir as portas às 11 horas. Reuniões do “Diretas Já” na mesa 14 A política sempre fez parte da dinâmica da cidade, principalmente em bares. O Beirute é um deles. Os tempos difíceis e falta de identidade da década de 70, aliados à sede de liberdade de expressão, fez com que muitos jornalistas e políticos preenchessem essa lacuna por meio

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Daniel Briand: o francês pioneiro em Brasília.

Há quase 24 anos nascia o Café Daniel Briand -, era bem “petit” mesmo e já imponente com seus 27 metros quadrados, numa das extremidades da comercial 104 norte, de frente para o bosque. Uma portinha, entre um açougue e um bar, um pedacinho da França que nos deixava inebriados de amor com o aroma exalado dos croissants, pães de chocolate e baguetes. Amor à primeira vista, pois à segunda, apenas confirmava que fomos pegos em cheio pelo estômago “pour la vie”. Por Carolina Cascão Daniel Briand, o francês mais brasiliense, não usa boina nem blusa listrada, tampouco carrega uma baguete “tradition” embaixo dos braços. Mas sejamos clichês de vez em quando, francês que é francês precisa comer um croissant todos os dias (digo, aquele pãozinho amanteigado em forma de lua). Tão longe das terras do “Liberté, Égalité, Fraternité”, algumas lacunas pessoais precisavam ser preenchidas quando chegou ao Brasil -, uma delas, o direito a um genuíno croissant francês.  Como uma coisa puxa a outra, juntou a fome com a vontade de comer, literalmente, e o sonho iminente de Daniel e da esposa brasileira Luiza Venturelli se transformaria em realidade, após muito trabalho e coragem, em 18/11/1995 -, data de inauguração do Daniel Briand – Pâtissier e Chocolatier. E de lá para cá, um croissant por dia é lei e pertence ao francês que nos proporciona a oportunidade de viver uma experiência num ambiente estilizado, bem aos moldes impressionistas.  Ao sentar no “terrasse”, de frente ao bosque, a qualquer hora do dia, impossível não tomar umsorbet de fruit de la passion (maracujá) ou framboise (framboesa), dispostos num romântico carrinho de sorvete, uma atração à parte: sob um toldo branco e listras na cor marsala, uma geladeira em tom pastel com elegante moldura, descansa sobre uma roda de bicicleta -, totalmente idealizado por Daniel.  O charme do estabelecimento é permanente, dia ou noite -, seja no “petit-déjeuner” (café da manhã), quando se tem três opções de “formules”, no “déjeuner” (almoço), no cafezinho despretensioso a qualquer hora ou no chá da tarde (Thé de l´aprés midi), com duas opções, a “formule spéciale” e a“traditionnelle”. O cardápio é bilíngue, em francês e português. E as “formules” consistem em menus já preparados especialmente para o café da manhã ou para o chá da tarde, com croissants, ovos, mini sanduíches, sucos, bebidas quentes -, de qualquer forma, todo o cardápio é disponível a qualquer hora. As “formules” são uma maneira prática para que o cliente deguste um pouco de cada clássico oferecido na Casa.

Aliás, o bistrot tem aroma de pão, alma de brioche, coração de macarrons (suspirinhos franceses) -, e como o corpo humano é complexo, para manter o funcionamento e a saúde dos órgãos em dia, vai bem uma quiche (torta salgada), uns vol-au-vents (massinhas folhadas), galettes (crepe aberto preparado com trigo sarraceno) e crepes, petits-fours (biscoitinhos salgados), croque-monsieur(uma espécie de misto quente francês) ou croque-madame (o mesmo misto acrescentado de um ovo), uma soupe d´oignon (sopa de cebola, muito tradicional). Impossível falar de todo o cardápio -, que, aliás, guarda as memórias em imagens, clicadas por Luiza Venturelli, em Paris, na época em que escrevia a tese sobre o doutorado em fotojornalismo brasileiro.  Luiza precisava voltar ao Brasil por questões profissionais. Mas não havia sentido deixar dois corações separados por um oceano. A França precisava vir a Brasília. Assim, aquele sonho do casal que começou em 1991, concretizou com a vinda de Daniel e com o café em funcionamento, em 1995. Quando se conheceram, Daniel ministrava aulas de confeitaria em Paris. Completamente diferente do início, hoje com 40 funcionários, o estabelecimento abriu as portas com apenas quatro pessoas para dar conta de tudo: Daniel, Luiza, um garçom e um ajudante de cozinha. “É preciso começar humilde”, disse Da-

Daniel Briand

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CAPA niel. O Café cresceu consideravelmente, a exemplo disso, algumas pessoas que formam a equipe estão há mais de 15 anos na Casa. A fórmula para uma gestão de sucesso, de acordo com Briand, é conhecer bem os produtos e saber lidar com as pessoas. Ele acredita que a experiência que teve ao ministrar aulas a adolescentes foi um grande diferencial para que ele formasse uma equipe bem treinada. “Oferecer boas condições de trabalho mantém o bom funcionamento. Além de servir em louças bonitas e taças impecáveis e higienizadas. A estética harmoniza com o bom serviço”, diz Daniel. Outro ponto a destacar, extremamente positivo, é que todos os funcionários tiram férias juntos. O descanso coletivo é uma das provas de sucesso.

Filho de padeiro, padeiro é! Filho de padeiro, Daniel Briand, não teria como fugir do destino durante muito tempo. A experiência em panificação estava no DNA, não à toa teria a mesma formação. Mesmo que ele tenha tentado “escapar” por um tempo… Briand nasceu em 24/04/1951 numa pequena cidade, da região do Vale do Loire, chamada Segré, na França. Mas viveu em Angers-, cidade maior que oferecia mais condições e estrutura. Lá se dedicou à confeitaria por um tempo, mas queria mesmo era ganhar o mundo, aprender um pouco sobre tudo, viver novas experiências -, por isso partiu com mochila nas costas, por 10 anos, rumo à África, na década de 70. Chegou a trabalhar como Chef em uma cozinha por lá. De volta à França, por acaso, ao preparar croissants para um grupo de crianças, ele decidiu ensinar a confeitaria a adolescentes. Anos depois, neste contexto, conheceu Luiza, para a nossa sorte-, o motivo de termos Daniel na cidade. Briand é humilde e visionário -, os primeiros anos do Café, em Brasília, foram vividos entre um açougue e um bar, mas diante da bela vista para o bosque verde. Não se imaginava ainda um “terrasse” e suas lâmpadas coloridas, tão pouco o deck-, estruturas essas que vieram com o tempo, depois da grande reforma em 2008, quando o bistrot passou por uma grande repaginada e “afrancesou” ainda mais a esquina charmosa da cidade. Criava-se então um novo espaço, o deck avarandado com toldos e cortinas em linho.  A vitrine é a publicidade do café “Desculpe, estava na chácara ouvindo o barulho dos macacos. Podemos marcar de conversar amanhã?”, disse Daniel ao retornar a minha ligação, emendando uma gargalhada renovante. Nem consultei minha agenda -, estaria lá debaixo de chuva ou sol, com um lindo e sonoro “BONJOUR”(Bom Dia, em francês).

Sentados em charmosas cadeiras de madeira, sob uma mesa cuidadosamente decorada, ornada com toalha em tom “marsala” e outra elegante composição em tecido jacquard e tom pastel -, e um simpático arranjo com raminhos de lírios, em pequenos vasinhos coloridos, Daniel observava a reação das pessoas ao fazerem aquela parada estratégica diante da vitrine de doces franceses. “Esta é a nossa publicidade”, disse. Da próxima vez que for ao Daniel Briand, aprecie a vitrine e a disposição estética das éclairs(conhecida por nós como bomba), das “óperas” (massa de amêndoas, creme de café e chocolate trufado), do “gâteau au chocolate” (bolo de chocolate em formato de meia esfera, uma pequena ilha com um ‘coqueirinho’ de chocolate), da tradicional “tarte aux pommes” (torta de maçãs) . Uma harmonia delicada exposta num envidraçado impecável, de tão limpo reflete o verde do bosque. Parece-me que a “ópera”, além de ser a torta predileta ao meu paladar, é a vedete do bistrot. De acordo com Daniel, 40 kg dessa torta são produzidos semanalmente. Ufa, respirei aliviada. A viagem não seria perdida, tem “ópera” para toda a plateia.

Destaque especial aos Sorbets Em sabores elegantes, os sorbets, sorvetes feitos sem leite e ovos, privilegiam o olfato e o paladar: framboise (framboesa), citron (limão), chocolat (chocolate belga), fruit de la passion (maracujá), baunilha (a autêntica), entre outros. Uma dica: nunca diga que o sorbet de baunilha é um sorvete de creme. Diga isso e verá um francês bem bravo e com expressão blasé (indiferente), bem típica. Os sorbets de frutas agradarão até quem só acha graça em sorvetes de chocolates. Acabei cometendo dois dos sete pecados capitais, o da gula e da vaidade -, pois o próprio Daniel Briand, gentilmente, preparou uma tacinha singela, mas com um toque que fez toda a diferença: um bis-

Daniel e Carolina Cascão

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coito petit-four sec sucres, chamado cigarette, que significa cigarro em francês. No menu “Le Coupe Glacée”, de sobremesas geladas, se visualiza as taças de sorvetes e suas variações, como creme de marron (castanha portuguesa), chantilly da Casa, amêndoas, calda quente de chocolate -, em cinco versões: Coupe Châtaigne (castanha), Coupe Willians (pêra e framboesa), Coupe Délice (framboesa) Poire Belle-Hélene (pêra). Além das tradicionais sobremesas francesas, o profiteroles (carolinas recheadas com sorvete de baunilha e calda quente de chocolate) e a tarte tatin (torta quente de maça caramelada e sorvete de canela).

Numa obra impressionista de Rénoir Sentar-se no “terrasse” do Daniel Briand é sentir-se numa obra impressionista de Pierre-Auguste Rénoir, mais precisamente “Le Déjeuner des Canotiers”, (O almoço dos canoeiros). A iluminação nos remete à varanda do Maison Fournaise, à frente do rio Sena, um restaurante que existe até os dias atuais, na “Île des Impressionistes” (Ilha dos Impressionistas), nos arredores de Paris, onde o artista Rénoir pintou a clássica obra. À título de curiosidade, a canoagem era um esporte bem praticado entre os artistas e parisienses em 1860). O lugar era o point e super bem frequentado na época, característica em comum ao nosso Daniel Briand. Aliás, é um privilégio frequentar um ambiente que resgata tão bem uma cultura numa nostalgia positiva. Dificilmente se verá um “terrasse” tão verde em Paris… As plantas dispostas “partout” (por todo o

lugar), a pequena fonte de água para os passarinhos, a natureza exuberante e as luzes coloridas que acendem ao final do dia nos pegam pelas mãos para uma breve viagem ao Vale do Loire e ao interior da França. “Je suis revenu à Chatou à cause de mon tableau. Vous serez bien gentil de venir déjeuner. Vous ne regretterez pas votre Voyage, c´est l´endroit le plus joli des alentours de Paris”, Pierre-Auguste Renoir. (1880, carta escrita a um amigo) (tradução: “Vim à Chatou por causa da minha pintura. Você será gentil ao vir almoçar. E não esquecerá essa viagem, é o lugar mais bonito aos redores de Paris”) A carta escrita, no passado, no ambiente impressionista de Fournaise que seduziu outros artistas também como Manet, Maupassant e Degas, cairia como uma luva para descrever, hoje, o bistrotfranco-brasiliense e suas lâmpadas amarelas e piso de azulejos no interior do estabelecimento.

A baunilha e o mel Todos os produtos do bistrot são comprados aqui mesmo no Brasil, nada vem da França, com exceção à baunilha. Fator este que pesa no bolso, pois chega muito caro no país e é ingrediente primordial nas receitas de Daniel. Para deixar o bosque ainda mais bonito e quem sabe render uma boa baunilha, Daniel plantou duas mudas dessa aromática especiaria. “Não sei se vai dar certo…”, afirma Daniel. Se “ça va marcher” (vai funcionar), não se sabe, mas que é poético e lúdico, ah isso com certeza. O mel, utilizado na fabricação dos bombons,

Serviço: Daniel Briand – Pâtissier e Chocolatier Telefone: CLN 104, bloco A Tel: (61) 3326-1135 www.cafedanielbriand.com

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CAPA

Sorbet de fruit de la passion (Maracujá) com um cigarette (Petit-four sucré)

é o de Jataí e vem do Pará. Difícil arrumar um bom mel, que além de verdadeiro, seja selvagem. Eu que o diga… Incomodo? Je vous dérange? Quando recebi a missão de entrevistar Daniel Briand senti que era alegria demais para uma Carolina só e ao mesmo tempo uma responsabilidade preocupante porque diante de tantos prêmios que o Café e Bistrot já acumulava em toda a sua história, além da experiência e destaque na cidade, na imprensa, pensei, “ele não vai ter disposição para contar toda a história”. Ele nem precisa…a elegante vitrine com doces clássicos franceses já dizem tudo. E outra: muito já havia dito e publicado, divulgado, todos já sabiam bastante. Era preciso ser autêntica, era preciso contar uma história usando a empatia -, era preciso se imaginar Daniel, se vestir de Daniel. E de Luiza também. Tarefa árdua para quem queria um texto impecável, à altura do bistrot. Não era o momento de Carolina entrar em entressafra literária. Comecei com um “Bonjour” e um “Je vous dérange?”, Bom Dia e Incomodo?, respectivamente. O restante da história, você, leitor, acaba de vivê-la por meio das palavras acima.

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Coluna Gen

Por Edson Crisóstomo crisostomo@61brasilia.com

André Mendonça; Wagner Rosário, Ilka Teodoro; Embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral; jurista Eliziane Carvalho;OAB, Francisco Caputo; CADE, Alexandre Barreto

Cerimônia de assinatura do contrato de concessão Ferrovia Norte Sul

alentina Bandeira e Maria Victória Sanches de Mendonça Lavorato

Famoso pelo seu sanduíche de pão com linguiça tradicional na CEASA de Brasília, o chef-produtor vai levar uma de suas receitas para o deleite dos participantes.

Politica •

Mentiras & Futricas

Céu de brigadeiro

Passados 7 meses o que se percebe é que Jair Bolsonaro, vai esticando a corda, medindo e avaliando o retorno do que fala, do que volta atrás, do que afirma e depois diz que não é exatamente aquilo, essa postura vale para todos os poderes.

Com seu novo mimo, o governador Ibanes Rocha está voando nos primeiros meses a frente do GDF.

Lembra da afirmação dele de que não confiava nas urnas eletronicas, depois reconheceu a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.

A oposição ao Governo Ibanes simplismente não existe, uma bancada muito pequena, que não consegue fazer frente ao apoio recebido por sua base dentro da câmara Legislativa.

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Não encontra resistência para seus projetos, e vai governando com total tranquilidade.


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o da

COLUNA GENTE

Capitã Andreia, Paula e Hamiltão Mourão.

Dr. Paulo Dolabela de Lima e Vasconcelos, Ana Oliveira(B-Actve) e o Pequeno Arthur Dr Paulo Dolabela de Lima e Vasconcelos, Ana Oliveira (B- Active) e o pequeno Arthur.

Caixa Rápido • Mãos á Obra Como Perspectiva de aumento expressivo nas vendas do semestre, as construtoras Paulo Octavio e Emplave, que mesmo com a crise dos ultimos anos, não tiraram a mão da massa, mativeram o calendário de lançamento dos prédios residenciais. As duas empresas celebram as reduções da taxa selic para 6% a.a.

O casal Paula e Hamilton Mourão com a aluna Valentina Crisóstomo

Carine Elpídio a mulher que trouxe a NASA para Brasilia ao lado do apresentador Luciano Hulk durante a Brazil Conference at Havard e MIT.jpeg

Geleia Geral • Louco ou Visionário há 3 decadas atrás, um engenheiro florestal Joe Valle, chegava a feiras e supermercados, com proposta orgânica, totalmente livre de agrotóxicos com produção de legumes e vegetais. Hoje a sua fazenda Malunga é sucesso com 4 belissímas lojas, sem deixar de lado uma mega rede de parceiros que vendem os produtos da Malunga em suas gondolas.

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O homem que fez Brasília sorrir

Cléo Octávio sua mulher Vilma Pereira e o filho Paulo Octávio

Dentista dedicado, mineiro apaixonado pelo legado de Juscelino Kubitschek e amante da epopeia da construção de Brasília. Assim pode ser definido, em poucas linhas, Cléo Octávio Pereira, um dos pioneiros de Brasília. Da redação Nascido em Varginha (MG), no dia 15 de dezembro de 1921, o Doutor Cléo, como era conhecido em Brasília, teve enorme importância na vida da capital fundada em 21 de abril de 1960, seja como dentista, seja como personagem da vida da cidade. Passou a juventude no interior mineiro, entre

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sua cidade natal, onde estudou a vida inteira no Ginásio Marista, e Lavras, onde visitava parentes desde pequeno. Em 1938, ainda em Varginha, serviu no Tiro de Guerra da cidade, mas como estava a poucos passos da faculdade, foi estudar odontologia no Rio de Janeiro, então a capital do Brasil.


CAPA Em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, um ano antes de se formar com louvor pela Escola de Odontologia da Universidade do Rio de Janeiro, foi completar o período de serviço à Pátria no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), como muitos universitários da época, saindo em 1945 como segundo-tenente da reserva. A este tempo, já tinha em mente casar-se com a jovem Wilma, moradora de Lavras, cidade que sempre considerou seu segundo lar. Após concluir estudos e serviço militar no Rio de Janeiro, Cléo Octávio foi morar em Lavras, ainda em 1945, começando a exercer a odontologia. Dois anos depois, começou a namorar Wilma, sete anos mais jovem que ele. Os dois se casaram em 1949, ele com 28 anos, ela com 21. Um ano mais tarde, em 1950, nasceria seu primeiro filho, Paulo Octavio, hoje um dos maiores empresários de Brasília. Enquanto os filhos nasciam – depois de PO, Cláudia e José Ronaldo vieram ao mundo – e cresciam na pequena Lavras, Cléo Octávio e a esposa Wilma sonhavam em uma vida melhor para a família. A ideia inicial do casal era mudar para uma capital, para que as crianças pudessem estudar em um grande centro, pois Lavras contava apenas com a Escola Superior de Agricultura (ESal) – hoje a Universidade Federal de Lavras (Ufla). Foi quando Cléo e Wilma assistiram o nascer de uma nova proposta de País, trazida pelo também mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira, ex-governador do estado e candidato à Presidência da República em 1955. Doutor Cléo sempre teve enorme proximidade com o PSD, do seu amigo José Francisco Bias Fortes, derrotado por JK nas prévias para as eleições ao governo mineiro, em 1950. Passou a prestar ainda mais atenção em Juscelino após ele prometer, a Antônio Soares Neto, o Toniquinho da Farmácia, no histórico

comício de Jataí (GO), em 4 de abril de 1955, que cumpriria com a Constituição e transferiria a capital do Brasil para o Planalto Central. A partir deste comício, Cléo Octávio começou a colecionar recortes de jornais que falavam sobre a epopeia da construção da nova capital. E decidiu que os filhos iriam estudar em Brasília. Enquanto a terra vermelha do Cerrado goiano ia virando o sonho dos pioneiros, o casal Cléo e Wilma estruturava a mudança e tocava a vida em Lavras, uma cidade pacata, então com seus 27 mil habitantes. Mesmo com a cabeça no Planalto Central, aceitou a indicação do agora governador Bias Fortes, seu amigo, e foi presidir o Lavras Tênis Clube entre 1958 e 1961. Mas a vontade de mudar de horizontes era imensa. Em 1958, Cléo Octavio capitaneou uma excursão de ônibus com lavrenses para conhecer a cidade que era rasgada no coração do Brasil. Ganhou uma recordação que manteve a vida inteira: uma gravata presenteada por JK. Voltou da capital com a certeza que Brasília seria uma realidade, apesar da forte oposição que vinha dos políticos, no Rio de Janeiro, especialmente de Carlos Lacerda, da UDN. Mas o bem articulado dentista sabia que o futuro de sua família seria em Brasília, capital mais acolhedora que o Rio de Janeiro, e que proporcionaria muitas oportunidades a um profissional como ele, que tinha capacidade administrativa, trânsito político e carisma. Cléo Octávio voltaria a Brasília para a inauguração da cidade, em 21 de abril de 1960. E começou ali a estruturar a sua mudança. No ano seguinte, veio na frente da família, para assumir a chefia de gabinete do então diretor-geral do Departamento de Educação da capital, Heli Menegale, função que permitiu trazer a mulher e os filhos para Brasília, em 31 de julho de 1962, de forma que as crianças pudessem começar o segundo semestre já nas novas escolas. Depois de longa viagem a bordo do Simca Chambord

Cléo Octávio e família

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26 de A bril de 2001 Inauguração Residencial Cléo Octávio

Tufão, que anos mais tarde daria de presente a Paulo Octavio, a família aportou inteira na SQS 106. Ainda em 1962, fez o concurso para o Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp), e passou em primeiro lugar. Logo deixou a chefia de gabinete de Heli Menegale e foi comandar o serviço dentário do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC). Paralelamente, abriu seu consultório para atender clientes depois do expediente, sendo o terceiro dentista a se instalar na cidade e o primeiro no Setor Comercial Sul. Como era um requisitado profissional, instalado em área nobre da cidade, logo foi fazendo sucesso e aproximando-se de outros pioneiros. Enquanto via os filhos crescerem, fundou o Conselho Regional de Odontologia no Distrito Federal. Incansável e carinhoso, investia na formação das crianças. Dava força, por exemplo, para a inclinação de Paulo Octavio para o mundo dos negócios, colaborando para que o filho começasse sua atividade profissional como vendedor de pecúlios do Grêmio de Beneficência dos Oficiais do Exército (Gboex), aos 15 anos, a pedido do próprio PO. E, ao lado de dona Wilma, frequentava os mais badalados salões, clubes e festas da cidade, emoldurando a vida social da capital com sua alegria e tiradas rápidas. Sempre procurando se atualizar, Cléo Octávio viajou para congressos odontológicos em várias cidades do mundo, como as norte-americanas Las Vegas e Washington, e muitas outras Brasil afora. Enquanto o corpo aguentou, consertou sorrisos de gerações e gerações de brasilienses, até se aposentar em 1986, fechando o consultório na sala 123 do Edifício JK. Mas o espírito ativo o impedia de ficar parado. Como tinha se formado em administração de empresas enquanto era dentista, voltou a trabalhar após quatro anos de descanso, agora como executivo. Assumiu o cargo de diretor-superintendente do recém-inaugurado Kubistchek Plaza Hotel, construído pelo filho Paulo Octavio.

Durante três anos, esteve à frente da operação, e foi um dos responsáveis por transformar o empreendimento em um renomado cinco estrelas. Em 1994, trocou a diretoria o hotel pelo cargo de diretor-presidente da PaulOOctavio Investimentos Imobiliários, já que PO voltara à vida política e resolvera se afastar das empresas. Nesta época, Cléo Octávio já colecionava inúmeras distinções e reconhecimentos públicos, como o título de Cidadão Honorário Lavrense, concedido em 1991, por unanimidade, pela Câmara de Vereadores do município em que morou entre 1945 e 1962. Também era membro do Clube dos Pioneiros de Brasília e fora condecorado pelo GDF. Recebeu, também em 1991, a comenda da Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho. E, em 2002, viu a Câmara Legislativa do DF agracia-lo com o título de Cidadão Honorário da capital, um reconhecimento por tudo o que fez por Brasília. Novamente aposentado, agora da carreira de executivo, a partir dos primeiros anos do século 21, Cléo Octávio passou a dedicar-se à família, que o cercou de carinhos e atenções nos últimos anos de vida. O pioneiro escreveu o último capítulo de sua história no dia 2 de junho de 2010. Mas até hoje permanece vivo na lembrança de todos que conviveram com o sempre alegre, competente e bem relacionado mineiro de Varginha e cidadão de Brasília.

Dr. Cléo Octavio

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// espaรงo BELEZA

por completo

300.01.513.45

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@lordperfumaria


Marconi Antônio de Souza, o pioneiro de Brasília e empresário de sucesso...

...era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Deixou os pais em MG, chegou a Brasília quase “sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos”, num ano bissexto, em que a inflação quase bateu 100%, o golpe militar derrubou o Presidente João Goulart, James Bond em “007 contra Goldfinger” lotava os cinemas, a banda Beatles expandia pelo mundo com “twist and shout” e a francesa Brigitte Bardot pisava em terras cariocas fazendo o mundo conhecer Búzios. 1964, ano marcante! Por Carolina Cascão Marconi Antônio de Souza era menino quando chegou a Brasília. Nem imaginava que faria a diferença para o desenvolvimento da cidade -, a peça fundamental na tecnologia e na geração de empregos. Em 1964, o pioneiro e cidadão honorário, aos 14 anos, vislumbrou o traçado moderno em formato de cruz da capital, que até então estava com apenas dois anos em cada perna, digo em cada eixo, no monumental e no rodoviário. Muita responsabilidade para uma criança de quatro anos, seu nome deveria se chamar Esperança e não Brasília. E com esse sentimento, os pais de Marconi, Orozimbo de Souza Filho e Niva Pessoa de Souza, permitiram que Marconi fizesse as malas, pois a pequena cidade Pimenta (MG), onde nascera em 13 de junho de 1950, não seria suficiente para uma criança com futuro promissor. Marconi é um empresário que contribui no desenvolvimento de Brasília. E aos 69 anos continua como cidadão dedicado em prol da preservação do projeto urbanístico original e proteção ambiental, com destaque ao lago Paranoá -, como Presidente da Associação dos Amigos do Lago Paranoá, a ALAPA. “Fiquei deslumbrado com o traçado moderno da cidade. Os cabos subterrâneos nem ao longe se pareciam com os fios expostos da cidade de interior. Não existiam semáforos nem cruzamento”, disse. Marconi veio com o tio, o dentista Luiz Gonzaga (e a esposa, Flora Pessoa) -, que viera como presidente do partido PSD (Partido Social Democrata). Moravam no Gama, entorno do DF, antes batizada como “cidade-satélite”, onde Marconi permaneceu até 1968, ano que se mudou para 212 sul. Os pais vieram um ano depois. No início, a rotina era dividida entre o trabalho na banca de revista do tio e os estudos do 3º ano científico no Setor Leste. As habilidades em venda, o fez destaque na Olivetti, empresa italiana, fabricante de máquinas de escrever e calculadoras. “A sorte favorece a mente bem preparada”

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Se pudesse escolher uma frase, a do cientista francês, Louis Pasteur, seria a melhor para explicar a postura de Marconi e o título de “Cidadão Honorário de Brasília”, concedido em 1998, pela Câmara Legislativa do DF, e do Diploma e Medalha de Honra Mérito de Pioneiro. Em 1977, numa iniciativa curiosa, inaugurou a lanchonete Snoopy, na 110 sul. O estabelecimento foi montado para vender sanduíches de qualidade com Marconi Antonio pães saborosos, preparados pela padaria Delícia. O big snoopy, por exemplo, era um bom gourmet, num época em que essa palavra nem sonhava em existir. “Um amigo acabara de chegar dos EUA e me sugeriu McDonald´s como nome da empresa. Preferi Snoopy, o personagem. Vendi, não era a minha praia”. Para acompanhar o mercado, a datilografia era a técnica imprescindível para a formação de um currículo, Marconi, então, montou uma empresa que oferecia curso rápido de digitação.

A tecnologia e Marconi Dentre tantas as realizações, Marconi destaca o setor de tecnologia. A Olivetti foi importante na carreira. As ferramentas para seguir adiante o direcionaram a inaugurar a filial da Polimax, em Brasília, na década de 80, época dos primeiros microcomputadores. Dez anos depois, outro desafio, a Marconi Transportes, de distribuição de combustíveis. Em 1991, adquiriu 50% do controle acionário da Microtécnica Informática -, dirigida para a assistência técnica e manutenção de equipamentos


CAPA

Marconi Filho a esposa Maria Lucila e o Emprerário Marconi

de informática. Precursor do primeiro cartão magnético de tickets de alimentação Atualmente, Marconi emprega 100 funcionários, só em Brasília, na Tripar Bsb Administradora de Cartões Ltda, fundada em 1998, fruto da experiência na Polimax. A empresa modernizou o mercado, no ano 2000, por meio da implantação dos primeiros cartões magnéticos de tickets de refeição em substituição aos “carnês” de papel -, uma iniciativa desafiante, na época, que visava garantir a segurança, evitar fraudes e comércio clandestino e, dinamizar as operações. Em 2007, criou a bandeira própria, a Vale Shop -, resultado do desenvolvimento de um software moderno de gerenciamento de benefícios, que facilita a interação entre usuário do cartão e fornecedor. A empresa tem escritórios em Goiânia, em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro e em Fortaleza. Na época da vitrola, do rum com Coca-Cola e

do fervor dos rachas. No toca-fitas do primeiro carro, um Gordini, comprado aos 18 anos, uma baladinha do Credence Clearwater Revival, um “broto” e, quem sabe, uma “corrida de submarino”, de frente para o “mar” lago Paranoá. Numa época em que os amores não eram separados nem pelo freio de mão entre os bancos nem pela violência, o beijinho “despretensioso” na porta de casa, no setor de embaixadas e no cine Drive-in (aliás, o único do País em funcionamento) era poesia. Marconi era uma lenda, um namorador profissional, mas por não assumir nenhuma namorada, acabava sozinho no dia dos namorados. Uma bala “perdida” que atirava, não ligava no dia seguinte, não fazia vítimas, pegava de raspão e deixava saudades -, até conhecer a mãe de seu filho e esposa, Maria Lucila Portela Alencar. Juntos tiveram Marconi Antônio de Souza Filho, um presente de aniversário ao Marconi pai, já que nasceram no mesmo dia. O filho, hoje, com 30 anos, formou-se em filosofia na Escócia e, hoje, mora em Londres. Voltando ao passado, a década de 70 de Marconi, incluía desfilar com o fusca 1968, na galeria do Cine Karin, na 111 sul, de frente para o eixinho. Frequentar a boite (danceteria) do clube Iate, era uma atração. Assim como, tomar um cuba-libre (rum com coca-cola) no Bar Bem, um lugar só de “batidas” na 110 sul; um hi-fi (vodca com fanta laranja) nos “esquentas”, no Gilberto Salomão, o Drugstore, e um elegante dry martíni, imortalizado por James Bond, na época do Sokana -, designação não muito sofisticada para um gim, vermute, gelo e até uma azeitoninha. O automobilismo era forte na época -, Marconi acompanhou a construção da pista do autódromo. “Além das corridas oficiais, lembro que, por segurança, antes da inauguração oficial da pista, fazíamos os nossos ‘pegas’ lá. Sem descartar a adrenalina, claro, das inusitadas corridas ilícitas, os “rachas”. Brasília não tinha tanta gente, nem trânsito. Era um acontecimento ao som de rock´n roll e mulheres bonitas”, contou. A paixão por carros continua. Para preservar a tradição, Marconi conserva três carros de colecionador genuíno, um Rolls royce branco conversível (1975); um Alfa romeo spider (1974), verde conversível, e o Corcel (1974) do pai, na cor marrom telha.

Amor eterno a Brasília

Paixão dos dias atuais

Hoje em dia, a satisfação é ouvir música eletrônica enquanto dirige um de seus carros em direção ao Pontão -, lugar predileto à beira do lago. Adora gastronomia, mas sem jiló e chuchu... únicas verduras que detesta. Assim como na vida, nem o amargo e nem o sem graça a, o bom mesmo é a apimentada comida mineira.

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A guardiã do legado de JK Há 19 anos, a memória do fundador de Brasília está nas mãos de uma mulher sempre elegante, atenta a todos os detalhes e que conserva uma disposição para o trabalho e uma jovialidade admiráveis.

48 [61] Ana Kubitschek e Cleo Octávio


CAPA Da Redação Há 19 anos, a memória do fundador de Brasília está nas mãos de uma mulher sempre elegante, atenta a todos os detalhes e que conserva uma disposição para o trabalho e uma jovialidade admiráveis. Anna Christina Kubitschek Barbará Alves Pereira preside, desde 2000, o Memorial JK, museu mais bem avaliado da capital, inaugurado em 12 de setembro de 1981 pela inesquecível Sarah Kubitschek e que resguarda nos mínimos detalhes a história de seu avô, o eterno presidente Juscelino Kubitschek. É lá que pode ser encontrada todos os dias, conversando com visitantes, comandando com atenção e carinho as operações do espaço e dedicando-se a eternizar JK na história do Brasil.

Kubitschek e André Octavio Kubitschek, filhos também do empresário Paulo Octavio, com quem é casada há quase três décadas. Por isso, acha fundamental que as novas gerações saibam quem era Juscelino, o que ele fez pelo Brasil e que, sobretudo, não esqueçam da perseguição política que foi imposta a ele desde antes de assumir a Presidência da República, em 31 de janeiro de 1956, mas especialmente após 31 de março de 1964. Esse rigor vem também de seu apreço pela política. Mesmo nascida quando Juscelino já tinha sido cassado, Anna Christina Kubitschek respirou política a vida inteira. Seja nas refeições na Fazendinha JK, que sempre acabavam em uma bela prosa sobre o tema, seja na sua vida como executiva do Memorial JK, ela não abdica de ter voz ativa como personagemchave de seu grupo político. Tal como o avô, é uma pessoa com inclinações de centro, mas com um forte viés social. E tem opiniões fortes, decididas. Muito religiosa, é guiada por suas convicções cristãs, com as quais sempre busca justiça para o povo mais pobre da cidade fundada pelo avô. Por conta dessa sua visão de mundo, ampliada pelos anos que estudou nos Estados Unidos, para ela é uma alegria receber, no Memorial JK, a visita dos alunos de escolas públicas, de pessoas simples e de antigos operários da construção da capital. Por vezes, senta-se no café instalado naquele espaço e ouve muitas histórias. Também se dedica a contar várias delas aos visitantes, transformando-se, por vezes, em uma narradora da história de JK, mesmo tendo vivido apenas os anos mais sombrios da vida dele – aqueles em que tentaram riscar o nome do presidente da cidade, uma triste época em que ele foi até proibido de visitar a capital que construiu. A dedicação à memória de JK é semelhante à que Anna Christina dá à família. Sempre esteve perto do marido Paulo Octavio nos momentos gloriosos, mas também naqueles em que a vida costuma deixar marcas. Nunca deixou os filhos Felipe e André sem atenção e cuidado, mesmo quando os dois estudavam nos Estados Unidos, desdobrando-se, como uma boa mulher moderna, em seus múltiplos papéis de executiva, esposa e mãe.

“Há 19 anos, a memória do fundador de Brasília está nas mãos de uma mulher sempre elegante, atenta a todos os detalhes e que conserva uma disposição para o trabalho e uma jovialidade admiráveis” Embora tenha nascido no Rio de Janeiro, Anna Christina guarda poucos traços da capital carioca em sua alma. A vida dela é dedicada à Brasília e à preservação da memória de JK, por quem nutre admiração acima dos laços de parentesco e proximidade – por dez anos, teve a presença do ex-presidente em sua vida. Mesmo tendo memórias muito claras dele como avô – aquele tradicional senhor simpático e afável, que cedia o lugar na cama para que a netinha dormisse de mãos dadas com a avó Sarah Kubitschek e que acordava todo mundo cedinho, na Fazendinha JK, para que aproveitassem melhor a exuberante natureza do seu amado cerrado –, ela tem a consciência exata da missão que está em suas mãos. Para isso, não hesita um só segundo em encarnar o papel de defensora do legado de progresso e liberdade que Juscelino deu ao País, nos cinco anos em que foi presidente da República. Anna Christina Kubitschek é mãe dos dois únicos bisnetos de JK que moram na cidade que ele ergueu, os executivos Felipe Octavio

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Anna Christina e seu pai 001.jpg

O mesmo carinho ela dá ao pai, Baldomero Barbará, ainda vivo – sua mãe, a inesquecível Márcia Kubitschek, faleceu em agosto de 2000. E mantém com as irmãs, Júlia Diana Kubitschek Barbará e Alejandra Patrícia Kubitschek Bujones, uma relação de proximidade, apesar de as duas não morarem em Brasília, assim como faz com a tia Maria Estela. Cotada várias vezes para entrar na vida política – chegou a ser indicada pelo governador Ibaneis Rocha para ser sua vice –, Anna Christina Kubitschek vem adiando ao máximo uma candidatura. Ainda prefere contribuir politicamente com o Brasil preservando a história do presidente que mais desenvolveu o País no século passado, tirando-o de um crônico atraso, para lançá-lo em uma espiral de industrialização, crescimento econômico e modernidade, sintetizadas na construção de Brasília. E tem certeza que, se ele concorresse nas eleições de 1965, nunca realizadas, seria eleito e promoveria ainda mais progresso e liberdade no Brasil. Por isso, sua dedicação é combater as esdrúxulas teses que hoje em dia aparecem aqui e ali, nas quais JK vira um “socialista”, rótulo político que ela rejeita com veemência. Para tanto, lembra as origens do PSD, partido em JK militou a vida toda. Um social-democrata, como ela, mas que acreditava que o foco nas liberdades e no progresso do País o fariam florescer como nação moderna e líder no planeta. E não se cansa de abdicar de horas importantes para iluminar as mentes.

Para isso, segue à risca o legado do evangelista Lucas, presente na Bíblia, livro que carrega dentro da alma. Anna Christina Kubitschek acredita que “ninguém, depois de acender uma candeia, a cobre com um vaso ou a põe debaixo duma cama; pelo contrário coloca-a sobre um velador, a fim de que os que entram, vejam a luz”. Para isso, está sempre disposta a acender as candeias históricas no Memorial JK, libertando o mundo destes tristes tempos de cegueira e ignorância, especialmente em relação aos legados do inesquecível JK. Ana e Vilma Pereira

Inauguração do restaurante Oscar

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Sasse: a arte do amor incondicional em forma de empresa. Quem disse que amor de verão não sobe serra, que namoros a distância não prosperam e que o casamento é uma instituição falida está enganado. O amor ainda impera! A exemplo disso, Gabriel e Cátia, o casal “empresário”, sem um tostão no bolso, há quase 30 anos, começou um negócio lucrativo para realizar o sonho em casar-se. Com um cheque pré-datado, dez camisetas e muita disposição e trabalho, nasce, de maneira pequena e humilde, a empresa Sasse. Era apenas o princípio...Hoje, vende mais que camisetas. Vende conceitos! Abriu os horizontes em mais duas frentes: o mercado de artigos promocionais, prontos para serem customizados e o de uniformes escolares. Por Carolina Cascão

A “química” de um casal pode descobrir o oxigênio. Se não fosse a união e os estudos do famoso casal francês da história, Marie e Antoine Lavoisier, o elemento químico O2 talvez nem tivesse nome -, nem se saberia que ele é fundamental no processo da combustão. Gabriel e Cátia Sasse não queriam descobrir a fórmula da Coca-Cola ou algo parecido, queriam apenas casar. De mãos dadas, descobriram o mundo do empreendedorismo e, antes mesmo de oficializar a união, e com poucos meses de namoro, já se intitularam “empresários”, como maneira de impulsionar o universo e atrair o melhor no mundo dos negócios. Começaram a luta com dez camisetas e um cheque pré-datado, numa época em que a inflação batia os 80%. Gabriel era universitário e mágico nas horas vagas quando conheceu Cátia numa danceteria

Gabriel e Cátia: aliaram história de amor com empreendedorismo

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no Estado de Santa Catarina, em 1992. Ela, estudante e promotora de eventos. Ele não perdeu tempo (nem a viagem) e a pediu em casamento na primeira noite. Não era loucura -, após 365 “pai-nosso que estais no céu”, um por dia, à beira do lago Paranoá, era chegado o momento de colher a promessa que havia firmado: o de casar com uma boa moça e que além disso, viesse como uma beldade loira e de olhos verdes. Por vezes, ele esqueceu-se de rezar, mas a tempo de salvar a promessa, levantava-se de madrugada, chamava o cachorro e ia cumprir o pai-nosso de todo o dia. Por sair, às vezes na escuridão da noite, muitas vezes era colocado para correr pelos vizinhos que estranhavam aquela movimentação , antes mesmo de finalizar o “amém” da oração. Para levar a relação adiante, Gabriel seguiu os conselhos do sogro, comprou as camisetas e, das dez peças, sete foram vendidas ainda no ônibus, a caminho de Brasília. A iniciativa animou o casal. Cátia enviou mais camisetas para a capital. E, no segundo lote, a surpresa: ela mesma, levou pessoalmente 300 peças de roupas, meia dúzia de caixas -, tudo de ônibus. De campainha em campainha e um porta-malas cheio de peças, eles vendiam na casa das pessoas e estabeleciam metas. Conseguiam cumprir, mesmo que fosse no dia seguinte. O negócio evoluiu em alguns meses e, em 1993, construíram uma pequena loja no quintal da casa da mãe de Gabriel, no bairro Lago Norte, em Brasília. Um ano depois, orientados pelo Sebrae, abriram a própria confecção, a Sasse Confecções de Santa Catarina. A partir daí, mais uma nova etapa na vida do casal, quando a Sasse passou a vender


CAPA misetas era bom, mas não avançaria mais. Uma forma de continuar crescendo era abrir-se para novas expectativas e novos produtos: aí surgiram os artigos promocionais”, disse Cátia. Uma forma de inovar o mercado era a maneira de como mostrar o produto. Criou-se então o maior show room de produtos do Centro-Oeste, em 2001, num ambiente estilizado e bem moderno para expor os produtos aos clientes, que vão desde canecas, canetas, bolsas e sacolas e, claro, camisetas. Tudo pronto para customizar de acordo com o cliente. “O empreendedor tem que arriscar”, afirma Gabriel. Então, em 2003, o casal inaugurou mais um novo show room, só que dessa vez, em São Paulo, mais precisamente na Vila Olímpia. “Foi uma época preocupante porque 2004 começava um novo Governo, um novo Partido. E 70% do faturamento era gerado por compras do Governo, era fundamental naquele momento pulverizar a carteira de clientes e aumentar a participação do setor privado no faturamento. só no atacado. Já era possível casar. Após comprar a casa própria, oficializaram a união. A experiência de Cátia que trabalhou em grandes malharias do Sul contribuiu no negócio, especialmente num episódio marcante, em 1995, quando Gabriel aceitou o primeiro grande pedido de 10 mil camisetas num prazo de 30 dias, numa época em que a Sasse fabricava entre 300 a 400 peças, ao mês. A situação desafiadora, mas fundamental para a experiência foi resultado de um contrato assinado com um grande cliente. Cátia apoiou o namorado e acionou todos os contatos que tinha para que o prazo fosse cumprido. A união deu mais que certo. Mãos à obra, trabalho em Brasília, trabalho em Santa Catarina. Terceirizou-se uma parte e tudo deu certo Outro episódio fundamental foi o roubo da pequena loja no Lago Norte. “Levaram tudo. Mas não levaram a nossa disposição. Surgiu um desafio positivo. Liguei para a Cátia e informei bem rápido o acontecido. Na época fazer um interurbano era caríssimo. Ela disse que conseguiríamos sair da situação. E conseguimos”, disse Gabriel.

Expansão nos arredores de Brasília Em 2012, a Sasse investiu R$ 3 milhões em uma fábrica, em Sobradinho, nos arredores de Brasília. No ano seguinte, inauguraram a própria fábrica de brindes. Mas com o negócio das camisetas também a prosperar. A equipe dinâmica aliada à superação das expectativas por meio de uma fidelização com o cliente permite que, hoje, 300 mil camisetas personalizadas sejam produzidas, por mês, atendendo a mais de três mil clientes.

Produção de ponta e sustentabilidade Na área de tecelagem e pintura, através de uma produção verticalizada, os fios são transformados

Em cinco anos, três lojas na capital. Em 1997, quando começaram a vender apenas no varejo (grande quantidade), o casal expandiu com três lojas: uma na Asa Sul, na Asa Norte e outra no Conjunto Nacional. No ano seguinte, o negócio abriu mais uma frente, o da indústria de artigos promocionais, com a Sasse Promocionais. Atualmente, quase 50% do faturamento é proveniente da linha de brindes, não só das camisetas. “Começamos a buscar um universo diferente e a atuar em outro mercado. O segmento de ca-

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em malha. E a partir daí, desenvolvido em cores e gramatura de tecidos para criar um produto específico para cada finalidade na linha corporativa, profissional e esportiva de camisetas. O tingimento das camisetas, chamado de reativo, assegura a cor e evita o encolhimento da malha. A empresa preza por produtos de alta qualidade e sustentabilidade -, que segue as tendências mundiais. O tratamento de fluentes e resíduos do processo de tingimento, por exemplo, devolvem água limpa à natureza -, uma atitude ecologicamente responsável, ao lado da linha de reflorestamento, utilizada nas caldeiras da tinturaria. O corte das camisetas é feito com base em estudos de desenvolvimento dos moldes de uma padronagem de tamanho que atenda as necessidades do mercado e diminuem os resíduos A costura transforma em produto final através de ágeis profissionais que conferem cuidadosamente as camisetas, antes de sair da fábrica. A capacidade de produção pode ser comparada com grandes malharias do mundo, pois uma máquina rotativa automática permite produzir mil camisetas por hora -, realidade totalmente diferente da do início da Sasse. “Com os tempos mais difíceis e a instabilidade econômica, tivemos que enxugar pessoal, sem cair faturamento, por meio da automatização. Temos máquina que funciona com apenas dois funcionários”, disse Cátia.

A primeira empresa especializada em uniformes escolares A Sasse cresceu e a família de Cátia e Gabriel também. Depois que tiveram três filhos, e enfrentaram filas enormes e dificuldades para que eles experimentassem o uniforme da escola, surge então a Sasse Uniformes, a primeira empresa especializada em uniformes escolares.

Cátia queria uma loja conceitual e com aspectos da moda, de acordo com a atualidade, num ambiente próprio. “Percebi que seria um mercado interessante. Então escrevi o projeto, analisei números, pesquisei a quantidade de alunos, conversei com os pais (e filhos também). Apresentei o projeto a uma grande escola da cidade. Surge então a Sasse Uniformes”, contou Cátia. Atualmente, várias escolas de Brasília vestem os uniformes da Sasse.  Funcionários que me- Gabriel e Cátia: aliaram história de amor com empreendedorismo ditam “A espiritualidade nos impulsionou, sem essa base, nada somos. Somos um espírito com um corpo e não um corpo com um espírito”, disse Cátia. “Colocamos a galera para meditar aqui na empresa”, emendou. Cátia mesmo ministrou um curso de meditação na empresa. “Convidamos todos de forma facultativa, a adesão foi surpreendentemente boa”, disse Gabriel. No ano passado, o casal começou o curso de “Formação Holística de Base”, na Universidade Internacional da Paz – UNIPAZ/DF, uma organização não-governamental, sem fins lucrativos. Esses estudos, que visam aliar a inteligência ao despertar da consciência, serão concluídos, em 2020.

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Paixão e doação a serviço de Brasília Farmacêutico e bioquímico. Pai e avô. Pesquisador, agricultor e criador de gado. Empreendedor, empresário, voluntário... Apaixonado por Brasília, Rogério Tokarski criou uma linda família e um enorme legado para o setor de farmácias magistrais no DF e no Brasil Por Natasha Dal Molin Se ser apaixonado pelo trabalho é receita de sucesso, o farmacêutico, bioquímico, produtor e empresário Rogerio Tokarski sabe de cor os ingredientes. Nascido em Santa Catarina, sua história mistura-se com a de Brasília, cidade em que educou as filhas e onde fundou, em 1976, ao lado da esposa, a farmacêutica Romelita Milagres Tokarski, a primeira farmácia magistral do Distrito Federal e uma das pioneiras no país: a Farmacotécnica, no Centro Médico de Brasília. Mais de quatro décadas depois, a empresa é líder e referência nacional em manipulação, emprega cerca de 200 pessoas e tem como marcas registradas a qualidade, a precisão, a inovação, o cuidado com a saúde e o atendimento ao brasiliense. Inspirando todos que convivem com ele família, amigos e colaboradores - Tokarski, formou uma equipe dedicada, que leva a Farmacotécnica a estar sempre à frente de produtos e ações que fazem a diferença na vida dos brasileiros, como a utilização de hormônios bioidênticos de aplicação por via oral ou tópica; a criação de jujubas e pirulitos que facilitam a administração de medicamentos para Pediatria; o uso do Gel Transdérmico, um produto tópico que permite que o medicamento caia na corrente sanguínea, a linha hidratante RLMT2; a elaboração de veículos efervescentes mais saborosos e fáceis de ingerir e dos chocolates terapêuticos. “Mais que tratar os doentes da melhor forma possível, nosso maior objetivo é ajudar as pessoas a não adoecerem. Trabalhamos em busca de formulações que ajudem a prevenir as doenças e a melhorar a saúde de todos. Nada é chute. Tudo é fruto de muita pesquisa e estudo. Não podemos errar. Precisamos oferecer certeza”, diz. Com disposição e garra, Rogério Tokarski se envolve ativamente em empreitadas que possam contribuir para a melhoria de Brasília. Foi voluntário, conselheiro, secretário, vicepresidente e conselheiro federal no Conselho de Farmácia. Atua junto ao Sindicato do Comércio, da Federação do Comércio e da Federação da

Agricultura. Fundou a Associação Nacional dos Farmacêuticos de Manipulação (Anfarmag) com o objetivo de reunir e estimular pessoas a discutirem os mesmos assuntos. “Me orgulho muito de ter iniciado este movimento, que hoje soma mais de 7 mil associados. Lançamos a primeira revista do setor, em 1994, e conquistamos o respeito da indústria farmacêutica, pois conseguimos mostrar que fazemos aquilo que ela não faz: formulações personalizadas, que levam em conta aspectos como peso, medidas, sensibilidades ou intolerância; dosagens feitas de acordo com o prontuário médico, evitando desperdícios; e até manipulação de medicamentos órfãos, aqueles que não são mais produzidos”, enfatiza. Na sua avaliação, um dos grandes avanços do setor foi o surgimento dos genéricos. “O genérico rompeu com essa coisa da marca. É o mesmo princípio ativo do de referência, assim quebrou-se o monopólio e pudemos produzir o medicamento, feito com controle e garantia. Os insumos que nós utilizamos são os mesmos utilizados pelas grandes marcas, ou seja, são confiáveis e seguem um rigoroso protocolo para sua produção”, assegura.

Sem medir esforços Ser pioneiro em um setor é desbravar um novo caminho,encontrarproblemasebuscarporsoluções. Quando abriu a Farmacotécnica, Tokarski percebeu que toda a mão de obra que precisaria para manter sua empresa teria que vir de fora da capital federal, já que nos anos 70 ainda não havia curso de Farmácia na cidade. Sem medir esforços, desenvolveu uma campanha junto ao Conselho de Farmácia, Sindicato

Projeto Preservar: educação ambiental para preservação e o cultivo de fitoterápicos.

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Família Tokarski : Romy, Rogério, Romelita e Rogy. Parceria na vida e nos negócios.

e UnB para mostrar a necessidade de criar uma grade acadêmica específica para a formação destes novos profissionais. “Conseguimos convencer o colegiado e, em 1995, surgiu o curso de Farmácia na Universidade de Brasília. Hoje, a cidade possui 16 cursos nesta especialização. Apesar de termos tido alguns progressos, como a instituição da residência, ainda podemos melhorar muito nessa área, com a implantação de farmácias-escolas em cada faculdade. Isso tornaria o formando um profissional mais completo e preparado para o mercado de trabalho”, garante. Com um olhar crítico, Tokarski defende o incentivo maior às pesquisas e cobra mais interesse e dedicação dos novos farmacêuticos. “É preciso conhecer os princípios ativos. Não temos novos princípios ativos há anos e as patentes dos que já existem estão perdendo o prazo de validade. Temos carência científica na área farmacêutica e a atual geração pouco produz”, avalia. Em sua opinião, a Secretaria de Saúde poderia contribuir para mudar esse cenário, caso absorvesse esses farmacêuticos não apenas para ‘pegar e entregar caixinhas’, mas os colocasse para produzir remédios, como analgésicos e xaropes, por exemplo. “Isso reduziria

em muito o custo do medicamento e ao mesmo tempo aumentaria muito o capital intelectual dos farmacêuticos”, pondera o profissional.

Multi-tarefas Em busca constante de novidades relacionadas à saúde, Rogério Tokarski celebrou uma parceria com a Universidade de Brasília que atestou os benefícios do pequi para a saúde. Após 18 anos de pesquisa conjunta, comprovou-se que o óleo extraído dessa fruta típica do cerrado ajuda a proteger o coração, prevenindo a arteriosclerose e controlando pressão arterial. Além disso, o pequi ainda possui ação anti-inflamatória e retarda o envelhecimento celular. Tudo isso porque sua polpa contém antioxidantes naturais, provenientes de um complexo de carotenoides, ômega 9, ácido palmítico, compostos fenólicos, ácido graxos e vitaminas A, B1, B2, B5 e C. Uma descoberta tão importante que chegou a ser selecionada como uma das finalistas na categoria Produto Funcional mais inovador no Fi Innovation Awards, a principal premiação nacional da indústria de ingredientes e produtos alimentícios. Para estar entre os finalistas, um comitê técnico avaliou os inscritos com base na inovação, tecnologia utilizada na fabricação do produto e ingrediente, processo produtivo, impacto econômico, benefícios nutricionais e funcionais e sustentabilidade. As mudas dos pequis são cultivadas em um viveiro na Chácara da Farmacotécnica, localizada na região de Vargem Bonita. É lá também que acontece, há quase 20 anos, o Projeto Preservar - uma iniciativa de educação ambiental que tem como principal objetivo a preservação e o cultivo de fitoterápicos. O programa, destinado a alunos de escolas públicas e particulares (fundamental e médio), e estudantes universitários da área de Saúde, já mobilizou milhares de pessoas em visitas guiadas à chácara - todas interessadas em aprender sobre manejo, cultivo, colheita,

Dr Rogério Tokarski em diferentes épocas

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Foto Núbia Paula

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Dr Rogério Tokarski na sua Farmacotécnica.

armazenamento e transformação das plantas medicinais. “A eficácia dos fitoterápicos é aceita e preconizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Desde 1970, a OMS tem o Programa de Medicina Tradicional, que recomenda o desenvolvimento de políticas públicas para facilitar a integração da medicina tradicional e da medicina complementar como alternativa nos sistemas nacionais de saúde. Estamos contribuindo para isso”, ressalta Rogério. O projeto Preservar também é mais uma iniciativa da Farmacotécnica que está cotada para integrar o Programa Selo Social do Distrito Federal. Idealizado pelo Instituto Abaçaí, o certificado é um atestado que a empresa está empenhada em melhorar a qualidade de vida da população local.

Outras áreas Rogério Tokarski também faz parte de um seleto grupo de criadores do gado Wagyu no Brasil, uma raça milenar do Japão valorizada por oferecer uma carne extremamente macia, suculenta e saborosa. Aqui no país, é conhecida como “kobe beef” –uma referência à cidade japonesa de Kobe, de onde o gado se origina. “É um produto diferenciado. Por causa de uma característica genética, o músculo é entremeado por camadas de gordura, rica em ômega-3 e ômega-6. Vem sendo considerada pelos grandes chefs como o ‘caviar da carne bovina’ porque quando assada fica suculenta e possui uma maciez, consistência, aroma e sabor incomparáveis. No Haras Rancho Tokarski trabalhamos com melhoramento genético. Um gado perfeito em morfologia melhora a qualidade dos rebanhos e o seu valor comercial. Já formamos a campeã nacional da raça Wagyu.” Ex-presidente do Sindicato dos Criadores de Ovinos e Caprinos do Distrito Federal, Tokarski também se orgulha de seu plantel de carneiros e dos cavalos que cria. “O Distrito Federal possui animais de alto valor genético. Nosso haras, por exemplo, produziu o terceiro melhor cavalo do Brasil da raça árabe e obtivemos boas classificações em concursos

de carneiros. São produtos já consolidados no DF. O Brasil precisa de homens que produzem, e o Haras Rancho Tokarski está envolvido nesse desafio”, assegura.

Brasília, minha cidade Formado pela Faculdade de Farmácia no Paraná, Tokarski veio para a capital federal nos idos de 1974, atendendo à marcha para o Planalto Central. E gosta de dizer que cresceu junto com Brasília. Ao lado da mulher, edificou não apenas um legado, mas acima de tudo construiu uma família aqui. As filhas, Romy (33) e Rogy (31), seguiram os seus passos, se tornaram farmacêuticas e também trabalham a seu lado. Planos para o futuro existem muitos. “Nem penso em me aposentar. Isso tudo me dá é mais ânimo. Cheguei aqui em uma época em que Asa Norte ainda não era ligada à Asa Sul. Ouvia de alguns políticos que deveria voltar para o Rio de Janeiro. Mas acredito nessa cidade. Criei minha família aqui. Meus netos vão viver aqui. Então, temos que pensar que Brasília queremos para o futuro. Acredito também que a mudança de paradigmas no governo do DF venha trazer a ordem no campo, com a regulamentação das terras rurais e o desenvolvimento rural, como na Granja do Torto. Torço por uma Brasília que precisa ser acreditada e que necessita cada vez mais de administradores que pensem em nós, cidadãos, e não em si mesmos”, conclui Rogério Tokarski.

Uma das primeiras lojas da Farmacotécnica, Taguatinga Centro

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Serviço: Farmacotécnica Teleatendimento: 3245-7667


Brasília 59 anos Um sonho que se tornou concreto.

PaulOOctavio 44 anos O concreto que dá forma aos sonhos.

B

rasília é, desde sempre, a cidade de quem acredita. E foi acreditando em um grande futuro que a PaulOOctavio começou sua história em 1975. Desde então,

vem consolidando o sonho de JK com obras que dão cara e força à nossa cidade. São 52 mil imóveis entregues e 4 milhões de metros quadrados construídos que geraram milhares de empregos diretos, indiretos e terceirizados. Números tão grandiosos quanto o orgulho e a responsabilidade que a PaulOOctavio tem com Brasília. Quem acredita sabe: vivemos na capital onde os sonhos se transformam em realidade.

www.paulooctavio.com.br

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Alexandra da Silva: Transportadora escolar com espírito de mãe A mulher que leva muito mais que crianças e jovens à escola, mas aquela que transporta amor numa van escolar e que luta contra preconceitos Por Nayara Storquio

Quem tem a guarda de filhos sabe da batalha diária para ser um bom pai, uma boa mãe ou um bom exemplo na vida deles. A goiana Alexandra Mariano Rodrigues da Silva, hoje com 45 anos, conhece essa luta muito bem. Ela tornou o transporte escolar mais que uma profissão, um cuidado de mãe com filhos que não são só os seus. Em 1975, vindo para Brasília de Ipameri, no Goiás, quando tinha apenas 1 ano de idade, Alexandra foi morar no Setor Militar Urbano. Filha de militar ela viveu e cresceu numa época em que ir a escola a pé era parte do seu dia a dia. Rotina que hoje não condiz com o perfil de quase ninguém na capital federal. Ali, no coração da cidade, ela cresceu e se tornou mãe. Passou por todos os desafios de início de carreira ao tentar se inserir no mercado de trabalho inicialmente no setor privado. E até experimentou o serviço público, porém aquele não era seu destino profissional. Alexandra percebeu que o trabalho tradicional não garantia uma participação efetiva na vida dos filhos, que hoje são três. Sendo uma mulher amorosa, gentil e solícita, ela merecia mais tempo com eles e decidiu abrir seu próprio negócio. Transportadora Escolar. Por mais que mulheres no comando de empresas, ou atrás do volante, não fosse uma ideia muito popular, Alexandra foi inspirada por mulheres. Uma transportadora escolar que a motivou, ao revelar que a profissão lhe ofereceria benefícios únicos como mãe. E sua primeira van também é proveniente de uma motorista feminina. Em 2006, apesar de suas motivações, a aceitação popular não foi o que ela recebeu logo de cara. Amigos e conhecidos não acreditavam, e alguns ainda não acreditam, que essa seria a melhor forma para Alexandra ter sua vida profissional. Mas Alexandra não se abalou com nenhum preconceito e foi em frente. Moradora do Cruzeiro na época, seus primeiros alunos eram provenientes de bairros próximos: Sudoeste, Octogonal e Cruzeiro. De lá ela os levava e buscava no Colégio Militar de Brasília João paulo II e no Colégio Tiradentes, ambos no Setor Policial. Transporte esse que Alexandra realiza até hoje, mesmo tendo se mudado para Arniqueiras. Ela transporta trinta alunos que se dividem entre as mais diversas idades. Como o CMB oferece desde o Ensino Infantil até o Ensino Médio, Ale-

xandra tem alunos que vão dos 4 aos 18 anos.

“Nós somos como uma família” No início ela precisou vender seu carro e investir em cursos de especialização e na carteira de motorista tipo D. Investimento que ela já recuperou dois anos depois evidenciando o sucesso no que faz. Para ela esse sucesso tem motivo: O coração de mãe que guia a van escolar que ela dirige todos os dias. A maneira que a goiana fala de seus alunos emocionada não poderia ser confundido com outra motivação. Para ela seus alunos fazem parte da uma grande família. Prova disso é a maneira divertida com que gerencia o transporte escolar. A van de Alexandra não é apenas para levar crianças e jovens a escola. Representa muito mais. É lugar de amor, solidariedade e atenção dedicada a cada uma das vidas que ela carrega sobre suas rodas. Não muito tempo depois de começar a realizar o transporte escolar Alexandra decidiu mudar a maneira que os pequenos passavam por essa experiência. A forma escolhida para isso foi começar a fazer festinhas surpresa para os aniversários dos seus alunos. Com a autorização dos pais, a participação dos coleguinhas da escola e muita vontade de ver sorrisos, Alexandra enfeita sua van. No início com decorações, música, salgados, doces e refrigerante, e no final com emoção e alegria no rosto dos alunos que ela trata como filhos. As festas acontecem sempre na segurança do estacionamento do CMB, e duram cerca de uma hora. Período de atraso

Alexandra com seus alunos durante uma das festas de aniversário que ela promove na sua Van.

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CAPA do qual os pais dos alunos são previamente notificados para garantir tranquilidade. Até hoje Alexandra calcula que, em 12 anos, aproximadamente quinze comemorações já foram realizadas na van. “Sempre fui muito parceira dos pais” A participação dela na vida social, e pessoal, dos alunos vai além da realização de festas sobre rodas. Alexandra conhece seus alunos de perto. Sabe das dificuldades de cada um e das suas limitações. E, em parceria com os pais, ela realiza também um trabalho de apoio psicológico. Como ela os considera seus filhos, eles também a veem como exemplo maternal. Eles se abrem sobre seus problemas pessoais e contam com a opinião de Alexandra nos mais diversos assuntos. Foi construindo essa relação de amor e cumplicidade a caminho da escola que a motorista encontrou sua realização profissional. Hoje ela se considera mais que uma transportadora escolar. Seu trabalho inclui atuações de assistente social, enfermeira, advogada, conselheira, psicóloga, ou seja, de Mãe.

“Entrei com a cara e coragem, adorei, e amo o que faço até hoje” É ao ver seus alunos crescerem, se desenvolverem como pessoas, e alcançarem seus objetivos que Alexandra enxerga seu sucesso. Ela agradece a Deus ao lembrar que nunca se envolveu em acidentes de trânsito no trabalho. Todas as situações tensas que ela vivenciou na função foram pessoais e psicológicas. Onde ela precisou intervir em crises de adolescência, problemas familiares e até financeiros dos pais. Alexandra faz atividades extra escolares com seus alunos em dias de horário escolar reduzido. Os leva ao cinema, ou para lanchar, e faz passeios. Iniciativas que os pais gostariam de fazer e muitas vezes o trabalho deles não permite, já que a rotina de trabalho dificilmente segue o calendário escolar. Ela apoia pais e mães que passam por situações difíceis. Podendo resultar no afastamento do aluno da van por questões financeiras. Alexandra não deixa passar batido, e faz o que pode para contribuir. Dialoga e se dispõe a ajudar. Na medida do possível ela oferece transporte gratuito evitando que o aluno falte à escola até os pais regularizarem a situação. Pra ela essas atitudes entram no hall da solidariedade, o que ela realiza de coração aberto, pois se coloca no lugar de cada pai e cada mãe.

“Isso é Amor” Para realizar esse trabalho Alexandra precisa não só de profissionalismo, mas de muita dedicação. Ela ressalta que todos os dias merecem um momento de concentração, no qual ela veste sua melhor armadura de carinho, gentileza e sabedoria. Isso pra ela é amor. Ela se esforça pra reconhecer que cada um de seus alunos tem uma criação diferente, e uma personalidade única. Mesmo que muitas pessoas não reconhecem, Alexandra se considere uma formadora de opinião. Ela faz parte do desenvolvimento dessas crianças e adolescentes, e enaltece a necessidade de paz de espírito e discernimento ao realizar esse trabalho.

“Sou uma transportadora escolar de valores e princípios” Ela dirige todos dias experimentando situações que vão do preconceito ao respeito, no transito de Brasilia. Mesmo assim ela ve cidade como palco de uma população educada e organizada. Diferente dos demais lugares que já visitou, o que tem orgulho de si, do lugar onde vive e que não se imagina vivendo em outra cidade. O amor e a dedicação que Alexandra exerce no volante de uma van escolar lhe trouxeram tudo que ela sempre quis. É apaixonada pelo seu trabalho se sente realizada na cidade que a acolheu. Um sentimento que ela compartilha e multiplica, ao fazer diariamente o caminho da escola na sua van escolar usando o amor de mãe como combustível.

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Foco, determinação e velocidade são constantes na vida do piloto brasiliense Lucas Foresti Competindo pela Stock Car, ele voltou a morar na cidade e revela seus pontos preferidos, além da rotina puxada de treino, projetos, viagens e claro, muita corrida!

Desde cedo, e talvez na genética, Lucas Foresti, 27 anos, já carrega o gosto pela velocidade. Era ainda um menino, com 4 anos, quando começou a andar de moto. Tendo como ídolos Ayrton Senna, Lewis Hamilton e Nelson Piquet, daqui de Brasília, o filho do ex-campeão de enduro Victor Foresti, tem uma trajetória permeada de pistas, foco, treinamento e muita determinação. O pai, assim como o tio, Constantino Júnior, são os maiores incentivadores e sempre estão presentes nos momentos de vitória, nos desafios e decisões importantes. Na moto, seguiu até os 14 anos, quando um acidente resultou em uma clavícula quebrada e Lucas teve que ficar aproximadamente um ano longe das pistas. Após esse tempo, Lucas conseguiu convencer o pai, citando um kart do tio que estava parado no Kartódromo do Guará. Ele resolveu experimentar e o pai, vendo a paixão do filho aumentar, colocou uma condição: se continuasse tirando notas boas na escola, poderia seguir com o hobby. E assim foi, afinal, mesmo viajando muito e com uma rotina puxada de treinos e preparações, ele nunca reprovou. O segredo para ir bem nas aulas, mesmo não tendo tempo de sobra em casa? “Eu prestava bastante atenção nas aulas”, revela. O foco, assim como hoje, se mostrava importante e presente na vida do brasiliense.

Fórmula 3 Britânica Do Kart, Lucas foi para a Fórmula 3 Sul Americana, aonde chegou a ganhar uma corrida logo no primeiro ano. Depois disso, foi para a Europa, fazer Fórmula 3 Britânica. Morou na Europa por quatro anos, sendo três deles na Fórmula 3. Conseguiu sete pódios e três primeiros lugares. Daí, foi para a WSR 3.5, uma categoria que

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tem um carro bem forte, parecida com Fórmula 1. “Consegui largar bem na frente, perto de vários nomes que estão hoje na Fórmula 1”, recorda. A categoria principal do automobilismo foi uma certeza na cabeça do piloto, que passou um bom tempo lutando para tal. Nessa época, ele morava sozinho e os treinos eram intensos, às vezes três vezes por dia. “Tinha que estar fisicamente muito forte”, conta, relembrando que diariamente corria 40 minutos em jejum, depois malhava por meia hora. Ia e voltava pedalando para a equipe e ainda fazia box. “Fiz isso por quase dois ou três anos da minha vida. Foi prazeroso, é uma faculdade que ninguém nunca vai conseguir ter na vida”, diz, afirmando que o automobilismo não é uma carreira tradicional, que você faz uma faculdade e tem sucesso garantido. “Não tem uma forma para chegar num resultado certo”, avalia. Até que seus planos e os da cidade se aproximaram novamente... É que o piloto continuava, mesmo morando fora, vindo a Brasília para descansar e ver a família. Numa dessas viagens, no final de 2013, veio para descansar, quando foi convidado a participar de uma prova de Stock Car, em Goiânia. Ele lembra que faltava apenas uma semana e meia para a competição, mas não teve dificuldade em conseguir patrocínio e as coisas foram fluindo. “Deus ajudou. Acho que Deus queira que eu fique aqui. É muito bom correr em casa”, destaca. Ele tinha saído do apartamento que morava, em Londres, e tinha deixado seus pertences lá na O piloto Lucas Foresi com as miniatura dos seus carros.

Por Núbia Paula

Por Natasha Dal Molin


CAPA

É na pista que o piloto se sente bem

Inglaterra. Após a corrida em Brasília, três semanas depois, o chamaram de novo, desta vez em Interlagos. E daí surgiu uma vontade de permanecer no Brasil, e assim conseguiu conciliar a Stock Car com o curso da faculdade de Administração de Empresas, que já concluiu.

Disciplina Atualmente na Stock Car, Lucas Foresti pega pesado no simulador e na academia, onde treina

exercícios específicos que o ajudam a acelerar a 200 Km/h e fazer uma curva perfeita, ainda falando com o engenheiro no rádio. O enfoque maior é no fortalecimento dos ombros, braços e atividades de equilíbrio. Além do treinamento físico, Lucas conta com um coach que lhe passa exercícios mentais de visualização, mantras, meditação. Essas técnicas, incorporadas no repertório diário do atleta recentemente, já estão produzindo resultado: “Sinto-me mais focado”, garante. Focado, ele admite que para se destacar, é preciso muita dedicação. “Antigamente as pessoas não se profissionalizavam tanto. E hoje em dia o mundo está cada vez mais profissional, para se destacar, tem que dar o seu máximo”, diz. O atleta explica que são 12 finais de semana no ano de corrida, ou seja, o equivalente a 3 meses do ano são corrida. “O resto tudo é preparativo”, destaca. Normalmente ele tira apenas uns 15 dias de descanso em dezembro, quando diminui um pouco das tarefas da rotina completa. Regrado, Lucas gosta de dormir bastante, e o sono, aliás, é fundamental para o atleta, que vai para a cama por volta de 21h diariamente e dorme um total de umas oito ou nove horas. O automobilismo é um esporte caro. “Um jogo de pneu da Stock Car custa R$ 12 mil. Para competir por um ano, custa R$ 3 milhões”, exemplifica. Na Fórmula 1, o investimento é ainda maior, cerca de US$ 15 milhões por ano,

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segundo ele. Por isso, os patrocínios são tão importantes. Ele conta com as marcas CVC, Sikkens (AkzoNobel), Multi Proteção, Vale Shop Razer e Prettynew.

Tecnologia e redes sociais Além do próprio rendimento, o atleta gosta de acompanhar pessoalmente as ações de marketing e campanhas, que são elaboradas por um RP, de São Paulo, com quem fala até três vezes por dia, por Whatsapp e administra, ele próprio, as redes sociais. Lá (@pilotolucasforesti), posta sobre o dia-a-dia, a rotina como piloto, compartilha dicas e assuntos pessoais. Nas redes também tem sempre indicação para os fãs ajudarem os pilotos nas próximas corridas. Trata-se do Fan A dona do seu coração... Lucas Foresti e a namorada Luiza Vidal Push, um botãozinho de potência extra Lucas se mudou recentemente e a casa em para o mais votado, no dia da corrida. Para que mora no Lago Sul, à beira do Lago, tem um participar, é só ir no site da Stock Car (www. projeto arrojado e jovem, feita com a ajuda de stockcar.com.br), se cadastrar com o Facebook e uma amiga arquiteta: são oito containers pretos escolher o piloto favorito. O mais votado ganha e muitos objetos de decoração estilizados, como 100 cavalos adicionais de potência e abertura cadeiras em formato de rodas, capacetes, e total da borboleta por 16 segundos. Geralmente claro, muitos troféus. Lá, ele dorme, se exercita a votação tem início em um domingo anterior ao nos simuladores e tem uma área de escritório fim de semana da competição. e espécie de showroom para lançamentos As redes sociais, segundo ele, permitiram uma de carros, reuniões, coquetéis, e receber segmentação maior, mas também aproximou patrocinadores e amigos. Para esse ano, ele tem quem é apaixonado por automobilismo. “Há os como meta estar entre os Top 6 da categoria. canais especializados, as pessoas podem seguir e até se comunicar com seus ídolos, e há ainda os Brasília youtubers”, analisa. Apaixonado pelo calor da cidade e pelo Lago

Viagens

Como Brasília está sem Autódromo, Lucas tem como “casa de pista” Goiânia, onde corre duas ou três vezes por ano. Além de lá, as provas costumam ser em Curitiba, Porto Alegre ou São Paulo. Não ter um autódromo aqui é ruim para a cidade, para o esporte, e para todo o comércio, na visão do piloto. “Uma corrida movimentava milhões de hotel, alimentação”, analisa. Ele acredita que o atual governo, que já afirmou que quer que Brasília se torne um ícone, irá conseguir colocar o Autódromo novamente para funcionar. As competições são tradicionalmente nos fins de semana. Lucas chega geralmente na quinta-feira nas cidades de competição, para adaptação. Nas viagens, vai uma equipe de aproximadamente 20 pessoas: “Além da equipe do carro, vão os meus assessores, o assessor de imprensa, o Relações Públicas, fotógrafo e cameraman, meu pai e minha namorada, ela sempre acompanha”, relata.

Mudança 64 [61]

Paranoá, o jovem, nas horas vagas, gosta de praticar esportes, como pedalar ou encontrar os amigos para uma sessão de kitesurf. “Gosto muito de Brasília, minha cidade natal”, destaca. Lucas gosto das vias, que não têm trânsito. “No máximo você adiciona uns 20 minutos, não é aquela coisa de ficar parado”, pontua. Outro destaque positivo, na avaliação de Foresti, é a localização central da cidade, com voos internacionais diretos que permitem sair e em sete, oito horas, estar em outro país. “Isso é bem legal. E somos a capital do Brasil, todo mundo vem para cá alguma hora da vida para visitar ou trabalhar”, acrescenta. “Eu acho que Brasília tem tudo para se tornar um ícone do Brasil. É a capital, está no meio, é uma cidade nova. Não é impossível”, finaliza.


CAPA

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“Teatro Mandioca Frita”. Um picadeiro a céu aberto nas sombras das árvores do Parque da Cidade

Palhaço Mandioca Frita faz a alegria de Brasília Há 25 anos, ele provoca gargalhadas nos frequentadores do Parque Ana Lídia. Com talento e alegria, ele é a prova viva do poder que a cultura tem de transformar a vida das pessoas. A arte o tirou das ruas e lhe deu além da profissão, família, alegria e muita dignidade. Por Raquel Paternostro Julio Cesar Macedo nasceu na pequena cidade de Paraíba do Sul-RJ no dia 09 de novembro de 1965. Chegou em Brasília em 1990, e nunca mais quis ir embora. Ele tem uma história de vida linda, e soube tirar de suas dificuldades inspirações para o riso e a alegria. Sua relação com a cidade começou quando conheceu a Cia. Carroça de Mamulengos, um grupo multicultural fundado em Brasília por uma família de artistas talentosíssimos que viajam pelo Brasil levando a cultura popular de forma lúdica e inspiradora. Nossa entrevista aconteceu no seu “picadeiro a céu aberto”, entre as duas arquibancadas montadas no Parque Ana Lídia, no Parque da Cidade onde se apresenta quase todos os domingos há 25 anos. “Estas arquibancadas estavam aqui uma em cada canto, muito quebradas. Eu e um grupo de pais nos organizamos, consertamos o que estava quebrado e deixamos elas assim dispostas em baixo das árvores para dar sombra.” Conta o artista, que chama o lugar carinhosamente de “Teatro Mandioca Frita”.

A parte triste da história 66 [61]

Até os 05 anos de idade ele foi criado por tias e parentes, quando foi adotado pelo casal carioca Olinda Guimaraes Machado e Deomar Pádua Machado que moravam em Copacabana. Tudo transcorria com tranquilidade na sua vida, até que aos 13 anos seus pais adotivos passaram por uma grande dificuldade financeira, que os obrigou a mudar para uma pequena quitinete, onde a família sobrevivia vendendo quentinhas. Já um pouco mais velho, acabou sendo preso por pequenas contravenções. Quando saiu da prisão, seu irmão adotivo o impediu de voltar pra casa e ele se viu obrigado a morar nas ruas do Rio de Janeiro. “Foram 02 anos sem dormir, pois na rua a gente não descansa. Qualquer folha que caí a gente acorda assustado”, relembra.

Nasce o palhaço Mandioca Frita Na época em que Júlio conheceu o Carroça de Mamulengos, ele morava nas ruas do Rio de Janeiro. Ele ainda mantinha vínculo com sua mãe adotiva, mas só podia passar em casa para comer e tomar banho quando o irmão não estava. “Foi uma fase muito difícil, até que eu conheci o “Carroça” durante uma apresentação no Posto


CAPA 06, onde costumavam se apresentar, me senti acolhido, era como se eu tivesse sido adotado novamente”, revela. Como era um grupo familiar com 08 filhos, Julio fazia de tudo. Cozinhava, cuidava das crianças ajudava a montar os cenários, e aos poucos começou a entrar em cena. No início só vestido de boi, sem falas. Até que um dia Carlos Babal, o diretor da Companhia e pai das crianças resolveu que Júlio já estava preparado para ter seu próprio personagem. A estreia aconteceu num teatro no bairro das Laranjeiras na cidade do Rio de Janeiro. “Eu estava muito nervoso por entrar em cena, até que a Maria Gomide, filha do Carlos que na época tinha 04 anos me perguntou qual seria o nome do meu palhaço, e eu não soube responder. Daí Carlos me chama: agora com vocês, o palhaço Mandioca Frita!”, conta Julio enquanto varre o chão do seu picadeiro a céu aberto, rindo com a lembrança. O grupo de teatro, que morava todo junto num apartamento em Copacabana precisou se mudar para o apartamento do João Rezende - um professor de filosofia que morava em Ipanema. “Este professor me ajudou a resolver toda a burocracia da minha liberdade, preparou as declarações de trabalho e residência fixa. Sou muito agradecido a ele”, nos conta o palhaço Mandioca Frita. Uma das grandes alegrias da vida de Julio foi quando pode finalmente falar com a dona Olinda, sua mãe, que ele estava indo embora do Rio de Janeiro para ganhar a estrada com a companhia de teatro. “Quando eu falei com a minha mãe, que eu finalmente tinha uma profissão e iria viajar e viver da minha arte, ela sorriu e disse que finalmente poderia morrer tranquila pois eu estava encaminhado”, conta Mandioca emocionado.

Resgatando a própria identidade

Serviço: Palhaço Mandioca Frita Tel: (61) 985494600 raizdocirco@gmail.com www.instagram.com/truperaizdocirco

Foram anos de trabalho e viagem por todo o Brasil. Mas tinha um detalhe que ainda o incomodava, ele desconhecia a sentença de seu julgamento. Um dia a Cia Carroça de Mamulengos foi convidada para ir passar uma temporada em Montevidéu no Uruguai. Todavia, o Júlio não tinha documento de identidade emitido. Era necessário tirar documento dos filhos dos diretores da Companhia, que eram crianças e do próprio Julio. Mas e o medo de tirar o documento e descobrir que precisava voltar para a cadeia? Foram dias de muita tensão para Julio e toda a companhia de teatro... Até que chegou a hora de buscar sua carteira de identidade. “Foi uma

sensação maravilhosa pegar a minha identidade e saber que eu estava realmente livre”, descreve o artista que ainda acrescenta: “de bicho do mato, ganhei o mundo”!

A história em Brasília Após a Cia Carroça de Mamulengos rodar por vários cantos do Brasil, eles decidiram voltar para Brasília. No início se apresentavam na Torre de TV, onde além das rodas de apresentação faziam oficinas de perna de pau e brinquedos. Depois de algum tempo, fizeram uma parceria com o Jardim Botânico de Brasília e passaram a se apresentar por lá todos os domingos. “A exdiretora do Jardim Botânico, Ana Julia deixou a gente morar lá. Em contrapartida atendíamos a população nos finais de semana. Fazíamos a roda, oficina de pé de moleque e de brinquedos”. Recorda Mandioca Frita. Até que um dia, a Cia. Carroça de Mamulengos foi embora de Brasília. Mas a esta altura, Júlio já havia realizado o seu maior sonho: tinha formado a sua própria família! Desta vez, de sangue. E por aqui fincou suas raízes, ao lado de seus filhos que hoje também são artista e palhaços: Aipim (Davi), Macaxeira (Julia), Foli-foli (Luana) e agora até o pequeno João, que é neto do Mandioca Frita é o palhaço Beju. Juntos, eles formam a trupe Raiz do Circo. Além da família que constituiu, aqui no Planalto Central ele foi adotado pela terceira vez. Há 15 anos, faz parte do Grupo Artetude juntamente com os palhaços Chaubraubrau, Raquaquá e Espiga de Milho. “Eles me ajudam muito, inclusive financeiramente, com equipamentos e fazemos turnês juntos, é mais uma família que conquistei”, declara. No ano passado, o palhaço recebeu o premio “Fomento à Cultura Popular” realizado pelo Governo do Distrito Federal com troféu, e R$ 15 mil em dinheiro como reconhecimento ao seu trabalho em prol da cultura e talento. Mandioca Frita se apresenta aos domingos, geralmente às 10:30h no parque Ana Lídia, onde não é cobrado ingresso, mas é solicitada uma doação espontânea, após o show ele realiza a venda de brinquedos educativos fabricados por sua família. O espetáculo é muito divertido, e “arranca” boas gargalhadas do público presente. Além dos shows “na rua”, Mandioca Frita faz apresentações em festivais por todo o Brasil, ele também anima eventos privados, como aniversários, festas de empresas, clubes, shoppings, etc. Tanto com shows, quanto com oficinas de brinquedos em apresentações individuais ou com a trupe Raiz de Circo ou com o Grupo Artetude. É alegria garantida para

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Malunga: maior mercado de orgânicos do Brasil, com mais de 3 mil produtos, inaugura quarta loja. Por Carolina Cascão

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Joe Valle


CAPA Quando começou, há três décadas, nem se sabia o que era um produto orgânico, livre de agrotóxicos, resultado de um plantio de amor à terra que respeitasse o solo, os lençóis freáticos e os rios. Orgulho brasiliense, a fazenda Malunga é referência nacional. Mas no princípio, enfrentou o preconceito e quase um atestado de insanidade seguido de um título de hippie aventureiro. Se me perguntassem de onde vem a Fazenda Malunga, eu diria que a origem é de uma couveflor que não deu certo. Vou explicar: era uma vez um jovem engenheiro florestal, chamado Joe Valle, ainda estudante, que resolveu plantar couve-flor, em 1982, e depois vender, numa desastrosa experiência no Ceasa-DF (Centrais de Abastecimento do Distrito Federal). Logo em seguida, mais um episódio desestimulante na agricultura convencional, a intoxicação da terra por agrotóxicos. A partir daí, com a cara e a coragem, numa época em que nem se sonhava com a agricultura orgânica, nascia então o sistema de plantio não convencional, totalmente natural, a 70 km de Brasília, na Fazenda Malunga. A Malunga, referência nacional no mercado de orgânicos, que produz alimentos saudáveis sem agrotóxicos, adubos químicos ou hormônios, recém inaugurou a quarta unidade, com 220 m2, no setor Sudoeste, em Brasília. É o único, neste modelo de loja, no Brasil, segundo o proprietário, Joe Valle. A disposição das prateleiras, não muito altas, é visualmente equilibrada e permite uma visão estratégica de todo o mercado. Os corredores amplos evitam o congestionamento dos dois tipos de carrinhos de compras, o tradicional e o menor, específico para crianças. Os produtos estão expostos de maneira organizada e divididos em laticínios, congelados, frios, carnes, frutas e verduras, bebidas, pães e produtos de limpeza (que vende de pasta de dente orgânica a ração para pets). Feita as compras, o momento de pagar também é prático e rápido. Existem quatro caixas com funcionários e duas máquinas “autocaixas”, onde cada cliente registra a própria compra por meio de um leitor de código de barras, paga e embala. Em Brasília, este é o segundo estabelecimento a adotar esta iniciativa tecnológica. A Malunga disponibiliza mais de três mil produtos e três certificados de qualidade, além de oferecer ideais condições de trabalho para 182 funcionários na fazenda, mais 32 distribuídos dentre as quatro lojas. Além da recém-inaugurada, uma está localizada na quadra 315 norte e outras duas, em Águas Claras, no shopping Felicittá e no Mirante Plaza. Os produtos também podem ser encontrados em mais de 30 mercados do DF, pedidos por delivery e, em breve, comprados por

meio do e-commerce (mais uma novidade). A Malunga ajuda e valoriza os trabalhadores rurais. A prova disso são as placas dispostas, nos produtos, com o nome do produtor/fornecedor, a certificadora e o Estado do País. Embora a empresa valorize o produtor rural do Distrito Federal, é generosa também com outras cidades. “O produtor local tem uma seção só com os lançamentos”, disse Joe Valle. “Garantir a qualidade de vida das pessoas e ao mesmo tempo respeitar os ciclos da natureza fazem parte da cadeia produtiva”, explica Valle.

Produtos qualidade

diversificados

e

de

Fui atraída de primeira pelo aroma do manjericão. E pelo vermelho do seu vizinho, os lindos tomatinhos, dispostos em elegantes cestas de vimes, assim como as pêras. E assim, a frase estampada no Mercado Malunga, “Sinta-se em casa”, fez mesmo que eu me sentisse como tal. Logo depois, os tons em pink, branco e pontinhos pretos me atraíram para uma linda pitaya -, fruta antioxidante que retarda o envelhecimento (quem lê, vai achar que estou escrevendo sobre roupa). As frutas e verduras Malunga possuem 40% mais de antioxidantes -, o que reduz risco de câncer e de doenças do coração. As receitas ficam mais saborosas também. E, se gosta de compras, produtos diferentes, alimentação funcional, leve e natural irá sentir-se com 15 anos na Disney, neste mercado. Destaco também as folhas verdíssimas e o pepino snack -, uma fofura em dimensões bem “petit”, ideal para crianças. As folhas podem ser compradas também em versões já embaladas e higienizadas, prontas para a salada. Basta tirar do saco plástico e dispor numa linda saladeira. Gosto de um prato português para servir (pronto, falei!).

Café-da-manhã, almoço, lanche e jantar. Tudo orgânico. Praticidade é o que mais se precisa, hoje em dia, diante de rotinas tão preenchidas. Então, pode-se se sair do Malunga com compras que se desdobram em refeições completas -, ou seja, tudo se resolve em apenas um único lugar. Vinhos e cervejas orgânicas, biodinâmicos e naturais, podem acompanhar as massas e molhos tomates, também orgânicos, com leveza

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Além dos alimentos in natura o mercado possui uma grande variedade de vinhos orgânicos.

e autenticidade. Ou sanduíches, preparados com os frios e fatiados sem conservantes e sem lactose, oriundos de animais orgânicos que são alimentados da forma mais natural possível. Os sucos são bem diferentes também. Vi pelo menos uns seis tipos de sucos de uvas, além do de tomate e o de mirtilo (blueberry) que são mais diferentes. A chamada “bebida viva”, o kombuchá, também pode ser encontrado em algumas versões. O sabor de limão com gengibre é bem peculiar -, os de manga e de uva branca também parecem ser diferentes. Uma novidade é a Pasta Integral de amendoim e amêndoas, moídas na hora, sem aditivos químicos e corantes artificiais. É um produto rico em proteínas e sem açúcar.

A inclusão em forma de comida Os pães cultivados naturalmente, num processo de fermentação que leva entre 10 horas a cinco dias, com opções sem glúten também. Os produtos de laticínios são de puro leite da fazenda, livre de agrotóxicos. Mas existe a opção sem lactose e vegana nas prateleiras de leite. Um destaque ao creme orgânico de coco em pó que vem sendo muitíssimo utilizado em receitas

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veganas. As polpas das frutas, como também as frutas congeladas, são apenas uma das opções perto de tantos produtos orgânicos congelados, como legumes, vegetais, carnes, entre outros. Todos possuem exatamente a mesma composição nutricional que os frescos. “São iguais na composição de proteínas, carboidratos, gordura e também no composto de vitaminas e minerais”, disse Valle. A panqueca de carne congelada sem glúten parece ser boa alternativa, assim como o empadão de frango. Para os veganos, existe uma linha imensa, como o bobó de palmito pupunha e abobrinha, a feijoada, a lasanha de abóbora e berinjela. “A coxinha de jaca é uma delícia”, revela Joe Valle.

Carnes (proteína orgânica) e azeites diferentes A proteína orgânica é uma carne produzida a partir de um sistema produtivo ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável -, submetido por uma certificação que comprova a produção mais natural, isenta de resíduos químicos e que se preocupa com ambiente. “É


CAPA

Serviço: Mercado Malunga https://www.mercadomalunga.com.br/ Asa Norte CLN 315 - Bloco E - Comércio local Brasília – DF Telefone: (61) 3202-6003 Asa Sul CLS 105 Sul - Comércio local Brasília – DF Sudoeste CLSW 104 - Bloco A - Lote 19. Sudoeste - Brasília – DF Águas Claras – Shopping Felicittá Avenida Das Castanheiras - Lote 05 Águas Claras Telefone: (61) 3202-6003 Águas Claras – Mirante Plaza Avenida das Araucárias, Lote 885, Loja 13 Águas Claras

essa a ideia desde o princípio. Valorizar o tema sustentabilidade por meio de uma sociedade colaborativa que leva em consideração os pilares econômicos, sociais e ambientais”, afirma Valle. Todos os azeites disponíveis têm baixa acidez e são ricos em vitamina E e ácidos graxos -, fato este que favorece a mineralização óssea. Além de combater o envelhecimento dos tecidos e órgãos em geral, contribui para o bom funcionamento da vesícula e do aparelho digestivo, e prevenir doenças cardiovasculares.

“Manter o qualidade”

planeta

vivo

com

Palavras de Joe Valle, pai e precursor da agricultura orgânica no Distrito Federal, que teve como “mestre” (palavras dele também), Yoshio Suzuki, um dos pioneiros do segmento no Brasil, que o ajudou a criar o sistema na Fazenda Malunga. Valle o procurou em São Paulo, após as experiências pouco animadoras com a agricultura tradicional. A partir daí, Valle motivado com uma nova perspectiva, começou a produzir produtos orgânicos, na Fazenda Malunga, e em parceria com alguns colegas da Universidade de Brasília, começou a vender esses “frutos” numa feira na UnB e na quadra 306 sul. Era o começo do sonho. Em ao lado de outros produtores, criou-se a Associação de Agricultura Ecológica (AGE).

Educação ambiental em visitas guiadas na fazenda A cada 15 dias, sempre aos sábados, quem quiser visitar a fazenda e almoçar com Joe Valle, basta agendar visitação diretamente nas lojas. Os grupos são formados por no máximo 30 pessoas. Os princípios da Malunga faz jus à palavra, que no dialeto africano significa companheiro/ irmão -, assim como os escravos se designavam reciprocamente quando partiam em navios, no mesmo ou em outro sentido. Outro significado, reunião em torno de algo bom. Ensinamentos do pai José, ainda lá em Caicó, no Rio Grande do Norte, onde Joe nasceu em 02/09/1964. “Assim, a palavra malunga nos prova e lembra que somos todos iguais na preservação da vida e do meio ambiente”, afirma Valle. Joe Valle é casado com Clevane Ribeiro, desde 1995 -, ela, como engenheira agrônoma, foi fundamental em todo o processo e profissionalização da empresa. Desta união, Mariana, 20 anos, faz faculdade de Administração de Empresas e, Maria Luiza, 16 anos, traça planos como veterinária. “Ninguém acreditava que a agricultura orgânica seria possível. Fui chamado de maluco por um tempo”, relembra Valle. Logo no início, na época das feiras, tinha até “briga” por um maço de cenouras. Quem diria que a couve-flor daria tanta sorte para cenouras...

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Nilton Novato e alguns registros de sua trajetória de torcedor.

Nilton Novato, um botafoguense nato! À frente do Só Drinks, conhecido como bar do Botafogo há quase 40 anos, ele criou o 1º bar com a temática de futebol de Brasília. Agora em novo endereço, na CLN 203. O bar conta com um espaço mais amplo e aconchegante para quem gosta da assistir uma boa partida de futebol com cerveja gelada e petiscos típicos de boteco. Por Raquel Paternostro Seu nome é uma homenagem a Nilton Santos, um grande craque alvinegro da década de 50 e 60 que foi eleito pela FIFA como o melhor lateral esquerda de todos os tempos, o jogador só vestiu duas camisas na sua carreira a do Botafogo e da Seleção Brasileira. Nilton Novato é goiano da pequena cidade de Nova América. Ele veio para Capital aos 15 anos para trabalhar numa drogaria, ramo de atividade que seu pai já exercia em Goiás. E que ele ainda mantém paralelo ao bar, com a Drogaria Renata, agora instalada na comercial da 402 Norte. O novo Só Drinks fica virado para a quadra residencial, na 203 Norte em frente há uma grande área verde. A infraestrutura está mais moderna e possibilita aos frequentadores assistirem até quatro partidas diferentes do mesmo campeonato. ”Além dos campeonatos atuais, também transmitimos jogos antigos”, destaca Nilton. A cerveja é sempre gelada, e os petiscos são atrações à parte. O famoso Bar do Botafogo começou com uma TV de 14 polegadas. E sempre foi frequentado por torcedores de outros times. “Nós transmitimos vários jogos de praticamente todos os campeonatos. Os torcedores gostam de frequentar o Só Drinks também em partidas de outros clubes”, destaca Nilton que ressalva que a preferencia é sempre dos jogos do alvinegro. A clientela do bar é bem diversificada e mui-

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tos famosos já foram ao Só Drinks para assistir jogos, torcer e conversar como, por exemplo, Stepan Nercessian, José Eduardo Dutra, César Maia e Rodrigo Rollenberg. Nilton também já recebeu por lá muitos atletas que já passaram pelo Botafogo: Nilton Santos, Marinho Chagas, Wilson Gottardo, Túlio e o lendário Sócrates. “A história do Sócrates é muito boa. Eu o conheci durante a Copa do Mundo de 98. Encontrei com ele em plena Champs-Élysées em Paris e conversamos um pouco. Contei que tinha conhecido seus irmãos e falei do meu bar dedicado ao Botafogo em Brasília. Em um domingo, que não me recordo exatamente a data, cheguei para abrir o bar e o Sócrátes estava me esperando dentro de um carro na porta do bar. Foi uma alegria! Pouco tempo depois, infelizmente ele faleceu”, relembra Nilton. Um dos atletas mais influentes do futebol brasileiro tinha vindo à Brasília para a comemoração de aniversário do saudoso poeta e empresário da noite, Jorge Ferreira. Quase um pioneiro. Tanto o Bar Só Drinks quanto a Drogaria Renata, já existiam antes de Nilton adquiri-los. Ambos foram abertos em 1976. “Foi uma questão de oportunidade, já que as duas lojas ficavam uma ao lado da outra, na 403 Norte facilitando a administração”, explicou.


CAPA

Serviço Só Drinks Botafogo CLN 203 bloco C loja 59 - Asa Norte Telefones: (61) 30376613 / 985666613 Drogaria Renata CLN 402 Bloco B Loja 13 - Asa Norte Telefone: (61)33266613 / 985731436

A Drogaria Renata foi adquirida em 1979 e o Só Drinks em 1982. O fato de ser dono de boteco e farmácia, gera muitas brincadeiras no dia a dia do comerciante. Muita gente fala que Nilton adoece os clientes no bar e cura na drogaria. Mas ele tem outra visão: “tem coisa que a gente só cura no bar, como as mágoas, por exemplo!” Se defende. Nilton relembra do tempo em que começou a empreender aqui na Capital. “Às vezes eu me pego pensando que não sou pioneiro, mas quando eu cheguei aqui a cidade tinha apenas 10 anos. E como eu vim do interior eu já sentia Brasília como uma cidade grande”. Segundo Nilton a comercial da 402 norte ainda não existia, era só cerrado e “as vezes dava uns redemoinhos que ele tinha que fechar a porta do comércio correndo para não sujar tudo de terra vermelha”, relata o alvinegro. O comerciante não esconde o carinho que ele tem pela cidade. ”Brasília é hoje uma grande metrópole. Somos privilegiados, principalmente aqui no Plano Piloto, chegamos no mesmo nível das melhores cidades do mundo”, conclui Nilton. Frequentador internacional de Estádios de Futebol Nilton não mede esforços para assistir pessoalmente seus ídolos. Tanto que além de partidas do Botafogo, já participou de duas Copas do Mundo. “Eu estava no Rio em 89 e vi de perto o gol do Mauricio em cima do Flamengo. Em 1990, eu estava no estádio na conquista do bicampeonato em cima do Vasco com Gol de Carlos Alberto Dias”, narra com emoção. Como todo bom torcedor, ele é um grande entusiasta das competições mundiais de futebol. Ele já viajou para assistir in loco duas Copas. A de 1994 nos Estados Unidos e a 1998 na França. “Participar de uma Copa do Mundo é sempre uma grande emoção, mas é uma maratona. Na minha primeira Copa, eu ia ao máximo de treinos de todos os times que eu conseguisse. Levava a bandeira do Botafogo sempre comigo. Já na segunda, eu fui mais esperto, ao invés de ficar indo para um monte de treino eu aproveitei o tempo para fazer turismo pela Europa, e conheci várias cidades fantásticas”, destaca. Durante suas viagens para as competições, Nil-

ton conheceu pessoalmente vários jogadores profissionais de diferentes gerações, e grandes nomes da história do futebol. “Na Copa de 94, tirei fotos com Bebeto, Márcio Santos, Dunga e Raí. Tenho fotos também com Sócrates, Galvão Bueno, Gerson, Telê Santana, Luciano do Valle, Jairzinho, Marinho Chagas e outros que não me recordo agora.” Um solteiro dedicado à família. Nilton é muito dedicado à sua família. Assim que conseguiu, trouxe os seus pais Valquides Novato Pessoa e Irani Fernandes Pessoa para Brasília. O pai inclusive o ajudava nos negócios. Por longos anos o Sr. Valquides cuidou da extinta Drogaria Nova América, que também pertencia à Nilton, e era localizada onde atualmente encontra-se a Drogaria Renata, na 402 Norte. Nilton é pai de Bárbara Novato de 24 anos, que também torce pelo Botafogo e se formou em direito. Ele preserva a filha da desgastante rotina de quem vive do comércio. “Eu tenho medo dela gostar! É muito trabalhoso, se não se dedicar muito é melhor desistir.” Disse, apontando para os remédios ao seu redor, já que estávamos dentro da drogaria: “não teve um dia de minha vida que não lidei com isso”. Fazendo analogia aos tempos em que ainda criança, frequentava o comércio do seu pai em Nova América - GO. Apesar do trabalho que seus empreendimentos lhe proporcionam, Nilton gosta de ser comerciante. Quando eu pergunto sobre como ele encara a mudança no comércio, com o crescimento de grandes redes de bares e drogarias, ele nos conta que mantém seus clientes graças à confiança que conquistou ao longo destes anos. Enquanto cidadão, ele também busca valorizar os comerciantes locais por confiar mais em pequenos comércios. Sendo também uma forma de celebrar as famílias empreendedoras e a comunidade. Seja na Drogaria Renata ou no bar Só Drinks Botafogo, Nilton e sua equipe tratam os clientes com respeito e atendimento personalizado. Características ainda típicas de Brasília, que mesmo sendo a capital preserva a tradição de cordialidade das pequenas cidades.

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Ennius Muniz com os filhos Marcus Vinícius e Adriana.

Do concreto e dos peões para os perfumes e às mulheres Quem imaginaria alguma relação entre os canteiros de obras de um lado e o comércio dos mais sofisticados perfumes de outro? Por Samantha Fukuyoshi Quem imaginaria alguma relação entre os canteiros de obras de um lado e por outro a venda do que há de mais premmium em perfumes? Ainda nos anos 80, um visionário que já empreendia no mercado da construção civil, resolveu trazer para a jovem capital Brasília (que há época tinha pouco mais de 20 anos) um leque de opções com o que existe de mais fino no mundo da perfumaria internacional. “Eu comecei a empreender na Construção Civil, sai do concreto e de lidar com os ‘peões’ de obra para lidar com perfumes e mulheres”, explica se referindo ao apelido como são chamados os trabalhadores da construção civil e ao fato que um dos maiores públicos-alvos de perfumaria ser formado por mulheres. Assim pela capacidade visionária de Ennius Muniz nasceu e se expandiu a Lord Perfumaria. O negócio deu certo e atualmente conta com 8 lojas próprias por Brasília e 21 franquias da marca no Distrito Federal, Formosa e Valparaíso de Goiás e um catálogo de mais de 200 marcas com os principais players da perfumaria internacional. “Naquela época, eu decidi diversificar, pois o mercado de construção civil quando passa por crises é muito sazonal, às vendas se estatizam. Percebi que quem estava no varejo estava com menos problemas do que na construção civil e enxerguei que era hora de arriscar outros segmentos”, explicou.

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O início Ele conta que acreditou no discurso do então ministro do Planejamento da época, Delfim Netto que vinha acompanhado de um otimismo pelo crescente desenvolvimento da economia. A fala do ministro e o período ficaram conhecidos como o milagre econômico (1964-1985). “Eu acreditei em todo aquele discurso que o Delfim falava sobre diversificação. Nesta época, comprei a Lord, Posto de Gasolina, Fábrica de Cerâmica, Salão de Beleza, Boate”, detalha. Ennius. ampliou bastante os segmentos, mas o mundo caminhava para a especialização dos negócios. “Eu não era especialista em tudo isso, mas sim um empreendedor que conhecia o mundo dos negócios” Enniuscontaquealgunsdosempreendimentos não prosperaram como o esperado, outros por sua vez resistiram a todos os intemperes do comércio. Apesar de tudo, ele diz que buscou em sua vida como empresário sempre uma postura digna. “Em todos os segmentos que atuei, eu entrei e sai pela porta da frente. Honrando os meus compromissos com os meus colaboradores e parceiros”, explica. Então, ele enxergou a oportunidade com um amigo que tinha a marca Lord Barbearia em Goiânia. Ennius comprou a marca já com quatro lojas em Brasília no Plano Piloto, sendo duas na Asa Sul (305 Sul, 105 Sul), uma na Asa Norte (302 Norte) e uma no Shopping Conjunto

Foto Nubia Paula


CAPA Ennius nascerá em Belo Horizonte (MG) e seguiu para Brasília aos 13 anos de idade em 1961 – um ano após a inauguração da capital. Quando chegou a capital, a família se instalou na antiga Cidade Livre (atual Núcleo Bandeirante). “A construção do Plano Piloto foi indescritível. Tudo era construído em uma velocidade impressionante. Eu vi a W3 ser asfaltada”, relembra citando uma das principais vias de Brasília.

Negócio familiar

Adriana Muniz durante evento da Lord Perfumaria.

Nacional. Assim de barba, cabelo e bigode, o empreendedor transformou a marca Lord em venda de perfumes de primeira linha como Dior, Givenchy, Dolce&Gabbana. O segmento de perfumaria seletiva era um caminho a ser desbravado no País. Nos anos 80, o Brasil passava por uma grande transformação com o início do movimento Diretas Já - um desejo do povo para a eleição direta de seus representantes e também o fim da Ditadura Militar. No mundo, as grandes marcas já mostravam a que vieram apresentando fragrâncias e conceitos em perfumaria. O povo brasileiro é visto pelo mundo como um dos principais mercados de perfumes, por serem exigentes, considerarem o uso de perfumes e cosméticos artigos essenciais e não supérfluos. Segundo projeção da pesquisa Euromonitor Internacional, a indústria de perfumes movimenta cerca de R$10,5 bilhões de dólares por ano.

Brasília dos anos 80 aos dias atuais O país e Brasília dos anos 80 eram um cenário de grande efervescência cultural. Na capital surgiram bandas como Plebe Rude, Legião Urbana, Capital Inicial. De acordo com o Censo Demográfico, a população da época era de 1,17 milhão de habitantes, sendo que 603.211 formado por mulheres e 573.724 homens. Hoje a população brasilense supera a marca dos 3 milhões e com expectativas de crescimento. A história de vida de Ennius Muniz e sua família se confunde com a própria inauguração de Brasília. Assim como várias pessoas, os pais de Ennius: Francisco e Wanda Muniz decidiram se mudar para a nova capital, acreditando no ideal de Juscelino Kubitschek.

A arquitetura moderna do urbanismo proposto por Lucio Costa, as curvas dos edifícios projetados por Oscar Niemeyer foram a inspiração para o então jovem Ennius ingressar na faculdade de Arquitetura na Universidade de Brasília (UnB). Em Brasília, Ennius se casou e constitui família, do primeiro casamento nasceu a filha Adriana Karina, já do segundo Marcus Vinícius. Os filhos desde pequenos vivenciaram o dia a dia dos negócios. Nascida em Brasília, Adriana lembra que aos 9 anos o pai comprou a Lord e sua infância desde então foi entre fragrâncias, cursos profissionalizantes, salões de beleza e cosméticos. “Aos sábados, toda a nossa família tinha o hábito de passar o dia trabalhando na loja do Conjunto Nacional. Na época, a minha mãe tomava a frente dos pontos que tinham salão de beleza”, revive. Os pais deram aquele empurrãozinho para incentivar a filha a fazer os mestmos cursos que os profissionais das lojas faziam. “O meu pai queria que eu entendesse o negócio e começasse a trabalhar. A partir dos 9 anos, eu comecei a vivenciar o universo do varejo de perfumaria”. Nas lojas, ela começou na parte operacional, já trabalhou como empacotadora, caixa e diversas funções. “Todos os cursos que os profissionais de beleza faziam, eu também tinha que fazer: manicure, depilação, cabelo, tintura, corte, técnicas de venda, de gerência”, relembra. Com o passar dos anos, Adriana queria ganhar seu próprio dinheiro. Quando a jovem fez 15 anos, almejava em ter uma renda. “Até então, eu só trabalhava aos sábados, pois estava na escola. Então, a diretora Lúcia do colégio Fênix em que eu estudava me convidou para trabalhar no contraturno das minhas aulas”. Ela foi professora de inglês para alunos da Préescola a 4ª série. “Eu gostei da experiência, me deslumbrei com essa história de ganhar dinheiro, mas quem não gostou muito foi o meu pai”. Adriana conta que Ennius pediu para que a filha saísse do emprego e se dedicasse a empresa da família. “Ele disse se você quer trabalhar, então trabalhe para as empresas da família”, conta. “Como eu estudava de manhã, comecei

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Ennius Muniz com os filhos Marcus Vinícius e Adriana.

a trabalhar só a tarde no escritório. A moeda da época ainda era o Cruzeiro, ele me pagava só o proporcional pelo período, mas caso eu não pudesse ir, ele cortava o meu vale transporte do dia como o de qualquer outro funcionário que faltasse ao trabalho. Ele dizia que tínhamos que dar exemplo para os demais colaboradores.” Para ela, a experiência de trabalhar tão cedo, de se dedicar foi a salvação da sua vida. “Quanto mais você se dedica, mais você é recompensando por isso”, explica. Aos poucos, Adriana foi galgando experiência na empresa da família, passou pelos cargos de supervisora de todas as lojas, implementou o sistema de código dos produtos no período em que as empresas modernizavam sua gestão e estoque. Ela se formou em Administração pela Universidade Católica de Brasília (UCB), fez especialização em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) nos anos 2000. Por mérito e muita dedicação, hoje ocupa a diretora comercial da marca, além de ser mãe de três filhos: Leonardo (26 anos), Lucas (25 anos), Luís Eduardo (18 anos). Seguindo os passos do pai, o segundo filho de Adriana também passou pelo estágio na área Financeira, hoje trabalha na Ancham. Atualmente, o caçula trabalha no escritório das empresas como menor aprendiz. “Até pela minha criação, eu quis que os meus filhos também atuassem na empresa. Uma forma de ensinar os meus filhos a fazer valer o meu esforço, a ensinar o porquê não pode desperdiçar, o porquê precisa economizar energia elétrica”, explica Adriana. O irmão mais novo de Adriana, Marcus Vinícius também começou a trabalhar cedo nas empresas da família. “Há famílias que têm em sua

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essência a Medicina, outros a Advocacia. O nosso DNA é ser uma família empreendedora. As minhas referências desde a infância é deste caminho, eu cresci aqui dentro”, diz. Aos 12 anos, ele atuava na parte de Almoxarifado, gerente de estoque nas lojas Lord. Ao terminar o colégio, o jovem passou no vestibular para Engenharia Civil na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Ao retornar a Brasília, entrou no grupo de empresas - formado pela Lord, Conbral, Locatec -para substituir uma funcionária que teve problemas de saúde. “Eu vim ser um substituto provisório, pois a diretora financeira à época a Sandra ficou impossibilitada. Ela não pode retornar às suas atividades e eu acabei assumindo a posição”. Em 1999, Marcus fez especialização em Gestão de Negócios pela IBMEC e 2006 concluiu o estudo em Gestão Imobiliária, Contabilidade e Gestão de Recursos. O estudo, a dedicação e o mérito o mantiveram no cargo de 2001 até hoje. A sensação de pertencimento extrapola os laços de sangue e se estende aos mais de 1,5 mil colaboradores entre empregados na Lord, da Conbral e demais negócios da família.

Belezas de Brasília Os irmãos são enfáticos ao ressaltarem os predicados de Brasília. “Eu gosto de Brasília, porque aqui é uma cidade adequada. Eu não poderia ter nascido em outro lugar, gosto e me sinto em casa aqui”, reitera Adriana. Segundo a diretora comercial, o ponto que mais admira na metrópole é o céu de Brasília. Com a sua imensidão clara que deslumbra muitos visitantes, a temperatura amena que fica em média entre 18º e 28º, clima que mantém uma

Serviço: Lord Perfumaria Instagram:

Instagram: @lordperfumaria Sac: (61) 3963-2380 Conbral: Central de Vendas: (61)3772-2222


CAPA constante. “Aqui existem dois períodos bem definidos, 6 meses de seca e outros 6 são de chuva” Outro ponto que a atrai é o fato de apesar de ser uma grande cidade, o trânsito não é tão caótico quando comparado ao de outras capitais do País. Quando alguém fala que é complicado entender os endereços ou se deslocar, ela defende, “eu adoro desenhar o mapa de Brasília. Não há nada de complicado, é uma cidade que segue uma lógica, é organizada por números, quadras.”. Por sua vez, Marcus ressalta o caráter cosmopolita da cidade. “Aqui você encontra com pessoas de todo o Brasil, as embaixadas ficam aqui. No tempo em que eu estudava, por exemplo, era comum ver estrangeiros na minha escola”. Ele conta que à primeira vista para os que não moram aqui, a cidade pode parecer difícil de se adaptar, existe uma frieza no trato entre as pessoas. “Acredito que seja só uma impressão inicial, aos poucos, após se quebrar o gelo, as pessoas se aproximam”.

A resiliência perfumada há 40 anos Mas quem pensa que tudo são flores e fragrâncias no caminho da família Muniz se engana. Há interferências externas que impedem um crescimento e a popularização dos produtos comercializados pela marca, e apesar de fatores positivos como mercado consumidor e a população brasileira figurando entre as cincos maiores consumidoras de perfumes. “Existem dois limitadores artificiais para que o mercado de perfume seletivo se expanda como tem potencial. São eles: os impostos que encarecem os produtos para o consumidor final e a renda média baixa do trabalhador brasileiro”, garante o patriarca Ennius. Ele compara a experiência de outros países. “Lá no exterior, um bom perfume custa em média 5% do salário. Aqui, o mesmo produto representa 50% a 100% do salário do trabalhador”. E para o empresário, os produtos que são produzidos não concorrem com os feitos aqui. “Muitos não conseguem importar matéria-prima para produzir bons perfumes”. Ainda com as dificuldades, a marca Lord se encontra entre as 10 maiores empresas voltadas para a perfumaria seletiva e é a mais antiga empresa do ramo em funcionamento do Brasil. Em um dos momentos de crise, o pai visionário em sua essência, resolveu que era a hora da filha Adriana se unir a outros empresários do setor. “Seguindo o conselho do pai e pensando no futuro do negócio, ela se uniu mais 8 empresas e fundou a Associação Brasileira de Perfumaria Seletiva (ABPS). Eu contatei 20, mas por medo de represálias de fornecedores, apenas 8 decidiram entrar. Fui presidente da ABPS e juntos pensamos em formas de alavancar os nossos negócios, trazer melhorias para o setor”, ressalta. Para os filhos e para outros empreendedores, o exemplo de Ennius serve de inspiração. Com o esforço e dedicação, hoje o negócio segue de Brasília para outras cidades. “A ideia é vender a Lord como um modelo de franquia, pois é um negócio que temos expertise e já o peso da marca para transmitir para futuros empreendedores”, ressalta o visionário.

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Jorge de Oliveira Bezerra equilibra tradição e modernidade na gestão da Barbearia do Onofre

Jorge Bezerra em frente a loja da W3 Norte

É impossível passar pela W3 Norte sem perceber a imponente Barbearia do Onofre na quadra 709. Tanto pelo tamanho, já que ocupa 120 metros quadrados, quanto pelo “exército” de profissionais impecavelmente uniformizados e também pelo charme de sua decoração retrô. Por Raquel Paternostro A Barbearia do Onofre é a primeira barbearia da Asa Norte. A história do seu proprietário, Jorge de Oliveira Bezerra se mistura à do empreendimento. Ele literalmente cresceu no comércio, e também fez a empresa crescer. Desde 1971 ela faz parte do cenário da W3 Norte. Em 2013, foi aberta a filial de Águas Claras. Com 46 anos, o empreendedor conta com a ajuda de seu filho, João Victor Miranda de 21 anos na parte tecnológica e de redes sociais. A primeira loja regulamentada ficava na 703 Norte. Mas sua história começou em 1969, quando Onofre Bezerra da Silva e Domelice de Oliveira Bezerra se casaram no dia 06 de janeiro e vieram no dia seguinte, de pau de arara, de Cajazeiras na Paraíba: “Meu pai veio com o pente, a tesoura e a mala.” Nos conta Jorge com orgulho. Os pais dele moraram na casa de um primo de sua mãe, até conseguirem se estabelecer. A entrevista fluiu de forma leve e descontraída num banco de praça, na porta da barbearia da W3 Norte. Onde foi possível constatar o grande talento que ele tem para lidar com o público. Por várias vezes, clientes se aproximavam e faziam questão de cumprimenta-lo e trocar uma conversa amistosa. Jorge é formado em administração, e apaixonado pela área de recursos humanos. Tanto, que está em seus planos fazer uma especialização em gestão de pessoas. Também pudera, ele conta com 21 colaboradores na loja da Asa Norte, e 10 na filial de Águas Claras. “Eu lido com gente o tempo todo, e gosto disso! Fico motivado em criar os postos de trabalho e melhorar a auto esti-

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ma dos meus clientes”, relata empolgado. Filho único, ele é Brasiliense nascido no Hospital Santa Helena. Seu nome foi escolhido por devoção de sua mãe, Dona Domelice à São Jorge. Como bom ariano, é precoce desde que nasceu: prematuro de 07 meses surpreendeu os médicos ao sobreviver. Como Jorge mesmo diz, ele praticamente nasceu dentro dos comércios dos pais. “A loja da 703 Norte era dividida no meio. Metade era o atelier de costura da minha mãe, a outra metade a barbearia do meu pai. O caixa era dividido entre os dois empreendimentos. Tinha uma mesa onde eu fazia minhas lições de casa. Desde os 08 anos já trabalhava, recebendo pagamentos, ajudando na limpeza e outras atividades do cotidiano”, narra. Aos 14 anos, quando os pais viajavam de férias, ele administrava a barbearia sozinho por 20 dias “naquela época não tinha celular, eu resolvia os problemas pela minha intuição e com o apoio da equipe”, relembra de forma saudosa. Jorge é casado com a produtora cultural Karina Miranda desde 1996. Desta união nasceram Victoria Miranda, de 22 anos que é antropóloga e João Victor Miranda de 21 anos, que estuda Engenharia Florestal na UNB e cuida das redes sociais e questões tecnológicas dos salões. Recentemente a esposa também tem contribuído na administração do negócio da família. O destino do casal, foi traçado muito antes dos dois se conhecerem: quando ainda namoravam eles descobriram que a mãe do Jorge, Domelice havia bordado o macacão preferido da Klebis Miranda,


CAPA mãe da Karina. Este tipo de encontro de diferentes gerações faz parte tanto da história do Jorge quanto da Barbearia do Onofre. “Já estamos na terceira geração na gestão da barbearia, temos vários profissionais que são parentes entre eles: tio e sobrinho, pai e filho e também irmãos. Quando a gente fala sobre os clientes, já estamos na quarta geração. Atendemos os avôs que foram os pioneiros em Brasília, seus filhos, netos e até bisnetos.” Revela nosso entrevistado. O lugar já foi cenário de muita história interessante, que não pode ser publicado assim na imprensa, já que o respeito aos clientes é uma prioridade de toda a equipe. Mas o fato é que ao frequentar a Barbearia do Onofre, você pode ser testemunha ou até participar de papos estratégicos recheados de informações privilegiadas, pois o local é frequentado por personagens clássicos da Capital. Tem de tudo: políticos, jornalistas, ministros, advogados, artistas, empresários, estudantes. Todos com duas características em comum, a busca por serviço de excelência e o amor pela cidade de Brasília.

Nem tudo são flores

Serviço: Barbearia do Onofre Asa Norte SCRLN 709 Bloco A lojas 15 a 25 - W3 Norte Telefones: 33491505 e 32722317 Horário de funcionamento: Seg. a sex.: 07h às 19:30 Sáb.:07h às 18:30 Barbearia do Onofre Águas Claras Rua Alecrim Lote 06. Ed. Stilo Clube Lojas 13 e 14. Em frente à Praça Estação Arniqueiras Telefone: 61.3046-1184 Horário de funcionamento: Seg. a sex.: 07h às 19:30 Sáb.:07h às 19h

No começo dos anos 80 o pai, Sr. Onofre se cansou da barbearia. Sem avisar aos clientes reformou a loja e montou um bar. “Foi uma confusão. Os clientes iam cortar o cabelo e davam de cara com um boteco. Mas meu pai viu que administrar um bar era ainda mais desgastante do que a barbearia. O bar durou apenas 15 dias, mas foi o suficiente pra confundir a clientela e perder parte dos clientes que foram reconquistados depois”, conta Jorge com bom humor. A gestão do Jorge começou em um momento de dor. Em abril de 2010 sua mãe faleceu e em dezembro do mesmo ano, também veio a óbito seu tio Dilson que era o gerente da barbearia ha 23 anos. Na época, ele já ajudava na administração, mas fazia outros negócios de compra e venda de carros. “Tive que largar minhas outras atividades e assumi tudo de uma vez: gestão, financeiro, marketing e logística”, relembra Jorge, que logo fez uma grande reforma, para marcar a nova fase da Barbearia do Onofre. Em 2013, Jorge se atentou para o grande crescimento de Águas Claras. Muitos filhos dos clientes antigos, que também compravam serviços na loja da W3, se mudaram para o novo bairro. Pensando no conforto desta clientela, foi criada a filial com a mesma qualidade da matriz.

Loja de Águas Claras

que antes o uso de barba grande era mal visto, hoje está na moda. Os barbeiros se atualizam de acordo com os pedidos dos clientes. Como as equipes são grandes, compostas de profissionais extremamente qualificados, um transmite para o outro técnicas e macetes da profissão. A atualização e o aprimoramento são constantes e acontecem de forma dinâmica. Os profissionais executam com maestria cortes modernos ou tradicionais. E não só de homens é feita a clientela da Barbearia do Onofre. Muitas mulheres, principalmente com cabelos curtos, cuidam de suas madeixas por lá. Assim como crianças de todas as idades. Com o modismo das barbearias, Jorge atualizou o seu empreendimento. Ele conta que conseguiu modernizar sem perder a tradição. “Aqui é barbearia raiz”, diz em tom de brincadeira. Além dos serviços de corte de cabelo, barba e bigode, na Barbearia do Onofre o cliente pode saborear cervejas tradicionais, sucos, refrigerantes, água e um café delicioso. Para entreter os clientes, é oferecida uma grande variedade de jornais, revistas e gibis. Além de TV à cabo com programação variada. Outro serviço de destaque é o dia do noivo. Levando 05 convidados para a barbearia o corte tradicional e a barba do noivo saem de graça, mas tem que marcar por telefone devido à logística. Já para desfrutar dos serviços individuais não é necessário agendar horário. A não ser que o cliente tenha a preferência em ser atendido por um barbeiro específico ou queira garantir rápido atendimento. Especialmente aos sábados, que são os dias de maior movimento.

Tradição, excelência e preço justo Atravessar tantas décadas fez a Barbearia do Onofre ser protagonista na mudança de comportamento dos homens de Brasília. Jorge ressalta

Jorge Bezerra em 1973, ainda bebê, na calça do comércio de seus pais, na época em que a Barbeira e o Atelier de costura dividiam a loja da 703 Norte

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Edmar MothÉ, o vendedor que deu dois mundos a Brasília Fundador da Mundo dos Filtros e da Bio Mundo, o capixaba soube aproveitar as oportunidades que só a capital federal poderia oferecer Por Nayara Storquio

O ano era 1974 quando Edmar Mothe, aos 22 anos de idade, trouxe seus sonhos do Espírito Santo para Brasília. Com muita determinação e foco dentro da bagagem, o capixaba de Cachoeira do Itapemirim não imaginava que fosse construir um império comercial com a capital federal de pano de fundo. Edmar decidiu parar de ver Brasília só pelas lentes da televisão, e em discursos do ainda vivo Juscelino Kubitschek, e mudou-se para a 705 Sul. Na época sem dinheiro, ele morou em uma república da W3 Sul após a tentativa de morar com o irmão, na Asa Norte, não deu muito certo. Independente da situação difícil daquele momento, Edmar não se deixou abalar pois tinha um dom: As vendas. Se o objetivo era vender o rapaz capixaba tirava de letra. E foi assim que, ao chegar na capital federal, Edmar já começou a trabalhar como vendedor de porta em porta.

Num tom de conversa descontraído ele conta que esse talento o levou a vender diversos produtos. Os primeiros salários aqui no cerrado vieram da venda de seguros de vida e até de títulos de clubes. Posteriormente ele começou a trabalhar como corretor imobiliário comercializando loteamentos no entorno de Brasília, nas cidades de Valparaíso e Luziânia. Para Edmar o dom de vendedor foi decisivo para sua sobrevivência naquela jovem Brasília de apenas 14 anos de idade. Ele confessa que viu nas vendas uma oportunidade de mudar sua vida e apostou no seu sonho, mesmo que ele incluísse uma jornada de trabalho de sol a sol, e das 7h às 22h. Sua dedicação para o comércio deu retorno positivo rapidamente. Em meados de 1978, apenas 3,5 anos depois de sua chegada a Brasília, Edmar já abriu sua primeira empresa, no ramo imobiliário a “Módulo Empreendimentos Comerciais”. A ideia lhe fez sentido na época, já que tinha acumulado com êxito algum conhecimento imobiliário trabalhando como corretor. O objetivo era simples: Oferecer a infraestrutura necessária e comercializar loteamentos em parceria com fazendeiros da região de Luziânia, no Goiás. Como o sucesso parecia andar em seu encalço,

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Foto Núbia Paula

“Vi uma oportunidade de mudar minha vida através das vendas”

Edmar Mothé em uma de suas lojas.

1981 foi o ano da inauguração do seu segundo empreendimento: a Mundo dos Filtros. De fato que o “mundo” nesse caso era pequeno, a primeira loja era no Comércio Local Norte, na quadra 102. Com muito bom humor Edmar conta que primeira loja abriu mesmo sem letreiro na fachada. O que foi resolvido de improviso com uma faixa de pano dizendo “Mundo dos Filtros”. Mesmo assim isso não o impediu de contratar a voz de ninguém menos que Cid Moreira para narrar o primeiro comercial televisivo do empreendimento. Ao narrar, no vozeirão icônico do jornalista,


CAPA “Mundo dos filtros a mais completa loja de filtros do Brasil, na 102 norte, em frente ao HRAN”, mal sabia o Cid que esse mundo todo cabia numa loja de trinta metros quadrados. E que ela existe até hoje. A intenção da Mundo dos Filtros era mais elaborada, oferecer um “mundo de opções para filtros de água”. Afinal, para Edmar, Brasília era uma ótima oportunidade de sucesso “caso a população precisasse que beber água”, conta ele rindo ao lembrar. O primeiro mundo fundado por Edmar, e do qual ele ainda é o CEO, começou comercializando filtros e velas de todos os tipos. Atualmente as lojas vendem também eletroportáteis, purificadores de ar, eletrodomésticos, umidificadores de ar e produtos de ventilação. Foi só depois de 34 anos de trajetória na “terra dos filtros” que Edmar fundou seu segundo mundo.

“Vi uma oportunidade de mudar minha vida através das vendas” Mundo esse que nasceu da paixão por produtos naturais. Concepção muito nutrida dentro da sua família e valorizada entre ele os filhos. Com uma bagagem de experiências muito mais pesada do que trazida em 1974, Edmar inaugurou a Bio Mundo em dezembro de 2015, aos 58 anos de idade. Como uma alimentação saudável sempre foi importante em sua vida Edmar sabia da dificuldade para encontrar produtos naturais em Brasília. Razão o que o motivou a se aventurar mais uma vez no novo empreendimento nesse setor.

“Eu tinha que acreditar nos produtos que eu vendia”

Serviço: Bio Mundo Asa Norte Plaza Norte 110/111 (61) 3447-2290 Mundo dos Filtros Televendas: 061 3039-1000

A Bio Mundo surgiu dessa carência de produtos naturais com preços acessíveis na capital. E Edmar, vindo de uma família simples, queria que sua loja oferecesse produtos saudáveis para qualquer bolso, democratizando a compra. Esse conceito deu tão certo que já espalhou 32 lojas Bio Mundo na capital federal, e 82 no Brasil, sendo a que mais cresce no segmento. Para Edmar o pilar mais importante que o trouxe até aqui foi acreditar no seu produto. Por isso cada um dos produtos que ele oferece precisa ser meticulosamente avaliada e aprovada por ele , q ue se coloca na pele do cliente. Estratégia nata de bom vendedor. Ao longo do tempo ficou claro para Edmar que as suas empre- sas surgiram de momentos

distintos, tanto para ele quanto para Brasília. E a experiência acumulada na capital, “no peito e na marra”, foram decisivos no nascimento e no sucesso da Bio Mundo hoje. A boa-aventurança do segundo mundo criado por Edmar já o levou a quatorze estados, por meio de lojas franqueadas. Esse mundo é maior que o primeiro, não há como negar, mas Edmar afirma que mesmo assim ainda sente frio na barriga a cada nova inauguração. Um bom vendedor tem que ouvir as necessidades do cliente, e claro que isso Edmar já sabia. A partir daí a Bio Mundo evoluiu para uma loja com oferta múltipla de produtos. Um ambiente diversificado onde se pode encontrar produtos para compra, para consumo imediato e até conta com um restaurante em algumas unidades.

“Sempre vi Brasília com uma certa magia, a da oportunidade. Oportunidades que hoje fizeram dela uma cidade completa.” Hoje, 40 anos depois, Edmar lembra com nostalgia de quando fazia percursos a pé da W3 Sul até o Conic para trabalhar como vendedor. E se lembra de que o sonho que o trouxe pela primeira vez a capital federal só foi possível de se realizar graças ao desenvolvimento único que Brasília demonstrou ao longo do tempo. Desenvolvimento esse que proporcionou ao antigo vendedor de porta em porta ser responsável por cerca de 1300 funcionários que trabalham em seus “dois mundos”. A maioria deles trabalha na Bio Mundo, que mesmo sendo a empresa mais jovem é a que requer mais atenção. Sendo um vendedor nato Edmar se orgulha de nunca ter se encaixado no perfil “funcionário de escritório com ar condicionado”, como ele mesmo conta. A disposição de pôr a cara a tapa numa cidade nova e promissora ainda é a postura de empreendedor que ele carrega. Para ele a Brasília de hoje é uma cidade completa. Muito diferente de quando ambos, ele e a capital, eram muito jovens. A cidade passou por um processo de desenvolvimento muito grande, o que lhe trouxe também alguns problemas. Aqui cita a segurança pública, e o trânsito, duas coisas que não eram a realidade do Edmar rapaz, de 22 anos. Hoje aos 62 anos, Edmar acumula 40 de Brasília. Quatro décadas e meia vendo a cidade crescer, enquanto ele crescia junto com ela. E mesmo depois de tanto tempo Edmar não pensa sair daqui. Mas também pudera, como separar o vendedor que Brasília acolheu de asas abertas, o que lhe retribuiu dando-lhe dois mundos inteiros.

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Casa do Holandês: a charcuteria holandesa aos moldes brasilienses “Encher linguiça” com criatividade é para poucos. Raymond Graumans, proprietário de 4 unidades da Casa do Holandês, aprendeu desde cedo, a arte da charcutaria. A tradição familiar mostrou naturalmente o caminho. Virou rito de passagem. Todos da família têm (ou já tiveram) uma charcutaria na Holanda. Aqui em Brasília, fazer uma mesa de frios, uma feijoada, um churrasco ou até um Eisbein Joelho Defumado ficou muito mais prático com os produtos originais da família Graumans. Por Carolina Cascão

Por Carol Cascão

Se “encher linguiça” significa preencher vazios, então as lacunas da vida (e do estômago) estão com os dias contados. Com mais de 100 produtos da charcutaria, a variedade da Casa do Holandês, em Brasília, impressiona e vai além dos 15 tipos de linguiças -, inclusive numa linha sem conservantes e totalmente natural. Impressiona por causa da criatividade dos produtos -, que alia sabores diferentes, como uma cerveja IPA artesanal, bacon e queijo, numa só linguiça. E facilita, pois as carnes já estão especialmente temperadas e preparadas, exceto as bovinas (nem todos os cortes) -, basta uma frigideira ou forno ou churrasqueira. E, o melhor de tudo, transmite segurança: as carnes estão cuidadosamente embaladas e recebem o selo de garantia de qualidade da Secretaria de Agricultura do DF. Outro ponto positivo: preços acessíveis, muitos, inclusive, com preço de mercados, mas com uma

Raymond Graumans trouxe a tradição holandesa para a capital

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Qualidade e variedade para a mesa dos brasilienses

diferença: “a charcutaria” de personalidade de cada tipo de carne. O estabelecimento tem a cara do dono. O holandês Raymond Graumans, 46 anos, desde 2009, no Brasil, para a nossa sorte, conseguiu dar o “toque de midas” ao produzir uma charcutaria de personalidade. Alguns podem encarar como responsabilidade demais para uma pessoa só, mas acredito que seja um prestígio, um rito de passagem, continuar uma empresa familiar que começou em 1918, com o bisavô Charles Oostvogels, lá na Holanda. Raymond manteve os valores familiares e, de 2014 para cá, quatro lojas no Brasil e duas lá na Holanda, propriedade dos dois irmãos gêmeos, administrada por eles mesmos. E tudo o que começou, há mais de 100 anos, está vivo, moderno e próspero -, tem as vestes da modernidade, mas continua com o mesmo aroma dos países baixos. Na Casa do Holandês, cada produto é único. Ame ou ame (acho difícil não gostar). E leve o simpático “papelinho”, um presente da Casa, sobre o modo de preparo. O grande diferencial da charcutaria, segundo Raymond Graumans, é a liberdade que o método permite de criar sabores diferentes por meio de temperos, queijos e até cervejas. “Foi nos pedido uma linguiça com pimenta mais forte, daí surgiu a linguiça de pernil com pimenta habanera (muito forte). É preciso ousar e errar também,


CAPA mas as tentativas sempre serão agradáveis”, disse Raymond. Dentre os produtos, aves e cortes de cordeiro também são vendidos com muita criatividade. A exemplo, a linguiça de frango com queijo coalho e tomate seco. Destaco que as linguiças são produzidas sem conservantes, 3x por semana, e duram aproximadamente 10 dias. Todos os produtos podem ser congelados. O presunto também é diferenciado, pois é cortado a partir de uma peça de pernil mesmo -, ou seja, é 100% carne de porco, de defumação lenta e natural e, o melhor de tudo, com baixo teor de sódio. Na mesma linha está o bacon, totalmente sem conservantes. Não ia contar, mas já que parecia a descoberta do século, o fato será relatado. Aquela linguiça picante e maravilhosa, servida no Beirute, pelo simpático Chiquinho, é da Casa do Holandês. Como um segredo puxa outro, a linguiça de cerveja IPA foi criada especialmente para Henrique Fogaça utilizar numa das receitas do Cão Véio. O salsichão suíno tipo holandês tem sido fornecido a vários foodstrucks da cidade com os seus cachorros-quentes “gourmets”.

Mais um pouco de história dos Graumans A história dos Graumans começou em 1918, com Charles Oostvogels. O filho dele, Franciscus Oostevogels, em 1947, assumiu a direção do açougue. Karel Oostevogels, o tio, administrou a empresa de 1969 a 1988, quando Toine e Marga

Família Graumans em sua charcutaria na Holanda

Graumans, pais de Raymond, resolveram dar uma nova dimensão ao negócio, ao modernizar e introduzir novos produtos para atender aos consumidores da pequena cidade de Zundert, na Holanda, lugar aonde o famoso pintor Van Gogh nasceu. Em janeiro de 2001, Raymond e seus irmãos Roger e Michel Graumans, já acostumados a conviver com carnes, defumadores, facas e maquinários, após anos trabalhando com os pais, desde a limpeza da loja até a preparação dos cortes e produtos, adquiriram a empresa, abrindo, logo a seguir, mais uma loja na cidade de Breda, localizada a 20 minutos de Zundert. Após várias viagens pelo mundo, Raymond veio conhecer o Brasil, e acabou “estacionando” em Brasília, ao conhecer Wanessa, hoje, esposa. Não imediatamente, o casal ainda morou oito

Família Graumans

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CAPA - LINGUIÇA SUÍNA CHIMICHURRI (um toque argentino); - COSTELA SUÍNA BARBECUE; - CORTE ESPECIAL BOVINO ANGUS; -PICANHA SUÍNA TEMPERADA; - COXINHA DE ASA DE FRANGO.

Serviço: Casa do Holandês

https://www.casadoholandes.com.br/ Fachada da loja da família na Holanda Costela Suína vendida na loja de Brasília

anos na Holanda, antes de realmente começarem os planos da charcutaria.

Charcutaria não é só “encher linguiça” Existe muito mais no mundo da charcutaria que “encher linguiça”. Charcutaria é arte pura, pensamos que a técnica seja apenas e, exclusivamente, a produção de linguiças. Mas esse método de produção de alimentos, um dos mais antigos da humanidade, que surgiu para fins de preservação, utiliza a salga, a cura, a fermentação, a desidratação, a defumação, ou seja, várias técnicas, em qualquer tipo de carne. Isso mesmo, qualquer tipo de carne, sejam aves, peixes, bovinos.

O estopim da guerra de sabores A fábrica nasceu em 2010, quando Raymond, há pouco, em 2009, desembarcara no Brasil. Os produtos de charcutaria locais não o atraíram -, então recebeu um estímulo a mais para continuar os negócios da empresa familiar no novo País. Aliás, 2009 foi o mesmo ano, que a empresa da família intitulada Graumans começou suas atividades. “A partir daí comecei a levar os produtos para abastecer supermercados, bares, restaurantes, e hotéis”, disse.

Qualquer produto pode ser encomendado até 48 horas antes, caso queira sem tempero nenhum. Todos os produtos DEFUMADOS da Casa do Holandês já foram curtidos em salmoura, portanto, não há necessidade de se colocar sal -, somente temperos neutros, se desejar.

Receita de EISBEIN JOELHO DEFUMADO (o preferido do brasiliense) Cozido: coloque o joelho numa panela de pressão, coberto em água, por 50 minutos. Depois, basta assar no forno por 30 minutos até tostar. Assado: envolver o joelho em papel alumínio e assar por 1 ½ hora em forno a 180º . Retirar o papel e deixar mais 20 minutos, até tostar. Dica da Carol: comer a linguiça de pimenta caiena com mel selvagem e de qualidade. Para

Asa Norte CLN 305 bloco B loja 4 e 64 (61) 3033-4708 SIA trecho 10 loja18 (entrada do Ceasa, de frente para a Super Adega) (61) 3711-0038 Feira da Pedra Ceasa Feira do Guará loja 403 (61) 3710-0039

“Percebi que o brasiliense adora fazer um churrasco. É bem forte na cultura local”, disse Raymond. E ele tem toda a razão, adoramos um churrasco. Aproxima, confraterniza e perpetua amizades. O que seria de nós sem essas reuniões gastronômicas do final de semana. Abaixo, o holandês mais brasiliense sugere algumas carnes para o churrasco.

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Raymond Graumans

Foto Carol Cascão

Dicas de um holandês para um bom churrasco brasiliense


Desvendar o Goiás significa conhecer o que a pitoresca cidade de Pirenópolis tem de melhor, muitas belezas naturais, seu preservado casario colonial, ladeiras de pedra e o conforto da Luna Zen. Entre cachoeiras e áreas montanhosas, as muitas trilhas fazem a alegria dos adeptos do ecoturismo.

Tel: (62) 3335 8425 (62) 99625 4006 (61) 98122 3336

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Localização: Rodovia GO 225, Km 04, Lt.01, Pirenópolis - Goiás / Brasil


Alexandre Matias Jr

Despontando na Advocacia, Alexandre Matias Jr é um exemplo do que há de melhor nas novas gerações de Brasília: conhecimento, visão crítica e determinação Por Natasha Dal Molin Assim como a cidade, Alexandre Matias Jr. tem um potencial enorme e um futuro de desafios e sucesso que lhe aguardam. Vindo para cá muito jovem, tem pouca idade, mas determinação e garra de quem sabe o que quer: após retornar de um Mestrado em Lisboa, Portugal, o advogado assumiu em 2019 mais um desafio: deixou o próprio escritório e passou a integrar a equipe do tradicional Escritório de Advocacia Maciel, que tem atuação há quase 50 anos na cidade. Bem articulado, educado e muito inteligente, você descobre nesse bate-papo sobre Direito, viagens e Brasília o quanto a cidade tem de novos talentos e vislumbra o que podemos esperar para as próximas gerações.

Museu à céu aberto Ele não nasceu aqui, mas foi cedinho que chegou à capital, vindo da pequena Ituverava, em São Paulo. Em Brasília, viveu a maior parte dos 27 anos, acumulando muitas amizades das escolas aonde estudou e acredita, como bom brasiliense, que a bela arquitetura da cidade contribui para isso. “Nosso projetista, Lucio Costa, conseguiu fazer daqui um verdadeiro museu a céu aberto”, aprecia o jovem, que já morou por duas oportunidades fora do país para estudar: em Miami (EUA) e Lisboa (Portugal), nos quais permaneceu por um ano, cada. Alexandre conta que sempre que esteve fora, teve saudades da vida aqui: das avenidas largas, da tranquilidade e facilidade de locomoção ou, como ele mesmo diz, de “chegar rápido mesmo que se esteja longe”.

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Na experiência mais recente (2016 a 2017), em Portugal, Alexandre cursou um Mestrado em Direito Empresarial na renomada Universidade de Lisboa. Ele encontrou em Lisboa uma cidade muito acolhedora e dividiu a sala de aula com muitos juízes, advogado e promotores brasileiros. “A questão da língua é algo que conecta as origens”, avalia. A disponibilidade de voos diretos de Brasília a Portugal é outra facilidade apontada pelo advogado para a intensa procura por brasileiros para negócios e turismo, ou ainda estudos. “Os portugueses têm instituições públicas muito consolidadas, especialmente na área jurídica. As instituições são muito sólidas, antigas e tradicionais”, endossa.

Família unida Filho do Alexandre Matias Rocha, fundador da Cygnus, construtora e empreiteira que atua no mercado nacional e soma 13 anos de experiência e muitas realizações na cidade, Alexandre é o mais velho de dois irmãos, Ana Cristina, que vai completar 15, e Roberto, que fará 12 anos. “As fases de vida são outras. Mas não vejo isso como ônus”, diz o primogênito, que assegura com leveza que pela diferença de idade, serve como referência para os irmãos. A família, muito unida, mora em Brasília. O pai, empreendedor de sucesso, nasceu em Brasília e a mãe, veio do interior de São Paulo. “Eu sempre prezo muito pela família”, pontua o jovem. Com a rotina de trabalho agitada, no


CAPA entanto, o convívio diário é mais complicado, mas nas datas comemorativas, todos estão sempre juntos.

Caminho certo na Advocacia A certeza pela Advocacia ele sempre teve. “Sempre quis ser advogado”, relembra, ao contar que aos 10 anos já tinha certeza que queria advogar. “Assistia filmes e gostava muito da figura do advogado. Não tive aquela indecisão que é até normal, de quando se está terminando o ensino médio”, conta. Alexandre se formou em 2013, e de lá para cá, não parou. Concluiu uma pós-graduação em Direito Empresarial no Instituto de Direito Público – IDP, participou de diversos seminários, embarcou para Lisboa para cursar seu Mestrado, fundou uma Associação de Egressos do Curso de Direito do UniCEUB, integrou comissões temáticas na Ordem dos Advogados do Brasil e continua sempre em busca de novos desafios. “Gosto muito do que faço; de trabalhar. Enquanto estiver vivo, vou continuar trabalhando”, assegura. O gosto pela advocacia anda ao lado com o gosto pelos estudos e pela leitura. “Sempre fui um exímio leitor, não apenas de conteúdo jurídico, mas também de literatura”.

2019 chegou com novos projetos e desafios Alexandre já teve o próprio escritório, em sociedade com o amigo João Gama: o Matias & Gama Advogados, atuante na área de Direito Empresarial, Civil e Imobiliário ao longo de 4 anos. O escritório próprio foi incorporado ainda esse ano a grande e tradicional banca jurídica Advocacia Maciel. “É uma grande satisfação e honra integrar a equipe de um escritório com tanta tradição e destaque nacional”, diz, sobre o renomado empreendimento de quase 50 anos de existência e grande proeminência nacional, localizada no Lago Sul.

cidade”. Para ele, a capital é uma cidade versátil e que tem crescido muito. “É uma cidade muito acolhedora. Surgiu para acolher os imigrantes e tem seguido nessa linha”. Por isso, Alexandre defende que o crescimento de fato deve ser tido de forma ordenada. “Isso deve ser preservado. O crescimento da cidade impacta em novos desafios, que são para todos”. Ele aponta, por exemplo, a crescente demanda por transporte público de qualidade e acessível. “Isso é natural, mas são desafios que podem ser atingidos e superados para que Brasília mantenha essa essência que foi construída ao longo desses quase 60 anos”, avalia. Exímio viajante e conhecedor de outras culturas, quando pensa em Brasília, lhe vem à mente a ideia de lar, e também na de trabalho. “Penso em casa, lugar que eu moro e que quero continuar morando. E penso também em trabalho, tribunais, Justiça”. No aniversário de Brasília, não restam dúvidas do amor do jovem promissor pela nossa cidade: “Cada cidade tem sua característica própria. Diferentes cidades têm diferentes perfis. É claro que Brasília não vai ser similar a grandes centros, como São Paulo e Nova York, mas possui seu encanto próprio”, diz. Alexandre pontua o planejamento urbano e a setorização como aspectos que fazem com que a cidade seja muito peculiar. “Numa soma de prós e contras, sou apaixonado por Brasília”, sentencia. Como desafios para os próximos anos, o jovem aposta no fomento do setor empresarial na cidade. “Brasília abriga muitos trabalhadores do setor público, mas é importante que consiga desenvolver esse lado empresarial, pujante da economia. É uma cidade muito dinâmica, tem muito o que se fazer e investir em Brasília”, aposta.

Brasília, cidade que amo Morador da tranquila Asa Norte, Alexandre aprecia passeios ao ar livre, como no Parque da Cidade e no Parque Olhos D’Água, além do Lago Paranoá e a vista das pontes da cidade. “Dá uma sensação de tranquilidade...”, conceitua, completando: “Gosto muito do visual da cidade”. O jovem diz que Brasília não perde em nada para outros lugares que já visitou. “Aqui temos bons restaurantes, e a arquitetura da cidade nos proporciona uma boa atividade”. Na cidade, o jurista estudou, se formou e atuou profissionalmente. E pretende continuar: “Gosto muito de Brasília, não me vejo morando em outro lugar. Pretendo continuar aqui, quero ter meus filhos aqui e cada vez criar mais raízes na

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Segredos dos Cavalcante O Ki-Filé, para mim, nem é o Ki-Filé: ainda o chamo pelo nome antigo, nome de boteco pé sujo que foi um dia: eu só chamo de Cavalcante. Por Luiz Humberto de Faria Del’ Isola

Quando o Edson me procurou , pedindo que eu rabiscasse algumas mal traçadas linhas para o seu novo Portal, 61brasilia.com, argumentei (por preguiça, confesso...) que não valia a apena, que ninguém em estado normal iria gastar tempo lendo mal traçadas escriba velho como este que vos escreve, e outras desculpas esfarrapadas que fui inventando na hora. Mas o Edson Crisóstomo é insistente, amigas e amigos... Como é insistente o Edson! Não é de estranhar que seja tinhoso, o meu gordinho predileto (que é a assim que o chamo). Não fora ele a insistência que é, não seria o inventor/editor de tantas publicações que marcaram a vida e a cultura de tantos e tantos de nós, candangos de boa e legítima cepa, brasilienses que amamos a cidade/capital. Plano Brasília, Kids, Pecado Capital, Gente ... Para todas elas rabisquei mal traçadas linhas, e as gostei de rabiscar. O meu gordinho predileto merecia, pois, que eu largasse a preguiça de lado e que fosse catar milho no teclado. Quando concordei em botar cérebro e dedos no batente, perguntei sobre o que é que deveria rabiscar. Sobre o Ki-Filé, o restaurante, respondeu-me. Aí, leitora e leitor, aí acabou-se preguiça, sumiram os achaques de velho reumático e caquético. Aí senti-me remoçado, mais jovem uns quarenta anos ( o que não me faz muito jovem, múmia antiga que sou). É que o Ki-Filé não é só um restaurante, entre os

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tantos que há por aqui e acolá desta cidade tão jovem e já tão imensa. O Ki-Filé, para mim, nem é o Ki-Filé: ainda o chamo pelo nome antigo, nome de boteco pé sujo que foi um dia: eu só chamo de Cavalcante. E vou além: é uma segunda casa. Lá redigi muitos discursos e artigos, ghost writer de profissão que sou. Muitas crônicas, alguns trechos de livros, muitas tertúlias, muitos porres e alguns amores, discussões políticas – quando fazer e falar de política era coisa elevada, não a estupidez de hoje – tudo isso vivi sentado em uma mesa do Cavaco (outro apelido que dou ao assim chamado Ki-Filé). Conheci o Cavalcante quando ele foi inaugurado, do outro lado da rua, onde hoje há aquela imensa loja da Só Reparos. Aliás, não se pode falar de um sem falar do outro. O boteco era pequeno, e a Só Reparos também era pequena. Aliás, pequeno também – só de estatura – é o Miguel, um dos sócios da hoje imensa rede de lojas. Pequeno só de estatura, insisto, porque foi um beque central gigante, quando jogava futebol no Country Club. Certo ano, já distante na bruma do tempo, Miguel e eu formamos uma bela parelha de zaga que foi campeã do torneio interno daquela vetusta agremiação social. Sem a grandeza do Miguel, talvez não houvesse o Ki –Filé que conhecemos hoje, já que foi numa negociação entre as duas empresas que o boteco mudou de

Foto Núbia Paula

CAPA


Serviço: Ki-Filé Asa Norte CLN 405 bloco d (61) 3274-6363

quadra, indo morar onde mora hoje. Mas deixemos de lado a vida alheia e vamos ao que interessa. Falemos do restaurante, falemos de comeres e beberes, de torresmos e feijoadas de rabos e dobradinhas. Falemos de filés e de omeletes. Como são grandes os pratos do Cavalcante! Cada prato nutriria um exército, se por lá passassem exércitos, que não passam, Graças a Deus. Além de grandes, são bons. São muito bons, os pratos do Ki-Filé. Antes que algum leitor mais engraçadinho pense com os seus botões: “que anta, esse rabiscador... prato bom é de porcelana, e isto lá não há!”, vou explicando que é de conteúdo que falo, de continente não. A história do Ki Filé é uma história de migrantes. Sim, de migrantes sim, que Raimundo e Anastácio, fundadores da casa, são cearenses. De Sobral. Repetiram a saga de milhares de conterrâneos cabeças chatas (espero não ser patrulhado pelo politicamente correto) que um belo dia vieram conquistar o Sul Maravilha. Raimundo veio antes, e de comida não sabia mais do que o trivial variado: farinha, rapadura, macaxeira e carne de sol. Raimundo nem veio para a capital cozinhar. Veio puxar traço de concreto, bater forma e subir fieira de tijolo. Sim, o grande chefe Raimundão foi peão de obra. Não por muito tempo, pois aí entra a história de outros imigrantes, esse de muito mais longínqua terra: da Toscana, na Itália. Aí entra a história de Mario e Emma Bonazzi. Poucos devem se lembrar dos primeiros restaurantes de brasília, daqueles nascidos em barracos de madeira e tocados a fogões de lenha. Afinal, é história muito antiga, empoeirada pelo tempo. Mas posso assegurar, leitor e leitora, que foram muitos e foram muito bons. Chez willy, adele, fred´s, kazebre, la romanina, roma.... Quase todos eram de candangos europeus. Willy era austríaco, fred era suiço. Mario bonazzi, luigi brandi (do roma), gennaro e vincenzo (do kazebre) eram italianos. Luigi tartari, o renomado maitre, trabalhou na cidade livre, pilotando panelas do adele, que era da família ricci... Mario e emma bonazzi criaram o restaurante la romanina, que funcionou por muitos e muitos anos na sqs 303. E foi ali que raimundo abandonou martelo e pá e começou a aprender a arte da cozinha. Isso foi por volta de 66. Logo, logo chamou o irmão mais novo, anastácio, que foi se juntar a ele no restaurante. Ali o cavalcante (sim, que é sobrenome dos dois, mas apenas o anastácio ficou assim conhecido)

aprendeu a ser garçon, a olhar o salão, a carregar pratos e bandejas. Enquanto isso, mario bonazzi, generosamente, continuava a ensinar ao raimundo o segredo de molhos e massas, de filés e carpaccios. Quase vinte anos de alta cozinha transformaram o peão de obra em refinado cozinheiro. Grande chefe raimundão, eu o chamava. Quase vinte anos de pratos e bandejas, de clientes e de cachaceiros, transformaram anastácio em craque de salão, mestre de bandejas e toalhas, de guardanapos e taças, além de cobremanchas e contas espetadas. Em 1984, os irmãos tomaram coragem e abriram a sua propria casa, um legítimo pé sujo, boteco de ninguém botar defeito. Cerveja sempre gelada, pinga boa e pratos enormes, gargantuescos, pantagruélicos. Comida honesta, sem as frescurinhas de nouvelle cuisine e veganices de hoje em dia. Feijoadas, rabadas, dobradinhas, cozidos... Tudo o que sai da cozinha do cavalcante é uma delícia, garanto. Sem falar dos filés, a cavalo ou a parmiggiana, razão do nome da casa. Deu certo. Tanto deu certo que, poucos anos depois,

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CAPA os irmãos atravessaram a rua e foram se instalar onde está o restaurante até hoje. Atração imperdível da casa é a propria clientela. Que fauna, leitor, que fauna! Há atrações para todos os gostos. Se quiser encontrar um sisudo juiz de direito, um rigoroso promotor de justiça, lá os há. Está procurando um abastado comerciante, um capitão de indústria ou agiota de renome? Fácil encontrar um exemplar às mesas do ki filé. Professores da unb? De monte... Alunas e alunos, idem. Políticos, com mandato ou sem mandato, também os há. Gente moça, gente velha. Almirantes e brigadeiros, cientistas e jornalistas. Há escritores e há poetas, há atletas e ex atletas, há os agradáveis e há os chatos. Há os comuns e os nem tanto, há gente bela e há gente feia. Bancários, dentistas e cabeleireiros, modelos e manequins, manicures tambem. Um traço singular da casa: é um dos poucos locais onde as diferenças políticas

não envenenam a conversa. Ali bolsonaristas convivem civilizadamente com lulalivres, comunistas (os poucos que sobram) confraternizam com coxinhas. A esquerda convive com a direita na paz. De boa, brother. Ninguém grita com ninguém por pensar de forma diversa um do outro. A clientela, por si só, já é motivo para frequentar o ki filé. Os cavalcante originais já abandonaram essa vidinha aqui em baixo, já subiram para outro lugar. Lá em cima, raimundo deve estar na cozinha, anastácio no salão. Este foi antes, contrariando a ordem natural das coisas: um acidente de carro – um valoroso opala, 6 cilindros – o levou, aos 53 anos de idade. Isso foi em 2004. Raimundo ficou aqui por mais tempo. Foi-se embora aos quase 70 de idade, dois anos atrás.

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Hoje há tres cavalcantes à frente do ki filé: dois filhos do anastácio, roberto e ricardo, e um do raimundo, eduardo. Estão fazendo jus à tradição inaugurada pelos pais: comida boa, bebida honesta, preços decentes. Para encerrar essas mal alinhavadas, agradecendo a

paciência dos leitores que me suportaram até aqui, vai um comentário final: a generosidade de mario e emma bonazzi, a solidariedade do miguel da só reparos não cairam em terra ruim. Ao contrário. Raimundo e anstácio jamais negaram a qualquer de seus colaboradores apoio e estímulo. Da mesma forma que aprenderam, ensinaram. Que o diga o jarbas, o já famoso pardim. Durante muitos anos garçon do ki filé, montou, bem ali do ladinho e com o apoio dos patrões e colegas, seu próprio negócio, que já vai se transformando também ele, em referencia de boteco na cidade.


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CAPA

Trabalho e dedicação são as marcas do Dr. Manoel Arruda Admirador de Brasília, ele subiu degrau a degrau e construiu uma imagem sólida na Advocacia. Para a 61, ele dá dicas para quem quer ir além e se destacar profissionalmente Um traço marcante na vida do advogado Manoel Arruda sempre foi a vontade de esforçarse e ir além. “Sempre fui muito ambicioso. Desde cedo tive comigo essa vontade de buscar, me desenvolver, atingir outros patamares. Meus pais me deram as condições de estudo e soube aproveitar porque sempre fui muito incomodado, no sentido de achar que posso melhorar, me superar”, afirma. Desta forma, a área jurídica foi uma escolha natural, já que já admirava um bom debate e discussões de normas. Como muitos na cidade, os pais (o pai, administrador e a mãe, psicóloga) o aconselharam a fazer concurso público. A intenção, para eles, era que o filho tivesse tranquilidade. “Brasília tem muito disso, dessa cultura do concurso público”, diz. Mas Manoel resolveu romper com a tradição familiar pois, com estudo, dedicação e trabalho, acreditava que podia se superar. E superou.

Degrau por degrau, sem perder a simplicidade O escritório que hoje coordena conta com dez advogados e faz atendimento de empresas multinacionais e grandes clientes. A intenção é continuar com uma estrutura enxuta, para poder oferecer um serviço de atenção e qualidade, focado na área do Direito Público, em licitações e contratos. Desde o início do curso de Direito, no UniCEUB, em 1997, Manoel procurou absorver o maior conhecimento possível e não perdeu a oportunidade de fazer estágios e se desenvolver. Trabalhava sem hora extra. “Isso não era uma obrigação, via como um investimento”. O início da profissão foi em uma salinha de 15 metros, no Metropolitan. Optou por montar o escritório sozinho, sem sócios. Ele se recorda que, sem receios, pegava a lista de telefone e ligava para os amigos e conhecidos, um a um, dizendo que tinha um escritório e oferecendo os serviços. As dificuldades foram sempre encaradas com brilho nos olhos e vontade de crescer. “O início foi bastante difícil, mas isso ajudou a me moldar”, diz.

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Por Núbia Paula

Por Natasha Dal Molin

Anos após começar a atuar na área de licitações e contratos, o Direito Tributário apareceu na sua vida. Arruda foi convidado a exercer um cargo no Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, aonde ficou por 11 anos. “Além de dedicado, sou muito tranquilo. O mundo do Direito é muito de vaidades. Tem que ter simplicidade e criar um nome de muito respeito”, avalia.

Tecnologia na profissão e na vida A realidade do Direito e de outras profissões está sendo impactada pelas novas tecnologias. Já existem robôs de pesquisa que colaboram na elaboração de peças e na pesquisa de jurisprudência. “O direito é com base em precedentes. Isso ajuda realmente, até porque o Brasil é um país que judicializa demais”, argumenta Arruda, que já foi da OAB, durante seis anos. Para o advogado, o advento da tecnologia tem seus impactos, por exemplo, na redução de postos de trabalho. Para destacar-se, além de uma boa formação e especialização, ele considera essencial o relacionamento interpessoal. “A tecnologia é importante, mas o trabalho do advogado é muito pessoal, e isso nunca vai acabar. O nosso foco tem que ser no ser humano”, enfatiza. Ao contratar um advogado, é estabelecida ali uma relação de confiança. “É sempre olho no olho. O cliente é o


pilar do nosso trabalho”. Na avaliação do especialista, o Brasil é um país dos profissionais de Direito. “Tem um milhão de advogados no mercado”. Esse excesso de profissionais, segundo ele, tem seus malefícios: “é ruim para o mercado, no meu entender. Há um excesso do número de faculdades. Isso tem causado muitos problemas, até pela formação muito precária, além da depreciação do valor do trabalho”. Mas isso não chega a ser um problema ou impeditivo. Como o Direito é muito dinâmico e vinculado às transformações da sociedade, aqueles profissionais que buscam um diferencial no mercado, devem sempre se preparar. O caminho para isso: especialização. “Os jovens de hoje querem tudo de forma muito rápida; a internet contribuiu com isso”, analisa, destacando que durante seus estudos, há não muito tempo (formou-se em 2002), fazia a pesquisa de jurisprudência em livros. A facilidade de acesso, segundo ele, faz com que os jovens de hoje tenham menos capacidade de avaliar. Para os recém-formados, ele indica o livro “Eles, os juízes, vistos por um advogado”, de Piero Calamandrei. Trata-se de uma obra do Direito Italiano.Novos tempos A situação econômica do país, segundo ele, acaba afetando todas as áreas: “Lido muito com empresas, e muitas estão passando por dificuldades e precisam fazer renegociação de contratos e dívidas, cancelamentos. Mas o Direito é tão dinâmico, que gera outras possibilidades. “Como a gente lida com problemas e obstáculos, as situações de crise acabam gerando também oportunidades”, diz. Na avaliação do advogado, um dos grandes problemas do Brasil é insegurança Jurídica. “O Brasil precisa de tudo: infraestrutura, portos, ferroviais”. A eleição do atual governo, segundo ele, representa uma ruptura e é um sinal de um novo momento. Por tudo isso, Manoel Arruda faz uma avaliação positiva dos 100 primeiros dias do governo Bolsonaro. Mas defende a importância da aprovação da Reforma da Previdência. “Com ela, o Brasil vai estar dando um passo para a transformação. Tornar-se mais liberal, menos Estado. O governo deve tentar intervir menos na economia, na vida empresarial. O estrangeiro busca isso: a desburocratização do Estado”, emenda.

Um país melhor A despeito de tantas pessoas que deixam o país, ele afirma que pretende continuar para poder lutar para a melhoria de todos. “Quero ficar aqui, que meus filhos fiquem aqui. Quero lutar para que o Brasil dê certo para todos os

brasileiros”. Além da necessidade da aprovação de reformas estruturantes no Congresso, na sua avaliação, a construção civil precisa ser retomada. “E claro, é urgente que se volta a gerar emprego. A coisa mais indigna é a pessoa buscar emprego e não encontrar”, pondera. E acrescenta: “O empresário do exterior que quer investir no Brasil, mas para isso é fundamental ter mais segurança jurídica para o país poder se desenvolver, para que haja desenvolvimento de fato”.

Amor por Brasília O advogado, que viaja bastante e conhece muitas cidades no mundo, é apaixonado pela cidade que escolheu para viver. “Brasília é uma cidade única. A pessoa que vem a Brasília, ou ela ama ou odeia”, avalia. Ele destaca como ponto positivo, por exemplo, a arquitetura única. “Gosto da disposição da cidade. O Plano Piloto é muito tranquilo. Em Brasília, há uma comunhão de fatores excelentes, como o Lago Paranoá e a presença dos Poderes”, enumera. Outro aspecto interessante de notar, para Manoel Arruda, é que aqui conviver com autoridades é uma coisa comum. Isso, segundo ele, gera muitas oportunidades de relacionamento: “As pessoas crescem convivendo com filhos de políticos, estudando na mesma escola”, acrescenta. Dos desafios que a cidade tem pela frente, ele destaca o desemprego como o principal. “Como cresceu bastante, as pessoas têm Brasília como um Eldorado. E isso fez com que a cidade inchasse bastante”, destaca. Na opinião do advogado, Brasília, além da questão pública, precisa realmente buscar novas alternativa nas áreas tecnológica, de inovação; criar novos parâmetros de trabalho e produtos com valor agregado. Na avaliação dele, a cidade sempre foi muito vinculada aos setores de serviço e precisa se desenvolver mais na área privada. “Temos aqui um enorme número de mestres e doutores. A cidade tem essa vocação focada para questões de estudo, tecnologia, inovação, além da arquitetura única, que favorece a esse desenvolvimento”, analisa.

Futuro Para o futuro, ele olha esperançoso. Somadas às boas perspectivas profissionais, há outro bom motivo: o filho Henrique Arruda, de 8 anos. “Essa nova geração tem tudo para ser uma liderança”, avalia. Manoel afirma que não o direciona para a Advocacia, está dando oportunidade para que seja o que quiser. Preocupado em garantir boas oportunidades, ele colocou o filho em uma escola internacional. Se qualifique. A gente não pode ficar exportando talentos. Os grandes talentos. Tem que dar oportunidade.


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Uma História de Sucesso Pioneira da Borracha, um dos empreendimentos comerciais mais tradicionais da cidade segue firme sob o comando de Hely Walter Couto Da Redação

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que , aos 94 anos , continua a frente da empresa, indo todos os dias administrar seu negócio , como sempre fez.

Foto Núbia Paula

Hely Walter Couto nasceu e cresceu no interior de Minas Gerais. Ele conta que teve uma infância humilde, havia o que comer, mas sem luxo e sem sobras. Aos oito anos, perdeu sua mãe, mas aprendeu a costurar com o primo Sebastião que era alfaiate no interior e aproveitou a prática e os conhecimentos adquiridos, para conseguir seu primeiro trabalho . Por intermédio de um amigo , soube que a gerência de um banco buscava um profissional para confeccionar os uniformes da empresa. Hely se apresentou imediatamente e conseguiu o emprego, conquistando também, a simpatia do patrão. Quando já havia saído do interior e morava em Belo Horizonte, conheceu a mulher, Helenice, com quem está casado há 62 anos . Ele conta que aos vinte e nove anos de idade, quando terminou o curso de contabilidade, convidou a diretora do seu grupo escolar, para a formatura, e apareceu uma menina de dezoito anos . Eles dançaram a noite toda e logo começaram a namorar. O casal tem quatro filhos , nove netos e dois bisnetos. Hely Couto tinha um espírito inquieto, como todo empreendedor nato. Por isso , em 1958, o amigo e compadre Igor Vicente de Paulo Araújo, dono da Elétrica Araújo, comunicou-se com ele , informando que a construção da Nova Capital , no Planalto Central era uma seara de diversas oportunidades. Já casado, Hely trabalhava como alfaiate e seu segundo filho estava por nascer quando decidiu aceitar a dica do compadre e mudar-se para a Nova Capital, apostando na venda de produtos para os trabalhadores dos canteiros de obra de Brasília, que importava praticamente tudo de outros estados, E assim , investiu no comercio de botas, luvas e artigos de borracha. Foi com essa iniciativa, que nasceu a Pioneira da Borracha, um dos empreendimentos comerciais mais tradicionais da cidade. “A loja ia se chamar casa da Borracha. Mas um funcionário da alfaiataria onde eu trabalhava em BH teve uma ideia diferente. Ele disse: não é a primeira loja do tipo? Então , chama de pioneira”, relembra Hely,

Quem entra na sede administrativa , no escritório instalado no terceira andar do prédio onde fica a loja, na 511 sul, logo se depara com troféus, medalhas e inúmeros quadros de fotografias decorando as paredes e estampando a história de toda uma vida. Hely aparece nas imagens, emolduradas com carinho e orgulho, ao lado de personalidades que participaram da verdadeira epopeia que foi a construção de Brasília. Figuras como JK , Oscar Niemeyer, Políticos e artistas que brilharam nas décadas de 60 e 70 até os anos mais recentes, Além da


homem que, onde chego, todo mundo conhece. Amo essa cidade e é aqui que vou passar o resto da minha vida .“ Hely tem grande apreço pelo W3 sul , que carinhosamente chama de Champs-Élysées brasiliense. “Era o principal ponto de encontro da sociedade local, concentrava o melhor comércio da cidade”, afirma. E justamente por valorizar essa região que já foi o coração produtivo da capital federal , Hely é um dos principais militantes da revitalização desse local, que com a construção dos shoppings Centers , perdeu seu brilho e efervescência comercial. O comerciante relata que nos últimos vinte anos, vem conversando com os Governadores do Distrito Federal pedindo maior atenção a avenida e garante que fará o mesmo com todos

Serviço Pioneira da Borracha: Asa Sul CRS 511 Bloco A (61)3346-4300 Asa Norte SCLRN 703 Bloco D (61)3349-7656 Taquatinga Centro C5 Lote 9 Loja 1 (61)3563-8656

esposa , filhos e netos que complementam sua trajetória de vida. Todo esse verdadeiro acervo fotográfico, mostra como as pessoas que o cercaram e ainda o cercam, tem importância no sucesso que conquistou como empreendedor e pioneiro de Brasília. O empresário orgulhase por ter sido Comodoro do Iate Clube de Brasília, onde recebeu altas autoridades nos eventos sociais que abrilhantavam as noites candangas. Ele cita vários ministros, como também : Oscar Niemeyer, Lucy Geisel e o próprio Juscelino Kubitscheck que certa vez , em um evento , reclamou de dor nas pernas e pediu a Hely que conseguisse um local reservado e escuro onde pudesse repousar, com os pés elevados. Hely assim o fez e ficou ao lado de JK por vinte minutos. Eu tenho grande tristeza por não haver nenhum fotógrafo que registrasse esse momento, pois eu beijaria os pés do Presidente e ergueria as mãos para o céu , por tudo o que ele fez ao concretizar a Nova Capital”, relembra Hely e , complementa dizendo, que , sua diretoria na época, era composta por grandes nomes como : João Scarano e Cléo Octávio, e que tem muito orgulho por ter plantado mais de 1.000 árvores no terreno que até hoje, é sede do Iate. “Tenho verdadeira adoração por Brasília, foi aqui que desenvolvi toda a minha vida financeira e intelectual. Ocupei diversos cargos , sou um

que forem eleitos , enquanto estiver vivo. Hely fará 94 anos em 2019, totalmente lúcido e saudável e afirma que pretende continuar trabalhando até quando Deus quiser, mas que a Pioneira da Borracha é o legado que deixará para filhos, netos e bisnetos darem continuidade.


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“circunstâncias da vida” da oficina ao Teatro. A vida cheia de nuances do paulista que transformou sua oficina mecânica em um marco da cultura cênica brasiliense. Por Glaucia Chaves À primeira vista, a oficina de José Perdiz é como outra qualquer: peças automotivas e ferramentas expostas, carros à espera de conserto, graxa e pneus por todos os lados. Uma discreta porta ao lado da entrada, contudo, revela o detalhe inusitado do empreendimento. Com capacidade para cerca de 70 pessoas, o Teatro Oficina Perdiz é, desde 1975, um dos pontos mais disruptivos da cultura brasiliense. “Sempre fui meio rebelde”, conta, entre risos, o mecânico que já viveu diversas vidas em uma só. O bicho do teatro mordeu Perdiz pela primeira vez em um circo. Ao fim da apresentação, Perdiz estava irremediavelmente apaixonado. “Nunca mais esqueci”, comenta. Antes de consertar carros e organizar espetáculos, Perdiz foi membro da Juventude Comunista, garapeiro, ajudante de caminhão, trabalhador de olaria, de siderúrgica, de fábrica de tecido, marceneiro, fazendeiro, ferreiro, operário, sorveteiro, cenógrafo e até modelo fotográfico. “Queria ser agricultor, mas formado. Mas não consegui aprender a ler, aí não deu”, relembra. Aos 87 anos e com tantas experiências no currículo, Perdiz resume o que aprendeu em uma lição simples: qualquer profissão que se assuma, seja por necessidade ou circunstância, deve ser cumprida com perfeição. Ele chegou à Brasília há quase seis décadas por “puro acaso”, como gosta de frisar. Nasceu em São Paulo, perto de Ribeirão Preto, onde viveu até os oito anos de idade. Depois, sua família mudou-se para Araguari, em Minas Gerais, em busca de melhores condições de vida. Já adulto, morou em Belo Horizonte antes de chegar à capital. Fruto de uma união entre um pai distante e violento e uma mãe submissa, José precisou contar com a própria auto-suficiência desde cedo. Aos 14 anos, após uma das muitas surras que levou do pai, decidiu sair de casa e tomar seu próprio rumo. Começava, então, sua estrada cheia de curvas, lombadas e buracos causados pelas tais “circunstâncias da vida”. Assim que deixou a casa dos pais, procurou abrigo e emprego em uma fazenda próxima. Pouco tempo depois, conheceu o comunismo por meio de um primo, que o convidou para uma reunião do partido.

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“Perguntei se não teria problema um semianalfabeto participar, mas, como ele disse que não, fui. Me identifiquei com as coisas que estavam falando e me filiei.” A teoria do marxismo foi transmitida a Perdiz por um colega, que conheceu quando trabalhava em uma estrada de ferro. Desde então, preocupações acerca das relações de classe e conflito social passaram a fazer parte da filosofia de vida de Perdiz. “O único sofrimento que eu tenho é problema social”, reforça, e explica: “Se ‘tem’ só cem cabeças para usar chapéu, então faça só cem chapéus. Ele [Karl Marx] era totalmente contra o consumismo. E o capitalismo não pode viver sem o consumismo”. Na juventude, Perdiz foi um militante ativo e intenso. Quase foi preso ao menos duas vezes: ao ser pego repassando “O jornal do povo”, um jornal comunista, em uma feira de legumes e ao peitar soldados do exército, que tentavam impedir os funcionários da fábrica a cantarem músicas de carnaval no ônibus que os levava para o trabalho. Do marxismo, sobrou a crença inabalável na “dignidade do trabalho”, como Perdiz mesmo define. “Se a pessoa não tem função, fica frustrada. Todo mundo fala em direitos, mas poucas pessoas estão falando em deveres.” Ao ser dispensado pelo partido comunista, em 1962, Perdiz pediu carona até chegar em Brasília. Arrumou emprego e teto em uma loja, na Asa Norte. Em 1969, abriu sua primeira oficina na 708/709 Norte, possuindo apenas um martelo, uma talhadeira e meia dúzia de ferramentas. Trabalhava de 6h30 até a meia-noite, de segunda à sexta. Aos sábados tocava até às 22h e, aos domingos, fechava as portas às 16h. “Cheguei a ter 86 funcionários registrados em carteira”, orgulha-se.

Da graxa ao palco A oficina de Perdiz começou seu processo de tornar-se também teatro em meados da década de 1970. Com seus grandes olhos azuis marejados de saudade, ele conta que tudo começou graças a uma festa. “O sobrinho da minha esposa, Ivan, precisava de um lugar para reunir os amigos do teatro e perguntou se poderia usar a oficina emprestada”, relembra. Ivan morava a pouco


José Perdiz

Serviço Teatro Oficina Perdiz: Asa Norte SCLRN 710 Bloco E (61)3273-2364 Instagram: @Perdiz.teatrooficina

tempo em Brasília quando descobriu o teatro, passou a estudar artes cênicas na Faculdade Dulcina de Moraes e, rapidamente, sequestrou Perdiz para o mundo cênico. O encontro era, na verdade, a formatura de Ivan em artes cênicas. Depois da festa, a turma passou a ensaiar na oficina, transformando o espaço em um embrião artístico do que viria a seguir. Em 1980, Mangueira Diniz, diretor de teatro e amigo de Perdiz, manifestou sua vontade de realizar um projeto audacioso: queria encenar na oficina uma adaptação da peça Esperando Godot, de Samuel Beckett. “Onde o público vai sentar?”, perguntou Perdiz, confuso por ter sido pego de surpresa, mas já pressentindo o espírito faça-você-mesmo que marcaria o futuro Teatro Oficina Perdiz. Deram um jeito de arrumar dinheiro para comprar tábuas e, com as próprias mãos, Perdiz construiu a arquibancada do auditório — que só ficou pronto vinte minutos após o horário marcado para o início do espetáculo “Tinha quinze dias que o Ivan me perguntava que horas eu iria começar a fazer as arquibancadas”, relembra Perdiz. “Eu só ria e respondia: ‘vocês são muito apavorados, vai dar tempo’. E deu.” Nem a mais otimista das criaturas poderia prever o futuro promissor do teatro-oficina. O espetáculo foi um sucesso, permanecendo em cartaz por nada menos que três meses com a casa cheia. Na década de 1990, a plateia do teatro chegou a receber mais de 7.500 pessoas — entre eles Stênio Garcia, Guilherme Karan, Françoise Forton e Lucinha Lins. Nessa época, a adaptação de Bella Ciau, de Luís Alberto Abreu, foi eleita a melhor da temporada pela Associação dos Produtores de Artes Cênicas (Apac), tornandose um marco na história do teatro brasiliense. O espaço recebeu, além dos espetáculos, performances de dança, lançamento de revista e excursões de belas artes. “Foi um sufoco dos diabos”, relembra Perdiz. Tudo corria bem até que, em 2002, o Ministério Público do Distrito

Federal e Territórios passou a investigar o teatro, sob a alegação de que o empreendimento funcionava em área pública. Para piorar, obras do estabelecimento vizinho danificaram o telhado do prédio. Os bombeiros condenaram a estrutura do local, o que inviabilizou qualquer apresentação. A cereja do bolo veio quando a Administração Regional de Brasília proibiu as arquibancadas, já que o endereço não seria “destinado ao teatro”. Após muito estresse e discussão, Perdiz resolveu o impasse em 2015, mudando a sede da oficina-teatro para a 710 Norte. Além da classe artística em peso, a reinauguração contou com presenças de personalidades importantes, como o então governador Rodrigo Rollemberg. Em 2016, a história da oficina foi contada no documentário Oficina Perdiz, de Marcelo Díaz. A lista de prêmios do filme impressiona: Troféu Candango de Melhor Curta 35mm do DF no 39° Festival de Brasília; Prêmio Centro Técnico Audiovisual da Secretaria Especial da Cultura (CTAV/MinC); Prêmio de Melhor Roteiro no Curta Canoa (2007) e o Prêmio ABDeC da Mostra Internacional do Filme Etnográfico (2007) são algumas das premiações mais importantes. De quebra, o curta participou de mais de 40 festivais e mostras nacionais e internacionais, ficando, ainda, entre os dez mais votados pelo público no Festival Internacional de Curtas São Paulo, em 2007. Atualmente, o teatro está sob o comando de Júlia, 27 anos, filha de Perdiz e estudante de artes cênicas. É ela quem marca e organiza ensaios, espetáculos, aulas de teatro e oficinas, além de postar as novidades do espaço nas redes sociais. “Todo mundo sempre ficou curioso de ver um semi-analfabeto, mecânico, metido com teatro. As pessoas acham que uma coisa não tem a ver com a outra, mas tem”, relembra Perdiz. “Foram as circunstâncias da vida que me puxaram para cá, para uma coisa que eu sempre amei, que foi o teatro. Tudo está interligado.”


Mário Jampaulo comemora solidez e anuncia serviço emergencial “Tenho muito orgulho de fazer uma medicina de excelência” Por Luiza Frazão

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Serviço Viva Oftalmologia Asa Sul SGAS 616 Av. L2 Sul Conj A Bloco C - Salas 201/11 (61)3246-5555

A frente do centro clínico Viva Oftalmologia, o médico Mário Jampaulo comemora ótimos resultados e conta como se tornou referência em consultas, exames e procedimentos cirúrgicos no Distrito Federal, com serviço de atendimento emergencial, das 7h às 22h. “Tenho muito orgulho de fazer uma medicina de excelência”, afirma. Com apenas dois anos de funcionamento, a clínica Viva Oftalmologia se consolidou no mercado de Saúde do DF e hoje vê ampliada sua estrutura física e corpo clínico de seis para 35 profissionais, sendo dez médicos e 25 colaboradores diretos. Localizada na Asa Sul, próxima ao Aeroporto Internacional de Brasília e um dos principais pólos hospitalares da cidade, o empreendimento se posiciona como referência em atendimento personalizado para crianças, adultos e idosos. De acordo com o oftalmologista Mário Jampaulo, 42 anos, o sucesso diz respeito ao constante investimento tecnológico, humano e técnico. Além de equipamentos de última geração que possibilitam diagnósticos e tratamentos precisos, desde exames de imagem a cirurgias à laser, a Viva Oftalmologia tem como diferencial a capacitação humanizada de seus profissionais. “Me dá um conforto e uma segurança muito grande saber que eu estou fazendo uma medicina de excelência e proporcionando um centro cirúrgico que além de ser muito acolhedor e humano, possui a tecnologia que poucos podem imaginar”, afirma. “O avanço é algo extraordinário dentro da Oftalmologia, isso me dá uma satisfação enorme. É fantástico poder ver o seu paciente se recuperar e sair enxergando bem, enxergando novamente. Não tem preço, isso é maravilhoso”, completa.

responsável pela conquista, que teve início nessa segunda. “Se posicionar com excelência no mercado empresarial exige envolvimento e fôlego”, avalia. Outros fatores importantes destacados pelo médico de renome são o compromisso e a dedicação de sua equipe, a chamada equipe MaraViva, e a gestão humanizada e de excelência desempenhada por sua esposa e também médica oftalmologista Danielle Jampaulo, responsável técnica da clínica. “A nossa gestão é horizontalizada. A Dani é muito próxima de todos, então, a equipe é muito unida, como uma família, e eles (funcionários e colaboradores) se doam à clínica, no sentido de cuidar de quem está aqui dentro. Nossa equipe MaraViva tem uma sintonia incrível!”, elogia. Nascido em Campo Grande (SP), Mário Jampaulo cresceu em Uberlândia (MG) e mudou-se para Brasília para fazer residência médica. Aqui, ele se encantou pela cidade, fez especialização na Califórnia (EUA) e mais tarde retornou para fincar raízes. Com pais ginecologistas, ele conta que sempre quis se tornar médico, mas admite que não foi fácil deixar de seguir a mesma trajetória profissional de seus maiores inspiradores. Para ele, ser oftalmologista em Brasília significa se orgulhar de fazer parte de uma das equipes profissionais mais reconhecidas do país. E deixa um recado especial aos colegas de profissão: “Deixo os meus cumprimentos, respeito e carinho a todos aqueles que fazem com que a oftalmologia de Brasília trabalhe de forma bem alinhada, mantendo uma conduta ética, e profissional. Meus parabéns aos colegas oftalmologistas e que a gente faça um trabalho bem feito, honrado, ético, protocolar e humano para que a nossa oftalmologia se destaque cada vez mais no mercado nacional e internacional também!”.

Atendimento emergencial Novidade anunciada em primeira mão ao site 61 Brasília, o mais novo investimento da Viva Oftalmologia é o atendimento de emergência de segunda a domingo, das 7h às 22h. De acordo com Jampaulo, a maturidade profissional foi a grande

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