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“No próximo ponto, por favor, motorista.” Há umas duas horas eu passei pela avenida que leva à casa onde tu moraste por anos, até se casar. A avenida parece ter sofrido significativas modificações – alterações estas que também parecem ter afetado a aparência de alguns imóveis. Com efeito, é o que se nota. Lembrei-me de alguns momentos de minha vida, diga-se de passagem (aliás “de passagem” estamos todos nós por aqui, não, nobre e antigo amigo de fé, irmão camarada?) A tonalidade negra do chão – aquele asfalto que parece refletir as noites sem fim, se é que você me entende, por mais subjetivo que eu possa “soar” – quiçá confere um tom mais sério e sóbrio, quase chic, ao caminho que


por ventura trilhei. Dirigi-me com destino a certa escola municipal em que tomarei posse em breve. Longe de minha casa, parece um novo ponto, uma nova vida que se apresenta a mim. (De fato, quão novo é o novo, Nobre Amigo?) Subidas e descidas: altos e baixos de um caminho tão distante. Estaremos rumo a um “'Bravo Novo Mundo' em nosso Bravo Mundo Novo”? A resposta – uma entre tantas outras – parece vir sob a forma de possibilidades que se apresentam de inúmeras formas em nossa vida. De determinado ponto avista-se, lá de cima, a construção (meio “crua”) do tal do Rodoanel (argh! Coisa horrível este regresso progressivo). Há um certo aspecto bucólico, rural, se assim posso dizer de parte do caminho.


Na volta, ao passar pela esquina da Eurico Sodré, há uma casa que parece estar resistindo ao tempo. Em ruínas, parece peitar “Cronos”, perante os sóis e as chuvas. Encontrei uma criança de pele escura – qual indivíduo da etnia indiana –, do sexo feminino e cabelos negros compridos, meio maltratados, envolta num pano azul cobalto. Trocamos olhares – sem maldade, é claro –, ou seja, nos olhamos por um tempo. Senti algo de “é, moço, é a vida; mas não me olhe tanto assim porque estou me sentindo meio envergonhada, haja vista que você é um estranho a mim, tá?”. Nada demais – “nada demais”? Como “nada demais”? É, Velho Amigo, quando eu disse “nada demais” queria completar, dizendo “Nada demais, exceto pelo fato de que, antes de avistar a criança, eu


trazia, comigo, o conceito de “La Clef des Champs”, de Magritte. Pintura que, conforme Izidoro Blikstein, em seu “Kasper Hauser ou a Fabricação da Realidade”, representa uma visão de mundo desprovida de preconceitos. Já em posse desta observação, deste pensamento somado a visão da menina – cuja beleza de seu rosto também parecia resistir, de forma persistente e corajosa, contrastando com as ruínas do imóvel em que ela por ventura mora, talvez desde que haja nascido. Amado, essa foi uma das fotografias mentais que mais me marcaram em minha vida, seja porque é uma fotografia mental, seja porque atribuo um sentido simbólico, fantástico se assim posso dizer, à imagem da menina, que mais parecia pertencer a um filme do porte de um “The Wall”, de Alan


Parker (1982). Seria interessante dizer que, desde minha passagem a partir da esquina de meu falecido tio Calegari, comecei a notar a diferença no estado da avenida; bem como imaginei que deveria, portanto, escrever esta carta a ti. Porque tua amizade me é cara. Porque a gente ainda se fala, ainda que só quanto o tempo nos permite, é claro. E – mais que tudo –, porque tenho em ti um amigo a quem valha a pena investir meu tempo para escrever uma carta e dar a ela um tratamento gráfico como este em que ela se apresenta (dividida entre duas colunas). (Se eu for explicar o porquê das duas colunas, levaria mais tempo do que deveria. Mas posso tentar abreviar. Então, vejamos: um filósofo a quem tenho muita admiração – Jacques Derrida – usou as duas


colunas em “Margens da Filosofia” e “Glas”. Posso dizer que este é o motivo maior para eu fazê-lo nesta carta eletrônica que envio a ti. É claro que há um motivo secundário – porém, não menos importante. Elas representam um aperto do tempo sobre nós – que, convém dizê-lo também, nos faz pensar mais sobre tudo o que eu disse aqui. Bem como sobre o que eu não disse – embora o que eu não tenha dito, mas tenha alguma relação com o que eu disse, ocupe um espaço hã, digamos... metafísico, entende? Isto é, não tangível, virtual. Mas que existe e fica nalgum lugar. Assunto dos mais complexos, fica para uma próxima vez. Porque tenho que descer neste ponto que se aproxima, Caríssimo. Um abraço – que, sob a figura d'um abraço sempre reside um gesto fraternal,


humano. Pois n達o. ;) Wellington


"No próximo ponto...''