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Felinos Diabรณlicos APOCALYPTICA L I V E [ L E I P Z I G ] C ORVOS L I VE

M O NKEY 3 L I V E

REUNIDOS! OVER KILL

BLA ME ZE US

NAI L ED TO OB SCURITY

S T E V E H A CKET T

Foto: Franz Schepers

SABAT ON + AC C EP T L I V E


EDITORIAL

V E R S U S M A G A Z IN E

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Haja dinheiro... “ Nã o há fo me que dê em far t ura. . .”. Es t a s úl t i ma s s e mana s fo mo s “ bombardeados” com a l guma s s urpre s a s re lativame nte a concertos aqui por te rra s Lus i t a n a s . O p i n á cu lo será a passagem dos Met allica pe l o Me o Are n a , tra z id o s p e la Pri me Ar t i st s mas t ambém , Gh os t , Se pul t ura , Hi m - já e sgotado - Slayer, Dream Th e ate r e Ma s todon .

Adriano Godinho, Eduardo Ramalhadeiro & Ernesto Martins

G R A F IS M O Eduardo Ramalhadeiro

COLABORADORES Adriano Godinho, Carlos Filipe, Cristina Sá, Dico, Eduardo Ramalhadeiro, Eduardo Rocha, Ernesto Martins, Frederico Figueiredo, Helder Mendes, Hugo Melo, Ivo Broncas, Miguel Ribeiro (Hintf), Nuno Kanina e Victor Alves

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Bo a s le itu ra s, Eduardo Ramalhadeiro

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HELLOWEEN

C O NTE Ú DO Nº43 Fevereiro/Março 2017

0 4 N O TÍC IA S

44 WULKA N A Z

112 FJOERGYN

0 6 G E OF F NICH O L LS

48 M IGUE L T IA G O

1 1 4 P L AY L IS T S

0 8 S T EV E H A C K E T T

52 NAILE D T O O B S C U R IT Y

1 1 6 PA L E T E S

1 2 B L AME ZE US

58 HOM E M D A M O T O S E R R A

1 3 0 V E R S U S L IV E !

1 6 G R ÊL OS DE H O RTELÃ

60 ÁLBUM V E R S U S

1 8 V I NC E NT F OU Q U ET

62 CRÍTIC A S V E R S U S

ABOVE CAOS

LUNAR SHADOW

Apocalyptica Monkey3 + Miss Lava + It Was the Elf Wolfheart + Eternal Storm Corvos

2 8 T R IA L B Y FIR E

70 PRYAP IS M E

1 3 8 A B O RY M

3 0 MOS H

92 OVERK IL L

1 4 2 A R S T ID IR L IF S IN S

3 2 A N TR O DE F OL IA

100 GAR A G E P O WE R 8 M M

1 4 4 A U C H A M P S D E S M ORTS

3 8 MDD RE CO R D S

108 BOO B Y T R A P

1 4 6 V E R S U S 4 4 - S IX F E E T UN DER

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NOTÍCIAS Exposição - Vincent Fouquet O artista gráfico em destaque nesta edição da Versus Magazine – Vincent Fouquet, da Above Chaos (França) – vai expor os seus trabalhos numa galeria de Brest, de 5 a 30 de Abril. Paralelamente, serão também exibidos trabalhos da fotógrafa Ælle Vesania Kiddo/Vesagnosia (autora da foto do artista que acompanha a sua entrevista). A exposição conjunta intitula-se Et la mort fuira loin d’eux (And death shall flee from them). Ver mais em https://www.facebook. com/events/388607784857447/

Darkadya3 Já está em pré-venda o terceiro volume de uma série de livros de arte consagrados a artistas gráficos ligados à cena Metal: Darkadya3. Neste volume, figuram vários artistas já entrevistados pela Versus: Costin Chioreanu (Twilight13Media), Gustavo Sazes, Valnoir (Metastazis) e Vincent Fouquet (Above Chaos). A coleção tem a particularidade de permitir ao comprador de votar no artista que deverá beneficiar da respetiva venda. Ver mais informação em: http://www.darkadya.com/product/darkadya-3pre-order

Um momento negro para os Negura Bunget Gabriel ‹Negru’ Mafa, baterista da banda romena Negura Bunget morreu, aos 42 anos, no dia 21 de março de 2017. Este falecimento é um grande golpe para a banda, dado Negru ter sido um dos seus fundadores e o principal responsável pelo seu percurso, após a sua cisão, em 2009, quando decidiu prosseguir as atividades de Negura Bunget com uma nova formação. Recordamos que esta banda, que já foi entrevistada pela Versus, se destaca na cena Metal europeia, pela grande qualidade da sua música, e, no seu país de origem, pelo trabalho em prol da divulgação da sua cultura.

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Threshold anunciam novo vocalista Os Threshold e Damian Wilson anunciaram a separação. Wilson esteve três temporadas com os Threshold, tendo gravado alguns dos álbuns mais recentes da: "For The Journey" e "March Of Progress", bem como seus lançamentos iniciais "Wounded Land" e "Extinct Instinct" nos anos 90. Entretanto, os Threshold já encontraram substituto que será Glynn Morgan, ex-vocalista da banda de 1994 a 1996. Morgan apareceu no álbum de 1994, "Psychedelicatessen", e voltou a trabalhar com a banda em 2008 para gravar algumas faixas para a Box Set Paradox

A Perefect Circle de regresso em 2017 A Perfect Circle - a superbanda formada por, Maynard James Keenan, Billy Howerdel, Matt McJunkins, Jeff Friedl e James Iha, ex-Smashing Pumpkins, assinaram um contracto mundial com a BMG. Howerdel referiu que estão ansiosos por voltar a gravar e em 2017 será o ano do regresso. Durante a próxima semana, A Perfect Circle embarcarão na sua primeira digressão Norte Americana desde 2011.

Riverside anunciam novo guitarrista Os Riverside anunciaram a inclusão de Maciek Meller para a próxima digressão Europeia Towards The Blue Horizon - que esperamos passar por Portugal. Apesar de continuarem como um trio, após a morte de Piotr Grudzinski, Meller fará parte desta digressão que começa com alguns concertos na Polónia, UK e depois no resto da Europa.

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GEOFF NICHOLLS (28/02/1948 - 28/01/2017) Não é um nome que se associe de imediato aos Black Sabbath, mas foi de facto um teclista indispensável na música dos reconhecidos pais do Heavy Metal, durante cerca de 25 anos. De nome completo Geoffrey James Nicholls, deu os primeiros passos como músico, inicialmente como guitarrista, em meados dos anos 60, em bandas pop da sua cidade natal (Birmingham, Inglaterra) como os World of Oz e os Johnny Neal & The Starliners. A sua efectiva realização pessoal só aconteceria, no entanto, em 1974, com a formação dos Quartz, banda da NWOBHM que chegaria a partilhar palcos com Iron Maiden, Saxon, UFO e Black Sabbath. Tony Iommi assinaria a produção do álbum de estreia do grupo, lançado em 1977. Dois anos depois Geoff Nicholls é convidado a integrar os Black Sabbath (na mesma altura em que Ronnie James Dio entra para o lugar de Ozzy Osbourne), inicialmente para o lugar de baixista e depois, com a reentrada de Geezer Butler, para a posição de teclista. O seu nome viria a surgir pela primeira vez na discografia dos Sabbath, no álbum «Heaven & Hell», publicado em 1980. Mas foi nos álbuns seguintes, já na fase de Tony Martin, que o papel de Nicholls, de suporte aos riffs de Iommi, se revelaria mais marcante. Instrumentais como “E5150”, “The gates of hell” e “The battle of Tyr” destacam ao seu estilo próprio de teclados e são alguns das peças que ficaram no ouvido. Mas dir-se-ia que o destaque dado a Nicholls ficou por aqui. Apesar de ter gravado todos os álbuns até «Forbidden» (1995), o músico nunca gozou por muito tempo seguido do estatuto de membro oficial dos Black Sabbath. Além disso, nos concertos ao vivo costumava tocar num canto do palco ou mesmo oculto no backstage. Embora esta prática não tenha sido exclusiva dos Sabbath - Don Airey, da banda Ozzy Osbourne, e Scott Warren, da banda de Dio, são outros exemplos de teclistas que tocavam longe da vista da audiência - não deixa de ser surpreendente que isso tenha acontecido com o músico com maior longevidade na banda a seguir aos quatro da formação original. A sua saída dos Black Sabbath, em 2004, quando foi substituído por Adam Wakeman (filho de Rick Wakeman) da formação a solo de Ozzy Osbourne, também nunca foi explicada oficialmente. Depois desta saída Nicholls tocou, até ao fim da sua vida, na banda do ex-Black Sabbath Tony Martin (Tony Martin’s Headless Cross) tendo participado também na reunião dos seus Quartz, em 2011, e na gravação do disco «Fear no Evil» (2016). Segundo o testemunho de Jamie Mallender, que tocou com ele na referida banda de Tony Martin, Geoff Nicholls era muito mais do que um mero teclista. Era um multi-instrumentista que tocava também guitarra e cantava e, acima de tudo, era um músico completo e respeitado. Ao mesmo tempo era um homem de grande coração que espalhava boa disposição onde quer que estivesse. Depois duma carreira fulgurante que percorreu quase cinco décadas, faleceu com 68 anos, vítima de cancro de pulmão, no passado dia 28 de janeiro. Ernesto Martins

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É um dos mais conceituados e respeitados músicos contemporâneos, dono de uma carreira ímpar e digníssimo guitarrista dos Genesis. Ao fim de vinte e cinco álbuns, Steve Hackett ainda nos consegue surpreender. Contemplem «The Night Siren». Entrevista: Eduardo Ramalhadeiro Transcrição e Tradução: Hugo Melo

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Virtuoso “Segui a única regra que sigo que é mandar fora tudo aquilo que não funciona. Se não funciona não o uso.”

Passados 25 álbuns continuas a editar trabalhos fantásticos. Achas que este é o teu trabalho mais ambicioso? Steve HAckett - Bem, creio que é ambicioso no sentido de estar organizado e penso que há uma concertação relativamente a questões sociais. É um álbum que conta uma história e é um alerta porque penso que a Inglaterra está num péssimo estado com a ideia do Brexit, e penso que os lideres mundiais estão a portarse de forma irresponsável. A ideia de uma oclocracia (mob rules) não foi aquilo para o qual eu votei e, portanto, estou bastante insatisfeito com todos os líderes. Estou profundamente envergonhado da forma como a Inglaterra está a agir neste momento. Em determinada altura éramos nós que liderávamos e agora parece que nos limitamos a seguir a multidão e não estou nada contente. Num sentido este álbum é uma alternativa, no sentido de haver pessoas de todo o mundo a colaborar nele. Nunca trabalhei com tantas pessoas de sítios diferentes. Depois temos países como Israel e a Palestina a colaborarem juntos, temos a Islândia, a Hungria, a Suécia, o

Reino Unido, a América, e gravei na Itália, na Sardenha, com músicos de lá. Adoro trabalhar neste mundo multicultural, numa forma exótica porque torna tudo mais fresco e surpreendente. Podemos trabalhar com estilos de toda a parte, instrumentos de toda a parte, pessoas de toda a parte. Com este álbum quis mostrar que é possível ter amigos em todo o mundo e devíamos ser capazes de trabalhar desta forma em todas as indústrias. Se musicalmente é possível trabalhar desta forma, é igualmente possível ao nível da manufacturação, etc. Temos de preservar a santidade da Europa porque as pessoas trabalharam arduamente para manter a unidade e isto trouxe-nos paz, prosperidade, e agora parece que as pessoas simplesmente querem deitar isso tudo fora. Temos 11 milhões de refugiados a viverem em tendas, nas fronteiras e todos eles precisam de uma casa. É uma forma de impor violência aos mais fracos. Temos de abrir os nossos corações e dizer que estas pessoas são da família. A minha própria família, nos finais de 1800, portanto há poucas gerações, fugiram da Polónia por risco das suas vidas devido aos problemas

que havia na altura. Conseguiram fugir e chegaram a Portugal onde mudaram o nome de “Caldesky” para “da Costa” que conheces bem, e conseguiram depois chegar até Inglaterra. Se não tivessem aceitado essas pessoas, eu hoje não estaria aqui, eu sou um produto disso e tenho orgulho em dizer que venho de uma família de refugiados. Pessoalmente acredito que este álbum será considerado um dos álbuns de 2017. Preferes ser recordado como um músico progressista ou como guitarrista dos Genesis? Steve - Não me importo da forma como as pessoas vão se recordar de mim. O que posso dizer é que faço barulho como forma de vida em diferentes estilos de música, onde normalmente é progressiva, mas noutras vezes atípicas de um guitarrista desse género. Em tempos afirmaste que na música progressiva não existem regras a seguir. Seguiste este mote à letra ao compores este «The Night Siren»? Steve - Sim, penso que sim. Segui a única regra que sigo que é mandar fora tudo aquilo que não funciona.

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Se não funciona não o uso. Apenas uso as melhores ideias que tenho e muitas delas ficam pelo caminho. Tens de conseguir diferenciar as que ideias que funcionam daquelas que não funcionam. É importante ser capaz de perceber que determinada ideia não funciona e deixá-la cair. Passei um óptimo tempo a compor este álbum e a trabalhar com tantas pessoas. Qual é o conceito por detrás das letras? Existe alguma ideia subjacente à criação deste álbum? Steve - Penso que duas faixas em particular relacionam-se uma com a outra. Temos a «Behind The Smoke» que tem como tema os refugiados e a «West to East» que tem como ideia umas Nações Unidas, não apenas de música, mas na amizade e na compaixão. Sendo o Este o médio oriente, e os problemas económicos que se relacionam com a integração, e a proibição da entrada dos muçulmanos no Oeste. O óptimo é que estas culturas são ricas em ideias, em música, em culinária. É a diferença entre o céu e o inferno. No inferno as pessoas estão sentadas numa mesa cheia de comida, mas têm umas colheres tão grandes que não as conseguem usar, a cena no céu é igual, mas conseguem alimentar-se com estas colheres grandes. Consideras este um álbum político? Steve - Num sentido sim, mas a ima de tudo tentei fazer um álbum de entretenimento e há algumas faixas que são políticas, mas não tão políticas como o trabalho de John Lennon ou muitas pessoas que fizeram música mainstream. Os Beatles seguiram um caminho de alerta social e procuram passar uma mensagem de paz, amor e amizade. A amizade é muitíssimo importante. Musicalmente existem muitas pessoas envolvidas, que não dá para estar aqui a enunciar, mas entre elas estão a tua esposa e o teu irmão. Quem canta melhor, tu

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ou a tua esposa? Steve - Acho que ela canta muito bem, bem como a irmã dela, ambas cantam muito bem. A minha esposa ajuda-me inclusive nas letras. Qual foi a dificuldade em conseguir que tantas pessoas de qualidade tocassem no álbum? Steve - Não é difícil trabalhar com amigos, pelo contrário, é bastante fácil. Às vezes trabalhámos frente a frente outras vezes através da partilha de ficheiros. Recolho dados de todos os lados. Foi essa a razão pela qual o álbum levou um ano a sair? Steve - Houve outras coisas pelo meio como concertos, não só eléctricos, mas também acústicos. Envolvo-me em muita coisa e não gravo todos os dias, mas gostei muito do produto final. Foi a primeira vez que tiveste tantas pessoas de diferentes localidades a colaborar contigo? Steve - Já colaborei com pessoas de outros locais, mas normalmente trabalho presencialmente com elas. Por exemplo, trabalhei com um israelita e com um palestiniano ao mesmo tempo, sendo que o israelita vive numa cidade palestiniana, árabe e é um grande amigo do palestiniano. Trabalham com a mesma banda e têm muita sensibilidade, muito heavy metal, e cantam num estilo onde usam barítonos e música árabe e mandolins. É um estilo muito médio oriente, mas tudo muito natural. Quando compões, pensas na música em conjunto com os convidados, ou já existe uma base e eles posteriormente dão o seu toque à música? Steve - Na realidade é uma mistura. Em alguns casos componho em torno do trabalho de cada pessoa. Por exemplo o trabalho de trompete na «Fifty Miles From the North Pole», onde tens o som de trompete com didgeridoo a tocar ao mesmo tempo e obténs um som orquestral. É um dos

melhores momentos e trabalhei frente a frente com eles. O mesmo se passou com o Malik Mansurov quando tocava o tar (instrumento tocado na zona do Cáucaso), onde simplesmente encostei-me e deixei-o tocar. Foi brilhante. Fiquei com as gravações e posteriormente consegui integrar o som nas músicas. Muitas vezes abandono o tempo e o ritmo, e deixo as pessoas tocarem para lá da batida e fica muito bem. Permites que os teus convidados coloquem a sua personalidade e a sua cultura nas tuas músicas? Steve - Sim, absolutamente. Eu escrevo em torno da performance deles. Na minha opinião, e agora relativamente às influências, acho que as vozes e as harmonias estão muito boas, na onda de Pink Floyd e Gentle Giant, e depois há o tema “Behind the Smoke”, com uns laivos de “Kashmir” dos Led Zeppelin e um toque espanhol na «Anything Bur Love». Parece-me haver ainda influências de Blackmore's Night. Acima disto tudo ainda temos a tua veia clássica. A minha análise está correcta? Qual são as tuas influências ao nível do rock e da música clássica? Steve - Na música clássica originalmente fui influenciado por Johann Sebastian Bach e creio que foi a minha maior influência. Relativamente às influências que referiste, não houve nenhuma tentativa consciente de soar como eles, mas acho que é algo que acontece naturalmente. Há muitos anos, na música «Rise Again» do álbum «Darktown» (1999), estava a usar influências indígenas dos índios norte-americanos. Creio que na «Behind the Smoke» existirá um elo a Génesis. Usámos ritmos mais lentos, como os que usámos em 71. Creio que foi antes de Led Zeppelin usar isso, mas como te disse não me propus imitar ninguém. Não me propus a fazer nada específico como um som à Pink Floyd, no que diz respeito


às secções atmosféricas. Podiate fazer uma lista de influências ou podia dizer-te que com os Génesis começamos a fazer coisas que ninguém fazia, como juntar guitarras com cordas sem mais acompanhamento, já fazia tappings muito antes do pessoal do heavy metal. Ninguém é realmente original na música, mas creio que parte do trabalho é aumentar o dicionário e pegar em técnicas que fui percursor e levá-las a outro nível. Mas o importante é, no final do dia, escrever grandes músicas com boas partes instrumentais. É tudo o que sempre quis fazer.

Comentei porque entrevistei o Roine Stolt dos «The Flower King», um projecto com o Jon Anderson dos Yes, e nesse algum ele usou uma guitarra portuguesa, e gostava de convidar-te a enriquecer a tua impressionante colecção de instrumentos com a guitarra portuguesa. Steve - É uma boa ideia. Tem um som muito, muito doce e adoro o vibratio. Eu conheci os músicos que acompanharam a Amália Rodrigues no fado, e o trabalho de guitarra era simplesmente lindo. É um género muito atractivo. Tem muita alma.

Ultima questão. Sendo um músico que toca muitos instrumentos, e tem uma colecção enorme de instrumentos exóticos, convidava-te a conhecer a guitarra portuguesa. Steve - A guitarra portuguesa é muito bonita, lembro-me que o Steve Howe tinha uma e usou-a no «G.T.R.». Tem um som muito bonito, gosto muito.

Estás em digressão com os Genesis Revisited. Quem são os músicos que te acompanham e quais são as músicas que vão tocar? Steve - O que estou a fazer é um set de coisas novas. Celebro as minhas coisas novas e as antigas do período a solo. Depois há um intervalo e na segunda parte revisitamos os Genesis. Este ano

a maioria das musicas serão da «Wind & Wuthering», porque é o seu 40.º aniversário. Creio que foi um álbum excepcionalmente bom e vou tocar aquelas que penso serem as melhores músicas como a «Eleventh Earl of Mar», «One for the Vine», «Blood on the Rooftops», «...In That Quiet Earth», «Afterglow» e a «Inside and Out» que saiu num EP, mas foi gravada na mesma altura, mas não entrou no álbum, no entanto é uma música muito emocionante. Foi um prazer falar contigo e espero ver-te ao vivo. Steve - Igualmente, obrigado https://www.facebook.com/stevehackettofficial/ https://youtu.be/IkjNNClccOI

“Eu escrevo em torno da performance dos convidados.” 11 / VERSUS MAGAZINE


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IDENTIDADE (BEM) VINCADA Em 2013, «Identity» revelou-se uma estreia auspiciosa. Em 2017, mantendo a personalidade e identidade bem vincadas lançam «Theory of Perception». Os Portuenses mantiveram o nível e se mais dúvidas houvesse, são agora um dos grandes valores do Rock em Portugal. Entrevista: Eduardo Ramalhadeiro Olá Sandra! Antes de mais, parabéns pelo álbum e obrigado pela entrevista! Já ouvi o álbum e gostei imenso. Comparando com «Identity» houve uma mudança no estilo, atrevo-me a dizer que «Theory of Perception» está mais pesadão que o anterior. Porquê? Sandra - Olá, nós é que agradecemos à Versus Magazine pela oportunidade de promovermos o nosso novo trabalho e contarmos a nossa história! É engraçado que aches que «“Theory of Perception»» está mais pesado, a opinião geral é que a balança está mais para o lado do Rock, mas essa é a beleza da arte, cada um sente como quer e absorve a música como a experiencia, da sua forma exclusiva e única. Se o está, não houve qualquer intenção, nem para um lado, nem para o outro. Apenas quisemos fazer canções mais

directas, mais centradas na voz. Ainda assim, com estes objectivos em mente, deixamos fluir as composições sem as “calcularmos”. Que influências podemos encontrar em «Theory of Perception»? Sandra - Acho que Clutch e Alice in Chains foram as nossas maiores inspirações, tanto a nível estilístico como de som, depois na altura da mistura. Um som claro, cru, a perceber-se todas as partes, e acho que se conseguiu isso. Entre estes dois álbuns vocês tiveram mudanças no line-up. Em que medida é que os novos músicos contribuíram para a influência da nova identidade dos Blame Zeus? Sandra - Embora houvesse uma certa preocupação em soar a “Blame Zeus”, foi desde sempre um princípio nosso que os novos

“Acho que Clutch e Alice in Chains foram as nossas maiores inspirações [...]”

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membros tivessem grande cunho em todas as composições. Este álbum é de todos nós, em igual parte, uma reflexão do que conseguimos fazer em tão pouco tempo que estamos juntos. «Theory of Perception» baseia-se em algum conceito lírico? Sandra - «Theory of Perception» é a soma de situações difíceis que me inspiraram, a nível lírico, a perceber que tudo é subjectivo, e que cada um percepciona, encara e lida com o que se passa à sua volta à sua maneira. É essa reacção que irá definir-nos, como indivíduos. O tema da capa está em consonância com o conceito geral do álbum? O que representa? Sandra - Sim, totalmente. O próprio artwork, da autoria do Hélder Costa, inspira-se no teste de Rorschach, em que cada sujeito é exposto a vários borrões de tinta e de acordo com o seu “eu” mais profundo lhes atribui significado, que varia de sujeito para sujeito. Este é o vosso segundo álbum e se «Identity» demorou quatro anos a lançar desde que vocês se formaram, «Theory of Perception» demorou “só” oito meses para gravar. O que mudou na vossa forma de trabalhar? (Se é que alguma coisa mudou…) Sandra - «Identity» foi construído ao longo de 3 anos, de finais de 2010 a 2013, com guitarristas diferentes. Em 2013 estreamo-nos em palco, enquanto banda. Com tão boas críticas resolvemos dar


o passo em frente e gravar esses temas, de forma profissional e com o máximo de qualidade que nos fosse financeiramente possível. «Theory of Perception» já foi feito para ser gravado e editado, então o trabalho de composição já foi mais organizado e focado, e será tocado pela primeira vez ao vivo no seu lançamento. Como já disse, um álbum demorou quatro anos, o outro oito meses: quais foram as principais dificuldades que encontraram ao construir «Theory of Perception»? Terão sido as mesmas que «Identity»? Sandra - «Theory of Perception» foi incrivelmente fácil de fazer, não porque não seja igualmente complexo e cuidado, mas porque estávamos todos muito inspirados e motivados (e estamos – já temos muitas ideias concretas para o próximo disco!). «Identity» foi, como disse, um trabalho mais disperso, embora igualmente sentido e cuidado ao pormenor. Cada vez mais são as bandas que têm de trabalhar no aspecto promocional. É difícil para vocês gerirem isto? Sandra - Sem dúvida, hoje em dia uma banda, tenha ou não tenha editora, tem que se auto-promover. Usar as redes sociais, claro, e estar o mais próximo dos fãs possível. Uma base de fãs consistente é aquilo que garante a sobrevivência e relevância de uma banda, sem eles não somos nada. Não é difícil gerir porque ocorre naturalmente – faz parte. O único senão é que requer muito tempo. Perguntei-te na nossa entrevista anterior e pergunto agora: Vocês têm planos para se lançarem fora do país? Se já o fizeram como está a ser recebido «Theory of Perception»? Sandra - Sim, continuamos a tentar os canais à disposição, desde zines a rádios e festivais. Com «Theory of Perception» temos um plano mais concreto para nos apresentarmos lá fora, fisicamente. Em termos do

álbum em si, as reviews e opiniões que temos recebido têm sido todas bastante positivas, à semelhança do que se passa cá. O que é que achas que tem de mudar na mentalidade das pessoas ligadas à música para que os artistas nacionais possam singrar no estrangeiro? Isto será mais culpa de quem os edita/promove ou dos próprios artistas em si? Sandra - A divulgação de um artista ou banda exige muito tempo, dedicação, e disponibilidade, para além de outros factores (financeiros, etc.). É possível que haja artistas que não conseguem ou querem dar o passo da internacionalização, porque isso exigirá, sempre, disponibilidade para dar concertos, fazer tournées, etc. Do lado das editoras/ promotoras, para promoverem um artista/banda no estrangeiro têm, primeiro, que ‘ter um pé na porta’, ou seja, se não têm contactos nem influência lá fora será difícil divulgarem um artista nacional lá. Mas é verdade que não há uma estrutura montada que ajuda a divulgação de artistas/bandas nacionais no estrangeiro, pelo menos no nosso género de música. A apresentação deste novo álbum será feita com dois concertos, em Lisboa e Porto. Como é que isso está a ser preparado? Haverá bandas a abrir os espectáculos? Podes desvendar um pouco do que nos espera…? Sandra - Sim, estou a preparar tudo com muito pormenor para que não falhe nada. Assumime como manager da banda e através da minha

promotora Lazy Cat Productions & Management estou a organizar todas as datas de Blame Zeus, não só as apresentações como a tour que virá a seguir. Dia 4 de Março no Hard Club, sala 2, foi a data oficial de lançamento do álbum, e dia 18 de Março no Stairway Club, em Cascais. Os Nethergod e Projecto Sem Nome abriram no Porto e Sunya e Deserto abrirão em Lisboa. Da nossa parte, vamos apresentar quase integralmente o novo álbum, e relembrar alguns temas do primeiro. Teremos também a oportunidade de cumprimentar os fãs no final de cada concerto, com um Meet & Greet. Três perguntas rápidas (ou não): O que é que te deixa sem palavras? Sandra - De uma forma muito positiva, o apoio que sentimos por parte dos fãs, mesmo tendo estado quase um ano fora dos palcos. Quem gostarias de mandar para o Matadouro? Sandra - Os hipócritas. … se tivesses uma rosa para oferecer, a quem oferecias? Sandra - À minha Mãe.

https://www.facebook.com/BlameZeus/ https://youtu.be/KOtPw5wWots

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Grêlos de Hortelã Por: Victor Alves Ilustração: Ana Ramalhadeiro

Na tua ausência As minhas letras Falam de uma economia paralela ao sentimento de cada um. São alusivas à hipocrisia inflacionada onde o estatuto nada tem a ver com a realização própria. O homem vai à lua com a mesma facilidade com que a mulher corta o cabelo. Por isso, as minhas letras, falam de amor, revolta e esperança. Já reparaste como a sétima arte se tem perdido na tecnologia? Pois já não conseguimos ver os putos com as calças sujas pela terra, onde ele mijou um pouco antes para iniciar a brincadeira. O amor já não levanta impérios A revolta é controlada E a esperança morre na área complicada onde deveria acontecer a mudança. Todas as minhas letras falam da sabedoria dos sábios que não conseguimos decifrar. E por aqui perco-me na tua ausência. Camus no absurdo Nietzsche louco e radical Morrison no excesso ridículo. Os políticos vestem a pele de um demónio que há muito se apodera de nós. Deus, esse que a igreja arruína com os contra sensos que lhe atribui para uma existência incrédula. Só assim se exprimem os sábios! Na tua ausência continuo a exigir tudo de uma forma rápida como se de um direito natural se tratasse. Esquecendo que o nascimento faz de nós vítimas de algo que ninguém controla, e claro está, a morte aparta!

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Vincent Fouquet Above Chaos

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Ciência, ocultismo… e arte Três palavras-chave para a arte do inspirado autor da capa do último álbum de Inquisition. Entrevista: ZBC

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Para começar, gostaria que nos falasses um pouco do teu início de carreira e da forma como criaste Above Chaos. Vincent Fouquet – Criei o estúdio Above Chaos pouco a pouco. Dei início às atividades quando ainda estava a estudar, a nível local, depois dediquei-me a ele de forma mais séria e ocorreu a internacionalização, até que se tornou na minha atividade principal, depois de um problema profissional. Tinhas outra profissão? Vincent Fouquet – Sim. Formeime para ser webmaster e sou um artista gráfico autodidata. Essa dupla identidade serviu para eu arranjar um emprego. Sempre quiseste fazer este trabalho ou já tiveste planos diferentes para a tua vida ? Vincent Fouquet – Não sei dizer-te se sempre quis fazer isto. Como todas as crianças, quis fazer muitas coisas, mais ou menos realistas… mas sempre gostei de desenhar e sobretudo de criar. Portanto, parece-me que sempre senti a necessidade de criar algo, portanto para mim não há nada melhor do que poder fazê-lo no âmbito do meu trabalho. Não sei se vou passar a minha vida toda a fazer isto ou se mudarei de rumo algum dia, mas, para já, sinto-me muito bem assim. Porque deste um nome inglês ao teu estúdio ? Era mais fácil de reter que um nome em Francês ? Vincent Fouquet – Escolhi o nome do meu estúdio há muito tempo, portanto já não me lembro das razões que me levaram a fazê-lo. Mas dou a esse nome um sentido pessoal, que corresponde à minha personalidade. Por outro lado, essa expressão em Inglês soava bem. Se calhar, hoje em dia, teria escolhido outro nome. No entanto, tratase apenas de um nome, não é o essencial. És meio autodidata, meio formado através de um percurso escolar.

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Afinal, que estudos fizeste? Vincent Fouquet – Estudei matemática e também programação e engenharia informática. Mas, no que toca ao lado artístico, consideras-te como um autodidata. Vincent Fouquet – Sim. Sempre me dediquei ao desenho, ao grafismo informático e ainda à música. Fazes parte de alguma banda ? Vincent Fouquet – Tenho vários projetos musicais, mas trabalho pouco com outras pessoas. Se algum dia me parecer que algum deles é suficientemente interessante, torná-lo-ei público. E como fazes para encontrar os teus clientes ? Vincent Fouquet – Construí paulatinamente uma rede de contactos, que estou sempre a alargar. Às vezes, sou eu que me dirijo às bandas com quem gostaria de trabalhar. Outras vezes são elas que contactam, porque viram trabalho meu e gostaram. E para articular as tuas perspetivas com as dos músicos para quem trabalhas? Vincent Fouquet – Os membros das bandas são músicos antes de mais, logo ocupam-se do seu domínio, que é a música. Eu sou artista gráfico e diretor artístico, domino estas áreas. Eles vêm ter comigo, porque eu tenho competências que eles não possuem. Logo, de um modo geral, as bandas mostram-se abertas às minhas ideias relativas à melhor forma de traduzir graficamente as suas conceções. Também eu mostro abertura em relação aos seus desejos e ideias, mas reservo-

“[…] Acima de tudo, concentro-me no nada válido, se não tiver espaço par


me o direito de recusar trabalhar para eles e de lhes dizer que o que querem não corresponde àquilo de que precisam mesmo. Acima de tudo, concentro-me no produto “álbum”. Se uma banda me vem dizer exatamente o que quer e mostra pouca confiança na minha experiência, recuso trabalhar para ela; por um lado, porque eles são músicos, não são artistas gráficos; por outro, porque não posso criar nada válido, se não tiver espaço para me apropriar do tema/ conceito. Que trabalho te deu mais gosto até ao momento atual? E qual foi a tua maior desilusão? Vincent Fouquet – O que me dá maior satisfação é sempre o que se segue! Mas posso dizerte que o tríptico que fiz para o último álbum de Inquisition é o trabalho mais conseguido que fiz até agora. Envolvo-me muito nas minhas criações, portanto nunca me sinto desiludido com o que faço. Mas considero que todos os meus trabalhos podem ser aperfeiçoados, nunca estou 100% satisfeito com o que faço. A análise do teu portefólio revelou-me que recorres a várias técnicas nos teus trabalhos. Por vezes, muito simplesmente desenhas. Estou a pensar, por exemplo, no trabalho que fizeste para o último álbum de Inquisition e para «À Nos Traîtres» dos Ellipse. Vincent Fouquet – De facto, tenho duas direções gráficas diferentes. Por um lado, recorro à manipulação de fotos. Aliás, foi por aí que comecei a minha carreira profissional. Fotografo pessoas, objetos, texturas, elementos, que depois trabalho intensamente no

o produto “álbum”. […] não posso criar ra me apropriar do tema/conceito.”

computador. Por outro lado, faço desenho tradicional, usando papel e tinta-da-china. São duas técnicas com resultados diferentes, que não agradam às mesmas pessoas. Mas não foi por isso que as adotei. Isso aconteceu porque ambas me agradam e assim não preciso de estar sempre a fazer a mesma coisa. Além disso, vejo-as como complementares. É positivo para um artista gráfico que recorre à informática manter o contacto com o papel, os lápis, a matéria, tal como é importante para um desenhador saber usar meios informáticos. Torna a mente do artista mais aberta. A técnica gráfica é diferente, nos dois casos, mas a base é a mesma. Descreve-nos a forma como fazes os teus desenhos. Já percebi que são muito pormenorizados e cuidados e que passas por muitas etapas até chegares ao fim do processo. Vincent Fouquet – O trabalho gráfico não se improvisa. Para começar, é preciso fazer uma boa investigação: a nível gráfico, para encontrar fontes de inspiração novas, mas também no que diz respeito ao conceito de base da banda, à análise das suas letras, até aos elementos de mitologia ou ideias que surgem frequentemente no Metal. Depois, faço esboços, para definir os volumes, as perspetivas, as proporções, os símbolos. De seguida, passo ao desenho em formato grande, usando lápis de grafite, através do qual desenvolvo, em tamanho natural, o que criei nos desenhos preparatórios. Depois passo todos os contornos a tinta-da-china. Para terminar, faço as sombras, que é o que geralmente demoro mais tempo a fazer. Outras vezes, recorres a composições combinando fotos e desenho e associando elementos (objetos, partes do corpo de animais/de pessoas e até a figura humana completa) que parecem não ter nada a ver uns com os outros, mas cujo agrupamento

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obedece certamente a alguma forma de lógica estética. (Este aspeto faz-me pensar no trabalho de Max Loriot, que também entrevistei.) Estou a pensar, por exemplo, na capa que fizeste para o primeiro álbum de Enepsigos. O que nos podes dizer sobre esta faceta da tua arte? Vincent Fouquet – Essas duas linhas do meu trabalho gráfico funcionam de modo estanque. Nunca combino desenho e manipulação de fotos. Pode ser que isso venha a mudar no futuro, mas para já está assim. Os meus trabalhos de manipulação de fotos baseiam-se no facto de que gosto de criar algo de surreal a partir de elementos com existência real. Gosto muito de jogar com oposições entre elementos e ambientes: humano/divino, vida/ morte, ordem/caos, luz/sombra, humano/animal, real/imaginário. A manipulação de fotos é uma técnica que permite criar obras diferentes das que se obtêm a partir do desenho, “colando” elementos uns aos outros, fazendo experiências, acrescentando, retirando, modificando. E, por vezes, ao fazer esses testes, de forma aleatória, encontramos ideias novas. É uma maneira de trabalhar muito interessante. Usas ainda composições geométricas, como, por exemplo, na capa de “L’Éternelle Traversée”, de Soupir Astral. Qual é o propósito subjacente a este tipo de trabalhos? Vincent Fouquet – Parece-me que, de um modo geral, o gosto pela geometria presente no meu trabalho me vem dos meus estudos centrados nas ciências… Ou então foi o meu gosto pela geometria que me levou a estudar ciências… Gosto da ligação entre as ciências e o oculto, entre a ciência e a religião, mesmo que pareçam inconciliáveis à partida. Em domínios como a alquimia, são complementares. Por outro lado, as estruturas dos quadros de todos os pintores do Renascimento na Europa, cujas criações – pelo

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menos parcialmente- estavam centradas nos mitos e na religião –, são sempre muito geométricas e trabalhadas. De um modo geral, a natureza é geométrica. E a natureza é um dos grandes temas das minhas criações. No teu portefólio, figuram outras obras que revelam tendências mais “clássicas” no universo do Black Metal, com tons muito sombrios combinados com manchas de vermelho desmaiado e motivos como crânios e ossos humanos (como se pode ver, por exemplo, nas capas do novo split de Möhrkvlth e Garenlenth e na capa de “Ved Ferdens Ende”, o último álbum de Tsjuder). Por que razão, de vez em quando, optas por uma estética tão “vintage”? Vincent Fouquet – Não imponho nada às bandas, antes de refletir sobre a questão. Não crio propostas que não tenham nada a ver com elas ou que não tenham como propósito promover o seu trabalho. No caso de Tsjuder, a banda nunca teve nenhum visual definido, as capas dos seus lançamentos apresentavam apenas fotos dos seus elementos tiradas em montanhas da Noruega. Por conseguinte, apresentei-lhes um conceito, propus-me criar um visual para cada uma das canções do álbum a partir das letras respetivas e do conceito subjacente ao CD. Tsjuder é uma banda com uma abordagem “crua” do Metal, muito old school. Portanto, o seu visual também tinha de ser assim. E era preciso ter em conta os trabalhos feitos para os álbuns anteriores. A omnipresença dos ossos justificase por ser uma boa maneira de evocar a oposição vida/morte. Afinal é nesse estado que o ser humano permanece durante centenas de anos. Digamos que passa mais tempo sob a forma de ossos que como ser vivo e que essa ideia me parece interessante. Quais são as tuas principais influências ? Vincent Fouquet – Prefiro falar de inspiração, em vez de influências. Há muita coisa que me inspira, das


“[…] sempre senti a necessidade de criar algo, portanto para mim não há nada melhor do que poder fazê-lo no âmbito do meu trabalho. […]” 2 5 / VERSUS MAGAZINE


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mais artísticas às mais incongruentes: às vezes, encontro inspiração em coisas mínimas. No que toca a artistas, os que me inspiram mais são Philipe Druillet, Olivier Ledroit, [H. R.] Giger, Gustave Doré, Dali, entre outros. Como decides a qual das tuas várias tendências artísticas vais recorrer em cada caso ? Vincent Fouquet – Depende da inspiração que me vem quando faço pesquisa sobre o ambiente e o conceito do álbum e da banda em questão. Fazes o layout também ou tens de te articular com outro artista? Vincent Fouquet – Faço, se a banda assim o desejar. Essa situação permite-lhe ter um só interlocutor para a parte gráfica do trabalho. E a mim permiteme controlar o projeto na sua globalidade, portanto fazer um layout coerente com o artwork. Fazes desenhos diferentes para as t-shirts e os cartazes ou escolhes um pormenor da capa do álbum para os ilustrar? Vincent Fouquet – Isso também depende da vontade da banda e do seu orçamento. Se me derem carta branca, eu decido o que é mais pertinente naquele caso, tendo em conta os temas da banda e as imagens disponíveis. E como procedes para criar logos para bandas e artistas ? Vincent Fouquet – Fazer um logo é muito complicado, coisa que não passa pela cabeça da maioria das pessoas. Trata-se de algo que representa a identidade da banda. É o primeiro elemento desta com o qual o público é confrontado, quando se apercebe da sua existência. Até antes da música. Inconscientemente as pessoas vão ser condicionadas pelo logo, que lhes dá uma imagem prévia da banda: o seu estilo, o seu grau de profissionalismo, as suas ambições, o seu universo. Portanto, ao criar um logo, temos de pesar todos estes fatores, pensar neles, a fim

“[…] Envolvo-me muito nas minhas criações, portanto nunca me sinto desiludido com o que faço. Mas […] nunca estou 100% satisfeito com o que faço. de desenvolver um símbolo que passe uma mensagem positiva ao inconsciente do público, quando este se confronta com a banda pela primeira vez. É um trabalho muito subtil e moroso. Fala-nos um pouco das tuas exposições. Vincent Fouquet – Já fiz algumas, nestes últimos anos. Nelas apresento versões impressas dos meus trabalhos digitais (com dimensões entre 50cm x 50cm e 1m x 1m), desenhos originais (até A2) e serigrafias. Também pertenço à galeria online e itinerante e-kunst (antiga graphic-noise), criada pelo Michael Berberian (o diretor da Season of Mist), o que me permitiu expor trabalhos no espaço que lhe é destinado nos grandes festivais internacionais (Roadburn, Hellfest, Inferno, Maryland Deathfest, Tuska, etc.). Este ano decidi começar a apostar mais nas exposições. Por conseguinte, fiz uma a solo no Hellfest 2016,

depois organizei uma outra (também individual), em Brest, em novembro. Em 2017, vou começar a expor em galerias de arte: a primeira exposição dessa natureza vai ter lugar em Brest, na galeria Pod. Mais tarde, haverá outras, que serão oportunamente anunciadas. Queres falar de algo mais para encerrar a entrevista? Vincent Fouquet – Faço parte da Associação EOWH (Echoes of the West Horns), que criei com quatro colegas, para organizar grandes concertos no meu departamento [N.R. divisão administrativa francesa], que nunca teve direito a eles. https://www.facebook.com/vincent. abovechaos http://www.metal-archives.com/artists/ Vincent_Fouquet/467122

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Trial by Fire ABORYM

ARSTIDIR LIFSINS

AU CHAMP DES MORTS

S hif t ing ne g a ti v e

H el j arkvi da (Van Records) MÉDIA: 3

D ans La Joi e ( Debemur Morti Productions) MÉDIA: 3,3

(Agonia Records)

MÉDIA: 3,5

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BURN DAMAGE

FJOERGYN

MORD’A’STIGMATA

A g e O f Vu l tu re s (Viral Propaganda) MÉDIA: 3

Lvci fer Es (Lifeforce Records) MÉDIA: 4

hope (Pagan Records) MÉDIA: 4

C A R L O S F.

C A R L O S F.

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PRYAPISME

S E P U LT U R A

S IX F E E T U N D E R

D i a b ol i c u s F e linae Pandem onium

Machine Messiah

To r m e n t

(Apathia Records) MÉDIA: 4,3

(Nuclear Blast) MÉDIA: 3,3

(Metal Blade) MÉDIA: 2,5

C A R L O S F.

C A R L O S F.

C A R L O S F.

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ADRIANO G.

ADRIANO G.

HUGO M.

HUGO M.

HUGO M.

WUL KA NAZ P ar aly s (Regain Records) MÉDIA: 3

Obra - Prima

C A R L O S F.

Excelente

EDUARDO R.

Esforçado

ADRIANO G.

Esperado

HUGO M.

Básico

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Megatallica Por: Nuno Lopes (https://www.facebook.com/hellheavenmetalmusic)

A última cerimónia dos prémios da música, também conhecidos como Grammys, foi uma bela cerimónia, existiu de tudo, porém, aquilo que perdurará na memória colectiva serão os momentos dignos de um filme de Monthy Python, mas, também existiram os momentos glamourosos, tal como as acusações de racismo e as trocas de galhardetes entre os artistas consagrados. O que me levou a pensar em fazer uma petição para que a «nossa» Teresa Guilherme apresenta-se a edição de 2018. O que fica do que se passou é um reflexo da forma como a música é tratada nos dias de hoje, mas isso são outros «quinhentos», no entanto, não poderemos esquecer a desgraça que foi esta cerimónia, fazendo jus à famigerada Lei de Murphy, neste ponto o grande vencedor foi o Metal e duas bandas que tem muitos mais em comum que o próprio género que praticam, falo, claro está, de Metallica e Megadeth. Se por um lado, até compreendemos (até certo ponto!) a audição de uma música de Metallica no momento em que Mustaine e Companhia subiam ao palco, se bem que a escolha poderia ter sido Call of Ktulu (a única malha em que Mustaine colaborou com os Metallica), não deixa de ser estranho esse mesmo fail, que numa outra época teria dado uma outra reacção de Mustaine ( o que te aconteceu, homem?!), dar origem a um air guitar por parte do guitarrista! Foi épico ver o rosto da apresentadora. Mas o karma tem destas coisas e, num tremendo twist of fate, também os Metallica foram alvos de uma «partida» e viram a sua actuação com Lady Gaga prejudicada por um incidente com o micro de James Hetfield, que levou a que a menina ficasse a cantar soxinha e James a cantar para o boneco. Ele há estranhas coincidências. Uma coisa é certa, uma vez mais o trajecto das duas bandas voltou a encontrar-se e James e Mustaine mostraram-se homens com H grande e capazes de lidar com estas coisas do show bizz. Parabéns a ambos. Esta foi a noite dos Megatallica e foi uma noite memorável. Mas, fica uma sugestão à organização, respeitem a música e os intervenientes.

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ANTRO DE FOLIA

Por: Carlos Filipe

Desde sempre que Hollywood têm tentado aproveitar o filão de negócio que representa as adaptações da banda desenhada, em especial dos dois grandes editores deste género: A Marvel e a DC Comics, tendo cada um, um naipe monumental de trunfos na manga, aqui em forma de super-heróis e vilões. A primeira tentativa coube à DC Comics com o primeiro Batman de 1966 com Adam West ou os primeiros filmes do Superman nos anos setenta com Christopher Reeves ou mesmo o indescritível Masters of the Universe nos anos 80 com Dolph Lundgren no papel de He-Man. A Marvel seguiu-se, mas somente com telefilmes de série B nos anos 70 e só em 1986 é que tem a sua primeira tentativa cinematográfica, um tal de Howard the Duck, que só visto e hoje ainda é mais ridículo. Imaginem um mundo igual ao nosso, mas com patos humanizados. Mas no seu contexto cinematográfico, estes foram meras tentativas esporádicas de aproveitar este filão de ouro, e nem mesmo o enorme sucesso dos primeiros Batmans conseguiram detonar o género nos 90. Foi efetivamente necessário entrarmos no novo milénio para vermos a coisa começar a atalhar caminho para o sucesso, em especial na casa da Marvel, ao construir uma verdadeira casa de produção cinematográfica, com Blade em 1998 e os primeiro X-Mens de Brian Singer a abrirem o baile monumental que se seguiu com com todas as personagens do universo Marvel, Spiderman, Daredevil, Hulk, The Punisher, Elektra e Iron Man, ao ponto de hoje haver mesmo um plano, um “roadmap”, com todos os filmes que irão ser feitos. Quanto às suas personagens… estas começam a chegar ao fundo do catálogo, vistos os números das sequelas 1, 2, ou 3 a subir e os remakes a nascerem – O Spiderman e o Superman que o digam - dado a enorme cratera que já escavaram no universo Marvel ou mesmo na DC Comics. Nem as séries escaparam com spin-offs como “Agent Carter” ou novas abordagens como “Agents of S.H.I.E.L.D.”, ou mesmo espécies de prequelas dos vilões como “Gotham”. Uma primeira questão que sobressai de imediato, é, porque só agora nas últimas décadas? Porque esta avalanche de BD adaptada ao cinema só acontecer nos últimos anos? Bem, há duas razões: uma técnica e outra económica. A primeira é evidente: os efeitos visuais. Pois, só nos anos 2000 é que a coisa evoluiu ao nível da perfeição e do custo por plano se reduziu – Ainda me lembro da barbaridade que custaram os 500 planos truncados do “Starship Trooper” de Paul Verhoven em 1997 – e, evidentemente, o cerne destes filmes são os seus espetaculares efeitos visuais. O segundo tem haver com a nova conjuntura hollywoodesca dominada pelos produtores e os grandes distribuidores, pelas casas detentoras dos direitos artísticos, que só buscam o ganho em produtos seguros não arriscando rigorosamente nada, pelo que, apostar num universo com milhões de fãs e adeptos, desenvolvido ao longo de décadas, garante à partida o retorno do seu investimento nem que o filme seja fraco ou mau. Agora vamos à parte que já dói: Não há fome que não dê em fartura! E, eu, de alguns filmes para cá que estes filmes da Marvel e outros que tal como a DC Comics já enjoam, tornando-se autênticos vómito de efeitos visuais, muitas vezes para escamotear um argumento defeituoso, cenas irrealistas mesmo no contexto ultra ficcional da história – Aquela cena dos Avengers – the Age of Ultron em que uma cidade é elevado no ar é de bradar aos céus, com situações e contextos que extravasam o bom senso, sem um história musculada, sem profundidade de personagens, sem paixão artística, apenas com um enorme fogo de artifício visual e um marketing monumental e eficaz para realizar dinheiro. Sempre que tenho oportunidade de ver um destes filmes em casa vejo, e, os últimos que vi tenho um misto de sentimentos entre o bom e o mau. O primeiro que quero referir é Ant-man, ou Homem Formiga em português, que me surpreendeu pela positiva, pela forma como desenvolveram a trama à volta de Scott Lang e a forma

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Marvel Vs. DC Comics: A Idade da Maturação

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ANTRO DE FOLIA

Por: Carlos Filipe

que o levam a transformar-se no Homem Formiga. Bem, isto é verdade até chegarmos ao terceiro acto, quando decidiram misturar este filme com os Vingadores (Avengers) para incluir posteriormente esta personagem nesses filmes – como o fizeram - e quase que estragaram o excelente trabalho realizado até então. Fiquei fulo! Esta foi puramente economicista… e no filme seguinte dos Avengers, que por acaso até foi do Capitão América – que confusão - lá estava ele. Iam estragando tudo e a mancha no lençol branco de Ant-man nem com Vanish Gold Oxi Action sai. Por falar em Capitão América – Guerra Civil, por acaso no final do filme fiquei na dúvida se tinha acabado de ver um filme do Capitão América, dos Vingadores ou do Homem de Ferro. A misturada foi tal que o resultado foi um produto indigesto excepto para os produtores que arrecadaram uns “escassos” 1.153 Milhões de dólar – Se vêm o telejornal já estão habituados a estes números. De facto, o centro da história passa-se à volta do capitão América, mas tudo o resto é mais Vingadores do que Capitão América. Devia ter sido, Vingadores – Guerra Civil, mas o dólar falou mais alto e sair outro Vingadores de afilada parecia mal. Se calhar eu é que estou errado. Outra surpresa, e desta vez na plenitude, foi Deadpool. Uma excelente adaptação desta personagem do universo Marvel, repleto de acção e num tom bem diferente do habitual com carradas de humor. “Well done!”. O facto a realçar aqui, é que ao contrário das outras superproduções de 250 Milhões de dólar mais despesas de marketing, este “só” custou 58 Milhões para uma receita mundial de 783 Milhões de dólar e conseguiram um filme bem melhor que o habitual. É caso para dizer que menos é melhor. Mas o último que vi, e que despoletou este Antro sobre a BD no cinema, foi a nova vertente do A vs. B. que Hollywood redescobriu. Já tinham tentado com os Alien Vs. Predadores ou o Freddy Vs. Jason – Isto é só “grandes” filmes, mas ainda não tinham aplicado a fórmula nos “Comic Book Movies”. Não é um conceito novo e recente, os japoneses já o fazem desde os 70 com os seus Godzillas Vs. Mothra/Kong/Desutoroiâ/Supesugojira/King Ghidorah/Mekagojira. Estou a falar do recente Batman vs. Superman: Dawn of Justice, o qual até recebeu um punhado de merecidos Razzies Awards no final de fevereiro. Se calhar eles estão errados. Primeiro vamos aos números: Batman v Superman: Dawn of Justice custou na casa dos 250 Milhões de dólar mais, eu diria, outros 100 Milhões em campanhas de marketing em todo o mundo, estreou mais ou menos em todo o lado ao mesmo tempo, e em três semana, eu escrevo outra vez, três semanas fez 90% das receitas globais que ascendem aos 873 Milhões de dólar, uma relativo sucesso se comparável com os outros filmes da mesma categoria mas provavelmente foi visto como um fracasso ao olhos dos produtores pois devia ter batido todos os recordes e rebentado como o box office, sendo que atinge os 50% de receitas logo no fim de semana de abertura, i.e., 3 dias. Ou seja, ao fim de 3 semanas este filme está arrumado em termos de cinema e venha outro. Bem longe do que acontecia antes em que um filme ficava muito mais tempo no cinema, deixavam-no respirar e o chamado boca-à-boca funcionava – O Titanic que o diga. Infelizmente, esta prática foi substituída por uma campanha massiva de marketing que aposta tudo num curto espaço de tempo antes que a camada de pó enviada para o ar desapareça e deixe ver com mais discernimento. Então o filme deve ser muito bom! Não. É uma verdadeira m… Claro está, os efeitos são de se cortar a respiração, tal como as cenas de acção extraordinárias, mas este não consegue ser nem um bom filme do Batman nem um bom filme do Super-homem, é como os automóveis híbridos, nem são verdadeiros elétricos, nem são bons gasolina. O mau, o sempre “original” Lex Luthor é do mais fraquinho que se viu, o ambiente algo realista dos Batmans do Christopher Nolan desapareceu de vez, dando lugar a um universo mix de Batman e Super-homem.

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ANTRO DE FOLIA

Por: Carlos Filipe

Depois nem o Ben Affleck, nem o Henry Cavill convencem nos seus papeis e no final aparece a Mulher Maravilha para cavar ainda mais o fosso em que este filme se meteu. Já agora, por esta altura já conseguem perceber porque aparece a Wonder Woman no 3 acto do filme... Mas como é então possível tão fraco filme ser um megassucesso? Isto é possível somente devido a um facto: Marketing, marketing, marketing e mais marketing. A estreia destes filmes é acompanhada por uma massiva campanha mundial de marketing afim de lançarem uma enorme cortina de fumo no ar e criar o desejo nos espectadores para irem ver o filme a correr sem pensar, ofuscados pelo fumo, pois só assim conseguem “enganar”, perdão, convencer o pessoal para ver um filme tão espetacular, que só me faz lembrar a nossa expressão de “tanta parra e pouca uva”. Depois o filme sai em todos os cinemas possíveis e imaginários afim de chegar rapidamente ao máximo número de pessoas antes de estas descobrirem que o filme não vale o seu dinheiro. É de fazer chorar o dinheiro no fim. É por esta razão que 50% das receitas são feitas em 3 dias! Não critico esta abordagem, até acho genial e acima de tudo, funciona magnificamente como as receitas o mostram! Cada um é que tem de julgar e analizar antes de pagar para ver qualquer filme. Às vezes não é fácil fazer esta avaliação. O que estes produtores se esquecem é que os efeitos visuais são ferramentas para fazer um filme e não a base de um filme, pois este continua a assentar nos seus pilares principais de uma boa história, boas personagens, um bom tema e uma boa abordagem. Alias, estes filmes só conseguem acrescentar algo de interessante quando pousam sobre estes pilares. Mas, enquanto este filão der o dinheiro que dá, i.e., enquanto as pessoas pagarem para os ver no cinema estes filmes Marvel ou DC Comics não vão parar de estrear, restando-me apenas desejar que um ou outro consiga aquela estrelinha de cinema para lá do puro entretenimento. Assim, já que não os posso vencer, junto-me a eles, e deixo o roadmap atual – sujeito a alteração - da Marvel e da DC Comics do cardápio que aí vem, sendo que o da Marvel está dividido por fases e já vamos na fase 3 e haverá pelo menos uma 4 e 5. Carlos Filipe Marvel Roadmap (Fase 3)

DC Comics Roadmap

Guardians of the Galaxy 2 (2017) Spider-Man: Homecoming (2017) Thor: Ragnarok (2017) Black Panther (2018) Avengers: Infinity War Part I (2018) Ant-Man and the Wasp (2018) Captain Marvel (2019) Avengers: Infinity War Part II (2019)

Wonder Woman (2017) Justice league Part I (2017) The Flash (2018) Aquaman (2018) Shazam (2019) The Batman (2019) Justice league Part II (2019) Cyborg (2020)

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“Others make Business... We make Rock’ N Roll” Nada como a divisa da editora, para sintetizar tudo o que pode ser dito numa entrevista sobre a sua atividade. Entrevista: CSA

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“[...] Essa estreita colaboração [banda, editora, media] manteve a cena viva durante muitos anos e é a única forma de a ir renovando constantemente.” Olá, Markus e Kai. Para começar, gostaria que resumissem para nós os momentos mais importantes da vida da editora. Markus – Bem, não é fácil escolher momentos importantes. Afinal, cada vez que terminámos um lançamento novo estamos a viver um momento importante. Acho que vou pegar mesmo no momento do primeiro lançamento, no instante em que pudemos segurar nas nossas mãos o produto do nosso trabalho. Foi o EP dos Pyogenesis intitulado «Underneath», lançado num vinil vermelho de 7”. Foi fantástico, porque, nessa altura, não era fácil fazer as capas, etc. Portanto, basicamente eu vivi momentos de intenso trabalho com a banda e fomos fazendo, cortando,

colando, o que fez deste MDD01 um lançamento extremamente importante. Kai – Para mim, o momento mais importante foi logicamente quando o Markus me convidou para o apoiar na MDD Records. Isso aconteceu no início de 2015. Já nos conhecíamos mais ou menos desde que a MDD foi fundada. Devido às minhas atividades anteriores na cena Metal, já tínhamos estado em contacto e até tínhamos partilhado projetos. Sempre tivemos uma grande estima um pelo outro e eu estou imensamente feliz de fazer parte da MDD há 2 anos. Que parâmetros têm em conta para contratar uma banda? Ou, por outras palavras, que

características tem de ter uma banda para chamar a atenção da MDD? Markus – Há anos atrás era só: “Vou gostar deles.” Mas, atualmente, as coisas estão mais difíceis do que nunca e, portanto, além da música, conta também a banda (embora em segundo lugar). Se eles têm a determinação necessária e se vão lutar com unhas e dentes para se afirmarem. No fundo, além do lado dos negócios, é fundamental que eu goste da música E que as pessoas que fazem parte da banda em questão se sintam não só como parceiros de negócios da MDD, mas também como meus amigos pessoais. Gosto de ir a um bar com músicos malucos e beber umas cervejas, enquanto eles

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tocam a sua música fantástica. Infelizmente, mesmo assim, nem sempre as coisas correm bem e podes ficar desapontado, porque, por vezes, os músicos mudam de atitude e começam a portar-se como estrelas de Rock ou até me mentiram. Já aconteceu e é muito desagradável. O nosso slogan é “Others make Business – We make Rock’ N Roll” e penso que diz tudo. Kai – Eu concordo com o Markus. Que serviços oferecem às vossas bandas? Quem os assegura? Markus – Bem, as bandas entram numa espécie de “maquinaria”… Em primeiro lugar, temos estruturas que asseguram uma distribuição profissional na Alemanha e todos os nossos lançamentos são disponibilizados em todo o resto da Europa por parceiros nossos. Temos também estruturas que se ocupam dos pedidos feitos por mail e, como estamos em 2017, é claro que também dispomos de plataformas digitais. Temos os nossos próprios serviços promocionais, articulados com agências promocionais externas, que trabalham para dar a conhecer os nossos lançamentos à imprensa estrangeira. Na primavera de 2016, subimos de escalão, porque temos a nossa própria agência de reservas, cujo catálogo é diferente do da editora, porque combina as bandas mais fortes da MDD com bandas ligadas a outras editoras, contribuindo para a promoção de todas elas. E também fazemos muito trabalho de licenciamento de merchandising para bandas célebres. Kai – O principal responsável é sempre o Markus. Tudo o que oferecemos às bandas assenta no seu trabalho e no seu empenho,

que mantêm a MDD viva há 20 anos. Contudo, agora dividimos responsabilidades. De vez em quando, ele pede-me opinião sobre uma banda, mas é claro que a decisão final é sempre dele, quer sobre se vai ou não contratá-los, quer sobre os termos do contrato. Eu só entro no jogo depois disso. Sou a pessoa que trata dos planos de lançamento, das campanhas de promoção, das notícias, do lançamento de vídeos e de tudo o que diz respeito às relações públicas. Portanto, ocupo-me de tudo o que diz respeito à relação entre a banda, a editora e o público relativamente a um dado lançamento. E o que pedem às bandas do vosso catálogo em troca do vosso apoio? Markus – Não queremos cá estrelas de Rock, mas sim músicos com uma batida Rock N’ Roll no seu coração e que se esforcem por fazer triunfar a sua banda. Kai – Uma colaboração baseada na honestidade, na amizade, na confiança mútua. Como gerem a parte gráfica dos lançamentos? (Dado ser responsável pelas entrevistas a artistas gráficos ligados ao universo da música extrema, interesso-me especialmente por este ramo de atividade da cena Metal.) Kai – A maioria das bandas tem as suas próprias ideias sobre esse assunto e responsabiliza-se pelo artwork dos seus lançamentos, ou então conhecem alguém que colabora com eles há muito tempo. Damos às nossas bandas a maior liberdade artística que for possível. Contudo, em alguns casos, damos uma vista de olhos ao resultado

“[Queremos] Uma colaboração baseada na honestidade, na amizade, na confiança mútua.”

final e alguns conselhos à banda, quando nos parece que algo não ficou mesmo bem. Felizmente, eu sou um media designer profissional, portanto sintome à vontade para apresentar sugestões. E é claro que também estou disponível para dar apoio às bandas que não podem ocupar-se do seu artwork. Como também construímos uma extensa rede ao longo dos anos, também podemos pôr as nossas bandas em contacto com artistas nossos amigos que estão habituados a colaborar com a MDD. Mas isso não é necessário na maior parte dos casos. Por conseguinte, eu responsabilizome por todo o graphic design relativo à editora: webdesign, flyers, anúncios impressos, web graphics, promosheets, correções, ajustamentos para o fabrico dos CDs, etc. No fim de contas, há sempre algo para eu fazer, na parte gráfica. Que traz a vossa colaboração com revistas de música (como a Versus), quer à editora, quer às vossas bandas)? Kai – A ligação com as revistas de música é extremamente importante para nós e tem um imenso impacto nas atividades das editoras e das suas bandas. Durante muitos anos, fui editor e redator de uma revista de Metal. Portanto, conheço muito bem os dois lados e sei como é importante que se respeitem entre si e apreciem a relevância das respetivas funções. O contributo das revistas para as atividades das editoras pode ser imensamente significativo! Muito do trabalho de uma editora, que também é fundamental para as suas bandas, não existiria se não fossem as revistas. Não estou a pensar apenas em aspetos óbvios como as críticas e as entrevistas. O contributo começa com as notícias de divulgação, o anúncio dos lançamentos, a apresentação de previews, videoclips, a publicitação dos álbuns via stream, etc. Vemos a cena Metal como um todo, em que cada parte (banda, editora, media)

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tem um papel a desempenhar. E todos são igualmente importantes. Essa estreita colaboração manteve a cena viva durante muitos anos e é a única forma de a ir renovando constantemente. Têm músicos entre o pessoal da editora? Ou são apenas fãs? Kai – Eu fui músico durante muito tempo. No entanto, penso que nós os dois, independentemente de sermos ou não músicos, estamos perto do coração da cena Metal. A expressão “apenas fãs” não chega para descrever o que nos liga a ela. O Markus também desempenhou um papel ativo como organizador de concertos, vendedor de merchandising e acompanhante de bandas em digressão e provavelmente viu mais palcos e bastidores do que muitos músicos. E (nos anos 90), esteve à frente de um projeto de Fun-Noise-Core muito ativo. Mas não tenho a certeza de que a sua produção lhe possa valer o epíteto de “músico”! Haha! Sentem-se capazes de encarar a possibilidade de se fundirem com uma ou várias outras editoras (como é tão habitual no mundo dos negócios do séc. XXI)? Se não, o que é que a MDD traz à cena Metal que as outras editoras não lhe possam dar? Markus – Apesar de estarmos a atravessar tempos difíceis de um modo geral, tentamos manternos independentes. No fim de contas, quem faz o mercado são os fãs de música. Se ninguém comprar os nossos lançamentos, não poderemos continuar a existir, mas, enquanto as nossas bandas tiverem os seus fiéis fãs, continuaremos a lutar contra a “comercialização” do Heavy Metal. Temos muitos fãs pouco fiáveis na nossa cena. Hoje gostam disto, amanhã daquilo. Essa atitude mata tudo, assim como o facto de muitas pessoas quererem tudo grátis. O coração do Metal tem de bater novamente, o que significa que fãs de todo o mundo apoiarão as editoras independentes.

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Como veem o futuro da MDD? Quais são as principais ambições da vossa editora, nomeadamente para 2017? Markus – O negócio está cada vez mais difícil, de mês para mês. Tens de fazer cada vez mais por cada banda, para que consigam obter algum reconhecimento. Mas nós continuamos a ser fãs e, até ao dia em que for fabricado o último CD, a MDD defenderá a música de bom gosto. Lembrem-se do nosso slogan: “Others Make Business – We make Rock’ N Roll”. Esta frase representa o bater do nosso coração e temos planos para fazer muitas mais coisas fixes. E, para terminar (e porque sou muito curiosa) o que representam as iniciais MDD? Markus – Isso tem de continuar a ser um segredo. Tem a ver com algo do passado longínquo. Infelizmente, a frase a que essas três letras se referem já não tem qualquer valor. O mercado mudou demasiado. Mas continuamos a gostar daquilo que ela representa e é fácil de adivinhar o que essas letras representam. O que é verdadeiramente importante relativamente a essas 3 letras é que não há (nem nunca haverá) outra editora que lance CDs sob essa designação. E é mesmo divertido ver que palavras os fãs associam a essas letras. Kai – Os meus lábios estão selados. Muito obrigado por esta oportunidade. Esperamos que os vossos leitores gostem de algumas das bandas do nosso catálogo. Temos sempre algo para cada pessoa: desde Heavy Metal até Black Metal, passando pelo Death Metal. Permaneçam fiéis ao Metal e mantenham a cena viva! www.mdd-records.de www.mdd-shop.de twitter.com/MDDRecords facebook.com/MDDShop youtube.com/c/Mdd-recordsDe


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Wulkanaz À deriva nos seus sonhos Eis a essência da música de Kumulonimbus, quando assume os comandos de Wulkanaz. Entrevista: CSA

O facto de escreveres em línguas arcaicas como o Proto-Alemão ou o Sueco antigo suscita-me uma grande curiosidade. Por que fizeste essa opção? Kumulonimbus – De facto, escrevi a primeira demo de Wulkanaz em Proto-Alemão, mas mudei para o Gótico nos dois álbuns seguintes, apenas para expandir a minha expressão. Atualmente, escrevo no bom velho Sueco novamente. É melhor escrever letras na tua língua materna. Estudei essas duas línguas antigas e tenho um amigo que me ajuda pontualmente, quando surgiam dificuldades de tipo gramatical. Palavras que brilhavam como estrelas distantes entre inúmeras outras estrelas… E como consegues recuperar essas línguas antigas? És um linguista ou um filólogo (para além de teres uma carreira musical)? Kumulonimbus – Recorrendo a alguns dicionários e com a ajuda do meu amigo. Sou um simples artesão, que explora várias maneiras de exprimir os seus sentimentos e vozes internas. A tua música é mesmo surpreendente. Soa como um Black Metal muito obscuro, contendo elementos pouco habituais. Parece-me muito obsessiva (sobretudo por causa da repetição de frases musicais, que está presente desde a primeira

faixa do álbum, embora seja mais evidente em algumas canções ou partes de canções). A música deste álbum é muito estranha e dá ao ouvinte uma sensação de estar a lidar com algo que não é deste mundo (por exemplo, na quarta faixa). Usaste alguns instrumentos pouco usuais/tradicionais/arcaicos? Se sim, por que razão? Como aprendeste a tocá-los? E a compor a música para eles? Kumulonimbus – Sou autodidata, no que concerne a todos os instrumentos que toco (ou me esforço por tocar). Nas séries de música ambiental em cinco partes da autoria de Wagner Ödegård [NR: o próprio Kumulonimbus] lançadas no fim de 2016, toco acordeão, cítara, kalimba, piano, etc. Em «Paralys» – para além da guitarra elétrica, do baixo, da bateria e da voz – também uso o meu velho harmónio, ARP Odyssey e violino. Por exemplo, na primeira e na última faixa, só usei o sintetizador ARP e a bateria. Considero que este álbum, na sua totalidade, soa verdadeiramente estranho. No início, era para ser um EP de quatro faixas, mas, no caminho, metamorfoseou-se num álbum. O próximo – «Wulkanaz» – que já está gravado, é mais uniforme e consistente. Não há “tapa buracos” ou como quiseres chamar-lhes. Apenas 14 faixas

velozes e muito Punk, cheias de energia bruta. Apesar de se tratar de Black Metal, a tua música está cheia de groove, de movimento, com algumas paragens abruptas (como acontece na quinta faixa). Que sentido dás a este fenómeno? Kumulonimbus – (Todas as características que já referi aparecem cumulativamente e de forma mais evidente na última faixa do álbum, o que é realmente espetacular.) Essa faixa ficou cortada, porque a fita magnética acabou. Portanto, tive de arranjar maneira de a acabar ali mesmo. Preferi manter o corte do que recorrer à técnica habitual nestas situações. Não gosto de fade-outs, acho-os maçadores. A tua música parece ser bastante exigente para a bateria. Também tocaste essa parte nas gravações feitas no estúdio? Kumulonimbus – Nunca estive num verdadeiro estúdio. Gravei tudo sozinho em "Glipan Audio", usando equipamento que fui arranjando ao longo dos anos, principalmente microfones da treta e Equalizadores, etc., nada de muito moderno e elaborado. Usámos oito microfones ligados a uma mesa de mistura de oito canais e gravámos diretamente em fita magnética. Depois transferese cada canal para o computador,

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“A capa é da autoria de Michael W. Kråkmo e representa uma paragem no sono. Algo que te agarra e que sorri para ti, para te abraçar e segurar.”

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onde eu faço a mistura, acrescentando compressão, reverberação, etc. A seguir transfere-se a bateria do estéreo para a fita magnética novamente e eu acrescento a guitarra e por aí adiante. É um processo quase ritual, mas eu gosto do som que dele resulta. Como te parece o desempenho do teu baterista de sessão? Kumulonimbus – O Daniel mudou de Västerås para Mora há dois anos, mas já nos conhecíamos bem antes disso. Já tínhamos falado em fazer música juntos. Portanto, quando se instalou aqui, começámos a ensaiar intensamente. O contributo dele é muito importante. Elevou Wulkanaz a um nível muito diferente. Se fosse eu a tocar a bateria neste álbum, penso que ninguém o quereria ouvir. É o que sinto em relação aos dois primeiros álbuns. Falta-lhes muita coisa. Eu não sou bom a tocar bateria! Há muito tempo que devia ter recorrido a ele. Qual é o tema central de «Paralys»? E que tópicos são contemplados nas várias faixas? Essa informação ajudará certamente a compreender melhor o álbum. Kumulonimbus – Todas as canções partilham o mesmo tema. Derivam de sonhos e projeções astrais, desde os meus primeiros passos experimentais em 2001 até à atualidade. E que podemos ver na capa do álbum (que, a propósito, é absolutamente fascinante). Quem a fez e que papel desempenhaste na sua conceção? Kumulonimbus – A capa é da autoria de Michael W. Kråkmo e representa uma paragem no sono. Algo que te agarra e que sorri para ti, para te abraçar e segurar. Como relacionas Wulkanaz com Tomhet, a tua outra banda? Kumulonimbus – Não consigo descrever as diferenças entre as

duas. Tomhet parece-me mais restrita, mais direta, enquanto Wulkanaz é mais variada e experimental. Mergulhada e dispersa em águas murmurantes de cascata – chegando numa majestade enevoada! E o que distingue este terceiro álbum de Wulkanaz dos outros dois? Kumulonimbus – A principal diferença tem a ver com o facto de fumar erva e as visões que se tem depois. Mas acaba por seguir mais ou menos a mesma fórmula desde o início – as visões são o elemento mais importante do álbum. Enquanto «Kwetwan...» é mais básico, com a sua runologia, «HNI» apresenta uma visão mais profunda e «Paurpura...» revela o lado pior, já à beira da decadência, com as substâncias que distorcem a realidade a sobreporem-se à reflexão e ao pensamento. «Paralys» trata das projeções decorrentes dos meus sonhos e viagens astrais. Representa uma grande progressão em relação a «Paurpura...» e é para não dizer muito. De momento, vou arrumar a bateria. Pelo menos, parcialmente, neste caso. Toco bateria em duas das canções, mas, neste álbum e no próximo, Daniel (ex-Craft) é o baterista de sessão e vai fazer tudo como eu gostaria que tivesse sido desde o início. É um músico forte e sólido, com um entusiasmo inesgotável pela ideia de fazer coisas diferentes. Portanto, estou imensamente satisfeito com a forma como o som ficou em «Paralys». Não será semelhante ao do álbum anterior, sem sombra de dúvida.

vais tocar? Quem irá contigo? Kumulonimbus – Fiz alguns concertos na Europa, que me foram pedidos. Tinha o Daniel na bateria e é tudo. Ele sugeriu que só tocássemos nós os dois. Mas não tenho a certeza de que esse plano vá resultar. Porque há muitas partes de guitarra diferentes, que se entrelaçam em harmonias únicas e usar uma só guitarra pareceria estranho e provavelmente também empobreceria a música. Os teus vocais parecem muito Black Metal e são certamente muito dramáticos. Sublinhas essa parte da tua música de alguma forma especial? Kumulonimbus – Eu gravo tudo sozinho em minha casa e a forma como nos preparamos para cada sessão de gravação é sempre diferente. Estou quase sempre sozinho, quando acrescento outros instrumentos e vozes. As vozes são de longe a parte mais exigente. É doloroso produzir aqueles vocais. Mas penso que é importante excederes os teus limites para obteres um resultado ainda mais agressivo. O álbum foi lançado em dezembro. Já recolheste algumas reações a ele? Estás surpreendido com elas? Kumulonimbus – Sim, encontrei algumas reações positivas. Mas também há críticas negativas, como seria de esperar. https://www.facebook.com/wulkanaz/ https://youtu.be/3RxEzGSW-sM

Sentes-te influenciado por outras bandas? Se sim, quais? Kumulonimbus – Consumo todo o tipo de música, exceto Soul e Hip Hop e afins. Estar a nomear todas essas bandas parece-me inútil. Mas gostaria de referir Bo Hansson. Prevês fazer alguma digressão para promover «Paralys»? Onde

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Miguel Tiago Metal: cultura, liberdade, democracia

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É assim que um jovem membro da nossa praça política vê a música extrema! Entrevista: CSA e Eduardo Ramalhadeiro CSA – De onde te vem o teu gosto pelo Metal? Fala-nos um pouco dessa paixão. Miguel Tiago – Vai parecer inventado, mas é verdade. Tenho uma tia beata que é muito dedicada à igreja. Quando os Maiden lançaram o single do “Run to The Hills” (82-83) ou pouco depois disso, ela pediu-me que eu o fosse comprar, porque ela não podia aparecer em público a ouvir música do demónio. Eu fui comprar, ouvi o vinil vezes sem conta. Pouco a pouco, não sei bem como, fui-me relacionando com o pessoal do Metal na escola e depois, quando dei por mim, já estava a ouvir temas cada vez mais pesados, tinha cabelo comprido, calça justa, t-shirt de mangas rasgadas, o cenário todo.

Miguel - Não. Mas gostava. As aptidões, contudo, nem sempre estão dependentes da vontade. CSA – Neste momento, tens na carteira bilhetes para algum concerto ou em mente planos para comprar algum? Onde irias e o que irias ver? Tenho o bilhete para Slayer, Lisboa e para o Moita Metal Fest. Vou ver The Browning, ou em Cascais, ou em Loulé. Ainda não decidi.

CSA – Quais são os teus géneros favoritos? E que bandas te põem a fazer headbanging? Miguel - Thrash e Death, principalmente. Também gosto de Doom, mas é mais uma coisa que ouço sozinho com a música muito alta. Aliás, ouço um pouco de tudo! Também gosto das cenas mais recentes, que vão buscar inspiração ao Death e o misturam com o ritmo e os refrões do Hardcore, tipo Metalcore, Deathcore. Enfim, um pouco de tudo. Há concertos ao vivo que não me deixam sair do pit: Slayer foi um deles, Machine Head outro. E os concertos de Bizarra Locomotiva também não dá para parar. No último de More Than a Thousand também acho que só saí para ir buscar cerveja. Mas, enfim, headbanger por tudo e por nada!

Eduardo – O Metal, para ti, é uma forma (estranha) de estar na vida? Miguel - O Metal tem, de facto, uma forma de estar na vida associada. A estética, o Romantismo (no sentido original do termo), mas, acima de tudo, a agitação. Não há nada como o Rock para inquietar a malta. Não há como pegar no Metal e domesticá-lo, apesar das tentativas. Mas o Metal tem de ser rude, tem de ter arestas e textura verdadeira. Por isso, pegar no Rock, no Metal e no Punk também, para fazer cenas assépticas e dentro do sistema, será sempre um falhanço. Muitos outros estilos de música são fáceis de desvirtuar, porque a comunidade que os ouve também está numa de ir na corrente. No Metal, acho que é mais difícil, até porque estamos habituados a ser diferentes desde miúdos. Muitas vezes em choque com o caminho mais fácil. Por isso, não diria que é uma forma de estar na vida, mas é certamente um gosto que influencia a nossa forma de estar na vida. Ou então é a nossa forma de estar na vida que nos aproxima do Metal.

CSA – Alguma vez tiveste uma banda, estiveste nalguma ou fizeste algo relacionado com este tipo de música?

Eduardo – Uma imagem de marca dos Metaleiros são as tatuagens (já para não falar nas roupas pretas, cabelo comprido

ou piercings). Em Portugal penso que esta forma de estar ainda não é bem vista, por exemplo, no que toca à procura de emprego, etc., etc. … Já vivi um destes casos, apesar de indiretamente, já que o dono de uma empresa disse muito explicitamente: “Eu não quero cá alunos com cabelo, comprido e piercings”. Portanto, o que lhe interessou foi a aparência e não a inteligência. Visto teres uma série de tatuagens isso foi de alguma forma impeditivo de teres chegado onde chegaste? Porque é que em Portugal ainda se pensa muito desta forma, em que as aparências parecem iludir, relegando o conhecimento para segundo plano? Miguel - Felizmente, faço parte de um Partido – o Partido Comunista Português – em que o meu aspecto e a minha maneira de vestir a roupa e a pele não são critérios para avaliar o meu carácter. Sei que existe ainda um estigma em Portugal perante a tattoo, o cabelo comprido e o piercing e julgo que isso está essencialmente ligado ao facto de durante anos apenas um grupo reduzido de pessoas ter optado por esses elementos estéticos. Ainda por cima, originalmente, em Portugal, a tatuagem era feita, ou na guerra, ou na prisão. Mas também se deve ao facto de a tatuagem em Portugal só estar desenvolvida como arte e expressão artística há algumas décadas. Acho que esse preconceito sobre a tatuagem é como todos os outros preconceitos: nasce e cresce na ignorância. Enquanto as pessoas não conhecerem a realidade que tu conheces, vão temê-la. O medo do desconhecido é-nos inato. CSA – Se te dissessem que o Metal não é uma música para

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velhos, nem para mulheres e muito menos para quem combina estas duas facetas, o que responderias? Miguel - Que ouvissem... Mas também dizem que o comunismo é coisa de velhos...

“[…] A estética, o Romantismo (no sentido original do termo), mas, acima de tudo, a agitação. […] Não há como pegar no Metal e domesticá-lo, apesar das tentativas. […]”

CSA – Como é que os teus congéneres políticos vêem este teu interesse (sejam do teu partido ou de outros)? Miguel - No meu gabinete estou sempre a ouvir música nos auscultadores e os camaradas que partilham o gabinete comigo (Ana Mesquita, Bruno Dias e Ana Virgínia Pereira) já se habituaram ao facto de eu estar sempre a abanar a cabeça e a tocar air drums. Mas acham piada. O João Oliveira, líder parlamentar do PCP, já foi comigo a dois concertos de Moonspell e é fã de Process of Guilt. Por isso, dentro do Grupo Parlamentar do PCP e do meu Partido em geral, o pessoal não julga ninguém pelos gostos musicais e estilos de vida. Sobre as pessoas dos outros grupos parlamentares, não faço ideia o que acham porque nunca surgiu essa conversa. CSA/Eduardo – Estás na política, logo estás em posição de contribuir para definir linhas de atuação, nomeadamente no que toca ao domínio cultural. Que argumentos usas (ou poderias usar) para defender o Metal? Miguel - Que é boa música, ligada a uma boa cultura de entreajuda e camaradagem, anti-violência e até revolucionária no sentido em que é inconformada. Geralmente, a ignorância leva as pessoas a pensar que o Metal é um estilo de música que apela à violência e que os fãs são pessoas violentas. Não percebem que a música pesada é, de facto, violenta, porque usa sonoridades, estéticas e poesia que são agressivas e, muitas vezes, violentas, mas isso não implica que o comportamento dos músicos e público seja violento. Se virmos o metal como uma espécie de NeoRomantismo, identificamos o locus

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horrendus, o culto da escuridão e as referências ao sofrimento, seja pelo indivíduo, seja pelo amor, seja pelo mundo. Claro que o Metal evolui e hoje expressa muito mais sentimentos do que o amor e a revolta, mas estão lá. Acho, no entanto, que as escolas estéticas não se defendem politicamente. O meu posicionamento político não tem escola estética. Defender a produção e divulgação musical, isso sim, mas defender especificamente este ou aquele estilo, não me cabe fazer. Ou seja, politicamente, cabe-me defender uma política cultural que garanta a todos o acesso à produção, criação e fruição culturais, como elemento estruturante da formação da cultura integral do indivíduo. Em Portugal, o apoio à cultura é praticamente inexistente, mas há uma cultura que resiste, das garagens aos bares, e uma boa parte dessa cultura é Rock e Metal. É preciso criar condições para que quem quer fazer música em Portugal não precise de estar dependente da boa vontade desta ou daquela grande editora e desta ou daquela grande rádio. Eduardo – Os países nórdicos têm a fama de apoiar bastante as jovens bandas que iniciam a sua carreira. Paradoxalmente, acabei de ouvir que um português ganhou um Grammy, mas para isso teve de abandonar o Porto e estabelecer-se nos Estados Unidos. O que é que poderia ser feito, em termos políticos, para que as bandas fossem apoiadas desta forma? Achas que poderíamos ter um partido – assim como os “Os Verdes” ou o PAN – mas dedicado à música/ cultura? Miguel - Não. Acho que os partidos não devem ser temáticos. “Os Verdes” são um partido que usa a ecologia como base de pensamento, mas têm posições sobre economia, democracia, finanças, direitos laborais, cultura, etc. Temos de perceber que a cultura e a música, como parte da cultura, devem ser um elemento

fundamental da democracia. Sem cultura, não há democracia e, se a cultura estiver apenas ao alcance dos mais ricos, então também a democracia fica nas mãos dos mais ricos, ou seja, deixa de ser democracia. O meu partido tem proposto várias medidas para apoiar a música, nomeadamente o aumento dos apoios do Estado às associações e às estruturas de criação artística, mas também a redução do IVA nos instrumentos musicais, por exemplo.Infelizmente, essas propostas nunca passam porque o PCP tem apenas 15 deputados num total de 230. CSA – Como vês a cena metal portuguesa (em absoluto e no contexto europeu e mundial)? Miguel - Eu não conheço a cena metal portuguesa por aí além. Do que ouço e vejo, gosto. Temos bandas brutais e estamos a libertar-nos daquela linha de copiar e ir atrás de tudo o que é moda lá fora. Temos bandas que são absolutamente incontornáveis, com muitos anos de carreira e agora muito malta mais nova. Não me refiro a bandas concretas, por poder estar a ser injusto com muita coisa que se faz em Portugal. E eu não sou ninguém para estar a dizer o que é bom ou deixa de ser. Vou indo a concertos aqui e além e ouvindo bandas de que gosto e vejo que a cena metal portuguesa é vívida e poderosa. Agora, ainda por cima, dás um chuto numa pedra e sai um Metal Fest lá de baixo: há montes de festivais, grandes e pequenos. Isso mostra uma cultura vigorosa e capaz de movimentar muita gente. CSA – E que papel lhe atribuis na conturbada sociedade do séc. XXI? Miguel - Fazer cultura, num sistema capitalista dominado pelos valores do lucro e da conformidade, é já um acto de resistência. E resistir é o primeiro passo para vencer a conturbação. A elevação da nossa consciência social, política e cultural é uma condição para ultrapassar as

dificuldades colectivamente. Numa sociedade que estimula o conformismo, o individualismo, a apatia, a expressão musical e cultural e, particularmente, o Rock, o Punk e o Metal, por serem sempre insubmissos, são instrumentos de luta e de resistência. Aliás, há muitas outras expressões culturais que não são mero entretenimento. Infelizmente (e isso também acontece no Metal), há bandas, estilos e músicos que se deixam capturar pelos objectivos do sistema e pelos interesses das grandes editoras. Ainda assim, julgo que o Punk e o Metal resistem mais do que outros estilos, há hip-hop em Portugal que resiste, mas a maior parte não. Eduardo – Se eu te pedisse para “ilustrares” os diversos partidos e/ ou líderes políticos com um tema ou álbum quais seriam as tuas escolhas? Miguel: PCP/Jerónimo de Sousa: Kreator – “Progressive Proletarians”/ Dark Lunacy – “Victory”. PS/António Costa: Punk, mas não resisto, The Casualties – “Two Faced”. PP/Assunção Cristas: Bizarra Locomotiva – “Grifos de Deus” PSD/Passos Coelho – Sei que não é bem metal, mas gostava de lhes dedicar o “Beat the Bastards”, dos The Exploited, e o “Spineless”, dos The Browning. BE/Catarina Martins: Pantera – “Walk”. PAN/André Silva: Heaven Shall Burn – “Hunters will be Hunted”. PR/Marcelo Rebelo de Sousa: Rage Against The Machine – “Know Your Enemy”. PM/António Costa: Moonspell – “Eternal Spectator”. Partido Ecologista “Os Verdes”/ Heloísa Apolónia: Sepultura – “Biotech is Godzilla”.

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NOTÁVEIS Merecem sem dúvida toda a atenção que têm recebido pela frescura da sua abordagem do Melodic Death Metal, que Raimund Ennenga, o vocalista, tão bem apresenta. Entrevista: CSA e Eduardo Ramalhadeiro Fotos: Kerstin Bruemmer

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Eduardo – Embora raramente ouça Doom Metal, tenho de admitir que gostei muito do vosso material. Parabéns por este álbum. É surpreendente. Raimund – Obrigado pelo elogio. É sempre agradável constatar que alguém que normalmente não é fã do estilo de música que fazemos se identifica com a nossa arte e a aprecia. De qualquer modo, tentamos não nos “colar” a géneros e desenvolver o nosso próprio som. Eduardo – Na vossa página na internet escreveram: “É impossível chamar-lhe apenas Death Metal.” O que querem dizer? De que modo se definem como banda? Raimund – Como já referi, tentamos focar-nos mais na criação de um estilo próprio, pelo que incluímos elementos progressivos na nossa música e também alguns ingredientes vindos do Black Metal, no que toca a atmosferas. Continuamos a apresentar-nos como uma banda que faz Doomy Melodic Death Metal, mas não penso que esta seja a única descrição adequada à nossa música. Enquanto o Death Metal é sobretudo associado a conteúdo mais brutal, nós primamos pelas atmosferas, pelas letras profundas e pelas melodias que traduzem sentimentos. Eduardo – Quais são as influências que tornam a vossa música tão boa? Raimund – Antes de mais, obrigado por considerares a nossa música como de boa qualidade. Esse apreço significa muito para nós. Na minha opinião, os ingredientes mais notórios da nossa música são as melodias, que são sempre únicas. Veiculam todos os sentimentos e criam uma atmosfera. Depois, há o estilo da bateria, que é muito dinâmico e varia entre a pura fúria e padrões mais reservados. Também mencionaria o facto de que os temas das letras e a música que criámos combinam sempre muito bem. A música chama a atenção para as letras e

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vice-versa. Podes apreender os sentimentos expressos através das letras seguindo a música. Também me parece que podes sentir o grande dinamismo do processo de criação da música, quando ouves as canções. O nosso processo de composição é muito natural, porque todas as canções são arranjadas e terminadas com o contributo de todos os membros, na sala de ensaios. O Ole e o Volker (os nossos guitarristas) trazem as ideias mais importantes e o resto é feito por todos os elementos da banda. Isso cria entre nós uma verdadeira união. Eduardo – Não consegui aceder aos vossos dois primeiros álbuns. Apenas encontrei algumas faixas dispersas no youtube. Li na vossa biografia que «Opaque» foi um passo em frente gigantesco em relação ao vosso álbum de estreia. Este «King Delusion» representa mais um novo passo de gigante? Raimund – Penso que sim, é assim que o sentimos. «King Delusion» soa muito mais ao estilo de Nailed To Obscurity do que «Opaque» e isso tem muito a ver com a produção. Não queremos faltar ao respeito a quem fez a produção para «Opaque» e «Abyss…», mas «King Delusion» traduz muito mais todas as atmosferas e nuances emocionais que pretendemos transmitir na nossa música. Portanto, o nosso terceiro álbum surge-nos como um passo natural na nossa evolução musical. Quando ouvimos a masterização pela primeira vez, todos concordámos que isto É Nailed To Obscurity e que estamos a atingir um dos nossos principais objetivos. Eduardo – «King Delusion» vai ser lançado em fevereiro. Como têm os media reagido ao vosso álbum? Raimund – Para ser franco, não podíamos estar mais contentes. Recebemos sobretudo apreciações positivas das revistas e de quem nos entrevistou para promover o nosso álbum. Isso agrada-nos muito e estamos impacientes por partilhar este álbum com todos.

Eduardo – E, de acordo com a banda, por que deveríamos ouvir «King Delusion»? Raimund – Ora aí está uma boa pergunta. Penso que devem ouvir «King Delusion» para se embrenharem num mundo diferente e se envolverem numa jornada através deste. Se se abrirem mesmo aos sentimentos que matizam as canções, deixarse-ão levar por uma espiral de emoções. Consideramos «King Delusion» como um álbum que vai “crescendo” à medida que se ouve, logo têm de lhe dedicar algum tempo para conseguir aceder a todos os pormenores que contém, mas, se o fizerem, vão sentirse recompensados pelo vosso esforço. Eduardo – Sinto que têm imenso cuidado com a composição. A maioria das canções do álbum tem mais de seis minutos, culminando numa ainda mais longa (com doze minutos e meio). Como funcionam como banda? Como descreverias o vosso modus operandi? Raimund – A nossa forma de trabalhar as canções é verdadeiramente old school. O Ole e o Volker preparam juntos a base das canções. Depois trazem essas ideias para a sala de ensaios e trabalham-nas com a colaboração dos outros instrumentistas, para fazer os arranjos e acrescentar detalhes. Eu também procuro estar presente, para dar a minha opinião. O que aconteceu de diferente desta vez é que não acabámos uma canção de cada vez. Íamos trabalhando numa faixa, enquanto nos sentíamos inspirados, que era posta de parte quando começávamos a sentir dificuldades. Depois mudávamos para a seguinte, trabalhávamos nela e regressávamos às anteriores quando nos vinha novamente a inspiração para elas. Esta forma de trabalhar teve um grande impacto na forma como o álbum flui. Fez dele uma unidade coerente. Eduardo – “Uncage My Sanity” é a vossa primeira canção com


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“[…] Se se abrirem mesmo aos sentimentos que matizam as canções, deixar-se-ão levar por uma espiral de emoções. […]” 5 6 / VERSUS MAGAZINE


esta longa duração e natureza progressiva? Como é que uma faixa acaba por ficar assim tão longa? Raimund – Sim, essa é a canção mais longa que escrevemos até agora, sem sombra de dúvida. Não a fizemos assim propositadamente, mas acabou por ficar realmente muito longa. Quando acabámos de compor o álbum, nem queríamos acreditar na sua duração, porque nem nos apercebemos disso. Nem dás por isso quando a ouves. Devido à sua estrutura progressiva – incluindo uma secção intermédia suave e uma parte que desliza para o fim, onde encontras uma secção verdadeiramente sinistra – não se torna maçadora. Tens muito a descobrir ao ouvir essa música. Também fizemos experiências ao nível da voz, recorrendo a coros na secção intermédia. Essa canção é verdadeiramente única e inclui todos os elementos que constituem a essência de Nailed To Obscurity. Cristina – Sou uma grande fã de Doom, Death e acima de tudo Black Metal \m/ Como foi trabalhar com Vic Santura (já que ele é membro de Dark Fortress e Triptykon, duas referências incontornáveis da cena Metal da atualidade)? Raimund – Ele foi, sem dúvida, o produtor ideal para o trabalho em estúdio que queríamos para este álbum. Somos todos grandes fãs de Dark Fortress e Triptykon e estamos a par da sua habilidade para as partes atmosféricas. E foi demais trabalhar com ele. Tirou de cada um de nós o que tínhamos de melhor e encorajou-nos imenso a fazer experiências. As canções estavam quase prontas quando fomos para o estúdio, mas mesmo assim ele conseguiu acrescentarlhes pequenos detalhes, ou seja, deixar a sua marca na nossa música. Para não falar do facto de que é uma pessoa extraordinária, muito simpática. Divertimo-nos imenso com ele e passámos juntos momentos fantásticos.

Cristina – Também sou fã acérrima de arte gráfica relacionada com música extrema. O que representa a capa do álbum? Quem a fez e qual foi o contributo da banda para a sua conceção? Raimund – Foi feita por um artista argentino chamado Santiago Caruso. Foi o Ole que deu a ideia de trabalharmos com ele e nós ficámos todos empolgados depois de vermos o portefólio no seu website. A sua arte compreende muitos elementos que também figuram na nossa música. Depois de entrarmos em contacto com ele, enviámos-lhe as versões instrumentais das canções (sob a forma de demos) e os rascunhos das letras, bem como ideias para as que faltavam (dependendo do grau de conclusão). A seguir ele enviou-nos as suas primeiras ideias e ficámos logo com a sensação de que tinha captado em absoluto as ideias subjacentes à música e às letras. Assim, criou uma metáfora de “King Delusion” e duas outras obras de arte, que encarnam outros elementos das canções. Podes encontrá-las no layout da edição digipack e em vinil. Uma delas representa a pessoa que se abstrai dos seus problemas (“Deadening”) e outros aspetos, Só tens de gastar algum tempo a observar o livrinho que acompanha o álbum. Cristina – Que planos traçaram com a Apostasy Records para promover este terceiro álbum de Nailed to Obscurity? Raimund – Gravámos dois vídeos. Um já saiu (“King Delusion”) e o outro será lançado em breve. Neles explicamos as ideias subjacentes às canções. Também pensamos fazer uma digressão, mas ainda não podemos falar disso. A promoção vai continuar, mesmo depois de o álbum ter sido lançado.

underground) e eu gostava de os poder entrevistar. Raimund – Já lançámos «Opaque» pela Apostasy Records e esse facto permitiu-nos verificar que esta era a editora mais adequada para nós. Conhecemos muito bem Tomasz, o fundador, e trabalhámos de perto com ele em todos os detalhes do produto final. Ele é muito bem relacionado na cena e ajudou-nos a encontrar possibilidades para fazer concertos, etc. Foi por essa razão que decidimos também lançar «King Delusion» com a Apostasy Records. Já sabíamos como a editora trabalhava e que teríamos o seu apoio a 100% para concretizar todas as ideias que pudessem surgir. E, acima de tudo, o Tomasz é um grande fã de Metal e também toca numa banda. Por conseguinte, sabe exatamente o que uma banda quer e aquilo de que precisa! Cristina – 2017 está ainda no início. Que expetativas têm para este ano? Raimund – Antes de mais, estamos ansiosos pelo lançamento final de «King Delusion». Já não conseguimos esperar mais pelo momento de partilhar as nossas novas canções com os fãs. Contamos que o nosso álbum seja muito bem recebido por todos os adeptos de Melodic Death Metal. E também esperamos ver muitas pessoas nos nossos futuros concertos. Penso que vai ser um bom ano para nós. https://www.facebook.com/nailedtoobscurity/ https://youtu.be/GVNzZmVovgc https://youtu.be/aURv2uR9-yM

Cristina – Podes dizer-nos algo sobre a vossa relação com a editora? A secção mais recente da Versus é precisamente dedicada à promoção de editoras (com especial incidência nas mais

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O HOMEM DA MOTOSERRA Pensamentos e crónicas

Então coiso e tal e um bem-haja!

Bem sei que incluir o nome de uma marca comercial no título de uma publicação pode ser interpretado quase como um ato de prostituição. Ou não… porque as prostitutas recebem pelo trabalho que fazem, e eu nem um cafezinho vou ganhar com isto. CONTUDO(!!!)… se a marca me quiser oferecer umas caixas não me farei difícil, embora depois do que vão ler, será com toda a certeza improvável. Há algumas tarefas que queremos que nos façam com requinte. Que nos apapariquem, que nos deem graxa e nos tratem bem. Se formos a um restaurante, com certeza preferimos ser bem atendidos, com calma e paciência, ao invés de nos vomitarem com desdém a ementa, e nos esbofetearem quando não escolhemos o prato do dia. Há outras em que preferimos um serviço rápido e eficaz sem grandes mariquices. Para mim, e só posso falar por mim claro está, comprar café é uma dessas atividades que quero que não me faça perder muito tempo, o que é completamente impossível numa loja Nespresso. Assim que chegamos somos encaminhados para um cordão de segurança. Esperem, eu vou repetir: Um…Cordão…. De….Segurança. Numa loja de café! Depois desse passo importantíssimo ficamos a uma DISTÂNCIA….DE… SEGURANÇA…. do cliente que está à nossa frente. Sim! Porque é preciso uma distância de segurança maior do que aquela dada nos bancos, ou mesmo no aeroporto! Saber que o cliente que está à minha frente bebe Ristretto ao invés de Arpeggio é, como devem calcular uma informação que não pode cair nas mãos erradas! Imaginem o que se poderia fazer com tal informação! Números de contas? Dinheiro transferido? Isso não interessa para nada pá!!! Andam a dormir ou quê?! Não há nada como saber que café bebem para podermos chantagear ou assaltar uma pessoa. “Ah ele bebe Lungo?... Já estás! JÁ ESTÁS!!! JÁ FOSTES!!! MUAHAHAH! Eu próprio pensei em escrever “2 caixas de Roma”, e entregar ao vendedor, tal não era constrangimento que tinha. Já vi menos embaraço a pedir Viagra numa Farmácia. Eis que chega a nossa vez! Sinto que não estou a comprar café, tal não é pompa e circunstância que obrigam os empregados a ter para com os clientes. Ainda olho confuso em todas as direções. “Tu queres ver que não tomaste os medicamentos e vieste parar a uma loja de diamantes? Ou outra vez ao Stand da Ferrari? Ter-te-ás enganado na porta, e em vez de entrares no Hipopótamo, entraste outra vez no stand da Lamborghini?”, pensei eu. Nop! Era mesmo uma loja de café. Os funcionários falavam como se estivessem a receber realeza. “Muito boa tarde, como estão? O que posso fazer para vos auxiliar?”. “Eu quero café” … disse eu. Mas tanta pompa e circunstância levaramme a pensar que não podia pedir café aqui assim sem mais nem menos… Talvez as palavras certas fossem: “Saudações. Sou D. Homem de Motoserra, e venho a este muy nobre estabelecimento com o intuito de adquirir, com a sua permissão, aquela bebida quente e negra como a tempestade, que colheu bravos portugueses enquanto estes desbravam mares nunca dantes navegados com o único objectivo de trazer glória para Portugal e para os

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Portugueses. Uma iguaria com aroma forte para me apaziguar as amarguras a que estamos sujeitos na nossa débil sociedade, enquanto esperamos que o Virtuoso El Rey D. Sebastião nos encaminhe novamente para tempos mais dignos para as nossas gentes.” Mas mesmo tendo feito o pedido de uma forma quase troglodita em comparação com o discurso do vendedor, ele percebeu o que queria e respondeu de uma forma erudita: “Com certeza meu senhor, que tipo de sabor pretende? Aceitaria algumas humildes sugestões da minha parte, para que possa usufruir em pleno da experiência dos nossos produtos”? Mas não ficou por aqui: “Pretende degustar de um café? Poderei interessá-lo num novo aroma que temos ao nosso dispor? Poderei ajudá-lo em mais alguma questão? ” AHHHHHHHHHH!!! Eu quero café!!! Será assim tão difícil de perceber?? Quero duas caixas roxas, três amarelas, quatro laranjas! Assim é que devia ser! Eu não tenho de saber o nome em italiano do café que bebo! Sei que bebo do roxo, e do amarelo e do vermelho. Feito! Venha! Toda aquela mariquice provocou-me náuseas e deu-me vontade de passar os balcões, agarrar as caixas que estão na parede por detrás dos empregados, e sair a correr. O que era o pior que me podia acontecer? O segurança apanhar-me? E depois? Com certeza Dir-me-ia algo como: “Peço imensa desculpa caro senhor, mas vejo-me forçado a sová-lo. Ora com a sua licença, vou atingi-lo nas costelas. Peço imensa desculpa, mas agora vou-lhe pontapear os genitais. Agora irei proceder à torção do seu braço e arrastá-lo até um corredor privado, onde eu e colegas meus iremos proceder ao resto da sessão de pancadaria propriamente dita. Lamento imenso qualquer inconveniente que isso lhe possa causar, principalmente em termos de horários.” “Ora essa!” Responderia eu “Peço-vos só uma ligeira atenção, se não for incómodo claro está, de me deixarem a dentição intacta. Afinal de contas, não é barato ir ao Dentista.” Portanto, voltar lá? Acho que não. Só se precisar se uma desculpa para me auto flagelar. Mudar de marca de café? Agora já tenho a máquina. Que se f%d@! Despeço-me enquanto “degusto” um “Arpeggio”, ou como raio é que esta merda se chama. O Homem da Motoserra.

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Lunar Shadow «Far From Light» (Cruz del Sur Music) Devo já dizer que considero «Far From Light» um dos álbuns do ano. Tal como os Dool esté é SÓ o álbum de estreia. Mas antes de falarmos um pouco sobre a música, “não julguem o livro pela capa”, isto porque à primeira vista poderão pensar estar perante uma banda de Black ou Death Metal. No entanto, «Far From Light» é quase uma máquina do tempo… Os Lunar Shadow já vêm com alguma reputação construída no meio underground” e o resultado foi o EP «Triumphator». «Far From Light» é o anunciar triunfante de uma banda com muito talento. Oito temas épicos e melódicos num remoinho de riffs, solos e harmonias, mudanças de ritmos e velocidade. Se a tendência é para as novas bandas enveredarem pelo Metal Moderno – poder haver quem lhe chame evolução - onde na maior parte das vezes os álbuns são arruinados na mistura, os Lunar Shadow enveredaram pela sonoridade dinâmica, um mimo até ouvido em mp3 e por isso nem imagino como será na grandiosidade sonora de um vinil. «Far From Light» é um regresso ao passado nu e cru dos anos da NWOBHM. E não é só em termos sonoros que são diferentes, a estrutura musical não é habitual – A começar pelo épico que abre o álbum “Hadrian Carrying Stones”, até ao Thrash de “Cimmeria”, passando pelas duas baladas “Gone Astray” e a Tolkienest “Earendil” até ao (quase pseudo) Doom de “The Kraken” mas, no fim, tudo nos remete, por exemplo para os primórdios dos Maiden, Priest ou Saxon – Sim, é correcta e totalmente merecida a comparação com estes três monstros do Heavy Metal. As melodias e solos “intermináveis” são soberbos mas a qualidade sonora é um chuto bem grande na muita merda que se faz hoje em dia. «Far From Light» é como uma peça vintage… gloriosa! [9,5/10] Eduardo Ramalhadeiro

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CRITICA VERSUS

AB O RYM «Shifting.negative» (Agonia Records)

AT L A S PA IN

B L O O D R E G IO N

«What The Oak Left» (Scarlet Records)

«For All The Fallen Heroes» EP (Inverse Records)

Certas coisas surpreendem-nos pela positiva. Outras, pela negativa. E depois há ainda aquele grupo de coisas que nos surpreendem de tal maneira que não sabemos se a reacção correcta a ter é positiva ou negativa. É nesta última categoria que se insere o novo disco dos italianos Aborym, “Shifting.negative”. Neste trabalho, o colectivo liderado por Fabban (que remodelou por completo a banda) apresentanos uma versão menos crua do metal industrial que vinha praticando. A nova encarnação dos Aborym leva-os para águas muito próximas de uns Nine Inch Nails, não só no modo como faz uso da electrónica como também nas vocalizações, muito inspiradas em Trent Reznor (muito mesmo!). Longe, tão longe quanto a Fossa das Marianas se encontra da superfície do Oceano Pacífico, está a fase mais black metal dos primeiros discos. E aqui está provavelmente um dos problemas dos Aborym de hoje, pois parecem estar mais interessados em clonar algo já feito por outros colectivos e menos em imprimir um cunho original ao seu trabalho. “Shifting.negative” apresenta uma ou outra ideia interessante (“Precarious”, com a sua melodia, é um dos destaques), mas padece do síndrome de reciclagem, o que conduz inevitavelmente à pergunta: faz mesmo falta, nos nossos dias, esta espécie de Nine Inch Nails 2.0? O futuro dirá se esta via que os Aborym tomaram será um caminho a prosseguir ou se se tratou meramente de um erro de percurso. Um disco recomendado apenas a quem tem a mente aberta. [7/10] HELDER MENDES

Os Atlas Pain são um colectivo oriundo de Milão surgidos em 2014 e que vem agora em 2017 o lançamento do primeiro registo em formato Longa-Duração lançado pela, também ela italiana, Scarlet Records. A sonoridade dos Atlas Pain é um derivado de alguns estilos, com especial destaque para o Folk, no entanto, a banda não se estagna na sonoridade e propõe algo que soa a fresco. Não se deixem enganar pela capa, What the Oak Left é o esforço de uma banda que pretende inovar, e para isso, contam com os arranjos de Samuele Faulisi, membro fundador e mente criativa da banda. O que temos aqui é uma viagem no tempo, que se inicia com a intro The Time and The Muse (que nos traz a memória de uns Pink Floyd), e que é o mote perfeito para as histórias do Mundo, deixadas na madeira. O tempo quer fazer esquecer, mas todos vimos de algum lado e, os Atlas Pain, até mesmo pela imagem que ostentam (um misto de Turbonegro e Avatar), parecem ser os viajantes do tempo e são a magia de uma história que devemos recordar. Isso acaba por ser o melhor do registo que, aqui e ali, nos trazem momentos que recordamos, como em Till The Dawn Comes ou Ironforged. Quando White Overcast Lane termina, sabemos que saímos de algo, que a viagem terminou e que os Atlas Pain partiram. É um disco que pode soar repetitivo mas que, sem dúvida, merece a nossa atenção e que mantenhamos estes viajantes do tempo no nosso radar. [6,5/10] NUNO LOPES

O ano de 2016 irá ficar na história dos finlandeses Blood Region como um dos seus mais produtivos, sendo este EP For All The Fallen Heroes o terceiro capítulo de uma trilogia de Eps que a banda lançou durante o ano passado. For All the Fallen Heroes é um registo de Korpi-Metal, no entanto, a banda não se deixa fixar nas regras do género e incorpora elementos de outras sonoridades. De destacar a forma coesa como estes quatro temas, mais a intro Awaiting The Storm, se colam e se ligam entre si. Este é um disco dedicado a todos os heróis, alguns desconhecidos, e que se enche de esperança na força que só os heróis tem. Se ao inicio poderemos estranhar a sonoridade da banda, essa estranheza vai-se dissipando ao longo dos temas. Este é um registo que nos regenera, que nos faz encontrar a força e a ambição. Aliás, os Blood Region parecem encontrar a força nos momentos solitários e de dor, como se pode escutar em In My Father’s Room ou em Across The Dark River. Este é um EP que, tal como nos anteriores, nos deixa a pensar quando sairá o LP da banda e que nos mostra uma banda competente e séria. [7/10] NUNO LOPES

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CRITICA VERSUS

BR U J E RIA

BURN DAMAGE

CARPE NOCTEM

«Pocho Aztlán» (Nuclear Blast)

«Age of Vultures» (Raising Legends)

«Schattenseiten» (Soulfood Records)

O terrorismo é algo que deve ser levado em conta e se dúvidas existissem sobre isso, que dizer sobre a armada mexicana Brujeria que nos colocam em sobressalto a cada novo lançamento. Este registo não é excepção e os Brujeria, cujas identidades continuam a ser (mais ou menos!) desconhecidas voltam à carga, isto numa altura em que o Mundo mais precisa deles e, porque não dizê-lo também, o México precisa deles. No entanto, por aqui não existe uma mensagem de ódio ou de medo, o terrorismo dos Brujeria é feito de um apocalipse sonoro e é feito de guerrilha cujas armas são as letras e os instrumentos. Os Brujeria continuam iguais a si próprios, porém, além da fórmula já (re)conhecida os Brujeria não tem medo de inovar e, aqui e ali, a banda puxa dos «galões» e faz deste registo um autêntico manjar. É fácil lembrar-nos de projectos como Nailbomb ou Rage Against The Machine. Numa altura em que tanto se fala de muros no México e em que o Mundo se prepara para uma acção de guerrilha, talvez fosse boa ideia este disco ser a banda-sonora. Viva El México. [7,5] NUNO LOPES

Para se compreender este registo dos Burn Damage será necessário fazer, primeiramente, uma retrospectiva da carreira da banda liderada por Inês Freitas e o caminho que os trouxe até este Age of Vultures, sendo que, o mais notório é o grau de maturidade, em termos líricos e de composição que a banda apresenta. Age of Vultures é um disco adulto e é também o culminar de inicio de carreira fulgurante. Neste disco o maior destaque acabará por ir para todo o colectivo, sendo que Inês Freitas começa a tornar-se um caso sério e pode muito bem vir a ser a nossa Angela Gossow, no entanto, no caso de Inês, que é sabiamente ajudada por um Ivo Durães que entorna resquícios sonoros dignos de Obituary, criando um groove que só fica bem. Quanto à secção rítmica dos Burn Damage, a mesma já é conhecida dos que há muito acompanham a banda. Este é um registo que vem provar o que há muito se sabia, que os Burn Damage são uma certeza no nosso panorama e estão prontos para, quem sabe, voos mais altos. Para já, Age of Vultures é um disco que surpreende pela positiva. Nota de destaque para o trabalho desenvolvido (e pelo roaster) da Raising Legends, que, também ele, se começa a revelar um caso sério de sucesso e eclectismo. [8,5/10] NUNO LOPES

Schattenseitem é o segundo registo para o colectivo de cordas alemão Carpe Noctem, depois de um primeiro disco bem sucedido e que revelou uma banda conhecedora do que é a música mas, também, de uma banda que soube pegar nos «ensinamentos» dos Apocalyptica (uma comparação óbvia, sendo eles os criadores do género!) e dar-lhes uma nova direcção. Este disco é, então, a continuação do que a banda fez anteriormente, porém a banda revela uma evolução a nível criativo e de coerência musical, misturando sabiamente, elementos Folk com o mais pura sinfonia. Imaginemos o concerto de Ano Novo no CCB mas, com tudo o que temos direito. Calma, beleza, terror, magia. Este é um disco poderoso que, contém, ainda, uma muito bem concebida, Toxicity (System of a Down), que ganhou aqui uma nova vida. Destaque, ainda para Das Gift der Spinne, com presença vocal, da qual desconhecemos qual. Um disco agradável que nos acorda numa manhã de Outono. [6.5/10] NUNO LOPES

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CRITICA VERSUS

C U LT O F L UNA & JU LIE CHRISTM AS «Mariner Tour» (Indie Recordings)

DODECAHEDRON

DOOL

«kwintessens» (Season Of Mist)

«Here Now, There Then» (Prophecy Productions)

Desde a sua génese que os Cult of Luna não param de nos surpreender, a sua música é uma mescla de intensidade suicida com a paixão que nos assola, que nos move, tendo vindo em crescendo ao ponto de ser, por estes dias, uma banda de culto no underground. Este registo, gravado com a, quase, desconhecida Julie Christmas (banda) que, acompanhou os finlandeses na digressão a Mariner. O resultado é um registo intenso, belo que nos enche a alma, que nos deixa a vaguear. Se por um lado temos som cortante, depressivo e frio dos Cult of Luna, do outro temos Julie Christmans que vem dar um outro alento e mais mil e uma paisagens às pinturas criadas pela banda. Mariner Tour é um registo que nos prende, que nos agarra e nos repulsa. Somos empurrados para recantos escuros, onde só os pesadelos existem. São momentos de uma beleza negra em que conseguimos imaginar Julie deambulando-se em palco, tal canto dos cisnes. Este é o efeito da música dos Cult of Luna que, aqui assume um crescendo de negritude, ganhando a força do factor «ao vivo» que, no fundo, é como a música pode ser sentida. Mariner é um disco intenso e foi um dos discos do ano, esta é uma boa forma de o dar a conhecer. Isto é o propósito da música. [10/10] NUNO LOPES

Com o seu segundo disco, os holandeses Dodecahedron colocam-se numa posição de fazer inveja a muitos ilustres veteranos. Praticantes de um metal extremo que pisca o olho ao black, ao death, ao avantgarde e ao industrial, os Dodecahedron têm acima de tudo a virtude de combinar estes géneros com uma maturidade e um savoir faire assinaláveis. Lembrando, por vezes, os Deathspell Omega, o colectivo dos Países Baixos não se limita porém a ser uma cópia da influente banda francesa. “kwintessens” (assim, em minúsculas) sucede à boa estreia “Dodecahedron”, disco homónimo datado de 2012, mas ultrapassa-o e mostra ser já um dos grandes lançamentos deste princípio de ano no espectro mais extremo da música pesada, revelando igualmente – se dúvidas houvesse – que a editora Season Of Mist não brinca mesmo em serviço. E tão intrigante quanto a música é a parte lírica, pois quase todas as faixas têm poliedros por designação (“Tetrahedron”, “Hexahedron”, “Octahedron”, “Dodecahedron” e “Icosahedron”). Nem aqui, poder-se-á afirmar mantendo a abordagem e o ponto de vista geométricos, a postura dos Dodecahedron é unidimensional... Estamos claramente perante um disco com muitas faces, vértices e arestas que vale a pena percorrer, descobrir e apreciar em todas as suas variantes. [8,5/10] HELDER MENDES

Nem só da Holanda vêm boas bandas de Black Metal. O país das Tulipas também é capaz de “fabricar” excelentes bandas de Rock. Os Dool são um desses casos. Esta banda nasce da reunião de alguns dos mais notórios músicos Holandeses, se calhar desconhecidos para a esmagadora maioria do público e é SÓ o álbum de estreia. Então, como descreveria «Here Now, There Then»? Antes de mais, a voz de Ryanne van Dorst confere um “delicioso “mistério negro à música; da diversidade nascem temas hipnóticos que misturam o Rock Clássico, Gótico e psicadélico que nos transportam para lugares que só existem somente na imaginação de cada um. A música irradia uma sã energia crua, vibrante e dinâmica… Magnífico! Bem… já para não falar na soberba composição musical. O álbum abre com o épico de dez minutos “Vantablack”, passando pelo misterioso single de apresentação “Oweynagat” e ao quebra-corações “The Death of Love” - De premeio existem mais cinco temas igualmente fabulosos! Como gosto pessoal, de quem vive a música, é sempre de louvar quando algo nos faz abstrair deste marasmo a que chamamos quotidiano. “Dool” significa “vaguear”… e nada poderia descrever melhor a música dos Dool… deixem-se levar para onde quer que vocês queiram ir. [9/10] EDUARDO RAMALHADEIRO

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CRITICA VERSUS

IN F E R N A L A N G E L S

K R E AT O R

«Machinations» (Season of Mist)

«Ars Goetia» (My Kingdom Music)

«Gods of Violence» (Nuclear Blast)

Com o primeiro disco, Crystalline, os galeses Hark apanharam todos de surpresa com o seu Sludge/Stoner bem musculado e intricado com melodias mais Rock, porém, a banda não se encostou na sombra do sucesso e três anos após esse disco, a banda está de regresso com Machinations. A fórmula mantém-se, no entanto, a banda parece apostada em mostrar que o sucesso do primeiro disco não foi fruto do acaso e Machinations é o aprimorar de uma sonoridade que a banda quer ter só para si. Funcionando como um todo, Machinations é um disco que agarra em tudo o que está errado no Mundo em que vivemos, seja na vertente social, como na económica, porém a banda busca a sua demanda na forma como tudo isso influência cada um dos terráqueos, seja em temas como Disintegrate, Speak in Tongues ou Premonitions. Tudo aqui serve de pretexto para dar um twist a uma cena Sludge/ Stoner que começa a dar alguns sinais de saturação, mas que neste caso assume uma elevação do estilo e um upgrade do mesmo. Lembram-se dos Taint? Os Hark são a continuação melhorada. [7,5] NUNO LOPES

Já lá vão uns anos desde que os Infernal Angels começaram a destilar o seu black Metal, ao longo desse tempo a banda tem sabido gerir a sua carreira, mesmo apesar das ínumeras mudanças de formação a banda sempre se mostrou capaz de emergir das trevas e trazer até nós discos que respiram qualidade, sendo que este Ars Goetia, que marca o regresso da banda à My Kingdom Music, não é excepção. Para quem é conhecedor do passado discográfico de Xes e companhia já pode imaginar o que aí vem, porém, Ars Goetia é um registo ambicioso com muitos motivos de interesse e que devem ser enumerados. Não sendo um registo conceptual, Ars Goetia, é uma justa homenagem aos demónios aprisionados pelo Rei Salomão e que os eleva ao patamar da imortalidade. com arranjos que irão fazer as delicias de qualquer fan do género, este disco abre um novo capitulo na vida dos Infernal Angels. Com uma produção exímia, sem ser demasiado polida, como muitas do género, este é um registo que funciona em pleno e que mostra uma banda competente, cuja sonoridade tem vindo a ser aprimorada. Destacar, apenas, um demónio será algo que assombraria todos os outros, por isso, Ars Goetia deve ser escutado do inicio ao fim e devemos deixar que a frieza dos demónios entrem em nós e nos sequem a alma. [7,5] NUNO LOPES

Começo por dizer que escrever sobre os Kreator e sobre qualquer novo registo dos germânicos é um acto inglório e dificil, isto porque, ao longo das últimas três décadas os Kreator são uma das maiores referências no Metal e, para muitos, são o expoente máximo do Thrash Speed Metal. Porém, quando ouvimos Gods of Violence, o décimo quarto registo da banda, tudo se esquece e o que temos em mãos é um disco poderoso e, claro está, com a marca Kreator a transpirar por todos os poros. Longe vão os tempos do experimentalismo e da busca de novas sonoridades. Os Kreator continuam iguais a si próprios e a fazer o que melhor sabem. Malhas vertiginosas, solos arrebatadores e uma consciência do Mundo actual. Os Kreator acreditam que vivemos uma guerra mundial, com muitos culpados e ainda mais inocentes. Gods of Violence é um disco que pega em tudo o que os alemães já fizeram mas, ao mesmo tempo, consegue dar sinais de uma vitalidade e de uma vontade de inovar e não fazer o mesmo disco. Apocalypticon marca o passo para a guerra que se avizinha, depois, somos catapultados para um mundo «em pantanas» e onde o caos reina. World War Now, Satan is Real ou Gods of Violence, são malhas que nos apanham numa rede e que nos soltam a cabeleira, porém, estes são exemplos de um disco que é, também, do melhor Kreator que nos tem sido apresentado. Nada parece ter sido deixado ao acaso e, Gods of Violence é um disco escuro, pesado que não merece ser deixado de lado e deve ser ouvido até à exaustão. Um disco marcadamente actual e, baseando-se no medo que está instalado no Mundo, os Kreator dão as coordenadas e encostam-nos à parede, sem perdão. Os Kreator continuam a ser reis do seu trono e são, ainda, a melhor banda de Thrash da actualidade. Dúvidas? Então, ouçam o disco até ao fim e sejam surpreendidos pelos mais de 7 minutos de Death Becomes My Light, a faixa que encerra o disco. [9/10] NUNO LOPES

HA R K

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CRITICA VERSUS

LA MB OF GOD «The Duke» (Nuclear Blast)

L A S T L E A F D O WN

LEPROUS

«Bright Wide Colder» (Lifeforce Records)

«Live at the Rockefeller Center Hall» (Century Media)

Os últimos tempos tem sido tudo menos faceis para os norte-americanos Lamb of God e a banda parece ressentir-se disso mesmo no que diz respeito ao processo criativo, daí este EP poder ser olhado como um aperitivo para o novo registo. Composto, na sua maioria, de captações ao vivo The Duke mostra-nos que a competência é um dos maiores (e melhores) adjectivos para classificar a banda onde interessa, que é no palco. Como sempre nas captações a este nivel, ficamos com um sabor agridoce, isto porque se por um lado sentimos a energia que a banca imprime ás sua actuações, por outro perdemos a intensidade do momento que é o factor «ao vivo», mas fica a amostra do que são os Lamb of God. Quanto aos novos temas, podemos dizer que a banda mantém a identidade intacta, com uma The Duke baseada num riff simples mas tremendamente eficaz que nos traz um Any Blythe a experimentar outras nuances e com uma letra que assenta nos últimos acontecimentos que o envolveram e que tem aqui o seu momento de redenção, nesta faixa o destaque acaba por ir, também, para um cada vez mais «bruto» Chris Adler (como lhe fez bem a passagem pelos Megadeth). Já Culling é uma tipica malha Lamb of God, com Adler (uma vez mais!) ao leme, este é um daqueles momentos que nos faz ansiar pelo novo registo e que vem atestar que os norteamericanos não se deixam intimidar e estão, aos poucos, a recuperar o tempo perdido e, nesse particular, o futuro promete ser risonho. Um aperitivo que deve ser saboreado em doses generosas e a prova de que os Lamb of God irão continuar na linha da frente do Metal. [7/10] NUNO LOPES

Nas minhas escritas gosto, muitas vezes, de enquadrar uma banda num determinado estilo ou género musical. Não o faço com sentido depreciativo ou como forma de estigmatizar A, B ou C mas como forma de informar os leitores de uma forma muito rápida o que esperar quando ouvir. Isto poderá parecer algo redutor mas para terminadas bandas funciona muito bem quando o estilo é bem vincado. Os Helvéticos Last Leaf Down rodam já há algum tempo na minha playlist e para vos dar uma ideia do que vos espera, enquadrei-os ali no “meio caminho” entre o Post-Rock e o Shoegaze. De facto, se lerem um pouco sobre o que define o Shoegaze cedo percebem que a música é muito emocional, “tímida”, respirando “desespero” por todos os poros musicais, delicada e algo étera. Aparentemente simples, deixando-se levar pela regra de que “menos é mais”, «Bright Wide Colder» é tudo isto mas não é simples, há uma amálgama de pormenores e um vasto conjunto de emoções para descobrir. A parte do Post-Rock, por assim dizer, fica a cargo do instrumental que acaba por complementar todo este turbilhão emotivo, ou se quiserem a “cereja no topo do bolo”. O “problema” é mesmo a nossa disposição para ouvirmos «Bright Wide Colder» - se for num dia cinzento e chuvoso como o d’hoje é o ideal para estarmos em paz e deixarmos a música fluir… [9/10] EDUARDO RAMALHADEIRO

Se há facto de que os Leprous se podem, sem qualquer tipo de dúvida, é que são uma banda excelente no que toca às actuações ao vivo, porém, é preciso salientar que os dinamarqueses tem sustentado a sua carreira desde Tall Poppy Syndrome, o disco de estreia de 2009 até ao mais recente The Congregation, que elevou (e de que maneira!) o estatuto da banda. É exactamente aí que entra este registo «ao vivo» dos Leprous, gravado na mitica sala dinamarquesa, e que acolheu uma das datas de promoção a The Congregration. Neste registo o que temos é uma banda segura, que joga com o factor «casa» a seu favor. Aliás, esse facto tem o condão de nos fazer sentir como se estivéssemos lá, tal a intensidade e o suor que é palpavél através do disco. Composto por duas rodelas, «Live At...» é um documento fiel do que foram os Leprous de 2016 e o quanto vale a banda nos tempos que correm, entrega, dedicação. Com um alinhamento composto, acima de tudo, por temas do último registo, a banda não assenta apenas aí a sua perfomance, intercalando, sabiamente, temas mais antigos mas que, no conceito da banda ao vivo, encaixam «que nem ginjas». Lançado em diversos formatos, em que se inclui o DVD, «Live At...» é um disco que valerá a pena para os conhecedores da banda mas que é, também, um retracto fiel do que é um disco desta natureza. Se, por vezes, quando uma banda ou artista é reconhecido, temos tendência a olhar com desdém, neste caso devemos fazer o contrário e aplaudir o caminho dos dinamarqueses até aqui. [8/10] NUNO LOPES

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CRITICA VERSUS

N A IL E D T O O BSCURIT Y

O V E R K IL L

P L A N N IN G F O R B U R I AL

«King Delusion» (Apostasy Records)

«The Grinding Wheel» (Nuclear Blast)

“Below the House” (The Flenser)

Não sou um particular adepto do Doom Metal – como diz o povo: “gostos não se discutem… lamentam-se”. No entanto, há excpeções. Os Nailed to Obscurity enquadram-se perfeitamente nessas excepções e isto deve-se em grande parte à forma como “construíram” «King Delusion»: doom/metal melódico, “salpicado” com alguma progressividade, bem pesada por sinal, assente numa suave e doce melancolia, tudo isto resultando num ambiente atmosférico… negro mas irresistível. No entanto, apesar de alguma “negritude” geral, a sonoridade é muito “transparente” deixando respirar todas a notas que emanam dos instrumentos e voz. Não será alheio a este facto o magnífico trabalho de Victor Santura (Triptykon, Dark Fortress ou Noneuclid). O início de “Protean” faz lembrar os “velhos” Opeth havendo lugar para a dicotomia entre a voz limpa, suave e a sua congénere gutural e pesada. “Uncage my Sanity” que com s seus mais de doze minutos faz sobressair a veia mais progressiva que foi mencionada anteriormente, pesada… arrastando-a, mesmo assim, para os limites do Doom. “Memento” é outra viagem sónica, sem a voz limpa mas com alguns sussurros de premeio e as guitarras a suavizar esta brutal melancolia com solos que têm tanto de discretos como melódicos. «King Delusion» é o terceiro álbum destes germânicos, feito com uma grande determinação e que promete conquistar muitos fãs por esse mundo fora. [8.5/10] EDUARDO RAMALHADEIRO

Décimo oitavo álbum de uma das bandas de culto do Thrash! Numa época mais contemporânea os Overkill nunca nos conseguiram, verdadeiramente, surpreender com algum de novo. Mas… quem se importa? “Blitz” e Verni andam a “triturar” os nossos ouvidos e pescoços há mais de trinta e cinco anos e é por isso que o “The Big 4” evento promovido pelos Metallica é injusto para outras tantas bandas – seguro será dizer que os Overkill são uma delas. Paradoxalmente, «The Grinding Wheel» acaba por nos surpreender de alguma forma… Na entrevista feita nesta edição, Bobby “Blitz” refere que é o melhor álbum em termos de produção – correcto e afirmativo – e talvez não deva ser alheio o facto de terem assinado pela Nuclear Blast a nível mundial. Portanto, esperem algo diferente mas não TÃO diferente porque os Overkill só “descobriram a pólvora” em oitenta e dois. De resto, o que sempre aprecio de sobremaneira é a “veia” Punk que imprimem à música e em «The Grinding Wheel» não é excepção. Aliás, essa “veia” encontra-se até um pouco mais saliente e “Let’s All Go To Hades” é a referência. Mas há mais destas referências e influências espalhadas pela maioria dos temas. O álbum encerra com “The Grinding Wheel”, assim muito ao estilo de “Horrorscope”. De resto, está aqui tudo o que de melhor têm os Overkill: Metal, Old School Thrash – “Mean, Green, Killing Machine”, “Our Finest Hour”, irreverência, Punk e a melodia também. Se é Thrash fresco, novo e tal…? Não! «The Grinding Wheel» é uma jarda de todo o tamanho e demonstra, acima de tudo, que essa cena a que chamaram “The Big 4” é tremendamente injusta. Portanto, tal como dizem em “Goddamn Trouble”: “We’re never gonna stop!” [8.5/10] EDUARDO RAMALHADEIRO

O mais recente trabalho de Thom Wasluck continua um percurso intimista, exalando o calor de um fogo sob a epiderme lacerada da nostalgia. Um labor de obsessão e introversão, de regresso e rendição a uma inocência calamitosa. A marcha lenta para o cadafalso de memórias desvanecidas, é pautado pela arrastada cadência de um baixo (sugerindo a intransigente gravidade de uns Swans era “Cop/Young God”) patente na lúgubre “Whiskey and Wine”, uma das faixas mais consistentes do álbum que revela o âmago do estilo que caracteriza e identifica a banda – gloom. Repleto de ritmos cabisbaixos, “Below the House” flirta com a timidez dos Codeine sob véus de distorção, como igualmente do niilismo dos congéneres Have a Nice Life, e o trabalho do incontornável Michael Gira. Trata-se de um álbum diversificado com variações e influências convergentes (revisitando black metal, doom, shoegaze e música electrónica), que tanto nos agita pela batida afeiçoada de “Warmth of You” como nos embrandece com a apatia dark ambient de “Past Lives”. As faixas “Threadbare” e “Dull Knife” pontuam a envolvência febril da melancolia irrespirável que se faz sentir ao longo do álbum. A sonoridade é massiva na sua vulnerabilidade, traduzindo a resignação com o compasso cíclico da contrariedade. Toadas claustrofóbicas de baixo a assumir contornos de drone, e notas cândidas de xilofone cruzadas com a rispidez distorcida das guitarras, traduzem o lento estertor das fundações que ruem neste corpo que habitamos. [8.5/10] FREDERICO FIGUEIREDO

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CRITICA VERSUS

P R IMAL ATTACK «Heartless Oppressor» (Rastilho Records) Porquê?! Porquê? Pergunto eu. Se não sabem o que é a Loudness War podem ler um pouco sobre o assunto, numa excelente entrevista feita a Dan Swanö, na Versus 31 de Agosto de 2014 ou então, aqui: http://www.metal-fi.com/mantalks-loudness-war/. «Heartless Oppressor» merece umas palavras de crítica ou se quiserem uma chamada de atenção. Antes de mais, o que me apraz dizer é que isto está demasiado alto, sem dinâmica o que torna a audição algo desconfortável. Digamos que o suprassumo desta anormalidade é o sobejamente conhecido e escalpelizado «Death Magnetic». Analisando o nível dinâmico do álbum obtemos um mísero DR3 – nesta escala, quanto mais alto o valor, melhor, mais dinâmica. «Heartless Oppressor» anda à volta de uns míseros DR4. Por isso, para mim torna-se algo penoso ouvir este CD. O que é pena, porque «Heartless Oppressor» é uma jarda de todo o tamanho que não precisava de ser arruinado na mistura. A descarga é feroz e o nível técnico muito evoluído, deixando-me, neste aspecto, surpreendido pela positiva. São nove malhas de muito Thrash, progressivo por vezes e que ainda incorporam alguns elementos industriais. Os temas são portanto, algo variados e versáteis. Digo que os ouvi várias vezes e me surpreenderam ao nível técnico e musical. No entanto, a sonoridade arruína por completo a vontade de ouvir «Heartless Oppressor» as vezes que merecia. No próximo mudem a filosofia porque a música merece e a banda também. [6.5/10] EDUARDO RAMALHADEIRO.

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PSYCH E D E L IC W IT C H C R A F T «Magick Rites and Spells» (Soulseller Records) Suponha-se que os Black Sabbath iniciavam a sua carreira nesta década, e não há quase 50 anos. Suponha-se, ainda, que em lugar de Ozzy Osbourne, o quarteto de Birmingham se decidira por uma frontwoman. E que, em vez de Inglaterra, o país de origem era a Itália. Se esta realidade alternativa se concretizasse, o que teríamos era algo semelhante ao que os Psychedelic Witchcraft nos apresentam. E que bem nos apresentam... “Magick Rites and Spells” é uma homenagem de altíssima qualidade às sonoridades setentistas, cozinhando com requinte o blues rock, o doom e o psicadélico, tudo isto coberto por uma produção que, não deixando de ser límpida e actual, é inteligente e humilde quanto baste para fazer o ouvinte sentir-se recuar no tempo. A reforçar esta imagem “anos 70”, diga-se que a vocalista, Virginia Monti, faz recordar fisicamente a falecida actriz catalã Lina Romay, musa de Jesús Franco, autor do infame “Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa” e de vários outros cult-movies onde o horror, o oculto e a sexualidade diziam “presente!”. Elementos que aliás se acham neste “Magick Rites and Spells” que, entre covers e originais, nos faz viajar graças a música composta e tocada com verdadeira emoção. O refrão de “Angela”, de resto, sintetiza bem a experiência que é ouvir os Psychedelic Witchcraft: “Oh Angela she’s coming/Oh she’s going to take your soul/Oh Angela she’s coming/She’s got Blood on Satan’s Claw.” Felizardos todos os que caírem nas suas garras. [8,5/10] HELDER MENDES

SP R EA D I NG DR EA D «Age of Aquarius» (Bret Hard Records) Recentemente «Age of Aquarius» chegoume às mãos vindo directamente da Republica Checa. Apesar de ter sido lançado faz mais de um ano, achei que devido à qualidade mereceria algumas mui humildes palavras da minha parte. De certeza que os Spreading Dread serão desconhecidos para o público nacional e por isso, para abrir as hostilidades a banda enquadra-se num Thrash/Death progressivo. A próxima pergunta poderia ser: o que têm que os faça distinguir das “n” bandas que povoam este universo? Bem… de entre os vários elementos musicais e influências que compõem a música, destaco a influência Barroca. Isto está espalhado pelos meandros de todos os temas. O responsável por esta inclusão clássica é o guitarrista Simon Kortc que já anteriormente se tinha fechado num asilo de alcoólicos para compor o que se tornaria em «Sanatorium» um álbum autobiográfico. Portanto, estamos perante um conjunto de músicos de excelentes qualidades técnicas e também ao nível da composição. «Age of Aquarius» foca-se na degradação da civilização, apesar de todos os feitos conquistados. É pois, uma banda que devem procurar e seguir com atenção. Os Spreading Dread despertaram a minha curiosidade, pela qualidade técnica e sonoridade musical, pelas influências Barrocas e pelo Thrash/Death estupidamente bem tocado. É uma banda que merece a devida atenção e divulgação. [8/10] EDUARDO RAMALHADEIRO.


CRITICA VERSUS

T H E G R E AT O LD ONES

TH E O M IN O U S C IR C L E

WULKANAZ

«EOD – A Tale of Dark Legacy» (Season of Mist)

«Appalling Ascension» (Osmose Productions)

“Paralysis” (Helter Skelter)

H.P.Lovecraft continua a inspirar artistas de todos os quadrantes, da pintura à música, passando pelo cinema, o legado do mestre do horror tem ultrapassado a vertigem do tempo. Os franceses The Great Old Ones até podiam ser mais um grupo de seguidores do escritor, no entanto, a banda além de prestar a devida homenagem ao homem e à obra, decidiu dar seguimento a um possível desenlace do livro de Lovecraft, o único alguma vez publicado pelo autor, e o resultado é este «EOD...», um registo avassalador de uma banda que vai revelando um potencial tremendo para a criação de obras que nos remetem para um mundo de caos e misantropia. «EOD» é um disco que nos agarra do início ao fim. Num tempo em que o mundo caminha a passos largos para o abismo este será o disco que queremos ouvir enquanto o fogo nos abrasa a pele. Este é o disco que deixa o mentor Lovecraft com um sorriso nos lábios, esteja ele onde estiver. Este é um disco obrigatório, não só para os seguidores da banda (e do autor) mas, também, para quem vê no Black Metal a salvação. Um destaque para a produção e para todo o conceito que envolve «EOD...», que, além de mostrar uma banda consciente do caminho, se mostra, igualmente, criativa e cujo futuro promete ser brilhante. Este é, para já, um dos discos do ano. [9] NUNO LOPES

Álbum de estreia destes nortenhos, “Appalling Ascension” colocará com toda a certeza um sorriso nos lábios do bom apreciador de death metal. Deixe-se de parte a tendência, em má hora recuperada, para os músicos se identificarem através de iniciais e concentremonos na música: o que temos aqui é um petardo bastante competente, com peso, técnica e uma produção adequada. Abrindo com a algo dispensável intro “Heart Girt With a Serpent”, o álbum começa a não fazer prisioneiros a partir de “From Endless Chasms”, que bebe em referências incontornáveis como Morbid Angel ou Incantation. “Poison Fumes”, a terceira faixa, deixa um travozinho a Akercocke, mas os The Ominous Circle fazem mais do que destilar influências, e seria muito injusto reduzi-los a esse aspecto, de resto quase inevitável num primeiro disco. Ouça-se, por exemplo, o modo como os músicos passam do mid-tempo para a completa pancadaria em “A Grey Outcast” e em “to En”, ou o flirt com o doom metal a dada altura de “Consecrating His Mark”, e fica-se com uma boa percepção da competência e da versatilidade dos The Ominous Circle. Tratandose sem dúvida de um dos mais consistentes e sólidos discos dentro do género gravados por uma banda portuguesa, “Appalling Ascension” deixa qualquer ouvinte a salivar por mais. Os The Ominous Circle convertem-se, com este trabalho, num dos nomes a ter em conta na cena death metal, e isto não os limitando às fronteiras do nosso país. Círculo muito virtuoso, este! [8/10] HELDER MENDES

O ruído é segregado dos poros deste trabalho numa adulação desenfreada ao “Under the Funeral Moon” dos Darkthrone, com uma estridência que chega a atingir os limites do suportável. Wulkanaz, projeto sueco de Kumulonimbus dos Tomhet, chafurda na escatológica sonoridade do black metal norueguês do início dos anos 90, com a compulsão de um fanático religioso ante o sortilégio de seus preceitos dogmáticos. Desde a elaboração das letras em dialeto proto-germânico, passando pela sonoridade de distorção de guitarra equivalente ao efeito sonoro de um gangbang de vespas numa lata (vazia) de cerveja, “Paralysis” é um trabalho de, e, para devotos, reunindo pouco apreço do mais alargado universo de hereges. Tratase de uma sonoridade alienada do conceito de metal, rock ou mesmo… música. “Tempel” exala a rusticidade de Mutiilation e Ildjarn, enquanto “Uphord” e “Blodskurd” nos afrontam como valentes bofetadas de thrash germânico ao estilo primordial de Sodom ou Destruction. O prelúdio e interlúdios são tão descabidos que inflamam a nossa apreciação pela indisciplina de Wulkanaz, porém, é Daniel Rockmyr (baterista emprestado pelos Craft) a metralhar cada faixa com blastbeats incessantes e variações espasmódicas, que recupera o presente trabalho da mediocridade. Apesar de ser um álbum abrupto e desprovido de direção, “Paralysis” é aquela ferida em que não conseguimos deixar de mexer. [7/10] FREDERICO FIGUEIREDO

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UMA BRINCADEIRA MUITO SÉRIA É o que se conclui da longa entrevista feita pela Versus Magazine a Pryapisme, uma banda francesa extremamente original… e felina >^..^< Entrevista: CSA e Eduardo Ramalhadeiro

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Cristina e Eduardo – Olá, rapazes! Adorámos o vosso «Diabolicus Felinae Pandemonium». Aymeric Thomas – Olá e muito obrigado. Ficamos muito contentes de saber que o nosso álbum vos agrada! Cristina – São verdadeiros adoradores do gato, ou trata-se apenas de uma brincadeira? Eu gosto tanto de gatos que tenho um avatar felino! Não, não é uma brincadeira! É verdade que somos muito irónicos, mas o nosso amor pelos gatos é verdadeiro! Ensaiámos num abrigo de gatos desde a formação da banda em 2000. E quase todos temos gatos em casa. À exceção de um dos guitarristas, que tem um cão, mas gosta tanto de gatos como dele, e do nosso teclista, que preferiu fazer um filho em vez de ter gatos em casa. Prefere mudar fraldas a mudar a areia do gato. É uma escolha bizarra, mas, de qualquer modo, ele é um tipo estranho. Aliás, nem sei o que está ele a fazer na nossa banda. Há já alguns anos que ensaiamos sem os gatos na sala, devido a uma história sinistra de urina num amplificador, mas eles estão connosco durante as fases de composição e mistura dos álbuns, bem como durante as nossas numerosas pausas para tomar café. Se precisamos de três anos para acabar um álbum, a culpa é principalmente deles, porque as festas e as brincadeiras são extremamente “cronófagas”. Além disso, muitas vezes eles ocupam as noites a editar as pistas e a rearranjar partes das canções, quando estamos distraídos. É certamente por esse motivo que a nossa música é, por vezes, um tanto desconexa. O último álbum é dedicado a um dos meus gatos, que morreu no ano passado, quando estávamos a finalizá-lo, depois de 19 anos passados em cima dos meus joelhos a impedir-me de trabalhar no computador carregando na barra de espaço. Eduardo – Na vossa biografia, apresentam-se como uma banda definida por uma história/uma viagem trágica. O que aconteceu ao certo? Ora bem. É sempre difícil escrever uma biografia. Quando lemos a biografia de outras bandas, acabámos geralmente a rir às gargalhadas. Frequentemente,

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são um tanto ridículas, apresentando sempre os mesmos clichés ultra formatados. Portanto, optámos por uma biografia um bocado disparatada, em que explicamos que não sabemos escrever biografias e onde acabámos por nos sabotar a nós mesmos, dizendo que somos um zero à esquerda e que temos um percurso trágico [ou seja, que a nossa carreira é uma anedota]. É, sem dúvida, uma atitude um tanto idiota, mas decorre do facto de querermos fazer o contrário do que acontece nas biografias habituais, em que os músicos são sempre maravilhosos, têm um percurso exemplar, a sua música é revolucionária e, logicamente, têm o sucesso garantido. Para ser franco, pretendemos fazer uma verdadeira biografia, da próxima vez que atualizarmos a nossa página na internet, mas é mais para termos uma visão de conjunto da banda depois de 17 anos de existência, e vamos tentar escrever algo em que não nos “armemos tanto em espertos”. Infelizmente, é necessário jogar o jogo para poder comunicar com certos interlocutores profissionais. É difícil pedir subsídios ou ser aceite em certas salas de espetáculos com uma biografia em que só dizemos disparates e explicamos que estamos condenados ao fracasso! Noutras situações, continuaremos a usar as nossas velhas biografias “foleiras”. Na próxima que fizermos, vamos tentar ser ainda mais idiotas! Cristina e Eduardo – O vosso álbum pode parecer uma brincadeira, mas não é mesmo nada disso. Usando uma escala que vá de zero até à insanidade total, como classificariam a vossa música? E que é esse “roccoco core” que vocês criaram? De facto, apesar das passagens humorísticas nas nossas composições, antes de mais, queremos propor uma música interessante. Não somos exatamente uma banda de farsantes, penso eu. Há segundos sentidos aqui e acolá, porque isso faz parte de nós. Mas a ideia primordial é propor uma música que as pessoas gostem de ouvir. Aliás, frequentemente, certas passagens que dão vontade de rir, sem dúvida pelo absurdo da mistura, foram escritas com muita seriedade. Quando compomos um excerto de Latin Jazz ou inserimos

um vibrafone num contexto de riffs de Metal, não queremos gozar ninguém, é porque acreditamos piamente que soa bem assim. Por vezes, é evidente que nos apetece fazer sorrir e que não nos levem a sério, quer seja na composição, quer no uso de certos instrumentos num dado momento, mas, no fim de contas, esse aspeto corresponde a uma ínfima percentagem da nossa música. Quanto à classificação usando a escala de 0 a 11, é difícil de fazer. Depende do termo de referência. Se compararmos Pryapisme ao último álbum de Pink, devemos andar pelos 12. Nunca usámos a estrutura quadra/refrão, misturamos influências, a nossa música é toda instrumental e ninguém sabe de onde vêm alguns dos nossos acordes. Mas se nos compararmos a certas obras da vanguarda musical, como alguns álbuns de John Zorn, por exemplo, devemos estar mais ou menos no 2. Convém precisar que não estou a referir-me a “qualidade musical” e ainda menos a criticar gostos pessoais, estou apenas a pensar em termos de estruturas de composição. Aliás, tenho em minha casa álbuns de John Zorn e de Pink ! O Rocococore já vem do nosso primeiro álbum, em que precisámos de criar um estilo para nos apresentarmos. Pareceu-nos que algo como Electro/ j a z z /m e t a l /d i s c o / f u s i o n / w o r l d / clássico era demasiado longo para se pôr no cartaz de um concerto. Então fizemos um brainstorming e surgiunos o termo Rococó. Queríamos uma palavra que representasse o exagero, que mostrasse que se trata de algo que fere os olhos como uma cómoda ou uma igreja de estilo rococó, que têm sempre demasiados dourados, muitos pormenores, um excesso de tudo. Víamos a nossa música como algo com demasiadas notas, influências e com um lado relativamente indigesto. O sufixo “-core” servia mais ou menos para fazer rir. Mas também nos lembrámos de que os estilos/géneros musicais cujos nomes incluem “-core” são sempre violentos, o que nos interessava um pouco. Cristina e Eduardo – Podes falarnos um pouco das características da vossa música nessa obra-prima que é « Diabolicus Felinae Pandemonium »? Obrigado pelo uso do qualificativo


“[…] SOMOS MUITO IRÓNICOS, MAS O NOSSO AMOR PELOS GATOS É VERDADEIRO! ENSAIÁMOS NUM ABRIGO DE GATOS DESDE A FORMAÇÃO DA BANDA EM 2000. […]”

“obra-prima”, é muito simpático da vossa parte! Levámos três anos a fazer o álbum (mais propriamente quatro, porque só vai sair agora em 2017). Começámos a trabalhar nele em 2013 e acabámos a masterização no fim de 2016. A composição foi demorada e a banda só conseguiu atingir uma formação estável nestes últimos anos. Agora somos cinco (em vez de três, como no álbum anterior) e, se não tivermos em conta os EPs, que são verdadeiramente um caso à parte, este último álbum foi realmente feito pelos novos membros, que inicialmente só estavam connosco nos concertos. Portanto, tivemos de compor tendo em conta várias contingências: o facto de termos dois guitarristas (um mais Metal, que toca com palheta, e o outro, mais clássico, que toca com os dedos); a importância acrescida do baixista, já que dantes recorríamos quase sempre a baixos sintéticos. Por outro lado, nos concertos apostamos muito mais nos instrumentos analógicos, logo quisemos incorporar essa tendência neste nosso último álbum. Em suma, temos mais verdadeiros instrumentistas, apesar de também aparecerem muitas camadas de instrumentos programados. Algumas faixas foram escritas pelos novos

membros ou com eles, o que confere ao álbum uma certa frescura. Em suma, procurámos criar um álbum mais quente no que diz respeito às texturas, menos digital, mais parecido com o nosso álbum de estreia, ao mesmo tempo que apostávamos bastante em excertos muito eletrónicos, de forma a podermos tocá-los em cena. As ideias de base são mais ou menos as habituais. Nós não trabalhamos “a toque de caixa”! Quer isto dizer que não há limites para o que queremos fazer ou evitar. Este álbum é um bocadinho mais sério do que os outros no que toca aos ambientes. Algumas partes estão mais desenvolvidas e há menos pausas. Mas, na nossa opinião, embora seja um novo álbum e apresente bastantes mudanças, continua fiel ao nosso universo, não atraiçoa as nossas raízes. Cristina e Eduardo – O álbum gira em torno da ideia de que os gatos deviam governar o mundo. Por que escolheram os felinos para desempenhar esse importante papel? Agora já estão conscientes da veracidade do amor que nutrimos pelos gatos. Foi dele que partimos para definir o tema do álbum, a sua ideia de base. Aliás, contamos desenvolvê-lo mais em

álbuns futuros. Também nos baseámos no facto de estar sempre pelo menos um gato connosco durante o processo de composição. Assim, a ideia de os gatos governarem o mundo acabou por nos parecer bastante tentadora. Parece-me que a imagem do gato está presente por todo o lado, desde que apareceu a internet. Os Lol-cats são um verdadeiro fenómeno social, que está a ser estudado por alguns sociólogos e outros intelectuais, tendo em conta a especificidade das suas disciplinas científicas. Pode parecer ridículo, mas é verdade. Por outro lado, os gatos sempre ocuparam um lugar especial na nossa sociedade, desde o Antigo Egito. Desde o início do milénio, ganharam uma certa importância e parecem omnipresentes, tanto no computador como na TV. Poderíamos refletir sobre as razões pelas quais isto acontece, o que me parece um propósito interessante, mas a nossa ideia era muito simplesmente partir desta constatação e levá-la ao absurdo, imaginando que os gatos têm um plano para dominar o mundo, recorrendo a métodos insidiosos como, por exemplo, estarem presentes em milhões de vídeos. Combinámos isto com a ideia do nascimento do gato de Satã, à

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semelhança do filme « Rosemary’s baby », de R. Polansky, ou de «Prince of Darkness», de John Carpenter. E aqui têm a súmula do conceito subjacente ao nosso álbum. Juntámos a isso uns miados de gatos presentes em todo o álbum, um morphing que passa do som de Moog a uma espécie de ronronar e outros subtis elementos felinos e aí têm um álbum concetual. Tem um ar super bem elaborado, quando, no fim de contas, desenvolvemos muito pouco o tema central, que é mais sugerido do que presente, penso eu. Cristina – Adorei os títulos das canções completamente “felinos”. Como os escolheram ? Usámos o processo habitual. Algumas canções só tinham títulos provisórios, portanto só encontrámos o título definitivo ouvindo a versão final e procurámos mantê-lo o mais próximo possível do tema do álbum. Outras já tinham títulos à partida. Não há regras fixas. A não ser o facto de que quem compõe a canção é que lhe dá o título. Como fui eu que compus a maior parte do disco, os outros não tinham grande coisa a dizer e não houve vetos. Escrevi duas canções com o Nils (o guitarrista clássico) e outra foi escrita apenas por ele, mas ele também me deixou escolher os títulos. Escapou “A la Zheuleuleu”, que ficou com o título provisório que lhe tinha dado o Antony (o baixista), que fez questão de o manter. Em contrapartida, “Carambolage fillette contre individu dragon non-décortiqué” só foi validado uma semana antes de começarmos a masterização. Estávamos a regressar de um concerto e a ideia veio-me à cabeça numa estação de serviço, onde chegámos no nosso camião de digressão a comer amendoins e só com algumas horas de sono. Cristina – O vosso álbum faz-me pensar num dos trabalhos dos italianos Ephel Duath, que aliás acabam de desaparecer. Trata-se de um álbum intitulado «Through My Dog’s Eyes», lançado em 2009. Que pensas desta aproximação ? Só conhecia essa banda de nome e não penso que os outros a conheçam melhor, exceto o Antony, que, tanto quanto me lembro, gostava muito

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de um dos seus primeiros álbuns, há um bom tempo atrás. Assim, fui ouvir esse álbum para poder responder à tua pergunta e gostei muito. A música é verdadeiramente surpreendente, os músicos são muito bons e encontrei nele muitas ideias boas que me deram vontade de conhecer melhor o seu trabalho. Em contrapartida, como acontece muitas vezes, infelizmente, não gosto da voz. Na minha opinião, o trabalho deles ficaria melhor, se fosse só instrumental ou se tivessem outro vocalista. Acho que a voz deste estraga um pouco a música, que, no entanto, parece interessante, mesmo após uma escuta superficial. De qualquer forma, percebo de onde vem a relação que estabeleces entre a música deles e a nossa, apesar de me parecer que há uma grande distância entre eles e nós, tendo em conta uma série de pontos. Teríamos ficado aborrecidos, se nos tivesses comparado com «Lulu», de Metallica [e Lou Reed], ou com o último álbum de Eros Ramazzoti, já que estamos a falar da Itália. Mas Ephel Duath é fixe ! Cristina e Eduardo – Este álbum é sobretudo instrumental. Como pensam que os fãs vão conseguir compreender o conceito subjacente a ele – a « Era do Gato » – se quase não tem letras? Apresentam a história deste álbum no CD (por exemplo, sob a forma de um livrinho que o acompanhe)? Não apresentamos quase nada no livrinho. Fizemos sempre tudo de forma a permitir ao ouvinte “criar” as suas próprias imagens para a nossa música. Há coisas que nos parecem claras na relação entre alguns títulos e o tema do álbum, mas outras mantemo-las vagas propositadamente. As ideias são claras para nós, mas deixamos às pessoas a liberdade de construir a sua própria história. O texto de apresentação do álbum, que faz referência ao gato de Satã, nem sequer está presente no livrinho, apenas é mencionado na informação apresentada aquando da saída do álbum. Eis aqui alguns exemplos do sentido que lhe atribuímos. Certos títulos contêm referências muito claras ao tema: “LaBoétie stochastic process” refere-se a


“[…] APESAR DAS PASSAGENS HUMORÍSTICAS NAS NOSSAS COMPOSIÇÕES, ANTES DE MAIS, QUEREMOS PROPOR UMA MÚSICA INTERESSANTE. […]”

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“[…] NUNCA USÁMOS A ESTRUTURA QUADRA/ REFRÃO, MISTURAMOS INFLUÊNCIAS, A NOSSA MÚSICA É TODA INSTRUMENTAL E NINGUÉM SABE DE ONDE VÊM ALGUNS DOS NOSSOS ACORDES. […]”

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Étienne de La Boétie, o escritor francês do séc. XVI que escreveu sobre a servidão voluntária. Era um sujeito verdadeiramente visionário. Criámos essa ligação para relacionar a servidão voluntária do Homem em relação ao Gato com a escravatura a que o segundo normalmente reduz o primeiro. Também há um sample nessa mesma canção, em que se ouve uma velhota a barafustar contra os gatos que vandalizam o seu jardim (trata-se da vizinha de um dos nossos guitarristas, que foi gravada à revelia – é um sample autêntico!) Se se atentar nos títulos que espelham a ideia da existência de um gato diabólico, a coisa torna-se ainda mais clara. A primeira faixa do álbum – “Un max de croco” – inclui muitos elementos de música persa e do Médio Oriente, dado que, no mundo muçulmano, o gato é muitíssimo respeitado. Fazer mal a um gato é um pecado contra as leis do Islão. Conta-se que Maomé foi salvo pelo seu gato, quando ia ser picado por um réptil. O título também evoca a figura do crocodilo que come homens presente no nosso imaginário coletivo (e também Schnappi, o crocodilo, personagem central dos desenhos animados preferidos das crianças alemãs). Por esta ordem de ideias, o crocodilo é, simultaneamente, um ser malévolo e um amigo das crianças. Um pouco como o nosso gato diabólico, um falso salvador, que na realidade nos quer devorar, mas que passa por um gajo simpático. “Tau Ceti Central” faz referência a um livro de Dan Simmons, em que figura uma criatura coberta de picos. Não vou ser um “spoiler”, mas todos os que lerem o livro vão ver que ele fala de

uma espécie de gato do futuro. No fim de contas, o título é mais uma tentativa de apresentação do universo geral de uma aldeia que aparece no livro do que uma referência ao personagem acima referido, mas ele faz parte da história na mesma. Para terminar, é de referir que alguns dos títulos, como “Totipotence d’un erg”, o da composição que fecha o álbum, são mais poéticos, logo podem ou não fazer sentido para o ouvinte. Vemo-lo como o nascimento, o início do ciclo da dominação. Mas, é claro, as pessoas podem limitar-se a apreciar a música, sem se preocupar com esses pormenores. Eduardo – A nona canção do álbum chama-se “C++”. Trata-se de uma linguagem de programação informática criada pelos gatos para submeter o mundo ao seu poder e governar a galáxia? Apreendeste perfeitamente a ideia que queríamos transmitir: o gato que cria a sua própria linguagem de programação informática. Na parte final da faixa, ouvem-se miados de gatinhos, no meio de uma grande confusão, e ainda misturados com ruídos de animais mais exóticos, Era essa ideia que tínhamos em mente. Cristina e Eduardo – Quem está encarregado de compor a música? E como se desenrola esse processo tão difícil? Bem, não há regras, mas, a maior parte das vezes, desde o nosso segundo álbum, sou eu que me ocupo disso. Todos podem trazer as suas ideias, mas eu sou o compositor principal. Nils e Antony também participaram

um pouco no primeiro álbum. Ban, o teclista, que escreveu uma grande parte do nosso primeiro álbum, neste momento não está muito virado para a composição. Portanto, eu escrevo as várias composições por inteiro, sobretudo em MIDI no computador. Depois, junto tudo, para fazer uma demo, que se possa ouvir. Passo todo o material aos instrumentistas, que vão trabalhar que nem bestas para conseguir tocar tudo o que eu escrevi. Eventualmente, rearranjamos algumas partes e, de seguida, regista-se tudo. O problema é que eu não sou guitarrista, nem baixista, logo não conheço as posições em que se pode tocar esses instrumentos. Logo, escrevo coisas que me parecem passíveis de serem tocadas, mas frequentemente dizem-me que é absolutamente absurdo e demasiado difícil, que, por exemplo, não é possível posicionar os dedos daquela maneira numa guitarra. Às vezes, trabalhando um pouco, consegue-se resolver o problema, mas, frequentemente, é preciso simplificar a composição de base. No que diz respeito aos teclados, é parecido. Quase todas as passagens de teclas do álbum foram escritas por este vosso criado, algumas foram tocadas mesmo, mas a maioria resulta de pequenos clics do rato do computador usando um programa. Como, para os concertos, o teclista tem de aprender a tocar tudo, acaba por me amaldiçoar. Os outros gajos devem ter todos um boneco de vudu feito à minha imagem e semelhança e espetarlhe alfinetes, enquanto trabalham nas partes relativas aos seus instrumentos. Mas, lá bem no fundo, todos gostam muito de mim. Apesar de ser manhoso, faço-lhes café, aqueço a sala de ensaios

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e espeto-lhes um gato em cima dos joelhos, quando estão deprimidos. Eduardo – A vossa música é muito complexa, compreende numerosas camadas, muitas variações de ritmo, uma grande diversidade de instrumentos. Como fazem para transpor essa complexidade para os concertos? Como conseguem sincronizar-se? Antes de mais, é preciso fazer opções: algumas partes [gravadas] têm de ser obrigatoriamente cortadas, mas o facto de sermos cinco no palco permite-nos mesmo assim dividir entre nós as camadas e fazer o necessário para conservar o máximo possível do que está escrito. Desde há algum tempo que, nos concertos, cada um tem um pequeno teclado – além do seu instrumento – o que causa uma imensa barafunda no palco, mas é o preço que temos de pagar para manter o estilo das composições. De vez em quando, usámos também um sampler, para apresentar sequências pré-preparadas, nomeadamente partes sinfónicas ou vozes. As partes 100% eletrónicas sem bateria são tocadas num “Tempest”, uma espécie de sintetizador e drum machine analógico absolutamente extraordinário, que permite tocar verdadeiramente um instrumento, em vez de usar o comando “play” num computador, como faz a maior parte das bandas eletrónicas, infelizmente. No que toca à sincronização, à exceção das partes em que as batidas e as sequências têm se ser tocadas com um tempo definido, procurámos sincronizar-nos da melhor forma possível, lançar os samples no momento oportuno e estar atento às mudanças de tempo registadas na versão escrita da composição. Não há milagres: é preciso ensaiar muito, antes de estarmos em condições de ir para o palco. Treinamo-nos o mais que podemos a tocar as composições com um “click”, para podermos passar sem ele durante os concertos. É claro que, como não somos máquinas, o tempo altera-se, porque eu fico tão contente de estar a tocar que acelero à bruta, o teclista confunde notas às vezes (mas não é ele, são os seus dedos) e os guitarristas ocasionalmente fazem o mesmo barulho que o som de

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Guitar Hero, quando te enganas na tecla. Também há os espertalhões que têm os seus segredos: quando estamos no palco e vês o guitarrista que utiliza o seu vibrato, isso significa que se esqueceu da sua parte e que finge tocar como o Gary Moore para esconder o facto de estar completamente perdido. Em suma, fazemos o melhor que podemos, mas nem sempre sai perfeito. No entanto, somos cómicos e estamos sempre felizes por ter a oportunidade de tocar e isso compensa pelos eventuais problemas que possam surgir. Cristina – A capa do álbum é espetacular. Quem teve a ideia de usar uma ecografia de um feto de gato para a ilustrar ? A história é um pouco sinistra. Uma das nossas gatas teve um aborto. Encontrámos uma espécie de feto de gato numa cesta. Metemo-lo num tubo de ensaio cheio de formol e tirámos fotografias. Queríamos obter algo visual que evocasse «2001: Odisseia no espaço», com um planeta em pano de fundo e este feto de gato no primeiro plano. Passámos esse material à Julie Gagne, a artista gráfica que trabalha connosco desde 2015. Foi ela que teve a ideia da ecografia. Pareceu-nos fantástica e adotámo-la logo para o lado gráfico do álbum. Adaptava-se perfeitamente ao título do álbum, que já estava decidido há algum tempo. Como sempre, ela fez um excelente trabalho. Cristina – E quem concebeu a foto promocional da banda, que evoca tão bem os felinos de pequeno porte? Como é sempre mais simpático tratar de tudo em família, pedimos ao meu irmão mais novo – Nathaël Garachon – que é um jovem fotógrafo, para nos ajudar nesse capítulo. Pensámos juntos no assunto, para encontrar uma ideia mais original e ficar o mais longe possível das habituais fotos promocionais, em que os músicos fazem cara de maus e cruzam os braços num cenário de fábrica abandonada. Tínhamos feito uma espécie de pastiche para troçar dessas fotos ridículas, posando como metaleiros malévolos num campo de flores. Foi uma piada para o Facebook, mas aparecemos assim em sites de

notícias, à laia de foto promocional. É dramático! Para abreviar, o Nathaël trabalhou como uma besta para conseguir fazer a montagem da nova foto promocional, dado que estava apenas a começar a aprender a fazer tratamento digital, e estamos absolutamente encantados com o seu trabalho. Eduardo – Levaram três anos a criar este álbum. O que aconteceu durante esse tempo? Quais foram os momentos mais difíceis desse período ? Durante esses três anos, fizemos alguns concertos e lançámos três EPs, que consumiram algum tempo. O que se intitula «Futurologie» devia ser uma composição a integrar no nosso novo álbum, mas a editora sugeriu que saísse sob esse formato, não só porque o álbum teria ficado demasiado longo, mas sobretudo porque contava uma história diferente do resto do álbum. Houve também um EP feito a partir de versões 100% Chiptune de composições antigas. O mais recente – «Repump the Pectine» – é uma reedição da nossa demo de 2005, com versões modernizadas das faixas. Também queríamos gastar o tempo que fosse necessário para acabar este último álbum: gravar verdadeiros instrumentos exigiu muitos meses de aprendizagem para que ficasse bem. A mistura foi feita em duas fases: primeiramente, em nossa casa, fizemos o grosso do trabalho, porque tínhamos uma infinidade de pistas; depois, trabalhámos com o Simon “Oreilles d’Or” Capony, o engenheiro de som do Basalte Studio, que fez o trabalho final. Sei que não foi fácil, mesmo para um profissional de alto nível como ele, misturar um álbum de Pryapisme, devido à grande quantidade de camadas. O momento mais difícil, para ser franco, foi a morte do meu velho gato, a quem agradecemos imenso neste álbum, que, aliás, lhe foi dedicado. A morte de um gato que conhecemos há 19 anos, que fez parte da vida quotidiana da banda desde a sua formação, é verdadeiramente difícil. Ficámos parados durante alguns meses. Lembramo-nos de que ele gostava mesmo muito de entornar os nossos copos de vodca, quando


troçávamos um pouco dele, e que apagava frequentemente as gravações das guitarras, carregando na tecla “Del” com uma pata. Um outro momento difícil foi quando um dos guitarristas resolveu dormir com a mãe do baixista e o teclista divulgou o vídeo no Porntube. Nessa altura, a banda quase acabou, mas, por fim, resolveram fazer biscoitos e voltou tudo ao normal. Falando seriamente: penso que, para que uma banda dure 17 anos, é preciso pelo menos que nos entendamos todos mesmo bem, o que é o nosso caso. A exceção é o baixista, que é insuportável, é claro. Cristina – Este não é o vosso primeiro álbum. Os outros também são dedicados aos gatos? E a música é da mesma craveira? Tens de ir já ouvi-los! Mas é verdade: tirando o nosso EP de 2005, os gatos estão presentes em todo o nosso trabalho. Quanto à música, posso dizerte que a banda é sempre a mesma, mas logicamente evoluiu muito ao longo destes 17 anos. «Rococo Holocaust», o nosso primeiro álbum, já era deste género, mas, nessa altura, éramos só quatro e um era violoncelista. O lado electro era mais discreto, mas já estava presente. O segundo álbum – «Hyperblast Supercollider» – era mais digital, mais frio e cru e também

muito mais violento. Fizemos sempre o mesmo género de música, dado que nunca aceitámos barreiras e que fizemos sempre o que nos dava na real gana. Eduardo – Ao que parece, a França tem tendência a dar origem a bandas completamente chanfradas. Estava a pensar nos Carnival In Coal (que já não existem). O que pensas desta ideia? É verdade que há bastantes bandas francesas originais, que é difícil encaixar em classificações. É claro que podemos pensar em Carnival In Coal, que ouvimos com muita atenção na nossa juventude e que nos ajudou a assumir a ideia de fazer música que não possa ser associada a um só estilo. Mas também há Igorr, Hardcore Anal Hydrogen ou, mais recentemente, ôOoOoOoOoOo. Gostava também de referir, num registo muito diferente, a banda Von Magnet, que também revela uma multiplicidade de influências: Eletrónica, Flamenco, Industrial, música turca e do Magrebe… Parece-me que isto acontece, porque a França tem a sorte de estar no centro de uma infinidade de culturas musicais. Como muitos outros países ocidentais, é fortemente influenciada pela música anglo-saxónica, mas também pela frieza da música dos países do norte – sobretudo no que concerne à música eletrónica e ao Metal – e ainda pelos

contributos culturais dos países do sul e do oriente – incluindo a música latina em geral, mas também a da África do Norte, dos Balcãs ou o Klezmer [música não litúrgica judaica] ou ainda música asiática… Tudo isto, por um lado, pode dificultar a criação de novos géneros musicais verdadeiramente únicos e reconhecidos como autóctones (mas ainda temos alguns, tais como o Manouche ou o French-Touch...), mas, por outro, permite-nos alimentarmonos de todas estas influências e fabricar a nossa própria cultura a partir das dos outros. É assim que eu vejo estas coisas. Mas, ao mesmo tempo, a internet permite a todos fazerem isto. Há grupos de Death Metal em África, bandas de Eletro/Metal que também usam instrumentos tradicionais na Índia… A França está longe de ser o único país que apresenta estas misturas insólitas e isso é muito bom. Cristina e Eduardo – Agradecemos o tempo que nos dispensaste. Muito obrigado a vocês e aos vossos leitores. https://www.facebook.com/pryapisme/ https://youtu.be/lANSsFNoC-g https://youtu.be/dvPYIjm-fmE

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O Grande Regresso Seria, talvez, uma espécie de “Santo Graal” do Metal contemporâneo, não em forma da busca e descoberta do cálice sagrado mas sob a forma de uma reunião há muito desejada pela comunidade metaleira. Esse dia chegou e os Helloween preparam uma digressão com os membros actuais e os sempre míticos Michael Kiske e Kai Hansen. Dois mil e dezassete, vinte e quatro anos depois marca o Grande Regresso! Entrevista: Eduardo Ramalhadeiro Transcrição e Tradução: Hugo Melo Fotos: Franz Schepers

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Olá Michael, como estás? Michael: Está tudo bem. Bem, melhor agora que serviram um Nescafé. Relativamente a esta reunião dos «Helloween», quando é que sentiste que era altura para te reunires com o Michael Kiske e o Kai? Michael: Em primeiro lugar, e como disse nas outras entrevistas, o Kai foi aquele em quem a ideia sempre esteve presente, e o quis fazer fosse de que forma fosse. Levou algum tempo até que nós conseguíssemos falar e acabássemos com as hostilidades, até porque a situação não era boa para nenhum de nós, só era boa para aqueles que não gostam de nós e querem arranjar problemas. Não é divertido ter más vibrações. Conseguimos ultrapassar isso, afinal tenho 54 anos e já não temos muito tempo para ainda haver ressentimentos de coisas que aconteceram há tanto tempo. Vinte e quatro anos depois, qual foi o sentimento de entrar no estúdio com o Michael e o Kai? Não chegámos a entrar em estúdio… …Estava a referir-me aos ensaios. Michael: Não, não é assim. Quer dizer, não estás completamente errado. Há uns meses atrás, no ano passado, nós encontrámonos em frente da sala de ensaios dos Helloween, e estava lá o Sascha Gerstner, o Michael Kiske, e o Kai, e tínhamos todos os nossos iphones (risos)… sabes, foi realmente estranho estar diante da sala de ensaios da banda actual de Helloween com membros antigos. Para além disso o Markus estava igualmente a caminho. Foi estranho, mas divertido.

Como é que achas que a química vai funcionar quando os sete estiverem no mesmo espaço? Michael: Isso está para se ver, mas já estivemos todos no mesmo espaço, em reuniões de trabalho relacionadas com estes temas. ... Referia-me musicalmente. Michael: O primeiro ensaio geral terá, provavelmente, lugar em Maio ou por aí. Até lá haverá ensaios entre os guitarristas, depois o baixo e a bateria e depois as vozes. Porque todos vão tocar. Isso sim vai ser interessante. Vinte e quarto anos foi muito ou pouco tempo? Michael: Pouco, porque passou num instante. Estes vinte e cinco anos passaram como nada. As pessoas que vão ler esta entrevista e tenham 54 anos, também questionam onde o tempo foi. Acredito que estejam a preparar a digressão e tenho esperança que toquem aqui em Portugal. Tocaram cá, no ano passado, no Vagos Metal Fest. O que é que podemos esperar? Vão ter algo diferente nesta digressão? Michael: Bem, estamos a preparar pequenas surpresas e uma boa apresentação a num nível nunca antes visto. Eu gosto de lhe chamar Mobile Vegas Show. Seja o que for estamos ansiosos para ver como as nossas ideias poderão ser incorporadas. É como o Michael Kiske diz, tudo o que seja exequível será feito por forma a dar aos nossos fãs a melhor experiência. Questionaste sobre o estúdio e o ensaio, mas estamos ainda no planeamento inicial, de preparar e compreender o todo. Espero sinceramente que toquem em Portugal porque realmente

quero ver esta reunião de Helloween. Michael: Espero que sim, como sabes está dependente de um impulsionador que queira promover algo deste género e, no último concerto, viste que havia um indivíduo que estava interessado na viabilização do festival naquele local, e parece-me que correu muito bem. Acredito que o mesmo promotor possa estar por detrás de alguma coisa que venha a acontecer em Portugal. Agora são sete músicos ao vivo. Vão estar os sete no palco durante todo o concerto? Michael: Não sei, mas supostamente sim. Não sei se haverão secções ou pequenos intervalos… Mas têm existido conversas relativamente a ir nesse sentido. Relativamente à set list, podes nos desvendar que músicas serão tocadas nesta digressão? Michael: Queremos tocar aquilo que gostamos, mas creio que nem cinco horas seriam suficientes para cobrir todas as musicas, pelo que algumas certamente não encontrarão o caminho até à set list, mas os novos e os antigos membros estão a trabalhar activamente para encontrar o equilíbrio. Até já temos uma musica que terá será ensaiada numa versão diferente. Pode acontecer que daqui a um ano ou dois, algumas músicas que não tinham inicialmente sido escolhidas, possam a ser utilizadas numa outra digressão. Já agora, o tempo de cada concerto nesta digressão rondará as 2h40m. Tens alguma ideia relativamente às musicas originais? Vão, por exemplo, fazer alguma harmonia para as três guitarras? Michael: Onde possível e fácil, sim.

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É essa a ideia. O Sascha já referiu que espera que os dois magos do passado venham para a frente do palco fazer a merda do costume e que ele vai ter de ficar atrás a aguentar a estrutura musical. Acho que é um bom conceito e não me importo que estejam todos à frente, se possível, a fazer cenas espectaculares. Vamos falar dos haters. Não gosto quando criticam apenas porque sim. Vocês têm pessoas que odeiam, apear de achar que odiar é uma palavra forte… Michael: É uma polarização de pontos de vista, e hoje em dia chamam a isso ódio, mas sim, creio que é um termo excessivo.

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Como é que te sentes quando as pessoas criticam a banda e comparam o Andi com o Michael? Estas criticas, na minha opinião, são infundadas. Qual é a tua opinião? Michael: Aprendi a evitar qualquer tipo de reacção que me possa colocar numa posição em sei que vou ficar irritado. Muitas vezes apenas te querem testar e ver como reages. O que está em causa é o facto de quando tens um membro na tua banda durante tantos anos e depois ele começa a tocar numa outra banda, nunca é fácil. Os Helloween nunca teriam existido se não fossem os ex-membros. Eles estavam ocupados noutros projectos, com Kai nos Gamma

Ray e o Michael Kiske a voar de flor em flor para dar a sua voz a todos os projectos que apareciam e, no meio desta confusão toda, tentar não prejudicar os Helloween e a tentar não cancelar muitos concertos ou tentar não perder a voz. Os vocalistas correm sempre um risco enorme. Se um dia acordasse e soubesse que era um vocalista, acho que me suicidava. Querer ser um pretenso guitarrista de rock n’ rol de uma banda como os Helloween já é mau e difícil o suficiente, especialmente com um monstro da guitarra na banda como é o Sascha. Tecnicamente ele é muito melhor. Tens de nivelar as tuas próprias expectativas para que tudo corra bem, e se as pessoas vêm


“Isto é mais um projecto de união que uma reunião (...)” de fora a queixar-se “não gosto do Daniel”, “não gosto daquelas cenas hippie da era do «Keeper»”, é da identidade da banda que estamos a falar, como houve o «Chameleon», ou o «Dark Ride». Não sou um particular fã do «Dark Ride» mas tem uma produção soberba e a música é completamente diferente. Isto só foi possível porque os fãs de Helloween quiseram ouvirnos, comprando os álbuns e indo aos concertos. Como banda tens de funcionar, estás a ver. Somos apenas humanos, e há humanos envolvidos, não somos robots nem máquinas, embora o tentemos ser. No entanto, ao final do dia, vais para cama porque precisas de descansar ou vais à casa de banho. Eu compreendo as pessoas, e compreendo o que aconteceu com o Ripper Owens e o Halford, mas as minhas simpatias vão para os Savatage. A vida não é fácil. Podes ir trabalhar para uma fábrica ou tornares-te um condutor se a tua banda não vender álbuns ou se der concertos giros e engraçados e tal, mas não aparecerem muitas pessoas. Felizmente nunca precisámos e devemos isso tudo aos nossos fãs. A banda passou momentos difíceis com o problema com a editora, a saída do Michael e do Kai e com a morte do Ingo. De que forma estes eventos se reflectem na tua música e letras?

Michael: Bem, há sempre qualquer coisa em algum lado. A «Soul Survivor» foi composta logo a seguir à saída deles e foi para comparar os velhos Helloween com os novos. Tens também a «Heavy Metal Hamsters» que fala da forma como quatro ou cinco músicos saíram em conquista do mundo, é sobre os Helloween e outras bandas. É também sobre os Deep Purple, é um mix entre Helloween e Deep Purple. Relativamente ao «Chameleon». Apesar de estar envolvido em controvérsia, acho que não lhe foi feita justiça. Acredito que muitas pessoas não gostem dele por ser tão diferente dos outros. Pessoalmente gostei imenso por isso mesmo, por ser diferente do típico álbum de Helloween. Consideras o «Chameleon» um álbum típico de Helloween? Michael: Não, não é típico, e de facto tínhamos grandes expectativas relativamente a ele porque poderia ter sido melhor e mais diverso e creio que não precisava de ter tantos momentos lentos. Há momentos que são realmente entediantes que poderiam ter sido evitados, mas foi o que ficou e obrigou a um grande esforço. Foi difícil porque o Ingo não se sentia bem na altura e estávamos todos a trabalhar para tentar acabar as coisas. Havia os músicos clássicos, as gravações, acontecia tanta coisa

ao mesmo tempo. Musicalmente poderia ter sido mais inteligente ou mais vivo ou mais rápido… Poderia ter sido perfeito e nós percorremos apenas metade do caminho, mas ainda assim ficou algo bastante interessante. Um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos é o «Live in the U.K.». Conheço-o de cor bem como todas as letras. No entanto só tem sete músicas… Encontras no youtube o áudio do concerto completo. Porque é que o álbum saiu incompleto? Ainda têm, mas master tapes? Há algum hipótese de, para as comemorações do 30º aniversário, saia o DVD completo? Michael: Isso é outra coisa que o Kai Hansen sempre quis fazer. Nós sabemos onde estão as gravações, o problema com as cassetes é o mesmo que já acontecia com a primeira parte do «Live in the U.K.». Houve um problema com a gravação das baterias porque, em diversas ocasiões, como por exemplo em Londres, um dos bombos está em falta nas gravações porque não foi gravado. Só havia um microfone instalado pela equipa e eles não esperavam que a bateria tivesse dois bombos por isso só um foi gravado. O Daniel então programou o bombo em falta. As faixas estão lá e podem ser recuperadas e dessa forma ser possível editar um «Live in U.K, II». É possível, mas vai consumir 87 / VERSUS MAGAZINE


imenso tempo e a questão que se coloca é essa mesmo, quando é que haverá tempo, mas de facto essa ideia assola o Kai à imenso tempo. Porque é que disseste que não gostavas do «Dark Ride»? Michael: Pessoalmente não foi um bom período para mim e houve alguns…. Vamos chamarlhes desentendimentos dentro da banda e não gostei do que se passou. Estava a sofrer com o que se passava. Mas é um grande álbum! Michael: Sim, é um resultado que consegues ouvir, mas não tiveste por dentro, com aquela tensão toda… Tivemos o Charlie Bauerfeind como engenheiro e produtor, e o Roy Z como coprodutor e as coisas andavam estranhas. Há músicas que não entraram no álbum que são típicas músicas à Helloween. Na altura havia algum movimento dentro do “governo” para que os Helloween tivessem um som mais sério e obscuro, à semelhança de talvez uns Queensrÿche, ou algo assim. Eu defendo que se a banda nasceu de uma determinada forma e, se essa é a razão pela qual a banda ainda existe, deve permanecer nesse registo. Não quis nos nivelar pelas bandas americanas, com aquela sonoridade mais rock comercial como os Mötley Crü. Atenção, eu acho que eles fizeram um trabalho notável, mas foi a escolha deles e conseguiram um trabalho muito interessante, mas não aceito que a minha identidade me seja negada porque não soamos mais como os Iron Maiden. Da editora alguém teve a brilhante ideia de nos tornar mais obscuros e lentos como Rammstein e Judas Priest. Tudo o que fizemos depois do «Dark

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Ride» foi excelente. É como alguém aparecer de repente, tomar conta da tua revista e dizer “vou tomar conta da tua revista porque faço-o melhor que tu, porque já não tens o necessário, és antiquado e perdeste todo o contacto com a realidade”. Este projecto da reunião dos Helloween tem futuro? Michael: Vamos continuar se for interessante. Se houver fãs suficientes para nos irem ver e testemunharem a reunião, e fazendo parte dela, continuaremos por mais cinco ou seis anos. Haverá a gravação de um DVD ao vivo? Michael: Vai haver sempre uma gravação de um formato qualquer. Quando estivemos na Polónia, no Woodstock Festival, fomos filmados sem sabermos e foi excelente porque nesse dia estávamos a tocar lindamente. Foi um super show, perfeito. Foi gravado e não sabíamos e por isso é tão bom. Portanto, se houver ideia de algo desse género, creio que não nos vão dizer nada até porque camaras a andar de um lado para o outro há em todos os concertos para recolher as imagens para os ecrãs, pelo que, se não nos disserem também não vamos desconfiar. Nesta digressão, vão manter o vosso equipamento? Michael: Recentemente estivemos a ver uns amplificadores digitais que tinham umas configurações particulares que são um género de segunda geração e eram fantásticos, mas o Sascha queria algo mais moderno e queria passar para o nível seguinte pelo que decidiu usar um aparelho específico que agora não me recordo do nome, mas irás ler o que será. É uma estrutura de

amplificador mais pedal. Ouvi e vi as apresentações e creio que será o ideal porque são leves e fiáveis, o que é óptimo para as viagens. E o som é brutal. São estas as unidades que vamos usar, mas por favor, não me perguntes o nome, porque não me lembro. Convidaram o Oli e o Roland para esta digressão? Michael: Não estava no plano. Desculpa pela resposta e se quiseres podes passar para a questão seguinte porque assim vais ter menos trabalho. Há muita coisa para preparar e se não estão no jogo é porque existem razões para tal, ok? Estamos todos a sentirmonos bem e ainda há muito por fazer e, eventualmente, se tudo correr bem, poderemos integrar essas pessoas. Mas antes temos de fazer isto da forma mais correcta. Isto é mais um projecto de união que uma reunião, certo? Vimos como bem isso pode funcionar nos Savatage ou e com os Iron Maiden. É o que posso dizer. Obrigado, Mike. Foi um prazer e uma honra falar contigo. Espero vos ver em Portugal. Michael: Obrigado e agradeço aos fãs portugueses que nos têm apoiado ao longo destes anos. É possível que passemos por Portugal por todas as pessoas que aí estão. O ultimo festival foi tão porreiro que foi como magia. Quero agradecer a todos os que apareceram e fizeram o concerto connosco. https://youtu.be/Zg9ZOyDfYIA http://pumpkins-united.helloween.org/pt/ pumpkins-united.html https://www.facebook.com/helloweenofficial/


“ O Sascha já referiu que espera que os dois magos do passado venham para a frente do palco fazer a merda do costume (...)”

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Foto: Hakon Grav

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Maquina Trituradora São carismáticos e pela sua longa carreira têm um espaço reservado no Panteão do Metal. Os veteranos Overkill regressam com o seu 18º álbum. Apesar de não nos surpreender mantêm a coerência e irreverência que tanto os caracteriza. Não é nada de novo… mas porra, isto ainda provoca muita dor de pescoço! Entrevista: Eduardo Ramalhadeiro (AKA: eddygrinder) Transcrição e Tradução: Hugo Melo Bobby - “eddygrinder”?!Gosto do teu nome do skype. (risos) O nosso baterista chama-se Eddy e temos o nome “Grinding” no álbum. Posso usar este nome? (Risos) eddygrinder: Claro! (Risos) Se o fizeres será uma grande honra! (risos) Este é o vosso 18º álbum, e como disseste na «Goddamn Trouble», “are you never gonna stop”? Bobby - Não sei, é uma sensação fantástica achar que vamos viver para sempre, mas sendo realista, sei que não vamos. (Risos) É por isso que continuamos a trabalhar. É uma liberdade enorme poder dizer que eu não quero saber. Quando o dizes pode parecer que não te importas, mas é exatamente o oposto. Quero acreditar que nunca vou parar, mas realisticamente sei que irá acontecer. Porquê o nome «The Grinding Wheel»? Bobby - “eddygrinder” - Fizemo-lo para ti. Isso é especial!! (risos) Normalmente não oiço muito punk, às vezes Green Day ou Ramones, no entanto gosto imenso da vossa abordagem punk com rasgos de trash. De onde vem

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a vossa influencia do punk? Bobby - Creio que parte tem a ver com o facto de quando era novo ouvir muito Black Sabbath. Quando atingi os 18 anos, a cena punk estava a rebentar com os Ramones, The Dead Boys, New York Dolls, Iggy Pop e Blondie… muita cena boa. Foi uma época excitante para um puto novo. A par disto estavam na berra as cenas do New Age of British Heavy Metal (NABHM) e creio se perguntares ao D.D. Verni, ele vai-te responder o mesmo, o que procurámos foi a fusão entre estes dois géneros. Temos aí a mentalidade de Overkill. Como o D.D. disse, vocês fazem metal há quase 40 anos, no entanto, este «The Grinding Wheel» está cheio de energia. Como é que passados 18 álbuns e 40 anos a fazer música, encontram força e motivação para procurar novas ideias e nos apresentarem um álbum destes? Bobby - Creio que o orgulho é um grande factor. É o maior cumprimento que podemos fazer a nos mesmos e provavelmente o nosso maior pecado. Somos muito orgulhosos. Não queremos ser recordados pelo que fomos, queremos ser recordados pelo que somos. E daqui vem a nossa motivação. Tens de compreender

que viemos de uma cena de culto que arrancou nos anos 70, em Nova York, como o NABHM. Eles punham uma face nova em todos os lançamentos e esta atitude é algo que vem de dentro é uma atitude. És um homem ou orgulho ou não és. Eu sou muito orgulhoso. Um dia um gajo perguntou-me o que é que poderia dizer sobre os Overkill e eu respondi nós nunca levaríamos uma faca para um duelo de armas, porque queremos ganhar. Tu e o D.D. são os responsáveis por todas as músicas. Quem é responsável pelas letras e pela música neste «The Grinding Wheel»? Bobby - Tens de compreender que embora comece pelo D.D e acabe em mim, as ideias passam por todos ou outros. As ideias deles são preciosas para o resultado final. O trabalho do Dave Linsk é importantíssimo, no que diz respeito às linhas de guitarras, das melodias e contra melodias e depois passa para o Ron que tenta compreender a expressão da bateria para música. Portanto efetivamente as coisas começam e acabam no D.D. e acabam em mim com as letras, sou eu que as faz, mas a música é um trabalho que passa por todos. Há alguma música especial que


“(...) é uma sensação fantástica achar que vamos viver para sempre, mas sendo realista, sei que não vamos. (Risos)“ Foto: Mark Wei ss

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querias falar. A minha favorita é a «Our Finest Hour». Bobby - Então, vamos falar dessa (risos). É tudo sobre o eddygrinder e não sobre mim. (risos) De certa forma vejo os últimos 3 álbuns como uma trilogia, o Pai, o Filho e o holy ghost. Os «The Electric Age» e o «White Devil Armory» eram como irmãs e havia um bom sentimento. Creio que a «Our Finest Hour» fecha essa trilogia. Demos-lhe mais alguma profundidade. Em termos de letra é sobre dois gajos, um tem confiança e o outro não, um tem experiência e outro não, e o gajo com a experiência diz ao outro se fizermos isto juntos vamos ter confiança. Vem comigo, já fiz isto antes. Fala sobre a comunidade. Fazemos muita coisa com os nossos amigos. É sobre duas entidades. Será «The Grinding Wheel» a vossa «Finest Hour»? Bobby - Não sei. Tenho de ser objectivo e é difícil ser objectivo quando se está empolgado. Sei que o álbum me excita e que a produção é das melhores que já tivemos, sei que mostra o punk rock, o rock n’ rol, o tradicional heavy metal e pensando no título mostra hardcore, mostra energia. Sabendo que tudo isto está neste trabalho, é um grande sentimento de satisfação e não queremos mostrar uma ou duas dimensões, queremos mostrar o que somos no todo e creio que a banda embarca em si todos estes elementos e é isto que são os Overkill, não é um truque, são muitos truques. Outra música de que falas muito é a «Let’s All Go to Hades» e parece que a música é de alguma forma especial. É verdade? Bobby - É uma música especial em termos de letra. Quando a ouvi a primeira vez senti um vibe de Motorhead, e eu sou uma grande fã de Motorhead, e quando estava a brincar com as letras lembreime da relação que os Motorhead tinham com os Ramones e comecei a pensar que seria excelente haver um grupo, quer fosse banda ou uma comunidade de heavy metal, onde

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te pudesses juntar com todos os teus amigos, independentemente de toda a merda que te rodeia, e pudesses ter punk num «fast train to hell” e se apanhasses este comboio chegarias à estação a rir-te. Portanto seja qualquer for o problema que haja, seja o problema no medio oriente, seja o que for, reuníramo-nos todos neste comboio. É uma forma porreira de ver a relação entre as pessoas. Na tua bibliografia dizes que chegaste à maturidade aos 57. Porque dizes isso? Bobby - Bem, estás a falar comigo há cerca de 15 minutos, por isso não creio… (risos). Houve um grande jogador de basebol que se chamava Mitch Williams e tinha a alcunha de the wild thing. Ele fez cenas maradas no seu tempo como atirar bolas à cabeça dos outros jogadores e correr com o bastão atrás dos outros, etc. Ele deu uma entrevista em que disse que sabia que a juventude tinha passado, mas que a sua imaturidade continuava intacta. Eu revejo-me nesta atitude. Às vezes a minha mulher diz-me que por muito que me ame, às vezes é como viver com um miúdo de 12 anos. Creio que existe um equilíbrio entre os dois. Como podes ver ao falar comigo, eu sou um gajo que gosta de se divertir. (risos) Uma das características que tornam o som de Overkill único, é a tua voz. Neste trabalho ela surge, como sempre, bem poderosa com uns belos gritos e várias notas agudas. Na tua idade que cuidados especiais tens para a manteres em bom estado? Bobby - Na realidade é algo muito simples, que é simplesmente não me preocupar nada. Eu tenho um bom sistema, e daquilo que me apercebo de falar com outros cantores é que aqueles que tem mais problemas são aqueles que mais se preocupam, quer seja paranoia quer por excesso de zelo. Ainda há 3 dias estavam aqui 5º e fui andar de mota sem cascol. A maioria das pessoas dizem logo que não posso fazer isso, porque sou

um cantor, mas eu acredito que o posso fazer, não é uma questão de método ou técnica. Eu tenho uma saúde decente, não fumo e aqueço a minha voz antes dos concertos. É tão simples quanto isso. Não é nenhum segredo. Em 98 tiveste alguns problemas de saúde. Alguma vez colocaste a hipótese de desistir? Bobby - Vou contar uma história engraçada. Tive cancro grave e descobri que o tinha no final da digressão. Fui ao médico e foi diagnosticado. Fui operado e retiraram-no. Levei uma daquelas injeções em que ficas acordado e cortaram-me a cara e depois reconstruiram-na. Ficou horrível e durante muitos meses fiquei com cicatrizes pelo que fui submetido a várias operações plásticas. Nunca a tornam perfeita, mas eu aceitei isso porque eu disse, agora tenho mais uma história e cada cicatriz é uma história. O D.D. ligou-me e perguntou se podia fazer alguma coisa e eu disse que sim, que podíamos entrar em digressão. As ligaduras já foram retiradas, eu posso cantar, porque não? Assim mostramos que estamos a falar a sério no que diz respeito a esta situação e que ninguém se deveria preocupar mais com isto. Nos bastidores apareceram os outros gajos, e até aquela data apenas o D.D. me tinha visto, e ficaram horrorizados com as cicatrizes. Eu viro-me e disse que vamos gravar um DVD ao vivo e vamos chamarlhe “You should see the other guy” (risos). Por aqui já compreendeste qual a minha ideia em relação a desistir. Este álbum foi produzido pelos «Overkill». Gostam de ter o controlo? Porque não colaborar com um produtor dedicado? Bobby - Há um par de razões. A primeira razão é que gostamos de o fazer. Gostamos da experiência e dos experimentalismos. É bom termos o controlo do nosso próprio projeto. A outra razão é que a industria mudou, não estamos em 1988, não há pessoas a comprar unidades,


“Tenho pena das bandas de hoje, há muitas boas bandas que não tem reconhecimento porque o mercado está cheio.“

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por isso para compreender o negócio é compreender o cash flow positivo. E compreender isso dános a oportunidade de fazer aquilo que queremos. Para quê contratar alguém para produzir o álbum se o podermos fazer nós próprios e assim manter o controlo do produto final. Quem tem a última palavra relativamente a este assunto? Tu ou o D.D.? Bobby - Não somos apenas nós os dois, somos um colectivo. Trouxemos o David e ele compreende. É um gajo de estúdio e percebe da parte sónica e da parte do áudio. Quando queremos algo alto normalmente à uma razão para isso, quando queremos algo baixo, normalmente também há uma razão para isso. Creio que somos os três, e há como um processo democrático e é melhor assim afinal dois valem mais que um. Desde a gravação deste álbum houve uma alteração na formação. Dave e Ron não vão fazer parte da digressão. É verdade? O que é que se passou com eles? Bobby - Ron tem assuntos pessoais que não o permitem entrar em digressão e, se não te importares, não vou falar sobre isso… O Dave teve um problema familiar, mas foram apenas três dias, portanto vai fazer a digressão. Deram um concerto em Oberhausen, no ano passado e creio que vai haver um DVD. Quando é que vai sair e o que é que fez esse concerto tão especial? Bobby - Bem, quando iniciarmos as digressões em 1986, o nosso primeiro concerto foi na Alemanha. E creio que foi o quarto concerto que foi dado num sitio chamado Bochum que é na zona industrial. Foi um concerto da Metal Hammer, e esta gravou-o. Foi a nossa primeira gravação ao vivo. Bochum fica apenas a 10 minutos de Oberhausen, e a ideia de gravar naquela área foi a de fazer a mesma coisa 30 anos depois. Fazer o DVD foi obviamente contratual.

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Perguntámos se era possível fazer lá o DVD e em vez de um fazíamos dois álbuns. Afinal chamamo-nos Overkill, queremos sempre mais! (risos) Deram-nos uma verba maior e foi possível fazê-lo. Creio que este é o vosso primeiro álbum distribuído globalmente apenas por uma editora, a Nuclear Blast. Porque é que até agora trabalhavam com duas editoras? Bobby - Sinceramente, até este ponto na nossa carreira, era uma questão gerir o negócio. Durante os anos 90 era mais seguro não ter todos os ovos no mesmo cesto. Na altura a separação, com uma editora para a América do Norte e outra para o resto do mundo, fazia sentido. A Nuclear Blast apresentou-nos a melhor proposta e achámos que era a altura certa para dar este passo. Nos últimos anos fizeram algumas powerballads. Lembro-me por exemplo da «Solitude» ou «Years of Decay». Para quando uma nova powerballads. Bobby - Não faço ideia. Não é algo que aparece assim. Depende do escritor e da vontade para o fazer. Adicionar uma musica dessas só para o fazer não faz qualquer sentido para nós. Vocês são uma das mais respeitadas bandas da cena. Passaram pela era analógica, com a cassete ou o vinil. Uma época onde se quisesses ouvir musica tinhas de a comprar. Hoje em dia as pessoas não compram tanto, mas conseguem chegar a mais pessoas. Que época preferem? Achas que houve uma evolução na música? Bobby - Claro que houve uma evolução, mas a época que prefiro é sempre a do presente porque o presente é onde andas, o passado é onde andaste. Gosto do facto de haver muitos locais para ir e muitos locais para ver. Acho que os anos 80 foi uma época muito explosiva com diferentes meios fosse a cassete ou o vinil, ou a introdução do CD. Agora temos o Pro-tools, é diferente. Todo o passo conduziu-nos até aqui, até

esta entrevista. Penso sempre no presente como sendo a época mais importante. Se o «The Grinding Wheel» fosse o vosso primeiro álbum, achas que hoje seria mais fácil? Bobby - Não, não, não. Não!! Tenho pena das bandas de hoje, há muitas boas bandas que não tem reconhecimento porque o mercado está cheio. Há grandes bandas portuguesas, espanholas, alemãs, canadianas, mexicanas, sul americanas e asiáticas, que tem dificuldade em serem reconhecidas pelo facto de existirem muitas bandas. Creio que quando iniciamos, era o hardcore a encontrar o seu espaço e tivemos sorte. E tivemos muita sorte. É verdade (risos) tivemos sorte, andámos a bater nas portas, não havia email, tinhas de conhecer a pessoa e surgir de surpresa quando o gajo jantava com a esposa e dizer: “hey está aqui a minha cassete”. Se o «The Grinding Wheel» fosse hoje o nosso primeiro trabalho, acredito que seria o único álbum que faríamos. É difícil uma banda conseguir aquilo que nós conseguimos ao longo de 30 anos. Overkill pertence a um grupo restrito de bandas que vão ficar como referencia do género a par dos Metallica, Slayer, Antrax, Motorhead, Megadeath e mais algumas. Achas que hoje existem bandas capazes de dar seguimento ao vosso legado? Bobby - Acho que há muitas bandas com talento, e muitas delas têm a capacidade, no futuro, de erguer a bandeira deste género de musica. Creio que terão um trabalho mais difícil, por aquilo que te disse na resposta anterior de haver tantas bandas, mas creio que nunca vai desaparecer. É uma questão de aparecer o projecto correto e ser apresentado às pessoas certas. Só mais duas questões. De quem é a banda na capa de «Fuck You and Then Some?? Bobby - Foi um gajo chamado Danny Muro que tocava numa banda chamada White Tiger.


Ultima questão. Vi-te salvo o erro há 2 anos no Vagos Open Air, e tirei algumas fotos no poço e quando estava a tirar fotos fazia headbanging, e outro fotografo bateu-me no ombro porque queria tirar fotografias. Então pensei: “merda, já nem posso curtir Overkill sem ter um gajo a bater-me no ombro para tirar fotos”. Então primeiro acabei o meu headbanging e só depois tirei algumas fotografias (risos). Vão estar em digressão com Nile,

Amorphis e Swallow The Sun. Irão tocar em Portugal? Bobby - Não com essa digressão. Creio que há a possibilidade de regressarmos no final de 2017, na Headbanging balls tour para a qual fomos agora convidados, mas para já não há uma data em Portugal, mas espero que sim, por isso vamos ver. Já tocámos em Vagos duas vezes, já tocámos no Porto, em Lisboa. Eu a minha esposa ficámos em Vagos durante 4 dias e depois 4 dias em Lisboa por isso adoro Portugal.

Espero ter a oportunidade de falar contigo pessoalmente. Alguma mensagem para os fãs portugueses e leitores da Versus? Bobby - Sim, “Viva Portugal, obrigado” (dito em bom português!) http://wreckingcrew.com https://www.facebook.com/OverkillWreckingCrew/ https://youtu.be/GSbgxG-jLMU

“(...) a produção é das melhores que já tivemos, sei que mostra o punk rock, o rock n’ roll, o tradicional heavy metal e pensando no título mostra hardcore, mostra energia. (...)

Foto: Mark Wei ss

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GARAGE POWER

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8mm A VIDA É BELA! … Já que se fala de filmes e de gente que, mesmo no meio das dificuldades, sente prazer no que faz. Entrevista: Ernesto Martins e Cristina Sá Fotos: Helena Garcia

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CSA – De onde vem a referência ao cinema no nome da banda e nas personagens que encarnam? É só porque todos gostam de cinema ou porque a banda tem alguma coisa a ver com a sétima arte? Alex – Da vida. Todos nós vivemos (n)um filme. As letras refletem o filme adotando a perspetiva do William, é ele o argumentista. Os restantes adicionam os efeitos especiais. As outras referências aparecem como resultado da nossa paixão pelo cinema: juntamos o útil ao agradável. As personagens foram escolhidas por gosto pessoal. No meu caso, sou grande fã do trabalho do Kubrik, portanto, foi uma escolha quase óbvia. Se bem que com a barba mais pareço Alex numa versão John Bonham. CSA – O que têm feito desde que se juntaram para formar 8mm? Alex – Relativamente ao projeto, temos tentado pôr isto em andamento, arranjar concertos, compor um conjunto de temas que refletem quem nós somos e mostrar ao público quem são os 8mm. CSA – E, a propósito, como descrevem a música que fazem com 8mm? Alex – Eis uma boa pergunta a que sempre tivemos dificuldades em responder. Quando nos juntamos não tínhamos um estilo definido. O que sai resulta da contribuição e influências musicais de todos. Às vezes, saem riffs e secções de simples brincadeiras. Posso ter uma ideia pré-concebida para um argumento musical e, no ensaio, o Eric destrói aquilo tudo (risos) No fundo, começamos com uma folha em branco, que depois vai sendo

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escrita com a contribuição de todos. A escolha seria deixar que o público nos descreva, mas… vou dizer que fazemos uma espécie de Rock. EVM – O que nos podes dizer quanto ao estilo da música criada até ao momento? Será que reflete já o consenso artístico do que o coletivo quer continuar a fazer? Ou será algo ainda transitório? Se dependesse só de ti, em que direção gostarias de orientar a criação da banda? Alex – Algo transitório não será, porque a música surge no momento, é o que sair. Nós funcionamos em grupo e não há algo definido à partida, do tipo: “Vamos fazer Rock Alternativo”. Os temas só ficam prontos, quando os quatro estiverem satisfeitos e confortáveis com a música. Poderá haver uma ideia inicial, um riff ou um conceito e depois, com o contributo de todos, os temas seguem uma qualquer direção, às vezes completamente diferente do que foi concebido à partida. As letras são, talvez, a base… o William diz como quer cantar, como se quer expressar e, a partir daí, o tema evolui. Exemplo: havia um conceito para um tema acústico, um minuto e pouco, muito direto, sobre um pequeno poema, e eu compus os acordes para a música. Escusado será dizer que o conceito foi quase aniquilado no ensaio. No entanto, naquele dia, o sentimento foi de tocar mais qualquer coisa a seguir. Ou seja, a aniquilação foi aniquilada e, neste momento, um tema que supostamente teria minuto e meio sensivelmente, já vai um pedaço mais comprido. É assim que funcionamos. Na minha carreira


“[…] Todos nós vivemos (n)um filme. As letras refletem o filme adotando a perspetiva do William […] Os restantes adicionam os efeitos especiais […]”

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(amadora), sempre tive a sorte e a liberdade de poder contribuir e criar consoante o meu estado de espírito. Se estivesse num projeto onde houvesse um a comandar, a dizer-me que era aquilo e mais nada, haveria problemas de certeza… (risos) Portanto, mesmo que eu quisesse desenvolver um conceito particular, ele seria aniquilado em função do conceito que as outras personagens pretendem para a música. Dessa constante aniquilação nasce a nossa música, com a qual me sinto motivado, confortável e satisfeito. EVM – Alguma razão particular para cantar em português? Alex – Há! O William é um grande escritor (tem já um livro editado, intitulado “Ditos como curtas”) e, nesse aspeto, é um excelente argumentista. Como o argumento está escrito em Português, cantase em Português. (risos) CSA – Na Versus, sabemos que estás também em Cadenza. Os outros elementos de 8mm também fazem parte de outras bandas? Que influência têm esses outros projetos na música deste? Alex – Não, neste momento todos de alma e coração nos 8mm - Eu não que já vendi a minha... e estes dois projectos são independentes. Os Cadenza estão neste momento parados… à espera de… um baixista, que, por acaso, era o mesmo de 8mm. (risos) Os dois projetos sobrepuseram-se algures no tempo e, após alguns meses de procura, o Joker apareceu. Os Cadenza foram esperando, enquanto os 8mm se foram tornando um pouco mais sérios.

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Desde essa altura que nos temos dedicado a este filme, mas os Cadenza não estão esquecidos… vamos convencer o Joker a tocar nos Cadenza, quanto mais não seja com recurso à violência, pura, dura e gratuita. Afinal de contas, sou conhecido por isso mesmo. Depois nos concertos só trocamos de vocalista e surge uma banda nova. Era giro! EVM – Como têm corrido as vossas últimas experiências ao vivo? Que feedback têm colhido da audiência? Alex – Muito boas! Acima de tudo, temo-nos divertido à brava! Para já, o nosso filme tem recebido boas críticas. Apesar de, esporadicamente, nos apontarem falhas ou sugerirem a inclusão de um teclista. (risos) É algo normal, natural e vamos ouvindo, justificando e aprendendo. EVM – Presumo que o prazer de tocar ao vivo seja um fator de peso na motivação para manter a banda. Será verdade? Que outras razões podes apontar? Alex – Se calhar, até é o principal. Termos um projeto só para os ensaios não vale a pena. O objetivo é apresentar o nosso filme ao maior número de pessoas possível. No entanto, este esforço só é possível pelo gosto que todos temos pela música e, no fundo, pela amizade que (agora) nos une. Eu e o Eric já nos conhecemos há muitos anos e sempre fizemos música juntos, podemos dizer que somos fraternais. Os outros não são amigos de sempre, mas ficarão para sempre. Tudo isto interligado constitui os 8mm.


CSA – O que faz cada um na banda? (Para além do que se pode ver nos concertos, claro.) Eu estou lá, antes de mais, para insultar o baixista. Insulto, mas de uma forma respeitosa, sem ofender. E ele insulta de volta… é sacana! Não temos nada definido na banda, a não ser o nosso escritor e argumentista. É ele quem tem a inspiração e o talento para as letras, pois, como disse, já tem um livro escrito. Depois, só adicionamos os efeitos especiais. Juntamo-nos e damos cabo da paciência uns aos outros. No entretanto, o Joker vai dedilhando no baixo, o Eric palhetando na guitarra, o poeta William dá vida às letras e eu, Alex, parto aquilo tudo! CSA – Para quando o primeiro lançamento de 8mm? Já têm material gravado que dava para

um EP e letras que prenunciam canções suficientes para um álbum. O que vos está a deter? O dinheiro (ou falta dele) :-) O objetivo é dar o máximo possível de concertos, de forma a juntar “uns cobres”, para assim pagarmos a gravação. Desta forma também nos damos mais a conhecer CSA – Qual é a vossa maior ambição para esta banda? Fazer música, divertirmo-nos e gravar um álbum. Depois… logo veremos o que os atores, realizadores, produtores e argumentistas conseguem fazer. https://www.facebook.com/8mmband/ https://youtu.be/G6j2anEm-yM https://youtu.be/o8CZUvLIj8k

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“[…] A escolha seria deixar que o público nos descreva, mas… vou dizer que fazemos uma espécie de Rock.” 107 / VERSUS MAGAZINE


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Um por todos, todos por um... … A favor de certos aspetos da sociedade moderna e – francamente – contra outros! Entrevista: CSA e Eduardo Ramalhadeiro

Eduardo – Vocês já por cá andam desde 1993 e «Overloaded» é somente o vosso segundo álbum. Isto é assim porque a banda o quis, ou porque houve muitas dificuldades no caminho? Wild – O "Overloaded" é o nosso segundo álbum, mas para nós é o nosso quarto trabalho, ou registo fonográfico digno desse nome. E surgiu no seguimento natural das nossas atividades artísticas, considerando o legado que tínhamos deixado da década de 90, da nossa pausa de 15 anos, da nossa reunião em 2012 – que levou ao «Survival», em 2013 – e da mudança do line-up, em 2015 – com o Hugo Lemos na bateria. Tudo somado, são quase 25 anos de Booby Trap, de muita ramboia, mas também de muito trabalho de composição e produção, principalmente na parte dos 15 anos de pausa. Nesta vida, as coisas não acontecem exatamente como queremos, mas foi o que conseguimos até hoje, alcançado na base da casmurrice, da persistência, da porrada. Saiu-nos literalmente do pelo, o que para nós é motivo de orgulho. Retrospetivamente, as dificuldades nem merecem menção. O que é relevante são os resultados e os objetivos alcançados. Eduardo – Em 2013, lançaram «Survival» por vossa conta – embora mais tarde tenha sido reeditado pela Non Nobis Productions em formato CD e pela SASG Records em vinil. Por que é que editaram este álbum por vossa conta? Acham que é

sina dos artistas portugueses terem que pagar do seu bolso para editar um álbum? Pedro – Não considero que seja uma sina dos artistas terem que pagar para editar um álbum. A verdade é que, hoje em dia, é muito fácil colocar um álbum no mercado, mesmo sem nenhuma estrutura editorial por trás. No nosso caso, as coisas aconteceram desta forma, porque não somos pessoas de estar à espera que as coisas aconteçam, somos pessoas de lutar por aquilo que queremos e pensamos que, se queremos ver o trabalho feito, temos de o fazer nós próprios. Talvez seja por isso que nos consideram como uns “outsiders” neste meio underground nacional. Somos uma banda de Metal com uma atitude totalmente Punk. E não me refiro apenas à musicalidade dos Booby Trap, onde essa influência Punk é por demais evidente. Mesmo na nossa forma de lidar com o meio musical, somos uma banda totalmente DIY: gravamos e produzimos os nossos álbuns, promovemo-los por nossa conta, fazemos a nossa própria agenda e até os lançamos, se for necessário. Neste momento, o trabalho está bastante simplificado, uma vez que eu tenho a minha própria editora: a Firecum Records. Eduardo – E por que razão «Survival» foi reeditado por duas editoras? Pedro – Como já referimos, lançámos o álbum por conta própria, no final de 2013, numa edição limitada de apenas 150

unidades. Um mês depois do lançamento, chegaram-nos duas propostas para reedição do álbum: da Non Nobis para editar em CD, e da SASG Records, para editar em vinil. Pareceu-nos que ambas constituíam uma mais-valia para a banda e nem pensámos duas vezes. Este novo álbum – «Overloaded» – já foi pensado de uma forma diferente. Ainda o álbum não estava gravado e já tínhamos o plano de lançamento traçado. Apesar de a Firecum Records serr atualmente a principal editora dos Booby Trap, o álbum foi lançado com diversas parcerias, para sair nos mais variados formatos: em CD, pela Firecum, Non Nobis e NBQR; em vinil, pelas três atrás mencionadas mais a SASG, e em cassete, pela Firecum e pela Martelo Pneumático, que nos lançou a nossa primeira demo em 1994. Eduardo – Nos anos 90, penso eu, vocês deram a cara por um movimento denominado “Aveiro Connection”. Que movimento era/ foi esse? Pedro – “Aveiro Connection” foi o nome que carinhosamente o Henrique Amaro, radialista da Antena 3, nos anos 90, deu à diversidade de bandas rock aveirenses. A verdade é que, na década de 90, as bandas de cariz Rock proliferavam nesta nossa bela cidade, desde o Punk, com os Inkisição e os Mentes Podres, ao Metal com Booby Trap, Cruel Hate, Anger, Agonizing Terror ou Deification, passando pelo alternativo, com Turn Off, Konk

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ou Dogs On Leaves, e pelo Rock, com Strange Airplane, Superego, Snowball ou Chip Chip Zan Zan. Foram tempos muito bons para a música “Made In Aveiro”. Felizmente, parece-me que as coisas estão de novo no bom caminho e começa-se a ver outra vez um grande leque de ofertas musicais nesta cidade, não só das velhas “glorias” do Rock aveirense, como de toda uma nova geração de músicos, com variadas ofertas, todas elas de qualidade. Eduardo – Uma marca vossa era a forma como vocês atuavam nos concertos. Ao fim destes anos todos, a vossa energia e interação com o público ainda é a mesma? Wild – Booby Trap é uma banda de atitude e esta tem-se mantido ao longo dos tempos: passar uma mensagem de boa disposição e diversão com crítica social à mistura e muita energia sónicoetílica. O público tem estado à altura, embora, por vezes, notemos que talvez não tenham bebido o suficiente para perceberem que veículo pesado lhes passou por cima. Estamos muito satisfeitos e agradecidos à malta que aparece, que se junta à festa, que vem brindar a mais um bocado de vida bem passado, que vem pular para o meio do moshpit e chamar nomes feios aos políticos corruptos e às mães deles. Há malta que nos acompanha desde 1993, há malta que esperou mais de 15 anos para ver um concerto de Booby Trap e que faz questão de cordialmente nos atirar isso à cara. A nossa forma de retribuir é dar tudo em concerto. Eduardo – Desde que vocês se formaram, passando pela separação em 1997, o que mudou na forma de fazer música em

Portugal? Wild – A forma de fazer música não mudou só em Portugal, mas globalmente com o advento da internet. Só a título de curiosidade, até aparecer o compact-disc (CD), em meados dos anos 90, para encontrar música que gostava, a malta penava a bom penar. Esperava meses, para que, na loja de discos, aparecesse algo interessante, e tratava a música como um achado, um tesouro, algo que dava gosto comprar e conservar. Por isso, a malta conserva muitas dessas bandas na memória, de trabalhos que ainda tem. E, ainda durante vários anos após a chegada do CD, essa forma de ver a música manteve-se. Com a internet, a música ganhou novos canais de distribuição e passou a estar mais disponível, o que pode ser visto como algo positivo, para o consumidor e para os produtores. Infelizmente, nem sempre é assim. Com esta facilidade de obter música, notouse uma grave desvalorização psicológica da música como arte e dos artistas musicais como criadores. Hoje em dia, valoriza-se mais os canais de distribuição e os media do que os conteúdos e os seus produtores. Ganham mais os media com a publicidade, do que os artistas pela arte que produzem, para encher, a título quase gratuito, os diversos murais de publicidade dos media. E, quando assim é, a qualidade dos conteúdos deixa de ser relevante: qualquer porcaria serve, desde que se repita milhentas vezes, o consumidor nem nota que lhe estão a enfiar lixo pela goela abaixo. Assim, tens bandas de telenovelas, ou patrocinados por hipermercados e estações de televisão nos tops de vendas fonográficas de Portugal. A música deixou de ser o principal,

o foco passou a estar em aparecer nos media para promover produtos supostamente musicais. Eduardo e Cristina – E, já agora, o que mudou na vossa forma de fazer música? O que podemos encontrar em «Overloaded» que não exista no vosso outro álbum? Wild – Na nossa forma ou atitude de fazer música, não mudou absolutamente nada. Talvez por isso, nos apelidem de "Old School", o que, considerando o ponto a que chegou a qualidade da música "Moderna", para nós é um elogio. Agora, em relação a diferenças entre o «Survival» e o «Overloaded», existem várias. Para começar, temos diferenças de produção, pois gravámos num estúdio diferente e com o apoio do Rui Oliveira e do Hugo Grave d’"A Régie". Temos um novo homem atrás da bateria, o Hugo Lemos. Temos também uma série de novos temas originais, numa tentativa de fazermos um álbum com maior duração que o «Survival», que, segundo críticas que recebemos, "soube a pouco". E nós ouvimos essa crítica com alguma satisfação! Honestamente, pensávamos que, hoje em dia, o público só ouvia os primeiros 10 segundos de cada música. Pelos vistos, enganámo-nos... e ainda bem. Assim, no «Overloaded», subimos a fasquia, na duração, no número de temas, na variedade musical e na descontração artística, para reavivar as boas vibrações dos Booby Trap, que já vêm de outros tempos. A isso juntámos uma sonoridade mais contemporânea, e uma boa dose de elementos gráficos retro, para que, mesmo que a malta nova não tenha vivenciado os anos 90, pelo menos possam sentir-lhes o cheiro. Para além disso, optámos por

“[...] Somos uma banda de Metal com uma atitude totalmente Punk. E não me refiro apenas à musicalidade [...] essa influência Punk é por demais evidente [...] na nossa forma de lidar com o meio musical [...]”

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reduzir a disponibilidade do álbum na internet, para que quem nos segue se sinta privilegiado com o facto de ter uma cópia física do álbum, seja em cassete, cd ou vinil. É um pedaço de Booby Trap carregado de boas ondas sonoras que ainda não caiu nas mãos corruptoras da internet. Não somos apologistas de ter os anos 80 ou 90 de volta, mas faz falta um público, que veja para lá da cortina de fumo dos media. Cristina – O que significa a capa do álbum? Parece uma grande acumulação de cenas/objetos, mas certamente tem muito a ver com a música a que se refere. Pedro – A capa representa aquilo que nós achamos que são alguns dos podres da sociedade atual: o domínio do poder económico sobre o poder politico, as guerras criadas por questões politicas/religiosas/económicas, a alienação pelos media, as crises criadas e manipuladas em prol do enriquecimento ilícito. Basicamente é um reflexo daquilo que, de uma ou de outra forma,

abordamos a nível lírico nos Booby Trap. No meio desta podridão que governa o mundo, estamos nós, quatro gajos que só pensam em extravasar o seu gosto pelo Rock e exorcizar os seus demónios através da música que fazem. Cristina – Quem a fez para Booby Trap? Pedro - A capa deste trabalho foi da autoria do Deivis Tavares, um reconhecido artista aveirense que decidimos convidar para dar uma imagem à nossa música. Explicámos-lhe o conteúdo lírico e aquilo que queríamos representado no álbum e ele, como grande artista que é, fez das nossas palavras e músicas esta bela obra de arte, que, na nossa opinião, representa na perfeição a mensagem que queremos passar com este álbum. Cristina – Onde vamos poder ouvir-vos durante 2017? Pedro – Vamos andar na estrada a divulgar o «Overloaded». Já temos algumas datas agendadas para estes próximos tempos

(em Freamunde, Porto. Tondela, Oliveira do Bairro) e mais algumas, que já estão apalavradas, mas ainda sujeitas a confirmação. Gostaríamos de levar a promoção do álbum um pouco mais para sul. Leiria e Lisboa, por exemplo, são locais que pensamos incluir também na promoção deste álbum. Eduardo e Cristina – Já têm mais algum álbum na forja? Pedro – Já temos algumas músicas novas prontas para incluir em registos futuros. Contamos lançar, ainda este ano, dois singles em vinil e um EP com alguns inéditos. Dado a nossa agenda já estar tão sobrecarregada para 2017, um novo álbum nunca será viável antes de 2018, ano em que completamos 25 anos desde a formação da banda, sendo por isso um ano especial em que contamos lançar também algo comemorativo. https://www.facebook.com/boobytrap.pt https://youtu.be/L3MJYgWGr_Y

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Uma chamada de atenção Aparentemente há mais quem pense que a principal característica do séc. XXI é a perda – irremediável? – de tudo o que de bom se conquistou arduamente durante o séc. XX! Entrevista: CSA Temos aqui um álbum com um tema frequente (pelo menos, quando se trata de bandas de Black Metal), mas que é abordado de uma forma pouco habitual. Quais são as ideias essenciais de «Lucifer Es»? O que há de novo no modo como a vossa banda aborda o seu tema central? Stephan Löscher – O álbum

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intitula-se «Lucifer Es», o que significa “O diabo que há em ti”. Trata da imagem que o Cristianismo nos dá do diabo, embora enfatizemos particularmente a perspetiva dos Cátaros. Por um lado, o álbum critica as religiões monoteístas, que obrigam os seus fiéis a aceitálas (a cada uma delas) como a única verdadeira crença. Por outro lado, reflete sobre o facto de que a humanidade foi escravizada pelo capital. A nossa sociedade, os nossos políticos seriam capazes de vender as suas almas para terem mais poder, embora milhares de pessoas em todo o mundo morram de fome e pobreza. Como articulam o tema global do álbum com os tópicos das várias canções? Stephan – Como já referi, Fjoergyn continua a pautar-se pela necessidade de fazer crítica social.

Todos os nossos lançamentos têm este propósito essencial. Este novo álbum é muito especial, por causa da sua atualidade. Vê o que se passa no mundo inteiro, observa os políticos, os “senhores da guerra”, as grandes empresas. Lê os jornais, cheios de notícias de terror. Vê as religiões e a lutar pela supremacia, vê o desprezo a que votam as pessoas desesperadas! Nunca compus um álbum tão atual como este. Na minha opinião, o diabo continua a existir e está mais poderoso do que nunca. O demónio a que nos referimos – particularmente em “Leviathan” – é a ganância da riqueza que caracteriza a humanidade. Depois temos o veneno representado pelos modernos meios de comunicação. As pessoas à nossa volta têm uma mente cada vez mais estreita, mais fechada, estão cada vez mais estúpidas e só uma minoria tem a capacidade de usar


a sua inteligência. O capitalismo erigiu uma pira com as ruínas da pobreza e todos os políticos e indústrias aquecem as suas mãos às suas chamas. Criaram uma representação estereotipada do inimigo da humanidade – o diabo – e assim limpam o enxofre que têm nas suas mãos. A música deste álbum é extremamente variada. Como vês a relação entre o tipo de música que compuseste para cada canção e o tópico que esta aborda? Stephan – Penso que este álbum é muito duro e bem mais violento do que todos os que fizemos antes. Embora tenhamos adotado um só estilo musical em «Lucifer Es», cada canção é diferente das restantes. É muito importante para nós, cada vez que lançamos um álbum, que este surja como algo de novo. Cada canção tem o seu cunho próprio, a sua história, o que está espelhado na sua melodia. As letras acompanham a música. Como é que tu e o Ivo articularam as vossas vozes neste álbum? Stephan – Ele só canta no refrão de “Terra Satanica”. É um grande amigo da banda e tem-nos apoiado no palco como vocalista. Mas eu nunca lhe cederia os meus direitos como vocalista principal da banda, sobretudo porque sou eu que escrevo as letras para as canções, logo sou eu que sei como é que elas devem soar.

trabalho espetacular!!! Têm alguns concertos previstos? Vão tocar no Ragnarök (já que o Ivo é um dos organizadores desse festival)? Stephan – Sim, temos concertos previstos para a Alemanha, que incluem efetivamente a participação nesse festival. Estamos a contar marcar mais alguns. Portugal faz parte do vosso itinerário? Stephan – Seria um grande prazer para nós tocar em Portugal. Ficamos sempre encantados, quando podemos fazer concertos fora da Alemanha. Se houver algum festival ou casa de espetáculos que esteja interessado em Fjoergyn, só têm de entrar em contacto connosco. Vamos logo!!! Qual é a vossa maior ambição para este Quinto álbum de estúdio? E para a banda em geral? Stephan – Gostava que a

sociedade abrisse os olhos. É muito importante que a nossa mensagem chegue a todos. Não há inimigo mais perigoso do que o capital e os seus traficantes de escravos. Fjoergyn foi sempre uma voz crítica. Desta vez, fazemonos ouvir mais alto do que nunca antes. No momento em que Trump se torna presidente dos Estados Unidos. Não é preciso dizer mais nada! Obrigado pelo vosso apoio!!! https://www.facebook.com/Fjoergynofficial https://www.youtube.com/ watch?v=omjrYYyLA7U

“[…] critica as religiões monoteístas, que obrigam os seus fiéis a aceitá-las […] como a única verdadeira crença […] reflete sobre o facto de que a humanidade foi escravizada pelo capital.. […]”

A capa deste álbum é simplesmente extraordinária. Suponho que representa Lucífer. Quem é o seu autor? Stephan – É verdade. É da autoria de Krajamine, uma artista alemã muito talentosa. Foi ela que fez toda a arte para «Lucifer Es». É uma artista multifacetada e apreciei muito a sua colaboração. Que papel desempenhou a banda na sua conceção? Stephan – Geralmente, sou eu que faço a arte gráfica para a banda. Desta vez, decidimos confiar essa missão à Krajamine e ela fez um

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Playlist Carlos Filipe

Frederico Figueiredo

Sepultura - Beneath the Remains

Tony Conrad with Faust - Outside the Dream Syndicate

My Dying Bride - Evinta

Downfall of Gaia - Atrophy

Silent Stream of Godless Elegy - Navaz

Howlin’ Wolf - The Chess Box

Realms Of Odoric - Second Age

King Dude - Sex

Judas Priest - Live At Irvine Meadows

True Widow - Avvolgere

Cristina Sá

Amusement Parks on Fire - Amusement Parks on Fire

Au Champ des Morts – Dans la Joie

Adriano Godinho

ArstidirLifsins – Heljarkvida

Sepultura - Machine Messiah

Dodecahedron – Kuintessence

Mord’A’Stigmata - Hope

Fjoergyn – Lucifer Es

Baroness - Blue

God in a Cone – Obscurist Nailed to Obscurity – King Delusion Pillorian – Obsidian Aornos – Orior Aornos - Mors Sola Wulkanaz – Paralys

Eduardo Ramalhadeuro Dool - Here Now There Then Last Leaf Down - Bright Wide Colder Lunar Shadow - Far From Light Nailed to Obscurity - King Delusion Overkill - The Grinding Wheel Cellador - Off the Grid

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Hugo Melo Fjoergyn - Lucifer Es Sepultura - Machine Messiah Sinister - Syncretism Goath - Luciferian Goath Ritual Necrophagist - Epitaph


um terror iminente. Reedição. (Adulruna Records)

Sinsaenum - «Echoes of the tortured» (Internacional, Black/ Death Metal) Sinsaenum toca música épica. «Echoes Of The Tortured» é o álbum de estreia que apresenta uma miríade de preenchidas faixas que enfatizam momentos orquestrais. É um supergrupo com membros de Dragonforce, Mayhem e Slipknot. (EAR Music) Mare Infinitum - «Alien Monolith God» (Russia, Atmospheric Doom/ Death Metal) O segundo álbum completo do projeto Mare Infinitum intitulado «Alien Monolith God», o qual convida-o para uma nova jornada através do mar sem fim. O material musical do álbum é uma continuação lógica do lançamento de estréia “Sea Of Infinity” e inclui 55 minutos de death metal de alta qualidade. A tripulação do navio Mare Infinitum irá exaltá-lo para as alturas do espaço, onde um ataque de meteorito maciço ameaça eliminar todos os seres vivos na superfície do planeta Terra e, em seguida, afundou na escuridão Lovecraftian profundidades onde criaturas Cthulhian desconhecido mergulhar você no abismo de

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Devin Townsend Project «Transcendence» (Canadá, Progressive Metal/Rock, Ambient) Ao longo da carreira contada de Devin Townsend, uma única constante tem perseverado: a mudança. Mesmo se a «Transcendence» tivesse seus momentos de “bikini wax” - (Townsend se refere metaforicamente ao seu processo como “profissionalmente golpearme na cara com um martelo”) - o produto final é fantástico. De muitas maneiras, é típico o projeto de Devin Townsend, entretanto há agora uma sensação convidando da profundidade e do quarto respirando relativo no som. (Century Media) Mare Infinitum - «Sea of Infinity» (Russia, Atmospheric Doom/ Death Metal) Álbum de estreia da banda de Moscovo, que apresenta dois músicos famosos em formação: A.K. IEezor (Comatose Vigil, Espírito Abstrato) e Homer (exWho Dies In Siberian Slush). «Sea Of Infinity» é composto por cinco faixas death metal doom, incluindo um instrumental. As composições

melódicas são enquadradas por teclados atmosféricos e poderosos riffs de guitarra acompanhados de rosnado expressivo por A.K. IEezor e vocais limpos de cantores convidados. «Sea Of Infinity» não é apenas mais um álbum que introduz novas características para o estilo, mas o bilhete de entrada para uma banda para o mais alto nível da cena russa doom-death metal! O álbum foi gravado no Primordial Studio (famoso por trabalhar com Vigília Comatosa, Revelações da Chuva, Espírito Abstrato, Quem Morre na Lama Siberiana). O álbum é altamente recomendado para os fãs de música nas tradições de Lamentação Beloveth e Morgion! Reedição. (Adulruna Records)

The Mission- «Another Fall From Grace» (Inglaterra, Gothic Rock) Este novo álbum dos MIssion é o elo perdido há muito tempo entre Sisters Of Mercy, First & Last & Always e The Mission’s God’s Own Medicine, ambos os álbuns, naturalmente, que estavam fortemente envoltos em fazer. Eu parti esta vez com a intenção de fazer um álbum que soa como 1985. Este é um álbum escuro, embora não tenha partido com


essa intenção. (Eyes Wide Shut Recordings- SPV) Extreme- «Pornograffitti Live 25 Metal Meltdown» (EUA, Rock) “No ano passado, marcou o 25º aniversário do clássico dos Extreme, a multiplatina, nomeada para o Grammy® PORNOGRAFFITTI, o álbum definitivo da carreira da banda. O filme de concerto captura a banda de Boston gravando o álbum PORNOGRAFFITTI na sua totalidade. (Loud&Proud Records)”

Gemini Syndrome - «Memento Mori» (EUA, Alternative metal) A roupagem alternativa de Hard Rock continuará a empurrar o envelope musical e temas sobre o próximo trabalho, o qual é o seguimento de sua estreia em 2013 «Lux». «Memento Mori» é o sucessor direto de «Lux», e parte integrante de uma trilogia; com o último sendo uma representação do nascimento, e os primeiros agindo como um lembrete da vida. (Another Century) Orphaned Land & Amaseffer«Kna an» (Israel, Middle Eastern metal) Kna’an é um projeto que nasceu na cabeça do diretor do Landestheater de Meminngem Walter Wayers. Wayers escreveu uma peça teatral completa com sua perspectiva moderna sobre a história bíblica familiar de Abraão na terra de Kna’an e procurou alguém para escrever a banda sonora e as canções. Foi assim

que nasceu uma coprodução entre Kobi Farhi (Orphaned Land) e Erez Yohanan (Amaseffer). (Century Media) 9Electric - «The Damaged Ones» (EUA, electronic rock) A banda é 9ELECTRIC, e com o lançamento de seu álbum de estreia «The Damaged Ones», é o alvorecer de uma nova era para os fãs de hard rock. Uma banda que não é apenas um produto da cena de Hollywood, mas uma banda que ajudou a construir a cena de hoje. A determinação de lembrar a todos que, embora o rock and roll seja uma celebração, ressoa mais fundo quando tem um propósito. (Another Century)

base de metal pesado. (Carrycoal) Rev Theory - «The Revelation» (EUA, Alternative Metal) «The Revelation» é o quarto álbum de estúdio da banda de rock americana Rev Theory. É o primeiro álbum de estúdio completo da banda desde «Justice». Este álbum leva a música de volta ao primeiro lançamento quando fizeram música por puro amor e paixão. O álbum capta a verdadeira visão que imaginaram para Rev Theory desde o seu início. Ao incorporar elementos favoritos da banda dos últimos três discos, esta criação é puro álbum Rev. (Another Century)

Aeges - «Weightless» (EUA, Rock) Em ÆGES - pronuncia-se “ages”, ambiciosas paisagens sonoras de rock n ‘roll e melodias do tamanho das montanhas são o resultado eletrizante de quatro homens de diversas origens musicais unidos pelo seu amor compartilhado de guitarras barulhentas, grande percussão e canções cativantes. (Another Century) Witherscape - « The Northern Sanctuary» (Suécia, Progressive Rock/Melodic Death Metal) Musicalmente, «The Northern Sanctuary» consegue misturar perfeitamente os melhores elementos do Prog / Hardrock dos anos 70/80 da banda e até mesmo as raízes AOR com o metal extremo contemporâneo, porém sempre atmosférico e sutil. (Century Media) Sahg - «Memento Mori» (Noruega, Doom Metal) Quando os elementos erguidos das profundezas da condenação convergem com o reino do progressive rock, pode-se traçar paralelos com grandes nomes como Black Sabbath, Pentagram ou Mastodon. Sahg adquiriu uma mistura única do acima mencionado enquanto descansando firmemente em uma

Motorowl - « Om Generator» (Alemanha, Psychedelic doom rockers) MOTOROWL, formado em 2014, quando a maioria dos seus membros da banda não tinha nem vinte anos de idade! MOTOROWL rapidamente desenvolveu um som pesado abençoado com riffs fabulosos, grandes melodias vocais, e um órgão de Hammond grind em cima da sua música. Pense

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em Spiritual Beggars ou Uriah Heep numa ressaca de mau acid. Pense nos 70 inspirado, maldito heavy hard rock com um toque contemporâneo, sombrio. (Century Media) Periphery - « Periphery Iii Select Difficulty» (EUA, Progressive Metal) Periphery III: Select Difficulty é o quinto álbum da banda de metal progressivo Periphery. A faixa de abertura, “The Price Is Wrong”, foi nomeada para Melhor Performance de Metal no 59º Grammy Awards Anual. «Select Difficulty» é de longe o álbum mais diversificado da banda Americana. Eles estão mais maduros e encontraram uma maneira de combinar a vibração de um som complexo com o popular. (Century Media) Sonic Syndicate - «Confessions» (Suécia, Alternative Rock/ Metalcore) Sonic Syndicate finalmente estão de volta depois de um período de silêncio. A crise forçou a banda a mudar o curso de forma significativa e eles tiveram a chance de gravar um álbum mais ousado ainda. Desta vez, os membros da banda tomaram um olhar mais profundo em si que levou a algumas mudanças do som. (Despotz Records)

Sisters Of Suffocation - « Brutal Queen» (Holanda, Death Metal) Banda holandesa de Death Metal composta só por mulheres. Perfeitamente jogado death metal

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da old school com um pouco de tecnicismo adicionado para manter as coisas interessantes. (Hammerheart Records) Karmakanic - «Dot» (Suécia, Progressive Rock) Karmakanic começou a sua carreira em 2002, e agora, 14 anos depois, quatro álbuns de estúdio e dois álbuns ao vivo, eles estão de volta com seu quinto álbum completo, DOT. (InsideOut Music)

Allegaeon - « Proponent For Sentience» (EUA, Technical Melodic Death Metal) Com «Proponent For Sentience», os Allegaeon apresentam um álbum musicalmente conceitual complexo, inteligente e absorvente que pode legitimamente sentar-se ao lado dos verdadeiros grandes do meio. Esse material temático grandioso e intrincado requer uma intrincada banda sonora devidamente grandiosa. Dado que se trata de uma banda já elogiada pela sua extrema tecnicidade e capacidade de escrever música de uma escala verdadeiramente épica, levar as coisas para o próximo nível representará sempre um desafio, mas que eles abordam de frente. (Metal Blade) The Holeum - «Negative Abyss» (Espanha, Atmospheric Black Metal) Tendo o título «Negative Abyss», o álbum de estréia da banda espanhola THE HOLEUM soa destrutivo, e sem esperança. Fundada por ex-músicos de

bandas como NahemaH, Demised, QuantumXperience, Hela, Neptunian Sun e Priest of Dawn, estes iniciaram esta nova saída para alargar as fronteiras e reforçar a impressão emocional do que a obscura e estranha música pode ser e alcançar. «Negative Abyss» consiste em oito faixas que expressam conflitos internos e a busca sem fim do sentido na vida. O primeiro álbum do HOLEUM desabrocha entre o pós-metal e o ambiente obscuro - sempre cheio de atmosfera e sutileza. Estando em linha com as suas músicas pesadas multi-camadas. O caminho é árduo, como demonstram os títulos de músicas como “Cosmic horror”, “Dystopia”, “Nuclear mysticism”, ou “Pictures of the uncanny”. (Lifeforce Records) Ewigheim - «Schlaflieder» (Alemanha, Dark/Gothic Metal) O novo álbum do electro / rock gloomsters Ewigheim é um lugar tranquilo, onde pode descansar a cabeça sobre um travesseiro e torcer os olhos. Oh, a propósito, as letras de EWIGHEIM estão em alemão e embrulhadas em música rock eletrónica fantástica ... às vezes é obscuro, mas mais preferencialmente black metal. (Massacre Records)

Monte Pittman - « Inverted Grasp Of Balance» (EUA, Alternative Heavy Metal) Há grandes guitarristas, grandes vocalistas e grandes compositores, mas Monte Pittman é um dos poucos que realmente pode


reivindicar todos os três títulos. Com o seu quarto LP, «Inverted Grasp Of Balance», ele voltou a aumentar a parada, entregando uma arrebatadora coleção de metal de força total que mostra a sua contínua evolução, sem dúvida, expandindo a sua base de fãs devotos - e vorazes. “Eu sabia exatamente o álbum que eu queria fazer”, afirma. Ex Prong e guitarrista da Madonna. (Metal Blade) Miracle Flair - «Angels Cast Shadows» (Suiça, Melodic Female Fronted Metal) “Angels Cast Shadows” é uma peça de arte, que mostra a paixão da banda e atenção aos detalhes. É um caso internacional, e o álbum foi refinado pelas habilidades de produção da lenda viva Tommy Vetterli (Coroner). O segundo álbum de estúdio do suíço melódico / épico / metal sinfónico. O álbum mais pesado “Angels Cast Shadows” lidera a banda em uma nova direção! (Massacre Records)

Finsterforst - «#Yolo» (Alemanha, Folk Metal) O novíssimo FINSTERFORST EP despedaça todas as fronteiras de género de uma maneira totalmente não convencional - com diversão ultrajante! Com um amor concentrado para toda a música, “#YOLO” é fresco e marcante. As quatro canções novas e cinco covers incomuns escolhidas mostram extrema experimentação da banda: De Miley Cyrus a K.I.Z. passando por Michael Jackson,

“#YOLO” tem muito a oferecer em termos de diversidade! (Napalm Records) Mercyless - «Pathetic Divinity» (França, Death/Thrash Metal) Os lendários franceses reis do Death Metal estão de volta! Após o rugido da horda afiar as suas armas para uma nova batalha contra todo o sagrado, desta vez é guerra! «Pathetic Divinity», o sexto álbum de estúdio da banda de Death Metal MERCYLESS, está aqui e vai provar que, mesmo depois de 30 anos, eles ainda são um dos profanos reis do Death Metal que sempre foram! (Kaotoxin Records)

Blues Pills - «Lady In Gold» (Suécia, blues rock) Nos últimos anos, BLUES PILLS têm mexido no cenário internacional do blues rock. A alma e até mesmo as influências gospel compartilhadas por todos os quatro membros, mas que tinha sido até agora relegado para segundo plano em detrimento do blues e rock psicadélico, estão agora mais presentes do que nunca. A faixa-título, “Lady In Gold”, não tem nada a ver com o fato de que BLUES PILLS tem uma mulher enfrentando-os. (Nuclear Blast Records) Charred Walls Of The Damned - « Creatures Watching Over The Dead» (EUA, Power/Thrash Metal) Um dos aspectos mais imediatamente aparentes ao ouvir «Creatures Watching Over

The Dead» é o quão direto e punchy é, a maioria das canções duram menos de quatro minutos, contendo tanto o catchiest e mais face-destroying da música lançada sob o nome Charred Walls. Com Tim “RIpper” Owen e o lendário baixista Steve DiGiorgio. (Metal Blade) Zornheym - «The Opposed Ep» (Suécia, Symphonic Extreme Metal ) EP de 1 single como álbum de estreia. Inspiração desenhada a partir de ícones como Dissection, Dimmu Borgir e King Diamond é emparelhado com orquestração de cordas reais e um coro cheio poderoso. Todas as músicas do álbum de estreia terão um acompanhamento visual na forma de pequenas histórias gráficas com uma exploração mais aprofundada dos temas como curtas-metragens em lugar da abordagem padrão dos vídeos musicais. (Non Serviam Records)

Sabaton - «The Last Stand» (Suécia, Power Metal) Se tiverem alguma dúvida, por favor, atualizem os vossos livros: a nossa máquina de guerra sueca preferida SABATON está a caminho do topo absoluto do mundo do heavy metal. (Nuclear Blast Records) Delain - «Moonbathers» (Holanda, Symphonic Metal) Um primeiro vislumbre da profundidade do álbum é ‘Hands of Gold’ - riffs impetuosos reúnem

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grandeza orquestral completa com Alissa White-Gluz reaparecendo como uma convidada especial. «Moonbathers» mostra a banda de ambos os seus lados mais extravagantes e sensíveis como eles exploram todas as coisas noturnas através de um conjunto especialmente variado de faixas, incluindo uma cobertura surpreendente da lendária rainha do rock clássico. (Napalm Records) Carnifex - «Slow Death» (EUA, Death Metal) Os Carnifex sempre se destacaram dentro das fileiras da música pesada. A sua habilidade de temperar o darkned metal com uma partição orquestral na veia cinematográfica fez o som desta banda. (Nuclear Blast Records) Despised Icon - «Beast» (Canadá, Deathcore) Desde o vocal selvagemente desencorajado à inesgotável força dos batimentos explosivos, o novo álbum do DESPISED ICON é um lembrete rápido de que esta banda é um dos autores de um poderoso movimento de metal extremo. A “Besta” é despertada e pronta para ressoar. DESPISED ICON está de volta, senhoras e senhores, sem frescura, sem besteira, e apenas poder total. (Nuclear Blast Records)

Twilight Force - «Heroes Of Mighty Magic» (Suécia, Power Metal) Cada melodia escavada pelos cantos mais profundos do cérebro do ouvinte e, embora

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a opacidade pareça espalhar-se como um incêndio selvagem, TWILIGHT FORCE sabe muito bem como controlar a sua emissão de faíscas. Este álbum revela contos aventureiros com terras inteiramente não conquistadas, onde cativantes melodias crescem ao lado de cada caminho e esperam para serem reunidas. (Nuclear Blast Records) Pain - «Coming Home» (Suécia, Electronic/Industrial Metal/Rock) Então, respire fundo, antes de saltar para este mar de metal industrial, arranjos de orquestra estrondosos e emocionantes teorias de conspiração - e suecos, que são apenas projetados para chateá-lo, na sua maneira mais elegante. (Nuclear Blast Records) Soilwork - «Death Resonance» (Suécia, Metalcore/Melodic Groove Metal) A coleção especial de raridades sob o monicker «Death Resonance» não é nada como o seu melhor, oferecendo duas faixas novas, bem como canções raramente lançadas nos últimos 11 anos, voltando até ao seu opus magnum, «Stabbing The Drama». (Nuclear Blast Records)

Principality Of Hell - «Sulfur Bane» (Grécia, Black Metal) Os PRINCIPALITY OF HELL nasceram da necessidade de honrar as suas raízes, as bandas que lhes deram a ignição e o desejo de começar a tocar música, e lembrar as pessoas que o

Black Metal não é apenas sobre blastbeats e corpsepaint. (Osmose Productions) To The Rats And Wolves «Dethroned» (Alemanha, Trancecore) Depois de «Neverland» trouxe para TO THE RATS AND WOLVE com sua mistura única de pós-hardcore penetrante e elementos eletro altamente dançáveis para o topo da cena trancecore alemães. O lema é e será: Young.Used.Wasted ... e a banda está vivendo isso ainda mais além e especialmente em palco! (Nuclear Blast Records)

Alcest - «Kodama» (França, PostMetal/Blackgaze Metal) «Kodama», o quinto álbum dos pioneiros do Blackgaze, Alcest, marca o retorno feroz da dupla francesa ao maximalismo estilístico de seus primeiros álbuns, continuando a busca implacável da banda por novos sons e novas idéias. (Prophecy Productions) Equilibrium - «Armageddon» (Alemanha, Epic Folk/Viking Metal) Os EQUILIBRIUM estão de volta! Dois anos após o seu quarto álbum triunfal «Erdentempel», este épico conjunto de metal volta ao centro das atenções com o seu novo álbum «Armageddon». Este está pronto para continuar a história dos EQUILIBRIUM e acrescentar um novo e formidável capítulo à discografia da banda com o seu som maciço, as suas


excelentes canções e uma riqueza de diferentes humores. Estejam pronto para um álbum impressionantemente, pensativo e apaixonante! (Nuclear Blast Records) Vader - « Iron Times» (Polónia, Death/Thrash Metal) Um EP de antecipação do novo álbum que se avizinha. Este single especial de 10” é retirado de seu próximo álbum «The Empire». Existem duas novas faixas mais duas músicas de bonús. (Nuclear Blast Records) Cryfemal - «D6S6Nti6Rro» (Espanha, Necro Mental / Black Metal) CRYFEMAL é fiel aos ossos como referência na cena de Raw Black Metal desde 1996. 2015, Ebola pega no projeto de CRYFEMAL da sepultura e grava o seu sétimo álbum, chamado “D6s6nti6rro” Com Bornyhake (Borgne, Enoid) na bateria e Satur Como baixista. (Osmose Productions)

Dysrhythmia - «The Veil Of Control» (EUA, Progressive Instrumental Metal) Desde a sua criação há mais de dezassete anos, o powertrio DYSRHYTHMIA, com sede em Nova York, estabeleceu-se plenamente como uma das mais notáveis, progressivas e únicas bandas instrumentais de metal. Com o seu novo álbum, «The Veil Of Control», o primeiro da banda desde a estreia do «Test Of Submission» em 2012, a

DYSRHYTHMIA criou mais uma vez uma nova expressão dentro de seu repertório. O álbum vê Hufnagel exclusivamente usando uma guitarra de doze cordas no LP, uma faceta que é incomparável dentro do género do nicho da “música progressiva instrumental”, demonstrando novamente a importância da banda dentro da cena. (Profound Lore Records) 1476- «Wildwood» (EUA, Art Rock) «Wildwood» é uma obra de Dark Rock atmosférica, que inclui tons de Metal, Neofolk e música Experimental. O registro é uma experiência temática sobre explorar e abraçar a contradição. A música é densa, atmosférica e agressiva, mas incorpora momentos acústicos e ambientais para criar paisagens sonoras surreais. As letras comentam sobre a natureza humana por toda parte, intercalando imagens herméticas, angélicas e animais que unem os aspectos mais introspectivos do álbum juntos. «Wildwood» é reforçado pela inclusão de do EP dos 1476 de 2012 «The Nightside». (Prophecy Productions)

Theatres Des Vampires «Candyland» (Itália, Gothic Metal) Theatres des vampires é uma banda de Metal Gótico Italiano com fortes influências sinfónicas, formada em 1994 e referenciada pelo tema predominante do vampirismo nas suas letras. O nome “Theaters des Vampires” foi inspirado num lugar

ficcional criado pela escritora de fantasia gótica Anne Rice. Apresenta um convidado muito especial, FERNANDO RIBEIRO (MOONSPELL). (Scarlet Records) Darkher- «Realms» (Inglaterra, Atmospheric Doom Metal / Dark Folk) «Realms» é o álbum de estreia ansiosamente antecipado de Darkher (AKA Jayn H. Wissenberg) uma meditação de contos de fadas sobre a vida, a morte e o que está além. (Prophecy Productions) Skeletonwitch - «The Apothic Gloom (Ep)» (EUA, Melodic Death/Thrash Metal) SKELETONWITCH transcenderam os limites do género ao longo da última década com a sua mistura de marca registrada de blackened thrash, death e heavy metal. Por isso, não deve surpreender que seu novo EP, «The Apothic Gloom», apresenta alguns dos seus riffs mais catchiest e ritmos mais pummeling até à data, bem como mais trituração sonora do que nunca. (Prosthetic Record) Trap Them - «Crown Feral» (EUA, Grindcore/Crust Punk) TRAP THEM retornará com «Crown Feral», um outro amontoamento de venenosas e darkned hardcore. (Prosthetic Record)

Sons Of Balaur - «Tenebris Deos» (Noruega, True Black Metal) SONS OF BALAUR vêm à vida. Diretamente fora do aclamado

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romance «Realm of Damned», esta banda norueguesa, obviamente ficcional, está realmente entregando um notável primeiro LP. No entanto, enquanto a novela gráfica aparece tão sangrenta quanto brutal, a biografia dos maníacos possuídos demoniacamente é oferecida de forma muito irônica, além de representar uma homenagem respeitosa à cena precoce do black metal nórdico com sua ideologia fanática e seu cadastro criminal. (Season of Mist) Noise Pollution - «Unreal» (Itália, Hard N’ Heavy) Noise Pollution é um dos atos mais interessantes e de rápido crescimento no heavy metal moderno. Groovy / catchy Heavy Metal. (Scarlet Records)

Netherbird - «The Grander Voyage» (Suécia, melodic death/ black metal) NETHERBIRD foi fundado na Sweden em 2004 com a intenção de criar uma música de metal áspera no limite do melodic death e black metal. Durante os anos 2004-2014 a banda lançou três álbuns e um número de EPs e fez três tournées. Agora, quase três anos após o lançamento de «The Ferocious Tides Of Fate», NETHERBIRD voltam com seu álbum mais forte até à data: «The Grander Voyage». Incorpora elementos de black, death e mesmo de doom metal. Este disco é um novo monumento no ofício de talhar música áspero com,

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contudo melódico. Eles mantêm-se fiel às suas origens, musicalemnte e também líricamente com Nephente a tecer as suas reflexões obscuras e pessoais sobre o mundo nas músicas que escreve. Este álbum é uma viagem abrangente em sete canções, e agora está convidado a juntar-se à descida nos territórios desconhecidos. (Black Lodge) Anciients - «Voice Of The Void» (Canadá, Rock / Heavy Metal) Quer um álbum que ofereça smoking rock quente e delicioso com peso em igual medida? «Voz do Vazio» faz exatamente isso. Uma avalanche de brilhantes riffs que derrubam os vossos altifalantes, conduzidos por uma seção rítmica implacável. (Season of Mist) Spirit Adrift - « Chained To Oblivion» (EUA, Doom Metal) SPIRIT ADRIFT foi criado por Nate Garrett por necessidade. Garrett cortou os dentes no Sul, em um caldeirão húmido de doom, sludge, rock psicadélico e punk hardcore. SPIRIT ADRIFT é o resultado de uma vida dedicada à música. Álbum de estreia. (Prosthetic Record)

Madder Mortem - «Red In Tooth And Claw» (Noruega, Progressive Metal) «Red in Tooth and Claw» marca o retorno há muito aguardado dos veteranos pioneiros do metal norueguês Madder Mortem. Sete anos passaram desde o lançamento de seu antecessor «Eight Ways»,

e «Red in Tooth and Claw» ainda mantém a marca caracteristica do som dos Madder Mortem, mas, desta vez o “quirkiness”(Estranho, mas fixe) tornou-se ainda mais cativante. As músicas movimentan-se de partes doomy para riffs duros, sempre exibindo um grande senso de melodia, groove e emoções. O conjunto é completado com os vocais maciços de Agnete M. Kirkevaag que vai desde os sussurros mais ternos aos gritos mais violentos. (Dark Essence Records)

Départe - «Failure, Subside» (Australia, Post-Black Metal) A Escuridão desce, fisicamente opressiva, um peso pesado no peito. Intrusão, frieza infiltram-se no crânio e nos ossos. Dor e um esmagador desespero agarram a alma. No entanto, este golpe sombrio é tão preciso quanto metódico. Uma determinação sombria conduz esta espiga profundamente dentro do coração. Com o seu álbum de estreia «Failure, Subside», DÉPARTE estabeleceu uma nova referência para o vício musical. (Season of Mist) Esben And The Witch - «Older Terrors» (Inglaterra, Heavy Atmospheric Rock) Algo antigo e primordial acelera as quatro faixas no quarto álbum de ESBEN AND THE WITCH. A voz assombrosa de Rachel Davies tece feitiços arcanos através de padrões hipnóticos. interlaçado nessas invocações


é a emocionante feitiçaria das cordas fornecidas pelo guitarrista Thomas Fisher, enquanto Daniel Copeman evoca um estado de transe com o seu xamanismo de percussão e paisagens sonora amplamente pintadas por magia de um sintetizador eletrónico. (Season of Mist) Hierophant - «Mass Grave» (Itália, Death Metal) A escuridão vem esmagando-se como uma avalanche de desespero, miséria e dor. Enquanto uma corrente de brutalidade áspera é tangível dentro de cada nota, há também um vazio negro agarrando a sanidade e tentando arrastar toda a emoção para o abismo escondido. (Season of Mist)

anos setenta. Wesley está de pé sobre os ombros das suas influências, como Rush, Pink Floyd e Porcupine Tree com os estilos de guitarristas como Robin Trower, Jeff Beck, Alex Lifeson e Warren Haynes. John Wesley construiu uma carreira longa e variada como um compositor, “sideman” guitarrista e artista de gravação. A sua música tem sido chamada de liricamente sensível e musicalmente dinâmica. O seu estilo de composição incorpora vocais emocionalmnte carregados que evocam a honestidade e a intimidade de Roger Waters e Patty Griffin juntamente com um estilo de guitarra melódico, mas intrincado. (InsideOut Music)

Saint Vitus - «Live Vol 2» (EUA, Doom Metal) SAINT VITUS gravou «Live Vol. 2» durante a tournée para o seu aclamado álbum de regresso «Lillie: F-65 »(2012) no concerto que deu em Kulturfabrik Esch-sur-Alzette, Luxemburgo em 19 de março em 2013. O Álbum e tournée marcou o retorno do lendário vocalista Scott “Wino” Weinrich. (Season of Mist)

John Wesley - «a way you ll never be» (EUA, Rock Progressivo) “a way you’ll never be” - aliás, o uso de letras pequenas é feito de propósito - marca o oitavo álbum de estúdio de John Wesley. O álbum traz um retorno modernizado para os clássicos álbuns de rock progressivo dos

DGM - «The Passage» (Itália, Progressive/Power Metal) «The Passage» é o oitavo álbum de estúdio dos DGM, e é o culminar de quase 20 anos de árduo trabalho, iniciado em 1997 com o lançamento de seu mini-álbum auto-produzido, «Random Access Zone». Ao longo dos anos, a banda passou por várias encarnações e mudanças de formação, mas desde que o cantor Mark Basile entrou no grupo em 2007, DGM evoluiu e desenvolveu o som que apresentam actualmente. Este trabalho actual soa como uma versão esfomeada e urbanizada de Symphony X, com influências hard rock substanciais. As composições são fenomenais, os coros arrebatadores, com passagens técnicas, fretwork relâmpago rápido, vocais grandes e transições

bombásticas. (Frontiers Records) Carnophage - «Monument» (Turquia, technical death metal ) Os turcos do technical death metal CARNOPHAGE, vão lançar o seu segundo LP. Monumento é um verdadeiro exercício em caos controlado e, após uma dormência de oito anos, encontra a banda no auge de sua ingenuidade metódica e sem remorso diabólico. (Unique Leader Records) Destroying The Devoid «Paramnesia» (EUA, Progressive death metal) Através de quarenta e seis minutos de música, os DESTROYING THE DEVOID levam os ouvintes através de uma escura exploração da psique humana, especificamente como a personalidade de um indivíduo e a percepção do mundo são moldados e, em última instância, ditados por suas relações e experiências pessoais. Álbum de estreia. (Unique Leader Records)

Kansas - «The Prelude Implicit» (EUA, Rock Progressivo) Com uma lendária carreira que abrange mais de quatro décadas, KANSAS estabeleceu-se firmemente como um dos icons de bandas de rock clássico da América. Esta “banda de garagem” da Topeka lançou o seu álbum de estréia em 1974 depois de ser sido descoberto por Wally Gold, que trabalhou para Don Kirshner, e passou a vender mais de 30 milhões de álbuns em todo o mundo. (InsideOut Music)

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Inanimate Existence - «Calling From A Dream» (EUA, progressive death metal) “Após o lançamento do nosso último álbum, decidimos levar o nosso som para um novo lugar, incorporando as nossas raízes”, explica a banda. “Espere composições profundas com muitos altos e baixos emocionais. A inspiração foi tirada de teóricos da música e compositores que datam de milhares de anos. Dentro de chamando de um sonho, os ouvintes encontrarão uma grande variedade de elementos musicais misturados para formar um rico contraste de texturas sonoras que resultam em uma experiência auditiva dinâmica. (Unique Leader Records)

Cirith Ungol - «Paradise Lost (ReIssue)» (EUA, Heavy/Doom Metal) A saga do quarto álbum de Cirith Ungol é fiel ao seu nome, «Paradise Lost». Como uma tragédia grega clássica, é um conto épico cheio de dor, desafios, batalhas, oportunidades perdidas e redenção final. Contém um elenco de heróis e vilões, toca num palco de metal, num momento em que bandas de “hair” e speed metal estavam na moda. Após a saída de «One Foot in Hell», a banda começou imediatamente a trabalhar neste trabalho. Este foi planejado para ser um álbum conceitual. (Metal Blade) Hail Spirit Noir - «Mayhem In Blue» (Grécia, Psychedelic Progressive Black Metal)

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«Mayhem In Blue», o novo álbum dos Psychedelic Prog Black Metallers Hail Spirit Noir. O álbum será o terceiro lançamento do trio grego, cujo álbum de estréia «Pneuma» apareceu em 2012, seguido por «Oi Magoi» de 2014. Comentando o que os fãs podem esperar, a banda teve que dizer isto: “Já faz dois anos e meio desde o lançamento do nosso último álbum, e com «Mayhem In Blue» esperamos ser mais agressivo, sem com isso sacrificar nenhuma das melodias psicodélicas que são parte integrante do que gostamos de chamar “estranho som negro” do Hail Spirit Noir. Na obstante, o som é mais atraente e trippy do que nunca. (Dark Essence Records) Cruzh - «Cruzh» (Suécia, Rock) Cruzh apreceu após o fim dos rockers suecos glam TrashQueen, em que tanto Anton Joensson e Dennis Butabi Borg tocaram. Eles compartilharam um amor por rock melódico e AOR e uniram forças com Tony Andersson, que anteriormente trabalhou como músico de estúdio no disco «TrashQueen» nunca lançado. Todos os três membros da banda operam como compositores em Cruzh e entre as suas influências estão Def Leppard, Toto, FM, Winger, Firehouse e Bryan Adams. (Frontiers Records)

In Flames - «Sounds From The Heart Of Gothenburg» (Suécia, Melodic Groove Metal/ Alternative Rock) Eles quebram as regras,

reinventam-se com cada álbum e são considerados como a pérola de metal mais brilhante de Gotemburgo - desde o início dos anos 90, IN FLAMES entregaram uma progressão espectacular que os viu transformar o som do clássico Melodic Death Metal para os seus atuais e modernos estilo único. Foi o momento para eles construirem um monumento em honra de seu som atual - o resultado é o requintado DVD antes que a banda se mude para outras margens com o seu próximo disco de longa duração, o que é devido em outono. (Nuclear Blast Records)

In Aeternum - «The Blasphemy Returns» (Suécia, Black Metal) Os Suecos satanic deathmachine IN AETERNUM conjuram um novo EP ensopado de sangue intitulado «The Blasphemy Returns»! Com os seus riffs mortais e assustadores embebidos em maior consideração pelo o chifre, «The Blasphemy Returns» é um desenfreado furor de áudio ínfame de Blackened Death Metal. IN AETERNUM estão comprometidos com membros presentes, passados e vivos da sessão de Deströyer 666, Altar, Guerra, Interment, Degial, etc. (Pulverised Records) Slegest - «Vidsyn» (Noruega, Blackened Doom Metal) Três anos após o lançamento de estréia «Løyndom», Slegest agora retornam com seu segundo álbum «Vidsyn». Como no primeiro álbum, eles seguem uma fermentação


cozida a partir de uma base de malte de metal negro, misturada com lúpulos do jardim de Toni Iomis, armazenado em barris dos 70 com um deck de cassetes tocando clássicos de thrash dos anos 80 no fundo, e finalmente, engarrafado num isolado celeiro em Sognefjorden. Slegest mantem o foco em grooves de primeira classe e sólidos riffs pesados, em vez de velocidade, e com músicas ainda mais forte e com produção, um carácter sólido e nervoso. «Vidsyn» mostra uma banda mais madura. (Dark Essence Records)

SKÁLMÖLD - «Vögguvísur Yggdrasils» (Islândia, epic Viking metal ) Uma viagem deslumbrante e sinuosa pela mitologia nórdica aguarda no Vögguvísur Yggdrasils - e os melhores guias de viagem são e sempre serão os Viking SKÁLMÖLD de Reykjavik! Através dos seus últimos três álbuns, o grupo provou a sua especialidade quando se trata de Odin, mas agora o islandês de seis peças vai explorar os nove mundos, a partir do Muspellsheim ardente para congelados Nifelheim - todos mantidos juntos pela árvore Yggdrasil. Com um pano de fundo nórdico perfeito, o quarto álbum por esses pesos-pesados do género move-se suavemente de viking metal altamente épico e melódico para um folclore pitoresco. Odin possui todos vós! (Napalm Records) King Company - «One For The Road» (Finlândia, hard rock/ melodic metal)

King Company foi formado no início da primavera de 2014. O baterista Mirka “Leka” Rantanen (Raskasta Joulua, Warmen, exThunderstone, ex-Kotipelto, etc.) pensava em formar uma nova banda de hard rock / melodic metal por um longo tempo. Ele queria interagir com pessoas com quem tinha trabalhado antes e que ele conhecia como bons músicos e considerados amigos. (Frontiers Records) Palace - «Master Of The Universe» (Suécia, melodic hard rock) Palace é uma banda melódica de hard rock fundada pelo vocalista e guitarrista Michael Palace. A banda é completada por Rick Digorio na guitarra, Marcus Johansson na bateria e Soufian Ma’Aoui no baixo. Fortemente influenciado pela imagem e sons dos anos 80, os Palace oferecem um rock de arena maciça como nunca ouviu antes! Apesar de sua tenra idade, os quatro membros acumularam uma riqueza de experiência, tanto ao tocar ao vivo como ao gravar no estúdio com vários atos diferentes. (Frontiers Records) Sarcofago - «Rotting Re-Release» (Brasil, Black Metal) Greyhaze Records reeditará o EP clássico de 1989 dos SARCOFAGO “Rotting” no formato digipak com um DVD de bonus. O lançamento dos pioneiros brasileiros do Black/ Death Metal apresenta um layout novo e luxuoso. O DVD captura a performance ao vivo da banda em Belo Horizonte, em 1991, em apoio ao MORBID ANGEL na tournée «Altars of Madness». Entre na loucura! (Greyhaze Records) Seven Impale - «Contrapasso» (Noruega, Rock Progressivo) «Contrapasso» consiste em nove faixas altamente variadas e complexas expandindo sobre o único som dos Seven Impale que começaram a investigar sobre «Cidade do Sol», mas …. eles foram mais longe desta vez. Em «Contrapasso» você encontra uma banda que é

mais ousada, experimental e complexa. Novamente, eles tocam as paisagens sonoras mais difíceis, além de incluir faixas mais cativantes e otimistas, mas neste álbum tudo vai um passo adiante. Visitando lugares onde nenhuma banda esteve antes, com «Contrapasso» os Seven Impale não prestam atenção aos limites do género. (Karisma Records) Hanging Garden - «Hereafter» (Finlândia, Atmospheric Rock) «Hereafter» é tudo o que Hanging Garden representa hoje em dia, sendo a unificação do seu passado, presente e futuro e onde o som atmosférico desses finlandeses ganha ainda mais importância e expressão emocional. É um pouco experimental, constituindo uma espécie de encruzilhada para a banda, a qual teremos de esperar para ver em que direção a banda irá caminhar. (Lifeforce Records)

Noveria - «Forsaken» (Itália, Progressive Metal) Forsaken’ é o novo álbum da banda de Metal Progressivo Noveria. O álbum é um conceito baseado na teoria dos cinco estágios da morte de Elisabeth Kübler-Ross e escrito em memória de uma jovem brilhante que foi levada para longe de sua família por um cancro agressivo. Cada faixa descreve os diferentes estados de espírito de uma pessoa que enfrenta uma doença mortal, levando o ouvinte numa montanha-russa emocional através de negação, raiva, depressão, negociação e aceitação

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no final da viagem. Musicalmente, cada música reflete um tema lírico específico. Os vocais de Francesco Corigliano personificam as emoções de uma vítima de doença repentina e sua jornada interior para a redenção. A guitarra violenta de Francesco Mattei é contrastada pelos teclados atmosféricos de Julien Spreutels, criando peças dinâmicas onde a letra, a melodia e a harmonia unem-se para tocar os múltiplos aspectos de cada emoção descrita nas músicas. Os grooves de bateria de Omar Campitelli e as robustas linhas de baixo de Andrea Arcangeli acrescentam profundidade às músicas, acompanhando-as constantemente em cada estado de espírito. Solos de duelo entre a guitarra e o teclado refletem o conflito interno para passar de um estágio emocional para o outro e os loops eletrônicos de bateria representam o implacável avanço do tumor. (Scarlet Records)

Airbourne - «Breakin Outta Hell» (Australia, Rock N’ Roll) Airbourne é possuído pelos espíritos do rock’n’roll. Estes australianos têm ido sempre onde as cervejas são frescas, as meninas são quentes ea música nunca pode ser demasiado alta e orgulhosa. (Spinefarm Records) Candiria - «While They Were Sleeping» (EUA, progressive metalcore) Nascido em Brooklyn, NY, o nome Candiria é sinónimo do tipo de experimentação e duplo género

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mais frequentemente associado ao jazz freeform e ao rock progressivo do que hard / metalcore. A integração equilibrada de Candiria com o hip-hop, o jazz (early bop, bem como a fusão tardia), o dub e a experimentação abstratos e psicodélicos, são um testemunho da musicalidade habilidosa da banda e da inteligente estética sonora. (Metal Blade) Rivers Of Nihil - «Monarchy (Eur Tour Edition)» (EUA, Modern Technical Death Metal) O humor deste álbum, e a sequência de músicas, refletem emoções. «Monarchy» começa com faixas mais pesadas e mais obscuras, continuando a desenvolver inclinações mais progressivas até ao seu final. (Metal Blade)

Winterfylleth - «The Dark Herefater» (Inglaterra, Black Metal) Formados em 2007 com a intenção de honrar a rica cultura e património de Inglaterra, Winterfylleth estabeleceu uma declaração de missão solidificada para trazer a consciência para histórias históricas da Inglaterra, folclore, paisagens e passado ancestral através de seu apaixonado black metal. Winterfylleth (que traduz em Inverno Lua Cheia da língua inglesa antiga) representa a primeira lua cheia em outubro, bem como o festival anglo-saxão da chegada do inverno. Com a sua música, Winterfylleth conjurar humor e

emoções que vão desde vicioso e violento até melódico e elegante. «The Ghost of Heritage» sinalizou uma nova mudança para a cena underground de black metal no Reino Unido, com os Winterfylleth a serem considerados por muita da imprensa de música para um dos actos mais distintos deste movimento. (Spinefarm Records) Bloody Hammers - «Lovely Sort Of Death» (EUA, Doom Metal/ Hard Rock) “Este álbum é certamente o álbum mais sombrio que eu já gravei”, afirma Anders Manga, o criador de BLOODY HAMMERS, que permanece no escuro caminho dos mundos inferiores e abre os portões para «Lovely Sort Of Death». O quarto álbum dos Bloody Hammers assombra os ouvintes com pesados tons de fuzz de guitarra e um escuro pesado tuning nestes dias. Esta é a banda sonora perfeita para a sua próxima sessão de ouija de filme de terror favorito! Até que a morte nos separe! (Napalm Records) The Agonist - «Five» (Canadá, Melodic Death Metal/Metalcore) Montreal Metal - um selo de aprovação a ser contado com o terreno perfeito para faixas à procura de uma ameaçadora parede de som! Ao lado de Ícone Despised, «Beneath The Massacre and Cryptopsy», Os Agonist parece ser projetado para fazer todo o caminho até o topo da cena de metal extremo com uma mistura afinada de death metal melódico. Cinco torna o status deste Cnadianos de elite em cinco peças ainda mais claras, reforçando o objetivo de escapar ao mundano. A participação do cantor Vicky Psarakis no grupo em 2014 só aumentou o talento dos Agonist para tocar melodias e aligeirar com o rock alternativo que se tornou um hábito. Os Agonist estão destinados a manter o trono de todas as coisas deliciosas e cativantes ainda que indefinidamente brutal! (Napalm Records)


Lotus - «Thief-Gramarye» (EUA, post-black metal / space rock) Lotus Thief é uma banda de San Francisco que mistura o pós-black metal, rock espacial e música ambiente, num género único e de maior grandeza musical. Agora, dois anos após o lançamento do «Rervm», Lotus Thief apresenta seu novo álbum, «Gramarye», que expande significativamente os temas definidos na estréia da banda. (Prophecy Producions) Evil Invaders - «In For The Kill» (Bélgica, Speed Metal) EVIL INVADERS libertar a besta no seu próximo EP intitulado «In For The Kill»! Duas novas faixas, bem como duas versões ao vivo de músicas de seu álbum de estréia «Pulses Of Pleasure», tornam a audição uma loucura. Preparemse para a alta velocidade, skull crushing riffs e solos que irão derreter o seu rosto! Este vai ser brutal! Nenhuma misericórdia dada, eles estão IN FOR THE KILL! (Napalm Records)

Sodom - «Decision Day» (Alemanha, German Thrash Metal) Houve inúmeros dias decisivos na vida de Tom Angelripper. Na maioria deles, ele tem orientado o caminho da sua carreira musical na direção ideal. Como cantor e baixista da sua banda Sodom, Angelripper tem sido instrumental em manter o selo de qualidade “German Thrash Metal” no mapa internacional desde 1982, provando com suas canções intransigentes

e letras ambicionadas que ele gosta de pensar fora da caixa de seu musical gênero. Ao mesmo tempo, Sodom sempre se sentiu comprometida com sua própria história e, juntamente com a exploração corajosa de novos territórios, nunca perderam de vista o som típico da sua banda. (Steamhammer) Watchtower - «Concepts Of Math Book One» (EUA, Progressive/ Technical Thrash Metal) O primeiro EP e uma antecipação do terceiro álbum dos Watchtower, «Mathematics». O retorno desta banda de metal progressivo de quase uma vida atrás (27 anos desde o último lançamento). Musicalmente, isso é técnico, complexo, mas um sublime metal progressivo melódico. (Prosthetic Records) Crobot - «Welcome To Fat City» (EUA, Rock) Crobot, os auto-proclamados reis da Pensilvânia do “”riffage””, vão completamente intergalácticos com o seu novo LP, «Welcome to Fat City». A banda subverte o hard rock e as convenções de metal com composição de música dinâmica e um jogo que desafia o género. O som do novo álbum, constuído sobre o hard rock de seu álbum anterior, agora com um maior foco na composição e um tom deslocado de uma escala que o tornna mais cósmico, e onde a sua instrumentação pesada encontra novas zonas misturando elementos de funk em “”Temple in the Sky”” e “”Play It Cool”” e desacelarando-o para o bluesy que é “”Moment of Truth””. (Nuclear Blast Records) Crippled Black Phoenix - «Bronze» (N/A, Macabre Rock) Bronze consiste principalmente de cobre, mas é a inclusão de outros metais e não-metais que dá a esta liga as suas características específicas. Encontrará cada uma dessas características inerentes ao sexto álbum de estúdio de CRIPPLED BLACK PHOENIX, que é apropriadamente tendo o seu

título a partir desta liga fatídica. Em vez de cobre, a rocha escura constitui o ingrediente básico deste processo de amalgamação musical, mas é a adição de influências de metal, progressivas, góticas, ondas, até mesmo pop, e muitos outros elementos, bem como um elenco variável de músicos que resultam em cada Canção que brilha com seu próprio tom e tom individuais. No entanto, um profundo sentimento de angústia, desespero, saudade, perda, melancolia e nostalgia forma uma força vinculativa que reúne o “Bronze” e formula um tema abrangente. (Season of Mist) Atlantic Tides - «Atlantic Tides» (Itália, Alternative Rock) Os Atlantic Tide inspiram-se em diferentes géneros e estilos, do pop ao indie, do R&B ao hardcore, com um som resultante que eles podem definitivamente chamar de seu. Em sua existência relativamente curta, mas muito intensa, eles lançaram dois EPs e tocaram inúmeros shows ao vivo, muitas vezes compartilhando o palco com ilustres colegas musicais como Deaf Havana, Raízes Arcanas, You Me At Six, Maine e muitos mais. (Scarlet Records) Dayshell - «Nexus» (EUA, PostHardcore / Alternative rock) “O álbum tem um tom cru, ardente, que eu estava procurando por todo o tempo”, exclama Shay. “O que diferencia isso é a crueza, a velocidade, a energia e a diversidade. Era o que a banda sempre pretendia ser. “Quando chegou a hora de começar a escrever para o que se tornaria Nexus, Shay esforçou-se para elevar o limite tanto musical quanto liricamente. Galvanizado pelos gostos de animais como líderes e periferia, bem como inspirações de longa data Deftones e Incubus, batendo um equilíbrio indescritível entre metal moderna tech grooves e hipnótico, sincero vocal. (Spinefarm Records)

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Whiskey Myers - «Mud» (EUA, Southern rock) “Whiskey Myers, os soulful rockers do sul, vêm por aí fora do pôr do sol com «Mud », o seu quarto álbum de estúdio. «Mud» vê os Texanos Oriental a levar o seu estilo fácil a novos níveis, montado em vários géneros diferentes soul, country, rock clássico, blues, etc - no processo. Narrativa que dá as suas composições - de balancins full-tilt a passeios mais medidos um peso emocional que se conecta instantaneamente. (Spinefarm Records)

Noctem - «Haeresis» (Espanha, Brutal Black/Death/Thrash Metal) A banda ibérica de metal extremo NOCTEM apresentam o seu tão esperado quarto álbum de estúdio intitulado «Haeresis», o qual consiste em dez faixas que castigam brutalmente e que conceitualmente mergulham na história obscura de seu país de origem, a Espanha. (Prosthetic Records) Dawn Of Demise - «The Suffering» (Dinamarca, death metal ) “Estamos muito satisfeitos com o novo álbum”, emite a banda em um comunicado coletivo. “Toda vez que terminamos um álbum, sempre temos algumas coisas com as quais não estamos muito entusiasmados - desta vez, embora tenhamos razão! Com The Suffering, optamos por ser mais abertos na nossa abordagem de escrever músicas e é muito mais um esforço de banda. Nós ainda gostamos de nossos

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álbuns anteriores, mas desta vez tantos elementos se uniram para criar um passeio mais variado. Este é o quarto trabalho. (Unique Leader Records)

Ceremony - «Tyranny From Above» (Holanda, Death Metal) CEREMONY foi fundada na área de Roterdão em 1989 por Peter Verhoef nas guitarras (ex Phlebotomized) e lançou 2 demos, um 7 ‘ep e a estreia de longa duração «Tyranny From Above» em 1993. O álbum foi lançado pela Editora underground label Cyber Música e agora é finalmente re-emitido pela Vic Records. A partir de 1992 e a demonstração promocional de 3 faixas de 1994. Ceremony toca tipicamente Ducth extreme death metal do início dos anos 90, assim como os seus amigos e colegas de cidade os Sinister. (Não surpreende que Peter foi solicitado por duas vezes para se juntar aos Sinister nos sues primordios). (Vic Records)

Tesla - «Mechanical Resonance Live» (EUA, hard rock) Tem sido dito que o relâmpago nunca atinge o mesmo lugar duas vezes. Bem, não é o caso dos TESLA. A banda está empolgada com o anunciar do lançamento de uma gravação ao vivo de seu clássico álbum, «Mechanical Resonance LIVE!». Comemorando o 30º aniversário do disco de originais multi-Platinum em grande estilo, ainda apresentam algumas surpresas na manga, incluindo o single «Save That Goodness» escrito e produzido por Phil Collen dos Def Leppard. (Frontiers Records) Invoking The Abstract «Aural Kaleidoscopes» (EUA, Instrumental tech metal ) Os arquitetos de metal instrumental tech INVOKING THE ABSTRACT lançarão o seu LP de estreia. «Aural Kaleidoscopes» é um álbum diversificado e escrito para nos desafiar como músicos e compositores. Cada canção é composta numa escala diferente, nenhuma das quais são repetidas até a faixa final que transforma as escalas numa serialista. Algumas músicas são compostas para fluir livremente de uma para a outra, como outras ficam sozinhas como realizações em seu próprio direito, criando um álbum conceitual parcial. Este álbum é também a nossa primeira experiência com arranjos completamente instrumentais deixando a interpretação de cada peça para o ouvinte. INVOKING THE ABSTRACT apresenta um estilo abrangente que contem solos de guitarra soaring e groovy misturados, criando uma mistura de ganchos catchy acompanhado de metal técnico. (Unique Leader Records)


APOCALYPTICA 21/2/2017 Stadthalle Chemnitz Reportagem e Fotos: Tilly Domian

Apocalyptica em digressão de aniversário – tenho que ir a isto! A banda já me fascina há muitos anos com os seus violoncelos e a sua natureza finlandesa amável. E eu posso até mesmo tirar fotos ... uma noite perfeita! Siga para Chemnitz. A primeira parte do concerto foi minimalista. Todos os quatro elementos sentados de lado com um fundo de palco simplista. Mas as músicas que foram tocadas nesta noite têm a sua própria grandeza. Em muitos dos presentes, incluindo em mim mesma, as lágrimas eram visíveis desde a primeira nota. Assim como o humor dos Finlandeses em lidarem com uma sala não tão cheia como expectável. O elemento na extrema esquerda surpreendeu-me com a sua entrega pois eu nunca o tinha visto ao vivo. Mas Antero Manninen domina seu instrumento perfeitamente, e por isso se sente rapidamente que ele sempre esteve lá. De seguida, uma pausa com uma reconstrução do palco. Depois desta renovação, a postura da banda é muito mais rock e os enormes tambores fazem de Mikko o actor principal nesta parte do concerto. O público também se levanta, salta e aplaude a banda. E isso nota-se nos cinco elementos em cima do palco que correspondem a todas estas manifestações de carinho. Perttu até toca com a parte de trás do seu instrumento enquanto Antero fuma e queima o seu violoncelo e queimaduras aparecem. Onde está a tua câmara quando precisas dela? O tempo voa e o final do concerto aproxima-se e fica a impressão de que um concerto deste é sempre curto. Certamente, este não será o último concerto que vejo dos Apocalyptica. Perttu até disse no fim do concerto, em brincadeira disse que da próxima vez, talvez os Apocalyptica tocassem Scorpions com 3 gaitas de foles. Isso seria emocionante...

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MONKEY 3 + MISS LAVA + IT WAS THE ELF 08/2/2017 - RCA CLUB - LISBOA Reportagem e Fotos: Nuno Lopes

Os Suíços Monkey3 regressaram a Portugal para duas datas (Lisboa e Porto) que servem de apresentação a um muito bem recebido Astra Symmetry, lançado o ano passado. Foi perante um RCA a meio gás que a banda apresentou a sua música instrumental mas recheada de luz e de momentos mágicos, aliás, o som da banda remete, de imediato, para viagens só permitidas ao sonho, mesmo que estejamos acordados. Este foi um daqueles concertos em que nos esquecemos da voz e nos concentramos nas harmonias e somos levados para longe e, neste ponto, os Monkey3 são uma banda competente e senhores do seu nariz, mesmo que o silêncio da voz seja uma constante (nem mesmo para agradecer!). Escrever sobre o concerto dos Suíços é saber que vamos deixar passar algo ao lado, tal como tantas vezes o fazemos com a vida, este é um concerto para ser vivido, experimentado, sentido, só assim a música dos 3 macacos fará sentido, mesmo que, por vezes, soe monótono e sensaborão. Antes deles os Miss Lava subiram ao palco e, mesmo desfalcados devido a lesão do baterista, substituído por Herminio e que deu bem conta do recado, a banda mostrou, uma vez mais, que está num grande momento de forma e que são, nos dias de hoje, uma das melhores bandas nacionais em cima do palco, as também fora dele, como pode ser escutado em Sonic Debris. Com um Stoner bem pesado e bem balanceado, a banda não tremeu, nem mesmo quando a corda de Raffah se partiu, deixando por instantes os «mais fixes» da banda em palco. Este acabou por ser o concerto da noite e a prova de que se faz bom Stoner em Portugal. Quanto aos It Was the Elf, banda de Gouveia, mostrou coerência e um punhado de boas ideias e de boas canções, sem tremer, sem medo, a banda aproveitou a oportunidade para mostrar que há muito mais na serra do que paisagem, ficando a amostra do que a banda poderá fazer em disco e com mais rodagem. Em suma, esta foi uma noite recheada de sons e de viagens, porque o Rock é isto mesmo.

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WOLFHEART + ETERNAL STORM 22/03/2017 - RCA CLUB - LISBOA

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Após uma estreia, há um par de anos, os finlandeses voltaram a gelar a capital portuguesa, desta vez como cabeças-de-cartaz e, aproveitando o lançamento do registo Tyhjyys, o terceiro disco. Com eles trouxeram também o frio, facto que se podia comprovar no exterior mas que, em tudo, contrastava com o ambiente no interior da sala lisboeta, que fervilhava como um vulcão que entrou em erupção logo no inicio e que apenas terminou de jorrar energia quando os quatro cavaleiros saíram do palco. Os Wolfheart que se apresentaram em Lisboa são uma banda que se encontra no pico de forma e Tuommas Saukkonen imparável na forma como nos vai gelando a alma e corpo enquanto vocifera temas como Boneyard ou The Flood. Claro que falar dos finlandeses e não fazer referência ao guitarrista Mika Lammassaari seria injusto, assim como seria injusto não dizer que a banda partiu a casa e, pelo meio incitou a um fervoroso circle pit, que suplantou as expectativas. Num concerto que atravessou todos os discos da banda, este foi um setlist que não deixou nada ao acaso e, claro que não faltaram temas World on Fire, Kareli ou Zero Gravity. Uma banda de culto que deixou a promessa de um regresso. Nós por cá aguardaremos. Antes os espanhóis Eternal Storm mostraram uma espécie de Winter Metal, com algumas influências de Wolfheart, porém, apesar de alguns momentos que «acordaram» o público, mostraram alguma falta de coesão e, por vezes, até alguma trapalhice, porém, cumpriram o seu papel de banda de abertura e foi visto que existem alguns seguidores por cá. Mostraram algumas ideias boas, alguns temas que aqueceram o público e abrilhantaram a festa. Talvez não tenha sido um bom dia para eles, mas, o dever foi cumprido.

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CORVOS… 18 ANOS DEPOIS 4/02/2017 - CENTRO CULTURAL OLGA CADAVAL - SINTRA

Foi um Centro Cultural Olga Cadaval praticamente lotado que testemunhou o regresso aos palcos dos Corvos. Antevia-se um concerto especial, tanto pelas participações confirmadas à priori pela própria banda, como por ser, embora de forma não oficial, quase que uma homenagem a Cláudio Panta Nunes: elemento da banda de Sintra que sucumbiu face a uma doença oncológica. Havia por isso mesmo um ambiente difícil de caracterizar: por um lado uma alegre expectativa de quem espera para ver uma banda no seu regresso aos palcos, por outro uma consternação intrinsecamente relacionada com a tragédia pela qual os Corvos passaram recentemente. Talvez por isso mesmo tenham planeado um início de concerto muito sóbrio e pouco exuberante. Após uma introdução apenas subiram ao palco os músicos que tocam instrumentos clássicos, interpretando “Futuro que era Brilhante”. Após umas palavras sentidas de agradecimento à audiência, sem esquecer o “irmão Corvo” que perderam, apresentaram seu o baterista de serviço. Com a adição deste instrumento a melancolia começou a dissipar-se ao som de “Semén”. Segue-se a entrada e apresentação de outro músico, o baixista da banda, e já com a banda completa, iniciaram o seu tributo aos Xutos e Pontapés tocando a sua versão de “Circo de feras”. Nesta fase os Corvos começam a conduzir o público para um clima de celebração. Quando se ouvem os primeiros acordes de “Ai se ele cai”, uma reconhecidíssima e alegre música dos Xutos e Pontapés, dá-se também a primeira manifestação de euforia da plateia. O centro Cultural Olga Cadaval levanta-se, aplaude, acompanha a música e interage com os músicos. Esta alegria é mantida em “Não sou o único”, mas tem o seu expoente máximo quando o carismático Tim entra em palco. É ovacionado de pé, e acompanha os Corvos em “Remar remar”. O ritmo não foi quebrado após a saída em palco do convidado especial com a enérgica “À minha maneira”.

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Entrava-se agora num período de homenagem. É convidado a subir ao palco João Panta Nunes, Pai de Cláudio Panta Nunes, para tocar “Suspiro Noturno”. Não é fácil descrever a atmosfera que se vivia nesta altura. Sentidos cumprimentos entre os Corvos e seu outro convidado especial aquando da sua apresentação, e, durante a prestação musical propriamente dita, a enorme paixão e entrega que vinha do palco sensibilizava a plateia. A reação foi como que uma muda admiração com o tipo de energia que emanava do palco. Assim que terminaram, uma emocionada plateia aplaude de pé, aplausos esses que esperemos tenho de alguma forma confortado o já lavado em lágrimas João Panta Nunes, bem como todos os elementos da banda. Foi este o momento que o Presidente da Câmara Municipal de Sintra escolheu para condecorar Cláudio Panta Nunes, sendo oferecida a medalha de mérito da Câmara de Sintra a seu Pai. Condecoração essa que com certeza premiou também os restantes elementos. Deixado definitivamente para trás um período mais emotivo, os Corvos lançavam-se agora em devolver a alegria à audiência, e porque não, a eles próprios também. “Chuva Dissolvente” e “Quando eu morrer” serviram apenas de aquecimento para as muito desejadas “Casinha”, “Homem do Leme” e “Maria”. Após “A minha aventura homossexual com o general Cluster”, apresentada com as devidas reservas, “Contentores” deixou o público em delírio e a exigir vigorosamente mais. Os Corvos cumpriram, e com louvor, ao trazer de volta Tim para o encore que cantou “À minha maneira”. E este teria sido, a meu ver, um final perfeito e brilhante. Contudo, face entusiasmo da sala, um segundo encore era quase obrigatório. Este chegou sob a forma de “Um futuro que era brilhante”. Pedia-se talvez outra canção do seu vasto reportório face ao tipo de público que enchia o centro Olga Cadaval, mas entende-se a perfeitamente a escolha: uma tentativa de valorizar os seus originais, e embora não fosse recebida em apoteose como as anteriores, em nada beliscou o final de um concerto. Em termos emotivos, não foi com certeza um concerto fácil para os Corvos, porém, a sua dedicação e profissionalismo empurrados pelos apoiantes de sempre, tornaram-no sem dúvida num dos concertos que lhes ficará com certeza tatuado na memória.

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Aborym

Ode ao futurismo Tal

Filippo Marinetti, o poeta italiano que criou o movimento futurista, nos XX, também Fabrizio Giannese (aka Fabban), a alma dos Aborym, se preso no passado e adere ao dinamismo do novo século.

como

primórdios do séc, ficar

recusa a

Entrevista: CSA

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Olá, Fabban! Por que alteraste a formação da tua banda desde o último álbum? Quando te entrevistei a propósito de «Dirty», em 2013, disseste que não querias mexer em algo que funcionava muito bem. Fabban – Porque as coisas mudaram e eu estava cansado de me ver rodeado por gente preguiçosa. Agora estou muito satisfeito por ver que Aborym é uma banda a sério. Parece algo demasiado óbvio, mas não foi assim que começou. Basicamente, consegui reunir um grupo de músicos que nunca tinham tocado juntos e também que têm estilos muito diferentes. Comecei com o Dan V e o RG Narchost, que são essencialmente músicos de mente aberta provenientes da cena Metal, embora atualmente façam música experimental. Depois juntei-lhes o teclista Stefano Angiulli e o baterista Gianluca Catalani, que eram músicos de Rock/Metal com carreiras diferentes. Gostava também de saber por que escolheste estes músicos para partilharem contigo a jornada qie desembocou em «Shifting Negative». Fabban – Decidi que ia criar uma

verdadeira banda onde estes músicos pudessem tocar mesmo. Afinal eles juntaram-se para tocar toda a música que escrevi entre 2013 e 2016. O Dan V gravou todas as partes de guitarra e baixo do álbum e o RG Narchost fartou-se de fazer arranjos para as guitarras. Eu estava entusiasmadíssimo com a maneira como eles concretizavam ideias criadas para o novo álbum. Soava como o que eu sempre quis fazer na música. Como descreves a música que os fãs podem ouvir neste álbum? Fabban – Trata-se de uma adesão definitiva ao Metal Industrial e do adeus definitivo da banda ao Black Metal. Decorre de um acordo secreto em curso entre Aborym e as nossas máquinas. Ambas as partes querem mostrar que o orgânico e o mecânico conseguem coabitar. [É um álbum] Digital e acústico. A tecnologia evoluiu imenso nos últimos 20 anos. É mais flexível e mais orgânica. Mas as restrições impostas pela tecnologia, quando se manifestou, também funcionaram como uma fonte de inspiração. Tinhas de ser mais minimalista, o que também acabava por ser positivo. Nós

vamo-nos adaptando, à medida que a tecnologia evolui, porque estamos muito interessados em ver em que vai ela converterse. Penso que, quando fizemos «Dirty», em 2013, adotámos uma abordagem tecnológica à base de sintetizadores eletrónicos, plug-ins e computadores, porque queríamos ir além do mero uso de samples, como sempre tínhamos feito. Neste álbum que acaba de sair, misturámos o que aprendemos com a eletrónica, os sintetizadores modulares, o sampling e a gravação HD e combinámos isto tudo com uma alma oculta animada por géneros como o Metal, o Rock e o Punk. O principal propósito era criar texturas e espaços que contivessem algum elemento acústico que pudesse ser amalgamado com sons mais sintéticos… Adorei fundir estes dois mundos e tentei criar ambientes sonoros visceralmente tenebrosos. Chamo a isto Música Industrial. Feita pelos homens e parcialmente executada por máquinas. Olho para o negócio da música e vejo as pessoas num estado de “involução”, de retrocesso, ficando cada vez mais estúpidas (pensando, por exemplo, no Black Metal… ou no retorno ao

“[...] Decidi que ia criar uma verdadeira banda onde estes músicos pudessem tocar mesmo. [...]”

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Thrash Metal dos anos 90 e em centenas e centenas de bandas que mantêm o mesmo estilo e som… por exemplo, as de Death Metal). Interrogo-me sobre de onde vem essa falta de coragem e de entusiasmo. E como relacionas o estilo adotado em cada canção com o seu significado, o seu sentido? Fabban – A música de cada canção deste álbum foi composta a partir da respetiva letra, portanto todas estão separadas umas das outras por sentimentos diferentes. Penso que a ideia de contar histórias através da arte – seja através de um filme, de um romance ou de um álbum – é atualmente mais legítima e relevante do que nunca. As pessoas não têm forçosamente o tipo de atenção requerido pela atividade de se sentar e ouvir um álbum do princípio ao fim, como se se tratasse de uma narrativa, mas ainda há bastantes que veem um álbum como um continuum, um dispositivo narrativo... Este álbum só pode ser ouvido por pessoas de mente aberta e dotadas de uma forte curiosidade, de um espírito muito inquisitivo. Quem o compôs contigo (visto que o Paolo já não faz parte da banda)? Fabban – Escrevi o álbum sozinho entre 2013 e 2016. Durante a parte final da pré-produção, o Dan V substituiu o Pieri e acabou por me ajudar a transformar as “demos” em canções completas. Foi um desafio muito positivo, que realmente me entusiasmou a criar música de um nível superior ao que já fiz até agora. E agora posso finalmente trabalhar com uma formação constituída por músicos profissionais, que são também amigos próximos com quem posso contar para futuras gravações e concertos ao vivo. Quando entrávamos no estúdio, todos estavam a par dos arranjos e das partes que tínhamos previsto trabalhar naquele momento, todos sabiam o que tinham de fazer e onde. No entanto, não vale a pena ter um grupo de músicos

assim, se for para os encerrar numa abordagem particular ou numa forma específica de tocar. Portanto, as coisas passavam-se de uma forma bastante descontraída. Eles contribuíam muito com as suas ideias, sobretudo no que dizia respeito aos arranjos ou aos solos de guitarra. De facto, todos os solos foram criados por eles. De um modo geral, eu digo-lhes o que vão tocar, mas também há uma grande parte de improvisação. Por que é que desta vez não foste tu que fizeste a capa do álbum? Fabban – Geralmente, trabalho como designer digital e faço sempre o trabalho num computador. Mas, desta vez, queria algo feito a partir de materiais reais e pareceu-me que, para obter o que queria, era melhor trabalhar com um artista verdadeiramente profissional. Assim, contratei o David Cragné para criar o conceito gráfico adequado a «Shifting Negative». Há um curto documentário em vídeo – muito interessante – sobre a criação do artwork para este álbum – intitulado Shifted.negative.art – que apresenta filmagens relativas a várias fases do trabalho até se chegar ao resultado final e inclui ainda uma entrevista com este fantástico artista. E como a relacionas com o principal tema do álbum? Fabban – Eu criei a música deste álbum combinando diferentes máquinas, tocando sintetizadores modulares, usando instrumentos adaptados, vários tipos de software, VSTs, plugins, velhos sintetizadores analógicos (por exemplo, um TR-808 e um TB-303 ou ainda um ARP 2600) e “drum machines”. Esta “combinação” resulta muitíssimo bem e eu faço 90% do trabalho usando-a. Também há muito a dizer sobre a importância da interação física com um instrumento: tocá-lo, modelálo, modificar parâmetros, misturar coisas. Com estes instrumentos tu podes ter uma experiência terapêutica realmente diferente. É

como tocar uma guitarra ou algo que está emocionalmente ligado ao teu cérebro e às tuas mãos. Para mim, é como pintar ou desenhar. E a criação do artwork partiu do mesmo princípio, usando materiais variados em três telas, criando várias camadas. Por que convidaste tantas pessoas para participar neste álbum? Fabban – Às vezes, sou eu que convido as pessoas. Outras vezes, pedem-me para participar no álbum… Outras vezes ainda, tudo acontece como por acaso. Gosto de trabalhar com vários tipos de artistas e, no caso de «Shifting Negative», decidi trabalhar com engenheiros de som profissionais e um designer de som para obter a melhor qualidade possível. O Guido Elmi foi contratado para supervisionar a pós-produção, não como músico… É uma tradição desta banda trabalhar com artistas de todo o mundo. Foi maravilhoso ter connosco Mr. Sin Quirin, dos Ministry, uma banda que sigo desde a minha adolescência. Ricktor, dos The Electric Hellfire Club… Também Mr. Davide Tiso… Pier Marzano fez um trabalho sensacional com os seus solos de guitarra. Estamos todos plenamente satisfeitos com o resultado final. Tencionas fazer concertos para apresentar «Shifting Negative»? Fabban – Sim, mas vamos precisar de vários meses para prepararmos tudo juntos, para ensaiar para tocar o novo material… Estás mesmo a sentir-te mais pessimista, mais negativo agora? Fabban – Na realidade, sintome maravilhosamente bem. A negatividade está à minha volta, não na minha vida. https://www.facebook.com/aborymofficial/ https://youtu.be/83X_4p32WQU https://youtu.be/x7AiOP4AS8g

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Metal “académico” Os Arstidir Lifsins não são os únicos a aliar música extrema e erudição no mundo do Metal, mas não há dúvida de que o seu trabalho chama a atenção. Entrvista: CSA Foto: Rakel Erna Skarph Olá, Stefan! Este EP é mesmo fantástico (risos) Stefan Drechsler – Olá, Cristina. Obrigado pelo elogio. É verdade, nós e a nossa editora estamos também muito satisfeitos com a versão final deste lançamento. Como se prepararam para escrever as letras para este espantoso EP? Stefan – Usámos o processo habitual, para ser franco. Partimos sempre a partir de uma ideia para as letras e depois começámos a escrevê-las e a compor a música ao mesmo tempo. Geralmente, precisamos de alguns meses para ter tudo pronto, mas o esquema geral – ou seja, as composições e a estrutura geral das letras – fica determinado pouco depois de termos começado a trabalhar num dos nossos lançamentos. «Heljarkviða» não fugiu a este padrão. Podem explicar-me que critérios são usados para decidir quem vai

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para o Vallala e quem acaba em Hel? Não consegui perceber, nem mesmo depois de ler a informação sobre o vosso EP. Stefan – Essas decisões – se quiseres chamar-lhes assim – são explicadas nas fontes primitivas, mas não são apresentadas de forma clara em nenhum lado. Um exemplo de fonte desse tipo de informação pode ser o poema intitulado “Hákonarmál”, que foi escrito no séc. X, na língua nórdica arcaica. Conta a história da morte do rei cristão Hákon góði Aðalsteinsfóstri e de como essa pobre alma foi levada para o palácio de Odin por duas valquírias. O que o torna tão interessante e estranho é que o facto de Hákon ser cristão é apresentado no poema como equivalente de ser amigo dos deuses pagãos, o que se deve certamente ao facto de o seu autor – Eyvindr skáldaspillir Finnsson – ter ficado conhecido por ser um devoto do paganismo.

Podes dizer-nos o que significam os títulos do EP e das duas longas canções que este contém? Stefan – O título do nosso mais recente EP – «Heljarkviða» – pode ser grosseiramente traduzido por «O poema (épico) de Hel». Apresenta-nos o Helheimr, um lugar mítico do nórdico arcaico visto pelos olhos de um guerreiro amaldiçoado, que sofre uma morte penosa num campo de batalha. A sua viagem para o mundo tenebroso de Hel (canção 1) e a preparação, viagem e participação na batalha final de Vígríðr no Ragnarök (canção 2) são os tópicos principais do EP. E que relação existe entre o desenho misterioso que aparece na capa do EP e esses temas? Stefan – O motivo que figura na capa do EP inspira-se na pintura em pedra, arte típica de Gotland e outras partes da Suécia, onde, entre 400 e 1100, cerca de 400 pedras foram esculpidas e erigidas. O seu conteúdo pictórico é tão


interessante como misterioso e muitos desses motivos ainda são difíceis de interpretar/ler devido à falta de fontes escritas. Para o nosso EP, selecionei alguns desses motivos e criei um desenho típico da Gotland, que se refere às letras das canções. As runas no cimo da imagem correspondem às primeiras palavras da letra da primeira canção, que foram tiradas da 24ª estrofe da “Völuspá” [NR: Völuspá significa “A Profecia da Vidente” e é o nome do primeiro e mais conhecido poema da Edda, que relata a criação do mundo e anuncia o seu iminente final]. Descrevem o início da primeira guerra, iniciada por Odin, quando arremessou uma lança por cima das suas tropas. E como trabalhaste com os outros dois membros da banda para compor a música que acompanha estes poemas? Stefan – Foi feito como para todos os outros lançamentos. Já nos conhecemos há bastantes anos e somos uma equipa bem treinada. No entanto, a gravação foi feita no verão de 2014, juntamente com as de uma outra banda nossa: uma banda Folk chamada Wöljager. O seu hipnotizante álbum de estreia foi lançado pela Auerbach Tonträger/Prophecy Productions. Na informação sobre o EP, além dos membros da banda, a editora menciona uma mulher chamada Teresa. Quem é ela e que papel desempenhou neste vosso lançamento?

Stefan – É uma grande amiga da banda. Já participou no nosso segundo álbum – «Vápna lækjar eldr’» – por exemplo, e tem-me ajudado a traduzir uma boa parte das letras até agora. Tal como eu, é aluna de doutoramento em Literatura Medieval Escandinava e interessa-se muito pela música e arte nórdicas arcaicas (ou inspiradas nelas). Parto do princípio de que este EP anuncia um novo álbum de Arstidir Lifsins (o quarto). Queres dizer algo sobre este assunto? Stefan – Não, para já não. Há dois anos que andamos a trabalhar no quarto álbum. Contudo, ainda não há nenhuma música com composição definida, nem tivemos tempo para estabelecer uma calendarização para as gravações. O próximo item na nossa lista é uma gravação de tipo diferente, que tencionamos apresentar no início do verão deste ano. Será um split e é tudo o que te posso dizer por agora. Tu és jovem, em princípio tens muitos anos à vossa frente. Quais são os teus planos para o futuro? E os da banda? Stefan – Estamos todos muito empenhados nos nossos empregos, sejam académicos ou não, e queremos dar o nosso melhor em todas as nossas bandas. Felizmente, as nossas atividades em Árstíðir Lífsins, Wöljager e Helrunar permitemnos encontrarmo-nos várias vezes por ano e procuramos aproveitar

ao máximo esses momentos para delinear os nossos planos futuros para as três bandas. E – muito simplesmente por curiosidade – como é que os três se encontraram e decidiram criar uma banda que faz tudo em língua nórdica e alemão arcaicos? Stefan – Encontrei o Marsél pela primeira vez no outono de 2004, quando organizei um festival de Pagan/Black Metal no norte da Alemanha. Ele participou com Helrunar, a sua outra banda (e também lá estiveram bandas como Drautran, Hagal, Todtgelichter e a minha antiga Kerbenok). Mantivemos o contacto ao longo dos anos e, em 2008, quando Árstíðir Lífsins começava lentamente a converter-se numa realidade, perguntei-lhe se estava interessado em fazer parte dela. O Árni foi um dos primeiros Islandeses que conheci, durante o meu ano de estudos em Reykjavík (no ano letivo de 2008-09). Não precisámos de muito tempo para perceber que seríamos capazes de trabalhar juntos muito bem. Começámos a preparar as primeiras canções de Árstíðir Lífsins ainda no fim de 2008, apenas 1 ou 2 meses depois de nos termos conhecido. Desejo-te e à banda um fabuloso 2017 Stefan – Obrigado e igualmente! https://www.facebook.com/arstidirlifsins/ https://youtu.be/QDcdtAHFLns

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Au Champ Des Morts Luminoso apocalipse

Segundo ACDM, pelas trevas que acompanham o fim de um ciclo chega-se Ă luz que assinala o nascimento de outro. Entrevista: CSA

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“[…] partilhávamos o desejo de criar [...] um Black Metal “tingido” pelas nossas numerosas outras influências musicais, que vão da Cold Wave ao Heavy Metal. [...]” Temos aqui um primeiro álbum muito prometedor. Para começar, gostaria de ter um pouco mais de informação sobre a banda. O que vos levou a reunirem-se para formar Au Champ Des Morts?

Stefan – Antes de mais, agradecemos o teu entusiasmo pelo nosso álbum. Au Champ Des Morts nasceu em 2014, depois de um encontro com Migreich [único membro de Vulv]. Apercebemo-nos de que tínhamos muitas influências comuns e que também partilhávamos o desejo de criar música um pouco diferente, um Black Metal “tingido” pelas nossas numerosas outras influências musicais, que vão da Cold Wave ao Heavy Metal. Depois de termos chegado a um acordo sobre as bases musicais da banda, emergiram as primeiras composições e manifestou-se a vontade de as associar a uma verdadeira banda. A Cécile, o Wilheim e eu somos amigos de

longa data, temos a mesma forma de ver a vida e, portanto, muito naturalmente, foi a eles que me dirigi para completar a formação da nova banda. Wilheim – Tudo aconteceu muito rapidamente e, desde os primeiros ensaios, sentimos uma ligação muito forte, apesar de nunca termos tido a oportunidade de estar juntos num projeto musical. Somos uma banda com raízes fortes, tanto no que diz respeito às influências espirituais como às musicais. Seguiu-se, de imediato, a gravação do nosso primeiro EP - «Le Jour se Lève» - e depois a composição do resto do reportório que constitui o nosso primeiro álbum. Entretanto, infelizmente, o Migreich decidiu seguir outros caminhos, portanto, de momento, ACDM é um trio.

Vocês não são novatos na cena Metal. Que influência teve a vossa experiência anterior

no que fazem neste projeto musical?

Stefan – Para cada um de nós, essas experiências fazem parte de um passado bastante longínquo, já que as bandas a que pertencíamos desapareceram há cerca de dez anos. ACDM é um projeto muito diferente de Anorexia Nervosa, por exemplo: muito mais pessoal, introspetivo e – penso eu – liberto, arejado. Não temos nenhumas restrições, a nossa música resulta de tudo o que nos influencia, de tudo o que nos marcou: as reflexões, as descobertas, as deceções, as leituras, os encontros que fomos acumulando ao longo deste decénio. Tentamos encontrar algo de visceral, uma espontaneidade que nos permita recuperar a tradição do Metal da grande época, que se perdeu um pouco. ACDM tem como finalidade apenas criar obras, redescobrir o sagrado, o simbólico, num mundo

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que se aproxima do fim de um ciclo. O sucesso não nos preocupa minimamente, apenas queremos avançar neste percurso iniciático que é a existência. Como ser humano, essas experiências passadas permitemme também exprimir estados mais profundos, trazer à superfície o que está escondido no meu âmago. Já era altura de abandonarmos o silêncio.

O nome da banda faz-me pensar em Verdun, no Chemin des Dames, nos cemitérios da Primeira Guerra Mundial (em França), onde se encontram muitos nomes portugueses. Aliás, eu conheci um senhor idoso que tinha estado na batalha de La Lys. Estou no bom caminho ou não há qualquer relação entre o nome que escolheram para a vossa banda e este período da História do séc. XX? Stefan – De facto, não há uma relação direta, mas esta pode existir do ponto de vista simbólico. Basicamente, o nome da banda é uma referência direta a um sítio em Glozel, no Auvergne, designado por “Campo dos Mortos”, um local cheio de mistério e de História, onde é possível encontrar tábuas antigas, com escrita cuneiforme,

o que poderia fazer dele o berço da escrita tal como a Humanidade a conhece. A presença desses vestígios nessa parte do mundo continua por explicar atualmente. Esse nome evoca para nós o saber perdido, o conhecimento que os nossos antepassados possuíam (que permanece impenetrável para a civilização moderna, sem fôlego e sem fé). Assim, esse nome pareceunos perfeito para o nosso novo projeto musical. Mais do que o nome, entusiasmanos a simbologia do conceito a ele subjacente. O tema da morte é a chave que nos permite encontrar o estado primitivo. Serve-nos também de fio condutor para reconstruir o simbolismo perdido, que permitia ao universo funcionar, perdurar. Através de todos os estados, de todos os componentes, encontramos um grande todo: a morte física, espiritual, individual, civilizacional, o regresso à “idade do ouro” depois do fim de um ciclo. Assim, a morte inscreve-se em temporalidades diferentes, numa escala infinitesimal ou cosmológica. Tudo está ligado entre si. No caos e no divino. Wilheim – É claro que este nome também nos seduziu pelas suas outras conotações, de que faz parte a evocação de um campo de

“[…] ACDM tem como finalidade apenas criar obras, redescobrir o sagrado, o simbólico, num mundo que se aproxima do fim de um ciclo. […]”

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batalha, ideia que podes encontrar no título de uma das canções deste álbum “Après le carnage” – que se refere a um soldado que perde as suas ilusões debaixo de um monte de cadáveres. De modo que, de alguma forma, a associação à Primeira Guerra Mundial é pertinente, a batalha de Verdun ilustra perfeitamente o nome, assim como as de Waterloo, Leipzig, ou ainda Gergóvia e Alésia. Tudo isto pode incluir-se nas múltiplas facetas de ACDM.

E a que tipo de alegria se refere o título do vosso álbum?

Wilheim - À beatitude, no sentido cristão do termo, isto é, o estado de êxtase que acompanha a revelação da palavrea de Deus, o que, na Bíblia, se relaciona com o termo “apocalipse” (que, literalmente, significa “o levantar do véu”). Trata-se de uma ideia de regresso ao Estado Primeiro, Primitivo, ao Conhecimento, ao Sagrado. E é claro que há um segundo sentido, expresso pela relação (incongruente) entre os sentimentos expressos no álbum, a capa e o respetivo título. Mas esse desfasamento também faz parte da simbologia do álbum.

Quem fez a capa do álbum (que,


a meu ver, reforça a relação com peculiar, que traduza a essência 14-18)? Onde se pode encontrar das nossas personalidades. Este desnudamento é, para nós, a alegria nessa ilustração? Stefan – É da autoria de Dehn Sora, um artista hiper talentoso. Estamos muito orgulhosos de ele ter aceitado trabalhar para nós. Aliás, já tinha feito a capa do EP «Le Jour se Lève». Wilheim – Admirámos muito os contrastes e os jogos de luz que é possível encontrar na sua arte e a sua forma de dar vida ao preto e branco. Trata-se de uma imagem cheia de significado, profunda, em que a terra devastada dá lugar à morte e se vê uma luz ao longe. Podemos ver nela uma referência à alquimia, dado que a matéria orgânica, amassada e queimada até ficar toda negra, está na origem de uma matéria pura e luminosa, que anuncia a etapa que se segue: a criação do Ouro filosofal, fim último desta doutrina. A Alegria reside nessa finalidade. Stefan – É atributo dos grandes artistas como Dehn Sora serem capazes de produzir obras que têm uma infinidade de interpretações. Logo, deixo a cada um a responsabilidade de forjar o seu próprio sentido.

O vosso Black Metal pareceme bastante old school. No entanto, encontram-se nele muitos elementos discordantes: melodias, um jogo de vozes de tipos diferentes. Que te parece esta descrição da vossa música? E que influências têm? Quais são as bandas que vos inspiram (em França ou fora dela)? Stefan – Como já referi, as nossas influências estão fortemente ancoradas no Black Metal old school, como é evidente, mas também decorrem da Cold Wave, do Hard Rock, do Dark Folk. Antes de mais, a nossa música constitui uma homenagem a todas as cenas musicais que nos formaram tal como somos. Queremos acima de tudo evitar as fórmulas prontas a consumir e os clichés de qualquer estilo em particular, para chegarmos a algo

um elemento essencial do nosso trabalho. É difícil para nós descrevermos a nossa própria música, pelo que te deixo esse trabalho. Pela parte que me toca, dediquei toda a minha existência à música, essa forma de arte que tem algo de transcendental. A música é um ritual. Nela tudo se associa à espiritualidade, à elevação, à procura do conhecimento, à origem. No fim de contas, não é mais do que a expressão da necessidade primária de encontrar um sentido. No que concerne às influências, não aceitamos limitações: deve ser isso que dá uma cor tão especial a ACDM. Há bandas que me perseguem há décadas: Bathory, Celtic Frost ou And Also the Trees, ou ainda outras mais recentes, tais como Austere, Alcest ou The Devil’s Blood.

Como se organizam para assegurar a composição da música e a escrita das letras que acompanham as vossas canções? Stefan – Há algo de inabalável na criação dos trechos de ACDM. Tudo nasce de uma ideia que se forma na minha mente - uma pequena melodia, um ritmo - e que, de repente, se converte numa obsessão. Segue-se uma fase em que tenho a impressão de que não consigo controlar o que se passa. A música gera música, as camadas acumulam-se, sobrepõem-se, os riffs sucedemse uns aos outros, sem que eu pense verdadeiramente neles, um pouco como se tudo isso viesse de um outro nível de existência, de um estado não manifesto que finalmente se materializa. Wilheim – A estrutura é composta a partir desta base, com ritmos simplificados, e, de seguida, passamos aos ensaios, para trabalhar a composição e lhe insuflar vida. É nessa altura que a partes de cada um se formam. No que se refere às letras, elas

vão-se construindo ao sabor das emoções do momento. Trata-se de uma escrita visceral, desconexa, espontânea e cada um de nós junta a sua pedra ao edifício coletivo.

O vosso álbum vai ser lançado no inverno. Parece-te que esse facto vai reduzir as possibilidades de promoção?

Stefan – Pelo contrário, penso que não há melhor altura que o “coração do inverno” para ouvir o nosso álbum! Mas, para ser franco, não pensamos minimamente nisso. Só queríamos compor e gravar um álbum pessoal, imersivo e intenso, No que toca ao resto, confiamos plenamente na Debemur Morti Productions.

A vossa editora fala de concertos para dar a conhecer o álbum. Será que Portugal faz parte desse itinerário? Conhecem congéneres portugueses com quem gostariam de tocar? Stefan – Neste momento, não temos quaisquer concertos previstos. Não estamos particularmente interessados em fazer grandes digressões e encher o nosso calendário de datas de concertos. Além disso, não sabemos se vamos continuar a ser um trio ou se nos vamos converter num quarteto. Wilheim – Queremos principalmente construir uma execução verdadeiramente representativa do que a nossa música tem de melhor, mesmo que isso implique que não pisemos o palco com muita frequência. É claro que ficaríamos encantados em poder visitar o máximo de países possível, incluindo Portugal.

Querem deixar uma última mensagem aos leitores da Versus Magazine? Stefan e Wilheim – Tudo acabará na Alegria e na Luz.

https://www.facebook.com/Au-ChampDes-Morts-1061663760580553/ https://youtu.be/zQc-ZbPjXMU

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Foto: Stephanie Cabral 14 9 / VERSUS MAGAZINE

Versus#43 - 04/2017  

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