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Informativo da União Paulista de Espeleologia www.upecave.com.br

Ano 4 - Números 9 e 10 Janeiro/Dezembro de 2008

Em Defesa do Rupestre Expedição Mambaí 2008 Tutorial 2: Survex Topografia: Prevenção de erros Nova trilha para o Areado 24 mm - Crônica Espeleológica Mantendo a Chama acesa


Índice

Comissão Editorial Ricardo Martinelli; Gabriela Slavec; Renata Shimura; Eduardo Portella & Fabio Kok Geribello

Diagramação

Editorial

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Um novo caminho para o Areado

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24 mm - Crônica

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Expedição Mambaí 2008

13

Mantendo a chama acesa

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Tutoriais

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Topografia - Prevenção de erros grosseiros

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Ricardo Martinelli

Revisão Renata Shimura / Gabriela Slavec

Expediente União Paulista de Espeleologia Endereço para correspondência: Rua Loefgreen 1291, Cj 61 - São Paulo - SP CEP: 04040-031 Desnível é uma publicação eletrônica semestral da União Paulista de Espeleologia (UPE). As opiniões expressas em artigos assinados são de responsabilidade dos respectivos autores. As matérias não assinadas são de responsabilidade dos editores e não refletem necessariamente a opinião da UPE. Artigos publicados no Desnível podem ser reproduzidos na íntegra desde que citados fonte, autor, URL e data de consulta na web. Reproduções parciais somente com autorização prévia dos editores. O informativo em formato PDF poderá ser repassado para outras pessoas e listas de discussão. Para enviar um artigo utilize o e-mail: desnivel@upecave.com.br As datas limite são os meses de junho e novembro. O Desnível se encontra em regularidade com as leis anti-spam. Se deseja não mais recebê-lo, favor enviar um e-mail para: remover@upecave.com.br

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Parceiros: leia também a revista eletrônica Lajedos em: http://www.lajedos.com.br

A UPE é filiada à SBE

Foto da Capa: Reunião na Gruna da Tarimba Autor: Ricardo Martinelli

3 Memória 7 Plantão Médico 28 38 39 40

Equipamentos Lojinha da UPE Espeleolog Maillon Rapid

42 Foto em Destaque Foto: Equipe trabalhando na gruta “Posto de Vacas II” durante a Expedição Mambaí 2008.


Editorial

DesenvolvimentoXNatureza Texto: Ricardo Martinelli

ivemos uma época nebulosa e apesar deste tema ser recorrente em nosso país, nunca o meio ambiente foi tão ameaçado como nos tempos atuais. O Decreto 6.640/2008 assinado por nosso Presidente coloca em risco um patrimônio inestimável, pouco conhecido e que com toda certeza esconde dados incalculáveis sobre diversos aspectos: biológico, geológico, paleontológico, antropológico, climatológico entre outros. É inegável que a legislação precisa ser modificada, porém esta discussão pouco chegou a sociedade civil organizada, que se sentiu acuada e traída pelos fatos. Determinar que existam cavidades que podem simplesmente ser destruídas sem que ocorra sequer uma compensação à sociedade é um dos absurdos do decreto, sem falar da tentativa “forçada” de classificar nossas cavernas. E os fatos não param, o que se percebe é algo premeditado, principalmente após a saída da Ministra Marina Silva do Ministério do Meio Ambiênte (MMA) e a entrada do Sr. Carlos Minc, que ainda como Secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro tinha o apelido de “O Licenciador”, por facilitar o andamento de obras com grande impacto ambiental. Depois do decreto 6.640, a nova vítima parece ser as ditas “Florestas Nacionais” (ver artigo em: http://

V

w w w. e s ta d a o . c o m . b r / e s ta d a o d e h o j e / 2 0 0 9 0 1 0 1 / not_imp301153,0.php). A pressão é sempre a

mesma, loteamentos, mineração, exploração de recursos, e os protegidos do governo, o

Contate o Autor rsmartinelli@globo.com

MST! No caso paulista, o que está em jogo é a maior área de Mata Atlântica do interior do estado, usada por universidades e alvo de estudos em diversas disciplinas, sem falar em sua grande importância histórica como berço da siderurgia nas américas, onde se deu a primeira tentativa de fabricação de ferro em solo americano reconhecida pela Associação Mundial de Produtores de Aço. É difícil entender o homem que destrói o ambiente em que vive, onde a grande maioria da população não se preocupa com este tipo de questão pois precisa pensar primeiro em como vai sobreviver a tudo isso; é difícil entender um país onde os políticos tomam atitudes contra a vontade da população, pessoas estas que os elegeram justamente para representá-los. Particularmente tenho uma visão um tanto “pouco otimista” sobre a humanidade: não estamos preparados para cuidar de nós mesmos, vide as guerras, conflitos, “distorções” de renda e total “descontrole” de natalidade, quem dirá cuidar do planeta... pois é, o ser humano veio com defeito e pouco se pode fazer a este respeito! Enquanto isso vamos fazendo nossa parte, protestando, alertanto e tentando colocar estas questões em pauta, e é isso que se vê em mais um número do Desnível Eletrônico, artigos importantes, técnicas, expedições, tudo na intenção de colaborar com a preservação do patrimônio natural de nosso país e no desenvolvimento de nossa espeleologia.

Boa Leitura!

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Em

Defesa

do

Rupestre:

Gruta

de

Itambé/SP

Considerações sobre o seu conteúdo histórico e pré-histórico, bem como comentários sobre devastações em cavernas e abrigos sob rochas no estado de S. Paulo, constatadas pelo grupo BAGRUS. Por Guy Christian Collet - Setembro de 1985 Fotos Ilustrativas: Rogério Dell Antônio

ABSTRACT The Itambé cave is one of the largest caves in sandstone in Brazil and it is quite important from the Archeological point of view. Unfortunately the recent build touristic infra-structure destroyed part of the main room of the cave where most of the drawings and testimonials were written.Also some ancient objects were found in the cave but the tractors destroyed mostly all of the remained vestiges. So part of the story of the people from this region was erased and there is no way to recover it anymore.

A

caverna de Itambé, cadastrada na SBE sob o nº 179, Altinópolis/SP, é interessante sob vários aspectos. Ela se desenvolve em arenito, tem um pórtico monumental e é uma das mais compridas e espaçosas do Brasil, nesta modalidade de rocha. Considerando a Pré-História ela tornase ainda mais notável, por conter várias estruturas arqueológicas distintas; uma extensa oficina lítica no planalto superior; um sítio de permanência demorada, dentro do imenso salão de entrada, provavelmente ultrapassando 800 metros quadrados e, para completar, relicatas substanciais de um grande painel de gravuras rupestres. A história tem também as suas manifestações através de inúmeras inscrições modernas, indo de 1844 até os nossos dias. Localizamos, em 1984 (COLLET e CHABERT) em galerias laterais a uns 70 metros da entrada, inscrições perfeitamente conservadas que identificam nominalmente moradores que visitaram a caverna desde o início de 1853. Portanto, há mais de 130 anos

que esta cavidade é frequentada, fato pouco comum e documentado nas grutas brasileiras. Várias dezenas destas datas e nomes, com caligrafia e ortografia tipicamente da época, são testemunhos de turistas que mencionam também algumas cidades da região - Recomendamos um levantamento minucioso desses grafitis que, certamente, trará à história local esclarecimentos e dados complementares sobre a identificação dos pioneiros que povoaram e desbravaram esse sertão. Este registro secreto, fielmente conservado nas trevas, localiza com precisão no tempo e até no espaço, a presença e de certa forma o grau de cultura de famílias que, provavelmente não constam nos poucos documentos oficiais conservados. Lamentamos o tratamento inadequado do meio ambiente circunvizinho à caverna. Procedimento não refletido, mal planejado, tão mal executado que as consequências são desastrosas, destruindo quase que totalmente a infra-estrutura recente destinada ao turismo. De fato, após ter nivelado a frente e a área interna do grande salão para facilitar o estacionamento de veículos, até mesmo dentro da gruta, foi feita uma drenagem para escoamento e desvio das águas provenientes da cavidade. O desconjuntamento e deslocamento das grandes manilhas de cimento ocasionaram uma erosão intensa e rápida que removeu centenas de metros cúbicos de areia fina levando o pátio de estacionamento e parte da via de acesso. Esta erosão arrasta para longe os sedimentos arqueológicos que já tinham sido perturbados pelos tratores de lâminas. A cratera atual cavada tem mais de 4 metros de


Memória

profundidade, deixando aparecer novamente o perfil original local, mostrando o leito do riacho, peças líticas manufaturadas e deslocadas. O resto esta irremediavelmente estragado.

Algumas palavras sobre as gravuras Rupestres A superfície remanescente do grande painel que cobria a parede direita de signos não figurativos é de aproximadamente 4 m2. Dois estilos diferentes são presentes neste conjunto. Um geométrico, atualmente representando a parte melhor conservada com

Gruta Itambé - SP 179 munic: Altinópolis - São Paulo Julho de 1984 topografia : 4C BCRA Lat: 21º04'05" / Long : 47º26'14" Alt.: 650m S.B.M.P. Martins S.R. Malagutti M.Malagutti apoio : FAPESP - processos 83/2552-3, 84/0383-2 Proj. Horizontal : 352 m Desenvolvimento : 355 m Desnivel: 5 m

Ng

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As paredes de Arenito da gruta serviram durante décadas como local para “diversão”, danificando inscrições e apagando vestígios.

patinta cinza azulada escura. Ele é nitidamente posterior. Sem realismo, parecendo ter ultrapassado o estágio primitivo. São desenhos abstratos, bem acabados, de certa forma estéticos, tendo quase o rítmo e a regularidade da escrita. Outro, com traços bem mais profundos e largos, figuras maiores, menos geométricas, compostas principalmente de um sulco marcando um eixo médio e várias ramificações laterais, novamente ramificadas. Não existe simetria axial e todas as figuras são em traçado linear. Utilizam a parte relativamente lisa da parede que oferecia poucas rachaduras ou cavidades além de bem iluminada. Infelizmente a retirada de blocos e material no pé da parede pelos tratores, provocou o desabamento de boa parte do barranco superior das sinalações parietais. É pena que especialistas provavelmente chegaram tarde demais para um estudo da tecnologia de elaboração, estilístico e comparativo com outras regiões do Brasil. A degradação é acentuada pelo aumento do fluxo turístico facilitado pelo asfaltamento recente da estrada. Destruição irreversível e lamentável. Perdemos desses fatos um dos mais característicos e importantes sítios arqueológicos em cavernas do norte do Estado de São Paulo. Comparado ao abrigo SARANDI - Guarei/

SP (ver Ciência Hoje, vol.4 nº19 jul/ago/85), descoberto também por Collet e seu grupo, julgamos que Itambé devia representar um acervo pré-histórico cinco ou seis vezes mais volumoso, sem incluir a oficina lítica de debitagem, localizada em cima do estrato arenito silicificado, fonte de matéria-prima de excelente qualidade. Devemos associar à oficina lítica e ao sítio arqueológico da caverna, uma outra ocorrência próxima, situada ao redor do laguinho aonde cai uma cascata de quase 20 metros de altura, impressionante em tempo de chuvas. Lá pode-se observar superficialmente, na areia, artefatos de arenito distintos dos de Itambé, pela morfologia, pelo tamanho, pela patina e principalmente pelo fato de serem erodidos por terem permanecido muito tempo na correnteza do riacho resultante do salto. Obviamente uma prospecção sistemática na região deveria revelar outros locais de acampamentos ou aldeias pré-históricas, próximos entre sí, e onde o arenito silicificado de Itambé será encontrado, já que são poucos os locais de afloramento desta rocha privilegiada. Aliás, já temos informações de que há, de fato, ocorrências de peças líticas em localidades limítrofes. Do mesmo modo foi parcialmente destruído em +/- 50% a área de um sítio ar-


Memória

várias e pesadas mesas de concreto, bem como banco de alvenaria e churrasqueiras. As fundações e bases destas construções removeram, perturbando vários metros cúbicos de um sedimento arqueológico, rico em lítico fino (pontas de progéteis em silex preto entre outros). Ateriormente, uma capela interna já havia descaracterizado o ambiente primitivo, destruindo magníficos afiadores e polidores sobre rochas areníticas e provavelmente gravuras rupestres de um tipo particular, dos quais sobreviveram algumas, sobre uma rocha isolada. Terminaremos nossas lamentações, assinalando mais uma perturbação do meio ambiente pondo em sério perigo os remanescentes de várias dezenas de belíssimas gravuras rupestres no “Abrigo do Alvo” também no município de Analândia/SP. Situada numa área de manobras militares, esse grande abrigo localiza-se a 150 metros de um esporão rochoso que servia de alvo à artilharia e a blindados. Tiros errados chegavam a atingir o barranco, 20 metros à frente dos painéis, aniquilando rochas e vegetações, além de provocar incêndios periódicos que deixaram a região semi-desértica. Uma vez descoberto (COLLET/BAGRUS - 1980) comunicamos o fato ao Departamento de Relações Públicas do IIº Exército que, felizmente, suspendeu os exercícios de artilharia, eliminando as explosões próximas e as tão prejudiciais ondas de choque decorrentes. A retirada da vegetação arborescente frente ao pá do paredão acelerou a degradação dos petroglifos, possibilitando a inci-

As interferências dentro e fora da caverna são imensas e em grande parte explicadas pela ignorância humana e devoção de alguns que pensam ser este um local “divino”.

queológico dentro de um abrigo sob rocha no município de Analândia - SP. Trata-se do abrigo de SANTA (COLLET-BAGRUS/ 1981). A prefeitura, por querer incrementar o turismo, resolveu instalar dentro do abrigo,

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Plantão Médico - “Ferimentos” Responsável: Ricardo Martinelli dência solar direta, um aumento considerável da temperatura da rocha, a sua desidratação e favoreceu ainda um processo constante de dilatação / retração da camada superficial desagregando e, em certos lugares, escamando, as figuras. Recentemente pediu-se ao proprietário, que atualmente arrenda a fazenda para o plantio de cana, que procedesse ao reflorestamento da parte frontal do abrigo com essências de crescimento rápido, afim de proteger o paredão da insolação e reconstruir um ambiênte de penumbra e de umidade próximo do meio primitivo (verificamos a realização desta promessa). Experiências com produtos químico-plásticos feitas por Collet e sua equipe em 1981 para estabilizar e aglutinar os componentes soltos da superfície do arenito, deram excelentes resultados, que foram constatados e confirmados quatro anos após (agosto/85), o que possiblilitou a aplicação do produto experimental sobre várias outras gravuras ameaçadas. Esse processo e trabalho pioneiro foi objeto de uma comunicação durante o Iº Simpósio Mundial sobre Arte Rupestre em La Habana (CUBA) organizado e promovido pela UNESCO em Janeiro de 1986. Conclusão Os espeleólogos em geral, por suas andanças e contatos com lugares ermos de possíveis moradias de paleo índios, são suceptíveis, como é o nosso caso, de trazer à Arqueologia Brasileira dados até hoje ignorados e portanto, interessantes. Porém, para um aproveitamento eficiente destas descobertas, antes que seja tarde demais, seria bom que as entidades informadas estejam atentas sobre o valor destes achados e se dignem a prestar atenção às vozes ou escritas dos colaboradores desinteressados que somos.

Qualquer rompimento anormal da pele ou superfície do corpo é chamado de ferimento. A maioria dessas lesões comprometem os tecidos moles, a pele e os músculos. As feridas podem ser abertas ou fechadas. A ferida aberta é aquela na qual existe uma perda de continuidade da superfície cutânea. Na ferida fechada, a lesão do tecido mole ocorre abaixo da pele, porém não existe perda da continuidade na superfície. Todos os ferimentos logo que ocorrem, causam dor, produzem sangramentos e podem causar infecções. As roupas sobre um ferimento deverão ser sempre removidas para que o socorrista possa melhor visualizar a área lesada. Remova-as com um mínimo de movimento. É melhor cortá-las do que tentar retirá-las inteiras, porque a mobilização poderá ser muito dolorosa e causar lesão e contaminação dos tecidos. O socorrista não deverá tocar no ferimento, caso a ferida estiver suja, ou ainda, se for provocada por um objeto sujo, deverá ser limpa com o uso de água e sabão. Diminua a probabilidade de contaminação de uma ferida, utilizando materiais limpos e esterilizados para fazer o curativo inicial. Todos os ferimentos devem ser cobertos por uma compressa (curativo universal), preparada com um pedaço de pano bem limpo ou gaze esterilizada. Esta compressa dever ser posicionada sobre a ferida e fixada firmemente com uma atadura ou bandagem. No socorro pré-hospitalar é indicado o uso de bandagens triangulares que podem ser confeccionadas em diversos tamanhos, no entanto, recomendase o uso de bandagens com base de no mínimo 1 metro de comprimento. Confeccionada em algodão crú com costura dupla nos acabamentos, a bandagem é largamente utilizada na proteção de ferimentos, quer na posição aberta (estendida) ou dobrada, proporcionando uma técnica de socorro rápido e seguro. Antes de utilizar a bandagem, o socorrista deverá proteger o ferimento com compressas limpas e de tamanho adequado. Deixe sempre as extremidades descobertas para observar a circulação e evite o uso de bandagens muito apertadas que dificultam a circulação sangüínea, ou ainda, as muito frouxas, pois soltam. Não devemos remover corpos estranhos (facas, lascas de madeira, pedaços de vidro ou ferragens) que estejam fixados em ferimentos. As tentativas de remoção do corpo estranho (objeto cravado) podem causar hemorragia grave ou lesar ainda mais nervos e músculos próximos a ele. Controle as hemorragias por compressão e use curativos volumosos para estabilizar o objeto encravado. Aplique ataduras ao redor do objeto, a fim de estabilizá-lo e manter a compressão, enquanto a vítima é transportada para o hospital, onde o objeto será removido.

Se o ferimento provocar uma ferida aberta no tórax da vítima (ferida aspirante) e, for possível perceber o ar entrando e saindo pelo orifício, o socorrista deverá imediatamente providenciar seu tamponamento, para tal, deverá usar simplesmente a mão (protegida por uma luva descartável) sobre a ferida ou fazer um curativo oclusivo com material plástico ou papel alumínio (curativo de três pontas). Após fechar o ferimento no tórax, conduza a vítima com urgência para um hospital. Se o ferimento for na região abdominal da vítima e houver a saída de órgãos (evisceração abdominal), o socorrista deverá cobrir as vísceras com um curativo úmido e não tentar recolocálas para dentro do abdome. Fixe o curativo com esparadrapo ou uma atadura não muito apertada. Em seguida, transporte a vítima para um hospital. Não dê alimentos ou líquidos para o vitimado. Em alguns casos, partes do corpo da vítima poderão ser parcialmente ou completamente amputadas. Às vezes, é possível, por meio de técnicas microcirúrgicas, o reimplante de partes amputadas. Quanto mais cedo a vítima, junto com sua parte amputada, chegar no hospital, melhor. Conduza a parte amputada protegida dentro de um saco plástico com gelo moído. O frio ajudará a preservar o membro. Não deixe a parte amputada entrar em contato direto com o gelo. Não lave a parte amputada e não ponha algodão em nenhuma superfície em carne viva. Em casos de esmagamento (normalmente encontrados nos acidentes de trânsito, acidentes de trabalho, desabamentos e colapsos estruturais), se a vítima ficar presa por qualquer período de tempo, duas complicações muito sérias poderão ocorrer. Primeiro, a compressão prolongada poderá causar grandes danos nos tecidos (especialmente nos músculos). Logo que essa pressão deixa de ser exercida, a vítima poderá desenvolver um estado de choque, à medida que o fluido dos tecidos vá penetrando na área lesada. Em segundo lugar, as substâncias tóxicas que se acumularam nos músculos são liberadas e entram na circulação, podendo causar um colapso nos rins (processo grave que poderá ser fatal). O tratamento merecido por uma vítima com parte do corpo esmagado é o seguinte: 1.Evite puxar a vítima tentando liberá-la. Solicite socorro especializado para proceder o resgate (emergência fone 193); 2.Controle qualquer sangramento externo; 3.Imobilize qualquer suspeita de fratura; Trate o estado de choque e promova suporte emocional à vítima; 4.Conduza a vítima com urgência para um hospital.

fonte: http://www.drashirleydecampos.com.br/ noticias/4723


um novo caminho para o Areado ABSTRACT From 2005 on the group UPE has been working at the Areado region inside PETAR - the main park with caves in Sao Paulo state. In early 70’s and 80’s there was a dirty road to access this region by car but now it takes about four hours to get there walking.After finding more two caves at the Areado system this way became too long and time consuming. In 2007 the group decided to try a different way to get there and found an easier path through Buenos region. Now the surveys at the Areado system will continue smoothly and without having to spend one entire day walking through the forest and caves to get to the working area.

O

primeiro semestre de 2008 foi marcado por grande incerteza no meio espeleológico, a interdição do PETAR pelo ministério público foi como uma ducha de água fria em todos, e, como reflexo, poucas foram as investidas no parque. O artigo a seguir mostra a busca da UPE por uma via mais fácil para o Areado, pois, já que ninguém estava autorizado a entrar nas cavernas, nem mesmo os pesquisadores, o grupo optou por realizar atividades de prospecção de superfície.

Foto 1: Trator do Zé Guapiara deixando a equipe na margem oposta do Rio Buenos.

Texto e Fotos: Ricardo Martinelli Mapas: Toni Cavalheiro

Contate o Autor: rsm@fotoabout.com

A região que compreende o antigo bairro do Areado Grande é atualmente uma das mais inacessíveis do PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira). A UPE retomou as atividades na região em 1996 e vem trabalhando mais ativamente na região desde 2005, retomando topografias antigas do CAP (Clube Alpino Paulista), que nas décadas de 70 e 80 exploraram o local. Entretanto, o potencial espelológico é tamanho a ponto de comportar talvez a maior caverna do parque. No início utilizava-se uma trilha que passava pelo

antigo bairro de Buenos, seguindopela antiga estrada, atualmente fechada pela mata, que levava ao Bairro do Areado e de lá para as cavernas do sistema. Com a retomada dos trabalhos em 2005, e a ajuda do “mateiro” Gastão, uma via por Caboclos foi usada, passando pelas grutas do rio Temimina, ribeirão da Cabana e subindo até o Areado. Este caminho foi largamente utilizado para praticamente tudo o que foi feito até hoje pelo grupo, que não foi pouco. Só na Gruta Areado III já foram topografados mais de 6.000 metros de galerias, sem fa-


Prospecção

lar na re-descoberta das grutas Areado IV e V. A exploração se tornou muito penosa, pois a caminhada pela trilha então usada, até a boca da Gruta Areado III, levava entre 4 e 5 horas. A travessia da caverna era obrigatória, uma vez que não existe trilha externa até a ressurgência do córrego Areado Grande, e levava até 3 horas, e só então, chegava-se até a quarta caverna do sistema. Depois dela ainda existia a Areado cinco! Éra óbvia a necessidade de uma nova trilha. Dentro da UPE já se especulava voltar a utilizar a trilha pelo antigo bairro de Buenos, mesmo porque a abertura de um novo núcleo do parque nas imediações (Núcleo Bulhas) revitalizou investidas de outros grupos por aquelas bandas, porém somente quando se acessou a gruta do Fundão, uma antiga caverna explorada também pelo CAP, é que tudo se tornou mais claro. Em meados de 2007 já dispunhamos de coordenadas precisas das Grutas Areado IV e V e com a coordenada da Gruta do Fundão, foi possível planejar uma primeira investida até o local. Um antigo morador do Bairro do Areado, o Sr. Zé Guapiara, foi contactado e procedeu a abertura da trilha até um ponto por eles chamado “Areadinho”. Assim, coube a nós apenas constatar se o local realmente coincidia com as Grutas Areado IV e V e também a viabilidade do caminho, quanto tempo leva-

Foto 3: Ressurgência da Gruta Areado V.

Foto 2: Ribeirão do Areado engrunando!

Foto 4: Leito seco do Ribeirão do Areado. Onde está a água?

ríamos e os desníveis a serem vencidos. Observando os mapas e pelos nossos cálculos deveríamos chegar exatamente na ressurgência da Areado V. Tudo pronto, uma pequena equipe se dirigiu até as proximidades do antigo Bairro Buenos, onde mora o Zé Guapiara, pois havíamos combinado uma carona de trator até o ribeirão de mesmo nome, prática muito utilizada por todos os grupos que exploram a região. A trilha se mostrou tranquila, com peque-

Foto 5: Ressurgência da Gruta Areado IV.

no desnível na direção de nosso objetivo. Passando pela dolina da Gruta do Fundão, acessamos rapidamente um leito seco (Foto 4), que mais adiante constatamos ser o Rio Areado Grande, que “engruna” em ponto mais acima (Foto 2). O GPS já acusava a proximidade das coordenadas captadas anteriormente e finalmente chegamos até a ressurgência da Gruta Areado V. Missão cumprida! Havíamos, enfim, encontrado uma via de acesso

9


Prospecção

bem mais fácil e rápida até o Sistema Areado, o que irá viabilizar o trabalho de mapeamento das grutas. Aproveitando a trilha aberta, outra equipe, um mês depois tentou iniciar o mapeamento das cavernas, mas em pleno 1º de maio as chuvas foram tão fortes que praticamente impediram o acesso às grutas. O Rio

salão seco de boas dimensões se abre para a esquerda. Ali encontramos enormes casas de insetos formadas no chão, como cupinzeiros em forma de ovode-páscoa (ou de Alien, se preferirem algo mais assustador) e formações variadas. Não foi possível avançar mais pelo rio por conta da grande quantidade

Novamente não deu para atravessar toda a caverna, havia muita água para pouco teto. De todo modo, já se sabe que a entrada da Areado IV é muito próxima da saída da Areado III, inclusive ambas já estão unidas na topografia. O que fica faltando é abrir uma trilha que permita o acesso à Areado III sem precisar

Areado que normalmente não passa dos tornozelos atingia em alguns pontos a altura do peito. O grupo usou para acampamento uma área provavelmente já ocupada por palmiteiros, que ali deixaram panelas e algum lixo. A área fica bem próxima da ressurgência da Areado V, um pouco acima de um pequeno afluente à direita do leito do rio. Para se entrar na caverna, basta subir alguns metros por dentro do rio. Por dentro da Areado V, subindo o rio, se percebe pequenas bocas laterais secas e um

de água em trechos com corredeiras e cachoeiras. Subindo a trilha que sai do acampamento cruzamos por cima da caverna e descemos mais adiante em frente ao seu sumidouro, numa dolina desmoronada. Por ali foi impossível entrar, o rio descia enfurecido por um cânion estreito e não dava para escutar um companheiro gritando a um metro de distância. Logo além do sumidouro da Areado V o rio novamente fica calmo e segue em remanso até a ressurgência da Areado IV.

passar por dentro da IV, o terreno ali não parece ter muitos declives, a conexão não deve ser difícil. A dúvida que permanece é o quanto esse novo acesso pode economizar de suor para se chegar às últimas pendências de topografia na Areado III. Vamos ver, são todos objetivos para 2009, terminar definitivamente a topografia da (grande) Areado Grande III e de suas irmãs caçulas IV e V, que certamente ocultam surpresas e belezas que ali nos aguardam para serem melhor conhecidas.

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Crônica Espeleológica Texto: Mauro Zackiewicz Fotos: Ricardo Martinelli

ABSTRACT The 24 mm of rain expected by the forecast was concentrated in less than 6 hours raining over a large region. All the water drained to the Gurutuva abyss at the same time became quite a problem to the group working at the waterfall inside the cave. In about 5 minutes the level of the water increased about 20 cm. The waterfall increased twice the volume. They reached a dry area to wait for the level of the river to decrease but it didn’t for more than one hour. The cold was intense and they decided to go out by the river to the near entrance of the cave instead of taking the long way through a narrow and instable path. The decision for the river was right. It was still raining a lot outside but they could safely walk back to the village.

N

a sexta de noite me perguntaram quanto de fato era 24 mm de chuva. Eu havia acabado de ver a previsão na Internet para Iporanga e lá dizia 24 mm de chuva distribuídos durante o dia. Eu logo pensei: 1 mm por hora é quase nada. Bem, é quase quase nada. Fazendo a conta. Digamos, 1 morro de 10.000 metros quadrados drenando água para uma dolina de 1 metro quadrado (a boca do Gurutuva). Um mm de coluna d‘água no morro se tornam 10.000 mm na dolina, ou seja, 10 metros! Claro que em 1 hora isso dilui para 17 cm. Agora, a encrenca começa quando os 24 mm resolvem cair em 1/4 do tempo, durante 6 horas, nesse ritmo a concentração de água no tal metro gurutuvado salta para quase 70 cm. Foi mais ou menos isso que vimos acontecer no sábado. Descontadas as aproximações, as poças na mata e a lama chupadora de água, o rio subiu pelo menos 50 cm e nos proporcionou momentos de pura alegria e entretenimento para sair de lá de dentro. Por conta da equipe reduzida, já na sexta tínhamos mudado os planos de topografar os salões superiores e a parte do rio lá depois do lago dos bagres. Valeu a precaução, se tivéssemos descido, a água grande teria nos atropelado no caminho, e no mínimo teria nos trancado, nos sifonado e nos congelado lá para baixo. O plano B agora consistia em atacar as cachoeiras logo no início da caverna, trecho com grandes lances verticais e que necessitaria instalar cordas e bater spits. Fomos lá, com toda a tralha, duas cordas de 20m, uma de 10, cadeirinhas, batedor, fitas, o pacote todo. Sem esquecer o lanche de queijo, mas esquecendo o gatorade e, pra variar, o Foto 1: Pequeno riacho que forma o Abismo da Gurutuva. Incrível como um pequeno “filete” de água pode se transformar em um pesadelo dentro de uma caverna.

24 mm Contate o Autor: maurozac@gmail.com

relógio. O Gurutuva fica lá pra depois da Alambari de Baixo e da Alambari de Cima. Subimos a trilha com tempo enxuto, mas bastante nublado.Cruzamos criancinhas indo pra Alambari, uma turma de porquinhos elameados passeando (não as crianças, elas estavam limpas, estou me referindo a porquinhos mesmo, leitões), a família toda do Sr. “Albino” entretida em vacinar um burrico. O Sr. Albino Jr. nos contou que por ali, por perto e por não tão perto da casa deles tem vários buracos que ele conhece, que soltam vapor, vento frio, água, tudo. Precisamos voltar lá para ele nos levar a esses lugares. A serra ali deve ter muita coisa escondida. No caminho, dois fatos abalaram por momentos a moral da equipe. Primeiro um burro agonizando no caminho, de fazer dó. Segundo, um bom pedaço de mata queimada e derrubada para um roçado. Nesse ponto, quase que perdemos a trilha. Já no Gurutuva, começou a chuviscar assim que entramos. Chuva fina, pensamos. Quando saímos, horas depois, tinha até trovoadas. Descemos até a base fixa onde a galeria se divide e começamos a topografar. Duas visadas, mais de 10 m topografados, bem mais que 10 metros, e já tivemos que parar porque o abismo era fundo. E lá vai o Portella instalar um spit. O começo da cachoeira é mais tranquilo, dá pra descer até chegar num patamar em que o teto abaixa e tem duas colunas à esquerda. Dá para se esgueirar por trás delas e chegar a outro patamarzinho mais abaixo. Dali pra frente é direto e reto para baixo, uns 10 metros? Instalamos uma ancoragem natural nas colunas e o Portella foi ali pro canto na beira do abismo bater o spit. O problema ali é que a rocha é toda lapiazada, muito fina e cortante. Não dá pra arriscar descer só com protetores de corda, porque precisaria muitos e se um sai do lugar o risco é alto. Por isso, fomos colocar um spit num ponto mais alto, na beirada mais exposta possível.


Crônica Enquanto o Portella martelava, eu e Martinelli ficamos ali atrás das colunas tentando se esconder do vento e dos respingos. Apaguei a carbureteira para não correr o risco de por fogo na corda que passava bem na minha frente. Ficamos ali, não dava para conversar por causa do barulho da água, então só dava para ficar pensando na vida, filosofando, lembrando do jegue enlameado caído na trilha, das unhas do Sr. Albino, essas coisas. - Martô, é paranóia ou a água tá subindo? - É paranóia. Sei lá, pensei, daqui a pouco a gente sobe ali para ver se está igual ou aumentou. Que saco esses respingos. - Mauro, olha ali, tá passando por cima! - Fica de olho!! - Vou ali olhar. Em 5 minutos a água já tinha subido uns 20 cm. Isso é mais que o suficiente para uma cachoeira se multiplicar em duas. - Portella!! -.... Que?? - A água!! E iluminei para ele o tufo d‘água que a cachoeira estava se tornando. - Espera aí, tô acabando. E o Martinelli dizia lá de cima “Galera, vamo embora!” - Mais 2 minutos, Martô!! Spit instalado, corda recolhida, ancoragem desfeita em tempo recorde. E a água subindo. Subimos de volta até a base fixa e saímos de lado para a ex-galeria seca. O rio alto agora descia para lá também. Ali estava tranquilo o suficiente para podermos tirar as cadeirinhas. - Vamos lá pro próximo salão seco dar um tempo para ver o que acontece. A água estava alta, bem alta, mas parecia ter estabilizado naquilo. Subimos mais um lance e ficamos ali por quase uma hora, comendo lanchinho e falando bobagem. Falando bobagem e comendo lanchinho. Suquinho de graviola master, chocolate com amendoim salgado. Mais bobagem, mais suquinho, mais bolachinha. O maior tédio. E o rio roncando alto. Aí começou a dar frio. Ficar parado dá frio. Os três começaram a tiritar ao mesmo tempo. Não dava mais para ficar parado. Ou a gente encarava o rio ou ia ter que descer aquela fenda torta, aquela chatíssima fenda do corrimão, inclinada na areia. Dane-se, vamos tentar o rio, se não rolar, voltamos. A água estava grande mas a boca estava próxima. Voltamos ao ponto da base fixa e o rio tinha subido ainda mais durante o recreio. A marquinha feita na pedra agora estava submersa. Vamos lá. Subida por dentro de

Fotos 2 e 3: Acima a colocação cuidadosa de ancoragem no início do trecho da cachoeira, abaixo a tentativa de inciar o mapeamento, interrompido pelo aumento do nível do rio.

muita água, ora pendurados nas paredes, ora por dentro mesmo procurando as agarras certas. No último lance, água para todo lado. Tinha que se aproximar por baixo, atrás da queda. Mas ao sair dali a água vinha no rosto. Tateando a rocha aparecia a agarra, o apoio para o pé e pronto, um impulso e dava novamente para respirar e enxergar. Em 5 minutos estávamos do lado de fora, no riozinho com água até as coxas e trovoadas acendendo o céu. Na volta, o coitado do burro, estava quieto. Também ficamos. Caminhando na chuva, escolhendo a lama certa, a pedra firme e tufo de mato. Puxa, a coisa tinha sido intensa. Chegamos no Bairro da Serra bem mais cedo que de costume, um pouco antes das 21h. Tudo bem vazio, o asfalto novo reluzindo na chuva, uns gatos pingados fazendo um pagode no bar da Zeni. Duas cervejas e três pastel! Naquela madrugada, dois daquela turma ainda iriam pegar a estrada para Iporanga, sair da pista e cair com o carro uns 5 metros barranco abaixo, quase dentro do Bethary. A bruxa estava solta. Eles se machucaram mas deram sorte, sobreviveram. De volta à casinha da Cris, macarrão e cama, enquanto ainda chovia. Noite boa para se dormir. Gurutuva agora, só ano que vem!!

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Expedicao Mambai 2008 2008 GREGO - UPE

Texto : Gabriela Slavec - gslavec@gmail.com Fotos: Ricardo Martinelli - rsm@fotoabout.com


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ABSTRACT When working in the Mambai region, the UPE group have been concentrating its efforts in the Tarimba cave. After two expeditions it has surveyed more than 6.650 meters of this cave. During the week long 2008 expedition there were four teams in action and the result was the exploration, surveying and documentation of new areas also outside the Tarimba cave.

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ntre os dias 26 de julho e 3 de agosto, aconteceu a Expedição UPE/GREGO Mambaí 2008, integrando cinco grupos de espeleologia e 20 participantes, sendo 11 da União Paulista de Espeleologia – UPE, 5 do Grupo Espeleológico Goiano – GREGO, 2 do Espeleo Clube de Avaré – ECA e 1 do Grupo de Espeleologia Serra da Bodoquena – GESB e 1 do Grupo de Espeleologia da Geologia da USP – GEGEO, com objetivo de dar continuidade aos

Foto 1: Clarabóia na Gruna da Tarimba

trabalhos de mapeamento e prospecção iniciados em 2007. Situada na APA (Área de Proteção Ambiental) Nascentes do Rio Vermelho, a região de Mambaí tem um enorme potencial espeleológico, com diversas cavernas a serem exploradas e muitas ainda por se descobrir. Além dos atrativos espeleológicos, Mambaí começa a se destacar como destino de ecoturismo e turismo de aventura, por conta de belas cachoeiras, lagos e rios caudalosos, que convidam às atividades de rafting e outras modalidades aquáticas. Dentre as cavernas mais visitadas estão a Lapa do Penhasco, a própria Tarimba e a Gruta do Funil, que possibilita também a realização de uma descida de rapel na cachoeira que despenca mais de 20 metros para dentro da caverna. Como em 2007, a expedição contou com apoio da Prefeitura de Mambaí, sendo disponibilizados alojamento e alimentação, através dos Secretários de Saúde e Educação,

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respectivamente. Este apoio foi importantíssimo para a logística do evento, possibilitando conforto e integração entre as equipes e facilitando a comunicação e o planejamento das áreas que deveriam ser trabalhadas. Emílio Calvo, Secretário de Turismo e membro do GREGO, organizou a logística da expedição de forma impecável, fornecendo subsídios para o planejamento da atuação das equipes na Tarimba e orientou os trabalhos de cadastramento, exploração e mapeamento de novas cavernas na região.

Os trabalhos da UPE em Mambaí começaram em 2007, sempre com ênfase na topografia da Gruna da Tarimba, que ultrapassou os 3.000 metros de linha de trena já na primeira expedição. Além da Tarimba, no primeiro ano de trabalho foi realizada a prospecção e o cadastramento de 9 novas cavernas, sendo mapeadas mais 2 cavernas (Gruta Jaú, com DL de 138m e Gruta Rio Ventura I, com DL de 284m), além da realização de um rápido levantamento do potencial espeleológico da

Mapa 1: Gruta Posto de Vacas I, topografada durante a expedição.


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região como um todo, para utilização no planejamento da Expedição 2008. O dia-a-dia de trabalho No primeiro dia as equipes passaram por um balizamento a fim de padronizar a forma com que a coleta de dados seria feita durante a topografia. Depois de organizadas as equipes e definidos os locais de trabalho, todos seguiram para a entrada principal da Gruna da Tarimba e iniciou-se o mapeamento das galerias. Foi traçada uma estratégia de trabalho, de forma que não se deixasse pendências nos trechos iniciais, chamado de Primeira Fronteira. Vários condutos superiores, muitas vezes com feições labirínticas, foram topografados, como o Salão Pó de Ouro e duas áreas importantes na parte central da caverna, além de outras galerias que não constavam do mapa antigo. O trecho da Primeira Fronteira, na área norte da caverna, foi praticamente terminado em 2008, restando apenas condutos superiores na galeria do rio e alguns pequenos condutos de fácil acesso. Algumas áreas de trabalho estavam localizadas há mais de duas horas de caminhada dentro da caverna, como as áreas além do Conduto dos Escorpiões. Assim, a topografia de trechos isolados na caverna foi planejada para ataques de um dia, ou seja, cada equipe trabalhou independente, buscando finalizar a sua área. Normalmente, os grupos entravam na caverna por volta das 11:00h e cada um tinha um horário diferente para sair, dependendo da extensão do trecho topografado. Muitas vezes aconteceu de equipes saírem da caverna só durante a madrugada do dia seguinte, mas com os trabalhos na área finalizados. A composição das equipes variou, de acordo com a disposição de cada um para trabalhos mais exaustivos, em galerias mais complicadas. Este revezamento proporcionou, além de uma maior integração do grupo, um melhor rendimento da topografia. Depois de dois longos dias de trabalho na Tarimba, o grupo decidiu realizar uma

prospecção externa. Uma equipe deu início ao mapeamento da Gruta do Funil, cartão postal de Mambaí, enquanto que as outras foram cadastrar algumas cavernas que dão seqüência à linha de drenagem à jusante da Tarimba, registrando as grutas Saruê, Posto de Vacas I e II e a (bicho morto???). No mesmo dia, iniciou-se a topografia da Gruta Posto de Vacas II. Uma das equipes de prospecção, após uma mal sucedida investida em uma gruta cuja entrada encontravase obstruída, chegou até um cânion, onde encontraram mais duas novas cavidades. Devido ao sucesso das novas explorações, no dia seguinte as equipes retornaram ao trabalho fora da Tarimba. A equipe do Funil terminou o mapeamento e as duas outras


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Mapa 2: Gruta Posto de Vacas II, ao final, após uma equipe conseguir vencer um desmoronamento, duas cavernas se conectaram.

equipes, que mapeavam a Posto de Vacas II e uma das novas cavidades do cânion, se encontraram em uma das galerias, unificando o trabalho em uma só caverna.A topografia da Posto de Vacas I (ou será a II?), entretanto, não foi finalizada. Retomando os trabalhos na Gruna da Tarimba, desta vez entrando na caverna pela “Entrada do Porco”, que está localizada em um belíssimo cânion, três equipes seguiram com a topografia e uma equipe de exploração seguiu pelo rio. Neste dia foram mapeados condutos laterais e superiores ao longo do rio, além de um exaustivo trabalho no Salão Pó de Ouro, onde podem ser encontradas formações do tipo cabelo de anjo.

No final de cada dia, era feita a digitação dos dados de campo e conferência da qualidade da topografia, de acordo com o padrão BCRA5, normalmente atingido pelas equipes da UPE. Em muitos casos, foram observados erros de anotação ou leitura, que puderam ser esclarecidos e corrigidos com as equipes na mesma hora. Em dois casos, voltou-se para conferir leituras que não estavam correspondendo a este grau de precisão, resolvendo as pendências ainda no campo. Mais uma vez comprovamos que é importante visualizar os dados obtidos ainda na região de trabalho, principalmente quando se trata de uma viagem de mais de 1.000 km de casa. No final da viagem, graças à estrutura que montamos dentro


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utilizado atualmente pela UPE para a elaboração dos mapas finais. O último dia do grupo em Mambaí foi dedicado ao descanso e contemplação das belezas naturais. Seguimos até a Cachoeira Paraíso do Cerrado, onde o dia terminou depois de algumas horas no rio e debaixo de uma maravilhosa queda d’água. Depois de uma semana de trabalhos, saímos no sábado de Mambaí com mais de 5.000 metros de linha de trena mapeados e com a certeza de termos feito um ótimo trabalho, além de termos reforçado os laços de amizade com os integrantes do GREGO, dentro da UPE e com os demais grupos que participaram. Ficou a vontade de que o próximo ano chegue logo, para mais uma expedição cheia de surpresas, muito trabalho nas cavernas de Goiás e a alegria de reencontrar os amigos.

Fotos 2 e 3: Acima a ressurgência do córrego da Gruta Posto de Vacas II. Na seqüência, a equipe se deslocando em meio aos numerosos pastos da região.

da escola-alojamento, com computadores e scanner, todos os dados estavam verificados e os croquis estavam digitalizados, prontos para serem trabalhados no Therion, software

Gruna da Tarimba O objetivo principal dos trabalhos em Mambaí continua sendo a Gruna da Tarimba. Na Expedição de 2008 foram topografados 3.350 metros de galerias em diversos pontos da caverna. O mapa original da Tarimba, feito pelo GREGO durante a década de 90, apresenta a caverna com 6.680 metros. Com a topografia de mais 3.350 metros realizada na última expedição, a caverna já se encontra com 6.659 metros de desenvolvimento linear. Como a caverna possui uma morfologia predominantemente meândrica, com condutos longos, mas estreitos, pode-se dizer que a sua projeção horizontal final vai se aproximar muito deste montante. Entretanto, como ainda há vários condutos do mapa original que não foram mapeados, inclusive o trecho sul da galeria principal do rio, certamente a caverna vai superar o seu desenvolvimento oficial durante a próxima expedição, que vai ocorrer em julho de 2009. Outras Grutas Além da Tarimba foram mapeadas mais quatro outras cavernas, sendo que três delas estão com a topografia finalizada. A Gruta do Funil, um dos principais atrativos turísticos de


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Mapa 3: Gruta Saruê, uma pequena cavidade descoberta e mapeada.

Mambaí, devido à bela cachoeira na entrada principal da caverna, totalizou 760 metros. A topografia da Gruta Posto de Vacas II também foi concluída, totalizando 580 metros de desenvolvimento linear, e a gruta Posto de Vacas I, que se encontra com 380 metros atualmente, e deverá ser terminada por uma equipe do GREGO em breve. Estas duas cavernas também fazem parte da mesma rede de drenagem da Tarimba. A Gruta Saruê foi finalizada, com desenvolvimento de 40 metros. A expedição deste ano buscou a exploração e mapeamento de novas cavidades, abrindo possibilidades para diferentes trabalhos na região e encontrando uma alternativa de topografia para os dias de descanso da Gruna da Tarimba. 2009 A próxima expedição já esta marcada e será também no final de julho, entre os dias 17 e 26, em 2009. O objetivo principal continuará sendo a Tarimba, porém outras cavernas importantes da região também deverão ter seu mapa iniciado, como é o caso das grutas Meândrica e Sumidouro. Os interessados em participar podem enviar e-mail para upe@upecave.com.br.

Foto 4: Um dos alvos da expedição foi entrar pela “boca do porco” da Tarimba e topografar condutos superiores como o mostrado na imagem.


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Em 2007, na Gruna da Tarimba, o trabalho das equipes se concentrou em traçar uma linha de trena que pudesse servir de base para as expedições que viessem a se suceder, deixando bases permanentes em locais estratégicos e onde já havia comprovação de novas galerias laterais.

Já em 2008, como é possível observar abaixo, os trabalhos foram desenvolvidos com base nas pendências deixadas no ano anterior, topografando galerias laterais e superiores, algumas delas labirínticas.


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Foto: Claudia Caiado

Fotos 5, 6 e 7: O pórtico de entrada da Gruta Funil, com uma gigantesca queda d’água, que forma um lindo poço, onde o trabalho de mapeamento foi muito gratificante.


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MANTENDO A CHAMA ACESA: NOTAS SOBRE O USO DAS CARBURETEIRAS EM CAVERNAS (A PARTIR DE DADOS COLETADOS EM BURITINÓPOLIS-GO E NO PETAR-SP) Autores: Heros Augusto Santos Lobo – UPE/SETUR-SBE/UNESP-Rio Claro Silmara Zago – UPE Introdução O presente artigo tem por objetivo apresentar nossa opinião sobre a questão do uso dos reatores de carbureto – popularmente conhecidos como carbureteiras – para a exploração de cavernas. Para tanto, dados de pesquisas já publicadas e outras em fase de publicação foram compilados e re-organizados com outro enfoque, livre de pressupostos calcados em princípios de precaução. Estes, muitas vezes, culminam por criar regras demasiadamente restritivas sem o devido embasamento científico, restringindo determinadas práticas em nome de uma aparente conservação ambiental. Para auxiliar na discussão, breves conceitos de impacto e dano ambiental são abordados à luz das resoluções do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente. Posteriormente, são apresentados dados coletados em quatro pesquisas distintas, conduzidas nas cavernas Santana (Scaleante, 2003; Lobo e outros, pesquisa em andamento1), Morro Preto (Lobo et al., 2009) e lapa do Penhasco (Lobo & Zago, 2009). O ponto convergente destas pesquisas é a tentativa de relacionar a presença humana com as alterações na atmosfera cavernícola, com ênfase nos atributos microclimáticos: temperatura ambiente – T – e umidade relativa do ar – UR –, bem como no acúmulo de dióxido de carbono – CO2. Antecedentes técnicos e teóricos A preocupação com os impactos ambientais do uso humano de cavernas é fato bastante recente, mesmo se comparado ao desenvolvimento das explorações espeleológicas, de um modo geral. É fruto de uma tendência que foi ampliada no Brasil a partir de 1992, com a conferência mundial para o meio ambiente “Eco 92”, no Rio de Janeiro. No entanto, alguns trabalhos pioneiros a nível mundial que ressaltam preocupações desta ordem são dignos de nota, alguns deles publicados até mesmo antes do evento mencionado no parágrafo anterior. Cigna & Forti (1988) estão entre estes pioneiros, com uma proposta sobre estudos prévios que deveriam ser feitos antes de se permitir a visitação turística

de uma caverna. Em 1993, Cigna também levanta questões basilares sobre a capacidade de carga turística de uma caverna. Aproveitamos para ressaltar que não existe um consenso sobre as possibilidades e formas de se identificar a capacidade de carga de um ambiente, qualquer ele que seja, dada a inerente complexidade da natureza face às limitações espaço-temporais e de recursos que pairam sobre as pesquisas focadas nestes aspectos. Alia-se a isso a diversidade de correntes de interpretação sobre o que efetivamente seria um limite de alterações feitas ao ambiente que permitisse a sua regeneração em condições próximas as originais após a intervenção realizada.Todavia, se buscamos uma compreensão sobre a “idéia” que o termo capacidade de carga quer nos transmitir, devemos nos concentrar nos limites de alteração que podem ser feitos a uma determinada área espacial sem, no entanto, gerar modificações indesejadas – sob o ponto de vista estritamente ambiental, antes de mais nada – que sejam irreversíveis. Com isso, adentramos automaticamente na seara dos impactos e danos ambientais. Na concepção ora posta, a definição de impacto ambiental que nos interessa é aquela que se refere às alterações geradas pelo uso humano no meio físico e biótico ou em suas propriedades e processos, e que podem prejudicar tanto o meio quanto o próprio ser humano. Assim, devemos compreender que os impactos ambientais sempre se farão presentes no meio a partir da presença humana. Por outro lado, o dano ambiental seria o nível de impacto não aceito, uma resposta negativa ao excesso de impactos causados, alterando definitivamente o meio afetado. Considerando estas concepções, voltemos aos impactos em cavernas. Estes serão mais abrangentes à medida que ampliarmos a escala de detalhe dos estudos realizados. O confinamento espacial das cavernas é fator limitador nas trocas atmosféricas, fluídicas, físicas e tróficas com o ambiente externo, concentrando por um tempo maior os impactos decorrentes da presença humana.

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A escala de presença humana, bem como sua finalidade e comportamento serão fatores decisivos para os impactos existentes. Um grande grupo de turistas gera excesso de CO2 por conta da respiração, além de aumentar a T em alguns casos (Pulido-Bosch et al., 1997; Hoyos et al., 1998; Song et al., 2000; Liñán et al., 2008). Dependendo da necessidade destes turistas, estruturas de acesso e segurança serão construídas, podendo gerar ainda mais calor – conforme o tipo de iluminação utilizada – e danos direto ao ambiente. Mesmo grupos pequenos de curiosos aventureiros podem causar danos irreversíveis, muitas vezes pela desatenção ou até mesmo despreocupação com o ambiente visitado. Algumas cavernas fechadas ao turismo “oficial” possuem belos conjuntos de espeleotemas danificados pela conduta inadequada e inconseqüente deste tipo de aventureiro – empregando aqui o termo em diversos sentidos. Nesse leque de possibilidades de visitação, estão os espeleólogos. Executando trabalhos técnicos, científicos ou apenas aficionados por cavernas, são os visitantes mais constantes e freqüentes do ambiente subterrâneo. Em meio ao seu aparato técnico, as carbureteiras são elementos essenciais para o bom desenvolvimento de seus trabalhos e explorações. Por muitos anos, o carbureto foi a melhor opção de iluminação para todos os tipos de visitantes de cavernas. Com a evolução tecnológica a partir das diversas possibilidades de lanternas elétricas com luzes brancas de baixo consumo, para muitos casos o carbureto vem sendo considerado obsoleto. Seria uma resistência romântica dos diversos espeleólogos pela continuidade do uso do carbureto? De fato, para muitos o odor proveniente do uso do equipamento incita a memória olfativa de tal forma que adquire um significado que vai além da prática espeleológica e do momento em que se está dentro da caverna. Outros justificam seu posicionamento de modo mais técnico, enumerando as diversas vantagens da iluminação primordial à base de fogo, que é mais barata, mais ampla, mais duradoura e por aí vai. Não vamos julgar o mérito dos que defendem ou dos que abominam as carbureteiras, isso tornaria a nossa mera opinião muito calcada em preceitos, paixões e conceitos tendenciais. O que queremos colocar em discussão é a questão dos impactos do carbureto. E mais: demonstrar que, até o presente, não existem pesquisas conclusivas que comprovem a existência de danos ambientais derivados do uso deste equipamento.

Estudos feitos no Brasil: objetivos, resultados e conclusões obtidas Na linha de raciocínio até então desenvolvida, podemos mencionar quatro estudos básicos que nos permitem questionar acerca da escala e intensidade de visitação, bem como do uso de carbureteiras. São trabalhos feitos em duas cavernas do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira – PETAR – nos anos de 2003 e 2008 e na lapa do Penhasco, em Buritinópolis, Goiás, também em 2008.Vejamos características básicas de cada um destes estudos: Ca Cavverna de Santana Santana:: o primeiro trabalho mencionado foi realizado por Scaleante (2003). Este autor utilizou termohigrômetros e registradores de pessoas para identificar a relação entre o uso de carbureteiras e as variações na T e UR, tanto na galeria seca quanto na galeria do rio. Reparem as distintas situações: a galeria seca, mais confinada, sem um rio corrente em seu interior, superior à galeria do rio, sem clarabóias aparentes nem outros contatos diretos com o meio externo; a galeria do rio, com maior fluxo de ar e água, com um contato direto com o meio externo (ressurgência do rio Roncador). O trabalho identificou grandes alterações com uso da carbureteira na galeria superior, o que não se repetiu na galeria do rio. A finalidade deste trabalho era subsidiar a proibição do uso de carbureteiras nos passeios turísticos na caverna de Santana. Os dados apresentados neste estudo foram coletados em uma escala de maior detalhe, com intervalo de registro de um minuto. O tempo de coleta se limitou a períodos de um a três dias, sem continuidade maior entre os intervalos de coleta. Na mesma caverna, foi conduzido um trabalho de monitoramento dos mesmos parâmetros em setembro de 2008. A situação atual é totalmente diferente, condicionada por dois cenários: a proibição do uso de carbureto nos passeios turísticos e as limitações impostas por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta – TAC –, que limita em grupos de oito turistas mais um monitor em intervalos de trinta minutos. Durante todo o mês, dez termohigrômetros registraram o comportamento microclimático da caverna, com intervalos de aferição de uma hora. Ao que se percebeu, mesmo nos dias de pico de visitação não houve alteração significativa com origem comprovada pela presença humana. Gruta do Morro Preto Preto:: no mês de maio de 2008, foi realizado um evento em comemoração aos cinqüenta anos do PETAR no interior da

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gruta. Paralelamente, conduziu-se um experimento de monitoramento da T, UR e CO2 no entorno imediato e interior da gruta, de forma a buscar identificar se houveram interferências significativas no ambiente em função do evento. Ao todo, 247 pessoas visitaram a gruta no dia do evento, com pico entre as 15:00hs e 16:00hs, com aproximadamente 200 pessoas simultaneamente no salão de entrada e no anfiteatro. Os resultados e discussões evidenciam as pequenas alterações atmosféricas ocorridas no ambiente em decorrência do evento, sendo praticamente nulas para T e UR e mínimas para o CO2. Concluiu-se que no caso específico da gruta Morro Preto, a grande concentração de pessoas – nesse caso, sem uso de carbureteiras – não causou impactos ambientais negativos à atmosfera cavernícola em função das características naturais da caverna que possibilitam troca relativamente alta de energia entre o ambiente subterrâneo e o externo (Lobo et al., 2009). Quanto aos resultados deste estudo, por meio de um aplicativo de interpolação de dados para uso em procedimentos geoestatísticos, foram produzidos mapas de isotermas (linhas com temperaturas idênticas) para situações anterior e posterior ao evento, de forma a ilustrar a dinâmica natural do ambiente (figura 1).

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Lapa do Penhasco Penhasco:: em julho de 2008, a UPE realizou uma expedição à região cárstica de Mambaí, interior de Goiás. Na ocasião, vislumbrou-se uma oportunidade de realizar um monitoramento experimental de T e UR de forma a identificar dados de outra região do país. Em contato com Emílio M. Calvo, espeleólogo local e membro do GREGO – Grupo Espeleológico Goiano – optou-se por realizar a atividade na lapa do Penhasco, localizada no município vizinho de Buritinópolis (figura 2). A atividade se desenvolveu por 5 dias, com intervalo de registro de dados de 30 minutos.

Figura 2 – Planta baixa e seções da Lapa do Penhasco, com posicionamento dos termohigrômetros utilizados no experimento e localização do ponto onde os espeleólogos ficaram concentrados por aprox. duas horas (Lobo & Zago, 2009)

Figura 1 – Mapas de isotermas da gruta do Morro Preto em dois momentos do experimento realizado (Lobo et al., 2009). As alterações nos padrões de isotermas nos dois episódios considerados não indica um impacto ambiental, mas sim, uma tendência de dados baseados em condições naturais da atmosf era ca atmosfera cavv ernícola.

Durante o experimento, a presença de três espeleólogos portando carbureteiras dentro da caverna permitiu a aferição de uma considerável interferência atmosférica, o que pode ser observado na figura 3.


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Figura 3 – gráficos dos pontos 31, 33, 38, 39, 40 e 41. Note-se a grande interferência causada na estação 40 poucas horas após o experimento, alterando seus padrões de variabilidade oi detectada no dia seguinte variabilidade.. A mesma massa de ar aquecido ffoi seguinte,, na estação 39. A estação 41, limítr of e à estação 40, não rrecebeu ecebeu nenhuma interf erência limítrof ofe interferência do experimento. Horário de Brasília-DF (Lobo & Zago, 2009).

Os gráficos não deixam dúvidas quanto à ocorrência de impactos na atmosfera da caverna na estação 40 no dia 30/07/2008 e, posteriormente, na estação 39 – portanto, se movendo em direção ao pórtico de entrada – no dia 31/07/2009. Dos dados para uma discussão necessária: constatado o impacto, em que isso implica? Os poucos dados compilados – talvez os únicos produzidos no Brasil com este enfoque específico – nos permitem afirmar, sem margem

de dúvidas, que o carbureto causa impactos ambientais na atmosfera cavernícola. Isso foi constatado em situações bem distintas: em uma caverna úmida, em meio à floresta tropical e mais confinada, bem como em uma caverna mais seca – com um pequeno córrego interno –, em área de cerrado e extremamente ampla (figura 4). O quadro 1 sintetiza as principais conclusões destes estudos e suas relações com os fluxos de visitação e o uso de carbureteiras.

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que diz respeito aos dados coletados, abrese espaço para uma nova discussão: afinal, qual o real problema de se causarem tais impactos? S o m o s totalmente favoráveis e incentivadores de ações que visem à conservação e o uso racional dos recursos naturais. Se necessário, ações de precaução, que permitam resguardar mais tempo para que e s t u d o s razoavelmente aprofundados possam delimitar diretrizes adequadas para Figura 4 – Foto do Salão principal da lapa do Penhasco, ilustrando seu nortear as práticas grande volume interno. existentes. Mas tudo com muito bom senso, e, Quadro 1 – Relação entre uso de carbureto, concentração de pessoas e ponderação p r i n c i p a l m e n t e , impactos ambientais em ca cavv ernas brasileiras visualização das distintas necessidades e limites para os grupos interessados no uso das cavernas. Exemplificamos: proibir o uso de carbureteiras para a Alguns aspectos precisam ser levados em visitação turística nos parece uma medida conta na análise destes dados. Nenhum dos bastante razoável, adequada considerando que estudos realizados se deu por período mais muitas vezes o montante de grupos que visitam longo, de no mínimo um ano tal como uma caverna em um mesmo dia poderia gerar recomendado para estudos de atmosfera um acúmulo térmico de conseqüências cavernícola (Cigna, 2002). Com um estudo mais desconhecidas, talvez danosas, cabendo uma amplo, poder-se-ia conhecer a amplitude térmica ação de precaução. Deduzir que este mesmo anual à qual a caverna é submetida, o que princípio se aplica a grupos de espeleólogos e permitiria sabermos se a breve alteração pesquisadores, soa como precipitado, visto que ocorrida naquele determinado momento seria as visitas destes são pontuais e esporádicas. Também compreendemos que essa um estresse térmico além daquele ao qual o ambiente já é naturalmente submetido. Se postura de homogeneização dos diversos tipos formos conversar “cientificamente”, os estudos de visitantes pode ser explicada pelo fato de que climatológicos costumam ser conduzidos com a linha que separa turistas, pesquisadores e dados de 30 anos, de forma a se identificar os espeleólogos é por vezes tênue, frágil e anos mais úmidos e secos, para somente então discutível. Dependendo da concepção de tecer considerações acerca da dinâmica climática classificação que se use, todos estes podem ser compreendidos como turistas. Por outro lado, da área estudada. Por outro lado, estatisticamente pode- também é fato que os pesquisadores não só não se concluir que as variações térmicas se vêem como turistas como estão nas cavernas identificadas nestes estudos são decorrentes da por finalidades totalmente distintas, usando presença humana, e não de ordem natural. Sendo muitas vezes as mesmas estruturas de visitação a questão dos impactos um ponto pacífico no – seria este o ponto mais evidente em comum.

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Artigo Científico

Convidamos o colega leitor a fazer conosco esta reflexão. Seria o momento de se racionalizar a questão do uso do carbureto, deixando de lado a postura apenas condenatória? Ou seria o caso de assumirmos a evolução tecnológica, banirmos o carbureto e nos posicionarmos de modo pretensamente menos impactante (mesmo sem ter clareza acerca destes impactos e suas conseqüências)? As respostas para estas perguntas, dadas nos mais diversos fóruns e com diferentes enfoques de discussão, poderão indubitavelmente contribuir para o encaminhamento de propostas regulatórias mais condizentes com as diferentes realidades de usuários, enfoques e em função da diversidade da patrimônio espeleológico nacional. Referências CIGNA, A.A. Modern Trend in Cave Monitoring. Acta Carsologica Carsologica, Ljubljana, v. 31, n. 1, p. 35-54. 2002. CIGNA, A.A. & FORTI, P. The Environmental Impact Assessment of a Tourist Cave. In: CAVE TOURISM INTERNATIONAL SYMPOSIUM AT-170 ANNIVERSARY OF POSTOJNSKA JAMA, POSTOJNA (YUGOSLAVIA), 1988, Postojna. Proceedings. Postojna: UIS, 1988. p. 29-38. CONAMA – CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE. Resolução CONAMA 001/1986. Dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para o Relatório de Impacto Ambiental – RIMA. Brasília: CONAMA, 1986. Disponível em <http://www.mma.gov.br/port/ conama/res/res86/res0186.html>. Acesso em 28 dez. 2005. HOYOS, M.; SOLER, V.; CAÑAVERAS, J.C.; SÁNCHEZ-MORAL, S.; SANZ-RUBIO, E. Microclimatic Characterization of a Karstic Cave: Human Impact on Microenvironmental Parameters of a Prehistoric Rock Art Cave (Candamo Cave, Northern Spain). En vir onmental Geolog Envir vironmental Geologyy, v. 33, n. 4, p. 231242. 1998. LIÑÁN, C.; VADILLO, I.; CARRASCO, F. Carbon dioxide concentration in air within the Nerja cave (Malaga, Andalusia, Spain). International JJournal ournal of Speleolog Speleologyy , v. 37, n. 1, p. 99-106. 2008. LOBO, H.A.S. & ZAGO, S. Iluminação com Carbureteiras Causa Impactos Ambientais Significativos no Microclima de Ca pa do Cavvernas (Estudo de Caso da La Lapa

Penhasco enhasco,, Buritinópolis-GO). 2009. Inédito. LOBO, H.A.S.; PERINOTTO, J.A. de J.; entos BOGGIANI, P.C.; ZAGO, S. Ev Eventos Musicais em Ca Cavvernas Causam Impactos Ambientais? A valiação das Alterações na Atmosfera Subterrânea da Gruta do Mor eto (PET AR-IPORANGA, SP) Morrro Pr Preto (PETAR-IPORANGA, SP). 2009. Inédito. PULIDO-BOSCH, A.; MARTÍN-ROSALES, W.; LÓPEZ-CHICANO, M.; RODRÍGUEZNAVARRO, M.; VALLEJOS, A. Human Impact in a Tourist Karstic Cave (Aracena, Spain). En vir onmental Geolog Envir vironmental Geologyy, v. 31, n. 3-4, p. 1429. 1997. SCALEANTE, J.A.B. Avaliação do Impacto Cavvernas. de Atividades Turísticas em Ca Campinas, 2003, 82 p. Dissertação (Mestrado em Geociências), Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas. SONG, L.; WEI, X.; LIANG, F. The influences of cave tourism on CO2 and temperature in Baiyun Cave, Hebei, China. International Journal of Speleolog Speleologyy. Bologna, v. 29, n. 1, p. 77-87. 2000. (Footnotes) 1

Projeto integrante da pesquisa de doutoramento do primeiro autor deste artigo. Além dos orientadores – profs. Dr. José Alexandre de Jesus Perinotto e Dr. Paulo César Boggiani – colaboram neste projeto: José A. Basso Scaleante, Silmara Zago, Vandir de Andrade Júnior, Fábio Leonardo Tomas, Stanislav Poudou, Renato Augusto de Castro Santos e Tatiane V. Barbosa.

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Equipamentos

Iluminação

Texto: Eduardo Portella eduportella@ajato.com.br

Em cavernas, nunca podemos depender de apenas um equipamento de iluminação, pois se este tiver algum problema você não terá iluminação. O ideal são três iluminações independentes, onde pelo menos duas delas devem estar na cabeça (para deixarmos as mãos livres). A escolha de sua iluminação vai depender também para qual atividade será usada. Hoje, a utilização do carbureto está cada vez mais restrita e só é justificável quando existe a necessidade de grande quantidade de luz com facho aberto, o que pode não se aplicar em turismo e esporte. Os tipos de iluminação são basicamente dois: 1) Carbureteira: é uma iluminação bastante confiável e têm um ótimo ângulo de abertura, dando uma das melhores soluções. FAVOR: - Ótima potência de iluminação; - Ótimo ângulo de abertura da luz; - Fonte de calor para uma necessidade de aquecimento em caso de frio excessivo; - O refil não necessita de sacos estanque; - Confiabilidade. CONTRA: - O peso do carbureto de refil e o peso do produto de descarte; - A necessidade de se carregar água para a carbureteira em locais onde não há água; - O aquecimento demasiado do ambiente cavernícola em locais de pouca ventilação; - A fuligem produzida pela chama; - Não funciona embaixo d’água; - O perigo de utilizar esta iluminação quando se pratica técnicas verticais; - Perigo de explosão caso os gases produzidos fiquem retidos em uma sacola; - O cheiro que o gás produz.

2) Elétrica: é uma iluminação prática e leve, mas nem sempre têm grande potência e têm o foco dirigido. FAVOR: - Boa potência de iluminação; - Baixo volume e peso das pilhas de refil e descarte; - Funciona em baixo d’água. CONTRA: - Baixo ângulo de abertura da luz - focado; - O refil necessita de saco estanque; - As pilhas são um problema ambiental quando não descartadas corretamente; - Não são confiáveis quando há falta de manutenção.

A iluminação elétrica tem algumas variações de: MODELO: - Modelo de mão, que facilita direcionar um foco para pontos específicos. - Modelo de cabeça, que libera as mãos para outras funções e acompanha o movimento da cabeça. - Modelo de lampião, que é utilizado para pendurar ou colocar apoiado sobre algum local estacionário. OBS: Todos estes modelos podem ser ou não resistentes ou até a prova d’água. POTÊNCIA DE LUZ E CONSUMO DE ELETRICIDADE: - Tipos de lâmpada: halógena (alta potência e grande consumo); led (baixo consumo e durabilidade); krypton (boa potência e alto consumo); fluorescente (baixo consumo); - Fontes de energia: pilhas comuns (baixa durabilidade); pilhas alcalinas (alta durabilidade); pilhas recarregáveis (boa durabilidade e não é descartável); baterias (alta durabilidade, mas necessita de modelo específico para cada lanterna); dínamo (baixa durabilidade e baixa potência, mas com fácil recarga);

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tutoriais Texto e prints: Ricardo Martinelli Revisão: Fabio Kok Geribello

Contate os autores

rsm@fotoabout.com fabio@geribello.com.br

C

omo prometido na edição anterior, neste novo tutorial do SURVEX será mostrado como é possível “juntar” pedaços de topografias, definir onde são as bocas e bases fixas e incluir e fixar coordenadas.

Comandos deste Tutorial *export - Sintaxe *export <base> Validade Logo após o *Begin Descrição *export marca as bases que serão referenciadas no fechamento da topografia. Para ser possível se referir a uma base de uma topografia diversos níveis acima, é necessário que esta seja exportada. *include - Sintaxe *include <arquivo> Descrição: *include enxerta outro arquivo .svx na linha do arquivo corrente. Caso o nome do arquivo tenha espaços ele precisa vir entre aspas. *equate - Sintaxe *equate <base><base2> Descrição: *equate especifíca que os nomes das bases listadas se referem à mesma estação topográfica.

*fix - Sintaxe *fix Sintaxe *fix <base> <x> <y> <z> Descrição: *fix referencia a posição de uma base a uma coordenada específica.

*entrance - Sintaxe *entrance <base> Descrição *entrance marca uma base com um sinal de entrada. Esta informação é usada pelo aven para realçar as entradas.

Tópico 1 - Juntando trechos de topografias de uma mesma caverna. Organização é tudo, como dito anteriormente, e nisso o Survex é implacável. Se não estiver tudo arquivado, separado e nomeado, fica mais complicado. O exemplo escolhido para explicar a junção de topografias é a gruta Posto de Vacas II, mapeada durante a Expedição Mambaí 2008, cujo mapa pode ser visto na página 18 deste informativo. Para uma topografia de qualidade, é importante que as equipes tomem certos cuidados na hora de nomear as bases e a anotação precisa ser minuciosa, especialmente na junção entre topos de equipes diferentes e de dias de trabalho diferentes. Isso permitirá que se identifique em que ponto as topografias ficarão conectadas e sem estes dados organizados, não é possível fazer a junção.


Escritório 30

No exemplo ao lado, a base 14 é a entrada de um conduto que continua e não foi topografado no dia por falta de tempo, portanto foi colocada uma base fixa na parede (1f) por segurança ,caso a 14 sofresse algum deslocamento, e no dia seguinte retomamos a topografia a partir desse ponto. Sendo esta a base eleita para a junção, coloca-se o comando “*export 14”, o que significa que esta base será exportada para outro arquivo, conforme explicação mais adiante.

No dia seguinte, a mesma equipe continuou a topografia do conduto, porém a topo foi separada em arquivos diferentes. Dessa forma, a sequência de bases foi modificada, sendo nomeada agora como “2r”. Repare que no início é colocado que a base usada é da “1r”, ficando anotado base 1r14. O processo é o mesmo: * export 1r14. Na base 5 ocorreu outra junção, agora com um trecho topografado por outra equipe, a topo “3l”. Vale salientar que, se durante a topografia outras bases de topos anteriores forem usadas, é possível e recomendável que se utilize o mesmo processo.

Com todas as bases devidamente exportadas, é necessária a elaboração de um “arquivo de junção”, que irá processar todos os dados. Neste arquivo teremos que incluir as topografias que compõe a caverna, usando o comando *include, como no exemplo ao lado. Feito isso a tarefa é “equalizar” as bases exportadas dos arquivos de trechos usando o comando *equate. Proceda exatamente como ao lado, usando ponto para diferenciar o arquivo da base e espaço para separar as duas bases que você pretende juntar.


Escritório 31

Se tudo estiver correto, o programa entenderá os comandos que você colocou e irá proceder a união da linha de trena. No exemplo acima existem somente três topografias unidas, porém em cavernas mais complexas, principalmente as labirínticas e muito extensas, o número de topos pode ser muito grande, trabalhados em diversas épocas e até em anos ou décadas diferentes como é o caso da Toca da Boa Vista, na Bahia, ou a Gruta Areado III, no PETAR, que já conta com mais de 20 topografias distintas e algumas com várias bases interligadas ou “equalizadas”.


Escritório 32

Tópico 2 - Definir onde são as entradas da caverna.

O processo é bem simples, primeiramente abra seu arquivo de junção e utilizando o comando *entrance (entrada em inglês) defina as bases que correspondam ao sumidouro, ressurgência ou qualquer outro acesso que a cavidade possua com a superfície. No caso do exemplo utilizado, temos 4 bases definidas. Antes de processar novamente o arquivo, é necessário que você também “exporte” as bases que correspondam às entradas, como ao lado. Não se esqueça de sempre salvar as alterações que são feitas nos arquivos.

Após o processamento do arquivo é só habilitar o botão com o símbolo “Ômega”, que é uma simbologia internacional para definir entrada de caverna, e pequenas bolas verdes vão indicar as entradas.


Escritório 33

Tópico 3 - Fixar a coordenada na boca da caverna.

No Survex, também é possível fixar a coordenada da caverna nas bases externas, onde foram “amarradas” as coordenadas adquiridas com GPS. Utilize o comando *Fix, determine a base da coordenada e coloque em UTM os eixos E e N e depois a altitude. Coloque apenas números, como ao lado, e sempre separados por espaço ou TAB. Certifique-se da qualidade da informação colhida em campo e não deixe passar nenhum detalhe, como o “DATUM” utilizado. Usualmente, utilizamos o WGS-84, e o erro embutido no momento.

Fixar a coordenada irá facilitar todos os procedimentos de geo-referenciamento da caverna. Com isso é possível, por exemplo, exportar sua linha de trena para visualização no “Google Earth”. Também é possível saber a coordenada das outras bases da gruta, sendo que o programa irá calculá-las a partir da coordenada “fixada”, como na figura acima.


Escritório 34

Tópico 4 - determinar onde foram colocadas bases permanentes.

Este cuidado é importante para planejamento de novas investidas de mapeamento, ou para determinar setores dentro da caverna que possam ser alvo de estudos posteriores ou indicar locais de maior importância como salões ornamentados, com relevância biológica ou geológica. Na verdade não existe um comando específico, basta exportar as bases permanentes como fora explicado anteriormente e pronto, é só habilitar o botão e pronto, as bases serão indicadas em azul.

Chegamos ao final de mais um tutorial do Survex, espero que tudo tenha ficado claro e que isso contribua para que mais e melhores topografia possam sair das gavetas dos espeleólogos brasileiros. Muita coisa ainda está por vir e no próximo número tentaremos avançar mais um pouco, até lá!


Técnicas para execução da topografia Prevenção de erros grosseiros Texto Original: Common blunders during the survey trip Compiled by Bob Hoke and Pat Kambesis Originally printed in Compass & Tape(V17n4i60p17) Traduzido e adaptado por Fabio Kok Geribello

M

1.

ostraremos a seguir uma coletânea de sugestões de práticas que ajudarão a equipe na execução de uma topografia rápida e precisa.

Escolhendo as bases

2.

Lendo os números

O Croquista é quem determina o comprimento das visadas e o caminhamento da topografia, na colocação das bases.

Prepare a leitura antecipadamente, mas aguarde a autorização do croquista para iniciar a leitura.

Bases bem colocadas têm alto impacto na eficiência da equipe.

Evite visadas muito longas. Elas diminuem a precisão e dificultam a execução de um bom croquis. No geral, visadas de até 20 m não causam problemas na precisão.

A primeira preocupação do instrumentista deve ser a prevenção de erros.

Verifique sempre que possível se o fio de prumo está calibrado e sem nós adicionais (os nós se procriam dentro dos bolsos).

Coloque as bases em locais que facilitem a leitura para ambos os lados.

Deixe bases permanentes “à prova de bomba”, onde possivelmente serão amarradas futuras topografias.

Faça a leitura sempre na mesma ordem (de, para, distância, azimute, inclinação). Esta prática diminui erros de anotação e ajuda o croquista a manter a atenção focada no croquis.

Use sempre apenas um olho na leitura da bússola (o uso do dois olhos introduz um erro sistemático na topografia).

Leitura de bússola na Gruta da Tarimba, Mambaí, GO Foto: Gabriela Slavec

• Verifique sempre se seus óculos, lanternas, capacetes estão afastados da bússola, principalmente durante a leitura. Atenção: as pilhas e equipamentos metálicos alteram o campo magnético causando erros na leitura da bússola. • Tenha certeza da bússola estar nivelada. Faça o teste: caso a leitura não mude quando você a rotaciona isso significa que ela não está nivelada.


Topografia 36

Leia a bússola na escala correta e estando sempre atendo na direção da escala.

Atenção à centena na leitura da bússola! (125º - 25º)

Leia o clinômetro na escala correta (a mais próxima do vidro). Na dúvida, aponte o clinômetro para baixo. Use a escala que mostrar –90º.

Atenção para o crescimento da escala no clinômetro - em ângulos negativos a escala cresce para baixo.

Leia a trena sempre no sentido correto para medir centímetros. (Achando os cm, busque sempre o inteiro menor).

Saiba sempre onde está o zero da trena.

Evite trenas com escalas diferentes em ambas as faces. Você com certeza irá ler o lado errado!!

Mantenha os visores dos instrumentos limpos e em bom estado.

Diga sempre ao croquista qual medida está sendo lida (distância x, azimute y, inclinação z).

3.

Anotando os números •

Mantenha a caderneta limpa e seca (dentro do macacão, na boca, tanto faz).

Anote os sinais “+” e “-” para todas as visadas de inclinação.

Repita a leitura após a anotação do número na caderneta (não antes).

Use uma barra / na marcação do decimal. A vírgula ou o ponto podem ser confundidos com sujeira. Se tiver espaço use o 0 (15/30 ou 050).

O croquista deve executar um teste de sanidade nas leituras que ouve (364º, 20m em visadas curtas ou +15 em descidas são dados inconsistentes).

4.

Desenhando o croquis •

Faça o croquis em escala (facilita detecção de erros e execução do mapa final).

Perceba sempre a direção que a galeria tende a desenvolver e indique a posição do norte em todas as folhas novas.

Use um transferidor e escala para plotar as bases ou um protractor, que une as duas funções.

Considere o ângulo vertical durante a plotagem da visada.

Faça traços firmes e claros.

Não tenha pressa para ir embora (voltar para refazer uma visada ou todo o trabalho é sempre mais cansativo).

Faça pausas para descansar sempre que se sentir estressado.

Não esqueça os cortes e o perfil. Procure registrar as principais feições da caverna.

Não perca um detalhe, todo buraco pode levar a um novo salão.

Atenção redobrada na mudança de página (sempre copie a última visada e duplique o desenho).


Topografia 37

5.

Conselhos •

6.

Mantenha os instrumentos secos e limpos. Eles não são a prova d’água, independente da forma usada pelo dono para protegê-lo. Leituras de bússola muito inclinadas são difíceis e imprecisas. Use uma visada vertical (up) intermediária para facilitar a leitura. Caso a visada continue muito inclinada, deixe a trena esticada entre as bases e leia a bússola na trena.

Leituras de bússola para cima são mais precisas que as para baixo. Inverta a direção da visada, sempre que necessário.

Alguns croquistas usam a trena esticada para auxílio na execução do croquis após a visada. Espere sempre a orientação dele.

Não fale com o croquista quando ele estiver concentrado.

No caso da utilização de up, bases flutuantes, as bases deverão ter sempre um sufixo u, i, etc. (Base 43u).

Para iluminar a base, evite o foco de luz na cara do instrumentista, use uma pequena lanterna de mira.

Evite conversas durante a leitura das medidas.

Sempre pense no que está fazendo, evite a rotina burra.

Leitura de clinômetro na Gruta da Tarimba, Mambaí, GO Foto: Gabriela Slavec

Erros mais comuns •

Leitura da trena na direção oposta (até 1m de erro).

Bússola não nivelada (erro aleatório).

Esquecimento da leitura da centena na bússola!!!! (leitura incompleta, erro aleatório).

Leitura da bússola na escala errada (o croquista perceberá erro de 180º).

Leitura do clinômetro na escala errada (normalmente 10º-15º de erro).

Inversão da direção da escala na bússola – leitura na direção errada (até 10º de erro).

Inversão da direção da escala no clinômetro – leitura na direção errada (até 10º de erro)

Anotação mal feita, números ilegíveis (erro aleatório, potencial de erro grosseiro).

Anotação do sinal da inclinação invertido (erro aleatório, potencial de erro grosseiro).

Inversão da visada (de/para) durante a anotação (o croquista perceberá erro de 180º).

Interferência do campo magnético, capacete, lanterna, ferro (5º - 10º).

Caderneta ilegível, lama, rasuras (erros aleatórios).


Lojinha da UPE 38

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EspeleoMARCHE 39

Log de Atividades

Tudo o que a UPE fez ou participou no ano de 2008 Coordenação: Fabio Geribello (fabio@geribello.com.br)

12/1/2008 a 13/1/2008

31/5/2008 a 31/5/2008

1/11/2008 a 2/11/2008

Gruta Crystal - Iporanga - SP Local: Fazenda Caraíba Objetivo: Mapeamento Participantes: Marcelo Gonçalves Renata Shimura Michel Sanches Frate Bruno Silva Pastorello Felipe Costa Ivan Stacioni Cerqueira Oliveira

Local: Sede SBE - Campinas São Paulo Objetivo: XXIX SBE DE PORTAS ABERTAS Palestra: Fotografando cavernas Participantes: Ricardo de Souza Martinelli Paulo Jolkesky

Planos de Manejo Espeleológicos - 1ª Saída Local: PETAR - Caboclos São Paulo Objetivo: Apoio ao mapeamento para o PME -Temiminas Participantes: Fabio Kok Geribello Ricardo Luiz Terzian Gabriela de Britto Slavec Ricardo de Souza Martinelli Ronald Jorge Welzel Eduardo Tastaldi Portella Marcelo Gonçalves Silmara Zago Michel Sanches Frate Luis Gustavo Pinheiro Machado Heros Augusto Santos Lobo

29/3/2008 a 29/3/2008 Treino de Vertical Local: Campo Escola Itamira São Paulo Objetivo: Treinamento de Técnicas Verticais Participantes: Fabio Kok Geribello Gabriela de Britto Slavec Ricardo de Souza Martinelli Paulo de Valhery Jolkesky Eduardo Tastaldi Portella Marcelo Gonçalves Mauro Zackiewicz

19/4/2008 a 20/4/2008 Local: PETAR Areado Grande São Paulo Objetivo: Abertura da Trilha Via Bulhas Participantes: Ricardo de Souza Martinelli Leandro Valentim Milanez Toni Cavalheiro

1/5/2008 a 3/5/2008 Local: PETAR - Areado Grande São Paulo Objetivo: Abertura da Trilha Via Bulhas Participantes: Mauro Zackiewicz Fernando G. Bruno Filho José Augusto Cabral Arouca

1/5/2008 a 3/5/2008 Local: Itaoca São Paulo Objetivo: Prospectar abismo possível Zero Participantes: Josef Herman Poker Toni Cavalheiro

5/7/2008 a 6/7/2008 Local: PETAR - Caboclos SP Objetivo: Término da Topo fartinho Participantes: Marcelo Fontes Neves Ricardo Ulhôa Cintra de Araújo Leandro Valentim Milanez Marcelo Gonçalves Mauro Zackiewicz Michel Sanches Frate Bruno Silva Pastorello Luis Gustavo Pinheiro Machado Ivan Stacioni Cerqueira Oliveira

26/7/2008 A 3/8/2008 Expedição Mambaí Local: Mambaí Goiás Objetivo: Topo da Tarimba, cadastr e map de novas grutas Participantes: Fabio Kok Geribello Gabriela de Britto Slavec Ricardo de Souza Martinelli Cláudia de Caiado Castro Eduardo Tastaldi Portella Ricardo Ulhôa Cintra de Araújo Marcelo Gonçalves Silmara Zago Mauro Zackiewicz Michel Sanches Frate José Augusto Cabral Arouca Heros Augusto Santos Lobo

30/8/2008 a 31/8/2008 Local: PETAR - Caboclos São Paulo Objetivo: Término da Topo fartinho Participantes: Leandro Valentim Milanez Marcelo Gonçalves Mauro Zackiewicz Francisco Carlos Pereira Gabas Michel Sanches Frate Luis Gustavo Pinheiro Machado

13/9/2008 a 14/9/2008 Gurutuva Insano - 24mm Local :PETAR - Santana São Paulo Objetivo: Continuação da Topografia do Gurutuva Participantes: Ricardo de Souza Martinelli Eduardo Tastaldi Portella Mauro Zackiewicz

29/11/2008 a 30/11/2008 Planos de Manejo Espeleológicos - 2ª Saída Local: PETAR Caboclos São Paulo Objetivo: Apoio ao mapeamento para o PME -Temiminas Participantes: Fabio Kok Geribello Eduardo Tastaldi Portella Silmara Zago Mauro Zackiewicz Michel Sanches Frate Toni Cavalheiro Luis Gustavo Pinheiro Machado Ivan Stacioni Cerqueira Oliveira Heros Augusto Santos Lobo

13/12/2008 a 13/12/2008 Churrasco de Fim de ano Local: Sorocaba São Paulo Objetivo: Confraternização Anual Participantes: Fabio Kok Geribello Gabriela de Britto Slavec Ricardo de Souza Martinelli Paulo de Valhery Jolkesky Ronald Jorge Welzel Silmara Zago Elvira Maria Antunes Branco Mauro Zackiewicz Michel Sanches Frate Toni Cavalheiro Luis Gustavo Pinheiro Machado Ivan Stacioni Cerqueira Oliveira Heros Augusto Santos Lobo


Maillon Rapid 40

Notícias curtas sobre a UPE e a espeleologia nacional Participação da UPE no Plano de Manejo do PETAR A UPE está participando da elaboração dos Planos de Manejo Espeleológicos dos Parques Estaduais Intervales, PETAR, Caverna do Diabo e Rio Turvo (este últimos, integrantes do Mosaico do Jacupiranga). Fruto de anos de exploração e dedicação de seus sócios, o clube já forneceu os mapas das Grutas Pescaria, Ouro Grosso e Casa de Pedra. Ficaram sob responsabilidade da UPE o mapeamento das Grutas Temimina I e II e Arataca, considerados insuficientes pela Fundação Florestal. O trabalho de campo deverá terminar em Abril próximo.

UPE pede desligamento da Redespeleo No final de 2008 a UPE pediu desligamento da Redespeleo Brasil, instituição da qual fazia parte praticamente desde a sua fundação.

Mais do Decreto O Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (CECAV), do Instituto Chico Mendes (MMA/ICMBio) realizou nos dias 26 e 27 de janeiro, em Brasília-DF, a primeira reunião técnica para a elaboração dos critérios de relevância, conforme previsto no Decreto 6.640/2008 que legaliza a destruição de cavernas. Apesar de convidada a participar da reunião, a SBE não enviou representantes já que o Decreto que fundamenta estes critérios é, no mínimo, inadequado, além disso, o poder executivo ainda não demonstrou interesse em corrigir as diversas falhas apontadas nas manifestações da Sociedade Civil e ratificadas em reunião com ICMBio. Enquando o decreto 6.640/2008 não for revogado ou substituido, não há qualquer garantia de que as considerações feitas pela Sociedade Civil e pesquisadores nestas reuniões serão acatadas. O convite, ou mesmo a participação de representantes nestas reuniões não pode ser entendido como a efetiva participação da sociedade civil no processo. Não há abertura para discutir os reais interesses por trás deste decreto e seu impacto sobre a economia, sociedade e o ambiente. O poder de decisão continua em outras instâncias fechadas à comunidade espeleológica. Fonte: SBE notícias Nº 112 - www.sbe.com.br

Revista da SBE Nova revista da SBE, sobre pesquisas em Turismo e Paisagens Cársticas. Leia em

http://www.sbe.com.br/ptpc_v1_n2.asp

Nova Diretoria da UPE No dia 4 de março, 2009, foi eleita em Assembléia a Diretoria da UPE para o biênio 2009/2010: - Presidente: Fabio Kok Geribello - Vice-presidente: Elvira Maria Branco - Secretário: Ricardo Martinelli - Tesoureiro: Mauro Zackiewicz - Almoxarife: Eduardo Tastardi Portella Parabéns aos sócios eleitos e muito sucesso nesta nova empreitada dentro da UPE e da espeleologia nacional.


Maillon Rapid 41


Foto em Destaque 42

Gruna da Tarimba Mambaí - GO

Foto : Ricardo Martinelli Dados Técnicos: velocidade 8seg; abertura F 3.5; ISO 200; distância focal 18 mm; Máquina - Nikon D300


Desnivel9 10