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Confortavelmente entorpecido1

Hello, Is there anybody in there? Just nod if you can hear me Is there anyone at home? (…) When I was a child I caught a fleeting glimpse Out of the corner of my eye I turned to look but it was gone I cannot put my finger on it now The child is grown The dream is gone And I have become Comfortably numb.2

David Jon Gilmour e Roger Waters

Um conjunto de imagens que parece nos apontar, diretamente, para o acúmulo é o que nos aguarda e nos acolhe na proposição de Flávia Junqueira, em A Casa em festa. De imediato, temos a possibilidade de percepção do confronto entre os objetos do cotidiano e os elementos mimetizados: a composição das imagens a partir do acúmulo, e da justaposição destes objetos – nas fotografias – bem como de imagens de objetos – nas colagens – potencializam a sensação de estranhamento, de algo que apesar de parecer, não é o que parece. O processo de mimetização, deliberado, é utilizado, na construção das imagens, como forma de escamotear a relação habitual e cotidiana com o espaço, e com os objetos, propondo-se a, pela repetição, acúmulo ou mesmo pelo excesso nos cativar e envolver na atmosfera frequentemente aconchegante e convidativa, da casa e, em particular, da festa: momento de comemoração, de alegria e de felicidade. Este sentimento generalizado, em relação ao lugar e ao momento específico – o da festa – é reforçado pela presença dos objetos que estão presentes no dia-a-dia de cada um de nós, e que habitam nossas memórias infantis, quando nos referimos aos balões, aos brinquedos, aos objetos, à decoração, à indumentária e, principalmente, ao ‘clima festivo’ que elas evocam. Desde a série de imagens intituladas Na companhia dos objetos há algo presente e que deve ser pensado como interesse nas discussões de Flávia Junqueira: os acúmulos e amontoamentos, manifestos pelos empilhamentos, pelas justaposições e sobreposições, de objetos lúdicos, e de referência explícita ao universo e ao imaginário infantil. Em suas distintas séries ela indaga e nos propõe refletir sobre os sentidos da memória e alguns elementos deste imaginário, assim, a melancolia da infância, a imaginação como fonte geradora da realidade do absurdo, o realismo fantasioso são, entre outros, pontos relevantes para a construção de suas imagens fotográficas. As construções, e as relações por elas propostas, acentuam-se – agora ainda mais identificadas como excesso - em A Casa em festa, ainda que, nas séries mencionadas, não se trata de, simplesmente, operar no sentido de exaltar ou referenciar a ideia de coleção, seja ela da perspectiva de um colecionador apaixonado, ou de um ‘documentador’ da produção material de um determinado momento, Ao contrário disto, trata-se de insinuar, ou melhor, de apontar a relação sentimental que estabelecemos, individualmente, com os objetos, e que estão – frequentemente - dominadas pelo sentimento da posse e que são exploradas, por Flávia, para além da existência física deles e de suas características morfológicas, ou de uso, criando uma atmosfera de deslocamento, e de permanente estranhamento. Silenciosamente – e, ainda que aparentemente contraditório, este silêncio é outro denominador comum das imagens - os objetos são articulados e manipulados para criar cenários, em meio a um espaço conhecido, o da casa, e com isto permitir encenações, uma vez que não se trata de documentação dos espaços físicos e habituais de uma possível casa, ou lugar habitual de moradia, mas sim de possibilidades, nestas configurações apresentadas pelas imagens, para a reflexão proposta, acerca do desejo de explorar e


buscar compreender nossas relações com os objetos e sua posse, algo que pode se tornar, até mesmo doentio. Temos assim, o uso dos objetos de forma a acentuar uma carga que a eles pode ser atribuída, algo que os insere em uma categoria deslocada de funcionalidades específicas, ou pelo uso e, no caso de A Casa em Festa, ter que pensá-los, também, como o resto, como a sobra, como o detrito a indicar seu estado de existência anterior. A casa é o espaço escolhido e recortado de um universo mais amplo, ela é o lugar do “residir”, não mais apenas definido pela relação com o espaço físico a que se atribui o sentido de moradia, de lar e de residência, para constituir-se em um estado, para abrir-se e “achar-se”, em uma condição e, em “consistir” em algo, portanto, deve-se pensar em um sentido mais amplo, para ela: o de possibilidade. No início a casa era vista e trabalhada como o ambiente doméstico, mantidas suas características originais e a distinção entre as primeiras imagens, nas quais os objetos estavam na casa e são a memória desta, integram o ambiente e constituem-se no que havia na casa, o que representavam, mesmo que deslocados e ‘acumulados’ em um articulação distinta de sua ordem natural na organização da vida cotidiana e a articulação proposta nas imagens de A Casa em festa, ou a casa como resultado do sonho, e do desejo, agora como que a buscar uma memória distinta, uma referência, na qual, a festa é forma de vestir, de decorar, é um artifício para a construção de uma nova casa, à partir de uma memória imaginada, de uma memória forjada para a realização desta relação com o espaço. Nesta nova ‘memória’ da casa é a imaginação quem domina e a festa é uma forma de alterar, de transformar; mas a festa acaba e os sinais são mais do que simples indícios: o confete pisado espalhado e amontoado pelo chão, o boneco que já foi algo além de uma simples roupa, as bexigas murchas, a vela apagada, tudo dura pouco e se acaba, tudo na festa acaba rápido. Todos os elementos constitutivos da imagem acentuam a relação de perda - dos objetos, das relações, dos sentimentos, das situações – e, mais do que o sentimento de nostalgia que poderia advir desta perda, parecem apontar para um estado de melancolia, constante, insuperável e do qual podemos tentar escapar, mas nem sempre conseguiremos fugir. As imagens – fotografias e colagens – propõem que reflitamos sobre esta condição, e o processo necessário à sua produção se mantém presente – parte da ironia inerente ao trabalho – por intermédio da instalação que integra a exposição, para a qual que será necessário realizar uma manutenção constante, garantindo-lhe uma sobrevida, um prolongamento, na verdade, de seu ‘estado de vida’. Neste sentido seus elementos irão, pouco a pouco, se desfazendo, como uma maquiagem depois do espetáculo, que revela a melancolia do ator que viveu, momentaneamente, o personagem, mas que, como todo ‘espetáculo’, incluindo o da vida, deve continuar e, para isto, uma condição deve ser criada - e a festa representa, mas não é – essa possibilidade.

1. A partir do título da canção Comfortably Numb, do álbum The Wall, Pink Floyd, de 1979. 2. Livre tradução: Olá? Tem alguém aí? Apenas acene se puder me ouvir Tem alguém em casa? (...) Quando eu era criança tive uma visão fugaz Pelo canto do olho Eu virei para olhar mas tinha sumido Eu não pude tocar na ferida A criança cresceu O sonho se foi E eu me tornei Confortavelmente entorpecido

Marcos Moraes julho 2010


Comfortably numb1 A set of images that seems to directly point out to us its wholeness, is what awaits us and embraces us in Flavia Junqueira´s proposition of A casa em festa. At sudden point, we are able to perceive the conflict between daily objects and mimicked elements: the composition of accumulated images, and the juxtapositioning of these objects – in photographs – as in images of the objects – in collages – potentialize a feeling of strangeness, of something that although may appear to be, it is not what it seems. The mimicry process is deliberately used in the construction of images as a mean to obscure the daily and usual relationship between objects and space, proposing, through repetition, accumulation, or even excess, to captivate us and involve us in an usually comforting and inviting atmosphere of the house and, in particular, of the party: a moment of commemoration, of joy and happiness. This generalized feeling, in relation to the place and to the specific moment – that of the party – is reinforced by the presence of objects that are present in our everyday lives, and that inhabit our childhood memories, when we refer to the balloons, the toys, the objects, the decoration, the apparel and, above all, the “festive mood” which these evoke. From the series of images entitled Na companhia dos objetos there is something present which is of interest in the dicussions of Flávia Junqueira: the accumulation and assembling, manifested by the piling up, by the juxtapositions and overlapping of lucid objects, and of explicit reference to the child universe and the imaginary. In her distinct series she searches for, and proposes us to reflect upon the sense of memory and upon some elements of the imaginary, and thus, the childhood melancholy, the imagination as a generating source of the reality of the absurd, and the fantacious realism are, among others, relevant points for the construction of her photographic images. The constructions, and the relations proposed by them, are accented – now even more identified as excess – in A casa em festa, despite that in the mentioned series it is not simply about operating in the sense of exalting or referencing the idea of a collection, be it from a passionate collector´s perspective, or of a “documentator”of the material production of a determinate moment. On the contrary, it is about insinuating, or better yet, pointing out, the sentimental relationship we establish, individually, with the objects, and that are frequently dominated by a feeling of possession. This is explored by Flávia, beyond the physical existence and the morphological characteristics of these objects, or of their use, creating an atmosphere of displacement and permanent unfamiliarity. Silently – and, although apparently contradictory, this silence is another common denominator of the images – the objects are articulated and manipulated to create scenarios, in midst of a familiar space, that of the house, and thus permitting simulations. It is not a documentation of the physical and habitual space of a possible house or place of living, but of possibilities in these configurations presented by images, for a proposed reflection upon the desire to explore and to seek an understanding of our relationship to objects and their possession, something that can become, even, sickening. We thus have a use of objects accentuating a load that can be attributed to them, something that inserts them in a category dislocated of specific functionalities or by use and, in the case of A casa em festa, have them thought of as, also, as the rest, the remainder, as debris, indicating their previous state of existence. The house is the chosen space, cut out of a more ample universe, it is a place for “residing”, no longer defined only by the relationship with the physical space to which is attributed the sense of inhabitance, of home and of residence, to constitute itself in a state, to open itself up and find itself in a condition and, in consisting of something, therefore, it must be thought of in a broader sense, to her: That of possibility. At the beginning the house was seen as and worked as the domestic environment, mainitaining its original characteristics and the distinction between the first images, in which the objects were in the house and are its memories, they integrate the environment and consist of what was in it, what they represent, even if dislocated and accumulated in a distinct articulation of its natural order in the organization of daily life and the articulation proposed in the images of A casa em festa, or the house as a result of a dream, and of the desire, now as if in search of a distinct memory, a reference, in which the party is a way of dressing, of decorating, it is an artifice for the construction of a new house, stemming from an imaginated memory, from a memory forged in order to accomplish this relationship with the space. In this new “memory” of the house it is the imagination which dominates and the party is a way to alter, to transform; but the party ends and the signs are more than mere indications: the stepped on, spread out and piled up confetti on the floor, the doll that was once something more than just rags, the popped balloons, the blown out candle, everything lasts so little and ends, everything at the party ends quickly. All of the image´s constitutive elements accentuate a connection to loss – of the objects, of the relationships, of the feeling, of the situations – and, more than the feeling of homesickness this loss, seems to point to a constant and unbearable state of melancholy, of the kind that we may try to escape from, but will not always be able to. The images - photographs and collages - propose us to reflect upon this condition, and the process necessary for its production remains present - part of the irony inherent in the work - through the installation that integrates the exhibition, one which it will be necessary to undergo constant maintenance, guaranteeing its survival, its prolongation, really, its “state of life”. In this sense, its elements will, bit by bit, unweave themselves, like the make-up after a spectacle, that reveals the melancholy of an actor who, for a moment, lived the character, but like every “spectacle”, including the spectacle of life, must go on and, for that, a condition must be created – and the party represents, but it is not – this possibility. Original Text by Marcos Moraes Translated by Nathalie Hlebanja Beltran July 2010 1. From the song entitled Comfortably Numb, of the album The Wall, Pink Floyd, 1979.


ira Flávia Junque sil [Brazil] sil [Brazil], 1985 São Paulo, Bra ] in ks São Paulo, Bra or w d em [lives an Vive e trabalha cation] Formação [Edu 2010 [Brazil] o Paulo, Brasil PIESP. Escola Sã

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Flávia Junqueira | A Casa em Festa  

Catálogo da exposição 'A Casa em Festa' de Flávia Junqueira realizada na Zipper Galeria | De 11 de Setembro a 19 de Outubro, 2010