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CONVERSE CON O VERSE BADGE ON B DGE BA


TONY TRUJILLO

VANSDOBRASIL.COM


M A R C E L O F O R M I G A P R O R U N N E R


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Parteum

EDITORIAL Eu vivia entre sessões de rua (e pista), video games, aulas de publicidade e propaganda, meu trabalho numa agência bancária e bancas de jornal. O ano era 1994 e, além do skate, o que mais me ocupava era a busca por conhecimento. Como montar/desmontar computadores, como aprender a me comunicar numa outra língua, como botar meus planos pra andar… Enfim, eu tinha sede. Pensando bem, o que mais me ocupava eram as possibilidades. Há um certo momento na existência de cada pessoa em que as janelas se abrem e você descobre o que, quando e como – de tudo – ao mesmo tempo. O catalisador desse processo é a inquietação. A cola, ao meu ver, é a paixão – pela vida, pelos talentos que você descobre ter, pelos amigos que você decide fazer e pela família também, é evidente. O skate me ensinou a ser inquieto da melhor forma possível. Tudo começa no exercício da mente, da lógica de cada manobra, do jeito que a gente compete, sem que a competição importe mais do que o prazer do momento, ali, com tanta gente ligada à mesma energia. Quando parei de “correr” profissionalmente e decidi meu próximo movimento, a música, eu já era um jovem veterano desse jogo em que a imagem é, também, o produto. O que eu mais repetia mentalmente, quando visitava espaços em que a minha relação com a energia do skate era desconhecida, era: eu preferia estar andando. Depois, passei a dizer que de alguma forma aquilo era skate também. Uso uma série de percepções, que todo mundo desenvolve andando de skate, nos meus outros afazeres. Parece papo de consultor de marketing/gerente de RH em dia de dinâmica, mas pense comigo: skatistas não costumam encarar obstáculos pensando na derrota. E também estamos tão acostumados às quedas… É claro que o corpo vai mudar [amigos de 35+], mas a mente afiada é uma ferramenta e tanto. Quando fui convidado pela Vista, ainda ao telefone com o Tobias, fiquei pensando no conteúdo da edição, sobre o que significa ser skatista em 2015, sobre o que eu tenho a dizer… Não somos meros observadores. Estamos constantemente alterando o meio em que vivemos. Não é esporte, mas a sua condição física ajuda a determinar a sua performance. Não é artigo de museu, obra teatral ou de galeria, mas é arte – já que a plástica dos movimentos define o estilo do indivíduo, entre outras coisas. É similar à música, já que o ritmo também importa. Essa é uma edição especial sobre assuntos adjacentes ao ato de “bater tábua” ou manobrar, mas como esse oceano não é raso, por favor, aprofunde-se.

EXPEDIENTE EDITOR CONVIDADO: FABIO LUIZ PARTEUM EDITOR JEFE: XANDE MARTEN XANDE@VISTA.ART.BR DIRETOR DE CONTEÚDO: TOBIAS SKLAR TOBIAS@VISTA.ART.BR DESIGNER: FREDERICO ANTUNES OI@FREDERICOANTUNES.COM EDITOR FOTOGRAFIA: FLAVIO SAMELO FLAVIOSAMELO@GMAIL.COM FOTOGRAFIA: RENATO CUSTÓDIO RENATOCUSTODIO@GMAIL.COM PLANEJAMENTO DIGITAL: FERNANDO ARRIENTI FARRIENTI@GMAIL.COM CONVIDADOS ESPECIAIS: FOTO: ANDRÉ BERNARDES ARTE: FLAVIO GRÃO, DARCIO TUTAK & MONSTRIOO VÍDEO: CADU SILVEIRA, ANDRÉ BERNARDES AGRADECIMENTOS: NINA SIMONE COMERCIAL : XANDE MARTEN 0 (XX) 11 9837 16304 PARA ANUNCIAR: XANDE@VISTA.ART.BR OU PELO TELEFONE 0 (XX) 11 3360.3277 ADMINISTRATIVO: ADM@VISTA.ART.BR DISTRIBUIÇÃO GRATUITA REALIZADA EM BOARDSHOPS, GALERIAS DE ARTE, BLITZ & VIA CADASTRO. FAÇA SUA ASSINATURA, SAIBA COMO: DISTRIBUIÇÃO@VISTA.ART.BR PERIODICIDADE: BIMESTRAL IMPRESSÃO: GRÁFICA PORTÃO FALE CONOSCO: LEITORES, LOJISTAS INTERESSADOS EM DISTRIBUIR A REVISTA, DÚVIDAS CONTATO@VISTA.ART.BR MAIS EM VISTA.ART.BR CAPA FOTO PARTEUM


hahaha.art.br Fabiano Rodrigues por Renato Custodio / Fotografismo-2015.


GÊNIOS & LOUCOS Parteum

André Bernardes

Parteum

Flavio Samelo & Parteum

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Era pra ser uma matéria sobre aplicativos de fotografia. Era pra ser algo curto, direto ao ponto. Mas foi um encontro na Paulista, em frente à minha alma mater, Cásper Líbero, com um dos meus amigos fotógrafos mais antigos, Flávio Samelo. Virou papo de tecnologia, inteligência emocional e os caminhos da vida. Eis algumas porções do papo.

Amigos de longa data, desde os remotos tempos dos filmes fotográficos analógicos, nos quais o Samelo registrava o então skatista Fabio Luiz, eles sempre foram um ponto fora da curva da cena, do “bando dos não loucos”. Trocas de frases rápidas, onde um pensamento completa o outro e insights são resultados inevitáveis. Como quando Flávio diz “a gente é de um tempo onde conseguir informação era uma missão impossível e a grande maioria ia trampar, cuidar da vida” ao que o Parteum responde “acho que por isso as conversas eram mais longas e parecidas com isso que a gente tá fazendo aqui” e os dois concordam que o Instagram faz as pessoas se aproximarem. Instagram, aliás, é a estrela da conversa. Tem questionamentos sobre o porque de perfis só de selfies, dicas de contas de rappers que postam vídeos de brigas com a esposa e confissões de que stalkear desconhecidos é uma maneira de conhecer melhor o mundo. Mas tem também política, história, Iphone de Itu, música, cinema, pista da Prestige, fakes, bíblia do Photoshop, óculos vintage, tecnologia e diálogos como: “e quando foi a última vez que você viu esse tipo de papo de numa revista?” questiona o Parteum “não tem, ainda mais de skate” diz o Flavio E mais uma frase iluminada vem num fôlego só: “a gente é a mudança, e sabe porque a gente tá fazendo a mudança? Porque o que a gente viu no skate mexeu com a gente, o jeito que a gente monta as ideias na cabeça desde o skate já é de outro jeito” transborda o Parteum “É, total” concorda o Samelo Não tem manobra, mas não podia ser mais skate! E esse é um resumo resumido dessa conversa descontraída, cheia de bom humor e recheada de informação útil para você que quer mais da vida que só seguidores. Para entender toda a encrenca dessa tarde de sexta, vai lá no site e confere o podcast com o papo completo dessa dupla que, ou é muito genial ou é muito louca.

PS: no podcast dá até pra descobrir porque aqueles olhão vermelho do Flavio em todo programa Pela Rua.


[ PARTEUM ] O INSTAGRAM JÁ TE DÁ FERRAMENTAS PRA EDITAR AS FOTOS, MAS EU USO OS APLICATIVOS POR GOSTAR DE FUÇAR, AS VEZES O RESULTADO NÃO É O MELHOR… NO INSTAGRAM, TUDO É REDUZIDO AOS 600 POR 600 PIXELS QUE FERRA UM POUCO A PARADA.

[ SAMELO ] …AS VEZES, A GENTE USA A PALAVRA DISCUSSÃO COMO SE FOSSE UMA TRETA. [ PARTEUM: É! DISCUSSÃO NÃO É BRIGA. ] DISCUSSÃO NÃO É BRIGA! TÁ LIGADO? RESPEITO NÃO É MEDO. ESSA PARADA DO INSTAGRAM, POR EXEMPLO, NÃO É VOCÊ ABRIR A SUA VIDA PRA TODO MUNDO. [ PARTEUM: É UMA PORTA ENTREABERTA. ] VOCÊ SÓ MOSTRA O QUE VOCÊ QUER MOSTRAR!

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[ PARTEUM ] NA MINHA VIDA, EU JÁ PENSEI EM SER FOTÓGRAFO DIVERSAS VEZES. AÍ, EU TE VIA NOS NOSSOS ROLÊS DE FIM DE SEMANA PRA FAZER UMA FOTO BOA LEVAVA O DIA TODO. NÃO POR CULPA DO FOTÓGRAFO, POR CULPA DO SKATISTA (EU, NO CASO). EU PENSAVA NISSO E FICAVA DESESPERADO. ESSA PARADA DE VOCÊ TER QUE COMPRAR O FILME CERTO PRA OCASIÃO, PRA SITUAÇÃO… FORA ISSO, QUANDO COMECEI A MEXER COM VÍDEO, VENDO AS COISAS DO PHILIP BLOOM, ESSA PARADA DE USAR CÂMERA DSLR PRA VÍDEO… TODA VEZ QUE VOCÊ PEGA UMA CÂMERA E TEM QUE FAZER TODO O AJUSTE MANUAL ANTES DE COMEÇAR A TRABALHAR… [ SAMELO DIZ: É MUITO NAIPE! ] É MUITO NAIPE, MAS É PRA QUEM GOSTA. 20


[ PARTEUM ]

[ SAMELO ]

…A VISÃO PESSOAL DA PESSOA. ENTÃO, EU SÓ FICO PENSANDO QUE NO INSTAGRAM É MUITO DIFÍCIL VOCÊ COMUNICAR UMA COISA SÓ. EU PAREI COM UMA COISA FAZ UM MÊS E MEIO, EU PAREI DE COLOCAR A LOCALIZAÇÃO, O ENDEREÇO DAS FOTOS QUE EU POSTO. O INSTAGRAM ESTAVA SERVINDO COMO AQUELE OUTRO APLICATIVO, FOURSQUARE.

MANO, QUANDO VOCÊ COLOCA UMA IMAGEM OU UMA MÚSICA… MÚSICA CANTADA NÃO, MAS MÚSICA INSTRUMENTAL… NÃO INTERESSA ONDE ISSO VAI SER OUVIDO, OU ONDE O CARA VAI VER A FOTO. EM DIADEMA, NO JAÇANÃ, NA CHINA… SE UM MALUCO QUE NUNCA VIU OU OUVIU AQUILO ACHAR DA HORA, ELE VAI CURTIR E SE DEDICAR, POR ALGUM MOTIVO SUBJETIVO.

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[ SAMELO ]

[ PARTEUM ]

O FORMATO É QUADRADO NÉ, FÁBIO. ISSO MINIMIZA TODAS AS COISAS DE ENQUADRAMENTO. O ENQUADRAMENTO, AQUELA COISA RETANGULAR, DIVIDIDA EM TRÊS CASAS, TE DÁ ESPAÇO PRA TER EQUILÍBRIO, BALANÇO, PESO, VOLUME… É MUITO MAIS LEGAL VOCÊ, NO QUADRADO, ACHAR FÓRMULA. É CLARO QUE CADA PESSOA TEM A SUA. EU ACHO ANIMAL AQUELAS PARADAS DE SOBREPOSIÇÃO QUE VOCÊ FAZ. TEM MILHÕES DE APLICATIVOS QUE FAZEM AQUILO, MAS QUEM FAZ DAQUELE JEITO: VOCÊ! EU NÃO TENHO PACIÊNCIA PRA FAZER AQUILO.

…A VISÃO PESSOAL DA PESSOA. ENTÃO, EU SÓ FICO PENSANDO QUE NO INSTAGRAM É MUITO DIFÍCIL VOCÊ COMUNICAR UMA COISA SÓ. EU PAREI COM UMA COISA FAZ UM MÊS E MEIO, EU PAREI DE COLOCAR A LOCALIZAÇÃO, O ENDEREÇO DAS FOTOS QUE EU POSTO. O INSTAGRAM ESTAVA SERVINDO COMO AQUELE OUTRO APLICATIVO, FOURSQUARE.

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[ SAMELO ] …DÁ PRA FAZER MUITA COISA USANDO OS APLICATIVOS. AQUELES DOIS MINUTOS EM QUE VOCÊ FICOU MEXENDO NA PARADA, EU JÁ FIQUEI DE CARA, MAS EU SEMPRE TIVE, DESDE AS FOTOS DE SKATE, ESSA PARADA DE FAZER AS FOTO MAIS CRUAS. ATÉ HOJE, QUANDO VOU FAZER FOTO PRETO E BRANCO, EU NÃO TIRO COLORIDO E DEPOIS PASSO PRA P&B, EU JÁ TIRO A FOTO P&B. EU JÁ TENHO UM SET-UP NA CÂMERA, DE WHITE BALANCE E ESSAS PARADAS, TIPO UM DELES IGUAL FILME FUJI, MAIS PRO VERDE E AZUL… UM MAIS PRO AGFA, QUE É MAIS ROSADO…


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hocks.com.br/gala


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Sテグ BENTO 39


P - Qual a primeira lembrança de qualque coisa ligada ao Hip Hop que vocês tem? k - uma revista alemã que tinha nas bancas, igual hoje tem a Vibe, The Source, numa época que tava bombando o Hip Hop no mundo. O Break, inclusive. E eu não sabia o que estava escrito, sabia que nem era inglês. Eu via os caras vestidos à carater e achava estranho, “mas não é a mesma pegada”, mas é break. A primeira coisa que me veio a cabeça com a sua pergunta agora foi isso. Trampava de boy e vi a revista na banca. O nome mesmo eu não lembro, mas lembro da imagem. Outra coisa que eu tenho lembrado bastante quando as pessoas perguntam é a capa do Run DMC que eles tão de adidas, assim, mano, impactante. Uma das primeiras coisas que eu lembro, a capa, a fotografia.

P - a partir da resposta tenho duas perguntas: A primeira é pra você Rappin, quando eu ganhei o Hutúz como revelação o Smoke do Doctors veio e falou pra mim “é, parabéns, eu passei pra lata A na mesma semana que o seu irmão”, então queria que vocês explicassem melhor essa história da lata A e lata B. R - a lata A é só os monstros, né meu. Thaíde, Jack, eram os caras que estavam mais firme na cultura de rua. Os caras já tinham gravado disco. E nós éramos meio um segundo time, mais novos, mais molecão, aí a gente ficava na lata de cá. Aí um dia o JR Blau que chegou e falou “vocês vão cantar lá na outra lata”.

R - Mano, acho que a primeira coisa que eu lembro são os B Boys do programa do XXX de Alencar. Que passava uns pedaços do filme, do Beat Street. Ele passava os pedaços dos filmes e eu endoidava, queria ir no cinema. Aí fui assistir no cinema da quebrada. Aí apaixonou e nunca mais parou. P - Quando alguém fala pra vocês do Metrô São Bento, o que vem a cabeça? K - Metrô São Bento... MC Jack, finado JR Blau, Nação Zulu, aqueles cara. Me vem também o Brown, que a gente se conheceu praticamente lá. Me vem a lembrança dos caras dançando quase todos os sábados, o ponto de encontro. São essas as lembranças. Thaíde, DJ Hum, esses caras. P - JR Blau qual que era, um B Boy? K - Ele dançava, mas mais cantava. E ele era loucão. Era doido, por isso que morreu (risos). E morreu não só porque usava drogas, mas porque era louco. Morreu de acidente de carrou ou moto, foi atropelado. Era um cara sem limites. R - Ele tinha muito respeito. Era um agitador cultural. K - Meio sem informação, ele ia na onda e fazia. Ele se vestia muito à carater, um oclão, era uma figura. R - São referências parecidas, Thaide e DJ Hum, Nação Zulu, Street Warriors, MC Jack. Me lembro também da fase que eu frequentava a Jymmis, em São Caetano. Pra mim foi um começo na São Bento, tinham uns bailes que a gente ia. Tinha uma rapaziada da nossa quebrada que vinha pra São Bento. Eu também lembro bastante do Doctors MCs, que a gente ficava ali na lata, batucando e cantando.

K - era bem assim mesmo. R - e aí a gente foi cantar na outra lata e a voz nem saia, perna tremendo. P - A impressão minha, quando vocês falam dessa época é que era uma parada mais pura, e eu não vejo problema nenhum com a história do Hip Hop ter virado negócio, as vezes posso ter problema com o processo, mas não dele ter virado um negócio. Mas quando eu vejo vocês falando da São Bento eu vejo uma pureza maior, cada um de canto diferente, visões diferentes, criações diferentes, todos no mesmo lugar, tendo organização antes de ter um interlocutor com o resto da sociedade, antes de tudo isso 30


ter um cara conseguir virar e falar “esses moleques tão rimando bem, vão pra lata principal”, todas essas coisas. E eu, mesmo quando vocês não percebem, eu percebo, que o jeito que um fala com o outro até hoje, o respeito é outro. Então minha pergunta é essa, como que aconteceu essa parada, quando aconteceu “vou ali na São Bento ver os caras dançando e rimando”? Por que eram pessoas muito diferentes, como foi essa decisão de ir lá, não só de ir, mas de continuar indo, pra virar o que virou. K - Acho que a palavra que resume tudo é identidade. Identificação! É você se identificar com um estilo de vida. Eu sempre vou falar que pra mim o Hip Hop é um estilo de vida, não é só cultura, é um contexto. É cultura, que é um movimento, que é político, que é

começando é mais fácil o cara pensar “eu vou ser um rapper, vou viver de Rap”. No nosso tempo era mais a vontade de pertencer aquele movimento, com aquela rapaziada. Como o Kléber falou, eu sou aquilo. Eu ia porque ali tava o meu time, meu mundo, eram todos iguais a mim. Mas naquele tempo não tinha noção de vou viver disso. P - Essa noção da igualdade, de estar num espaço que são todos iguais a você, eu queria entender. Aí é minha opinião, eu tenho certeza que a nova geração não faz ideia disso, eles simplesmente não entendem isso, essa noção de igualdade e relação com o próximo, eles não tem isso, não vivem dessa maneira, não funcionam dessa maneira. Então queria entender essa parada de igualdade, de chegar num lugar estranho, que vocês nunca foram e de repente falar assim “mano, eu sou a mesma coisa que aquele cara ali”, como é que se dá isso? R - Acho que foi um momento mágico. Deus juntou os semelhantes dele mesmo. Acho que aquela geração ali eram todos jovens, negros, a maioria vindo de periferia, que se identificaram com aquele estilo de som, que frequentam aqueles mesmos lugares, os mesmos bailes, as ideias eram semelhantes, eu acredito nisso.

empresa, entendeu?! Então é se identificar com um estilo, “eu sou isso aí, né meo”. Então você vai, né? P - É natural. K - É natural, você sente o cheiro e vai. P - A primeira vez que vocês foram já pensaram “é isso que eu quero pra minha vida?” R - Na verdade, quando eu comecei a frequentar lá eu não tinha essa noção de viver daquilo. Eu queria fazer, mas não que eu soubesse que eu ia viver. Eu acho que hoje pra um rapper nova geração, nova escola, pra quem tá 31 41

K - Voltando lá no princípio da pergunta, se eu imaginava que era aquilo que eu faria da vida. É mais ou menos como um relacionamento que você tem com uma mulher e acaba gostando dela. Você se encontra e diz “aí, tudo bem?” No outro dia se encontra de novo, no outro dia você dá um beijo, aí você vai no cinema, outro dia vai pra cama, aí quando vê você já tá envolvido. Puta, to envolvido! O Hip Hop pra mim foi isso. Eu comecei a ouvir uma música, uma revista, ir na São Bento, conheci o Blau, encontrei o Thaíde, comecei a ir nos bailes, aí tava envolvido. Quando eu decidi que ia fazer aquilo pro resto da vida foi quando eu vi o Easy Lee, DJ do Como D, fazendo scratch em cima da música do Tim Maia. Que eu já era DJ e vi isso e chapei. Já tava ali meio com o Brown e com o Edy Rock, mas até então não almejava. Mas quando eu vi ele fazer esse lance aquilo me mostrou a possibilidade de fazer scratch em cima de qualquer música. Porque eu era ignorante, eu achava que pra fazer scratch tinha que ser num disco importado, com efeito, gringo. Você vê, é a inocência do barato, a pureza. Eu não sabia da possibilidade. E eu até falo pros B Boys marcar um encontro com o Easy Lee qualquer dia pra eu falar obrigado pra ele. E aí partir do que você decide o que vai fazer começa a levar mais a sério, começa a ganhar o dinheiro, as pessoas começam a te conhecer e te respeitar.


Quanto ao lance da igualdade, pra mim é um respeito mútuo enquanto ser humano, como pessoa. Qualquer um você tem que respeitar. Se você quer respeito, tem que respeitar. Agora, você não é obrigado a respeitar quem não te respeita. São duas coisas disitintas. Agora, tem pessoas que tem uma estrela maior, um talento maior, uma inteligência melhor e ela vai se destacar mais do que outras, naturalmente. E pra mim, se isso for uma coisa desigual, que seja. Eu tento separar as coisas dessa maneira. P - O talento da pessoa do respeito pela pessoa.

cima do palco, primeiro cachê que você pensou ou eu fico esperto ou vou tomar um rodo nesse negócio. K - Teve quando eu sai do meu emprego no Tiête. Que eu era carregador e tava no Racionais no comecinho era muito difícil pra mim.

o Jay Z é o cara, não é só porque ele faz as músicas loucas, é porque ele sabe administrar. Só o fato de ele ter montado a Rocawear e ter vendido, fez o nome e ganhou muito. E isso é importante. É um negócio, sim. Tem que ser. Senão não estrutura. O dinheiro te dá a possibilidade de gravar um disco, montar uma gravadora, de fazer um videoclipe.

R - Eu lembro uma vez que a gente veio de Capivari, voltando de um show em 89 ou 90, e você ficou lá na Tiête. Eu fiquei no ponto da Expresso Brasil e vendo o Kleber lá de amarelo sentado lá naqueles carrinho, com mó sono, ele lá.

P - Com certeza, o dinheiro te dá a possibilidade. E você, Rappin?

K - Isso. Então com o Racionais e com 4P, eu via outros caras ganhando dinheiro. Mas a noção real, mesmo, foi a pouco tempo atrás quando eu li “Pai Rico, Pai Pobre” e o ‘Segredo da mente milionária”. Que aí entrou a administração real do dinheiro, a educação financeira. Aí você fala “ah, entendi, agora entendi mesmo que dá pra ficar rico no bagulho”. Se eu tivesse a educação financeira na época do Sobrevivendo, da 4P, tava muito melhor que hoje, mas muito.

pra cantar num lugar e eu nunca tinha ganho dinheiro com o Rap, aí no final da noite ele veio e me deu um dinheiro. Aí eu falei “que é isso?” e ele respondeu “você não trampou? Esse é seu dinheiro”. Aí passou um tempo, eu cheguei em casa da escola e a mãe falou “Natanael ligou e disse que você tem que ir num estúdio e tem que ser hoje, pra gravar uma parada com os caras. Quem tá produzindo é um tal de Reinaldo Barriga, aqui tá o telefone deles”. No tempo eu acho que ia ganhar $5 mil cruzeiros, aí o pai me levou. O cara acendeu uma charuleta enorme e o pai me olhando assim

K - Uns são exímios DJs, mas não são inteligentes, não encaram aquilo a sério, não coocam em primeiro plano. Outros nem são tão bons, mas eles trabalham, se envolvem, acham um meio de se destacar. É uma coisa natural da humanidade. Eu acho que existe entre os novos de hoje alguns que tem essa noção de respeito pelo outro.

R - A primeira situação que eu vi que aquilo girava alguma grana, não foi eu ganhar dinheiro, foi ver que aquilo girava alguma grana foi com o finado Natanael. Ele me levou

P - Você acredita nisso? K - Acredito, eu convivo e encontro com vários assim. Não é a grande maioria. A maioria, 60%, 70% não tem esse barato, mas eu acredito que tem vários que tem essa noção. P - Eu queria saber de vocês quando foi o dia na carreira que vocês falaram “eu vou ganhar dinheiro com isso”. K - No meu caso, particularmente, foi um processo. Foi quando eu vi o GOG com a gravadora dele, quando eu vi NWE com a Huffles e o Eazy E, quando eu vi o Jay Z com a Rocafella. Eu falei pro Racionais “vamos montar nossa gravadora, olha os caras lá, nóis pode pá”. Falei pro X. Lembro quando o Racionais lançou “Sobrevivendo no Inferno” eu me juntei com o X e falei “mano, nóis pode fazer nossa gravadora, nóis vai vender pra caralho”. Você vê o dinheiro entrar, direto pra você, sem intermediário. P - Sem intermediário! K - Aí a gente fez a 4P e aconteceu o que aconteceu. Mas foi assim, gradativo.

P - Mas essa consciência já vale milhões.

P - Mas você não teve uma parada em

K - Nunca é tarde, mas aí você entende porque 32


P - Mas o pai já era malandro, sabia das coisas. Era o filho, eu entendo... R - Mas ele olhando pra mim assim, mas firmeza, gravei. Aí fui lá na RCA/BMG/Ariola, naquele tempo era aqui na Dona Veridiana, no Santa Cecília. Fui receber num banco Bradesco, dentro da RCA. Na minha frente na fila tava o Gilliard! Sai de lá de dentro com o dinheiro como se fosse $50 mil reais, olhando pros lado, com dinheiro no bolso (risos). No tempo eu queria comprar uma moto, mas o pai e a mãe não deixaram. Aí comprei tudo em roupa, disco, arrebentei o dinheiro, mas era muito dinheiro naquele tempo. Aí que eu “nossa, mano!” Mas aí depois

disso demorou pra mim ver dinheiro, porque era um caso extremo, era uma banda que estava gravando numa multinacional e tinha verba pra isso. Foi o primeiro gostinho do show business. Depois disso eu só fui ver que a coisa tava mudando quando o Kleber veio me chamar pra abrir a Raízes. Aí eu tive essa noção, tá mudando, vamos abrir uma firma. P - Naquela época era CGC, não era nem CNPJ. Mas sabe o que eu queria entender, vocês já se conheciam dos bailes, mas como vocês tiveram esse insight de fazer essa parada?

R - Quando o Kleber falou pra mim eu disse “você é louco, Kleber? Mas como? Você é o DJ do Racionais, mas e eu? Não tem como”. Aí o Beto (Vilares) e o Antônio (Pinto) que falaram pra mim “não, você tem que abrir a parada com o cara, sim”. E eu “mas, como?” e eles “você vai trabalhar com a gente aqui e vai investir nessa parada”. E deu certo, até hoje dá. Até hoje tá emitindo notinha da Raízes Discos, graças a Deus. Hoje em dia eu vejo que essa parada é muito louca, me salvou. Porque hoje eu vejo que é o futuro da música. Porque o que nós fizemos já era o futuro lá nos anos 90. Porque Tim Maia foi o primeiro louco que abriu uma gravadora independente e encarou. Hoje em dia o mercado inteiro é isso. O Roberto Carlos é isso,

Amigo Records. Foi fundamental pra mim. P - O que não pode faltar num bom disco de Rap? K - Qualidade, competência, né cara?! “Me dá uma Heineken”, aí você vê a garrafa verdinha, aí você bebe e diz essa aqui é uma cerveja de verdade memo, aí me perdoem as demais, você pega uma Skol, uma Brahma o rótulo já é feio (risos do Parteum e Rappin), a cerveja é aguada, você fala não, desculpa aí. É como você beber um Red Label do que beber um Passaport, você vê a diferença. Então a 33 41

qualidade é essencial no disco. Aí na qualidade tá a música ser bem feita, a letra ser cantada bem, tem o talento, ter arte, se envolver na música. Acho que isso não pode faltar. R - Você vê, a gente escutando rappers americanos, e isso no Brasil acontece muito, da gente não saber o que os caras tão falando, só ouvir aquela batida pesada e gostar da música. Eu lembro que mais ou menos em 94, 95, tinha uma música do Vanilla Ice que era pesada pra caramba e os caras tocavam nos bailes, só que era o Vanilla Ice cantando (risos) e eu nem sei o que ele cantava na música. Mas a gente achava pesado e curtia o som. Então hoje em dia olhando o que o Rap se tornou hoje o que eu acho que não pode faltar num disco de Rap é a verdade, a veracidade, tá ligado? Esses dias o Martim me mostrou um vídeo bem engraçado e disse “oh, vê se pode, três patricinhas cantando Rap” e elas tavam duelando com alguém, e a batida que elas tavam usando era do Racionais. E aí você via que eram umas minas que tinham dinheiro, tinham condições, mas o que a mina falou eu achei interessante, uma delas falou “tem gente que é daqui, do mesmo lugar que nós, que fala mal do Rap, mas não sabe o que é, não conhece e tem uns que curtem mas nunca passou a vida dura” e aí eu achei até legal o ponto de vista dela, tem veracidade. Pelo menos ela tá admitindo, tá ligado?! Na verdade o que eu quero dizer se um dia no Brasil eu ver um loirinho de olho azul que mora em Alphaville que é um puta playboy gravar um disco de Rap, se ele falar da realidade dele sem tentar ser nóis, eu vou dizer que ele é verdadeiro. Se ele falar só da realidade dele, foda-se, de carrões, de dinheiro, de festa de playboy, ele vai tá sendo verdadeiro. Por exemplo, o Rico Dalasam, não tenho nenhum problema, ele tem a verdade dele. Se ele me convencer que aquela é a verdade dele, eu vou dizer que é um disco de Rap, independente se eu vou gostar do sonoro ou não. Agora, se ele não me convencer, não adianta me procurar pra nada, irmão. Esquece, irmão. Já teve vários que tentou me convencer, mas não convenceu. P - Com toda a experiência que vocês tem, decisão que vocês tomaram de fazer disso o ofício de vocês, hoje mesmo o Kleber antes de vir pra cá tava cuidando da filha e ainda vai tocar depois. É uma decisão de vida que não é pra qualquer um, a mesma


R - Não, se é loco.

mundo segue. É isso, pronto, não dá pra falar mais nada. Eu enfrentei muita coisa, eu fui criticado, fui rejeitado, tocava e as pessoas viravam de costas... Eu sempre tentei mudar a minha discotecagem, como? Tocar música do meio pra frente, tocar só o refrão e emendar outra, tocar o final, tocar o começo, fazer remix da própria música e não fazer o que todo mundo faz. Aí é por isso que tem o destaque.

K - Você aprende, todo dia, até o que você esqueceu. Muita coisa que você fazia, não faz mais e fala “isso aqui é muito louco, vou fazer de novo”. Eu tava fazendo uma sessão hoje pra Clash eu vi várias músicas loucas que eu esqueci.

P - Qual o primeiro conselho que vocês dão pra um rapper que vai falar com vocês, independente se o cara já deu certo no rolê dele ou não. Se o cara vier pedir uma palavra qual a primeira parada que ele vai ouvir de vocês?

parada do médico que estuda 10 anos. Com tudo isso, cada dia que vocês acordam acreditam que tem mais pra aprender dentro do ofício de vocês ou é mais uma reinvenção do que já conseguiram até aqui? K - Não, aprendizado é constante.

outro bagulho. Então eu digo, participa, vive o movimento, entende o movimento primeiro. Quer ser um MC? Vai ler, vai se informar. Quer ser um DJ? Treina, vai aprender a mexer no seu instrumento, fazer um curso de eletrônica pra saber mexer em alguma coisa. K - Eu falo pra todos “se envolva”. Esteja no ambiente, o ambiente é muito importante. Vai no baile, vai na festa, vai no show, vê os vídeos no Youtube, pratica. Mas o ambiente é muito importante. E eu sempre dou o exemplo do futebol, quer ser jogador? Vai jogar no campinho. Entendeu? Porque você tá no ambiente. Tá pegando a manhã do barato. Como dar um passe, como se defender de uma

R - Agora com o Youtube tá acontecendo muito isso comigo, várias músicas que eu achava louca mas nunca tinha visto o vídeo. K - É, aí potencializa. R- Realmente o aprendizado é constante, porque muda de geração pra geração, o som, os flows, a velocidade do beat. K - Sempre vai ter um beat diferente, um flow, um scratch. Que nem agora chegou o Trap. É um bagulho novo, diferente. Sempre vai ter um jeito novo de mixar diferente. P - Eu tenho 40 já, então eu vi algumas paradas menos pautadas pela razão, vamos dizer assim, aqui no Brasil. E vi uma pá de cara batendo na parede. E vocês também viram vários. Vi um milhão de caras querendo ser o Rappin Hood e morrer, um milhão de doidos querendo ser o Racionais e não conseguindo, vários DJs tentando ser o Kleber e não conseguindo... K - Menos tentando ser eles mesmo, né?! P - É, é isso. E como era isso pra vocês? Por que as vezes era o cara que tava do lado ali no baile, mano. E você não podia virar pro cara e dizer “seja você mesmo”. K - É da humanidade seguir o rebanho. O instinto da humanidade, ter comportamento de rebanho. Poucos não seguem, “não, aqui não vou, tá todo mundo indo, mas eu não vou”. E são os que se destacam! E esses que se destacam viram linha de frente que todo

R - Geralmente a maioria quer saber qual é a fórmula do sucesso, mas essa fórmula não existe. Então a minha visão sempre que vem falar comigo é dizer pra eles aproveitarem esse momento que eles tão vivendo. Porque o Kleber não tem mais tempo pra ficar em casa curtindo, assim como eu, somos cheios de afazeres. Então aproveita pra estudar o Hip Hop, pra treinar, pra ouvir, pra criar. Aproveita esse tempo. Sucesso é consequencia, não é objetivo, nem a finalidade. Eu lutei pra chegar, mas não tinha esse objetivo, eu queria lançar o disco, não sabia o que ia acontecer. Meu sonho era gravar um disco, sucesso era 34

provocação. No ambiente você ta respirando, tá vendo as pessoas, vendo como o DJ toca, que música ele toca. Sempre que eu to de folga sou louco pra ir numa festa e quando eu vou não to lá curtindo, to lá trabalhando, porque eu to no ambiente. Porque o DJ sempre vai tocar uma música louca e eu vou falar “caralho, que som louco, vou colocar no meu set também”. Sempre tem uma inspiração no ambiente. É isso que eu falo, se envolvam, estejam presentes no ambiente. Porque as pessoas tão te vendo... K e R - Porque quem não é visto não é lembrado.


P - Mano, vocês não tão ligados, isso é uma entrevista definitiva pro Hip Hop nacional. Agora a última pergunta, a gente faz a nossa passagem aqui na terra, nosso rolê e a gente vai, deixa nossa história aqui, deixa tudo. Acredito que todo mundo aqui ainda tem muito pra fazer, não tem ninguém indo embora, boto fé que não. Mas, como vocês gostam de ser lembrados? R - (risos)

R - Eu acho que dentro desse movimento, realmente não existe unanimidade. Toda unanimidade é burra. E o Hip Hop tem esse lado, ninguém é unânime. E isso é bom. Então como eu e o Kleber que temos oportunidade de ter programa de rádio, recebemos muitos trabalhos das pessoas, nem tudo a gente ouviu, não deu tempo, é muita coisa, nem tudo a gente tocou, então digamos que ser justo é algo muito difícil nesse jogo. Então se um dia os caras disserem “o Rappin Hood era um cara justo, ele foi firmeza”, pra mim já vai tá bom.

K - Uau!

A mensagem final e mais alguns momentos desse encontro épico estão no vídeo que já está no nosso canal do Youtube, site, Facebook e Insta. Vai lá que dificilmente você vai encontrar algo mais inspirador no dia de hoje.

P - É sério, porque tem muita gente que fala assim, “aquele neguinho é mó zika, não gosto dele”, a gente ouve isso. Mas tem o outro lado, de um monte de gente que curte o trabalho de vocês e diz “putz, ele é um querido, é um não sei o que lá”. Então eu quero saber em vida aqui, no rolê que vocês estão fazendo, como vocês gostam de ser lembrados?

P - Sabe o que eu acho mais louco na resposta dos dois? Que diz mais sobre o ser humano do que sobre a forma de arte que vocês escolheram pra ofício a vida toda.

K - KL Jay deixou a marca! As pessoas me chamam de mestre, monstro, blá blá blá, mas eu queria ser lembrado assim: esse cara fez o que tinha que ser feito! Ele cumpriu a missão dele.

P - Mas também revela a gênese de qual é a forma de arte que vocês escolheram pra ser o ofício de vocês. Então assim, é a revelação sobre a pureza e a verdade do ser humano.

K - Isso. R - Com certeza.

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1 1: Flavio Samelo

Parteum

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Rafael Narciso é referência para o cenário do skate brasileiro, consequentemente mundial, principalmente pelo seu trabalho a frente das marcas que criou. Mas também já atuou nos bastidores de diversas outras que você talvez nem imagine. Sempre andando de skate, mesmo que o planejamento esteja contemplando mais a cervejinha pós sessão que as manobras. E nosso editor convidado começou a fazer as perguntas exatamente as 11h11, o que inspirou nosso título e edição da conversa. Com certeza as respostas vão te inspirar mais coisas. Pra começar segura essa: “Tem gente que fica tentando repetir o sucesso, aquela fórmula, aquilo deu, vamos ali. Eu digo que seguir essa fórmula é a fórmula do fracasso”.

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1 - O que você acha que mudou na produção de tênis de skate no Brasil desde o tempo que você começou a andar até hoje? N - Quando eu comecei a andar de skate eu não sabia como eles eram feitos, então de fato, eu não sei. Numa certa época você não pensa sobre isso, pensa se ele tá bom ou não tá. E não era bom, isso eu sei, porque eu não queria ter. Eu só tinha porque era o que eu podia, era o que tava constando no meu pé. Mas eu fazia esforço para ter um tênis gringo. Todo o esforço que eu podia. Por exemplo, minha mãe emprestava o cartão dela pra eu comprar um shape no dia do aniversário. Lembro que uma vez eu fui na Maha montei um skate gringo e comprei um Airwalk (risos). Mas eu nem curti o Airwalk, andei 30 minutos, achei que a sola era lisa e joguei na mão de um camarada, do Pet. Mas eu sei que em níveis gerais do ponto de vista de um consumidor, que não tá olhando pra uma indústria, que não tá nem aí como é feito, e sim, o resultado, tenho certeza que houve uma evolução. Mas a evolução não foi da indústria, foi da necessidade das pessoas. Da necessidade do skatista, ele precisa de uma coisa melhor hoje. Por exemplo, nos anos 90 era difícil ter um produto gringo porque era caro, ou você era rico ou era malandro ou fazia um gambling para ter. Então pouca gente tinha o sabor de saber o que era bom. Por exemplo, eu andei muitos anos de shape Friends, que era mole e tinha a furação torta, quando eu perdi o patrô da Friends, nem tava andando de skate mais valendo, eu tinha que comprar shape da Friends, porque eu só sabia andar com shape mole e torto. Shape que desse o pop não funcionava pra mim.

2 - Legal você ter dito isso, então você acha que em algum momento ali dos anos 90 o tênis de skate no Brasil não evoluia porque os skatistas estavam acostumados com aquilo? Tinha uma certa preguiça, você acha? N - Eu acho que tinha um abismo. Do preço e da capacidade. E de quanto a pessoa podia pagar no produto. Porque o preço é determinante, certo?! As pessoas que usavam esse produto tinham a capacidade de pagar um preço X e o produto ia ser feito em cima disso. E preço, desenvolvimento e qualidade andam juntos. Hoje você vai numa loja e tem acesso a vários tipos de produtos, você41 consegue acompanhar

o que tá acontecendo no mundo inteiro daqui do Brasil. Não exatamente na mesma velocidade, mas próximo. Eu lembro que eu comprava tênis de uma marca de skate que usava sola de M2000. Hoje isso é impossível. Mas acontecia porque eles não tinham dinheiro o suficiente pra fazer sua própria sola, não tinha tanta gente comprando o produto. Mas eu lembro que eu ficava satisfeito com esse tênis de sola M2000, na época achava dahora. 3 - Quando você decidiu que faria uma marca de tênis? N - Primeiro, eu tinha uma marca de roupas com meus amigos, chamava Latex, no final dos anos 90, começo dos 2000. Aí eu adquiri experiência em como fazer algumas coisas, como produzir, como desenhar, entregar, essas coisas básicas. Foi uma grande escola. Quando acabou eu desisti um pouco de trabalhar com skate, comecei a tentar arranjar outros tipos de trampo. Fiquei um tempo sem fazer porra nenhuma, porque era o que eu queria também. Depois comecei a fazer design de produtos, de roupas basicamente, para terceiros. As coisas que eu sabia, nem estudei, mas achava que sabia como fazer e no final saia alguma coisa. Alguns anos trampando com isso, uns 5 anos, eu já tava de saco cheio. Porque todo mundo que me contratava já sabia o que queria, eles mesmos podiam fazer. Então meu trabalho era bem sem sentido. Serviu, me ajudou, mas não tava satisfazendo uma outra necessidade, que é fazer o que você realmente tá a fim. E nisso eu já tava com o estúdio de design com a Mayra (minha esposa) e com o Bruno. Mas eu tava toda hora pensando que podia fazer alguma coisa, uma marca de roda, de boné. E nunca pensei, nunca planejei fazer uma marca de tênis. Tudo menos tênis! Eu fui pra Ásia e vi que era muito fácil fazer os bonés. Vi que não era difícil ter uma marca de rodas, mas também achava muito simplinho. Eu substimei a ideia de fazer uma marca de tênis. Mas apareceu uma oporunidade. Um cara que tinha uma fábrica com espaço ocioso de produção e me ligou perguntando se algum dos clientes que eu atendia fazendo roupas queria fazer tênis numa proporção bem pequena. Eu achava que o mesmo processo de fazer roupas, fiz umas perguntas baseado nisso e o cara me respondeu. No fim da conversa eu falei “já sei com quem eu vou falar, comigo mesmo,


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eu vou fazer”. Então, basicamente, chegou por telefone pra mim. E 9 meses depois dessa ligação era 25 de agosto de 2008. Terminei a ligação e já falei pro Marcão que trabalhava com a gente “vamos fazer uma marca de tênis”. Desci na parte onde o Bruno ficava e disse “vamos fazer uma marca de tênis”. Os caras falaram “você tá maluco” e o Bruno “não, vamos!”. Daí eu achava que as dificuldades do tênis eram paralelas as de roupa que eu já conhecia, mas eram todas as de roupa, mais as particularidades do tênis. Tem coisas que você as vezes não controla, não consegue fazer. 4- Eu lembro que fui fazer um show em novembro de 2008 na CWB, pista do Gui, em Curitiba e você me falou que tinha começado uma marca de tênis e eu quis ver, quis comprar e me assustei. Era muito diferente de tudo que tinha visto nos últimos 15, 20 anos. Eu lembro que pensei ele vai mudar tudo de novo, assim como ele fez com a Latex, vai fazer agora com o tênis. E eu queria entender como foi esse processo, quem foi seu primeiro cliente. N - Eram 3 modelos, com 4 referências cada. Um de cada linha. A ideia das linhas já era justamente pra não ser só uma marca de skate. Queria usar outros tecidos, outros materiais, já começou assim. E teve uma organização prévia antes de tornar público. Assim como foi para contratar os primeiros caras do time, como o Vidal, Aladin, Roni e Osama. Mas era tudo sigiloso, não falava qual era o produto, quem tava envolvido, não falava nada. Foi revelado só no meeting que a gente fez em julho. Aí nesse dia eu apresentei a marca, logo, conceitos, produtos. Aí os representantes escolheram se queriam trabalhar ou não. Todos escolheram. Basicamente as lojas que estavam mais envolvidas, que acompanhavam as revistas, viram a campanha, compraram. Não foram muitas, mas foram umas 25, 30 lojas, em diversas regiões do país. O pedido 0001 foi da Matriz. Mas teve vários outros como a Sunset, Onesixteen de Ponta Grossa, que compraram no primeiro dia.

5- Você lembra o que fez com o primeiro par que chegou? N - O primeiro par eu fui até ele. Era tudo low budget. A fábrica era Novo Hamburgo, do Zé Lerme, que entendia muito, já tinha feito bastante tênis de skate. Ele deu o azar de me dar liberdade, ele não negava nada. Geralmente você vai fazer um negócio e o cara diz “isso aqui não pode, isso aqui não dá, não tem como”. E eu consegui argumentar sobre as limitações e ele topava fazer. Aí eu ia pra Porto Alegre, passava a semana na casa do Marcinho, da Matriz. De manhã cedo o cara passava pra me pegar e passava o dia em Novo Hamburgo. Chegava em casa com a amostra de noite, riscava com caneta o que ia mudar, no outro dia ia mudar, dois, três dias depois tinha um tênis. O processo era bem lento. Era feito na mão, na unha. Ia mudando, um a um. O primeiro tênis que eu recebi de fato, vários meses depois do meu desenho, era tosco. Esse dia eu achei que ia me fuder. Essa primeira vez que eu fui ver o tênis era 3 meses depois da ligação, eu fiquei num hotel lá em Novo Hamburgo. Sei que eu me lembro que tava sozinho e precisava sair pra rangar, peguei o tênis e desci a ladeira gigante a pé e o bagulho era duro, uma pedra, cada passo que eu dava parecia que o tênis ia pro lado. Eu falei “cara, isso aqui não vai ter como”. Aí nessa ladeira eu fiquei pensando se eu devia desistir ou não. Eu acreditei até o dia que eu entreguei a coleção, mas tava difícil. Ninguém viu a amostra, não levava pro Bruno ver, ninguém. Eu fazia sigilo porque não podia mostrar, se os caras vissem aquilo caia a casa. Era muito zuado. Mas aí o meeting era num sábado e sexta a gente tava produzindo os tênis, aí chegou 6 da tarde e nada, era 8 da noite e dos 12 tinha 2 prontos. E 10 de manhã do dia seguinte eu estava em Curitiba apresentando, deveria estar. Aí era 10 da noite, meia noite, 2 da manhã, 3 da manhã, 5 da manhã... As 8 da manhã quando eu tinha que ir pro aeroporto tinham 9 prontos. Aí adiantei o voo pra mais uma hora. Nessa uma hora que eles deram o acabamento, foram botando nas caixas e eu nem vi, enquanto eu tava indo pro aeroporto os caras estavam terminando os 3 que faltavam. Terminaram e quando eu tava lá na fila de embarque chegou o motoboy com esses que faltavam. Botei na mala e abri em Curitiba pra ver como tinha ficado. E tavam bem loucos, eu curti.

6- Quando você foi lá na Trama falar comigo em 2010 (na época o Parteum era executivo da empresa) foi a coisa mais louca que eu já vi na vida. Só viram o Nas graval Ilmatic uma vez, eu não vou ver a ÖUS nascer de novo. Eu ando de skate há 27 anos e a gente nunca viu isso. E de você sair do seu QG em Curitiba e ir a São Paulo e eu lembro exatamente do que você falou “eu sei que você é um cara enjoado, vê aí e tal”. E foi verdadeiro. E antes de eu falar qualquer coisa você disse “o plano é começar a fazer colaborações com você”. Eu me segurei pra não chorar, tio. N - Pra mim é a coisa mais normal (risos). E a gente não tinha muito intimidade, eu não podia folgar na sua nem você na minha (risos). Quando a gente começa a ver tem umas paradas que fecham sozinha. Eu cheguei em você porque era amigo do Fabrício, meu amigo de milianos, um cara que eu sempre falei sobre produto. E eu não sei exatamente como eu cheguei na Trama. Assim como todas as paradas que a gente fez com o Flavio não cheguei e mandei um e-mail pra ele, a gente foi falando e vamos fazer. Acho que a gente definiu o modelo inteiro em 7 minutos numa arquibancada no meio do campeonato da Matriz. E tudo que a gente vai fazer colaboração é natural. Até com o Del, por exemplo, a gente conversou e rolou. A gente não faz target tipo a gente precisa de um cara do rap underground, precisamos de um cara do rock alternativo, um cara que desce ladeira... Foi natural, coisas que faziam sentido, a gente tinha admiração. E o que me interessou em você foi saber que você tinha conteúdo, você replica o que você faz em outras coisas. Você não desenhou um tênis, você escreveu um tênis. Basicamente isso traduz muito o que eu queria fazer em produto. 7 - Aquele dia foi o dia que eu comecei a avisar pros caras que eu tava indo embora. Sem zuação. Eu falei assim “mano, esse cara tá liderando a vida dele”. A gente vem do skate e a gente conhece o cara que foi um skatista bom mas que sempre teve o patrocínio mais ou menos porque ele não quis fazer o corre pra ter algo melhor. Ele vai ficar estacionado. E quando você falou comigo eu pensei: esse mano não tá estacionado. Eu vejo vida no seu olhar!


N - Mas o bem louco é que eu também pensei que você tava bem. E isso puxa a evolução. Você olhou pra mim e achou que aquilo tava bom, na verdade eu tava vendo um monte de BO e tava precisando melhorar. Cada ponto de vista te leva pra um lugar. Eu tava te enxergando como muito bem e você tava pensando “isso aqui já não é mais pra mim”. E eu te falei “to aqui te mostrando isso, mas já to fazendo outras coisas que são bem mais dahora”. 8 - Todo mundo fala das dificuldades de fazer qualquer coisa autoral no Brasil. Pra você, qual a parada que não pode faltar todo dia pra ter gana pra continuar correndo? N - Cara, nunca pensei nisso. Eu acho que é tão frenético. Por exemplo, minha família como um todo já me motiva. Meu ambiente é bom. Vejo todo mundo reclamando de tudo, basicamente tenho zero problema pra reclamar. Acho que tudo flui muito bem. Se eu não conseguir fazer coisa, fico frustrado, tem que estar fazendo coisas. Se não tiver trampo eu me frustro. Se eu ficar uma semana de férias eu começo a ficar agoniado. Até hoje desde que a Öus começou tirei umas 3 vezes férias de 10 dias. 9- Você tem algum ídolo, alguma referência no mundo do design de tênis, da confecção N - Lógico que tenho. Um deles é o Fabrício (Fabrício da Costa, skatista brasileiro e designer que trabalha na sede da Nike desenvolvendo tênis) que é um profissional super foda. Acompanhei ele virando designer de tênis. Quando você acompanha alguém, mesmo não estando junto, você se sente parte. Estando com o Samelo toda hora (lembrando que o Flavio estava presente durante o papo) você sente parte. o Fabio tá tocando um som ali mas você tá junto. Existe essa admiração pela qualidade e por o cara ter chegado lá. Além do valor que já merece tem o seu valor pessoal. E os caras foda do skate que realmente influenciam a minha vida são os caras da Girl. Primeiro vídeo que impactou pra mim foi o Plan B 2 (Virtual Reality). Aí logo depois veio

o Goldfish, aí já tava mais maduro, queria entender a história. Aí a galera dizia “aquele peixinho é a galera se libertando”, tinham várias vertentes e ninguém sabia qual era a verdade. Então a mística dos caras que tinham o próprio negócio era uma influência pra mim, eu falava “nossa”! Depois vem Mouse tudo aquilo ali que foi pra um next level. 10- A gente vive num tempo onde um tênis pode ser interpretado como uma obra de arte. Pode servir de suporte, quando você pega uma palmilha e é uma parada que o Laídio fez. Só que, é em primeiro plano um produto. O cara vai pagar aquela grana, vai sair da loja, vai botar no pé e vai usar até terminar, é um bem durável. Depois ele joga fora, ou dá pra alguém ou vai guardar se tiver valor pra ele. Como você pilota isso sendo que são mais de 60 modelos por coleção e eu sei que você pensa na arte pra caramba quando está fazendo? N - Quando a gente, não digo só eu, mas o Nathan, o grupo de pessoas da Öus tá empenhado em fazer um tênis a gente acaba pensando como é que esse tênis vai parecer quando olhar de cima? Tem que ter uma estampa aqui. Então a gente pensa em todos os lados. A gente acaba até botando bastante coisa que encarece, porque cada coisinha é um preço, e nem todo mundo enxerga isso. Só que cara, eu gosto de pegar um tênis olhar de cima e ele ter uma parada aqui, dele ser bonito antes de colocar no pé. Porque é tipo uma peça, um vaso, ele tem que ser bonito, não tem que só caber água dentro, 500ml. É melhor ter uma jarra dahora do que ter um plásticão só porque cabe 1 litro. Então isso aí não é um negócio pra botar no pé, pra botar no pé tem um monte de coisa. Pra botar no pé é meia, ainda assim tem umas meias bem louca. Botar no pé é pra onde ele vai, mas tem diversas formas. Então antes de você colocar ele ter uma história, ter uma frase dentro, isso é importante. Se a gente não fizer isso e for só um produto, um negócinho simples, é só mais um. E nesse mundo que tem milhões de marcas, tem todas as multinacionais com

alto poder de desenvolvimento de produto, com as pessoas mais fodas trabalhando, se a gente não tiver nossa identidade muito definida acho que realmente isso não é muito motivador. Nem pra nós, nem pra quem tá trabalhando, nem você entraria aqui se não visse isso, nem o Flavio, nem ninguém. Por exemplo, do Laídio, cara que eu conheço há mais de 15 anos. Ele sempre desenhou e de uns tempos pra cá e tá muito empenhado na arte. E quando eu comecei a fazer desenhos, pedi pra ele mandar uns. Tanto que ele tem colaboração desde a primeira coleção. Ele e o Rimon. Eu acho dahora pegar o Laídio porque não era um cara que todo mundo conhecia. Nosso grupo de amigos conhecia e curtia ele, mas a arte nos tênis poderia leva-lo um pouco mais longe. Eu acho muito louco. Não foi só porque ele mandou que a gente fez, teve um acordo, todo mundo gostou aí a gente fez. E mesmo uma marca começando, na primeira coleção, levando ele pra outros lugares é parte da nossa missão. E outros caras nos elevam, aí funciona ao contrário. Você fez um tênis com a gente e muita gente falou “caralho, se o Parteum, um cara enjoado, inteligente fez um tênis com eles, a marca não deve ser assim tão zuada”. Existe união de força. Eu achei muito louco que a gente fez colaboração com loja, a gente não foi pioneiro disso no mundo, mas o louco é vender um tênis que conta a história de uma loja em várias outras lojas que são concorrentes. Isso é mente aberta. 11- Onde você acha que vai estar daqui 10 anos? N - Acho que bem feliz, com tudo certo e com várias pessoas legais junto. Espero estar evoluindo todo dia e que apareçam mais pessoas boas na minha vida, as que já estão continuem e o que o negócio seja muito verdadeiro.


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VAMOS EM FRENTE Parteum

AndrĂŠ Bernardes

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Pela segunda vez, me apresentei com um excelente time de convidados no Centro Cultural Rio Verde. Em 2012, com amigos dos tempos de Trama, fundei uma produtora audiovisual/ editora musical, a Mudroi. Entre os autores que a gente representa estão o rapper Amiri, o produtor Renan Samam, o recém-formado grupo 5 pra 1, Slim Rimografia e Kamau. Também chamei para o palco DJ Latif, Marcello GuGu, DJ Nyack e um dos mais importantes MCEEs da história do Rap Brasileiro, que por acaso é meu irmão, Rappin’ Hood. Eu costumo ficar bem preocupado com o som das casas em que me apresento, então só costumo absorver a atmosfera da performance lá pela 3ª, 4ª faixa. Fico contente por ter feito um show decente, com a casa lotada, todo mundo curtindo… É preciso lembrar que a cultura Hip Hop começou assim, com o som alto, grave batendo, lá no Bronx. Aos convidados, à equipe, ÖUS e Colex pelo suporte, muito obrigado! Vamos em frente!

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DJ Suissac: Como irmão e DJ deste mano sou suspeito pra falar (risos). Sei o corre que foi feito para realizar a festa, mas foi uma festa para lavar a alma. Estamos todos de parabéns, o Hip Hop agradece. Kamau: Parteum é meu amigo há mais de 20 anos. E é referência desde então em tudo que faz. Qualquer convite dele pra mim é uma convocação e sempre estarei pronto a atendêlo. Shows dele são raros. Então sempre que acontece a massa comparece em peso. Eu fico feliz de fazer parte tanto do show quanto da platéia. E nos vemos no próximo.  Rappin Hood: Estar com a familia sempre é bom, foi realmente uma noite especial.A Família Luiz estava lá representando, Dona Beth sorri no céu! Secreto Mzuri: É sempre bom contar com a família e fazer parte dos shows do meu amigo e parceiro Parteum, quando subo no palco faço de coração. Aliás, o Mzuri veio com essa concepção. Estamos juntos desde sempre. Slim: Eu acompanho o Fabio bem antes do Rap, lembro dele andando de skate nos VHS da Silly Society que eu via nos anos 90. E a transição de respeito foi muito natural do skate pro Rap. Rimar ao lado dele pra mim é uma honra, pois o considero um dos artistas de Rap mais conscientes sobre o papel da sua música, não só no palco mas de todos os caminhos da arte. E algo que destaco ainda mais hoje em dia, onde os sons sempre lembram outras sons, a forma que ele desenvolve seu Rap é muito particular, ele criou sua maneira de fazer rimas e produzir seus beats. Muito Respeito pelo amigo Parteum.

Marcello GuGu: Desde que comecei sair, quando era adolescente, gosto de observar a festa. Aprendi com o tempo a perceber detalhes, expressões, momentos e aprendi a guardar isso como forma de recordação. Dia 8 percebi num todo, e na prática, uma das linhas que mais gosto do Parteum: “Observe como todos se parecem quando o som tá ligado”. Aquela noite foi mais que uma festa, foi uma celebração. Um encontro de gerações, uma noite onde o Hip Hop esteve presente na sua forma mais pura e trouxe a união, a mensagem, a diversão. Foi gratificante demais fazer parte disso e poder dividir um pouco do meu trabalho com todos os presentes. Sinergia, um momento em que cada um se transformou num todo e vivenciou aquela noite como tem que ser, única. Foi Memorável. Existem festas que, com o passar do tempo, se tornam clássicas na nossa memória. Contamos e repetimos histórias que aconteceram nela pro resto da vida. Essa, com certeza, foi uma dessas. Ficou na história, e como toda boa festa, virou lenda. Até hoje comentam sobre e perguntam quando vai ter a próxima. Gostaria de agradecer a todos pela oportunidade de aprendizado, pelas idéias trocadas, pelas performances e aulas, pela festa em si e pela experiência de vivenciar aquele momento. Foi sensacional perceber que sim, todos se parecem quando o som tá ligado e o quanto pudemos e podemos nos comunicar dessa forma. Que a energia que todos depositaram por ali continue reverberando cada vez que contarem sobre a noite em que Parteum reuniu alguns convidados e fez uma celebração a vida. (Resumindo: FOI FODA DEMAIS) 

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A S S I S TA O V Í D E O N E V E R B E E N D O N E D O C H R I S CO L E E M DCSHOES.COM/COLELITE3


S達o Paulo SP - f: Renato de Moraes

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ARTE MUDA

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Mikey Moya - wallride • Fullerton USA - f: Renato de Moraes

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Emanoel 'Enxaqueca' - ss flip • Cricicúma SC - f: Thiago da Luz


Gleybson 'Barata' Felipe- bs crooked • Goiânia GO - f: Victor Souza

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Kevin Besset- handplant wallride • Barcelona ESP - f: Pedro Wolf

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Pedro Dobler โ€ข Vitรณria ES - f: Luiz Fernando Rohor

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Fortaleza CE- f: Wallace Costa

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JN Charles - 360flip • Recife PE - f: Ramon Ribeiro

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Gustavo Dias - ollie • São Paulo

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SP - f: Ricardo


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Paulo Galera - bs crooked • Montevideo URU - f: Ricardo Porva

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Pedro Biaggio- flip wallride โ€ข Maringรก PR - f: Manuel Martins

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Alison Rosendo - ski drop • Praia da Iracema FO- f: Robson Pinheiro

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Maurício Nava - ollie • Volta Redonda RJ - f: Leonardo Avelino

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ALEXANDRE RIBEIRO Parteum & Alexandre Ribeiro

Parteum

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Alexandre Pinto Ribeiro é um dos streeteiros mais importantes da história do skate brasileiro. Minha geração pode lembrar do “Ribeiro” como o cara que brigava com o latão da extinta ZN Skate Park, como o primeiro brasileiro a aparecer na revista de skate em vídeo 411, como um dos primeiros skatistas daqui a acertar a “foice” (360º kickflip) regularmente… Alexandre também era o homem das indicações musicais. Me apresentou o som de bandas como Fugazi, Minutemen, Firehose e Jane’s Addiction. Mano Ribeiro foi o primeiro amigo de sessão a dizer que a moda dos pressure flips passaria rápido. Sempre foi perspicaz e aplicado. Acho que as novas gerações deveriam saber mais sobre ele, mas não sei se ele concorda comigo. Eu costumo fazer anotações quando conversamos, já que tudo soa como uma dissertação viva e bem lúcida do assunto abordado. O que você encontra nessa página é uma série de ideias do Doutor Alexandre, um dos meus heróis do skate.

"Eu acho que quem não anda bem de skate não consegue viver de skate. Eu ganhei algum dinheiro, na minha época. Cheguei a ganhar 5 salários-mínimos aos 16, 17 anos, mas isso não durou muito tempo. A indústria ainda se baseava na parada do Surf, de atleta, de campeonato… Hoje, ficou evidente que o skate é uma outra coisa. Fora Street League, X-Games… pouca gente compete, compete mesmo. Depois que o skate foi “inventado”, virou moda, passou a moda e foi evoluindo. Eu vivi minha história na transição do skate de rua. Eu comecei numa época em que o skate de rua também estava começando, muita coisa não existia. A maioria era uns caras de shortinhos que mal sabiam dar ollie. Tudo que é feito hoje na rua foi inventado nos anos 90, no fim dos anos 80… Todas as notas musicais foram inventadas naquela época. O que se faz hoje é pura combinação. Faz-se tudo de uma maneira mais difícil, longa, extensa, num lugar mais alto e sem (tantos) erros, mas é pura combinação. Agora, isso não foi inventado em 2000 e poucos. Eu acho legal ter vivido isso. Se eu devo ser lembrado ou não, sei lá. Steve Caballero, Hosoi se dedicam totalmente ao skate até hoje. Eu não fiz isso, então quem anda de skate hoje não faz ideia de quem eu sou.

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Talvez, o skate tenha poucos líderes por conta da ideia de competição ter mudado. Na nossa época, um cara que andava mal durante o campeonato, não na volta, mas durante o campeonato não era levado tão a sério. A indústria e os skatistas controlam o destino do skate. Hoje, a competição não influencia tanto o resultado da carreira do cara. Ele pode fazer vídeos, divulgar, viver no mundinho dele lá, sem ter que provar nada a ninguém. Se amanhã as grandes corporações sumirem do skate, o skate não vai morrer. O skatista não vai parar de andar… O skatista é um artista, não é um esportista. As pessoas escolhem seus ídolos pela parte de vídeo e etc. Nos esportes clássicos, se as marcas saem, se os patrocinadores saem, os técnicos não ganham dinheiro, os atletas param de treinar… Skate não tem técnico! Minha opinião não vale nada, mas é assim que eu vejo o skate".


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Vista 61  

Revista brasileira de skate e comportamento.

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