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Segunda vida

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ova, mas de segunda mão. Em Enschede, Holanda, um escritório de arquitetura construiu uma casa com 60% de materiais reciclados. O que, à primeira vista, é uma casa como outra qualquer, na verdade, pode ser um marco arquitetônico moderno, provando que construções sustentáveis não precisam exibir-se como tal, nem devem merecer apenas o rótulo de “conceituais”. O nome da casa é Villa Welpeloo; possui dois andares, 300m² de área. Assinado pelo escritório holandês 2012 Architecten — dos sócios Césare Peeren, Jeroen Bergsma e Jan Jongert —, o projeto tem a importância de algo sustentável, construído em 2009 para ser permanente. Não é um objeto temporário, nem apenas decoração. Não é moda, tendência. A estrutura principal foi feita com perfis de aço, que anteriormente fizeram parte de uma máquina usada em produção têxtil, uma indústria outrora muito importante na região de Enschede. Nas fachadas principais, foram usadas madeiras de segunda mão, mais precisamente, ripas de madeira coletadas de 600 bobinas usadas para enrolar cabos. No telhado e na maior parte do piso, tábuas de madeira reaproveitadas. O material de isolamento veio de um prédio comercial demolido na vizinhança. Primeiramente, uma camada de EPS, seguida por três camadas de lã de vidro com lâmina reflexiva. Isso garantiu um nível maior de isolamento do que o padrão oficial. 22 maio 2010

O elevador escolhido foi um de segunda mão, do tipo usado em construção. As instalações de luz, feitas com partes de guarda-chuvas quebrados. E, talvez, o mais inusitado de tudo: nos banheiros, o acabamento das paredes e do piso foi produzido com copos plásticos de café comprimidos. Segundo os arquitetos, o ganho ambiental — redução na emissão de CO2, incluindo transporte e processamento —, graças à utilização desses materiais reciclados, é enorme. Em relação ao revestimento, se compararmos a emissão de CO2 na Villa Welpeloo e em uma obra com um revestimento de madeira simples, mas novo, na Villa, houve uma redução de 85% na emissão, de acordo com os sócios. No que se refere à construção em aço, 95% de redução comparado a uma construção similar com aço novo, segundo eles. Novo em folha — Com tantos reciclados, fica a curiosidade: o que foi novinho em folha para a Villa? Todos os parafusos, as instalações técnicas, o estuque e o concreto da fundação. “Em construções, é muito difícil atingir 100% de reutilização. Em alguns casos, o reuso é impossível ou sem sentido”, diz Bergsma. Para o fotógrafo Allard van der Hoek, a casa parece adaptada à vizinhança, algo que, na opinião dele, não acontece com a maioria dos edifícios novos, que precisam de algum tempo para serem integrados ao lugar. “Vi a fachada em madeira desgastada como a pele de pessoas idosas”, compara.


Contudo, segundo van der Hoek, não se trata de “arquitetura alternativa” óbvia. “A reutilização dos materiais não é claramente visível em todos os lugares, o que para alguns será visto como uma grande qualidade, enquanto outros podem achar isso uma oportunidade perdida”, analisa o fotógrafo. A respeito do seu orçamento, a Villa Welpeloo custou aproximadamente 800.000 euros. Uma casa similar, construída com materiais novos, custaria 900.000 euros. “Economizar dinheiro tinha importância secundária; o objetivo era economizar energia”, analisa Jongert. Filosofia — Muito mais do que uma casa, Peeren, Bergsma e Jongert desenvolveram um conceito e um método construtivo (“Superuse Concept and Method”): sempre que possível, usar sucata, encontrada em áreas industriais próximas ao local da construção, para que as emissões de CO2 durante o transporte sejam mantidas a um nível mínimo. Abastecimento local é a chave e eles fazem este tipo de busca. “Nós usamos uma lista da Câmara de Comércio para fazer uma avaliação do tipo de sucata industrial que nós pode-

mos encontrar em uma determinada região”, conta Peeren, acrescentando que a Villa Welpeloo foi a primeira casa criada pelo escritório seguindo o “Superuse Concept and Method”. E os arquitetos criaram também o “Superuse Relevancy Factor”, usado para descrever a relação entre a quantidade de energia que tem que ser acrescentada para reutilizar um produto, incluindo um processo de preservação e o transporte do local da coleta para o local da construção, e a quantidade original de energia associada com a sua produção. Às vezes, eles descobrem que terão que gastar muita energia para reutilizar o material, não valendo a pena, já que o propósito de tudo é a preservação do ambiente. Sobre próximos projetos, os sócios sonham expandir o conceito e o método “Superuse”. “Há 15 anos, começamos a construir pequenas instalações, principalmente para convencer as pessoas, e nós mesmos, que a nossa abordagem podia funcionar. Hoje em dia, grandes empresas já acreditam que é possível criar edifícios bonitos e funcionais reaproveitando materiais encontrados na vizinhança”, finaliza Bergsma. n

Fotos de Allard van der Hoek

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Villa Welpeloo


Second life

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ew, but second-hand. In Enschede, in the Netherlands, an architectural firm has built a house with 60 percent of recycled materials. What at first glance is a house like any other, actually, can be a modern architectural landmark, proving that sustainable buildings do not need to exhibit themselves as such, neither should only deserve the “conceptual” label. The name of the house is Villa Welpeloo. It has two floors, 300 square meters. Signed by Dutch office 2012 Architecten — Césare Peeren, Jeroen Bergsma, and Jan Jongert are the partners —, the project has the importance of something sustainable, built in 2009 to be permanent. It’s not a temporary object, nor just decoration. Not fashion, trend. The main structure was made out of steel profiles that previously were part of a machine used in textile production, an industry once very important in the region. In the main façades, second-hand wood was used, more precisely wooden slats collected from 600 reels, used to roll cables. In the roof and in the majority of the floor, reused timbers. The insulation material came from a demolished office building in the neighborhood. First, a layer of EPS, followed by three layers of glass wool with reflective blade. This ensured a greater level of insulation than the official standard. The chosen elevator — the kind used in construction — was second-hand. The light fixtures, made of parts of broken 24 maio 2010

umbrellas. And perhaps the most unusual of all: in the bathrooms, the finishing of the walls and the floor was made of compressed plastic coffee cups. According to the architects, the environmental gain — reduction in CO2 emission, including transport and processing — is enormous, thanks to the use of recycled materials. In terms of cladding, comparing the emission of CO2 in Villa Welpeloo and in a building made of simple but new wood, in Villa Welpeloo, there was an 85% reduction in emission, according to the partners. With regard to steel construction, 95% reduction compared to a similar construction made of new steel, they say. Brand-new — With so many recycled materials, what was brand-new in Villa Welpeloo? The technical installations, all the screws, plaster, and the concrete of the foundation. “A hundred percent reuse in a building is very difficult to achieve. In some cases, reuse is impossible or meaningless”, says Bergsma. To Allard van der Hoek, the house seems to be “selfconfident” and adapted to the neighborhood, something that, in the photographer’s opinion, doesn’t occur with the majority of new buildings, which need some time to be integrated to their place. “I saw the worn-out wooden façade like the skin of old people”, he compares.


However, according to van der Hoek, it is not obvious “alternative architecture”. “The reuse of materials is not clearly visible everywhere, which for some will be seen as a great quality whereas others may find this a missed opportunity”, analyzes the photographer. Regarding the budget, Villa Welpeloo costed about 800,000 euros. A similar house, built with new materials, would cost 900,000 euros. “Saving money was of secondary importance; the objective was to save energy”, says Jongert. Philosophy — Much more than a house, Peeren, Bergsma, and Jongert have developed a concept and a method: whenever possible, using scrap found in industrial areas near the construction site, so that CO2 emissions are kept to a minimum during transport.

Relevancy Factor” to describe the relationship between the amount of energy that must be added to reuse a waste product, including a preservation process and the transport from the harvest location to the building site, and the original amount of energy associated with its production. Sometimes they find that they will have to spend too much energy to reuse the material, not worth having, since the purpose of it all is the preservation of the environment. Now they dream about expanding their concept and method. “Fifteen years ago we started building installations, mainly to convince people, and us, that our approach could work. Today, big companies already believe that it is possible to create buildings reusing materials found in the neighborhood”, concludes Bergsma. n

Photos by Allard van der Hoek

“We use a list from the Chamber of Commerce to make an assessment of the type of industrial waste we can find in a particular area”, tells Peeren, adding that Villa Welpeloo was the first house created by them with “Superuse Concept and Method”. And the three architects have also created the “Superuse

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2010 Escala  

Publication about Villa Welpeloo

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