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Jornal Regional • Periodicidade Mensal • Director: Miguel António Rodrigues • Edição nº 86 • 30 Abril 2020 • Preço 1 cêntimo

Valor Local

Investigação Valor Local

Não é preciso quarentenas nem testes

Lares ilegais da região aceitam idosos sem restrições mesmo com a pandemia Sociedade na 5

Câmaras de Azambuja e Benavente oferecem ventiladores ao Hospital de Vila Franca

Sociedade na 9

Destaque da 10 à 12

Negócios reinventam-se em tempos de Covid-19

Ouvimos alguns dos maiores especialistas nacionais sobre a evolução da pandemia

Investigação Covid 19 na 18 e 19 PUB


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Câmaras Municipais distribuem milhões de euros em ajudas Covid-19 Desde o decretar do estado de emergência que os vários municípios têm anunciado medidas de mitigação dos efeitos da pandemia, com a divulgação de mais apoios sociais, sobretudo. Com muitos eventos suspensos para os próximos meses, as autarquias têm canalizado as verbas relacionadas com as festas até ao verão para ajudar as famílias, as empresas, as instituições.

Azambuja município de Azambuja aprovou um conjunto de medidas de apoio às famílias, IPSS, e empresas do concelho no âmbito da pandemia por Covid-19. Luís de Sousa, presidente da Câmara, salienta ao nosso jornal que o pacote pode estender-se a mais áreas consoante a avaliação no terreno. Algumas das medidas terão de ser ainda aprovadas em sede da assembleia municipal. A Câmara de Azambuja suspendeu ainda os eventos Feira de Maio e Ávinho para este ano.

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Outra das medidas passa pela criação de uma espécie de “gabinete de crise” que vai fazer a ponte entre os vários departamentos de recursos humanos das empresas sedeadas em Azambuja e a inserção profissional. Luís de Sousa vinca a importância desta medida, tanto mais que visa encaminhar alguns desempregados para as firmas de distribuição do concelho. No entanto os apoios não ficam por aqui, já que o autarca revela que no âmbito da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo (CIMLT), estão a ser estudadas outras medidas de apoio, desta vez dedicadas ao pequeno comércio que é o grosso da economia local. Neste campo insere-se a criação de um conselho estratégico, cujo regulamento já foi aprovado pela autarquia e que vai integrar algumas instituições ligadas à economia local com o objetivo de verificar as necessidades dos pequenos empresários e definir estratégias de futuro, pós pandemia.

Alenquer Luís de Sousa No que diz respeito à fatura da água, e aos benefícios que os munícipes podem conseguir durante o estado de emergência, os cortes no abastecimento estão parados nos meses de abril, maio e junho. As únicas isenções ou reduções vão para as taxas arrecadadas pela Câmara, ou seja a nível dos Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) com isenção total para as IPSS a nível do pagamento da tarifa de disponibilidade fixa e da tarifa variável de gestão de RSU. Já os consumidores particulares beneficiam de uma redução de 35 por cento nas duas tarifas relacionadas com os lixos. Segundo Luís de Sousa, presidente da Câmara, ao Valor Local, significa um “esforço financeiro de 50 mil euros”. No que respeita ao apoio ao incremento económico, e aos empresários, o autarca refere que, desde logo, uma das primeiras preocupações vai para os agricultores. O autarca revela que a Câmara está a estabelecer uma ponte, para que os produtores possam escoar os seus produtos no grupo Jerónimo Martins, dono da marca Pingo Doce.

ste município anuncia, entre outras medidas, o programa de ajuda alimentar já existente e que é desenvolvido no terreno por várias IPSS’s: Centro Social Paroquial do Carregado; Centro Social e Paroquial Nossa Senhora das Virtudes de Ventosa; Irmandade de Santa Cruz e Passos de Nosso senhor Jesus Cristo de Alenquer; Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega da Merceana. Para além desse reforço será ainda proporcionada uma verba financeira de igual valor ao apoio alimentar prestado, através das instituições,

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contribuindo para a resolução de outras carências diversas (medicamentos, produtos de higiene e proteção individual, entre outros) de pessoas ou famílias em situação de vulnerabilidade social. Para dar resposta a novos casos de carências sociais, o município protocolou o serviço de EuroTicket Refeição com uma empresa do setor, assegurando-se o apoio específico para a aquisição de produtos alimentares em superfícies comerciais e/ou refeições em estabelecimentos comerciais do concelho às novas famílias em situação de carência económica, proporcionando uma maior oportunidade de venda e negócio neste período de crise a todos. Outra das medidas já aprovadas diz respeito ao alargamento do tarifário social da água, saneamento e resíduos, a agregados familiares em situação de carência económica, devidamente comprovada. No caso específico do tarifário dos resíduos, esta medida será alargada às IPSS do concelho, com o estatuto de utilidade pública. Ainda no que diz respeito ao apoio às famílias, na área da educação, o município de Alenquer está a trabalhar com as direções dos agrupamentos de escolas no empréstimo de computadores portáteis a alunos, para já, do ensino secundário, criando uma rede de distribuição de documentos no concelho para outros alunos de quem se espera a realização de trabalhos específicos, entre outras medidas ainda por delinear, em articulação com as necessidades expressas pelos agrupamentos de escolas. Foi ainda aprovado um reforço de 250 mil euros do Fundo Social de Emergência, para aquisição de produtos diversos de proteção individual, de limpeza e desinfeção, e para apoios diversos a entidades de salvamento e socorro, de segurança, de cariz social entre outras necessidades que se venham a identificar.

Arruda dos Vinhos Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos vai financiar com 50 mil euros, a fundo perdido, uma iniciativa de crowdfunding para apoio a atividades comerciais. De acordo com o presidente da autarquia em declarações ao Valor Local, esta iniciativa pretende possibilitar o apoio da sociedade civil,

A Pedro Folgado

André Rijo através de um sistema de financiamento colaborativo, a atividades comerciais. André Rijo refere que “este é um financiamento que vai proporcionar aos comerciantes que tiveram de encerrar portas por causa das restrições, uma hipótese de colocar a sociedade a colaborar” para evitar o encerramento dos espaços comerciais mais pequenos. O autarca revela que esta medida será tomada independentemente das outras medidas já implantadas pelo Governo, sejam medidas de apoio ao nível dos impostos ou das linhas de crédito já apresentadas. A ideia é criar “um financiamento a fundo perdido para que estes comerciantes tenham um balão de oxigénio no início da retoma da atividade” sabendo a autarquia que muitas das empresas, a maioria familiares, não conseguem fazer face às despesas sem ter qualquer tipo de receitas. O regulamento para o funcionamento do crowdfunding, deverá estar disponível durante o mês de maio. André Rijo refere que a retoma e o readquirir de hábitos de consumo vai ser um processo lento, apesar de todas as medidas que possam vir a ser tomadas. Em causa está basicamente a confiança dos consumidores que terá ficado bastante afetada com a crise. O autarca refere, entretanto, ter a noção de que este valor não será o suficiente, mas é uma forma de “mobilizar alguns dos setores que não tiveram perdas com a crise. Este perceberá que com a estabilização da crise sanitária é importante não perder os clientes de referência”. Este é um trabalho que está a ser

levado a cabo em conjunto com a Associação Comércio Indústria e Serviços de Vila Franca e Arruda e a associação local do Vale Encantado Market. Ainda no que toca às medidas de apoio, a Câmara de Arruda vai disponibilizar cerca de 365 mil euros para reforçar alguns setores. Estas são verbas que seriam utilizadas em alguns eventos, como é o caso do Mercado Oitocentista e que agora passarão a vigorar. Tendo em conta as consequências sociais e económicas que a pandemia da COVID-19 trouxe à vida de todos, a Câmara Municipal decidiu adequar a estrutura da despesa de investimento prevista inicialmente no orçamento municipal de 2020, retirando as verbas para projetos ou ações que, “sendo pertinentes e importantes, no atual contexto de pandemia não poderão ser considerados essenciais, e em alternativa, no âmbito dos programas de apoio”, diz o autarca. Segundo Rijo, estas verbas resultam da suspensão dos orçamentos participativos, ações de requalificação urbana, projetos de programação cultural e eventos, requalificação da Escola de Alcobela e adaptação a centro de exposições entre outros. As verbas, para além de apoio às famílias, serão também empregues em projetos imediatos de combate à pandemia, para apoio a IPSS, bombeiros e centro de saúde (Veja esta entrevista na integra em vídeo nos sites www.valorlocal.pt e www.chafariz.pt)

Benavente o concelho de Benavente, a Câmara deliberou conceder um apoio extraordinário às instituições particulares de solidariedade social no valor de 23 mil 450 euros, com o objetivo principal de contribuir para a redução dos encargos das famílias com as mensalidades devidas às IPSS e de contribuir para a sustentabilidade económico-financeira daquelas instituições. O apoio financeiro extraordinário às IPSS do concelho respeita às valências de creche, jardim de infância, atividades de tempos livres, centro de atividade ocupacional e resposta socioeducativa, estes dois últimos na área da deficiência, atividades legalmente suspensas por força da vigência do Estado de Emergência Nacional.

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A Câmara Municipal de Benavente aprovou, ainda, várias medidas de apoio às famílias. Assim, as medidas ora aprovadas pela Câmara Municipal de Benavente visam mitigar as graves situações de carência e vulnerabilidade socioeconómica e correspondem a um esforço financeiro do orçamento municipal de 200 mil euros. De entre as medidas destaca-se o fornecimento de refeições diárias; a atribuição de cabazes alimentares de emergência social; a comparticipação financeira nas despesas com a saúde de primeira necessidade (medicamentos e outros); a comparticipação financeira nas despesas com bens de higiene pessoal de primeira necessidade; a comparticipação financeira nas despesas domésticas – com a água, a luz, o gás e o telefone. As informações adicionais sobre a forma de acesso a estas medidas são prestadas através da Linha de Apoio Psicossocial – 263 519 666 /8 ou pelo e-mail:

Carlos Coutinho

pcmun.aps@cm-benavente.pt.

Cartaxo Câmara do Cartaxo que está sob a alçada do Fundo de Apoio Municipal depende de uma autorização daquele programa do Estado para ir mais além nas medidas sociais de apoio às famílias. Até ao fecho desta edição não havia informação por parte deste município quanto a um plano a levar em frente neste âmbito. Mas para já e na linha da frente vão avançar apoios, também em articulação com a Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, no que respeita à facilitação e entrega gratuita de máscaras e equipamentos de pro-

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Pedro Ribeiro teção. “São para já as medidas de penso rápido, e que compreendem ainda a eliminação de taxas e licenças, mas em articulação com o FAM vamos tentar perceber se temos capacidade para prescindir de algumas receitas”, referiu Pedro Ribeiro, presidente da Câmara ao nosso jornal. “A dotação orçamental para essas medidas mais abrangentes relacionadas com o apoio social, familiar, às empresas e instituições está dependente do que o FAM permitir”. Também a nível da Educação, o município em articulação com a CIMLT está a articular no levantamento do número de população escolar sem computador/internet para que seja lançado um “procedimento de aquisição de computadores e internet”. Os computadores serão emprestados até ao final do ano letivo às crianças e jovens de cada um dos concelhos, neste caso o Cartaxo.

co e populista”. “Centramo-nos nas pessoas que efetivamente não têm meios para adquirir esse material através da ação social da Câmara”. Em articulação com a Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, este município está a levar a efeito testes covid-19 nas várias instituições que acolhem idosos no concelho. Paralelamente, e segundo Hélder Esménio decorrem as ações de limpeza do espaço público. Ao mesmo tempo que foram reforçadas as ações de apoio domiciliário junto dos idosos em articulação com a rede social, nomeadamente, os que se encontravam em centro de dia, ou os que caíram em situação de vulnerabilidade e isolamento social. Neste município, no âmbito das medidas Covid-19, foram restringidos alguns serviços camarários, “mas decidiu-se manter a funcionar o espaço do cidadão, os postos CTT responsabilidade da Câmara, e o balcão único de atendimento com o objetivo de transmitir alguma tranquilidade às pessoas em situações que sejam mais urgentes”, dá conta o autarca. Os demais serviços estão disponíveis através de contacto telefónico. Quanto a demais medidas sociais implementadas, a Câmara isentou durante três meses o pagamento das rendas municipais, mensalidades da universidade sénior e piscinas municipais. Forneceu ainda mais apoio nas refeições escolares. Ao todo, este esforço financeiro da

Vila Franca de Xira

Salvaterra de Magos presidente da Câmara, Hélder Esménio, elenca que uma das apostas tem passado pela entrega de material de proteção como máscaras, luvas, entre outros, junto das instituições particulares de solidariedade social, movimento associativo, e entidades de socorro no concelho, mas admite que “distribuir máscaras a toda a população seria demagógi-

Câmara ronda os 300 mil euros. “Até ao fim do ano, estes números vão sofrer uma atualização, mas para já e feitas as contas para estes primeiros meses é essa a verba que estamos a aplicar”, descreve Esménio.

Câmara de Vila Franca anunciou logo nos primeiros dias do estado de emergência um apoio de três milhões de euros. No que toca às famílias, a autarquia decidiu-se pela “isenção do pagamento de todas as rendas habitacionais de natureza social, no âmbito do arrendamento apoiado” e da “isenção total do pagamento das mensalidades relativas a atividades desportivas nos equipamentos municipais”. Por outro lado, a Câmara garante

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Hélder Esménio

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“o alargamento do prazo de pagamento das refeições escolares referentes aos meses de fevereiro e março do ano em curso, até 30 de junho próximo” e a criação de linha

Sociedade 3 de apoio psicológico às famílias. No que se refere ao movimento associativo, a câmara garante a agilização e simplificação do pagamento dos apoios financeiros “enquadrados no âmbito do Programa de Apoio ao Movimento Associativo” e a isenção do pagamento das taxas referentes à utilização dos equipamentos municipais de desporto. Quanto às Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), Alberto Mesquita anunciou apoios financeiros extraordinário “no que respeita ao fornecimento de refeições escolares, salientando também apoios extraordinários às entidades do concelho que têm parcerias de âmbito cultural com o município, no valor de 200 euros mês por área.” No desporto, a autarquia preparase para dar apoios financeiros extraordinários às entidades que têm parcerias de âmbito desportivo, no valor de 10 euros por mês por atleta. A autarquia vai também isentar do pagamento de rendas, os estabelecimentos comerciais, sitos em imóveis municipais, que se encontrem encerrados e isentará igualmente o pagamento de taxas e rendas a pagar pelos comerciantes instalados nos mercados municipais. Os Serviços de Água e Saneamento de Vila Franca de Xira (SMAS) vão, por outro lado, implantar também um conjunto de medidas de apoio aos clientes. En-

Alberto Mesquita tre as medidas apresentadas, encontra-se a suspensão das leituras reais dos contadores de água, fazendo a faturação por estimativa. Aquela entidade suspende durante os próximos meses os cortes do abastecimento de água, por incumprimento do pagamento da faturação em dívida, bem como a isenção das tarifas fixas de venda de água e saneamento e tratamento de águas residuais. Os SMAS preparam-se também para fazer acordos de pagamento e isenção de juros de mora, que neste caso é aplicável à faturação de água emitida neste período e a não aplicação de juros a acordos de pagamento, até ao limite de 4 prestações, nos consumos mensais que não ultrapassem os 500m³. PUB


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José Martins, major do exército, considera que Ota não devia ter sido solução para os infetados com Covid osé Martins, major do exército, na reforma considera que a opção das autoridades em levar de um hostel de Lisboa 170 infetados, na sua maioria migrantes, por Covid-19 para a Ota não foi a mais correta. José Martins que atualmente desempenha funções de presidente da Junta do Carregado e Cadafais, tem uma vasta experiência no que toca à instituição militar onde esteve cerca de 30 anos. Foi na qualidade de antigo militar que falou ao Valor Local sobre o atual momento que as Forças Armadas Portuguesas (FAP) estão a viver em Portugal. Para José Martins, as FAP “estão ao nível das melhores” e reforça: “Podemos ser pequeninos no tamanho, mas somos grandes no conhecimento e no empenho n as missões”. O antigo militar revela que, no seu entender, havia outras soluções para “isolar” os infetados mais perto de Lisboa “que está cercada por muitos quartéis com capacidade de confinamento e todas as

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O atual presidente da junta do Carregado dá a sua visão sobre os migrantes que vieram de Lisboa para a Ota características que podiam ser aproveitadas nesse sentido”. Para José Martins a deslocalização das pessoas infetadas “para a base da Ota que embora esteja isolada tem pessoas a viver à volta não foi a mais acertada”. “Não concordo” porque acima de tudo “falta uma mensagem de confian-

ça à população”, lamentando que nem a própria junta de Ota teve conhecimento das intenções das autoridades de saúde. José Martins vai ainda mais longe ao afirmar “que as juntas de freguesia são o parente mais pobre da política no nosso país”. O antigo militar refere que as juntas são

o órgão autárquico mais próximo das pessoas e em muitos casos são ignoradas, ressalvando o facto de não ter qualquer razão de queixa da articulação com a Câmara Municipal de Alenquer, no entanto, refere que essa prática é cada vez mais comum no território nacional.

O antigo militar diz não criticar a decisão, mas refere, por outro lado, que a própria deslocalização das pessoas através de autocarros da capital para Ota, também acarretou riscos, na sua opinião, a que se juntou o facto de estarem agora mais longe dos hospitais de referência “embora permaneçam em quarentena”. Com duas missões na Bósnia, José Martins conhece bem as capacidades do exército português. “Temos uma boa capacidade técnica ao nível, por exemplo, da engenharia”, e isso “faz toda a diferença numa altura em que as forças armadas são chamadas a servir o país, embora em contexto de paz.” “Temos um conhecimento acumulado nas forças armadas que se for bem aproveitado pode contribuir muito mais em prol da população e pode ajudar que no terreno se possa restabelecer mais depressa a normalidade”. Há, no entanto, uma série de “entraves” que enfraqueceram as forças armadas. “A falta de meios e

de efetivos que se tem agravado nos últimos anos fruto de opções políticas”, de acordo com José Martins. Neste último caso insere-se o fim do serviço militar obrigatório. José Martins refere que não defende os dois anos obrigatórios, mas um modelo mais leve, vincando a importância dos valores adquiridos na instituição militar. Por outro lado, e com uma experiência no mundo da proteção civil como comandante dos bombeiros de Sacavém e membro do conselho diretivo do INEM, José Martins salienta que ninguém estava preparado para a pandemia. José Martins revela que os portugueses estão a saber enfrentar os problemas com elevação e vinca que, nestas últimas semanas, temos assistido a uma reeducação da sociedade. As pessoas “já não vão tanto às urgências dos hospitais”. “Questionam essa necessidade” e isso, segundo o antigo militar é fruto, por exemplo, de uma aprendizagem nova.

Covid-19: Emigrante nos Estados Unidos “Foi uma resposta musculada a tudo” viver há 17 anos nos Estados Unidos, Renato Pinto considera que a resposta das autoridades americanas tem sido musculada face aos dias de pandemia que o mundo está a atravessar. Ao dia de hoje, aquele país regista um total de 980 mil oito casos de infeção e 55 mil 637 óbitos. O emigrante oriundo de Azambuja tem vivido, estes dias, em casa numa quase “reclusão” tendo saído apenas para ir às compras. A residir no estado do Texas onde estão cerca de 30 milhões de pessoas, Renato Pinto acha agora “estranho “ ver “tan-

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ques a lavar as ruas” algo impensável há alguns dias atrás. Para o emigrante, a resposta de Trump foi tardia, no entanto, as medidas que estão a ser tomadas agora, podem colmatar em muito “as próximas necessidades das pessoas”. Uma das medidas impostas pelo presidente foi a entrega de subsídios a aos cidadãos no valor de cerca de 1000 dólares para cada um “o que vai fazer diferença”, refere Renato Pinto, nomeadamente, no que toca ao número crescente de desempregados. Antes desta crise, a economia dos Estados Unidos “estava ultra

pujante” refere o emigrante, mas a pandemia veio agudizar “as coisas”. No entanto, espera que as medidas que têm sido colocadas em prática pela administração de Trump, possam surtir efeito em breve. No que toca ao serviço público de saúde nos Estado Unidos, Renato Pinto salienta que mesmo quem não tem seguro é tratado ao Covid-19 bem como outras doenças. “Ninguém fica por tratar” garante o português que exemplifica com a sua situação no passado: “Fiz um plano de pagamentos. Não ao tinha seguro, mas fui tratado”.

Renato Pinto é natural de Azambuja e vive há 17 anos nas terras do Tio Sam

Liga dos Chineses em Portugal entregou máscaras cirúrgicas em Alenquer Liga dos Chineses em Portugal ofereceu mais de 100 mil máscaras cirúrgicas a diversos municípios portugueses, instituições e forças de segurança. Por ser entre os municípios contemplados, o mais próximo da alfândega de Lisboa, Alenquer acabou por rececionar todas as mais de cem mil unidades. A distribuição decorreu, na presença do presidente do município de Alenquer,

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do presidente da Liga dos Chineses em Portugal, Y Ping Chow e dos representantes das instituições contempladas. Na cerimónia, o presidente da Liga dos Chineses em Portugal, esclareceu que estas máscaras foram doadas à sua instituição pela cidade chinesa de Lanxi e pelo Instituto Lanxi Hongze Charity Hall. Alenquer recebeu 20 mil másca-

ras cirúrgicas, os municípios da Maia, Mirandela, Vila do Conde, Condeixa, Matosinhos, Ovar, Santa Maria da Feira e Barcelos, receberam oito mil unidades cada. Com seis mil unidades foram contemplados o Alto Comissariado da Migração e a PSP e a GNR do Porto. A direção-geral do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras recebeu quatro mil unidades.

Oferta de máscaras a vários concelhos do país decorreu em Alenquer


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Não é preciso quarentenas nem testes

Lares ilegais da região aceitam idosos sem restrições mesmo com a pandemia Direção Geral de Saúde, no contexto da pandemia, indicou um conjunto de medidas com caráter obrigatório (orientação 009/2020) para as estruturas de lares de idosos no país. Assim sendo e de forma a reduzir os casos de infeção, todos os idosos que sejam admitidos têm de fazer o teste sorológico de Covid-19 previamente. No caso de resultado negativo, e assim que derem ingresso no lar terão de cumprir uma quarentena obrigatória de 14 dias isolados dos restantes utentes, e de preferência sempre com o mesmo funcionário adstrito aos cuidados que esse idoso vai necessitar. O Valor Local entrou em contacto com alguns lares ou casas de acolhimento que se fazem anunciar nas diversas plataformas eletrónicas como aceitando idosos para saber até que ponto esta medida estava ou não a ser acautelada. A nossa abordagem consistia em dizer que queríamos uma vaga para familiar, procurando saber preços e exigências em tempo de Covid-19. Como são estruturas que funcionam clandestinamente neste tempo de Covid-19 a incúria acaba por continuar a ser palavra de ordem, e sobretudo quando estamos a falar da camada populacional mais vulnerável à doença. Foi o que conseguimos apurar recorrendo a anúncios via net. Um dos contactos dizia respeito a uma casa de acolhimento, no concelho de Salvaterra, com capacidade para três utentes. Fomos informados que a mensalidade seria 800 euros mais 50 euros para aquisição de fraldas. Este é um valor que não anda longe do praticado em IPSS da região ou mesmo em lares privados em que a exigência no cumprimento das regras é mais apertada. Nesta

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casa de acolhimento do concelho de Salvaterra de Magos, a proprietária não fez especiais questões acerca da hipotética idosa referida pela nossa reportagem, nomeadamente, estado de saúde, morbilidades, grau de autonomia, e quando questionámos acerca da existência de constrangimentos em virtude do Covid-19, não apresentou dificuldades – “Não é preciso trazer nenhum papel do

tas e a conhecer a casa. Mas quanto ao ingresso da suposta avó nada de especial – “Se me dá a garantia, então não há problema. Está tudo bem”. Mas, novamente, sem direito a conhecer o lar. “Nesta altura envio fotografias”, garante. Basta deixar a idosa à porta, fazer o pagamento via transferência bancária, que depois a proprietária se encarregaria de acompanhar a avó ao quarto

tem um médico e uma enfermeira com quem troca alguns conselhos sobre o Covid-19. É sabido que estas estruturas mantêm por vezes profissionais da área da saúde a prestar serviços, coniventes com a situação de ilegalidade e de funcionamento à margem da lei destes ditos lares. Noutra casa de acolhimento, desta feita no concelho do Cartaxo, a mensalidade é de 700 euros. A

Casas clandestinas não colocam entraves nem condições à entrada de idosos mesmo com a pandemia

médico, basta-me a sua palavra de que a sua avó está bem”. Ainda no concelho de Salvaterra de Magos, na freguesia de Marinhais, ligámos para outro número. Novamente, uma casa de acolhimento particular. A proprietária tem quatro utentes aos seus cuidados. O valor da mensalidade é de 600 euros, mas quando se fala em restrições em tempo de Covid-19 só as coloca quanto a visi-

reservado. “Deixe à porta que eu levo lá para dentro”, é assim que passa a descrever todo o cenário futuro. Com o decorrer da conversa lá vai dizendo que se os familiares fizerem mesmo questão de conhecer a sua casa que deixa entrar mas “com luvas, máscara e roupão”. Durante a pandemia diz que não tem saído do lar, nem tão pouco a empregada. Dormem nas instalações e garante que

proprietária procura saber um pouco mais do estado clínico da hipotética idosa para a qual procuramos uma vaga. Se tem ou não sintomas do Covid-19 bem como os familiares mais próximos. Garantimos que está tudo bem, e como tal não é preciso mais nada para recebermos luz verde. “Não é preciso ir ao médico até porque sabemos que nesta altura é complicado ter consultas”

refere a proprietária. A “nossa” avó ficaria, uma vez instalada nesta casa de acolhimento, num quarto com mais três utentes e claro está sem cumprir qualquer tipo de quarentena específica. “Não é preciso grande coisa. A nossa casa é familiar. Só temos quatro idosos a residir connosco. As empregadas também não têm sintomas”. A única salvaguarda são as visitas. Diz-nos a proprietária que nesta fase dá privilégio à videochamada, ou então, sugere-nos, que os familiares apareçam à entrada da casa e sempre dá para dizer um adeus ou um olá “mas tudo sem grandes contactos ou afetos”. “Tem de ser!”, desabafa. Por último e de regresso ao concelho de Salvaterra de Magos, um dos municípios da região onde os lares ilegais são quase porta sim, porta não, é nos dito pela proprietária de uma casa de acolhimento de Marinhais que o valor da mensalidade é de 600 euros. Neste momento tem três idosos a residir com a família composta ainda por marido e filhos. Os utentes têm entre 87 e 92 anos. Quanto a exigências não faz muitas. “Se me garante que ela tem estado sempre em casa e não tem sintomas, por mim está tudo bem”. Esta proprietária sabe que o teste de Covid-19 é importante, e que é passado “pelos médicos de família”, mas no seu caso não faz questão. Procura antes saber qual o histórico de outras doenças para o caso “de existir alguma emergência, um dia, e ter de a levar para o hospital”. No caso desta casa de acolhimento, a nossa idosa ficaria num quarto com “mais uma menina”, ou seja outra utente. “Somos uma casa particular, e vivemos todos em família”, salienta. Contactado pelo Valor Local, o

presidente da Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos (ALI), João Ferreira Almeida considera “inacreditável” o estado de coisas descrito pelo nosso jornal, mas confessa não se admirar tendo em conta o modus operandi destas casas que funcionam à margem da lei. João Ferreira Almeida considera que a lei e as recomendações da Direção Geral de Saúde um pouco por todo o país estão a ser acatada, à exceção destas “casas clandestinas onde de facto tudo é possível”. Para o dirigente e face ao estado de coisas “é tudo uma questão de a Segurança Social querer atuar, mobilizar meios e recursos que em articulação com os bombeiros de cada concelho, não tem problemas nenhuns em saber quais são os lares ilegais e verificar de facto como é que andam a trabalhar no Covid 19”. O problema, salienta, “é que nesta altura se calhar ainda é mais difícil mobilizar meios para o terreno”. A pandemia pode ter um efeito rastilho preocupante neste tipo de estruturas ilegais - “Temo que a situação, dentro de algum tempo, possa ficar muito feia”. Mas também, salienta, que na sua perceção “ninguém se preocupa com essas casas (municípios, Segurança Social e a própria rede social) porque nada como ignorar um problema para não se tratar dele”. João Ferreira de Almeida diz que os distritos de Santarém e de Setúbal são os mais emblemáticos no que respeita a este tipo de lares em todo o país. Segundo os últimos da Direção Geral de Saúde há 5976 casos de infeção por Covid-19 em indivíduos acima dos 70 anos. Já morreram 828 pessoas com mais de 70 anos no nosso país vítimas desta doença.

Obras da UAP em Azambuja apenas concluídas em 2021 ão está prevista para este ano a conclusão das obras no edifício dos serviços técnicos da Câmara de Azambuja. A obra está parada depois da primeira fase, que consistiu na colocação do telhado, e Luís de Sousa, presidente da Câmara, garante que “por ser uma obra muito dispendiosa” não está prevista a reabertura da UAP (Unidade de Atendimento ao Publico) e dos serviços técnicos que ficam no mesmo edifício, tão depressa. O presidente da Câmara de Azambuja refere que está a ser

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elaborada uma candidatura a fundos da União Europeia e que só depois disso pode haver uma abertura de concurso. Ao Valor Local, chegaram algumas queixas dos funcionários dos serviços técnicos que lamentam o fato de não “terem à mão” os processos das obras do concelho. Os funcionários dizem que sempre que precisam de consultar um processo têm de se deslocar à galeria municipal, onde estão provisoriamente os documentos, e que isso implica tempo nas deslocações, algo que antes era feito na

hora. Ao Valor Local Luís de Sousa reconhece que pode ser complicada a logística associada ao serviço. No entanto, o autarca refere que “não deixam de ter razão”. Contudo o autarca salienta que os funcionários “não estão assim tão apertados porque também têm os trabalhos no exterior, e não estão lá todos ao mesmo tempo”. Luís de Sousa diz que o assunto está a ser tratado e, por outro lado, diz que os técnicos de informática estão em piores condições. A sala necessita de estar

sempre com uma determinada temperatura e já não tem espaço para crescer mais. Por isso revela que este departamento vai passar do edifício principal para o edifício dos serviços técnicos, para uma ala que recentemente ficou livre, assim que as obras fiquem concluídas, o que deverá acontecer no limite em 2021. Assim, e no próximo ano, o edifício do antigo Paço da Rainha vai albergar não dois, mas três departamentos: os serviços técnicos, a UAP e a informática do município de Azambuja.

Obra ainda vai sofrer novo impasse até estar concluída


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Mercearia de Cabanas do Chão em documentário sobre o impacto da pandemia ona Ana” é o nome de um curto documentário do criador de conteúdos, Diogo Caramujo, que filmou a sua mãe Ana nas rotinas da sua pequena mercearia em Cabanas do Chão em tempo de Covid-19. Ponto de encontro da aldeia, é por aquele estabelecimento comercial que passam e se encontram, todos os dias, pessoas de todas as idades daquela localidade do concelho de Alenquer. “Dona Ana – Uma porta aberta em pleno estado de emergência” assim se chama este filme. A mãe de Diogo Caramujo referese a este tempo apelidando-o de grande crise. Vemos a dona Ana a colocar luvas e uma viseira no início do filme. Para ela estar de porta aberta é uma obrigação. É dos poucos locais a funcionar na aldeia. E como se sabe muitos recorreram às mercearias desde que o estado de emergência foi decretado. Dona Ana não é só uma comerciante é também uma psicóloga ou amiga para as pessoas mais idosas. Aquelas que têm mais dificuldade em compreender estes tempos, que são obrigadas a ficar ainda mais sozinhas quando antes já viviam na solidão.

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Diogo homenageia a mãe em documentário

Diogo Caramujo conta que este tem sido um dos principais desafios da mãe, porque “essas pessoas não têm muitas vezes suporte familiar, e por isso há mais dificuldade em perceber o que se está a passar. Algumas até se revoltam”, refere. A mãe no vídeo diz

que apesar de todas as limitações, essa camada da população acaba por se deslocar ainda mais à mercearia. Mas também passou a ajudar os clientes que preferem, nesta altura, encomendar as compras a partir de casa e assim cumprirem o distanciamento social. – “Ficam

muito agradecidos, principalmente quando lhes facilito no pagamento das compras apenas quando recebem a pensão”. Dona Ana conta que não aumentou os preços e que isso também foi bem acolhido pela comunidade que agora sente mais dificuldades. Na sua loja só

entram três pessoas de cada vez. Fornece gel para as mãos. “Ando sempre a desinfetar as superfícies”. Por outro lado, tem ajudado os clientes com máscaras. “Não sei se são as melhores. Montei um atelier e vou costurando máscaras para dar às pessoas”.

O que mais lhe custa neste tempo de pandemia é ficar longe dos netos. Já lá vai mais de um mês. Fez anos recentemente. Nesse dia teve uma pequena alegria – Os netos vieram à porta cantar-lhe os parabéns. Diogo Caramujo diz que a prenda de anos foi uma viseira que a comerciante mostra durante o vídeo. “Custa-me não poder abraçar os meus filhos, netos e noras”. Quando chega à noite é pior, “porque estou sozinha e começo a pensar se vamos ficar doentes, e no que nos vai acontecer com esta doença”. “Depois disto temos de ser mais humanos uns com os outros e a medir as consequências dos nossos atos. Só espero abraçar e beijar a minha família o mais depressa possível”. Diogo Caramujo tem-se dedicado a vários projetos deste tipo durante a quarentena. Também fez um filme na garagem da sua casa intitulado “Coronavirus Covid-19” em que tenta deixar uma mensagem de esperança e de sobrevivência. É esse também o sentimento que deixa com o filme em que homenageia a sua mãe. Que este é um tempo de reflexão e que há que continuar a ter esperança.

Comunidade Intermunicipal Lezíria do Tejo adquire testes Covid-19 o âmbito do fundo de 270 mil euros inicialmente criado pela Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo (CIMLT) para o combate à Covid19, foram adquiridas máscaras FFP 2, máscaras cirúrgicas, fatos de proteção individual e 9 ventiladores para entregar aos hospitais de referência na Lezíria do Tejo, designadamente o Hospital Distrital de Santarém e o Hospital de Vila Franca de Xira.

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Face à excecionalidade da situação de emergência de saúde pública que se tem vivido e à proliferação de casos registados de contágio com Covid19, em especial junto da população mais vulnerável, a CIMLT estabeleceu uma parceria com a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e contratou a esta entidade 2000 testes PCR, pelo valor de 142 mil euros, os quais visam

reforçar o número de testes a realizar pelo setor da Saúde em todos os Lares de Idosos da Lezíria do Tejo. Ainda no âmbito dos testes, os municípios da Lezíria do Tejo registam o facto de o Agrupamento de Centros de Saúde da Lezíria do Tejo já ter iniciado os testes às forças de segurança e corporações de bombeiros e o Hospital Distrital de Santarém, aos profis-

sionais de saúde. Assim, está garantido que estes grupos bastante expostos à Covid19 vão ser testados. Para além dos 400 mil euros já investidos, os municípios da Lezíria do Tejo consideram e vão aumentar o investimento no combate ao Covid19, encontrando-se neste momento, a CIMLT, a efetuar “um rigoroso levantamento” dos equipamentos sociais da re-

gião (lares de idosos, centros de dia, centros de atividades ocupacionais, unidades de cuidados continuados, serviços de apoio domiciliário, e outros), “pois entende que é de vital importância poder dotar todas as entidades (IPSS e equiparadas) de meios e equipamentos necessários ao combate da propagação da doença, designadamente dotar os utentes e funcionários de equipa-

mentos de proteção individual como luvas, máscaras e gel desinfetante”, diz a CIMLT em comunicado. Sobre a utilização generalizada das máscaras comunitárias ou sociais, os municípios da Lezíria do Tejo garantem que acionarão os apoios através da ação social aos munícipes que tenham dificuldades financeiras para a sua aquisição.

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Através de protocolo estabelecido com Faculdade de Farmácia


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Casa do Povo de Manique reforça apoio domiciliário devido ao Covid om a chegada da Covid-19 as instituições particulares de solidariedade social tiveram de se adaptar a uma nova realidade. É o caso do Centro de Dia da Casa do Povo de Manique do Intendente que na impossibilidade de manter os idosos no seu edifício, está a acompanhá-los em casa. Pedro Moita, presidente da direção e diretor da instituição, fala num “desafio” que tem vindo a ser vencido aos poucos, e que a IPSS está a saber ultrapassar. Ao Valor Local, refere que, nesta altura, a higiene dos mais velhos é feita no domicílio e que isso acarreta mais logística à instituição. Pedro Moita salienta que para além dos idosos e famílias que acompanhava, teve apenas o acréscimo de três famílias que vinham sinalizadas pela ação social da Câmara de Azambuja. O responsável vinca que como a autarquia não está a entregar os habituais vales de compras solidários devido à pandemia, cabe à IPSS preencher essa necessidade dessas famílias que são moradoras no alto concelho de Azambuja. Pedro Moita salienta que tanto a higiene que era feita no centro de dia, como as refeições são agora realizadas em casa dos utentes algo que significa “mais dificuldades de logística”, no entanto já ultrapassadas com o empréstimo

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Casa do Povo de Manique teve de se adaptar à pandemia de uma segunda viatura por parte da autarquia. Aliás esta viatura tem sido uma mais valia para a Casa do Povo de Manique do Intendente. “Pedimos apoio ao vereador Silvino Lúcio e em menos de dez minutos tivemos aqui uma carrinha”. Pedro Moita refere que com o encerramento do espaço físico, aumentaram as necessidades de

se ir ao domicílio. As contas são fáceis de fazer. Nesta altura a Casa do Povo tem uma “volta grande a dar”. Fornece apoios em casa aos habituais 12 utentes do centro de dia, aos quais acrescenta 38 utentes em apoio domiciliário, mais alguns “casos esporádicos que vão aparecendo, a pedido da união de Freguesias ou da Câmara de Azambu-

ja”. O diretor salienta que existe um cuidado extremo no que toca ao contacto dos funcionários da Casa do Povo com os utentes. As funcionárias estão devidamente protegidas contra a pandemia, e isso tem também feito diferença, já que Pedro Moita vinca a oferta de equipamentos de proteção por parte de algumas

entidades privadas e da Câmara de Azambuja. No entanto, esta pandemia trouxe também dificuldades de tesouraria à instituição. O diretor refere, no entanto, que a Câmara de Azambuja dobrou o subsídio o que faz diferença nas contas finais e que atenua por exemplo as receitas previstas para 2020. Em causa está a seção da cole-

tividade que engloba, por exemplo, o aluguer do pavilhão. “Os alugueres estão parados e o pavilhão fechado, e por isso as verbas que advinham desse serviço fazem diferença nas contas anuais”, estima. Pesa ainda nas contas da instituição o facto de as tasquinhas de Manique terem sido anuladas e que costumavam ser uma boa fonte de receita.

Vera Oliveira conta como foi passar pelo Covid-19 esde março que Vera Oliveira, de Alenquer, vem partilhando na sua página de Facebook a sua cruzada contra o coronavírus. Foi em março que testou positivo, e assim que começaram a aparecer os primeiros sintomas pressentiu logo que estava infetada com o Covid-19. Não se tratava de mais uma gripe de inverno. O seu trabalho é no setor do turismo e durante o mês de março contactou com estrangeiros que estiveram no nosso país. Um forte aperto no peito, perda do olfato e do paladar e um cansaço permanente foram apenas alguns dos sintomas. Ao nosso jornal conta que os primeiros sintomas surgiram a 16 de março. De doze a 16 de março contactou com turistas no aeroporto, em Lisboa, no âmbito do seu trabalho relacionado com tours e transfers. Recorda-se bem como tudo começou – “Parecia que o meu coração estava a ser apertado com as duas mãos. Não tive febre. Perdi o pa-

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ladar e o cheiro. Sentia fortes dores no corpo e arrepios de frio, também com muita tosse”. Recorda uma experiência que viu logo que não tinha nada a ver com a de uma febre ou gripe banal. “O corpo estava frio e a cara muito quente”. Contudo e curiosamente media a temperatura mas não indicava febre o que só prova que este é um vírus que se reveste de variadas nuances e em que os sintomas não são todos iguais. Os sintomas, recorda, “eram muito mais fortes do que aqueles que acontecem numa gripe normal”. Nessa altura, já toda “a gente falava no coronavírus” e visto que tinha tido contacto com estrangeiros, mais os sintomas associados, não demorou muito tempo a entender o que se estava a passar. Desde 16 de março até dia 1 de abril não saiu de casa. Foi acompanhada pela Saúde 24. Como os sintomas eram considerados leves, não chegou a ser internada. Tomou bem-uron e um xarope para a tosse.

“Tive de ter paciência. Foi tudo uma questão de tempo até a doença passar.” Já fez mais dois testes que deram negativo. Entretanto já vai poder sair de casa nos últimos dias do mês. Há 46 dias que está sem ver o filho que, entretanto, foi para a casa dos avós. “Temos contactado por videochamada, mas pessoalmente já vai umas semanas, e faz falta o abracinho”. Um dos seus suportes ao longo deste tempo foi a família, porque a doença requer isolamento e o apoio é essencial Numa altura em que começa a existir alguma desmobilização quanto às regras do isolamento social, Vera Oliveira aconselha o máximo resguardo possível pois esta é uma doença “que pode atingir qualquer um”. “É importante ter calma, porque estes sintomas demoram tempo a passar. No meu caso foram três semanas um bocadinho intensas. Nunca senti falta de ar ao ponto de ir para o hospital, mas sentiame sempre muito cansada”.

Vera Oliveira recomenda paciência a quem tiver o azar de ficar infetado com a doença


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Câmaras de Azambuja e Benavente oferecem ventiladores ao Hospital de Vila Franca s Câmaras de Benavente e de Azambuja entregaram, no dia 28 de abril, ao hospital de Vila Franca de Xira dois ventiladores, tendo em conta a pandemia relacionada com o Covid-19. A entrega foi articulada no âmbito da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo (CIMLT), onde os municípios de Azambuja e de Benavente estão integrados. A aquisição teve assim um custo de cerca de 22 mil euros para cada autarquia. O Valor Local acompanhou em exclusivo a entrega destes equipamentos no hospital de Vila Franca, tendo testemunhado in loco um aumento gradual no movimento de utentes àquela unidade hospitalar, dado que nos primeiros dias do período de emergência verificouse uma baixa drástica na afluência às urgências. Um aumento de resto também confirmado pelo diretor João Ferreira à nossa reportagem. Nesse sentido, o responsável sublinhou a oportunidade da entrega destes equipamentos. João Ferreira diz esperar “que nunca tenham de ser utilizados”. No entanto é uma “boa dádiva a juntar a outros

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Carlos Coutinho e Luís de Sousa assumiram esta despesa em conjunto com a CIMLT

que uma empresa privada cedeu ao hospital a título de empréstimo.” O responsável que substitui Pedro Bastos na gestão daquele equipamento, refere que o hospital está a lidar com profissionalismo com a situação da pandemia, vincando

que estes ventiladores vão possibilitar que não exista necessidade de solicitar ao Estado alguns equipamentos que este tem de reserva. Ainda assim, o responsável alega que não são necessários para já, mas que é importante estarem

operacionais para uma situação mais urgente. Ao nosso jornal, João Ferreira que foi o responsável da passagem de testemunho do Hospital de Braga do grupo Mello para o setor público, vincou que progressivamente o hospital vai voltar à normalidade.

Uma normalidade possível, tendo em conta as restrições de segurança impostas pela Covid-19. Existirão mais consultas via telefone, mas no futuro estas vão coabitar com as consultas presenciais, refere o responsável. Já quanto às urgências, refere que as pessoas estão a ganhar confiança e que se nota um aumento gradual de utentes. Para as câmaras municipais de Benavente e Azambuja, esta ação foi importante. Foi uma ação concertada com a CIMLT que doou também vários ventiladores ao hospital de Santarém, nomeadamente, um por município. Carlos Coutinho, presidente da Câmara de Benavente elogiou o “espírito” de serviço público dos autarcas que integram a CIMLT, pela dedicação à causa, integrando sem “populismos” a iniciativa “porque todos nós temos procurado articular a intervenção no nosso território”. “Creio que é positivo pensarmos numa visão de território alargada e conseguirmos articular também os nossos interesses individuais”.

Carlos Coutinho considera importante que a comunidade tenha entregue este equipamento ao hospital, para prevenir futuras situações, esperando inclusive que não sejam necessários. Luís de Sousa, presidente da Câmara de Azambuja, salientou a unidade entre os presidentes de Câmara “independentemente das cores políticas” na CIMLT. Para o autarca azambujense, as reuniões têm mostrado alguma união entre os autarcas dos vários concelhos, vincando que a iniciativa de entregar estes equipamentos partiu da CIM e dos presidentes de Câmara, sendo que o hospital nunca pediu nada. Luís de Sousa reforça ainda a importância que tem existido na articulação entre as Câmaras e juntas de freguesia nesta crise pandémica, algo secundado pelo presidente da Câmara de Benavente. O bolo total afeto ao fundo de combate ao Covid-19 é para já de 270 mil euros criado pela comunidade intermunicipal, dos quais cerca de 225 mil euros visam a aquisição de ventiladores.


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Negócios reinventam-se em tempos de Covid-19 Miguel A. Rodrigues Sílvia Agostinho s efeitos da Covid-19 na economia estão aí. No entanto, muitos são aqueles que querem contrariar essa tendência que parece mais do que inevitável, com formas criativas de manter os postos de trabalho e novas oportunidades de negócio. No início do estado de emergência, o primeiro ministro deixou em aberto a continuidade de alguns pequenos negócios. Muitos estavam já a laborar, outros que não tinham valências que permitissem a sua abertura, adaptaram-se e hoje têm uma percentagem significativa da sua subsistência nessas novas formas de comércio. É o caso dos denominados Take Away. O governo facilitou inclusive, no que toca às licenças, a venda de comida para fora ou as entregas ao domicílio. Muitos dos restaurantes já o faziam, mas outros tiveram de adaptar as suas estruturas para continuar de portas abertas e evitar recorrer ao layoff para o seu pessoal. No Centro Comercial Atrium – Azambuja o exemplo surge no restaurante Flor de Sal. O espaço gerido por Fernanda e Alfredo Se-

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rafim já tinha take away, mas agora esse serviço é a totalidade do negócio. Alfredo Serafim considera que o seu negócio está a menos de “meio gás” e revela que caiu em termos de faturação com o decretar do estado de emergência.

O empresário acrescenta que “os jantares que eram a parte mais forte do take away também decaíram”. Nesta altura o restaurante “Flor de Sal” revela uma quebra nas receitas de cerca de 80 por cento, até porque nesta altura ninguém frequenta o restaurante e as

Flor de Sal teve de ajustar-se aos novos tempos

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refeições para fora só chegam para pagar algumas contas, mas nem todas. Alfredo Serafim salienta que existem compromissos assumidos e por isso a gestão do restaurante é feita de forma criteriosa. A ajudar o negócio, estão os jantares que o

restaurante entrega aos Bombeiros de Azambuja, o que representa um balão de oxigénio na empresa que mandou para casa três funcionários. O espaço mantém os cuidados na confeção dos alimentos que tinha até aqui. Antes a proprietária já ti-

nha estado num refeitório de uma grande empresa e foi daí que trouxe as regras mais apertadas que ainda hoje aplica na sua cozinha. Não há por isso grandes alterações, salientando que a limpeza do espaço e dos utensílios são uma prioridade para manter a segurança dos alimentos e dos clientes. “A nossa louça é toda lavada antes de ir à máquina de forma manual” refere Fernanda Serafim que salienta que estes são os cuidados que todos os restaurantes deveriam ter. “Os produtos são frescos e por isso não usamos produtos de um dia para o outro”, reforça a cozinheira que aponta para um decréscimo da preferência dos clientes por alguns pratos, sendo que a sopa, apesar de também ter sofrido uma baixa na procura, continua a ser dos pratos mais procurados. Para o futuro os proprietários consideram que vai ser difícil readquirir a confiança dos clientes em termos gerais. No entanto o Flor de Sal tem “uma esplanada grande quase como se fosse ao ar livre no atrium do centro comercial” e por isso, salienta o empresário “poderá esta ser uma mais valia”.

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Mundo Pinguim adapta-se e produz viseiras e material de proteção empresa de artes gráficas “Mundo Pinguim” decidiu dar um passo à frente na solidariedade e ao mesmo tempo aumentar o negócio. Como muitas das empresas que fazem parte do leque habitual de clientes, fechadas ou a “meiogás”, Paulo Peres, proprietário da empresa azambujense, decidiu voltar-se para a ajuda às instituições locais de solidariedade social muitas delas a contas com falta de material de proteção. O empresário revelou ao Valor Local que tudo começou com um contato com o vereador Silvino Lúcio da Câmara de Azambuja que em 24 horas deu uma lista de IPSS para apoiar e “após este contato começaram a chover pedidos de vários pontos do país”. A empresa que nesta altura concebe sete artigos de proteção individual, está assim a vocacionar a sua produção para resguardos de atendimento ao público, óculos, sinaléticas de segurança e cinco modelos de viseiras. Ao Valor Local, Paulo Peres explica que grande parte da maté-

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Paulo Peres lançou-se no fabrico de visieras

ria prima já a tinha em stock “o que nos ajudou a conseguir produzir logo uma grande quantidade de viseiras”. No entanto a empresa deparou-se com algumas dificuldades em encontrar “matérias primas tais como para-

fusos, pvc e algumas espessuras de acrílico”. Por dia o “Mundo Pinguim” está a produzir cerca de 500 unidades de viseiras “sendo que nesta última semana o produto mais solicitado tem sido o resguar-

Cruz Vermelha foi uma das entidades contempladas com uma oferta de visieras

do/barreira para balcão”. No entanto, a empresa precaveu-se mesmo antes do decretar do estado de emergência. Paulo Peres explica que já desde o dia 13 de março “estávamos todos a trabalhar a partir de casa con-

centrando toda a produção em dias e horas específicos de forma a conseguir receber matéria prima e despachar as encomendas dos nossos clientes”. Entre as medidas de segurança adotadas Paulo Pedres destaca

que a empresa trabalha, agora, mais online “e todas as nossas reuniões passaram a ser por telefone ou videochamada. As visitas técnicas que temos feito em exterior têm sido com as devidas medidas de segurança”.

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Artesã lança-se no desafio das máscaras as alturas de crise os portugueses sempre mostraram uma capacidade de interajuda ao próximo. Temos visto isso nas últimas crises, sejam elas económicas ou sociais. É nestas alturas que a população se “desdobra” em iniciativas tendo em vista várias ações solidárias que vão desde a entrega de cabazes aos mais desfavorecidos à confeção de máscaras grátis e a preços muito acessíveis que podem ir de 99 cêntimos a 3 euros. É o que acontece em Arruda dos Vinhos. Hélia Carvalho, proprietária de um atelier deu o primeiro passo. No caso desta artesã as máscaras podem ser compradas a dois euros. Mas Hélia Carvalho, criadora da famosa boneca “Rosinha”, decidiu também à semelhança do Mundo Pinguim, fazer uma oferta solidária. Doou cerca de 300 máscaras. Um gesto gratuito e que se traduziu numa forma de ajudar os que não tinham condições para comprar ou simplesmente não encontravam as máscaras.

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Mercearia comunitária é um dos projetos a par das máscaras No entanto, Hélia Carvalho não se ficou por aqui. A artesã juntou-se a um grupo de amigos e

deu corpo ao projeto “Mercearia Comunitária”, uma iniciativa que já é imprescindível para algu-

mas dezenas de carenciados. Segundo Hélia Carvalho a “mercearia comunitária surgiu, por-

que, sozinhos já não estávamos a conseguir ajudar todas as pessoas e respetivas famílias

que estavam e estão a precisar”. De acordo com Hélia Carvalho, os destinatários são os que viram os seus rendimentos reduzidos, devido a reduções de ordenado ou à impossibilidade de exercerem as suas profissões. O grupo tem uma página do Facebook ativa, onde a coberto de confidencialidade, recebem pedidos de ajuda, depois e a partir daí, os destinatários recebem apoio duas vezes por mês. No que toca à proveniência dos produtos, Hélia Carvalho destaca que estes são doados por outras pessoas e associações, “que também se juntaram a nós , nomeadamente a Tico e Teco, que nos ajuda com alimento para cão e gato, a Associação de Jovens de Arruda dos Vinhos que nos doou alimentos e disponibilizou ajuda”. Nesta altura a mercearia Comunitária já beneficiou 14 famílias. Duas vezes por mês o grupo cede alimentos através de cabazes, basta para isso procurar este serviço na respetiva página de Facebook.

T-shirts alusivas ao Covid-19 são novo negócio do artista Jorge Cera igado ao vídeo, imagem e som, Jorge Cera, de Alverca, tem na página Neurion Projects Lab uma forma de também tentar dar mais visibilidade ao seu trabalho agora em tempo de Covid-19. Um dos mais recentes projetos passou por comercializar t-shirts alusivas à pandemia. Ao Valor Local diz mesmo que a crise serviu também para “profissionalizar” a aparência do site. O Neurion Projects surgiu em 2015 na sequência de um curso multimédia que tirou no Cenjor. “Sendo que o Neurion já era o meu alter ego desde 2008”, conta. Jorge Cera desenvolve trabalho na área artística. Ligado ao teatro de amadores desde os seus 18 anos, tem vindo a trabalhar como técnico de som e audiovisual tanto nas artes de palco como na música. “A minha inspiração e influência vem de todas as experiências vividas e dos contactos com artistas que tive até agora. Bem como das minhas leituras, viagens e estudos autodidatas”, refere. Entre outros trabalhos destaca a sua experiência como técnico de som palco e contra regra no musical de Simone de Oliveira; o desenho do espaço sonoro da peça Medeia para a companhia João Garcia Miguel e o trabalho de desenho de iluminação dos “Chill Out Gardens” no Festival

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Boom. Quanto às t-shirts são mais uma forma que encontrou de continuar a trabalhar no que gosta e a subsistir. Conta que tudo começou em março. “Nessa altura apercebi-me que não teria trabalho tão cedo nem direito a nenhum tipo de subsídio ou fonte de rendimento.” Jorge Cera gostaria de dar mais impulso à venda deste produto, mas para se ter “sucesso” no comércio eletrónico considera que é necessário capital para investir em publicidade e em sites pagos, e neste momento, realça, que não dispõe dessas condições. Costuma

fazer publicidade apenas em grupos de Facebook e na sua própria página. “Apenas estou a mandar vir alguns produtos com designs meus para amigos mais próximos que me estão a ajudar a ter alguma fonte de rendimento. Talvez no futuro a coisa comece a ser mais rentável.” Quanto aos seus clientes regulares que o procuram dentro do som e imagem, o futuro é incerto – “Neste momento tenho tudo cancelado e não se advinha que retorne tão cedo”. Nunca é fácil abraçar a carreira artística e sobretudo fazer sacrifícios por ela.

“Felizmente não estou muito endividado e tenho uns pais maravilhosos que me estão a ajudar, não os deixo sair de casa. Faço todas as tarefas de rua nestes tempos de quarentena, e para salvaguardar a saúde deles, pois são ambos de alto risco. Optei por não me inscrever em trabalho temporário para armazéns nem outro tipo de trabalhos que possam aparecer como forma de jogar pelo seguro em termos de saúde”. O futuro não se afigura para já risonho, “mas acredito que vamos todos sair muito melhor como pessoas do que aquilo que éramos antes.”

Uma das t-shirts alusivas ao Covid-19 O artista espera por dias melhores


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Dossier: Águas 13

Tarifas água: Câmaras com mais e menos exceções tempo de Covid-19 o âmbito da pandemia por Covid-19, os municípios agilizaram diversos instrumentos para apoio às famílias no que toca à fatura da água. Consoante o tipo de gestão, o apoio também varia. De acordo com nota de imprensa da empresa intermunicipal Águas do Ribatejo que engloba, entre outros, os concelhos de Benavente e de Salvaterra de Magos, esse apoio será materializado através de um pacote de medidas excecionais cujo impacto financeiro rondará os 500 mil euros para os próximos três meses “que mereceu a aprovação, por unanimidade” dos sete presidentes de Câmara que compõem a estrutura. Para as famílias cujo rendimento tenha sofrido uma redução acentuada e que, por esse facto, se encontrem em situação de vulnerabilidade económico-financeira, será concedida uma isenção (total ou parcial) das tarifas fixas de abastecimento de água e de saneamento. Já as empresas que, por imposição legal, se viram obrigadas a encerrar ou a reduzir significativamente a sua atividade, poderão beneficiar da isenção das tarifas fixas de água e saneamento.

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Há diferenças entre os concelhos com gestão privada e os que possuem gestão pública Será ainda concedido um apoio às instituições e agremiações privadas de beneficência, culturais, desportivas, sem fins lucrativos e outras de interesse público, que se traduzirá na isenção das tarifas fixas de água e saneamento. De acordo com a posição manifestada pelos presidentes de Câmara, a estas medidas poderão vir a juntar-se outras, no âmbito dos Resíduos Sólidos Urbanos, que vão merecer ainda discussão nas respetivas câmaras municipais.

No município de Azambuja, onde a gestão é da empresa privada “Águas da Azambuja”, e segundo o que o Valor Local apurou os cortes de água estão parados nos meses de abril, maio e junho. As únicas isenções ou reduções vão para as taxas arrecadadas pela Câmara, ou seja a nível dos Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) com isenção total para as IPSS a nível do pagamento da tarifa de disponibilidade fixa e da tarifa variável de gestão de RSU. Já os consu-

midores particulares beneficiam de uma redução de 35 por cento nas duas tarifas relacionadas com os lixos. Segundo Luís de Sousa, presidente da Câmara, ao Valor Local, significa um “esforço financeiro de 50 mil euros”. O vereador do PSD, Rui Corça, sugeriu em reunião de Câmara que os benefícios também se estendessem aos consumos e taxas da água e saneamento, mas a medida não foi para a frente. No concelho de Alenquer, onde a gestão também está a cargo de uma concessionária privada, “Águas de Alenquer”, os cortes de água também estão restringidos. A autarquia pretende implementar a breve prazo a possibilidade de alargar o tarifário social a mais famílias. Ao contrário de alguns concelhos na região onde as taxas fixas estão a ser eliminadas nesta altura, Alenquer vai seguir “a indicação da Entidade Reguladora dos Serviços de Água e Resíduos” e não o fará “porque se formos a ver não se trata de valores significativos”, refere ao Valor Local, o presidente da Câmara, Pedro Folgado. No que toca ao município de Vila Franca de Xira, os Serviços Muni-

cipais de Águas e Saneamento (SMAS) vão implantar também um conjunto de medidas de apoio aos clientes. Entre as medidas apresentadas, encontra-se a suspensão das leituras reais dos contadores de água, fazendo a faturação por estimativa. Aquela entidade prepara-se também durante os próximos três meses para suspender os cortes do abastecimento de água, por incumprimento do pagamento da faturação em dívida, bem como a isenção das tarifas fixas de venda de água e saneamento e tratamento de águas residuais. Os SMAS vão ainda fazer acordos de pagamento e isenção de juros de mora, que neste caso é aplicável à faturação de água emitida neste período e a não aplicação de juros a acordos de pagamento, até ao limite de 4 prestações, nos consumos mensais que não ultrapassem os 500m³. Em Arruda dos Vinhos, o município anunciou um pacote de 43 medidas, algumas das quais criam uma excecionalidade neste âmbito da pandemia por Covid-19. Em comunicado, a autarquia anuncia uma isenção específica e excecional relativamente ao pagamento

do consumo de água verificado ao nível do 1.º escalão de consumos, a favor de todos os consumidores, como forma de compensar os potenciais aumentos de consumo, sobretudo domésticos, verificados durante as fases de contenção e mitigação da pandemia de abril a junho. Com esta medida, o município disponibiliza, sem custos para a população, cerca de quinze mil litros de água, por agregado familiar/empresa neste lapso temporal de três meses, estimando-se com esta medida um impacto direto na receita municipal de cerca de 75 mil euros. A isenção específica e excecional referida será cumulativa com o apoio já prestado aos consumidores beneficiários de tarifários sociais. Já no concelho do Cartaxo, onde o município trava há anos um longo braço de ferro com a concessionária privada “Cartágua”, com as relações deterioradas há muito entre as duas entidades, os benefícios para a população não deverão ir além da ausência de cortes de água, mas tal já está consagrado de qualquer forma pela lei que proíbe as suspensões no abastecimento durante o período de emergência.


14 Opinião

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Covid-19:

O SNS e a estratégia seguida pelo governo estão a passar com distinção ão terá o governo tomado medidas mais cedo, como o encerramento de espaços comerciais e fronteiras, com receio das consequências para a economia? Esta resposta deverá ser dada apenas em retrospetiva. No entanto, os argumentos a propósito do tempo de reação do governo não são de ordem económica. As decisões do governo, creio eu, estiveram relacionados, exclusivamente, com a gestão estratégica da evolução da taxa de contágio em função do ponto de saturação do Serviço Nacional de Saúde. É sabido que a disseminação do vírus da Covid-19 não pode ser

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interrompida. A partir da extrapolação da realidade noutros países, e de um comunicado (de 15 de março) do Hospital da Luz de Setúbal, 70% da população portuguesa terá uma grande probabilidade de ficar infetada. 10% dos infetados irão necessitar de cuidados hospitalares. Estas probabilidades não dependem grandemente de medidas de prevenção. No entanto, com a implementação de medidas de distanciamento social, o processo de contágio abranda. Quanto mais rigoroso for o cumprimento destas medidas, menores serão as taxas de infeção por unidade de tempo (o

designado “achamento da curva”). O sucesso a este nível é a chave para a garantia da operacionalidade do Serviço Nacional de Saúde. Ainda antes da chegada do surto, o primeiro-ministro havia deixado claro que o Serviço Nacional de Saúde, através da reorganização dos seus serviços, teria capacidade para alcançar maior amplitude. Durante o último mês e meio, o Ministério da saúde anunciou a existência de uma bolsa de 1800 médicos e de mais de 1000 enfermeiros disponíveis para reforçar o Serviço Nacional de Saúde. Deu nota ainda da previsão da

contratação de 450 novos profissionais de saúde. Para além dos recursos do SNS, somam-se 2.300 camas da rede de saúde das forças armadas e 250 ventiladores do setor privado da Saúde. O investimento em kits de despistagem também está anunciado como sendo uma prioridade. Há, aparentemente, liquidez “ilimitada” para fazer face à dimensão sanitária desta pandemia. O Estado, a partir de operações de natureza orçamental, tem a capacidade de proceder aos ajustamentos necessários a cada momento. A maior parte dos ajustamentos

Pandemia: As memórias e a esperança no futuro ste recolhimento, trouxe-me à memória tempos idos e igualmente trágicos! Assim, este artigo sustenta-se em memórias, impregnadas de emoções e inquietudes e consubstanciase em três palavras-chave: reconhecimento, gratidão e esperança. As “primeiras palavras” são de homenagem e de pungente solidariedade e reconhecimento para com todos os indivíduos seniores (homens e mulheres), sobretudo das gerações dos finais da década de 30, de 40 e de parte da de 50 do século passado, a que chamo: “as gerações de sacrificados!” Porque, nascidos, criados e educados no Estado Novo: fascista, oligarca, repressivo e isolacionista; coartou o direito a uma vida digna e de esperança a este nobre povo, por cultivar a iliteracia, a incultura, o desconhecimento, a desinformação, a indigência, a submissão e, em alguns, a repressão e a reclusão. Todo este sofrimento é culminado com as guerras nas excolónias com consequências nefastas para a juventude de então e ainda sobreviva (milhares de mortos e de estropiados física e psicologicamente) e, naturalmente, para suas famílias. E não devemos nunca esquecer, a odisseia dos retornados e os emigrantes compulsivos, gerados pelas guerras. E o que se constata, é: uma ingrata indiferença da história perante o sofrimento destas gerações! Depois, as sucessivas crises económi-

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cas e sociais que assolaram a sociedade portuguesa em cinco ocasiões: 1977/1978 (devido aos desmandos pós-revolucionários. Intervenção do FMI), 1980 e 1982, no Governo de Mário Soares e Mota Pinto (duplicação da dívida pública. Intervenção do FMI. Abolição do 13º. mês); 1993 (choque petrolífero); em 2002/2003 (por efeito da introdução do euro, impediu-nos de, em períodos de crise, desvalorizar o escudo, para as mitigar) e cinco anos depois, 2008/2009 a inverosímil crise bancária e financeira, com as repercussões que todos conhecemos e sofremos. Uma vez mais, o FMI, obrigou-nos a aplicar medidas austeritárias punitivas. Por todas estas provações, passaram com estoicismo, abnegação e dignidade! Era o tempo de dizer basta! Mas não. Na parte final de uma vida de trabalho, humilhação, sacrifícios (também pelo país) e privações várias, surge agora este “criminoso vírus” para sonegar a paz e infernizar os já “parcos” dias de vida. E para alguns, infelizmente, será a ida para o “assento etéreo” (palavras do poeta), mas … que o seja com a dignidade e o respeito que merecem! Bem hajam pelo legado! As “segundas palavras”, são de profunda gratidão e vão para o povo português em geral e para todos os investigadores, cientistas e profissionais de: saúde, bombeiros, forças armadas, segurança, IPSS’s (asilos, lares e

centros de dia), e os demais que se mantiveram a trabalhar para assegurar os transportes públicos e o abastecimento de bens de primeira necessidade, entre outras atividades e serviços. Por fim, a minha esperança num futuro melhor, o que significa que, quando voltarmos à normalidade nada pode ficar como antes! Temos o dever de neste tempo de exceção e de recolhimento, fazermos um exercício reflexivo honesto: a) Enquanto cidadão, reflita sobre o seu percurso de vida; os seus comportamentos, a moralidade, as atitudes éticas e os valores; o que realizou ou está realizando enquanto ser humano e protagonista social, para o bem comum. O que fez ou, deixou de fazer, pela família e pelos amigos. Do que se orgulha, mas também, do que se arrepende, que ilações, e o que pretende melhorar no seu carácter (que tem a ver com a sua educação, cultura e socialização), já que o temperamento é ingénito e dificilmente alterável; para que contribua para uma sociedade mais justa, mais humana e mais universal. Porque, face à situação pandémica, somos todos iguais nas nossas diferenças, isto é, independentemente do sexo, da raça, do estatuto social e da idade de cada um, somos todos seres humanos e estamos, de forma igualitária, sujeitos ao covid-19. Use a Inteligência Emocional para se

João Santos

vão sendo anunciados configuram custos passíveis de variar no curto prazo. O problema pode colocar-se havendo a necessidade de garantir no curto prazo ajustamentos passíveis de concretização apenas no longo prazo. A construção de uma nova unidade hospitalar, por exemplo, só seria passível de concretização no longo prazo, por razões óbvias. A exceção a propósito deste exemplo é o hospital construído na China em apenas 10 dias. Portugal não teria, obviamente, condições para concretizar um projeto desta magnitude. Apesar do aparente sucesso da estratégia adotada pelo governo,

a probabilidade de colapso do Serviço Nacional de Saúde, devido à pandemia de covid-19, está ainda longe de ser nula. Basta para o efeito que as medidas de contenção, que assumem papel central na mitigação desta pandemia, não sejam rigorosamente cumpridas. Certo, para já, é que Portugal tem vindo a gerir esta pandemia histórica garantindo que o Serviço Nacional de Saúde não atinge o seu ponto de saturação. Eventualmente, será esta a evidência do sucesso da estratégia adotada pelo governo.

Augusto Moita

adaptar às novas regras de vida em sociedade e nas empresas, que inevitavelmente irão acontecer. Reconheçamos e aceitemos com humildade as nossas fragilidades e incapacidades perante esta calamidade natural. Einstein, a uma pergunta sobre a que raça pertencia, respondeu: Raça Humana! b) No plano político e social, exige-se a cooperação entre todos os partidos, mesmo que tenha de ser “compulsória”, com vista à minimização do impacto que a crise económica provocará a breve trecho, na sociedade. O foco imediato está na salvação de vidas humanas e o apoio e a salvaguarda dos mais desfavorecidos (pobres em habitações precárias e os que vivem sós e isolados) e dos mais vulneráveis (idosos, crianças e sem-abrigo) que em situações extremas, como as que se vivem, não possuem, uns e outros, as condições mínimas, para de modo próprio, realizarem o isolamento social ou, como se protegerem. Louve-se a entropia do Governo que legislou de forma célere, os apoios financeiros a conceder à economia: empresas, trabalhadores e famílias e, os “recados“ que dirigiu à banca, como é já consabido. Exige-se uma União Europeia solidária! c) Ao retomarmos a normalidade, é crucial não continuarmos a ser iguais como antes e, a fazer o mesmo e da mesma maneira que antes fazíamos, porque não será uma atitude inteli-

gente e responsável! Importa refletir, independentemente da situação profissional, sobre os conhecimentos que possui (académicos e empíricos) e repensar as ambições que perspetiva para o seu futuro (acomodar-se, valorizar-se e/ou mudar de profissão), visando também, e de alguma maneira, o seu contributo para a regeneração social, que estas crises, por norma, suscitam. Assim, deve preocupar-se em melhorar o seu desempenho profissional, através do incremento das suas competências técnicas (adaptação a novas tecnologias e a novas formas de trabalho, entre outras) – hard skills - e, fundamentalmente, as comportamentais – soft skills – relações interpessoais, trabalho em equipa, gestão do tempo, liderança e mudança organizacional, gestão de conflito, negociação e tomada de decisão. d) Sejamos protagonistas, sem medos, dos novos tempos de mudança que se avizinham! Com base neste pressuposto, um dos temas, entre outros (não há espaço para todos), que há muito me inquieta, tem a ver com a ecologia e as alterações climáticas que, face a esta calamidade pública e global, nos proporcionou algumas constatações e “produziu ensinamentos” que devemos levar em linha de conta no futuro próximo, para evitarmos a instabilidade social e a disrupção política que a con-

tinuidade deste descontrolo das alterações climáticas, acarretará a toda a Humanidade! Todos ouvimos em diversos noticiários, que neste período de estado de emergência, se verificaram melhorias significativas na camada de ozono (na estratosfera), consequentemente menos poluição – redução de emissões de CO2 - sobre as grandes metrópoles e centros industriais, quer no oriente quer no ocidente. É tempo de refletirmos sobre este “ganho climático” para o nosso planeta, que é o único lugar que temos para viver, nós e as gerações futuras, e tomar no imediato medidas públicas (legislativas) que minimizem ou obstaculizem os impactos da utilização dos combustíveis fósseis (carvão e petróleo), substituindo-os por energia limpa. É premente também, a sensibilização cívica de todos os cidadãos para a adoção das melhores práticas tendentes à preservação do meio ambiente. Este, é o tempo da mudança! Não fique indiferente, conformado ou cético e seja proativo, porque este é o momento de protagonizar a diferença, ao ser diferente! (Artigo escrito em 01 de abril de 2020)


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Opinião 15

Saúde pública e economia

.Esqueçam o mundo que conhecemos até há dois ou três meses atrás. Mesmo que seja descoberto um tratamento eficaz para o Covid 19 ou uma vacina que nos proteja dele, o mundo que conhecemos até hoje vai ser substancialmente diferente daquele onde se vai desenrolar o nosso futuro. Tenho visto e ouvido muitas vezes comparar a crise pandémica que se vive atualmente com a crise financeira de 2008/2009, com a II Guerra Mundial ou com a grande depressão mundial de 1929. Em meu entender, não tem comparação possível. Aquelas decorreram de acidentes concretos, financeiros ou bélicos, perfeitamente identificados e que, na sua essência, não alteraram as relações entre as pessoas. Na II Guerra Mundial, sabia-se quem era o inimigo, onde atacava, quem atingia, como responder-lhe. Nas crises financeiras também se conhece a origem e os economistas sabem as formas de as atacar – não que a receita seja património exclusivo dos economistas, mas é destes que se esperam as respostas para elas. Mas nunca passámos por uma pandemia global como esta em que se desconhecia completamente o vírus quando apareceu, onde ainda não há panaceia curativa ou preventiva, um inimigo invisível que não detetamos, não sabemos onde está, não temos certezas sobre as armas que usa para atacar e progredir nem as sequelas que deixará em cada um dos infetados, ainda que lhe tenham resistido. Até mesmo com outras epidemias que atacaram a Humanidade, como a gripe espanhola ou a peste negra na Idade Média, esta pandemia não pode ser comparada. Primeiro, porque aquelas eram muito mais letais do que a Covid 19; em segundo lugar, porque se focalizaram numa parte do Globo e esta é

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geral em todo o Mundo. Vivemos há mais de um mês, nós, portugueses, num isolamento forçado na tentativa de evitar o contacto. Fecharam-se escolas, empresas, restaurantes, toda e qualquer manifestação que cheire a um mínimo de concentração de massas está proibida e estamos, durante semanas a fio expostos a nós mesmos ou num convívio exclusivo apenas com quem connosco coabita. Temos medo do vizinho do lado, esvai-se o sangue das pernas quando alguém espirra a dez metros

difícil a recuperação. Mas mesmo quando voltarmos à normalidade, os hábitos e o tipo de relações que fomos obrigados a praticar – um maior cuidado com as questões de higiene, o teletrabalho, a utilização do mundo virtual nas suas mais diversas vertentes de trabalho, recreio, cultura, tempos de lazer, vão perdurar na sociedade mesmo sem a ameaça do Coronavírus. 2.O grande dilema que se coloca neste momento a todas as sociedades pode resumir-se assim :

mos não morrer da doença mas morrer da cura. E todos sabemos pelas notícias as falências, o aumento explosivo do número de desempregados, a fome que já atinge alguns países e que só não é mais grave porque os Estados tinham reservas acumuladas que puderam, até agora, minimizar os efeitos económicos e sociais da pandemia. Mas todos sabemos que a dívida dos países tem limites e que a única forma de um País injetar dinheiro na economia e na sociedade é ter receitas que lhes

nas poucas e inevitáveis saídas que fazemos para ir trabalhar – os que ainda trabalham-, comprar comida ou desentorpecer as pernas. Esta não é apenas uma pandemia de saúde pública, é também de medo. Medo do vírus e medo da terrível crise económica com todo o desfile de misérias que provocará. E sabemos mais: vivemos no dilema de quanto mais tempo durar a situação em que estamos atualmente, adiando o ataque generalizado do vírus, maior será a recessão, os seus horrores de desemprego, miséria e fome e mais

deve continuar-se com a suspensão de todas as atividades que representem perigo de expansão da contaminação em detrimento da retoma da economia ou, pelo contrário, deveremos tomar medidas progressivas que reanimem a economia internacional, mesmo correndo o risco de uma explosão do número de infetados? Em minha opinião, não é um dilema, é uma inevitabilidade. Não se pode fechar um País durante muito mais tempo, sob pena de as perdas no sistema produtivo serem irreparáveis. Ou, como diz o povo, pode-

permita fazê-lo. Ora essas receitas resultam fundamentalmente dos impostos sobre as empresas e as pessoas e esses impostos só são possíveis se houver atividade económica. Não podemos continuar indefinidamente confinados ao teletrabalho: não se produzem alimentos, bens industriais, serviços essenciais em teletrabalho. A produção de bens requere a presença física e a atividade fora de casa. Esta é uma questão que me tem ocupado o muito tempo reduzido à minha casa há algumas semanas e formatei a ideia de que o des-

Memórias da minha infância O Esteiro a pela mão do meu pai ou da minha irmã mais velha… No cais, três fragatas atracadas pareciam navios ao lado da bateira do meu pai. Acabara a safra do sável e seguia-se a do marisco na Ericeira. Meu pai tinha que deixar no armazém a bateira arrumada. Dava-lhe breu no casco, e dava casca às redes. E aí brincava eu, com a canalha da minha idade… era o meu jardim de infância. Colhia malmequeres, papoilas, e a flor do trevo. Nas marés vivas era a minha praia. Como recordo! Homens de calças arregaçadas e pés descalços, galgavam a prancha de jiga à cabeça, na

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descarga do sal. Era um espetáculo para a miudagem. Na estrada da Vala Real entre o esteiro e a lezíria, manadas de gado levantavam poeira para recolher ao fim do dia, na rua do gado. Como te recordo com saudade!... Aquele pintor que armava o cavalete na beira da estrada, e passava para a tela a paisagem do velho casario… E nós canalha, identificávamos a pintura, perante a indiferença e o silêncio do artista. “Olha a tua janela! E a minha varanda! O meu esteiro!” Tinha labor, tinha vida, e tinha muita riqueza. Carros de bois carregados com o produto da vindima, a maior vi-

nha da Europa, assim disseram. Ranchos de homens e de mulheres da terra, e também gaibéus, na monda do arroz, na ceifa do trigo e na apanha do tomate, que alimenta a fábrica até hoje, a Sugal. Bateiras carregadas de melão chegavam ao esteiro para descarregar. Fragatas carregadas de barris com o famoso vinho messias, de vela içada rio abaixo até Lisboa. O nosso Tejo tão rico outrora, e tão maltratado no presente. E a lota do peixe? O sável, o linguado, o robalo, barbos e pimpões, a famosa tainha, feita na telha… Que delícia! As enguias feitas de caldeirada à pescador… Mas o progresso te matou

meu querido esteiro. Estás abandonado. A natureza cobriute com um manto verde, de flores lilases. Os jacintos de água, cobriram o teu leito. As tuas margens… nelas choram os salgueiros, os amieiros e os choupos. A CP fechou as cancelas. Estás encurralado. A antiga e bela estação de Azambuja, onde o comboio enchia as caldeiras ainda a carvão. Era um prazer

Joaquim António Ramos

confinamento, ainda que gradual, é necessário e urgente. Ainda que corramos o risco dum aumento de infetados. Por questões de idade e contingências de saúde sou uma pessoa de alto risco, isto é, se tiver o azar de contrair o Covid 19, é muito provável que vá desta para melhor. Mas é um risco que todos temos que correr. Resta-nos a esperança da imunidade por contágio enquanto não houver medicamento ou vacina. Não sou epidemiologista nem percebo nada da matéria, mas temos do nosso lado a baixíssima letalidade da vírus (cerca de 2 por cento, segundo li) e que, salvo raras exceções, só é fatal em idades avançadas ( e mesmo assim cerca de 12 por cento para maiores de oitenta anos) ou pessoas com doenças crónicas graves. Abramos então a economia e a sociedade. Mas sem que sejamos contaminados pela segunda pandemia: o medo, a desconfiança. Tomemos as precauções devidas, mas voltemos a trabalhar, a estudar, a conviver, a frequentar restaurantes. É vital que a vida volte a ter alguma normalidade. Como vital é também que este resgate das nossas vidas seja concertado a nível mundial. Não esqueçamos que vivemos num mundo globalizado que tornou a economia de cada País dependente da dos restantes. Sou por natureza otimista mas neste caso não se trata duma questão de otimismo. Temos que abrir e, embora com tropeções e dúvidas, confio em que as coisas vão correr bem. 3.Uma última nota que não posso deixar passar em branco. Os profissionais de saúde têm sido os verdadeiros heróis desta guerra: médicos, enfermeiros, auxiliares, assim como bombeiros, forças de segurança, agentes sociais.

Mas à boa maneira portuguesa, temos dois sérios inimigos nesta batalha: os burocratas e os intérpretes constitucionalistas – chamemos-lhes assim. Temos que perceber que as leis que se aplicam em situação normal têm que ser adaptadas em casos de emergência global, como esta pandemia. Para dar um exemplo da primeira, a burocracia, é inadmissível que para uma empresa conseguir o regime de lay-off tenha que tratar para cima duma dúzia de papéis, geralmente obtidos numa repartição pública que está fechada e não atende o telefone. Daqui nasce a subversão da ideia do lay-off: são as grandes empresas, com meios para recorrerem aos elementos exigidos, que mais beneficiam dele. Como exemplo do segundo, as tais interpretações jurídicas, é para mim óbvio que face a uma pandemia desta dimensão, não pode valer o normativo legal que antes estava em vigor, particularmente quando se tratam de medidas para a combater. Vem isto a respeito de ter ouvido, entre outros, o Bastonário da Ordem dos Advogados, dizer que para medir a temperatura dos trabalhadores à entrada das empresas, é necessário um profissional de saúde, porque a Constituição e mais isto e mais aquilo… Eu, cá por mim, estou disposto a abdicar temporariamente de alguns dos meus direitos, liberdades e privacidade se isso contribuir para combater a epidemia.

Maria Rosália Ferreira

para os olhos de quem observava. A Buganvília crivada de flores, trepara o muro junto às cancelas, e o canteiro bem cuidado, com amores-perfeitos. A sala de espera, onde brincávamos e sonhávamos com viagens de 1ª classe. É bom recordar… Afinal na nossa pobreza, éramos felizes e nem o sabíamos…

E fica a nostalgia e a lembrança da infância, e de um tempo em que se recorda com saudade, mas que não se deseja voltar…

Ficha técnica: Valor Local jornal de informação regional Propriedade e editor: Propriedade: Metáforas e Parábolas Lda – Comunicação Social e

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16 Educação

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Artecedário

Adão Conde, ilustrador da Póvoa é sensação no Youtube este tempo de pandemia, há quem tenha descoberto talentos ocultos. É o caso do arquiteto e ilustrador Adão Conde, da Póvoa de Santa Iria, que criou a rubrica Artecedário, em que através de vídeos no Youtube e Facebook ensina os mais pequenos a desenhar. “Sempre me questionei por que razão as pessoas deixam de desenhar com o passar dos anos. Não sei se é porque julgam que não conseguem fazer um desenho bonito. Desconfiam das suas próprias capacidades, mas escrever também é desenhar. As letras também são desenhos”. A rubrica começou a convite do ATL da filha, cuja professora lhe pediu para desenhar “ao mesmo tempo que ela contava umas histórias nas redes sociais”. A história ficou mais séria quando uma criança dessa associação de ocupação de tempos livres “ficou muito desolada porque não conseguia desenhar”. Então investiu a sério nos vídeos explicativos e foi chamando cada vez mais crianças para este tipo de complemento audiovisual destinado a ensinar a desenhar à distância. “Comecei a

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receber desenhos de imensos miúdos. Fiquei super contente. Não estava minimamente à espera”, descreve. Com o artecedário procuro “dessacralizar” o ato de desenhar, ou seja torná-lo mais simples e fácil de compreender. Em pouco tempo, aliás durante esta quarentena, conseguiu obter milhares de visualizações dos seus vídeos. “A partir dessa altura, tentei estruturar todo este trabalho, dei-lhe o nome de artecedário, e estou a tentar encontrar várias categorias de conteúdos consoante as idades das crianças, e quem sabe chegar até aos adultos”, diz. “Estou a tentar profissionalizar isto um pouco mais”, confessa. Adão Conde acredita que desenhar ajuda a pensar, e pode trazer vários benefícios para os mais e menos jovens. A responsabilidade cresceu, entretanto, com esta aventura – “Uma coisa é estar a fazer isto para o ATL da minha filha, outra é ter pais e educadores de vários pontos do país a pedirem-me desenhos, e a puxarem por mim”. Ao mesmo tempo e em época de

quarentena, e com dois filhos, a família de Adão Conde tem tentado adaptar-se da melhor forma. Com um filho de dez e uma filha de três anos de idade, o arquiteto diz que estes dias têm sido um desafio. A mulher está em teletrabalho, e revezam-se num atelier particular perto de casa apenas frequentado por este casal. “Caso contrário nem sei como seria possível trabalhar em casa com duas crianças tão novas”. Quanto à nova realidade do ensino à distância, considera que no caso do filho de dez anos, “tem sido fácil porque a professora não se limitou à telescola e está todas as manhãs na plataforma zoom a dar aulas”. “A turma do meu filho tem-se organizado bem. Conseguimos arranjar um computador para um miúdo que não tinha, bem como acesso à internet”. Já no caso da filha, “estou preocupado porque noto alguma desabituação ou até regressão dos seus hábitos. Estava mais independente quando estava no ATL. Já não quer comer sozinha ou dormir a sesta”. As rotinas mudaram “e o impacto é brutal”, descreve.

Família de Adão Conde tem tentado adaptar-se d amelhor forma às medidas da pandemia

Arranca obra da Escola Básica de Vila Nova da Rainha obra de requalificação da Escola Básica de Vila Nova da Rainha arranca já neste mês de maio. A empreitada foi ganha pela empresa Construaza, com sede no concelho de Azambuja, representando um investimento global de 855 mil 235,58 euros. Segundo Luís de Sousa, presidente da Câmara de Azambuja, ao Valor Local, esta era uma “obra necessária”. “Já recebemos o visto do Tribunal de Contas e por isso avançará já em maio”. O que para o presidente da autarquia é importante para manter a economia local em funcionamento. Luís de Sousa vinca que mesmo em tempos de pandemia “não podemos parar” e por isso esta é uma forma de “ajudar as pessoas e as empresas com trabalho”. O projeto inclui não só a requalificação e refuncionalização da escola básica, bem como também do jardim de infância e restantes espaços. De acordo com o autarca, esta medida já estava prevista “na carta educativa municipal” e enquadra-se “na estratégia da autarquia que dá prioridade máxima à área da Educação”. A obra inclui a reabilitação das instalações já existentes da escola do Plano Centenário, contemplando algumas demolições e ampliações “com vista à obtenção de um conjunto funcional mas também coeso e harmonioso” segundo uma nota enviada entretanto pela autarquia local. O projeto mantém a manutenção da volumetria atualmente existente “relacionando as novas construções com o edifício original”. Com esta ampliação existirão mais salas, e as instalações necessárias ao funcionamento de um estabelecimento de ensino “destinado às faixas etárias mais jovens”. O projeto contempla duas salas de aula para o 1º ciclo e duas salas de atividades para o ensino pré-escolar, em blocos distintos. O edifício estará equipado com instalações Projeto da remodelação em perspetiva sanitárias para adultos e para crianças, gabinetes de trabalho para professores e educadores, e espaços de arrumos. O espaço conta ainda com um refeitório e de uma biblioteca/mediateca escolar. As salas de pré-escolar terão, ainda, vestiários de apoio.

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Relato exclusivo de um camionista do aterro de Ota

“Lixos italianos vêm em sacos rebentados e a cheirar a podre” um dos camionistas que cumpre o trajeto diário que liga o porto de Setúbal ao aterro de resíduos não perigosos de Ota no concelho de Alenquer. Vamos chamar-lhe Etelvino. Em entrevista exclusiva ao Valor Local aceitou falar daquilo que presencia todos os dias naquela unidade gerida pela Blueotter. Um dos fenómenos que conseguiu presenciar nos últimos tempos no aterro de Ota “foi gás a borbulhar na água”, com “um cheiro a ácido intenso”. “Tenho-me sentido um bocado mal com aquilo mas não posso dizer ao patrão que não vou, é até cair para o lado”, lamenta-se. Os resíduos chegam ao aterro embalados, mas por vezes “molhados e com um cheiro a podre insuportável”. No seu caso encontra-se a transportar resíduos italianos. “Quem diz que aqueles lixos já se encontram decompostos e não largam cheiros não é assim que acontece. Ainda estão a deitar líquidos para fora, e deixam o camião depois de descarregado a cheirar mal e completamente imundo. Alguns sacos vêm todos rebentados, outros chegam mesmo podres”, descreve. Só para Ota vão ser encaminhados, entretanto, mais 1730 contentores. “Sempre ouvi dizer que o lixo italiano devia ser aproveitado para fazer biogás mas nada disso está a acontecer”. Os resíduos provenientes daquele país chegam por via marítima ao cais de Setúbal e à Sotagus em Santa Apolónia. O movimento de camiões é diário a partir daquelas localizações para os aterros da região mas também para Chamusca. Mais a sul temos Sines e a norte Leixões, onde chegam outros carregamentos de lixo italiano ou de outros países como

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Malta. Neste tempo de Covid-19, Etelvino diz que não há máscaras no interior da unidade da Ota, “apenas algum gel para desinfetar as mãos, de resto tenho de trazer de casa”. Para além disso “encerraram as casas de banho com isto da pandemia e não tenho outro remédio se não ir ao meio do mato”, continua a descrever. Contratado por uma empresa que presta serviços para o aterro de Ota, refere que mesmo assim há algum rigor no transporte de resíduos, nomeadamente, no que toca ao preenchimento das guias com os materiais transportados. Recorde-se que o ministério do Ambiente contornou essa obrigatoriedade devido à pandemia o que motivou um requerimento do PAN que acusou o ministério de João Pedro Matos Fernandes de facilitismo. Pior mesmo é o cenário que se vive no Centro Integrado de Recuperação, Valorização e Eliminação de Resíduos Perigosos da Chamusca (CIRVER). “Consegue ser muito pior do que a Ota ou a Azambuja”. “Tem mais de 200 metros de altura e nove quilómetros de diâmetro”. No dia em que nos encontrámos transportava para o aterro de Ota cerca de 28 toneladas de resíduos. Calcula que todos os dias chegam à Ota 50 camiões, cada um transportando as ditas 27 a 28 toneladas. A proliferação de animais na zona do aterro é intensa. Para além das gaivotas, dos milhafres, e falcões, há ainda cães e gatos. “Os milhafres jogam-se aos animais, e a putrefação aumenta”. Os focos de contaminação apesar da distância que o aterro fica das localidades mais próximas são uma realidade latente, “porque as gaivotas trans-

Cenário de gaivotas no aterro

portam o lixo dali para fora em grande quantidade, porque os bandos também são enormes”. Apesar dos maus cheiros não chegarem a Ota na mesma dimensão do que acontece em Azambuja, o Valor Local sabe que são frequentes as queixas de quem se costuma deparar com muitos resíduos do aterro nos campos em redor da localidade, nomeadamente, plásticos trazidos pelas gaivotas. A dimensão desta unidade “é enorme”. “Não sei se nem daqui a dez anos aquilo está cheio!”, refere.

É assim que são transportados os resíduos. Sacos chegam rebentados muitas vezes

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18 Investigação Covid 19

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António Morais, Presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia

“Número de infetados será 10 vezes superior devido aos assintomáticos” Sílvia Agostinho Valor Local ouviu vários especialistas acerca da Covid19 e daquilo que ela significa, nesta altura, a nível mundial. A evolução da pandemia; os números que já fez em todo o mundo quer a nível de infetados, quer de mortos; a forma como Portugal se está a posicionar neste ranking, a importância dos testes e o conceito de imunidade de grupo foram apenas alguns dos conceitos abordados, numa altura em que vacina ainda vai demorar. António Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, acredita que Portugal soube estar na linha da frente na luta contra a pandemia. A Covid19 apresenta em muitos casos sintomas difusos, e não raro é o dia em que surge mais um quadro clínico diferente, segundo os especialistas. A doença está relacionada com febre, tosse, falta de ar, mas também diarreia, arrepios, perda do olfato e do paladar, entre outros sintomas. “Pode ser facilmente confundida com outras infeções respiratórias. O facto de muitas pessoas serem assintomáticas também ajuda nesse quadro com um potencial de infeção muito grave.” O vírus começou na província de Wuhan na China, no final do ano passado, associado ao comércio de animais selvagens, e até à data e depois de se ter espalhado pelos quatro cantos do mundo, “não há nenhuma evidência que a sua virulência tenha abrandado”, isto quando se fala nas diversas mutações que já poderá ter adquirido. Contudo os investigadores também não acreditam que as mutações com as novas estirpes possam ser mais letais. “A doença é sempre uma infeção

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resultado do agente infecioso e do hospedeiro, o homem, e isso faz com que seja difícil prever como vai ser a evolução do quadro clínico, exceto nas pessoas com idade mais avançada e com doenças associadas como a diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares”. O covid-19 tem sintomas semelhantes a outras infeções víricas que acontecem no inverno, a grande questão relaciona-se com os assintomáticos. Noutras grandes doenças infeciosas que o mundo presenciou, nas últimas décadas, como a SARS ou o ébola o nível de contágio entre os seres humanos é menor porque os sintomas associados são

de tal forma graves que é impossível alguém não saber que está doente, e assim a propagação do vírus entre as pessoas é menor. Por outro lado, são doenças mais mortíferas, mas sem o caráter de uma pandemia em que o número de infetados é maior, muito por culpa dos denominados assintomáticos. Mas há perigos nestas contas do Covid-19. A doença por ser silenciosa faz com que muitos doentes com Covid-19 assintomáticos possuam, por vezes, níveis de oxigénio muito baixos e isso tem precipitado um significativo número de óbitos. Não têm queixas, mas quando chegam ao hospital pode ser tarde demais.

“Esta é uma evidência que não vemos tanto noutras infeções respiratórias”, salienta António Morais que exemplifica – “Há doentes que estão relativamente estáveis na evolução da doença até ao sexto ou sétimo dia, e de repente queixam-se de uma súbita falta de ar, e esses são muitas vezes os que vão parar aos cuidados intensivos”. Nesta fase de discussão sobre a doença, foi estabelecida por uma equipa de profissionais de saúde uma relação entre a Covid-19 e a aplicação da vacina da BCG, ou seja a da tuberculose. Terá sido possível verificar que em países onde esta vacina fazia parte do plano de vacinação obrigatório

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jcmorais.com

havia menos óbitos, como é o caso do nosso país onde a vacina foi obrigatória até 2017. Mas ainda há que esperar pelos resultados dos ensaios clínicos, mas muitos são os que advogam este conceito de imunidade treinada garantida pela BCG. António Morais diz que é mais uma hipótese – “Fala-se num estímulo de resposta imunológica providenciado por essa vacina, mas não passa de uma suposição para já”. Quando questionado sobre o que pode vir primeiro na cura da Covid-19 e no desejado controle desta doença: se a vacina ou um tratamento via cocktail de medicamentos, o presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumolo-

gia considera: “A vacina pode permitir voltarmos ao nosso estilo de vida normal, sem grandes riscos, mas o teste de fármacos é indissociável. Vamos ver o que conseguimos em primeiro lugar”. A pensar numa segunda vaga da doença que se prevê para o próximo inverno, os testes à Covid19 podem ter um efeito importante, os denominados exames sorológicos, através da recolha de sangue em que se pode aferir do denominado conceito de imunidade de grupo. “Dá para percebermos se alguém já teve em contacto com o vírus, e se esse indivíduo se apresenta imune à doença ou não. Mas as dúvidas são muitas, porque não sabemos quanto tempo dura a imunidade”. No fecho desta edição e de acordo com os últimos dados da DGS há a registar 24 mil 322 casos confirmados de infeção por Covid-19 no nosso país. Já ocorreram 948 óbitos motivados por esta doença. António Morais acredita que o número de infetados deve ser multiplicado por 10, ou seja neste caso já teríamos nesta altura 240 mil infetados. Isto devido aos assintomáticos e aos que não procuram o médico porque os sintomas são muito leves. Sendo a Sociedade Portuguesa de Pneumologia representativa de vários profissionais de saúde, uma das preocupações está relacionada com o número de infeções em contexto hospitalar. “É um número significativo e isto pode dizer-nos duas coisas – que em alguns locais as condições de trabalho não são as melhores em termos de proteção, mas também algumas falhas de organização dos próprios hospitais que não se precaveram com material suficiente”.


Valor Local

Abril 2020

Investigação Covid 19 19

José Carlos Morais, biólogo

“Já era expectável o aparecimento de uma doença a esta escala” ara José Carlos Morais, biólogo ouvido pelo Valor Local, que apresenta no seu site em “jcmorais.com” um trabalho de pesquisa sobre a biologia do Covid-19, a pandemia que agora estamos a viver era expectável. O mundo selvagem possui mais de 1 milhão e meio de vírus e nunca se sabe quando um deles vai passar a ter um efeito escala e ser transmitido ao homem. Nos últimos anos a comunidade científica previa o aparecimento de novos coronavírus e exatamente através de morcegos como foi o caso do que aconteceu com a SARS -COV-2 que se expandiu de Wuhan para o mundo. Já antes e em 2003 tivemos a SARS COV reportada também no extremo oriente. Embora não relacionada diretamente com a questão do coronavírus, certo é que os vírus e

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as bactérias, segundo o biólogo, estão sujeitos a “uma pressão seletiva muito grande” muito por culpa da ação da criação de antibióticos, vacinas e de componentes biológicos e químicos que exercem sobre os agentes patogénicos essa ação que faz com que “muitas populações de vírus e bactérias morram, mas há um ou outro mutante dessa população que consegue sobreviver”. Só assim se explica “termos vírus e bactérias multirresistentes”. Este é um desafio porque é também “a natureza do planeta que nos vai ensinando a lidar com ele”. “Não vale a pena pensarmos que o covid é fruto de uma arma biológica em laboratório, porque a vida é fruto de mutações”. O conceito de imunidade de grupo que é visto como uma das próximas batalhas a ganhar no contexto do Covid-19 é algo

“difícil de conseguir alcançar”. “Basta pensarmos que para quebrarmos a cadeia de transmissão num grupo de 10 pessoas, quatro têm de estar imunes, e isto não é igual para todos os vírus e também depende da forma como as comunidades vivem, porque nos países com mais densidade populacional vai ser necessário tirar mais peças dessa cadeia”. Fazendo as contas e multiplicando esta ordem de ideias pela população mundial, o caminho ainda é longo, e quando a vacina não está ainda ao virar da esquina, e começam a aparecer casos de pessoas que depois de curadas voltam a contrair a doença. No caso de Portugal “os valores da imunidade de grupo serão diferentes de uma população tailandesa ou chinesa”. A imunidade também se traduz quando o vírus ataca a mesma pessoa pela

segunda vez mas o organismo já reconhece o vírus e cria uma resposta mais imediata e eficaz. A pressão seletiva e a criação de um ambiente muito agressivo vem dar azo a este tipo de realidade. “Deveríamos mudar a nossa atitude e a forma como vivemos. Possivelmente nunca pensámos que seria possível o teletrabalho”, e com isso diminuir a pegada ecológica. Por outro lado, “tudo isto vem-nos alertar para a importância da investigação científica a todos os níveis”. A vacina ainda está longe mas o mundo “demorou mais de 30 anos a ter testes na farmácia para testar a presença do HIV”, traça a comparação, acreditando que como há um esforço da comunidade científica internacional na procura de uma cura, o caminho pode ser mais facilitado.

Jorge Torgal, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia e porta-voz do Conselho de Saúde Pública

“Há um receio muito grande e infundado na sociedade portuguesa” uando o primeiro-ministro decidiu encerrar as escolas, foi uma das vozes que achou que a medida não seria primordial no contexto da pandemia em curso, porque na sua opinião e de forma isolada podia não querer significar muito. Jorge Torgal, em entrevista ao nosso jornal, conclui, nesta altura, que o país soube estar à altura do desafio e que os números da pandemia são encorajadores. Portugal conseguiu um resultado bom, e faz um ponto de comparação com a Bélgica que tem um número de população semelhante: 11 milhões e meio de habitantes mas onde os números são mais assustadores. “A Bélgica tem 44 mil doentes, Portugal 24 mil, mas aquele país da Europa central regista 900 doentes nos cuidados intensivos, enquanto Portugal não ia além dos 180 há poucos dias atrás, e para completar não chegámos ainda às 1000 mortes, e a Bélgica vai nas sete mil”. Há diversos fatores a interferir na taxa de letalidade de um país desde a sua geografia social à capacidade de resposta dos sistemas de saúde, bem como a resposta da sociedade às medidas dos políticos, o

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que no nosso caso fez a diferença Segundo os investigadores num documentário transmitido pela Netflix, e numa escala de gravidade em relação a outras doenças e até pandemias que o mundo sofreu a Covid-19 é entendida como mais mortífera do que o sarampo mas menos contagiosa, menos mortífera que o ébola mas

não tão má como a varíola, ficando na mesma escala da gripe de 1918 ou gripe espanhola. Em África os números da doença ainda não atingiram as mesmas proporções em comparação com o resto do mundo, mas o especialista não atribui às condições atmosféricas, pois há a ideia instalada que o vírus dá-se melhor com climas frios. “Conheço bem

Angola e Moçambique onde há poucos locais a fazerem testes e a capacidade de diagnóstico da doença é muito baixa. Como a doença tem pouca evidência clínica em comparação com o ébola é normal que esteja pouco estudada. A doença entrou tardiamente no continente africano, mas o diagnóstico por via das condições económicas dos paí-

ses torna mais difícil o apurar dados”. Consegue-se enquadrar a gravidade de uma doença pela taxa de letalidade, e este é um critério “grosseiro” que acaba por se usar cientificamente apesar das limitações, refere Jorge Torgal. Tal como o presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, Jorge Torgal também se refere à possibilidade de existirem mais casos do que os que são tornados públicos quer no nosso país quer la fora. Segundo um estudo da Universidade de Stanford, na passada semana, os autores dizem que há 50 a 80 vezes mais casos do que os que são diagnosticados, os ditos assintomáticos. Isso não seria totalmente mau, porque apesar de significar um grande número de pessoas infetadas, coloca automaticamente uma alta na imunidade de grupo para uma segunda vaga da epidemia. “O conhecimento que esta primeira vaga nos dá é muito importante, desde logo porque sabemos que as pessoas passam sem grandes problemas à doença, sem necessidade de internamento, ao contrário das pessoas com idade

mais avançada bem como as que têm outras doenças associadas, e isso permite ter o sistema de saúde mais preparado para proteger os indivíduos de outra vaga que venha”. O conhecimento adquirido é a chave. E onde é que entram os testes de anticorpos bem como as zaragatoas nesta equação entre o muito que já se sabe e aquilo que está para vir: “São importantes e devem continuar a ser realizados pois são um instrumento importante para se aferir da imunidade dos indivíduos”. O Governo, nesta altura, prepara-se para ir abrindo a economia e o país progressivamente. Como tal Jorge Torgal vê como importante esse passo. O retomar da atividade económica “é fundamental”. “Há um receio muito grande na sociedade que para mim é infundado porque é mundial, e criou-se uma atenção desmesurada sobre este quadro. Houve países que não fizeram um encerramento tão forte, mesmo em Portugal havia linhas de pensamento diferente. Os cidadãos seguiram rigorosamente e daí apresentarmos uma situação positiva quanto a esta pandemia”.


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Jornal Valor Local Edição Abril 2020  

Jornal regional Azambuja, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Benavente, Cartaxo, Cadaval, Vila Franca de Xira, Salvaterra de Magos

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