Revista Viração - Edição 115 - Jul/Dez 2019

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ANTI-LINHA DO TEMPO

CORPOS QUE TEMEM

E NO MERCADO DE TRABALHO?

INTERVENÇÕES CORPORAIS

QUAIS CORPOS NÃO TÊM LUGAR NA HISTÓRIA HEGEMÔNICA DOS PADRÕES DE BELEZA?

A VIOLÊNCIA MIRA – E ACERTA – EM CORPOS ESPECÍFICOS

A DIVERSIDADE NO AMBIENTE CORPORATIVO NÃO PODE SER NEGLIGENCIADA

MARCAS NA PELE QUE EXPRESSAM INDIVIDUALIDADES PARA O MUNDO


QUEM FAZ A

VIRA PELO BRASIL

CONHEÇA OS VIRAJOVENS EM 11 ESTADOS BRASILEIROS E NO DISTRITO FEDERAL: Aracaju (SE) Belém (PA) Brasília (DF) Curitiba (PR) Guarulhos (SP) Mariana (MG) Natal (RN) Osasco (SP) Rio de Janeiro (RJ) Salvador (BA) Santa Maria (RS) São Luís (MA) São Paulo (SP) Vitória (ES)

Esta edição foi financiada por

Organizações parceiras que colaboraram com esta edição

A de Ajuda – Guarulhos (SP) • Jornalismo Júnior (ECA/USP) – São Paulo (SP) • UNAS Heliópolis e Região – São Paulo (SP) • Viração & Jangada – Itália


Copie sem moderação! Você pode: • Copiar e distribuir • Criar obras derivadas Basta dar o crédito para a Vira!

EDITORIAL

CORPOS JOVENS NOS ESPAÇOS SOCIAIS A transformação do corpo físico é uma das características que marcam a transição da infância para adolescência e e juventude – e acontece dentro de um contexto social acontece dentro de um contexto social onde os mesmos estão inseridos. Experienciamos o mundo pelo corpo, portanto contexto social, histórico e político têm sido fatores que determinam como esse corpo é compreendido, desejado, determinado, cuidado ou violado. Do ponto de vista físico, o corpo desejado nas sociedades é jovem, especificamente um determinado corpo jovem, com um recorte exclusivamente físico, que compreende características como: vigoroso, potente, simétrico, viril, etc. Por outro lado, quando o corpo jovem não corresponde a esse padrão cultuado e ainda ocupa o espaço social buscando ser sujeito na sua integralidade, sendo jovem preto(a), pobre; sendo a jovem ou adolescente grávida; sendo os (as) jovens LGBTI, indígenas, com deficiência ou considerados autores de ato infracional, esse corpo é violado, desrespeitado ou simplesmente negado. Entendendo o corpo na sua integralidade, para além de um sistema orgânico que constitui um ser vivo, a Edição 115 da Revista Viração, financiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente), faz um convite um convite para você pensar o seu corpo em relação ao espaço que ele ocupa e se apropria. Os virajovens nos convidam a refletir: O que é corpo, afinal? O que pode o corpo? O que você já experimentou ou vivenciou nesse seu corpo?

QUEM SOMOS A Viração é uma Organização da Sociedade Civil sem fins lucrativos, criada em março de 2003, que atua nas áreas de educomunicação, juventudes e direitos humanos. Recebe apoio institucional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), da Ashoka Empreendedores Sociais e do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo. Além de produzir a revista, a Viração oferece cursos e oficinas em educomunicação, Direitos Humanos, gênero e sexualidade e meio ambiente em escolas, grupos e comunidades em todo o Brasil. Para a produção da revista, contamos com a participação dos conselhos editoriais jovens de diferentes estados, que reúnem representantes de escolas públicas e particulares, projetos e movimentos sociais. Entre os prêmios conquistados nesses dezesseis anos, estão o Prêmio Cidadania Mundial, concedido pela Comunidade Bahá’ío, o Prêmio Don Mario Pasini Comunicatore, em Roma (Itália) e o Prêmio Internacional de Educomunicação, concedido pela União Católica Internacional de Imprensa. Paulo Pereira Lima Diretor Executivo da Viração

Apoio institucional


VIAS

POR UMA ANTI - LINHA DO TEMPO DA EVOLUÇÃO DA BELEZA

CORPO, FÉ E SOCIEDADE

EXPRESSAS

página 12

página 14

CORPO EM MOVIMENTO

O CORPO QUE É MORADA PARA OUTRO CORPO

página 16

página 17 A BELEZA NÃO PODE MATAR

página 18 CORPOS QUE TEMEM

página 23

JUVENTUDE NEGRA DESAFIANDO A ESTRUTURA RACISTA

página 26

DIÁRIO DE UM EX-DETENTO

página 28

CORPOS ENCARCERADOS: UM RECORTE DA JUVENTUDE

página 27 CONSCIENTIZE JÁ!

página 30 CORPOS DISSIDENTES E O MERCADO DE TRABALHO: UMA RELAÇÃO CONFLITUOSA

SEMPRE NA VIRA MANDA VÊ

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PROVOCAÇÕES

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QUE FIGURA

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GALERA REPÓRTER

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IMAGENS QUE VIRAM

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NO ESCURINHO

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página 32

página 38

REVISTA VIRAÇÃO - ISSN 2236-6806

Rafael Alves da Silva

PRESIDENTA VICE-PRESIDENTE PRIMEIRA-SECRETÁRIA

Rodrigo Bandeira, Vanessa Camargo e Marilda Santos

Áurea Lopes

CONSELHO FISCAL

Paulo Lima

CONSELHO PEDAGÓGICO

Alexsandro Santos, Aparecida Jurado, Isabel Santos, Leandro Nonato e Vera Lion

4

CARTUM

página 39

Cristina Uchôa

Rodrigo Bandeira, Vanessa Camargo e Marilda Santos

página 34

A SOLIDÃO DAS BIXAS

RG DA VIRA: CONSELHO EDITORIAL

TATTOOS & INTERVENÇÕES CORPORAIS

DIRETOR EXECUTIVO COORDENAÇÃO

Elaine Souza EDIÇÃO

Jéssica Rezende EDIÇÃO E REDAÇÃO

Daniel Fagundes, Jéssica Rezende, Juliane Cruz e Sylvio Ayala

Revista Viração • Ano 16 • Edição 115

EQUIPE

Adriana Barbosa, Cleide Agostinho, Carolina Nascimento, Daniel Fagundes, Elisangela Nunes, Jéssica Rezende, Juliane Cruz, Kalline Lima, Luiza Gianesella, Sylvio Ayala, Thaís Santos, Tulio Bucchioni e Viviane Delgado COLABORADORES DESTA EDIÇÃO

São Paulo (André Luiz Pereira, Bruna Irala, Carina de Jesus, Catarina Virginia Barbosa, Dandara Moreira, Daniel Fagundes, Danilo Rocha, Fernando Belucio, Giovanna Feliciano, Gustavo Rodrigues, Jazz Martins, Jenny Nicassio, Joyce Serafim, Júlia Cavalcante, Júlia Vaccari, Kauanny Souza, Lucas JK, Lucas Messias, Lucio Ayala, Luiza Gianesella,

Maria Francisca, Mateus César, Pedro Lucas, Raul Lenin, Rô Vicente, Sabrina Geryn, Thaís Santos, Thico Lopes, Wagner Possati) e Rio de Janeiro (Mariana Assis) ARTE

Manuela Ribeiro JORNALISTA RESPONSÁVEL

Paulo Pereira Lima – MTb 27.300 DIVULGAÇÃO

Equipe Viração CONTATO

comunicacao@viracao.org DOAÇÃO

mobilizacao@viracao.org


O QUE É EDUCOMUNICAÇÃO?

DIGA

LÁ VIRA AMIGO DA VIRA! Desde 2014, a Revista Viração não trabalha mais com assinatura. Ao invés disso, pedimos o seu apoio para a manutenção das nossas atividades. Além da produção de conteúdo por e para jovens, também realizamos encontros de formação em direitos humanos e educomunicação e atividades de mobilização social. Nosso trabalho está sustentado no entendimento de que o adolescente é um sujeito de direitos. A partir da educomunicação e da educação entre pares, impactamos as vidas de milhares de adolescentes e jovens Brasil a fora, considerando suas condições únicas de desenvolvimento. Para apoiar, é só acessar o site www.viracao.org/apoie e seguir as instruções. É tudo online e bem rapidinho! Agora, se você prefere depositar um valor direto na nossa conta, os dados são: Viração Educomunicação Banco do Brasil | Agência: 6501-3 | Conta Corrente: 200.023-7 CNPJ: 11.228.471/0001-78 Apoie a Viração na promoção de direitos, no fortalecimento da participação de adolescentes e jovens e na construção de uma comunicação democrática.

PERDEU ALGUMA EDIÇÃO DA VIRA? NÃO ESQUENTA! Você pode acessar, gratuitamente, as edições anteriores da revista na internet: www.issuu.com/viracao

É comum, nas edições da Vira, encontrar a palavra “educomunicação” ou o termo “educomunicativo”. A educomunicação é um campo de intervenção que surge da inter-relação comunicação/ educação para a transformação social. Dizemos que um projeto ou prática é educomunicativa quando adota em seus processos, especialmente do jovem, o caráter comunicacional, como o diálogo, a horizontalidade de relações e o incentivo à participação, fazendo com que os sujeitos exerçam plenamente o direito humano à expressão e à comunicação, em diferentes âmbitos e contextos. A Viração promove ações educomunicativas por meio da produção midiática, incentivando que adolescentes e jovens produzam reportagens coletivas em diferentes linguagens.

COMO SER UM VIRAJOVEM? Virajovens são os integrantes dos conselhos editoriais jovens da Viração, que produzem conteúdos em suas cidades. O conselho pode ser um coletivo autônomo de jovens ou um grupo ligado a uma entidade, organização, movimento social, escola pública ou privada, que dará apoio para que os virajovens produzam conteúdos. A parceria entre a Vira e entidade é oficializada com um termo de compromisso e com a publicação do logotipo da organização na revista. Quer saber mais? Entre em contato com a gente: comunicacao@viracao.org

FACEBOOK.COM/ VIRACAO.EDUCOMUNICACAO @VIRACAO.OFICIAL

@VIRACAOEDU Para garantir a igualdade entre os gêneros na linguagem da Vira, onde se lê “o jovem” ou “os jovens”, leia-se também “a jovem” ou “as jovens”, assim como outros substantivos com variação de masculino e feminino.

Mande seus comentários sobre a Vira, dizendo o que achou de nossas reportagens e seções. Suas sugestões são bem-vindas! Escreva para Rua Araújo, 124, 3º andar – CEP 01220-020 – São Paulo (SP) ou para o e-mail: comunicacao@viracao.org


MANDA VÊ

VOCÊ SENTE SEU CORPO

EXPOS T O A QUÊ?

TEXTO MATEUS CÉSAR, KAUANNY SOUZA E RAUL LENIN, VIRAJOVENS DE SÃO PAULO (SP) IMAGEM RAWPIXEL

N

osso corpo é muito importante. Nele existimos, com ele sentimos e nos expressamos. Justamente por esse motivo, precisamos de uma dose extra de cuidado e atenção. Estamos expostos ao mundo, à doenças, à vida. Nenhum corpo está isento a exposições. Somos feitos de formas, cores, traços, expressões, personalidades, estilos e ancestralidades diferentes. Nossa forma de ser, estar e existir no mundo é única. Igual a você, só você – mesmo que você tenha uma irmã ou irmão gêmeo. E é essa diversidade que compõe as riquezas do Museu da Humanidade. O grande problema é que, muitas vezes, as nossas diferenças não são respeitadas e acabam nos deixando expostos a mais violências. Perguntamos para pessoas que estão em diferentes Estados e países como elas sentem – ‘na pele’ – essa exposição do corpo. O resultado da conversa você confere a seguir!

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Revista Viração • Ano 16 • Edição 115

NAT HALIA GOU V EIA

21 ANOS | RIO DE JANEIRO

Sinto que meu corpo está exposto ao simplesmente existir e ser: negra, mulher. Exposta ao ódio velado em forma de frases e ao racismo. Exposta a contra-ataques disfarçados de proteção, a violência que faz acepção de raça.


SUELLEN LIMA

27 ANOS | ESTADOS UNIDOS

Eu sinto que meu corpo está exposto a diversos tipos de julgamentos e assédios. Por estar morando fora do Brasil, os estereótipos sobre a mulher negra e o plus de ser brasileira, me fazem sofrer com a constante hipersexualização do meu corpo aqui.

JUANI CAMPELLO 19 ANOS | ESPANHA

Sinto que meu corpo está exposto a muitas coisas. Por exemplo, para a opinião dos outros, especialmente nas redes sociais. E também está exposto a muitos produtos nocivos e coisas como o ar poluído que respiramos ou até mesmo os raios solares.

BIANCA PE REI RA

17 ANOS | MARANHÃO

Acho que todo mundo corre riscos com o próprio corpo. A sociedade julga pelo que vê e a aparência fala mais do que o interior. Ou seja, uma hora ou outra estamos sujeitos a passar por situações um tanto “embaraçosas” ou até violentas. Nós corremos riscos todos os dias.

T HIAGO RAMOS

19 ANOS | PORTUGAL

No Brasil claramente existe o racismo. Por exemplo, quando você vai ao mercado, ao shopping; você vê as pessoas te olhando de outro jeito. Aqui na Europa não é diferente e você ainda sente o preconceito por ser estrangeiro. Não se sente em casa e não fica à vontade. Não é todo mundo que pensa dessa forma; assim como nem todos no Brasil reproduzem pensamentos e atitudes racistas, mas você se sente diferente por ser estrangeiro. Ainda mais brasileiro. Aqui, o brasileiro é visto como ladrão, pobre... como se no Brasil só tivesse roubo e morte. Quando você se muda pra outro país, essa reputação acaba vindo com você.

VI T OR AL V ES

17 ANOS | SERGIPE

Meu corpo está exposto a diversas coisas, políticas e sociais. No que tange a questão política, meu corpo está vulnerável às modificações e projetos de leis dos representantes políticos. E no quesito social, está quando a sociedade rotula o padrão que meu corpo deve seguir.

QUAL É A SUA OPINIÃO? Queremos saber o que você pensa sobre esse assunto. Mande sua resposta para o nosso Instagram! @agencia.jovem

Revista Viração • Ano 16 • Edição 115

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PROVOCAÇÕES

TEXTO CARINA DE JESUS E THICO LOPES* IMAGEM RAWPIXEL

S

COR.PO

REFLEXÕES SOBRE UM CORPO INTEGRAL – O NOSSO!

egundo o dicionário on-line, corpo é um substantivo masculino que tem, no mínimo, 15 significados. Entre eles:

Mas, pensando na definição popular e social, o que é corpo? Quando você pensa nessa palavra, o que vem à cabeça?

1. ANATOMIA GERAL: estrutura

Não somos educados a pensar sobre o corpo de forma adequada. Há muitos tabus em torno dessa questão. ACABAMOS

física de um organismo vivo (esp. o homem e o animal), englobando suas funções fisiológicas; 2. ANATOMIA HUMANA na configuração da espécie humana, o conjunto formado por cabeça, tronco e membros; 3. POR EXTENSÃO tronco, parte central da estrutura anatômica de um homem ou de um animal; 4. POR EXTENSÃO compleição física.”era ainda um rapaz mas já tinha corpo.” 5. FIGURADO (SENTIDO) • FIGURADAMENTE:

materialidade do ser; carne. “os prazeres do corpo” 6. Pessoa morta; cadáver.

De quem é o corpo que carrega o estereótipo de ameaça? Que é seguido nas lojas, no mercado e no shopping? Quais são os corpos que mais sofrem assassinatos e são encarcerados? Qual é o corpo que na hora do parto recebe menos anestesia? Aquele que morre a cada 23 horas apenas por existir?

POR APRENDER MAIS A NOS PRESSIONAR A SER ALGO DEFINIDO DO QUE A NOS PERCEBER COMO SOMOS. E esse

modelo ideal de ser ou existir é seletivo – ousamos dizer: branco, cisgênero, heterossexual, rico e midiático. Diante de uma sociedade que tem nos ditado o que devemos ser e o que desejamos ver, pergunto: você já se pegou pensando em como ficam os corpos diferentes desse ‘modelo ideal’? Você já refletiu sobre o que marca e torna mais vulneráveis os corpos jovens, os corpos pretos, os corpos periféricos, os corpos femininos, os corpos trans, entre outros?

Nossa sociedade vive de uma herança escravocrata, misógina, LGBTfóbica, com aversão à diversidade. Não à toa, posto que essas violências são praticadas para manter a soberania dos corpos tidos como padrão. Por isso torna-se importante pensar o que os corpos em situação de vulnerabilidade enfrentam dia a dia. Qualquer corpo que não segue o padrão estético estabelecido pelas redes midiáticas e pela sociedade no geral está em constante luta para ser – ser gente, ser humano, ser inteiro, ser sujeito, ser político. MAS FICA A PERGUNTA: COMO, ENTÃO, PODEMOS SER EM UMA SOCIEDADE QUE NÃO DEIXA?

Quais os corpos mais marcados pela violência policial e pela violência de gênero? Já pensou no corpo com pulsos marcados pelo adoecimento de uma sociedade?

* Carina de Jesus, jovem negra moradora do Grajaú e Thico Lopes, jovem morador da Brasilândia. Ambos são estudantes do Curso Técnico em Dança da ETEC de Artes e virajovens de São Paulo (SP) 8

Revista Viração • Ano 16 • Edição 115


QUE FIGURA TEXTO PEDRO LUCAS, VIRAJOVEM DE SÃO PAULO (SP) ILUSTRAÇÃO ELOAR GUAZZELLI

T

ula Pilar Ferreira, filha de Antônia de Souza – que assim como sua segunda filha, era pilar de sustentação de uma família de sete mulheres – era muito além de apenas uma mulher preta, periférica e mãe solteira de três filhos. Performer, escritora, poetisa, cantora, atriz, educadora – frequentou desde sempre a noite da cidade de São Paulo, onde tirava seu sustento e de seus filhos. Uma mulher que ressignificava vinte e quatro horas por dia os mitos sociais dos papéis de mulher, mãe, artista e negra. Histórica vendedora da revista OCAS, contribuiu algumas vezes com o conteúdo da publicação – levando sua história e seus poemas para o grande público. Nascida em Ribeirão das Neves, Minas Gerais, mudou-se ainda criança para a capital Belo Horizonte, onde já aos cinco anos começou a trabalhar como babá e ajudante de sua mãe, cozinheira. Nesse ambiente hostil e racista, disfarçado de doce-lar, ela teve seus primeiros contatos com a literatura, mesmo não sabendo ler. Acabou sendo alfabetizada pelos próprios patrões, onde se descobriu uma pessoa apta, além de apaixonada pela leitura e pela escrita.

TULA PILAR,

PRESEN T E!

EM SEUS VERSOS, A VIDA QUE PULSA NAS QUEBRADAS PAULISTANAS.

Tula escreveu a sua vida toda – suas dores, alegrias, sonhos. Educou seus filhos Samanta, Pedro Lucas e Dandara com a literatura e as artes. Não era apenas uma artista, mas também mãe e pessoa formidável. Seu

legado agora é patrimônio – não só de seus filhos biológicos, mas de todas as futuras Tulas, Carolinas e Dandaras. Não lamentamos sua morte. Celebramos sua vida, sua escrita, sua arte. Recordamos o seu sorriso, sua vitalidade e sua força. Nos espelhamos na sua história para que, quem sabe um dia, consigamos nos tornar pelo menos um reflexo do que ela não foi, mas é – uma garota ousada. VIVA TULA PILAR!

Pedro Lucas, em nome de toda a família Ferreira de Souza. 24/04/2019 Feliz aniversário, mãe!

TÁ NA MÃO Conheça mais sobre a obra de Tula Pilar: • Palavras Inacadêmicas (2004) • Sensualidade de Fino Trato (2017) • Negras de lá, negras daqui (2019)

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GALERA REPÓRTER

TEXTO LUCAS JK, JAZZ MARTINS E JOYCE SERAFIM, VIRAJOVENS DE SÃO PAULO (SP) FOTOS JULIANE CRUZ E MARIA FRANCISCA

A ESCRITA SOB(RE) VIOLÊNCIA DE MARCELINO FREIRE SANGUE, SUOR E PALAVRAS: A LITERATURA COMO FORMA DE FOTOGRAFAR OS SOFRIMENTOS DE UM TEMPO.

O

corpo é poético, une poesia e carne. Traça paralelos criativos, inspira, expira, expressa! Buscamos a palavra que toma forma, pulsa e se levanta. No caminhar jornalístico pelo conteúdo da revista, conversamos com Marcelino Freire – escritor e poeta pernambucano que topou falar com a gente sobre poesia, corpos e literatura. Foi logo após uma oficina de literatura criativa para jovens, conduzida por ele no auditório da Viração, em parceria com o Itaú Cultural.

REVISTA VIRAÇÃO – QUANDO VOCÊ COMEÇOU A ESCREVER? MARCELINO FREIRE – O meu

primeiro poema foi sobre o fim do mundo. Eu devia ter uns 8 anos quando o escrevi. Entrei para o teatro aos 9 e, aos 12, comecei a escrever peças que chegaram a ser encenadas. Lembro perfeitamente quando participava de festivais de teatro, diziam: “Com vocês, o autor da peça que acabaram de assistir!” e então eu aparecia, um adolescente de 14 anos. As pessoas ficavam surpresas. R.V. – QUANDO VOCÊ PERCEBEU QUE QUERIA SER ESCRITOR? M. F. – Sempre fui o menino que

gostava de ler e de escrever. Minha mãe descobriu que eu escrevia cartas bonitas, que lia bem, então essa passou a ser a minha função em casa. Fui descobrindo que o que gostaria para a minha vida era estar perto de livros, da leitura, da escrita. O primeiro lugar em que fui respeitado como escritor foi a minha casa. 10

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Além disso, tive em minha vida mestres. Professores, professoras, sujeitos que me ajudaram a caminhar. É muito importante que a gente valorize essas pessoas que aparecem em nossas vidas – elas são fundamentais. Gente que pega a nossa mão e nos ajuda a atravessar as esquinas, tirar dúvidas, suportar a vida, questionar porque o mundo é tão cheio de injustiças, de contradições. Encontrei uma professora de teatro, Ilza Cavalcante, que era a minha biblioteca. Todo professor é uma biblioteca ambulante. Ela percebeu que eu gostava de poesia, pegava livros do gênero e me dava. Percebeu que eu gostava de teatro, me dizia para terminar de escrever minhas peças que ela as encenaria e eu assistiria com ela. Minha sensação é de muito agradecimento e de que minha mãe estava certa quando queria que eu e meus irmãos estudássemos para viver um futuro bom, que nos é de direito.


RV – DE ONDE SURGE A SUA INSPIRAÇÃO PARA ESCREVER? M.F. – O livro que eu mais leio é a

ESCREVO PORQUE QUERO ME

rua. Gosto de observar as pessoas, de ouvir as conversas – seja nos trens, nos bares, na noite de São Paulo. A rua me fornece muitas dessas palavras que uso no que escrevo. Também me inspiro muito na região em que nasci, Sertânia – embora eu tenha saído muito cedo de lá, toda vez que escrevo penso no sertão, lugar de onde vim, minha quebrada, minha terra. Tudo isso está presente na minha literatura.

ENTENDER E PARA DEIXAR

As histórias que escrevo são sempre histórias a partir de mim – tudo que a gente escreve é a partir do nosso olhar, daquilo que a gente pensa e sente. Quando escrevo sobre uma personagem chegando na rodoviária de São Paulo sem emprego, por exemplo, sei que sou eu quem está chegando ali; porque coloco todo o meu sentimento, toda a minha memória daquele momento. R.V – SUAS OBRAS SÃO MARCADAS PELA REPRESENTAÇÃO DA VIOLÊNCIA NO BRASIL. COMO É ESCREVER SOBRE TEMAS TÃO PESADOS? M. F – As pessoas falam que eu

escrevo sobre a violência, eu digo que escrevo sob violência. Porque é sofrendo essa violência também. E há motivos de sobra para eu me sentir o tempo inteiro querendo entender porque o país é tão violento, porque as pessoas sentem tanto ódio, porque há tanta desigualdade. Escrevo o tempo inteiro abismado. Afetado. Por que algumas pessoas têm tanta dificuldade de existir se o existir deveria ser bom e suave para todo mundo?

VINGAR, NÃO ME CONFORMO COM TUDO ISSO. PARA TENTAR REGISTRADO O QUANTO NOSSO TEMPO É VIOLENTO. NÃO SEI SE VÃO LER DAQUI PARA FRENTE, MAS DEIXO ESCRITO O MEU TESTEMUNHO DESTE TEMPO. A ESCRITA É A FOTOGRAFIA DO PENSAMENTO. DA ALMA. Eu

leio escritores para pensar coisas como: “Graciliano Ramos, quer dizer que no seu tempo as pessoas não tinham água para sobreviver? E, olha, deixa eu te dizer: Você faleceu lá no passado, mas o Vidas Secas está aqui. Continua a mesma coisa”. Não é Graciliano que resolveria o problema da seca, ele foi alguém que fotografou o tempo. Podemos olhar fotografias antigas e dizer: “nossa, nessa época as avenidas eram assim?” e ao ler um escritor, “nessa época, a alma das pessoas era tão doente assim?”, “esta pessoa oprimia aquela só por causa disso? Desde sempre foi desse jeito?”.

com o orçamento da casa. Se você é bom em escrever, pode ajudar a família a ler e em outras tarefas. Qualquer escolha que se faça haverá dificuldades que precisarão ser enfrentadas, a vida não é fácil. A gente vai construindo a maturidade para enfrentar o mundo com sabedoria, alegria e esperança. E só se tem esperança na vida se estiver fazendo o que se gosta. Eu não consegui viver apenas como escritor desde o início, mas sempre estive próximo do que queria; fosse como professor, escrevendo cartas ou trabalhando com datilografia. O importante é ficar próximo do que se quer. É estudar bastante, se formar. Isso vai te dando segurança e, principalmente, fazendo a manutenção da esperança.

R.V – O QUE TE MOTIVA A CONTINUAR ESCREVENDO? M.F. – Uma vez, quando tinha a

idade de vocês, entre 14 e 16 anos, me fiz a seguinte pergunta: “Se tirar o teatro, a literatura e a imaginação da minha vida, o que sobra?”. Concluí que não sobraria nada – eu seria manipulado e viveria uma vida que não queria viver. Ao ser respeitado em casa por escrever e ler bem, encontrei o meu lugar, a minha função. Cada um tem o seu lugar e sua função na casa – e no mundo. Se a gente compreendesse isso, um respeitaria o outro. Você não será igual ao irmão que é bom em cálculo e ajuda

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ARA

- CORPO, FÉ

E SOCIEDADE ENTENDA A RELAÇÃO E A IMPORTÂNCIA QUE O CORPO TEM PARA O CANDOMBLÉ.

TEXTO ANDRÉ LUIZ PEREIRA, PESQUISADOR DA MATRIZ AFRICANA E VIRAJOVEM DE SÃO PAULO (SP) IMAGEM RAWPIXEL

O

candomblé, além de ser uma religião de origem africana e politeísta1, destaca-se das outras religiões cultuadas no Brasil por sua liturgia. Quando presenciamos o culto, dispensamos os costumes das religiões ocidentais e nos deparamos com o legado africano e sua variedade de possibilidades, cores e tons. Sem a necessidade de um livro que oriente seus seguidores, o Candomblé passa a ser uma religião de tradição oral e corpórea, onde todo o culto tem profunda relação com o “ARA” (corpo) de seus adeptos. É através do corpo que o Axé – força vital na cosmovisão africana – se manifesta e portanto sem corpo não há candomblé.

e movimentos que envolvem o culto afro-brasileiro. Embora tenha sido o processo de exploração do corpo que trouxe os negros escravizados para o brasil, no candomblé esses corpos ganham liberdade e deixam de ser objeto a ser explorado e passam a ser templo consagrado e reverenciado, contrapondo a ideia platônica de que “o corpo é a prisão da alma”. Seja na dança, no toque dos atabaques ou nas vozes que cantam, é impossível conceber a ritualística afrobrasileira sem as manifestações e movimentos corporais. SEGUNDO FOUCAULT, CONSTRUÍMOS O CORPO PARA NÓS MESMOS E, COM

É comum ver imagens que representem a afirmação acima. Na obra do pintor Carybé (argentino naturalizado brasileiro) temos fortes expressões dos gestos

ESSA CONSTRUÇÃO, REVELAMOS E ABSORVEMOS VALORES QUE NOS ACOMPANHAM. ELABORAMOS FORMAS E EXPRESSÕES DE VIDA.

Aqui consideramos a forma como o culto se faz no Brasil. Embora trate-se de uma religião de matriz africana, é importante considerar que suas heranças vêm de várias regiões da África. Deste modo, é possível afirmar que o candomblé no Brasil é cultuado de uma maneira diferente do que é em algumas regiões africanas, onde expressa-se de forma monoteísta. O panteão é o mesmo, mas a relação com essas divindades e elementos da natureza se dão de maneira diferente – aqui é possível encontrar mais de uma divindade num mesmo território. 1

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Revista Viração • Ano 16 • Edição 115


Quando uma pessoa é iniciada no candomblé, seu corpo passa a ser morada de seu orixá, sendo assim, a escrita que conta a história do candomblé é por natureza uma escrita corpórea. Para os adeptos do candomblé, a dança também é uma forma de rezar – seja no momento em que o orixá está incorporado e se manifesta ou durante os toques e festividades de cada casa. Com o advento da internet, é comum ver vídeos de adeptos cada vez mais jovens, no entanto, este fato sempre existiu. Sendo o culto uma forma de celebrar a vida, é indispensável a presença de jovens e crianças. Rhayssa Domitila de Oliveira é o nome de uma dessas jovens adeptas, apontada como Iyalase, sucessora de seu babalorixá (zelador do terreiro – no popular, pai de santo) no IBECE ALAKETU AJAGUNAN AXÉ IBI ALA, terreiro localizado na zona sul de São Paulo, onde foi iniciada aos 9 anos de idade, herda da mãe e do pai a paixão pelo culto. Hoje, aos 15 anos, tem forte influência sobre o Egbé (comunidade de terreiro) do qual faz parte. Para ela, a possibilidade de cantar durante o xirê – ponto alto das festas de candomblé, momento onde os orixás manifestados dançam e interagem com a comunidade – é uma das melhores e maiores conquistas. “Eu amo cantar!”, é o que ela diz. Apesar da pouca idade, Rhayssa traz consigo um saber e propriedade sobre seu corpo que a diferem dentro da

roça. Afirma que é pelo corpo que o orixá se manifesta e que vê na dança a melhor expressão dessa manifestação – cada santo com sua dança, cada dança com seus detalhes. Enquanto canta pode observar, enquanto dança pode representar os deuses que cultua. Tudo é uma mistura, a voz, o toque, a dança. Tudo é vida, tudo é paixão. APESAR DE TODO ESSE UNIVERSO DE BELEZA QUE RONDA O CANDOMBLÉ, O

religiões afro-brasileiras, com 39% das denúncias. “As religiões de matriz africana, por terem nascido com as pessoas que foram escravizadas, carregam uma história de minoria, um estigma de que, por isso não são boas. Se hoje ainda existe o preconceito na questão racial, lógico que isso vai ser refletido no campo religioso”, opina João de Freitas, 27 anos, ator, professor de idiomas e frequentador da umbanda há 27 anos.

CORPO É TAMBÉM ALVO DE VIOLÊNCIA E RACISMO RECORRENTES. Isso faz com

que pessoas como Rhayssa optem por não se expor em seus locais de convívio social como escolas e nas ruas. Além de todo preconceito moral, o risco de ser violentado ainda é grande. São grandes as denúncias e depoimentos de casos de exclusão e racismo religioso entre crianças e adolescentes, fazendo com que pais e mães, como os de Rhayssa, acabem não permitindo que seus filhos saiam ou frequentem locais que outros adolescentes de outros segmentos religiosos tem o costume de frequentar sem maiores complicações. Apenas entre janeiro de 2015 e o fim do primeiro semestre de 2017, o disque 100 (canal que reúne denúncias), recebeu 1.486 queixas de intolerância religiosa. Isso significa que o Brasil registra uma denúncia do tipo a cada 15 horas. Segundo a análise da Secretaria Especial de Direitos Humanos, os principais alvos das discriminações religiosas são as

Acontece que o corpo consagrado, sendo templo e meio para se cultuar as divindades, também se torna o maior bem que um candomblecista tem. Neste sentido, o corpo do candomblecista cria narrativas próprias do culto e expressa valores que abarcam dimensões éticas e culturais. Motivo de orgulho para pessoas como Rhayssa, que trazem no peito a felicidade e prazer em ser negra e candomblecista. Vestir o santo quando este está incorporado é uma maneira de resgate e reverência de seus antepassados e suas formas de viver. Por meio da dança é que se cria o movimento e, como num ciclo que nunca se rompe, passado e presente dialogam. Como elo nesta corrente, o “ARA” é peça fundamental e indissociável ao culto.

CONSULTE AS FONTES http://bit.ly/obs3setor http://bit.ly/dadosdenuncia

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POR UMA ANTILINHA DO TEMPO DA E VOLUÇÃO DA BELEZA

CORPOS DISSONANTES PARECEM NÃO TER LUGAR NA HISTÓRIA HEGEMÔNICA DOS PADRÕES DE BELEZA – E TALVEZ ISSO NÃO SEJA DE TODO RUIM.

TEXTO LUIZA GIANESELLA, DA REDAÇÃO

IMAGEM RAWPIXEL

“DESCULPA SE VOCÊS NÃO VIREM NENHUMA PESSOA NEGRA NO TRABALHO, É PORQUE ATÉ NA HISTÓRIA OS NEGROS NÃO ERAM INCLUÍDOS. SORRY.”

Q

uando abri o documento enviado pelos virajovens Raul Lenin, Joyce Serafim e Luccas Rizzi para ocupar originalmente estas páginas, deparei antes de mais nada com esse pedido de desculpas. O que vinha a seguir era uma linha do tempo com a evolução dos padrões de beleza, na qual, com a exceção do primeiro item, a estatueta da Vênus de Willendorf (à qual é difícil atribuirmos uma raça), todos os demais marcos faziam referência a uma beleza caucasiana.

1950

MARILYN MONROE

Fiz uma busca na internet por outras linhas do tempo que considerassem não apenas os padrões brancos e ocidentais de beleza, mas não encontrei praticamente nada sistematizado. Como é possível que todas as outras possibilidades de beleza tenham sido sumariamente excluídas dessa história? Com esse incômodo, decidi me aprofundar no assunto.

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ANOS 90

TOM CRUISE E NICOLE KIDMAN

Revista Viração • Ano 16 • Edição 115

ATUAL

GISELE BUNDCHEN

Parte da linha   do tempo elaborada   pelos virajovens

Depois de muita pesquisa, descobri a existência do livro Black Beauty: A History Of African American Hairstyles & Aesthetics, From Actresses To Models (Beleza Preta: Uma História dos Penteados e da Estética Afroamericana, das Atrizes às Modelos), de Ben Arogundade, que pretende justamente preencher essa lacuna. O primeiro capítulo, que está disponível na íntegra (em inglês) no site do autor, traz um compilado das violências cometidas pelos brancos contra povos nãobrancos – principalmente o preto, mas também o Samoano, o Inuíte, o Lapão etc. – e mostra como, a partir de uma concepção hegemônica de beleza que era considerada um indício de que os caucasianos seriam superiores, os opressores justificavam essas violências. Minha pesquisa também me levou a perceber o quanto só muito recentemente corpos dissonantes


já que historicamente nós mulheres sempre fomos vistas, em maior ou menor grau, como objetos). E não preciso nem dizer que, também no caso da linha do tempo masculina, o único referencial era o do homem branco e ocidental.

ESTATUETA DA VÊNUS DE   WILLENDORF (ENTRE 28.000   - 25.000 A.C.)

A MODELO TESS HOLLIDAY NA CAPA DA REVISTA COSMOPOLITAN  (2018).

ocuparam pela primeira vez espaços de destaque que, até então, lhes tinham sido negados. Somente em 1996 um homem preto, Denzel Washington, foi eleito como Sexiest Man Alive (Homem Mais Sexy do Mundo) pela revista People. Apenas em 2014 uma mulher preta de cabelos não-alisados e pele realmente escura (ou seja, de uma beleza tradicionalmente africana), Lupita Nyong’o, foi eleita a mulher mais bonita do mundo pela mesma revista – Halle Berry e Beyoncé já haviam ocupado o posto, em 2003 e 2012. E foi só no ano passado que a capa da revista Cosmopolitan foi ocupada por uma mulher gorda, a modelo Tess Holliday. Outra ausência que incomoda nas linhas do tempo é a dos corpos masculinos. Foi muito difícil encontrar uma que falasse sobre eles, e a que encontrei era muito mais genérica do que as femininas (o que não deveria causar surpresa,

A essa altura do texto, você já deve ter reparado que essas linhas do tempo se baseiam em conceitos bastante tradicionais de feminilidade e masculinidade. Embora aqui e ali se fale de maneira pontual e superficial sobre uma certa androginia, corpos realmente não-binários simplesmente não têm lugar nessa suposta evolução dos padrões de beleza. Foi então que, nauseada com os resultados da minha pesquisa, ouvi de uma amiga cientista social para quem relatei minhas dificuldades que talvez o problema fossem justamente as noções de “linha do tempo” e “padrão”. Pensemos nos concursos de miss e nas polêmicas recentes em torno deles. Embora me pareça uma vitória que mulheres trans ou pretas – ou até mesmo apenas ligeiramente menos magras, como no caso polêmico da Miss Canadá Siera Bearchell, nona colocada no concurso de Miss Universo 2017 – possam ser eleitas misses, coisa impensável até há pouco, talvez o problema real não seja a exclusão de corpos dissonantes desses concursos e sim a existência do concurso em si. QUE VALOR TEM ALGO QUE PARTE DO PRINCÍPIO DE QUE É POSSÍVEL ENCONTRAR UMA MULHER QUE SE ENCAIXE

SIERA BEARCHELL, MISS CANADÁ, SUPOSTAMENTE GORDA DEMAIS PARA SER MISS.

NUM SUPOSTO IDEAL PARA REPRESENTÁ-LO, DIANTE DE TODO O UNIVERSO (!), POR UM ANO? Será que o nosso

interesse em rankings, listas, prêmios e concursos não é uma herança colonial e colonizante, enraizada na ideia de que apenas um padrão deve ser eleito e valorizado? Qualquer linha do tempo da evolução da beleza seria apenas uma tentativa de fazer uma história única e linear da evolução desse padrão ao longo da história (como se só houvesse, também, uma história a ser contada). Será que isso nos representa (a todas e todos)? O mundo seria muito diferente se, em vez de eleger o homem mais sexy e a mulher mais bonita, uma revista como a People desse espaço para que pessoas de diferentes etnias, tamanhos e identidades de gênero pudessem mostrar suas belezas e se expressar sobre e a partir delas. Ou se os concursos de miss deixassem de ser concursos e se tornassem outra coisa (qual?). Enquanto isso não acontece de vez, cabe a nós usar os nossos pequenos ou grandes espaços de expressão para criar diálogo e colaboração, e não rankings e competição.

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TEXTO DANDARA MOREIRA, VIRAJOVEM DE SÃO PAULO (SP)

CORPO EM

MOVIMEN T O USANDO A LIBERDADE DA ARTE, DO ESPORTE E A TERAPIA PARA NÃO PIRAR.

C

om todos os problemas e pressões que enfrentamos em nosso cotidiano, a arte e o esporte tornam-se refúgio para muitos jovens. Como forma de autocuidado, são usados para ocupar-se e conectar-se consigo mesmo. A cultura e o esporte têm o potencial de ajudar as pessoas que se sentem presas ao caos de existir porque ressignificam o estar no mundo e a relação com o próprio corpo. Mariana Aranha, jovem poetisa, bailarina e professora de ballet clássico, pontua: “A arte em geral, mas principalmente a dança, que é o que faço, quase sempre ajudam a me expressar e funcionam também como um escape do mundo. Como se quando eu dançasse, me concentrasse no ato e esquecesse de todas as coisas ruins. E esquecer dos problemas, nem que seja por apenas uma hora, já me deixa mais calma e me faz conseguir pensar com mais clareza sobre as coisas depois”.

O AUTOCUIDADO PRECISA SER FEITO DE FORMA INTEGRAL, CORPO E MENTE – QUE ESTÃO CONECTADOS DE DIVERSAS FORMAS, MAS TAMBÉM APRESENTAM SUAS PARTICULARIDADES. Muitos jovens

que praticam esportes, por exemplo, podem acabar sofrendo com a pressão e expectativas dentro de espaços competitivos. Uma atividade que deveria fazê-los sentir-se bem com o corpo pode acabar disparando ataques contra a mente. Cuidar de si importa, a forma que estamos expostos ao mundo muitas vezes é violenta. No entanto, nem todos têm a mesma oportunidade de acesso a essas atividades e ao acompanhamento psicológico – posto que, apesar de haver iniciativas gratuitas e de baixo-custo, muitas vezes não são de conhecimento geral e/ou as pessoas não possuem tempo disponível porque necessitam trabalhar para garantir a subsistência de si e da família.

Mesmo se tratando de maneiras de manter-se são, essas atividades não dispensam a terapia como método de autoconhecimento e resolução de questões internas que influenciam na forma de lidar consigo mesmo e na vida social.

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IMAGEM ACERVO PESSOAL

Além disso, o autocuidado não é tratado com a relevância que deveria e ainda há um forte estigma social associado aos transtornos mentais, que implicam na falta de acolhimento e suporte para as pessoas que enfrentam essas situações. Dados que apontam o quanto os casos de transtornos mentais têm crescido no decorrer dos anos em todas as faixas etárias são prova disso. A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que mais de 300 milhões de pessoas sofrem com a depressão ao redor do mundo e aponta que cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano – sendo esta a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Decidir cuidar de si é ter que enfrentar diversas barreiras, necessárias para viver bem. Por esse motivo, as políticas públicas são tão importantes – já que podem facilitar e garantir para todos o acesso a acompanhamento psicológico, centros esportivos, casas de cultura, entre outros espaços gratuitos que oferecem esportes e atividades culturais.

TÁ NA MÃO Você pode se inscrever em centros esportivos, casas de cultura, entre outros espaços que oferecem esportes e atividades gratuitas – na maioria das vezes de fácil acesso. Procure na sua cidade o local mais próximo!


TEXTO GIOVANNA FELICIANO E JÚLIA VACCARI, VIRAJOVENS DE SÃO PAULO (SP)

M

enstruar é, provavelmente, uma das maiores mudanças que enfrentamos no início da longa caminhada chamada puberdade. “Tive muita dificuldade para aceitar ter ficado menstruada aos 10 anos, minha mãe nunca foi muito de conversar sobre essas questões, então não entendi direito o que estava acontecendo comigo”, diz Juliana, 33 anos. Observar de perto as transformações rápidas e significativas do nosso corpo não é fácil – e tudo se torna ainda mais complicado quando vivemos cercadas por tabus. Passamos a nossa vida inteira sendo silenciadas, proibidas de sentir e conhecer nosso corpo, o que contribui para alimentar inseguranças. “Não me lembro bem como tudo aconteceu, mas eu sei que não estava pronta. Tive vergonha de contar para as pessoas que estava menstruada. Me sentia suja, tentei esconder o máximo que pude”, acrescenta Bárbara, 17 anos. MUITAS VEZES, A FALTA DE ESPAÇO PARA FALAR SOBRE O QUE ESTAMOS PASSANDO OU SENTINDO FAZ COM QUE O PROCESSO DA ADOLESCÊNCIA SE TORNE MUITO DOLORIDO.

Não temos liberdade para falar sobre as novas sensações e descobertas, simplesmente continuamos a caminhar, sem ninguém para andar ao nosso lado.

O CORPO QUE É MORADA PARA OUTRO CORPO PRECISAMOS ESCUTAR SOBRE A EXPERIÊNCIA DA MATERNIDADE NA ADOLESCÊNCIA.

SER ADOLESCENTE É ESTAR VIVENDO EM CONSTANTE TRANSFORMAÇÃO. O SEU CORPO DÁ DEMONSTRAÇÕES DE QUE MUDANÇAS ESTÃO OCORRENDO. PARA AS QUE ADENTRAM A MATERNIDADE NESSE PERÍODO, ESSAS MUDANÇAS SÃO AINDA MAIS IMPACTANTES – NÃO SÓ FISICAMENTE, MAS PSICOLOGICAMENTE. “Quando

descobri que estava grávida, não me preocupei com o meu corpo, mas os meus familiares sim. Minha avó comprava óleos para que eu não tivesse estrias e todos estavam sempre falando disso. No final da gestação eu já estava maluca com medo das estrias e uma semana depois que a minha filha nasceu elas apareceram. Achei que ia morrer de tanto pavor de ficar feia”, afirma Juliana, 33 anos. Por que há tanta cobrança para alcançarmos padrões estéticos e medidas que são consideradas bonita pela sociedade? Por que nunca podemos nos sentir satisfeitas com os nossos próprios corpos? Milhares de pessoas, sejam mães adolescentes ou não, são constantemente influenciadas por comentários negativos e acabam vivendo com vergonha do próprio corpo. Isso realmente vale a pena?

Uma em cada cinco crianças que nascem no Brasil é filha de meninas entre 10 e 19 anos. E nós precisamos falar sobre como essas adolescentes se sentem, como passam a enxergar o próprio corpo, porque muitas vezes o maior “peso” não é o filho que elas carregam no ventre – mas sim os milhares de comentários e palpites que são despejados, sem o mínimo cuidado, sobre essas jovens. “Quando minha família soube que eu estava grávida, o primeiro comentário que ouvi foi: ‘Nossa, mas tão nova, você acabou com a sua vida!’ Senti, naquele momento, que realmente tudo estava acabado para mim. Vi meus sonhos passarem diante dos meus olhos com a certeza de que, nessa situação, eles seriam inalcançáveis. O tempo passou, meu filho cresceu e aos poucos as minhas conquistas vieram. Eu estava tão assustada com tudo que ouvia, que demorei para me dar conta de que ser mãe foi uma das melhores coisas que já me aconteceu! Não acredito que todas as adolescentes deveriam buscar a maternidade nesta fase, mas, para as que já estão nesse barco, acreditem em mim: as coisas ainda podem dar muito certo, vocês não estão sozinhas” – conta Luana, de 23 anos.

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TEXTO GIOVANNA FELICIANO, VIRAJOVEM DE SÃO PAULO (SP)

A BELEZA NÃO PODE

MATAR POR QUE SOMOS ENSINADAS A ODIAR CADA PEDACINHO NOSSO?

C

apas de revista são de papel, mas nós somos de carne. Deveríamos ser ensinadas a amar quem somos e não quem gostariam que fôssemos. Mais de 90% dos casos de transtornos alimentares acontece com mulheres – esta é sim uma questão de gênero. Estudos realizados pela Universidade Federal de Santa Catarina reforçam o poder destrutivo que os padrões de beleza exercem entre as mulheres. A anorexia e a bulimia são transtornos alimentares caracterizados por padrões anormais de comportamento alimentar, controle obsessivo do peso e percepções alteradas sobre o próprio peso e corpo. Muitas vezes, pacientes que desenvolveram um desses transtornos acabam convivendo com os dois ao mesmo tempo. Isto não é uma regra, mas é uma situação recorrente. A anorexia está diretamente relacionada com um fenômeno chamado de “distorção de imagem”, em que as pacientes se veem muito 18

maiores do que elas realmente são e, por isso, acabam consumindo quantidades mínimas de alimento – que vão diminuindo gradativamente até que a paciente consiga ficar no estado de “jejum” por horas, algumas vezes até mesmo dias. Em uma entrevista para a Revista Brasil, a psicóloga e pesquisadora do Centro de Estudo e Tratamento de Transtornos Alimentares e Obesidade da Santa Casa de Misericórdia do Rio, Mônica Vianna, destaca que “(...) a anorexia é o transtorno mental que causa mais mortes. No entanto, não tem a mesma visibilidade que a depressão, o transtorno bipolar e a esquizofrenia.” A bulimia caracteriza-se por episódios de uma tentativa falha de “compensação” por “comer mais do que deveria”. A paciente geralmente enfrenta problemas de compulsão alimentar, onde acaba comendo descontroladamente até se sentir culpada; culpa essa, resultante de um imenso medo de engordar, o que faz com que ela tente “se castigar” colocando todo aquele alimento para fora de seu corpo. Vale ressaltar que, muitas vezes, essa pessoa não tem consciência de que está enfrentando um problema de saúde, mas sim, apenas realizando um “ritual de beleza” para atingir a aparência desejada. Muitas jovens, inclusive, acreditam que estão no controle da situação e, por isso, raramente pedem ajuda.

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No momento em que vivemos, onde o culto ao corpo extrapola todos os limites da sanidade, podemos nos considerar responsáveis por incentivar e banalizar os transtornos alimentares. O culto à magreza, a gordofobia, a normalidade atribuída a estar em dietas altamente restritivas, o costume de se desculpar por “comer demais”, a constante insatisfação com os nossos corpos e com os corpos alheios são os grandes responsáveis por permitirem que situações como estas se repitam diariamente. Vencer os transtornos alimentares é possível, mas nós devemos falar sobre isso, precisamos buscar ajuda. Lutar contra tudo isso é se esforçar dia após dia para não odiar nossos corpos. Converse com alguém, busque tratamento psicológico, você não está sozinha e é forte o bastante para se reconstruir.

“Nunca tive problemas em aceitar meu corpo, até me dar conta que ao contrário de mim, as pessoas a minha volta tinham. Crescer ouvindo comentários sobre o meu corpo me levou a um caminho de constante insatisfação. Nunca achei que seria boa o bastante – anos mais tarde descobri que ninguém precisa ser, nós já somos a melhor versão de nós mesmas! Desenvolvi bulimia aos 11 anos de idade e, ao longo do processo, tive princípios de anorexia. No começo achei que estava no controle, mas quatro anos se passaram. Hoje, aos 16, sinto que estou caminhando para o progresso. Tenho aprendido a lidar com o meu corpo e amá-lo. Nesse caminho também aprendi que a minha opinião é a mais importante de todas e, se estar dentro dos padrões significa passar mal, me sentir péssima, ter vergonha de quem eu sou e abdicar de passeios, roupas, experiências, eu não quero fazer parte dele. Você pode vencer os transtornos alimentares, eu acredito em você!”


IMAGENS QUE VIRAM

EMBALAGEM JOVEM

FOTOS BRUNO SAMUEL, JULIA CAVALCANTE, JENNY NICÁSSIO, JULIA DE LUCCA E JAZZ MARTINS, VIRAJOVENS DE SÃO PAULO (SP)

Já parou pra pensar o quanto nossos corpos jovens estão cotidianamente sendo moldados? Rotulados e prensados por essa sociedade que pensa poder vender tudo? O que te embala? Uma canção de resistência ou o plástico filme que envolve as carnes no mercado da vida? O que te veste? O que te forçam vestir? O que há por cima ou abaixo da pele? Quanta dor, quanto amor, quanta solidão, quanto preconceito, quanto silêncio? Qual o peso destes tempos sobre o corpo da juventude brasileira?

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IMAGENS QUE VIRAM

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IMAGENS QUE VIRAM

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IMAGENS QUE VIRAM

Jovens modelos: Luccas Rizzi, Jazz Martins, Joyce Serafim, Lucas JK, Flora Guazzelli, Julia de Lucca, Julia Cavalcante, Giovanna Feliciano e Dandara Felippe Moreira. 22

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CORPOS

TEXTO GIOVANNA FELICIANO, JENNY NICASSIO E JÚLIA CAVALCANTE, VIRAJOVENS DE SÃO PAULO (SP); THAÍS SANTOS, DA REDAÇÃO

QUE T EMEM

TODOS OS CORPOS ESTÃO EXPOSTOS À VIOLÊNCIA, MAS ALGUNS ESTÃO MAIS DO QUE OUTROS.

Machismo, hipersexualização, ideologia da feminilidade

Exposição a danos

Desigualdade social

Vulnerabilidade e desigualdade social

MULH E RE S

USUÁRI OS DE D ROGAS

Processo histórico projetado como exclusão e racismo

N E G ROS

I NDÍG E NAS

P OB RE S

Interesse das classes dominantes em suas terras

CORPOS NA MIRA MIG RAN T E S Xenofobia e exclusão social

LGBT IA+

AU T O RE S DE AT OS I N F RACI ONAIS

IMIG RAN T E S/ RE FUGIAD OS C RIANÇAS Vulnerabilidade diante dos adultos

LGBTfobia, exclusão e vulnerabilidade

Classe social e raça Desumanização

Fonte: Giovanna Feliciano, Jenny Nicassio e Júlia Cavalcante

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O que é um corpo matável? O que torna um corpo matável no Brasil? Ou ainda, quais são os corpos com alvos nas costas? Falamos aqui de um problema estrutural e estruturante da sociedade brasileira, isso porque a desigualdade e preconceito fazem parte da história do país em seus momentos fundantes. Para entender quais são os corpos propensos a morrer, é preciso retomar esse passado, pontuando o lugar central da escravidão no modo de viver do brasileiro. Não só em uma dimensão econômica de exploração de corpos indígenas e africanos, mas também social e cultural de entendimento dessas pessoas como menos humanas, ou pior, como não humanas. Se por um lado os portugueses dizimaram os indígenas, por outro subjugaram tanto os povos negros garantindo que suas vidas tivessem nenhum valor e que a exposição de seus corpos fosse algo comum. Mas pior, sustentando essa lógica mesmo após o fim da escravidão, como observamos no recente caso do carro de uma família negra carioca alvejado com 80 tiros, matando o músico Evaldo dos Santos Rosa. Ou ainda no caso dos 5 meninos que foram comemorar o primeiro pagamento de um deles e foram aniquilados com 111 tiros em um carro. O que ambos os casos têm em comum é a presença de corpos pretos. Corpos de homens pretos. Mais corpos pretos nas estatísticas.

brasileira, aquela que se declara negra. Embora ir e vir seja um direito fundamental previsto pela Constituição, são os corpos negros que têm esse direito cerceado, pelo próprio Estado. A cada 23 minutos morre um jovem negro no Brasil. E quem matou? Qual a pena a pagar? Essas são as perguntas que ninguém esclarece. O país tem dados detalhados sobre quem morre por homicídio, mas pouca informação sobre quem comete esses crimes. “No Brasil, a redução da violência letal demanda, além de políticas efetivas de prevenção e repressão, o fortalecimento da investigação de homicídios – tanto para retirar criminosos perigosos de circulação, como para dissuadir novos crimes e mortes pelas mãos de justiceiros”, de acordo com “Onde mora a impunidade?”, do Instituto Sou Da Paz. No século XXI, ainda vivemos resquícios das senzalas. Os mesmos corpos que temem são aqueles que diariamente estampam as páginas dos jornais, aqueles que ilustram as matérias de capa. O grande clímax criado pelos noticiários são a base para as estatísticas. CORPOS MATÁVEIS, ENCARANDO COM SINCERIDADE QUEM É O ALVO, REFLETEM A DESIGUALDADE RACIAL E A FALTA DE AÇÃO DO ESTADO.

Segundo o Atlas da Violência (2018), produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica

O que resulta disso é a sensação de insegurança e medo que assola mais da metade da população

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Aplicada) e pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), o Brasil tem uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes – o equivalente a 30 vezes a taxa da Europa. Além deste dado, o estudo revela que, na última década, a desigualdade do índice de mortes violentas por raça aumentou muito. Enquanto a taxa de indivíduos não-negros diminuiu 6,8%, a da população negra aumentou em 23,1%. Sabe o que isso significa? Aqui no nosso país, 71,5% das pessoas assassinadas anualmente são negras.

DE OLHO NO CENÁRIO ATUAL As atuais políticas do governo Bolsonaro que facilitam o acesso ao porte de armas, nos mostram, mais uma vez, o descaso do Estado perante aos índices de violência. A principal mudança do decreto é a flexibilidade sobre quem tem “efetiva necessidade” de ter uma arma, permitindo aos cidadãos residentes em área urbana ou rural manter arma de fogo em casa. Outra modificação importante é o aumento do prazo de validade da autorização de posse de cinco para dez anos. “Todo e qualquer cidadão e cidadã, em qualquer lugar do país, por conta desse dispositivo, tem o direito de ir até uma delegacia de Polícia Federal, levar os seus documentos, pedir autorização,


adquirir a arma e poder ter a respectiva posse“, declarou o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. A Polícia Federal decidirá se autoriza ou não a concessão da posse e poderá barrar este acesso nos seguintes casos: pessoas com comprovação de vínculo com organizações criminosas; aquele que mentir na declaração de efetiva necessidade; ou então, na realização de um ato para ocultar o verdadeiro interessado. Antes, o cidadão apresentava seus motivos à Polícia Federal e a instituição julgava se havia de fato a necessidade. Agora, considerase que alguns grupos têm, automaticamente, a necessidade de se armar, são eles: agentes públicos (ativos ou inativos), militares (ativos ou inativos), donos ou responsáveis legais de estabelecimentos comerciais ou industriais, colecionadores, atiradores, caçadores, residentes de áreas rurais ou urbanas. A violência está nas ruas, mas não só nelas. A violência também vive nas sombras, escondida entre quatro paredes; medo que

não só silencia, mas também aprisiona. “Nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil, enquanto 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Dentro de casa, a situação não foi necessariamente melhor. Entre os casos de violência, 42% ocorreram no ambiente doméstico. Após sofrer uma violência, mais da metade das mulheres (52%) não denunciou o agressor ou procurou ajuda.” Dados de um levantamento do Datafolha (fevereiro 2019), encomendada pela ONG FBSP.

CORPOS NA MIRA Assim, são os corpos negros e femininos que são abatidos pelas balas do racismo e machismo. Cada política que vai no sentido de facilitar o armamento da população só irá corroborar para a morte desses corpos. Mas não só deles. E aqueles que morrem no silêncio e anonimato das celas, dos hospitais sucateados, nos aparelhos públicos? E a violência institucional? Os ditos “loucos”, que são trancafiados e exterminados. Os imigrantes, os LGBTQ+, os usuários de drogas, as pessoas em situação de rua?

Ainda há muito que ser revisto, mas o sistema tem medo da mudança, medo de que as mordaças sejam tiradas e que as angústias da população negra e pobre seja ouvida. Enquanto isso, seguimos sonhando com Wilson das Neves com “o dia em que o morro descer e não for carnaval.”

Matável O jovem negro é alvo o corpo desse jovem não é valorizado olhe pra cima do morro peito aberto arma na mão é assim que eles conseguem o pão h.i.p.e.r.s.e.x.u.a.l.i.z.a.ç.ã.o feminicídio sem motivo sem razão e a autoestima? lá no chão “que meu filho não “seja” ladrão 6 meses depois a mesma mãe na… fundação nunca aprenderam a fazer diferente você já pensou no menor de 13 carregando o pente? o ECA é só mais um livro, porque em prática nunca foi colocado o choro é livre o corpo, a alma não querem reduzir a maioridade mas muitos nem superam a 1 desilusão o corpo é exposto, negligenciado Por fim Mais um corpo estirado Quem matou? Cego é aquele que não quer enxergar O… óbvio. Jennyfer Nicassio

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TEXTO MARIANA ASSIS, VIRAJOVEM DO RIO DE JANEIRO (RJ)

JU V EN T UDE NEGRA DESAFIANDO A ESTRUTURA RACIS TA “MEU CORPO É UMA ARMA – PARA ALÉM DO MEU INTELECTO, DA MINHA VOZ”, DIZ GELSON HENRIQUE.

S

egundo o Índice de Vulnerabilidade Juvenil de 2017, a chance de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é 2,7 vezes maior que a de um jovem branco; dado que demonstra a alta concentração de violência contra a juventude negra no país. Diante desse panorama, nós, jovens negros e negras, entramos na linha de frente na busca por reparação de danos históricos e pelo direito de existir. Ocupando espaços que por séculos nos foram negados, criamos outras perspectivas. Conversei sobre esse assunto com Gelson Henrique, um dos idealizadores do projeto CIJoga, Caravana Itinerante da Juventude – projeto que percorre escolas da periferia do Rio de Janeiro incentivando o protagonismo da juventude.

MARIANA ASSIS – O RACISMO VIOLA CORPOS NEGROS, NOS DESUMANIZA E OBJETIFICA. COMO VOCÊ VÊ OS IMPACTOS DISSO EM NOSSA FORMAÇÃO COMO SUJEITOS? GELSON HENRIQUE – Muitas coisas que nos acontecem é por conta do racismo. O sentimos desde sempre, mas começamos a entender os impactos mais para frente. Mesmo tendo me entendido enquanto pessoa negra muito cedo, quando tinha 11 ou 12 anos, queria ser branco. Essa fase da minha vida está relacionada ao corpo negro ser marcado por rejeições. Mas hoje nós estamos cada vez mais nos encontrando na afetividade preta, indo para outro caminho que não passa pela aprovação da branquitude. M. A. – NO DISCO LADRÃO, DO RAPPER DJONGA, A MÚSICA HAT-TRICK DIZ: “PEGUEMOS DE VOLTA O QUE NOS FOI TIRADO”, NO SENTIDO DE RECUPERARMOS E CONSTRUIRMOS NOSSA AUTOESTIMA. PARA VOCÊ, COMO ACONTECE ESSE PROCESSO? G. H. – Falando por mim, a construção da autoestima é diária. Esse processo tem muito a ver com os meios em que estamos, porque começamos a descolonizar o pensamento e a enxergar outras formas de

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beleza quando nos enxergamos em nossas referências. Vejo a descolonização do pensamento não só de forma acadêmica, mas também de entendimento pessoal e emocional – o que se relaciona com a autoestima. M. A. – COMO VOCÊ VÊ ESSE EMPODERAMENTO DA JUVENTUDE PRETA – QUE NÃO É SÓ ESTÉTICO, MAS INTELECTUAL E PROFISSIONAL? G. H. – Nós estamos tomando de assalto. Eu carrego muito o discurso de ocupar todos os lugares, ir pelas brechas, trazendo o povo preto, de periferia e favela junto. Meu corpo é uma arma – para além do meu intelecto, da minha voz, faço da minha presença uma arma. Chego em locais majoritariamente brancos tipo assim: “Parceiros, as coisas estão mudando. Vocês vão ter que aceitar. Eu tô aqui e vou falar as verdades”. Ao mesmo tempo, estar em espaços onde as únicas pessoas negras presentes são você e os que estão servindo é adoecedor. A gente tenta fugir, lutar, mas é o que se perpetua. Isso é muito pesado, escancara a estrutura brasileira. Mas é muito importante nos apropriarmos desses lugares, assim nos tornamos referências para outros de nós.


TEXTO CATARINA VIRGINIA BARBOSA E BRUNA IRALA, DA JORNALISMO JR. (USP)

CORPOS

ENCARCERADOS: UM

RECORTE DA JUVENTUDE DADOS REVELAM QUAIS SÃO OS CORPOS JOVENS EM PRIVAÇÃO DE LIBERDADE.

E

m meio a relatos de tortura e maus tratos que hoje se encontram mais de 11 mil internos da Fundação Casa, espaço que seria destinado à ressocialização e reinserção de jovens infratores ao convívio social. Marcados pela negligência das autoridades e pela vulnerabilidade social, esses internos têm um perfil parecido: em sua maioria são meninos negros, pobres e com os estudos incompletos. Não são poucos os casos de violência estrutural dos quais esses jovens são vítimas. De fato, é crescente o número de demissões de agentes socioeducativos por envolvimento em casos de maus tratos e tortura aos internos: só em 2018, foram 27 agentes demitidos por tais acusações, segundo dados da própria Fundação. Tal violência se inicia já na chegada dos meninos à instituição, como uma forma de “batismo”, e continua no decorrer do tempo em que estes permanecem no ambiente – os envolvendo num ciclo vicioso, marcado por rebeliões contra os agentes, fugas dos complexos e saldos sangrentos. Situações que só provam que a prisão física não é resposta ao problema,

uma vez que o número de jovens reincidentes aumentou em 306% de 2009 a 2018. A recorrência dessas diversas formas de opressão dentro dos complexos expõe uma crua realidade do sistema socioeducacional da Fundação, que mais se assemelha a uma prisão de fato do que a um espaço de ressocialização do indivíduo. Dados levantados pelo Instituto Sou da Paz mostram que os crimes de tráfico de drogas e furto representam, respectivamente, 51% e 21% das causas para detenção de jovens, superando a taxa por homicídio (1%). Infrações que não são pagas à vista, o sofrimento é parcelado com juros e não tem fim na detenção: com marcas de alvo forjadas por uma sociedade e um Estado racista e classista, o corpo do adolescente detido, quando e após ser preso, é atingido não por flechas, mas por porretes de ferro e madeira, múltiplas e múltiplas vezes. Dessa forma, fica exposto que a propriedade privada vale mais do que a vida humana, principalmente quando esta tem certo endereço e cor.

O que a realidade da Fundação Casa deixa escancarado, além da ineficácia do sistema carcerário do país, é o caráter cruel e reacionário dessas políticas, as quais, revestidas de uma capa socioeducativa, infligem dores a corpos jovens e às suas famílias.

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TEXTO DANILO ROCHA, EX-DETENTO E COLABORADOR DE SÃO PAULO (SP) IMAGEM RAWPIXEL

M

inha experiência em cárcere iniciou quando eu tinha apenas 18 anos de idade e foi marcada por um longo e hostil período de isolamento, onde cada segundo contava como 24 horas. Na busca por definir o sentimento mais fiel ao perceptível das palavras, me lembro da frase de Dante Alighieri ao chegar no portão do inferno em sua Divina Comédia: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais”.

DIÁRIO DE

UM EX-DETENTO A SENSAÇÃO DE TER O CORPO ENCARCERADO NÃO ENCONTRA NAS PALAVRAS SUA EXATA REPRESENTAÇÃO. VIVEMOS EM FUNÇÃO DE LIBERDADE – O RESTO É PARTE DISSO.

reclusão. Pouco mais de uma década observando, refletindo e batendo de frente contra o sistema – batendo de frente contra mim mesmo. O SENTIMENTO MAIS PURO E COMUM É O SENTIMENTO DE TRISTEZA. UMA TRISTEZA VISCERAL, QUE DÓI, MACHUCA, TE APERTA E ESPREME CONTRA OS MUROS DA ANGÚSTIA, TE ASFIXIA COM CHORO

MOMENTO EM QUE VOCÊ É SUBMETIDO AOS PROCEDIMENTOS PRISIONAIS CONSISTE EM DELETAR A IMPORTÂNCIA DO SEU EU,

extirpando valores pessoais, lar, família, amigos e amigas, colegas, pessoas, lugares e toda vasta gama de vontades e anseios próprios para te reduzir a um número e às “regras da casa” – geralmente precedidas de torturas físicas e/ou mentais.

REPRIMIDO NA GARGANTA NAS

Meu inferno penal iniciou no momento em que tentei fugir (pela primeira vez) de policiais descaracterizados – que não sabia se estavam ali para matar ou para prender – em defesa da minha liberdade. Frustrado o pinote, um dos momentos mais terríveis da perda da liberdade foi o sentimento de impotência diante da opressão da algema e de ver pela última vez o olhar desmoronando de tristeza da minha vó a me defender da opressão policial. Do momento em que se fechou a porta da viatura na minha cara pela primeira vez ao dia que reconquistei a liberdade, se passaram 12 anos de estrita

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SAUDADES QUE OPRIMEM O PEITO. O segundo sentimento

mais marcante é o de revolta por ter consciência que o próprio Estado que te pune não cumpre com seus deveres na busca por humanizar o cumprimento de penas e proporcionar condições de reinserir homens e mulheres ressocializados no convívio social. Muito pelo contrário, o Estado não ostenta a autoridade moral e por tantas violações de direitos nessa senda do sentimento pessoal de vingança, acaba sendo mais criminoso do que qualquer encarcerado. O PROCESSO TRAUMATIZANTE DE DESPERSONALIZAÇÃO VIVIDO NO PRIMEIRO

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O primeiro contato com os companheiros de infortúnios, os presos, também é um momento de singular estranheza. A atmosfera dos pavilhões hiperlotados onde a maioria das pessoas está confinada a muitos anos – em condições desumanas – não é nem um pouco agradável e, não raras as vezes, você já é recebido pelo cheiro do sangue muito antes que a ficha caia – te levando a sentir insegurança e medo. Uma vez que você procura respeitar as regras do ambiente e das pessoas, supervalorizando o silêncio e a opinião construtiva – buscando, enfim, compreender os pra quê e os porquês de todas as coisas, aí então você passa a


cumprir sua jornada prisional. Ali nasce a sua prisionalização. Uma vez inserido na rotina ociosa do cárcere, as coisas mais comuns do dia a dia em liberdade começam a fazer falta – e sentido. Você começa a sentir falta. E tudo faz falta. Falta o amor, falta a amizade, falta família. Falta o calor humano, o sorriso, o conselho, o ombro, a mão estendida, falta a liberdade, falta a vida. Falta tudo. E tudo falta. Pouco a pouco, sua percepção alterada pela limitação acinzentada das muralhas faz o simples ter o real significado de grandeza. O cheiro da terra molhada trazida pelos ventos, a velocidade em que caem as gotas d’água trazidas pelas chuvas, os tímidos raios de sol que chegam mornos e quadrados em sua face, a hora neutra da madrugada em que você pode se dar ao capricho de deixar não mais que algumas poucas lágrimas rolarem discretas sobre a face pálida... Sem liberdade, você perde noção de tempo e espaço. O convívio lado a lado com as “leis do cão” vão drenando sua sensibilidade afetiva. Dia a dia respirando a maldade e subjugado aos castigos informais que os agentes do Estado incriminam àqueles que se recusam a afundar, criam-se laços de desconfiança, de dúvida. Você vive em constante estado de apreensão, de tensão, de estresse concentrado. Passei por várias rebeliões violentas. Em cada uma delas

aprendi várias lições que ainda hoje carrego comigo. Uma delas é viver cada momento como se fosse o último. Desde o massacre no Carandiru aos dias de hoje, a truculência policial e dos agentes do Estado dentro das prisões ainda são violentas, desumanas e ilegais. Vi muita gente morrendo. Vi vários companheiros de cela se suicidarem. Vi vários enlouquecerem, do nada, por causa da morte de algum ente querido, de alguma injustiça, decepção amorosa, abandono de parentes ou amigos(as). Tudo isso você vai absorvendo a tragos demorados ao longo do tempo. Assim, vão passando os dias, os meses e os anos e o que sobrou da sua vida? O que sobrou de você? Geralmente não sobra muita coisa além de si próprio e da sua capacidade cognitiva de evitar novos erros. O pior sentimento é saber que você escolheu atrasar sua jornada satisfazendo aos apelos da emoção e da irracionalidade. Quando, enfim, chega o momento da liberdade, você ainda tem a forte impressão de ser mentira, como se a liberdade fosse um imerecido presente ou um bem que se mereça – quando, na verdade, a liberdade é nada menos que o princípio vital que rege todas as coisas.

387.759.600 segundos, 6.462.660 minutos, 107.711 horas, 4.448 dias, 641 semanas, 147 meses, 12 anos. Quando me senti em liberdade – após me sentar na janela do ônibus que viajou por 9 horas até Sampa – uma das perguntas que me fiz e faço até hoje é: “O que houve com aquele mundo todo onde eu vivi antes de ser preso?”. Esse é um ponto cego, uma lacuna, um mistério, a pergunta que não quer calar.

ONDE? Ainda hoje, entre tantas recordações, procuro no espelho a pessoa que fui. Algum traço daquele rapaz que mal tinha barba no rosto quando sujou de sangue suas mãos. Ainda hoje procuro lugares, coisas e pessoas. E não encontro. Mas graças aos poderes da liberdade e da vida, hoje tenho resgatado alguns fragmentos da minha jornada. Ainda trabalho na reconstrução da minha personalidade, trabalho em prol de me reorganizar socialmente, não sem o sabor de algumas dificuldades, mas sob o paladar apurado de quem saboreou o néctar da liberdade e se embriagou de amor por ela.

Do pavilhão onde me encontrava preso quando o agente penitenciário anunciou minha condicional até o portão final onde a liberdade me esperava, contei 1.375 passos, 43 portões,

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TEXTO DANDARA MOREIRA, JENNY NICASSIO, KAUANNY SOUZA, LUCAS MESSIAS, MARIA FRANCISCA E SABRINA GERYN, VIRAJOVENS DE SÃO PAULO (SP) IMAGEM FREEPIK

CONSCIENTIZE JÁ! QUAIS SÃO OS CAMINHOS POSSÍVEIS PARA LIDAR COM AS CONSEQUÊNCIAS DO CONSUMO DE SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS?

D

e acordo com uma pesquisa realizada pelo Datafolha, 94% dos jovens, de camadas sociais diferentes, considera que o acesso às drogas é fácil – dado nada surpreendente, visto que é possível encontrá-las em raves, nos bailes, nas escolas ou nas universidades. A grande questão problemática não é nem a curiosidade em si, mas os impulsos que levam ao uso de substâncias que podem ser danosas e do consumo abusivo. No entanto, vale ressaltar que o uso abusivo nem sempre está relacionado com a facilidade de acesso, mas à situação de vulnerabilidade enfrentada pela pessoa – seja social, física ou psicológica. NÃO HÁ COMO NEGAR QUE HÁ UMA QUESTÃO SOCIAL QUE INFLUENCIA SOBRE QUEM ESTARÁ MAIS EXPOSTO ÀS DROGAS E COMO SERÁ VISTO. Faça o exercício

de comparar manchetes nos jornais: quem está em situação de vulnerabilidade socioeconômica é definido como drogado ou usuário; pessoas fora deste

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contexto, são apenas jovens que fazem o uso recreativo. É preciso observar quais são os motivos e a frequência com que as substâncias (lícitas ou não) são consumidas. Quando a pessoa deixa de lado atividades cotidianas por conta da droga – alto lá! Isso é um forte sinal de vício. Existem estratégias eficazes, de fato, para lidar com tristezas, traumas ou vazios. A dependência química requer outro tipo de cuidado – outros remédios, sempre receitados por profissionais de saúde e com o acompanhamento de psicoterapia.


CAMINHOS POSSÍVEIS Legalização, descriminalização e antiproibicionismo. Você já ouviu estes termos antes? Os três andam juntos quando pensamos em enfrentar as consequências geradas pelo consumo destas substâncias recreativas – até então proibidas por Lei. Entretanto, o uso de drogas é um assunto fortemente ligado a questão moral na sociedade. Tão moral, que até mesmo a mínima possibilidade de discutir o tema ainda é um tabu pra muita gente. O ANTIPROIBICIONISMO defende que, se não afeto outras pessoas ou um bem jurídico alheio, não posso ser punido (ou proibido) em nível privado. Os grupos e coletivos que pautam este argumento se baseiam em diversos dados que demonstram quantos problemas seriam reduzidos – e até mesmo resolvidos – caso houvesse a LEGALIZAÇÃO. Eles lutam contra a abordagem moralista em relação ao uso por entender que a criminalização das drogas é o que sustenta um dos sistemas mais lucrativos e destrutivos presentes na sociedade – o tráfico.

Já a DESCRIMINALIZAÇÃO significa deixar de ser crime. Seriam separados usuário de traficante, agindo diretamente na ‘guerra contra as drogas’. O método atual não tem se mostrado efetivo no enfrentamento ao tráfico. Na realidade, é uma política que colabora com o encarceramento em massa1 e o genocídio da população negra e pobre – atingindo o lado mais fraco da história.

E A REDUÇÃO DE DANOS? Existem muitos casos de pessoas que não podem – ou não querem – parar de usar essas substâncias. Em cenários como esses, são pensadas ações, cuidados e processos para que elas façam um consumo consciente e seguro. Além de ajudar os usuários, que acabam saindo de situações de risco, beneficia também a comunidade como um todo. Afinal, as políticas de redução de danos compreendem o uso de drogas como uma questão de saúde pública – e não como caso de polícia. A nova Política Nacional sobre Drogas, assinada pelo presidente Jair Bolsonaro, é claramente contra a descriminalização e a legalização. No campo do tratamento, a abstinência foi a estratégia escolhida. Isso significa maior investimento nas comunidades terapêuticas – modelo, em geral, incentivado por clínicas privadas e instituições particulares. Ou seja, mais internação e menos rede de saúde.

Entenda mais sobre encarceramento em massa neste texto: https:// www.agenciajovem.org/wp/ desencarceramento/ 1

Os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) e demais equipamentos públicos que lidam diretamente com a população terão que se adaptar ao novo modelo. Mas, enquanto isso, os policiais recebem mais armamento e licença para matar – combatendo o tráfico na base do derramamento de sangue.

HELIPA NIGHT: OUTRA ABORDAGEM Um caso de sucesso na abordagem cultural com relação a drogas e substâncias de uso recreativo é a festa Helipa Night, em Heliópolis (SP) – balada teen sem álcool ou qualquer outro tóxico, na ativa desde 2010. Surgiu da necessidade local por lazer, já que a população precisava pagar caro pelo acesso aos espaços de eventos; todos longe de casa, pra piorar a situação. O entretenimento é estratégia e metodologia preventiva no desafio de gerar diversão sem álcool (e outros aditivos). A produção da festa é feita por jovens, que também comandam a playlist: funk, axé, eletrônica, black e rap – pra agradar todos os públicos! A festa vai das 20h até meia noite e acontece sempre no último sábado do mês. Se quiser colar, aqui vai o endereço: Rua da Mina, nº 38 – na Quadra da UNAS, em Heliópolis.

TÁ NA MÃO Você conhece alguém que precisa de ajuda em relação à dependência química? Converse com essa pessoa e dê apoio na busca por tratamento. Há diversas ONGs e equipamentos públicos que oferecem acompanhamento gratuito. É só procurar o local mais próximo da sua casa!

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TEXTO GUSTAVO RODRIGUES E FERNANDO BELUCIO, FUNDADORES DO COLETIVO A DE AJUDA E VIRAJOVENS DE SÃO PAULO (SP) IMAGEM RAWPIXEL

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CORPOS DISSIDENTES E O MERCADO DE T RABALHO: UMA RELAÇÃO CONFLITUOSA “DESCULPE! VOCÊ PREENCHE TODOS OS REQUISITOS DA VAGA, MAS NÃO É O PERFIL QUE ESTAMOS PROCURANDO NA EMPRESA.”

xistem profissionais da área de Recursos Humanos que acreditam que rejeitar pessoas de determinados nichos (geralmente pertencentes a minorias sociais) é simplesmente uma questão de não compatibilidade com a cultura da empresa. Alegam que, talvez, pessoas de determinado perfil venham a sofrer preconceito por outros funcionários e funcionárias.

Vivemos em um país de pluralidades e elas são o que nos constituem! São diferentes etnias, religiões, gêneros, pessoas com deficiência, classes sociais, estéticas e por aí vai… fechar os olhos para essa realidade é, também, fechar as portas para formas diversas e criativas de enxergar problemas, situações e espaços.

Um pensamento como esse acaba reforçando a marginalização de pessoas que já são marginalizadas e exclui esses corpos do mercado de trabalho, mas é importante notarmos que as empresas que adotam essa postura também são impactadas negativamente.

Alguns dizem que uma vaga de emprego deve ser conquistada pela pessoa mais competente para exercer a função. Mas será que isso basta? Independente da função que você exerce, não tem como fugir das relações interpessoais – então, saber respeitar as diferenças e o diferente é, no mínimo, tão importante quanto qualquer conhecimento técnico.

Diversidade no ambiente corporativo é um tema que não pode ser negligenciado e, se abordado com a devida importância, pode gerar diversos benefícios para o relacionamento das pessoas dentro e fora da empresa. Levando, entre outras coisas, à redução da rotatividade de profissionais, já que as pessoas tendem a se sentirem pertencentes a ambientes que prezam pela diversidade.

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Fizemos uma breve enquete com 56 jovens de 16 a 30 anos e pertencentes a alguma minoria social, em sua maioria absoluta, a fim de descobrir qual a visão sobre o mercado de trabalho a partir de seus próprios lugares de fala. De cara, já deu pra perceber que o pessoal não tem uma percepção muito otimista da situação.

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9,1%

dos entrevistados acredita que o mercado respeita as diferenças entre os trabalhadores.

76,4%

acredita que o mercado é aberto a diferenças apenas em empresas de comunicação e marketing.

Essa falta de abertura não espanta, já que desde o processo de recrutamento e seleção a discriminação é uma realidade¹. O que nos chocou mais na pesquisa foi a quantidade de pessoas que já presenciou ou passou por situações de discriminação dentro do ambiente de trabalho. Para 57,1% dos entrevistados, racismo, machismo LGBTfobia e xenofobia, por exemplo, são práticas muito presentes nas relações corporativas. Acesse as referências usadas para a produção desta matéria > http://bit.ly/dados_processoseletivo 1


Quem sofre com isso diariamente sabe que nossos corpos não são excluídos apenas no mercado de trabalho, mas também nele. A falta de representatividade faz com que muitos cresçam alimentando uma insegurança hostil – que nos faz acreditar que os nossos corpos não pertencem a esses espaços. E será que estamos errados?

VEJA ALGUNS RELATOS QUE RECEBEMOS COM A PESQUISA*: “Do meu lugar de fala, pertencente com orgulho ao povo negro, é muito comum sofrer a discriminação velada e sem vergonha de empresas e entrevistadores. Como já atuei em ambos os lados (candidato e recrutador), vivenciei a forma preconceituosa como as empresas disfarçadamente implantaram em seus processos seletivos. Estabelecem um padrão e eliminam todos que não se encaixam, justificando as escolhas sob o pretexto da exiguidade de vagas. Cabe a nós o apoio mútuo e unificação dos discursos para tornar real a igualdade simbólica.” [Guilherme]

“Em outra ocasião, passei nas provas de um hospital famoso aqui em São Paulo e na hora da entrevista com a recrutadora, ela disse que eu não tinha o perfil do hospital porque era gorda, de cabelo curto e cacheado. O mercado de trabalho precisa entender que competência não se mede com cor, sexualidade, peso ou tamanho. Tive um final feliz, passei em um concurso federal e foi bem tranquilo. Hoje trabalho na UTI pediátrica e sou realizada, sem contar que ninguém faz menção ao meu peso.” [Rafaela]

É difícil lutar contra uma vida toda de opressões, mas há outros caminhos possíveis. Que tal tirar aquela ideia do papel e começar a empreender? Não é fácil, mas além de ser uma forma de resistência, também é um jeito de construir um presente melhor para os nossos iguais. É o nosso dinheiro que movimenta todo este mercado – então vamos valorizar nossos trabalhos! Consuma produtos e serviços comercializados por outros corpos marginalizados e vamos fazer essa grana rodar entre nós. Porque aqui é assim: ninguém solta a mão de ninguém!

Nós, do coletivo A de Ajuda, trabalhamos para que jovens das mais diversas minorias sociais se capacitem e encontrem oportunidades por meio da Educação. Vem com a gente entender um pouco sobre essa problemática e ouvir o que outras pessoas jovens têm a dizer sobre isso! https://www.facebook.com/adeajuda/ https://www.instagram.com/adeajuda/

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos jovens. Revista Viração • Ano 16 • Edição 115

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TATTOOS & INTERVENÇÕES CORPORAIS MARCAS NA PELE EXPRESSAM INDIVIDUALIDADES PARA O MUNDO.

N

ão há consenso em datar o início das tatuagens, mas existem provas arqueológicas de que os desenhos permanentes na pele eram feitos em antigas civilizações de todo o mundo – do Antigo Egito até a China Imperial. Por conta do fundamentalismo religioso, que as considerava uma heresia, tatuados e tatuadas sofreram com o preconceito. Mas as diferentes tendências estéticas e movimentos artísticos contribuíram para que a tatuagem deixasse o estigma de arte marginalizada para se tornar uma expressão cultural apreciada por quase todos os nichos, inclusive as elites.

TRASH TATTOO Conhecida como “tattoo de cadeia”, é um estilo marcado por traços simples e aparência agressiva. Linhas curtas – às vezes tremidas, outras precisas – e desenhos minimalistas. Mas a Trash Tattoo é muito mais do que uma tendência estética. Ela é cheia de subversão contracultural, um forte sarcasmo niilista da desordem anti-estética. Ao mesmo tempo, mostra recortes 34

descontraídos do cotidiano. Traz muito da filosofia punk, acessibilizando a arte da tatuagem, questionando valores artísticos eruditos e “gourmetizados” que a tattoo moderna representa. Seus adeptos seguem o pensamento de “faça você mesmo” ou “DYI – do it yourself”, clássico jargão da cultura punk. Eles acreditam que qualquer pessoa que explorar a sua veia artística pode se tornar um (a) desenhista. Qualquer um(a) com uma máquina pode virar tatuador(a)! Boris Risca, designer, artista plástico e tatuador se encontrou no estilo trash quando começou a construir seu próprio equipamento de tatuagem. Ele pesquisava em fóruns e lojas virtuais para encontrar o material adequado (ou improvisado) e montar suas próprias máquinas. “Não posso precisar quando ou onde nasceu, mas que o estilo vem surgindo com um monte de gente. É uma relação de sucateamento, da galera não ter acesso a material de arte bom, a certos

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TEXTO LUCIO AYALA E SABRINA GERYN, VIRAJOVENS DE SÃO PAULO (SP) IMAGEM ACERVO PESSOAL

espaços… Aí você começa a fazer as coisas do jeito que dá. E o jeito que dá é toscão!”, diz. Para ele, a Trash Tattoo é uma escola – a primeira por onde os artistas iniciantes passam. Surge de maneira orgânica por trás de um contexto social em que artistas periféricos buscam produzir e expressar suas vontades artísticas de qualquer maneira. Assim, cria-se uma rede de artistas emergentes com um forte senso de comunidade; compartilhando técnicas, equipamentos, lugares, clientes e por aí vai. Difundida principalmente na vida noturna de centros urbanos, um banheiro de balada ou a sua própria casa – qualquer cenário pode virar um estúdio de tatuagem. Conheça algumas das possibilidades de intervenções e modificações corporais: PIERCING: Os piercings,

dependendo da região do corpo em que são aplicados, têm sua origem em culturas diferentes. Com o passar do tempo foram


adotados pelos jovens urbanos e se tornaram mais conhecidos. Em algumas tribos africanas e outros lugares do mundo, eles carregam significado religioso e identitário.

portamos perante os desafios e obstáculos da vida. Por isso, podemos entender que A TATTOO É MAIS DO QUE UMA SIMPLES APLICAÇÃO ENTRE AGULHA, TINTA E CORPO;

ESCARIFICAÇÃO: A técnica

consiste em desenhar ou escrever por intermédio de instrumentos cortantes, fazendo cicatrizes figurativas no corpo da pessoa. Apesar de parecer, a princípio, uma automutilação, ela não pode ser considerada como tal – já que possui fins artísticos.

MAS UM PROCESSO DE CURA

TATTOO NA CARNE E NA ALMA Ancestralidades, ritos de passagem e quebras de paradigma… tatuagem!

FÍSICA, EMOCIONAL, ASTRAL E ESPIRITUAL. Um processo de

autoafirmação ou reafirmação de ideias e sentimentos internos – individuais ou coletivos.

Wagner Possati, tatuador há 14 anos e colaborador de São Paulo (SP).

BIFURCAÇÃO (OU BISSECÇÃO LINGUAL): Divide-se a ponta da

língua em duas partes – para que fique com aparência semelhante à língua de répteis. É um procedimento perigoso e deve ser realizado por um especialista. Tal prática teria origem no “Khechari Mudra”, parte integrante da ioga Hatha e Kumbhaka.

Creio que as manifestações artísticas, corporais ou não, surgem junto ao ser humano na terra. Ou, quem sabe, até antes! Uma espécie de movimento ancestral no planeta. Egípcios, hindus e povos de aldeias indígenas de diversas regiões do globo já marcavam seus corpos com tinta – e até hoje o fazem.

IMPLANTES CORPORAIS:

Diferente dos piercings, eles (geralmente) possuem um tamanho bem maior. São colocados embaixo da epiderme, fazendo um volume na pele e originando um ‘relevo’ no formato do objeto implantado: chifres, esferas, correntes, subcutâneos ou metade expostos, implantes de aço, de silicone cirúrgico ou teflon. BRANDING: Técnica na qual se

cria um desenho por meio de queimadura na pele. Aplica-se ferro quente (incandescente) ou chapa de aço esquentada por um maçarico sobre a epiderme, semelhante à marcação de gado. Após a queima da pele forma-se uma cicatriz em alto relevo com o desenho ou escrita desejada.

Pensando na raiz do ofício de tatuador, sinto esse momento de manifestação como um “rito de passagem”. Em sua grande maioria, as pessoas se tatuam em momentos de muita alegria ou de muita tristeza. Passagens e emoções fortes estão conectadas, de forma inconsciente, com imagens e símbolos. Não à toa, chegam até mim com ideias tiradas de sonhos ou criadas pela própria mente. Eu sou só a pessoa que traduz tudo aquilo para o papel e, em seguida, para o corpo.

Não podemos negar, também, o quanto as questões estéticas e suas interpretações influenciam no processo. Explico: enquanto tatuador, levo em consideração o momento histórico e social em que vivemos – onde a tatuagem deixa de ser aquele manifesto de rebeldia que é mal compreendido por grande parte da sociedade. Aqui no Brasil, ela surgiu nos portos, em meados dos anos 1970. Esta era uma região frequentada, em sua maioria, por estivadores, piratas e prostitutas. Este cenário de origem contribuiu para alimentar a crença de que as pessoas tatuadas não são confiáveis. Hoje em dia, isso tem melhorado. Agora temos artistas, médicos, juízes, bancários, policiais e outras pessoas tatuadas – por questões estéticas, rito de passagem ou qualquer outro motivo. Seja qual for a causa, a tatuagem acaba sendo vista como uma forma de se expressar para o mundo e muito menos preconceito.

Tudo se reflete, inclusive, na tolerância à dor. Cada um sente de uma forma e em uma intensidade. Dizer que não sente nada é mentira! Na verdade, a questão maior é como nos Revista Viração • Ano 16 • Edição 115

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NO ESCURINHO

CORPOS PRET OS

TEXTO DANIEL FAGUNDES, DA REDAÇÃO IMAGEM ANDRÉ LUIZ TEIXEIRA, NANÁ PRUDÊNCIO E FELIPE DREHMER

NA TELONA UM CINEMA EMPRETECIDO TOMA A CENA DE ASSALTO.

Quem te penteia? (2018),   de Naná Prudêncio

N

a última década, assistimos uma nova cena de cineastas negros e negras independentes criando narrativas muito poderosas sobre os corpos pretos na telona. Jovens produtores despontam na atualidade carregando o legado de grandes nomes do audiovisual negro nacional – como Zózimo Bulbul, Adélia Sampaio, Jefferson De e tantos outros resistentes exemplos inspiradores para que os afro-brasileiros tomem sua imagem nas mãos, parafraseando Luiz Fernando Santoro, sobre o vídeo popular dos anos 80. Desta nova geração, destaco o curta Jennifer (2012; 29min) de Renato Cândido, onde uma jovem negra de pele clara usa o Photoshop para alterar sua cor, tornar-se mais corpulenta e aparentemente mais velha. Singelamente, o cineasta traz à tona a subjetividade da menina e suas reflexões em cada situação vivida. De forma muito sensível, aborda temas como a inserção no mercado de trabalho, as relações amorosas, os conflitos familiares e as tensões de identidade que a jovem passa para se aceitar e para ser aceita nessa sociedade machista e racista.

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Jennifer (2012), um curta de Renato Cândido

O filme faz parte de uma série de 5 outros curtas denominado “Menina mulher da pele preta”. Destes, além de Jennifer, outros dois já foram rodados e lançados em festivais, salas comerciais e no circuito alternativo: Dara – A primeira vez que fui ao céu (2017; 18min) e Simone – Estórias em estação de transferência (2018; 25min). Outro trabalho primoroso desta nova geração é o curta experimental KBELA (2015; 22min) de Yasmin Tainá, onde a diretora carioca cria um universo surreal com símbolos estéticos imprescindíveis na constituição dos corpos pretos e obriga o espectador a refletir sobre os

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sentidos conflituosos e potentes das imagens expostas. O cabelo, a pele, as múltiplas formas da mulher negra e seus sentimentos sempre em profusão, o abandono e a força da cosmovisão afro-brasileira e sua religiosidade incandescente, formam um panorama de beleza e violência que nos envolve e faz pensar sobre as atitudes pessoais e sobre as agressões institucionalizadas perpetradas contra o povo preto. E, nesse sentido, é imperativo falar também do belíssimo documentário Quem te penteia? (2018; 35min) de Naná Prudêncio e Nina Vieira (Zalika Produções),


onde a partir dos salões de cabelereiro das quebradas de São Paulo vão se evidenciando histórias de empreendedorismo periférico, elevação da autoestima e enfrentamento do racismo. Desde quem trança à quem faz os chamados cortes chavosos, até quem cria seus próprios jeitos de cortar e pentear o cabelo, o filme vai revelando a importância do cuidado com o corpo e com a aparência nas periferias, principalmente para a comunidade negra e para quem não tem medo de variar as formas do seu crespo. Em paralelo, temas como homofobia, desigualdade social e gênero emergem na narrativa sem tabu e de forma muito natural, com o respeito e a atenção que tiveram as diretoras na abordagem e na edição do filme.

além de trazerem a questão do corpo e suas diferentes dimensões como temática central. Não à toa, é claro. Estão construindo novas interpretações sobre o atual momento que vivemos e sobre a história de suas famílias e de seu país. Disputando arduamente os raros recursos governamentais na área e disputando também o direito de representar com dignidade a maior parcela do povo brasileiro através da linguagem audiovisual. Nem sempre esses bons filmes passam na TV ou estão nos holofotes do cinemão, ainda que tenham ganhado prêmios internacionais e rodado em grandes festivais por todo o território nacional – daí a importância de estarmos ligados nos circuitos alternativos de cinema, nos coletivos exibidores e nas iniciativas de plataformas gratuitas de difusão via internet.

Em comum, todos esses curtas tem o fato de que são dirigidos por pessoas negras e periféricas,

Falando nisso, cabe aqui menção ao canal ‘Cultne’ no Youtube e a ‘Videoteca Popular’, além

plataforma ‘Afroflix’ e da ‘TV Caiçara’ – esta última, com mais de 10 anos divulgando cinema independente de todo o país. Fique ligado/a! Tem um cinema que fala de você com profundidade, sinceridade e complexidade; e em muitos casos ele pode estar mais próximo do que você imagina. Aliás, ele pode estar sendo produzido por sua vizinha.

TÁ NA MÃO Fotografe os QR Codes com o seu celular e assista aos trailers das obras indicadas:

KBLA (2015), experimental de Yasmin Tainá

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TEXTO POR RÔ VICENTE, VIRAJOVEM DE SÃO PAULO (SP) IMAGEM RAWPIXEL

B

A

SOLIDÃO DAS BIXAS

AS UNHAS PINTADAS E O BATOM VERMELHO ME IMPEDEM DE REALIZAR SONHOS E DE FORMAR UMA FAMÍLIA QUE POR MUITO TEMPO EU QUIS TER.

ixa: adjetivo (para alguns, pronome)

• Que designa um homem gay afeminado; • O homem que se aproxima do universo feminino; • Homem sem gênero; • A Revolução. Quando um homem gay se determina uma Bixa – sim, aqui Bixa é com letra maiúscula de muita Bixisse –, ele quebra alguns paradigmas de gênero. Se aproxima do feminino – em alguns casos, se vê não-binário, com o gênero fluido. Assume seus trejeitos sem vergonha, se veste da forma que achar melhor, se trata com adjetivos femininos e masculinos e se determina uma BIXA. Que ser Bixa é um ato revolucionário para a heteronormatividade e também para o meio LGBT, que ainda trata com muito preconceito os afeminados, todos nós sabemos. Também sabemos que são as Bixas as responsáveis pela maioria dos nossos direitos como LGBTs, pois elas são as primeiras a darem a cara a tapa e a receberem lampadada nas ruas.

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O QUE A MAIORIA NÃO SABE É QUE SER BIXA É MUITO SOLITÁRIO. É muito solitário se reafirmar todos os dias, ser tratado como um pedaço de carne, não ser amado, ter que buscar amor próprio em lugares impossíveis. O fato de me vestir como me visto e me portar como me porto já faz com que as pessoas criem uma expectativa de como sou. Homens nos julgam como corpos feitos apenas para oferecer prazer. Isso se dá porque somos os corpos masculinos mais próximos do universo feminino – e nossa cultura sexista ensina aos homens a enxergar o corpo de mulheres como se servissem apenas para sexo. Com as Bixas não seria diferente. Não seremos assumidos como namorados, não seremos apresentados no jantar de família, não poderemos construir uma família. Sabemos que a vergonha de nos ter ao lado sempre acompanhará homens que se interessam apenas pelos nossos corpos afeminados e trejeitos (que, para muitos, é algo atraente a ser explorado). Para essa sociedade machista e LGBTfóbica,

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as Bixas Afeminadas servem só para sexo. Exemplos como Pabllo Vittar, Linn Da Quebrada e Kaya Conki mostram como corpos de Bixas Afeminadas são hipersexualizados. Hoje decretamos a extinção do macho em nossos corpos, dentro de nós. E assumimos as Bixas que somos. Por mais solitário, difícil e perigoso que seja, nós nascemos e morreremos Bixas. Quebraremos o patriarcado que nos impõe a masculinidade, destruiremos a heteronormatividade que LGBTs nos fazem engolir. Ser Bixa é a nova Revolução.

PREFIRO MORRER POR SER QUEM SOU AO VIVER UMA GRANDE MENTIRA.


FLORA GUAZZELLI, VIRAJOVEM DE SÃO PAULO (SP)


COMO SE FAZ

TEXTO SYLVIO AYALA, DA REDAÇÃO

O QUÊ MESMO? Na esteira de Gutemberg, o lambe-lambe surgiu no século XIX como um produto da indústria de impressão em massa – ou seja, um tipo de pôster-cartaz para publicidade e propaganda. Nova mídia que publicava (colava) sua mensagem pelas ruas. Veículo de comunicação massivo, rápido e barato. A evolução dos métodos de impressão tornou mais acessível essa prática, tipografia, xilo, serigrafia, offset, fotocópia, dentre outros tipos de gravura e de papeluchos impressos incrementaram a parada. Abrindo para outros campos, a poesia, a política, e o graffiti passam a reproduzir essa fórmula. No surrealismo pós guerra, na contracultura pré-revolução, na arte de rua contemporânea, lá está o lambe-lambe. Também conhecido como “paste up”

COMO SE FAZ LAMBE-LAMBE e “poster bomber”, do circo até a street art, em série ou exclusivo, mega produzido ou na mão grande – olha lá o lambe-lambe! No seu próprio quarto, no muro da esquina, no poste… Vamos colar um lambe-lambe?

MAS COMO EU FAÇO? O encarte que tem em mãos é para usar, brincar, criar e colar! Recorte nas tesourinhas e solte suas ideias, liberte seu corpo. Desenhando, escrevendo pintando ou (e) colando, produza seu lambe-lambe nesse miolo do folhão kraft. Preencha, insufle, componha, sopre vida nesse pedaço de papel. Nosso mote, o disparador, a pergunta: O seu corpo é? Indagação corpórea que embala nossa edição, tema central, cabeça, tronco e membros da Revista Viração nº115. Incorpore se for capaz!

Dando corda na ciranda gráfica, na corrente de intervenções artísticas, psíquicas e interpessoais. Feita sua intervenção, dada sua resposta, prepare-se para fixar seu lambe-lambe em algum lugar legal. Suporte vertical de preferência, muros da cidade e paredões afins. Também pode ser colado em locais fechados, ao gosto da freguesia.

Pra lacrar, tire uma foto do Lambe aplicado, já devidamente lambido e envie pra gente! Pode ser por e-mail >> comunicacao@viracao.org << ou – mais legal ainda – publicado no seu Instagram, com a hashtag #MeuCorpoCria.


Sylvio Ayala | sylvioayala.wixsite.com/facilitacao

FAÇA SEU LAMBE-LAMBE


MEU CORPO



Novos olhares sobre velhos conceitos.

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