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Preparar apontar shout!

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PREPARAR... APONTAR... SHOUT!

Wellington Vinícius Fochetto Junior

Shout, do Tears for Fears, baseia-se num clima de tensão. E eu vou tentar não lançar mão de meus cacoetes (risos) semiótico-academicistas (o meu leitor que me perdoe por essa minha cacoetagem disfarçada; tu, pessoa atenta aos meus textos, entenderá, por bem, que isso é meio como uma característica sui generis a mim; antes de ser uma qualidade ou defeito, é claro). Mas que o clima de Shout é (in)tenso, ah, isso é mesmo. Senão, vejamos.

• A canção começa com batidas ritmadas em pratos de bateria e um triângulo. A escolha por essa entrada, ao que me parece, é um tipo de anunciação do que

virá. Na sequência dois outros instrumentos de percussão aparecem. A introdução, absoluta – a que insere o baixo sustentado por três acordes – aponta para um clima de mistério e estranhamento que permeia a canção.

• “Shout! Shout!”, canta Roland Orzabal, como quem aconselha alguém a gritar, a soltar a voz. Tem início uma dos maiores – e mais expressivos – sucessos da música pop dos anos 1980. Mas não é exatamente sobre música pop que eu me presto a falar aqui. Não.

Boa marcação a da linha do baixo. Principalmente quando ele assume um tom – efeito – do que alguns músicos ingleses chamam de trem (abreviatura de tremulus) – trêmulo, como que simbolizasse um elemento que, aos poucos, vai tomando parte, infiltrando-se, taking place, ou, numa tradução ao pé da letra, “tomando lugar”, como acabo de dizer. Com efeito, a tradução correta do termo é “ocorrer”.

Tem-se a impressão de, pela batida que contorna a canção em grande parte de sua extensão, de tratar-se de um tipo de fuga. Súbito, assim, de imediato mesmo, eu arriscaria dizer que, no casamento entre letra e música, há uma espécie de busca pelo turno, pelo direito no discurso, pela vez dos oprimidos de falarem (ou de


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