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Associação Pró-Ensino Superior em Novo Hamburgo - ASPEUR Universidade Feevale

ee Ano X - Volume 10 - Nº 2 - Agosto de 2013

Instituto de Ciências Sociais Aplicadas

Instituto de Ciências Sociais Aplicadas


PRESIDENTE DA ASPEUR Luiz Ricardo Bohrer REITOR DA UNIVERSIDADE FEEVALE Ramon Fernando da Cunha PRÓ-REITORA DE ENSINO Inajara Vargas Ramos PRÓ-REITOR DE PESQUISA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO João Alcione Sganderla Figueiredo PRÓ-REITOR DE PLANEJAMENTO E ADMINISTRAÇÃO Alexandre Zeni PRÓ-REITORA DE EXTENSÃO E ASSUNTOS COMUNITÁRIOS Gladis Luisa Baptista

COORDENAÇÃO EDITORIAL Inajara Vargas Ramos EDITORA FEEVALE Celso Eduardo Stark Daiane Thomé Scariot Graziele Borguetto Souza Adriana Christ Kuczynski CONTATOS ERS 239, 2755 - CEP: 93352-000 Novo Hamburgo/RS - Fone: (51) 3586.8819 Homepage: www.feevale.br/editora E-mail: editora@feevale.br REVISTA GESTÃO E DESENVOLVIMENTO ISSN: 1807-5436 Homepage: www.feevale.br/acontece/ publicacoes-feevale E-mail: revistaicsa@feevale.br

CAPA E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Graziele Borguetto Souza REVISÃO TEXTUAL Valéria Koch Barbosa IMPRESSÃO Gráfica Impressul - Jaraguá do Sul/SC INDEXAÇÃO ICAP - Indexação Compartilhada de Artigos de Periódicos (Disponível em: <http://www.pergamum.pucpr.br/icap/index.php>); LATINDEX (Disponível em: <http://latindex.unam.mx/>); Qualis - CAPES (Disponível em: <http://qualis.capes.gov.br>).

EDITOR CHEFE Valdir Pedde CONSELHO EDITORIAL Alexandre Zeni Angelita Renck Gerhardt Cintia da Silva Carvalho Claudia Lunkes Schmitt Cristiano Max Pereira Pinheiro Dusan Schreiber Ernani Cesar de Freitas Everton Rodrigo dos Santos Flávio Stein João Batista Nast de Lima Joelma Rejane Maino Juarez Buriol Luciana Gehlen Marcelo Paveck Ayub Margarete Panerai Araujo Maria Cristina Bohnenberger Mary Sandra Guerra Ashton Olivério Maria Ferreira Paula Regina Puhl Rodrigo Coimbra Santos Sandra Portella Montardo Serje Schmidt Sidnei Lopes Dias

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REALIZAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO Instituto de Ciências Sociais Aplicadas - ICSA

Classificação

Gestão e Desenvolvimento (ISSN 1807-5436)

Expediente

DIRETORa DO Instituto de Ciências Sociais Aplicadas - ICSA Maria Cristina Bohnenberger

CONSELHO EXTERNO Alziro Rodrigues (PUCRS - Porto Alegre/RS) Ana Cristina Fachinelli (UCS - Caxias do Sul/RS) Claudia Stumpf Toldo (UPF - Passo Fundo/RS) Cláudio Damacena (UNISINOS - São Leopoldo/RS) Doriana Daroit (UNB - Brasília/DF) Fabiano Engelmann (UFSCar - São Carlos/SP) Felipa Lopes dos Reis (Universidade Lusófona – Lisboa - Portugal) Francesca Comas Rubí (UIB - Balears/Mallorca - Espanha) Ilse Biason Guimarães (UFSC - Florianópolis/SC; ASSINTECAL - Novo Hamburgo/RS) Ilse Maria Beuren (UFSC- Florianópolis/SC; FURB - Blumenau/SC) Jansen Maia Del Corso (PUCPR - Curitiba/PR) Marcos Nicolau (UFPB - João Pessoa/PB) Maria Ângela Marques Bissoli (SENAC - São Paulo/SP) Maria Berenice da Costa Machado (UFRGS – Porto Alegre/RS) Monica Franchi Carniello (UNITAU - Taubaté/SP) Paulo Schmidt (UFRGS - Porto Alegre/RS) Pedro de Almeida Costa (UFRGS – Porto Alegre/RS) Rafael Peteffi da Silva (UNISUL - Florianópolis/SC) Roberto José Ramos (PUCRS - Porto Alegre/RS) Rocío Rueda Ortiz (Universidad Pedagógica - Bogotá - Colômbia) Rudimar Baldissera (UFRGS - Porto Alegre/RS) Vitor Francisco Schuch Junior (ULBRA - Santa Maria/RS) Wesley Vieira da Silva (PUCPR - Curitiba/PR)

Qualis (CAPES)

Estrato

Área de Avaliação

B3

Planejamento Urbano e Regional / Demografia

B4

Administração, Ciências Contábeis e Turismo

B4

Ciências Ambientais

B4

Interdisciplinar

B5

Ciência Política e Relações Internacionais

B5

Engenharias III

B5

História

B5

Medicina I

B5

Psicologia

B5

Sociologia

C

Ciências Sociais Aplicadas I

C

Direito

C

Educação

C

Letras / Linguística

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ee Ano X - Volume 10 - Nº 2 - Agosto de 2013

Sumário

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Princípios Principles

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Editorial Editorial

09

ANÁLISE DO VALOR DAS AÇÕES E DA INCLUSÃO DAS COMPANHIAS NO ÍNDICE CARBONO EFICIENTE - ICO2 DA BOVESPA VALUE SHARES AND THE INCLUSION OF COMPANIES IN CARBON EFFICIENT INDEX - THE BOVESPA ICO2 Daniel Ferreira dos Santos Gerson Amaury Marinho Wesley Vieira da Silva Jansen Maia Del Corso

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GOVERNANÇA DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO EM UMA ORGANIZAÇÃO PÚBLICA DE SANTA CATARINA INFORMATION TECHNOLOGY GOVERNANCE IN A PUBLIC ORGANIZATION OF SANTA CATARINA Maurício Fernandes Pereira Alessandra de Linhares Jacobsen Marcos Baptista Lopez Dalmau Rosangela Klumb

ANÁLISE DA INFLUÊNCIA DE WEBSITES NO PROCESSO DECISÓRIO DE COMPRAS DO CONSUMIDOR ANALYSIS OF INFLUENCE OF WEBSITES IN THE DECISION MAKING PROCESS OF CONSUMER PURCHASES Adriana Gavillon Maira Petrini

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69

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O relacionamento interpessoal e as transições de professores universitários INTERPERSONAL RELATIONSHIP AND TRANSITIONS OF UNIVERSITY PROFESSORS Fabiula Meneguete Vides da Silva Cristiano José Castro de Almeida Cunha

OS NOVOS DIREITOS GERADOS PELA REVOLUÇÃO NANOTECNOLÓGICA E A RECONSTRUÇÃO DA TEORIA DO FATO JURÍDICO DE PONTES DE MIRANDA THE NEW RIGHTS GENERATED BY NANOTECHNOLOGICAL REVOLUTION AND THE RECONSTRUCTION OF THE THEORY OF LEGAL FACT OF PONTES DE MIRANDA Wilson Engelmann

INOVAÇÃO NAS EMPRESAS A PARTIR DE PROJETOS COLABORATIVOS INNOVATION IN FIRMS FROM COLLABORATIVE PROJECTS Ana Carolina Kayser Dusan Schreiber

DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DA GESTÃO DE RESÍDUOS EM EMPRESA DE ESQUADRIAS DE MADEIRA, RS, BRASIL DIAGNOSIS OF ENVIRONMENTAL WASTE MANAGEMENT COMPANY IN FRAMES WOOD, RS, BRAZIL Fernando Uecker Haas Fabiano Andre Trein Manoela Tressoldi Rodrigues

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normas para apresentação de trabalhos standards for paper presentations

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Confira as demais publicações da universidade feevale Check out other publications of the university feevale

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Princípios Principles

INTRODUÇÃO A Revista Gestão e Desenvolvimento é periódico semestral do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, da Universidade Feevale, cuja mantenedora é a Associação Pró-Ensino Superior em Novo Hamburgo – ASPEUR. Fundada em 28 de junho de 1969, a Aspeur é uma entidade comunitária, sem fins lucrativos, constituída por forças vivas da comunidade regional, que, com esforço solidário e comprometido, vem administrando a Instituição há mais de 40 anos. A Federação de Estabelecimentos de Ensino Superior em Novo Hamburgo – Feevale, hoje Universidade Feevale, foi instalada em 24 de março de 1970. Surgiu da vontade comunitária com a finalidade de formar, aperfeiçoar e especializar profissionais, propiciando a atualização permanente da sociedade. Localiza-se em Novo Hamburgo e está integrada ao Vale do Rio dos Sinos, o maior centro calçadista do País. A Feevale é uma entidade de caráter educativo e cultural com autonomia didática, científica, administrativa e disciplinar. Através do ensino e da graduação, da pós-graduação, da extensão e da pesquisa, a Feevale forma cidadãos nas mais diferentes áreas do conhecimento, colaborando para o desenvolvimento do país e contribuindo para a compreensão dos direitos e dos deveres das pessoas e do Estado.

MISSÃO DA FEEVALE Promover a produção do conhecimento, a formação dos indivíduos e a democratização do saber, contribuindo para o desenvolvimento da sociedade.

PRINCÍPIOS: REVISTA GESTÃO E DESENVOLVIMENTO Compromisso As publicações da Revista Gestão e Desenvolvimento, em consonância com a Instituição, norteiamse pelo compromisso de contribuir para a promoção

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do desenvolvimento da sociedade, constituindo um espaço de divulgação e de difusão do conhecimento. Missão Difundir o conhecimento científico, tecnológico e cultural para contribuir com a democratização do saber e o desenvolvimento dos indivíduos e da sociedade. Visão Consolidar-se como veículo de divulgação acadêmica de reconhecido mérito técnico-científicocultural, para que projete a Instituição Feevale em âmbito regional, nacional e internacional. Princípios e valores • Universalidade Tendo em vista sua missão, as publicações da Revista Gestão e Desenvolvimento acolhem a multiplicidade de saberes e a diversidade de perspectivas epistemológicas e metodológicas para construir um espaço plural e abrangente, cujo intuito é o de divulgar o conhecimento universal. • Ética A publicações norteiam-se por padrões e normas éticas pertinentes aos temas publicados; respeitam as idéias expressas por seus articulistas, desde que essas se orientem por princípios éticos, e preservam a identidade de seus avaliadores e o julgamento por eles emitido. • Originalidade e relevância Com o intuito de promover o avanço do conhecimento, as publicações privilegiam artigos que exponham o resultado de investigações relevantes, preferencialmente originais, desenvolvidas pela comunidade acadêmica da região, do país e do exterior, decorrentes das Ciências Sociais Aplicadas e que tenham por suporte perspectivas multi, inter ou transdisciplinares.

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Editorial Editorial

Nesta edição da Revista Gestão e Desenvolvimento, apresentamos sete (07) artigos que passaram por rigoroso processo de avaliação e aperfeiçoamento, representando relevante contribuição para a área das Ciências Sociais Aplicadas. O primeiro artigo, “Análise do valor das ações e da inclusão das companhias no índice carbono eficiente - ICO2 da Bovespa”, de autoria de Daniel Ferreira dos Santos; Gerson Amaury Marinho; Wesley Vieira da Silva e Jansen Maia Del Corso, teve como objetivo analisar se empresas listadas nesse índice possuem melhor desempenho médio no preço e retorno de suas ações em detrimento das empresas não listadas no ICO2. Mesmo que a pesquisa esteja restrita ao estudo de seis empresas, os resultados permitiram visualizar que as ações de empresas listadas no ICO2 não são mais valorizadas do que as de empresas não listadas no referido índice. O artigo “Governança de Tecnologia da Informação em uma Organização Pública de Santa Catarina”, elaborado por Maurício Fernandes Pereira; Alessandra de Linhares Jacobsen; Marcos Baptista Lopez Dalmau e Rosangela Klumb, teve como proposta principal analisar ações empreendidas pela Secretaria de Tecnologia da Informação (STI) do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRESC) no que se refere à implementação da governança de TI na organização, conforme o Modelo COBIT. Os pesquisadores evidenciaram, nos seus resultados, que cinco processos preconizados pelo COBIT já se encontram implantados, mas que outros 23 estão estabelecidos como metas do Planejamento Estratégico de TI, com implantação prevista até 2014. Outro resultado diagnosticado pelo estudo foi o nível quatro de maturidade em relação à governança de TI. O terceiro artigo, intitulado “Análise da Influência de Websites no Processo Decisório de Compras do

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Consumidor”, foi elaborado por Adriana Gavillon e Maira Petrini. O objetivo das autoras foi analisar a influência das informações existentes em sites na escolha da compra pelos usuários. Para isso, a opção metodológica foi uma survey com 362 pessoas, a fim de levantar informações a respeito da influência dos dados disponíveis online. Dentre os itens analisados, destacam-se a frequência de acesso à internet, os tipos de produtos ou serviços consultados e os tipos de websites que mais influenciam os consumidores. Na sequência, o quarto artigo publicado é de autoria de Fabiula Meneguete Vides da Silva e Cristiano José Castro de Almeida Cunha. Este texto, “O relacionamento interpessoal e as transições de professores universitários”, aborda o significado das relações interpessoais estabelecidas nos processos de transição do contribuidor individual (professor) para líder (reitor ou pró-reitor) e de líder para contribuidor individual em universidades. Os pesquisadores, fazendo uso de entrevistas, investigaram as experiências vivenciadas por seis ex-gestores universitários. No artigo, percebe-se que o relacionamento interpessoal foi um fator importante na prática gerencial desses professores. A análise das entrevistas permitiu resgatar três grandes temas centrais: as relações profissionais, o relacionamento com os alunos e as relações familiares. O quinto artigo, “Os Novos Direitos Gerados pela Revolução Nanotecnológica e a Reconstrução Da Teoria do Fato Jurídico de Pontes de Miranda”, foi elaborado por Wilson Engelmann. O pesquisador, no decorrer do artigo, preocupa-se em demonstrar que a Teoria do Fato Jurídico de Pontes de Miranda é um modelo estrutural presente em todos os ramos do Direito, embora tenha sido criada especialmente para o Direito Privado. Sua análise evidencia que essa teoria se mostra inadequada para dar conta dos novos

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direitos e deveres provenientes das nanotecnologias. Por essa razão, ele propõe a adoção do diálogo entre as fontes do Direito, em que as normas nacionais e internacionais possam interagir para albergar as novas situações, conferindo-lhes efeitos jurídicos adequados constitucional e convencionalmente. O sexto artigo apresenta como título “Inovação nas Empresas a Partir de Projetos Colaborativos” e tem como autores Ana Carolina Kayser e Dusan Schreiber. A pesquisa realizada pelos autores consiste num estudo com base em alguns conceitos centrais para essa investigação, tais como: a inovação, o processo de inovação aberta, as redes colaborativas e a interação colaborativa empresa-universidade, com a participação do governo nesse processo. Como resultado principal, os autores demonstram a importância da cultura organizacional com foco na inovação. Por fim, o sétimo artigo publicado, de autoria de Fernando Uecker Haas; Fabiano Andre Trein e Manoela Tressoldi Rodrigues, tem como título “Diagnóstico Ambiental da Gestão de Resíduos em Empresa de Esquadrias de Madeira, RS, Brasil”. O estudo aborda importante temática, enfatizando que a gestão ambiental favorece o desempenho das organizações, através da qualidade aplicada aos produtos e serviços desenvolvidos, considerando também os colaboradores que participam desse processo. Com base nesse contexto, o objetivo proposto para o estudo foi

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realizar um Diagnóstico Ambiental em uma empresa de Esquadrias de Madeiras localizada no Rio Grande do Sul. A proposta dos pesquisadores foi verificar se existe a aplicação de práticas ambientais como modo de melhoria da qualidade ambiental dos procedimentos dessa organização. Como destaque para a relevância desse estudo, os autores evidenciam que o Diagnóstico Ambiental é uma estimativa dos efeitos ou das interações das atividades de determinada corporação sobre o meio ambiente e se constitui, portanto, num modo de evitar que acidentes ambientais ocorram, além de permitir buscar o aperfeiçoamento das técnicas, de forma a minimizar os impactos sobre o meio ambiente. Não podemos concluir este editorial sem expressar os agradecimentos aos autores de cada um dos artigos aqui publicados. Temos convicção de que todos eles, a partir de diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, têm um importante elemento comum, ou seja, apresentam resultados significativos para a área das Ciências Sociais Aplicadas, contribuindo para o avanço e a difusão de novos conhecimentos.

Boa leitura! Luciana Coletti Professora do Curso de Administração. Universidade Feevale.

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ANÁLISE DO VALOR DAS AÇÕES E DA INCLUSÃO DAS COMPANHIAS NO ÍNDICE CARBONO EFICIENTE - ICO2 DA BOVESPA VALUE SHARES AND THE INCLUSION OF COMPANIES IN CARBON EFFICIENT INDEX - THE BOVESPA ICO2

Daniel Ferreira dos Santos1 Gerson Amaury Marinho2 Wesley Vieira da Silva3 Jansen Maia Del Corso4 RESUMO: A adoção de práticas de sustentabilidade no contexto organizacional tem se apresentado como um importante mecanismo de as empresas demonstrarem sua preocupação com a sociedade em geral e uma das ações adotadas pela BOVESPA para solidificar esse aspecto foi a criação do Índice de Carbono Eficiente – ICO2, em que as companhias listadas podem aderir de maneira voluntária ao índice referido. Sendo assim, o objetivo principal deste trabalho é analisar se empresas listadas nesse índice possuem melhor desempenho médio no preço e retorno de suas ações em detrimento das empresas não listadas no ICO2. Com relação à metodologia utilizada, trata-se de um estudo descritivo e ex-post-facto, em que foram selecionadas, de forma aleatória, seis companhias da Bovespa, sendo três delas incluídas no ICO2 e três não listadas no referido índice. Dentre os principais resultados obtidos, verificou-se que, nas seis empresas analisadas, não foram encontradas evidências de que o fato de a empresa estar listada no ICO2 é garantia de que suas ações sejam mais valorizadas do que aquelas companhias que não estão inseridas em tal índice. No entanto, essa pesquisa se mostrou limitada pelo fato de terem sido analisadas apenas seis empresas e, como sugestão de estudos futuros, seria interessante realizar pesquisas com mais companhias, para verificar se os resultados encontrados condizem com a realidade. Palavras-chave: Sustentabilidade. BOVESPA. ICO2. ABSTRACT: The adoption of sustainability practices in the organizational context has emerged as an important mechanism of enterprises show their concern for society in general and of the actions taken by the BOVESPA to solidify this aspect was the creation of the Carbon Efficient Index - ICO2 where listed companies can adhere voluntarily to the index above. Thus, the main objective of this work is to analyze whether companies listed in this index have better performance in average price and return of its shares in lieu of the companies that were not listed in ICO2. With respect to methodology, it is a descriptive study and ex-post-facto, which were randomly selected six companies Bovespa, three of them included in ICO2 and three not listed in this index. Among the main results, it was found that the six companies analyzed were not found evidence that the fact that the company be listed in ICO2 is ensuring that their actions are more valued than those companies that are not incorporated in this index. However, this research showed limited by the fact that it was only six companies analyzed and as suggestion for future studies would be interesting to conduct research with more companies to verify that the results are consistent with reality. Keywords: Sustainability. BOVESPA. ICO2.

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 Mestrando em Administração PUCPR – E-mail: danielsantos927@hotmail.com

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 Mestrando em Administração PUCPR – E-mail: gerson.a.marinho@hotmail.com

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 Doutor em Engenharia da Produção – E-mail: wesley.vieira@pucpr.br

4

 Doutor em Administração – E-mail: del.corso@pucpr.br

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1 INTRODUÇÃO No cenário atual das organizações, muitos são os temas que têm chamado a atenção dos pesquisadores, porém um deles vem se destacando nos últimos anos, que diz respeito às questões relacionadas à sustentabiliadade empresarial, sendo objeto de estudo em vários países, ainda mais após eventos de grande impacto como a RIO92 e, mais recentemente, a RIO+20. No Brasil uma das instituições que mais tem se preocupado com as questões sobre sustentabilidade é a Bolsa de Valores de São Paulo – Bovespa, que é responsável pela negociação das ações das empresas de capital aberto no país. Especificamente em relação à questão ambiental, um dos principais desafios tem sido alinhar os objetivos de longo prazo das empresas e da sociedade na busca do desenvolvimento sustentável (MASULLO; LEMME, 2009). Com relação à busca pela aceitação por parte do mercado consumidor, as empresas buscam se questionar sobre quais posturas devem adotar para serem reconhecidas como empresas social e ambientalmente responsáveis (CARROL, 1979). Notadamente que isso fica claro na medida em que as empresas estão criando programas de gestão socioambiental, aderindo a índices de sustentabilidade da Bolsa de Valores de São Paulo, na criação de parcerias com organizações não governamentais ligadas às áreas ambientais, etc. Para Cardoso e Lemme (2011), o dilema entre as iniciativas que visam a proteger o meio ambiente no longo prazo e as ações que proporcionam apenas resultados financeiros no curto prazo vem sendo discutido com intensidade crescente. E, dentro dos vários indicadores criados pela Bovespa, alguns deles se destacam exatamente nas questões sustentáveis, tais como o Índice de Sustentabilidade Empresarial – ISE - e o Índice Carbono Eficiente ICO2. Porém, a inclusão da organização em qualquer um dos índices da Bovespa é de caráter voluntário, sendo que a instituição que deseja fazer parte de qualquer um desses indicadores tem que seguir algumas regras e assinar um termo de compromisso com a Bolsa de Valores de São Paulo. Tendo como argumento o referencial teórico sobre questões relacionadas às práticas de sustentabilidade realizadas pelas empresas presentes na Bovespa, a presente pesquisa busca responder à seguinte questão: existem diferenças estatisticamente significativas

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entre o desempenho médio das ações das empresas que estão inseridas no Índice Carbono Eficiente ICO2 em comparação com outras que não estejam presentes em tais indicadores? Pretende-se investigar se existe relação entre a inclusão da companhia no Índice Carbono Eficiente – ICO2 com relação a outras que não estejam listadas no referido índice e, para isso, far-se-á uma pesquisa com seis organizações presentes na Bolsa de Valores de São Paulo, sendo que três delas estão incluídas e três não estão inclusas. O presente artigo está organizado em cinco seções, além da introdução, a qual apresenta a contextualização do tema no cenário empresarial, seguido do referencial teórico pertinente ao assunto abordado, os aspectos metodológicos, na sequência, são apresentados os resultados da pesquisa com as devidas conclusões e, por fim, as devidas referências utilizadas no artigo.

2 REFERENCIAL TEÓRICO-EMPÍRICO O referencial teórico que norteia o desenvolvimento da presente pesquisa é apresentado em dois tópicos centrais, em que o primeiro trata das questões relacionadas à Bolsa de Valores de São Paulo – BOVESPA – e, em seguida, são apresentados os conceitos principais sobre o Índice Carbono Eficiente – ICO2.

2.1 BOLSA DE VALORES DE SÃO PAULO – BOVESPA Segundo a Bovespa – Bolsa de Valores de São Paulo (2012), uma bolsa de valores é um local que oferece condições e sistemas necessários para a realização de negociação de compra e venda de títulos e valores mobiliários de forma transparente, além disso, tem atividade de autorregulação, que visa a preservar elevados padrões éticos de negociação e divulgar as operações executadas com rapidez, amplitude e detalhes. Conforme Madureira (2012), o Brasil já possuiu Bolsas de Valores independentes em praticamente todas as suas capitais. Hoje, para minimizar os problemas e os ataques especulativos, elas foram todas unificadas na Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo. De acordo com o disposto na Resolução nº. 2.690, de 28.01.2000, do Conselho Monetário Nacional - CMN, as Bolsas de Valores são associações civis, sem fins lucrativos. Seu patrimônio é representado por títulos

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patrimoniais que pertencem às sociedades corretoras membros. Possuem autonomia financeira, patrimonial e administrativa, mas estão sujeitas à supervisão da Comissão de Valores Mobiliários e obedecem às diretrizes e políticas emanadas do Conselho Monetário Nacional. Segundo Cavalcante e Misumi (2001), no mercado de capitais, são realizadas operações de longo prazo e intermediações na compra de participação de acionistas em empreendimentos. São negociados os capitais das empresas, ou seja, as ações e, também, os empréstimos que são concedidos às empresas sem intervenção de instituições bancárias, tais como debêntures, bônus, commercial papers, opção de compra e venda sobre ações de companhias abertas, quotas de fundos, bônus de subscrição, recibos de carteira de ações, títulos públicos e certificados de depósito de ações. A compra e a venda de ações são realizadas através de corretoras, em que “o investidor emite uma ordem de compra ou venda à sua corretora e esta se encarrega de executá-la no pregão”. De acordo com Assaf Neto (2003), o mercado de capitais pode ser explicado da seguinte forma: o mercado de capitais assume papel dos mais relevantes no processo de desenvolvimento econômico, é o grande municiador de recursos permanentes para a economia, em virtude da ligação que efetua entre os que têm capacidade de poupança, ou seja, os investidores, e aqueles carentes de recursos de longo prazo, ou seja, que apresentam déficit de investimento. Conforme apontam Leite e Sanvicente (1995), a história da metodologia do índice Bovespa começa com o primeiro índice da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, no início da década de 1960, pelo Prof. Mario Henrique Simonsen. O economista Luiz Sérgio Coelho de Sampaio tornou viável o número de ações componentes da carteira com a concepção e a implantação de várias mudanças no antigo índice que era utilizado, o índice Bovespa nasceu numa época em que o grande público pouco conhecia a opção de investimentos em bolsa de valores. Segundo Madureira (2012), no Brasil existem vários tipos de empresa, mas somente as Sociedades Anônimas é que podem negociar ações na Bolsa de Valores, porém as empresas não precisam nascer Sociedades Anônimas, elas podem se transformar quando o momento for oportuno. O processo para negociar ações de uma empresa nova na Bolsa de Valores não é algo tão simples, a partir do momento em que a empresa já é uma S/A, ela procura a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que é o órgão responsável pela Bolsa de Valores, mostrando interesse

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em abrir seu capital, nesse momento, será feito todo um levantamento da situação da empresa, visando a atestar sua situação financeira, para que, depois de muitas garantias, suas ações possam ser negociadas na Bolsa de Valores. O autor supracitado mostra que todas as bolsas de valores formulam índices que medem o seu funcionamento. No caso da Bovespa, é o Ibovespa. O Ibovespa é uma carteira de 30 ações de, em média, 59 empresas, que são negociadas na Bolsa. Essas empresas não são escolhidas ao acaso e, a cada quatro meses, são reagrupadas. Juntas representam 80% dos negócios diários da Bovespa. Quando se afirma que a Bolsa fechou em baixa, é porque a grande maioria dessas ações sofreram perdas no dia, sendo que a recíproca é verdadeira. Conforme a Bovespa (2004), “um título mobiliário tem liquidez quando pode ser comprado ou vendido em questão de minutos, a um preço justo de mercado, determinado pelo exercício natural das leis de oferta e demanda”. A partir daí, a Bovespa vem oferecendo os mais diversos mecanismos de negociação de títulos de empresas cuidadosamente selecionadas em defesa do interesse público.

2.2 ÍNDICE CARBONO EFICIENTE - ICO2 Segundo a BOVESPA (2013), o Índice Carbono Eficiente – ICO2 é um indicador baseado na carteira do IBrX-50 que leva em consideração, na ponderação das ações participantes, as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) das empresas. É construído de modo a obter mais eficiência em emissões de carbono1 em relação ao índice-base (IBrX-50). As empresas que constituem o ICO2 deverão apresentar, dentro dos prazos acordados com a BM&FBOVESPA, seus inventários de emissões de GEE referentes ao ano-base (t), ou seja, ano de referência para a elaboração dos inventários de emissões, conforme estabelecido pela BM&FBOVESPA. Ainda segundo a BOVESPA (2013), serão elegíveis, para compor a carteira do ICO2, as ações de empresas que seguirem, cumulativamente, os seguintes critérios: (I) participarem da carteira do IBrX-50 e (II) atenderem ao Critério de Inclusão, que são: toda empresa, cuja ação pertence à carteira do IBrX-50, será automaticamente elegível para compor a carteira do ICO2. No entanto, sua inclusão na carteira do Índice estará condicionada à adesão formal à iniciativa. Ao aderir formalmente à iniciativa, a empresa compromete-se a reportar dados do seu inventário

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anual de GEE de acordo com o nível de abrangência e o prazo definidos pela BM&FBOVESPA. De acordo com a BM&FBOVESPA (2013), existem critérios também de exclusão do ICO2, a saber: (I) nas reavaliações periódicas, deixar de pertencer à carteira do IBrX-50; II) durante a vigência da carteira, for excluída da carteira do IBrX-50; (III) não reportar dados do seu inventário anual de GEE no prazo e no nível de abrangência acordados com a BM&FBOVESPA; (IV) em casos especiais de suspensão de negociação da ação, oferta pública de aquisição de ações e incorporação.

2.2.1 Receita Bruta reportada na última demonstração financeira padronizada (DFP) Segundo a BM&FBOVESPA (2013), para o cálculo do Coeficiente Emissão/Receita, usado na ponderação da ação no ICO2, será utilizada a Receita Bruta reportada na demonstração financeira padronizada (DFP) apurada no ano correspondente ao inventário da empresa.

2.2.2 Coeficiente Emissão/Receita Ainda segundo a BM&FBOVESPA (2013), a adoção do Coeficiente Emissão/Receita como critério na montagem do ICO2 visa a: (I) normalizar a amostra, tornando possível a comparação entre empresas de portes diferentes; e (II) avaliar a eficiência das empresas em termos de emissão de GEE, ou seja, o grau de exposição da receita da empresa frente ao seu volume de emissões de carbono. O cálculo do Coeficiente Emissão/Receita para o ano t seguirá a fórmula descrita em (1):

Onde: Emissão de GEEt = quantidade de toneladas de dióxido de carbono equivalente, emitida no ano base t; Receitat = Receita Bruta reportada na demonstração financeira padronizada (DFP) anual, em milhões de reais, auferida no Demonstrativo Financeiro referente ao ano base t2.

(1)

De acordo com a BM&FBOVESPA (2013), haverá um rebalanceamento (participação das ações) do ICO2, em que serão identificadas as empresas do IBrX-50 que não aderiram ao ICO2 ou que não apresentaram Coeficiente de Emissão/Receita, e suas participações relativas

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serão distribuídas na carteira proporcionalmente aos demais papéis. Quanto aos Coeficientes de Emissão/ Receita a partir do rebalanceamento da carteira de janeiro de 2013 do ICO2 (e carteira de janeiro de anos subsequentes), serão utilizados os Coeficientes Emissão/Receita referentes aos dois anos-calendário anteriores. Por exemplo, os Coeficientes de Emissão/ Receita referentes ao ano-base 2011 serão utilizados nos rebalanceamentos das carteiras de janeiro (2013), maio (2013) e setembro (2013) e assim sucessivamente.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Nesta seção, são apresentados os procedimentos metodológicos utilizados para a realização do presente artigo, iniciando-se pela caracterização da pesquisa, seguido pela coleta de dados.

3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA A pesquisa é descritiva, que, conforme Gil (1991), pode ser caracterizada como aquela que visa a descobrir a existência de relação entre variáveis ou que caracteriza determinada população ou fenômeno. Quanto aos meios de investigação, a pesquisa é classificada como ex-post-facto, pois pesquisas dessa natureza são aplicadas quando o pesquisador não pode controlar ou manipular variáveis, seja porque suas manifestações já ocorreram, seja porque as variáveis não são controláveis (VERGARA, 2004).

3.2 COLETA DE DADOS O método de coleta de dados adotado nesta pesquisa refere-se à aquisição de dados secundários, em que são coletadas todas as informações pertinentes ao artigo nos websites da Bolsa de Valores de São Paulo e nas seis empresas foco do estudo. São utilizadas, no presente artigo, seis empresas listadas na BOVESPA do setor econômico Consumo Não Cíclico, subsetor alimentos processados, do segmento carnes e derivados, sendo tr��s delas incluídas no Índice Carbono Eficiente – ICO2 e outras três que não fazem parte do referido índice. A coleta de dados foi realizada pelos pesquisadores utilizando informações disponibilizadas no banco de dados Economática Software para Investimentos LTDA., para obter os valores das ações dessas empresas do mês de janeiro de 2010 a novembro de

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2012. As empresas que fazem parte do estudo estão relacionadas na TABELA 1. TABELA 1 - Empresas utilizadas no estudo Empresa

Código

Índice Carbono Eficiente - ICO2

BRF FOODS

BRFS

Sim

JBS

JBSS

Sim

MARFRIG

MRFG

Sim

EXCELSIOR

BAUH

Não

MINERVA

BEEF

Não

MINUPAR

MNPR

Não

Fonte: Os autores (2012)

Conforme observado na TABELA 1, foram escolhidas seis companhias que fazem parte da Bovespa, sendo que a BRF Foods, a JBS e a Marfrig fazem parte do Índice Carbono Eficiente – ICO2 e outras três empresas que não fazem parte do índice, que são a Excelsior, a Minerva e a Minupar.

4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS Esta seção se refere à apresentação e à análise dos resultados da presente pesquisa, iniciando pelos valores das ações das empresas que estão classificadas no ICO2, posteriormente, tem-se a demonstração das empresas que não fazem parte do referido índice e, por fim, apresenta-se o comparativo entre ambos os demonstrativos.

4.1 VALORES DAS EMPRESAS QUE FAZEM PARTE DO ICO2 A seguir, é apresentado, por meio da Figura 1a, o comportamento das ações das três empresas selecionadas para o presente estudo, sendo essas companhias listadas no Índice Carbono Eficiente – ICO2, a saber: BRF Foods, JBS e Marfrig. A primeira empresa apresentada será a BRF Foods, que foi criada a partir da associação entre Perdigão e Sadia, sendo que ela atua nos segmentos de carnes (aves, suínos e bovinos), alimentos industrializados (margarinas e massas) e lácteos, com marcas

Figura 1a - Comportamento dos Preços das Ações que Compõem o ICO2

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Figura 1b - Comportamento dos Retornos das Ações que Compõem o ICO2

consagradas como Perdigão, Sadia, Batavo, Elegê, Qualy, entre outras. Observa-se, na Figura 1b, que, durante todo o período estudado, houve muitas variações nos valores das ações, alguns meses com variação positiva e, em outros, negativas. A variação negativa mais significativa foi no mês de maio de 2012, quando se registrou 9,93% com relação ao mês anterior, e a maior variação positiva foi no mês de julho de 2011, com uma variação de 11,32%. Na média dos três anos estudados, o valor das ações ficou em R$ 29,21 e a variação percentual ficou em média de 1,89%. Em relação à empresa JBS, que é a maior empresa em processamento de proteína animal do mundo, que atua nas áreas de alimentos, couro, biodiesel, colágeno e latas, ela está presente em todos os continentes, com plataformas de produção e escritórios no Brasil, na Argentina, na Itália, na Austrália, nos EUA, no Uruguai, no Paraguai, no México, na China, na Rússia, entre outros países. Percebe-se, na Figura 1b, que a maior variação negativa das ações foi registrada em maio de 2012, com -27,33%, e a maior variação positiva ficou em 42,15% no mês de outubro de 2011. O valor médio das ações constatado nesse período foi de R$ 6,50, a variação média ficou em -0,80, e

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percebe-se nesse aspecto que a variação no período ficou próxima de zero. E, por fim, a análise da terceira empresa que faz parte do ICO2, que é a Marfrig, considerada uma das maiores empresas globais de alimentos à base de carnes bovina, suína, de aves e peixes. Sua plataforma operacional diversificada e flexível é composta por unidades produtivas, comerciais e de distribuição instaladas em 22 países e em cinco continentes. O valor médio das ações, nos três anos analisados, ficou em R$13,31, e a variação final, em 0,73%. A maior variação registrada no intervalo de tempo foi no mês de fevereiro de 2012, quando se registraram 31,55%, e o menor índice identificado foi em agosto de 2011, com 49,41%. Outro aspecto interessante de se analisar é que, em setembro de 2011, a empresa atingiu o seu menor valor de mercado, com R$ 6,13 para cada ação, e, em janeiro de 2010, teve o seu maior valor, registrado em R$ 22,28.

4.2 VALORES DAS EMPRESAS QUE NÃO FAZEM PARTE DO ICO2 Após a apresentação das empresas que fazem parte do ICO2, nesta seção, são demonstrados os valores e os

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percentuais das organizações que não fazem parte do referido índice, sendo que, a exemplo das empresas pertencentes, também são estudadas três empresas, que são a Excelsior, a Minerva e a Minupar. Na Figura 2, são apresentados o comportamento do preço e o retorno das ações da empresa Excelsior, empresa especializada na industrialização e na comercialização de alimentos processados a partir

de carnes de aves, suínos e bovinos, com atuação na região Sul do Brasil. Nas Figuras 2a e 2b, respectivamente, pode ser observado que, no mês de junho de 2011, não houve a venda de ações, sendo assim, esse dado não fez parte da amostra, sendo que, no mês de abril de 2012, registrou-se a menor variação, com -18,72%, e, em janeiro de 2012, a maior variação, com 28,25%.

Figura 2a - Comportamento dos Preços das Ações que não Fazem Parte do ICO2

Figura 2b - Comportamento dos Retornos das Ações que não Fezem Parte do ICO2

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Em média, ao final do período estudado, o valor da ação ficou em R$3,29 e a variação média, em 0,16%. A segunda empresa estudada é a Minerva, que está entre os três maiores exportadores brasileiros, comercializando seus produtos para cerca de 100 países, além de atuar também no segmento de processamento de carne bovina, suína e de aves. Ao avaliar a figura anterior, percebeu-se, a partir dos números da empresa Minerva, que, no mês de abril de 2012, foi registrada a maior variação positiva do período, com 22,21%, e, em maio de 2011, a maior negativa, com -19,28%. Em relação à variação ou ao retorno da média final, esta ficou em -0,05% e o valor médio final, em termos de preços, R$ 0,40. E, por fim, é apresentado a terceira e última empresa, a qual não faz parte do ICO2, a Minupar, ou seja, a Companhia Minuano de Alimentos, que é uma operação verticalizada na integração avícola, possuindo desde granja de matrizes, produção e abate de aves.

Em setembro de 2012, foi apresentada a maior variação positiva (retorno), com 12,50%, e, em abril de 2010, a maior variação negativa, com -70,92%. Em média, o valor da ação ficou em torno de R$ 0,40, e a variação percentual, em -0,05%.

4.3 COMPARATIVO ENTRE OS PREÇOS E OS RETOrNOS DAS EMPRESAS E, após a apresentação das empresas que fazem parte do ICO2 e das que não estão inseridas, na Figura 3 procedeu-se a um comparativo entre ambos os números, para se identificar se existem diferenças estatisticamente significativas ou não entre as organizações pesquisadas, para tanto, utilizou-se do teste de hipóteses de análise de variância de Fisher e Kruskal-Wallis. Os resultados da estimativa dessa estatística encontram-se evidenciados na Figura 3.

Figura 3 - Teste de Hipóteses para as Médias dos Retornos das Ações Dentro e Fora do ICO2

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Analisando a Figura 3, pode ser observado que a variação dos valores das ações não é estatisticamente significativa entre as seis empresas da amostra, sendo que, das três empresas que fazem parte das que estão inseridas no ICO2, houve apenas uma com variação positiva, a BRF Foods, e as outras duas com variação negativa. Já com relação às empresas que não fazem parte do ICO2, duas delas tiveram variação positiva e apenas uma organização com variação negativa, porém mesmo essa última teve um índice baixo, com -0,05, a Minupar. E, depois de feito o teste de hipóteses para diferenças entre duas médias populacionais descrito anteriormente, evidencia-se que o simples fato de a companhia estar listada em índices de sustentabilidade não significa que ela será mais rentável, uma vez que existem outros fatores que podem explicar tais variações. Com base nesses números apresentados, pode ser observado que não existem diferenças significativas entre as empresas que fazem parte do ICO2 em comparativo com aquelas que não estão inseridas no referido índice. E este estudo corrobora os achados na pesquisa de Lemme e Cardoso (2011), em que os resultados de suas pesquisas indicaram que empresas de diversos setores pouco associam suas iniciativas ambientais com o desempenho financeiro nas informações divulgadas por meio de relatórios de sustentabilidade ou website, assim como apontado no presente artigo.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES A seguir, serão apresentadas as conclusões pertinentes ao estudo realizado, assim como as recomendações para estudos futuros.

5.1 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente artigo buscou investigar se existem diferenças estatisticamente significativas entre o desempenho médio das ações das empresas que estão inseridas no Índice Carbono Eficiente - ICO2 em comparação com outras que não estejam presentes em tais indicadores e, a seguir, são apresentadas as principais conclusões da pesquisa. Dentre as empresas que fazem parte do ICO2, apenas um obteve uma variação positiva em suas

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ações, já em relação às empresas do outro grupo (que não fazem parte do índice), duas delas tiveram valorização em suas ações e apenas um se desvalorizou no período estudado. No presente estudo, observou-se que o fato de a empresa configurar como listada no Índice Carbono Eficiente – ICO2 não é indicativo de que suas ações seriam mais valorizadas, sendo que, das seis empresas analisadas na pesquisa, a variação ficou muito próxima entre elas. Outro ponto relevante observado no decorrer do trabalho consiste no fato de que as empresas apresentam em seus websites as suas ações de sustentabilidade como fator predominante em suas ações de marketing, levando o cliente a enxergar a empresa como sustentável, mas, como comprovado na pesquisa, isso ainda é incipiente para a valorização de suas ações no mercado. A presente pesquisa possui algumas limitações, inicialmente, deve ser considerado o número reduzido de empresas em que foram feitas as análises (seis) e também pelo fato de ser escolhido apenas o ICO2 como fator de análise. Outro limitador está no período analisado, sendo que o intervalo de três anos é incipiente para uma avaliação mais precisa.

5.2 RECOMENDAÇÕES PARA ESTUDOS FUTUROS Considerando que o presente estudo não consegue abranger todo o potencial de empresas presentes na BOVESPA nem explorar todos os aspectos pertinentes ao tema do índice de sustentabilidade, existem algumas recomendações para estudos futuros. Seria interessante que se aplicasse a pesquisa em mais empresas da Bolsa de Valores de São Paulo, a fim de analisar se os resultados seriam idênticos aos encontrados nessas seis empresas pesquisadas neste artigo. Foi utilizado o aspecto de sustentabilidade das empresas listadas na Bovespa como indicador desse estudo, porém seria de grande valia analisar outros aspectos em conjunto, para verificar a influência nos valores das ações. E, por fim, seria interessante que fosse realizada uma pesquisa que fizesse um comparativo entre outras bolsas, a fim de visualizar se há diferenças significativas entre as empresas que adotam o Índice Carbono Eficiente como práticas em suas administrações.

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REFERÊNCIAS BOVESPA, Bolsa de Valores de São Paulo. Disponível em: <http://www.bovespa.com.br>. Acesso em: 20 dez. 2012. BOVESPA Bolsa de Valores de São Paulo. Disponível em: <http://www.bmfbovespa.com.br/indices/ ResumoIndice.aspx?Indice=ICO2&idioma=pt-br>. Acesso em: 08 jan. 2013. CARROL, A. B. A three-dimensional conceptual model corporate performance. Academy of Management Review, Biarcliff Manor, v. 4, n. 4, p. 497-505, 1979. CAVALCANTE, F; MISUMI, J. Y. Mercado de Capitais. 5ª Tiragem. Rio de Janeiro: Campus, 2001. CARDOSO, L. G. S.; LEMME, C. F. Em busca das justificativas empresariais para as iniciativas ambientais das empresas brasileiras líderes na publicação de relatórios de sustentabilidade. Revista de Gestão Social e Ambiental - RGSA, São Paulo, v. 5, n. 2, p. 63-78, mai./ago. 2011. COOPER, D. R.; SCHINDLER, P. S. Métodos de Pesquisa em Administração. 7. ed. Porto Alegre: Bookman, 2003. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1991.

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GIL, A. C. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999. LEITE, H. P.; SANVICENTE, A. Z. Índice Bovespa: Um Padrão para os Investidores Brasileiros. São Paulo: Atlas, 1995. MADUREIRA, E. Bolsa De Valores. Disponível em: <http://www.fag.edu.br/professores/eduardo/ Outros/Bolsa%20de%20Valores%20-%20Apostila.pdf >. Acesso em: 24 mai. 2012. MALHOTRA, N. K. Pesquisa de marketing. Porto Alegre: Bookman, 2005. MADUREIRA, E. Bolsa De Valores. Disponível em: <http://www.fag.edu.br/professores/eduardo/ Outros/Bolsa%20de%20Valores%20-%20Apostila.pdf >. Acesso em: 20 dez. 2012. MASULLO, D. G.; LEMME, C. F. Um exame da relação entre o nível de internacionalização e a comunicação ambiental nas grandes empresas brasileiras de capital aberto. REAd, 64. ed. v. 15, n. 3, set./dez. 2009. NETO, Assaf. Mercado Financeiro. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2003. VERGARA, S. C. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2004.

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GOVERNANÇA DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO EM UMA ORGANIZAÇÃO PÚBLICA DE SANTA CATARINA INFORMATION TECHNOLOGY GOVERNANCE IN A PUBLIC ORGANIZATION OF SANTA CATARINA

Maurício Fernandes Pereira1 Alessandra de Linhares Jacobsen2 Marcos Baptista Lopez Dalmau3 Rosangela Klumb4 RESUMO: Neste trabalho, analisaram-se ações empreendidas pela Secretaria de Tecnologia da Informação (STI) do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRESC) relativas à implementação da governança de TI na organização conforme o Modelo COBIT. A pesquisa caracteriza-se como avaliação formativa, um estudo de caso descritivo, de natureza qualitativa, e bibliográfica, de campo e documental. Foram pesquisados seis gestores de TI, escolhidos por amostragem não probabilística pelos critérios de tipicidade e acessibilidade. Com eles, foram feitas entrevistas semiestruturadas, e a análise do material empírico abrangeu etapas de descrição, categorização e interpretação dos dados qualitativos, a partir da teoria estudada e dos objetivos da pesquisa. Constatou-se que cinco processos preconizados pelo COBIT foram implantados e que outros 23 estão estabelecidos como metas do Planejamento Estratégico de TI para serem implantados até 2014. O estudo diagnosticou ainda nível quatro de maturidade em relação à governança de TI e realizou algumas recomendações à organização. Palavras-chave: Tecnologia da informação. Governança de TI. COBIT. TRESC. ABSTRACT: The study’s purpose was to analyze IT governance implementation actions executed by the Information Technology Secretary of the Regional Electoral Court of Santa Catarina (TRESC), considering the COBIT Model. It is a descriptive and a formative evaluation case study, a bibliographic, a documental and field study. Six TRESC´s managers were chosen to be interviewed as a no-probabilistic sample, considering the tipicity and the accessibility criterions. The data collection was done, in 2012, with the support of semi-structured questionnaire. The data analyze considered their description, categorization and their qualitative interpretation, always based on the studied theory and on the research´s purposes. The achieved results demonstrated that there are four COBIT preconized processes take in place in TRESC, and that the 24 others are established as an IT strategic planning for 2014. It was identified that the IT governance maturity is level four, from what some recommendations were given. Keywords: Information technology. IT governance. COBIT. TRESC.

1  Pós-Doutorado no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa (2010). Professor Associado do Departamento de Ciências da Administração (CAD), do Programa de Pós-Graduação em Administração Universitária (PPGAU), Programa de Pós-Graduação – Mestrado e Doutorado - em Administração (PPGA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Fone: (48)37216713. E-mail: mfpcris@gmail.com. 2  Doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2004). Professora Adjunta do Departamento de Ciências da Administração (CAD) e do Programa de Pós-Graduação em Administração Universitária (PPGAU). Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Fone (48)37219374 / (48)99819641, Fax: (48) 37219577. E-mail: alessandradelinharesjacobsen@gmail.com. 3  Doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003). Professor adjunto do Departamento de Ciências da Administração (CAD), do Programa de Pós-Graduação em Administração Universitária (PPGAU), Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Fone: (48)37212552. E-mail: dalmau@cse.ufsc.br. 4  Mestranda em Admistração da Universidade do Estado de Santa Catarina. Técnico Judiciário do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina , Brasil. Fone (48)32513820. E-mail: rose.klumb@gmail.com.

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1 INTRODUÇÃO Os avanços tecnológicos ocorridos a partir da segunda metade do século XX acabam exigindo da área de TI, nas organizações, a adoção de modelos administrativos de estruturação de boas práticas de governança ou gestão de TI que tem como objetivo o atendimento da alta administração e do negócio nas questões relacionadas à TI (ROHWEDER, 2012; IBGC, 2009). Nesse cenário, insere-se o Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRESC) como objeto do presente estudo, posto que tal organização tem adotado práticas de mercado que corroboram a ideia de Governança de TI. Define-se, assim, como problema de pesquisa: como se caracterizam as ações empreendidas pela Secretaria de Tecnologia da Informação do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRESC) relativas à implementação da governança de TI à luz do modelo COBIT? Para responder ao problema de pesquisa, definiram-se os objetivos geral e específicos para este estudo. Assim, o objetivo geral da presente pesquisa é analisar as ações empreendidas pela Secretaria de Tecnologia da Informação (STI) do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRESC) relativas à implementação da governança de TI na organização, à luz do Modelo COBIT. Já como objetivos específicos, foram delineados os que seguem: a) levantar processos contidos no COBIT aplicados no TRESC; b) realizar um diagnóstico quanto ao nível de maturidade em governança de TI apresentado pelo TRESC; c) elaborar recomendações voltadas à melhora do processo de governança de TI na organização, com base no modelo COBIT. Para justificar o estudo, adotam-se os critérios indicados por Roesch (1999), isto é, relativos à importância, oportunidade e viabilidade da pesquisa. Como ponto de partida, o acesso aos dados e à bibliografia necessária viabilizou totalmente o desenvolvimento do trabalho, especialmente porque um dos seus autores atua na organização em questão. Tem-se, ainda, que o conhecimento científico aqui produzido poderá servir de instrumento para que gestores públicos possam desenvolver a governança de TI a partir de bases mais sólidas. Para a organização analisada, o estudo traz como resultado o cenário em que ela se encontra em governança de TI. Além disso, acredita-se que o gerenciamento dos serviços de TI constitui o pilar para ampliar a cadeia de valor do negócio, de forma a garantir qualidade, flexibilidade e custos adequados, residindo, sobretudo aí, a oportunidade em fazê-la.

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2 GOVERNANÇA CORPORATIVA E GOVERNANÇA DE TI Neste tópico, são apresentados conceitos relacionados à governança corporativa no setor público, governança de TI e modelos de melhores práticas de gerenciamento de serviços de TI (com ênfase ao modelo COBIT), os quais servem de fundamento para a análise dos dados coletados em campo.

2.1 Governança público

corporativa

no

setor

A governança corporativa, de acordo com Marques (2007, p. 3), pode ser descrita como “os mecanismos ou princípios que governam o processo decisório dentro de uma empresa”. Ou seja, representa um “conjunto de regras que visam minimizar os problemas de agência”. Nesse âmbito, o IBGC (2009, p. 19) aponta a governança corporativa como [...] o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre proprietários, Conselho de Administração, Diretoria e órgãos de controle. As boas práticas de Governança Corporativa convertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da organização, facilitando seu acesso a recursos e contribuindo para sua longevidade.

Considerando suas vantagens, o IBGC (2009, p. 15) alerta que “os princípios e práticas da boa governança corporativa aplicam-se a qualquer tipo de organização, independentemente do porte, natureza jurídica ou tipo de controle”, seja ela com ou sem fins lucrativos. Seguindo essa linha, Bhatta (2003 apud MELLO, 2006) comenta que a governança corporativa no setor público faz referência à administração das agências do setor público através dos princípios de governança corporativa do setor privado, estando seu conceito, segundo Marques (2005 apud MELLO, 2006), unido, de forma indissolúvel, com accountability, que diz respeito à responsabilização permanente dos gestores públicos em relação aos atos praticados com base no uso do poder que lhes é outorgado pela sociedade (ROCHA, 2008). Fontes Filho (2003, p. 5) também é enfático ao considerar a governança essencial aos governos, uma vez que ela corresponde a “padrões de articulação e cooperação entre atores sociais e políticos e arranjos institucionais que coordenam e

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regulam transações dentro e através das fronteiras do sistema econômico”. Assim, a governança corporativa é equiparada à governança governamental, definida como: a proteção ao inter-relacionamento entre administração, controle e supervisão, feita pela organização governamental, pela situação governamental e pelas autoridades do governo, visando relacionar os objetivos políticos eficientemente e eficazmente, como, também, comunicar publicamente e providenciar uma prestação de conta para o benefício da sociedade (TIMMERS apud MELLO, 2006, p. 20).

Tal perspectiva levou a Australian National Audit Office (ANAO) a elaborar seis passos básicos que devem ser seguidos pelas organizações públicas para atingir a boa governança corporativa, quais sejam: liderança, integridade e compromisso (associados às qualidades pessoais dos integrantes da organização), responsabilidade, integração e transparência (relacionados ao produto das estratégias, aos sistemas, às políticas e aos processos estabelecidos) (MARQUES, 2007). Benedicto et al (2008, p. 11) comentam, com isso, que uma “maior transparência, participação, ética e critérios claros de gestão são a base do progresso financeiro, econômico e social”, filosofia esta que deve ser igualmente absorvida pela área de TI das organização, especialmente, por ser tão estratégica a elas.

2.2 Governança corporativa de TI O IT Governance Institute (ITGI, 2012 apud RODRÍGUEZ; VIEIRA, 2007, p. 5-8) define a governança de TI como “uma estrutura de relacionamentos e

processos, para dirigir e controlar a organização no sentido de atender os seus objetivos, adicionando valor, ao mesmo tempo em que equilibra os riscos em relação ao retorno da TI e seus processos”, o que exige que esta seja “de responsabilidade dos executivos e da alta direção”. Portanto, a governança de TI, segundo Weill e Ross (2006), possui dois lados: o comportamental e o normativo. O primeiro refere-se aos relacionamentos (formais e informais) e aos consequentes padrões de comportamento entre diferentes agentes na organização, ou seja, confere direitos decisórios a indivíduos ou a grupos de indivíduos específicos. O segundo, por sua vez, representa o conjunto de regras que regulam esses relacionamentos, ou seja, define os mecanismos que formalizam os relacionamentos, estabelecendo regras e procedimentos operacionais para assegurar o atingimento de objetivos. Esse entendimento revela, conforme Weill e Ross (2006), que uma governança de TI eficaz exige que se tomem cinco decisões inter-relacionadas de TI, mostradas por meio do Figura 1. A decisão sobre os princípios de TI fica no topo da figura 1, por explicitar os objetivos organizacionais de TI e estabelecer diretrizes para todas as outras. O ITGI (2012, p. 8) entende que a “necessidade da avaliação do valor de TI, o gerenciamento dos riscos relacionados à TI e as crescentes necessidades de controle sobre as informações são entendidos como elementos-chave da governança corporativa”. Nesse âmbito, Rodriguez e Vieira (2007) destacam alguns modelos de melhores práticas que possibilitam atingir a governança de TI, que são: o COBIT (Control Objectives for Information and related Technolog); o ITIL (Information Technology Infrastructure Library); o BS7799 (Information Security Standard)/ISO 17799/ ISO 27001; e o CMM / CMMI (Capability Maturity Model / Capability Maturity Model

Principais Decisões sobre Governança de TI Decisões sobre os princípios de TI Declarações de alto nível sobre como a TI é utilizada no negócio Decisões sobre a arquitetura de TI Organizações lógicas de dados, aplicações e infraestrutura definida a partir de um conjunto de políticas, relacionamentos e opções técnicas adotadas para obter a padronização e a integração técnicas e de negócio desejadas.

Decisões sobre infraestrutura de TI Serviços de TI coordenados de maneira centralizada e compartilhados, que provêm a base para a capacidade de TI da empresa. Necessidades de aplicações de negócio Especificação da necessidade de negócio de aplicações de TI adquiridas no mercado ou desenvolvidas internamente.

Decisões sobre os investimentos e a priorização da TI Decisões sobre quanto e onde investir em TI, incluindo a aprovação de projetos e as técnicas de justificação.

Figura 1 - Principais decisões sobre governança de TI Fonte: Weill e Ross (2006)

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Integration). Vale lembrar que tais modelos podem ser integrados visando a obter um maior gerenciamento da TI na organização. Ademais, Roger (2010) ressalta que os princípios inerentes à governança corporativa de TI são aplicáveis à maioria das organizações e expressam o comportamento preferido para orientar uma tomada de decisão. Na sequência, explora-se mais detalhadamente o modelo COBIT, objeto de estudo da presente pesquisa.

2.3 Modelo COBIT de melhores práticas O modelo COBIT (Control Objectives for Information and Related Technology) foi criado, em 1994, pela ISACF5, estando atualmente na versão 4.1 e está orientado “a uma maior eficácia dos objetivos de controle e dos processos de verificação e divulgação dos resultados” (FERNANDES; ABREU, 2008, p. 174), apregoando, portanto, que [...] para fornecer a informação de que a empresa necessita para atingir as suas metas de negócio, é necessário associálas às suas metas de TI, assim como gerenciar e controlar os recursos de TI, utilizando um conjunto estruturado de processos para garantir a entrega dos serviços de TI requisitados (FERNANDES; ABREU, 2008, p. 177).

O framework do COBIT utiliza como base o ciclo tradicional de melhoria contínua (Ciclo PDCA6) e identifica 34 processos de TI, distribuindo-os entre quatro domínios que espelham os agrupamentos usuais existentes em uma organização-padrão de TI (FERNANDES; ABREU, 2008, p. 178), que são: a) planejamento e organização (PO): possui abrangência estratégica e tática e identifica as formas pelas quais a TI pode contribuir melhor para atingir os objetivos do negócio, envolvendo planejamento, comunicação e gerenciamento em diferentes perspectivas; b) aquisição e implementação (AI): está relacionado à identificação, ao desenvolvimento ou à aquisição de TI para executar a estratégia de TI estabelecida, assim como sua implementação e integração 5  Information Systems Audit and Control Foundation: órgão ligado à ISACA (ISAC Association). 6   Criado por Walter Shewhart, em meados da década de 20, e disseminado para o mundo por Deming, essa ferramenta é de fundamental importância para a análise e a melhoria dos processos organizacionais e para a eficácia do trabalho em equipe. O Ciclo PDCA (em inglês, Plan, Do, Check e Action) é uma ferramenta gerencial de tomada de decisões para garantir o alcance das metas necessárias à sobrevivência de uma organização.

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junto aos processos de negócio, bem como a mudanças executadas para garantir a continuidade dos ciclos de vida dos domínios; c) entrega e suporte (DS7): refere-se à entrega dos serviços requeridos, incluindo gerenciamento de segurança e continuidade, suporte aos serviços para os usuários, gestão dos dados e da infraestrutura operacional; d) monitoramento e avaliação de desempenho de TI (ME8): visa a assegurar a qualidade dos processos de TI, assim como a sua governança e conformidade com os objetivos de controle, por meio de mecanismos regulares de acompanhamento, monitoramento e controle internos, bem como de avaliações internas e externas. Diante do exposto, as questões gerenciais e os processos dos domínios do COBIT podem ser observados no Quadro 1. O controle constitui requisito mínimo para que se possam verificar os resultados dos processos de TI de forma eficaz. Por isso, de acordo com o Modelo COBIT, cada processo de TI possui uma descrição e vários objetivos de controle detalhados, havendo requisitos de controle genéricos, aplicáveis a todos os processos, tais como: a) definição e divulgação de metas e objetivos específicos para cada processo; b) estabelecimento de um dono para o processo, com responsabilidades claras; c) repetição visando à geração de resultados esperados de forma consistente; d) papéis e responsabilidades definidos sem ambiguidades; e) definição e divulgação das políticas, dos procedimentos e planos relacionados a processo; e f) desempenho do processo medido em relação às respectivas metas. Para que se tenha um direcionamento para a medição, é necessário que a organização saiba qual a sua situação atual, a fim de analisar e controlar as ações que serão empreendidas. Para tanto, têm-se os modelos de maturidade, que definem o nível de maturidade em que a organização se encontra em cada um dos processos de TI, os quais estão indicados no quadro 2, a seguir. O modelo de maturidade, desenvolvido por Software Engineering Institute (SEI, 2012) para o gerenciamento e o controle dos processos de TI, é baseado em um método de avaliar a organização, permitindo que ela seja pontuada em um nível de maturidade específico, conforme observado no Quadro 2. Os níveis de maturidade são designados como perfis de processos de TI que a empresa reconheceria como

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 A sigla DS vem do inglês Delivery and Support.

8

 A sigla ME vem do inglês Monitor and Evaluate.

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Questões Gerenciais

Processos de TI

PO (Planejamento e Organização)

* A estratégia do negócio e a TI estão alinhadas? * A organização está otimizando a utilização dos seus recursos? * Todos na organização compreendem as metas de TI? * Os riscos relacionados à TI estão compreendidos e sendo gerenciados? * A qualidade dos sistemas de TI está adequada às necessidades do negócio?

PO-1 - Definir um plano estratégico para a TI PO-2 - Definir a arquitetura da informação PO-3 - Determinar direcionamento tecnológico. PO-4 - Definir a organização de TI, os seus processos e relacionamentos PO-5 - Gerenciar o investimento em TI PO-6 - Comunicar objetivos e direcionamentos gerenciais PO-7 - Gerenciar os recursos humanos PO-8 - Gerenciar a qualidade PO-9 - Avaliar e gerenciar riscos de TI PO-10 - Gerenciar projetos

AI (Aquisição e Implementação)

* Os novos projetos conseguem entregar soluções que atendam as necessidades do negócio? * Os novos projetos conseguem ser entregues no prazo e no orçamento planejados? * Os novos sistemas funcionam adequadamente depois de implementados? * As mudanças são conduzidas com baixo impacto nas operações de negócio correntes?

AI-1 AI-2 AI-3 AI-4 AI-5 AI-6 AI-7

DS (Entrega e Suporte)

* Os serviços de TI estão sendo entregues com alinhamento às prioridades do negócio? * Os custos de TI estão otimizados? * As equipes de trabalho são capazes de utilizar os sistemas de TI com segurança e produtividade? * Atributos como confidencialidade, integridade e disponibilidade estão implementados de forma adequada?

DS-1 - Definir e gerenciar níveis de serviço DS-2 - Gerenciar serviços terceirizados DS-3 - Gerenciar desempenho e capacidade DS-4 - Garantir a continuidade dos serviços DS-5 - Garantir a segurança dos sistemas DS-6 - Identificar e alocar custos DS-7 - Educar e treinar usuários DS-8 - Gerenciar Central de Serviços e incidentes DS-9 - Gerenciar configuração DS-10 - Gerenciar problemas DS-11 - Gerenciar dados DS-12 - Gerenciar ambiente físico DS-13 - Gerenciar operações

ME (Monitoração e Avaliação)

* As medições de desempenho da TI detectam problemas antes que seja tarde demais? * Há garantias de que os controles internos sejam eficientes e eficazes? * É possível associar diretamente o desempenho de TI às metas de negócio estabelecidas anteriormente? * Existem controles para confidencialidade, integridade e disponibilidade adequados para garantir a segurança da informação?

ME-1 ME-2 ME-3 ME-4

 

- Identificar soluções automatizadas - Adquirir e manter software aplicativo - Adquirir e manter infraestrutura tecnológica - Viabilizar operação e utilização - Adquirir recursos de TI - Gerenciar mudanças - Instalar e aprovar soluções e mudanças

- Monitorar e avaliar o desempenho da TI - Monitorar e avaliar os controles internos - Assegurar conformidade com requisitos externos - Fornecer governança para a TI.

Quadro 1 - Questões estratégicas e processos dos domínios do COBIT Fonte: Fernandes e Abreu (2008)

Modelos de Maturidade Nível

Situação

Descrição

0

Inexistente

Processos de gestão não são aplicados

1

Inicial / Ad Hoc

Processos são esporádicos e desorganizados, com abordagens de gestão aplicadas caso a caso.

2

Repetitivo, mas intuitivo

Processos seguem um padrão de regularidade, com alta dependência do conhecimento dos indivíduos.

3

Definido

Processos são padronizados, documentados e comunicados.

4

Gerenciado e mensurável

Processos são monitorados e medidos quanto à conformidade com os procedimentos, e ações são tomadas quando os resultados não são efetivos.

5

Otimizado

Boas práticas são seguidas e automatizadas, com base em resultados de melhorias contínuas e de ações de modelagem de maturidade junto a outras empresas. Quadro 2 - Modelos de maturidade Fonte: Adaptado de Fernandes e Abreu (2008)

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descrição de possíveis situações atuais e futuras. Eles não são designados, em verdade, como um modelo inicial, em que não se pode avançar para o próximo nível sem antes ter cumprido todas as condições do nível inferior. Por meio dos modelos de maturidade, os gestores possuem condições de mapear a situação atual da organização, fazer um benchmarking9, comparála com padrões internacionais e estabelecer (e monitorar) passo a passo as melhorias dos processos rumo à estratégia da organização (ITGI, 2012), o que tem como vantagem a relativa facilidade de os gerentes colocarem-se a si mesmos em uma escala e avaliar o que está envolvido no aprimoramento da performance, se necessário. As escalas incluem o 0, pois é possível que um processo não exista de fato. A escada de 0 a 5 é baseada em uma escala simples de maturidade, demonstrando como um processo evolui de capacidade inexistente para capacidade otimizada (ITGI, 2012, p. 22).

Diante do exposto, verifica-se que o uso sistematizado do COBIT como modelo de gestão possibilita diversos benefícios à organização, dentre os quais se destacam a definição clara de responsabilidades e protocolos de comunicação; a visão clara da situação atual dos processos de TI, bem como das suas vulnerabilidades, e a redução da exposição a riscos e de custos operacionais e de propriedade do acervo de TI.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Com base no entendimento de Godoi, Mello e Silva (2006), a priori, classifica-se esta pesquisa como sendo um estudo de caso descritivo que faz o detalhamento da aplicação dos princípios da governança de TI no TRESC, pois, segundo Yin (2001 apud GODOI; MELLO; SILVA, 2006, p.120), o estudo de caso refere-se a [...] uma investigação empírica que busca fazer uma averiguação sistemática de um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto da vida real, ou seja, é uma descrição e análise holística e intensiva de uma simples entidade ou fenômeno social. O estudo de caso serve para auxiliar o pesquisador na compreensão e descoberta de novos significados para aquilo que está sendo estudado. 9   Comparação da organização com as melhores organizações do segmento.

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Em termos de pesquisa descritiva, a escolha por esse tipo foi feita, uma vez que ele se destina a explorar uma realidade a partir das suas características, seus problemas, relatando com exatidão seus os fatos e fenômenos (ROESCH, 1999). Já a abordagem aplicada é qualitativa, a partir de interações feitas com os sujeitos da pesquisa para a coleta de dados. Quanto a essa classificação, Ricchardson (1999) destaca a abordagem qualitativa como sendo aquela que permite ao pesquisador maior interação com o fenômeno em estudo, já que, nela, este ator participa, compreende e interpreta as informações coletadas, visando a descrever a complexidade de determinado problema e, portanto, entender as particularidades do fenômeno em um maior grau de profundidade. Em relação aos meios utilizados para conduzir a investigação, esta pesquisa é classificada como bibliográfica, de campo e documental. Em relação à pesquisa bibliográfica, ou de fontes secundárias, segundo Lakatos e Marconi (1990, p. 66), esta Abrange toda a bibliografia tornada pública em relação ao tema de estudo, desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, materiais cartográficos, etc., até meios de comunicação orais: rádio, gravações em fita magnética e audiovisual [...]. Sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com tudo que já foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto [...].

No caso da presente pesquisa, a pesquisa bibliográfica concentrou-se, sobretudo, em fontes sobre governança corporativa e governança de TI, com enfoque no modelo COBIT. A pesquisa de campo, por sua vez, constitui, segundo Gil (2007), o modelo clássico de investigação no campo da antropologia, da sociologia e da administração, que procura o aprofundamento das questões propostas, tendo como base um único grupo ou uma comunidade em termos de sua estrutura social e o fato de o pesquisador realizar a maior parte do trabalho pessoalmente, uma vez que enfatiza a importância de ele ter tido experiência direta com a situação em estudo. Neste estudo, a pesquisa de campo procede à observação de fatos e fenômenos relacionados à prática da governança de TI na Secretaria de Tecnologia da Informação do TRESC, buscando associar essa realidade à teoria. No que tange à investigação documental, essa foi feita, sobretudo, com base em documentos referentes ao Planejamento Estratégico Corporativo do TRESC; ao Planejamento Estratégico de TI; às resoluções do TRESC

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relativas às políticas internas de TI; aos processos de gerenciamento de Serviços de TI e ao catálogo de serviços de TI. Para Gil (2007), tal pesquisa chama a atenção, pois os documentos representam fonte rica e estável de dados; há um custo relativamente baixo envolvido na sua realização e não exige contato com os sujeitos da pesquisa – o que garante a imparcialidade no processo. Sob o aspecto temporal, o estudo é ainda caracterizado como uma pesquisa transversal, considerando-se os argumentos de Babbie (1999), uma vez que o levantamento dos processos do COBIT e a identificação do nível de maturidade em governança de TI no TRESC foram realizados no ano de 2012. A amostra é não probabilística, em que os sujeitos da pesquisa - seis gestores com atuação na Secretaria de Tecnologia da Informação do TRESC foram selecionados pelos critérios de tipicidade e acessibilidade. Esses são: o Coordenador de Suporte e Infraestrutura Tecnológica (CSIT), entrevistado A; o Gerente de Mudanças da STI, entrevistado B; o Chefe da Seção de Suporte e Homologação (SSH), entrevistado C; o Chefe da Seção de Comunicação de Dados (SCD), entrevistado D; o Chefe da Seção de Análise de Projetos (SAP), entrevistado E; e o Chefe da Seção de Manutenção de Equipamentos (SME), entrevistado F. Entre eles, quatro estão lotados na Coordenadoria de Suporte e Infraestrutura Tecnológica (SCD, SSH, SME e o próprio coordenador), sendo os dois restantes integrantes da Coordenadoria de Soluções Corporativas (SAP e Gerente de Mudanças). Fez-se uso de um questionário semiestruturado baseado no modelo COBIT (FERNANDES; ABREU, 2008, p. 178) e, por isso, dividido em quatro partes (de Planejamento e Organização – compreendem as questões 01 a 10; o de Aquisição e Implementação – questões 11 e 17; o de Entrega e Suporte – questões 18 a 30; e o de Monitoração e Avaliação – questões 31 a 34). Cada questão possuía

cinco alternativas de respostas correspondentes aos níveis de maturidade do COBIT, em ordem decrescente, ou seja, o item “a” correspondia ao nível 1, o item “b”, ao nível 2, e assim sucessivamente, conforme exemplo mostrado no Quadro 3. Diante disso, para realizar o diagnóstico do nível de maturidade em governança de TI do TRESC, foram tabulados os dados obtidos, de tal forma que cada resposta correspondia a um nível (1 a 5). Têm-se os domínios do COBIT com seus respectivos processos, bem como as respostas dos seis gestores de TI do TRESC dadas a cada um dos questionamentos, estando cada um deles de acordo com o nível de maturidade correspondente à resposta dada. Além disso, utilizouse a medida da estatística denominada moda, que considera o “valor de maior frequência em uma lista de dados discretos” (TOLEDO; OVALLE apud LIMA, 2008, p. 85), para identificar a resposta que mais se repetia. As entrevistas foram aplicadas aos gestores das seções que compõem a citada Secretaria, no período compreendido entre 06 de agosto de 2012 e 10 de setembro de 2012. Eles têm formação em TI e conhecimento em ITIL e COBIT – o que facilitou o entendimento das questões propostas no questionário. Cada entrevista foi previamente agendada e realizada na seção em que o entrevistado atua, com duração média de uma hora. No início de cada entrevista, foram expostos os objetivos da pesquisa e uma breve descrição de cada processo COBIT. Para a observação direta, foram usados como critérios as metas indicadas no Planejamento Estratégico de TI e os esforços empreendidos para o seu alcance, bem como as prioridades para sua aplicação. A observação das medidas aplicadas para o alcance das metas do planejamento estratégico de TI relativas à governança de TI contemplou o envolvimento das equipes técnicas para a implantação dos processos de

9. PO9 - Em relação à avaliação e ao gerenciamento dos riscos, quem assume os riscos e recebe as recompensas relacionadas ao serviço de TI: ( ) A TI assume todos os riscos e recebe algumas recompensas. Nível 1 ( ) A área de negócio assume os riscos, mas a maioria ainda é assumida pela TI, e poucas recompensas chegam para a TI. Nível 2 ( ) Existe um limite de tolerância a riscos acordados entre o negócio e a TI. A TI ainda recebe algumas recompensas. Nível 3 ( ) Existe um nível de aceitação de riscos pelo negócio, que compartilha recompensas com a TI. Nível 4 ( ) Os riscos e as recompensas são compartilhados entre a TI e a área de negócio. Nível 5 Quadro 3 - Questão para identificar o nível de maturidade de governança de TI Fonte: dados primários (2012)

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Gerenciamento da Configuração e Gerenciamento da Mudança, relacionados aos domínios Entrega e Suporte (DS) e Aquisição e Implementação (AI) do COBIT, respectivamente. Após a coleta de dados, realizou-se a sua análise, que, segundo Gil (1999), busca organizar e sintetizar os dados, de forma que se identifique a relação entre os fenômenos e se estabeleçam respostas para os problemas propostos na investigação a partir da teoria sobre o tema.

4 A REALIDADE DO TRESC EM RELAÇÃO AOS PROCESSOS DO COBIT O TRESC - organização pertencente ao primeiro setor - é responsável pela solução dos conflitos de interesse eleitoral e pela manutenção do cadastro dos eleitores catarinenses, bem como pela organização das eleições para o preenchimento de cargos eletivos em âmbitos federal, estadual e municipal (TRESC, 2012). Para atender os seus propósitos, atualmente, o TRESC conta com 890 colaboradores. A Secretaria de Tecnologia da Informação (STI) do TRESC, objeto deste estudo, é composta por três coordenadorias, quais sejam: Coordenadoria de Eleições (CE), Coordenadoria de Soluções Corporativas (CSC) e Coordenadoria de Suporte e Infraestrutura Tecnológica (CSIT), sendo cada uma desmembrada em seções. Essa Secretaria ocupa posição de destaque na estrutura do TRESC, especialmente, em função das responsabilidades que assume quanto a processos eleitorais. Em nível nacional, TRESC e o Serviço de Processamento de Dados (SERPRO) inovaram ao serem pioneiros (1989) na informatização do sistema eleitoral brasileiro10, – justificativa suficiente para a realização de ações voltadas à implementação da governança de TI na organização. A partir deste momento, portanto, apresenta-se o levantamento dos processos contidos no COBIT. O primeiro processo do COBIT analisado diz respeito à definição do Planejamento Estratégico de TI – PETI (PO1 do quadro 4), que foi criado no TRESC no ano de 2010. Embora a STI acredite nos impactos que a informatização traz às rotinas de trabalho, bem como na importância estratégica da área de TI (que responde pela entrega de informações críticas à organização), a criação do PETI apenas ocorreu após a publicação

 No Brasil, a primeira votação eletrônica teve lugar no Município de Brusque, no 2º turno das eleições presidenciais de 1989, em caráter experimental.

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da Resolução nº 99, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ, 2012), que, atendendo à recomendação do Tribunal de Contas da União (TCU), determinou que todos os tribunais que compõem o Poder Judiciário elaborassem seus PETIs alinhados ao Plano Estratégico Nacional de TI com abrangência de cinco anos. Diante dessa exigência, em janeiro de 2010, a STI começou a elaboração do PETI, concluindo-o em março do mesmo ano. Segundo essa Secretaria, as balizas do PETI estão fundadas não só no cumprimento das diretrizes fixadas pelo CNJ, no que tange ao alinhamento nacional de TI, mas, visam, sobretudo, a dar suporte ao alcance pleno das metas e dos objetivos estabelecidos pelo TRESC no Planejamento Estratégico Institucional, destacando uma visão de futuro com um olhar voltado para ações de governança. Embora a STI seja composta por três coordenadorias, as ações do PETI se restringem às Coordenadorias de Suporte e Infraestrutura Tecnológica (CSIT) e de Soluções Corporativas (CSC), unidades ligadas ao suporte técnico e ao desenvolvimento de soluções tecnológicas, respectivamente. A Coordenadoria de Eleições, muito embora subordinada organicamente à STI, possui atividades relacionadas com o negócio do TRESC, estando estas acolhidas no Planejamento Estratégico Institucional. A definição PETI constituiu uma etapa importante para implantação da governança de TI, estando de acordo com a opinião de Roger (2010), que defende que a governança corporativa de TI deve avaliar e direcionar o uso da tecnologia para dar suporte à organização e monitorar o seu uso para realizar os planos, incluindo a estratégia e as políticas de uso da TI na organização. Em relação aos processos de software, desde o ano de 2007, a Coordenadoria de Soluções Corporativas (CSC), subordinada à STI, iniciou um trabalho de melhoria nos Processos de Software, visando a definir formalmente os processos de Gerenciamento de Requisitos e Gerenciamento de Projetos. E, em dezembro de 2009, o TRESC foi contemplado com a Certificação MPS-Br Nível G, que atesta um nível de excelência e qualidade em todos os processos de software usados pela Secretaria de Tecnologia da Informação. Dois anos depois, o TRESC evolui e obtém a Certificação MPS-Br Nível F, aprimorando ainda mais os processos de software. O processo relacionado à aquisição e manutenção de software aplicativo (AI2, quadro 4) visa à disponibilização de aplicações alinhadas aos requisitos do negócio, contemplando o projeto das aplicações, a inclusão de controles e requisitos de segurança

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PO - Planejamento e Organização

Domínio

Processo

Aplicação no TRESC

PO1 - Definição do Planejamento Estratégico de TI

Instituído em mar./2010

PO2 - Definição da Arquitetura da Informação

Meta: 65% em dez./2012

PO3 - Determinação das Diretrizes da tecnologia

-

PO4 - Definição dos processos, da organização e dos relacionamentos de TI.

Processos mapeados

PO5 - Gerenciamento dos investimentos de TI

Meta: 65% em dez./2012

PO6 - Comunicação de metas e diretrizes gerenciais

-

PO7 - Gerenciamento dos recursos humanos de TI

Meta: 65% em dez./2012

PO8 - Gerenciamento da qualidade

Meta: 70% em dez./2012

PO9 - Avaliação e gerenciamento dos riscos de TI

Meta: 65% em dez./2012

DS - Entrega e Suporte

AI - Aquisição e implementação

PO10 - Gerenciamento de projetos

Setorial

AI1 - Identificação de soluções automatizadas

-

AI2 - Aquisição e manutenção de software aplicativo

Executado

AI3 - Aquisição e Manutenção da Infraestrutura de tecnologia

Meta: 65% em dez./2012

AI4 - Habilitação, operação e uso. AI5 - Aquisição de Recursos de TI

Meta: 65% em dez/2012

AI6 - Gerenciamento de Mudanças

Instituído em 2010

AI7 - Instalação e homologação de soluções e mudanças

Instituído em 2011

DS1 - Definição e Gerenciamento de Níveis de Serviços

Meta: 90% em dez./2012

DS2 - Gerenciamento de Serviços Terceirizados

-

DS3 - Gerenciamento do Desempenho e da Capacidade

-

DS4 - Gerenciamento da continuidade dos serviços de TI

Meta: 90% em dez./2012

DS5 - Garantia da Segurança dos Sistemas

Meta: 90% em dez./2012

DS6 - Identificação e Alocação de Custos

-

DS7 - Educação e Treinamento dos Usuários

-

DS8 - Gerenciamento da Central de Serviço e dos Incidentes

Instituído em 2010

DS9 - Gerenciamento da Configuração

Instituído em 2010

DS10 - Gerenciamento de Problemas

Processo mapeado

DS11 - Gerenciamento dos Dados

-

ME – Monitoram. e Avaliação

DS12 - Gerenciamento do Ambiente Físico

Meta: 90% em dez./2012

DS13 - Gerenciamento das Operações

-

ME1 - Monitoramento e Avaliação do Desempenho de TI

-

ME2 - Monitoramento e Avaliação dos Controles Internos

Avaliação: 2011

ME3 - Asseguração da Conformidade com Requisitos Externos ME4 - Provimento da Governança de TI

Meta: 28 processos até dez./2014

Quadro 4 - Domínios do COBIT e respectivos processos no TRESC Fonte: Dados primários (2012)

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apropriados, o desenvolvimento e a configuração de acordo com padrões. O processo é executado pela Seção de Desenvolvimento de Sistemas (SDS), vinculada à Coordenadoria de Soluções Corporativas (CSC), que recebe as novas solicitações de aplicativos por meio de um formulário eletrônico. Esse é analisado pelas equipes técnicas competentes responsáveis por verificar a necessidade, os prazos, a existência de soluções no mercado, sendo, em seguida, disponibilizado no Portfólio de Projetos, para que, em momento oportuno, seja desenvolvido. Dos 34 processos definidos pelo COBIT, verificouse que alguns já foram implantados e outros têm sua implantação prevista no PETI, através de metas. Tal medida corrobora a opinião de Fernandes e Abreu (2008), ao defenderem a associação das metas do negócio às metas de TI, bem como gerenciar e controlar os recursos de TI, utilizando um conjunto estruturado de processos para garantir a entrega dos serviços de TI requisitados. Através da análise do PETI, foi possível identificar a relação entre alguns objetivos estratégicos e os processos COBIT. O primeiro objetivo estratégico definido no PETI diz respeito à aplicação dos princípios de Governança de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), que visa a implantar uma gestão de TIC em conformidade com as melhores práticas de governança, contribuindo para o alinhamento estratégico, a entrega de valor, a medição do desempenho e o gerenciamento de riscos e recursos. A meta é garantir que 28 dos 34 processos COBIT estejam classificados no nível de maturidade gerenciado e mensurado até 2014. Para tanto, as ações empreendidas dizem respeito a (quadro 4): a) implantar os processos de suporte a serviços preconizados no ITIL V2, quais sejam, gerenciamento de incidentes (DS8), gerenciamento da configuração (DS9), gerenciamento de mudanças (AI6), gerenciamento de problemas (DS10) e gerenciamento da liberação (AI7); b) instituir Núcleo de Qualidade (PO8); c) incrementar a maturidade e a capacidade dos processos de software, em consonância ao modelo MPS.Br; d) implantar os processos do modelo COBIT, versão 4.1 (ME4); e) elaborar Plano Diretor de Tecnologia da Informação (PDTI). A meta atingida em 2012 abrange a implantação de cinco processos, quais sejam: Gerenciamento da Central de Serviços e de Incidentes (DS8), Gerenciamento da Configuração (DS9) e Gerenciamento de Mudanças (AI6) - processos preconizados tanto pela

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ITIL quanto pelo Modelo COBIT, bem como Definição do Planejamento Estratégico de TI PO1) e Instalação e homologação de soluções e mudanças (AI7). A implantação dos processos está de acordo com as ideias de Fernandes e Abreu (2008), ao defenderem que, independentemente do ponto de entrada, a implementação do modelo ITIL, aqui adotado como complemento ao COBIT, deve ser gradual, partindose de um escopo reduzido e respeitando sempre as interdependências existentes entre os processos de gestão e os requisitos de disponibilidade e continuidade dos serviços, bem como a estrutura organizacional e a tecnologia que suportam os serviços. Já o Processo de Gerenciamento de Mudanças (AI6, quadro 4), no TRESC, engloba qualquer mudança na infraestrutura de TI e seus componentes, visando a conquistar benefícios ao negócio enquanto minimiza riscos de parada dos serviços, envolvendo o gerenciamento e o controle de todas as mudanças, de forma a garantir sua correta avaliação, priorização e aprovação. Entre os benefícios advindos do processo de gerenciamento de mudanças, constatam-se a garantia de um processo uniforme para todas as mudanças de TI; a redução de mudanças não autorizadas, com falhas e emergenciais; a garantia de mudanças executadas dentro dos prazos e com os recursos estipulados; o aumento da produtividade de usuários e da equipe técnica, em função de serviços mais estáveis; e a garantia de processo eficaz e eficiente, minimizando riscos e impactos para o negócio. O processo Instalação e homologação de soluções e mudanças (AI7, quadro 4) atua como um apoio ao processo de mudanças, uma vez que promove a homologação da mudança em ambiente de testes antes de disponibilizá-la para o ambiente de produção. Além disso, acompanha e controla todas as etapas necessárias para a realização da mudança. Ambos os processos estão sob a responsabilidade da Seção de Padronização de Sistemas (SPS), que, embora vinculada formalmente à Coordenadoria de Soluções Corporativas (CSC), responde diretamente ao Secretário de Tecnologia da Informação. O processo de Gerenciamento da Central de Serviços e de Incidentes (DS8, quadro 4), implantado em setembro de 2010, possibilita que todos os serviços de TI do TRESC, disponibilizados no Catálogo de Serviços de TI11, sejam atendidos por meio da Central de Serviços de TI, que atua como ponto único de

  O Catálogo de Serviços compreende todos os serviços que a Secretaria de Tecnologia da Informação provê e estará disponível no sítio intranet deste Tribunal.

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contato entre os usuários e as áreas técnicas de TI do TRESC, prestando suporte técnico, esclarecimento de dúvidas, encaminhamento e resolução de requisições e de incidentes. A responsabilidade pelo gerenciamento da Central de Serviços de TI é da Seção de Atendimento Local (SAL), subordinada à Coordenadoria de Suporte e Infraestrutura Tecnológica (CSIT), sendo composta por três servidores, 13 técnicos terceirizados e cinco estagiários para o atendimento de aproximadamente 800 usuários, localizados na sede do TRESC e nas Zonas Eleitorais. Ainda, o Processo de Gerenciamento da Configuração (DS9, quadro 4), cuja responsabilidade é da Seção de Patrimônio de Informática (SPI), vinculada à CSIT, consiste na inclusão, na atualização e na manutenção de informações do Banco de Dados do Gerenciamento da Configuração (BDGC). Fazem parte do escopo do BDGC as seguintes categorias de Itens de Configuração (ICs): a) Catálogo de Serviços - compreende todos os serviços providos pela Secretaria de Tecnologia da Informação; b) Contratos – referem-se a contratos de hardware, software e serviços de TI firmados entre o TRESC e seus fornecedores; c) Hardwares – dizem respeito a equipamentos utilizados pela infraestrutura de TI e seus usuários, tais como ativos de redes de comunicação de dados, dispositivos eletroeletrônicos de gerenciamento de energia e equipamentos de microinformática e seus periféricos; d) Licenças de Uso – referem-se a licenças de uso de software adquiridas pelo TRESC; e) Notas Fiscais – dizem respeito a notas fiscais relativas a aquisições e contratações de hardware, software e serviços de TI realizadas pelo TRESC; f) Recursos Humanos – referem-se a informações sobre colaboradores do TRESC, tais como auxiliares, contratados, estagiários e servidores; g) Softwares – compreendem registros de softwares licenciados adquiridos pelo TRESC e softwares instalados em computadores de usuários; h) Unidades Organizacionais (UOs) – dizem respeito a informações sobre departamentos e locais físicos do TRESC; i) Documentação – compreende toda e qualquer documentação produzida pelo TRESC, tais como manuais, guias e roteiros. A elaboração do Plano de Configuração, que descreve o processo de gerenciamento da configuração, foi concluída em dezembro de 2012. Dos 34 processos do COBIT, verificou-se que, no período de realização

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deste estudo, ou seja, em 2012, apenas cinco foram implantados, quais sejam (quadro 4): a) PO1; b) AI6; c) AI7; d) DS8; e e) DS9. Mesmo sendo poucos os processos implantados, o quantitativo supera a meta estabelecida para o ano de 2012 no PETI, que propõe três. Outros 11 estão previstos no PETI para serem implantados na sequência. São eles (quadro 4): a) PO2; b) PO5; c) PO7; d) PO8; e) PO9; f) AI3; g) AI5; h) DS1; i) DS4; j) DS5; e k) DS12. O processo do COBIT de definição da arquitetura da informação (PO2, quadro 4) é uma ação do PETI do TRESC relacionado ao indicador Índice de serviços disponibilizados na Internet, que possui como meta garantir que 80% dos serviços passíveis de informatização oferecidos pelo TRESC estejam disponíveis na Internet até 2014, a partir da reformulação do novo site (prevista para 2012). A meta estabelecia que, em dezembro de 2012, 65% desse processo deveriam estar implantados, sendo de responsabilidade da Seção de Serviços On-line, vinculada à Coordenadoria de Soluções Corporativas (CSC). Já o processo do COBIT denominado Definição dos processos, organização e relacionamentos de TI (PO4), concluído em 2012, apresenta o mapeamento de todos os processos relacionados ao suporte de serviços de TI preconizados pela ITIL V2, quais sejam: gerenciamento de incidentes, gerenciamento da configuração, gerenciamento de mudanças, gerenciamento de problemas, gerenciamento de liberação. Para isso, foram definidos uma estrutura de processos de TI; conselhos e estruturas organizacionais apropriadas; e papéis e responsabilidades em cada processo. Com intuito de garantir que o total de 80% do orçamento disponibilizado para TIC seja executado até 2014, conforme o planejado, foi desenvolvida a ação de Gerenciamento dos investimentos de TI (PO5), que objetivava, até dezembro de 2012, concluir 65% da meta. No que tange ao processo Gerenciamento dos recursos humanos de TI (PO7) e visando a assegurar o pleno desenvolvimento das competências dos servidores do TRESC de acordo com os papéis desempenhados, foi estabelecida a meta de atingir 65% dessa ação em dezembro de 2012. Referente ao processo de gerenciamento da qualidade (PO8), o PETI definiu a criação do Núcleo de qualidade, com meta de atingir 70% da sua conclusão até dezembro de 2012. Já o processo de gerenciamento de projetos (P10), embora não definido no PETI, é aplicado em algumas áreas do TRESC, como a Coordenadoria de Soluções Corporativas (CSC), que trata do desenvolvimento de cada sistema como

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um projeto. Estima-se que, neste ano, seja criado o Escritório de Projetos de TI do TRESC, alinhado com a proposta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de implantar o Escritório de Projetos em todos os tribunais regionais eleitorais do país. Em relação aos processos Aquisição e Manutenção da Infraestrutura de tecnologia (AI3) e Aquisição de Recursos de TI (AI5), a meta definida era de que 65% dessas ações estivessem concluídas em dezembro de 2012, enquanto as ações relacionadas aos processos Definição e Gerenciamento de Níveis de Serviços (DS1), Gerenciamento da Continuidade dos Serviços de TI (DS4) e Garantia da Segurança dos Sistemas (DS5), bem como Gerenciamento do Ambiente Físico (DS12) possuíam meta de atingir 90% de sua conclusão até dezembro de 2012. No que diz respeito aos processos do domínio do COBIT Monitoramento e Avaliação, tem-se o processo Monitoramento e Avaliação de Desempenho de TI (ME1), que, embora não esteja descrito no PETI, está representado pela criação de metas a serem avaliadas e de indicadores a serem medidos ao longo do tempo. A publicação dos indicadores estabelecidos no PETI ocorre de acordo com o período estipulado para a sua medição. Em relação ao processo do COBIT Monitoramento e Avaliação dos Controles Internos (ME2), tem-se, no TRESC, a Coordenadoria de Controle Interno (CCI), responsável por realizar as auditorias de TI, conforme orientações do CNJ (2012). A mais recente auditoria realizada ocorreu no ano de 2011. Embora nem todos os processos do COBIT estejam sendo aplicados formalmente no TRESC atualmente, há metas para que, pelo menos, 28 deles sejam implantados no TRESC nos próximos dois anos – o que demonstra uma preocupação da Direção do Tribunal em instituir, em médio prazo, a governança de TI alicerçada nas melhores práticas adotadas pelo mercado.

4.1 Diagnóstico do nível de maturidade em governança de TI As respostas obtidas por meio das entrevistas realizadas com gestores de TI da organização foram tabuladas, conforme descrito na metodologia deste trabalho, levando a um diagnóstico do nível de maturidade em governança de TI do TRESC. Assim, tomando como referência cada um dos domínios do COBIT isoladamente, constatou-se que os domínios Planejamento e Organização (PO) e Aquisição e Implementação (AI) obtiveram conceito 4 quanto ao nível de maturidade, ou seja, de processo gerenciado

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e mensurável, muito embora dois dos processos do domínio Planejamento e Organização (Gerenciamento dos Recursos Humanos de TI e Gerenciamento da Qualidade) tenham sido considerados, pela maioria dos gestores, como incipientes (nível 1). Em relação ao processo de Gerenciamento de projetos, apenas os gestores pertencentes à Coordenadoria de Soluções Corporativas (entrevistados B e E) atribuíram os conceitos mais altos, enquanto os gestores da CSIT atribuíram nível 2 ao processo. Isso se explica pelo fato de aquela coordenadoria já tratar todas as suas demandas por meio de projetos. Em relação aos processos do domínio Aquisição e Implementação (AI), verificou-se uma uniformidade nas respostas dos gestores das duas coordenadorias. O Nível de maturidade 4 para o domínio PO e AI significa que os gestores monitoram e medem a aderência aos procedimentos e adotam ações corretivas para aqueles processos que não estejam funcionando adequadamente. Além disso, os processos estão sob constante aprimoramento, embora a automação e as ferramentas sejam utilizadas de maneira limitada ou fragmentada. Já os domínios Entrega e Suporte (DS) e Monitoramento e Avaliação (ME) possuem nível 3 de maturidade, ou seja, de processo definido, que significa, segundo o COBIT, que os procedimentos foram padronizados, documentados e comunicados, por meio de treinamento, sendo mandatório o seguimento dos processos. Apesar de os procedimentos não serem sofisticados, há a formalização das práticas existentes. Em relação ao domínio Entrega e Suporte, tem-se que, embora apenas os processos de gerenciamento da central de serviços e dos incidentes e gerenciamento da configuração estejam formalmente instituídos no TRESC, os gestores entendem que os demais processos são executados, seja de forma intuitiva (nível 2), seja de forma definida (nível 3). Tal percepção corrobora a opinião de Weill e Ross (2006), que definem que a governança possui dois lados: um comportamental, outro normativo. O primeiro diz respeito aos relacionamentos, sejam formais ou informais, e aos consequentes padrões de comportamento entre os diferentes agentes, percebido no TRESC pela execução dos processos sem que haja uma regra que defina seu fluxo; enquanto o segundo representa o conjunto de regras que regulam esses relacionamentos, no caso do TRESC, dos processos formalmente implantados. Analisando-se as respostas dadas pelos gestores quanto aos processos COBIT de modo geral, identificouse que o nível de maturidade do TRESC quanto à governança de TI é 4, ou seja, os processos são

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gerenciados e mensuráveis. Isso significa que, segundo o ITGI (2012): a) em relação à consciência e à comunicação, há um entendimento de todos os requerimentos, sendo as técnicas de comunicação maduras, realizadas principalmente por meio do site da intranet; b) em relação a políticas, planos e procedimentos, o processo é sólido e completo, havendo boas práticas internas sendo aplicadas, bem como aspectos do processo sendo documentados, assim como políticas sendo aprovadas e assinadas pela gerência; c) em relação a ferramentas e à automação, há a implementação de ferramentas de acordo com o plano-padrão definido pelo processo de gerenciamento de mudanças, sendo utilizadas pelas principais áreas para automatizar o gerenciamento dos processos e o monitoramento de atividades e controles críticos; d) em relação a habilidades e à especialização, a capacitação é assegurada para todas as áreas críticas, sendo encorajados a obtenção de certificações e o compartilhamento de informação; e) em relação à responsabilidade e à responsabilização, são aceitas, e a cultura de recompensas em uso motiva ações positivas; f) em relação à definição de objetivos e métricas, a eficiência e a efetividade são medidas e comunicadas, estando ligadas a objetivos do negócio e com o plano estratégico de TI. Embora existam processos do COBIT que não estejam formalmente instituídos, eles são executados de forma empírica e são reconhecidos pelos gestores como parte da rotina do TRESC. Tal constatação está em concordância com ITGI (2012), que afirma que os níveis de maturidade são designados como perfis de processos que a organização reconhece como a descrição de possíveis situações atuais e futuras, não sendo designados como um modelo inicial em que se precisa concluir um nível para atingir o próximo. A ideia, segundo o ITGI (2012), é mapear a situação atual da organização, como foi feito no TRESC, compará-la com padrões internacionais e monitorar as melhorias dos processos com intuito de atingir os objetivos estratégicos da organização. Conclui-se, portanto, que o modelo COBIT é aplicado no TRESC e os seus processos estão, atualmente, no nível 4 de maturidade - processos gerenciados e mensuráveis -, o que reflete uma preocupação da administração do TRESC em monitorar e medir os processos quanto à conformidade com os procedimentos e em tomar ações corretivas, quando necessário. Além disso, por meio do levantamento do nível de maturidade, os gestores possuem a relativa

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facilidade de se colocarem em uma escala e avaliar o que está envolvido no aprimoramento da performance, como indica o ITGI (2012).

5 CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES Este estudo objetivou, à luz do modelo COBIT, realizar o levantamento dos processos do COBIT e o diagnóstico do nível de maturidade em governança de TI na Secretaria de Tecnologia da Informação do TRESC. Os limites da pesquisa ficam, assim, estabelecidos em relação aos escopos temporal, geográfico e teórico. Nesse sentido, é preciso lembrar que a pesquisa foi desenvolvida no ano de 2012, no Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRESC), com foco nas ações de governança de TI que o órgão tem empreendido a partir do modelo COBIT. Portanto, os dados aqui coletados e analisados se restringem apenas a esse cenário, não podendo ser adotados para outra realidade. Considerando-se tais limitações, para responder à pergunta de pesquisa (Como se caracterizam as ações empreendidas pela Secretaria de Tecnologia da Informação do TRESC relativas à implementação da governança de TI à luz do modelo COBIT?), pode-se dizer que, antes de tudo, a organização em estudo preocupou-se em realizar o planejamento estratégico visando a estabelecer as metas para a implantação dos processos COBIT até o ano de 2014. Além disso, suas ações em governança de TI lhe permitiram, até o momento da pesquisa, atingir o nível 4 de maturidade COBIT. No que tange aos objetivos específicos, inicialmente, identificou-se a previsão, definida no Planejamento Estratégico de TI, de que, até o ano de 2014, 28 dos 34 processos do Modelo COBIT estarão implantados no TRESC, embora não haja definição dos processos que especificamente serão implantados. Em relação à meta estabelecida para o ano de 2012 - de implantação dos processos Gerenciamento da Central de Serviço e dos incidentes, Gerenciamento da Configuração, Gerenciamento da Mudança e Instalação e homologação de soluções e mudanças -, verificou-se que foi cumprida integralmente. O segundo objetivo deste estudo, qual seja, identificar o nível de maturidade em governança de TI, apresentou como resultado o nível 4 de maturidade COBIT, ou seja, processos gerenciados e mensuráveis – o que significa que, em relação às políticas, aos planos e aos procedimentos, o processo é sólido e completo, com aplicação de boas práticas internas, assim como aspectos do processo sendo documentados, havendo,

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quanto à comunicação, um entendimento de todos os requerimentos. Promove-se, na organização, a implementação de ferramentas de acordo com o plano-padrão, que são utilizadas pelas principais áreas para automatizar o gerenciamento dos processos e o monitoramento de atividades e controles críticos. Estimula-se, ainda, a obtenção de certificações e o compartilhamento de informação, assegurando a capacitação necessária a todas as áreas críticas, assim como o monitoramento da eficiência e da efetividade relacionado aos objetivos e às métricas estabelecidas no plano estratégico de TI. Diante desse quadro, recomenda-se que o TRESC priorize alguns processos em função da sua criticidade, mapeando-os e modelando-os. Nesse sentido, indicase que sejam implementadas as normas da ISO/ IEC 27000, visando a promover maior segurança da informação. E, por fim, sugere-se que indicadores de desempenho sejam acompanhados, de forma a possibilitar a melhoria contínua dos processos de TI. Conclui-se, portanto, que o TRESC possui processos relacionados ao gerenciamento de serviços de TI mapeados e em execução, havendo, na percepção dos gestores de TI, um nível de maturidade satisfatório em governança de TI. E, embora a organização utilize o COBIT como norteador para o desenvolvimento dos processos de governança de TI, não deixa de utilizar outros modelos de melhores práticas para o aprimoramento dos serviços de TI, tais como a ITIL, para o gerenciamento do suporte e da entrega dos serviços de TI, e o MPS.BR, modelo semelhante ao CMMI, para o gerenciamento de requisitos e gerenciamento de projetos relacionados ao desenvolvimento de software. Para estudos futuros, sugere-se desenvolver a mesma pesquisa em outros tribunais regionais eleitorais do país, visando a realizar um comparativo entre eles. Além disso, seria também interessante fazer uma análise dos limites e das possibilidades relativos ao uso do modelo COBIT no próprio TRESC e, ainda, um estudo sobre os fatores que influenciaram o processo decisório na escolha do COBIT no citado órgão, em detrimento de outras opções.

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ANÁLISE DA INFLUÊNCIA DE WEBSITES NO PROCESSO DECISÓRIO DE COMPRAS DO CONSUMIDOR ANALYSIS OF INFLUENCE OF WEBSITES IN THE DECISION MAKING PROCESS OF CONSUMER PURCHASES

Adriana Gavillon1 Maira Petrini2

RESUMO: A quantidade de informações ao alcance dos usuários da web aumenta a cada dia, o que possibilita ao consumidor novas oportunidades e cria tendências com o auxílio da expansão da Internet. Uma dessas oportunidades é a pesquisa online sobre informações de produtos ou serviços que o consumidor pretende adquirir. Este trabalho tem como objetivo analisar a influência das informações existentes em sites na escolha da compra pelos usuários. Foi realizada uma survey com 362 pessoas, a fim de levantar informações a respeito da influência dos dados disponíveis online. Foram analisados itens como a frequência de acesso à Internet e os tipos de produtos/serviços consultados, os tipos de websites que mais influenciam, bem como a influência do perfil de quem recomenda ou não e a resposta dos consumidores frente às informações encontradas na internet. Desse modo, foi possível identificar a existência de fatores que influenciam diretamente na decisão de compra do consumidor e o perfil de tais consumidores. Palavras-chave: Compra na web. Redes sociais. Processo decisório. ABSTRACT: The amount of the information available to users of from the web increases each day, enabling the consumer to create new opportunities. One of them is to search online for information about products or services that consumers want to buy. This study aims to analyze the influence of the information available on websites in the choice of purchase by users. We conducted a survey of 362 people in order to gather information about the influence of data that are available online. We analyzed items such as the rate of internet access and the sorts of products / services consulted, the types of websites that most affect the decision and the influence of the profile of people who recommends or not, and consumer response in the face of information found on the internet. Thus, it was possible to identify the existence of factors related to the profile of the respondents which directly influence the purchase decision of the consumer. Keywords: Shopping on the web. Social networks. Decision making.

1  Especialista em Administração com ênfase em Tecnologia de Informação pela PUCRS, graduada em Administração de empresas pela PUCRS. Atua como analista de marketing na Dell, Porto Alegre, Rio Grande do Sul. E-mail: adriana.gavillon@gmail.com. 2  Doutorado em Administração de empresas pela FGVSP e mestrado em Administração de empresas pela UFGRS. Professora do Programa de pósgraduação em Administração da PUCRS. E-mail: maira.petrini@pucrs.br.

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1 INTRODUÇÃO O consumo de bens tangíveis e intangíveis cresce cada vez mais, e grande parte da população é atraída pelo sentimento de desejo na obtenção desses bens, os quais podem significar até mesmo status perante a sociedade. Os consumidores tendem a favorecer os produtos com mais qualidade, desempenho ou um nível de características inovadoras, estando aptos a avaliar sua qualidade e o desempenho ofertados (KOTLER, 2000). Com a introdução da Internet, o mercado foi revolucionado e expandido para níveis globais, ofertando os mais diversos bens de consumo. Não só produtos, hoje, o consumidor tem ao seu alcance serviços, benefícios, sites de descontos, entre outros, sem sair de casa. A Internet possibilitou não só o comércio de bens tangíveis e intangíveis, mas também concedeu aos usuários da rede a possibilidade de expor seus pensamentos, seu posicionamento quanto às marcas e aos produtos, bem como de dizer para todos se recomendam ou não algo que adquiriram. No Brasil, estima-se que mais de 80 milhões de pessoas possuem acesso à Internet em casa ou no trabalho, e 48.7 milhões são considerados usuários ativos (IBOPE Nielsen Online, 2012). A propagação do E-Commerce permite que as empresas ofertem seus produtos e serviços para todos os tipos de usuários, mas também as deixa suscetíveis à informação que qualquer um desses usuários queira divulgar sobre a sua marca ou produto/serviço. Muitas empresas inclusive criam sites em que seus consumidores podem adicionar seus comentários, positivos ou negativos, para o acesso de todos. Existe aí uma nova tendência de comportamento dos consumidores que, antes da revolução da Internet, não era possível: os consumidores, hoje, podem pesquisar na web as informações, as indicações e os comentários de outros consumidores que adquiriram ou obtiveram alguma experiência com o produto/ serviço desejado. Com a disseminação de redes sociais, blogs e sites que disponibilizam locais para adicionar comentários e recomendações, os usuários da rede possuem em suas mãos uma ferramenta de pesquisa detalhada e extensa sobre os mais diversos produtos/ serviços disponíves no mercado. Este estudo busca compreender a influência que essas informações disponíveis na web podem ter sobre a efetivação da compra de um produto ou serviço pelos consumidores. Nesse contexto, estre trabalho tem como objetivo analisar a influência das informações existentes em sites e blogs no processo decisório de compra.

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Nas próximas seções, serão apresentadas a fundamentação teórica, o método, a análise, os resultados e as conclusões finais.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Este capítulo tem por finalidade revisar a literatura sobre os assuntos que servirão como base fundamental para a realização deste estudo. Os conteúdos tratados abordam uma parte das teorias referentes ao tema do presente trabalho, revisando autores sobre o ambiente digital e informações online e, posteriormente, o processo de decisão de compra do consumidor.

2.1 AMBIENTE DIGITAL De acordo com Recuero (2009), as tecnologias digitais possuem um papel central nas mudanças experimentadas pela sociedade e proporcionam uma maior comunicação entre empresas e consumidores, assim como dos próprios consumidores entre eles mesmos com o compartilhamento mútuo de informações. Enfim, o ambiente tecnológico não se trata mais apenas de equipamentos para eficiência empresarial, para atendimento da demanda de mercado, mas sim de uma nova forma de posicionamento frente às informações que a empresa recebe e que pretende repassar aos consumidores. Com o advento da Internet, não existe mais controle das empresas sobre as informações da marca, cabe a elas decidirem como deverão utilizar a tecnologia digital para atuarem de forma mais dinâmica e tentarem atingir maior eficácia no mercado. Por existirem muitos sites e por, geralmente, as informações serem disponibilizadas por outros usuários, torna-se difícil identificar qual fonte consultar e levar em consideração. Para Cazella (2006 p. 53), “a Internet através de dispositivos de busca oferece acesso fácil a uma grande quantidade de conteúdo e informações. O problema está na dificuldade de um usuário encontrar informações relevantes e confiáveis”. O autor acrescenta ainda que, em determinados sites, contribuições feitas por especialistas acabam sendo igualadas aos amadores/ curiosos que também contribuem com informações menos confiáveis. Outro ambiente na web disponível ao consumidor são as comunidades formadas dentro de lojas virtuais, uma gama de informações compostas pelas opiniões das pessoas sobre os produtos dispostos na loja,

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construindo uma opinião geral. Segundo Macário Filho (2006, apud BORGES e OLIVEIRA 2007), as informações dessas comunidades podem ser divididas em três tipos: • comentários: são comentários dos usuários da comunidade - que podem ser positivos ou negativos. sobre um determinado produto, o qual eles conhecem; • avaliações: é uma maneira que possibilita, aos membros da comunidade, indicarem uma pontuação numérica para determinado produto, como uma forma de avaliação. • popularidade: é uma forma de identificar os itens mais populares do site de acordo com a opinião da comunidade, por exemplo, os produtos mais vendidos. Na concepção de Pinho (2000, p. 120), a web é: Um eficiente canal de publicidade, cujas vantagens não são exclusivas dos anunciantes. Os consumidores podem usufruir de vários benefícios, sendo o primeiro – e o mais evidente – o acesso à grande quantidade de informações oferecidas de maneira altamente dinâmica pela natureza interativa do meio e pelo ambiente em hipertexto, permitindo a pesquisa de forma nãolinear, que aulixia e mesmo facilita o processo de decisão de compra.

Para Kotler (1998), as empresas que atuam no marketing online poderão atingir, comunicar e vender a clientes potenciais sem limite real de espaço, com acesso e recuperação rápida das informações da rede e utilizar como diferencial frente a outras empresas. O autor acrescenta ainda que existem três importantes benefícios do marketing online: • conveniência: o fato de estar disponível 24 horas e por ser acessível em qualquer lugar, o consumidor pode consultar dados sem precisar deslocar-se; • informação: existe uma farta gama de informação comparativa sobre empresas e produtos, sendo possível focar em critérios estipulados pelo consumidor, como pesquisa de preço, qualidade e disponibilidade; • menor exposição: o consumidor não precisa se deparar com vendedores que poderão tentar persuadilo ou com influências de fatores emocionais. No contexto acima apresentado, pode-se dizer que os consumidores estão sofrendo novas influências, assim como conquistam maior interação na divulgação de um produto/serviço. Para acompanhar esse novo ambiente, faz-se necessário que as empresas se tornem mais interativas, com presença na Internet, já que suas marcas se tornaram mais vulneráveis sob a opinião das pessoas.

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Mais do que um espaço de entretenimento, as redes sociais ganham relevância na decisão de compra dos consumidores, segundo pesquisa realizada em seis países da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador e Peru). O estudo indica que 58,9% dos entrevistados buscam informações sobre produtos e serviços em mídias como Facebook, Orkut e Twitter antes de efetuar sua compra. Esse número é ainda mais expressivo entre os brasileiros, superando 61,4% – o maior índice entre todos os países que participaram do levantamento (E-COMMERCE NEWS, 2011). Uma pesquisa realizada no Reino Unido aponta que a geração de consumidores que compram por meio, ou por influência, das redes sociais assumirá um papel de destaque nos padrões de consumo. Em 2021, o levantamento prevê que 41% dos consumidores serão influenciados pelas redes sociais, ou deverão usá-las para realizar compras. As vendas no modelo social commerce duplicarão nos próximos cinco anos, alcançando mais de 3,3 bilhões de libras, ou 4,1 bilhões de euros (COMPUTERWORLD, 2012). O estudo prevê que esse indicador atinja os 73% em 2021. Perto de 70% dos compradores online no Reino Unido, por exemplo, já são usuários ativos de redes sociais. O número de pessoas que compram por meio de sites como Facebook, Twitter e Pinterest crescerá, desempenhando um papel mais forte como agentes influenciadores e integradores de múltiplos canais. Os consumidores estão receptivos a novas ideias, sugestões e recomendações nas redes sociais. Espera-se que, nos próximos cinco anos, as vendas influenciadas pelas redes sociais dupliquem de 1,7 bilhão de euros para 4,1 bilhões de euros (COMPUTERWORLD, 2012).

2.2 PROCESSO DE DECISÃO DE COMPRA A cultura de consumo cresce a cada dia, tendo como mola propulsora o marketing, que acaba por induzir os consumidores, através da comunicação, na criação de um conjunto amplo de desejos, para se porem a consumir. Um dos instrumentos da comunicação é a publicidade, que tem um papel fundamental na sociedade, pois é utilizada para atrair e influenciar a atenção das pessoas na tomada de decisão. Através da tecnologia da Internet, a ação da publicidade age massivamente, permitindo aos indivíduos o acesso à informação pelos mais diversos meios de comunicação, tornando a comunicação mais rápida dentro da sociedade. A tecnologia da Internet pode ser reconhecida como uma forma de ‘emancipação’, permitindo ao indivíduo acesso

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irrestrito aos mais diversos conteúdos públicos, podendo alterar drasticamente os padrões de consumo da sociedade (PEREIRA; HORN, 2010). De acordo com Pinho (2000), as empresas que utilizam a comunicação na Internet possuem uma interação com o consumidor potencial de forma instantânea, já que a web permite que a empresa saiba o que o visitante da sua página pensa sobre a mensagem, o produto e o serviço que estão sendo anunciados. O autor acrescenta que, hoje em dia, uma marca não se trata mais simplesmente de um produto ou serviço, mas incorpora um conjunto de valores e atributos para o consumidor, que contribuem para diferenciá-la das outras marcas e influenciar na decisão de compra destes. Kotler (2000) apresenta um modelo de cinco estágios do processo de compras típico dos consumidores, e esse processo começa muito antes da compra real de um produto para compras com alto envolvimento: reconhecimento do problema, busca de informações, avaliação de alternativas, decisão de compra e comportamento pós-compra. Para compras de baixo envolvimento, o consumidor poderá pular etapas ou, até mesmo, inverter algumas delas. Similarmente, os autores Zeithaml e Bitner (2003) definem as cinco etapas clássicas do processo de tomada de decisão como seguem. • Reconhecimento da necessidade: o cliente percebe que tem um problema a ser solucionado ou uma necessidade a ser atendida. • Busca de informação: para ajudá-lo a satisfazer uma necessidade, o cliente busca informação a partir de fontes pessoais (amigos ou especialistas) ou não pessoais (meios de comunicação). • Avaliação de alternativas: o cliente faz um subgrupo selecionado de alternativas aceitáveis de uma dada categoria de produtos e as avalia. • Compra: o cliente escolhe uma determinada alternativa e efetua a compra. • Pós-compra: é avaliado pelo cliente se a escolha feita atendeu satisfatoriamente ou não suas expectativas. É justamente na etapa de busca de informações que se insere a questão de pesquisa deste artigo. O processo de decisão de compra não é composto somente das etapas formais, mas é influênciado por diversos fatores e variáveis, aos quais estão associados as experiências e os comportamentos do indivíduo, bem como o contexto em que este está inserido, seu ambiente e sua cultura. Antes da efetivação de uma compra, o consumidor busca várias informações e efetua análises que o auxiliem na tomada de decisão.

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3 MÉTODO DE PESQUISA O presente trabalho é de natureza exploratória, visto que proporcionará uma visão geral acerca de determinado fato, com finalidade de desenvolver, esclarecer e modificar conceitos (GIL, 2007). Para Mattar (1997), a pesquisa exploratória “visa prover o pesquisador de um maior conhecimento sobre o tema ou problema de pesquisa em perspectiva”. A natureza das variáveis é quantitativa e, conforme Malhotra (2006), a pesquisa quantitativa procura identificar os dados, aplicando alguma forma de estatística. O método quantitativo é caracterizado “pelo emprego da quantificação tanto nas modalidades de coleta de informações, quanto no tratamento dessas” (RICHARDSON, 1985 apud BOAVENTURA, 2011, p. 56). O método de pesquisa utilizado para obter as conclusões do estudo quantitativo foi o survey. De acordo com Malhotra (2006, p. 179), survey “tratase de um método que se utiliza de um questionário estruturado aplicado a uma amostra de uma população e destinado a coletar informações específicas dos entrevistados”. O público-alvo deste trabalho foram os usuários da web que consultam informações na Internet antes da efetivação de uma compra. Foi aplicado um questionário a uma amostra selecionada por indicação e por conveniência através da Internet. O meio utilizado para distribuição do questionário foi e-mail e publicação no Facebook, o questionário ficou hospedado no site https://pucrs.qualtrics.com entre os dias 26 a 28 de junho de 2012. A divulgação da pesquisa no Facebook foi através da criação de um evento, para que as pessoas recebessem um convite para responder ao questionário. Os e-mails foram enviados para 187 pessoas e, através do Facebook, 739 usuários da rede social receberam o convite para responder ao questionário. Foram obtidas 362 respostas, o que representou 39% do total de questionários enviados, sendo que destas, seis pessoas responderam “não” na pergunta-filtro, excluindo-se esses respondentes da amostra. Para a análise dos resultados, relacionados no próximo capítulo, foi contemplada a amostra de 356 respondentes. As informações contidas nos sites e nos blogs consultados são muito diversificadas e podem não ter uma fonte segura como base. Neste trabalho, buscouse identificar os fatores que podem ou não influenciar na efetivação da compra pelo consumidor e quais desses fatores são considerados determinantes. O questionário utilizado na survey foi adaptado da pesquisa de Oliveira, Fernandes e Assis (2009), em

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que o objetivo geral era buscar a melhor compreensão do comportamento de compra online por usuários na Internet. Dessa forma, o instrumento de pesquisa foi adaptado utilizando questões que eram relativas às influências das informações no processo de compra. O instrumento de pesquisa utilizado neste trabalho foi estruturado com perguntas referentes ao levantamento de dados demográficos, quanto ao comportamento de compra do consumidor e à influência das informações disponíveis na web. Foi realizado um pré-teste com cinco pessoas que trabalham na área de investigação de tendências do consumidor da Dell Computadores, o que resultou em alterações de algumas questões para a versão final do questionário, que, então, foi publicado.

4 ANÁLISE DOS RESULTADOS O questionário enviado aos usuários foi composto de catorze perguntas, sendo que a primeira pergunta, que questiona se o consumidor já consultou informações/recomendações de produtos ou serviços online antes de uma compra, teve como objetivo filtar a amostra. Os questionários foram distribuidos por e-mail e por Facebook, com um índice de participação de 39% das 926 pessoas que receberam a pesquisa. Para poder estimar o tempo de resposta do questionário, assim como mensurar a clareza das perguntas, foi realizado um pré-teste com cinco pessoas. Na visão de Gil (2007), o objetivo do pré-teste é assegurar a validade e a precisão das questões, assim como evidenciar possíveis falhas na redação. Os dados foram processados através de análise estatística, e os resultados obtidos estão relacionados a seguir.

4.1 PERFIL DEMOGRÁFICO DA AMOSTRA Para identificar o perfil da amostra em estudo, foram questionadas algumas atribuições dos consumidores, tais como: local onde residem, faixa etária, sexo e grau de escolaridade. Dos 356 respondentes, 55% foram homens e 45%, mulheres, os quais, em sua grande maioria (73%), residem em Porto Alegre, tendo uma pequena parcela (5%) que reside na Grande Porto Alegre e, ainda, 22% residentes em outras cidades. A faixa etária dos consumidores em pesquisa é caracterizada por pessoas entre 20 e 29 anos, que representam 51% do total da amostra, 33% por pessoas de 30 a 39 anos e 11% por pessoas acima de 40 anos, como demonstrado no gráfico 1.

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Gráfico 1 – Faixa etária Fonte: Autoria própria

Quanto ao grau de escolaridade dos respondentes, observa-se que a maioria da amostra possui ensino superior, correspondendo a 46%. A segunda maior participação (33%) tem pós-graduação e 12% possuem mestrado (gráfico 2). Essa informação demonstra que a amostra é composta, em sua maioria, por pessoas com elevado grau de ensino.

Gráfico 2 – Grau de escolaridade Fonte: Autoria própria

Em uma pesquisa publicada pela consultoria E-bit (2012), realizada com consumidores online, apresentase uma amostra predominantemente feminina, dividindo o público de compras online em 64% mulheres e 36% homens, caracterizada pela forte presença feminina em redes sociais. O relatório também informa que 56% das pessoas são graduadas, aderindo ao perfil do internauta um alto grau de escolaridade, conforme a amostra do presente trabalho aponta.

4.2 COMPORTAMENTO DE COMPRA De modo a analisar algumas características particulares da amostra quanto à busca de informações na Internet para produtos e serviços, foram questionados itens referentes à frequência de acesso à Internet e aos tipos de produtos/serviços consultados. Das pessoas que responderam ao questionário, todas acessam a Internet semanalmente. A opção de um dia por semana ou de não ter acessado a Internet na

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semana não foi selecionada (gráfico 3). Um dos fatores que pode colaborar para esse alto grau de acesso é que hoje se pode acessar a Internet não só em casa, como no trabalho, em dispositivos móveis e celulares, o que aumenta consideravelmente a facilidade de acesso à Internet pelos usuários. Segundo o IBOPE Nielsen Online (2012), o total de pessoas no Brasil com acesso à Internet em qualquer ambiente (trabalho, residência, lan house, etc.), no primeiro trimestre de 2012, atingiu 82,4 milhões. Dentre os produtos e serviços listados para que os usuários indicassem sobre quais eles mais consultam informações pela Internet (gráfico 4), o item que obteve uma maior parcela de respondentes foi hotéis e viagens, marcado por 264 pessoas, seguido por restaurantes e bares, com 232 pessoas. Nessa questão, os respondentes podiam assinalar até cinco opções. Conforme informação publicada no IBOPE Nielsen Oline (2012), a audiência nos sites de hotéis teve crescimento de 198% no período de um ano, puxado, sobretudo, pelos sites que oferecem descontos em serviços de hotéis (tais como compra coletiva). Na opção “outros” (2% do total), foram citadas algumas outras categorias, tais como: softwares, jogos, imóveis, brinquedos e móveis para casa. Ainda foram citados alguns itens pertencentes aos listados, que foram incorporados às parcelas correspondentes. Com relação ao uso da Internet, é possível afirmar que a maioria da amostra acessa com alta frequência a web e busca pelos mais variados produtos e serviços. As questões que serão analisadas a seguir identificam alguns fatores relacionados ao local em que os usuários buscam informações, qual o grau de influência de quem postou as informações e as perguntas específicas sobre o comportamento do usuário da web frente às informações online, complementando os dados já coletados.

Gráfico 3 – Frequência de acesso à Internet Fonte: Autoria própria

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4.3 INFLUÊNCIA DAS INFORMAÇÕES Na oitava pergunta, foi solicitado aos respondentes que enumerassem de 1 a 9 (sendo 1 o que mais acessa e 9 o que menos acessa) os sites que eles mais acessavam em busca de informações sobre produtos e serviços, sendo que foi indicado para não enumerar os sites que eles não acessavam (Quadro 1). Dentre as opções apresentadas, as que aparecem com mais frequência entre os usuários são: Facebook (15%), seguido por blogs e fóruns (13% cada) e site da própria empresa (12%). Os sites que mais receberam a enumeração de 1 (o que mais eles acessam) foi o Facebook, site da própria empresa (opinião de outros usuários) e Outros. Na opção “outros”, 99 pessoas indicaram outros locais os quais acessam em busca de informações, e o que obteve maior número foi o Google (32%), seguido por sites de busca e comparação de preços (o mais citado foi o Buscapé) e por lojas virtuais (a mais citada foi a Amazon), com 8% cada. Além desses, foram indicados MercadoLivre, UOL, compras coletivas, entre outros. O que chama atenção nessa questão é que o Google é uma ferramenta de busca online que oferece fácil acesso a bilhões de páginas da web. É um recurso para os internautas encontrarem o que procuram na Internet, que proporciona uma lista de sites para os usuários consultarem a informação que eles buscam, não propriamente um site que oferece informações de determinado produto ou serviço.

Gráfico 4 – Produtos e serviços mais consultados na Internet Fonte: Autoria própria

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A fonte que apresenta menor nível de influência é a informação oriunda do próprio fabricante ou fornecedor, em que 27% dos respondentes apontam de fraca a sem influência. A décima pergunta identifica na amostra quais os respondentes que já compraram algo influenciados pela divulgação nos sites citados na questão anterior. A maioria, 68% dos usuários, responderam que sim, já compraram algo influenciados pelas informações divulgadas nos sites relacionados, sendo que 32% apontaram que não. Outra variável abordada foi quanto à aquisição de um produto/serviço pelo consumidor, tendo tomado conhecimento dele somente pela mídia online. Foi

Vale destacar, ainda, que o Facebook foi o site que obteve maior número de respondentes, com o total de 274 marcações, sendo que, destas, 35% indicaram com a enumeração 1 (que mais acessa). A nona questão teve como principal objetivo identificar o grau de influência, em função de quem postou as informações na web, utilizando a escala: sem influência, fraca influência, média influência, forte influência, total influência e não sabe responder. Das fontes de informação listadas, 52% dos respondentes indicaram que a opinião de colegas exerce uma forte influência para eles; a fonte de opinião de especialistas representa 30% de total influência sobre os usuários (Quadro 2).

Colocação

Enumeração indicada

1

2

3

4

5

Primeiro

Facebook

Blogs

Fóruns

Reclame Aqui

Blogs

Segundo

Site da própria empresa (opinião de outros consumidores)

Site da própria empresa (opinião de outros consumidores)

Twitter

Fóruns

Fóruns

Terceiro

Outros

Twitter

Facebook

Blogs

Reclame Aqui

Quadro 1 – Sites mais consultados para busca de informações Fonte: Autoria própria

Grau

Sem influência

Fraca influência

Média influência

Forte influência

Total influência

Não sabe responder

Total

Opinião de outros usuários

5%

12%

35%

42%

6%

0%

100%

Opinião de amigos/ parentes

3%

3%

20%

50%

24%

1%

100%

Opinião de colegas

2%

5%

27%

52%

12%

1%

100%

Opinião de especialistas

1%

2%

19%

46%

30%

1%

100%

Artigos jornalísticos

3%

14%

39%

35%

7%

1%

100%

Informação oriunda do próprio fabricante ou fornecedor

5%

22%

44%

23%

6%

0%

100%

Quadro 2 – Influência em função de quem postou a informação online Fonte: Autoria própria

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obtido um índice de 77% dos usuários que indicaram “sim” na questão. Apenas 23% da amostra marcou a opção “não” (gráfico 5).

Gráfico 5 – Indicação de efetivação de compra com informação da mídia online Fonte: Autoria própria

A décima segunda questão buscava averiguar se os respondentes já deixaram de comprar algo em razão de uma recomendação negativa na web. Da amostra analisada, 317 pessoas marcaram que já deixaram de comprar algo por encontrarem uma recomendação negativa na online, sendo que 39 responderam que não. Os resultados obtidos na décima terceira questão do questionário precisam ser analisados com base na resposta da décima segunda questão, pois foi solicitado aos consumidores que marcaram “sim” na questão anterior que indicassem se foi um produto ou serviço (ou ambos) o item que eles teriam deixado de comprar por recomendações negativas online. Do total de respondentes, 89% marcaram “produto” e 11%, “serviço” (gráfico 6), sendo que 107 pessoas marcaram ambos os itens. Dentre as pessoas que marcaram ambos, “produto” teve o maior número de usuários (65%) que informaram que deixariam de comprar, caso encontrassem informações negativas, contra 35% para serviço.

Gráfico 6 – Indicação de efetivação de compra com informação da mídia online Fonte: Autoria própria

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Por fim, a décima quarta questão, última do questionário, visava a explorar qual é o comportamento predominante entre os consumidores, ao se depararem com recomendações negativas online. Na amostra, 61% das pessoas buscam por mais informações na prórpia Internet, 29% buscam informações presencialmente, em lojas físicas ou com pessoas que tenham adquirido o produto/serviço. Somente 10% dos respondentes desistiriam da compra ao encontrar recomendações negativas online. Os respondentes de “outros”, na verdade, utilizaram algumas das alternativas existentes, dessa forma, foram redistribuídos. Através desse último bloco de questões, mais especificamente relacionadas com a influência das informações online, foi possível estabelecer algumas relações importantes para o presente artigo.

Gráfico 7 – Comportamento predominante ao se deparar com recomendações negativas Fonte: Autoria própria

Na maioria das vezes, os usuários procuram informações em redes sociais, destacando-se o Facebook como fonte primária de busca na web, e, na visão de Recuero (2009, p. 116), o “elemento que é característico das redes sociais na Internet é a sua capacidade de difundir informações através das conexões existentes entre os atores”. Quanto à prerrogativa da influência das informações com base em quem as posta, a amostra identificou que a opinião de colegas, bem como de amigos e parentes exerce uma forte influência. A publicidade online toma força cada vez mais, 77% dos respondentes apontaram que já efetuaram uma compra de um produto ou serviço tendo tomado conhecimento dele somente por mídia online. Para Pinho (2000), a diferença da publicidade online é que, além de disseminar as informações para orientar o

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comportamento de compra, os consumidores podem interagir diretamente com o anúncio, obter mais informações ou até mesmo concluir a compra. Contudo, a Internet é uma via de dois lados. Da mesma maneira que é possível obter informações para efetivação de uma compra somente por meio da web, também se torna suscetível à desistência por dados negativos dispostos na rede sobre produtos/serviços. Na amostra do estudo, 89% das pessoas já deixaram de comprar algo em virtude de uma recomendação negativa online.

4.4 CARACTERÍSTICA DO PERFIL DOS USUÁRIOS QUE JÁ DEIXARAM DE COMPRAR ALGO EM RAZÃO DE UMA RECOMENDAÇÃO NEGATIVA ONLINE Dentre as 317 pessoas que responderam que já deixaram de comprar algo em razão de uma recomendação negativa online, 56% são do gênero feminino e 44%, masculino. O grau de escolaridade predominante é o ensino superior (46%) e a pósgraduação (33%), sendo que 90% da amostra possui ensino superior ou mais (gráfico 8). Dos respondentes que possuem doutorado, 100% deles já deixaram de comprar algo em função de uma informação negativa online.

Gráfico 8 – Caracterização do perfil dos que desistem da compra Fonte: Autoria própria

Cabe destacar ainda que a faixa etária dessa parcela é está entre os 20 e 40 anos, sendo que 100% dos usuários com idade inferior a 20 anos também estão contidos nesse grupo.

4.5 CARACTERÍSTICA DO PERFIL DOS USUÁRIOS QUE JÁ EFETUARAM UMA AQUISIÇÃO COM BASE SOMENTE NA MÍDIA ONLINE Para as pessoas que já efetuaram uma compra com base somente na mídia online, identifica-se que

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essas mudam o critério do grau de influência das informações postadas na web sob análise de quem postou essas informações. Foi possível identificar que, para essa parcela da amostra, aumenta o grau de influência da opinião de amigos (8%) e parentes, porém diminui o grau de influência de especialistas (9%) e de outros usuários (7%). Novamente, observa-se que o público feminino representa uma maior parcela (55%), e o masculino (45%) se reduz frente à amostra total. Esse público de usuários (96%) acessa a Internet todos os dias ou quase todos os dias. Com essa outra forma de analisar os dados, percebe-se que as mulheres são mais suscetíveis às informações disponíveis na Internet, tanto para a efetivação da compra quanto para a sua desistência.

5 CONCLUSÕES O presente artigo teve como objetivo analisar a influência das informações existentes em sites e blogs no processo decisório de compra. Para tanto, fez-se necessário o estudo do ambiente digital, das informações online e do processo de decisão de compra, a fim de obter fundamentação teórica para realização deste trabalho. Para a coleta de dados, utilizou-se do método survey com pesquisa quantitativa, com o desenvolvimento de um questionário em que foram levantadas as características da amostra quanto à demografia, ao comportamento de compra e quanto à influência das informações. Foram obtidos 356 respondentes válidos, em sua grande maioria, residentes em Porto Alegre e com alto grau de escolaridade. A amostra do estudo é representativa, levando em consideração que os dados de sua caracterização foram similares com os apresentados pela consultoria E-bit (2012) em pesquisa realizada com consumidores de todo o Brasil. Conforme evidenciado no referencial teórico, existem muitas informações ao alcance dos usuários da web, e as empresas precisam atuar de forma dinâmica para atender as necessidades desse cenário. Através dos resultados, comprovou-se que os consumidores utilizam a Internet como veículo de busca para informações e comparações entre produtos e serviços em que possuem interesse e que o nível de influência concebido por eles é diferente em relação ao local de publicação da informação, bem como por quem que está postando a opinião. Fica evidenciado que as informações disponíveis em sites possuem de fato uma influência na tomada de

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decisão de compra dos consumidores e que estes não se limitam a um único ambiente de busca por informação, caso o resultado encontrado sobre determinado produto ou serviço seja negativo. Ao se depararem com essa situação, as pessoas acessam outros locais da rede ou vão pessoalmente a uma loja física tentar excluir suas dúvidas e seus questionamentos. Como toda pesquisa, esta apresentou limitações, como o fato de a amostra ser predominantemente formada por consumidores de Porto Alegre, cujas características culturais e os costumes são referentes à região em que vivem. É possível que, em outra localidade, os dados coletados sejam diferentes, já que os indivíduos estarão inseridos em outra sociedade e características culturais. Adicionalmente, é válido mencionar que a amostra da pesquisa foi constituída por conveniência ou indicação, o que pode ocasionar alguma similaridade de opiniões e, até mesmo, caracterização demográfica, já que muitos pertencem ao mesmo círculo social e de convívio.

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RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.

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O relacionamento interpessoal e as transições de professores universitários INTERPERSONAL RELATIONSHIP AND TRANSITIONS OF UNIVERSITY PROFESSORS

Fabiula Meneguete Vides da Silva1 Cristiano José Castro de Almeida Cunha2

RESUMO: Busca-se, neste trabalho, compreender o significado das relações interpessoais estabelecidas nos processos de transição do contribuidor individual (professor) para líder (reitor ou pró-reitor) e de líder para contribuidor individual em universidades. A abordagem fenomenológico-hermenêutica foi utilizada a fim de retomar os principais temas desta experiência. Seis ex-gestores universitários emprestaram suas experiências vivenciadas em universidades pertencentes à Associação Catarinense das Fundações Educacionais, através das entrevistas em três tempos, realizadas entre maio de 2009 e março de 2010. Somente fazendo parte da gestão universitária os professores perceberam a complexidade dessa prática. O relacionamento interpessoal foi um fator importante na prática gerencial desses professores, fato este corroborado pela literatura (MINTZBERG, 1990). Recorrendo às entrevistas transcritas, foi possível resgatar três grandes temas centrais: as relações profissionais, o relacionamento com os alunos e as relações familiares. Nas relações profissionais estabelecidas, eles perceberam a necessidade do gerenciamento do trabalho em equipe. O relacionamento frequente com os alunos fez parte do dia a dia do gestor universitário, configurandose como um dos seus grandes desafios. A família esteve ao lado dos professores, apoiando-os e cobrando deles mais tempo de convívio familiar. Palavras-chave: Relações interpessoais. Professor universitário. Líder. Transição. ABSTRACT: Search in this work to understand the meaning of interpersonal relationships established in the processes of transition from individual contributor (professor) to leader (rector or provost) and from leader to individual contributor in the universities context. The phenomenological-hermeneutic approach was used in order to resume the main themes of this experience. Six former university supervisors lent their experiences they had universities which are part of Santa Catarina Association of Educational Foundations, through three interviews, conducted between May 2009 and March 2010. Only doing part of university management, professors realized the complexity of this practice. The interpersonal relationship was an important factor in management practice of these teachers, a fact borne out by the literature (MINTZBERG, 1990). Employing the transcribed interviews, it was possible to rescue three major themes: professional relationships, relationship with students and family relations. In professional relationships established, they realized the need for management of teamwork. The frequent relationship with students was part of day to day manager of the university, becoming one of its major challenges. The family stood by teachers, supporting them and charging them more time for family life. Using the transcribed interviews, it was possible to rescue three major themes: professional relationships, relationships with students and family relations. Keywords: Interpersonal relationships. University professor. Leader. Transition. 1 Professora adjunta da Universidade Federal da Grande Dourados, bacharel em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC, mestre em Administração pela UFSC e doutora em Engenharia de Produção pela UFSC. E-mail: fabiulamv@yahoo.com.br. 2 Professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina. Doutorado em Administração de Empresas pelo Rheinisch-Westfalische Technische Hochschule Aachen, Alemanha. E-mail: 01cunha@gmail.com.

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1 Introdução Muito se tem discutido, na literatura organizacional, sobre o estado permanente da mudança e a consequente instabilidade que esta provoca nas organizações. A competição acirrada e o avanço tecnológico interferem continuamente na dinâmica das organizações, sejam elas privadas, públicas ou pertencentes ao terceiro setor. Buscando satisfazer aos requisitos de competitividade, os atuais gestores modificam sua forma de gerir, reveem as estruturas de cargos e implementam formas participativas no processo de tomada de decisão nas organizações. É a tentativa de tornar a estrutura organizacional mais flexível à dinâmica da mudança constante. Neste contexto mutante, as transições tornam-se uma realidade vivenciada no dia a dia das organizações. As transições são experiências humanas carregadas de emoções, desafios, perdas e oportunidades. Às vezes, elas são ignoradas, ou seu impacto é minimizado pelos gerentes. A realidade é que elas afetam o desempenho das pessoas e o funcionamento das organizações (NININGER; ARDITTI, 2004). Na literatura acadêmica, encontramos muito material sobre o processo de tornar-se gerente, bem como descrições e interpretações acerca dos primeiros meses num cargo de gerência (PEARCE II, 1982; KONCZAK, 1994; THOMAS, 1999; HILL, 2003). Contudo, a literatura acadêmica sobre o processo de deixar de ser líder é mais tímida (SILVA, 2011), principalmente sob o enfoque das relações interpessoais estabelecidas. No contexto universitário, é fortemente presente o aspecto da temporariedade do exercício do cargo de gerência. O docente pode, ao longo de sua carreira universitária, assumir uma coordenação de curso, uma chefia de departamento, pró-reitoria ou reitoria e, após algum tempo, retornar exclusivamente às suas funções de professor. Não obstante o fato de essa transição ser rotineira nas universidades, ela merece maior compreensão. Cabe destacar que, neste trabalho, o “líder” está representado pelo reitor ou pró-reitor universitário, e o “contribuidor individual”, pelo professor. O contribuidor individual é um especialista, um produtor ou um profissional. Sua principal responsabilidade é “realizar tarefas técnicas específicas; sua colaboração para com a organização [...] [é] individual, dependendo acima de tudo de sua competência, experiência e energia” (HILL, 2003, p. 3). São funcionários que executam seu trabalho e não possuem responsabilidade de supervisionar o trabalho de outras pessoas. Por um lado, como contribuidor

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individual, o professor é responsável apenas por suas atividades, realizando tarefas específicas e programadas, não sendo responsável pelas atividades dos demais colegas. Por outro lado, como líder, o reitor ou o pró-reitor exercem influência sobre as atividades de várias pessoas, possuindo uma agenda imprevisível e dependente de necessidades alheias. Através deste trabalho, objetiva-se buscar compreender o significado das relações interpessoais estabelecidas no processo de transição do contribuidor individual (professor universitário) para líder (reitor ou pró-reitor) e de líder para contribuidor individual. Tal inquietação faz parte de nossos questionamentos, que nos acompanham na caminhada profissional como docentes.

2 Fundamentação teórica 2.1 Transição De acordo com Nininger e Arditti (2004), as transições que afetam as pessoas se enquadram em duas categorias. A primeira delas, foco do estudo desta pesquisa, é a das transições no local de trabalho, estando relacionadas às carreiras profissionais. Essa categoria inclui a entrada no mercado de trabalho, as promoções, as mudanças de funções e, por último, a saída de um emprego remunerado, por opção própria ou por força das circunstâncias. A segunda categoria, a das transições pessoais, inclui transições positivas e também negativas, tais como um casamento (férias planejadas), o nascimento ou a adoção de um filho (licença maternidade/paternidade) e uma doença debilitante (licença médica por motivo de doença). Schlossberg (1981) discute o processo de transição e, através de seus estudos, elencou múltiplos aspectos que o facilitam ou dificultam. Esses aspectos culminaram em um modelo analítico de adaptação à transição, que considera as características individuais e as de ocorrências externas. Esse modelo é baseado em pressupostos de teorias do curso de vida e em vários outros modelos de transição e postula três principais conjuntos de fatores que influenciam a adaptação à transição: as características da transição em si mesma, as características dos ambientes de pré e pós-transição e as características do indivíduo. Schlossberg (1981) entende que não é a transição em si que merece importância, mas como essa transição se ajusta ao momento, à situação e ao estilo de cada pessoa na superação da transição. Embora cada fator ou variável seja descrito como unidade independente,

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dinamicamente interagem entre si, resultando na adaptação ou não adaptação. A adaptação decorre do equilíbrio entre recursos e déficits. Quando os recursos excedem os déficits, a adaptação é facilitada, mas, quando os déficits excedem os recursos, a adaptação se torna mais difícil. Dependendo da transição e do grupo em observação, diferentes variáveis podem ter diferentes proeminências. No entanto, qualquer que seja a transição, ela envolve questões que devem ser tratadas tanto pelas pessoas diretamente afetadas quanto pelas organizações nas quais elas trabalham (SARGENT; SCHLOSSBERG, 1988; NININGER; ARDITTI, 2004).

2.2 As transições: de contribuidor individual para líder e de líder para contribuidor individual Diante da perspectiva de que o professor executa suas atividades cotidianas e não supervisiona as atividades dos colegas, entendemos que o professor pode ser caracterizado como contribuidor individual. Por outro lado, já que o reitor ou o pró-reitor possuem a responsabilidade de direcionar as atividades universitárias, podem ser caracterizados como gerentes, gestores, líderes. As características do trabalho gerencial, no entender de Mintzberg (1973) e Tonelli e Alcadipani (2003), diferem significativamente do que se exige de outros trabalhadores, entendidos neste artigo como contribuidores individuais: A maior parte do trabalho na sociedade envolve especialização e concentração. Operadores de máquina podem aprender a realizar uma parte e, em seguida, passar semanas agindo da mesma maneira; engenheiros e programadores frequentemente passam meses projetando uma única ponte ou programa de computador; vendedores frequentemente passam suas vidas profissionais vendendo uma linha de produtos. O gerente não pode esperar semelhante concentração de esforços. Ao contrário, as atividades dele são caracterizadas pela brevidade e fragmentação. (MINTZBERG, 1973, p. 31)

As transformações requeridas do contribuidor individual para se tornar gerente são profundas e complexas. Como contribuidor individual, o profissional é responsável, prioritariamente, por suas atividades, realizando tarefas específicas e programadas. Como gerente, ele exerce influência sobre as atividades de outras pessoas, possuindo uma agenda completamente imprevisível e dependente de necessidades alheias.

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Os estudos que focam a transição de contribuidor individual para líder (PEARCE II, 1982; KONCZAK, 1994; THOMAS, 1999; HILL, 2003; HOWARD, 2003) relatam os primeiros meses num cargo de gerência, bem como as transformações vividas nesse processo. Os gerentes estudados por Hill (2003, p. 134) vivenciaram muitas situações às quais tiverem que se adaptar, demandando mudanças: “[...] mudança na maneira de se apresentarem, mudança no tratamento com outras pessoas, mudança em relação aos novos conjuntos de pessoas com as quais iriam interagir”. Os novos gerentes do estudo de Hill estavam impregnados pela experiência como contribuidores individuais. Eles conheciam as tarefas a serem realizadas e cujo desempenho dependeria principalmente deles. Como gerentes, o seu desempenho passa a depender dos outros. Hill percebeu que a transição de contribuidor individual para gerente é acompanhada de muito sofrimento, em função dos desafios profissionais e pessoais enfrentados. “[...] a odisseia de colaborador individual para gerente é muitas vezes difícil, cheia de histórias de horror sobre carreiras promissoras que murcharam no percurso” (HILL, 2003, p. 2). No contexto universitário, essa passagem de professor para gerente também acontece, quando os professores assumem a coordenação do curso, a chefia de departamento, ou até mesmo o cargo de reitor ou pró-reitor. Resgatamos uma série de textos (HEERDT, 2002; SILVA, 2002; SILVA; MORAES, 2002; MARRA; MELO, 2003, 2005; SILVA; MORAES; MARTINS, 2003; ÉSTHER, 2007; KANAN, 2008) que discutem a função gerencial de docentes de universidades brasileiras. É possível afirmar que, à semelhança do ambiente empresarial, as transformações requeridas do professor para se tornar gerente são complexas, já que às atividades de ensino, pesquisa e extensão somam-se as atividades de gestão universitária. Voltar a ser professor após ter deixado o cargo de reitor ou pró-reitor, ou seja, após ter ocupado uma posição de liderança universitária, requer uma mudança profunda do indivíduo. Nessa transição, o professor deixa de ter responsabilidades de influenciação sobre os trabalhos dos demais integrantes do grupo com o fim de que objetivos sejam atingidos, para possuir responsabilidades, a priori, sobre o seu próprio trabalho. Na universidade, é fortemente presente o aspecto da temporalidade do exercício do cargo de gerência. O docente assume a reitoria, pró-reitoria, chefia de departamento ou coordenação de curso por prazo limitado. Após essa experiência, pode retornar à sua função original, o que, na maioria das vezes, significa voltar a ser professor. 47


Por ser uma temática pouco discutida, ainda são desconhecidos e imprevisíveis os comportamentos dos gerentes que voltam a ser contribuidores individuais. Na transição de líder para contribuidor individual, podemos destacar algumas transformações requeridas do sujeito. Agora, ao voltar a ser contribuidor individual, o sujeito deve, por exemplo, passar de um definidor de agenda para um especialista e executante; deixar de orquestrar diferentes tarefas, para realizar tarefas específicas; deixar de fazer as coisas por meio de outros, para fazer as coisas por seu próprio esforço.

3 Metodologia utilizada A presente pesquisa está situada no paradigma interpretativo, que, segundo Morgan (1980), baseia-se na visão de que o mundo social tem um status ontológico precário e que a realidade social não existe num senso concreto, mas é o produto das experiências subjetivas e intersubjetivas do indivíduo e interpretativo voltado à visão subjetiva. Com o objetivo de compreender o significado das relações interpessoais estabelecidas no processo de transição do contribuidor individual (professor) para líder (reitor ou pró-reitor) e de líder para contribuidor individual em universidades, utilizamos a abordagem fenomenológico-hermenêutica (VAN MANEN, 1990). Para Van Manen (1990), o objetivo final da ciência humana fenomenológica é um esforço concentrado da reflexão, em função de um retorno a uma experiência direta e primordial com o mundo circundante. A compreensão da experiência vivida envolve uma prática textual: a escrita reflexiva, a qual nós chamamos de pesquisa social. É o estudo fenomenológico e hermenêutico da existência humana: fenomenológico, porque é um estudo descritivo da experiência vivida (fenômeno), na tentativa de enriquecer a experiência vivida compreendendo seu significado; hermenêutico, porque é um estudo interpretativo de expressão e objetivação (textos) da experiência vivida, na tentativa de determinar o seu significado. Seis ex-gestores universitários emprestaram suas experiências vivenciadas em universidades pertencentes à Associação Catarinense das Fundações Educacionais (ACAFE), através das entrevistas em três tempos preconizadas por Seidman (1998), realizadas entre maio de 2009 e março de 2010. Essa técnica reúne e explora as falas dos entrevistados, permitindo ao pesquisador compreender profundamente o significado do fenômeno humano (SEIDMAN, 1998). Os nomes

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utilizados neste artigo são fictícios, a fim de garantir o anonimato dos sujeitos significativos do estudo. Os seis sujeitos significativos deste estudo foram escolhidos de acordo com o método de saturação de dados. O fechamento amostral por saturação teórica é compreendido como a suspensão de inclusão de novos sujeitos quando os dados obtidos apresentam, na avaliação do pesquisador, certa redundância ou repetição, não sendo considerado relevante persistir na coleta de dados. Isso quer dizer que as informações fornecidas pelos novos participantes do estudo pouco acrescentariam ao material já obtido, não mais contribuindo significativamente para o aperfeiçoamento da reflexão fundamentada nos dados que estão sendo coletados (GLASER; STRAUSS, 1967). Após a realização das entrevistas, partimos para sua transcrição, gerando as descrições experienciais. A transcrição configurou-se como um novo desafio de conhecimento e aprendizado. De posse desses transcritos, debruçamo-nos sobre as entrevistas, lendo e relendo-as para identificar temas analisáveis. Para Van Manen (1990), a tematização é uma maneira de controlar e dar ordem tanto para a pesquisa quanto para a escrita. A delimitação de temas na pesquisa fenomenológica é uma maneira para encontrar significados do mundo vivido pelo pesquisado e é realizada tendo como base o estabelecimento de categorias, conforme já destacado anteriormente.

4 A pesquisa 4.1 Os sujeitos e suas histórias Participaram deste estudo quatro professores e duas professoras que viveram a experiência da transição de reitores ou pró-reitores para professores. Para resgatar essas experiências, apresentamos, no quadro 1, alguns dados importantes de suas histórias. Os nomes utilizados a seguir são fictícios, a fim de garantir o anonimato dos sujeitos significativos do estudo. Pode-se perceber que todos os professores que ocuparam o cargo de reitores e pró-reitores são casados, prevalecendo a formação na área de ciências exatas e tecnológicas. Somente um dos entrevistados não concluiu o seu mestrado, sendo três doutores. Os sujeitos desta pesquisa permaneceram no cargo de gestão universitária por, no mínimo, três anos, sendo que a maioria permaneceu por um período de quatro anos.

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Miguel

Julia

Lucas

Rafael

Samuel

Beatriz

Estado civil

Casado

Casada

Casado

Casado

Casado

Casada

Número de filhos

1

2

2

2

3

3

Área de formação

Ciências Exatas e Tecnológicas

Ciências Humanas e Sociais

Ciências Biológicas

Ciências Exatas e Tecnológicas

Ciências Exatas e Tecnológicas

Ciências Humanas e Sociais

Ano da Graduação

1990

1989

1975

1983

1989

1971

Término do mestrado

2000

1993

1979

-

1992

1982

Término do doutorado

-

2000

-

-

1997

2007

1991

1992

1976

1985

1998

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2006-2008

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1998-2002

Ano em que entrou na IES da qual depois foi reitor ou próreitor Época em que foi reitor ou pró-reitor

Quadro 1 - Algumas informações sobre os professores que vivenciaram a transição de reitores e pró-reitores para a sala de aula Fonte: Silva (2011)

4.1 Tornando-se líder universitário e o relacionamento interpessoal O relacionamento interpessoal é outro fator importante na prática gerencial (MINTZBERG, 1990). Diferentes foram as percepções dos entrevistados no que se refere ao relacionamento mantido com os outros durante a fase em que foram reitores ou pró-reitores. Os professores compreenderam que somente através dos relacionamentos mantidos com outras pessoas seria possível administrar a universidade, ainda que, em alguns momentos, esses relacionamentos fossem conflituosos e, em outros, uma relação amigável. Diante de tamanha diversidade, sentiam dificuldade de tomar decisão, pois diversos interesses, de diferentes grupos, deveriam ser levados em consideração: dos professores, dos alunos, da comunidade externa e de técnicos administrativos. Os embates foram inevitáveis e consumiram muita energia. Diante desse desafio, eles aprenderam que o diálogo poderia ser a melhor forma de agregar e que, se possível, antes de tomar

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a decisão, deveriam conhecer os diferentes interesses dos envolvidos, para evitar qualquer polarização de opiniões. Eles perceberam a importância do consenso e da necessidade de não tomarem decisões sozinhos. Enquanto reitores e pró-reitores, eles tentaram se dedicar ao estabelecimento de relações com os professores e demais integrantes de suas equipes de trabalho, porém a maior parte de seu tempo era dedicada às outras atividades de gestão. Perceberam que, necessariamente, a fim de lograrem êxito, precisavam se relacionar, se aproximar de outras diversas áreas da universidade. Os ex-gestores, além das relações interpessoais estabelecidas com os professores, destacaram as vividas com os alunos. Essas relações foram permeadas por conflitos e reivindicações. A família também fez parte da experiência desses professores vivida no período em que eram líderes universitários. Suas falas revelam que sentiram, ao mesmo tempo, apoio nos momentos em que necessitavam do aconchego do lar e cobrança por maior tempo de dedicação à família.

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4.1.1 As relações profissionais Os entrevistados resgataram, em diversos momentos, as relações estabelecidas com os colegas da pró-reitoria com pessoas que faziam parte diretamente de suas equipes de trabalho e com outros professores, que não estavam tão próximos, mas faziam parte de sua rede de relacionamentos. Na maioria das vezes, as relações profissionais vividas, ao menos aquelas que tiveram com os colegas mais próximos, foram resgatadas com entusiasmo e satisfação, trazendo-lhes boas lembranças e fazendoos recordarem a importância das atividades realizadas por todos. Eles perceberam a importância do trabalho coletivo e que não implantariam seus projetos, se não fosse com e através de outras pessoas. Além das relações amistosas, eles viveram dificuldades, algumas típicas das relações interpessoais, sobretudo, porque a condição de gestor universitário exige a interação com diferentes pessoas, de diferentes coalizões, o que resulta em divergências de opiniões e, por consequência, conflitos. Isso exigiu deles uma postura diferente, a necessidade de ouvir diferentes pontos de vista, sem perder o controle da situação. Afinal, durante o período em que ocuparam tais cargos, essas pessoas com as quais se relacionavam passariam a fazer parte de sua rotina, e eles necessitavam do apoio delas para outras ações. Das falas dos professores surgiram quatro temas centrais das relações interpessoais profissionais estabelecidas no período em que foram responsáveis pela gestão universitária: a) o trabalho em equipe; b) os sentidos do “ser político”; c) os conflitos; e d) “estão me vendo de maneira diferente”. a) O trabalho em equipe O fator determinante da prática gerencial, revelado na fala dos ex-gestores, envolve o gerenciamento do trabalho em equipe. Os ex-gestores que integram a pesquisa perceberam rapidamente a importância do trabalho em equipe e o fato de que várias das suas atividades necessitavam de articulação com as diferentes áreas da universidade, ora com as secretarias dos centros, ora com os departamentos e as coordenações de curso, por exemplo. Suas experiências como reitores e pró-reitores estiveram ligadas à atividade de articulação entre essas diferentes áreas. Essa articulação era a chave para consolidar e fortalecer o processo de gestão que ajudavam a conduzir, por meio da construção de um trabalho em equipe e de constante diálogo. A literatura aponta o papel de facilitador como uma das competências-chave que um gerente necessita ter.

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Nesse papel, o gerente constrói equipes e tira o melhor proveito delas (QUINN et al., 2003). Motta (2004, p. 26) define a gerência como a “arte de pensar, decidir e agir, é a arte de fazer acontecer, obter resultados, que podem ser previstos, analisados, mas obtidos através das pessoas, numa interação constante”. É muito presente, nos discursos dos professores, a importância das equipes de trabalho para a condução de suas atividades como gestores universitários. Assim como os outros entrevistados, Rafael ressalta a importância de aprender a trabalhar em equipe. Ele diz que sempre se viu como um sujeito altamente pragmático, com interesse para lidar com questões concretas, tais como análise financeira, logística, até mesmo pela sua formação em engenharia. Sendo reitor, descobriu que também era capaz de coordenar equipes, de trabalhar em rede. Conseguiu, sobretudo, identificar a importância das pessoas para a concretização dos objetivos almejados. b) Os sentidos do “ser político” Para executar suas atividades, os ex-gestores tiveram que incorporar o “ser político”. Inicialmente, alguns não entendiam que deveriam usar política em sua atuação, entendiam apenas que deviam atuar de acordo com argumentos técnicos, e que as atividades deveriam ser pautadas pelo critério da eficiência. No entanto, o “ser político” mostrou-se necessário, para que de fato pudessem realizar o planejado. Os gestores universitários trouxeram a expressão “ser político” como uma espécie de competência necessária para o atendimento dos objetivos almejados. Aqueles que salientaram a necessidade de ser político definiram o conceito como sendo a necessidade de o gestor esperar o momento adequado para tomar uma decisão e, principalmente, criar uma rede de pessoas que o apoiem na decisão tomada. De acordo com o estudo realizado por Hill (2003), ficou evidente, nos depoimentos colhidos dos novos gerentes, que, para construírem redes de trabalho, eles necessariamente teriam que incorporar o gerente político, que conversa, que se relaciona, que sabe ouvir, que sabe trabalhar em conjunto, para que possivelmente conseguissem que as coisas fossem feitas da melhor maneira. Bartram (2005) corrobora Hill (2003) evidenciando que a capacidade de ouvir, negociar e persuadir somada à capacidade de pensar global ou estrategicamente constituem competências necessárias aos líderes universitários. Ao analisar as falas dos entrevistados, outro sentido é dado por Miguel para o “ser político”, ao ressaltar que, enquanto estava gestor universitário,

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teve dificuldade de conviver com as decisões que eram tomadas de forma a evitar que desagradassem a algumas pessoas ou grupos. O entrevistado entende que uma decisão técnica é racional, sem levar em consideração as vontades externas às demandas da universidade, enquanto uma decisão política leva em consideração os interesses de pequenos grupos de pessoas. Essa habilidade política também foi ressaltada nos estudos de Silva (2000), sendo que algumas especificidades são evidentes, muito embora o termo “ser político”, ao ser utilizado de maneira não pejorativa, gira em torno da compreensão de o sujeito saber ser flexível e saber envolver as pessoas na tomada de decisão, escutando-as e entendendo suas perspectivas. Em alguns casos, essa capacidade pode ser compreendida como manipuladora, já que o gerente, ao perceber que um objetivo é importante e deve ser atingido, deve fazer com que os outros assimilem isso. Neste estudo, os professores entrevistados, logo que assumiram as reitorias e pró-reitorias, não tinham essa compreensão e tiveram dificuldades em assumir tal postura, mas, aos poucos, deram-se conta da necessidade de agirem assim. Bennis e Nanus (1988) destacaram que um fator essencial para o líder é a capacidade de influenciar e organizar significado para os integrantes da organização. Esse fator só foi compreendido pela maioria após deixarem a gestão universitária. c) Os conflitos Os conflitos fizeram parte do dia a dia dos gestores durante praticamente todo seu mandato. Os conflitos decorrem das diferenças individuais (QUINN et al., 2003). Ora estavam frente a frente com os alunos, que reivindicavam mais bolsas de estudos, mais qualidade de espaço físico e equipamentos, maior participação no processo de tomada de decisão, conforme já destacado anteriormente; ora com professores que desejavam melhores salários e condições de trabalho para realizarem pesquisa e extensão universitária, ou servidores que também reivindicavam melhorias salariais e de condições de trabalho em geral. Essa relação se tornava mais conflituosa quando percebiam que não poderiam atender imediatamente aos pedidos e às reclamações. “Vários foram os períodos que enfrentei conflitos, tanto internos quanto externos. Eram momentos muito difíceis. A comunidade acadêmica queria tudo” (JULIA). O fato de o conflito fazer parte do dia a dia da gestão dos reitores e pró-reitores também foi evidenciado no estudo realizado por Silva (2000), que

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objetivava compreender o processo de aprendizagem de competências gerenciais dos professores (sem formação em gestão) que assumem atividades, atribuições e responsabilidades como diretores de unidades da Universidade Federal de Santa Catarina. No estudo de Silva (2000), alguns dos sujeitos entrevistados relataram que compreendiam a universidade como um espaço de conflitos, de disputas e diferenças. E, assim, tiveram que aprender a gerir as unidades universitárias lidando diariamente com os conflitos. Silva, Cunha e Possamai (2001) realizaram uma pesquisa que objetivou compreender o processo de aprendizagem das competências gerenciais dos professores que assumiram cargos de direção de instituições de ensino superior. Os participantes indicaram cinco competências que aprenderam no exercício do cargo de diretor, dentre as quais podemos citar o gerenciamento dos conflitos e das diferenças. Segundo o exposto, o conflito é um fator inerente às relações profissionais e, por consequência, também faz parte do dia a dia dos gestores universitários. Suas ações são marcadas pelo gerenciamento dos antagonismos gerados pela necessidade de atender a diferentes interesses dos atores que integram a comunidade acadêmica. d) Estão me vendo de maneira diferente Ao assumirem as reitorias e pró-reitorias, os pesquisados perceberam que algumas pessoas passaram a enxergá-los de maneira diferente, eles se sentiram tratados de forma diferenciada. No início, os ex-gestores estranharam esse comportamento, já que não esperavam tais mudanças. Porém, com o passar do tempo, começaram a entender que tal alteração se dava em decorrência do cargo que assumiram. “Estão me vendo de maneira diferente” assume dois sentidos: o primeiro está relacionado com o fato de algumas pessoas que eram próximas deles terem se afastado, talvez pelo status que o cargo representava. O segundo sentido diz respeito às pessoas que se aproximaram dos novos gestores por interesse, por visualizarem na proximidade uma possibilidade de ganho. A forma como os professores eram vistos e requisitados após assumirem os cargos de reitores e pró-reitores reflete interesses diversos. Eles expressam ter sentido dificuldades em discernir quem se aproximava com o objetivo de tirar algum proveito dos que se aproximavam numa tentativa de contribuir para o bem comum. Pelo fato de estarem no poder, tiveram que aprender a lidar com alguns oportunistas,

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muito embora, devido a essa preocupação, talvez tivessem repelido algumas pessoas bem intencionadas, que objetivavam contribuir com o processo de gestão.

4.1.2 O relacionamento com os alunos O relacionamento frequente com os alunos também fez parte do dia a dia dos gestores universitários, configurando-se como um dos grandes desafios da sua experiência nesse cargo. Vários foram os conflitos vividos com alunos, especialmente no momento em que estes reivindicavam mais bolsas de estudo, mais participação no processo de gestão universitária, melhores estruturas físicas, como laboratórios, professores mais qualificados etc. O movimento dos estudantes representou um forte desafio durante o período em que estiveram à frente da gestão universitária, e que, inicialmente, tiveram dificuldade em administrar. Os gestores compreenderam que, para entender o ponto de vista dos alunos, precisavam se aproximar destes, a fim de que pudessem estabelecer com eles uma relação de afetividade, confiança, empatia e respeito. Através dessa relação harmoniosa e do consenso, poderiam, juntos, atingir objetivos compartilhados. O conflito sempre esteve presente em sua gestão, mas, com o passar do tempo, deixou de ser disfuncional, já que o diálogo e a confiança passaram a permear a relação entre gestores e alunos.

4.1.3 As relações familiares: sentindo apoio e cobrança Ao assumirem a gestão da universidade, os exgestores perceberam o apoio da família, mas também a cobrança por mais tempo de dedicação. As falas dos professores revelaram que o apoio da família, especialmente do esposo, da esposa, de filhos e filhas, significou força para enfrentarem os diversos e intermináveis desafios e conflitos. Mas, como o dia a dia desses profissionais era marcado pela imprevisibilidade e fragmentação, muitas vezes eles não conseguiam despender tempo que consideravam necessário às suas famílias e, consequentemente, os familiares percebiam essa carência e exigiam mais tempo e dedicação. Enquanto os professores estiveram na próreitoria e reitoria, tiveram que abdicar da família e dos amigos, por não conseguirem administrar o tempo de maneira equilibrada. “Minha família e os amigos não recebiam tanta atenção quanto era dispensada

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para as atividades da universidade” (RAFAEL). “Ah, eu era tudo universidade. Minha vida pessoal, familiar e profissional era tudo universidade” (BEATRIZ). As manifestações dos professores revelam que, no período que estavam respondendo pela gestão universitária, viveram a dualidade de contarem com o apoio da família e, ao mesmo tempo, receberem a cobrança por estarem tanto tempo afastados dela. A família teve uma interferência positiva e negativa nas suas gestões. O fato de suas agendas serem repletas de atividades, sobretudo, pela existência da demanda não planejada, fez esses professores enfrentarem diversas dificuldades relacionadas ao gerenciamento do tempo, o que acabou tendo reflexos sobre sua vida privada.

4.2 Deixando de ser líder universitário e o relacionamento interpessoal Na carreira universitária, quando passam de reitores e pró-reitores (líderes) para professores (colaboradores individuais), deixam de se envolver na coordenação de seus pares; no tratamento de conflitos com os técnicos administrativos, professores e alunos; na supervisão de atividades diversas; para voltarem a realizar seus trabalhos técnicos como professores, atuando especialmente no contexto da sala de aula, da pesquisa e da extensão. As relações interpessoais vivenciadas pelos exgestores, após deixarem os cargos, foram importantes no processo de transição para a sala de aula. Os relacionamentos com os colegas de trabalho foram fonte de alegrias e decepções para os professores, enquanto o apoio familiar e dos amigos foi de essencial importância, proporcionando-lhes acalento e segurança.

4.2.1 Relações profissionais As relações interpessoais estabelecidas com os colegas durante o período da transição para a sala de aula constituíram, para alguns, fonte de contentamento e apoio, enquanto, para outros, aconteceu o oposto, configurando-se como fonte de frustração e desapontamento. Alguns temas essenciais, entrelaçados às questões de relacionamento interpessoal profissional, emergiram das entrevistas realizadas com os ex-gestores: a) percebendo-se menos importante: “a caneta do poder seca”; b) sentindo-se perseguido; c) ainda estão me vendo como gestor; d) meu olhar ainda é de gestor; e e) os colegas ajudando na transição.

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a) Percebendo-se menos importante: “a caneta do poder seca” Enquanto os ex-gestores tentavam se adaptar a uma nova rotina de trabalho, sentiam-se menos importantes. Os holofotes, agora, estavam voltados para outra equipe de trabalho, que acabara de assumir a reitoria. Através dos relatos dos ex-gestores, percebemos que, embora tivessem se preparado para atuar em uma nova função e estivessem cientes de que, quando voltassem para a sala de aula, as coisas seriam diferentes e a realidade de trabalho seria outra, eles sentiram, durante a transição, que não eram mais importantes e aquilo que pensavam já não influenciava mais a gestão universitária. Isso foi vivido com angústia e tristeza. Enquanto eram gestores universitários, eles tinham força, poder para decidir sobre o futuro da instituição. No momento em que deixaram de sê-lo, perceberam que o poder é fugaz, se desvanece de acordo com o cargo que ocupam. Perceberam que, quando estavam na gestão, algumas pessoas se aproximaram somente com o intuito de garantir algumas vantagens para si mesmas, e eles tiveram que aprender a conviver com esses oportunistas. Essas constatações se tornaram mais evidentes no período em que viveram a transição. b) Sentindo-se perseguidos O sentimento de perseguição configurou-se como um dos temas essenciais, no conjunto de sentimentos experimentados pelos ex-gestores durante o seu processo de transição. Os professores ressaltaram que se sentiram perseguidos, ao transitarem dos seus cargos de gestão para a sala de aula. O grupo que assumiu a gestão da universidade, de alguma forma, tentou prejudicá-los, ora não garantindo suas horas-aula em sala de aula, ora dificultando o andamento de alguns projetos aprovados no período em que estavam na gestão, despertando neles, por consequência, sentimentos de indignação e temor. Esse sentimento de perseguição foi percebido por esses ex-gestores com pesar e tristeza, já que tinham dedicado uma parcela importante de suas vidas à universidade e, no momento da transição, não esperavam receber em troca essa rejeição e perseguição. Não esperavam esse tipo de comportamento de gestores que passaram a ter a responsabilidade pelo futuro da universidade. É perceptível a carência de políticas e mecanismos que apoiem a recondução de ex-gestores universitários e de suas equipes de trabalho ao término do seu mandato. A não existência de uma

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política de realocação de pessoas é algo presenciado com sofrimento por aqueles que vivem o processo da transição, sobretudo, quando a equipe sucessora tem ideologias diferentes e percebe a conquista como uma forma de retaliação. c) Ainda estão me vendo como gestor Mesmo não mais ocupando suas funções na condução da universidade, os ex-gestores percebiam que a comunidade acadêmica continuava a vê-los como gestores. Como professores, já se dedicando às atividades docentes, foram por diversas vezes questionados por alunos, colegas professores e pela comunidade acadêmica em geral a respeito do futuro da universidade. As pessoas queriam saber suas opiniões, queriam saber seus posicionamentos. Em diversos momentos, perceberam-se como se ainda estivessem no cargo. Mesmo não sendo possuidores do poder legítimo, já que não ocupavam mais o cargo de gestão, os exgestores continuavam exercendo o poder de influência em alguns processos de tomada de decisão. Isso os incomodou em alguns momentos, já que não tinham resposta aos questionamentos elaborados, mas, em outros, também foi fonte de satisfação, já que, mesmo após terem saído da gestão universitária, continuavam, de alguma forma, sendo importantes, pois as pessoas ainda queriam saber suas opiniões sobre questões relacionadas com a gestão universitária. Na fase de transição, os professores viveram situações conflitantes: no nível superior de gestão, suas opiniões não eram mais relevantes, daí sentiram a “caneta do poder secar”; entretanto, perante os professores, técnicos administrativos e a comunidade externa à universidade, suas vozes continuavam sendo ouvidas. Na realidade, essa comunidade, mediante a confiança dada aos professores durante o período de seus mandatos como reitores e pró-reitores, desejava continuar sabendo suas opiniões sobre os novos rumos que a universidade estava trilhando. d) Meu olhar ainda é de gestor Pensar e, em alguns momentos, agir como gestores fez parte da história vivida pelos ex-gestores no processo de transição para a sala de aula. Embora não mais gestores, eles tiveram dificuldade para voltar a pensar somente no seu novo universo de trabalho: a sala de aula e o departamento do qual faziam parte. Eles tinham aprendido a perceber, enquanto gestores, a importância de possuírem uma “visão do conjunto”, uma “visão sistêmica”, para a realização de uma gestão universitária eficiente.

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Já era sabido que a transição de gestores para professores é acompanhada de uma transição de identidade que, por sua vez, não acontece imediatamente após o seu desligamento formal da gestão universitária. Os ex-gestores também trouxeram um novo sentido para a síndrome do ex-gestor: mesmo não estando mais na gestão, viam-se querendo contribuir, viam-se analisando o processo, viam-se incomodados com os novos rumos assumidos pela nova equipe. Diferentes sentidos para a expressão “síndrome do ex-dirigente” são emprestados pelos professores que viveram essa experiência. Agora, a expressão refere-se mais à questão de ter que aprender a ficar quieto, ter que compreender que o momento é do outro e que o seu poder formal de tomada de decisão cessou. Os que viveram essa síndrome do ex-dirigente necessitaram aprender a respeitar o momento vivido pela nova gestão, o que não foi fácil para eles, pois entendiam que todo o conhecimento que tinham acumulado deveria ser explorado pela equipe que assumia a nova gestão. Impregnados pela experiência como gestores, os professores tiveram de se adaptar ao novo contexto de um trabalho que dependeria principalmente deles. Entendendo que o olhar deveria agora estar voltado para a sala de aula, esses ex-gestores perceberam que não era mais necessário se envolver com as diversas questões complexas oriundas do contexto universitário. Mudar esse olhar macro, que visava ao futuro da universidade, para um olhar focado apenas na sala de aula exigiu desses professores readaptações, ajustamentos. O conhecimento múltiplo e a visão do todo - competências necessárias para a atuação enquanto gestores - mostraram-se prejudiciais para eles no período da transição, já que desejavam estar totalmente envolvidos com a nova realidade de trabalho: a sala de aula. e) Os colegas ajudando na transição Alguns ex-gestores puderam contar com o apoio de colegas de trabalho, quando passaram pelo período de transição para a sala de aula. Nesse momento, os colegas mostraram-se importantes, com suas palavras encorajadoras e mantendo-se à disposição para ajudar no que fosse necessário. Para eles, nesse momento, ficou claro que a transição, se fosse vivida isoladamente, ficaria muito mais difícil, seria mais dolorosa. A fase da transição vivenciada por esses professores se traduz como a adaptação a uma nova rotina de trabalho, uma aproximação de novos colegas, um processo de aprendizagem. Os colegas de trabalho ajudaram os ex-gestores a viverem um processo

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de adaptação mais tranquilo, estando presentes e auxiliando-os a ultrapassarem os obstáculos próprios dessa fase.

4.2.2 A família vivendo a transição A família teve um significado especial para os exgestores, como um ponto de apoio, um esteio para eles. Na família, eles encontraram força para viver o processo de transição. Os professores perceberam que os familiares os apoiaram, sobretudo, pelo fato de estarem se desvinculando da principal atividade responsável pelos conflitos enquanto estavam nos cargos de reitor e próreitor. Durante a gestão, sentiram a pressão de seus parceiros e da família, que se sentiam infelizes com a maneira como os líderes estavam vivendo suas vidas. O trabalho na gestão universitária absorveu muito tempo e energia deles, sobrando pouco tempo para a vida em família. No entanto, durante a transição para a sala de aula, eles perceberam a família satisfeita e ao seu lado, apoiando-os no que fosse necessário. Na transição, esses ex-gestores perceberam que o seu trabalho como docentes e a sua vida pessoal ficavam em harmonia. Por outro lado, no cargo de líderes, eles não conseguiram administrar o tempo para a família e para o trabalho, já que se dedicaram demasiadamente à carreira e esqueceram de valorizar as outras dimensões da vida. Esse fato é corroborado pelos estudos de Silva (2005). A qualidade da transição depende dos fatores de adaptação à transição de carreira, como o apoio e as contribuições da família (SCHLOSSBERG, 1981). Os laços familiares servem como defesa, como apoio e uma barreira contra os terrores vivenciados ao longo da vida (LAING, 1971). As manifestações dos professores revelam que há positivas lembranças da contribuição da família no período em que voltaram para a sala de aula, apoiando-os e encorajando-os a viver uma nova fase de suas vidas, uma fase de intensa adaptação e aprendizagem. Através dos relatos cedidos pelos ex-gestores, ficou evidente que as dimensões trabalho e família são relevantes em suas vidas e devem ser percebidas de maneira indissociável.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O relacionamento interpessoal foi um fator importante na prática gerencial desses professores, fato este corroborado pela literatura (MINTZBERG,

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1990). Desta categoria, surgiram subtemas: as relações profissionais, o relacionamento com os alunos e as relações familiares. Nas relações profissionais estabelecidas, eles perceberam a necessidade do gerenciamento do trabalho em equipe. Rapidamente identificaram que suas atividades só seriam exequíveis com e por meio de outras pessoas. Inicialmente, erraram, desgastaramse com os conflitos e os embates, mas, como passar do tempo, perceberam que precisavam de aliados para o sucesso do processo de tomada de decisão e para o sucesso no alcance das metas e dos projetos. Também viveram relações amistosas, principalmente, com os colegas de equipe, o que lhes rendeu amizades sinceras e duradouras. O relacionamento frequente com os alunos fez parte do dia a dia dos gestores universitários, configurando-se como um dos seus grandes desafios. Eles viveram vários conflitos com os alunos e perceberam os seus expressivos movimentos, reivindicando por bolsas de estudo, maior participação no processo de tomada de decisão, melhores estruturas físicas de laboratórios e salas de aula. Esses movimentos tornaram a gestão mais difícil. No entanto, os gestores entenderam que o diálogo seria uma forma de se aproximar desses alunos. A família esteve ao lado dos professores, apoiandoos e cobrando deles mais tempo de convívio familiar. Pelo fato de suas agendas serem repletas de atividades e, sobretudo, devido à demanda não planejada, os professores viveram dificuldades de gerenciamento de tempo, o que acabou se refletindo negativamente nas relações com suas famílias. Voltando para a sala de aula, os temas de destaque foram: relações profissionais e a família vivendo a transição. Das entrevistas realizadas com os ex-gestores emergiram significados expressivos, entrelaçados às questões de relacionamento profissional: percebendose menos importante: ‘a caneta do poder seca’; sentindo-se perseguidos; ainda estão me vendo como gestor; meu olhar ainda é de gestor; e os colegas ajudando na transição. A família teve um significado especial, apresentando-se como o ponto de apoio para os exgestores. Na família, eles encontraram força para viver o processo de transição para a sala de aula. Os filhos e os companheiros estiveram presentes e participativos nesse processo de transição. Compreendemos que a universidade tem um papel importante no processo de desenvolvimento humano, porque ela prepara, primordialmente, a geração de

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hoje para cuidar de gerações futuras, pois sua maior meta é formar pessoas que possam, com seu trabalho, contribuir para o desenvolvimento da sociedade. No entanto, essa mesma universidade que auxilia o processo de aprendizagem de pessoas, os seus alunos, às vezes se apresenta negligente no processo de acompanhamento de seus funcionários, como resgatado pelos professores que fizeram parte do nosso estudo. Percebemos, por meio das constatações apresentadas pelos sujeitos significativos deste estudo, que há carência de apoio e assistência na condução dos professores para os cargos de gestão universitária. Apesar de a transitoriedade ser algo corriqueiro no ambiente universitário, essas questões não estão sendo levadas em consideração pela gestão dessas instituições de ensino superior. Não foram considerados, na pesquisa, as habilidades, os conhecimentos e as atitudes necessários para a gestão e que podem interferir fortemente no processo de gestão. Uma instituição universitária deve ter objetivos abrangentes em relação à satisfação ou à adaptação dos seus docentes, no sentido de incluir, em seu planejamento, a preparação e o acompanhamento dos professores em vias de transição, oferecendolhes oportunidades de formação que facilitem a continuidade de seu crescimento e sua satisfação pessoal. Diante dessa realidade, faz-se necessário buscar modelos inovadores de gestão de pessoas, para enfrentar as constantes transições requeridas dos professores universitários. Tais considerações reforçam a importância de se aprofundar, cada vez mais, os estudos relativos à gestão das pessoas que trabalham nas instituições universitárias. As universidades devem se preparar para novos desafios, principalmente dando maior atenção à gestão das pessoas, no sentido de propiciar condições adequadas para que elas realizem suas funções de maneira harmoniosa, eficiente e eficaz, num clima de desenvolvimento coletivo e mútuo. Na perspectiva de sugestão para novos estudos, salientamos a necessidade de: compreender a experiência vivida por professores coordenadores de curso ou chefes de departamento no período da sua transição para a sala de aula; compreender a experiência vivida por ex-reitores e ex-reitoras no processo de transição para a sala de aula, trazendo à tona as questões de gênero; investigar as habilidades, os conhecimentos e as atitudes necessários para a gestão e que podem interferir fortemente no processo de gestão, bem como no de transição; compreender

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a experiência vivida por professores, ao transitarem de uma universidade estrangeira para o contexto universitário brasileiro; e compreender a experiência vivida por ex-reitores no processo de transição para a sala de aula no contexto das universidades públicas federais. Os estudos dos processos de transição nas universidades estão em aberto, carecendo de novas buscas.

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OS NOVOS DIREITOS GERADOS PELA REVOLUÇÃO NANOTECNOLÓGICA E A RECONSTRUÇÃO DA TEORIA DO FATO JURÍDICO DE PONTES DE MIRANDA THE NEW RIGHTS GENERATED BY NANOTECHNOLOGICAL REVOLUTION AND THE RECONSTRUCTION OF THE THEORY OF LEGAL FACT OF PONTES DE MIRANDA

Wilson Engelmann1

RESUMO: Está em andamento uma revolução em escala sem precedentes: a nanoescala, a qual poderá ser representada pela notação científica 10-9. Os efeitos positivos e negativos ainda são pouco conhecidos. Por conta disso, os marcos normativos ainda não existem, mostrando-se um desafio para o Direito. A Teoria do Fato Jurídico de Pontes de Miranda é um modelo estrutural presente em todos os ramos do Direito, embora tenha sido criado especialmente para o Direito Privado. Essa teoria se mostra inadequada para dar conta dos novos direitos e dos deveres provenientes das nanotecnologias. Propõe-se a adoção do diálogo entre as fontes do Direito, em que as normas nacionais e internacionais possam interagir para albergar as novas situações, conferindo-lhes efeitos jurídicos adequados constitucional e convencionalmente. A ideia da organização das normas em uma estrutura piramidal será substituída por formas horizontais de disposição das diversas fontes, que poderão ser movimentadas como se fossem anéis flexíveis e abertos para a formatação do jurídico com a utilização do poder discricionário de forma responsável e criativa. Palavras-chave: Nanotecnologias. Novos direitos. Teoria do Fato Jurídico. Fontes do direito. ABSTRACT: There is a revolution on an unprecedented scale in progress: the nanoscale, which can be represented by the scientific notation 10-9. The positive and negative effects of this revolution are still poorly understood. Because of this, the legal frameworks do not exist yet, being a challenge to Law. The Theory of Legal Fact of Pontes de Miranda is a structural model present in all branches of Law, although it has been created especially for Private Law. This theory shows to be inadequate to account for the new rights and duties arising from nanotechnology. It is proposed the adoption of a dialogue between the sources of Law, in which national and international standards can interact to accommodate new situations, giving them constitutionally and conventionally adequate legal effects. The idea of ​​organizing the rules in a pyramidal structure will be replaced by horizontal forms of arrangement of the several sources, which can be handled as if they were open and flexible rings for formatting Law with the use of discretion in a responsible and creative form. Keywords: Nanotechnology. New rights. Theory of Legal Fact. Sources of law.

1 Doutor e Mestre em Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da UNISINOS/RS. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Professor do referido Programa no Mestrado e no Doutorado.

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1 INTRODUÇÃO Produtos dos mais variados setores, que estão disponíveis ao consumidor, já são produzidos na escala nano. Nos laboratórios, as pesquisas continuam em processo acelerado de desenvolvimento. As indústrias apostam nessas novidades, buscando incrementar o seu lucro, considerando o valor agregado que as nanotecnologias poderão proporcionar. Os cientistas ainda não chegaram a um consenso sobre a metodologia mais apropriada para a aferição dos potenciais riscos que essa produção e a comercialização poderão gerar nos trabalhadores, consumidores e no meio ambiente. Os marcos normativos ainda não existem. Há um debate global sobre esse tema, mas, considerando a falta da referida metodologia e a ausência de um inventário sobre o número de nanopartículas que já existe, o estabelecimento de regulação provavelmente não será muito simples. O Direito, como um representante das Ciências Humanas, parece estar indiferente aos efeitos – positivos e negativos – da revolução promovida pelas nanotecnologias. É preciso trazer para o Direito a inovação que está em desenvolvimento nas Ciências Exatas. Portanto, este artigo objetiva trazer alguns detalhes acerca das nanotecnologias e como elas exigirão modificações na produção do jurídico. Assim, faz-se necessária a revisão da Teoria do Fato Jurídico, formulada por Pontes de Miranda, especialmente na configuração do suporte fático e no modo como se viabilizam a incidência e a interpretação da produção do jurídico, a fim de albergar os novos direitos e deveres que estão emergindo a partir das descobertas na escala nanométrica. A teoria das fontes do Direito precisará ser revisitada, flexibilizando-a por meio do diálogo entre elas. O tema é relevante e necessário, tendo em vista a necessidade de integrar o Direito no caminho inovador e desafiador gerado pelas nanotecnologias. Tendo em vista esses objetivos e a justificativa, o artigo pretende responder ao seguinte problema: sob quais condições a revisão da Teoria do Fato Jurídico, conforme planejado por Pontes de Miranda, poderá ser suficiente e adequada para dar conta dos novos direitos e deveres gerados a partir das nanotecnologias e trazer a inovação para a construção das estruturas do jurídico? Esse é um problema que se apresenta para todo o Direito, mas poderá ser examinado a partir da Teoria do Fato Jurídico formulada por Pontes de Miranda, como âncora central do seu Tratado de Direito Privado. Como o próprio Pontes de Miranda admite, a sua formulação não se aplica apenas ao Direito Privado, mas também sustenta a construção do jurídico na seara do Direito Público.

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Portanto, parece ser uma teoria paradigmática para se estudar a necessidade de revisão do modo de construção do jurídico no Direito como um todo. Desde essa perspectiva, mostra-se a importância dessa teoria e necessidade de sua remodelação, a fim de assegurar uma vida mais longa e efetiva ao Direito.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Está em andamento uma revolução tecnológicocientífica desenvolvida numa escala pouco conhecida, mas com possibilidades e potenciais sem precedentes. Trata-se da construção de coisas na escala nano, ou seja, na bilionésima parte do metro (ENGELMANN, 2011). “A nanotecnologia é uma [nova] área do conhecimento humano muito recente, que é transversal, promissora, inter/multi e transdisciplinar, em célere expansão, com potencial de inovação e transformação do século 21” (BINSFELD, 2011, p. 90). Aqui se pode verificar um indicativo para a necessidade de inovação também no Direito, especialmente no modo como se atribui o efeito jurídico aos fatos sociais: as nanotecnologias, já que a escala nanométrica permeia diversas tecnologias, são uma nova possibilidade científica e industrial, com inéditos benefícios e riscos, considerando as interações físico-químicas com características diferentes daquelas produzidas em escalas maiores; não se trata de uma “descoberta científica” que ficará atrelada a uma área do conhecimento, mas envolverá todas as caracterizadas até o momento, cada uma delas com contribuições e olhares específicos; o Direito terá um papel relevante, na medida em que os marcos normativos estão todos para serem construídos; haverá influências em todos os ramos do Direito, sendo necessária uma efetiva (r)evolução na conformação dos efeitos jurídicos; o Direito precisa aprender a lidar e interagir com as demais áreas do conhecimento, especialmente as “Ciências Duras”, para entender o fenômeno nanotecnológico; verificase uma dificuldade significativa em desenvolver os marcos regulatórios, pois nem mesmo as áreas exatas e/ou tecnológicas conhecem todas as possibilidades e os riscos que o trabalho na nanoescala poderá gerar; não há consenso ou uniformidade com relação à metodologia para realizar essas avaliações. E mais do que isso, [...] O princípio básico da nanotecnologia molecular é a edificação de nanomateriais (nanofios, nanotubos,

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nanoencapsulados, pontos quânticos, os fulerenos, dendrímeros e materiais com nanoporos), úteis para a vida, a partir de nanopartículas, átomos e elementos naturais que tenham propriedades físicas e químicas completamente distintas dos elementos naturais, devido aos efeitos quânticos. (BINSFELD, 2011, p. 90).

A nanoescala sempre existiu na natureza. No entanto, o ser humano agora consegue visualizá-la e reproduzi-la em laboratório graças ao desenvolvimento de equipamentos especiais. Portanto, outro desafio é a produção artificial de nanoestruturas que, ao interagirem com o meio ambiente e o ser humano, poderão produzir efeitos tóxicos, muitos dos quais ainda desconhecidos. De qualquer modo, configura-se uma efetiva intromissão humana na criação de coisas. A partir de Eric Drexler, a história da nanotecnologia é contada por meio da perspectiva de promessas e sonhos, visões e expectativas: [...] Os seres humanos são muito ruins, muito precários na fabricação de coisas. [...] Quando conseguirmos ficar bons nisso, os resultados serão revolucionários. [...] Com controle de precisão em nível atômico, a física nos diz que conseguiremos construir computadores com capacidade mil vezes superior, consumindo menos de 1/100.000 daquela energia, com cerca de um milionésimo do peso e uma fração minúscula do custo. (DREXLER, 2009, p. 46-47).

No entanto, essas possibilidades não são construídas isoladamente e o domínio dessa tecnologia é complexo e emergente, sendo operacionalizado com a participação de diversos atores, conectados em rede e tornando os efeitos da globalização ainda mais marcantes. Tudo isso influirá sobre a formatação da Teoria do Fato Jurídico, nos moldes planejados por Pontes de Miranda, exigindo respostas sofisticadas e também complexas, mesclando a ordem interna e a externa sem precedentes na História do Direito. O que chama atenção nas proposições de Drexler é o foco exclusivo nas “Ciências Exatas ou Duras” para esboçar o caminho da “revolução tecnológica” chamada de nanotecnologia: a necessidade [...] de parceria global para o desenvolvimento, com uma parceria que dê atenção cada vez maior a moléculas, a tecnologias moleculares e a máquinas em nanoescala; e a objetivos que posam ser alcançados mediante a coordenação de cientistas e engenheiros visando fazer componentes que se juntam para fazer sistemas. (DREXLER, 2009, p. 55).

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O desafio para o Direito parece ter chegado: deverá tomar lugar na construção dessa “revolução tecnológica”, sob pena de perder o seu lugar na história. Um início que se propõe neste artigo é revisar ou reconstruir a Teoria do Fato Jurídico de Pontes de Miranda, pela importância que ocupa no cenário jurídico brasileiro. Na teoria pontesiana, “o fato jurídico provém do mundo fático, porém nem tudo que o compunha entra, sempre, no mundo jurídico. [...], a regra jurídica discrimina o que há de entrar e, pois, por omissão, o que não pode entrar. Donde o cuidado que se há de ter na determinação do suporte fático de cada regra jurídica” (PONTES DE MIRANDA, 1977, tomo II, p. 183, § 159). O “mundo fático” está cindido do “mundo jurídico” e o primeiro somente poderá ingressar no segundo se houver previsão no suporte fático, previamente desenhado na regra jurídica. As possibilidades geradas por meio das nanotecnologias (o “novo”, o “não previsto”) não poderiam ingressar no “mundo jurídico”, pois não consagradas preliminarmente no suporte fático, ao menos até o momento, de nenhuma regra jurídica. O que ainda não está definido pelas “Ciências Duras” terá dificuldade de ser acomodada pelas “Ciências Humanas”, especialmente no Direito. Assim, a perspectiva de Pontes de Miranda “[...] por falta de atenção aos dois mundos muitos erros se cometem e, o que é mais grave, se priva a inteligência humana de entender, intuir e dominar o direito” (PONTES DE MIRANDA, 1983, tomo I, p. 3-4, § 1), mostra-se inadequada para a compreensão e a produção do jurídico no século XXI. Embora seja uma teoria forjada no início do século XX e adequada aos seus pressupostos epistemológicos, agora ela dá sinais de incapacidade para albergar os direitos e os deveres gerados pela Revolução Nanotecnológica. Na linha de Pontes de Miranda, no contexto da citada dicotomia, a noção de “suporte fático” ganha centralidade: “[...] O que por ela [a regra jurídica] previsto e sobre o qual ela incide é o suporte fático, conceito da mais alta relevância para as exposições e as investigações científicas” (PONTES DE MIRANDA, 1983, tomo I, p. 3, § 1). Os fatos da vida que poderão ingressar no mundo do Direito sempre são desenhados previamente, pois, “[...] quando se trata de fatos jurídicos, a sua substância reside nos dados essenciais que integram o seu suporte fático, tal como descritos nas normas jurídicas” (MELLO, 2010, p. 117). Pode-se dizer que aquilo que poderá vir a ser jurídico já deve ter sido inscrito anteriormente na caracterização do suporte fático da regra jurídica (para usar a linguagem pontesiana). Isso gera uma consequência definitiva:

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“Assim, é importante salientar não ser possível, ao intérprete, acrescentar ou excluir elementos ao suporte fático para configurar o fato jurídico, sob pena de errar” (MELLO, 2010, p. 131). A dinâmica da vida humana na sociedade atual – pós-moderna – não apresenta sintomas dessa previsibilidade, as pessoas não nascem trazendo “manuais de conduta”. Pelo contrário, há ações e reações a partir dos próprios movimentos dos demais atores sociais e isso é cada vez menos previsível. Talvez, por conta disso, em vez de se revisar a Teoria do Fato Jurídico, seja mais adequado reconstruir essa teoria, a fim de se promover a sua efetiva aproximação com os fatos da vida que serão cada vez mais inéditos, promovendo o nascimento de novos direitos e deveres, como: a) a juridicização dos fatos jurídicos: olhando especificamente para o “ato de criação” de coisas a partir da nanoescala: poderse-ão juntar átomos e moléculas e construir o que o ser humano quiser ou, pelo caminho contrário, partir de partículas maiores e ir descendo até o menor, formatando o que a capacidade inventiva humana puder planejar. Aí a própria noção de ato-fato jurídico deverá ser remodelada; b) o conceito de ilícito: em que se poderá lançar, por exemplo, a responsabilidade sem dano, a geração do dano sem culpa, a questão do limite da ética científica nesse cenário, a questão referente ao dano às futuras gerações; c) a juridicização do risco, o próprio risco do desenvolvimento; d) a redução à escala nano muda as características das coisas, isso implica uma mudança na Teoria dos Bens, refletindo sobre a questão da propriedade, pois novas “coisas” poderão ser criadas em laboratórios e fábricas; e) o conceito de norma jurídica, albergando os princípios. Quando Pontes de Miranda redigiu o seu Tratado de Direito Privado, a concepção relativa aos princípios não tinha a força normativa que tem na atualidade. Para tanto, em vez do “diálogo das fontes”, projetado por Cláudia Lima Marques, será necessária uma ação estrutural mais ousada: o “diálogo entre as fontes do Direito”. É chegada a hora de valorar as lições de Introdução ao Estudo do Direito e de Teoria Geral do Direito, trazendo à tona o tema e o exercício das Fontes do Direito, embora se saiba, desde há muito tempo, que a lei é apenas a fonte mais importante, se ainda poderá ser assim, mas sem a devida valoração das demais fontes do Direito. O diálogo entre as fontes do Direito pretende sair da forma escalonada ou piramidal de organização das fontes jurídicas. Ainda se vislumbra o Direito a partir “da grande pirâmide”, projetada por Hans Kelsen, em que “[...] uma norma, desde o ponto da etimologia, é algo que está fixado para proporcionar um padrão (estándar) mediante

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o qual se julguem outras coisas; uma norma é algo ao que deve conformar-se” (RIDDALL, 2008, p. 1534). Se fosse apenas essa perspectiva, seria possível incluir todas as fontes do Direito. No entanto, Kelsen coloca outra condição: “[...] em qualquer sistema jurídico se podem considerar válidas as normas que o formam se se pressupõe a validade da norma básica e original (que Kelsen chama Grundnorm)”. Com isso, “se o sistema de normas é visualizado em forma de pirâmide, com a Grundnorm situada no ponto mais elevado, poderia apreciar-se que desde este ponto mais elevado as normas se apresentam menos gerais e mais específicas”. A validade das normas inferiores depende de uma norma que lhe seja superior. Há uma hierarquia entre as normas e uma dependência da existência de uma norma superior. Por conta disso, “[...] a validade não tem nenhuma relação com o conteúdo da lei. Uma lei (ou como prefere Kelsen, uma norma) é válida, porque foi criada mediante um processo determinado” (RIDDALL, 2008, p. 15764). A relação entre o conteúdo e a forma também aparece na proposta de Pontes de Miranda, a partir do momento em que a produção do efeito jurídico depende da previsão das características do fato social no suporte fático. Se faltar um elemento, a norma não incide, e a juridicização não se dá. Em certa medida, tal fenômeno se dá pela seguinte constatação: “justamente por ser legal e formal, o direito estatal moderno cai e sempre se sepulta em um texto. [...] O direito se converteu em uma realidade duríssima e rigidíssima; reduzido a um admirável sistema, é lógico, certo, claro, portanto inevitável” (GROSSI, 2010, p. 801). É justamente por todas essas características que o Direito é incapaz de dar conta dos inéditos movimentos propostos pelas nanotecnologias. Dessa forma é que se propõe o diálogo entre as fontes do Direito, com a substituição da pirâmide, em que as normas estão dispostas verticalmente, por uma figura, ainda sem denominação mais específica, em que as normas sejam dispostas horizontalmente, aproveitando-se as contribuições de diversas fontes concomitantemente, sendo o desenho do suporte fático suportado a partir desse diálogo, permeado pelos princípios e irrigado substancialmente pelos Direitos Naturais-HumanosFundamentais, amalgamados, por exemplo, no art. 5º e seus incisos, da Constituição da República do Brasil de 1988. No diálogo entre as fontes do Direito, também recebem um novo colorido as “normas internacionais”, especialmente os Tratados e as Convenções que tratem de Direitos Humanos. Segundo Mireille Delmas-Marty, é necessário operar a “recomposição de uma paisagem” (2004, p. 1). A

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autora francesa será utilizada para fundamentar a estruturação do mencionado diálogo entre as fontes, e não simplesmente um “diálogo das fontes”, em que se conecta apenas uma lei a outra, a fim de resolver algum caso de antinomia jurídica. É preciso inaugurar a fase das “fontes evolutivas”, ou seja, “[...] renunciar ao passado do costume e ao futuro das leis para situar resolutamente as fontes do Direito no presente, por natureza instável” (DELMAS-MARTY, 2004, p. 65). Sem deixar de se escutar a voz da tradição, anunciada, por exemplo, pelos costumes, será necessário deslocar e ressignificar o papel da lei como fonte do Direito. Para que ele continue a desempenhar o seu papel de fornecer as regras (ou os parâmetros normativos) que devem orientar a conduta das pessoas em sociedade, precisará operar uma efetiva recomposição na sua paisagem, aqui entendida como a Teoria do Fato Jurídico: “[...] a paisagem ainda inscrita em nossas memórias não desapareceu, mas seus componentes se dispersaram. [...]” (DELMAS-MARTY, 2004, p. 4). As “promessas e os dissabores do positivismo jurídico” ainda estão presentes na tradição e na atuação jurídica de muitos juristas. Desvencilhar-se deles é uma tarefa difícil, embora muitas das suas características já tenham demonstrado as suas fragilidades. Assim, surge um modelo que parte de um fenômeno tríplice: [...] de retirada de marcos, de surgimento de fontes novas que acabariam relegando o Estado e a lei à categoria de acessórios e de deslocamento das linhas, modificando o plano de composição, de modo que as pirâmides, ainda inacabadas, fiquem cercadas de anéis estranhos que escarnecem do velho princípio de hierarquia. (DELMAS-MARTY, 2004, p. 4).

Esses três movimentos se encontram na base do diálogo entre as fontes do Direito, que serão colocadas umas ao lado das outras, em vez de umas sobre as outras. Em vez de se colocar a Constituição da República, que, nesse modelo, deverá ser lida a partir da interação com as normas internacionais, especialmente aquelas relacionadas aos Direitos Humanos, o texto constitucional passa a ocupar um lugar central, por onde deverão passar todas as respostas jurídicas criadas pelo diálogo interfontes. Ela (a Constituição) será o referencial para a conformação do suporte fático. Assim, será feito um controle de constitucionalidade acompanhado pelo chamado “controle de convencionalidade”, desenhado a partir da aproximação da resposta jurídica com as Declarações Universal e Regionais de Direitos Humanos, além do olhar às decisões das Cortes Internacionais de

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Direitos Humanos. Os movimentos desencadeados para a estruturação da juridicidade da resposta poderão ser comparados “[...] à imagem do anel [que] introduz a ideia de uma interação que não acarreta forçosamente o desaparecimento de todas as hierarquias, mas, antes, o enredamento delas e, por isso mesmo, o aparecimento de novos modos de geração do direito” (DELMAS-MARTY, 2004, p. 98). A visão do anel desencadeia o próprio movimento pretendido pelo diálogo, algo que poderá fluir entre diversas fontes, passando e repassando diversas vezes pelos controles acima mencionados. Com isso, assegurar-se-á uma resposta jurídico-constitucional-convencional.

3 METODOLOGIA Utilizar-se-á o método fenomenológicohermenêutico, orientado a partir das contribuições de Martin Heidegger e Hans-Georg Gadamer. Esse método parte do pressuposto de assegurar certa dose de liberdade ao pesquisador na construção das estruturas de sua investigação. Viabiliza uma aproximação entre o sujeito (pesquisador) e o objeto da pesquisa. A escolha do objeto integra o mundo onde se encontra o pesquisador. Daí o fenômeno. Não há cisão entre esses dois componentes. A escolha do objeto se deve a esse aspecto, fazendo parte do contexto do investigador, que lhe atribui sentido. O caráter hermenêutico: “[...] a palavra ‘fenomenologia’ exprime uma máxima que se pode formular na expressão: ‘às coisas em si mesmas!’ – por oposição às construções soltas no ar, às descobertas acidentais, à admissão de conceitos só aparentemente verificados, [...]” (HEIDEGGER, 2002, § 7, p. 57). Esse é o ponto. A pesquisa orienta-se a partir das questões pertinentes às nanotecnologias e suas interfaces (necessárias) com o Direito, que são vivenciadas pelo pesquisador. Não estão descoladas da sua vivência e conectam-se com o mundo da sua vida. Essa vivência é projetada no horizonte do tempo: “[...] a partir daí toda e qualquer investigação fenomenológica compreende-se como investigação da constituição de unidades da e na consciência do tempo, as quais pressupõem, por sua vez, a constituição dessa consciência temporal. [...]” (GADAMER, 2002, § 249, p. 372). O pesquisador encontra-se inserido no mundo onde a revolução nanotecnológica está instalando os seus efeitos. O pesquisador está no mundo e pretende atribuir sentido para os movimentos necessários para que o Direito possa dar a sua melhor contribuição, desempenhando a sua função social, na normatização possível e adequada, visando a salvaguardar o ser

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humano e o meio ambiente. Além desse método de abordagem, serão utilizados como métodos de procedimento os métodos histórico, comparativo e estudo de caso. Como técnica de pesquisa principal, será manejada a pesquisa bibliográfica.

4 DESENVOLVIMENTO Pelos aspectos vistos, a lei não ocupará mais o papel de soberana das fontes do Direito, devendo aceitar a emergência de outras fontes. O tríplice fenômeno (retirada de marcos, o surgimento de fontes e o deslocamento das linhas) é necessário e servirá como ferramenta para atualizar a proposta construída por Pontes de Miranda, por meio do diálogo entre todas as fontes do Direito. As nanotecnologias acabarão produzindo um “[...] universo de eventos que, à beira da incompreensão, sugere estar apartado de qualquer possibilidade de controle [...]. Esta constatação implica, para a ótica jurídica, a compreensão de que o direito precisa ressignificar-se em face de toda esta gama de informações e demandas deflagradas pelas céleres mudanças do corpo social” (FACHIN, 2012, p. 41). Há uma grande variedade de aspectos que estão exigindo novas formas de regulamentação da sociedade. Os juristas (aqui considerados como todos os atores do Direito) estão demorando muito a perceber esse desafio. As diversas possibilidades – positivas e negativas – trazidas pelas nanotecnologias são incompatíveis com as estruturas do jurídico que ainda são praticadas. Ainda se opera dentro do seguinte cenário, o qual – embora tenha sido escrito apenas para o Direito Privado e dentro dele para o Direito Civil – servirá para refletir sobre a situação do Direito como um todo: “nos últimos dois séculos um sistema pretensamente neutro, calcado em abstratas categorias jurídicas, destinadas a um ser impessoal, com pretensões à perenidade, imprimiu formulação ao projeto de sustentação do Direito Civil” (FACHIN, 2000, p. 324). A construção da noção de regra jurídica e de sua acomodação nos elementos do suporte fático guarda uma íntima relação com esse sistema, o qual vai muito além da seara do Direito Civil, mas ainda é o manto de juridicidade que encobre todos os ramos do Direito. E mais: “o direito do homem sozinho, centrado numa hipotética autorregulação de seus interesses privados, e conduzido pela igualdade formal, serviu para emoldurar o bem acabado modelo” (FACHIN, 2000, p. 324). Fala-se em previsão abstrata, hipotética e preliminar de tudo que as pessoas poderão fazer em sociedade, conduzida pela noção de igualdade

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formal, que também não está preocupada com a vida concreta e a realidade cotidiana. Pelos contornos trazidos acerca das nanotecnologias, fica claro que esse modelo não serve mais, dando flagrantes sinais de incapacidade e de perda de espaço no cenário regulatório, pois, em relação às nanotecnologias, praticamente todas as áreas do conhecimento estão opinando sobre a regulamentação. Esse fenômeno seria saudável, se o Direito estivesse liderando o processo. No entanto, não é a realidade. Nesse ponto, verificase o perigo da perda de espaço do Direito como área do conhecimento por excelência de regulamentação e especificação dos meios de formatação dos efeitos jurídicos. Os sintomas de perda do espaço regulatório das novas questões emergentes de novos temas gerados pela sociedade já eram denunciadas por Franz Wieacker, que também mirava no Direito Privado, mas que, por conta da própria superação da dicotomia entre o Direito Público e o Direito Privado contemporâneo, poderão ser aproveitados para analisar a situação do Direito trazida pelos avanços das nanotecnologias. “Sem uma nova fundamentação das convicções jurídicas não existirá tão-pouco qualquer futuro para a história do direito privado europeu. As condições desta revisão constituem assim a questão mais candente do futuro do direito privado” (WIEACKER, 1993, p. 716). Como já referido, a nova fundamentação para a estruturação do jurídico está no diálogo entre as fontes do Direito e a conformação substancial conferida às respostas jurídicas por meio dos direitos naturais-humanos-fundamentais, trazendo à tona um conjunto de aprendizados gerados pela tradição histórica do ser humano e do seu Direito. Para isso se faz a proposição de “[...] substituir a imagem piramidal potestativa autoritária pela de um sistema de regras não postas uma sobre a outra, mas no mesmo plano, ligadas, uma com a outra, por uma relação de recíproca interconexão” (GROSSI, 2010, p. 83). Esse conjunto, em formato de uma rede, inicia pela constatação dos direitos naturais – marcados à própria passagem do Estado de natureza para o Estado Civil, numa concepção hobbesiana, passando pela sua consagração, especialmente, na Declaração Universal dos Direitos Humanos e, depois dela, em outros textos, especialmente os regionais, até se chegar à constitucionalização desses direitos, fazendo emergir os direitos fundamentais. No caso das nanotecnologias, em decorrência das dificuldades já apontadas, não será a regulamentação tradicional – legal – a solução que o Direito deverá entregar. Talvez seja o momento da adoção de “programas de cumprimento” voluntário de normas já existentes, embora não diretamente

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relacionados à escala nano. Quer dizer, o diálogo entre as fontes do direito projeta-se nesses programas que deverão enlaçar todos os atores sociais que poderão ser atingidos pelos efeitos das nanotecnologias. Será necessária uma “força normativa”, que permeia uma integração entre hard e soft law, sem entrar no mérito dessa dicotomia, buscando viabilizar uma corporate social responsability, por meio de uma mudança na mentalidade das organizações, ou seja, promover um código de boas práticas, assentadas numa atitude precaucional, que leve em consideração as atuais e futuras gerações de seres vivos sobre a Terra (GORGONI, 2011, p. 371-83). Esses são alguns pressupostos para a construção do diálogo entre as fontes do Direito, suportados pelo princípio da solidariedade, “[...] ou seja, da responsabilidade, não apenas dos poderes públicos, mas também da sociedade e de cada um dos seus membros individuais, pela existência social (e mesmo cada vez mais pelo bem-estar) de cada um dos outros membros da sociedade” (WIEACKER, 1993, p. 718). Portanto, com essa passagem, verifica-se que não deverá haver preocupação com a dicotomia entre o público e o privado, mas todos são responsáveis pelo alinhamento do Direito, além do respeito incondicional das suas diretrizes e normas. Outro aspecto que deverá ser examinado diferentemente se refere à legitimação, que não estará mais “[...] em uma única fonte suprema identificada em quem detenha o poder supremo político, mas, na maioria das vezes, em um modo espontâneo daquela realidade variada e móvel que é o mercado” (GROSSI, 2010, p. 83-84). Não se pensa em defender a questão simplesmente mercadológica. Sugere-se a leitura da expressão “mercado” como o conjunto das relações coordenadas entre os diversos atores que operam na sociedade, especialmente com os contornos da globalização. E mais. A legitimação se promoverá pelo conteúdo – o respeito aos Direitos (dos) Humanos, a partir da sua vertente histórica cravada na raiz mais profunda da sua gênese, que é o Direito Natural –, e não pela presença da autoridade ou do poder, com um viés simplesmente formalista. Será preciso assumir o desafio assim delineado: “hoje, o jurista vive um momento fértil e difícil: fértil, porque seu papel é por demais ativo e estimulador; e difícil não somente pelas graves responsabilidades que pesam sobre suas costas, mas também pelo extenso quociente de incerteza que envolve sua ação cognitivoaplicativa” (GROSSI, 2010, p. 86). Esta é a questão: é preciso sair do castelo da certeza, que não possibilita a visualização completa da realidade que se apresenta ao jurista e ao Direito, a fim de se lançar num espaço de incerteza, mas com a probabilidade de vislumbrar

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o cenário novo e desafiador que a criatividade humana está desenhando por meio da tecnociência e que precisará ser albergado pelo Direito.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A Constituição Federal, nesse espaço, deverá ser considerada como uma “autoridade moral”, em condições de fundamentar a validade constitucional das respostas obtidas no diálogo entre as fontes, o qual tem como condição de possibilidade a linguagem. O Direito e a produção do jurídico não poderão se contentar com a previsão abstrata das regras jurídicas e dos pressupostos do suporte fático. É preciso interagir com a realidade social que está subjacente a qualquer regulamentação, prestando atenção às transformações locais e globais, colocando em primeiro plano as “coisas humanas”. Portanto, parafraseando Carlos María Cárcova, que refere a opacidade do Direito decorrente do desconhecimento das normas jurídicas, pretendese insistir numa opacidade do Direito no sentido do desconhecimento das efetivas potencialidades das fontes do Direito. E mais: o desconhecimento do emaranhado de fontes hoje existentes, muitas delas especificadas pelos avanços da globalização e do surgimento de novos centros produtores de normatividade. O Direito não deverá ser opaco e sem movimento; pelo contrário, ele deverá ser colorido e vibrante, abrindo os seus braços para abraçar os novos direitos e deveres gerados pela sociedade. É preciso dar-se conta de que o desenvolvimento tecnológico que habilita outras formas da comunicação humana; comunicação que acelera e transforma os fluxos, produzindo impacto nas percepções e nos processos cognitivos; circulação do poder e do controle; risco e possibilidade, eis aqui outras dimensões da complexidade na qual estamos imersos e que supõe desafios de natureza muito diversa, entre outros, desafios para as conhecidas estruturas institucionais e para as formas tradicionais de regulamentação das relações sociais (CÁRCOVA, 1998, p. 175).

Esta é a situação do Direito na atualidade: está sendo desafiado como área de conhecimento e também em seu aspecto intrínseco, na estruturação e no modo de construir e elencar os modos de atribuir efeitos jurídicos aos novos riscos e às possibilidades produzidos em escala nano. Substituindo-se a pirâmide pela disposição horizontal das fontes do Direito, enlaçadas umas às

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outras por meio de anéis, em que os movimentos de comunicação ocorrem de forma muito mais fluida e rápida, permitem-se respostas jurídicas adequadas e em sintonia com os valores de uma sociedade que é local e global ao mesmo tempo. Nessa figura, igualmente, não há preocupação de estabelecer os elementos do suporte fático previamente, mas, pelo contrário, que tenham sintonia com os direitos naturais-humanosfundamentais. O diálogo entre as fontes do Direito, em que, pelo movimento anelar constante de ir e vir entre as fontes, conduzidas pelo fio da solidariedade social, o qual é animado pela sintonia entre os três níveis de direitos, pode trazer a seguinte composição para a geração do Direito (DELMAS-MARTY, 2004, p. 1167): a) “a predeterminação, que remete às condições de emissão da norma, ao legislador em sentido lato”: veja-se que aqui não se pensa num Direito estritamente estatal, mas em uma abertura suficiente larga para o ingresso das outras fontes do Direito e dos seus atores de criação; b) “a co-determinação: que resulta da margem deixada ao receptor a quem cabe aplicar a norma, ao juiz no sentido lato”: a norma receberá a atribuição hermenêutica do sentido, a partir do confronto com as características do caso concreto, conferindo-se ao aplicador, que não se restringe ao juiz, uma margem criativa e responsável de discricionariedade para a construção da resposta jurídica; c) “a sobredeterminação, ou seja, o código de valores que se impõem no campo jurídico, tanto ao legislador como ao juiz, código cultural implícito ou ‘uma lei que se expressa em silêncio’”: vale dizer, um “código” que esteja em consonância com os princípios, valores e direitos naturais-humanos-fundamentais, numa conjugação substancial que deverá ser mergulhada no controle de constitucionalidade e no controle de convencionalidade. Essa “lei que se expressa em silêncio” carrega consigo os gritos da tradição e da aprendizagem da experiência, mostrando a relevância da flexibilidade dos anéis, a viabilizar os movimentos de diversos formatos até se encontrar a solução mais adequada ao respeito com os seres vivos e o meio ambiente. Esse é o formato de uma nova Teoria do Fato Jurídico, em condições de responder e assegurar uma implantação juridicamente aceitável dos desafios, dos riscos e das possibilidades – novos direitos e deveres – carregados pelas nanotecnologias. Essas são as condições, numa construção preliminar, para que o Direito possa dar conta dos novos direitos e deveres gerados pela Revolução científico-tecnológica operada pela possibilidade humana de acessar a escala nano. Portanto, será preciso desconstruir o forte jurídico da certeza, para que o Direito possa

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acompanhar a caminhada da inovação iniciada pelas Ciências Exatas, promovendo a sua renovação, ainda que seja pelo caminho da incerteza e sem o abrigo da fortaleza da precisão jurídica defendida pelo positivismo jurídico, notadamente pela vertente legalista.

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INOVAÇÃO NAS EMPRESAS A PARTIR DE PROJETOS COLABORATIVOS INNOVATION IN FIRMS FROM COLLABORATIVE PROJECTS

Ana Carolina Kayser1 Dusan Schreiber2

RESUMO: A realização de projetos colaborativos entre empresas, universidades e governos tem sido discutida amplamente nessas três esferas nos últimos anos. Com o intuito de contribuir para a análise dessa questão, foi realizado este estudo com base em conceitos centrais nesse processo, quais sejam: a inovação, o processo de inovação aberta, as redes colaborativas e a interação colaborativa empresa – universidade, com a participação do governo nesse processo. Foi realizada uma entrevista semiestruturada com o proprietário de uma empresa que atualmente desenvolve projetos colaborativos. Os dados foram analisados descritivamente, por meio da análise do conteúdo, relacionando os dados com os conceitos abordados na revisão bibliográfica. Destaca-se como hipótese principal a relevância da colaboração entre as organizações como a alternativa mais viável, em termos de custo, tempo e resultado final, para facultar a introdução das práticas organizacionais com foco na inovação, no ambiente organizacional. Dentre as conclusões mais relevantes deste estudo, pode ser citada a importância da cultura organizacional com foco na inovação. Para dar continuidade a esta pesquisa, recomenda-se a realização de mais entrevistas em profundidade, com um número maior de empresas, com o intuito de fazer comparativos e cruzamento dos dados para a obtenção de resultados mais consistentes sobre a prática do desenvolvimento de projetos colaborativos interorganizacionais. Palavras-chave: Inovação. Projetos colaborativos. Relações interorganizacionais. Interação universidade – Governo – Empresa. ABSTRACT: The performance of collaborative projects between companies, universities and governments has been widely discussed in these three spheres in recent years. In order to contribute to the analysis of this question, this study was conducted based on central concepts in this process, which are: innovation, innovation process open, collaborative networks and collaborative interaction company - university, with the participation of government this process. We conducted a semistructured interview with the owner of a company that currently develops collaborative projects. Data were analyzed descriptively by means of discourse analysis, correlating the data with the concepts discussed in the literature review. It stands out as the main hypothesis of the relevance of collaboration between organizations as the most viable alternative in terms of cost, time and outcome, provide for the introduction of organizational practices with a focus on innovation, organizational environment. Among the most significant findings of this study may be cited the importance of organizational culture focused on innovation. To continue this research, it is recommended to perform more in-depth interviews with a larger number of companies, in order to make comparative and cross data to obtain more consistent results on the practical development of collaborative projects interorganizational. Keywords: Innovation. Collaborative projects. Interorganizational relations. Interaction university - Government - Company.

1 Graduada em Administração de Empresas e no Programa de Formação Pedagógica de Docentes (Universidade Feevale). Participa do Programa de Aperfeiçoamento Científico da Universidade Feevale. 2

Doutor em Administração pela UFRGS, professor e pesquisador da Universidade Feevale.

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1 INTRODUÇÃO Apesar da priorização da inovação, dentro da concepção estratégica das organizações, notadamente no cenário econômico atual, caracterizado pela crescente complexidade, é possível constatar que a implantação dos processos internos com foco na inovação tem sido obstaculizada por vários fatores. Destarte emerge a questão que norteou o desenvolvimento da pesquisa que embasou a construção deste trabalho: “como as empresas procedem quando precisam inovar e percebem que não possuem todas as ferramentas e o conhecimento necessários a esse processo?” Com base em revisão teórica sobre o tema, foi possível destacar como hipótese principal a relevância da colaboração entre as organizações como a alternativa mais viável, em termos de custo, tempo e resultado final, para facultar a introdução das práticas organizacionais com foco na inovação, no ambiente organizacional. Percebe-se um crescimento da demanda para o desenvolvimento de projetos em parceria com universidades, fornecedores, clientes e parceiros, na maioria dos casos, estimulado pelo governo, sob a forma de benefícios fiscais e fomento à inovação. A hipótese também encontra respaldo em observações de natureza empírica decorrentes da vivência de um dos pesquisadores em processos de implantação de inovação e em projetos colaborativos interorganizacionais. Portanto, o objetivo desta pesquisa é identificar a prática da realização de projetos colaborativos com foco em inovação, a partir do estudo de caso único de uma empresa do Vale do Paranhana e de como ela pode se beneficiar da interação universidade-empresa, bem como caracterizar os modelos de rede colaborativa de que ela se utiliza para a promoção da inovação nos seus produtos, nos processos e na gestão. A análise fundamentou-se em evidências que emergiram da narrativa construída a partir da realização da entrevista em profundidade com o proprietário da empresa, que atualmente trabalha com foco na inovação. A pesquisa justifica-se pela relevância do tema inovação colaborativa no cenário econômico e social, tanto em nível acadêmico como empresarial e governamental. Por meio de inovação colaborativa, é possível obter benefícios para os agentes econômicos, a custos reduzidos, bem como promover o compartilhamento do conhecimento subjacente às práticas de inovação, com repaldo ao resposicionamento estratégico organizacional. O estudo está organizado da seguinte forma: primeiramente, apresenta-se o referencial teórico,

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em que são abordados os temas inovação (e inovação aberta), redes colaborativas, interação universidadeempresa e o modelo da tríplice hélice. Na sequência, são descritos os aspectos metodológicos do estudo e, posteriormente, a análise dos resultados, precedida de um breve histórico da empresa que serviu como estudo de caso. Para finalizar, seguirá com as considerações finais e as limitações da pesquisa.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Inovação É possível afirmar que a palavra de ordem na maioria das organizações, em especial das que operam em segmento industrial, é inovar. A partir dessa premissa, pode-se concluir que a inovação faz parte da realidade da maioria das organizações, estejam elas inseridas nos contextos educacional, empresarial ou governamental. É perceptível que nunca se falou tanto em inovação nos três ambientes antes mencionados, o que justifica, de certa forma, a concepção e a manutenção do conjunto de diversos incentivos, de natureza fiscal e financeira, disponibilizado por agentes públicos, com o objetivo de estimular a sua operacionalização. Em meio a tantos questionamentos e à demanda por inovação nas empresas, torna-se fundamental avaliar quais são os modelos de inovação que existem e como estão funcionando na prática. A inovação, definida por Schumpeter (1982) como um processo institucionalizado no qual a ciência e a tecnologia desempenham papel fundamental nas mudanças técnicas de processos e produtos, bem como nas formas organizacionais, ultrapassou, ao longo de décadas, as barreiras dos portões das empresas, alcançando as fronteiras dos demais atores da sociedade. É a chamada “inovação aberta”, conceituada por Chesbrough (2003) como “a combinação de idéias internas e externas”. São cada vez maiores os desafios e as mudanças enfrentados pelas organizações, principalmente as pequenas e as médias empresas, no exercício de suas atividades. A fim de se adaptarem aos ambientes cada vez mais competitivos, buscam compreender e adotar modelos de gestão que mais se ajustam aos seus negócios. Schumpeter (1982) afirmou, com base em seus estudos e suas reflexões, que o desenvolvimento econômico é alavancado pela substituição de antigas tecnologias por novas, cujo processo é denominado de “destruição criadora”. Ele defendia a ideia de que

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a abertura de novos mercados e o desenvolvimento organizacional, da oficina artesanal aos conglomerados, ilustram o mesmo processo de mutação industrial que incessantemente revoluciona a estrutura econômica, a partir de dentro, incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando a nova. Nessa perspectiva, Schumpeter (1982) considerou que processo de destruição criativa é elemento estruturante do sistema capitalista. Para Bessant e Tidd (2009, p. 374), “a inovação não é um ato solitário, mas um jogo de múltiplos participantes”. Seja um empreendedor que encontra uma oportunidade, seja uma empresa já estabelecida tentando renovar seus produtos e serviços ou melhorar seus processos, fazer com que a inovação aconteça depende do trabalho de diferentes participantes. Balestrin e Verschoore entendem que:

2.2 Inovação aberta Foi Chesbrough, em 2003, que utilizou pela primeira vez o termo inovação aberta, ou open innovation. Ele conceitua a inovação aberta como sendo a combinação de ideias internas e externas, como também trajetórias internas e externas para o mercado, de modo a avançar o desenvolvimento de novas tecnologias. Os princípios da inovação aberta destacados por Chesbrough (2003) são os seguintes:

[...] a ciência e a tecnologia evoluem a passos tão rápidos que até mesmo as grandes empresas já não têm mais como pesquisar a totalidade das áreas do conhecimento que contribuem para a melhoria e inovação de seus produtos. Neste sentido, não é mais possível controlar de ponta a ponta o processo de produção nem tentar reter dentro de suas fronteiras os recursos humanos disponíveis. (BALESTRIN; VERSCHOORE, 2008, p. 143).

• Nem todas as pessoas competentes trabalham para nós. Precisamos trabalhar com pessoas competentes dentro e fora da empresa; • P&D externo pode criar valor significativo e o P&D interno pode reivindicar uma porção desse valor; • Não temos que necessariamente criarmos a pesquisa para lucrarmos com ela; • Construir um modelo de negócio é melhor do que chegar primeiro ao mercado; • Ganharemos, se fizermos o melhor uso das ideias internas e externas; • Devemos lucrar com outros usos de nossas patentes e devemos adquirir outras patentes desde que contribuam para avançar nossos modelos de negócio.

Cada vez mais se trata de conexões entre empresas, desenvolvendo e fazendo uso de redes cada vez mais amplas. As empresas inteligentes sempre reconheceram a importância de ligações e conexões, aproximando-se de clientes ou consumidores para melhor compreender suas necessidades, cooperando com fornecedores para que disponibilizem soluções inovadoras, criando vínculos com colaboradores, centros de pesquisa e até concorrentes, com vistas à construção e à operação de sistemas em inovação (BESSANT; TIDD, 2009). Como os produtos se tornam cada vez mais modulares e o conhecimento é distribuído entre as organizações (BALDWIN; CLARK, 2000), as empresas reconheceram uma necessidade crescente de colaborar umas com as outras, tanto formal como informalmente (FISCHER; VERGA, 2002). De fato, o locus da inovação não é mais o indivíduo ou a empresa, mas, cada vez mais, a rede em que uma empresa está inserida (POWELL ET AL., 1996). Inúmeros tipos de parcerias são desenvolvidos, entre diversos atores econômicos, com destaque para a interação universidade – empresa – governo, objeto de pesquisa de autores como Sabato e Botana e Henry Etzkowitz.

De acordo com Bessant e Tidd (2009), a lógica da inovação aberta é que as organizações precisam abrir seus processos de inovação, fazendo amplas buscas fora de seus limites, trabalhando em prol do gerenciamento de um rico conjunto de conexões e relacionamentos em rede que se encontram disponíveis. Nesse sentido, a parceria representa uma parte padronizada e potencialmente valiosa da “caixa de ferramentas” da inovação. Cada tipo de parceria requer diferentes objetivos, indicadores de desempenho, resoluções de conflitos e governança (DAVILA; EPSTEIN; SHELTON, 2008). Esses autores relatam ainda que esse tipo de trabalho pressupõe o reconhecimento mútuo por parte das organizações integrantes da parceria das diferenças (por exemplo, em cultura, objetivos de negócios, indicadores de desempenho e incentivos). A superação das referidas diferenças exigirá de todas as empresas associadas muito planejamento e trabalho, para que consigam trabalhar em conjunto com razoável coesão. Por esse motivo, a questão cultural representa não apenas um desafio relevante, como também um tema de interesse para estudo da questão das redes e da inovação sob outra ótica.

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Considerando-se que as parcerias acabam gerando resultados diretamente proporcionais à suficiência de sua estrutura e gestão, fazendo com que a questão da parceria e da sua necessidade se destaque neste estudo, julga-se importante abordar, na sequência, o tema de redes colaborativas.

2.3 Redes colaborativas Bessant e Tidd (2009) identificaram as redes como as unidades de análise mais apropriadas para a compreensão do processo de inovação. “A inovação não é um ato solitário, mas um jogo de múltiplos participantes” (BESSANT; TIDD, 2009, p. 374). Seja um empreendedor que encontra uma oportunidade, seja uma empresa já estabelecida tentando renovar seus produtos e serviços ou melhorar seus processos, fazer com que a inovação aconteça dependerá, sempre, do trabalho de diferentes participantes. Balestrin e Verschoore entendem que: [...] a ciência e a tecnologia evoluem a passos tão rápidos que até mesmo as grandes empresas já não têm mais como pesquisar a totalidade das áreas do conhecimento que contribuem para a melhoria e inovação de seus produtos. Neste sentido, não é mais possível controlar de ponta a ponta o processo de produção nem tentar reter dentro de suas fronteiras os recursos humanos disponíveis. (BALESTRIN; VERSCHOORE, 2008, p. 143).

Cada vez mais se trata de conexões entre empresas, desenvolvendo e fazendo uso de redes cada vez mais amplas. Os gestores organizacionais mais competentes sempre reconheceram a importância de ligações e conexões. Apenas desta forma, aproximando-se de clientes ou consumidores para melhor compreender suas necessidades, cooperando com fornecedores para que disponibilizem soluções inovadoras, criando vínculos com colaboradores, centros de pesquisa e até concorrentes, com vistas à construção e operação de sistemas em inovação, a organização evolui (BESSANT; TIDD, 2009). Nessa ótica, os autores anteriormente citados identificaram as redes como as unidades de análise mais apropriadas para a compreensão do processo de inovação. Uma rede é tanto um processo quanto uma estrutura, que limita empresas e que, por sua vez, é moldada por elas. Nesses termos, a colaboração pode ser entendida como tentativa de cooperar com a crescente complexidade e inter-relação de diferentes tecnologias e mercados.

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Historicamente, redes desenvolveram-se a partir de relacionamentos de negócios existentes há muito tempo. Toda empresa tem um grupo de parceiros com o qual faz negócios regularmente, tais como fornecedores, distribuidores, clientes, concorrentes e até universidades. Ao longo do tempo, conhecimento mútuo e recorrentes contatos contribuíram para a consolidação dos vínculos sociais, aumentando a confiança e reduzindo os custos de transação, aumentando a probabilidade de aumento de intensidade de relações comerciais intrarrede, como, por exemplo, no caso de compra ou venda de tecnologia. As empresas podem acessar uma ampla gama de outras organizações por meio de relacionamentos diretos e indiretos, envolvendo diferentes canais de comunicação e graus de formalização. Frequentemente, isso inicia com um relacionamento mais forte entre uma empresa e um pequeno número de fornecedores principais, que compartilham conhecimento em estágio de desenvolvimento de conceito (BESSANT; TIDD, 2009). Em muitos casos, relações organizacionais podem ser provenientes de fortes relacionamentos pessoais entre indivíduos-chave em cada organização. Essas relações podem se expandir, na sequência, para redes completas de fornecedores secundários e terciários, cada um contribuindo para o desenvolvimento de um subsistema ou componente de tecnologia (BESSANT; TIDD, 2009). De acordo com Davila, Epstein e Shelton (2007), desenvolver, manter e utilizar relações fortes com organizações parceiras pode representar uma grande vantagem competitiva para qualquer empresa. As universidades são parceiras potencialmente valiosas nesse processo, pois constituem fontes de novas tecnologias e modelos de negócios com consideráveis oportunidades de mercado. Com isso, considera-se relevante aprofundar o tema da interação universidade-empresa na seção a seguir.

2.3 Interação universidade-empresa A Lei de Inovação é a primeira lei que trata do relacionamento entre a ICT (instituição de ciência e tecnologia) e a Empresa. Não que anteriormente esse relacionamento fosse vedado, mas a Lei veio a legitimar e traçar as primeiras diretrizes para estimular e viabilizar essa interação. Cabe salientar que as empresas precisam ter consciência, assim como acontece no universo acadêmico, que nem toda pesquisa leva a um resultado positivo. Esse é um risco que deverá assumir. Mas ela não precisa estar sozinha nesse processo, pois, para isso, as

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universidades possuem estruturas denominadas NIT’s – Núcleos de Inovação e Transferência de Tecnologia – para apoiar o desenvolvimento dos projetos. Terra (2001), ao fazer uma análise dessa colaboração, também entende que esse relacionamento é importante, uma vez que constatou que, para apoiar e administrar o processo de transferência de tecnologia e de conhecimento da área acadêmica para o setor industrial e para a sociedade em geral, foram surgindo, a partir dos anos 70, nas universidades americanas e brasileiras, órgãos genericamente denominados de escritórios de transferência de tecnologia (ETT’s). Esses escritórios em universidades eram unidades organizacionais criadas para administrar a transferência do conhecimento na interação universidade – governo – empresa, os NIT’s. As relações provenientes dessa interação, que podem ocorrer na cooperação governo – empresa, governo – universidade ou universidade – empresa, têm se expandido para incluir sempre um parceiro adicional: a universidade, a empresa ou o governo, respectivamente, formando uma hélice tríplice que representa a dinâmica das relações universidade – empresa – governo (TERRA, 2001). Por esse motivo, atualmente, existe um crescente número de empresas buscando a parceria com as ICT’s para a atividade de criação de produtos inovadores, que possam ser competitivos, e obter sucesso no mercado global. Os governos vêm procurando desempenhar um papel indutor nesse processo de criação, enquanto as universidades estão se transformando para adequar a produção de conhecimento às demandas regionais, com vistas aos objetivos nacionais. Essas ações definem o contexto Ciência e Tecnologia (C&T) no mundo (TERRA, 2001). No livro “Inovação e Cooperação Tecnológica” (2001), os autores constataram que existem muitos casos de empresas que apresentam níveis reduzidos de inovação tecnológica. Para superar a referida defasagem tecnológica, torna-se necessário realizar uma inovação. Assim, o industrial pode se dirigir aos laboratórios públicos para prospectar possíveis alternativas para resolver o referido problema. No entanto, é importante destacar a relevância do tempo de resposta e formulação de solução ao problema do empresário, pois, se a implantação da solução proposta demorar muito tempo, torna-se inviável a sua operacionalização. Esse é um dos principais desafios da interação universidade – empresa – governo, ou seja, respeitar o tempo de cada um e encontrar um equilíbrio entre eles, de modo a possibilitar a inovação em um prazo competitivo para a empresa.

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O processo de pesquisa tecnológica implica, para os cientistas, também combinar os conceitos e as teorias com a aplicação empírica. De fato, há um calendário a seguir, o qual, mesmo sendo seguido, não assegura os resultados propostos, pois o mercado muda constantemente e novas soluções e inovações são lançadas em nível global. No entanto, a atividade de pesquisa e desenvolvimento de soluções, a inovação, remanesce como única opção disponível, sendo, nesse sentido, a parceria com a universidade a alternativa mais viável para a maioria das organizações (INOVAÇÃO E COOPERAÇÃO TECNOLÓGICA, 2001). Esse processo corresponde a uma solicitação da sociedade. Logo, o pesquisador continua a fazer seu trabalho. Ele poderá publicar o que é publicável e também terá a satisfação de ver os resultados concretos de sua pesquisa, de seu grupo, de seu laboratório, o que permite avançar a competitividade em seu país (INOVAÇÃO E COOPERAÇÃO TECNOLÓGICA, 2001). Etzkowitz (2009) destaca que a universidade é uma fornecedora de pesquisa básica e pessoas treinadas. Seu papel, em conexão com a indústria, é o de prover conhecimento, principalmente na forma de publicações e graduandos, que trazem consigo conhecimentos tácitos para seus novos empregos. Também se espera que a indústria opere sozinha, com as empresas ligadas entre si pelas relações de mercado de compra e venda. Espera-se que exista uma competição intensa entre as empresas, com reduzidas opções de colaboração entre os concorrentes. Incentivar a universidade a assumir um papel mais amplo no desenvolvimento econômico e social é uma tendência política comum, sendo que alguns países tomam emprestadas ideias de programas e políticas dos outros (ETZKOWITZ, 2009). Nos países industrializados, a tríade C, T & I (Ciência, Tecnologia e Inovação) representa a busca de soluções competitivas para superar desafios, como o aumento dos custos de recursos naturais e matériasprimas. Já nos países em desenvolvimento, a política de inovação tem por objetivo primeiro reduzir o atraso social, econômico e tecnológico (LOTUFO, 2009). Lotufo (2009) afirma que o NIT está usualmente lidando como intermediário nos relacionamentos de instituições e atores com diferentes perspectivas e interesses. Esses conflitos decorrem de questões relacionadas à natureza e aos tempos da pesquisa básica e aplicada, da pesquisa acadêmica e das necessidades e expectativas de rápido retorno das empresas, da tensão entre objetivos comerciais e educacionais e entre interesses público e privado, institucional e individual.

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3 METODOLOGIA

4.2 Resultados

Quanto à sua natureza, este estudo configura uma pesquisa aplicada e, quanto aos objetivos, pode ser classificada como exploratória. As características dos objetivos do estudo orientaram a escolha da abordagem qualitativa, pelo nível de complexidade contextual que implica a coleta de dados e a identificação de evidências, de forma a confirmar ou refutar a hipótese levantada. Com base na mesma avaliação, optou-se pela realização de um estudo de caso único, o qual, de acordo com Yin (2001), é mais adequado a uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo em profundidade e em seu contexto de vida real. A coleta de dados foi realizada por meio de uma entrevista semiestruturada com o proprietário da empresa, no dia 03 de agosto de 2012. Os dados foram analisados de maneira descritiva, por meio de análise de conteúdo, relacionando os dados com os conceitos abordados na revisão bibliográfica. De acordo com Mozzato e Grzybovski (2011), a análise de conteúdo consiste numa técnica de análise de dados que vem sendo utilizada com frequência nas pesquisas qualitativas no campo da administração.

Com o objetivo de identificar as práticas de inovação realizadas pela empresa ALFA através de projetos colaborativos, os autores buscaram identificar as práticas de realização de projetos interorganizacionais por meio das afirmações do empresário ao longo da entrevista. Nesse sentido, foi possível perceber que o desenvolvimento de produtos inovadores é uma prática constante na rotina da empresa, com vários projetos em trâmite e outros tantos finalizados e em comercialização a partir de parcerias com fornecedores, empresas terceirizadas e com universidades. O empresário entende inovação como sendo prioritariamente inovação no produto, um produto diferente, um produto novo. Mas também percebe a relevância da inovação de marketing, da inovação no relacionamento com o cliente, com o fornecedor, nos próprios processos da empresa. O conceito utilizado por Schumpeter (1982) para definir a inovação é mais amplo, pela análise do fenômeno à luz da teoria econômica, da mesma forma como relataram outros autores, ao longo das últimas décadas, sendo possível interpretar, dessa forma, a partir do teor da entrevista, que a empresa introduz práticas organizacionais com foco na inovação. No entanto, percebe-se que nem sempre é necessário oferecer alto grau de inovação no produto, pois, às vezes, uma pequena mudança, por menor que seja, pode representar um diferencial relevante para o cliente. Poder-se-ia chamar inovação customizada, ou seja, inovações pontuais de acordo com a necessidade de cada cliente. É possível até mesmo desenvolver essa inovação com os próprios clientes. Chesbrough (2003) conceituou essa prática como “inovação aberta”, ao afirmar que esse processo é uma combinação de ideias internas e externas, o se aplica plenamente à empresa ALFA, com base na relação estabelecida com o seu cliente para atender determinada demanda. Muitas vezes, a concorrência não tem diferencial e, assim, as pequenas inovações, mesmo as consideradas de pequeno impacto, revelam ao mercado que a empresa está inovando. Mas isso é diferente de um grande projeto de inovação. A ALFA tem algumas ideias de produtos inovadores que acabam dando uma maior visibilidade para a empresa. Segundo o entrevistado, se for possível colocar a cada ano um desses produtos no mercado, ou a cada três anos, estará ótimo. Inovação, então, é vista pela empresa ALFA como sendo algo muito amplo, pois, na percepção do entrevistado, é possível inovar em tudo, inexistindo

4 ANÁLISE 4.1 Unidade de análise A realização de um estudo de caso único justificase em função do elevado grau de práticas de inovação e investimentos realizados na empresa onde foi realizada a entrevista. Nesse sentido, é importante relatar um pouco da história dessa empresa, denominada ALFA neste estudo, no intuito de manter o sigilo das informações concedidas pelo empresário, com o objetivo de contextualizar o processo de sua constituição e operacionalização das suas atividades. A empresa ALFA é do ramo da indústria eletrônica e produz soluções em tecnologia. O desafio e a inovação na criação e no desenvolvimento de novos produtos sempre fizeram parte da filosofia da empresa. Na percepção do empresário entrevistado, a inovação representa a mola propulsora e eixo estruturante da organização, além de contribuir, de forma relevante, para a motivação de uma equipe comprometida e competente, que acredita no sucesso. Trinta por cento dos recursos humanos da empresa, de um total de trinta colaboradores, trabalham na pesquisa e no desenvolvimento, o que demonstra e confirma o quanto a empresa investe e acredita nessa prática.

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nada dentro de uma empresa que não possa ser pensado à luz da inovação, de forma isolada ou em parceria. Para Bessant e Tidd (2009), o interessante mesmo é a inovação com múltiplos participantes, e não um ato solitário. O empresário parece perceber essa realidade, uma vez que todas as suas iniciativas em inovação são geradas em função de demandas de empresas inseridas na rede de cooperação da qual a empresa faz parte. Para a empresa ALFA, inovar não se reverte em redução dos custos e preços dos produtos ofertados ao mercado. O empresário afirma que brigar por preço, atualmente, não é a prioridade organizacional, sendo essencial o estabelecimento de uma relação de confiança com seus clientes. Dessa forma, a prioridade é foco no cliente, para que tenha certeza de estar adquirindo um produto de qualidade (que necessariamente não é um diferencial, pois quem está no mercado não sobreviverá por muito tempo, caso não a tenha). Balestrin e Verschoore (2008) constataram, em seus estudos, que atualmente nem mesmo as grandes empresas conseguem controlar de ponta a ponta o processo de produção nem reter todos os recursos humanos disponíveis. A empresa, mesmo pequena, está atenta a essas questões, pois percebe seus principais fornecedores como parceiros importantes no processo, uma vez que a empresa não detém todo o conhecimento necessário para a criação de novos produtos. Esse relato condiz também com os estudos realizados por Bessant e Tidd (2009) e Powel et al (1996), uma vez que esses autores relatam sobre a importância da cooperação com fornecedores e outros atores do mercado. Sobre esse aspecto, cabe ainda destacar texto de Baldwin e Clark (2000), que afirmam que o conhecimento se encontra distribuído entre as organizações. Para a empresa, a Universidade é uma parceria potencial para a cooperação. Um dos motivos mais importantes que motiva a empresa ALFA a incluir a Universidade no processo de inovação é o conhecimento dos mestres e dos doutores. Outra questão importante nessa parceria é o leque de oportunidades, principalmente por meio de editais de entidades de fomento, como BNDES, FINEP e Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado - SCIT, por exemplo. Para usufruir desses recursos, a empresa precisa, obrigatoriamente, realizar uma parceria com a Universidade, pois é ela que vai atuar como proponente e gestora dos recursos do projeto no momento em que ele for aprovado. É a chamada “tríplice hélice”, proposta por Henry Etzkowitz (2009), que reafirma também a questão do papel da Universidade, ou seja,

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o de prover conhecimento, exatamente a necessidade apontada pela empresa como a razão principal para a aproximação da academia. Mas o modelo que mais interessa ao empresário é a realização de projetos em parceria com uma empresa terceirizada, pois assim a empresa tem condições de determinar o prazo em que quer a tecnologia pronta. O parceiro terceirizado produz de acordo com a solicitação e entrega o serviço quase sempre acompanhado de um treinamento. Bessant e Tidd (2009) já constataram, em seus estudos, essa tendência, pois relataram a possibilidade de a empresa acessar uma ampla gama de empresas por meio dos seus relacionamentos. Davila, Epstein e Shelton (2008), da mesma forma, compartilham dessa opinião, destacando, porém, que essas parcerias requerem governança diferenciada. O empresário foi questionado sobre a questão da confidencialidade dos projetos, uma vez que as empresas terceirizadas contratadas podem também estar prestando serviços a concorrentes diretos da empresa ALFA. Foi interessante constatar que o empresário acredita muito na seriedade dos seus parceiros, não vendo nisso um problema ou risco relevante. Ele relatou que no início tinha essa preocupação, mas acabou constatando que, se tivesse ficado preso a essa preocupação, poderia deixar “o cavalo passar encilhado”, ou seja, perder a oportunidade de um negócio. Dessa forma, o empresário acredita que é necessário apenas buscar informações do possível parceiro no mercado e investir na realização dos projetos nessa modalidade. É possível constatar, na literatura, que Balestrin e Verschoore (2008) já comentavam sobre isso, pois afirmam que as empresas não têm mais como deter todo o conhecimento necessário à melhoria e à inovação de seus produtos. Etzkowitz (2009) parece desencorajar essa prática, uma vez que discute, em sua teoria, que a indústria espera que haja uma competição intensa entre as empresas, em que a colaboração é proibida. Dessa forma, é possível sugerir como variável central, na relação de parceria, a confiança. O empresário da ALFA diz nunca ter tomado conhecimento se houve vazamento de qualquer tipo de informações confidenciais para a concorrência e acredita que investir nesse risco é amplamente viável. Ele diz não conhecer o tamanho do risco, mas prefere tomar o risco a ficar parado. Baldwin e Clark (2000) e Fischer e Verga (2002) compartilham desse conceito, pois reconhecem que o lócus da inovação não está mais na empresa, mas sim na rede da qual ela faz parte.

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Com relação às dificuldades enfrentadas na interação com a Universidade, o empresário comentou que, ao longo do tempo, essa relação vem melhorando, porém ele cita que as negociações são muito lentas e isso acaba atrapalhando o processo. Para ele, o tempo desde o momento em que a empresa tem a ideia do produto até o contato com a Universidade, conseguir uma oportunidade de edital, envolver e sincronizar técnicos, funcionários e pesquisadores e, ainda, aguardar o órgão de fomento depositar o dinheiro é demasiadamente longo. Na maioria das vezes, a demora é tal que o produto deixa de ser inovador e outras ideias passam a ser mais relevantes. No entanto, ao analisar as especificidades que envolvem o processo interno dentro das instituições de ensino, conforme destacado na revisão bibliográfica, a pesquisa é um processo lento, de alto grau de risco e nem todo o resultado é positivo. O teor do livro “Inovação e Cooperação Tecnológica” defende o ponto de vista das organizações na relação da Tripla Hélice, ressaltando como principal o desafio da interação universidade – empresa – governo, a necessidade de conciliar os interesses de cada um dos envolvidos na relação, principalmente no tocante ao tempo. Apesar do posicionamento aderente às necessidades das organizações, os autores desta publicação apresentam também o entendimento dos processos que envolvem a pesquisa. Apresentam a concordância quanto à necessidade do consenso de todos para elaborar um cronograma a ser seguido por todos os envolvidos na relação. Terra (2001) discutiu sobre todo esse processo, no qual os governos vêm procurando desempenhar seu papel em consonância com o da universidade. A empresa ALFA, por já ter vivenciado a experiência de realizar projetos em parceria com mais de uma Universidade, admite que a responsabilidade, muitas vezes, não é só da instituição de pesquisa. De acordo com o empresário, uma proposta interessante seria que as empresas não precisassem esperar a abertura de um edital que fosse compatível com a tecnologia que ela está querendo desenvolver. Ele sugere que seria muito mais proveitoso se houvesse uma forma mais rápida e dinâmica nesse processo, desde a submissão da proposta, passando pelo processo de avaliação até o depósito do recurso. A ideia seria ainda mais ousada, ao sugerir que as empresas tenham que devolver o dinheiro, caso o projeto não dê certo, e, no caso de sucesso, ser adotado o sistema de pagamento de royalties, desonerando a empresa da devolução do recurso tomado. A empresa ALFA afirma também que nem sempre os produtos que eles pensam em desenvolver são

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extremamente inovadores, e o entendimento de que aquele produto ou a tecnologia é inovadora vai depender muito do avaliador que estiver analisando o projeto que foi encaminhado. Nesse caso, a empresa deveria ter oportunidade para a defesa do projeto em questão, pois, muitas vezes, a tecnologia não é inovadora para o mercado, mas o é para a empresa. Dessa forma, destaca a dificuldade de vender a ideia de um produto inovador, mesmo com o projeto comercial adequado, pois a empresa sem sempre dispõe de equipe e conhecimento necessários para o desenvolvimento da tecnologia. A empresa tem um tempo para se dedicar ao projeto e lançar a sua tecnologia. A Universidade trabalha com outros prazos e outras demandas, e o governo tem ainda o seu tempo, que costuma ser mais lento do que o da Universidade. O empresário constata que quem acaba perdendo nesse processo é a empresa. Na sua percepção, muitas Universidades ainda não têm definido o processo interno para atendimento das demandas de mercado, dando a entender diferenças de prioridades. Enquanto a empresa está preocupada em desenvolver e faturar, a Universidade prioriza suas demandas de pesquisa, ensino e extensão a dar conta e, nesse processo, a empresa acaba tendo que esperar. Quanto aos NIT’s, é perceptível que estão trabalhando com todos os seus recursos, mas, na maioria das vezes, os pesquisadores não estão no mesmo ritmo. As reuniões que são agendadas, muitas vezes, não são cumpridas e, assim, o tempo vai passando e as ações acabam demorando a acontecer. Esse processo precisa ser agilizado. Como exemplo, a empresa ALFA submeteu um projeto em parceria com uma determinada Universidade e o projeto foi contemplado com recursos de um edital do governo. Passaram-se dez meses desde a aprovação e o dinheiro não foi depositado na conta da Universidade. Se isso já tivesse acontecido, provavelmente, a tecnologia e o produto já estariam disponíveis no mercado. Não são muitas as empresas que possuem essa cultura de desenvolver projetos de inovação. O empresário acredita que, da forma como está, com os problemas que tem enfrentado, a empresa que não possui essa cultura desistirá da modalidade de parceria para inovar. Apesar dos diferentes percalços apontados na entrevista, o empresário entende que a relação com a Universidade é necessária. Não que a empresa não consiga propor e gerenciar projetos sozinha, muito pelo contrário, na maioria deles, a empresa não depende da Universidade. O que se percebe é que as instituições de ensino superior e os institutos de pesquisa estão

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ansiosos por essas parcerias, estão querendo fazer acontecer. Durante muito tempo, a ALFA acreditava que essa realidade estava muito distante, mas, aos poucos, foi verificando que estava equivocada e, atualmente, vê com otimismo as experiências que já teve. Esse tipo de parceria tem tudo para dar certo e muitos são os fatores que contribuem para isso, principalmente, quando se fala de recursos de editais de fomento e do reconhecimento e da projeção da empresa no mercado com o respaldo de uma instituição forte como uma Universidade. O que poderia ser feito, por sugestão do empresário, é a criação de um modelo, baseado em outros tantos espalhados pelo mundo e que dão muito certo, adaptando-os localmente. Contudo, entende-se que os atores destacados neste artigo estão todos motivados e interessados à realização de projetos em colaboração.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar das limitações metodológicas do estudo, baseado no caso de uma única organização e nos elementos e nas evidências extraídas a partir da narrativa construída a partir da entrevista em profundidade realizada com o titular da organização pesquisada, entende-se que os resultados oferecem importantes contribuições para a reflexão sobre o tema. A referida reflexão poderá propiciar subsídios, tanto para os acadêmicos como para gestores, acerca das práticas organizacionais instituídas e que podem ser objeto de inovação. Dentre as conclusões mais relevantes, podem ser citados a importância da cultura organizacional, decorrente da introdução de valores e visão dos líderes, o alinhamento do discurso e da ação, a participação dos colaboradores, a parceria com os clientes e os fornecedores, a abertura para interação com agentes externos em busca do conhecimento e o aprimoramento da gestão. Em outras palavras, a essência da cultura organizacional com foco na inovação consiste no influxo de novas ideias, transcendência dos portões da empresa, com vistas a alcançar os portões dos parceiros, que podem ser uma terceira empresa, um grupo de empresas, um fornecedor, um cliente ou mesmo um concorrente. Os autores recomendam a realização de mais entrevistas em profundidade, com um número maior de empresas, com o intuito de fazer comparativos e cruzamento dos dados no sentido de obter resultados mais consistentes sobre a prática do desenvolvimento de projetos colaborativos interorganizacionais.

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DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DA GESTÃO DE RESÍDUOS EM EMPRESA DE ESQUADRIAS DE MADEIRA, RS, BRASIL DIAGNOSIS OF ENVIRONMENTAL WASTE MANAGEMENT COMPANY IN FRAMES WOOD, RS, BRAZIL

Fernando Uecker Haas1 Fabiano Andre Trein2 Manoela Tressoldi Rodrigues3

RESUMO: A existência de uma conscientização geral em relação ao meio ambiente e às demandas ambientais fez surgir consumidores cada vez mais exigentes, proporcionando um impacto nas organizações. Nesse contexto, as empresas necessitam ampliar seus métodos estratégicos, visando a sua sobrevivência no atual mercado. A iniciativa e o comprometimento de ações ambientais ganham importância nessa esfera. A gestão ambiental favorece o desempenho das organizações, através da qualidade aplicada aos produtos e serviços desenvolvidos, considerando também os colaboradores que participam desse processo, proporcionando ao final uma maior lucratividade para a organização. Assim, o presente estudo objetivou realizar um Diagnóstico Ambiental em uma empresa de Esquadrias de Madeiras, localizada no Rio Grande do Sul, com intuito de verificar se existe a aplicação de práticas ambientais como modo de melhoria da qualidade ambiental dos procedimentos dessa organização. O Diagnóstico Ambiental é uma estimativa dos efeitos ou das interações das atividades de determinada corporação sobre o meio ambiente. É um modo de evitar que acidentes ambientais ocorram e de se buscar o aperfeiçoamento das técnicas de forma a minimizar os impactos sobre o meio ambiente. Palavras-chave: Diagnóstico ambiental. Gestão ambiental. Práticas ambientais. ABSTRACT: The existence of a general awareness about the environment and environmental demands, has raised increasingly demanding consumers, providing an impact in organizations. In this context, companies need to extend their strategic methods in order to survive in today’s market. The initiative and commitment of environmental gain importance in this sphere. Environmental management enhances the performance of organizations by quality applied to products and services developed, considering also the employees who participate in this process, providing the ultimate greater profitability for the organization. Thus, the present study aimed to make a diagnosis in a company of Environmental Timber Frames, located in Rio Grande do Sul, in order to verify whether there is the application of environmental practices as a way of improving the environmental quality of the procedures of that organization. The Environmental Diagnosis is an estimate of the effects or interactions of certain corporate activities on the environment. It is a way of preventing environmental accidents from occurring and to seek improved techniques to minimize impacts on the environment. Keywords: Environmental diagnosis. Environmental management. Environmental practices.

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Bacharel em Administração de Empresas com ênfase em Empreendedorismo pela Universidade Feevale RS. E-mail: fernandohaas.adm@gmail.com.

Doutorando em Qualidade Ambiental - Universidade Feevale. Mestre em Engenharia de Produção PPGEP – UFRGS. Professor e coordenador da Universidade Feevale e Faculdades Integradas Brasil - FTEC. E-mail: fabianotrein@feevale.br. 2

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Mestre em Qualidade Ambiental (Feevale). Professora da Universidade do Extremo Sul Catarinense. E-mail: manoelat@gmail.com.

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1 INTRODUÇÃO A aceleração do processo industrial acarretou um grande desenvolvimento para a humanidade, no entanto, causou grandes impactos ambientais, o que fez brotar a apreensão com relação à preservação ambiental. Até algumas décadas atrás, os problemas ambientais eram extremados apenas a algumas atividades e só eram observados por ecologistas, não havia uma preocupação real por parte da sociedade. As consequências dessas ações no meio ambiente estão sendo conhecidas e ressaltadas no mundo todo. Partindo dessa premissa, pode-se dizer que as empresas atuais estão mais preocupadas em apresentar um desempenho ambiental de modo correto, concretizando essa ideia através do controle de seus processos e de treinamento de pessoal, na tentativa de minimizar os possíveis impactos ambientais. Existe uma forte cobrança de que os objetivos empresariais sejam alcançados através do exercício das políticas ambientais, seja seguindo as normativas existentes, respeitando uma consciência ambiental atual ou devido ao mercado, que decreta cada vez mais atitudes pautadas no desenvolvimento de maneira sustentável. A inserção da proteção do ambiente entre os fins da organização moderna expande substancialmente todo o conceito de administração, por isso, é notável que a responsabilidade ambiental venha implicando no desempenho econômico de qualquer empresa. O progresso na área ambiental quanto aos instrumentos técnicos, políticos e legais - predicados fundamentais para a existência de uma política de meio ambiente são evidentes e inquestionáveis. O sistema de gestão ambiental consiste em um conjunto de medidas que visam a ter controle sobre o impacto ambiental de uma atividade. É uma cadeia de regras que contêm as políticas, os programas e as práticas administrativas que consideram a proteção do meio a mbiente, realizando a eliminação ou a diminuição de impactos decorrentes do planejamento e da implantação de empreendimentos e atividades. A escolha da organização por aderir a uma postura voltada para aspectos ambientais pode ser fundamentada na identificação de advertências e oportunidades relacionadas aos pontos fracos e fortes da empresa, e a apreciação desses pontos pode demonstrar oportunidades estratégicas para o crescimento do negócio. A ação de seguir os princípios da gestão ambiental, em uma economia assinalada pelo alto desperdício de recursos, origina um importante diferencial competitivo. Além disso, atividades de reciclagem, incentivo à diminuição do consumo,

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controle de resíduo, capacitação permanente dos quadros profissionais, utilização de tecnologias mais baratas e limpas são também consideradas condições de sobrevivência para uma empresa atual. Um Diagnóstico Ambiental é o conhecimento de todos os componentes ambientais de uma determinada área (país, município, empresa, etc.) para a caracterização da sua qualidade ambiental. Esse método é a interpretação da situação ambiental problemática da área em questão, a partir da interação e da dinâmica de seus componentes, quer relacionado aos elementos físicos e biológicos, quer aos fatores socioculturais. O Diagnóstico Ambiental pode ser realizado por diferentes objetivos, como os que preconizam os métodos de planejamento para servir de base para o conhecimento e o exame da situação ambiental, tendendo a traçar linhas de ação ou tomar decisões para prevenir, controlar e corrigir os problemas ambientais (políticas ambientais e programas de gestão ambiental). Esse instrumento aliado à responsabilidade ambiental pode ser considerado uma ferramenta estratégica importante para a empresa. Para dar início à implantação de um Sistema de Gestão Ambiental, é preciso identificar a atual situação da organização em relação às suas atividades e ao meio ambiente. É prioridade promover o Diagnóstico Ambiental de modo a ser capaz de perceber a existência ou não de uma Política de Gestão Ambiental do empreendimento e a influência dos processos implantados no meio ambiente; identificar o nível de consciência e a preocupação dos colaboradores quanto às etapas modificadoras da qualidade ambiental (geração/emissão de poluentes); colher informações sobre a geração e a destinação de resíduos. É evidente a importância de se ponderar a questão ambiental nas deliberações empresariais, consista ela em conquistar mercado, ser utilizada como benefício competitivo ou exclusivamente para impedir futuras perdas. Compreender essa questão pode ser o diferencial, mesmo com a ampliação de gastos para a realização de um Diagnóstico Ambiental e posterior aplicação de um Sistema de Gerenciamento Ambiental. Neste estudo, buscou-se apontar quais os aspectos ambientais que a organização apresenta, uma vez que há distintas abordagens para o tema e depende da tática empresarial e de como seus gestores enfrentam a seriedade do tema para determinar as formas de cuidado aplicadas na empresa. Dessa maneira, através deste trabalho, foi possível verificar que o Diagnóstico Ambiental permite realizar uma análise concreta sobre o modo de relacionamento da empresa de Esquadrias

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de Madeira com o meio ambiente. Nos próximos itens, serão exploradas as principais formas de integração da gestão ambiental na empresa de esquadrias num quadro geral, bem como as transformações e os benefícios gerados por essa gestão na organização serão identificados.

2 RESPONSABILIDADE E DIAGNÓSTICO AMBIENTAL Neste início de século, o meio ambiente vem sendo alvo de muitas discussões, tais como o aquecimento global. A urgência ambiental indica a necessidade de adequação das empresas a essa nova realidade. Sendo assim, pode-se afirmar que as empresas possuem um papel importante na preservação e na manutenção ambiental, uma vez que são responsáveis por grande parte dos danos ambientais e têm condições de cooperar para um meio ambiente mais sustentável e saudável. Segundo Tinoco (2006), a responsabilidade ambiental empregada adequadamente pelas organizações proporciona benefícios à sociedade como um todo, permite o uso mais eficiente de recursos naturais, reduz os custos externos relacionados à poluição da indústria, fornece informações para a tomada de decisão e fornece informação ambiental industrial do desempenho. Sendo assim, cabe citar a ideia de Andrade (2002), que diz que os gastos com a questão ambiental para as instituições passaram a ser vistos, pelas empresas líderes, como investimentos futuros, não como custos, e, consequentemente, vantagem competitiva, passando de defensiva e reativa para ativa e criativa. Nota-se que a expansão da consciência coletiva com relação ao meio ambiente e a complexidade das demandas sociais que a comunidade repassa às organizações induzem a um novo posicionamento por parte de empresários e executivos frente a tais questões. Diante dessa consciência, que vem sendo construída, as empresas sofrem pressão no sentido de terem que demonstrar, para seus consumidores e para a sociedade em geral, como é o seu relacionamento com o meio ambiente. O mercado passou a ser composto por um grupo de consumidores mais exigentes, os consumidores verdes, que são aqueles no qual o poder de escolha do produto vai além do preço, o item precisa ser ambientalmente correto, ou seja, não prejudicar o ambiente em nenhuma fase do seu ciclo de vida. Nesse contexto, a gestão ambiental torna-se uma prática harmônica com o cenário mundial contemporâneo, no qual as questões ambientais

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passaram a ser discutidas levando em consideração o conceito de desenvolvimento sustentável. Nessa lógica, ações que proporcionem uma harmonização nas relações econômicas e ecológicas devem ser emanadas pelos diferentes entes do poder executivo como meio de minorar os problemas gerados pela exploração demasiada dos recursos naturais (CARVALHO et al., 2011). Para realizar essa investigação, é possível contar com uma ferramenta muito utilizada, o Diagnóstico Ambiental. Segundo Naime (2005), o Diagnóstico Ambiental é um instrumento de gestão ambiental que se insere nos procedimentos de gerenciamento empresarial, com a função específica de proceder a uma radiografia da empresa quanto aos aspectos de relacionamento com o meio ambiente, particularmente, tratamento de efluentes, gestão de resíduos sólidos e monitoramento e controle de emissões atmosféricas. Sendo assim, o diagnóstico ambiental tem como objetivo avaliar o desempenho ambiental de um empreendimento, evidenciando os pontos positivos e os pontos a melhorar, permitindo que os membros da organização internalizem os preceitos ambientais, tornando a gestão ambiental uma estratégia empresarial. Através de ações ambientais, a empresa poderá fortalecer sua imagem frente à sociedade, ao Poder Público e, principalmente, aos seus clientes.

3 GESTÃO AMBIENTAL COMO ESTRATÉGIA EMPRESARIAL – NA BUSCA DE VANTAGEM COMPETITIVA A produção industrial aliada a um vertiginoso crescimento econômico, nas últimas décadas, ocasionou impactos negativos aos recursos naturais do planeta, refletindo na qualidade de vida e na saúde ambiental da sociedade (SEVERO et al., 2008). A responsabilidade ambiental é a resposta natural das empresas ao novo cliente, ao consumidor verde e ecologicamente correto (TACHIZAWA; POZO, 2007). Conforme May et al. (2003), existem quatro fatores que induzem as empresas a adotarem práticas mais saudáveis para o meio ambiente: (I) regulamentação ambiental; (II) pressão dos consumidores; (III) pressão dos stakeholders (populações que vivem na vizinhança de um empreendimento industrial que ameace o meio ambiente) e (IV) pressão dos investidores. Dessa maneira, é possível verificar que a preocupação com o meio ambiente está crescendo velozmente, fazendo com que as empresas utilizem essa mentalidade

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ecológica de modo a alavancarem o seu lucro, respeitando os meios naturais e sendo socialmente responsáveis. As organizações que investem no meio ambiente colhem benefícios, como o aumento das vendas, uma vez que se tornam mais bem vistas na sociedade. No intuito de incentivar a mentalidade empresarial ecologicamente correta, alguns trabalhos vêm sendo feitos no Brasil para demonstrar que a prática dessas ações traz consequências efetivamente positivas, como pode ser observado na pesquisa realizada por Silva Filho e Sicsú (2003), que relatam os seguintes resultados: redução de custos - procedente da redução do consumo dos recursos naturais e dos resíduos gerados; consequente diminuição dos gastos com tratamento, armazenagem, disposição; possibilidade de conquista de mercados internacionais; cumprimento das exigências das legislações ambientais vigentes; melhoria da imagem da empresa e facilidade de obtenção de financiamento junto às agências financiadoras, as quais estabelecem a necessidade de certificação ambiental. É importante saber ainda que, no Brasil, existe a Sociedade para o Incentivo a Gestão Ambiental (SIGA), que forma grupos de trabalho com a finalidade de ajudar as empresas brasileiras a encontrarem meios de usarem recursos renováveis locais na fabricação de produtos mais favoráveis ao ambiente (RUTHES et al., 2006). Assim, conhecendose os benefícios que a gestão ambiental origina para as atividades empresariais, espera-se um aumento das aplicações de ferramentas de gestão ambiental nas empresas nacionais e, consequentemente, uma melhora da qualidade de seus produtos, dos profissionais, do lucro gerado e da satisfação do cliente (ANDRADE et al., 2002).

4 MÉTODO A pesquisa realizada neste estudo caracterizou-se como descritiva, empregando um enfoque qualitativo e quantitativo. De acordo com Prodanov e Freitas (2009), a pesquisa descritiva é quando o pesquisador apenas registra e descreve os fatos observados sem interferir neles; visa a descrever as características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis; assume, em geral, forma de levantamento. A pesquisa descritiva foi empregada para verificar se existem processos na empresa que visam a minimizar o impacto ambiental e para relacionar esses aspectos com o ambiente organizacional da companhia.

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Para obtenção dos dados necessários para a pesquisa, foi utilizada a pesquisa bibliográfica, através de estudos de caso, publicações em revistas, livros e artigos científicos, de modo a aprofundar a definição da problemática avaliada na empresa. No intuito de facilitar a compreensão das informações encontradas, todos os resultados foram demonstrados através de tabelas e quadros. Este estudo teve como fim a análise do posicionamento atual da empresa de Esquadrias em relação ao meio ambiente, utilizando a abordagem qualitativa e quantitativa dos dados. Prodanov e Freitas (2009) afirmam que, na abordagem qualitativa, “o ambiente natural é fonte direta para coleta de dados, interpretação de fenômenos e atribuição de significados”. Quanto aos procedimentos técnicos, foi utilizada a técnica de comparação com base em estudo de casos. Esse método considera o estudo de semelhanças e diferenças entre diversos tipos de grupos, sociedades e fenômenos, ocupando-se da explicação de fenômenos, o método comparativo permite analisar o dado concreto, deduzindo dele os elementos constantes, abstratos e gerais (LAKATOS; MARCONI, 2001). As informações foram coletadas através da aplicação de entrevista não estruturada, no intuito de verificar a atual situação da corporação em relação às questões do meio ambiente. Foram empregadas técnicas mencionadas por Lakatos e Marconi (2001), como a observação direta no local, verificando os processos utilizados pela empresa para análise do sistema de gestão ambiental para minimização do impacto ambiental, e o questionário com questões fechadas de múltipla escolha. Foram feitas visitas quinzenais à empresa, no período de agosto a outubro de 2012. Foram analisadas as ferramentas utilizadas, verificando a sua aplicação como modo de melhoria da qualidade ambiental dos produtos, processos e serviços oferecidos por essa organização. Almejou-se demonstrar, através dessa abordagem, se a empresa já realiza uma gestão ambiental e se, através disso, consegue obter melhorias em seus processos. Os dados recolhidos através de observação assistemática foram registrados de modo a permitirem a realização de um diagnóstico coerente com a situação atual da empresa. Para a efetivação da análise dessas informações obtidas através do Diagnóstico Ambiental realizado, foi necessário comparar os dados com fontes secundárias, que, conforme Beuren (2006), “são as teses, dissertações, monografias, artigos de anais, artigos eletrônicos, livros, revistas”. Todos os elementos obtidos foram apresentados em forma de relatório.

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5 DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DA EMPRESA E PLANEJAMENTO AMBIENTAL A empresa de Esquadrias de madeira localiza-se no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, em uma zona urbana industrial. Desenvolve produtos exclusivos que vão de acordo com o projeto e a necessidade de cada cliente, sendo uma empresa genuinamente familiar há 40 anos. A organização optou por fabricar suas esquadrias em Freijó (Cordia goeldiana), quando seca, pesa em torno de 650 kg/m3 de densidade, essa madeira não tem cheiro, possui cor parda de tons muito variados e é bastante resistente ao ataque de insetos e fungos. As madeiras são sempre provenientes de serrarias registradas e com a constante fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) a partir da exigência do D.O.F. (Documento de Origem Florestal). Sua procedência é a Floresta Amazônica, principalmente, do estado do Pará. A empresa de Esquadrias tem como principal atividade a fabricação de esquadrias de madeira,

desenvolvendo diversos modelos conforme a necessidade dos clientes, distribuídos em todo Brasil. São mais de 40 colaboradores envolvidos. Para isso, conta com uma área total do terreno de 15.309,95 m2, apresentando uma área útil total de 13.464 m2, com área útil construída de 11.736 m2 e uma área útil ao ar livre de 1.728 m2. Existe um consumo médio mensal de energia de 733 kW/h. Quanto à utilização de água, foi verificado que a fonte de abastecimento da empresa é poço artesiano. A quantidade média de água aduzida por dia é de 2,3m³ e a quantidade média de água aduzida por mês é de 69m³. A empresa possui licença de operação ambiental obtida através da Prefeitura Municipal local, na Secretaria de Meio Ambiente (SEMAM). O processo produtivo industrial desenvolvese em várias etapas, desde a entrada de matériaprima até o produto final. Durante esse processo, são utilizados alguns equipamentos que estão relacionados na tabela 1. Para o desenvolvimento de seus produtos, a empresa conta com matérias-primas e insumos específicos, que podem ser verificados na tabela 2.

Tabela 1 – Equipamentos da empresa

EQUIPAMENTOS UTILIZADOS

QUANTIDADE DE EQUIPAMENTOS

Desempenadeira

3

Serra Esquadrejadeira

2

Tupia

3

Lixadeira de Fita

3

Prensa Fria

2

Prensa Quente

2

Cabine de Pintura

1

Fonte: Dados da empresa

Tabela 2 – Principais matérias-primas e insumos da empresa de Esquadrias

MATÉRIAS-PRIMAS E INSUMOS

QUANTIDADE MÊS CONSUMIDO

FORMA DE ACONDICIONAMENTO

FORMA DE ARMAZENAMENTO

Madeira

Informação confidencial

Livre

Ar livre

Parafuso

5.000 unidades

Caixa de papelão

Almoxarifado

Prego

3.000 unidades

Saco plástico

Almoxarifado

Tinta/Empregnante

150 L

Galão

Almoxarifado

Lixa de areia

10 m3

Caixa de papelão

Almoxarifado

18 L

Galão plástico

Almoxarifado

20 tubos

Pote plástico

Almoxarifado

Cola Silicone MS-35 Fonte: Dados da empresa

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Qualquer processo produtivo envolve insumos, processos e saídas, que resultam em um produto, entretanto, muitas vezes, em paralelo ao processo produtivo, realiza-se outro similar, cujo resultado é composto de desperdícios que podem representar uma parcela considerável dos custos de produção. A tabela 3 representa o processo global e os principais aspectos ambientais, indicados como entradas e saídas. A utilização da tabela 3 auxilia na percepção dos resíduos gerados na empresa, despertando, desse modo, uma visão holística consciente do processo produtivo. Esse mapeamento possibilita a visualização dos principais problemas encontrados e, por conseguinte, direciona as ações para o melhoramento contínuo dos processos e dos produtos, uma vez que se passa a controlar quantitativamente a entrada e a saída

discriminada no quadro. O processo de ecoeficiência deve ser visto como estratégia de longo prazo. Preencher e controlar essa tabela sistematicamente ajudará a empresa a organizar suas entradas e saídas de modo a reduzir a entrada, minimizá-las no processo produtivo e descartar corretamente as saídas através de separação dos resíduos. Atualmente, deve-se preocupar em aumentar a eficiência na utilização dos recursos, efetuando o tratamento adequado dos resíduos provenientes das atividades. Os tipos de resíduos encontrados na empresa (tabela 4) vão desde resíduos maiores, como a lenha, até os menos consideráveis, como a serragem, os restos de lixas e o pó da madeira, que deixam de ser utilizados para o desenvolvimento de novos produtos, ao receberem um destino não correto.

Tabela 3 – Entradas e saídas de matérias-primas e resíduos

SETOR

ENTRADA

SAÍDA

Energia elétrica, pregos, lixas, papel, plástico, papelão.

Resíduos sólidos, como: papelão, plásticos e resíduos de varrição.

Beneficiamento

Energia elétrica, EPIs, matéria-prima (madeira).

Pó, tacos de madeira, serragem e ruído.

Marcenaria

Energia elétrica, EPIs, matéria-prima (madeira).

Pó, lixas usadas, serragem, tacos de madeira e ruído.

Pintura

Materiais de pintura (tinta, solventes, etc.), EPIs, energia elétrica, água, lixas, matéria-prima (peças para serem pintadas, ar comprimido).

Pó de lixação, resíduo de tinta, lixas usadas, latas de tintas, efluentes líquidos, ruído, equipamentos de EPI usados.

Revisão

Energia elétrica, produto pronto, embalagens.

Retalhos de madeira, papelão, plástico e resíduos de varrição.

Energia elétrica, produto acabado, plástico, fita adesiva, papelão.

Resíduos de varrição, plástico, pedaços de papelão.

Almoxarifado

Expedição Fonte: Dados da empresa

Tabela 4 – Principais Resíduos gerados na empresa de Esquadrias

TIPO DE RESÍDUO

QUANTIDADE/mês

ACONDICIONAMENTO

Tacos de madeira

1m

Saco plástico 10 L

Ar livre

Venda (lenha)

Pó de madeira

1,6 m3

Saco plástico 40L

Ar livre

Venda autorizada

Embalagens plásticas

20 tubos

Lixeira especial

Ar livre

Venda reciclagem

Sobras metais

10 Kg

Lixeira especial

Ar livre

Venda reciclagem

Resto de lixas

10 m2

Lixeira comum

Ar livre

Lixo prefeitura

Latas de tinta

10 L

Lixeira comum

Ar livre

Lixo prefeitura

Serragem

0,8

Saco plástico 40L

Ar livre

Venda autorizada

3

ARMAZENAMENTO

DESTINO

Fonte: Dados da empresa

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Muitas vezes, o material é descartado na própria natureza, contribuindo para a poluição do meio ambiente. Mas, existe também uma central de resíduos que recebe todo o pó de madeira produzido na empresa. É um exaustor que aspira o pó, que, em seguida, é armazenado em sacos que acabam sendo guardados em locais indevidos na empresa. O Planejamento Ambiental tem como objetivo constituir e sustentar metodologias para identificar os aspectos ambientais presentes nas atividades, nos produtos ou nos serviços da empresa. Esses procedimentos irão colaborar para que a organização possa desenvolver um controle eficaz, a fim de determinar os pontos que tenham ou possam ter impactos significativos sobre o meio ambiente e desenvolver maneiras de minimizar esses impactos e maximizar os pontos positivos encontrados. Conforme Moura (2004, 87):

Após a concretização do levantamento de dados qualitativos e quantitativos, obtidos através do diagnóstico ambiental realizado na empresa de esquadrias, foram identificados os aspectos ambientais da empresa. Com o conhecimento de tais aspectos, foram criadas algumas propostas de melhoria baseadas em um plano de ação simples denominado 5W2H, o nome da ferramenta corresponde às iniciais dos questionamentos (em inglês) a serem feitos na elaboração do plano da atividade (what / o que; when / quando; where / onde; why / por que; who / quem; how / como; how much / quanto custa). Periard (2009) refere-se ao 5W2H como um checklist das atividades a serem desenvolvidas, funcionando como um mapeamento dessas atividades e determinando os detalhes para sua realização. Essa ferramenta consiste na elaboração de um plano estruturado para a execução e o controle de tarefas, atribuindo as responsabilidades, o método para execução, o motivo, os custos e os prazos para conclusão (MACHADO, 2009). A seguir, no Quadro 1, é possível conhecer os aspectos ambientais detectados na empresa de Esquadrias, bem como as sugestões de melhoria, demonstradas conforme orienta Rodrigues (2009), afirmando que as perguntas do 5W2H devem ser colocadas em um quadro, criando-se um formulário para tomada de ações.

A realização da fase de diagnóstico dos problemas ambientais da empresa é muito importante, ou seja, a verificação da situação atual do seu desempenho ambiental, antes do início da implantação de um sistema de gestão ambiental, sobretudo para que seja possível identificar e medir os ganhos e vantagens obtidos com a adoção de medidas adequadas de administração para obter melhorias de desempenho.

(continua) EMPRESA DE ESQUADRIAS PLANO DE AÇÃO WHAT

WHEN

WHO

WHERE

WHY

HOW

HOW MUCH

O QUÊ?

QUANDO?

QUEM?

ONDE?

POR QUÊ?

COMO?

QUANTO?

Setor de produção.

Evitar contaminação do solo e da água e gerar novas alternativas de ganhos para a empresa.

Redução; reutilização; reciclagem; disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.

Empresa.

Evitar armazenamento incorreto dos resíduos e risco ocupacional.

Construção de uma nova sala específica para armazenamento de resíduos.

R$ 10.000,00

Todas as lixeiras da empresa.

Evitar resíduos misturados, destinação final inadequada e contaminação do solo e do lençol freático.

Contatar uma empresa especializada para confecção das lixeiras com as etiquetas corretas ou produzir corretamente na própria empresa.

R$ 300,00 a R$ 1.000,00

Reaproveitamento dos resíduos sólidos gerados

Local apropriado para armazenamento de resíduos (serragem, tacos de madeira, etc.)

Identificação das Lixeiras

Imediato

Gerente de produção

8 meses

Gestor da empresa, Gerente de produção

1 mês

Gerente de produção

-

Quadro 1 – Plano de Ação Melhorias Fonte: elaborado pelos autores

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(conclusão) EMPRESA DE ESQUADRIAS PLANO DE AÇÃO WHAT

WHEN

WHO

WHERE

WHY

HOW

HOW MUCH

O QUÊ?

QUANDO?

QUEM?

ONDE?

POR QUÊ?

COMO?

QUANTO?

Consumo excessivo dos recursos naturais. Conscientização ambiental sobre a escassez da água.

Reutilização da água. Implantação de um sistema de captação de água pluvial para utilização nos sanitários.

R$ 1.000,00

Beneficiamento/ Marcenaria.

Redução nos custos de energia elétrica.

Desligar os equipamentos (motores) no horário de ponta e quando não estão sendo utilizados.

-

Todos os funcionários.

Conscientização ambiental, considerando um melhor aproveitamento da matéria-prima.

Parcerias com universidades, consultorias especializadas.

Prensa fria/ Tupia/ Lixadeira de fita/ Serra Esquadrejadeira/ Desempenadeira/ Prensa Quente/ Cabine de pintura.

Manter as máquinas em boas condições, evitar consumo desnecessário de energia, evitar parada no processo produtivo e posterior interferência no lucro da empresa. (energia).

Definindo rotinas e alocando a mão de obra especializada.

Redução do consumo de água

Redução do consumo de energia elétrica

Treinamento Ambiental para os Colaboradores

Manutenção Preventiva dos equipamentos

Supervisionar melhor e incentivar o uso dos equipamentos de proteção individual e coletiva (EPIS)

Treinar operadores

Ergonomia das atividades

3 meses

Automação

imediato

Automação

12 meses

Gestor da empresa / Terceiros

Empresa.

R$ 1.200,00

4 meses

Manutenção

3 meses

Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho SESMT - Serviço Terceirizado

Setor de produção.

Evitar acidentes de trabalho.

Convidar profissionais da área para palestras de conscientização, acompanhamento do supervisor nos trabalhos, feito de forma aleatória, e campanhas para conscientização do uso dos EPIS.

4 meses

Gerente de Produção e fornecedores das máquinas.

Prensa fria/ Tupia/ Lixadeira de fita/ Serra Esquadrejadeira/ Desempenadeira/ Prensa Quente/ Cabine de pintura.

Nivelar conhecimentos dos operadores.

Programando e executando o treinamento.

-

4 meses

Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho SESMT - Serviço Terceirizado

Setor de produção.

Evitar falta dos colaboradores em decorrência de doenças ocupacionais.

Adequar os equipamentos às atividades considerando aspectos ergonômicos.

-

-

R$ 500,00

Quadro 1 – Plano de Ação Melhorias Fonte: elaborado pelos autores

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Pode-se dizer que o método 5W2H é uma ferramenta útil na averiguação da ocorrência de um problema e na elaboração de um Plano de Ação. Esse método também é chamado de 6M’s, no qual se agrupam os assuntos por “famílias”: mão de obra, máquina, material, método, medidas e meio ambiente (COLETTI et al., 2010). É evidente que não é possível resolver todas as não conformidades da empresa em uma única etapa. Todavia, esse Plano de Ação tem a intenção de orientar os gestores da empresa de esquadrias, através de sugestões de melhoria, consideravelmente simples de colocar em prática, e que trarão consequente otimização do processo de produção em geral. Dentre os possíveis benefícios que essa mudança nos hábitos da corporação poderá trazer, podem-se destacar a garantia de qualidade dos serviços e produtos, a agregação de valor aos produtos, o desenvolvimento geral da empresa, a consciência ambiental empresarial e a diminuição do impacto ambiental.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Constatou-se que a empresa necessita realizar uma participação mais ativa no cumprimento de sua responsabilidade ambiental, bem como na prática de redução da geração de resíduos nas suas fontes. É importante incluir um programa para determinar um sistema de gestão de resíduos proveniente do conjunto integrado da gestão global: Prevenir/Evitar, Minimizar, Reutilizar, Reciclar, Recuperar Energia, Tratar, Dispor. Esse programa é um planejamento que tem como finalidade identificar oportunidades para eliminar ou reduzir a geração de resíduos, assim como minimizar ou racionalizar a utilização de matérias-primas, energia e insumos. Foi observada também a ausência de tratamento adequado aos resíduos sólidos, assim como a destinação final incorreta desses resíduos. Dessa forma, é evidente o descuido com a conservação do meio ambiente. O sistema de controle para a emissão de resíduos e partículas (exaustores) nas áreas de fontes de geração de detritos contribui para a minimização da poluição nas dependências internas da empresa. Na avaliação realizada, notou-se que a empresa investe nesse sistema de preservação do meio ambiente e da saúde do trabalhador. Considerando a saúde dos funcionários, sabe-se que é competência dos diretores da empresa a exigência do uso de equipamento de proteção individual (EPI), garantindo o fornecimento desses itens de segurança. É importante priorizar e manter a manutenção das máquinas e prever um sistema de proteção para aquelas consideradas perigosas no seu manejo. Uma

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empresa de esquadrias que se preocupa com a qualidade e a preservação da integridade do meio ambiente deverá integrar em sua rotina um sistema de gestão ambiental, levando em conta o envolvimento de todos os processos e as condutas da empresa. A utilização de um SGA pode elevar a imagem da empresa que busca uma posição privilegiada no mercado, através dos cuidados dedicados aos fatores econômicos e ao meio ambiente, contribuindo dessa forma para o desenvolvimento sustentável. Em resumo, os resultados obtidos através do Diagnóstico Ambiental demonstram que a empresa de Esquadrias necessita desenvolver uma consciência ambiental em torno de seus processos, produtos e serviços. Para ganhar mais espaço no mercado atual, torna-se prioridade a preocupação com o modo de relacionamento com o meio ambiente. Considerase viável a implantação de práticas ambientais na corporação, buscando um desenvolvimento sustentável, através da diminuição dos impactos ambientais. A empresa considera-se preparada para receber a implantação de um SGA, após a realização deste trabalho, e anseia uma futura certificação da família ISO 14000. Uma das limitações importantes que deve ser destacada é o fato de haver ainda poucos materiais de consulta disponíveis sobre o tema Diagnóstico Ambiental, estremando o universo de pesquisa. Outra limitação é o desenvolvimento do pesquisador frente às informações adquiridas e, principalmente, o caráter profissional devido à possibilidade de estar em contato com uma área de trabalho desconhecida, até mesmo por não fazer parte do quadro de funcionários da organização. Existe ainda a aceitação das sugestões de melhoria, por parte da empresa, que muitas vezes encontra dificuldade em visualizar um possível diferencial competitivo por ter que realizar um investimento inicial na maioria das vezes inesperado. No que diz respeito a futuros trabalhos, sugerese que seja realizado um estudo semelhante a este, contudo, que seja em uma organização que já esteja em estágios mais avançados e que possua um Sistema de Gestão Ambiental implantado e ativo. Este trabalho vem agregar conhecimento ao pesquisador e a quem o tema possa interessar. O assunto discutido neste estudo pode ser considerado muito amplo. Além disso, as práticas ambientais estão se tornando inevitáveis, uma vez que a sociedade atual está cobrando cada vez mais que as empresas realizem ações que minimizem os impactos produtivos e evitem a degradação ambiental. Sendo assim, fica comprovada que a única maneira de se conquistar um futuro melhor é através da preocupação com o Meio Ambiente, desenvolvendo práticas ambientais de modo correto.

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PERIARD, G. O que é o 5W2H e como ele é utilizado? 2009. Disponível em: <http://www. sobreadministracao.com/o-que-e-o-5w2h-e-como-elee-utilizado/>. Acesso em: 30 set. 2012. PRODANOV, C. C.; FREITAS E. C. de. Metodologia do trabalho científico – Métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. Novo Hamburgo: Feevale, 2009, p. 134-154. RODRIGUES, R. C. 5W2H: a ferramenta do curioso. 2009. Disponível em: http://www.oficinadanet.com. br/artigo/1963/5w2h_a_ferramenta_do_curioso. Acesso em: 30 set. 2012. RUTHES, Sidarta. et al. Cooperação na gestão dos resíduos das indústrias metalúrgicas. Revista de Economia, Editora UFPR, v. 32, n. 1, p. 113-134, 2006. SEVERO, E. A.; OLEA, P. M.; MILAN, G. S.; DORION, E. Produção mais Limpa: o caso de duas indústrias do setor metal-mecânico de Caxias do Sul. In: XV Simpósio de Engenharia de Produção, Bauru, Anais, 2008. SILVA FILHO, J. C. G.; SICSÚ, A. B. Produção Mais Limpa: uma ferramenta da Gestão Ambiental aplicada às empresas nacionais. In: XXIII Encontro Nacional de Engenharia de Produção. p. 1-8. Ouro Preto, MG, Brasil, 2003. TACHIZAWA, T. Gestão Ambiental e Responsabilidade Social Corporativa. 5. ed. revista e ampliada. São Paulo: Editora Atlas, 2007. TACHIZAWA, T.; POZO, H. Gestão socioambiental e desenvolvimento sustentável: um indicador para avaliar a sustentabilidade ambiental. Revista Eletrônica de Prodema. Fortaleza, v. 1, n. 1, p. 3554, 2007. TINOCO, J. E. P.; KRAEMER, M. E. P. Contabilidade e gestão ambiental. São Paulo: Atlas, 2006.

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Normas para Apresentação de Trabalhos Standards for Paper Presentations

1. Gestão e Desenvolvimento publica trabalhos inéditos e relacionados a assuntos específicos das áreas de Administração, Ciências Contábeis, Comunicação Social, Direito e Turismo. As produções enviadas são submetidas à análise e ao parecer do Conselho Editorial – interno e externo. O fluxo operacional é contínuo para recebimento de artigos. 2. Os trabalhos devem ser preparados para a publicação neste periódico (publicação semestral) em consonância com as instruções expressas nestas normas (vide item 6), sob a forma de trabalho científico, através do qual o(s) autor(es) poderá(ão) descrever, com precisão e clareza, o estudo realizado (documental, bibliográfico, de campo etc.), abordando os objetivos, o problema e a hipótese, a metodologia, os resultados obtidos e as considerações finais (conclusões), amparando-se no conhecimento acumulado e compartilhado pela literatura específica da área, para fundamentar suas proposições, escolhas, justificativas e análises. 3. O texto original do artigo será encaminhado através do e-mail revistaicsa@feevale.br, desde que atenda às Normas de Publicação previstas. Não será acolhido trabalho em desconformidade. Também deve acompanhar TERMO DE AUTORIZAÇÃO para publicação, devidamente assinado pelo(s) autor(es), no caso de o trabalho lograr aprovação pelo Conselho Editorial da Revista. 4. Recomenda-se que os trabalhos sejam apresentados em folhas de papel A4 (297x210mm), numa única face, com margens superior e esquerda de 3 cm, inferior e direita de 2 cm, em fonte Times New Roman, corpo 12, alinhamento justificado, espaçamento entrelinhas 1,5, preferencialmente em língua portuguesa ou traduzidos. Os artigos devem

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conter, no mínimo, 12 e, no máximo, 20 laudas (incluindo bibliografia, notas rodapé e resumos). 5. O artigo científico apresentado deve contemplar a seguinte estrutura: - Título do artigo: em português: fonte Times New Roman, corpo 12, centralizado, negrito, caixa alta; em inglês/espanhol: fonte Times New Roman, corpo 12, itálico, caixa alta. O título deve ser claro e objetivo, podendo ser complementado por um subtítulo. Deve ser escrito na mesma língua do texto e seguido da versão para outro idioma. Evitar abreviaturas, parênteses e fórmulas que dificultem a compreensão do conteúdo do artigo. Quando se tratar de uma tradução, o(s) nome(s) do(s) tradutor(es) e o título original do trabalho devem constar em nota de rodapé. - Autoria: alinhados à direita, nome completo do primeiro autor seguido dos demais (se houver) em ordem alfabética. Cada um em novo parágrafo. Breve síntese do currículo do(s) autor(es) deve constar em nota de rodapé com, no máximo, 3 linhas por autor (aproximadamente 300 caracteres com espaços); deve iniciar com a graduação máxima e fechar com o e-mail do autor. É necessário informar se o artigo já foi apresentado em congresso, seminário, simpósio etc. - Resumo/Abstract: O resumo é a apresentação concisa dos pontos relevantes de um documento (ABNT NBR 6028). Deve ser escrito de forma clara, coerente e objetiva, usar a terceira pessoa do singular e os verbos na voz ativa. Deve ser uma sequência de frases concisas e não uma simples enumeração de itens. Nos artigos científicos, será usado o modelo de resumo indicativo, que, por sua vez, apresenta apenas os pontos principais do documento, não se reporta a dados qualitativos, quantitativos etc., mas somente

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a indicador(es) geral(is) revelado(s) pelo estudo. Sua extensão terá entre 150 e 250 palavras, redação em parágrafo único, em fonte Times New Roman, corpo 12, espaço simples. Apresentar versão em português e em um outro idioma: abstract, em inglês; resumen, em espanhol. Recomenda-se que sejam revistos por falantes com domínio dos respectivos idiomas. Os Resumos e Abstracts devem ser seguidos de três a cinco palavras-chave/keywords, naquela língua, precedidos do termo Palavras-chave ou Keywords. As palavras-chave/Keywords são separadas entre si por ponto e finalizadas também por ponto. - Introdução: deve apresentar: a delimitação do assunto; a justificativa quanto à importância e possíveis contribuições; o problema de pesquisa; hipótese (se houver); o(s) objetivo(s) do estudo; o ponto de vista sob o qual o assunto será tratado; o método proposto ou a metodologia básica utilizada; a razão da escolha do método e dos procedimentos metodológicos; enfim, os elementos necessários para situar o tema do trabalho. Informar também as seções que integram o artigo, com breve contextualização do conteúdo de cada uma delas. - Fundamentação teórica / levantamento bibliográfico: as ideias devem ser apresentadas e discutidas de forma sistematizada e lógica – dedutiva ou indutivamente – a partir de um marco teórico; utilizar citações e referências bibliográficas conforme normas da ABNT (item 6). - Método ou Metodologia - detalhamento dos procedimentos e do material utilizados na pesquisa; ou seja, método, tipo(s) de pesquisa, universo estudado (população e amostra), a técnica de coleta de dados e os instrumentos de pesquisa. É a base para que o estudo tenha valor científico. - Resultados e Análise: apresentação dos dados representativos obtidos com a pesquisa. A análise/discussão apresenta correlações com os fatos observados e a literatura da área (vínculos teóricos/citações). A discussão permite e sugere: oportunidade de concordar ou discordar dos resultados obtidos por outros pesquisadores e já mencionados na fundamentação teórica; estabelecer relações, deduções paralelas, possíveis generalizações e mesmo identificar falhas de correlação; exposição comentada utilizando linguagem clara e objetiva em que o autor se posicione em relação aos resultados obtidos. - Conclusão / Considerações Finais: parte final do trabalho baseada nas evidências disponíveis e pertinentes ao objeto de estudo. As conclusões devem ser precisas e claramente expostas, cada uma delas fundamentada nos objetos de estudo; relacionar

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os resultados obtidos com o problema de pesquisa e possível(is) hipótese(s) levantada(s); evidenciar o que foi alcançado com o estudo e a possível aplicação dos resultados da pesquisa; informar sobre possíveis limitações; podem ser sugeridos outros estudos que complementem a pesquisa ou para questões surgidas no seu desenvolvimento; recomendações de ordem prática podem ser incluídas. - Referências bibliográficas: as referências bibliográficas devem respeitar as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas – NBR 6023. Serão apresentadas no final do texto, em ordem alfabética a partir do sobrenome do autor, fonte Times New Roman, corpo 12, alinhamento à margem esquerda, espaçamento entrelinhas 1,0, espaço duplo entre obras, e sem numeração das fontes. O principal sobrenome de cada autor é seguido de vírgula e do nome, e outros sobrenomes. Títulos de livros e periódicos devem constar em negrito. A exatidão das referências e a correta citação no texto são de responsabilidade do(s) autor(es) do trabalho. - Anexos e/ou apêndices: constituindo-se de material complementar ao texto, devem ser incluídos somente quando imprescindíveis à sua compreensão. 6. O padrão editorial obedecerá às prescrições da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), com especial destaque para: 6.1 Citações bibliográficas curtas (até três linhas) são inseridas no texto, entre aspas. Citações longas (mais de três linhas) devem constituir parágrafos independentes, digitados em espaço simples e recuados a 4 cm da margem esquerda, em fonte Times New Roman, corpo 10, sem aspas. 6.2 Todas as citações diretas longas e curtas devem seguir-se do sobrenome do autor, ano da publicação e número da página. Exemplos: (BATESON, 2003, p. 20); segundo Bateson (2003, p.20). No caso de paráfrase (citação indireta), usar, por exemplo, Bateson (2003). Não utilizar idem ou idem, ibidem. 6.3 As notas de rodapé devem restringir-se a comentários e/ou observações pessoais, destinando-se a prestar esclarecimentos ou tecer considerações que não devam ser incluídas no texto, para não interromper a sequência lógica da leitura. Devem ser colocadas na parte inferior da página e iniciar com a chamada numérica recebida no texto, sem parágrafo, a partir de 1. Se houver nota no título, esta recebe asterisco e não numeração. As notas serão digitadas com fonte Times New Roman, corpo 10, espaço simples (1,0) entrelinhas. Não devem ser utilizadas para referência bibliográfica. 6.4 Quadros, gráficos, tabelas e figuras devem ser numerados, ter título e indicação da fonte,

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ficam inseridos no corpo do texto impresso, com as respectivas legendas, observando-se as normas ABNT. Apenas as iniciais do título devem estar em maiúsculas. 7. Os originais recebidos são analisados previamente pela editoria da revista Gestão e Desenvolvimento, mantendo-se em sigilo a autoria dos textos. O editor responsável reserva-se o direito de aceitar ou não os trabalhos encaminhados, bem como recusar trabalho para o qual foram solicitadas alterações e essas não foram atendidas. Após a etapa prévia, acima aludida, o artigo será submetido à avaliação de, pelo mínimo, dois professores pareceristas que fazem parte do Conselho Editorial, ou outros convidados (ad hoc).

8. A publicação não implica nenhuma espécie de remuneração. Para cada artigo publicado, são concedidos ao(s) autor(es) dois exemplares da Revista. 9. A Revista não se obriga a devolver os originais enviados. Os textos aceitos serão disponibilizados integralmente em versão impressa da Revista. 10. O cumprimento da lei que rege “os direitos autorais”, em qualquer tipo de uso e menção, é de exclusiva competência e responsabilidade do(s) autor(es) do trabalho. 11. Os artigos publicados são de inteira responsabilidade do(s) seu(s) autor(es), não representando a posição oficial do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas ou da Universidade Feevale.

UNIVERSIDADE FEEVALE Instituto de Ciências Sociais Aplicadas – ICSA Revista Gestão e Desenvolvimento E-mail: revistaicsa@feevale.br ERS 239, 2755 - Vila Nova - Novo Hamburgo (RS) - CEP 93352-000 Telefone: (51) 3586-8800 – Ramal 8850

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Identidades, Movimentos e Conceitos: Fundamentos para Discussão da Realidade Brasileira 2 Edição. Organizadores: Rodrigo Perla Martins e Carlos R. S. Machado. (arquivo em PDF) www.feevale.br/editora

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A diagramação e produção gráfica desta revista foi realizada pela Editora Feevale. Impressão: Gráfica Impressul – Jaraguá do Sul/SC. Capa: Papel Supremo 250g/m² com plastificação brilho. Miolo: Papel Couché Kroma Gloss 80 g/m². Tiragem: 300 exemplares. Distribuição Gratuita.

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Revista Gestão e Desenvolvimento / Agosto 2013