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ALAGOAS

POPULAR

Folguedos e Danรงas de Nossa Gente 2013


I 59 a

Instituto Arnon de Mello. Alagoas Popular: Folguedos e Danças da Nossa Gente/ Carmem Lúcia Dantas – Pesquisa e Texto; Douglas Apratto Tenório- Apresentação; Josefina Novaes – Consultoria de Pesquisa de Campo; Ivone Santos – Revisão; Ricardo Ledo – Fotografia. Maceió: IAM,2013. 242p. 25 cm. Ill. ISBN: Conteúdo: ( Fasc.1 – Apresentação; Fasc.2 - Presépio, Pastoril; Fasc.3 - Reisado, Guerreiro; Fasc.4 – Chegança, Fandango; Fasc.5 – Negra da Costa, Quilombo; Fasc.6 – Taieira, Baiana; Fasc.7 – Maracatu, Bumba-Meu-Boi, Boi de Carnaval; Fasc. 8 – Coco, Quadrilha; Fasc. 9 – Mané do Rosário, Dança de São Gonçalo, Bando; Fasc. 10 – Torre, Cambindas, Caboclinho.) 1 – Folguedos Folclóricos – Alagoas. II Alagoas- Cultura Popular. I Instituto Arnon de Mello II Dantas, Carmem Lúcia – Pesquisa e Texto. III Tenório, Douglas Apratto- Apresentação. IV Novaes, Josefina – Consultoria de Pesquisa de Campo. V Santos, Ivone – Revisão. VI Ledo, Ricardo – Fotografia. VII Título CDD 793.3198135


ALAGOAS

POPULAR

Folguedos e Danรงas de Nossa Gente 2013


Os protagonistas A

qui os temos novamente, em “Alagoas Popular – Folguedos e Danças de Nossa Gente”, emergindo das sombras à luz, para serem reconhecidos como protagonistas dessa tessitura feita de

elementos prosaicos, quase despretensiosos, para animar os dias, fugindo às suas asperezas, de movimentos e cantos, singelos, ingênuos, mas que são o mais forte componente dessa rede a que chamamos cultura, mais precisamente cultura popular. Há pouco os tivemos no significante “Mestres Artesãos das Alagoas – Fazer Popular”, aí com formas engendradas por mãos hábeis, de sulcos ásperos. Argila, ferro e algodão, uma variedade de materiais servindo para construções utilitárias, decorativas ou simplesmente elementos de projeção de uma rica e crítica estética, feita pelos que habitam nos desvãos da sociedade. E as igrejas, capelas, conventos e elementos de adorno que vimos em “Alagoas Memorável – Patrimônio Arquitetônico”? - outro tomo dessa tríade que resgata os feitos do passado e do presente que estão na base do fazer e do acontecer de nossa gente, dos que já desapareceram nas brumas do tempo e dos demais, que quase silenciosamente continuam fazendo, sem pretensão ao protagonismo que de fato e de direito merecem. Ecos do passado e vozes do presente que nos encantam. Simplicidade feita forma, gestual convertido em beleza e palavras que adquirem sonoridade. Fazedura, cantos e danças da gente alagoana, edificadores anônimos de uma estética e da memória, da identidade e - por que não dizer? - da alegria, porque é melhor ser alegre do que triste, como disse o poeta.

Stefani B. Lins

Mateus de Guerreiro


ALAGOAS POPULAR

Índice Geral

Folguedos e Danças de Nossa Gente

Presidente do Conselho Estratégico Carlos Alberto Mendonça Diretor Executivo Luis Amorim

Presidente Carlos Alberto Mendonça

Núcleo de Projetos Especiais Coordenação Geral Leonardo Simões Coordenação Editorial Farol Editora & Comunicação Apresentação Douglas Apratto Tenório Pesquisa & Texto Cármen Lúcia Dantas Consultoria de Pesquisa de Campo Josefina Novaes Revisão Ivone Santos Fotografia Ricardo Lêdo Direção de Arte e Diagramação Wellington Charles Tratamento de Fotos Victor Paiva Obra poética - Maurício de Macedo, “das alagoas seguido de guerreiro” e “A Poesia no Cordão - seguido de Pastoril” - Edufal - Maceió - 2002/2003. Impressão - Moura Ramos Gráfica Editora Tiragem - 30.000 Exemplares Instituto Arnon de Mello Endereço - Rua Aristeu de Andrade, 355 - Farol Maceió /AL - Cep 57051-090 Telefone/Fax - (82) 4009.7777 / 4009.7756 E-mails: gazeta@gazetaweb.com comercialga@gazetaweb.com

Os Folguedos em Alagoas

14

Um povo mestiço e único Folclore, concepção do mundo e da vida As antigas festas de Natal Origem do folclore alagoano Uma só história e uma geografia variada O alpendre da casa-grande e os limites da senzala A Escola de Viçosa

18 21 23 24 27 29 30

Folguedos e Danças de Alagoas

35

Presépio Por dentro das Jornadas Ensaiadoras e animadores O auto e a função - A peleja entre o Bem e o Mal Pastoril - A rivalidade dos cordões

Reisado Chegada à Colônia A ancestralidade de Reis Personagens e trajes, o domínio da cor Na cadência da função Entremeios, as prendas da sorte Despedida em marcha

(Palhaço do Guerreiro Mensageiro do Padre Cícero)

As fotos utilizadas no Capítulo I deste trabalho pertencem ao acervo do Museu Théo Brandão, cujos fotógrafos foram citados nos respectivos créditos.

51 53 54 56 58 60

Guerreiro Guerreiros brincantes, preferência caeté 61 Personagens e trajes, um reino de gosto popular 64 O auto e sua função, fragmentos da fé e da guerra 65 Entremeios 67 Despedida 68

Negra da Costa Traços da etnia O folguedo em Alagoas Personagens e trajes O auto e a função

Foto capa: Darci Macena Bispo

38 39 44 45

73 75 76 78

Quilombo Origem discutida Personagens e trajes O auto e sua função

80 82 85


Chegança A chegança dos mouros Os grupos locais - Penedo, Coqueiro Seco, Rio Largo Personagens e trajes O auto e a função

Bumba-Meu-Boi 91 94 97 98

Fandango Outras façanhas no mar Os grupos locais O auto e a sua função

99 102 104

109 111 112 113

Taieira Do cortejo ao folguedo Personagens e trajes O auto e a função

114 118 1210

Baianas Origem discutida Personagens e trajes Mestras em destaque O auto e a função

121 124 125 126

Coco A origem em questão Personagens e trajes Na “puxada” do Coco A dança e a função

131 134 136 137

161

Mané do Rosário A Vila Real O começo do mistério Registro dos pesquisadores Personagens e trajes Tradição de Mestra O caminho do cortejo O auto e a função

167 169 172 176 178 182 186

Bando Arautos de Santa Luzia Personagens e trajes O Bando em evolução

190 192 196

Dança de São Gonçalo A origem remota Personagens e trajes A dança e a evolução

200 204 207

Tradição ancestral O sentido da dança Personagens e trajes O folguedo e a folclorização do rito

211 215 217 218

Caboclinho 138 139 141 142 143 144

Maracatu Perseguição histórica Maracatu Nação e Maracatu Rural Personagens e trajes Alegoria e função

Origem discutida

Toré

Quadrilha O selo da erudição Quadrilha em duas versões Quadrilha regional - personagens e trajes A evolução dos pares Quadrilha Moderna - personagens e trajes Quadrilha Moderna em Evolução

156 158 159 160

Boi-de-Carnaval

Samba de Matuto As faces múltiplas do samba A folgança em Alagoas Personagens e trajes O auto e a função

No rastro da lenda A folgança em Alagoas Personagens e trajes O boi e sua evolução

149 152 154 155

Origem indígena O auto da região norte Personagens e trajes O auto e a função

220 222 224 226

Cambindas Herança boreal A folgança continua Personagens e trajes Cambindas em evolução

228 230 232 233

Glossário

235

Bibliografia

237


E

ste livro, que dá uma amostra do resultado do Folguedos Alagoanos, é apenas uma janela para a imensa importância do

trabalho desenvolvido pelo projeto. É uma árdua tarefa resumir o alcance das atividades e seu impacto na região numa única publicação. Nossos objetivos ao patrocinar cultura, vão além de levar as obras ao público. Valorizamos a formação das plateias como um todo, e este projeto tem o papel de gerar capacidade de reflexão através do senso crítico no que se refere à arte. Valorizar o resgate das tradições faz parte da nossa política de patrocínios. Reconhecer a produção passada, incentivar a pesquisa e a discussão e democratizar o acesso à arte são para nós motivos de inspiração para continuar patrocinando a cultura nacional. Para a Petrobras, a cultura deve chegar a todos, independente das cidades onde nosso negócio atua direta ou indiretamente. Afinal, o desenvolvimento do Brasil faz parte do nosso desenvolvimento. A inspiração que vem de cada envolvido nos motiva a seguir em frente e enfrentar nossos desafios a cada dia. Petrobras


CapĂ­tulo I


Mestre de Guerreiro Acervo Museu Théo Brandão

Danço com o corpo maneiro, piso pra lá e pra cá. A única paixão que conheço é o prazer de dançar. (Maurício de Macedo)

14 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Os Folguedos em Alagoas Douglas Apratto Tenório

A

preservação dos valores culturais caracteriza-se fortemente como uma peça de re-

sistência atual e uma tendência inquestionável da época contemporânea. A valorização do regional, do universo local, em contraposição à onda avassaladora da globalização que inunda a economia, o comércio, os costumes, a comunicação, é vital para a afirmação de identidades específicas, da sensação de pertencimento que garante às pessoas o orgulho de suas raízes e a referência de seus lugares.

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Guerreiro

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No mundo estandardizado, das marcas e

Não é fácil para o Brasil industrial e ur-

gente simples, do povo, que soube assimilar

logomarcas das grandes empresas que estão

bano, construído sobre o asfalto, o plástico e

as várias contribuições étnicas, os diálogos

em todos os pontos, em todos os países, que

as grandes concentrações urbanas, compre-

diversos e a urdidura de muitos atores pro-

não têm origem nem fronteiras, cuja presen-

ender, ainda que parcimoniosamente, a criati-

venientes de universos geográficos e práticas

ça atropela nacionalidades e estados, a cultura

vidade e a beleza do caldeirão extraordinário

dessemelhantes.

constitui elemento fundamental para a valo-

do seu interior, de seus saberes ancestrais,

É significativo assinalar que é cada vez

rização do homem e do seu meio, sejam quais

de sua cultura que foi construída longinqua-

mais expressivo o número de pessoas que

forem as formas escolhidas para traduzir as

mente nas fazendas, casas-grandes e senzalas

vêm dando atenção ao indispensável olhar

visões de mundo e as demandas que se colo-

desde sua época agrário-colonial. As imagens

sobre a nossa história a partir de nossas ra-

cam entre a arte e a cultura dos rincões mais

que nos caracterizam e simplificam são ge-

ízes populares e não só de nossos ancestrais

distantes e a poderosa indústria cultural que

ralmente da seca, da violência, da perversão

ibéricos e europeus, brancos, mas também

irradia e domina as tendências mundiais nas

política, das paisagens naturais sob o crivo do

sob a perspectiva dos antepassados indígenas

metrópoles hegemônicas.

exotismo e do oportunismo midiático.

e africanos que aqui se encontraram na fase

Sob a égide da modernidade não se deve

A cultura nordestina, onde Alagoas está

pioneira de formação e que se plasmaram

esquecer que o processo de industrialização

inserido - assim como a amazônica, a das ge-

definitivamente na concepção de nossa iden-

gerou transformações sociais e urbanas que

rais, a pantaneira e a gaúcha -, é o lugar de

tidade. Na verdade, foi esse fantástico calde-

dificultam e às vezes incompatibilizam a con-

encontro com a história brasileira, é o refle-

amento o fator desencadeador das distinções

vivência entre o passado e o futuro, negando

xo de sua formação original, de convivências

mais notáveis da nossa cultura, a competên-

a unidades periféricas, como Alagoas, o aces-

plurais. Tem ligada a sua integração com a

cia enorme de incorporar, metamorfosear e

so ao tão apregoado progresso com a fruição

sociedade que a gerou, o que estabelece uma

transformar, ou seja, reinventar elementos de

de um autêntico lastro cultural erigido por

conexão entre a regionalidade e a naciona-

outras estirpes que nos conceberam como

séculos em sua trajetória histórica.

lidade, um trabalho feito por gerações, por

povo e sociedade.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 17


Um povo mestiço e único E

sse amálgama se reflete em nosso

do qual as várias contribuições que formam

e sua exposição em diferentes momentos da

modo de ser, em nossos trejeitos, na

a alma brasileira se tocaram e se entrançaram

crônica brasileira. Cada momento da vida de

própria constituição de cada identidade regio-

para nos tornar o que somos hoje, um povo

seus habitantes e cada instante da sua trajetória

nal. Como é semelhante e ao mesmo tempo

mestiço, plural, único, que tem na diversidade

no tempo se ritualizam em ondas de encanto

diferente um alagoano de um paulista, um mi-

a espantosa força que vem da desigualdade

e brilho, desde o exemplo de seus heróis até o

neiro de um pernambucano, um maranhense

que nos forjou.

suor de seus operários, desde o duro trabalho

de um gaúcho, um carioca de um matogros-

Voltemos à unidade político-administrativa

na terra arada até a pesca nos seus rios, lago-

sense. Mesmo com a história comum, forma-

da federação brasileira onde nascemos e que

as e mares de infinito azul, perpassando pela

dos que fomos igualmente na antiga capitania

faz parte, junto com outros estados, da fabu-

sensibilidade de seus artistas, que conservam a

de Pernambuco, até nossa separação em 1817,

losa região nordestina. É a sua presença e o

alma dos antepassados e a fé dos vivos.

como são distintos na linguagem e nos há-

seu rico acervo cultural que nos interessam

Sem exagerar no bairrismo, podemos afir-

bitos um alagoano e um pernambucano. Ca-

agora. Alagoas é um lugar onde a história e

mar que Alagoas é uma região muito especial.

racterísticas bem diversas que não podem ser

a cultura encontraram campo fértil para se-

É um lugar onde a história tem deixado vestí-

confundidas.

meadura. Apesar da pequenez territorial, da

gios que têm sido, a todo o tempo, um ponto

Essa fusão se reflete na própria forma-

insignificância econômica se comparado a

de referência para grandes decisões do país.

ção da identidade nacional. O povo tem

outras unidades da federação, das dificuldades

Desde os começos da nação, mesmo subordi-

seus traços comuns, mas cada região possui

ingentes e das grandes demandas sociais, é

nada ao comando de Pernambuco - “o Leão

distinções próprias. Mais que compreender

um lugar onde a trajetória histórica refulge

do Norte”, então o centro de primazia da pá-

tal processo de fusão, nascido inicialmente

com brilho incomum.

tria brasileira em gestação - a pequena parte

entre índios, portugueses e negros africanos,

Pequeno em território e gigante na contri-

austral da antiga capitania de Duarte Coelho

é importante considerar que o curso desse

buição à história e à política do país, analistas

Pereira construiu solidamente um espírito cul-

processo se transformou no veio ao redor

se surpreendem com a projeção de seus filhos

tural próprio que permanece no tempo.

18 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Repetimos uma afirmação nossa em trabalho anterior: há uma coalescência histórica entre Alagoas e o Brasil. Uma frase de um autor, talvez até elaborada com uma intenção não muito boa, diante de tantos eventos de muita reverberação que tiveram a primitiva terra dos caetés como teatro, é que o estado é uma verdadeira oficina histórica, antropológica e sociológica a ser estudada por pesquisadores do jornalismo e da academia. A realidade que não pode ser contestada, e é cristalina como água da fonte, é que por uma série de razões transpusemos os limites geográficos e geopolíticos, passando a ocupar um lugar de destaque na história e na mídia brasileira. Como avistar a bandeira caeté na ágora globalizada? Como conhecer, estudar, valorizar e amar a identidade alagoana e esquecer que somos portadores de uma missão de cultura, pois neste campo laboramos? Vivendo a era da internet, num tempo em que a celeridade dos acontecimentos gera a impressão de obsolescência material ou de anacronismo espiritual, nada mais elogiável do que a preocupação do Instituto Arnon de Mello, através de seus dirigentes, com este projeto de divulgação de nossos folguedos, nosso folclore, numa viagem pelo mundo cultural alagoano, de arte centenária, um tesouro que está em vias de extinção, pois quase não é conhecido pelas novas gerações. Um mundo onde Chegança, Pastoril, Reisado, Guerreiro, Caboclinhos etc. são termos deletados, anacrônicos, que ninguém sabe o que representam. Um verdadeiro tesouro que reflete o legado cultural das nossas comunidades é reavivado nesta obra singular da Organização Arnon de Mello, que conduz um estandarte e não abdica do direito à autodeterminação do povo de Alagoas e ao dever de projetar nossa identidade cultural no cenário externo.

Figurante de Reisado Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 19


Prisão do Índio Peri - Guerreiro de João Amado - J. Medeiros 20 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Folclore, concepção do mundo e da vida A

vida do universo alagoano decor-

sido uma imensurável casa-grande em redor

gerado na comunidade energiza o fluxo de

re dos valores de sua gente, de suas

da qual o povo fantasia, dança, festeja e con-

criação, gera o conjunto da obra, o repertó-

emoções, humores, fatalismo, crenças, sabe-

ta estórias, partes de uma história ainda não

rio. Cada microcosmo social, cada sociedade

res, esperanças, padecimentos do seu imagi-

totalmente conhecida. Seu povo simples, hu-

concebe sua própria cultura e através dela

nário. Pode ser redundante, mas é bom dizer:

milde, trabalhador, bravo, é guardião de patri-

interage com outras comunidades, de forma

Alagoas é o mundo dos alagoanos. Embora

mônios que se mostram às vezes encobertos,

eclética e universal pelas suas características e

aceite muitas de suas formulações, não con-

às vezes revelados, numa ofuscante visão nos

símbolos. O folclore tem o condão de reunir

cordo totalmente com Antonio Gramsci, que

espaços das ruas e das praças do interior e

as diversas produções comunitárias dando-

traduziu tão bem a realidade cultural do Ve-

da periferia das cidades maiores, nos merca-

-lhes harmonia geral, formando uma coleção

lho Mundo, seu continente, ao afirmar que

dos e nas feiras, no Carnaval, na Quaresma,

que sai das profundezas da sua matriz históri-

o folclore é uma concepção do mundo e do

nas festas juninas e de padroeiros, no Natal,

ca. Até a chegada da globalização, da adoção

povo, assim entendido como complexo de

quando a população se engalana com roupas

integral dos modelos transacionais, respirava-

classes subalternas e instrumentais que se

singelas, exibe a sua arte e desfila gestos, can-

-se folclore em todos os pontos de Alagoas

contrapõem objetivamente às classes oficiais

tos, danças, evoluções, cordéis, exibindo o

o ano inteiro. Assistiam-se manifestações

e dominantes.

legado dos ancestrais.

populares variadas, de estética apurada, com

Alagoas é, sem dúvida, um grande polo

Ao inventar o mundo e a vida o povo pro-

cadência e coreografia que encantavam e da-

cultural brasileiro. Sem esquecer a senzala,

duz uma cultura, e na vivência cultural firma

vam orgulho aos habitantes da chamada “ter-

parte importante da nossa formação, que tem

a sua identidade social. Tal comportamento

ra dos marechais”.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 21


Reisado de Viรงosa Robert Stuckert - 1951

22 | Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente


As antigas festas de Natal Q

uem se esquece das festas de Natal

do já desaparecido Fandango, de origem

destacado, Maracanã ou Wembley, nas pra-

de antigamente, quando o rodopio

espanhola/portuguesa, com cantigas do-

ças centrais e em frente à igreja-matriz de

das Baianas causava verdadeiro frisson nos

lentes acompanhadas por violão e cava-

qualquer cidade que se prezasse. Gilberto

espectadores? Dos desfiles dos Cabocli-

quinho, ou do Guerreiro, autenticamente

Freyre dizia que para conhecer o nosso

nhos, vertente do Maracatu pernambucano

caeté, mistura do Caboclinho com Reisado,

povo interessa muito mais o seu caráter, o

que foi criado também do Reisado alagoa-

bailado exótico com personagens ricamen-

estilo das danças, as associações, os trajes,

no, com seus índios pulando, tocando apito

te coloridos que eletrizava e emudecia de

seus folguedos e manifestações populares

e arrastando multidões ao som da Banda

enlevo as plateias? Mas envolvente mesmo,

do que os feitos excepcionais de seus he-

de Pífanos, a conhecida “Esquenta Muié”?

o mais participativo de grupos, multidões,

róis.

Ou ainda, nas praças principais do interior

comunidades, vilas e bairros era, sem dúvi-

cos quisesse dizer nesta comparação que,

ou em Bebedouro, Tabuleiro do Martins,

da, o Pastoril.

gerado nas entranhas da sociedade e com

Talvez o famoso mestre de Apipu-

Fernão Velho e em Maceió, da bela versão

Quem resistia a gritar - aplaudindo as

a fusão de várias contribuições culturais,

nordestina das Mouriscadas portuguesas

pastoras e as cores de sua preferência - ao

o povo participa diretamente da criação e

- a inconfundível Chegança? Como esque-

ver aquele folguedo, numa disputa que gal-

da manutenção dessas manifestações, que

cer os Presépios que originaram os Pastoris

vanizava dias e dias até a votação final da

são, por assim dizer, a história não escri-

dançados nas praças, atraindo os passantes

competição? Eram jornadas arrebatado-

ta, resumindo as tradições e as esperanças

pela beleza de suas figuras; do Quilombo,

ras que colocavam em campos opostos o

das coletividades, baseada no passado, mas

uma reedição da luta entre negros e índios

azul e o encarnado! Encenações inesque-

sempre adaptada à mentalidade e às aspi-

ou entre negros e cristãos, numa fusão ex-

cíveis realizadas em residências, colégios e

rações do presente. Um capítulo, portanto,

traordinária de gostos e culturas distintas;

teatros, mas que tinham seu cenário mais

especial e indispensável.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 23


T

Origens do folclore alagoano

udo que vem do povo tem uma lógica,

na formatação do nosso folclore. E que não

cultura”. Alongando-se ainda sobre o tema,

uma razão, uma função. Ele nada faz

é fácil nem simples demarcar a que grupo

ele assevera que os disfarces de animais, tão

sem motivo, e o que produz está geralmen-

pertence uma de suas variantes ou estabele-

usados em nossas manifestações dramáticas

te ligado ao comportamento do grupo ou

cer com precisão a fronteira de determinada

e danças folclóricas - Bumba-Meu-Boi, Reisa-

a uma norma social ou psico-religiosa, um

manifestação folclórica. Com a humildade

do, Guerreiro e outros -, originam-se do pa-

traço que vem de tempos longínquos, lá do

dos sábios, afirma que há dúvidas em alguns

leolítico superior, como os encontrados nas

fundo de nossas raízes, perdidas na noite dos

casos, e em outros é inteiramente impossível

pré-históricas cavernas da França. Por isso,

tempos, quando estávamos em formação.

chegar-se a uma conclusão única e definiti-

é preciso muita certeza, pesquisa e discussão

Pastoril, Quilombo, Reisado, Coco-de-Roda,

va. Cita como exemplo concreto dessas in-

para defini-los como europeus, africanos ou

literatura de cordel, festas, tradições, crendi-

certezas o caso da dança existente em várias

ameríndios.

ces, superstições, contos, mitos, lendas, os

unidades nordestinas, que aparece ora como

ritos religiosos e a música folclórica não apa-

Coco, ora como Pagode, ora como Samba.

Não se pode esquecer, ainda, além das contribuições dos colonizadores europeus,

recem por acaso. Eles são o retrato vivo da

Uma eminente folclorista do sul, Oneyda

dos nativos indígenas e do africano - aqui

memória popular, que engloba sentimentos e

Alvarenga, diz de forma categórica que “se a

chegado em largas torrentes migratórias for-

reações diante da história e das transforma-

umbigada é africana, a roda em movimento

çadas para a nefanda escravidão nos campos

ções sociais.

constante, se bem que também encontrada

- que Alagoas, núcleo periférico espremido

Quais as origens do folclore alagoano,

entre os índios, parece ser característica por-

entre os dois grandes polos de colonização

como entender os seus folguedos, quais os

tuguesa”. Mestre Théo discorda da afirmação

do Brasil, Pernambuco e Bahia, recebeu des-

componentes culturais que o forjaram? O

peremptória da colega sulista, pois, diz ele, “a

tes gigantes que a circundam uma importante

mestre dos mestres, Théo Brandão, com a

roda foi a primeira forma de dança do homem

influência. Na sua parte boreal, lugares como

autoridade de quem estudou a vida inteira e

e até dos animais e todos os povos e todas

Maragogi, Japaratinga, Porto Calvo, Porto de

deixou uma obra irrepreensível sobre o as-

as culturas antigas da África, Ásia, Europa e

Pedras, Jundiá, Jacuípe, até Matriz e Passo

sunto, diz que são muitas as contribuições

América a possuíram em seu estágio inicial de

de Camaragibe, há uma nítida ligação com o

24 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


poderoso Leão do Norte. Já na parte austral, mesmo com Sergipe d’El Rei aparecendo no meio, a influência da velha Bahia, também com suas tradições bem fortalecidas, municípios como Penedo, Pão de Açúcar, Traipu, Piranhas e suas populações, que constituem o dinâmico ninho de cultura são-franciscano, mantêm seus laços comerciais e também os culturais mais próximos aos da Bahia de Todos os Santos e Orixás. Uma curiosa, fervilhante e variada herança que ao transplantar inúmeras festividades, costumes e contribuições de povos europeus, sobretudo ibéricos, os pôs em contato com a extraordinária riqueza cultural africana e indígena e criou esse verdadeiro caldeirão de saberes que sobrevive até hoje, mas que tem ameaçada a sua continuidade pelo

tsunami da globalização, a

onda capitalista do final do segundo milênio que ameaça levar de roldão todos edifícios construídos há cinco séculos, para dar lugar somente às emissões da modernidade sem rosto e sem história, sob o respaldo do poder midiático do comércio internacional que influiu também na indústria cultural alienante e sem nenhum apreço pela identidade nacional ou regional.

Palhaço Wilton Branca de Atalaia Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 25


Cavalhada Marcel Gautherot

26 | Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente


Uma só história e uma geografia variada A

denominação Alagoas é proveniente

lugar de clima seco e chuvas escassas, com

hábitos, sua feição cultural e sua história. Até

da primitiva sede da comarca e pri-

vegetação rala, a caatinga, onde a pecuária,

mesmo as mazelas da escravidão e, consequen-

meira capital, Santa Maria Madalena da Lagoa

junto com a produção de gêneros alimentícios

temente, o imenso quadro de exclusão social

do Sul, que englobava terras que rodeavam as

como o milho e o feijão, é notada. Na zona

que perdura até hoje.

lagunas principais da região, a do Norte, ou

intermediária, entre a mata e o Sertão, está o

O ciclo econômico que se iniciou e se ex-

Mundaú, e a do Sul, ou Manguaba. Um ter-

Agreste, que também se dedica a culturas de

pandiu na faixa da mata litorânea da parte sul

ritório pequeno, de 27.793 quilômetros qua-

subsistência. Nessas zonas geográficas, cuja

da então capitania de Pernambuco, que teve

drados, que só ganha em extensão do vizinho

história está interligada aos momentos prin-

sua colonização inaugurada com os engenhos

Sergipe, tem a zona costeira com tabuleiros

cipais de sua existência, nasceu e floresceu o

Escurial e Buenos Aires, do fidalgo Cristovão

cortada várias vezes pelos vales dos rios que

nosso folclore.

Lins, no século XVI, formou uma sociedade

deságuam no oceano. A segunda área é uma

O estado, plantado no verde dos canaviais

hierarquizada, senhorial, de traços feudais, que

região montanhosa, de solo fértil, outrora re-

mais viçosos do Nordeste, teve nessa cultura

herdou muito dos hábitos e dos costumes por-

vestida por matas, onde se instalou a cultura

o embasamento principal desde os primeiros

tugueses e espanhóis.

da cana-de-açúcar que deu o substrato de sua

lampejos de povoação, com todas as particu-

A cana-de-açúcar tomou conta da paisagem

sociedade - um sistema de vida familiar, eco-

laridades do desenvolvimento e da formação

alagoana desde os primórdios da colonização.

nômico e cultural que ao longo dos séculos

social. É dela, desde que surgiram os primei-

Ao pretender fixar o homem à terra e conso-

condicionou o ethos do povo alagoano. A ter-

ros caminhos do ciclo dos engenhos, que se

lidar o domínio português no Novo Mundo,

ceira zona é o Sertão, no interior do território,

abriram os vieses da sociedade alagoana, seus

Duarte Coelho, primeiro donatário da capita-

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 27


nia onde Alagoas estava inserida, iniciou um

negros, o que constitui um exemplo de como a

ciclo que perdura até nossos dias, afetando

interação humana, frente à sobrevivência, não

profundamente nossa formação social e histó-

tem limitações em sua criatividade, em sua di-

rica, com implicações que transcendam a eco-

versidade ou quando responde aos chamados

nomia e deixou marcas profundas em nosso

das necessidades básicas.

ethos. As identidades são realmente um processo de acumulação de experiências que afloram frente as mais diversas conjunturas. No caso particular alagoano, nossa cultura, nossa religiosidade, nosso lazer, nossos folguedos e nosso folclore abarcam uma gama de temas capazes de proporcionar suficiente material para uma análise da vida tradicional em muitas das nossas comunidades. Permitem, igualmente, devido à riqueza de temas que marcam nossas manifestações populares, um passeio por formas culturais que pertencem a espaços muito especializados, quase fragmentários, da vida alagoana. A presença de formas exógenas que terminam se incorporando a setores populares da vida rural, ou da plantação canavieira, ou da fazenda, ou da criação são-franciscana, ou sertaneja, mostra muitas variantes que, estudadas em suas origens, confirmam influências culturais mútuas de valores ibéricos, indígenas e Chegança Rio Largo - 1958 28 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O alpendre da casa-grande e os limites da senzala É

no cenário desse território senhorial,

geavam os santos de devoção ou estavam

deixando um legado, uma maneira de ser,

principalmente naquele que ia dos

no roteiro natalino, da Semana Santa ou das

que hoje assumimos todos, como se fosse

festividades juninas.

uma propriedade social diferenciada das de-

alpendres da casa-grande aos limites da senzala, que as famílias dos proprietários dos

Padres, parentes, amigos, a teia imensa de

mais sociedades, de outras unidades políti-

engenhos banguês promoviam o lazer da

compadrio e agregados, se divertiam com a

cas e culturais da federação que a República

comunidade. As fazendas rurais sertanejas

peleja dos repentistas, com as disputas e de-

iria estabelecer ao ser proclamada em 15 de

e da região do Velho Chico não estão ex-

safios de viola, das apresentações ritmadas

novembro de 1889.

cluídas dessas atividades que se confundiam

das emboladas, dos volteios e improvisos

Nosso modo de ser, tão presente nas ma-

com o calendário religioso. Ansiosamente

dos brincantes dos folguedos variados que

nifestações populares, em nosso folclore, é

aguardadas por todos que faziam parte da-

enchiam de deleite os espectadores. Eram

precisamente o conjunto de valores sociais

quele mundo de escravos, agregados, parcei-

dias especiais que passaram a fazer parte das

e culturais que se foram forjando através

ros, meeiros e membros da elite fundiária,

recordações das herdades e seriam rememo-

dos tempos, sobretudo no período colonial,

que adorava promover e dirigir o espetá-

rados de geração em geração. Manifestações

constituindo-se um suporte na memória so-

culo lúdico, traziam alegria aos integrantes

populares que foram se consolidando com

cial dos alagoanos, formando não só uma

daquele universo medieval isolado e sem

o passar do tempo, forjando coisas comuns

unidade política, mas uma coletividade, um

muitas novidades no seu dia a dia. Normal-

compartilhadas pelo conglomerado de ho-

sentido de pertencimento.

mente, eram realizadas quando se homena-

mens e mulheres que, sem querer, foram

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 29


A Escola de Viçosa

Foto: Celso Brandão

U

ma identidade alagoana em estado puro não existe. Os povos, como a

gente alagoana, são resultado de relações in-

Théo Brandão

Ranilson França

terétnicas. Em seu esforço para sobreviver, se impõem, se adaptam, construindo um sincretismo, amalgamando-se em suas porções culturais e se assimilam, forjando uma identidade. O ser alagoano é precisamente o conjunto desses valores vários, recorrendo às suas manifestações culturais e folclóricas que vão se edificando na memória social das pessoas que fazem a coletividade. Estudá-lo na sua inteire-

José Aloísio Vilela 1935

za e complexidade não é tarefa para amadores José Maria Tenório Rocha

ou simples curiosos. Há que ter conhecimento amplo da questão, vocação acadêmica, dedicação, capacidade de pesquisa, amor, paixão. Temos vários autores que se esforçaram para estudar essa coesão que formou a alma alagoana, gente como Thomaz Espíndola, Moreno Brandão, Craveiro Costa, Jayme de Altavila pai, e Edilberto Trigueiros, mas, sem

Pedro Teixeira

Josefina Novaes

30 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

dúvida, nomes dos mais expressivos que se dedicaram à causa estiveram reunidos naquele


grupo que convencionou-se chamar “Escola de

discutível valor intelectual, o que hoje podemos

dente -, Severino Teixeira Florêncio, mais co-

Viçosa”, tendo a regê-los como um maestro a

chamar nas universidades de núcleo de pesqui-

nhecido como teatrólogo, mas que nunca dei-

figura do médico Théo Brandão – os não me-

sa. Havia certa divisão de tarefas e estudos. José

xou os estudos folclóricos, ao lado de seu primo

nos destacados José Aloísio Vilela, José Pimen-

Aloísio Vilela dedicou-se à poesia popular; José

Pedro de Vasconcelos Teixeira, o mais notável

tel de Amorim e José Maria de Melo.

Maria de Melo à literatura oral, contos, adivi-

animador dos folguedos que o estado já conhe-

Não devemos esquecer ainda outros pre-

nhas, sentinelas; José Pimentel de Amorim era

ceu. Pedro Teixeira, enquanto bem viveu seus

cursores das nossas manifestações populares,

mais voltado a pesquisas sobre a medicina po-

84 anos, foi incansável na luta pela preservação

dos nossos estudos folclóricos, como Joaquim

pular, e o líder, Théo Brandão, vivia mergulhado

do nosso folclore e deixou algumas obras sobre

Diégues, Alfredo Brandão, Luiz Lavenére, Abe-

até a alma no estudo dos folguedos populares.

o assunto.

lardo Duarte, Paulino Santiago; no entanto,

Tanto Théo como José Aloísio seguiram a tra-

É justo ressaltar que Théo Brandão, fora do

inquestionavelmente, a Escola de Viçosa foi o

dição da família Brandão Vilela de apreciar e es-

âmbito da Escola de Viçosa, ainda teve extra-

núcleo mais eloquente de estudos dos fatos da

tudar o folclore, estimulados que foram por seu

ordinária atuação na Universidade Federal de

vida social alagoana que caem no âmbito do fol-

tio Olegário Vilela, outro grande apreciador do

Alagoas, onde exerceu o cargo de professor.

clore. Eruditos de largo prestígio na sociedade

tema, que os encorajou a analisar cientificamen-

Formou em seu redor, na academia federal

por seu sucesso profissional, todos de origem

te a sabedoria popular, tão presente no cotidia-

alagoana, um círculo de discípulos que conti-

rural, provenientes da pequena, mas influente,

no da pequena cidade há gerações.

nuaram o trabalho após seu desaparecimento

cidade interiorana que era cognominada “Ate-

Embora sem ligação direta com o folclore,

- figuras de proa como Cármen Lúcia Dantas,

nas alagoana”, famosa por sua vida cultural, eles

nem pertencendo ao grupo de elite da Escola

Vera Lúcia Calheiros, Fernando Lobo, Teresa

perceberam em suas reuniões que a ausência

de Viçosa, Arnon de Mello, um dos líderes do

Wucherer Braga e Josefina Novaes. Seus dois

do folclórico, tão característico da vida popular

Grêmio Guimarães Passos, citava ainda os no-

discípulos mais atuantes, porém, foram José

no meio agrário em que viviam, empobrece a

mes de Evilásio Torres, Valdemar Graça Leite,

Maria Tenório Rocha e Ranilson França que,

produção literária e artística, roubando-lhe os

Ademar Vasconcelos, Arnóbio Graça, José Re-

com trabalho hercúleo e diário, conseguiram

aspectos regionais, nacionais e humanos que lhe

belo e José Aragão como figuras que também

reunir em torno de si os mestres e mestras dos

dão universalidade.

deram sua contribuição ao estudo das manifes-

folguedos, fundando a Associação dos Folgue-

Manuel Diégues Júnior disse que mesmo

tações populares. Podemos ainda acrescentar

dos Populares de Alagoas-Asfopal e travando

inexistindo um corpo de métodos e doutrinas,

à lista um oriundo de Chã Preta - que durante

uma batalha constante pela valorização desses

o grupo era inequivocamente um formidável

muitos anos foi distrito de Viçosa e depois se

mestres e das manifestações populares de Ala-

eixo de cultura, onde se juntam membros de in-

emancipou, tornando-se município indepen-

goas.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 31


Boi de Guerreiro 34 | Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente


Folguedos e Danças de Alagoas Cármen Lúcia Dantas

Presépio e Pastoril Reisado e Guerreiro Chegança e Fandango Negra da Costa e Quilombo Samba-de-Matuto, Taieira e Baiana Maracatu, Bumba-Meu-Boi e Boi de Carnaval Coco e Quadrilha Mané do Rosário, Dança de São Gonçalo e Bando Toré, Cambindas e Caboclinho

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 35


CapĂ­tulo II


Presépio Oferenda

Dizei-nos, porém, oh anjo, como faremos para chegar àquela gruta tão longe onde o menino tão belo está. (Maurício de Macedo)

36 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Presépio

E

ntre os folguedos populares, o Presépio e o Pastoril são os que materializam de forma

mais direta a representação do nascimento de Cristo. Embora não se saiba ao certo de que forma chegaram ao Brasil, o fato é que os frades jesuítas e os franciscanos, no trabalho da catequese dos nativos, promoveram sua difusão e aprimoramento cenográfico. Inspirados nas canções natalinas ibéricas e tradições pastoris da Europa, ambos descrevem a viagem das pastorinhas a Belém, na Judeia, para adorar o Menino Jesus. O que os diferencia é o foco da dramatização. Enquanto um, além das jornadas, narra o nascimento de Cristo com personagens caracterizadas, o outro é formado apenas por jornadas soltas.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 37


Por dentro das jornadas

P

artes que compõem cada episódio,

ção da brincadeira.

mados pelos moradores, descendentes de escravos, caboclos do eito, seus filhos e

as jornadas representam o percurso

De origem notadamente rural, os fol-

seguido pelas brincantes, que se mantêm

guedos, que só foram transportados para

enfileiradas em dois cordões: o encarna-

o meio urbano tempos depois, marcavam

A urbanização de ambos acabou com

do e o azul, cores votivas que simbolizam,

presença nas festas das casas-grandes do

o refinamento, pois os grupos se espalha-

respectivamente, o sangue do coração de

ciclo dos engenhos. Tanto o Presépio

ram por toda a parte, chegando aos bair-

Cristo e a pureza da Virgem Maria. Na pa-

quanto o Pastoril eram encenados, exclu-

ros periféricos de Maceió. Nessas locali-

leta de cores há também a alusão ao en-

sivamente, pelas jovens da camada social

dades - Ponta Grossa, Bebedouro, Chã da

carnado como a cor dos mouros e o azul a

mais alta - filhas, netas e sobrinhas dos

Jaqueira, Tabuleiro do Martins - já havia

dos cristãos, oponentes históricos nas ma-

donos da casa.

uma forte motivação para as manifesta-

filhas.

Elitistas, as apresentações acompanha-

ções populares, o que se acentuou com

vam o mesmo princípio de distanciamen-

a chegada às escolas públicas, garantindo

Por uma ou outra razão, o certo é que

to entre as diferentes classes, nominadas

aos folguedos maior popularidade.

a rivalidade se renova a cada apresentação,

de acordo com as condições econômicas

No que diz respeito às evoluções e à

polarizada pelos dois cordões. No centro

e a origem do sobrenome das brincantes.

musicalidade, os dois se caracterizam pela

das atenções estão as Pastorinhas, meni-

De modo geral, não havia mistura entre

delicadeza de gestos e singeleza da melo-

nas que compõem os grupos. Ornamenta-

pobres e ricos nos folguedos. E enquan-

dia, compatíveis com os temas bucólicos

das com flores e fitas, elas se apresentam

to o Pastoril e o Presépio se restringiam

e com a alegria esperançosa dos cristãos

de maneira graciosa, mantendo a forma-

à aristocracia rural, os demais eram for-

diante do nascimento do Menino Jesus.

nifestações populares que procedem dos feitos da Idade Média.

38 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Ensaiadoras e animadores

O

contato com os grupos revela que

dos. E, tradicionalmente, Presépios e Pastoris

saiadoras notáveis de seu tempo: dona Maria

o amor pela brincadeira faz parte da

são organizados e ensaiados por uma mulher.

Souto e dona Maria Emília. A primeira era de

memória afetiva não apenas das antigas Pas-

Trata-se de uma figura importante que, embora

Marechal Deodoro, onde mantinha o grupo

torinhas, das ensaiadoras e dos torcedores dos

não participe da brincadeira, conhece do traje,

que dançava ao som dos acordes da Sociedade

cordões, mas de toda a comunidade, que enxer-

das regras, das peças, da marcação cadenciada

Musical Santa Cecília. Em Maceió, dona Ma-

ga ali a possibilidade de manter seu arquivo de

e comanda as Pastorinhas nas jornadas soltas e

ria Emília inovava com o acréscimo de novas

lembranças.

na encenação dramática.

partes, aumentando assim o interesse pelas

O envolvimento do grupo comunitário é

Em Alagoas, entre as décadas de 1940 e

apresentações. Ambas são citadas por Théo

fundamental para a montagem desses folgue-

1950, dois nomes se destacavam entre as en-

Brandão como seguidoras de dona Ritinha

Adoração ao Menino Jesus - Presépio Nossa Senhora de Fátima - Maceió Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 39


(Rita Cristina da Costa), que manteve os famo- Miranda, em 1949 preparou grupos de Pastoril sos Presépios e Pastoris da catedral. Sua conti- para apresentações em Recife, nas rádios Jornal nuadora, dona Eudora Vasconcelos, recuperou o do Comércio e Tamandaré. Depois, estendeu a auto depois de anos desativado. Ficou conhecida missão à Rádio Iracema, em Fortaleza. também por vestir suas Pastorinhas com lindos

Nos anos 1950, na animação dos programas

trajes que ela mesma confeccionava com muita de auditório da recém-criada Rádio Difusora de habilidade e capricho.

Peleja na Praça do Pirulito

Alagoas, suas Pastorinhas arrancavam aplausos

Hoje, em Maceió, dona Áurea está entre fervorosos de plateias animadas pelos radialis-

Foi no final da década de 1960 que o pro-

as que entendem da brincadeira e mantém tas Haroldo Miranda, do encarnado, e Aldemar

fessor Pedro Teixeira de Vasconcelos ini-

a tradição entre as jovens, sempre exigente Paiva, do azul. Em 1976 Carrascosa assumiu o

ciou a formação de grupos de Pastoras nos

com a perfeição do grupo. Membro da As- comando do Grupo Folclórico da Universida-

colégios estaduais onde ensinava. Sua inicia-

sociação dos Folguedos Populares de Ala- de Federal de Alagoas. Mesmo tendo perdido a

tiva muito contribuiu para a permanência da

goas-Asfopal, conviveu com os folcloristas visão, continuava ensaiando e, com apurada au-

tradição, vindo em seguida outros autos a

Ranilson França e Josefina Novaes desde o dição, percebia de pronto quando uma Pastora

serem formados, garantindo a continuidade

início, quando a agremiação foi estruturada, errava a marcação.

dessas manifestações.

Em Penedo, na década de 1960, o Pastoril

O professor Pedro era um excelente ani-

de Toinha Peixoto (Antônia Peixoto) levava

mador! Com um microfone, voz firme e

multidão ao Montepio dos Artistas e ao Tea-

convincente, exaltava as Pastorinhas do cor-

tro 7 de Setembro. Gente da redondeza, de

dão encarnado, pedindo aplausos e votos à

Piaçabuçu, Neópolis e Igreja Nova vinha para

plateia, enquanto Luiz de Barros, radialista

A professora Maria José Carrascosa, na dé- engrossar os aplausos e depois da brincadeira

experiente, animava as Pastorinhas do azul.

cada de 1940, começou a orientar os primeiros voltava nos antigos ônibus, conhecidos por

A peleja era acirrada na Praça do Pirulito,

grupos. Seu nome logo ficou conhecido e respei- “sopas” ou “marinetes”. Em quase toda cidade

nas décadas de 1960/70 e os aficionados se

tado pela fidelidade à representação dos folgue- havia um ou mais Pastoril se apresentando nas

acumulavam em torno do palanque, em rui-

dos autênticos. Convidada pelo locutor Haroldo festas natalinas.

dosa aclamação.

em 1985.

Linhagem autêntica nas ondas do rádio

40 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Reis Magos - Presépio Menino Jesus Victor Anderson Andrade Moura, Carlos Alberto da Silva e Amistron Barros Pessoa Júnior

Natal interpretado

A

partir da concepção dos presépios, montados

sempre à meia-noite de 24 para 25 de dezem-

nas casas e igrejas pelas famílias e devotos.

bro. Devido à aceitação e ampliação do públi-

representação dramática segue os mol-

Os países católicos da Europa foram os

co, o Presépio passou a ser apresentado vários

des dos Noéis, Autos Natalinos euro-

pioneiros a adotar essa prática, seguidos das

dias e em palcos e praças, na frente das igrejas,

peus que surgiram a partir da instalação das

colônias por eles conquistadas. Nesse rol de

fazendo parte da grande festa popular que se

primeiras lapinhas, nos idos da Idade Média,

colonizados está o Brasil, possessão portugue-

organiza em torno da data. Até meados do sé-

cuja origem é atribuída a São Francisco de As-

sa que logo se apropriou dessa tradição, vindo

culo passado, a aceitação era tão grande que

sis. Não existe informação precisa sobre o sur-

a formar o seu repertório cultural a partir dela.

cada bairro tinha a sua representação dramáti-

gimento e se realmente a primeira montagem

A princípio, a apresentação desse folguedo

foi idealizada pelo santo, mas o certo é que a

era diante da lapinha da igreja principal, en-

Se no passado havia grande número de

interpretação teatral do folguedo aconteceu a

quanto os fiéis aguardavam a Missa do Galo,

Presépios - não apenas na capital, mas tam-

ca com público garantido.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 41


Nascimento de Jesus. Acervo - Museu Théo Brandão

bém nas cidades do interior -, hoje eles estão perdendo espaço para os Pastoris, mais leves, soltos e despojados da carga dramática. Da

Personagens e trajes: Pastoras, Anjos e Demônios

chapéus de palhinha ou diademas com flores e fitas. As meias são brancas e os sapatos pretos. Cada uma tem nas mãos o seu pandeiro, que toca acompanhando o ritmo da música. A

mesma forma, as lapinhas estão sendo preteridas pelas árvores de Natal, de grande apelo

Tanto no Presépio quanto no Pastoril, as

Diana posiciona-se no centro, entre a Mestra e a

comercial. Nos grandes centros, a figura lendá-

Pastorinhas vestem blusa branca com cole-

Contramestra, vestida com as duas cores, e pede

ria do Papai Noel está polarizando as atenções,

te e saia nas cores de seus cordões, decorados

palmas e prendas para os dois cordões.

em detrimento do sentido original do Natal.

com lantejoulas, e ligas douradas. Na cabeça,

42 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

O Demônio Lusbel, vestido a caráter, traja


macacão preto e vermelho e traz os atributos do Satanás: chifres e tridente. O Anjo Gabriel, que anuncia a vinda do Menino Jesus, traja manto branco, asas de penas e auréola na cabeça. Na evolução do auto, com a projeção da viagem a Belém, novas personagens aparecem e com elas as Pastoras interagem, como no caso da Cigana, da Borboleta e da Camponesa, que não estão inseridas nos cordões e apresentam uma coreografia própria, vestidas de trajes típicos. Na encenação do Presépio, ou Pastoril Dramático, desenrolam-se as cenas da adoração a Jesus na manjedoura com os personagens caracterizados. O próprio enredo é mais elaborado, representando as figuras que normalmente aparecem nas lapinhas; isto é: Nossa Senhora, São José, os Reis Magos, os Pastores, o Anjo e outros personagens que a imaginação popular se encarrega de acrescentar.

O Bem e o Mal Presépio Menino Jesus Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 43


O auto e a função, a peleja entre o Bem e o Mal L ogo no início acontece a peleja entre o

Boa noite, senhoras também!

nova: Jesus nasceu! E o cenário do fundo do

Bem, representado pelo Anjo Gabriel, e o

Viemos para adorar!

palco se ilumina, retratando o menino na man-

Mal, pelo Demônio Lusbel. O anjo anunciando

Jesus nasceu para nos salvar!

jedoura com Maria, José, os Pastores e os Reis.

o nascimento de Jesus, e o demônio com todas

Outros cânticos se repetem até serem recep-

As Pastorinhas chegam com flores e todos em

as tentações e artimanhas para conquistar as in-

cionadas pelo Velho Simão, com quem mantêm

defesas Pastorinhas, impedindo-as de prosseguir

diálogo até a chegada do Pastor Benjamim, que

Ofertai, ó Pastoras,

a viagem até Belém. Anjo e demônio desenvol-

reforça a nova alvíssara:

As flores do nosso afeto,

vem um diálogo de insultos e argumentos. Por

Não sei, belas Pastoras,

Ao Deus Santo, ao Deus Menino,

fim, a fala vitoriosa do anjo:

O que tem meu coração,

Nosso santo, nosso dileto!

Que adivinha alguma festa,

A plateia acompanha tudo com atenção e, no

“Glória a Deus nas alturas! Glória ao nosso Salvador! Glória ao Filho de Maria, que há de ser Redentor!” Dito isto, o demônio reclama e esperneia. De nada adianta, e ele sai de cena vencido e raivoso. Passado este prólogo, chegam em fileiras as

regozijo cantam louvores ao Deus menino.

Ou nunca vista função!

final, gritam os partidários do azul um viva para

E a brincadeira continua, com a chegada da

seu cordão, enquanto os do encarnado fazem o

Cigana:

mesmo para o seu e todos se unem para saudar

Sou a Cigana do Egito,

o Salvador. Em clima de alegria, a encenação é

Pastorinhas: o encarnado, do lado esquerdo, li-

Que também venho a Belém,

encerrada.

derado pela Mestra, e o azul, do lado direito, pela

Adorar o Deus menino,

Contramestra. No centro, a Diana faz as vezes

Adorar o sumo bem!

mum nas apresentações do passado, quando o

de mediadora da disputa. Atrás, os Pastores,

Pastoras, Pastores e os demais figurantes can-

público vibrava e chorava a cada ato, mas man-

acompanhados do Velho Simão, figura cômica e

tam os louvores ao Deus que vai nascer. Persis-

tém a mesma ingênua concepção dramática que

sábia, entoam a louvação de entrada:

tente, o Demônio Lusbel ainda aparece tentando

caracteriza suas cenas.

Boa noite, meus senhores todos!

as Pastorinhas, exaltando seus poderes, sua força das profundezas do inferno, mas novamente é afastado pelo Anjo Gabriel, que anuncia a boa

44 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Hoje o auto já não inspira a comoção co-


Pastoril A rivalidade dos cordões A

origem do Pastoril é desconhecida.

O que permanece como determinante em

Sabe-se, no entanto, que, assim como

todas as apresentações são o tema e a forma

o Presépio, era encenado na Itália, na França,

como o auto começa e termina. No início, as

na Espanha e em Portugal a partir do século

Pastoras cantam as jornadas de abertura, de

XVI.

entrega das oferendas, e no final as de des-

Enquanto o Presépio é um auto de sequência lógica, de partes concatenadas e enredo próprio, o Pastoril, com o mesmo foco no drama litúrgico da Natividade, consiste em cantos

pedida, com promessas de voltar no próximo ano.

O auto e a função

e louvores soltos, com partes vindas de antigas canções do ciclo do pastoreio e outras inser-

O Pastoril é formado por garotas de ida-

ções que com o tempo foram se incorporando

des variadas que se dividem entre as Pasto-

à brincadeira de forma espontânea. Muitas ve-

ras do azul e as do encarnado. Enfileiradas,

zes as próprias ensaiadoras criam novas jorna-

têm no centro a Diana, com traje e adereços

das ou reavivam suas lembranças e as incluem

dos dois. Atrás dela o Pastor, com seu caja-

na função, fazendo a diferença de grupo para

do, que bate no chão a cadência da marca-

grupo.

ção da ensaiadora.

Diana de Pastoril Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 45


A Mestra (encarnado) e a Contramestra

Os passos são glamorosos e as evoluções

E as jornadas, como são chamadas as partes,

(azul) conduzem suas doze Pastorinhas, de-

graciosas, arrancando aplausos do público. En-

polarizam a brincadeira da peleja entre as duas

fendendo as cores de seus cordões, dançando

tram cantando a uma só voz:

cores. Canta a Mestra a apologia ao seu cordão:

e tocando graciosos pandeiros com fitas pen-

Boa noite meus senhores todos,

dentes que acompanham o grupo de tocado-

Boa noite senhoras também,

Eu sou a Mestra do cordão encarnado,

res. Trajam blusas brancas com coletes e saias

Somos Pastoras, Pastorinhas belas, (bis)

O meu partido eu sei dominar,

na cor dos seus cordões e avental branco com

Que alegremente vamos a Belém! (bis)

Eu peço palmas, peço fita e flores, (bis)

babados e rendas, da mesma forma que as Pas-

E continuam nos cânticos de entrada:

Aos meus senhores peço proteção! (bis)

torinhas do Presépio. Dependendo das condi-

Meu São José,

As evoluções prosseguem entre os estribi-

ções, as roupas são ricamente decoradas com

Dai-nos licença,

lhos, com a fila das Pastorinhas mostrando suas

lantejoulas, linhas douradas e coletes de veludo.

Para o Pastoril dançar!

habilidades na dança, no toque dos pandeiros e

A regra é que os trajes sejam exatamente iguais,

Viemos para adorar, (bis)

variando apenas a cor, conforme o cordão.

Jesus nasceu para nos salvar! (bis)

46 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Pastoril em formação completa


no canto. Em seguida, é a vez do cordão azul e

Sou a Diana, não tenho partido,

sentando no período natalino, mas adaptado

a Contramestra, da mesma forma, lidera a sua

O meu partido são os dois cordões,

a um novo público que já não vibra com a

fileira.

Eu peço palmas, (bis)

disputa dos cordões, mas frequenta as festas

Peço fita e flores, (bis)

tradicionais pelo que representam no resgate

Ó meu senhores sua proteção! (bis)

do passado e pela beleza da brincadeira. As

Em seguida, vêm os chamados entremeios,

apresentações, muitas vezes, são pontuais, uma

Azul é o mar,

que são as jornadas da Borboleta, da Florista,

noite em um lugar, outra noutro ponto, sem o

Azul é a rainha

da Cigana, personagens que podem variar de-

compromisso com a coroação.

Que nós vamos coroar!

pendendo da ensaiadora que, por vezes, acres-

E os partidários do encarnado fazem o

centa algumas figuras regionais.

As torcidas vibram de um lado e do outro, repetindo os refrãos dos animadores: Azul é o céu,

Tem sido cada vez mais frequente a apresentação de vários folguedos em uma espécie

A brincadeira se repete por três semanas até

de pot-pourri natalino. Ao público habitual se

Estrela do Norte,

o dia 6 de janeiro, consagrado a Reis, quando

juntam os turistas, ávidos pelas novidades das

Cruzeiro sagrado,

acontece a coroação. O cordão vencedor é

cidades que visitam, e os pesquisadores, repre-

Vamos dar um viva,

aclamado e a Mestra ou a Contramestra sobe

sentantes de instituições, que procuram docu-

Ao cordão encarnado!

ao trono, vestida de Rainha, para ser coroada

mentar os autos com recursos da tecnologia

A plateia chama uma Pastora de cada vez,

entre vivas e palmas.

audiovisual.

coro:

que, sozinha, faz a evolução e recebe aplausos e votos em notas de dinheiro que o votante

As escolas, a Universidade, a Associação

Despedida

de Folguedos e grupos espontâneos mantêm

prende em sua roupa. E mais senhoras de si

Ao final, as Pastoras cantam juntas:

vivo o Auto das Pastorinhas, que permanece

ficam as meninas quando as notas se multipli-

Adeus minha gente,

não apenas em Alagoas, mas em todo o Nor-

cam em fileiras esvoaçantes e os aplausos eco-

Queiram desculpar,

deste.

am por toda a praça. Todos os dias a votação

Que a nossa jornada,

se repete e os pontos são computados pelo

Já vai terminar!

pároco ou por quem ele determine. A soma

Adeus, é tarde,

desses votos vai definir a eleição de um dos

Já vamos partir.

cordões no último dia de apresentação.

O dia amanhece,

Contendo a torcida, entra a Diana enaltecendo os dois cordões:

Preciso dormir! Atualmente, o Pastoril continua se apreAlagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 47


Capítulo III


Rainha de Guerreiro

De que vale a coroa tão rica se o reino perdi do coração. Traspasse-me agora o peito a espada que trago na mão. (Maurício de Macedo)

50 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Reisado

Chegada à Colônia D

os chamados autos natalinos, o Reisado - celebração do nascimento do Menino

Jesus na manjedoura, em Belém - é dos mais antigos de que se tem notícias. Presume-se que sua origem remonta à Idade Média, quando o ciclo natalino passou a ser comemorado festivamente na Europa. Nesse período, muitas manifestações alusivas à data começaram a se espalhar pelos mais diversos lugares, com danças, cantos e referências a temas religiosos milenares. Eram tidos como um meio de perpetuar fragmentos da fé, em novas interpretações que ao longo dos séculos passam de geração a geração, cristalizando a sua prática, embora não seja possível precisar, exatamente, quando tudo começou.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 51


O Reisado chegou ao Brasil logo depois do descobrimento, com os primeiros colonizadores que conservavam os costumes das antigas aldeias portuguesas e implantaram na Colônia essas manifestações como forma de extravasar suas lembranças em lugar tão distante. O reforço à tradição trazida das terras d´além mar vinha dos frades evangelizadores, que promoviam a difusão e o aprimoramento cenográfico dessas representações como forma de tornar as festas católicas mais atraentes e, com isso, angariar maior participação popular. A expansão e a adequação ao novo ambiente logo aconteceram, espalhando-se por toda a parte. No Nordeste a brincadeira ganhou ares de símbolo regional e, nesse contexto, Alagoas é o estado que possui o maior número de grupos de Reisado organizados e atuantes. São apresentações que articulam diferentes níveis e dimensões da cultura local, acompanhando, no tempo, o movimento da sociedade que as promove. Originalmente, as encenações ocorriam entre o Natal e o Dia de Reis, 6 de janeiro, mas logo foram antecipadas para o início de dezembro, enquanto a reorganização do grupo, o preparo das roupas e o contrato das apresentações começam a partir de setembro. Atualmente, as exibições ocorrem durante todo o ano, em acontecimentos religiosos como festas de santos padroeiros, encerramentos de procissões e em eventos diversos como congressos, feiras culturais, posses de políticos, atrações turísticas. Mestre Expedito Reisado Virgem dos Pobres Bananal – Viçosa 52 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


A ancestralidade de Reis A

Mestre Dedeca José Pereira de Lima Reisado de Água Branca

estrutura original do Reisado é seme-

e a Rainha como personagens centrais. Tam-

lhante à da Folia de Reis, auto comum

bém episódios da Mouriscada portuguesa se

nas regiões Sul e Sudeste. Isso porque ambos

misturaram às conquistas do Congado, dando

são originários das Reisadas, ou Reiseiras, pe-

ao Reisado uma dimensão da própria etnia da

ças ancestrais da Península Ibérica, formadas

Colônia.

somente por homens que saíam anunciando a

Dessa diversidade veio o enriquecimento

boa nova do nascimento de Jesus, dançando e

do auto com novos episódios, cantos, dan-

cantando pelas ruas e recebendo acolhida das

ças, declamações e improvisos. Não existe

famílias que lhes ofereciam comidas, bebidas

um assunto sequenciado, mas uma variedade

e espórtulas.

temática que vai da história lusa ao imaginá-

Aqui no Brasil as inovações foram se in-

rio criativo dos participantes, das louvações

corporando ao folguedo de tal forma que só

ao Divino aos elogios aos donos da casa ou

se reconhece essa origem indo às referências

aos espaços públicos onde a festa acontece.

históricas. Sua composição é uma mistura de

Dentre os requisitos que garantem o sucesso

temas sacros e profanos advindos de outras

da apresentação estão o carisma do Mestre, o

brincadeiras e autos, ganhando força com a

colorido do traje, o entusiasmo e a harmonia

mistura das práticas culturais, dos cortejos e

do grupo.

danças das corporações e de características peculiares da região. A presença do Boi passou a ser um entremeio obrigatório, devido à importância do ciclo do gado, assim como a inclusão dos autos do Congo e dos Caboclinhos, trazendo o Rei Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 53


Personagens e trajes, o domínio da cor O

Mestre é quem detém o conhecimento e rege as partes, conduzindo tudo ao som do apito. Cada

silvo representa um mando. É ele quem puxa as peças tradicionais e o coro responde em duas vozes. O bom Mestre é também um repentista. Improvisa peças laudatórias ou referentes a algum fato novo que porventura ocorra. Tudo depende do momento. Na maioria das vezes, exalta a cidade onde o folguedo se apresenta, o santo padroeiro e as moças bonitas do lugar, o pároco e o prefeito. Alguns usam óculos escuros, como símbolo de poder, costume trazido de seus antepassados. Os demais figurantes obedecem ao seu comando, cumprindo cada um a sua função no espetáculo. Ensaios, confecção dos trajes, conserto dos chapéus e diademas, ingressos e dispensa de figurantes, contratos de apresentações, enfim, tudo que diz respeito ao grupo é decidido pelo Mestre. O Contramestre está ao lado, acompanhando suas funções e reforçando a batida do tropel. É ele quem representa o Mestre nos impedimentos. Em seguida

Mateus de Reisado

54 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


vêm o Rei e a Rainha vestidos a caráter, dois Embaixadores, dois Mateus, Palhaço e demais figurantes, trajando saiotes e coletes de cetim adornados com ligas e cordões dourados, meias brancas e sapatos pretos. Os chapéus de palha de ouricuri, abas largas dobradas de um lado, são cobertos de cetim e guarnecidos de espelhos, flores de plástico ou de papel e areia brilhante. As coroas e os diademas coloridos também recebem as mesmas aplicações e obedecem aos princípios hierárquicos do grupo. Antigamente, os trajes se limitavam às cores da bandeira de Portugal: vermelho, verde e amarelo. Aos poucos foram ganhando novos adereços e aumentando a paleta, dando ao folguedo a particularidade da sua representação no Brasil. Os Mateus pintam o rosto de preto e trazem na cabeça o cafuringa, chapéu afunilado de abas largas e cores vibrantes. O Palhaço forma com eles o trio cômico, fazendo piruetas e tocando pandeiros. São eles os responsáveis por proteger o Menino Jesus. Com dissimulações e improvisações, distraem os soldados de Herodes na dramatização. Vestem roupa folgada de chita estampada ou quadriculada. O grupo dança ao som de um conjunto musical formado basicamente por sanfona, tambor, zabumba, recorreco e pandeiros.

Figurante Reisado Talento Ramos Distrito de Piau Piranhas Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 55


Na cadência da função O

foco gira em torno da apresentação

Vilela e Pedro Teixeira, que as ouviam desde

que os participantes denominam

crianças nos Reisados da Viçosa, no início do

“função”. A brincadeira compreende peças

século passado, e algumas delas permanecem

cantadas, trechos recitados, louvações e pas-

até hoje com a mesma fidelidade à letra e à

sos de dança que variam da marcha ritmada

música.

até o tropel simples, ou duplo, dependendo

Deus te salve, Casa Santa,

da destreza do Mestre, que é também o en-

Onde Deus fez a morada.

saiador.

Onde mora o Cálice Santo

O auto começa pelo pedido de “abrição

Mestres de Reisado Distrito de Piau Piranhas

E a hóstia consagrada.

de porta”, seguido pela “louvação ao Divino”

Já deu meia-noite,

e, por extensão, aos donos da casa, com o

Já ouço tocar o sino,

Mestre na frente empunhando sua espada e o

Vamos todos adorar,

Mateus aboiando. Todos os participantes can-

Ao Bom Jesus Deus Menino.

tam e sapateiam, balançam os maracás, tinem

As representações dramáticas compre-

as espadas, atentos ao comando do apito do

endem cenas de guerra, anunciada de forma

Mestre para não perder o ritmo e segurar a ca-

declamada, conhecidas por “embaixadas”,

dência dos passos que se sucedem, enquanto

enquanto as áreas cantadas são as peças. O

ele próprio sola o canto, repetido por todos os

combate se trava. É o momento mais acirra-

brincantes, ou “figurás”, como os participan-

do da brincadeira, quando os Embaixadores

tes se autodenominam.

anunciam a desavença, começando o embate

Muitas marchas de domínio público e ou-

pelo Mestre e pelo Rei, seguidos pelos demais

tras de mestres conhecidos foram colhidas

figurantes. O soar das espadas ecoa no ar e,

pelos folcloristas Théo Brandão, José Aloísio

com destreza, tanto dançam quanto cantam e

56 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


dialogam sobre o inimigo que chega pelo mar.

representação. E todos parecem contagiados

As lutas náuticas são recorrentes devido à

pela responsabilidade da defesa do Rei. Findo

frequência dessas batalhas na Península Ibé-

o episódio da guerra, com a coroação do Rei

rica durante a Idade Média, sendo a de maior

ou da Rainha, peças soltas preenchem a brin-

apelo popular a tomada da Espanha e de

cadeira pelo tempo que o Mestre determina.

Portugal pelos mouros, no ano 711. Com o

Das mais conhecidas, e um verdadeiro clás-

passar do tempo, as questões políticas, e so-

sico da poesia popular, é a atribuída ao Mes-

bretudo as religiosas, que se entrecruzaram na

tre Luis Góis, que a evocou em 1954, no IV

história desses dois países, foram levadas para

Centenário da Cidade de São Paulo, quando

os folguedos, ganhando interpretação e repre-

foi ovacionado por uma multidão, segundo

sentação populares.

relato de José Aloísio Vilela, que acompanhou

Uma das falas mais tradicionais do Reisado

o grupo:

é a do Primeiro Embaixador, quando anuncia

Ó, minha gente,

o inimigo:

Reisado só da Viçosa,

Sou o primeiro Embaixador,

Fazenda só cor-de-rosa,

Que embaixada venho dar,

Baiana só do Farol.

Estamos com o porto tomado,

Ó, minha gente,

Estamos com guerra no mar,

Dinheiro só de papel,

Puxemos pelas espadas,

Carinho só de mulher,

Cuidemos em guerrear!

Capital só Maceió.

E as embaixadas se repetem e os apelos de combate se reportam a fatos da história portuguesa misturados com a defesa do rei do Congo e outras loas que povoam o inconsciente coletivo e encontram rima na imaginação do Mestre. Por isso, não existe uma sequência lógica, mas uma variedade de alegorias e de frases de significância apologética que animam a Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 57


Entremeios, as prendas da sorte

D

epois das peças, ou entre elas, alguns

noite, os entremeios foram reduzidos, fican-

das pelo Mestre, que representa o fazendeiro

figurantes descem do palco para dis-

do apenas alguns da preferência do Mestre.

e se propõe a comprar o animal aos Mateus,

trair o público, enquanto outros trocam de

A presença da farsa do Boi, porém, é indis-

que fazem todos rir com as idas e vindas à

roupa e se preparam para o entremeio. É o

pensável. Todos aguardam sua chegada com

procura do animal e tentativas de enganar o

momento de oferecer prendas, que podem

expectativa. É o momento mais alegre da

fazendeiro, até que este pega o bicho pelos

ser a espada, o maracá, o chapéu ou o diade-

brincadeira. Ele vem fazendo barulho com o

chifres e o domina. O drama se desenvolve

ma às pessoas da plateia para depois recolhê-

chocalho no pescoço, dando marradas, dan-

com a compra do boi, sua morte e a retaliação

-las com uma espórtula. Esta parte é conhe-

çando, sendo insultado pelos Mateus, que fa-

simbólica das partes, seguida da ressurreição,

cida como “sorte”, pelo fato de ser costume

zem piruetas à sua frente, e pelo público que

graças ao milagreiro Doutor, ou Curandeiro,

os brincantes escolherem pessoas de maiores

participa da farsa. Sua presença é muito forte,

personagem cômico que reintegra o animal

posses para entregar a distinção, na esperança

apoiada na lenda do Boi Gracioso, que, em

e o faz levantar de um salto e sair correndo,

de receber uma recompensa maior.

variadas versões, se disseminou por todas as

dando marradas e coices, ainda mais disposto

Enquanto acontece essa interação entre os

regiões brasileiras dando grande popularidade

do que antes, arrancando aplausos e risadas

brincadores e o público, os entremeios come-

à figura do boi no folclore nacional. Vigorosa

dos presentes.

çam a ocupar o palco com figuras fantasiadas

e ao mesmo tempo ágil e graciosa, a repre-

Terminado o entremeio o grupo se prepa-

para uma rápida dramatização. No passado es-

sentação do Boi desenvolve um jogo de cenas

ra para o episódio final, concluindo a brinca-

tas partes eram longas e muito variadas. Não

coreográficas de muita movimentação e bele-

deira com a peça da despedida.

faltavam os entremeios do Boi, da Burrinha

za plástica.

ou Cavalo-Marinho, do La Ursa, do Jaraguá,

Chegou, chegou,

do Morto-Vivo, do Zabelê, do Capitão-do-

Lá chegou meu boi agora.

-Mato e outros, inspirados nas personagens

Se quiser que eu dance, eu danço,

das lendas e do folclore regional.

Se não quiser, vou-me embora.

Como as apresentações já não são tão lon-

Após as alegorias iniciais começa a drama-

gas quanto as de antigamente, que varavam a

tização com as partes declamadas encabeça-

58 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mestre Dedeca, ao centro, e figurantes do Reisado de Ă gua Branca

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 59


Despedida em marcha

O

Mestre anuncia a retirada e ovaciona a todos com peças de agradecimento, de louvações ao

Deus Menino e a Nossa Senhora, e na esperança de voltarem no próximo ano, renovando votos, tocando e dançando alegremente, sempre com ele à frente, seguido pelos graduados e demais figurantes. As marchas de despedida são dolentes e reforçam o ritual da partida de quem precisa ir, mas quer ficar. Adeus, minha gente, Adeus, que eu me vou. Até para o ano, Se nós vivo for. Embora o Reisado seja um marco na história do folclore alagoano, hoje os grupos estão se extinguindo. Um dos que permanecem em atividade, com apresentações regulares, é o do Mestre Expedito, no Bananal, povoado da Viçosa, que mantém a tradição que herdou do pai, o Mestre Osório Terto. Até meados do século passado, a dimensão imaterial do patrimônio cultural do estado era medida pela quantidade de Reisados em atuação e pelo entusiasmo de que se cercavam suas apresentações. Com o tempo, o auto deu margem ao surgimento de outro folguedo, o Guerreiro, que logo veio a suplantá-lo em termo de aceitação dos brincantes e do público.

Figurantes de Guerreiro 60 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Guerreiro Guerreiros brincantes, preferência caeté

D

e todos os folguedos, o Guerreiro é o que está em primeiro lugar na preferência do alagoano. Nos lo-

cais onde os grupos se apresentam, há sempre um como a atração principal. A energia da música, os passos ritmados, o apito estridente, a performance dos brincantes e o movimento colorido das fitas dão ao auto uma vigorosa encenação, que contagia e entusiasma a todos. A semelhança com o Reisado não nega a sua origem, que remonta ao século passado, pelos idos dos anos de 1930, quando foram feitas inclusões criadas pelos Mestres e incentivadas pelo público que, na época, vibrava e interagia com o grupo, fazendo das apresentações o grande acontecimento que mobilizava todas as classes sociais. Com isso, o entusiasmo do Mestre levava à criação de novas peças, novos passos e personagens. E, aos poucos, a brincadeira foi se distanciando do modelo inicial, a tal ponto que passou a formar outro folguedo com “função” própria.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 61


O folclorista Pedro Teixeira de Vasconcelos considera a festa do centenário da cidade

de outras brincadeiras -, que começou a ter

Mestre Jaime Guerreiro Leão Devorador

mais adeptos e a ganhar formatação própria.

de Viçosa, em 1931, o marco da transição

Na Zona da Mata, os poetas, juntamente

do Reisado para o Guerreiro. Embora ainda

com os Mestres, contribuíram com criações

permanecesse o nome original, a formação já

para o novo folguedo. Olegário Vilela, bardo

mudara com a absorção de partes de outros

de rima fácil e lírica, senhor do Engenho Boa

folguedos, como os Caboclinhos, o Pastoril,

Sorte, na Viçosa, versejava suas peças para

o Fandango, o Bumba-Meu-Boi e outras can-

Reisado e Guerreiro.

ções e repentes que os Mestres conseguiram

A cigarra está cantando,

juntar. Aos poucos se foi criando uma es-

No salgueiro da estrada,

trutura independente - com a fragmentação

Coitadinha da cigarra, rá rá, (bis)

62 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Está cumprindo o seu fardo. (bis) Você diz que estou chorando, Estou chorando é por você. Você diz que é mentira, rá rá, (bis) Vou chorar pra você ver. (bis) O primeiro pesquisador a citar o auto do Guerreiro foi Arthur Ramos, em 1935, no livro O Folk-loro Negro do Brasil. Aos poucos, o reconhecimento foi legitimando o novo auto.


Diz Pedro Teixeira que quando o Reisado do

auto, juntamente com o público.

Engenho Boa Sorte foi convidado a se apre-

Alagoas teve grandes Mestres já elencados

sentar em São Paulo, no ano de 1945, outras

por Théo Brandão e José Aloísio Vilela. Em

novidades foram incorporadas às peças e o

2010 a folclorista Josefina Novaes publicou

sucesso foi total. A partir dessa experiência e

o catálogo Asfopal – 25 Anos Brincando Sério,

com o frenesi do episódio da guerra, com os

com resumos biográficos dos Mestres filia-

personagens digladiando-se com todo o furor

dos à Associação dos Folguedos Populares de

rítmico, a brincadeira ganhou personalidade e

Alagoas. Entre eles, Benon, Venâncio, Juvenal

passou a ser reconhecida e classificada - ini-

Leonardo, Artur Moraes, Djalma de Oliveira

cialmente, fora do estado - com o nome Auto

(apelidado Jaime), Juvenal Domingos, Nival-

do Guerreiro.

do Abdias e o mais novo deles, André Joa-

Théo Brandão reitera o testemunho de

quim, que começou a brincar no Guerreiro da

Pedro Teixeira, dizendo, com a mesma pro-

Mestra Zefa Bispo, de Palmeira dos Índios, na

priedade de quem presenciou a transição, que

década de 1960. Vindo para Maceió, ele logo

“o Guerreiro surgiu na Zona da Mata, em Vi-

se filiou ao Guerreiro do Mestre Jorge Ferrei-

çosa, sob o viço dos importantes Reisados do

ra, da Chã da Jaqueira, e nunca mais deixou a

município”. José Aloísio Vilela também diz o

brincadeira.

Contramestre Anísio Guerreiro Mensageiro Padre Cícero Maceió

mesmo e Câmara Cascudo escreve textual-

A história dos mestres é permeada por ex-

mente em seu dicionário: “Guerreiro - auto

periências semelhantes. A maioria participava

Foi eu que mandei chamar (bis)

popular no estado de Alagoas”. Ele o assistiu

dos folguedos desde criança. Alguns são fi-

Eles vieram de longe (bis)

pela primeira vez em Maceió, no ano de 1952,

lhos de Mestre, de Rainha, de figurante, e tra-

Do canto do Juremá (bis)

e reafirma sua origem no Reisado.

zem na memória afetiva o respeito à tradição

Quem lá nasce assim conhece (bis)

Natural em qualquer processo de transição,

e a fidelidade à forma original. É justamente

Caboclo Tupinambá (bis)

a assimilação das mudanças e diferenças entre

essa transmissão que garante a perpetuação da

os folguedos ocorreu com o passar do tem-

brincadeira.

po. A partir daí a popularidade do Guerreiro

É do Mestre Benon esta peça de entrada:

cresceu, e tanto os Mestres quanto os figuran-

Boa-noite meus senhores e senhoras (bis)

tes foram migrando aos poucos para o novo

Boa-noite eu venho dar (bis)

Chegou estes Caboclinhos (bis)

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 63


Personagens e trajes, um reino de gosto popular A

lém do Mestre e do Contramestre, das duas Rainhas, Embaixadores, Mateus,

Palhaços e dos demais brincantes do Reisado, outros foram acrescidos ao Guerreiro, sendo Figurantes do Guerreiro Barreira Pesada

hoje cerca de 30 os participantes. Ao auto foram agregados o General, a Lira, a Estrela de Ouro, a Borboleta, o Índio Peri e seus Vassalos, a Rainha dos Guerreiros, a Rainha dos Caboclos e a Banda da Lua. Estes novos personagens reforçaram a identidade do folguedo e enriqueceram sua encenação. Os trajes, semelhantes aos do Reisado, destacam-se por ser mais variados, coloridos e imponentes nos ornatos. As principais figuras

Guerreiro das Artes Mestre Juvenal Leonardo

se vestem com réplicas, de gosto popular, dos trajes da nobreza imperial, em cores vibrantes,

zem na cabeça o distintivo do cocar com penas,

em cetim com aplicações de galões dourados,

ou estilizado com lantejoulas, e outros apliques.

lantejoulas e muitos espelhos para afugentar os

Os chapéus são vistosos, altos, com brilho e muitas cores. Os do Mestre e do Con-

cantes. Quanto maior e mais pesado, mais

O Índio e seus Vassalos tanto brincam a ca-

tramestre têm a forma de fachada de igreja

orgulho para quem o porta, pois o status do

ráter, com penachos e tangas de penas, como

com duas torres, frontão e a cruz latina no

grupo é medido pelo garbo e pela importân-

usam o traje normal de fitas coloridas, mas tra-

centro, como insígnia norteadora dos brin-

cia do Mestre.

maus espíritos, conforme a sabedoria popular.

64 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O auto e sua função, fragmentos da fé e da guerra D

a mesma forma que no Reisado, a

auto é mantido com o episódio da guerra,

brincadeira começa com o pedido de

vindo do Reisado, do Auto do Congo e dos

“abrição de porta”, com peças semelhantes, e

Caboclinhos, recheado de novas incorpora-

outras advindas do Pastoril, seguidas das habi-

ções a critério do Mestre.

tuais louvações ao Divino e aos patrocinado-

Nenhum folguedo se iguala ao Guerreiro

res. Entre as composições que o grupo entoa,

em matéria de animação nos passos de batida

os Mateus divertem o público, respondendo

forte, nos gestos e no embate. A ação dramá-

com cantos de conteúdo hilário.

tica se desenrola no combate entre guerreiros

Puxa o Mestre e o grupo responde:

e caboclos, chegando ao ápice com a morte

Guerreiro, cheguei agora, (bis)

e ressurreição do Índio Peri, capturado pelos

Nossa Senhora é nossa defesa. (bis)

donos da aldeia, no caso os colonizadores, e

E os Mateus interrompem:

da Lira, pivô do conflito passional entre o Rei

Se eu casar com uma mulher feia demais,

e a Rainha.

O diabo é que não faz, todo dia ela apanhar! Em seguida, cantam uma sucessão desconexa de atos, fragmentos de outros folguedos e de temas aleatórios que tratam da saudade, do amor, da terra e do mar, que enriquecem a

Mestre Manoel Venâncio Maceió

diversidade e a maleabilidade do enredo, abordando diferentes contextos socioculturais. Apesar da falta de unidade temática, o universo simbólico que sustenta a identidade do Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 65


Guerreiro Mensageiro Padre Cícero

A inclusão da figura do General é, com

improvisos, quebrando uma possível sequên-

certeza, uma decorrência do fascínio que

cia, sem contudo perder a coerência rítmica.

a farda exerce no sentido de poder, so-

Uma característica própria do auto são as

bretudo por conta da conquista do regime

peças de exaltação ao próprio Guerreiro ou

Eu vou vencer minha batalha

republicano por dois militares alagoanos,

ao Mestre. Com isso o ufanismo toma con-

À vista de Santa Bárbara

recente ainda na época do surgimento do

ta do grupo e o sapateado se torna cada vez

Com o seu cálice na mão.

folguedo. O curioso é que o seu traje não

mais forte no palco de madeira, exigência do

é verde, conforme o do Exército brasileiro,

Mestre para conseguir fazê-lo ecoar. Existem

Boa-noite meus senhores,

mas branco, com patentes nos ombros e

nomes emblemáticos de mestras de Guerrei-

Boa-noite eu venho dar,

chapéu de dois bicos, semelhante ao usado

ro. Entre elas Maria Odilon, Joana Gajuru,

Que a Gajuru falada,

pelos almirantes do Fandango e da Che-

Zefa Bispo e Mestra Virgínia, que nos deixou

Chegou hoje no lugar.

gança.

esta peça primorosa de exaltação pessoal:

Pega a peça figurá

E do corisco e do trovão. Todos me prestem atenção

Da Mestra Gajuru temos também outro primor:

Eu sou a Mestra Virgínia

Verde, encarnado e azul,

do pela cadência do apito do Mestre, que

Eu sou a rainha do fogo

Guerreiro da Gajuru,

não larga o comando e cria uma série de

Eu sou a dona dos raios

Tá em primeiro lugar.

O tropel duplo é vigorosamente marca-

66 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Entremeios

O

s entremeios amplificam a graça e a

ção do Boi é de ripas e tecido, com uma aber-

vivacidade da brincadeira, dando mo-

tura logo abaixo da cabeça do animal, onde o

vimentação à apresentação cênica, trazendo o

condutor coloca o rosto. Dos chifres, verda-

tom jocoso que diverte o público. Geralmente

deiros, pendem fitas de cores berrantes que se

são os Mateus e os Palhaços que incorporam

misturam com flores e brilhos, dando à figura

os personagens, mas qualquer participante

uma monumentalidade plástica que lhe garan-

pode fazer o papel. Até mesmo o Mestre,

te o sucesso, principalmente entre a garotada,

como é o caso do Mestre André Joaquim, do

que pula e grita no seu entorno.

Guerreiro Padre Cícero, que se traveste de La

O Jaraguá é outra figura muito presente.

Ursa e assume a personagem com intimidade

Elemento fantástico do folclore brasileiro, ele

e talento.

é encontrado em várias regiões como parte

Na época do Carnaval, ele novamente

integrante do ciclo natalino e do Carnaval.

veste o disfarce e sai pelas ruas do seu bairro,

Trata-se de uma figura alongada, vestida de

o Tabuleiro do Martins, festejado por todos

chita estampada e com focinho pronunciado,

e correndo atrás da garotada. O Mestre traz

cuja mandíbula se movimenta, acompanhan-

no sangue a tradição familiar, brincando no

do o ritmo da música com o entrechoque dos

Guerreiro desde criança até chegar à condi-

dentes. Seu passo é miúdo, mas de quando em

ção atual, substituindo o Mestre Venâncio,

vez investe sobre o público causando corre-

que faleceu em 2008.

rias e risadas.

O entremeio do Boi é sempre muito esperado e o enredo se identifica com o do Reisado, culminando com a ressurreição do animal e o molejo dos movimentos que fazem dessa evolução o ponto alto do folguedo. A arma-

Índio Peri Mestra Vitória Guerreiro Leão Devorador Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 67


Despedida

O

grupo se perfila para a retirada de cena, com a empáfia do dever cum-

prido e a certeza de que deixa saudades. Dai-me licença, senhora, Que eu quero me alevantar. A Virgem da Conceição, Ela nos queira ajudar. Finda a brincadeira, como dizia o Mestre Jorge Ferreira, era “hora de forrar o estômago”. A mesa farta das casas-grandes estava posta. Diferentemente do que acontecia no meio rural, quando havia o envolvimento emocional de todos da comunidade, hoje a relação do grupo com o patrocinador é contratual e, na maioria das vezes, sujeita à burocracia do serviço público.

68 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Maria Flor - Rainha do Guerreiro

Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 69


CapĂ­tulo IV


Personagem Negra da Costa

Dizem que a inconstância tem o nome de mulher. (Não sabem da solidão que a vida da gente é.) (Maurício de Macedo)

72 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Negra da Costa

Traços da etnia O

s folguedos, as danças e tantas outras manifestações culturais são alguns nichos de

resistência da ancestralidade africana no Brasil. O sentido de pertencimento é transmitido, na maioria das vezes, através da religiosidade que permeia essas práticas e fortalece sua sobrevivência, apesar das inúmeras interferências, proibições e descaracterizações sofridas ao longo dos anos. Essa assimilação justifica a frequência, em terras brasileiras, de folguedos - a exemplo do Negra da Costa - que representam, por meio de diferentes metáforas, o universo quilombola, permanecendo na memória de seus descendentes.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 73


Na dinâmica da diáspora, que se estendeu

africano como seitas. Confundem-se ao ponto

Os negros tiveram no Ciclo do Natal e do

oficialmente do século XVI ao XIX, várias rotas

de desvincular a Negra da Costa e outras fol-

Carnaval ocasiões propícias às práticas sin-

do comércio de humanos foram traçadas para

ganças de origem afro das tradições de fé. É

créticas e os folguedos se prestaram a essa

dar vazão às demandas de trabalho no país. Um

notório que o sagrado e o profano caminham

equivalência, num tempo em que os brancos

grande contingente de povos bantus, trazidos

lado a lado nas civilizações e culturas. Vem exa-

opressores condenavam tanto a prática religiosa

da costa de Angola para o Nordeste, ocupou

tamente dessa aproximação a possibilidade de

quanto o culto à pátria distante. Essas implica-

o território e imprimiu sua marca na formação

que os ritos e as celebrações se ordenem em

ções permeiam o enredo dos folguedos que ,

social, demográfica e cultural da região.

festividades. No caso específico das religiões de

em determinados momentos, chegam a fundir

Os rituais de fé e as celebrações festivas

matriz africana, cuja prática era condenada no

a História de países de culturas e continentes

acentuaram a unidade entre os negros, que es-

Brasil, seus adeptos precisavam lançar mão do

diferentes.

palharam por toda parte suas insígnias sagradas

tênue limite entre o espiritual e o material para

e suas danças tradicionais, como meio de man-

louvar as suas entidades.

Hoje é difícil perceber os elementos fundadores dessas manifestações devido às mudanças

ter parte do ethos do continente de origem. Des-

e folclorização dos rituais. A própria distância da

sa maneira, as folganças, assim como as roupas

época da escravidão se encarrega de distorcer os

típicas, constituem elementos de revelação do

propósitos iniciais, confundindo ou mascaran-

respeito à tradição e à identidade arrancada e

do a sua trajetória.

reinventada em todo o território nacional.

Atualmente, seus participantes podem pro-

O folguedo Negra da Costa enquadra-se

fessar qualquer credo religioso e pessoas de

nesse movimento de reinvenção, constituindo

pele clara participam do auto transmutando-se

uma adaptação das danças afro, abrasileiradas

em negras. E o tom do folguedo passou a ser

e incluídas no ciclo de autos carnavalescos. O

jocoso, diferentemente do seu começo. Essas

próprio nome indica a procedência, que pode

mudanças foram implantadas, mas não apagam

ter sido da costa de Angola, da Guiné, mas,

os dogmas que deram origem ao auto. Elas ape-

sem dúvida, da costa da África, denominação

nas sinalizam os movimentos aos quais estão

genérica para definir os que chegaram com a

sujeitas as manifestações populares enquanto

dispersão.

parte de um contexto social em constante mo-

Alguns folcloristas enquadram, equivocadamente, as religiões procedentes do continente 74 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

dificação. Pai Velho Negra da Costa


O folguedo em Alagoas

P

rovavelmente pela escassez de grupos de

As informações dão conta de que em 1920 o

Negra da Costa no estado, os registros

grupo local já se apresentava nos carnavais. A

históricos sobre o tema são poucos. Na clas-

aceitação por parte da comunidade é grande ao

sificação de Théo Brandão ele é citado como

ponto de haver incentivo à sua prática e à cria-

Maracatu. Dos folcloristas locais, apenas José

ção de novos grupos nas escolas. Essa valoriza-

Maria Tenório Rocha e Pedro Teixeira de Vas-

ção possibilitou que o folguedo fosse incluído

concelos documentaram o folguedo, buscan-

como patrimônio cultural local. Enquanto na

do referências em poemas, crônicas e entrevis-

literatura o município carrega o trunfo de ter

tas da época. As poucas anotações dão conta

dado ao país um dos seus maiores escritores,

de que pelos idos de 1910 existiam grupos de

Graciliano Ramos, na cultura popular o orgu-

Negra da Costa em Santana do Ipanema e

lho fica por conta do seu rico folclore e nessa

Mata Grande, no Sertão alagoano, e que, na

área o Negra da Costa é o maior destaque.

década seguinte, a Negra da Costa de Palmei-

Com uma economia baseada na plantação

ra dos Índios puxava os blocos no reinado de

da cana-de-açúcar e na criação de gado, sua

Momo, trazendo animação para os foliões

toponímia procede do termo africano ocubongo-

com apresentações cheia de trejeitos e brinca-

lola, que significa coisa ajuntada, confederação,

volvimento mesmo depois de seu assassinato,

deiras. O grupo se extinguiu em 1931 com a

grupo de pessoas. No passado, foi palco da

em 1954. A outra figura é o mestre Zome -

morte de seu organizador e desde então não foi

formação de vários quilombos e de tiranos ca-

Manuel Soares de Melo -, babalorixá que, por

mais reativado. O grupo de Chã Preta também

pitães do mato.

ter sido proibido de frequentar a igreja pela sua

Negra da Costa Quebrangulo

No aspecto religioso duas figuras se desta-

condição de umbandista, construiu uma igreja

Localizada na Zona da Mata, Quebrangulo

cam. A primeira é o Beato Franciscano - Antô-

particular em louvor a São Sebastião, o santo

é a única cidade que mantém a folgança Ne-

nio Fernandes de Amorim -, que criou uma vila

de sua devoção, em frente ao seu Palácio Rei

gra da Costa em atividade até os dias atuais.

de orações que permaneceu em franco desen-

Balauê, e ele mesmo oficiava o culto.

foi registrado por Pedro Teixeira, em 1998.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 75


Personagens e trajes

O

s brincantes, homens travestidos de

Xangô, o azul para Iemanjá, o amarelo para

mulheres, são chamados de negras.

Oxum e assim por diante. Não existe regis-

Como o auto abriu espaço para os brancos,

tro deste folguedo entre os grupos do estado,

estes pintam o rosto, o colo e os braços com

mas as legítimas negras vindas da costa africa-

tinta preta, carvão vegetal ou pancake e trajam

na não dispensavam seus panos, muitas vezes

roupas como as baianas, com saias longas e

tecidos por elas próprias em teares manuais.

largas e blusas de babados fartos, tudo muito

Além das Negras, existe a figura do diri-

alvo e engomado. Turbante, colares, pulseiras

gente, que traja terno preto e quase sempre

e anéis completam os adereços. Nos lábios o

traz uma bolsa de mulher a tiracolo, e o ca-

batom vermelho em excesso reforça a carac-

sal de pretos velhos, chamados de Pai Velho

terização dos personagens.

e Mãe Velha, que simbolizam a sabedoria e

É evidente que no passado o Negra da

a ancestralidade. A Mãe veste-se de forma

Costa tratava-se de uma dança de mulheres

igual às demais negras, mas traz como distin-

negras que usavam o Pano da Costa como

tivo uma cesta de flores no braço. O Pai veste

complemento da indumentária. O Pano é

terno preto e camisa branca, barba e cabelos

uma espécie de xale de algodão, que a negra

brancos ou embranquecidos artificialmente.

usa sobre um ombro, cruzado na frente, como

Traz no canto da boca um cachimbo com que

fazem as baianas tradicionais. No aspecto re-

se delicia a cada baforada. Cabe a ele trazer

ligioso, representa a insígnia do orixá e varia

a Calunga, boneca de pano preto, vestida da

de cor conforme a entidade. O vermelho para

mesma forma que as Negras.

76 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Negra da Costa Quebrangulo

Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 77


O auto e a função A

Mandou me chamar! As Negras brincam sob o comando do dirigen-

informação sobre a forma como a folgan-

- Apanhar macaíba

te, que arrecada as espórtulas. No centro fica o ca-

ça se apresenta nos dias de hoje vem de

Pra vender!

sal de pretos velhos com a Calunga. Acalentam-na

Quebrangulo, uma vez que não se tem notícias da

Ô Negra da Costa

nos braços, sacodem para cima, dançam com ela e

existência deste folguedo fora do estado. Em janei-

Que andas fazendo?

divertem a plateia. Mas o tratamento jocoso dado

ro começam os ensaios e a preparação das roupas.

- Ando na rua

à boneca é fruto da folclorização por que passou

Durante o Carnaval o grupo puxa a orquestra e os

Comendo e bebendo!

o auto.

blocos, percorrendo o Centro e as principais ruas,

Ô Negra da Costa

Originalmente, a Calunga tinha a função re-

sendo ovacionado pelos moradores. Apesar de

Com balaio de flor!

ligiosa de fetiche de Iansã, orixá dos trovões, das

haver outros folguedos no município, a Negra da

- Ando na rua

tempestades e dos fenômenos da natureza. Com

Costa é sempre o mais esperado e aplaudido com

Dançando Xangô!

o tempo, perdeu a força da simbologia, manten-

o calor do pertencimento. A brincadeira é iniciada

Costumam incluir na brincadeira alguma mar-

com tradicional canto:

cha ou frevo de antigos carnavais, repetem cantos

Abra a roda, Yoyô

de outros folguedos, como no caso das peças do

Abra a roda, Yayá

Quilombo, ou aproveitam rimas de circos mam-

A Negra da Costa

bembes e cantos regionais. As peças de hoje são

Chegou pra brincar!

as mesmas que foram documentadas na década de

Trata-se de uma dança-cortejo em duas alas, que adquiriu sua tipicidade no Carnaval, mas que

1970 por José Maria Tenório Rocha, quebangulense que escreveu a história do município.

também se apresenta nas praças e nos palcos das

Ô raia o sol,

festas católicas, culturais e turísticas. Não tem en-

Suspende a lua,

redo, os brincantes dançam e cantam peças soltas

Negra da Costa

que têm como foco a vida da Negra, seu trabalho,

Que anda na rua!

sua alegria e ousadia.

Ô tuê, ô tuê,

Negra da Costa

Ô tuê, ô tuá,

Que vem ver?

Negra da Costa

78 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

do apenas resquícios longínquos dessa prática. O grupo faz referência a Santa Bárbara, que no sincretismo corresponde a Iansã. Durante as evoluções, as Negras se deitam no chão, em plena rua, formando um círculo com a boneca no meio. Essa formação reminiscente pode se reportar ao culto ancestral da fertilidade, mas os brincantes não têm convicção do que representam e, simplesmente, evocam Santa Bárbara. Ô lelê, minha Santa Bárbara, Ô lelê, minha Santa Bárbara, Ô lelê, minha Bárbara Santa, Ô lelê, minha Bárbara Santa. Negra da Costa Quebrangulo


Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 79


Quilombo

Origem discutida E

xistem discordâncias quanto à origem do folguedo e à sua denominação. Enquanto uns defendem a genuinida-

de alagoana, outros consideram o Auto do Quilombo idêntico ao Lambe-Sujo, de Sergipe, e ao Cacumbi, da região do Rio São Francisco. Os que apregoam a descendência alagoana referem-se a particularidades associadas a fatos históricos da República dos Palmares (1597-1694), mas a falta de registros efetivos polariza as opiniões. Um dos pontos de consenso é a certeza de que o folguedo começou nas senzalas, com ritmo e batuque africanos e cantos de repúdio ao branco, indo de encontro aos interesses do regime escravocrata vigente. Não resta dúvida de que, em sua forma primitiva, o Quilombo desagradou à ala conservadora da sociedade.

Quilombo Limoeiro de Anadia 80 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


As exibições públicas eram enquadradas nos

nos aglomerados escravos, não resta dúvida de

folguedo que leva esse nome.

códigos de postura municipal, que proibiam o

Se no rastro europeu as influências mais

que em algum momento seu final foi adulte-

ajuntamento de escravos para fins não religio-

fortes vieram das Mouriscadas e Danças de

rado. Mantida a formatação original, a vitória

sos. Entendendo-se que, àquela época, apenas

Pastoreio, na tradição africana os Congos e

seria incontestadamente do rei negro, contra-

o catolicismo era tido como religião. Fontes

Congadas definiram o timbre negro dessas

riando a história e idealizando uma “verdade”

indicam a proibição do folguedo em Marechal

manifestações que, no âmbito geral, todas elas

lendária.

Deodoro na primeira metade do século XIX,

procedentes de um continente ou do outro,

O que aconteceu foi uma reviravolta no en-

com prisão dos brincantes e multas para os se-

giram em torno do louvor a entidades sobre-

redo e os episódios reconceituados conforme

nhores proprietários que permitissem a repre-

naturais e feitos históricos cravados no incons-

a ótica da classe dominante. Exatamente por

sentação por parte de seus escravos.

ciente coletivo. Embora sejam culturas tão dís-

isso, alguns folcloristas resistem em incluí-lo na

Arthur Ramos foi dos primeiros a se pro-

pares, no universo popular elas se encontram e

classificação de folgança de descendência qui-

nunciar sobre a questão, no Folk-lore Negro do

se cruzam de tal forma que às vezes fica difícil

lombola, preferindo deixá-lo como um caso à

Brasil, reafirmando as convicções de Alfredo

separar uma da outra.

parte, considerando que a mudança de cunho

Brandão quanto à origem alagoana e diz tex-

No caso do Quilombo, tem-se como certo

conceitual afetou a linhagem do auto na sua

tualmente: “um auto de sobrevivência históri-

se tratar de um folguedo de raiz africana, cujas

essência. Por todos esses vieses, tem sido difí-

ca, não da África, mas da própria história dos

incursões portuguesas foram chegando à me-

cil registrar o folguedo oficialmente como uma

negros no Brasil”. Abelardo Duarte engrossa

dida que os grupos abriram espaços (ou foram

dramaturgia histórica da República dos Palma-

esta fileira, lembrando a questão negra que a

obrigados a abrir) para brancos e caboclos e

res.

História oficial documenta, tanto em relação

saíram das senzalas para as exibições públicas

aos brancos quanto aos índios por eles coman-

como parte dos folguedos natalinos.

Em Alagoas, o Quilombo de Limoeiro de Anadia vem de uma tradição secular, manten-

dados, que exterminavam os acampamentos

Presume-se ser dessa época a intervenção

do a formação do grupo conforme a orienta-

quilombolas e puniam os escravos fugitivos.

erudita de que falaram Théo Brandão e Dirceu

ção do Mestre e de seus figurantes mais antigos.

Lembra também o universo lendário que se

Lindoso, considerando que o enredo do fol-

É considerado pelos locais como uma porção

formou em torno do Quilombo dos Palmares,

guedo tenha sido subvertido no seu episódio

importante da cultura do município, devido à

envolvendo raptos de moças brancas, filhas de

final em favor do interesse dos brancos, senho-

fidelidade com que a folgança se apresenta nas

senhores poderosos e outras façanhas imaginá-

res de escravos.

festas, fazendo parte da memória afetiva da co-

rias, facilmente identificadas nos episódios do

Em se tratando de um folguedo originado

munidade.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 81


Personagens e trajes O

s Quilombos mais antigos tinham uma formação muito simples e os

trajes acompanhavam essa simplicidade. Com o reconhecimento oficial do folguedo como Auto Natalino, atraindo a aceitação pública da classe social mais abastada, os trajes passaram a ser mais elaborados, inspirados no figurino do Reisado. Os negros trocaram a mescla azul pela seda brilhosa e adotaram chapéus ornamentados com fitas multicoloridas. Os brancos passaram a pintar o corpo de preto para melhor caracterizar os personagens e armaram-se de foices de madeira. O grupo de índios caprichou nos cocares emplumados, nos braceletes e perneiras. Começaram a usar a tinta de tonalidade ocre na pintura corporal e chegaram armados de arco e flechas. Assim se mantêm nos grupos atuais.

Rei de Quilombo Limoeiro de Anadia 82 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O Rei dos negros e o dos caboclos-índios trajam indumentária semelhante às figuras reais do Reisado, trazendo um parapeito de espelhos que lhes acentua a importância. Os espelhinhos, com aproximadamente 4 centímetros de diâmetro, encontrados nas feiras públicas, ainda hoje são muito usados. Os Reis empunham garbosamente espadas da antiga Guarda Nacional. Na falta destas, fazem outras de madeira e pintam a parte da lâmina de prateado ou de dourado. Uma mulher de pele clara que personaliza a Rainha veste túnica branca, com o parapeito semelhante ao dos Reis, manto decorado e diadema ou coroa na cabeça. Em muitos Quilombos esta é a única figura feminina. Existe a Catirina, do lado dos escravos, que é um homem travestido de mulher, que aparece com frequência em outros folguedos de predominância negra. Cada ala tem o seu vigia, que no caso dos caboclos-índios é chamado de Espia. Ainda tem o Pai Velho, negro ou com o corpo pintado, barba branca, chapéu de palha. Encarna a experiência, a sabedoria e detém o respeito de todos. Rei de Quilombo Limoeiro de Anadia

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 83


84 | Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente


O auto e sua função O

Quilombo dramatiza a luta dos ne-

No início, os negros simulam roubar obje-

gros fugitivos na defesa dos seus

tos de pessoas do lugar, como símbolo de con-

acampamentos do ataque dos algozes bran-

quista da liberdade, e ficam com essas peças

cos e caboclos-índios comandados pelos se-

sob sua guarda enquanto dançam em ritmo de

nhores de engenho e seus capitães do mato.

samba. O ato é combinado entre os brincan-

Desde que o folguedo passou a ser aceito

tes e os donos dos objetos, uma vez que no

pela classe dominante, as apresentações ga-

passado houve muitos problemas porque as

nharam uma cenografia elaborada, incluindo

peças eram surrupiadas sem que os proprietá-

a instalação de um barracão, ou mocambo,

rios soubessem, causando desavenças que, por

para os negros e, a certa distância, uma palho-

vezes, eram decididas na delegacia.

ça para os caboclos-índios, ambas camufladas

No desenrolar do auto, os negros roubam

com folhagem para dar a impressão de esta-

a Rainha branca para casar com o Rei negro,

rem escondidas dos adversários.

em meio a muito batuque e festejo. Mas os

Tudo começava na véspera, quando os

caboclos, espertamente, montam uma arma-

brincantes se instalavam e faziam o reconhe-

dilha. Sabendo do quanto os negros gostam

cimento dos seus domínios. O batuque varava

de cachaça, deixam algumas garrafas perto do

a noite, com direito a paneladas de carne gui-

mocambo ao alcance de suas vistas. Logo eles

sada e cachaça divididas entre os participantes

as encontram e, embriagados e tomados pela

dos dois acampamentos. No dia seguinte a

orgia, se tornam presas fáceis. Os caboclos-

brincadeira ganhava plateia.

-índios invadem o mocambo, aprisionam os negros, retomam os objetos e os devolvem aos

Evolução de Quilombo Limoeiro de Anadia

seus donos, que os recompensam com gorjetas.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 85


O sentido simbólico das prendas se concretiza entre a conquista e a perda da liberdade por parte dos escravos. Exatamente o que acontecia com os históricos quilombolas, quando eram dominados e aprisionados, voltando acorrentados e violentamente surrados para as senzalas. Das mais tradicionais peças deste episódio destaca-se o canto de afugentar os brancos: Folga negro, Branco não vem cá. Se vier, Pau há de levar. Folga negro, Branco não vem cá. Se vier, O diabo há de levar. No contraponto, os índios dançam o Toré em círculo e cantam ritmadamente: Dá-lhe Toré, Dá-lhe Toré, Faca de ponta, Não mata mulher. Outros cantos endossam a brincadeira, que culmina com o rapto da Rainha dos negros pelos caboclos, fato que motiva a simulação Figuras de Quilombo Limoeiro de Anadia 86 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

de mais luta pela sua captura. Depois da parte dos vigias de ambos os lados, anunciando a


aproximação do inimigo, a luta é travada e os negros são aprisionados e vendidos à plateia, que os recompensa com espórtulas. Todo o enredo é uma mistura da história da escravidão enxertada com episódios lendários, como o amor entre o Rei negro e a Rainha branca. Exatamente por se tratar de uma manifestação popular, é legítima a reinterpretação dos fatos históricos, mesclados de oralidade e romantização. No final, como aconteceu no Quilombo dos Palmares, os negros são subjugados pela força dos dominadores e o mocambo é destruído. O Rei é dominado e morto em combate, contrariando a expectativa de um folguedo de origem e resistência negra. Com os vieses criativos e, por vezes, impostos, de que se revestem as manifestações populares, é de se crer que a tragédia do reduto palmarino fosse recolocada de tal forma que favorecesse os negros. A fidelidade à História oficial, com a derrota dos escravos, é um indício de que houve uma intervenção do elemento branco na concepção do auto. Além da morte do Rei, os negros são humilhados e vendidos, terminando a apresentação com a consagração da vitória cabocla que, simbolicamente, é a vitória do branco dominador. O desfecho, em regra, não agrada à plateia, que se sente agredida em seus brios. Além disso, os fatos, da forma como são enredados, normalmente causam um certo estranhamento entre as duas alas, cuja competição é levada para a vida na comunidade.

Figura de Quilombo Limoeiro de Anadia Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 87


CapĂ­tulo V


Mestre Rosevaldo Chegança de Penedo

Canoeiro, canoeiro, a memória já definha vencida pelo cansaço. Existem mais léguas no tempo do que existem no espaço. (Maurício de Macedo)

90 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Chegança

A Chegança dos Mouros O

s folguedos mais antigos, a exemplo do Auto da Chegança, não

dispõem de informações precisas sobre quando e onde foram formados os primeiros grupos. Os registros existentes são vagos. Sabe-se apenas que surgiam e se modificavam de acordo com características específicas de cada região. Nesse processo de assimilação e mudança, contabilizamos versões tão variadas entre si que muitas chegam a parecer folguedos diferentes. Apenas um estudo comparativo, aprofundado entre os elementos essenciais, poderia identificar as semelhanças entre as versões.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 91


No caso da Chegança, o que se tem como

O Auto da Chegança, ou Chegança dos

ginação dos intelectuais espanhóis e portu-

certo é a sua origem ibérica, conhecida tanto

Mouros, é um deles. Derivado da Mouriscada

gueses. Em se tratando de países católicos,

na Espanha quanto em Portugal. Também é

e de danças europeias que tratam do mesmo

suas memórias estão ainda mais impregna-

voz corrente que chegou ao Brasil entre as le-

tema, o folguedo é uma versão brasileira das

das dessas disputas com povos pagãos e das

vas de influências, costumes e culto à história

lutas religiosas entre cristãos e mouros.

relações entre os poderes constituídos.

lusa. Faz parte do repertório de manifestações

A justificativa para o fascínio em torno

Nesse aspecto, o Auto da Chegança está

procedentes do domínio mouro na Península

desse episódio pode ser compreendida pelo

entre as manifestações que estimulam o

Ibérica, que de lá se expandiu para as colônias

fato de que a influência árabe na Europa,

sentimento de amor à terra, de reconheci-

dominadas pelos dois países. É provável, ain-

e

particularmente na Península Ibérica,

mento pelos feitos históricos, e a defesa da

da, que tenha chegado ao Brasil no início do

estendeu-se além da economia e das ques-

fé. Foi com essas características que a mani-

século XIX com a corte de dom João VI, mas

tões religiosas. Chegou à filosofia, às artes e

festação chegou e se estabeleceu no Brasil.

foi, com certeza, depois da mudança do regi-

ao pensamento estético. Na própria arqui-

O enredo foi preservado e os acréscimos

me político, do Império para a República, em

tetura, enquanto narrativa de um tempo, a

só vieram reforçar o tema, com a particula-

1889, que o auto atingiu a maioridade.

marca está registrada nas cúpulas bulbosas,

ridade de fundir os feitos portugueses com

É comum nos folguedos uma recorrência

nas colunas retorcidas, nos arcos em forma

símbolos e fatos nacionais.

a fatos remotos que entraram no universo dos

de ferradura, nos animais fantásticos, nos

Nas Cheganças mais recentes, o “adeus

artistas populares e se misturaram a outros

rendilhados de pedra e nas barras de azu-

Portugal”, do primeiro verso, é substituído

temas, compondo uma nova história, repleta

lejos que permanecem nas construções das

por “adeus Alagoas”, embora o tema seja

de múltiplas interferências. Nessa dinâmica

cidades antigas.

a luta contra os mouros. A Chegança Sil-

construtiva, um tema que caiu no agrado e ad-

Nas artes decorativas também é grande a

va Jardim, do município de Coqueiro Seco,

quiriu diferentes versões na interpretação po-

relação dos motivos que permanecem vivos

promove essa curiosa mistura que deixa a

pular é exatamente a invasão moura na Penín-

na cultura desses povos. Tapetes, louças, ce-

brincadeira ainda mais interessante. No

sula. Fato ocorrido nos idos da Idade Média,

râmicas, variados esmaltes, sedas, brocados

desenrolar das jornadas de luta contra os

trouxe para o imaginário local uma riqueza de

e lavores de couro comprovam a vitalidade

mouros, os marujos cantam a peça Nossa

motivos e de personagens que ainda povoam

da influência muçulmana, sem falar nos vo-

Esquadra Brasileira como se fosse a Mari-

as manifestações tradicionais portuguesas e

cábulos, nos contos e em todos os gêneros

nha do Brasil entrando em ação.

espanholas.

de literatura que ainda hoje habitam a ima-

92 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Os fatos do passado, distantes da reali-


dade dos brincantes, terminam recebendo novas interpretações, associadas ao mundo conhecido por eles. Ainda assim, a sequência é mantida sem perder a força temática. É exatamente neste ponto que a Chegança difere do Fandango. Nós devemos dar o Viva!, Nossa Esquadra Brasileira, (bis) Sai afora, artilharia, Faça fogo, artilheiro. (bis) No Nordeste o folguedo foi amplamente assimilado, com formação de grupos em praticamente todos os estados, nas cidades ou povoados que se desenvolvem à margem das águas, doces ou salgadas, devido à identificação com a temática da conquista.

Chagança Silva Jardim Coqueiro Seco Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 93


Os grupos locais

Penedo, Coqueiro Seco, Rio Largo

P

enedo, principal cidade do Baixo São

Rua da Santa Cruz em direção à praça da

talino, voltam às ruas nas comemorações

Francisco, sempre teve a Chegança

igreja, entoando a marcha do Alerta. Não

alusivas ao Bom Jesus dos Navegantes,

organizada por distritos. Antônio Osmar

faltava a saudação a Nossa Senhora do Ro-

que acontece nas cidades ribeirinhas nos

Gomes, em seu livro A Chegança, cita o

sário, padroeira da cidade, que aguardava

domingos de janeiro. Muitos eventos são

grupo do Barro Vermelho e o do Outeiro,

em um andor iluminado, na porta princi-

programados com manifestações popula-

ambos bairros de pescadores e lavadeiras

pal da catedral, para abençoar o grupo. O

res que culminam com a procissão pelo rio,

que têm o rio como ícone da comunida-

Menino Jesus na lapinha da mesma igreja

seguida do cortejo pelas ruas, conduzindo

de. Conta o escritor, no livro de 1941, que

era ovacionado. Todos se entusiasmavam

a imagem em meio à grande festa de fé e

a Chegança sofreu prescrições religiosas e

cantando as peças laudatórias. Em seguida

tradições culturais.

policiais devido à presença do Piloto-Cape-

a imagem voltava a ser entronada no altar e

No repertório das odisseias em louvor

lão, cuja representação cômica gerou insa-

a Chegança seguia para o local da apresen-

ao Bom Jesus, que se estendem aos outros

tisfação entre os católicos. Alguns achavam

tação, acompanhada por muita gente.

estados banhados pelo Velho Chico, uma

desrespeitosa a presença do figurante ves-

Os fiéis levavam a imagem para o lado

tido de padre, por isso o grupo só brincava

de fora porque era, na concepção da épo-

com a autorização da polícia.

ca, desrespeitoso os brincantes adentrarem

Vamos, maninha vamos,

Outra Chegança que marcou presença

a igreja com a indumentária típica dos fol-

À praia passear,

na região ribeirinha foi a comandada pela

guedos. Até certo ponto o hábito perma-

Vamos ver a barca nova,

tradicional família penedense Fausto, em

nece. A diferença é que nos dias atuais os

Que do céu, caiu no mar.

atividade até meados do século passado. A

figurantes masculinos apenas retiram os

Nossa Senhora dentro,

função do Almirante era hereditária, pas-

chapéus em sinal de respeito.

Os anjinhos a remar,

sando para as gerações mais novas a espada

As Cheganças do Baixo São Francisco,

de comando. O grupo saía de sua sede na

além de se apresentarem no período na-

94 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

das quadras mais típicas da Chegança é esta:

São José por piloto, Bom Jesus a navegar!


Cheganรงa de Penedo

Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 95


Entre as peças do Mestre Rosivaldo Jor-

dos Santos, sempre no posto de Capitão-de-

dão, que comanda a Chegança de Penedo

-Mar-e-Guerra, que figura entre as personali-

desde o final do século passado, destaque para

dades mais festejadas do município e, embora

o pedido de licença que é cantado pelos com-

não tenha mais forças para dançar, está sem-

ponentes perfilados, prestando continência ao

pre disponível para orientar os jovens que dão

Almirante.

continuidade à tradição da Chegança Cruza-

Licença, meu Almirante (bis)

dor São Paulo. Mestre Juvêncio foi o primeiro

Licença eu venho pedir (bis)

vice-presidente da Asfopal (Associação dos

Para saltarmos em terra (bis)

Folguedos Populares de Alagoas), criada por

Para conhecer o Brasil (bis)

Ranilson França e Josefina Novaes, em 1985.

O Almirante responde:

Ai! Adeus que eu já me vou.

Eu vou lhes dar a licença (bis)

Belas meninas,

Desta embarcação para a terra (bis)

O São Paulo já largou.

Se me chegar algumas queixas (bis)

Elas choravam, se maldiziam

Mando-lhes jogar nos ferros! (bis)

Silenciosas.

Em outros pontos do estado também en-

Adeus, até um dia!

contramos Cheganças emblemáticas, como a Silva Jardim, da cidade de Coqueiro Seco, da Mestra-Almirante Maria Luzia Simões, que, com idade avançada, prepara os mais jovens para dar continuidade à brincadeira. Na esquadra do Silva Jardim, Tem mais de mil marinheiros, Tem toda munição de guerra, Tanto no mar como em terra, Somos heróis e guerreiros.

Rio Largo tem o decano Juvêncio Joaquim 96 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Mestre Rosivaldo Chegança de Penedo


Personagens e trajes O

s brincantes trajam uniformes da

rio e os Gajeiros subiam realmente no mas-

Marinha Brasileira de acordo com as

tro e muitos de lá se jogavam em espetacular

funções que exercem, portando as patentes

mergulho que arrancava aplausos efusivos da

referentes aos postos. O Almirante é quem

assistência. Esses saltos foram suspensos de-

comanda a frota. A ele todos prestam conti-

vido ao risco de acidentes. Ainda no elenco, o

nência em respeito à sua posição hierárquica.

Embaixador e o Rei Mouro, que só aparecem

Em seguida, por ordem de importância na

nas últimas jornadas em trajes caricaturados

frota, vêm o Capitão-de-Mar-e-Guerra, Mes-

da nobreza real.

tre-Piloto e Mestre-Patrão. O Padre-Capelão e

Todos portam espadas, com exceção dos

o Doutor-Cirurgião vestem-se de acordo com

Marujos, que são os mais novos e aprendizes

seus papéis. Depois, a fileira de oficiais, com

na brincadeira. Com as armas empunhadas e

farda azul-marinho, quepe branco e muito

porte empavonado fazem alegorias, represen-

garbo. Os Marujos são os últimos, com traje

tam combates e buscam demonstrar habilida-

branco de marinheiros. Entre eles, o Ração, ou

de no manejo com a arma, que na representa-

Despenseiro, que cumpre o importante papel

ção do folguedo é o símbolo maior de poder.

de guardar os alimentos. Há ainda dois Gajei-

Chegança Silva Jardim Coqueiro Seco

ros, que sobem no mastro para dar sinal de terra à vista. Eles olham ao longe, para a linha do horizonte, na ponta do barco ou palanque, simulando que estão no alto do mastro. Antigamente, nas Cheganças do São Francisco, o barco era montado na beira do Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 97


O auto e a função

P

ara melhor entendimento, o auto foi dividi-

Natal e a Virgem do Rosário. A maioria dos gru-

do em Chegança dos Mouros e Chegança

pos de Alagoas começa com a tradicional peça:

com o batismo oficializado pelo Padre-Capelão: Eu vós batizo, mouros,

dos Marujos, ou Fandango. Isso porque existe

Alerta, alerta quem dorme,

Mouros infiéis pagãos,

uma pequena diferença entre uma Chegança e

Olha a moça na janela,

E depois de batizados,

a outra no que diz respeito à lógica do enredo,

Venha ver a nau Tirana,

De mouros sereis cristãos!

mas os personagens, o ritmo e as evoluções são

Quando vai largando a vela!

praticamente iguais.

Ó, meu Deus, que terra é aquela,

No caso da Chegança dos Mouros, ou sim-

Despedida

Terra de tanta alegria!

plesmente Chegança, existe um enredo sequen-

- É o campo do Rosário,

ciado e longo que fala da luta entre cristãos e

Onde festejam Maria!

são comemoradas com a cruz de Cristo, levan-

mouros travada em alto-mar. Os pagãos querem

Os episódios se sucedem ao ritmo dolente da

tada pelo Padre-Capelão. E com a alegria da es-

conquistar novas terras, expandir seus domínios

música. As ordens do Almirante, as louvações à

quadra os brincantes garbosamente se despedem

pelo Ocidente e os cristãos impedem o desem-

Nossa Senhora, ao Bom Jesus dos Navegantes

com as marchas da partida. Uma das mais tradi-

barque do inimigo.

e ao Menino Jesus, ao mesmo tempo em que

cionais, registrada por Théo Brandão, é esta:

A rendição do Rei e a vitória da esquadra lusa

Começa o auto com a chegada do grupo ao

preparam a nau para a partida. As peripécias

Adeus, adeus Alagoas,

palanque, que na maioria das vezes tem a forma

em alto-mar: bebedeira do Piloto, brigas entre

Saudades eu vou levar,

de um barco. Quando isso não acontece, eles le-

a tripulação, confusões do Padre-Capelão e do

Da nossa pátria querida,

vam nas mãos uma miniatura conduzida por um

Doutor-Cirurgião. Por fim, a presença do inimi-

De nossa terra natal.

dos Marujos que segue na frente.

go, representado por três mouros que chegam

Vamos marchar para a guerra,

Ao longe já vêm cantando, perfilados em duas

ao barco, tentando convencer o Almirante a se

E ver o mar de Lisboa,

alas, com o Almirante à frente empunhando a es-

render ao Rei dos mouros. Como não há acordo,

Adeus, adeus Alagoas,

pada, seguido de seus auxiliares diretos e da ma-

acontece a guerra e depois de muitas embaixadas

Até quando eu voltar!

rujada. Na marcha entoam cantos, anunciando a

e lutas com espadas, os cristãos saem vitoriosos e

passagem e convidando a todos para louvarem o

os pagãos, vencidos e convertidos ao catolicismo

98 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Fandango Outras façanhas no mar

I

nspirado nas lutas náuticas medievais, o Fandango também é conhe-

cido por Marujada, Nau Catarineta ou Chegança de Marujos. Pode ser considerado uma versão da Chegança propriamente dita, devido à semelhança que existe entre eles, mas como não desenvolve o enredo da batalha entre cristão e mouros com os episódios historiados, os estudiosos classificaram-no como mais um Auto Natalino, embora todos reconheçam a sua filiação da Chegança.

Mestre Isaldino Fandango do Pontal da Barra Maceió

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 99


No Sul do país existe uma dança de origem flamenga chamada Fandango, que no passado foi proibida por ser considerada de hereges. Hoje faz parte do folclore riograndense. Explora o sapateado e pertence a outra classificação, não tendo similaridade com o Auto do Fandango dançado nas áreas costeiras do Norte e Nordeste. Alagoas é um estado que traz na própria toponímia a riqueza de sua hidrografia. Cercado de mar, rios e lagoas, tem sua cultura atrelada à geografia. O modo de vida, a alimentação, a atividade pesqueira, a arte das rendas, tudo se reporta à vida nas margens, convivendo com lendas, crenças e todo o vocabulário impregnado da sabedoria popular de quem aprendeu, desde cedo, a viver das benesses das águas. Com tais condições, os folguedos que contemplam enredos náuticos são muito bem aceitos e acrescidos de características locais, devido à naturalidade com que os partícipes lidam com o tema. Os grupos são organizados nos bairros ribeirinhos e, somados, o entusiasmo e o sentimento de pertencimento dos brincantes resultam da convivência diária com os movimentos de chegada e de saída das embarcações no porto e do hábito com a paisagem. Essas características fazem da Chegança e do Fandango folguedos muito apreciados e sempre presentes nas festas religiosas.

100 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Fandango do Pontal da Barra Laguna Mundaú Maceió

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 101


Os grupos locais A

lguns grupos já se incorporaram às tradições do bairro, e por esse motivo são mantidos pelos mais

velhos que brincam desde jovens. O Fandango do Pontal da Barra, em Maceió, é um desses. Vem de um tempo que a própria comunidade não sabe precisar. As informações prestadas pelos mais antigos dão conta de um provável início na década de 1930. O almirantado é posto hereditário que passa de pai para filho na família Costa. Dos ancestrais para o Mestre Abinadab, depois para seu filho Isaltino e, agora, para Fernando. São 36 componentes, entre homens e mulheres. Quase todos estão ligados por laços afetivos, de parentesco ou de vizinhança, o que fortalece a legitimidade do auto. Os ensaios acontecem na sede da Colônia de Pescadores do Pontal, ponto central, cujo grande salão atende a vários eventos. No bairro, os homens pescam e as mulheres fazem rendas, principalmente o filé, tradicional da comunidade. O próprio ambiente do lugar, à margem da Laguna Manguaba, é propício à prática do auto, pois detém os resquícios da influência lusa na atividade artesanal, na culinária, nas devoções, nas danças e nas músicas.

102 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Fandango do Pontal da Barra Museu Théo Brandão Maceió

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 103


O auto e sua função M

antendo a mesma formação da Chegan-

Almirante - O navio vai embora (bis)

com a insistência do Contramestre em mandar

ça, o grupo entoa peças do cancioneiro

Coro - Vou embarcar (bis)

o Gajeiro subir ao topo do mastro, mesmo este

popular que fazem parte dos antigos folguedos

Almirante - Eu já vou para o mar (bis)

prenunciando o risco que está correndo em alta

portugueses, das xácaras, das ladainhas, das lendas.

Coro - Vou embarcar (bis)

tempestade. No desespero em ferrar as velas, o

Essas canções anônimas, que passam oralmente

superior não o escuta e, cumprindo ordens, o Ga-

para os mais jovens, são levadas para o Auto do

A banda musical é formada principalmente por

jeiro se arrisca. Sobe no mastro e simula cair no

Fandango juntamente com os cânticos de marinha.

instrumentos de corda e a dança tem passos curtos

mar entre gracejos e desespero. Confirmada a sua

São peças soltas que falam da vida no mar, do amor

e lentos com movimentos de corpo que lembram o

morte, o Piloto-Capelão faz a encomendação da

de marujo, dos grandes descobrimentos marítimos,

embalo das águas. A cadência dolente configura a

alma em um latim truncado que provoca risos a

da saudade da terra natal, da partida. Enfatizam

representação de um folguedo de identidade aquáti-

quem assiste.

também contrabandos, intrigas entre os seus tripu-

ca. Tudo converge para o tema.

lantes. Não faltam louvações ao Deus Menino e aos

Assume o posto o Segundo Gajeiro, que, com

No desenrolar da função o ponto dramático é a

mais sorte, sobe no mastro e logo anuncia “terras

falta de alimento anunciada pelo Marinheiro Ração.

de Espanha e areias de Portugal!”. É a redenção

Brada o Almirante em alto e bom som, repre-

A representação do desespero da tripulação é ex-

dos tripulantes. E nesse clima, cantam a volta à

sentando a hora do embarque, para dar início à

pressa com a sugestão do Contramestre de sortear

terra natal e a alegria de pisar em solo firme.

brincadeira:

um Marujo para ser sacrificado e servir de alimento

O episódio é uma versão da Nau Catarineta,

para os demais. A barbárie só não ocorre porque

poetizada por Almeida Garret no século XIX e

Arretirar é preciso

o Almirante intervém, categórico, condenando a

reproduzida nas mais diversas versões, em corren-

Se houve alguma falta

sugestão, ao mesmo tempo em que insiste com os

tes eruditas e populares. Na tradição portuguesa

Pedimos perdão por isso.

Gajeiros para que subam alto no mastro e tentem

a nau conduziu Jorge de Albuquerque Coelho,

Almirante - Ai! Meu Deus, vou-me embora! (bis)

ver “terras de Espanha e areias de Portugal.”. De-

em 1565, de Olinda a Portugal e grandes foram

Coro - Vou embarcar (bis)

pois de algumas tentativas, finalmente o grito de

os percalços na travessia do Atlântico. O drama,

Almirante - Deixa logo a ração (bis)

terra à vista e a alegria geral.

partido e recortado pela sabedoria popular, ainda

santos da devoção local.

Todos - Adeus santos que nos amam

Coro - Vou embarcar (bis)

Em alguns Fandangos o drama se desenrola

104 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

hoje é entoado nos Fandangos alagoanos.


Em primeiro plano: Mestra Eronildes Soares dos Santos Cheganรงa Silva Jardim Coqueiro Seco

Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 105


CapĂ­tulo VI


Mestra Ana Samba-de-Matuto Renascer Ilha de Santa Rita Marechal Deodoro

Diversa ĂŠ a cor da pele - terra de tanta mistura. A todos faz camaradas a risada mais pura. (MaurĂ­cio de Macedo)

108 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Samba-de-Matuto

As faces múltiplas do samba D

esde o seu surgimento o Samba fascina e desafia gerações de estudiosos,

que se debruçam sobre a diversidade de suas características rítmicas e as múltiplas ramificações surgidas até se transformar no que vemos hoje: um gênero musical fortemente marcado por elementos afro-brasileiros. De origem angolana, começou como dança. Os registros dão conta de que chegou ao Brasil trazido pelos negros escravizados. Em dias e noites de festas, religiosas ou profanas, eles exaltavam sua crença e reafirmavam seus costumes ao som do lundu - ritmo marcado pela fusão entre o batuque e a dança. O aspecto sensual dos movimentos, com requebros de quadris e umbigadas, era considerado lascivo e imoral.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 109


Apesar da repressão, promovida notada-

as festas católicas, como meio de afirmação e

mente pela Igreja Católica, tinha início ali uma

sobrevivência cultural, da mesma forma que

cadência sem volta: o samba caiu no gosto po-

os escravos estabeleceram a equivalência en-

pular e firmou-se como um gênero predomi-

tre os seus orixás e os santos de seus senho-

nante no país: saiu da senzala para os terreiros

res. Era a maneira possível de professar a fé

e de lá para as ruas. Integrado ao sincretismo

sem proibições.

afro e às variantes regionais, o termo, derivado

O fato é que o Samba, nas suas variadas

do vocábulo angolano semba (umbigada), so-

formas, é uma das manifestações populares

freu incorporações distintas.

que mais contribuíram com a formação “do

Entre as inúmeras variantes, além do Sam-

mito das três raças” de que fala o antropó-

ba-de-Matuto, temos Samba de Umbigada,

logo Roberto da Matta, sintetizando a sólida

Samba de Roda, Samba de Gafieira, Samba

imagem compartilhada entre brancos, negros

de Enredo, Samba de Terreiro, Samba de Ba-

e índios que deu origem à cultura brasileira.

tuque, Samba de Breque, Samba de Partido-Alto, Samba de Morro e tantos outros que se multiplicam em ritmo sincopado no batuque dos tambores, atabaques e cuícas. Nessa diversidade há algumas confluências que remetem a uma origem comum, herança das tradições musicais africanas transportadas para a América. A grande aceitação da dança e da música no país atesta sua força como elemento simbólico, capaz de adaptar-se a contextos diversos. No processo de sincretismo, o Samba-de-Matuto está entre as variantes dos festejos das senzalas que, posteriormente, migraram para

110 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Samba-de-Matuto Ilha de Santa Rita Marechal Deodoro


A folgança em Alagoas

N

a região dos engenhos o Samba-de-

O Samba Leão da Primavera, do Mestre Se-

Um dos fatores que concorrem para que haja

-Matuto ganhou forma e, sobretudo

bastião Amaro, de Maragogi, continua em plena

essa permanência é a liderança da Mestra e a

em Viçosa, Capela, União dos Palmares e vi-

atividade, com a tradicional formação das figu-

amizade fraternal entre as componentes do gru-

zinhança, teve grande aceitação, sendo levado

rantes em duas alas e o Mestre no centro, puxan-

po, formado por nativas ou integrantes com la-

para os salões das casas-grandes como dança de

do o canto e marcando as evoluções. Na Massa-

ços de parentesco na Ilha de Santa Rita, comple-

casais.

gueira, distrito de Marechal Deodoro, a Mestra

xo lagunar onde está inserida a comunidade de

No Litoral Norte o folguedo seguia o mode-

Ana Souza da Silva comanda o grupo Renascer.

Massagueira. Juntas, batendo papo na margem

lo pernambucano, valorizando a raiz afro com

O nome revela a inconstância da brincadeira,

da lagoa, bordam seus vestidos e chapéus, fazem

a participação ativa dos terreiros de candomblé,

que fora desativada algumas vezes ao longo do

os colares, brincos e adereços que acompanham

local onde o Mestre, ou a Mestra, acendia velas

tempo, embora ninguém saiba calcular exata-

a indumentária. Enquanto conversam, tecem

aos orixás, fazendo da folgança uma oferenda.

mente quando começou. O que se sabe é que a

lembranças e planejam novas apresentações.

Nas primeiras décadas do século passado, os

função foi reatada há uns dez anos pela Mestra

carnavais de São Miguel dos Milagres, Passo de

Ana e que o grupo se mantém articulado sem

Camaragibe e Porto de Pedras eram animados

sofrer interrupção.

Samba-de-Matuto Ilha de Santa Rita Marechal Deodoro

pelos grupos de Samba-de-Matuto com figurantes de ambos os sexos. Na década de 1970 a concentração continuava nos municípios do Norte e do Litoral. São Luiz do Quitunde, Porto Calvo, Murici, Japaratinga, Maragogi, Maceió e Marechal Deodoro completavam o circuito do Samba. São localidades onde a tradição ainda se mantém viva com intervalos de arrefecimento e reativação, permanecendo latente na lembrança dos moradores como parte importante dos festejos locais. Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 111


Personagens e Trajes

O

s trajes dos brincantes apresentam

Entre os atributos, o Mestre precisa ter

ras femininas, sendo uma de verde no meio,

algumas variações de grupo para

uma boa voz para levar o ritmo com a tona-

fazendo as vezes de Diana, ladeada por uma

grupo, mas o básico é uma saia larga, de cós

lidade adequada, fôlego para cantar durante

figurante de azul claro e outra de rosa, tendo

franzido, que realça o movimento das evolu-

horas e rapidez de improvisador. Posiciona-

nas extremidades a Mestra e a Contramestra,

ções. Não há regra rígida. Alguns optam pelas

do no centro, veste camisa de chita ou roupa

seguidas das demais figurantes.

cores azul e encarnado e outros pelas saias de

comum, totalmente descompromissado com

Não existe no Samba-de-Matuto uma va-

chita estampada, fartas em babados, blusas

a indumentária do grupo. Quando o samba é

riedade de personagens, porque não se trata

brancas com frisos e detalhes do mesmo te-

puxado por uma Mestra, ela também vem a

de uma folgança dramática que exija um figu-

cido das saias. Na cabeça, chapéus, diademas,

caráter, com roupa semelhante à das sambis-

rino elaborado para compor um determinado

torços ou flores.

tas. Alguns Sambas têm no centro três figu-

enredo.

112 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O Auto e a Função E

ntre dança e folgança, o Samba-de-Matuto mantém uma estrutura sim-

ples, que denota fidelidade às circunstância originais, época em que o batuque ressoava nas senzalas e nos terreiros. Sua formação básica preserva as duas alas de figurantes, que dançam e evoluem conforme a música e os cantos entoados pelo Mestre, e repetidos em coro por todos eles. As peças são soltas e muitas vezes improvisadas, mas o ritmo é sempre o do Samba bem marcado. Cada Mestre tem as suas preferidas. No repertório do Mestre Samba-de-Matuto Ilha de Santa Rita Marechal Deodoro

Amaro, patrimônio vivo de Alagoas, não faltam peças sobre o amor, o mar, as mulheres. A sua predileta é: Eu ontem fui à maré Fazer uma pescaria

Acredite quem quiser

folguedos que se apresentam em todas as fes-

Quando amanheceu o dia

Tire o meu cartaz de bamba

tas, do Natal ao Carnaval, adequando os cantos

Ia arribando até.

O meu fracasso é samba

a cada ocasião. Seu batuque originou diversos

Na cabeça da galé

E carinho de mulher.

folguedos e contribuiu para o enriquecimento

Aboiou um cação

Na simplicidade de sua formação o Samba-

de outros, como a Baiana e a Taieira, que con-

Ouvi o nome de Tião

-de-Matuto, a princípio um cortejo, hoje se exi-

tinuam entre as manifestações populares mais

Namorador de Zezé.

be nos palcos e ingressou na classificação de

presentes no estado.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 113


Taieira Do cortejo ao folguedo N

o conjunto da herança africana, a Taieira aparece como uma das manifestações mais frequentes em vá-

rios estados brasileiros. No Nordeste, a ocorrência é ainda mais marcante devido ao forte contingente de negros e mulatos mantendo as tradições de seus antepassados. O registro mais antigo de que se tem notícia data de 1760, na então Vila de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, quando um grupo de Taieira se apresentou por ocasião de uma festa de casamento de nobres. O auto tem identificação com diferentes folguedos - Maracatu, Baiana, Congo - surgidos nos terreiros de candomblés, espaço onde as práticas e os costumes africanos são cultuados pelos descendentes que buscam a manutenção e a reconstrução de seu processo identitário. Originalmente, a Taieira é uma dança-cortejo que se estendeu dos terreiros às procissões, integrando-se mais tarde aos folguedos natalinos, adaptando-se aos palanques nas praças públicas. Hoje a manifestação pode ser vista nas mais variadas ocasiões festivas e culturais das localidades onde é preservada. Rainha Taieira São Miguel dos Campos

114 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Nesse ciclo de transformação constante

Tradicionalmente a Taieira, como os de-

em que o folguedo está inserido, o sagrado

mais folguedos, homenageia os santos de

e o profano se confundem de tal forma que

maior devoção entre os escravos e seus des-

não se pode mais separar um do outro, num

cendentes diretos, irradiando o espaço do sin-

verdadeiro ritual de fusão entre a dança, o

cretismo religioso. Nossa Senhora do Rosário

canto e a performance dos personagens. Des-

e São Benedito sempre foram festejados pelas

se amálgama resultou um auto evidenciado

Taieiras com direito a desfiles e apresentações.

pela pluralidade estética.

Ao contrário do Maracatu e da Baiana,

Arthur Ramos foi um dos primeiros estu-

que chegaram a Alagoas pelos municípios do

diosos a estabelecer uma confluência de ele-

Norte, a Taieira migrou de Sergipe e da Bahia,

mentos entre a Taieira e os demais folguedos

ganhando força no município de São Miguel

filiados aos autos dos Congos-Cucumbis, que

dos Campos, que a mantém preservada. Em

exaltam os reis e rainhas do Congo. Nesse

Maceió, o Grupo Folclórico Professor Pedro

processo, fragmentos históricos são agrega-

Teixeira, criado em 1985, tem uma Taieira em

dos na formação de um enredo que serve de

plena atividade.

base à estrutura do folguedo. A representação

Apesar do grande contingente de escravos

é sempre o resultado da mistura entre elemen-

nas suas lavouras e da proximidade com os

tos históricos, memória afetiva e o gosto pelo

estados de Sergipe e Bahia, Penedo não con-

divertimento.

seguiu conservar a tradição das Taieiras, que

Inicialmente, a prática da Taieira estava

desapareceram com o tempo. Outros regis-

restrita à população negra. Com o tempo, o

tros dão conta de que desde o século XIX a

avanço da miscigenação, associado à influên-

brincadeira era praticada em localidades como

cia portuguesa, flexibilizou a regra. E a partir

Anadia, Marechal Deodoro e Viçosa, oscilan-

de um processo de sincretismo, tipicamente

do entre períodos de efervescência e de ina-

brasileiro, houve também a incorporação ao

tividade.

auto de elementos do catolicismo, numa via de mão dupla entre europeus e africanos, e por vezes tripla, com a participação do nativo.

Rei Taieira São Miguel dos Campos Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 115


116 | Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente


Taieira completa Sรฃo Miguel dos Campos Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 117


Personagens e trajes M

ulheres e homens participam da folgança. Os diversos personagens empunham espadas e querequexés. Por ordem

de importância, Rei e Rainha têm direito a manto, cetro e coroa. Em alguns grupos essas figuras são protegidas por grandes sombrinhas, bordadas com lantejoulas e franjas de seda, conduzidas por rapazes fortes com trajes de cortesãos. Em seguida, vêm as Puxadoras dos cordões, ou Guias, que iniciam o canto, enquanto as Contraguias logo respondem em coro com as demais figurantes. O Ministro do Rei, com calção balofo de nobre, cumpre a sua função na corte. As africanas, geralmente homens, podendo também ser mulheres, com rostos pintados de preto e traje de baiana, quase sempre branco, com saias rodadas, rendas e torço na cabeça, seguem dançando. As figurantes, denominadas Taieiras, com saias nas cores azul ou encarnado, igualmente rodadas, fazem as evoluções, trazendo nas mãos uma urupemba com flores e fitas coloridas. Na cabeça usam chapéus de palha forrados de tecido ou diademas vistosos. Por iniciativa da Mestra, que comanda o grupo com seu apito, pode ser acrescido à brincadeira um ou outro personagem. Os brincantes se vestem com tecidos de seda brilhosa, em cores fortes e estampados variados. Alguns trazem um xale no ombro esquerdo e todos, indiscriminadamente, capricham nos adereços e detalhes.

118 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Taieira Sรฃo Miguel dos Campos

Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 119


O auto e a função

O

riginalmente, a formação do grupo

mais movimentadas, ricas nas evoluções, am-

com tamanho de aproximadamente um me-

implicava no cortejo em direção à

plificando seu caráter profano. Os cortejos

tro, reverenciada por todos de forma jocosa.

igreja para as homenagens aos santos. Depois

ritualísticos das antigas procissões estão dimi-

Os cantos e as embaixadas passaram a

continuava acompanhando a procissão, inter-

nuindo ano a ano e as mudanças são intro-

fazer referência aos eventos nos quais se

calando cantos com embaixadas em louvor

duzidas conforme os interesses do público.

apresentam, ajustando o folguedo às novas

aos santos, seguindo o séquito com as irman-

Nesse processo, sua configuração está se vol-

feições. Há uma mudança no repertório dos

dades, as congregações e o povo. Em certo

tando cada vez mais para o entretenimento,

grupos, embora alguns cantos tenham letras

ponto, a comitiva parava e os personagens

com uma releitura do significado de origem.

fixas e sejam mantidos, a exemplo dos louvo-

digladiavam-se em luta cenográfica, disputan-

Com ênfase no palanque, foram mantidas

res a Nossa Senhora do Rosário e a São Be-

do a Rainha. Enquanto isso, as figurantes ves-

duas alas com figurantes taieiras e africanas

nedito. Outros novos são criados para atender

tidas de taieiras, em alas laterais, protegiam o

em número variado de grupo para grupo. As

ao padroado do lugar ou ao santo predileto da

andor de Nossa Senhora ou de São Benedito.

figuras principais, a quem os demais brincan-

Mestra. A identidade mantida com os santos

Com o tempo, a formação do grupo foi se

tes se dirigem, permanecem no centro, em

da devoção dos negros garante a fidelidade do

adaptando às novas circunstâncias das apre-

posição de destaque. Em meio ao grupo, um

folguedo às suas origens sincréticas.

sentações. Os palanques exigiam coreografias

integrante leva a “crioula” - boneca de pano,

Dançam ao som de uma banda com instrumentos de percussão como tambor, ganzás e querequexés, recorreco e pandeiros. As espadas, que na hora do simulado combate se cruzam no ar provocando um som estridente, comandam o ritmo e a dança fica mais calorosa. Os cantos profanos se multiplicam e a despedida continua com os habituais agradecimentos.

Taieira São Miguel dos Campos 120 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Baianas

Origem discutida O

utro folguedo tradicional das festas alagoanas é a Baiana, ou Auto das Baianas, também conhecido

por Baianal, como os grupos se autodefinem. Apesar do nome, é voz corrente que chegou ao estado pelos municípios do Norte, vizinhos de Pernambuco, e desceu pela região serrana dos antigos quilombos e pelo litoral até Maceió, radicando-se pela redondeza. Sua origem procede das primeiras décadas do século XX, com grupos em União dos Palmares, Capela, Viçosa e na capital. Dessa época não se tem notícias de sua presença nos municípios do Sul, banhados pelo São Francisco, que recebiam influência direta da cultura e dos hábitos da Bahia, através da comunicação, facilitada pelo rio, entre a cidade de Penedo e a capital baiana. Devido a não existir esses registros, o folclorista Théo Brandão defende a ideia de que o folguedo é de procedência pernambucana. Para ele, o nome Baiana decorreria do traje das brincantes.

Mestra de Baianas Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 121


Reforçando essa tese, o livro A Língua e o Folclore da Bacia do São Francisco, de Edilberto Trigueiros, também não faz alusão à existência da brincadeira na região. Mas ainda que existam dúvidas quanto à origem, o fato é que o divertimento ganhou aceitação nas terras alagoanas e até hoje se mantém em plena atividade. Como normalmente acontece, partes de outras folganças lhe foram incorporadas e, com o tempo, sua identidade como folguedo se sedimentou em novas roupagens e influências atualizadas. O ponto de partida, na opinião dos folcloristas, foi o Samba-de-Matuto, frequente no Nordeste. Dele o Auto das Baianas herdou, entre outros elementos, o ritmo cadenciado e o molejo dos quadris; do Maracatu, o gosto pelo traje de tecido farto e torço na cabeça; do Reisado, as personagens que, a princípio compunham seu elenco; do Congo e da Taieira, o timbre afro que lhe define. À medida em que alguns grupos de Samba-de-Matuto iam sendo desativados por razões diversas, até pela concorrência com o novo auto, a Baiana ganhava adeptas animando as noites nas praças e nos terreiros, até se caracterizar como mais um folguedo natalino, apresentando-se nas noites de dezembro em louvor ao Menino Jesus.

122 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Baianas Conjunto Coqueiro Seco

Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 123


Personagens e trajes A

princípio, sob a influência do Reisado,

e o amarelo de Oxum. Pulseiras, anéis, balan-

as Baianas mantinham na sua forma-

gandãs, colares e muito brilho completam a

ção personagens como Embaixadores, Ma-

indumentária. A Mestra e a Contramestra tra-

teus, Mestres e Contramestres com trajes co-

zem coroa na cabeça e faixa no peito com as

loridos e cheios de fitas de seda. Muitas vezes

cores da bandeira do Brasil.

o mesmo Mestre atendia aos dois autos. Com o tempo, algumas personagens típicas do Reisado foram perdendo espaço na Baiana, que se alinhava como folguedo de mulheres. A indumentária tem como padrão as saias longas e rodadas até os tornozelos, de chita estampada ou nas cores dos cordões, azul ou encarnado, como as pastorinhas do Presépio. A largura favorece uma cenografia que as brincantes fazem questão de destacar levantando um pouco os gomos do tecido para facilitar e dar mais graça à dança. A blusa é lisa, de seda branca ou de cor, com babados e rendas. Na cintura, uma faixa e, na cabeça, um torço ou tira do mesmo tecido da saia. Algumas optam pela cor de sua entidade protetora, como o azul de Iansã, o vermelho de Xangô Baianas Acessórios 124 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mestras em destaque E

m Alagoas algumas Mestras marcaram

Outra que deixou nome e seguidoras foi a

presença no folclore local, como a

Mestra Maria do Carmo Barbosa, que compu-

Mestra Terezinha da Baiana, destaque pela ele-

nha peças e brincava no grupo Baianas Mensa-

gância e pela voz esganiçada, ideal para o can-

geiras de Santa Luzia, ao lado da Contramestra

to folk, que brilhou em Maceió na década de

Augusta Maria da Conceição, que fez de sua

1980, tendo seu grupo gravado um compacto

casa a sede do Baianal.

pela Campanha Nacional do Folclore. Até 2010 brilhava a Mestra Hilda Maria da Silva, que comandava o grupo Baianas Vencedoras de Alagoas acompanhada pelas filhas e netas. Sócia fundadora da Asfopal, homenageada em Alagoas e fora do estado com o prêmio de Cultura Popular Humberto Maracanã, do Ministério da Cultura, recebeu reconhecimento como uma das maiores autoridades do

Mestra Maria do Carmo Santa Luzia do Norte

folclore nacional. Hoje, sua nora Zeza, conhecida também por Duarte, herdou o comando do grupo.

Mestra Augusta Santa Luzia do Norte

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 125


O auto e a função A

pesar das peças mais antigas terem

a formação de conjuntos e centralizando no

Nossa tia Marieta,

como inspiração a zona rural cana-

engenho as grandes apresentações. Entre os

A dona deste lugar,

vieira, com o tempo os motivos passaram a

que assistiam estavam os jovens viçosenses

E a maior deste planeta.

ser mais variados e não existe uma sequência

que mais tarde se dedicaram ao estudo dessas

A nossa estima por ela,

com enredo próprio. São peças soltas, lauda-

manifestações e formaram a conhecida Esco-

É grande, tem mais valor,

tórias, sobre pessoas e lugares.

la de Folcloristas de Viçosa.

E a alegria nossa é dela,

Nos anos de 1950 dançava no Engenho

Baiana vamos saudar,

Boa Sorte, em Viçosa, um grupo de Baianas formado pelas moças da casa-grande que se juntavam às primas que chegavam da capital para as férias de final do ano. Era liderado pela Mestra Valderez Vasconcelos Vilela, que entoava as peças criadas por seu pai, Olegário Brandão Vilela. O grupo, que já dançava o Pastoril, estendeu a brincadeira à Baiana pelo gosto de ver no engenho a formação do novo folguedo entre as brincantes do antigo Samba-de-Matuto. O Boa Sorte era o celeiro das manifestações populares, graças ao conhecimento e entusiasmo de seu proprietário, promovendo

Baianas Coqueiro Seco

126 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

E todo nosso imenso amor.


Como o auto não desenvolve um enredo, o que vale é a capacidade de improvisação das Mestras e Embaixadoras, que cantam e criam as letras conforme os contornos locais, iniciando pelas marchas de “abrição de porta” e terminando com as tradicionais despedidas e promessas de voltar em breve, sem deixar de louvar o Deus Menino e a Virgem Maria. Isso porque de Samba-de-Matuto, com gin-

tir de 1920. As apresentações se multiplicaram

gado e raiz na África, a brincadeira foi pas-

e migraram não só para o Ciclo Natalino, mas

sando por várias modificações, até se vincular

também para as festas de santos padroeiros, de

aos folguedos do Ciclo Natalino, conforme a

Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito.

no canto melódico das brincantes que aten-

Apesar da sua relação com o culto de ma-

dem ao mote das “puxadoras” e respondem

tradição portuguesa.

Baianas Coqueiro Seco

Uma das peças mais conhecidas e entoada

triz africana e posterior ajuste ao catolicismo, o

pela Mestra Bida, do Pilar, depõe sobre a sim-

repertório de peças com temas diversificados

A participação masculina se resume aos

plicidade do auto:

e os gracejos e requebros da dança denotam a

músicos da banda, composta por instrumen-

Boa-noite meus senhores, senhoras,

natureza profana de que se revestiu a folgança

tos de percussão como ganzá, recorreco, pan-

Que as Baianas chegou. (bis)

com o correr do tempo. Hoje as apresentações

deiro, triângulo, atabaque. Algumas Mestras

E ao beija-flor, dar a flor pra beijar. (bis)

se estendem a outros tipos de festas, de públi-

tocam ganzá, outras apenas sopram o apito

Boa-noite meus senhores, senhoras,

co, de interesses, abrindo novas perspectivas

com silvos diferentes para cada mando e to-

Que as Baianas chegou. (bis)

de exibições e perdendo cada vez mais as suas

dos obedecem de pronto, fazendo o coro e

Eu falo sem medo de errar, (bis)

referências de origem.

marcando o passo.

em coro.

O grupo segue a mesma formação de ou-

Embora o folguedo não tenha uma elabo-

Chegou as Baianas

tros folguedos, com figurantes em duas filas,

ração temática que lhe sirva de sustentação, a

Hoje aqui pra dançar. (bis)

fazendo evoluções para um lado e para o ou-

alegria da música, a coreografia e o entusias-

A afirmação do folguedo veio com o ritmo

tro e continuando enfileiradas no gingado das

mo das brincantes têm mantido o auto em

acelerado, logo chamado “pancada-motor”,

manobras, por todo o espaço do tablado. A

evidência, com participantes de todas as ida-

que tomou conta dos terreiros e palcos a par-

cadência forte ecoa no sapateado da dança e

des e em vários municípios do estado.

Porque minha mestra é bacana,

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 127


Capítulo VII


Mestra Hilda Maria da Silva MaceiĂł

Fez-se arte o meu corpo como as ondas serenas do mar, como o vento nas palmas do coqueiral a brincar. (MaurĂ­cio de Macedo)

130 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Coco A origem em questão Q

uando se fala em Coco, logo se liga o fruto ao estado de Alagoas. A associação se dá

tanto pela extensão dos nossos coqueirais, quanto pelas produções artesanal e industrial de seus derivados. E quando o tema é a dança homônima, Alagoas também aparece como referência. A maioria dos folcloristas defende que a prática do Coco começou por aqui, mais precisamente no Quilombo dos Palmares. Os diversos estudos dão conta de que a dança surgiu a partir da coleta dos frutos das palmáceas, todos eles semelhantes, espalhados pela Zona da Mata, Litoral, Agreste e Sertão. Por isso mesmo, em todas as regiões do estado o Coco aparece como uma forma de dança, a princípio simples, mas que ganhou variantes conforme as circunstâncias locais.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 131


Coco do Mestre Nelson Rosa Arapiraca

132 | Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente


Tudo começou com o natural toque provo-

lho, concluindo o tema.

sequência de 10 versos, fechando com a repeti-

cado pelo atrito da pedra quebrando a casca dura

Exemplo de Coco Solto sem amarração.

do fruto para se extrair a água e a polpa comes-

Puxador :

tível. A musicalidade dos negros se encarregou

O Colégio pegou fogo

de aprimorar a batida e gerar o espetacular ritmo

E a Matriz se levantou.

Mote :

que se espalhou por todo o Nordeste e ganhou

Os dançarinos respondem:

Viva o mestre Catuaba,

novas modalidades.

Só não quero que me pegue

Viva os Campos de Anadia.

No botão do paletó.

Glosas:

ências indígenas, como defendem alguns estu-

A outra modalidade é o Coco Atual, ou

Viva a rua de Viçosa,

diosos mais afinados com a percepção musical

Evolutivo, compreendendo dois tipos: Iniciais

Viva o homem que é valente,

das manifestações. Essa absorção confirma os

e Individuais. Os primeiros seguem as formas

Viva o pagode da gente,

dados históricos que dizem que sempre existiu

tradicionais, que variam entre os de Balamento,

Viva a moça que é formosa,

um contingente de índios entre os negros qui-

Entrega, Fundamento e Coco Amarrado de 10

Viva meus 10 pés de glosa,

lombolas. Os folcloristas que mais se dedicaram

pés de glosa, enquanto os Individuais são deriva-

Viva a serra da Maraba,

à pesquisa sobre o Coco, no estado, foram José

dos das cantorias de viola, seguindo o estilo de

Viva o “duro” que se gaba,

Aloísio Vilela e Abelardo Duarte, ambos defen-

cada cantador.

Viva a minha cantoria,

Nos passos iniciais, a dança assimilou influ-

sores da procedência negra da dança.

ção do mote. Manoel Catuaba, de Anadia, deixou este “Coco de 10 pés”, coletado por Aloísio Vilela:

Aloísio Velela explica que o Coco de Ba-

Viva o mestre Catuaba,

Devido à sua grande difusão, o Coco alagoa-

lamento recebeu esta denominação porque o

Viva os Campos de Anadia.

no recebeu uma classificação de Abelardo Duar-

Puxador, também conhecido como Cantador,

Mote:

te que facilita o entendimento da dança em seus

conta um causo em canto-narrado, ligeiro feito

Viva o mestre Catuaba,

moldes mais antigos, registrados até meados do

uma bala. Por sua vez, o Coco de Entrega exi-

Viva os Campos de Anadia.

século passado. A partir daí ocorreu nova expan-

gia boa memória de quem o puxava, que iniciava

Essas formas de Coco elaboradas, que exi-

são, e diferentes características se multiplicaram.

com um mote e, a exemplo da cantoria de viola,

gem destreza mental do puxador, praticamente

Conforme Duarte, existe o Coco Antigo, co-

repetia o lema e em seguida fazia a “entrega” a

não existem mais. Mas a história do Coco não

nhecido por Coco Solto, a princípio apenas com

outro puxador. O Coco de Fundamento consis-

parou no tempo. Outras modalidades surgiram

solo e estribilho, depois com amarração em qua-

te na permanência do tema, que se prolonga pela

e dão continuidade à dança que permanece em

dras ou emboladas. A amarração é outra parte

noite a fora, enquanto o Coco Amarrado em 10

plena efervescência, fazendo parte dos festejos

puxada pelo solista, que vem depois do estribi-

pés de glosa, em seguida ao mote inicial, tem a

juninos.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 133


Personagens e trajes P

or se tratar de uma dança e não de um folguedo, o Coco não tem variedade de personagens nem enredo próprio. Na origem,

também não tinha traje específico. As pessoas dançavam conforme se vestiam em dias de festa. Isso porque se tratava de uma dança e não de uma apresentação, como hoje acontece. O puxador cantava e improvisava acompanhando os tocadores, e os pares dançavam juntos ou em evoluções, separados. A partir do momento em que a dança passou a ser exibida publicamente, os grupos estabeleceram um traje com características do período junino. O chapéu e uma camisa estampada ou em cor de tom forte são indispensáveis nos homens, e nas mulheres, as saias longas e rodadas com estampas coloridas e um lenço ou uma flor na cabeça.

134 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Coco Pau-de-Arara Pitanguinha Macei贸

Alagoas Popular - Folguedos e Dan莽as de Nossa Gente | 135


Na “puxada” do Coco N

o passado, sobretudo na zona dos engenhos, se não faltavam grandes

puxadores, como os famosos Jacu, do Barro Branco; José Rubina, da Chã Preta, e Aprígio, de União, também não faltavam exímios dançarinos, que andavam léguas atrás do batuque de um Coco e eram famosos por toda

Mestra Hilda Maria da Silva

a redondeza. E a dança não se resumia a uma forma única, ia ganhando o calor da animação

folguedos. Pelo nome do Pagode dá para se

O Coco, ou Pagode Comigo-Ninguém-

à medida que os cantadores improvisavam

sentir a personalidade competitiva e tinhosa

-Pode, tem canções que vêm passando de

tanto nos cantos como na música, desafiando

da Mestra Hilda, que só chegava para brilhar,

geração em geração, como a colhida pela fol-

a destreza dos melhores dançadores, como

tocando seu ganzá com muito talento e luz

clorista Josefina Novaes:

José Clarindo dos Santos, de Viçosa, que na

própria. Começou a brincar desde criança, le-

década de 1970 gravou um Coco para a sé-

vada pelos pais, grandes dançadores de Coco,

Vou ao Rio de Janeiro

rie de compactos da Campanha Nacional do

no município de Rio Largo, onde nasceu. A

Ver a Igreja da Penha

Folclore.

Mestra, da mesma maneira como fez com a

Embora ela não tenha

A Mestra Hilda Maria da Silva criou nos

sua Baiana, trouxe para o grupo filhas, netas

Gente da minha família

anos 1980 o Pagode Comigo Ninguém Pode,

e nora, enquanto os homens da família as-

Você disse que também ia

na Chã de Bebedouro, bairro de Maceió que

sumiam os instrumentos. Transferiu o saber

Peça licença primeiro

tem uma tradição de festas populares e onde

para sua nora Zeza, que lhe seguiu os passos e

Quem for ao Rio de Janeiro

sempre houve uma concentração de sedes de

mantém o grupo em franca atividade.

Tem que passar na Bahia.

136 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


A dança e a função O

Coco tem outras denominações, mas

cachaça e comida. Ao raiar do dia, o piso esta-

da cabeça, enquanto os pares rodopiam em

atualmente, em Alagoas, é mais co-

va pronto. A casa já podia ser usada porque o

volta, e volta e meia na cadência do tropel.

nhecido por Coco-de-Roda, Coco-da-Praia,

barro sedimentara de tão socado pelos dança-

Coco-de-Visita, Coco-de-Fileira, Coco-de-

dores. Era só varrer para tirar a poeira.

Das cantigas de outrora que permanecem no repertório como verdadeiros clássicos populares, resta, entre outras, a bela criação do

-Parelha-Trocada e Pagode. Embora cada um

Da mesma forma que o Coco varia as deno-

tenha em sua evolução características particu-

minações, muda também nas nuanças rítmicas,

lares, muitas vezes elas se misturam na mesma

no modo de dançar, nos passos, nos improvi-

Com quem é que eu danço hoje?

apresentação, dependendo da versatilidade do

sos do tropel, mas a troca de umbigadas está

Danço mais você menina.

puxador. Em outros estados aparece com de-

sempre presente e cada vez mais exagerada

Mas quem não gosta

nominações distintas:

como forma de atrair a atenção pública.

De dançar de madrugada,

Coco-de-Umbigada,

Coco-de-Embolada, Coco-de-Ganzá, Zambé

O som vem de um conjunto musical mui-

Mestre José Rubina:

Uma roda bem tirada,

to simples, formado basicamente por ganzá,

Pelo mestre Zé Rubina?

Atualmente, as apresentações não se limi-

surdo, pandeiro e triângulo. O diferencial, que

Pisa no chão

tam às festas de São João. A dança é praticada

lembra as origens, resulta da batida forte do sa-

Muito bonito e bem feito,

em todas as épocas, conforme o calendário

pateado e das palmas ritmadas dos dançarinos.

Com um cravo branco no peito,

turístico e as comemorações populares para

A memória coletiva retorna ao atrito da pedra

No chiado da botina.

as quais os grupos são contratados; diferente-

no coco, cujo som fez nascer o gênero musical

Com quem é que eu danço hoje?

mente de outrora, quando dançavam a noite

mais representativo do estado de Alagoas.

Danço mais você menina.

etc.

toda, de forma espontânea e solidária. Não

Hoje a formação se resume a dança de ca-

Entre os grupos mais atuantes no momen-

havia cobrança de cachê, tudo era organizado

sais soltos, ou em círculo, com cantigas tradi-

to, destacam-se o GangaZumba, o Santana, o

com participação comunitária festiva, marcan-

cionais e repetidas, dispensando as improvisa-

Axé Zumbi, o Lua de Prata, sem nos esquecer-

do forte a batida no chão para socar o piso

ções e o inusitado das criações e dos volteios.

mos do Coco-de-Roda do Mestre Nelson Rosa

de barro das casas dos amigos e compadres,

O puxador entoa as canções acompanhando

e do Pagode Comigo-Ningém-Pode, exemplo

cabendo ao dono da casa receber com muita

os músicos com um ganzá levantado à altura

de hereditariedade no comando da brincadeira.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 137


Quadrilha

O selo da erudição D

ança típica das festas juninas, a Quadrilha está presente em todo o Nordeste como atração principal das noites

de São João e de São Pedro. Ao lado das comidas regionais, das fogueiras e dos fogos de artifício, ela garante ao ambiente festivo movimento e colorido surpreendentes. Originária dos salões europeus, chegou ao Brasil com a corte portuguesa, no século XIX, tornou-se apreciada pela sociedade e abria as festas palacianas com coreografias aristocráticas. No Rio de Janeiro era a dança preferida do paço imperial, marcada por músicos e dançarinos franceses que tocavam Phillippe Musard (1793-1859), considerado o pai da dança, e outros compositores do gênero, como o brasileiro Henrique Alves de Mesquita, autor de Soirée Brésilienne com versão para piano e flauta.

Quadrilha Movimento 138 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


os dias de hoje como a função mais espera-

O requinte estendia-se aos saraus e bai-

Dos salões imperiais aos arraiais nordes-

les residenciais. Muitas dessas danças eram

tinos, a Quadrilha tem trajetória associada

alusivas a fatos históricos, encomendadas

a diferentes regiões e segmentos sociais. A

A história da Quadrilha mostra de que

especialmente para a ocasião. Foi assim

Proclamação da República, em 1889, foi um

maneira as danças podem, no decorrer dos

com a coroação de dom Pedro II, em 1850,

marco em sua difusão, chegando às ruas e

tempos, se modificar, perder e ganhar ele-

que contou com Quadrilha comemorativa

clubes com grande acolhida popular. Nesse

mentos, dependendo da época e do grupo

para o baile, seguindo o modelo das festas

percurso, manteve-se enquadrada nos pa-

social que a pratica. Uma demonstração

francesas, que representavam o que havia de

drões europeus, mesmo quando a indumen-

dessa resistência pode ser comprovada na

mais elegante na Europa.

tária caipira substituiu o fraque e as rendas

observação das mudanças pelas quais ela

Sua natureza social, como tudo que vinha

francesas foram preteridas pelos babados

passou até se transformar no que vemos

da corte, exercia um fascínio em todo o Rio

de chita. Ainda assim, permanecia a delica-

hoje: um gênero musical e coreográfico to-

de Janeiro, espalhando-se pelo país como

deza de gestos e a marcação em língua fran-

talmente distante do magnetismo inicial e

símbolo de status e de nobreza. Nessa épo-

cesa, abrasileirada pelo sotaque regional.

do regionalismo posterior. A Quadrilha de

da, devido ao seu aspecto cômico.

ca não faltavam compositores, intérpretes,

Por essa época passou a ser moda dançar

hoje voltou-se para uma nova forma de ex-

mediadores e dançarinos que se destacavam

a Quadrilha nos casamentos rurais, o que

pressão e de vivência do mundo, plasmada

pela habilidade nos passos e nos acenos às

motivou a encenação do enlace como parte

na visibilidade que a cultura de massa super-

damas.

teatral da sua formação, permanecendo até

dimensiona.

Quadrilha em duas versões Os dois principais formatos de Quadrilha que

do interior nordestino. O segundo, em franca

Tradicional, ou Regional, e Pulada, devido à

vemos hoje, embora distintos entre si, des-

aceitação, tem ritmo acelerado e caracterização

mudança do ritmo para algo parecido com a

cendem da antiga, originada nos salões fran-

exuberante e estilizada.

lambada, em que os brincantes pulam e sacole-

ceses. Em via de extinção, o primeiro mode-

Há autores que propõem uma divisão sis-

jam. Outros preferem tratá-las como a Antiga

lo é focado na vida rural, nos hábitos simples

temática entre uma e outra, denominando-as

e a Moderna, ou simplesmente Rural e Urbana.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 139


Quadrilha Moderna

140 | Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente


Quadrilha Regional - personagens e trajes

O

s casais trajam-se conforme a es-

do e outros que se queiram acrescentar. Os

tética rural, conhecida como cai-

casais dançam comandados pelo Marcador,

pira, ou matuta. Os homens usam chapéu

integrante que detém o saber e conduz a se-

de palha, calça de brim, ou mescla, e cami-

quência das partes, dando voz de comando.

sa quadriculada com um lenço de cor viva

Pode estar caracterizado ou apenas “marcan-

amarrado no pescoço, enquanto as mulheres

do”, fora do grupo. Sendo bom, ele garante

vestem chita de estampa colorida, saia larga

a animação da dança a noite inteira.

e cheia de babados. Na cabeça, uma flor ou

O folclorista Pedro Teixeira, também pro-

um diadema. Algumas usam chapéu, acessó-

fessor de francês, foi um grande Marcador

rio descabido para elas, uma vez que nas fes-

de Quadrilha, brincando nos municípios do

tas rurais só os homens o usam. Costumam

interior e em Maceió, sempre muito procu-

aplicar remendos nas vestes, exageradamen-

rado, uma vez que reunia grandes qualidades

te visíveis, com o intento de melhor carac-

para o mister. Além de bom animador, co-

terizar a indumentária. Isso foi incorporado

nhecia bem a dança em sua evolução e fazia

ao traje pelo tom jocoso que provoca, mas

a marcação com boa pronúncia do idioma

denota desconhecimento quanto à vivência

original.

rural, pois os camponeses nordestinos sem-

A movimentação começa nos ensaios,

pre foram para as festas com suas melhores

que geralmente acontecem nos finais de se-

roupas, nunca as remendadas.

mana que antecedem a festa. Os grupos se

A encenação do casamento matuto - parte

formam e a camaradagem garante o sucesso

do folclore da Quadrilha - integra vários per-

da brincadeira, com a decoração dos arraiais

sonagens à dança: além do casal de noivos,

e o gosto na preparação dos trajes e das ca-

Padre, Sacristão, os pais da noiva, o Delega-

racterizações.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 141


A evolução dos pares O

s pares enfileirados entram no ar-

ximo do acréscimo brasileiro é a dramatiza-

raial ao som de uma música junina e

ção do casamento na roça, sempre aguardado

logo se posicionam aguardando o comando

pelos dançarinos e pela plateia.

do Marcador, que promove um passeio pelo

A “cerimônia” tem um caráter jocoso e

salão com Balancê. Em seguida vêm as diver-

toma como tema o casamento imposto pelo

sas partes, algumas permanentes em todos os

pai da noiva e pelo Delegado. O noivo tenta

grupos e chamadas em francês:

se livrar da situação, mas é obrigado a casar

Alavantú (en avant tous)- os casais vão para frente

porque a noiva se encontra em adiantado es-

Anarriê (en arrière) - casais vão para trás

tado de gravidez. O Padre e o Juiz oficializam

Balancê (balancer) - dançar com mais balançado.

o matrimônio. A interpretação e a fala dos

Changê (changer ) - trocar de casais

personagens, carregadas no sotaque nordes-

Cumprimento ‘vis-à-vis’ - cumprimento frente a

tino, arrancam risadas e aplausos de todos, re-

frente

afirmando o caráter espontâneo da Quadrilha

Otrefoá (autre fois) - repetir o passo anterior

Regional. Os figurantes estão ali para brincar,

Outras partes completam a coreografia re-

sem o objetivo de concorrer a prêmios.

gional como “Olha a chuva!”, “É mentira!”,

Normalmente, esses grupos brincam em

“A ponte quebrou”, “Nova ponte”, “Cami-

clubes ou em arraiais de bairros e dançam ao

nho da roça”, “Túnel”, “Grande passeio”.

som de uma banda formada por instrumen-

Cada Quadrilha com novos passos e volteios

tos populares como sanfona, zabumba e tri-

inesperados que dependem da agilidade dos

ângulo, entre outros.

dançantes. Quando algum casal se confunde e erra seu lugar, o Marcador grita o Balancê e todos novamente se perfilam. O ponto má-

142 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Quadrilha Exibição


Quadrilha Moderna, personagens e trajes A

partir do final do século XX as Qua-

senvolvendo acrobacias arrojadas por entre

drilhas começaram a passar por uma

tramas reconstruídas.

grande transformação, em todos os aspectos,

O casal de noivos continua presente, mas

incorporando temas que exigem novos per-

a noiva não representa mais a vítima das apre-

sonagens, como o Cangaço, a República dos

sentações tradicionais. Hoje, ela exagera na

Palmares, a Independência de Alagoas e tan-

dança de trejeitos sensuais e provocantes com

tos outros. Dependendo do tema, cada grupo

a graça de exímia dançarina. Personagens que

cria e caracteriza seus personagens, que cum-

compunham a encenação não existem mais. O

prem os papéis no enredo com indumentárias

Padre, o Juiz e o Delegado deixaram de exer-

que se distanciam do figurino rural e exage-

cer as suas funções. O que se vê são figuran-

ram na roda das saias, no brilho e na profusão

tes em grande número, que dançam em alas e

de adereços.

apelam para a exuberância estilizada em todos

As inovações são implantadas e configura-

os sentidos: são passos, gestos e exibicionismo

-se um novo universo simbólico para cada

pautados por gostos e padrões estéticos atuais,

ano. O projeto é elaborado com meses de

sem apego às tradições.

antecedência e se mantém em segredo para o

Quadrilha Movimento

grupo surpreender quando adentrar a quadra. Lampião e Maria Bonita chegam com munição para a noite toda e Zumbi dos Palmares traz seus guerreiros com lanças coloridas, de-

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 143


Quadrilha Moderna em evolução A

tualmente, com base na estilização,

que inicia e termina com passos da Qua-

a dança tem uma coreografia pró-

drilha, mas é recheada com forró, lamba-

pria, preparada de acordo com o enredo e

da, axé, jazz e outros gêneros que o coreó-

a trilha musical que se renovam a cada ano.

grafo queira acrescentar.

O conceito regionalista foi substituído por

Essas modificações foram implantadas

uma espécie de dança-espetáculo que lem-

a partir da criação de prêmios, que estimu-

bra o cancã norteamericano ou manifesta-

lam a competição entre os quadrilheiros,

ções do folclore gaúcho.

incorporando à dança aspectos próprios do

A apresentação da Quadrilha passou a

teatro musical ou da opereta popular. Re-

ser uma atração teatral com plateia e comis-

novar-se, absorver influências, modificar-

são julgadora. Os brincantes perderam a es-

-se e até se extinguir são partes da história

pontaneidade e o sentido de improvisação,

das manifestações populares que mudam as

assumindo a responsabilidade pelos papéis

configurações, dependendo da época e dos

que desempenham, pois um erro na evo-

movimentos sociais.

lução pode levar o grupo a perder pontos

Representando exatamente o caráter atu-

ou até mesmo a ser desclassificado. Cada

al das festividades, as Quadrilhas Modernas

Quadrilha tem a sua diretoria, que funciona

têm alcançado aceitação cada vez maior,

como uma agremiação recreativa.

com alto índice de popularidade, garantin-

No rol de inovações outros gêneros de

do às noites de São João e de São Pedro,

música foram incluídos, fragmentando as

em Maceió, a apoteose popular em estilo

partes tradicionais. Desconstruíram a se-

Escola de Samba carioca. O público gosta

quência da dança e montaram uma suíte

e aplaude as mudanças.

144 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O entusiasmo domina as apresentações

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 145


Capítulo VIII


Figura de Maracatu

Na palma estendida eu leio as quimeras do viver, a mesma ilusĂŁo de sempre - amor, dinheiro e poder. (MaurĂ­cio de Macedo)

148 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Maracatu

Perseguição histórica A

trajetória do Maracatu em Alagoas está fortemente ligada à história das perseguições à prá-

tica dos cultos afro-brasileiros no estado. O desfecho desse imbricamento culminou com a desativação do folguedo a partir do episódio ocorrido em Maceió, no ano de 1912, que entrou para a história com a denominação Quebra de Xangô. Promovida pela Liga dos Republicanos Combatentes, a ação arbitrária e obscura contou com o apoio de parte da sociedade, que, desprovida de conhecimento e senso democrático, via nas manifestações religiosas e culturais praticada pelos negros um acinte aos chamados “costumes civilizadores”. À época, os Maracatus eram formados pelos frequentadores dos Terreiros, saindo nos dias de Carnaval, com a natural pompa de um séquito que rende homenagens ao Rei e à Rainha do Congo. Com a destruição dos templos e a perseguição aos Pais e Mães-de-Santos, os grupos desaparecerem dos Carnavais alagoanos.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 149


Abelardo Duarte, em seu Folclore Negro das

ma do preconceito só veio a ser amenizado a

Em 2011, no dia 18 de novembro, na Praça

Alagoas, registra a existência de Maracatus an-

partir do movimento de valorização da cultura

Dois Leões, na porta da Igreja de Nossa Senho-

tes da repressão pública, quando ainda eram

africana, na década de 1980, e o recente pedido

ra Mãe do Povo, em Jaraguá, Maceió, ocorreu

denominados Cambindas. Dentre os mais co-

de perdão por parte do atual governador Teo-

um momento histórico com a retomada do

nhecidos desse período estão o Cambinda Ve-

tônio Vilela Filho, durante a solenidade alusiva

préstito festivo: o Maracatu Nação Corte de

lha, com base no Terreiro do Pai-de-Santo João

ao centenário da Quebra de 1912. Os Terreiros

Airá, com a participação do Maracatu de Batu-

Catarina, no bairro da Levada; o Cambinda

reafirmaram seus direitos, sintetizados no slo-

que Alagoano, realizou a cerimônia de coroação

do Porto, do Pai Dão, e o Cambinda de Ouro

gan “Xangô rezado alto”, e alguns passaram a

do Rei Elias de Airá (Pai Elias do Terreiro de

completando a trilogia dos mais importantes da

incluir o Maracatu como parte lúdico-festiva

Airá) e da Rainha Lucineide, em ritual celebrado

capital. Referências ao Maracatu do Pai Leocá-

da Casa.

pelo decano Pai Maciel, que marcou oficialmente a reintegração do Maracatu em Alagoas.

dio, de Viçosa, podem ser encontradas no livro

Os grupos que se formaram a partir deste

Folguedos Natalinos escrito pelo folclorista Théo

século são derivações dos antigos, adaptados ao

A solenidade foi revestida de todas as pom-

Brandão.

contexto atual, mas com propósito de resgatar

pas, com o cortejo de nobres e seus dignitários,

O antropólogo Bruno César Cavalcante, na

a identidade original. O conjunto musical conta

todos simbolicamente restituídos às funções de-

publicação Kulé Kulé – Visibilidades Negras, co-

com a presença de instrumentistas e dançarinos,

pois de um século do terrível atentado político-

menta que enquanto o Samba carioca, o Afoxé

jovens estudantes que não necessariamente fre-

-religioso que vitimou Mãe Marcelina e provo-

baiano e o Maracatu pernambucano ampliavam

quentam os Terreiros de culto, mas abraçam a

cou a deposição do governador Euclides Malta.

seus espaços de aceitação pública, em Alagoas a

diversidade religiosa e a expressão cultural da

O rufo dos tambores ecoava alto pela praça,

proibição nas primeiras décadas do século XX

folgança.

na potência rítmica de seus percussionistas. Re-

e o trauma da violência policial enfraqueceram

Com beleza plástica e ritmo contagiante, o

presentantes dos diversos Terreiros estiveram

essas manifestações, que só foram voltando em

Maracatu reverencia em suas apresentações os

presentes, legitimando o acontecimento que

meados do mesmo século, na versão de folgue-

santos que participam do elenco de devoção das

tem para o alagoano o sentido de reconquista

dos natalinos. Enquanto isso, nos estados vizi-

religiões de matriz africana, a exemplo de Nos-

e de retomada do direito à diversidade religiosa

nhos a apoteose carnavalesca se caracterizava

sa Senhora do Rosário, Santa Bárbara, São Jorge

e cultural. Renasce a folgança, a fagulha mística

a partir das alegorias afro com uma pegada de

e São Benedito. Essa circularidade afro-católica,

foi recuperada, trazendo atrás de si uma história

orgulho da raça nas manifestações.

que evoca orixás e santos pareados pelo sincre-

de superação e pertencimento.

O processo de retaliação foi tão grande, em Alagoas, durante e pós-Quebra, que o estig-

tismo, está presente nos filhos de Xangô como uma marca cingida pela história.

150 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Maracatu do Mestre Geraldo


Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 151


Maracatu Nação e Maracatu Rural

O

folguedo em sua versão atual man-

Caboclos de Pena, os primeiros com guias

tém a ramificação em Maracatu Na-

(fitas) amarradas na lança, e os outros com

ção e Maracatu Rural. O primeiro é o mais

adornos de cabeça que lembram a ritualística

antigo e recebeu esta denominação devido à

indígena. Esta característica os aproxima dos

palavra nação significar ajuntamento de pes-

Caboclinhos e de outros folguedos inspira-

soas que se identificam por laços históricos e

dos na cultura nativa.

culturais. No caso, refere-se aos agrupamen-

Outra diferença está na sustentação rítmi-

tos negros por nações: nagô, jêje e outras,

ca do grupo, com os tradicionais instrumen-

tornando o termo muito familiar para desig-

tos de percussão (tambores, caixas, taról, sur-

nar os filiados a determinada etnia africana.

dos, cuícas, zabumba) que aparecem nos dois,

O grupo dança ao som de instrumentos de

sendo que no caso do Rural há o acréscimo

percussão, em ritmo que vai num crescente,

de cornetas, trombones, saxofones e outros

iniciando compassadamente e acelerando

instrumentos de sopro. Em razão disso, o

aos poucos até a vibração calorosa do baque

maestro Guerra Peixe, em estudo sobre o as-

virado, toque característico do Nação.

sunto, classificou-os conforme a organização

A outra versão do Maracatu é a Rural,

orquestral de cada modalidade, em Maracatu

mais recente, formada pelo êxodo do campo

de Baque Virado (o Nação), mais conhecido

para a cidade do Recife, em meados do sécu-

em Alagoas, e Maracatu de Orquestra (o Ru-

lo passado. Desde o início, com sua forma-

ral), pelo fato deste apresentar, além da per-

ção miscigenada, valoriza o caboclo, como

cussão, instrumentos de sopro.

personagem de destaque, trazido das tribos indígenas como os Caboclos de Lança e os 152 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Maracatu Nação Maceió


Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 153


Personagens e Trajes

O

Maracatu Nação é rico em persona-

cerimônia. Príncipes e Princesas, Embaixado-

gens trajando indumentárias repre-

res, Lanceiros, Damas do Paço, Porta-Estan-

sentativas do séquito real, tendo como prin-

darte, todos trajam cetim de cores vivas, ador-

cipais figuras o Rei e a Rainha do Congo com

nado com arminho, lantejoulas e muito brilho.

suas insígnias, cetro, coroas e mantos cauda-

Os homens vestem camisas de mangas lar-

tórios. O casal é protegido por uma sombri-

gas e calções balofos amarrados por fitas na

nha franjada de seda e ladeado pelos Guardas,

altura na perna, enquanto as mulheres dispu-

vestidos de soldados romanos, como dizem

tam as saias mais rodadas, armadas com ara-

os brincantes, com elmos de penachos so-

me, que dão à vestimenta uma extraordinária

bre a cabeça. Ao lado, os Vassalos de peito

beleza, sobretudo em conjunto, nos movi-

nu abanam a majestade com ventarolas de

mentos das evoluções. Completam o cortejo

pluma.

as tradicionais Baianas, ou Yabás, vestidas de

Maracatu

O estandarte, da mesma forma que o som-

branco e com as cores de seus orixás, trazendo

breiro, é confeccionado em tecido brocado

o pano da Costa sobre os ombros. Não faltam

brincantes. Os de Alagoas não têm menos de

ou veludo, com aplicações coloridas, vidrilhos

os Caboclos de Lança, guerreiros de Ogum,

50 integrantes e são considerados pequenos

e bordados, trazendo no centro o nome do

que além das armas trazem guizos amarrados

se comparados com os tradicionais grupos do

grupo e o ano de sua criação. O personagem

na cintura.

vizinho estado de Pernambuco.

que o conduz traja indumentária de nobre, al-

Os músicos, homens e mulheres, geral-

Apesar de sua reativação recente, os gru-

guns com cabelos postiços, conforme a moda

mente são chamados de batuqueiros e vestem

pos estão gozando da aceitação pública cada

do século XVIII na Europa, e beca engalana-

branco ou as cores que identificam o grupo.

vez mais crescente e da aquisição de novos

da, de botões dourados e colarinho alto.

Há sempre um grande número de partici-

brincantes, interessados em aperfeiçoar a qua-

Quando acontece a festa da coroação, o

pantes no folguedo devido aos diversos per-

lidade coreográfica e imprimir ao folguedo a

Pai-de-Santo do Terreiro-sede vem no corte-

sonagens que o integram e a quantidade de

dignidade de uma manifestação que tem atrás

jo, cercado de reverências, com seu traje bran-

batuqueiros que compõem o conjunto musi-

de si uma história de lutas e de conquistas a

co e as guias de seus orixás, para oficializar a

cal, garantindo a marcação e a animação dos

preservar.

154 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Alegoria da Função A

formação básica consiste em um

Miçanga, miçanga, Luanda

cortejo que tem à frente o Porta-

Pra toda a nação, êh, êh, Luanda!

dramática, caracterizando a função de seus

Estandarte abrindo ca minho para a chegada

Êh, êh, Calunga, auê,

personagens através da indumentária, dos

do préstito majestoso, que, na esfera da repre-

Êh, êh, Calunga, auê.

gestos, da encenação e dos passos da dança.

sentação, promove uma performance teatral

Vou embarcar pra Luanda,

Mário de Andrade descreve muito bem a pre-

da idealização dos negros africanos, cantando

Seu Rei mandou me chamar,

sença das Yabás: “Embebedadas pela percus-

a saudade da terra natal e entronando um Rei

Vou-me embora pra Luanda,

são, dançam lentas, molengas, bamboleando

patrício, negro como eles, do distante Congo.

Nação de pretinho do mar!

levemente os quartos, num passinho curto,

Não existe um enredo lógico, mas as toadas

Êh, êh, Calunga, auê,

quase inexistente, sem nenhuma figuração dos

se reportam às recordações da pátria, com

Êh, êh, Calunga, auê.

pés. Os braços, as mãos é que se movem mais,

alusões à vivência na América e associações

O cortejo sai pelas ruas em coreografia

A aproximação com o catolicismo é fru-

ao contorcer preguiçoso do torso.”.

to da organização do folguedo pelas Irman-

O Caboclo de Pena também tem um passo

Depois do Porta-Estandarte, a Dama do

dades de Nosso Senhora do Rosário e de São

característico, procedente das danças indíge-

Paço traz a Calunga, boneca de madeira ou de

Benedito, imprimindo um selo cristão à reli-

nas. Os demais figurantes seguem a cadência

pano que representa a entidade. A Dama tra-

giosidade e às atividades festivas dos negros.

da música, todos com os mesmos movimen-

ja, em regra, indumentária igual à do fetiche.

A criação dessas Irmandades fazia parte da

tos e respondendo ao solista, em coro, dando

Alguns Maracatus têm mais de uma Dama,

estratégia de dominação dos brancos, na épo-

vivas à aclamação do Rei do Congo.

cada uma trazendo uma boneca, correspon-

ca em que o sistema escravocrata dava sinais

dentes a entidades femininas.

de fragilidade.

sincréticas com o catolicismo.

O passo da dança lembra o molejo dolente dos rituais de candomblés e os atuais grupos,

Ô lelê, sete de ouro,

com o distanciamento de tempo e o conheci-

Brandão e Abelardo Duarte transcreveram

Nação de pretinho do mar,

mento da sua história no estado, vêm tentan-

algumas toadas de antigos Maracatus:

Deus do céu lá no espaço,

do essa reaproximação, valorizando a dança

Luanda, nação de preto, Luanda

Ajoelhem-se os vassalos,

ancestral, a preservação da memória e o regis-

Traz a Rainha miçanga, Luanda

Salve a Virgem do Rosário!

tro dos percalços de seu trajeto.

Em meados do século passado, Théo

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 155


Bumba-Meu -Boi

No rastro da lenda A

presença do boi na vida do homem se perde no passado. Mais mística do que histórica, essa

proximidade descortina um universo imagético em torno de sua poderosa figura, presente nas lendas, toadas, danças, apresentações cênicas e ritualísticas de diferentes épocas e lugares. Na Península Ibérica não foi diferente. A popularidade do boi se estende igualmente nas festas regionais, no sangue derramado nas touradas, no vasto repertório das tradições seculares e serve de inspiração para artistas como Goya, Gil Vicente, Picasso. Sempre a presença vigorosa do animal como símbolo de força, resistência e porte incomparáveis.

Bumba-Meu-Boi Acervo Museu Théo Brandão

156 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Quando os portugueses trouxeram reba-

sua mulher, Catirina, que estava grávida do

nhos para o Brasil, veio também toda a aura

primeiro filho. Nos entojos da ameaça de

mística que envolve a imagem do boi. Essa

aborto, ela teve o desejo de comer a língua

bagagem cultural e social foi logo ampliada

do boi mais querido do patrão. Corre a cren-

com o conhecimento dos negros escraviza-

ça popular que se o desejo da mulher prenha

dos trazidos igualmente para a lavoura. Do

não for saciado, ela perde a criança. Diante

caldeamento de informações que se instalou

de tamanha ameaça, o marido matou o boi

no Nordeste com a plantação da cana, refor-

e lhe tirou a língua. Sentindo a falta do ani-

çado em seguida pelo ciclo do gado, o boi en-

mal, o fazendeiro acionou todos os vaqueiros

trou definitivamente no folclore regional, da

e caboclos para darem conta do portentoso

mesma forma que se integrou à vida rural do

boi. Confirmada a morte do animal, a mobi-

Norte, tornando-se figura emblemática das

lização passa a ser em torno de sua reanima-

duas regiões.

ção, finalmente conseguida pela intercessão

Nos autos populares o animal apare-

do doutor, curandeiro ou pajé. Quando o boi

ce sempre muito ornamentado e vigoroso,

volta à vida, todos celebram festivamente, in-

atraindo a atenção de todos, mas é no Bum-

clusive o escravo, Pai Francisco, que se livra

ba-Meu-Boi que mais se destaca pela posição

da pena que lhe fora aplicada.

que ocupa frente aos demais integrantes. Não

O Bumba-Meu-Boi é a dramatização desta

se sabe exatamente quando começou, mas

lenda, acrescido de detalhes e de novos perso-

têm-se referências de sua presença em Per-

nagens que enriquecem o enredo e alongam

nambuco, no ano de 1840, através do jornal

as apresentações. Nos estados do Norte, o

Carapuceiro, do Recife, na edição de 11 de ja-

auto faz parte das festas juninas, enquanto

neiro, com críticas ao folguedo por ser consi-

no Nordeste desfilam no Carnaval e no Ci-

-Reis e em Alagoas, no povoado de Porto da

derado uma dança de requebros sensuais, tan-

clo Natalino, mas também aparecem em oca-

Rua, município de São Miguel dos Milagres, é

to que, na década de 1860, suas apresentações

siões esparsas de caráter cultural e turístico.

conhecido por Três Pedaços, alusão ao episó-

públicas foram proibidas.

Recebe várias denominações pelo país, como

dio da repartição do Boi, embora em todos os

A brincadeira se originou de uma lenda

Boi-Bumbá, Cavalo-Marinho, Boi-Surubi,

estados a denominação Bumba-Meu-Boi seja

sobre um casal de escravos, Pai Francisco e

Boi-de-Reis, Rei-de-Bois, Bumba, Bumba-de-

bem conhecida.

Figurante Bumba-Meu-Boi

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 157


A folgança em Alagoas O

estado atualmente está sem Bumba-

e fragilizou as apresentações do Bumba-Meu-

-Meu-Boi nos moldes tradicionais,

-Boi.

devido ao falecimento inesperado do Mestre

Desde o início deste século um fato novo

Eurico, há 12 anos, que comandava o auto

está ocorrendo em Alagoas com relação ao

em Maragogi e não deixou substituto.

Bumba. Vários grupos estão surgindo a cada

Até meados do século XX havia vários

ano no período momesco, não derivados de

grupos na região Norte e na Zona da Mata,

antigos Bumbas, mas como desdobramento

estendendo-se pela área das lagunas até Mare-

dos Bois-de-Carnaval e adotando o nome

chal Deodoro, documentados por Arthur Ra-

Boi-Bumbá, conforme veremos mais adiante,

mos, Jorge de Lima, Alfredo Brandão, Abelar-

no capítulo relativo a Bois.

do Duarte, Théo Brandão e Câmara Cascudo. Cada um deles descreve apresentações que assistiram, quer com o nome de Bumba-Meu-Boi, quer como Três Pedaços, mas todos grupos relativamente simples, sem grande produção de indumentária e cenografia. Théo Brandão, no livro Folguedos Natalinos, afirmou que o auto nunca foi de forte incidência no estado. O personagem principal, o Boi, entrou como entremeio do Reisado e do Guerreiro, folguedos da preferência do público, que arrebatou o seu principal personagem

158 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Bumba-Meu-Boi Jaraguá Maceió


Personagens e trajes O Bumba-Meu-Boi em sua encenação

e sua mulher Catirina com trajes de escravos

mais completa já foi comparado a uma ópera

remediados, calça comprida, camisa, chapéu

de rua. Com enredo longo e personagens ca-

de palha, e ela de vestido de chita e cabelos

racterizados com capricho e fartura de cores,

com laços de fita. Em alguns grupos o es-

possui grande número de figurantes que se

cravo é substituído por um Mateus. Comple-

colocam em torno do Boi, desempenhando

tam o elenco o Mestre-Sala, que comanda a

suas funções nos diversos atos da apresen-

brincadeira e faz as vezes de fazendeiro dono

tação. Esse elenco é composto por persona-

do animal, a Burrinha, o Cavalo Marinho, o

gens humanos, animais e seres fantásticos.

Mané Pequenino, o Morto-Vivo, o Jaraguá,

O Boi, ou Touro, é feito com uma arma-

Caiporas, o Doutor ou Curandeiro, o Folha-

ção de ripas que dá a forma do corpo, co-

ral, Vaqueiros, Índios, Caboclos e tantas ou-

berta por chita, ou por veludo e brocado,

tras figuras criadas pelo Mestre, conforme as

dependendo das condições econômicas do

situações locais.

grupo. A cabeça, de papel, espuma plástica e

Normalmente, cada integrante se respon-

palha, revestida de tecido bordado ou pinta-

sabiliza pelo seu personagem, o que garante

do, recebe chifres de verdade, muito usados

uma variedade de caracterizações que tor-

nas simulações das marradas durante a brin-

nam a folgança ainda mais interessante. Tam-

cadeira. Embaixo dele, escondido, apenas

bém varia muito o número de participantes,

com o nariz e os olhos de fora, o chamado

dependendo do organizador e das condições

Miolo ou Tripa do Boi, homem forte e bom

econômicas do grupo. No Festival Folclórico

dançador que conduz o animal. Quando as

de Parintins-AM, que acontece todos os anos

apresentação são longas, dois homens reve-

desde 1965, cada grupo se apresenta com

zam no papel.

centenas de figurantes, em desfile alegórico

Não falta o casal de negros, Pai Francisco

que mobiliza multidões.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 159


O Boi e sua evolução

O

Os miolo É pra seu Mané Crioulo. A aparação É pra seu Tubarão.

vocábulo Bumba que nomeia o folgue-

e ressurreição do Boi, passando pela doação das

A rabada

do tem o sentido de estimular, atiçar, es-

partes do animal aos presentes, em espécie de

É pra negrada.

bordoar o animal para que ele reaja, salte, dance,

testamento, quando o tragicômico chega ao seu

A tripa gaiteira

ataque e assim provoque no público a emoção

ponto alto. Abelardo Duarte, no século passado,

É pra dona Eleusa.

alegre da perseguição cenográfica. O zabumbeiro

colheu esta primorosa embaixada, em Taperaguá,

A tripa fininha

toca o bumbo e o Boi bumba na marcação do

município de Marechal Deodoro. Nesse momen-

É pra dona Chiquinha.

instrumento em evoluções soltas e ambivalentes.

to, o homem que conduz o Boi deixa a carcaça

O figo do animal

Reverbera em sua figura o mito da força, da quase

no meio do Terreiro e a cerimônia da partilha é

É pro pessoal

sacralidade, ao som das toadas, com forte carga de

feita pelo Doutor, o mesmo personagem que logo

Resta pouco pra repartir

dramaticidade.

adiante vai reanimá-lo.

Tou com pressa pra sair.

O Bumba-Meu-Boi é das folganças mais

A chã de dentro

Com ar de insinuação pelo que faltava ser re-

tradicionais do país, que encena a um só tempo

É pra seu coroné.

partido, saía o figurante correndo e saltando, cheio

um cortejo dramático que mistura dança, mú-

A chã de fora

de trejeitos, ao som das gargalhadas da plateia. O

sica, teatro e circo das três etnias. Em diferentes

É pra dona Aurora.

testamento é sempre improvisado pelo Doutor, ou

localidades tem recebido acréscimos, inovações

A passarinha

curandeiro, e as pessoas que são agraciadas com os

e exibições grandiosas, como acontece em Parin-

É de dona Aninha.

órgãos do animal se sentem prestigiadas em intera-

tins, no Amazonas. De modo geral, esses grupos

O coxão

gir com a folgança.

se situam na região Norte e em estados como Per-

É pra seu João.

nambuco, que mantém o Bumba com o aparato

Mocotó do pé

clusivo, presente em todas as apresentações: a res-

fantasioso de monumental manifestação popular.

É pra seu Zé.

surreição magistral do Boi, ainda mais ágil e fogoso,

Mocotó da mão

acompanhando o toque do zabumba em seus vol-

pedido de licença para a realização da folgança,

É pro seu Lesbão.

teios e marradas de excelente expressão plástica e

vindo à frente o Pai Francisco, ou o Mateus, e a

Os miúdos

carga de teatralidade.

Catirina. O enredo tem por base a vida, a morte

É pra seu Joca.

As apresentações tradicionais iniciam com o

160 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

Em seguida vem o momento principal e con-


Boi-de-Carnaval

Origem discutida M

antendo a posição de figura emblemática das manifestações popula-

res mais enraizadas da cultura brasileira, o Boi está presente nas festas carnavalescas sob as mais diversas formas e nas mais diferentes regiões. Nunca deixou de aparecer nos carnavais de rua alagoanos, isoladamente ou participando de algum pequeno grupo de La Ursa ou similares.

Boi-de-Carnaval

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 161


Nos últimos tempos, o gosto pelo Boi-de-Carnaval foi crescendo em Maceió, até que, em fins do século passado, o radialista Luís de Barros, com o apoio dos órgãos públicos, deu início a uma competição entre os Bois, que começou timidamente, mas logo ganhou força, com a concorrência entre grupos de bairros, hoje denominados galeras. A partir de então, as apresentações adquiriram nova formatação, que se aproxima, cada vez mais, do cortejo-espetáculo e, embora tenha surgido do Boi-de-Carnaval, transformou-se em outra manifestação, diferente da brincadeira tradicional. Hoje, a disputa acirrada entre os Bois estimula a ampliação e a riqueza ornamental dos conjuntos, que se inspiram no Boi-Bumbá do Amazonas e nas Escolas de Samba do Rio de Janeiro, com tema próprio, bateria, enredo e alas temáticas. Em Maceió, suas exibições levam muitos turistas e nativos à Praça Multieventos, na Pajuçara, local onde os grupos brincam e concorrem a premiações. Boi de Carnaval Evolução 162 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente | 163


CapĂ­tulo IX


Mané do Rosário Figurante

Colaram em meu rosto uma máscara pra fazer divertimento. Quem me vê assim brincando não sabe do meu sofrimento. (Maurício de Macedo)

166 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mané do Rosário

A Vila Real A

Vila do Poxim, no município de Coruripe, não guarda apenas a tradição da realeza de seu antigo nome

– Vila Real de São José do Poxim do Sul – mas também uma história de lutas e glórias. No bojo de suas memórias conserva com apreço as celebrações de fé em torno dos santos católicos, principalmente as do seu padroeiro, São José, cuja imagem está preservada na igreja matriz. É nesse contexto de fé e festividade que surge uma das mais importantes manifestações populares do estado, o Mané do Rosário. A origem do auto está intimamente relacionada ao período de celebração do fervor ao santo, que anualmente é festejado com terços e novenas que antecedem as comemorações ao seu dia, 19 de março, no calendário cristão. Essa é a data em que os fiéis pedem graças, pagam promessas e depositam esperanças no plantio e na colheita farta do milho. A exemplo do que acontece em todo o interior nordestino, o entorno da igreja é o lugar onde se realizam os leilões, as quermesses com barracas de comidas típicas e as apresentações de folguedos que reúnem multidões.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 167


Mané do Rosário Preparativos 168 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O começo do mistério D

izem os mais velhos, que por sua vez repassam a versão reproduzida pelos antepassados, que no ano de 1762 aconteceu a maior

de todas as festas até então realizadas no dia do padroeiro. Havia um mo-

tivo especial para a celebração: a igreja matriz reabria as portas, após longa reforma arquitetônica que consumira muito dinheiro e as expectativas da comunidade. Nessa ocasião, contam que apareceu na porta do templo um sujeito mascarado, com chapéu de palha na cabeça e rosto pintado de preto, como um Bobo de Carnaval, vestindo túnica branca até os pés, descalços. Trazia no pescoço um grande rosário e tocava um chocalho, enquanto arremessava um chicote de folhas de bananeira na garotada que o cercava, em galhofa. De tão inesperado, o fato não provocou outra reação por parte da comunidade senão o questionamento de quem seria o disfarçado. Não existe registro da época que descreva esse fato. O que se sabe vem da tradição oral, do ouvir dizer. Os detalhes mudam, de informante para informante, mas o mote é sempre o mesmo. Alguns dizem que no ano seguinte o mascarado trouxe consigo um parceiro, e assim se repetiu por alguns anos, passando a ser uma atração. Ninguém conseguiu identificá-lo. Conjecturava-se um ou outro nome, naquela comunidade pequena onde todos se conheciam, e ainda hoje se conhecem. Quem não é parente é aderente, vizinho ou compadre. O enigma permaneceu e a figura misteriosa terminou sumindo de forma inesperada, da mesma maneira que surgiu.

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Mané do Rosário Rostos velados 170 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Há quem afirme que o seu aparecimento ocorreu durante cinco anos consecutivos. As pessoas já estavam acostumadas com aquela presença e o personagem passou a ser identificado por Mané do Rosário, porque assim se intitulava ou pelo fato de trazer um rosário ao peito, às vezes mais de um, conforme informações dos moradores mais velhos do lugar. Para muitos, era um pagador de promessas, outros atribuíam a identidade ao organizador dos grupos folclóricos locais, Manoel Félix, homem de temperamento vivo e comunicativo, afeito a brincadeiras; alguns desconfiavam que o mascarado fosse ele, mas o suspeito nunca assumiu. O certo é que o personagem entrou para a cultura do município com essa denominação. De tanto se falar e reclamar da falta que fazia o Mané do Rosário, alguns membros da comunidade, sem esperança no seu retorno, e com espírito lúdico, formaram um pequeno grupo que se apresentava da mesma forma e com os mesmos trejeitos do disfarçado. O grupo se aglomerava de forma espontânea, sem ensaios, acordos prévios de coreografia e sem cantos. Quando o zabumba tocava, todos dançavam e as crianças repetiam os mesmos gracejos de outrora, insultando os dançarinos. Os párocos não se opuseram e a cada ano aumentava o número de participantes na porta da igreja. A brincadeira foi ganhando corpo e função, até se transformar em um folguedo local.

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Registro dos pesquisadores T

héo Brandão, em 1962, na primeira edição do Folguedos Natalinos, já incluíra o Mané do Rosá-

rio na classificação dos folguedos, embora com uma interrogação, denotando saber da existência, mas optando por não descrevê-lo, provavelmente por não ter assistido apresentações. Foi seu discípulo José Maria Tenório Rocha quem registrou o Mané do Rosário nos anos 1980, sendo esta, até o momento, a descrição mais antiga de que se tem notícia. Câmara Cascudo, baseado em suas informações, incluiu no Dicionário do Folclore Brasileiro um verbete sobre a manifestação, selando seu ingresso no rol dos folguedos populares. Por um lapso, o dicionarista cita o livro Folclore Negro das Alagoas também como fonte de informação, mas não consta na obra de Abelardo Duarte referência a essa brincadeira.

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Mané do Rosário Figurantes

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João Lemos, historiador do município de Coruripe, escrevendo sobre a Vila em 2001, fala sobre a tradição do Mané do Rosário e contextualiza a folgança com a experiência de quem convive com a comunidade há mais de duas décadas. A partir daí, alguns registros rápidos aparecem nos jornais e revistas de Alagoas, tornando-o mais conhecido, embora não cheguem a acrescentar dados novos. Em 2012, o trabalho acadêmico de Priscylla Silva, Orgulho ou vergonha? O Mané do Rosário, manifestação do patrimônio cultural intangível de Poxim, veio reforçar a bibliografia sobre o assunto. Como se trata de um folguedo puro, são poucas as referências e as existentes estão limitadas às informações orais dos moradores da Vila. A importância dessa tradição reside justamente na sua genuinidade, o que por si só justifica seu registro como patrimônio imaterial do estado.

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Mané do Rosário Representação

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Personagens e trajes

Mané do Rosário Detalhe

A

o contrário de outras folganças, o Mané do Rosário não tem uma hierarquia de personagens identificadas pelo traje ou pela

posição que ocupam. Também não existe um enredo a ser seguido, compartimentado em jornadas ou peças; muito menos cantos e embaixadas em prosa ou verso. Vale destacar que nele não se nota influência de outros autos nem a adoção de figuras deles provenientes. Todos os participantes vestem-se da mesma forma: saia longa de chita colorida, blusa simples e lisa, imitando o camisão que o mascarado usava, e um chapéu de palha na cabeça, prendendo um pedaço de tecido liso e claro que cobre todo o rosto, exceto os olhos, permitindo visibilidade ao participante. Usam meias cobrindo os braços e as mãos. No ombro, ou no braço, trazem um pano pendente em dobra de estola e alguns completam o traje com um chocalho pendurado no pescoço ou na cintura, como referência ao mascarado que deu origem à manifestação. Atualmente, alguns homens estão usando calças compridas e largas em lugar das saias e os rostos pintados de tinta preta e barbas brancas. Essas figuras trazem as chibatas que simulam afugentar a garotada. Os chapéus são feitos por uma artesã local, que já tem a medida certa para homens, mulheres e crianças e ainda faz o típico chapéu de pescador, com a trança da palha do ouricurizeiro, palmeira comum na região. As abas largas ajudam a dar uma aura mística à indumentária que, em seu conjunto, lembra o ritual muçulmano, apesar de nada ter a ver com esta cultura. 176 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Mané do Rosário Estandarte

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Tradição de Mestra A

líder do grupo é dona Maria Benedita dos Santos, de 57 anos, conhecida por dona Traíra, pelo fato de, na infância, só querer se

alimentar do peixe homônimo. Nascida e criada no Poxim, conta que todos no lugar sabiam que seu paladar estava acostumado ao sabor do peixe: “quem pescava uma traíra ia logo levar lá em casa”. De tão afeiçoada às próprias memórias, ela mesma se apresenta como Traíra. “Aqui na Vila as pessoas não sabem o meu verdadeiro nome, mas se perguntar por dona Traíra todo mundo conhece”, diz Maria Benedita.

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Mestra TraĂ­ra (Maria Benedita dos Santos)

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No Mané do Rosário ela é a Mestra, mas veste traje igual ao dos demais participantes. Ela organiza, promove apresentações, estimula novas adesões e detém o saber. Em 2006 recebeu o título de Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas. Além da honraria, a inclusão nessa categoria garante ao agraciado uma contribuição financeira mensal como estímulo à transmissão do saber, visando a manutenção daquela tradição na comunidade. A Mestra lembra ainda que quando criança seus pais e seus avós também brincaram o Mané do Rosário. “Eu acompanhava com encantamento aquele cortejo. Hoje o considero uma herança de família”, diz em referência ao fato de seus filhos e netos participarem do folguedo e do zelo pelos trajes. Devota fervorosa de São José, acredita que o santo derrama graças especiais sobre os “manés” que dançam em seu louvor.

Mané do Rosário Rosto

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O caminho do cortejo T

odos os anos o desfile começa na

estreitas ou na acústica natural do adro das

casa de dona Traíra. Prontos, os par-

igrejas, os acordes ecoam contagiando a to-

ticipantes saem em cortejo dançando e fa-

dos. Exatamente pelo volume do som que

zendo trejeitos, cumprimentando as pesso-

emite, é carinhosamente conhecida também

as por onde passam, polarizando a atenção

por Quebra Resguardo. Sua composição

de toda a Vila e dos visitantes ávidos por

compreende dois pífanos, duas caixas, ou

conhecer o folguedo. Os “manés” não can-

taróis, um zabumba, um triângulo e um pra-

tam. Apenas dançam ao som de uma ban-

to. O Mestre é sempre o primeiro pifeiro.

da de pífano. Percorrem as ruas principais

Ele comanda o grupo, dá o tom, rege e sola.

em um trajeto que não dura menos de duas horas até chegar à igreja, onde o pároco os espera para então começar a cerimônia religiosa. Presença constante nas festas do interior, a banda é conhecida por Terno de Zabumba, ou Esquenta Mulher, pelo fato de sua cadência irresistível levar as mulheres a rebolar e a se alegrar enquanto passa. Na ruas

Mané do Rosário Caminhada

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Como manda a tradição, o folguedo se apresenta nos últimos dias da novena, 16, 17 e 18 de março. No dia 19, ápice da festa, sai a procissão. Por isso, no final da apresentação, quando chegam à igreja, depois de dançarem em evoluções soltas e individuais, todos acompanham dona Traíra, que puxa a saudação: Chegamos na porta da igreja Para louvar o senhor São José Com o nosso Mané do Rosário Até para o ano, se Deus quiser! E dona Traíra completa em alto e bom som: “E ele haverá de querer!”. Dito isso, o padre abençoa a todos e em cortejo os participantes voltam dançando para a casa de dona Traíra - sede da brincadeira -, onde trocam de roupa, confraternizam-se e se dispersam. Como o Mané do Rosário está em franca expansão, ganhando mais visibilidade a cada ano, eventualmente é chamado para apresentações em ocasiões especiais em outros municípios e fora do estado. O grupo, que a princípio se reunia de forma espontânea e sem pretensões de ir além do encontro divertido entre amigos e devotos, abriu espaço para as mulheres, as crianças e pessoas das comunidades próximas. Participantes se misturam vestidos com trajes iguais e ao primeiro chamado da Mestra, todos acorrem.

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Mané do Rosário Figurantes

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O auto e a função O

folguedo é conhecido por todos os moradores da Vila do Poxim. Trata-se de um raro caso de ascensão de grupo genuíno que vem passan-

do sua arte dos mais velhos aos mais novos com pequenas modificações, mas com muito entusiasmo, aumentando o número de participantes e garantindo a permanência da tradição. O fato de se tratar de uma folgança puramente local talvez explique o gosto da comunidade pela sua conservação. Os integrantes mais antigos, que acompanham o Mané do Rosário por muito tempo, reclamam da gradativa perda ritualística da manifestação. O argumento é o de que atualmente não se preserva, como deveria, o mistério da identidade de seus participantes. Esse ponto é visto como cerne da questão lúdica e histórica que justificaria a existência do grupo. Quando a pesquisadora Priscylla Silva entrevistou pessoas da comunidade, detectou a insatisfação de alguns pelo que chamam de descaracterização do grupo e quebra de seu envolvimento religioso, com apresentações em festas profanas, de caráter cultural e turístico. O saudosismo remete aos pequenos grupos que saíam sem programação pré-estabelecida, cuja intenção era apenas homenagear São José, reforçando a tradição local.

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Mané do Rosário Rostos Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 187


Mané do Rosário Mistério 188 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Contudo, há o reconhecimento de que, graças ao Mané do Rosário, a Vila aparece com destaque no âmbito da cultura popular. O folguedo agrega à história secular de Poxim elementos que movimentam a vida local e suas atividades artesanais, principalmente a venda de bolsas, chapéus e outras peças de trançado da palha, atividade predominantemente feminina. As novas apresentações, deslocadas da festa do padroeiro, têm caráter de divertimento. Além de divulgar e projetar o município, elas angariam fundos para o próprio folguedo, como acontece com todas as brincadeiras que alcançam popularidade fora de seu reduto. Esse deslocamento do espaço de origem, de alguma forma, contribui para a autoestima do grupo e, consequentemente, para o grau de pertencimento que garantirá a sua continuidade. Disseminar as apresentações do Mané do Rosário é um meio de garantir o seu fortalecimento no tempo, acompanhando o movimento da sociedade que a promove. É também um caminho para a intersecção entre a história passada e as expectativas atuais. O caráter ritualístico do auto permanecerá diretamente ligado à festa de São José do Poxim, seu padroeiro, e à simbologia da fé dos tipos populares que ficam na história oral dos lugares, como ficou um certo Manoel do Rosário para a gente da Vila.

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Bando

Arautos de Santa Luzia T

apera é um povoado do município de Anadia. Localizada a 100 quilômetros de

Maceió, no ponto mais elevado daquela região, a área era conhecida à época dos holandeses como Campos dos Arrozais dos Inhauns. O que poucos sabem é que o pacato lugarejo, com vista privilegiada para a Serra Morena, é um dos poucos redutos do estado onde a religiosidade popular assume seu ponto alto. É exatamente em nome da fé em Santa Luzia, a padroeira de Tapera, que os moradores se reúnem todos os anos num ritual de devoção e agradecimento à protetora da visão

Máscara

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O curioso é que embora o dia consagrado a Santa Luzia seja 13 de dezembro, o ciclo da festa, com orações, novenas e cânticos, tem início no final de novembro, logo após a apresentação do folguedo denominado Bando. Cabe ao grupo abrir os caminhos para a festa sagrada. À moda dos arautos de antigamente, o Bando desfila pelas ruas prenunciando os festejos em homenagem à santa. Não se sabe ao certo quando essa prática se iniciou. Na falta de registros, os moradores mais antigos especulam que a folgança remonta à Independência do Brasil. Sabe-se, no entanto, que o costume de anunciar as festas religiosas é tão antigo quanto os próprios festejos. Fazia parte das reminiscências do catolicismo rural, quando se hasteava na porta da igreja um mastro, enfeitado de fitas e flores, com a bandeira do santo. Era o anúncio de que a festa estava por acontecer. Dependendo da história e da vivência de cada comunidade, a forma variava, a exemplo da tradição mantida na Vila do Poxim, por ocasião das apresentações do lendário Mané do Rosário. E assim é na Tapera, onde o auto do Bando, em plena efervescência, interage com a comunidade chamando a atenção de visitantes e pesquisadores que se debruçam sobre o tema. Mascarado Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 191


Personagens e trajes

S

implicidade é a palavra de ordem para designar a estética do Bando, ou Bandos da Tapera.

Devido a não existir enredo, o grupo dispensa personagens com funções e trajes específicos, embora tenha o organizador, que assume a função de Mestre. Como o nome bem define, os integrantes saem em bando, com máscaras e trajes improvisados de Bobos do Carnaval, alguns com uma vara na mão fazendo as vezes de cajado. São homens, mulheres e crianças com a mesma caracterização. O disfarce, escondendo o rosto, alimenta a tradição de mistério e estimula a curiosidade em torno do auto.

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Bando Preparativos

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As máscaras são confeccionadas em papel jornal molhado e amassado, com bastante cola para facilitar a moldagem - técnica conhecida como papel machê. Depois de secas ao sol, as máscaras são pintadas com tinta a óleo, nas cores mais variadas. O resultado é surpreendente, com o desfile dos mascarados diferenciados entre si pela originalidade de cada peça. Os participantes dançam em grupo ao som de uma Banda de Pífano. Alguns vão a cavalo, mas a indumentária tem a mesma característica. As máscaras são feitas em sigilo e ficam escondidas até o dia da exibição com o intuito de causar surpresa e dificultar a identificação do figurante. Em uma comunidade tão pequena, é claro que logo os mascarados são identificados, mas eles insistem no disfarce.

Bando Cortejo Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 195


O Bando em evolução O

grupo, com cerca de 20 integrantes, reúne-se na porta da igreja e o ritual tem início quando um dos

mascarados começa a tocar o sino, puxando a corda que o sacristão cuidadosamente deixa exposta, pendente da torre. Em seguida, em nome da fé, cada um toca o sino. Diz a tradição que aquele que deixar de tocar perde a proteção da santa. O povoado se alvoroça. Todos querem ver o cortejo passar. Os vivas à padroeira ecoam por toda parte. Num determinado instante a Banda para de tocar e a praça silencia. O Mestre anuncia a busca pelo mastro. Todos saem perfilados em duas alas, trazendo-o pintado de azul e precedido pela bandeira de Santa Luzia. A população interage aplaudindo e gritando saudações à padroeira.

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Bando Exibição

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Bando Mascarados 198 | Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente


A Banda toca marchas e benditos, enquanto os figurantes deixam a igreja levando a haste no cortejo. Dançam e cantam alegremente, acompanhados pela população, passando pelas ruas e sítios até voltar para a porta da igreja, onde renovam vivas e palmas. Um deles coloca a bandeira na ponta do mastro, que logo em seguida é plantado no meio da praça. Por fim, um mascarado posiciona-se ao lado dele e abre solenemente um canudo de papel, como faziam os antigos arautos, e lê o que chamam “edital”. A leitura se faz em voz alta, clamando pelos mortos ilustres da comunidade, de quem relembram feitos e qualidades morais e, em seguida, convocam os vivos, nominando alguns, para comparecerem à festa da padroeira. Na leitura solene, além da programação, o mascarado agradece ao pároco e aplaude a igreja e a santa, seguido em coro pelos demais integrantes e pela população. A Banda executa o bendito, dando por encerrado o ritual.

Bando Mistério

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Dança de São Gonçalo

A origem remota Á

gua Branca é uma espécie de oásis no sertão alagoano. O clima ameno e serrano favorece a vegetação, cujo

verde desafia as agruras da seca que abate a região. Terra de barões e baronesas, e também de Lampião e Corisco, tem o passado preservado na arquitetura de suas igrejas e de seu casario. Além do acervo histórico, o município desponta como um importante centro de cultura imaterial com diversos folguedos e rituais populares, como a Dança de São Gonçalo do Amarante, marco da cultura local. O santo é conhecido na iconografia popular católica como protetor dos músicos, artistas e moças casamenteiras. Morreu em Amarante, norte de Portugal, local onde foi erguido um convento em sua homenagem. Tido na concepção popular como um santo alegre, tem como atributo uma viola, o que o credencia a ser o protetor dos violeiros nordestinos.

Dança de São Gonçalo A música 200 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Não se sabe quando a Dança de São Gonçalo chegou ao Brasil, muito menos à Água Branca, mas sabe-se que se trata de uma tradição portuguesa, cuja prática está ligada ao pagamento de promessas. Contam os mais antigos que a Dança logo foi integrada ao sincretismo religioso e praticada pelos negros escravizados com total aceitação de seus senhores. Em meio a tantas proibições enfrentadas pelos escravos, a permissão para a prática desse ritual justificava-se no medo que os senhores brancos tinham das punições que o santo poderia lhes infligir. Chegavam a dar dinheiro e garantiam a farta refeição dos negros no final das orações. Embora esteja em processo de extinção, existem registros da prática da Dança de São Gonçalo em alguns pontos do país, como em Sergipe e na Bahia. Considerado um auto rural e votivo, vem resistindo ao processo de folclorização urbana. Em Alagoas, até poucos anos, no sítio Ouricuri, em Água Branca, existia o grupo do Mestre José Luiz dos Santos, desativado após a sua morte.

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Danรงa de Sรฃo Gonรงalo Figurantes

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Hoje, no povoado Cal, distante aproximadamente 25 quilômetros da cidade sede do mesmo município, outro grupo existe e continua se apresentando na sua função religiosa. Desde a década de 1960, o Guia Deca (José Ricardo Neto dos Santos) o comanda na Igreja Comunitária de São Gonçalo, que ele mesmo construiu. No lugarejo todos participam ativamente, dançando ou interagindo como devotos, pagadores de promessa. Patrimônio Vivo de Alagoas, Deca aprendeu na infância a dançar a louvação e desde então a pratica como uma espécie de “obrigação” levada a sério enquanto vida tiver, conforme suas próprias palavras. A tradição foi passada pelos beatos Pedro Batista e Maria das Dores, em Santa Brígida, cidade baiana próxima à Água Branca, considerada uma região onde é tênue a fronteira cultural entre os estados de Alagoas e da Bahia. Atualmente, o grupo só aparece em momentos votivos ou para “encomendar” a alma de algum morto, cuja família acredita na intercessão de São Gonçalo junto à Divina Providência. Devido a essa fidelidade à função ritualística, a Dança mantém sua conceituação original e o Guia Deca é o primeiro a defender essa posição. O repasse do saber já está sendo por ele transmitido a integrantes que revelam aptidão para comandar espiritualmente o grupo, quando for necessário.

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Personagens e trajes T

odos vestem branco - cor fundamental da indumentária - da cabeça aos pés e com rou-

pas iguais. Os homens, calças e camisas com mangas curtas e boina na cabeça. As mulheres, saias longas e blusas também com mangas e um lenço amarrado na cabeça, escondendo os cabelos. Além do guia espiritual detentor do conhecimento, alguns homens compõem a bandinha de música e doze mulheres fazem parte do grupo de dança. Uma delas é a Contraguia, que vem à frente trazendo a imagem de São Gonçalo, em torno da qual as jornadas se desenvolvem. Outros personagens aparecem eventualmente - são os pagadores de promessas, que têm funções a desempenhar.

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Danรงa de Sรฃo Gonรงalo Trajeto

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Danรงa de Sรฃo Gonรงalo Cerimonial

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A dança e a evolução A

o som de violas e rabecas, acompanhadas por tambor, recorreco, triângulo e pandeiro, o grupo de mulheres se

organiza em duas alas. Após a Contraguia, vem o Guia Espiritual. Posicionam-se em frente ao altar, dançando em ritmo dolente e constante, a princípio em alas, depois em círculo. Em determinado momento um novo círculo se forma com os devotos que estão ali para pagar promessas. No centro fica quem encomendou a dança, com o santo na mão, passando por entre os que reverenciam a imagem e agradecem as graças alcançadas. O curioso é que os devotos que não podem pagar a oferenda aguardam uma ocasião em que o grupo se apresente publicamente, para só então participar e, consequentemente, ficar quite com o santo. O Guia canta as jornadas, em número de doze, que se estendem da tarde ao começo da noite, enquanto as doze mulheres dançam e acompanham o ritmo com um sapateado que ecoa no salão da igreja comunitária. No caso de “encomendação” da alma, o rito é mais demorado e o Guia leva quatro ou seis mulheres para se revezarem na dança, acontecendo o mesmo com os músicos. No final da “obrigação”, como denominam o ritual, cumprimentam-se respeitosamente.

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CapĂ­tulo X


José Avelino Caboclinho Barra do Camaragibe

Do homem de alamares não me assusta a voz rouca, a faixa a tiracolo e tanta medalha na roupa. (Maurício de Macedo)

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TORÉ

Tradição ancestral E

ntre as manifestações culturais e religiosas mantidas pelas populações indígenas brasileiras, o Toré se destaca como

referência no processo de demarcação identitária e territorial. Considerado um dos mais importantes rituais praticados por tribos de diferentes etnias e regiões do Nordeste brasileiro, a dança sagrada é também cultuada como um símbolo de encantamento capaz de manter, ao mesmo tempo, o vínculo com os antepassados e a revitalização da tradição no contexto atual.

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Nas comunidades indígenas o Toré é o momento onde espiritualidade, integração à natureza, identidade social e memória se fundem num ritual permeado de sons e movimentos corporais específicos. Cânticos são entoados em meio a deslocamentos em giros. Aos pares, eles seguem a cadência determinada pelo som dos maracás. A marcação é feita com os pés, que tocam firme no chão. Alternam saltos com coreografia de meio círculo para trás. Para muitas tribos a dança representa a ligação da aldeia com a força que domina o mundo, aquela que atende aos anseios dos povos indígenas, reconhece sua história e preserva a vida social e a organização tribal. Outros o traduzem como um espírito protetor da saúde, que transmite a sabedoria de índios e caboclos que “baixam” para indicar chás e banhos com ervas medicinais, como acontece no culto afro-brasileiro. Registros históricos dão conta de que os negros escravizados praticavam o Toré em seus rituais de guerra, invocando o conhecimento da terra nas horas de fuga. Presente no auto folclórico do Quilombo, ainda que em circunstâncias distintas, essa prática reflete o entrelaçamento cultural entre negros, índios e caboclos.

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Ritual Xucurus Palmeira dos รndios

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Ritual Kariri Xocó Porto Real do Colégio

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O sentido da dança A

lgumas comunidades remanescentes nos municípios de Palmeira dos Índios, Pariconha, Porto Real do Colégio, São Sebastião e Joaquim Gomes mantêm

a tradição da dança como meio de reafirmação da crença nos ancestrais e da integração entre os membros da aldeia. O Toré é também um momento de purificação e resguardo das maleficências e infortúnios. A cerimônia é restrita ao grupo e, eventualmente, aos poucos convidados, o que representa grande distinção. Não se trata de uma manifestação lúdica, mas de um rito, através do qual os povos indígenas celebram suas divindades e dançam por melhores colheitas, fartura para a terra e para seus descendentes. O caráter coletivo do ritual é marcado pela participação de todos na preparação, cada um desempenhando papel específico. Além da utilização de trajes típicos, o Toré resgata a tradição dos hábitos alimentares indígenas. A bebida, feita à base de sumo de jurema, é misturada a diversas ervas e servida em pote de barro próprio para a ocasião. O cachimbo baforado pelos participantes tem também o sentido simbólico de comunhão. É oferecido pelo Pajé, que conduz a cerimônia ao lado do Cacique. O som vem da taboca com que fazem flautas e um instrumento que lembra uma trombeta rústica e alongada, que emite um som lúgubre. Apitos feitos da cauda do tatu e maracás de cabaças com sementes em seu bojo acompanham o ritmo e a batida forte dos pés levantando a poeira no terreiro batido.

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Indumentรกria cerimonial 216 | Alagoas Popular - Folguedos e Danรงas de Nossa Gente


Personagens e trajes O

autêntico Toré de aldeia não permite a inclusão de mulheres. Apenas os homens estão aptos a partici-

par da dança. Nessas ocasiões, vestem-se com penas de aves de cores variadas e com palha de ouricuri, usada também na confecção das máscaras. A fibra é trançada ou desfiada depois de seca e costurada com seu próprio fio, que faz as vezes de linha. Os adereços são de ossos e dentes de animais colocados sobre os corpos pintados de urucum (vermelho) e jenipapo (preto). Os motivos da pintura expressam padrões de beleza e insígnias de poder hierárquico. O Pajé é quem dita as normas e detém o saber. A ele compete a invocação dos ancestrais e o comando espiritual da dança.

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O folguedo e a folclorização do rito A

ssim como ocorreu com outras ma-

mais diversas festividades, incluindo os perío-

nifestações, com o passar do tempo e

dos de Natal e Carnaval.

por ocasião das comemorações alusivas ao Dia

Nessas ocasiões, os integrantes, caracteriza-

do Índio, 19 de abril, o Toré sofreu um proces-

dos de índios, vestem tangas de palha ou de pe-

so de folclorização. Fora das aldeias, passou a

nas, cocares, braceletes e perneiras dos mesmos

ser representado por pessoas que não mantêm

materiais. Contas de miçanga completam os

qualquer tipo de relação com as comunidades

adornos. Os grupos são formados basicamente

indígenas.

por jovens e crianças. Os homens, munidos de

A versão folclorizada foi incluída no rol dos

arco e flecha, completam a coreografia simu-

folguedos populares de inspiração nativa. Nes-

lando o uso da arma. Deixam o peito nu e usam

sas apresentações, a caracterização da dança

colares e faixas de palha trançada, enquanto as

é feita de forma simplificada, estilizada e sem

mulheres vestem um cobre-seios e colares que

vínculo com o aspecto mítico da tradição man-

completam o figurino indígena. Dançam dan-

tida até os dias atuais por tribos de diferentes

do-se as mãos, inclinam a cabeça para a frente,

etnias.

soltam-se e acompanham o ritmo com pouco

O ponto alto das apresentações ocorre no mês de abril, geralmente nas escolas e centros

movimento de corpo. Não há molejo de quadris nem de ombros e os passos não variam.

culturais. Embora as pesquisas realizadas pelo

Os cantos são monossilábicos, quase im-

folclorista Théo Brandão na década de 1950

perceptíveis, improvisados e onomatopaicos,

não incluam o Toré no grupo dos folguedos

emitindo sons que intercalam com a chamada:

natalinos, atualmente ele pode ser visto nas

Toré, Toré, Toré!!!

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Folclorização do Toré

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 219


Caboclinho

Origem indígena O

auto do Caboclinho é outro folguedo inspirado na cultura indígena. Conhecido também por Ca-

boclinhos, tem origem no início da colonização, época em que as manifestações nativas eram exploradas pelos frades portugueses em favor da missão evangelizadora. A transfiguração dos ritos, danças e cantos era, então, um meio eficaz de difusão do catolicismo. Dóceis e suscetíveis, as crianças eram as primeiras a ser submetidas ao insidioso processo de catequese. Devido a esse perfil catequista, muitos pesquisadores atribuem a denominação diminutiva do folguedo ao fato de ter sido, originalmente, direcionado ao público mirim: os caboclinhos. Àquela época, índios e miscigenados eram conhecidos, genericamente, por caboclos - designação ainda hoje usada na região Nordeste.

Mestra Miram Caboclinho Barra do Camaragibe 220 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Tomando por base a manifestação nativa, os portugueses desvirtuavam a natureza original dos saberes religioso e cultural locais, ao mesmo tempo em que incutiam e propagavam hábitos e crenças ibéricos. Espalhavam na Colônia uma nova forma de ver o mundo. Na área dos folguedos não foi diferente. A efetividade do processo de assimilação cultural se dava por meio da introdução de elementos de folganças e memórias do colonizador, criando outra modalidade de auto, com feição lúdica, sob a égide de seus interesses. No vácuo dessas transformações, o Caboclinho se apresenta com coreografia que lembra os rituais indígenas, mas a composição dos cantos e dos trajes, em alguns estados, é nitidamente portuguesa. Não faltam, aqui e acolá, traços da cultura dos negros escravizados que, com o tempo, foram aparecendo na folgança.

Pai Velho José Avelino Barra do Camaragibe Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 221


O auto da região Norte A

referência ao auto, em Alagoas, vem dos grupos do Norte, zona que congregou até início deste

século, o maior número de Caboclinhos, com formação semelhante e funções desempenhadas conforme a mesma orientação. A Mestra Miram, também chamada Guia, mantém a tradição no comando do grupo Caboclinhas do Passo, reproduzindo os cantos e as evoluções com peças antigas, guardadas na memória, e outras que improvisa no fulgor das apresentações. A influência do traje de procedência portuguesa é muito forte no estado em detrimento da caracterização indígena, cujos elementos aparecem de forma discreta nos adornos e nos cantos. Essa predominância na indumentária define a própria vertente do grupo e sua inclinação no desenvolvimento do enredo e da função. Em Pernambuco, ao contrário do que acontece em Alagoas, a ênfase é dada aos elementos indígenas, contudo, eles são trabalhados de forma idealizada, distante da matriz referencial. Os desfiles enfatizam a feição exótica de uma brasilidade estilizada. Os integrantes trazem nos corpos e nas alegorias muitas penas coloridas e dançam

Caboclinho Barra do Camaragibe

exibindo manobras que fazem da folgança uma atração da cultura regional. 222 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Na Paraíba, no Rio Grande do Norte e em outros estados, o auto também aparece com características particulares; ainda assim, conservam traços da origem comum. Atualmente, em Alagoas, o folguedo encontra-se em processo de desativação. O desaparecimento dos Caboclinhos de vários municípios se deu por razões diversas, que vão desde a falta de um Mestre para a condução dos trabalhos, até a preferência dos figurantes por outras modalidades de folguedo. Apesar dessa descontinuidade, as referências à folgança permanecem vivas na região. Em meados do século passado, Penedo, Atalaia, Pilar, Porto Calvo, Porto de Pedras, Passo de Camaragibe e São Miguel dos Milagres mantinham seus grupos em atividade. O ânimo foi arrefecendo e hoje em dia a tradição dos Caboclinhos pode ser vista apenas em Barra de Camaragibe, no Litoral Norte, município de Passo de Camaragibe. Os brincantes apresentam-se no Carnaval como a atração principal, atraindo o interesse da comunidade que aguarda e acompanha o cortejo. As apresentações acontecem também no Natal e em diversos eventos comemorativos, ocasiões em que os cantos são adequados à temática das festividades. O grupo de Passo do Camaragibe, atualmente comandado pela Mestra Miram, que segue a tradição familiar, vem de uma história de várias gerações. Acostumada a brincar desde criança, ela assumiu a liderança com a morte repentina do Mestre Joel. Muito querida na comunidade, Mestra Miram consegue manter carinhosamente articulado o grupo, que, nas apresentações, interage com o público, estimulando o interesse pelo folguedo, transformado em verdadeiro ícone do município. Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 223


Personagens e trajes

D

a mesma forma que acontece com

tas vezes diferem uns dos outros na forma-

o Reisado, o Guerreiro, a Folia de

ção do seu naipe.

Reis e outros autos de influência ibérica es-

Os integrantes são trajados de acordo

palhados pelo país, as figurantes são chama-

com suas funções e trazem os atributos que

das Caboclinhas e se vestem com trajes se-

lhes são peculiares: estandarte, coroas, ce-

melhantes aos dos antigos autos das Janeiras

tros, ventarolas, pandeiros. A Mestra, com

e Reis, do Cciclo Natalino em Portugal.

um bastão e um apito, guia os demais figu-

No caso dos Caboclinhos há uma parti-

rantes, auxiliada pela Contramestra. O Pai

cularidade: a indumentária recebe, entre se-

Velho difere do conjunto com calça e boina

das e fitas coloridas, decoração de penas de

brancas e camisa vermelha, portando o ma-

aves domésticas, alusivas à cultura indígena.

chado de Xangô.

Flores e folhas também exercem o sentido

O estandarte é cuidadosamente restau-

simbólico de identidade com a terra e o

rado todos os anos quando a decoração é

meio ambiente.

refeita, as franjas e penas são substituídas e

Entre os destaque estão o Mestre ou a

a data do ano é atualizada. Ao lado do nome

Mestra, o Contramestre, Rei e Rainha, Por-

do grupo permanece a data de sua criação:

ta-Bandeira, Cacique, Pajé, Embaixadores,

quanto mais antigo o grupo , maior é o or-

Vassalos e Pai Velho. Há uma flexibilidade

gulho dos participantes, que fazem questão

em retirar e incluir personagens, conforme a

de destacar a longevidade da organização

vontade do Mestre. Por isso, os grupos mui-

nas apresentações.

224 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


Personagens de Caboclinho em evolução Barra do Camaragibe

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 225


O auto e a função E

E na despedida, a clássica de quase todos

ntre as peças mais conhecidas e que

Não existe um enredo, como acontece

atravessam gerações, merecendo o

com alguns grupos que desenvolvem cenas

registro de pesquisadores, este canto evoca a

de lutas e conquista do cetro real, com os fi-

Boa noite, meus senhores,

paisagem litorânea da própria região.

gurantes munidos de arco e flecha na encena-

Caboclinho vai embora.

Tava na beira da praia,

ção de pelejas bem engendradas. As peças são

Ficará para o ano,

Vendo a maré que fazia.

soltas e falam sobre temas diversos, mistura-

Se nós vivo for,

Quando eu ia, ela voltava,

dos entre si, como a vida do caboclo - a terra,

Meus senhores e senhoras.

Quando eu voltava, ela ia.

os santos e os pajés, os combates e a valentia

O progresso dos passos não ultrapassa a

Dei laço na fita verde,

dos nativos.

Dei outro na verde rama.

os folguedos:

marcha rítmica para frente e para trás. Em

Partes soltas da Lira, do Rei Catulé e entre-

dado momento, começam a dar uns pulinhos

Benzinho você não sabe,

meios de antigos Reisados são incorporados

sem sair do lugar, como nas danças indígenas,

Quem é cativo não ama.

à folgança entre as peças e embaixadas, sem

e sem perder o ritmo. A evolução, contínua,

O grupo sai em cortejo formado em duas

nenhuma preocupação com a sequência lógi-

discreta, mantendo a recorrência dos passos,

alas. A Guia, Miram, que é também a Rainha,

ca de um enredo. Não faltam os pedidos de

ainda comporta uma peça de troca de lados,

no centro, puxa as peças e chama os figuran-

abrição de portas e as saudações, cantadas na

como se os participantes estivessem passean-

tes pelo nome em embaixadas rimadas que

chegada ao local da apresentação:

do na outra ala. Uma banda de pífano segura

estimulam a dança e mantêm a animação.

Boa noite, Caboclinha, Boa noite venho dar, Quero ver tudo animado, Dentro deste arraiá

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a animação.


Mané do Rosário com estandarte Figurantes Caboclinho Barra do Camaragibe Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 227


Cambindas

Herança boreal

A

Alagoas do Norte mantém em sua memória um importante acervo de acontecimentos históricos e

sociais que se perpetuaram no imaginário popular, compondo um vasto repertório de lendas, canções, adágios e folganças. São resquícios amalgamados da presença de índios, portugueses, holandeses e africanos. Juntas, essas culturas resultaram em uma mistura étnica e social que deu origem à criação de núcleos coloniais e à expansão e povoamento da região. Os municípios de Porto de Pedras e São Miguel dos Milagres, encravados na área litorânea, comprovam essa resistência histórica, mantendo tradições folclóricas, reminiscências de antigos folguedos indígenas e os de matriz africana. A existência, nas duas localidades, de grupos de Cambindas representa um alento à manutenção do patrimônio vivo em uma área dominada pelo avanço do turismo exploratório de suas belezas naturais. Personagens de Cambindas 228 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente


O folguedo tem origem nas celebrações festivas ao Rei do Congo. O nome Cambindas reporta o auto às reminiscências de uma região homônima de Angola, que funcionava como porto por onde embarcaram os negros com destino ao Brasil. Porto de Pedras, município mais antigo, “uma cidade a seu modo obediente aos caprichos do rio e às razões do mar”, como diz Dirceu Lindoso, une-se a São Miguel dos Milagres por uma rua longa e única, paralela ao mar. Da mesma forma, a comunidade é também uma só em todo aquele litoral. Os grupos de Cambindas não fogem a essa regra geográfica: os participantes chegam de um e de outro município movidos pela força da história e da tradição oral responsável por reproduzir costumes típicos da vida praieira. Além de herdar dos vizinhos do norte o gosto pelo folguedo, eles guardam na memória as referências de antigos Mestres, o que permite a recomposição do auto, especificamente com base nas formações mais recentes, do século passado. Em pesquisa realizada na década de 1970, José Maria Tenório Rocha levantou antecedentes históricos dos grupos, chegando à Cambinda Luanda do Mestre Isauro Osório, que deixou na linhagem de descendentes a Cambinda Nova, do Mestre Valdir Almeida Lins, seu neto, e a Cambinda do Mestre Cocó, Cosme Henrique de Oliveira.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 229


A folgança continua A

tualmente, os grupos de Cambinda mantidos em Porto de Pedras e em São Miguel dos Milagres

saem, no período de Carnaval, com um cortejo de foliões que acompanham o desfile dançando e cantando junto com os figurantes. No Porto, uma das figuras mais conhecidas é a do Mestre Noa, querido na comunidade pelo temperamento alegre e comunicativo. No comando das Cambindas, destaca-se pela irreverência de suas peças e rapidez de raciocínio, improvisando e repassando antigas cantigas que a memória popular se encarregou de preservar. Os integrantes do grupo, todos do sexo masculino, travestem-se de mulher, à semelhança do que ocorre na Baiana e no Samba-de-Matuto. Em São Miguel dos Milagres as Cambindas saem dançando em cortejo sob a orientação da Mestra Terezinha, também mãe de santo do terreiro local. Nas apresentações, ecoa nos quatro cantos da cidadezinha a voz esganiçada da Mestra, que é prontamente atendida pelas Cambindas, figurantes mulheres que respondem em coro os cantos e as embaixadas.

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Mestra Terezinha Cambindas em formação

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Personagens e trajes O

Porta-Estandarte sai na frente, seguido pelo Mestre, ou Mestra, que alardeia a chegada do

grupo com seu apito estridente. Entre duas alas de Cambindas, que podem ser homens travestidos ou mulheres, com roupas semelhantes às das Baianas, perfilam-se os personagens principais que podem apresentar alguma variação de grupo para grupo. Aparecem Rei, Rainha, Embaixadores, ou Embaixadoras, Vassalo, Índios, Preto Velho, todos caracterizados e com atribuições próprias. Os grupos mais tradicionais mantêm a Dama do Paço, integrante que traz uma boneca representando a figura histórica de dona Leopoldina. O Mestre e a Mestra têm a autoridade de se trajar conforme lhes convém, com roupa comum ou caracterizados, como a Mestra Terezinha de São Miguel dos Milagres, que vem de saia longa e rodada com o colorido do seu baianal e um quepe, modelo militar, com as mesmas cores. Nacionalista convicta, traja o verde e o amarelo que são extensivos ao seu grupo. Valorizados como personagens de destaque, estão os Índios com fartos cocares.

Mestra Terezinha

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Cambindas em evolução

O

s grupos dançam ao som de bandas musicais que tocam ritmos animados, pró-

prios da festa carnavalesca. O cortejo segue em direção à igreja principal onde está a imagem do padroeiro, ou padroeira, para as devidas homenagens na forma de cantos de saudações. Em seguida, encaminham-se para a praça, local da festa, onde enfim interagem com blocos carnavalescos e foliões. Os passos da dança são acrescidos de reque-

brados e trejeitos, enquanto as figuras do centro fazem as evoluções e cantam peças soltas repetidas e sempre presentes nos grupos locais, ou criadas pelo Mestre ou pela Mestra. O Cambindas está entre os autos que perderam o conceito original de reverência aos Reis do Congo e à tradição trazida pelos negros aqui escravizados. O distanciamento do conteúdo inicial da folgança tem enfraquecido os grupos a ponto de alguns pesquisadores preferirem incluí-lo como variante do Maracatu. Personagens de Cambindas Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 233


Glossรกrio & Bibliografia


Glossário Abrição – corruptela de abrir. “Abrição de

dezembro de 1985, pelos folcloristas Ranil-

ou metal representando a forma humana.

porta” é termo usado pelos brincantes para

son França e Josefina Novaes, com o objetivo

Aparece como fetiche de divindade. Nos fol-

designar a saudação inicial, o pedido de licen-

de incentivar os grupos folclóricos tradicio-

guedos também representa vultos históricos.

ça para o folguedo se apresentar.

nais do estado. A Asfopal foi iniciada com 17

Cordão – grupo de brincantes enfileira-

Adivinhas – perguntas, ambíguas ou não,

grupos, entre Guerreiro, Pastoril, Fandango,

dos. O mesmo que ala. No Pastoril, no Fan-

de charadas desafiadoras que fazem parte da

Coco de Roda etc.

dango e em vários folguedos, a formação dos

nossa cultura popular.

Auto – representação popular, com cantos

figurantes é em dois cordões, fiando no cen-

Antônio Gramsci – filósofo, cientista

e danças, tratando de temas religiosos ou pro-

tro os personagens de destaque.

social, ativista político italiano. Defendia que

fanos. O mesmo que folguedo.

Duarte Coelho Pereira – militar e

a escola deve dar acesso à cultura às diferentes

Baianal - vocábulo criado pelas brincantes

administrador colonial português. Primeiro

classes sociais para que todos pudessem ter

de Baiana para denominar o folguedo em que

donatário da capitania de Pernambuco.

cidadania plena

brincam.

Embolada - coco de

Aricuri, ou ouricuri – pal-

Brincante – participante de brincadeiras,

improviso, também cha-

meira nativa cujas folhas são muito

folias tradicionais, folclóricas ou populares.

mado coco de repente.

usadas para fazer utensílios artesa-

Cafuringa

– corruptela de Curinga, fi-

Misto de dança e desafio,

nais e que fornecem cocos, peque-

gurante que pode desempenhar vários papéis

muito popular na região

nos e comestíveis, usados no fabri-

em cena, devido à sua versatilidade. Seu cha-

nordestina e particular-

co de óleo.

péu lembra a forma de um funil.

mente em Alagoas.

Associação de Folguedos Po-

Caldeamento – mistura, fusão.

Entremeio – parte que se inclui no fol-

pulares de Alagoas – criada em 27 de

Calunga – boneca de pano, madeira, osso

guedo, de permeio, entre suas jornadas.

Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente | 235


Ethos – ideias, valores ou crenças caracterís-

Prenda

ticas de uma coletividade, época ou região.

que se oferece a alguém. No Presépio e no

Evolução

– movimentos coreográficos

Pastoril os torcedores de cada cordão ofere-

de passos, de jogo de corpo, de gestos que

cem prendas em dinheiro às pastoras prefe-

acompanham a música e os cantos. Quanto

ridas.

mais desembaraço na evolução, mais a apre-

Oneyda Alvarenga – intelectual bra-

sentação é enriquecida.

sileira ligada ao folclore, à poesia e à música.

– o mesmo que presente, dádiva

Amiga e parceira de Mário de Andrade em pesquisas sobre a cultura popular.

Peleja de repentistas – contenda em versos de poetas populares. Perante o público,

Função – na cultura popular, função de-

Lusbel – corruptela de Lúcifer, o anjo do

a partir de um mote escolhido por um parti-

signa o desenrolar das apresentações dos fol-

mal, o demônio.

cipante, cada um desenvolve a sua arte provo-

guedos. Quando um grupo folclórico entra

Manjedoura

em cena, todos esperam que ele desenvolva

colocam comida para os animais. Entrou para

Sentinelas – igual a Incelenças, Cantigas

bem a função, isto é, a dança, os cantos e a

a história do cristianismo como o local onde

de Grandes ou Bendito de Defuntos. Forma

apresentação.

Jesus Cristo nasceu.

típica de expressão cultural nordestina, e em

Grêmio Guimarães Passos – as-

Manobra – movimento coreográfico ar-

menor escala de outras regiões brasileiras.

sociação literária fundada em Maceió nos

rojado, com idas e vindas que surpreendem

Cânticos executados sobre a cabeceira dos

anos 30 do século passado, que congregou os

o público.

doentes terminais ou dos defuntos.

chamados “Meninos Impossíveis”, jovens ta-

Midiático – o que é difundido pela mídia.

lentosos que depois se tornaram grandes no-

Refere-se a todo e qualquer suporte de difu-

mes da intelectualidade alagoana e brasileira.

são da informação.

Jornada – divisão de peças teatrais, mu-

Pertencimento – crença em uma ori-

sicais e autos pastoris desde o século XV. O

gem comum entre indivíduos distintos que

mesmo que atos e cenas. É a divisão das di-

adotam símbolos que expressam valore e as-

versas partes que compreendem um folgue-

pirações. Considerar a si mesmo como mem-

Tropel

do, podendo ser sequenciada ou solta.

bro de uma coletividade.

pisadas dos brincantes.

236 | Alagoas Popular - Folguedos e Danças de Nossa Gente

– local onde os pastores

cando ou respondendo ao rival.

– ruído ritmado provocado pelas


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Alagoas Popular - Gazeta de Alagoas  

Aqui os temos novamente, em “Alagoas Popular – Folguedos e Danças de Nossa Gente”, emergindo das sombras à luz, para serem reconhecidos como...

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