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DIAGRAMAÇÃO

Nas cidades em que o dinheiro governa e a dominação Locais, comportamentos, condições e pensamentos lutam

Fernando Imai Jay Viegas Vinícius Pereira

margens das políticas sociais e dos programas de televisão.

ILUSTRAÇÃO

A pista de skate reúne praticantes do esporte mais criminalizado da cidade, ainda que as butiques encham seus cofres e reduzam a luta aos cifrões. Nas quebradas, bairros e

Fernando Imai Gabriel Roemer Jay Viegas Thiago Ribeiro

um encontro autônomo e horizontal faz suas próprias regras e acolhe almas. Nem os enquadros os enquadram. Os quadros saem das molduras: sobem os muros, os prédios, as ruas. A cidade reprime e divide. O pixo resiste. rompe com a propriedade privada e bate de frente com as imposições das cidades de concreto. Marcam com tinta preta os prédios cinzas da elite do país. recordista mundial no uso de agrotóxicos, envena nossas mesas e agride crianças com a palmatória química de suas drogas legalizadas, mas não tem a capacidade de liberar o uso medicinal da maconha. Não é guerra às drogas, é guerra contra pobres e desajustados. No país da terceira maior população carcerária do planeta, a Casa Grande continua em pé. O sistema cria a figura do delinquente, estigma que recai sempre sobre os mesmos. Os encarcerados não vivem, sobrevivem no

REDAÇÃO

Carolina Piai Guilherme Almeida Henrique Santana Isabella Amaral Iuri Salles João Previ Patricia Iglecio Paulo Motoryn Victor Santos Vinicius Lima COMUNICAÇÃO

André Napchan Ian Castilho João Miranda Martim Antunes FOTOGRAFIA

eleitoral, tem o comando da capital. Se antes apenas o número de presos homens crescia, a partir da década de 90, a prisão de mulheres passou a acompanhar o mesmo rítmo. Mulheres negras, reprimidas pelo patriarcado, pela escravidão e pelo racismo, sofrem nas Homem branco, instituições mórbidas. Bárbara, mulher lutadora, que conta sua história em páginas desta revista, nos disse que vivia um casamento muito mais opressivo que seu trampo de prostituta, ou melhor, acompanhante - como faz questão de ser reconhecida. A máscara cai. O casamento é o ringue da exploração e do sexo sem consentimento. Um estupro de sonhos

Bruna Bravo Fifo Gabriel Uchida Greta Rodrigues Isabella Amaral João Miranda LÚDICO

João Previ Maria A. Valladares Pedro Blanco Pedro Mirilli Suzana Lefèvre COLABORADORES

liberdades. Com seus vícios e virtudes, resiste.

Cripta Djan Veronica Miranda

O papo é sem curva. Vaidapé. IMPRESSÃO

Papel couché fosco 90g, 210x277mm APOIO INSTITUCIONAL


ARTISTA CONVIDADO

8 MEU TRAMPO

As Mães em Bárbara........................................................14 A RUA GRITA

Utopia Pirata.....................................................................20 Tempestade: na Cadeia..................................................24 Arquibancada...................................................................30 Aqui é Butanclan..............................................................34 Quem Planta?...................................................................38 44 Ilú Obá de Min.................................................................50 VALENDO NOTA

O Problema PCC............................................................58 BRASIL BARRACA

Do Outro Lado da Ilha....................................................66 INICIATIVAS.....................................................................72 QUADRINHOS..................................................................74


Thiago Rocha Ribeiro 22

ANOS,

ESTUDANTE

DO

TERCEIRO ANO DA FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO (FAU-USP),

É

O

ARTISTA

CONVIDADO PARA ILUSTRAR A QUARTA EDIÇÃO DA REVISTA VAIDAPÉ.

A

INSERÇÃO

NO

MEIO DIGITAL, TENDÊNCIAS DO FUTURO E O FINANCIAMENTO DO ARTISTA FORAM ALGUNS DOS TEMAS EXPLORADOS DURANTE NOSSA ENTREVISTA.


VAIDAPÉ marcou seu início nas artes?

THIAGO RIBEIRO Sim, desde pequeno eu curto desenhar. Grande parte do meu interesse vem da escola que eu frequentava e, principalmente, dos meus pais. Meu pai não tem relação nenhuma com arte mas ele curte muito criar coisas: explorar, montar, descobrir como funciona. Meu grande barato não é só desenhar, o que eu curto mesmo é criar. Pensar uma coisa e conseguir produzir ou transformar em algo material - seja desenho, pintura, escultura.

VDP para criar suas obras?

escultura... O desenho sempre vem primeiro. É a forma de arte mais primitiva que tem, tanto que os homens da caverna pegavam alguma coisa, riscavam e criavam uma marca na caverna, depois iam aperfeiçoando, até que virou

VDP várias e várias teorias a respeito delas. A cor, assim como a que eu quero mostrar, de como eu to me sentindo, eu uso cores diferentes. Tipo as cores que eu to usando aqui, verde e azul, são cores mais calmas. Se eu estivesse com raiva usaria outras.

Eu acho muito chato quando chega alguém e fala que você tem um puta talento, que deus olhou pra você e deu um dom. Dom é o caralho! Eu fico até a madrugada desenhando, é muito treino. Quando falam que você tem talento é quase um xingamento (risos) VDP Que aliás, está muito louco. Curto muito ser humano, principalmente mulher. Curva arredondada, não só no sentido sexual do negócio, mas curva, pescoço, seio, eu sou encantado por isso. Toda mulher que eu faço tem relação com alguém que eu conheço; não quer dizer que é o retrato de alguém, mas tem características de pessoas que são próximas a mim, que eu acho bonito, elegante, atraente. Na verdade, tô até com medo de fazer isso aqui, porque usar tanta cor eu não estou acostumado. Resolvi aproveitar a oportunidade pra sair um pouco da zona de conforto.


VDP

designer, é preciso estar no meio digital. Não precisa fazer

acho importante. Muita gente tem problema em entender que o cara que é foda no digital é foda no tradicional. A teoria da cor, composição, anatomia é tudo igual.

VDP que não vai para o meio digital se manter? Mesmo o cara do digital, acho difícil ele se manter. então existe sim um nicho para artistas que trabalham com o tradicional. São mundos diferentes, mas com clientes diferentes, que se interessam pelas duas coisas.

VDP vir o cara que vai dizer se gosta daquilo ou não, se vai usar ou não. O artista tem que produzir e divulgar o trabalho dele. Acho importante que o cara que quer trabalhar com arte divulgue seu trabalho, pois é assim que ele se vende.

VDP Porque quando eu era pequeno fui na casa de um amigo e o pai dele era arquiteto. Vi o que ele fazendo maquetes no computador e desenhando. Só que, na faculdade, eu fui tendo aula de projeto e percebendo que o que eu gosto mesmo é de criar coisas, que não sejam exatamente um prédio, e o curso te deixa muito restrito. É muito burocrático.

VDP

tem o fator do improviso, consegue descobrir as coisas. fazer tal coisa. Tem mais precisão. O grande barato de fazer isso é descobrir as coisas e no computador às


Foda é o cara que faz fila para ver bolinha colorida, para tirar selfie. Faz fila quilométrica para ver uma série de TV que passou 10 anos atrás. Por que não tem essa fila na Pinacoteca, no MASP? As pessoas vão onde dizem para elas que é bom. Por isso que selfie, hoje em dia, é o maior marketing de museu. Um monte de gente vai tirando selfie, as pessoas vão no museu para tirar selfie e dizer que foram na exposição. Isso é uma merda, né?

VDP Ou da arte se tornando mercadoria? recentemente. Sempre escutei que lá o mercado de arte é uma bosta, pois grande parte do negócio não é mas porque sabe fazer sala, tomar cafezinho... Quem comercializa não sabe do que tá falando. O cara não galeria, o que é arte contemporânea, o que é arte. É só comercial. Uma bosta.

VDP muito seletivo e o mesmo exige a sala, o cafezinho? Talvez. Mas é igual o médico, o engenheiro. É um ofício tão importante quanto. Se ele não cobrar um valor um pouco mais alto ele não sobrevive. A tinta no Brasil, por exemplo, é muito cara e o artista tem que usar o material de qualidade, garantir que aquilo dure. Não precisa todo mundo comprar obras de arte, mas todos tem que ter acesso à ela.

VDP Arte é um negócio que consegue comover as pessoas. produz e a sua produção ninguém nunca imaginou que pudesse existir, mas, depois que as pessoas veem o que ele produziu, elas percebem como a vida delas mudou. É o cara que sai da mesmice, pensa fora da caixa, não só nas artes plásticas, na música, cinema... É uma forma de tocar as pessoas.


As mães em Bárbara

É PROSTITUTA HÁ DOZE ANOS E MÃE DE CINCO FILHOS. UMA MULHER CORAJOSA DISPOSTA A ENFRENTAR TODOS OS MALES QUE A VIDA LHE TROUXER PARA CHEGAR A SEUS OBJETIVOS. SEMPRE COM UM SORRISO NO ROSTO E MUITO JOGO DE CINTURA . POR ISABELLA AMARAL ILUSTRAS HELENA OBERSTEINER

Bárbara se tornou prostituta para se livrar de um casamento violento. Foi casada por

para não cair nas mãos de mais ninguém. Garante que é

19 anos, durante os quais sofreu todo tipo de agressão por parte do marido. Uma amiga a levou para a vida na rua e, infelizmente, para outra situação de opressão e abuso: trabalhou por oito anos para uma cafetina que não só cobrava dela e de suas companheiras de trabalho

dia a dia não é fácil.

lá até as seis da tarde. Nesse meio tempo atende quantos cliente o dia trouxer. Depois, volta pra casa, toma banho, janta e vai para o banco no qual trabalha durante a noite. Acostumada com a rotina cansativa, dorme cerca de quatro horas por noite e tira sua energia de pó de guaraná.

basta na situação e enfrentar a rua sozinha, mas a mulher a mas no sábado em que conversamos, por exemplo, exploração de mulheres e quando saiu, era a mesma: ainda

Hoje trabalha para si mesma e recebe dicas dos acompanhantes (como gosta de chamar os clientes)

A acompanhante pretende fazer um supletivo, terminar os estudos e depois entrar na faculdade. Quer fazer medicina, para trabalhar como pediatra, ou lidar com o preparo dos mortos para o sepultamento – habilidade que adquiriu quando seu avô faleceu. A opção não lhe parece nem um pouco


Quando a gente tem um objetivo a gente tem que enfrentar tudo e o meu objetivo é sair dali

Quando sua mulher faleceu, ele pediu Bárbara em casamento, mas ela não aceitou. Isso não impediu que os dois Trabalha como prostituta há doze anos – nem todos feitos de momentos ruins. Quando perguntei sobre a relação com já com mais de 80 anos, ao médico, por exemplo. Quando o

apartamento no Campo Belo para a família morar. Os dois

Bárbara conhece todos os clientes na rua, mas mantém uma agenda para aqueles que ligam e marcam horário.

conheceu Douglas em um momento em que ele estava sofrendo muito: a mulher enfrentava um câncer terminal e o que alguns clientes a procuram apenas para conversar e

se hospedam em hotéis e avisam a acompanhante, que vai a seu encontro. Mas a maioria encontra Bárbara em seu ponto, de carro. Os valores variam de acordo com o


acompanhante e as condições de cada encontro. Quando ela não conhece o cliente, prefere receber o pagamento adiantado, mas com os de longa data, não se importa em

as relações sexuais, não importa o acompanhante nem acompanhante frequenta o posto de saúde próximo de

Pergunto se os clientes aceitam bem todos esses cuidados

Hoje em dia já não se afeta quando é hostilizada na rua, mas conta que no começo sofreu muito. As agressões vinham de todos os lados: dos moradores da região, dos clientes e de carros que passam na avenida atirando desde xingamentos

cliente saiu do quarto levando sua bolsa e tudo que tinha dentro, no outro o homem que estava atendendo dentro de um carro roubou tudo que ela tinha e a abandonou nua no

eu preciso. Se eles querem humilhar, faço de conta que não é nada. Depois eu choro, mas perto deles não demonstro. Muitos dão muita risada, eu rio junto com eles, brinco junto

Prefere trabalhar sozinha para evitar intrigas e escândalos, mas não se preocupa com a competição e deixa outras

quando as companheiras falam muito alto ou usam drogas, principalmente por conta dos moradores da região, com quem se dá muito bem. Por isso, sempre que alguém aparece querendo trabalhar na sua região, deixa, mas por

está na UTI e outro de dois anos.

Para eles, conta que trabalha em uma empresa de transportes. Há sete anos deu uma entrevista que expôs completamente desmoralizada na região onde morava.


“Tem muitos amores. A maioria são amigos, amores, pessoas compreensivas”. o respeito, todo mundo acha que a gente não é um também não acredita no processo de regulamentação da prostituição. Diz só ter ouvido falar do Projeto de Lei Gabriela Leite proposto pelo deputado federal carioca

apenas uma safada, uma mulher de rua. Quem vai querer Depois de sair de casa, nunca mais conviveram, não quer cruzar com o homem nem atravessando a rua e nem trocar

pena. Mas é pai delas né, se hoje elas não gostam dele, é

desde as primeiras semanas de vida. Bárbara conheceu a

mas só se o processo fosse registrado em cartório. Dito e feito: horas depois da conversa, a mulher passou em Dentro, todos os pertences do menino: um macacão, uma chuquinha, uma fralda e a certidão de nascimento. mas ela não ouviu. Tinha certeza que ele era a resposta às

ambiente de trabalho e portanto não podia engravidar. Seis anos mais tarde, está brigando na justiça pela guarda do que eu não sou mãe dele, ele fala que é mentira e que ele Bárbara faz questão de ressaltar que, para ela, prostituição se envolve com ninguém, nem leva clientes para casa. que trabalha como acompanhante, mas que a lição mais aprendi a escutar as pessoas, a ser menos orgulhosa, mas


Utopia Pirata NO MUNDO DO MERCADO E DAS GRANDES EMPRESAS, A CULTURA DO COMÉRCIO AUTÔNOMO RESISTE DENTRO DE UMA LÓGICA QUE CONCENTRA E EXCLUI POR HENRIQUE SANTANA FOTOS JOÃO MIRANDA

Com 58 anos de idade, Antônio Joaquim de Santos - onde já era camelô - veio para São Paulo na segunda dezena de sua vida. O pernambucano nem sempre esteve vendendo mercadorias nas ruas; ao chegar no centro econômico do país, passou por algumas empresas mais no asfalto quente da cidade paulista.

O historiador norteamericano Patrick Pringle de piratas era mais efetivo nas camadas mais pobres da população; assim, o alto-mar teria contribuído para um nivelamento das desigualdades de classe. No século XXI, em São Paulo, após décadas de repressão, o comércio ambulante - licenciado e ilegal - segue vivo no seio

Ambulante sempre dá um dinheirinho a mais. Você, que trabalha numa firma qualquer, se você não tiver um bom estudo vai ganhar uma miséria

Ultimamente, por exemplo, Antônio reclama da baixa clientela e a que viveu situações muito piores na gestão de Gilberto Kassab (PSD),

perseguição ao comércio ambulante. não dava sossego para marreteiro [camelô] nenhum. O negócio dele era


O grande aumento das abordagens policiais, a revogação arbitrária de milhares de TPUs (Termo de Permissão de Uso) - licença para se atuar como ambulante - foram provas de que as políticas de Kassab tinham o claro intuito de extinguir a categoria; com a promoção de uma limpeza social, sobretudo no centro de São Paulo. prefeito atingiram seu ápice com a revogação de um decreto municipal de 1997, que autorizava e regulamentava a atuação de camelôs nas ruas paulistas. A queda do decreto, que determinava que todos

culminando em uma manifestação na Praça da Sé em junho de 2012. As pressões promovidas pela categoria deram resultado, e a justiça concedeu uma liminar determinando que os ambulantes voltassem às ruas. Antônio esteve na manifestação. Ao seu lado na luta, Samuel de Almeida, o Samuca. Samuca nasceu

que exerce até hoje. Morador da Zona Leste paulista, Samuca chega ao centro da cidade de metrô; pega seu carrinho em um estacionamento, onde aluga uma vaga mensal, e o coloca em seu ponto, próximo à Praça da República. Sua licença foi obtida através de uma associação de suporte ao deficiente. Muito grato à associação, o de permissão - dos quais a maior parte é destinada

Figura recorrente nas reivindicações da categoria, o camelô, dois dias antes da manifestação na Praça da Sé, já havia se acorrentado em frente à Prefeitura, fazendo pressão para a retomada das negociações com o poder público. Samuca também não guarda boas lembranças do antigo relata cenas de excessos cometidos pela polícia durante

Anos atrás, eu já tive colega deficiente que lutou com fiscal e caiu da cadeira de rodas SAMUCA

A caça a ambulantes na gestão do ex-prefeito estava inserida dentro de um espectro muito maior de políticas sob forte pressão do mercado imobiliário. Não à toa, no mesmo ano que Kassab proibia o comércio ambulante na cidade, se deu início a Operação Cracolândia, que crack. O caso chegou a pautar denúncias de violação aos direitos humanos nas Nações Unidas.


A situação criada nos últimos anos se estende até hoje, mas, mesmo assim, o comércio ambulante se mantém vivo em São Paulo. Apesar de cerca de 5 mil licenças terem sido cassadas no período Serra-Kassab - quase extinguindo as TPUs do município - pouco menos de 2 mil ambulantes conseguem, ainda hoje, trabalhar de forma legal por intermédio da liminar concedida pela justiça.

Números de licenças em SP 6.000 5.000 4.000 3.000 2.000 1.000 0 2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

O prefeito eleito em 2012, Fernando Haddad (PT), apesar de afrouxar a perseguição a camelôs, manteve as portarias que inibem a emissão de novas TPUs para o comércio; perpetuando, também, o caráter higienista dos mandatos que o antecederam. No prisma dos vendedores ambulantes, a manutenção das Operações Delegadas – direcionadas, em sua maioria, a comerciantes ilegais - são um exemplo pragmático disso. Criadas no período Kassab, as operações consistem em uma parceria entre o poder recebem um salário extra da prefeitura para exercer funções fora de sua jornada no entanto, demonstra que a situação não é a mesma para vendedores não

vendedores ambulantes de São Paulo, dos quais muitos se estabelecem no comércio informal de mercadorias piratas. São esses também os que continuam a sofrer com os abusos da Guarda Civil Metropolitana e da

Durante ação de combate à pirataria, um PM assassinou o camelô Carlos Augusto Muniz Braga, vendedor de CDs e DVDs; caso que reverberou na mídia paulista. no Rio de Janeiro, em ação semelhante da Guarda Municipal carioca – que, por lei, não pode carregar armas.


Pirata Urbano Na Praça da República, centro de São Paulo - mesma região em que Antônio e Samuca estacionam suas barracas -, João* vende suas mercadorias. Trabalhando às margens da legalidade que os outros dois ambulantes dispõem, João circula itinerante entre um rapa e outro. A comunicação, que se dá por rádio, é feita em parceria Vendendo cópias dos óculos fetichizados pelas grifes multinacionais, o pirata urbano resiste em um sistema que dá mais valor a patentes do que à integridade humana. Com palavras presas na garganta, João esboçou seu desabafo, no entanto, sagaz e ligeiro, fechou rápido seu mostruário e se escondeu dentro de uma das galerias do centro antes que o pudesse concluir. O rapa havia chegado.

Seguinte, nóis aqui, que é marreteiro e vem aqui só para trabalhar, não vem para atrasar o lado de ninguém. Eu peço para a autoridade olhar um pouco para nóis aqui da periferia, que é o povo trabalhador, para ver se cede algum lugar para nóis estar trabalhando; para ver se a gente ganha nosso dinheirinho de cada dia, porque, se for para depender de um salário mínimo de firma, não dá para sustentar nossa família... JOÃO

No maior pólo econômico do país, aqueles que ocupam as ruas para comercializar produtos de forma autônoma - sem se submeter à salários miseráveis de empregadores que perpetuam o abismo social entre classes - são

onde a ocupação da rua ganha legitimidade quando a própria função do ambulante é elitizada. *NOME FICTÍCIO, O CAMELÔ PREFERIU NÃO SER IDENTIFICADO.

“Dane-se a chalupa, nós vamos naufragá-la e ela poderia ser de uso para você. Embora você seja um cachorrinho servil, e assim são todos aqueles que se submetem a ser governados por leis que os homens ricos fazem para sua própria segurança (...) Eles nos difamam, os canalhas, quando há apenas esta diferença: eles roubam os pobres sobre a cobertura da lei, sem dúvida, e nós roubamos os ricos sob a proteção de nossa própria coragem.” Discurso do pirata, capitão Bellamy, ao capitão de um navio transportador de mercadorias que havia sido saqueado. Bellamy havia convidado o outro capitão a se juntar aos piratas; convite que foi recusado pelo mercante. Charles Johnson, Uma história Geral dos roUbos e assassinatos dos mais notórios Piratas, 1724.


Tempestade: na cadeia, uma mulher de olhos profundos DEPOIS DE CINCO ANOS PRESA, TEMPESTADE CONSIDERA O PRESÍDIO UM PURGATÓRIO ONDE SE REZA E SE CULPA POR PATRICIA IGLECIO ILUSTRAS JAY VIEGAS


Tempestade me recebeu em sua casa para contar um pouco da história que viveu durante o tempo em que passou presa. Condenada

la, no entanto, diz que ele não fez

drogas, foi encaminhada para a Penitenciária Feminina Santana

Foi tudo para advogado pangaré, depois eu descobri que ele corria

de seu bolso. Perguntei à ela como conseguiu pagá-lo, Tempestade

judiciária porque eu queria entender da lei e eu não sabia

Conseguiam os trabalhos na judiciária as presas que tinham mais conhecimento. Tempestade cursou psicologia durante quatro

2008, aos 57 anos. Teve sua pena fracionada: passou fechado e um ano e oito meses no semiaberto, no Centro de Progressão Penitenciária do Butantã. Assim que foi presa, Tempestade contratou um

sendo abreviada, a ex-detenta passou seis meses na cadeia sem poder trabalhar, porque seu processo ainda não tinha um sem saber de nada até o dia da minha sentença eu fui trabalhar

Farias Brito, em Guarulhos. No entanto, acabou não concluindo naquela época, era muito raro ver faculdade e, para pagar o estudo, trabalhou muito. Vendia roupas e perfumes, se desdobrava em qualquer bico que aparecia.

11%

apenas

das 2.636 mulheres presas em Santana estudam,

79% 59% 70% fonte: ong ação educativa

dizem que gostariam de estudar tem algum ofício afirmam que abandonaram os estudos para trabalhar

Fonte: ONG Ação va Educati


O lugar que mais se reza é na cadeia, eu achava que era na igreja sabia? Mas é na cadeia. Dia e noite rezando para deus tirar a gente do inferno. Na verdade, eu acho que lá não é o inferno, é o purgatório social. Quando eu era pequena eu falava ‘caramba, o céu é lá em cima no azul, o inferno é lá embaixo’, o purgatório dizem que é a terra, mas é na cadeia. Lá é o purgatório social, é o lugar onde a sua alma fica se culpando: você chora, você quer estar que nem nós duas agora, ouvindo uma música suavizinha. É um negócio muito louco Faxineira do setor judiciário da penitenciária de Santana, Tempestade se relacionou com defensores públicos da Fundação Nacional de Amparo ao Preso (Funap), da Pastoral Carcerária e do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC). O setor formava uma equipe de presas e defensores públicos que lutavam pelos direitos das mulheres em situação de cárcere.

que estavam na casa delas e saiam para ir lá, era difícil as Tempestade não recebia visitas, diz que não queria que ninguém tivesse que entrar na cadeia e passar por revistas, familiares, porém, ela prefere não falar sobre o assunto.

A ex-detenta pontua que insistiu em trabalhar no judiciário pois queria entender, através da lei, como faria para sair de lá; mais do que isso, ajudar as demais presas a reconquistarem a liberdade. Muitas das mulheres não sabiam

Sobre o regime semiaberto, a mulher fala que todas as presas tem a ilusão de que muitas coisas vão melhorar. No entanto, praticamente todas trabalham com faxina, as poucas que são empregadas como metalúrgicas executam serviços que exigem muito esforço físico. Além disso, o

das mais instruídas.

terceirizado a empresas, que remuneram as detentas com pagamentos inferiores a um salário mínimo.

Perguntei para Tempestade se ela sofreu agressões na dentro da cadeia, era muito cobrado, mas eu era respeitada, porque eu corria. É ruim hein, eu sofrer respeito muito grande das presidiárias por mim, é o

Tempestade passou por duas operações no coração, e, por isso, não pode fazer muito esforço. Não aguentou por muito tempo o trabalho de faxineira no presídio do Butantã; diz que limpar o chão e empurrar carrinhos de lixo era cansativo. A força que tinha que fazer para levantar

Nesse sentido, ela teve problemas com os diretores do presídio por estar sempre ativa na luta pela liberdade. e textura, mas não recebia dinheiro. Outra grande conquista da equipe que atuava com ela sair da cadeia impedia a mulher de fazer algo que pudesse prejudicar o seu processo ou aumentar sua pena. O momento mais emocionante da entrevista foi quando Tempestade me contou do dia em que passou para o regime semiaberto. Já havia feito algumas saídas em feriados, mas para Tempestade, o gosto de liberdade foi muito maior ao saber que não estaria mais sob regime fechado.

escura com condições ainda mais precárias de higiene e alimentação - por descumprir alguma ordem ou causar

Conversamos também sobre o comportamento das presas, perguntei se elas saiam da cadeia mais violentas o sofrimen- to é muito grande e tudo que se pensa no

100. Foi uma emoção, só de falar eu me arrepio (...) Todo mundo parado dentro de um espaço, sabe, muito mais tempo do que deveriam, muitas era a primeira vez que

Choramos juntas. Tempestade disse do quanto se aprende

A trajetória de Tempestade na cadeia, tão cheia de lutas pelos direitos, não coube em nossa conversa de quase duas horas. Ao som de Lulu Santos, Marisa Monte e Vinícius de Moraes, pude oferecer para ela minha vontade de escutá-la e de fazer com que mais pessoas soubessem de sua história.

que no regime semiaberto, as presidiárias resgatam o detentas recebem visitas, a expressão delas melhora. Algumas presas contestavam os enfeites de natal, pois diziam que na cadeia não tem nada para se festejar.

Tempestade, uma mulher de olhos profundos, transmitiu para mim o sofrimento daqueles que passam pelo encarceramento e seu anseio não apenas por sair de lá, mas de que as outras presas tivessem a sua liberdade de volta.


81%

dos delitos femininos

são crimes de ação

sem violência

57%

frente a dos delitos cometidos por homens homems.

Fonte: ITTC

O Estado de São Paulo tem capacidade para 8.421 presas,

porém, abriga 10.597.

isso significa que

26%

das unidades prisionais do estado estão

superlotadas.

Atualmente, o Brasil possui

36 mil detentas.

Existe um déficit de

14 mil vagas

no sistema penal

feminino

50% não completaram

o ensino fundamental

14 em cada 15

são responsáveis pelo sustento da família

de todos os presos no Brasil

são mulheres.

45% são negras ou pardas.

2/3 tem entre

18 e 34

anos


ARQUIBANCADA TEXTO PAULO MOTORYN FOTOS GABRIEL UCHIDA

EU NÃO SOU BANDIDO “EU JÁ DEVO TER IDO EM MAIS DE 300 JOGOS NA MINHA VIDA E NUNCA AGREDI NINGUÉM. NÃO VOU DIZER QUE NUNCA VI, ACONTECE SIM. ACONTECE PELOS MAIS DIVERSOS MOTIVOS. ÀS VEZES É CONTRA RIVAL, ÀS VEZES É CONTRA POLÍCIA, ATÉ ENTRE NÓS MESMOS ACONTECE. MESMO ASSIM, OS CARAS NÃO PODEM GENERALIZAR, TÁ LIGADO? EU NUNCA BRIGUEI E VOU TER QUE AGUENTAR MANINHO NA TEVÊ FALANDO PRO MEU FILHO QUE EU SOU BANDIDO, SOU VAGABUNDO?”

“QUEM FORMA OS BRIGÕES NÃO É A TORCIDA, É A SOCIEDADE. MAIS DE 80% DOS TORCEDORES ORGANIZADOS SÃO TOTALMENTE EXCLUÍDOS DESDE QUE NASCERAM. NÃO TIVERAM ACESSO NENHUM À SAÚDE E EDUCAÇÃO. AS ORGANIZADAS NÃO MOLDAM NINGUÉM. SE ALGUÉM COMETE CRIMES AQUI É PORQUE JÁ COMETIA ANTES.”

André da Real, segunda maior torcida organizada do São

Gilmar um trabalho de mapeamento das entidades, inclusive viajando ao lado de comitivas estatais.

“A GENTE CANTA MESMO QUE O PAU VAI QUEBRAR, QUE BRIGA COM TODO MUNDO. MAS, QUANDO VOCÊ CONHECE, VÊ QUE O PESSOAL NÃO É SACANA. A MAIOR PARTE TÁ LÁ PRA MOTIVAR O TIME. A ÚLTIMA COISA QUE A GENTE QUER É CONFUSÃO, PORQUE AÍ VAMOS TER AMIGO PRESO, GENTE MACHUCADA. NÃO VALE A PENA. É QUE SEMPRE TEM AQUELA MEIA DÚZIA QUE ADORA UMA CONFUSÃO. A GENTE NÃO PODE SER PUNIDO PELO QUE NÃO FAZEMOS. EU NÃO VI FECHAREM O VATICANO QUANDO TEVE PEDOFILIA NA IGREJA. POR QUE SEMPRE FALAM EM EXTINGUIR AS ORGANIZADAS?”

Daniel tem 20 anos e sempre vai à Vila Belmiro ver os jogos do Santos, mesmo morando em São Paulo.

“ENTENDAM, OS BANDIDOS TORCEM PARA UM TIME DE FUTEBOL, ASSIM COMO NÓS. ASSIM COMO NÓS, QUEREM IR AO ESTÁDIO E TORCER PARA SEU TIME. A QUESTÃO É QUE O BANDIDO CRESCEU BANDIDO FOI PRATICAMENTE FORÇADO A SER ASSIM, ELE POSSUI A IDEOLOGIA DE BANDIDO. E AÍ DÁ PROBLEMA, PORQUE ELE GOSTA DO TIME, DA TORCIDA, E QUANDO ALGO NÃO VAI BEM ELE AGE: AGRIDE, INVADE O CAMPO, AMEAÇA OS JOGADORES. O QUE NÃO PODEMOS FAZER É PENSAR QUE SÓ PELO CARA ESTAR VESTINDO A CAMISA DE UMA ORGANIZADA ELE REPRESENTA A ORGANIZADA.”

Matheus quenta a Gaviões da Fiel, principal torcida organizada em São Paulo e, sempre que pode, pega a estrada com os amigos para assistir às partidas fora de casa. Para ele,


A LUTA QUE NÃO É TELEVISIONADA A campanha

, idealizada por antropólogos e historiadores, reuniu torcedores organizados de toda a cidade por uma boa causa: mostrar que a rivalidade nos estádios pode se transformar em uma competição sadia fora deles. O projeto levou centenas de torcedores a um centro de doação de sangue e estimulou uma disputa para ver qual torcida mais se comprometia.

Apesar de institucionalmente negarem a participação de torcidas organizadas foram juntos às ruas contra o aumento da tarifa do transporte público, fortalecendo a saíram das quadras da Mancha, Gaviões e Independene aumentaram as mobilizações.

A POLÍTICA É PARA OCUPAR e deputados, diversas torcidas organizadas estavam ali representadas em diferentes candidaturas. As principais institucionalidade suas reivindicações históricas.


A FAXINA NOS ESTÁDIOS: “AQUI NÃO TEM BURGUÊS!”

O BRASIL É O PAÍS CUJOS INGRESSOS SÃO OS MAIS CAROS DO MUNDO, em termos proporcionais à capacidade de consumo da população

“O suposto país do Futebol é o país das negociatas, hipocrisia, corrupção e má gestão. Onde o Palmeiras irá jogar contra o Atlético Paranaense, o valor do ingresso visitante será de R$ 150,00, o que representa 22% do valor de um salário mínimo no Brasil. Uma vergonha da qual a imprensa não brada como violência, a sociedade não clama por abusiva, o código de defesa do consumidor não sai em defesa, o STJD não faz discursos... E, nós, torcedores, pagamos o preço nos privando de poder assistir o jogo.” Comunicado da Mancha Alviverde no dia 5 de setembro, dias antes de Palmeiras e Atlético Paranaense, na Arena da Baixada, em Curitiba.

“Não se enganem, numa sociedade que tolera a miséria, injustiça, analfabetismo, corrupção e que o governo utiliza da própria violência para subjugar o povo dentro das leis impostas, não seria apenas a violência a causa da perseguição sobre as torcidas organizadas; mas sim os interesses escusos que permeiam o futebol moderno. Os Gaviões da Fiel Torcida representam a resistência do povo nas arquibancadas, a resistência do torcedor de baixa renda e do proletariado. (...) Convivemos com a violência no nosso cotidiano, não se pode fatiar a violência, quando a violência é um todo, e está presente na realidade do cidadão brasileiro.” Manifesto publicado pela maior torcida organizada do Corinthians. Na ocasião, a entidade se defendia de linchamento midiático por mais


ligada às torcidas organizadas de futebol foi Cléo, presidente da Mancha Verde, em São Paulo, no dia 22 de outubro de 1988.

NÃO ESQUECEREMOS: É PRECISO MUDAR! ANO A ANO: nÚMERO DE MORTES LIGADAS AO FUTEBOL FONTE: LANCE!NET


EM SP, A CENA DO SKATE SEGUE VIVA E RESISTE DIANTE DA FALTA DE INCENTIVO E ESPAÇOS PARA PRÁTICA DO ESPORTE POR VINICIUS LIMA FOTOS GRETA RODRIGUES & JOÃO MIRANDA

Mesmo sendo uma das maiores cidades na cena do skate mundial, São Paulo ainda não tem muitos espaços para quem gosta do esporte poder andar; espaços como a pista do Sumaré, Se o esporte e a arte já conseguem fazer uma diferença enorme na vida de uma pessoa, imagine o que não faz por uma comunidade. Foi através dessa paixão pelo skate que nasceu o Butanclan, um grupo de amigos que verdadeiro centro artístico, cultural e esportivo.

idealizadores do grupo.


Hoje, a pista conta com festivais, tos de manobra e os mais diversos eventos. Mas não foi e nem é fácil, bém que já bateu muito de frente as iniciativas culturais do Butanclan. Além dos eventos culturais e dos roles de skate, o grupo também faz um barulho na internet através de vídeos no seu canal no You-

seguidores. Os vídeos são feitos pelos próprios membros do grupo, e eles apren-

aí, que nem andava até chegar o Butanclan, hoje é homem grande e faz uns trabalhos bonitos, uns sobre a importância do grupo pra comunidade local. A Revista Vaidapé esteve na pista


VAIDAPÉ Como o Skate entrou na sua vida?

E.T. eu morava só um cara que tinha skate e eu pegava o dele comprei o meu skate aos poucos, juntei um dinheirinho e fui montando, comecei a acompanhar uns caras mais

VDP Como e quem começou o Butanclan? Teve uma festa numa quebrada de São Paulo que estavam o Pomba, o Indião e o Fernando, aí tocou uma música do grupo Wu-Tang Clan e os caras começaram a eles vieram com essa ideia aqui pra pista, todo mundo abraçou e, dali em diante, a gente decidiu que o nome do

VDP Hoje, qual é a importância do Butanclan pra cena do skate paulista? Meu, não digo nem paulista em si, digo pra cena local. tinha no máximo 9 caras. Aí a gente começou a colar, o barato começou a crescer, veio uma molecada nova que

Falcon aí, que nem andava até chegar o Butanclan. Hoje é homem grande e faz uns trabalhos bonitos, uns vídeos monstros. A importância da parada é essa, não é nem pra cidade, é pra comunidade local.

VDP Qual foi a mudança que o Butanclan fez na comunidade? Como um amigo nosso, o Cara Preta, disse: a pista serviu

Corifeu, todo mundo se junta aqui hoje.

VDP Na cultura Hip-hop, existem os quatro elementos Mano, não diria que é o quinto porque hip hop é música e skate é esporte, cada um tem a sua cultura, mas dá pra abranger porque as coisas até que se respeito do pessoal do hip hop com o skate e viceversa, mas não dá pra falar que é o quinto elemento.

VDP Qual é o maior atraso pro crescimento do skate no Brasil? Atraso mesmo é quando o moleque gosta de skate e não pegar o exemplo aqui do Butanclan mesmo, se a gente empresta um shape pra ele andar. Só que não é todo mundo que tem uma pista como essa perto de casa e essas conexões que quem anda aqui tem.


VDP Onde o Butanclan quer chegar? Vou falar a real, não digo por todos, mas por mim. A gente quer é fazer um trabalho bonito e ter o nosso pessoal unido. A gente não quer glamour, fama, dinheiro, queremos curtir nosso barato, nossa amizade e nossa união. É isso que interessa, curtir os amigos e tentar fazer sair uma molecada boa que anda de skate por prazer.

VDP

VDP Do tempo que comecei a andar pra hoje, tinha que ver umas revistas, não tinha tanta informação. Hoje a

eu comecei a andar, a gente fazia umas rampas de corres com os políticos locais que prometiam mundos e fundos, e aí chegava na hora de eu cobrar o cara, ele debochava de mim.

VDP

os caras andando. A cena paulista do skate tá forte, se

VDP Quem quiser entrar no Butanclan, é só chegar? Mano, aqui não tem essa questão de entrar. Aqui não é gangue, nem é quadrilha. O negócio é chegar na moral e se alguém olhar pro moleque e curtir,

O problema é que tem muito moleque bom, mas não sapato porque aqui é uma reunião de amigos, mas é compromisso, aqui não é brincadeira não.


Quem você quer que plante sua

maconha POR GUILHERME ALMEIDA FOTOS ARQUIVOS VAIDAPÉ

MERCADO

ESTADO

TRÁFICO

VOCÊ MESMO

A regulamentação das drogas no Brasil parece mais próxima da realidade. Basta olhar o exemplo para o bem e para o mal. A mídia se equilibra no muro da moralidade e aborda casos de pessoas lutando pelo direito de administrar -

nas últimas eleições - que não serão listados por falta de espaço - já falam em tratamento humanizado para o usuário. No entanto, a está na lista de substâncias proibidas e todas as etapas pela qual a planta passa até chegar no consumidor permanecem criminalizadas.


AS CONSEQUÊNCIAS DISSO FORTALECIMENTO DO TRÁFICO:

Mesmo sendo pribido, o consumo de drogas permanece crescendo e seu mercado é ilegal.

Holanda, Portugal e Israel. Todos esses países tomaram medidas para facilitar o acesso à maconha, mas de maneiras diferentes. Na toada de contenção

A Holanda é um caso a parte, um dos poucos lugares que tem a maconha, MORTES PROVOCADAS PELA REPRESSÃO:

o cigarro já bolado ou comer um bolinho espacial em estabelecimentos chamados de coffee shops.

policial, que mata milheres de jovens todos os anos nas favelas. ENCARCERAMENTO EM MASSA:

Grande parte da população carcerária

entanto, apenas Colorado, Washington, Alasca e Oregon liberaram o uso recreativo. Thiago Rodrigues, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), pensa que esse é o caminho mais talvez por alguma sensibilidade humanitária. Mas o uso recreativo tem um

ESTIGMATIZAÇÃO DE TERRITÓRIOS:

As regiões mais pobres das cidades são as que mais sofrem com as

rumos diferentes para tratar da questão das drogas. É quase irônico: os

MILHÕES DE REAIS LIVRES DE TAXAÇÃO CIRCULANDO PELO PAÍS:

globalização da guerra às drogas, caminham no sentido de liberar o uso da maconha em cada vez mais estados. Alguns, como Alasca e Oregon aprovaram neste ano, via referendo, o uso recreativo da erva.

O mercado ilegal das drogas é multimilionário e não paga nenhum imposto. PÉSSIMO SERVIÇO PARA O CONSUMIDOR:

por ser ilegal, não existe nenhum controle de qualidade nas substâncias vendidas. O usuário fica refém do traficante.

mais atuante em todas as etapas da cadeia produtiva. Por mais avançadas que pareçam as propostas do governo celeste, é importante lembrar que muitos pontos da legislação só entraram nas fases de votação no Congresso por pressão dos movimentos antiproibicionistas de lá, como ressalta Gabriela Moncau, integrante do Coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR) e da Marcha da Maconha de São Paulo. Numa rápida olhada no cenário mundial, chegamos à conclusão que, além do proibicionismo, dois caminhos principais foram tomados para regular as drogas: o controle estatal, tendendo ao monopólio, e a abertura para a livre No entanto, é necessário ler as letrinhas miúdas antes de assinar um contrato.

facilitar o controle da droga.


SEGUE RÁPIDA EXPLICAÇÃO CEDIDA PELO COLETIVO DAR:

principalmente observando esses talvez a dicotomia entre os modelos estatal e privado seja falsa. Não só do ponto de vista de a quais interesses servem essas duas instituições, mas no próprio entrelaçamento que já aparece em ambos os países na gestão desse mercado. Os coffee shops estadunidenses não só são abertos por a ele parcela de seus lucros. Segundo a imprensa, as autoridades estimam que esse mercado, só no Colorado, vai movimentar cerca de 578 milhões Uruguai, empresas privadas interessadas em se encarregar do cultivo participarão de processo seletivo por meio de licitação. O próprio secretário-adjunto que serão dadas de duas a seis licenças para o cultivo do que se calcula que vão

O auto plantio e os clubes são interessantes, acima de tudo, para os usuários. Se você está perto do público que consome ou produz para você mesmo, a qualidade é uma preocupação ainda maior Rodrigues é também pesquisador do Nu-Sol (Núcleo de

O direito ao auto cultivo é uma condição indispensável para que os usuários possam prescindir do mercado e possam, de forma autônoma, serem sujeitos do processo produtivo de seu próprio consumo


SÓ A PONTINHA DO ICEBERG necessário adotar outra política em relação às drogas. Um dos indícios da encarceramento em massa provocado por um sistema penal implacável quem se pareça com um ao olhar da Polícia. Não temos um limite claro de quanta droga cada cidadão pode portar. Tudo depende das situações

Se por um lado a produção e venda da maconha, quando legalizada, podem cair nas mãos de grandes empresas, que privilegiam seu lucro e não a qualidade do produto oferecido; por outro, o controle estatal pode ser muito problemático. No Uruguai, apenas cidadãos devidamente cadastrados, com direito a leitura de impressão digital, poderão produzir e comprar a erva.

interessante. O país foi inovador ao criar condições para que os produtores se articulassem em cooperativas. Dessa forma

o juiz de direito quem decide quem é

pode produzir ou portar individualmente. Geralmente, essas contas mais confundem do que ajudam. Por exemplo, o limite para a produção caseira no Uruguai é

Se é assim para a maconha, que é uma droga pop, usada por artistas

federal do PSOL do Rio de Janeiro, Jean Wyllys, propõe o mesmo limite, mas não explica o motivo.

para as outras drogas. Na maioria dos países que liberaram a maconha, outras substâncias representavam um problema muito maior para a

metanfetaminas e no Brasil a droga inimiga pública número um é o crack.

quem foi condenado por venda da maconha. A medida vale para as condenações anteriores à aprovação da lei. É apenas lógico: se a conduta deixa de ser crime, ninguém Contudo, isso atravanca o trâmite vista o posicionamento dos nossos parlamentares, acredito esse é apenas mais um dos pontos incômodos aos Gabriela Moncau. O pesquisador Thiago Rodrigues alerta que apesar da aparente proximidade histórica de se alcançar a liberação da maconha, o

coisa: um aparelho de repressão em todo o mundo, mobiliza intervenções diplomático militares, uma cadeia de vários elementos de controle e muito


USAREMOS A GRAFIA “PIXO”, COM “X” MESMO, DA FORMA COMO É USADA PELOS PIXADORES. POR VICTOR SANTOS ILUSTRAS CRIPTA DJAN

A rapaziada no point dos pixadores, centro de São Paulo, respeita muito Cripta Djan. Começou com 12 anos, nas vielas de Barueri, zona oeste, onde morava. Cresceu no movimento e fez muita escalada,

estudar em uma escola pública próxima de onde mora. Diz

colonização, que eu fui entender todo esse caminho que

a justiça, parou com a tinta, sem deixar o movimento. Desde então toca dois projetos de vídeo para registrar o pixo:

VAIDAPÉ Quem pixa?

cerveja e conversar com a pessoal do movimento. Apesar de ter largado o colégio na oitava série, recentemente voltou a

Fomos num prédio lá, tamo no meio da subida e cai um balde de água, aí eu falei, ‘porra, beleza, bora’. Nisso, caiu outro e na mesma hora já veio gente na janela deixamos as latas com um parceiro que ia largar num

CRIPTA DJAN Grande parte são jovens da periferia que buscam o pixo como uma promoção social, existencial, dentro de um determinado grupo - que são os periféricos.

VDP Como foi seu começo no pixo? Quando comecei, a pixação tava se consolidando como movimento, anos 1980, uma coisa meio despretensiosa. Nos anos 90 o pixo já se consolida como movimento, eu comecei no auge disso, mas não tinha ideia da do município que eu morava, Barueri. Comecei na


rua pixei umas vielas, já me dei mal nos primeiros

mundo. Como encarar a cidade, desfrutar da cidade, mesmo sem a questão do potencial econômico.

como tá interligado, é uma rede autônoma super bem organizada e difundida na cidade. Daí é como um praticante de esporte que quer chegar longe. No skate, futebol e no pixo tem que suar pra conseguir seu espaço e se empenhar né.

Muito se fala que os prédios são, para o pixador, um caderno aberto, mas ele não tá bem aberto né? É, a gente rompe com os padrões estabelecidos

VDP pixação? Te fortaleceu, politizou? Sem dúvida, todo o conhecimento e a maturidade que eu na minha vida, eu cresci dentro dos conceitos da pixação, dos códigos de conduta. Os conceitos de ética da rua, do pixo, entrelaçados também com alguns conceitos do crime, que o PCC (Primeiro Comando da Capital) impôs quando assumiu a rua, como humildade e lealdade. São conceitos muito fortes dentro da pixação e do crime conduta, foi isso que formou toda minha percepção de

VDP

que o pixo é tão odiado. A cidade tá se tornando são usados para alimentar essa ocupação da cidade, cada vez mais privada. Isso vai contra os ideais de um espaço público democrático, o pixador acaba resgatando esse lado meio na marra né. Do mesmo jeito que a cidade privada tá imposta pra nós, a pixação rompe com isso. de segregação, que todas as grandes cidades vão apresentando: com os muros, cercas elétricas, As classes mais altas estão, cada vez mais, se refugiando nesses lugares e impondo separações baseadas por interesses de classes.


VDP

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Como consegue autonomia?

Mas precisa ser arte? Não é que precisa ser arte, se legitima como tal sozinho, independente da minha opinião. O pixador é um artista e um vândalo de uma forma inconsciente. É foda né, como é que o cara pode ser artista e vândalo? A gente tem que estudar o conceito das palavras, ver a origem; o que foi o vandalismo, como se originou, e eu, analisando o conceito de vandalismo e de arte, cheguei à conclusão que a pixação é a arte de vandalizar. Inconsciente, tá ligado? Porque o vandalismo o que era? O ataque do povo vândalo, que era um povo,

porque, quando eu era mais jovem, a minha opção de nossos se foram no crime por causa disso: começou roubando pra comprar tinta e, quando foi ver, aquilo ali ultrapassou os limites. Mas se a gente conseguir formas, vejo como um caminho o diálogo com o poder público, como a gente teve no caso lá de Barueri, que foi um caso isolado, era um município pequeno e a gente tinha ter um diálogo de igual com o poder público, a gente organizava os festivais junto com o secretário.

VDP Rapaziada ainda pixa mais em grupo, né? A pixação sempre foi um movimento coletivo, rola pixar sozinho - o que é muito respeitado. Sinônimo de autonomia e coragem. Mas é um movimento coletivo, as vezes o cara que pixa sozinho não vai conseguir determinadas coisas que, em grupo, ele pode.

VDP Por que que a união desses grupos é chamada de grife? marca né, grife. O pixador adapta muito a linguagem, quando comecei já tinha essa linguagem, é antiga do pixo. Na real, as grifes, que são as uniões de grupos, sempre são representadas por símbolos, então acontece muito essa apropriação de linguagem pelo pixador.

VDP Se fala muito que o pixo é anárquico, como é essa compreensão? É justamente nessa compreensão da anarquia mesmo, de ir contra os padrões estabelecidos pela sociedade e

artefatos do Império Romano, como obras de arte, livros e estátuas, foi batizado de vandalismo. O pixo é uma agressão às classes superiores e o patrimônio das elites. Quando a gente pixa um prédio num condomínio chique, nos grandes centros, é um ataque, é uma destruição simbólica.

VDP Onde, por exemplo? centro, todos os grandes símbolos já foram pixados: o Banespa, o Itália, todos os maiores prédios da cidade. Os pixadores não moram no centro e a gente acaba com o centro. Aqui é um lugar que se depender da nossa condição econômica a gente não vai morar, então o pixo é meio que uma retomada da cidade, porque nós somos realmente excluídos. Se uma família da periferia tentar morar aqui no centro com o mesmo metro cada vez mais. Ainda mais depois do Kassab, aquela especulação imobiliária toda, pra realmente expulsar as pessoas de baixa renda do centro. O lance da arte, o que é a arte? Técnica e habilidade, enquadraria só por esse argumento; mas tem também plásticas; tem a questão da performance também, que o pixador usa o corpo dele como um objeto artístico pra não tem apego nenhum com a obra.

nessa liberdade de apropriação da cidade e de se assumir como transgressor.

VDP Mas hoje, já tem mais aceitação, né? Não diria aceitação, diria reconhecimento artístico e político. Acho que tem melhorado sim, mas aceitação é difícil falar porque o pixo continua sendo odiado e

VDP Não tem apego? O pixador sai difundindo a marca dele, a obra dele, cada pixo é como uma obra, entendeu? Porque tem todo um processo criativo de elaboração estética, não um padrão, existe pixo feio e pixo bonito, levam anos

como um problema - porque esse é o nosso papel - a gente nasceu pra isso, a gente não tá buscando aceitação. Mas, o circuito artístico se recusar a discutir a pixação dentro dos parâmetros que abrangem a arte

artístico. Tudo isso, vale deixar claro, que é muito inconsciente e espontâneo. Hoje que a gente tá mais maduro e descobrindo isso, até através de pesquisas amadurecidos, mas tudo isso é novidade pra nós, o legal é descobrir que a gente já fazia arte e vandalismo de uma forma inconsciente e são atos políticos né.


ENQUADROS E TRETAS 12 Anos Na primeira vez que rodou, tinha 12 anos. Pixava uma casa, perto de onde morava, com um amigo, quando foi pego pelo morador que fez os dois se pintarem, tirarem a roupa, se esfregar na parede, lamber o rolinho, tomar tinta, entre outras coisas. 17 anos tomando pisão na cabeça e no corpo inteiro muito tempo. Perdeu os sentidos do corpo e pensava não ter mais coro cabeludo. Após a tortura, o chão de terra

VDP Com mais raiva, querendo pixar tudo, mais experiente e não querendo rodar. É daí que vem a revolta do pixador. As vezes assusta né, muitos param, mas na real são os aventureiros. A gente costuma dizer que tem os pixadores e os aventureiros né, o cara que vai se aventurar por um tempinho, porque quem é pixador mesmo vai resistir a tudo isso. Mas tem que ter muita paixão pela parada, pelo movimento.

VDP Mas não da pra enrolar os polícia? Cara, eu tenho vergonha de fazer isso, porque já acho

pixador e já era. Até melhor cara, dar uma de laranja se fode. Dependendo da situação dá pra dar uma é melhor jogar a real, porque as vezes isso ganha ponto até liberam, tem policiais até que liberam a tinta e pedem pra não pixar a área deles.

VDP É incrível o procedimento de maldade, a cultura de ignorância que a nossa Polícia Militar tem. Até quando

Paulo nos bastidores - como os pixadores conhecem - realmente sabe o tipo de maldade que esses caras representam na rua, só quem vive a rua sabe isso.


VDP vários caras ela é puta. Tem muitas que começam a

permite que, em pouco tempo, madame comece a contratar pixador pra pixar a casa dela? isso aí vai depender da conduta de cada um; cada pixador é livre pra fazer o que quiser, porém eu tenho

essa posição da mãe afasta, algumas voltam (depois da gravidez) mas não com a mesma pegada.

VDP

no mercado de forma íntegra, eu faço um trabalho que periferia como escada pra projeto social, na real depois se promover. Isso é triste, um desperdício de recurso as pixo, com as técnicas que eu tenho de desenho e artes visuais. Sempre trabalhei com isso. Vale deixar claro tive facilidade de lidar com arte, o pixo só agregou.

que realmente tá preocupada em formar as pessoas. tá ligado. Tinha que ser uma ferramenta pra politizar as pessoas, porque a escola, na real, acaba despolitizando.

VDP

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A estética vem muito de álbum de rock e tal, né?

O que falta?

como um movimento de rua, não vem nem dos primeiros pixadores dos anos 80, Juneca, Bilão e Pessoinha, eles escreviam com letra de mão. Foi a galera punk que começou a pixar mesmo, daí vem esse estilo característico de letra. Nos anos 90, o nosso

longo prazo, pra pelo menos preparar a pessoa pra vida politicamente, educacionalmente e artisticamente. No Brasil, infelizmente, tem a cultura da maracutaia como uma forma de negócio; isso que é o problema, é cultural. É a forma que a gente foi colonizado que ainda deixa seus vestígios até hoje, a gente tem aquela cultura do

punk tá ligado, muitos pixavam os nomes das bandas, nomes, logotipos das capas de vinil.

VDP Nos vídeos do 100Comédia a gente ouve muito rap, como é essa conversa do hip hop com o pixo?

urbano vai se transformando e acabou se espalhando de tal forma pelas periferias que criou vida própria. A pixação era um modo de expressão dos punks e depois transcendeu isso, se tornou um movimento autônomo das periferias e

hip hop, digo o rap nacional, porque o movimento hip hop

índios. Muitas vezes os educadores estão comprometidos por causa de toda a podridão. A gente tá cada vez mais individualista, a própria mídia isso enfraquece. Acho que o nosso sistema político aliado à nossas mídias desorienta as pessoas, porque as pessoas divididas é muito mais fácil de manipular; quando se junta, faz um bolinho, já cria o medo.

VDP Total né, nós somos governados pelos empresários, isso é um fato. A gente não tem representantes na política, essa que é a nossa grande tristeza, por isso que o povo tinha que respirar política ao invés do futebol.

VDP grupos de rap aqui (no Brasil) se difundindo. música do Facção e uma frase do Nietzsche. Além do rap,

VDP É difícil né cara, o pixo é um movimento muito viril, que exige muita força física. A gente também tem a questão do machismo, que tá na pixação também, mas uma menina que pixa, a forma como ela vai ser vista de fora por amigos, parentes, é muito difícil tá ligado. Pra homem já é complicado, tem o estereótipo de marginal; imagina pra uma mulher que com qualquer coisa já é difamada. O homem pode tá com várias minas que ele é o garanhão, mas se uma mina tá andando com

pra entender o que era: fui ler Sócrates, um pouco de Platão. Depois o Rafael (personagem central do ataque à faculdade Belas Artes) descobriu o Nietzsche

Bey, o Duchamp; depois fui descobrir o Bakunin, que foi um propagador da anarquia no mundo. Cada


VDP Acho que o pixo tem que se somar a outras causas como o sem teto, passe livre, anarquista, causa indígena, legalização das drogas, desmilitarização da

a gente tem o governo do PDSB que é super elitista, reforçando diferenças, matando muitas pessoas, então

buscar uma forma de atuar junto, porque foi assim que nasceu a nossa esquerda e agora tem que nascer uma esquerda nova né. Quando as minorias começarem a se organizar e realmente colocar seus representantes no poder, as coisas vão começar a mudar. Nós não temos representantes de minoria nenhuma no poder hoje, o PT já tá fazendo isso de uma forma

única lírica que nos resta, eu queria ter uma opção melhor mas nesse momento eu não tenho.

governam sozinhos, mas tem muita gente que acabou com a nossa esquerda, muita gente que destruiu. Quem acompanha a história de como surgiu o PT

transgressor e um anarco por nascença. Usar o pixo como uma ferramenta política é muito importante, por isso a importância da politização dos pixadores. Hoje em dia,

individualmente e foderam todo um trabalho.

questão do pixo promoção e a questão do pixo protesto, acho que o pixador tem que fazer as duas coisas.

VDP pessoas que facilmente são cooptadas pela nossa do governo de esquerda, que também não é uma maravilha. Mas fazendo a análise do que foi o governo do PSDB, em 8 anos, e o que foi o governo do PT, em deixar claro que eu não sou de partido nenhum, sou em prol da melhora coletiva. Mas o que ainda me

VDP

VDP O pixo é uma porta de entrada pra política? Acho que pode ser, hoje em dia eu invisto nisso. Penso assim: o jovem não tem interesse pela política, porém tem interesse pela pixação, se ele descobrir que o pixo é uma ferramenta dentro da política, ele vai despertar esse interesse. É difícil, porque fazer pessoas que foram negligenciadas pelo estado, com um processo de aprovação automática e despolitização total através das mídias, é difícil conseguir quebrar o gelo. Porém, o pixador é um

cooptar pessoas de classes inferiores.

VDP

isso, pode ter bons resultados.

É difícil a gente falar de um cenário político daqui de São em memória de

CRIPTA LCT (1989 - 2014)


BLOCO DE CARNAVAL FAZ “UMA CASA DE SANTO” NA RUA E TRAZ À TONA LUTA CONTRA OPRESSÃO DE GÊNERO POR CAROLINA PIAI FOTOS BRUNA BRAVO, CAROLINA PIAI


Sob o deitar do Sol, tambores ecoam no centro velho de São Paulo. Mulheres batucam, ritmadas em um compasso de terreiro, há consigo toda força e beleza da ancestralidade africana. Ora ou outra cantam para os orixás – de alguma forma, Descrever esse momento é tentar retratar o inimaginável. Quando o batuque começa, é como se girassóis brotassem do concreto e milhares de

São as mãos femininas que tocam tambor para o rei Xangô O trabalho que fazem é baseado nos ritmos do Candomblé, religião de origem africana extremamente estigmatizada no Brasil. O culto aos orixás vem

O espetáculo é forte, sério e sagrado. Relembrar uma orixás são parte da família, são os remotos fundadores das linhagens cujas origens se perderam no passado mítico. e no entanto não possuímos nada mais do que Beth acrescenta que, no Candomblé, apenas homens da história dessas mulheres – com modéstia e respeito. esse lado todo negativo histórico que tem em cima acontece no Vale do Anhangabaú. Todo ano, o Bloco dança, percussão e canto entre outubro e fevereiro. Preparam-se, então, para o Carnaval. Na sexta-feira do feriado, tomam as ruas da região central, passam pelo Theatro Municipal e terminam seu trajeto na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu. tem poucos homens: estão todos no corpo de dança – ainda que seja sobre pernas-de-pau. Beth Beli, presidenta do Ilú, foi uma das fundadoras do projeto uma bateria feminina e de dar empoderamento para

e também de Xangô, um orixá; De Min se refere a mãos.

São Paulo, é expressivo em Pernambuco e na Bahia. ano, homenagearão a escritora Carolina de Jesus. Ainda

negreiro – mas existe mais atrás disso. A verdadeira história não está até hoje nos livros didáticos. Resumem a abolição no momento em que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, por exemplo. Mas foi um trabalho muito


Nós não somos vítimas, não estivemos sempre nesse lugar. Passamos diversos projetos que ampliam essa conscientização. Hoje, de rua, quanto cursos e organização de ciclos de palestras. Seu enfoque está na cultura da Nigéria e da GuinéConacri, país no oeste do continente africano – além de tratarem constantemente da temática feminina. Acirram a obrigatoriedade do ensino da história, da cultura afrobrasileira e africana na educação básica.

A ideia é subverter uma ordem e ocupar lugares políticos. Queremos desmistificar esse lado todo negativo histórico que tem em cima do Candomblé. E isso é feito por mulheres


A coordenadora de dança Cristiane Gomes complementa: simbólico. Mexe com as pessoas que vivem nas ruas, que histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que Mais do que ressuscitarem os esquecidos das profundidades de suas saias, as mulheres do Ilú ocupam o espaço público - o que parece simples, mas não é. Há 10 anos, quando começaram os ensaios, foram expulsas

seguinte, já fazia parte do corpo de dança. “O Ilú é uma experiência muito forte para quem vê e pra quem faz parte, traz coisas transformadoras. Aconteceu comigo e com outras pessoas que se descobrem negras ou admiradoras dessa cultura afrocada uma delas desperta algo, seja espiritual, artístico. As pessoas se descobrem aqui”, conta Cristiane. diversas visões sobre o que é a cultura negra, o que é o empoderamento de mulheres, o que é se descobrir como

Ilú Obá De Min é despertar


Versão reduzida do livro um trabalho de conclusão de curso do aluno Iuri Salles da FMU (Faculdades Metropolitanas

o problema PCC

DEMOS A BANDEIRA E ESPERÁVAMOS QUE NINGUÉM A ERGUESSE


durante uma conversa sobre o surgimento do Primeiro Comando sentido do estudo, me fez concluir que seria inútil culpar o PCC por ser um grupo criminoso, até porque isso é um fato consumado – a natureza criminosa do grupo é publicamente assaltantes ou resumir sua complexidade à qualquer que sejam os seus crimes. Isso limitaria a importância da análise e não passaria de uma reprodução do que é difundido nos noticiários sensacionalistas que temos por aí. Minha primeira constatação foi compreender que o PCC era composto, majoritariamente, por jovens pobres, habitantes das periferias de São Paulo - percebi que uma das maiores organizações criminosas do mundo tem como membros meus vizinhos. A partir desse fato, procurei entender como homens, que mal tiveram acesso a níveis básicos de educação formal, tinham consolidado uma organização desse porte e complexidade. Foi necessário entender articulada de dentro dos presídios - que, em tese, seriam locais totalmente dominados pelo poder público - está há mais de 20 anos em plena expansão. Para defender minha tese, foi necessário descobrir: qual é essa tal bandeira que o PCC defende? Por mais contraditório que seja, a facção levanta questões legalistas, principalmente no que diz respeito aos direitos dos encarerados. A sociedade, ao tratar do PCC, não discute que, em paralelo a essas ações voltadas para o fortalecimento do preso, a facção monta uma

mulheres em situação de cárcere, talvez não teríamos que lidar com o PCC.

considerar mais o preso como parte integrante da sociedade. comunicação, de que os problemas do país são resultantes dos crimes cometidos por bandidos droga na rua perto de casa. Aprendemos a cuspir ódio contra o pobre, mas somos mansos com os políticos e, principalmente, com empresários. Os que usam ternos brancos são os típicos favorecidos. Odiamos o efeito como se fosse a causa. Legitimamos a causa como se ela fosse capaz de acabar com o efeito.

a prisão como forma de vingança, e isso é conivente para desrespeitar os direitos do massa que está no sistema penitenciário como inimigo e não como um problema a ser sanado. Opta-se por rivalizar ao invés de solidarizar, assim, chegamos a um problema que beira o insolúvel.


POR QUÊ ENTRAR PARA O PCC? É muito fácil entender porque o PCC conseguiu tantos adeptos. O cenário nas cadeias era - e é até hoje - totalmente favorável à ideologia dessa organização. O quadro é esse: quando adentra no sistema carcerário, o preso está totalmente desassistido, incapaz de melhorar a sua própria situação. Ao percebermos que dentro desse sistema existe um grupo que prega a união da massa carcerária para o bem

autoridades também não atuam dentro da legalidade e, por isso, a sociedade sofre com a segurança pública. Toda essa atratividade do PCC se potencializa quando se leva em consideração quem é o público convidado a participar da facção: jovens pobres das periferias, pessoas com pouquíssima expectativa de uma vida razoavelmente próspera, oriundos, em sua maioria, de um ensino público imprestável, que condena pela aprovação automática. Com uma massa carcerária em ritmo de crescimento absurdo - como é a do Brasil, atualmente, a terceira mais numerosa do mundo - o PCC não teve problemas para atingir a marca de 100 mil membros. Além disso, a facção se expande dia a dia e avança no controle, já muitas vezes por esse ser o seu o primeiro braço estendido. Apesar do meu trabalho compreender os motivos do crescimento estarrecedor na adesão dos presos ao PCC, ainda era necessário últimas administrações do governo paulista.

ESCONDENDO O MONSTRO

assumiram o controle da facção, unidos. Os primeiros passos do PCC foram silenciosos e tentativas de interceptar suas ações só começaram em 1995, quando a

já havia um forte controle do PCC dentro das unidades prisionais.

paulista, e hasteia uma bandeira feita de lençol com tinta preta com a sigla: PCC. A facção se apresentou. Mesmo com a realidade deixando clara a presença da organização dentro das unidades penais de São Paulo, o estado se negava a

O governo estadual se absteve do combate à facção, deixando o caminho livre para que andasse a passos largos nesses 21 anos de


ATÉ ONDE O PCC É VIÁVEL PARA O ESTADO? Apesar do PCC crescer ano após ano e com isso se tornar mais perigoso, forte e estruturado; o que deveria ser o terror da gestão do governo paulista, foi usado ao seu favor. O PCC se periferias, em que a facção não permite que ocorram homicídios por motivos banais. Como resultado, São Paulo vem baixando o número de homicídios drasticamente, o que soa como

Dentro dos presídios não acontecem mais rebeliões, estupros ou assassinatos – e é conveniente para as autoritades uma facção criminosa que coíba esse tipo de ato e que jamais virá a público se pronunciar Ao mesmo tempo em que os gestores públicos não arcam com o ônus eleitoral e minimizam o tamanho da facção com informações falsas, conseguiu obter nas ruas e nas penitenciárias.

QUAL É O COMBATE AO PCC? A forma de combate ao PCC jamais irá sanar qualquer problema social, talvez resolva no de encontrar, derrubar e abater; mas analisando a situação com o mínimo de bom senso e de dados, é nítido que essa proposta não tem chances de funcionar. O PCC se organizou de tal forma que cada posto tem um sucessor preparado, em caso de prisão, assassinato e outros

PCC, teríamos o número de dez mil mortos, algo impensável. É evidente que o combate O PCC não deveria ser combatido com atentados diretos às vidas dos indivíduos que o compõe, isso deixa de lado toda a complexidade da estrutura da organização. A facção teria que tomar duros golpes no seu financiamento para que houvesse algum impacto

soma monstruosa de dinheiro, afinal, é muito mais difícil articular um grupo de tamanha proporção quando o dinheiro não entra. investe sem sucesso na tentativa de evitar que as drogas sejam comercializadas e acessíveis aos Cada vez mais, drogas são consumidas e o acesso a elas vem se tornando mais fácil. Ao mesmo tempo, a população carcerária- em sua maioria de jovens negros e pobres - continua

capital abalado enquanto as drogas, sua principal fonte de renda, forem proibidas. Como se não bastasse o governo estadual ter permitido o crescimento do comando de forma

as autoridades responsáveis transferiram lideranças para presídios fora de São Paulo. Como resultado, os líderes, que mantiveram sua comunicação via telefone, espalharam a semente do PCC e hoje vemos seus frutos: a organização está presente no Paraná, Bahia, Mato Grosso, Minas Gerais e outras regiões. O PCC vem se fortalecendo nacionalmente e possui toda a estrutura necessária para executar seu plano de se estabelecer por todo território nacional.


BATEU DE FRENTE de armas, hoje é de conhecimento da polícia e do Ministério Público o alto nível bélico da facção. O PCC se armou e continua se armando.

Após acirramento no embate entre a facção e a Polícia Militar, o seguinte item foi adicionado:

Todo integrante tem o dever de agir com serenidade em cima de opressões, assassinatos e covardia realizados por agentes penitenciários, policiais civis e militares e contra a máquina opressora do Estado. Quando algum ato de covardia, extermínio de vida, extorsões que forem comprovadas estiverem ocorrendo nas ruas ou nas cadeias, por parte de nossos inimigos daremos uma resposta à altura do crime. Se alguma vida for tirada por esses mecanismos pelos nossos inimigos os integrantes do comando que estiverem cadastrados na quebrada do ocorrido, deveram se unir e dar o mesmo tratamento que eles merecem. Vida se paga com vida, e sangue se paga com sangue podemos chamar assim - ousa se opor às forças policiais, forças essas que há poucos anos reinavam absolutas nas ruas, agindo de forma impune, sem ter que lidar com qualquer tipo de afronta. Hoje a realidade é outra. O policial precisa lidar com uma facção de cerca de 100 mil integrantes, divididos por todo o território nacional, suficientemente organizados para rebelar simultaneamente armas muitas vezes superior ao da própria polícia. A facção é apontada como responsável capazes de paralisar a maior cidade do país. É nesse contexto que o policial, mal instruído e mal preparado, tem que trabalhar nas ruas. Sob esse nível de tensão, é inevitável que sejam cometidas as mais diversas barbaridades, que recaem quase sempre sobre o povo periférico. Povo esse que é – sim - visto pela polícia como algo próximo a uma extensão do PCC.

PROGNÓSTICO DO PCC EM 10 ANOS Considerando todo esse cenário, em que uma fatia muito grande da sociedade vive com acessibilidade reduzida, serviços básicos praticamente inexistentes, ensino público limitadíssimo, encarceramento em massa aplaudida pela sociedade, a facção só tende a crescer. Acredito que em 10 anos teremos o PCC estruturado no Brasil inteiro, movendo quantias astronômicas de dinheiro, drogas e armas. A partir desse momento não haverá mais limites para


ENTRE O TURISMO E A TRADIÇÃO: AS COMUNIDADES CAIÇARAS POR JOÃO PREVI FOTOS FIFO

Não é tão longe do continente. É só esperar entre 15 ou 20 minutos na travessia da balsa para chegar Das

resistem, tendo suas trilhas visitadas por turistas do mundo inteiro. Mas, são os ribeirinhos que enriquecem a Ilha Bela. Passamos os primeiros dias conhecendo as praias mais próximas ao continente, até mesmo pela facilidade de acesso. Os moradores que encontramos por essas praias eram de fora, principalmente mineiros de falar arrastado. As facilidades dos praias pareciam espelhos do que encontramos no continente. Do lado oposto da ilha se esconde uma verdade menos conhecida. Passando por uma longa trilha de terra batida, onde poucos carros se arriscam a andar pelos buracos e rios que cruzam a estrada, encontramos um local paradisíaco. Fifo monta sua barraca de

a comunidade caiçara que resiste naquele pedaço de terra. Isso, é claro, além de acumular algumas marcas dos mosquitos borrachudos que encontram fartos banquetes nas pernas de quem por ali chega.

prioridades da comunidade, onde a economia gira em torno da natureza. A pesca e o cultivo de pequenas roças são as principais fontes de renda dos locais, sendo o turismo um complemento não menos importante. Fifo ressalta a beleza do cotidiano caiçara.


INFRA-CAIÇARA Se por um lado as construções ainda guardam a história da praia, a tradição oral se ocupa de suas origens. A comunidade costuma ser bastante fechada aos visitantes, já que a praia está fora do moderno cardápio turístico que Fifo passou no local deram tempo ao tempo que ele precisava para conhecer um pouco mais daquela cultura. escravo clandestino na região. Os escravos chegavam e, para não ir direto para o continente, eles entravam isso para escapar de qualquer custo a mais, como impostos. Os mercenários passaram a plantar bambu para poder construir toda estrutura necessária para o Parte desse sistema de construção permanece até hoje,

além de fazer uma liga com bambu. O chão é de barro batido, um pequeno refresco para os pés nos dias quentes. A maioria dessas casas também não tem energia,

COTIDIANO Os peixes são comercializados em pequenas vendas da comunidade e, quando a maré favorece e Yemanjá as canoas voga são as mais utilizadas. Construídas com

entram na mata para retirar a madeira e acaba quando crianças são, em sua maioria, escritas nas mesmas linhas que as histórias de seus pais. A educação está restrita a uma pequena escola, que oferece apenas o ensino básico para as comunidades próximas. Com

família: se o pai tem um mercadinho, ele vai trabalhar no mercadinho; se o pai tem uma roça, ele vai para a roça; se o pai tem um cerco, ele vai para o cerco. Fifo de vida muito semelhantes entre si.

Muitas já possuem um pequeno motor, que é utilizado na cerca, um sistema de pesca que utiliza o canal e a maré como formas de pegar o maior número de peixes possível. Coexistem ali vários tipos de cerco, alguns mais perto do continente, outros do costeiro. A maior parte das comunidades vive do sistema de rede até cinco vezes por dia para garantir que os peixes não escapem. O sistema acaba funcionando como um ponto de taxi, em que cada um tem o seu e cada família tem seu lugar. Não é qualquer um que pode chegar lá e ocupar, por isso não são raras as discussões entre os próprios moradores pelos melhores locais. moradores é evangélico. De um modo geral, a igreja chegou com força nessa região onde a predominância original estava em um catolicismo que aceitava diferentes elementos de outras religiões. Socialmente, a praia tem certa divisão entre quem é evangélico e quem

apegados a essas instituições, os mais novos já tentam quebrar essa barreira, mesmo com a pressão dos pais em seguir na igreja. não é tarefa fácil e acaba sendo um assunto com os

com que eu falei fuma. Aí divide: vários evangélicos fumam, mas na escondida, enquanto os outros fumam


JEITINHO alimenta um estilo de vida diferente, por outro ela superados. As principais queixas que Fifo escutou da comunidade eram relacionadas ao descaso (seletivo) da

No caminho entre as casas e as salas de aula tem um pequeno rio. Quando chega a temporada de chuvas, o rio enche e muitos alunos não conseguem atravessar. O prefeito, um pouco mais interessado na temporada dos só para os carros terem acesso até a areia. dia eles se reuniram e derrubaram uma parte que estava sendo feita. Depois de muita discussão com prefeitura e outras instituições, acabaram construindo só uma passarela para os pedestres e abriram uma pequena clareira de estacionamento antes do rio. Se os carros Com a exceção dos barcos, os caminhos entre praias são feitos por trilhas. Abrir e manter esses espaços abertos são trabalhos diários para os caiçaras, por isso, eles moradores andam de certa forma armados, Fifo chegou

galera, eles gostam muito de beber. Isso é até perigoso. Tiveram brigas entre os nativos que eu vi eles resolvem O sistema de saúde é outro problema enfrentado pelos centro de Ilha Bela. Se alguém se sentir mal naquele lado

nenhum médico ou enfermeiro passou perto. Talvez até dos grandes barcos que navegam por ali. O caiçara guarda, nas mãos calejadas e pele queimada, uma história da Ilha. Ocupa o mesmo espaço que seus avôs conquistaram ao sobreviver e se multiplicar, apesar mais do que resistir aos avanços da modernização ou se prenderem a tradições centenárias, aqueles homens e mulheres se preocupam em navegar suas canoas vogas até o dia seguinte, já que quem é do mar não enjoa. conseguimos ver nada mais bonito que isso.

realizado no litoral brasileiro,


Rapaz, eu demoro 2 horas pra ir e 2 pra voltar da minha casa, lá no Jacira, até aqui na , venho todo dia e ninguém nunca me olha, só me encaram porque acham que não tenho problema nenhum. O ser humano precisa ter mais compaixão, não dão nem um prato de comida pra mim nem pra ninguém na calçada, se pudessem matar o morador de rua, matariam. Sou lá do Maranhão, vim sozinho na década de 70, ainda menino pra achar um jeito de melhorar a vida. Na época, ainda tinha umas namoradas já que eu tava na mas mulher dá muita dor de cabeça e isso eu já tenho demais. que me acidentei, fui lá do alto do balancinho direto pro chão, tive que amputar as duas pernas. Até hoje luto pela indenização da empresa, mas não consigo. Depois desse acidente fui morar na rua, não gostava de pensão nem de albergue, lá eles me roubavam, não sobrava nem a roupa. Só saí quando eu consegui uma pelo menos tenho um teto. Venho aqui pedir um dinheirinho pra comer e ajudar numas continhas, porque a grana do governo me ajuda nos remédios, já que eu tenho também um problema do coração, e no aluguel. Tomo dois remedinhos,

jornalista veio pra Paulista e tirou foto de um monte de morador de rua, depois quando vi na revista, ele fez aquilo só pra dizer que era tudo falso e que ninguém na rua precisava de ajuda. Falou que eu não tinha problema na perna, falou que a mulher que pedia dinheiro no farol não precisava, tinha sobrando. Hoje, o jornalista tá até pior que a gente, deve morar na rua. Fiquei muito triste, porque o mínimo que ele deveria ter feito era ter vindo me perguntar minha história, não pode sair fotografando e escrevendo o que quer. O pior de tudo é que ele nunca veio pedir perdão pra nenhum de nós, mas já tá

#SPINVISIVEL


A porta maldita suas portas para eventos recentemente e tá com sede

apresentações para qualquer um que queira (e saiba) qualidade para publicação nas redes sociais. O preço de

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lira paulistana conhecido, tornou-se também um espaço para a música, o cinema, a de encontro da Vanguarda Paulista, que nada mais foi que uma explosão simultânea de artistas de enorme criatividade, em um dos mais estimulantes movimentos culturais experimentados pela capital paulista. Com nome tirado da obra homônima do escritor Mário de Andrade, o Lira foi fundado em 25 de outubro de 1979 em um porão com cerca de 150

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rio pequeno Aqueles que entrarem no vocetubo, e buscarem por documentário que trata deste bairro na zona oeste. De Laerte à Ideologia Fatal, o curta mostra a luta dos moradores contra os muros que não só tiram a característica pacata da região, como segregam o bairro social e economicamente. A direção é de Olívia Brenga e conta com produção da Paleotv.


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R.U.A. FOTO COLETIVO

(Registro Urbano Autoral) é um projeto fundamentado na formulação de histórias de cunho jornalístico. Surgiu da junção de ideais dos fotógrafos o fotojornalismo no Brasil e no mundo se encontra sucateado, propomos uma aliança de histórias factuais e um toque artístico pessoal de cada fotógrafo.


Revista Vaidapé #04  

Nas cidades em que o dinheiro governa e a dominação castra nossos sentidos, ainda afloram espaços de resistência. Locais, comportamentos, co...

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