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Gutierrez de Jesus

quem faz a vira pelo brasil

Conselho Virajovem de São Paulo discute, na Viração, sua colaboração para a reportagem de capa desta edição.

Conheça os Virajovens em 20 Estados brasileiros e no Distrito Federal: Aracaju (SE) Belém (PA) Boa Vista (RR) Boituva (SP) Brasília (DF) Campo Grande (MS) Curitiba (PR) Fortaleza (CE) Goiânia (GO) João Pessoa (PB) Lagarto (SE) Lavras (MG) Lima Duarte (MG) Maceió (AL) Manaus (AM) Natal (RN) Picuí (PB) Pinheiros (ES) Porto Alegre (RS) Recife (PE) Rio Branco (AC) Rio de Janeiro (RJ) Salvador (BA) S. Gabriel da Cachoeira (AM) São Luís (MA) São Paulo (SP) Vitória (ES)

Auçuba Comunicação e Educomunicação – Recife (PE) • Avalanche Missões Urbanas Underground – Vitória (ES) • Buxé Fixe - Amadora (Portugal) • Casa da Juventude Pe. Burnier – Goiânia (GO) • Casa Peque Davi – João Pessoa (PB) • Catavento Comunicação e Educação – Fortaleza (CE) • Cipó Comunicação Iterativa – Salvador (BA) • Ciranda – Central de Notícia dos Direitos da Infância e Adolescência – Curitiba (PR) • Coletivo Jovem – Movimento Nossa São Luís – São Luís (MA) • Gira Solidário – Campo Grande (MS) • Grupo Conectados de Comunicação Alternativa GCCA – Fortaleza (CE) • Grupo Makunaima Protagonismo Juvenil – Boa Vista (RR) • Instituto de Desenvolvimento, Educação e Cultura da Amazônia – Manaus (AM) • Instituto Universidade Popular – Belém (PA) • Mídia Periférica – Salvador (BA) • Instituto Candeia de Cidadania – Lima Duarte (MG) • Jornal O Cidadão – Rio de Janeiro (RJ) • Lunos – Boituva (SP) • Movimento de Intercâmbio de Adolescentes de Lavras – Lavras (MG) • Oi Kabum – Rio de Janeiro (RJ) • Projeto de Extensão Vir-a-Vila (UFRN) - Natal (RN) • Projeto Juventude, Educação e Comunicação Alternativa – Maceió (AL) • Rejupe • União da Juventude Socialista – Rio Branco (AC)


Copie sem moderação! Você pode: • Copiar e distribuir • Criar obras derivadas Basta dar o crédito para a Vira!

editorial D

quem somos

A

Solidariedade à frente

esde 2003, as edições do Fórum Social Mundial demonstram que há muitas pessoas no mundo a fim de construir uma proposta mais humana para o Planeta, em que o respeito à diversidade, a cooperação e a solidariedade sejam imperativos indispensáveis para um “outro mundo possível”. Nesse sentido, grupos sociais pensam em estratégias para favorecer o desenvolvimento local, resgatando o valor da vida em comunidade e a confiança nas relações entre vizinhos e comércio local. A nossa reportagem de capa desta edição aborda como cooperativas de comerciantes e comunidades trabalham com a Economia Solidária, a partir da adoção de moedas sociais e culturais, além da organização de feiras e fóruns. Você fica por dentro ainda de como o governo federal pensa as políticas públicas nesse âmbito. Também pode conferir uma entrevista que o militante indiano pelo direito à educação e erradicação do trabalho infantil, Kailash Satyarthi, concedeu a adolescentes comunicadores, durante a 3ª Conferência Global sobre Trabalho Infantil, que aconteceu em outubro deste ano em Brasília. Boa leitura!

Viração é uma organização não governamental (ONG) de educomunicação, sem fins lucrativos, criada em março de 2003. Recebe apoio institucional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo e da ANDI - Comunicação e Direitos. Além de produzir a revista, oferece cursos e oficinas em comunicação popular feita para jovens, por jovens e com jovens em escolas, grupos e comunidades em todo o Brasil. Para a produção da revista impressa e eletrônica, contamos com a participação dos conselhos editoriais jovens de 20 Estados, que reúnem representantes de escolas públicas e particulares, projetos e movimentos sociais. Entre os prêmios conquistados nesses dez anos, estão Prêmio Don Mario Pasini Comunicatore, em Roma (Itália), o Prêmio Cidadania Mundial, concedido pela Comunidade Bahá’í. E mais: no ranking da ANDI, a Viração é a primeira entre as revistas voltadas para jovens. Participe você também desse projeto. Paulo Pereira Lima Diretor Executivo da Viração – MTB 27.300

Apoio institucional

Asso

ciazione Jangada


Profissional para transformar

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Na internet Ideias, opiniões e reportagens produzidas por adolescentes recifenses são publicadas em um blog sobre direitos humanos e juventude

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O curso de especialização em Educomunicação, oferecido pela USP, discute a inter-relação comunicação/educação para a transformação social

Na HQ e nas ruas A máscara do personagem V do álbum V de Vingança foi amplamente usada durante as manifestações de junho. Confira a crítica do álbum na coluna Quadrim

Do outro lado do Atlântico Conheça uma associação que, há três anos, atua pela promoção de práticas educomunicativas em Burkina Faso, na África

sempre na vira:

Manda Vê Vale 10 Como se faz Quadrim Imagens que Viram No Escurinho

RG da Vira: Revista Viração - ISSN 2236-6806 Conselho Editorial

Eugênio Bucci, Ismar de Oliveira, Izabel Leão, Immaculada Lopez, João Pedro Baresi, Mara Luquet e Valdênia Paulino

Conselho Fiscal

Everaldo Oliveira, Renata Rosa e Rodrigo Bandeira

Conselho Pedagógico

Alexsandro Santos, Aparecida Jurado, Isabel Santos, Leandro Nonato e Vera Lion

Presidenta

Susana Piñol Sarmiento

Vice-Presidenta Amanda Proetti

06 10 12 13 27 30

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Que Figura Sexo e Saúde Rango da Terrinha Parada Social Rap Dez

Primeiro-Secretário Rafael Lira

Diretoria Executiva

Paulo Lima e Lilian Romão

Equipe

Bruno Ferreira, Elisangela Nunes, Evelyn Araripe, Filipe Campos Borges, Gutierrez de Jesus Silva, Ingrid Evangelista, Irma D’Angelo, Manuela Ribeiro, Marcos Vinícius Oliveira, Rafael Silva, Tulio Bucchioni e Vânia Correia

Administração/Assinaturas

Douglas Ramos e Norma Cinara Lemos

Mobilizadores da Vira

Acre (Leonardo Nora), Alagoas (Alan Fagner Ferreira), Amazonas (Jhony Abreu, Claudia Maria Ferraz e Sebastian Roa),

Durante a 3ª Conferência Global sobre Trabalho Infantil, adolescentes entrevistam o indiano Kailash Satyarthi, militante pela erradicação do trabalho infantil em seu país

O lado solidário da moeda Iniciativas de grupos e comunidades conscientes da necessidade de fortalecer e valorizar o comércio e cultura locais são capazes de transformar a realidade

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Exemplo de militância

Brasil afora Confira as ações pela democratização da comunicação realizadas pela galera da Renajoc, no Dia da Juventude Comunicativa, celebrado em 17 de outubro

Problema sério Jovens com baixa autoestima podem ser adeptos da automulitação, hábito de provocar lesões para aliviar suas angústias, mas sem intenção de suicídio

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Bahia (Everton Nova, Enderson Araújo e Mariana Sebastião), Ceará (Alcindo Costa e Rones Maciel), Distrito Federal (Webert da Cruz), Espírito Santo (Jéssica Delcarro e Izabela Silva), Goiás (Érika Pereira e Sheila Manço), Maranhão (Nikolas Martins e Maria do Socorro Costa), Mato Grosso do Sul (Fernanda Pereira), Minas Gerais (Emília Merlini, Reynaldo Gosmão e Silmara Aparecida dos Santos), Pará (Diego Souza Teofilo), Paraíba (José Carlos Santos e Manassés de Oliveira), Paraná (Juliana Cordeiro e Vinícius Gallon), Pernambuco (Edneusa Lopes e Luiz Felipe Bessa), Rio de Janeiro (Gizele Martins), Rio Grande do Norte (Alessandro Muniz), Rio Grande do Sul (Evelin Haslinger e Joaquim Moura), Roraima (Graciele Oliveira dos Santos), Sergipe (Grace Carvalho) e São Paulo

(Luciano Frontelle e Paolla Menchetti.

Colaboradores

Antônio Martins, Heloísa Sato, Luciano Daniel, Márcio Baraldi, Maria Rehder, Natália Forcat, Nobu Chinen, Novaes e Sérgio Rizzo.

Projeto Gráfico

Ana Paula Marques e Manuela Ribeiro

Revisão

Izabel Leão

Jornalista Responsável

Paulo Pereira Lima – MTb 27.300

Divulgação

Equipe Viração

E-mail Redação

redacao@viracao.org


diga lá! Por e-mail Sou idealizador do Projeto Cultura para Todos, que visa à área de dança, como lambaeróbica, estilo livre, danças urbanas e outras mais. Desenvolvido nos bairros com crianças, adolescentes e jovens da comunidade, tem o objetivo de resgatar a autoestima, proporcionando a eles respeito e comportamento ético, deixando-os longe dos riscos sociais. O projeto existe há alguns anos, e não possui nenhum apoio, todo o trabalho é realizado sem recursos físicos e financeiros. Seria bacana fazer uma parceria com a Viração. De que forma poderíamos fazer?

Fique por dentro das novidades e acompanhe as nossas coberturas educomunicativas pelo Twitter @viracao

Maicon Oliveira - Professor responsável pelo Projeto Cultura para Todos Monte Alto (SP) Por e-mail Olá, meu nome é Ingrid Cutrim Garcia! Sou estudante de Jornalismo e me interesso muito por temas do universo jovem. Gostei muito do estilo da Revista Viração, gostaria de conhecer mais sobre o trabalho de vocês e quem sabe ser também uma colaboradora. Atenciosamente!

Resposta: Olá, Maicon e Ingrid! Obrigado por entrarem em contato conosco! Trabalhamos em rede, com núcleos de adolescentes e jovens presentes, atualmente, em 21 Estados brasileiros e no Distrito Federal. Esses núcleos produzem conteúdos em texto e imagens para a Revista Viração e site da Agência Jovem de Notícias, de modo colaborativo. Se tiverem interesse, podemos conversar mais a respeito. Um abraço!

E também confira a página da Agência Jovem de Notícias no Facebok.

Perdeu alguma edição da vira? não esquenta! Você pode acessar, de graça, as edições anteriores da revista na internet: www.issuu.com/viracao

Para garantir a igualdade entre os gêneros na linguagem da Vira, onde se lê “o jovem” ou “os jovens”, leia-se também “a jovem” ou “as jovens”, assim como outros substantivos com variação de masculino e feminino.

Ops... Erramos! Na edição anterior (nº 100/outubro de 2013), grafamos de modo errado uma palavra em uma das chamadas de capa. Na chamada “Mídia e Sociedade”, onde se lê “representas”, quisemos dizer “representadas”. Pedimos desculpas pelo equívoco.

Mande seus comentários sobre a Vira, dizendo o que achou de nossas reportagens e seções. Suas sugestões são bem-vindas! Escreva para Rua Augusta, 1239 - Conj. 11 - Consolação - 01305-100 - São Paulo (SP) ou para o e-mail: redacao@viracao.org - Aguardamos sua colaboração!

Parceiros de Conteúdo


manda vê

Edneusa Lopes, do Virajovem Recife (PE); Diego Teófilo, do Virajovem Belém (PA)*; e Bruno Ferreira, da Redação

É muito comum observar, especialmente em épocas de eleições, quando há debates eleitorais, a imprensa se afirmar como democrática, pois dá voz à diversidade de candidatos e propostas para a sociedade. Mas, no dia a dia, ao retratar as diferentes realidades, é possível falar em democracia, efetivamente? Para muitos, os meios de comunicação de massa são realmente democráticos, especialmente quando retrata e divulga diferentes versões de um mesmo acontecimento, como fazem os jornalistas. No entanto, muitos observam conteúdos tendenciosos sendo veiculados diariamente pelos grandes meios, isso sem falar nos grandes conglomerados de comunicação no Brasil, concentrados nas mãos de apenas seis famílias ricas, que possuem influência nas esferas do poder público. Mas afinal,

A mídia no Brasil é democrática? Ana Carla Oliveira

Karla Gouvêa

24 anos | Belém (PA)

23 anos | Belém (PA)

“Quando falamos em mídia, temos a noção de notícias, publicidade e transparência, mas ela não é uniforme, existindo várias cadeias de negócios envolvidos. Como a mídia pode ser isenta se é financiada por governos, municipais, estaduais ou nacional e pela economia capitalista de mercado?”

“A mídia não é democrática no Brasil. O interesse da grande mídia é fazer merchandising de um produto que tenha alta rotatividade. Além do mais, passam a visão descontrolada e maçante de que essas pessoas são alienadas e ignorantes, que vivem regradas somente no senso comum.”

Lourival Neto 19 anos | Recife (PE)

“Engana-se quem pensa que há democracia na mídia brasileira. O que há é uma tela pintada pela grande Rede Globo, que domina a informação e aliena seus usuários, sim, usuários, como drogas, pois, o Padrão Globo não significa qualidade, significa ditadura midiática alienante.”

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Erick Machado

23 anos | São Paulo (SP) “Acredito que a mídia não é democrática porque não mostra os acontecimentos como um todo. Como formadora de opinião, ela só defende os interesses do governo. O povo é condicionado a tomar decisões pré-definidas.”


Arthur Rodrigues

Gabriel Mayer Wagner

21 anos | São Paulo (SP)

26 anos | São Paulo (SP)

“No Brasil, talvez a situação seja pior do que em muitos lugares devido ao tradicional controle de uma minoria rica sobre os controles do País. É preciso, por meio da lei, que seja garantido mais espaço à imprensa estatal e independente.”

“No Brasil, ainda é difícil se falar em democracia midiática, especialmente porque os principais meios de comunicação são controlados por poucas famílias. A censura da informação é inevitável, na maioria dos casos. Por outro lado, especialmente com o avanço da internet, alguns passos rumo à pluralidade da informação já começam a ser dados no País.”

Debora Elis Luvizoto

Thay Gama

24 anos | São Paulo (SP)

26 anos | Manaus (AM)

“Não acho que seja democrática. Ainda sofremos com a falta de liberdade de expressão. Cada veículo mostra o lado que mais lhe interessa em cada situação, levando em conta questões de poder econômico. Acaba que não há espaço para todos se expressarem.”

“Não. Se fosse democrática, não manipularia e nem se venderia. Na verdade, é instigadora do capital que exclui e divide a sociedade em classes.”

para ler no busão É muito comum confundir liberdade de expressão com liberdade de imprensa. O primeiro diz respeito ao indivíduo e o segundo, às empresas de comunicação que adaptaram a liberdade individual para a liberdade empresarial. O livro do Professor Venício Artur de Lima volta para a comunicação o velho debate entre público e privado, abordando, com base em 23 artigos, diferentes aspectos dessa relação. O livro traz ainda importantes documentos internacionais, como anexo, entre eles: a Declaração Universal dos Direitos Humanos, Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão.

FAZ PARTE EKMAN, Pedro. Levante sua Voz, 2009, 17 min. O documentário produzido pelo Coletivo Intervozes trata didaticamente do direito humano à comunicação, previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O vídeo aborda a relação entre poder, riqueza e meios de comunicação de massa, influência da mídia sobre a cultura e comportamento da sociedade, além de esclarecer sobre a importância da liberdade de expressão, o que significa receber e emitir idéias sem restrições. Mas no Brasil, a realidade ainda não é essa. O documentário está disponível no Youtube e pode ser acessado por meio do link: http://migre.me/gs1pQ

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*Virajovens presentes em 20 Estados do País e no Distrito Federal

Revista Viração • Ano 11 • Edição 101

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Pra quem quer transformar Educomunicação, Profissionais de diferentes áreas podem se especializar em curso oferecido aos finais de semana pela ECA/USP

Educomunicação Especialização em

Da Redação

A

Educomunicação não está mais restrita às práticas de pequenos grupos ou à educação popular. Essa área já é contemplada por políticas públicas que prevêem a atuação de profissionais, desenvolvendo pedagogicamente o uso e a produção de mídias por estudantes do ensino fundamental, por exemplo, como acontece já há nove anos com o projeto Nas Ondas do Rádio, da Prefeitura de São Paulo. A universidade, que percebe as demandas desse novo campo, não se isenta de preparar profissionais para gerenciar projetos e práticas educomunicativas não apenas na educação formal, mas também no terceiro setor e em empresas. A especialização em Educomunicação: Comunicação, Mídias e Educação é oferecida pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) a graduados em qualquer área do conhecimento. O educomunicador é um profissional que conhece suficientemente as teorias e práticas da Educação e também os modelos e procedimentos que envolvem o mundo da

Alunos do curso encontram-se na Viração, no início de novembro, para resgaterem conceitos vistos durante o ano

Alunos do curso de Especialização em Educomunicação apresentam trabalhos feitos em grupo

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Revista Viração • Ano 11 • Edição 101


produção midiática e das tecnologias. “Trata-se de um profissional capaz de exercer atividades de caráter transdisciplinar, tanto na docência quanto e coordenação de trabalhos de campo, na interface Comunicação/Educação”, ressalta a Profª. Dra. Maria Cristina Castilho Costa, coordenadora do curso. “Herdeiro” do antigo e tradicional curso de Gestão da Comunicação, a especialização em Educomunicação está em sua segunda turma, da qual fazem parte o jornalista Davi Lira de Melo, de 28 anos, e o professor de Geografia Alessandro Garcia. “Na área em que atuo, os recursos midiáticos são ferramentas indispensáveis tanto na minha formação quanto na dos estudantes com os quais trabalho”, afirma Alessandro, justificando a escolha pelo curso. Para Davi Lira, repórter de Educação em um grande jornal de São Paulo, os conteúdos ministrados nas disciplinas Comunicação e Educação e Cultura Digital foram importantes para o seu trabalho. “As aulas sobre o panorama do sistema educacional brasileiro desde a democratização e os encontros sobre novas tecnologias aplicadas ao ensino e sobre a lógica fantástica que está por trás dos games já me deixaram super empolgado”, diz. O curso é oferecido às sextas à noite e aos sábados, o que permite que o educador Wellington Nardes, de 23 anos, que mora em Joinville, venha todos os finais de semana para São Paulo assistir as aulas. Além dele, as jornalistas Érika Caetano e Suéller Costa, que moram em Limeira e Mogi das Cruzes, respectivamente, cidades do interior de São Paulo, passam a noite de sexta para sábado no alojamento da USP. “Para mim, que sou de fora de São Paulo, as aulas às sextas à noite e aos sábados durante o dia caíram como uma luva. Com o trabalho e outras atividades, eu não poderia fazer o curso de Educomunicação se as aulas fossem ministradas de segunda a quintafeira”, elogia Érika.

Processo seletivo O curso de especialização lato sensu em Educomunicação tem duração de três semestres e o valor da mensalidade é de 750 reais, em 18 parcelas. Em 2014, continuará sendo oferecido às sextas, das 19h às 23h, e aos sábados, das 9h às 18h. As inscrições para o curso estarão abertas a partir de 17 de fevereiro de 2014, mas enquanto isso, você pode ir se preparando para a prova, lendo: Educomunicação – construindo uma nova área do conhecimento Organizado por: Adilson Citelli e Maria Cristina Castilho Costa Editora Paulinas, 2011. Revista Comunicação e Educação, nº 1, ano 18 (janeiro a junho de 2013) Revista Comunicação e Educação, nº 2, ano 18 (julho a dezembro de 2013).

tá na mão Saiba mais sobre o curso de especialização lato sensu em Educomunicação da ECA/USP pelo site: www.cca.eca.usp.br

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Mário Volpi*

Viração: espaço de inovação

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ais que uma revista e mais que uma ONG, a Viração consolidou-se como um espaço de inovação na relação entre adultos, jovens e adolescentes. Ao combinar um processo de gestão participativa com a articulação entre diferentes atores sociais, construiu uma experiência exitosa de agendamento da pauta do direito à comunicação, definindo os adolescentes e jovens como cidadãos que também devem usufruir desse direito. A Viração dá vez e voz a adolescentes e jovens para que expressem seu ponto de vista, seu conhecimento e suas dúvidas. E tudo começou com a criação de uma revista mensal concebida, escrita, apurada, desenhada e distribuída com a participação direta de adolescentes e jovens, que continua até hoje. Além disso, a presença da Viração nas comunidades populares de São Paulo, junto aos povos indígenas do Amazonas, com os jovens comunicadores da capital do País ou do semiárido brasileiro e tantos outros Virajovens resultou numa percepção das diferentes adolescências e juventudes e das diferentes formas de viver essas fases da vida num País de tantas desigualdades. A capacidade de fazer valer o olhar da juventude na cobertura jornalística de grandes eventos como Congressos, Seminários e Conferências assegurou processos participativos que potencializam a presença dos adolescentes e jovens nesses eventos, fazendo chegar o debate, o conteúdo e os seus resultados àqueles que não estiveram presentes. Isso sem falar na contribuição para desmistificar a indústria da comunicação e para desenvolver a capacidade crítica de adolescentes e jovens. No balanço entre as aprendizagens e resultados positivos contra os erros e frustrações, prevaleceu uma instituição forte, uma revista de cara e conteúdo jovem, uma rede de adolescentes e jovens comunicadores e

*Coordenador do Programa Cidadania dos Adolescentes do UNICEF no Brasil

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uma esperança de que a palavra, a voz, a expressão, a opinião de todos, especialmente de adolescentes e jovens, furem o bloqueio dos monopólios, e permitam à sociedade conhecer a diversidade de vozes para construir um mundo mais democrático e justo. Longa vida à Viração!


mídias livres

mobilização pela web ns Parceria entre organizações do Recife permite que jove criem um blog para produzir conteúdos sobre direitos humanos

Luiz Felipe Bessa e Handryelly Ferreira, do Virajovem Recife (PE)*

Direitos da Criança e do Adolescente e a realização do twittaço e panfletagem para o Dia da Juventude Comunicativa(Dia C), celebrado em 17 de outubro. Além disso, destaca-se a atuação dos adolescentes comunicadores do blog durante a 9ª Conferência Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, realizada em 2012.

Galera do blog Juventudes Contectas realiza entrevistas e produz conteúdos sobre direitos

Arquivos: Juventude Conectada

O

grupo do blog Juventude Conectada aos Direitos surge a partir da iniciativa do projeto Portal de Direitos da Criança e do Adolescente, realizado pela Auçuba, em parceira com o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e Rede ANDI Brasil. O blog tem por finalidade mobilizar adolescentes a participar de discussões sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e dos Direitos de crianças, adolescentes e jovens em espaço virtual. Em oficinas educomunicativas, adolescentes e jovens passam por formações sobre internet, novas mídias, texto, vídeo, fotografia e direitos humanos, realizadas ao longo do projeto, cuja ação principal foi o desenvolvimento de um blog e a sua manutenção, por meio da produção de conteúdos comunicativos sobre a temática. O blog Juventude Conectada aos Direitos é um espaço informal em que os jovens colocam suas ideias e opiniões sobre direitos. Atualmente, o coletivo é composto por nove adolescentes e jovens, com idade entre 14 e 20 anos. A linha de atuação é escrever sobre as temáticas pertinentes das conferências, fóruns, seminários e outras, como por exemplo, o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes, a homofobia, preconceito racial, bullying, situação dos jovens que cumprem medidas socioeducativas, tráfico de pessoas, liberdade de expressão e a privação de direitos conquistados pelo ECA. O blog tem uma média de 1.139 visualizações mensais de suas páginas. A organização Auçuba, do Recife, é a principal parceira para os encontros e formação da equipe, além de ceder sua infraestrutura para o blog acontecer. Junto com outros parceiros, a galera do blog já participou da Feira de Educação e Saúde, Fórum da Juventude, além das coberturas do Fórum de

tá na mão Acesse o blog Juventude Conectada aos Direitos: www.juventudeconectada aosdireitos.blogspot.com Confira o link sugerido pelo QR Code!

*Virajovens presentes em 20 Estados do País e no Distrito Federal

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como se faz!

Cineclubes Reúna a galera para assistir filmes e debater sobre a sétima arte

Maurício D’Paula, do Virajovem São Luís (MA)*

C

ineclube é um espaço associativo onde são realizadas exibições e debates sobre filmes dos mais 1. Reúna uma galera que esteja com vontade de diferentes gêneros. O principal objetivo discutir, refletir e debater sobre filmes e documentários. é gerar debates e reflexões, buscando É importante que tenha uma turminha bem antenada no mundo do cinema, produção audiovisual e que desvendar os mistérios e segredos que tenha ciência da importância de serem criados novos estão por trás de cada cena do filme que espaços de discussão para produção e disseminação de foi exibido. conhecimento; O cineclubismo surgiu na França no século 20 e no Brasil começou em 1929, 2. Organize enquanto associação e dê um nome ao cineclube. Para facilitar na criação do cineclube é só com o Cineclube ChaplinClub no Rio de entrar em contato com o CNC. No site há disponível Janeiro. Atualmente, estima-se que existam a ficha para filiação ao conselho nacional e outras 1.370 cineclubes no Brasil, ocupando orientações; locais variados, como igrejas, escolas, praças e até bares. Os cineclubes não têm 3. Procure um espaço que acomode todos e que tenha uma tela para fazer a projeção; fins lucrativos e apresentam estrutura democrática. Em 196, foi criado o Conselho 4. Selecione um filme (ou vários filmes se preferir; é Nacional de Cineclubes (CNC), responsável sempre bom deixar uns reservados) de importância pela integração dos cineclubes de todo relevante e que possibilite uma discussão calorosa; o País, levantando discussões em torno 5. Convide a galera, use as redes sociais para ajudar, e de políticas públicas para a produção pronto. Boa sessão e debate! audiovisual, criação de novos cineclubes, promoção cinematogrática etc. Não existem padrões nem normas a serem seguidos para construção de cineclubes. A seguir, você confere algumas dicas de Saiba mais sobre cineclubes como criar novos espaços:

Passo a passo

tá na mão

em: http://www.cineclubes.org.br/

*Um dos virajovens presentes em 20 Estados do País e no Distrito Federal

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quadrim

V. A cara das manifestações de rua

Nobu Chinen, crítico de quadrinhos

H

á alguns meses, as ruas de várias cidades brasileiras vêm sendo tomadas por manifestações de diversos tipos, com as pessoas se mobilizando para reivindicar. Não importa por qual motivo, a imagem que se tornou uma espécie de símbolo dessas passeatas foi a máscara pálida de um homem, de bigode e cavanhaque finos e um sorriso intrigante no rosto. A máscara é a mesma usada pelo personagem V, que dá nome ao álbum V de Vingança, história em quadrinhos escrita por Alan Moore e ilustrada por David Lloyd, que se tornou popular depois do sucesso de uma adaptação para o cinema. A história foi publicada originalmente em 1981, mas sua trama transcorre num futuro sombrio, o então longínquo ano de 1997. V é um anarquista que, vestido como se vivesse no século 17, combate a tirania e os métodos violentos do governo em uma Inglaterra fictícia. A vingança a que se refere o título faz parte do seu plano de derrubar um a um os membros que detêm o poder, todos eles responsáveis por instaurar e perpetuar um estado totalitário e que, no passado, conduziram experiências que alteraram para sempre o físico e a mente de V.

O personagem, cujo rosto nunca se revela ao leitor, acolhe como aliada a garota Evey, adolescente que teve os pais perseguidos e mortos pelas forças do governo. Juntos, eles cometem uma série de atentados contra instituições e pessoas ligadas ao governo. O desenho de Lloyd, carregado de sombras e áreas escuras, é perfeito para transmitir o clima de angústia e tensão presente em toda a narrativa. V é baseado em Guy Fawkes, um personagem que existiu de verdade e participou da tentativa frustrada de explodir o parlamento inglês, e dessa forma assassinar o rei Jaime I, em 5 de novembro de 1605. Fawkes e seu grupo foram presos e executados e, até hoje, essa data é comemorada como feriado nacional na Inglaterra. Por que é legal ler? O enredo é muito rico e complexo. O autor usa muitas referências de obras da cultura ocidental com menção a livros, pinturas e músicas que, na história, o governo baniu, mas que V preserva em seu esconderijo.

Por que é importante ler? Alan Moore é um dos mais consagrados e talentosos roteiristas da sua geração, responsável por renovar os quadrinhos de aventura, nos anos 1980. V de Vingança é uma de suas principais criações.

Para ler e refletir Embora seja uma HQ de ficção, ela aborda temas bastante reais. O poder centralizador, a vigilância permanente sobre os cidadãos, o uso das forças de segurança. Tudo isso soa tristemente familiar com algumas notícias que lemos nos jornais ou na internet, sobre o mundo e até mesmo no Brasil.


viração world

Direto de Burkina Faso oção da Em seu terceiro ano, a Associação Burquinense de Prom Educomunicação faz um balanço de suas atividades

Tulio Bucchioni, da Redação

E

m 2010, em Uagadugu, capital de Burkina Faso, na África, foi criada a Associação Burquinense para a Promoção da Educomunicação, a ABPE. Depois da realização de uma oficina sobre Educomunicação no contexto do mundo globalizado, em que estiveram presentes Paulo Lima, diretor executivo da Viração, e Ismar Soares, coordenador do curso de Licenciatura em E ducomunicação da ECA/USP, comunicadores, jornalistas e universitários do país se reuniram e a ideia de criar uma associação capaz de fomentar a educomunicação em Burkina surgiu pela primeira vez. Atualmente, a ABPE é uma associação de comunicação social, educação e mobilização de adolescentes, jovens e educadores e tem como objetivo promover e difundir os processos e as práticas da comunicação educativa e da mobilização de jovens em torno do direito humano à comunicação enquanto mecanismo de transformação social. Em especial, no que tange ao contexto do continente africano, a ABPE tem como meta contribuir para a transformação da sociedade africana e burquinense com projetos concebidos e desenvolvidos com esse intuito.

Projetos Prestes a completar três anos em novembro deste ano, a associação já apresenta um balanço de sua

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recente atividade. Durante o 13º Salão Internacional do Artesanato de Uagadugu (SIAO, na sigla em francês), a ABPE realizou a cobertura midiática jovem do evento, com adolescentes e jovens da cidade. Na ocasião, foram produzidos e publicados boletins diários, os chamados “SIAO Kiabare”. Os boletins eram feitos inteiramente por jovens comunicadores, visando permitir que a população jovem desfavorecida socialmente pudesse não apenas se expressar durante o Salão, mas também participar ativamente das atividades de suas comunidades de origem, depois do evento. O Fórum Médiaverti é outro projeto da APBE. Tem como objetivo ser como um espaço de educação sobre a mídia, reunindo grupos de estudantes de letras, artes, comunicação, ciências humanas e sociais, que trocam saberes sobre práticas jornalísticas e obras produzidas em torno do tema. Os encontros contam sempre com a presença de algum convidado que tenha escrito algum livro ou realizado um trabalho sobre comunicação e mídia; paralelamente, são redigidas críticas desses trabalhos, que depois são publicadas no blog da associação. As atividades contam também com a presença de um profissional que apresenta os pontos positivos e negativos de seu meio de comunicação, seja este o rádio, a televisão, o jornal impresso, ou trabalhos de freelancer etc. São debatidos aspectos como: a importância de cada meio de comunicação, sua influência na sociedade,


seu processo de produção de conteúdo, entre outras questões. A intenção é proporcionar aos jovens um entendimento crítico sobre como a mídia produz seus conteúdos noticioso e informativo. A ABPE participou ainda de um painel de discussão organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) durante o Encontro do Bem Social, em setembro de 2012, e do Encontro de Jovens Líderes das Nações Unidas, em dezembro de 2012. Ambos os eventos aconteceram em Uagadugu.

País: Burkina Faso Capital: Uagadugu População: 16,46 milhões (2012) Governo: Semipresidencialismo, República Língua oficial: Francês

tá na mão Para acessar os boletins produzidos durante o 13º Salão Internacional do Artesanato de Uagadugu, entre no blog da ABPE: abpe2.wordpress.com. O conteúdo está disponível apenas em francês.

Para o futuro Entre os projetos futuros da associação, estão a participação na cobertura internacional da Conferência Climática das Nações Unidas, a COP 19, em Varsóvia, na Polônia; a cobertura educomunicativa da Festa da Independência Nacional de Burkina Faso, que acontece em dezembro deste ano; a criação de um site oficial da ABPE e a busca pelo estabelecimento de parcerias estratégicas para a manutenção das atividades da associação. Uma das principais dificuldades da associação continua sendo a arrecadação de recursos financeiros e materiais para desenvolver suas atividades.

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galera repórter

Educação como solução Militante indiano, pelo direito à educação infantil, conversa e pela erradicação do trabalho com adolescentes durante Conferência Global

Alanna Mangueira (SE), Daniel Mendes (SC), Danielle Fiel (PB), Dayana de Araújo (PA), Fábio Souza (AP), Hilamy Moreira (AM), Ítalo Meotti (DF), Júlio Cesar de Araújo (MG), Laiana Souza (BA), Laisnanda de Sousa (MA), Lucas Matheus Farias (RN), Lucas Soares (MS), Marco Antonio Gama (TO), Rafael Lima (CE), Rogério da Silva (RS), Sarah Susane (AC), Suzana Gabriele Balbino (PE), Thailane de Oliveira (RJ), Thamires da Hora (AL), Wesley Pizzol (ES) e Weverson da Silva (MT) | Tradução: Maria Rehder, colaboradora da Vira

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simpatia e humildade de um indiano comoveram os adolescentes comunicadores que fizeram a cobertura da 3ª Conferência Global sobre Trabalho Infantil. Em uma plenária, chamou a atenção dos adultos presentes no evento sobre a participação desses jovens. Kailash Satyarthi tem uma história de vida inspiradora. Durante sua infância se questionava sobre o motivo de estar na escola estudando e ter meninos e meninas trabalhando. Movido pela curiosidade, perguntou ao pai de um garoto que trabalhava porque seu filho não estava na escola. O homem olhou para Kailash como se a pergunta não fizesse sentido e, pacientemente, respondeu: “Nós nascemos para trabalhar!”. Essa resposta o inspirou a promover uma transformação. Após os 30 anos, Kailash conseguiu promover dois movimentos dedicados ao direito à educação e ao enfrentamento do trabalho infantil. E seu esforço lhe rendeu a indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2006. Confira o bate-papo que os adolescentes tiveram com Kailash em 9 de outubro, em Brasília (DF).

Viração: Como você começou, qual foi a sua primeira ação para combater o trabalho infantil? Kailashi Satyarthi: Era meu primeiro dia de aula, eu tinha cinco anos, vi um menino sentado nos degraus do lado de fora, trabalhando como engraxate com seu pai. Perguntei ao meu professor por que essa criança estava lá fora. Ele me disse: “existem muitas crianças como esse menino. São pessoas pobres, nada de novo”. Um dia, quando eu criei coragem, perguntei ao pai dele: “Por que o senhor não leva seu filho à escola?” Ele ficou surpreso e respondeu: “Ninguém nunca havia me perguntado isso, eu nunca pensei no assunto. Meu pai trabalhava desde a infância, isso aconteceu comigo e, agora, meu filho também trabalha. Nascemos para trabalhar”. Essa frase me acompanha até hoje. Aquilo foi terrível, mas encarei o caso como um desafio. Qual a origem do trabalho Infantil? Há centenas de anos, as crianças fazem trabalhos domésticos nas casas, não sei citar uma data, mas há


muitos anos isso é uma realidade. A origem de tudo começa com o desrespeito à criança enquanto sujeito de direitos. Quando esse desrespeito se inicia, as pessoas usam as crianças, explorando-as como mão de obra barata na prostituição, exploração de órgãos, entre outros trabalhos. Outro ponto é que também o governo não garante educação de qualidade a essas crianças. Então, os professores não são treinados, as escolas não tem estruturas, não só nas zonas urbanas, mas principalmente nas zonas rurais, o que acaba criando um movimento das crianças estarem fora da escola. Além disso, muitas vezes, as escolas que nós temos não são amigáveis com às crianças, onde elas se sintam à vontade para se expressar. Como as pessoas, no dia a dia, podem contribuir para a erradicação do trabalho infantil? Precisamos pensar que cada indivíduo é parte de uma grande sociedade e que esse indivíduo compõe o todo. Se você passar a pensar que toda essa sociedade te afeta, o indivíduo também afeta essa sociedade. Como indivíduos, somos consumidores. E não sabemos que a nossa calça, bolsa, sapato são frutos de trabalho infantil. Enquanto consumidores, precisamos ser conscientes, e garantir que o que consumimos está livre de trabalho infantil. Se na casa dos seus parentes ou amigos você observar uma criança trabalhando, você precisa ter atitude de falar que não vai tomar uma água, um chá sequer. Mesmo sendo parente, tem que falar. E todos nós estamos conectados com a mídia, com a comunicação. Antes, o conhecimento estava no livro, no professor. Agora temos as tecnologias, por meio das quais podemos nos expressar.

“As crianças normalmente não são respeitadas. As pessoas amam a criança, mas não a respeita como indivíduo.” Kailash Satyarthi

Você acredita que é fundamental a participação de adolescentes do mundo na próxima Conferência Global sobre Trabalho Infantil? Sim, francamente falando o que estamos fazendo agora é a melhor parte desta Conferência: a oportunidade de conversar com um grupo de adolescentes. Há mais de 30 anos venho falando com políticos, pessoas de grande poder, adultos, mas quando a gente vai ficando adulto, a nossa alma vai ficando poluída. Nas próximas conferências, é preciso mais adolescentes e crianças inclusive de faixa etária menor, que sejam ouvidos, pois eles têm seu jeito próprio de se comunicar. Eles também precisam participar desses processos.

Arquivo Viração

Quais foram seus maiores desafios na luta para erradicar o trabalho infantil? O maior desafio é a mente fechada, um modo antiquado de pensar. As crianças normalmente não são respeitadas, as pessoas amam a criança, mas não a respeita como indivíduo. O maior problema para mudar é essa mentalidade. A maioria das pessoas do mundo acredita que isso é normal, isso é parte da vida, em vez de entenderem a educação como prioridade.

Adolescentes perguntam a Kailash sobre trabalho infantil e participação política de jovens


capa

Outra moeda possível

ia é adotado Um jeito alternativo de pensar a econom por grupos e comunidades que acreditam na cooperação

e solidariedade como forma de desenvolvimento local

Daniela Rueda, da Renajoc (DF); Evelin Haslinger, do Virajovem Porto Alegre (RS); Fabiele Zanquetta, da Rejupe (RS); Igor Bueno e Paolla Menchetti, do Virajovem São Paulo (SP); Maria do Socorro Costa, do Virajovem São Luís (MA)*

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em tudo no mundo é lucro e competição. A vida corrida da maioria dos trabalhadores, o preço alto de produtos básicos e fundamentais para o dia a dia, como alimentos, e a falta de oportunidades de emprego com remuneração decente, nos fazem desacreditar que outro mundo – mais solidário e cooperativo – seja possível. No entanto, iniciativas de pequenos grupos e comunidades conscientes da necessidade do fortalecimento e valorização do comércio e cultura locais desmistificam esse aspecto sombrio e triste da realidade. Em contrapartida aos modos de produção com a ideologia capitalista, em que se produz para o patrão lucrar mais e o proletário é apenas visto como força de trabalho, dependente de um salário com valor muito abaixo do real lucro que gera a empresa, surgiu a economia solidária (Ecosol), capaz de subverter essa lógica de concentração de riquezas, exclusão social e diversas formas de dominação nos campos da política, da economia e da cultura. O termo “economia solidária” abrange muitas práticas econômicas que, em geral, estão ligadas às práticas de comercialização, consumo, produção e serviços, nos quais se defendem, em graus variados, a participação coletiva, autogestão, democracia, cooperação, auto-sustentação,

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desenvolvimento humano, responsabilidade social e a preservação do meio ambiente. Neste cenário, existem iniciativas de produção, comercialização, consumo, crédito, poupança, finanças, que promovem e trabalham de forma coletiva e democrática através de cooperativas, associações, grupos informais e redes. Politicamente, a economia solidária é um movimento social que busca a quebra do sistema capitalista. No Brasil, surge a partir dos anos 1990, quando o então presidente Fernando Collor de Melo abre as portas do País à globalização. Com a entrada de muitas empresas estrangeiras, muitas empresas nacionais vão à falência e milhares de trabalhadores ficam desempregados. Desse processo nascem as chamadas “empresas recuperadas” e os fóruns de cooperativismo popular. Consolida-se ainda, em 2003, o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES) como espaço de articulação para promoção


da Economia Solidária no Brasil. Desde então, houve avanços significativos, como a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes) e do Conselho Nacional de Economia Solidária. O FBES hoje tem em sua estrutura mais de 137 Fóruns Municipais, Microrregionais e 27 Fóruns Estaduais, envolvendo diretamente mais de três mil empreendimentos de Ecosol, 500 entidades de assessoria, 12 governos estaduais e 200 municípios pela Rede de Gestores em Economia Solidária.

artesanal que produzimos pode virar outros tipos de produtos que chegam a custar 20 reais”, conta Marcos.

re Fotos: Virajovem Porto Aleg

Trabalho cooperativo Sueli Angelita da Silva é artesã de São Leopoldo (RS) e integrante da Associação do Bairro Feitoria. Ela integra a coordenação do Fórum Gaúcho de Economia Solidária e é representante do FBES no Estado. Sueli faz parte de uma associação de 22 artesãos que atuam sob outra perspectiva. Em vez de trabalharem isoladamente, os integrantes desse grupo resolveram se juntar para fortalecerem a prática do artesanato e também a segurança com relação à renda individual de cada integrante. “O artesão tem a tendência a um trabalho muito individualista e trabalhar no cooperativismo e associativismo é um processo mais difícil. Nossa meta é construir um produto único feito com técnicas diferentes, mas que seja a nossa cara”, comenta. Gilceane Neves e Marcos Roberto Gonçalves Meireles também são artesãos em Porto Alegre (RS) e dedicamse à reciclagem em um grupo chamado Eco Papel. A criação desse empreendimento se deu também para que o grupo conseguisse uma remuneração mais digna pelo seu trabalho. Formado por seis pessoas, a maior parte por mulheres (cinco integrantes) e todos negros, o Eco Papel pretende produzir papel reciclado e produtos ecologicamente sustentáveis. “Geralmente quando tu és catador, vende os resíduos de reciclagem, como papéis nos ferros velhos, por 25 centavos. Pela Economia Solidária, o papel

A artesã Sueli Angelita da Silva fala sobre sua militância na economia solidária no RS

Representantes da coordenação do Fórum Gaúcho de Economia Solidária do RS

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A comercialização das produções na Ecosol acontece em feiras populares em que produtor e consumidor se relacionam sem intermediários. O espaço das feiras, além de ser ambiente de comercialização, é também um momento para criar ou fortalecer parcerias e vínculos. Em algumas regiões, há feiras permanentes, em outras elas são pontuais e geralmente são organizadas pelos Fóruns de Economia Solidária. “Os fóruns que organizam as feiras definem seus próprios critérios para a participação. Não necessariamente um grupo precisa participar do fórum para frequentá-las. Por exemplo, o Fórum Gaúcho é parceiro para mobilizar e articular as feiras, mas não as organiza. Inclusive, para a Feira Estadual, existe uma comissão organizadora que não é necessariamente formada por integrantes do fórum”, explica Sueli Angelita da Silva.

Finanças solidárias Outra estratégia da economia solidária são as finanças solidárias. Essa vertente da Ecosol visa o desenvolvimento local das comunidades a partir da adoção de moedas sociais, complementares ou locais, que servem para auxiliar as relações comerciais locais. Seu uso fica restrito à comunidade onde foi criada, e sua circulação visa o desenvolvimento e fortalecimento dos comércios, trabalhadores e consumidores próprios da região. A moeda social circula a partir das relações de confiança entre a comunidade, associações, pequenos comércios, como padaria, sapateiro, lutier do bairro (aquele que conserta instrumento musical), entre outros, organizadas, por exemplo, pelos Bancos Comunitários. Isso se dá pela consciência coletiva desses atores que percebem a necessidade de fortalecer a comunidade. Alguns exemplos da moeda social e suas ações são: o Banco Palmas, no Conjunto Palmeiras (CE), que neste ano completou 15 anos de práticas ininterruptas com a moeda social Palmas; a moeda Capivari feita na cidade de Silva Jardim (RJ) pelo Banco Comunitário Capivari. Bancos como esses mostram serem possíveis as mudanças no nosso sistema econômico convencional, como empréstimos de juros que chegam a 1% ao mês. Os fatores financeiros acabam sendo um meio de estímulo a outros muito mais

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essenciais como o lazer, cultura, esporte, saúde, educação, comunicação e política. “O banco comunitário pode promover a cultura e o incentivo à mobilização social, como mutirões para melhoria do bairro, realização de feiras e encontros para aumentar a proximidade na comunidade, e incutir em nossa sociedade uma cultura consciente do consumo sustentável e solidário”, diz Guilherme Barbosa dos Santos, de 18 anos, que escreveu uma monografia para o curso técnico sobre o tema. Existem ainda outras propostas, como a “moeda cultural”, criada especificamente para o incentivo à cultura e produção artística locais. Ela é utilizada especificamente para a realização de troca de serviços culturais. Em 2012, foi criado por jovens do Capão Redondo, bairro da zona sul de São Paulo, o Banco União Sampaio, uma iniciativa da Agência Popular Solano Trindade, que instituiu a moeda cultural Solano. O Solano é uma moeda que visa facilitar a troca de produtos e serviços. Por exemplo, um produtor precisa de um iluminador para uma peça, ele pode buscar na plataforma da agência alguém que ofereça esse serviço. O iluminador recebe em Solanos e pode usar a moeda para contratar outro serviço que queira como a construção de um site, por exemplo. Mas, para isso, é preciso fazer um cadastro no site da agência e os interessados cadastrados fazem trocas de produtos e serviços culturais. Divulgação

Feiras de Economia Solidária

Moeda social do Banco Palmares, do Ceará, é uma prática de economia solidária considerada bem sucedida


Políticas Públicas Criada em 2003 pelo então Presidente Lula, a Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes) segue há quase 12 anos na coordenação do Secretário Paul Singer. Vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, hoje a Senaes tem diversas ações focadas no fomento a bancos comunitários, formação de redes, construção de metodologias baseadas na educação popular, através do CFES, ou mesmo incentivo a segmentos como catadores, economia feminista, agricultura familiar etc. Nossa reportagem foi até lá conferir como caminha a perspectiva das Políticas Públicas em Economia Solidária (PPES) voltadas ao segmento da juventude, e conversamos com o coordenador geral, Ary

Moraes Pereira, atualmente o responsável por essa pauta dentro da Secretaria. Para Ary Moraes, trabalho decente e economia solidária são sinônimos, uma vez que a Ecosol visa o trabalho emancipado de homens e mulheres. “Para a juventude, que hoje convive com falta de horizonte e crescimento profissional limitado, a auto-organização em empreendimentos de economia solidária é estratégica e fundamental, a partir dos seus territórios, sua moradia, atividades culturais e lazer”, diz Ary. O coordenador afirma ainda que as práticas de economia solidária demonstram a busca por um

Pessoas

Moeda paralela Bancos Comunitários

Pessoas (pagam mais barato, empregos)

Comerciantes

Reais

Trocam Moeda paralela Produtores

Comerciantes (lucram mais, confiança de pagamentos) Produtores (lucram mais, confiança de pagamentos)

Moeda paralela Crescimento Fonte: Guilherme Barbosa dos Santos

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3º Encontro Latino-americano e Caribe das Mulheres de Economia Solidária Nos dias 12 e 13 de setembro aconteceu, em Porto Alegre (RS), o 3º Encontro Latino-americano e Caribe das Mulheres de Economia Solidária. Evento realizado pela Secretaria da Economia Solidária e Apoio à Micro e Pequena Empresa do Rio Grande do Sul (Sesampe) com o apoio do Fórum Gaúcho de Economia Solidária, Fundação Luterana de Diaconia (FLD) e outros parceiros. Segundo a Sesampe, participaram dessa atividade mais de 600 mulheres, procedentes de 42 municípios gaúchos, representantes do Estado de Pernambuco, de Cuba, Uruguai e Argentina, e fizeram parte dos debates temas como cooperativismo, cadeias solidárias, violência e inclusão econômica e social da mulher. Ao encerramento do encontro foi redigido um documento contendo as conclusões do 3º encontro das mulheres da economia solidária e ainda uma pauta de demandas do segmento.

Gostou? Quer conhecer mais sobre Economia Solidária? Fique atento ao site da Agência Jovem de Notícias (www. agenciajovem.org) e acompanhe os conteúdos da Coluna Economia Solidária em Movimento, lançada recentemente.

tá na mão Conheça o Eco Papel: ecopapel.weebly.com. Entenda como organizar Feiras de Economia Solidária: http://migre.me/gAYFS

Confira os links sugeridos pelos QR Codes! *Virajovens presentes em 20 Estados do País e no Distrito Federal

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Das escolas às ruas o Brasil pelo Adolescentes e jovens ocupam espaços públicos em todo direito à comunicação. Dia C foi celebrado em 25 cidades do País

Evelyn Araripe, Igor Franceschi e Reynaldo Gosmão, da Renajoc

de Notícias realizaram uma roda de conversa sobre o Marco Civil da Internet, iniciativa popular que propõe uma legislação que garanta direitos básicos dos brasileiros ao usar a internet, como privacidade e acesso a qualquer site, independente do valor pago. Já em Belém (PA), os integrantes da Renajoc, junto com o Instituto Universidade Popular (Unipop) e o Núcleo de Produção Vamo Que Vamo Educomunicação realizaram o Juventude Soltando a Voz, um processo de formação de dez adolescentes e jovens que, na sequência, realizaram uma oficina sobre Democratização da Comunicação em uma escola pública na periferia da capital paraense. Do encontro, surgiu a ideia de criar um jornal produzido pela própria comunidade para garantir que notícias sobre os acontecimentos dos seus territórios sejam disseminadas. Fotos: Renajoc

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mídia está presente diariamente em nossas vidas. Na televisão, que a gente assiste para se informar ou se entreter; no rádio, que escutamos parados no trânsito; nos jornais e revistas aos montes nas bancas de jornais; e até mesmo nas propagandas, que estampam os outodoors, pontos de ônibus, vitrines de lojas etc. E com tudo isso, a mídia acaba influenciando na educação, na saúde, na cultura, na própria comunicação entre as pessoas e nas políticas públicas. Então, se a mídia tem todo esse poder, será que ela não deveria ser feita por, para e com a sociedade em geral? Hoje, a mídia brasileira é dominada por algumas famílias que controlam as TVs, rádios, jornais, revistas, portais na internet e são eles que definem quase tudo o que a gente vai consumir de comunicação. E com isso, esses conglomerados midiáticos passam a ter enorme influência política, exercendo poder e pressão sobre os nossos governantes. Por tudo isso, a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadoras e Comunicadores (Renajoc) criou o Dia da Juventude Comunicativa (Dia C). Celebrado em 17 de outubro, esse é o momento em que adolescentes e jovens em todo o Brasil realizam oficinas e intervenções que tragam a reflexão sobre a importância da participação da sociedade na produção da informação, o que chamamos de democratização da comunicação, e a liberdade de expressão. O dia 17 de outubro foi escolhida em função da Semana Nacional da Democratização da Comunicação, realizado, anualmente, entre 13 e 20 de outubro. Em São Paulo, os adolescentes e jovens da Agência Jovem

Em Recife, a galera foi às ruas coletar assinaturas para o Projeto de Lei da Mídia Democrática

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No Nordeste, o Dia C foi das escolas às ruas. Em Fortaleza (CE), os jovens da ONG Catavento e do Coletivo de Comunicação Popular e Alternativa – Conectad@s realizaram uma oficina de áudio e vídeo sobre Direito Humano à Comunicação para os adolescentes de uma escola pública. Já em Natal (RN), a celebração foi em ritmo de festa e alegria com o 1º Festival Cultural da Juventude Comunicadora, da Escola Estadual Prof. José Fernandes Machado. O Festival foi organizado pelo Projeto de Extensão Vir-a-Vila: Grupo de Comunicadores Adolescentes e Jovens da Vila de Ponta Negra e contou com mostra de curtas, fotografias, música e dança circular, além de intervenções com os estudantes para eles expressarem suas opiniões sobre comunicação, direitos, perspectivas e o que pensam sobre a realidade em que vivem. “A diretora do Machadão, a professora Lilian Santos, aprovou o evento e a ação, incentivando a sua continuidade. A expectativa é que o Festival se torne uma atividade permanente da escola, ressignificando o espaço como também um centro de cultura e expressão de ideias, opiniões e identidades”, relata Alessandro Muniz, virajovem, integrante da Renajoc e organizador da ação em Natal. Ainda no Nordeste, os adolescentes da Auçuba e do Levante Popular, em Recife (PE), produziram faixas e foram às ruas da capital pernambucana colher assinaturas para o projeto de lei de iniciativa popular da Mídia Democrática. “Com o nosso Batuque e cantigas que falavam da democratização da comunicação, as pessoas paravam para prestar atenção na letra e entendiam a mensagem que queríamos passar”, comemora o adolescente Luiz Felipe Bessa, que participou da ação. No total, o Dia C aconteceu em 25 cidades nas cinco regiões do Brasil. Além de capitais, este ano, a data foi comemorada em cidades do interior, como Sud Menucci e Boituva, em São Paulo; Lavras, Mata Verde e Lima Duarte, em Minas Gerais e em comunidades indígenas de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Na capital baiana, adolescentes e jovens fizeram roda de conversa sobre democratização da comunicação

Em Natal, uma escola pública foi palco de um festival cultural

Em Sud Menucci, interior de São Paulo, alunos, professores e funcionários participaram de oficinas

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imagens que viram

lixo na cidade!

Texto: Diego Teófilo, do Virajovem Belém (PA)* Fotos: Débora Ribeiro, Anderson Jorge e Fabio Wallyson e Karla Gouvêa, do Virajovem Belém (PA)

É

recorrente andarmos pelas ruas de nossas cidades e nos depararmos com acúmulos de lixos em pontos de grande circulação. Muitos são os fatores que colaboram para tal situação, entre eles a falta de uma politica de educação ambiental e o descaso dos órgãos competentes. Jovens integrantes do Programa Juventude, Participação e Autonomia, da Unipop, refletindo sobre a possibilidade de sensibilizar a população e chamar a atenção para os problemas que jogar lixo nas ruas pode causar e cobrar do poder público uma atuação frequente na coleta dos materiais que ficam nas ruas, registraram imagens do cotidiano vivenciado pela população da Região Metropolitana de Belém e que, muitas vezes, é ignorado pelo Poder Público. O resultado dos registros deu origem à exposição itinerante Foto Ambiental, que circula pela cidade para que outras pessoas possam refletir sobre seus espaços públicos.

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*Virajovens presentes em 20 Estados do País e no Distrito Federal

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O drama da automutilação lação relaciona-se Prática crescente entre adolescentes e jovens, a automuti à baixa estima e necessita de tratamento psicológico

Débora Delgado, do Virajovem Lima Duarte (MG)* | Ilustração: Sandro Reis, do Virajovem Lima Duarte

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utomutilação (AM) ou Autolesão (AL) é o nome dado a lesões provocadas por uma pessoa ao seu próprio corpo, sem intenção de suicídio, geralmente numa tentativa de aliviar emoções insuportáveis. A AM é associada à doença mental, a uma história de traumas e abusos, transtornos alimentares, depressão, baixa autoestima e até com o uso de drogas. Segundo a responsável pelo Ambulatório de Automutilação na Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria

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do Hospital das Clínicas de São Paulo, a psiquiatra Jackeline Giusti, em países desenvolvidos como Estados Unidos e Japão, essa prática ocorre em cerca de 20% da população de adolescentes e jovens. No Brasil não há estatísticas a respeito, mas ela acredita que os números sejam semelhantes. Para a psicanalista Maria de Lourdes Mattos, essa prática aumentou muito nos últimos anos, como um sintoma do mundo contemporâneo. Segundo o relatório Saúde Mental pelo Prisma da Saúde Pública, elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (http://migre. me/gAXqe), “a natureza da),


“a natureza da urbanização moderna pode ter consequências deletérias para a saúde mental, devido à influência de maiores fatores de stress e de acontecimentos vitais adversos mais numerosos, como o congestionamento e a poluição do meio ambiente, a pobreza e a dependência numa economia baseada no dinheiro, com altos níveis de violência ou o reduzido apoio social” (p. 15). “Essa prática não tem nada a ver com estética, com piercing, tatuagem ou cutting”, explica Jackeline. Quem sofre de AM pode fazer cortes, queimaduras, arranhões, bater a cabeça, ou qualquer outra forma de ferimento. Eles costumam esconder que fazem isso usando, por exemplo, blusas de frio, toucas, luvas ou cachecóis mesmo em dias quentes, e muitos passam a se isolar, com o tempo. Há quem acredite que essa é uma forma de chamar atenção, seja o que for, é um sinal de problemas emocionais sérios. Com os ferimentos, a dor psicológica pode ser esquecida momentaneamente, mas não desaparece e o indivíduo vai se machucar mais e mais vezes. No meu blog (agarotaeotempo.blogspot.com) fiz uma postagem sobre isso há quase um ano e meio, e até hoje, a postagem recebe muitos comentários. Eles são anônimos e expressam o quanto a pessoa que faz isso sofre, e parecem ter começado lentamente, por conta de uma frustração e depois essa atitude se torna incontrolável. Em geral, nossa sociedade não nos prepara emocionalmente para enfrentar grandes problemas na vida, nem a escola, nem a família. “A pessoa precisa de ajuda de um especialista para aprender a lidar de outra maneira com suas dores mentais, algumas delas, próprias da adolescência”, explica Jackeline. O apoio e presença da família e dos amigos são imprescindíveis, mas apenas pedir para a pessoa parar não adianta, muito menos zombar dela. Uma opção é tentar ensinar a pessoa a se expressar de outras formas como escrever, desenhar, fazer teatro ou alguma atividade esportiva. Ter um diário também pode ser bom, pois ela poderá escrever sobre o que sente e ter um pouco de alívio. Mas nenhuma dessas opções substitui a ajuda de um especialista. Para Maria de Lourdes, “os avanços da ciência, da tecnologia, que trazem muitas coisas positivas,

também passam a ideia de que tudo é possível. É como se vivêssemos num mundo ‘sem leis’, no sentido simbólico do termo. A presença do ‘não’, do limite, é muito importante para a vida. Quando não temos isso, fica muito difícil lidar com as frustrações, com as impossibilidades”, explica ela. “Automutilar-se pode ser uma saída danosa para as crises da angústia. Dependendo do tipo de prática, como, por exemplo, se cortar, pode muitas vezes levar à morte”, completa. A cantora norte-americana Demi Lovato é uma que sofreu bullying na infância e adolescência e apresentou esse diagnóstico, e resolvendo se internar em uma clínica, por conta própria. No Facebook existem páginas sobre o assunto, nas quais as pessoas tentam se ajudar, como a Diga Não à AutoMutilação. Hoje, artistas contemporâneos também fazem bioarte ou bodyart, utilizando-se do corpo e elementos vivos. O artista brasileiro Eduardo Kac é um deles, e teve uma de suas exposições vetadas porque corria risco de vida. Esse tipo de arte desperta fascinação e horror, mas quando a motivação é uma angústia, é preciso ter cuidado e buscar ajuda.

*Virajovens presentes em 20 Estados do País e no Distrito Federal

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no escurinho

Quase famosos

Sérgio Rizzo*

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universo das celebridades, visto de uma perspectiva bem particular, é uma constante na obra da diretora e roteirista Sofia Coppola (filha de Francis Coppola, de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now). The Bling Ring – A Gangue de Hollywood, já disponível em DVD no Brasil, tem com seus longas anteriores – As Virgens Suicidas (1999), Encontros e Desencontros (2003), Maria Antonieta (2006) e Um Lugar Qualquer (2010) – um parentesco gritante: todos examinam os efeitos (principalmente os distúrbios) da fama, perseguida de forma voluntária ou não. Desta vez, Sofia interessou-se pela reportagem Os suspeitos usavam Louboutin, de Nancy Jo Sales, publicada em 2010 em uma edição da revista Vanity Fair, dedicada a Hollywood. Sales reconstituía a ação de um grupo de jovens que, em 2008 e 2009, invadiram casas de celebridades (algumas delas, por mais de uma vez) e levaram roupas, jóias e diversos outros objetos pessoais. Os criminosos não agiam como ladrões convencionais. Escolhiam suas vítimas porque as admiravam (pelo “estilo de vida”), e as acompanhavam pela mídia e por redes sociais da internet. Queriam ser (e se vestir) como elas. Queriam ser famosos. O filme tem início com uma das invasões e, em flashback, explica a constituição da Bling Ring (como a imprensa apelidou a quadrilha) e a escalada de suas ações. É descritivo na reconstituição do cotidiano do grupo (escola, compras, roubos, festas) e sugere que os personagens estavam em uma “bad trip” (consumo de álcool e drogas incluído) da qual só acordaram com a polícia batendo à porta. Ao explorar esse universo, faz um diagnóstico perturbador da cultura do narcisismo no século 21 e do papel exercido, na difusão de modelos de comportamento, pela imprensa que cobre celebridades, pelas redes sociais e, claro, pelos próprios ricos e famosos na exposição pública de seus hábitos.

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que figura!

Visionário das câmeras e ideias

Glauber Rocha destacou-se por sua contribuição para o cinema nacional, por seu senso crítico e engajamento em tempos obscuros da história do Brasil Mariana Rosário, colaboradora da Vira em São Paulo (SP) de subversão. Mesmo assim, foi premiado em diversas categorias, no Brasil e no mundo. Glauber morre aos 47 anos por complicações pulmonares. Deixou o legado de 17 filmes dirigidos e 11 escritos. Foi destaque não só atrás das câmeras, mas também nos escritos sobre a sétima arte, e pelo contato com grandes mestres da Nouvelle Vague e da crítica cinematográfica francesa. Tornou-se símbolo do cinema nacional. O cineasta político, escritor e jornalista marcou para sempre o cinema e a arte brasileira, sendo lembrado como um grande diretor e figura de resistência política.

Novaes

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aiano de Vitória da Conquista, Glauber Rocha optou por estudar Direito, mas logo no início de sua graduação realizou Pátio (1959), seu primeiro filme. Abandonou os bancos da faculdade pouco depois para trabalhar como jornalista e crítico de cinema em grandes jornais da Bahia. Há indícios de que ele tenha se familiarizado com o cinema desde muito cedo. Teria, inclusive, participado de um programa sobre crítica de cinema com apenas 13 anos. Não tardou muito para que, acostumado com os curtas-metragens, experimentasse dirigir um filme com mais de 70 minutos. Barravento veio em 1961 e foi premiado internacionalmente. Ainda neste ano, a produção nacional receberia uma das maiores marcas de sua história. Surgia o Cinema Novo, que buscava envolvimento político e social, com grande liberdade de técnica e direção. Um dos grandes momentos deste movimento e do cinema brasileiro foi a indicação à Palma de Ouro por Deus e o Diabo na Terra do Sol, dirigido e lançado por Glauber Rocha em 1964, que estreou em diversas partes do mundo e deu visibilidade ao cineasta internacionalmente. Glauber dá sua contribuição não apenas com esse clássico, mas também com seus textos e ensaios que analisavam a sétima arte e sua produção. Por parte dele, sempre houve uma preocupação política em relação ao cinema. Mas, política, nessa época, tornou-se um assunto delicado, já que em 1964 instaurou-se, por meio de um golpe, o governo militar no Brasil. O cineasta chegou a ser preso em um protesto contra o regime, porém como Glauber era uma personalidade conhecida dentro e fora do País, sua prisão repercutiu entre grandes cineastas e cinéfilos, que se mostraram contrários e incomodados com o fato. Entretanto, como se não bastasse a sua prisão, Terra Em Transe, seu filme seguinte, foi censurado por acusações

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sexo e saúde

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endometriose é uma doença não tão fácil de diagnosticar e que pode afetar diretamente a fertilidade feminina. Seus sintomas clássicos, como cólica e dor durante a relação sexual interferem na qualidade de vida das mulheres. Pesquisas recentes apontam que 55% das brasileiras desconhecem a doença, de 10 a 15% das mulheres em idade fértil têm endometriose e demoram sete anos, aproximadamente, para apresentarem os primeiros sintomas. Sobre esse tema, conversamos com a enfermeira Uberlândia Dantas, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFPB e especialista em Saúde Coletiva. Confira!

Evelin Haslinger, do Virajovem Porto Alegre (RS); José Carlos e Joelma Oliveira, do Virajovem João Pessoa (PB)*

Natália Forcat

O que é a endometriose? Endometriose é uma doença caracterizada pela presença de endométrio fora do útero. O endométrio é a camada que reveste internamente a cavidade uterina e é renovado mensalmente por meio da descamação durante o fluxo menstrual. Em algumas situações, esse tecido, ao invés de ser eliminado, volta pelas trompas, alcança a cavidade pélvica e abdominal, gerando a endometriose. Como é feito o diagnóstico? Mulheres jovens, com queixa de cólicas menstruais progressivas, em alguns casos dor na relação sexual, provavelmente têm endometriose. E, portanto, já estamos aptos a iniciarmos o tratamento. Cólicas que não melhoram com as medicações antiespasmódicas, antiinflamatórias ou com pílula anticoncepcional, não são normais. O ideal é procurar o seu médico. É possível prevenir? Exercícios físicos, alimentação balanceada, redução do nível de estresse e pílulas anticoncepcionais podem ajudar a evitar esse mal. Caso sinta algum dos sintomas - cólicas fortes, dor durante a relação sexual, alterações urinárias e intestinais no período de menstruação e, em vários casos, dificuldade para engravidar, não hesite em buscar ajuda médica. Quais riscos a endometriose pode trazer à mulher se não for tratada? Algumas das complicações da endometriose são: infertilidade, aumento do risco de aborto, comprometimento dos órgãos afetados pelo tecido endometrial e remoção de órgãos da cavidade pélvica por estarem afetados pela doença.

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*Virajovens presentes em 20 Estados do País e no Distrito Federal

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Revista Viração • Ano 11 • Edição 101


Com fubá se faz pastel

um dos Conheça uma receita de pastel feito com principais ingredientes da culinária mineira Maria de Fátima Ribeiro, do Virajovem Lavras (MG)*

D

os sabores mineiros, lembramos de várias receitas, muitas das quais marcaram a infância e passaram de avó para mãe, netas e netos como o pão de queijo, por exemplo. Uma delas, que tem história, é o Pastel de Angu ou Pastel de Fubá, ingrediente mais que presente na mesa das gerais. Relata a história que, em 1850, as escravas Philó e Maria Conga foram as primeiras a usarem a sobra do angu que, à época, era a principal refeição dos escravos. A criatividade das negras na cozinha era enorme e, na falta de carne, faziam um guisado com umbigo de banana. Mas, algumas vezes, elas pegavam pedaços de carne e colocavam dentro da massa do angu para comerem. O hoje conhecido pastel de angu é muito apreciado em Minas Gerais e além de suas fronteiras. Sua receita é difundida por gerações. Confira!

Ingredientes

polvilho e ovo. Sove a massa ainda quente, até ficar consistente. Enrole-a em um pano de prato úmido e depois comece a fazer os pasteis. Coloque na mão um pouco de massa de angu e com o polegar vá abrindo o centro da massa, formando o local para receber o recheio de sua preferência. Unte os dedos com óleo e feche o pastel, passe óleo na borda e com o polegar vá virando as beiradas para não abrir durante a fritura. Frite em óleo bem quente e não mexa na massa até que comece a dourar! E para não se queimar, use saquinhos de plástico nas mãos! Bom apetite!

Em uma panela, coloque a água para ferver com o sal e o óleo. Quando estiver fervendo, acrescente o bicarbonato. Depois, vá acrescentando o fubá e mexendo rapidamente com uma colher de pau para não embolar. Deixe cozinhar um pouco. Depois, tire do fogo e coloque a massa sobre a mesa e acrescente a ela

flickr: various brenneman

Modo de preparo

s

1 litro de água; ½ kg de fubá de milho moído em moinho d’água (peneirado); 2 colheres de sopa de óleo; 1 colher de chá de sal; 1 ovo; 1 pitada de bicarbonato; ½ copo (americano) de polvilho azedo (peneirado); Recheio a gosto (carne moída, frango, queijo, bacalhau e umbigo de banana).

*Uma das virajovens presentes em 20 Estados do País e no Distrito Federal


parada social

Mutirão permanente

Museu de arte de rua existe há dois anos em Salvador, expondo e vendendo obras feitas pela comunidade Emilae Sena, do Virajovem Salvador (BA)*

U

m grupo de jovens movido pela arte encantou-se ao descobrir a comunidade Solar do Unhão, em Salvador, identificando a oportunidade de mais um mutirão artístico. Esse grupo, chamado Nova10Ordem (nova desordem) é formado por grafiteiros e artistas plásticos, que trabalham com cenografia, arte circense e outros tipos de intervenção, desde 1997. No entanto, o grupo percebeu na comunidade o potencial para firmar um trabalho ainda mais sólido e duradouro. “Na prática, sentimos que fazer um mutirão em uma comunidade não era o suficiente, sendo necessário um trabalho mais efetivo para melhor desenvolver os pontos positivos e especificidade de cada comunidade”, afirma Julio Costa, integrante do grupo. O resultado desse mutirão permanente veio em janeiro de 2011, com a inauguração do Museu de Street Arte Salvador (Musas) na Comunidade do Solar do Unhão, tendo como primeira iniciativa dar

uma nova cara e cor ao local. Os moradores do lugar abraçaram o grupo e a ideia, colocando a mão na massa e nos pincéis, colorindo os arcos e paredões do museu e também suas casas. Muitas atividades artísticas, de iniciativa do Musas, acontecem na Comunidade do Solar do Unhão, como oficina de fotografia, grafite, serigrafia, plantio, pintura, cine clube, escultura. E todas as peças de arte produzidas são encontradas no museu e podem ser adquiridas por qualquer pessoa. Hoje, o projeto desenvolvido pelo Musas precisa atingir outras comunidades, transmitindo a ideia de democratização e união de pessoas por meio da arte. O mais importante para o grupo é ver que as crianças da comunidade vivenciam a arte no cotidiano e, por meio dela, despertam o senso de cidadania, respeito e mobilização.

*Uma das virajovens presentes em 20 Estados do País e no Distrito Federal


Revista Viração - Edição 101 - Novembro/2013  

Outro lado da moeda

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