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ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO

SÃO LEOPOLDO / RS OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

6

SUL

GABRIELLI ZANFRAN

SAMANTHA HARRAS

GABRIEL GARCIA

ROSANE MOREIRA

NORTE

EDIÇÃO

LESTE

OESTE

OS PONTOS CARDEAIS DA VILA

FALTA DE ESTRUTURA

Chuva, sinônimo de muitos e recorrentes problemas. Páginas 10 e 11

MULHERES CONSCIENTES

Muitas moradoras fazem prevenção precoce contra o câncer de mama. Página 5

LUIZA CASTRO

CRISTINA BIEGER

MARIANA NECCHI

PARA ALÉM DO CENTRO DA OCUPAÇÃO, AS RUAS PALMEIRA DAS MISSÕES, BECO A, ARMAGEDON E SANTA MARIA FORMAM AS FRONTEIRAS DO LOCAL, CADA QUAL COM SUAS PRÓPRIAS HISTÓRIAS E ROTINAS PÁGINAS 12 e 13

NA BUSCA DE QUALIFICAÇÃO Moradores participaram de oficina de gastronomia na Unisinos. Página 7


2. Editorial

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Resistência move a Justo

m cada recanto, uma história de vida, uma luta, uma superação. Muitos sonhos. Mesmo com as diversas dificuldades que a Ocupação enfrenta, moradores não deixam de somar esforços para realizar campanhas, ações solidárias e ajudar quem mais precisa. Nesta sexta edição do Enfoque, a última deste ano, o que não faltam

são casos desse feitio. Moradores se mobilizam para desenvolver e melhorar a realidade onde vivem, buscam crescimento e colecionam trajetórias surpreendentes. Famílias plantam projetos, colhem resultados. Por outro lado, a comunidade revela os desafios do dia a dia para nossos repórteres e fotógrafos. As ruas, por

exemplo, são afetadas principalmente em dias de chuva. A falta de uma infraestrutura básica também compromete a qualidade de vida, além da falta de endereços regularizados no transporte ao trabalho. Essas são algumas das muitas demandas de quem resiste. Ao folhar o jornal, desejamos que os moradores que batalham para o

desenvolvimento da Ocupação Justo se sintam representados ao longo destas páginas. Queremos apoiar e estar ao lado de quem mais carece de atenção. Boa leitura! KETLIN DE SIQUEIRA GUILHERME PECH ROSANE MOREIRA

QUEM FAZ O JORNAL O Enfoque Ocupação Justo é um jornal experimental dirigido à comunidade da Ocupação Justo, em São Leopoldo (RS). Com tiragem de mil exemplares e três edições por semestre, é distribuído gratuitamente na região. A produção jornalística é realizada por alunos do Curso de Jornalismo da Unisinos São Leopoldo. Professor responsável: Pedro Luiz S. Osório (posorio@unisinos.br)

EDIÇÃO E REPORTAGEM — Disciplina: Jornalismo Cidadão. Orientação: Pedro Luiz S. Osório. Edição de textos: André Cardoso, Elias Vargas, Guilherme Pech, Isabelle de Castro Wrasse, Luana Ely Quintana, Mateus Friedrich e Matheus N. Vargas. Edição de fotos: Ketlin de Siqueira. Reportagem: André Cardoso, André Martins, Bruna Flach, Camila Tempas, César Weiler, Elias Vargas, Gabriela Stähler, Guilherme Pech, Gustavo Machado, Isabelle de Castro Wrasse, Jacqueline Santos, Ketlin de Siqueira, Letícia Costa, Lianna Kelly Kunst, Luana Ely Quintana, Luana Rosales, Lucas Lanzoni, Mateus Friedrich, Matheus Klassmann, Matheus N. Vargas, Nagane Raquel Frey, Nínive Girardi, Renata Garcia e Saimon Bianchini.

FOTOGRAFIA — Disciplina: Fotojornalismo. Orientação: Beatriz Sallet. Fotos: Amanda Bernardo, Andriele Giroto, Camila Hendler, Cristina

Fendler Bieger, Eduarda Freire, Gabriel Garcia, Gabriel Jaeger, Gabriela Bender, Gabrielli Zanfran, Geovana Araujo, Guilherme Lago, Gustavo Fernandes, Jordana Fioravanti, Júlia Möller, Lucas Kominkiewicz da Graça, Luiza Ribeiro Castro, Mariana Carvalho Necchi, Mariluce Lopes Pedroso Veiga, Michele Alves, Nicolas Rodrigues, Nicolas Sampaio, Rosane Teresinha Denke Moreira, Samantha Harras, Vitor Westhauser Ferreira e Vitoria Drehmer.

ARTE — Realização: Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Projeto gráfico, diagramação e arte-finalização: Marcelo Garcia. IMPRESSÃO — Gráfica UMA / Grupo RBS. Tiragem: 1.000 exemplares.

Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Avenida Unisinos, 950. Bairro Cristo Rei. São Leopoldo (RS). Cep: 93022 750. Telefone: (51) 3591 1122. E-mail: unisinos@unisinos.br. Reitor: Marcelo Fernandes de Aquino. Vice-reitor: Pedro Gilberto Gomes. Pró-Reitor Acadêmico e de Relações Internacionais: Alsones Balestrin. Pró-reitor de Administração: Luiz Felipe Jostmeier Vallandro. Diretor da Unidade de Graduação: Sérgio Eduardo Mariucci. Gerente dos Cursos de Graduação: Paula Campagnolo. Coordenador do Curso de Jornalismo: Edelberto Behs.


Educação .3

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Lutando por um futuro melhor As dificuldades de ingressar em uma universidade preocupam os jovens da Ocupação Justo

ano, quando teremos apresentações nas peças de teatro”. Como segundo plano, Samuel pensa em seguir a carreira de militar. “Salvar vidas é algo magnífico, quero ajudar o próximo. Como militar, eu posso ajudar a mudar meu país, e incentivar outras pessoas a fazer o mesmo. Vou seguir utilizando a poesia como hobby, investindo juntamente na carreira militar. Se eu conseguir unir os dois, serei muito feliz”, finaliza o jovem.

“E

stou fazendo curso de robótica e curso de inglês, graças a minha escola, que me deu essa oportunidade”. É assim que Samuel Duarte, de 17 anos, descreve os seus projetos para o futuro. Morador da Ocupação Justo estuda na escola estadual Helena Câmara, que fica em São Leopoldo. Cursando o primeiro ano do ensino médio, Samuel relata as dificuldades vivenciadas na Justo. “A minha escola não fica aqui perto. Na Ocupação, quase não se tem apoio. Tenho experiência em informática, mas contei com a ajuda do meu irmão. Também consegui me inscrever no curso de inglês que a minha escola oferece, devido a um projeto que fizeram para os alunos. Faltando dois anos para me formar no ensino médio, ainda não sei qual universidade vou tentar ingressar”, afirma. O irmão de Samuel, Gabriel Duarte, de 19 anos, cursa o sétimo ano do ensino fundamental e participa das aulas do EJA – Educação de Jovens e Adultos, modalidade de ensino criada pelo Governo Federal, destinada aos

Samuel espera concretizar seu maior sonho: ser poeta jovens e adultos que não tiveram acesso à educação na escola na idade apropriada. Permite que o aluno retome e conclua os estudos em menos tempo, possibilitando uma qualificação maior para conseguir melhores oportunidades no mercado de trabalho. Mesmo assim, as dificuldades persistem.“Sem amparo é difícil. Tem as aulas de apoio na Tenda do Encontro, mas os horários são poucos”, explica Gabriel. Samuel expressa a sua vontade de ingressar em uma universidade pública. “Além da Unisinos, não temos muitas opções. Tenho o sonho de ser poeta, mas se não der certo, gostaria de entrar na carreira

militar. Quem sabe no futuro tenha um projeto que nos ajude aqui dentro”, finaliza. O menino carrega consigo, o sonho de escrever histórias. “Nunca tive nenhuma aula de preparação, mas participo do projeto de Oficina de hip hop, onde também apresento as minhas poesias. Já comecei a escrever alguns textos, mas de início mantenho como hobby”, explica. Samuel, que já participou de concursos, espera seguir essa carreira. “Tenho vários poemas escritos. Uma vez consegui o segundo lugar em um concurso de melhor poesia. Outro texto, que ainda estou escrevendo,vou apresentar para a escola no final do

OTIMISMO E APOIO

Tales Kauan, de 17 anos, considera o ensino da sua atual escola bom, apesar das dificuldades. “O conteúdo é bom, os professores também, e nunca tivemos greve. Estou cursando o primeiro ano na escola Helena Câmara e ainda não sei o que vou fazer quando concluir. Já pensei em tentar ingressar na UFRGS,

Aulas de EJA A Ocupação dispõe de aulas de EJA oferecidas pela Tenda no Encontro. A escola Helena Câmara, em São Leopoldo, oferece cursos diferenciados, como de robótica, inglês e preparatório para a Fundação Escola Técnica Liberato, em Novo Hamburgo.

porém não gostaria de deixar a cidade de São Leopoldo. Se houvesse uma pública aqui, facilitaria muito”, enfatiza. “Não temos muito apoio nos anos iniciais, o que acaba dificulta o ensino médio. Deveria estar me formando agora, mas me atrasei. Agora, estou pensando qual curso irei optar e qual universidade seria melhor ingressar”, conclui Tales. Para Aumir Rock, 38 anos e pai de Mateus, de 11 anos, a presença de uma faculdade para as crianças e jovens da Ocupação é essencial. “Meu filho é novo, ainda não paramos para pensar no assunto. Na maioria das vezes, temos que dar um apoio maior nos estudos em casa. Quando ele for mais velho, não sei como vamos fazer. Gostaríamos de um maior apoio na educação das nossas crianças”, enfatiza. Apesar das dificuldades, a família de Aumir não deixa de sonhar alto. “Também não consegui concluir os meus estudos. Gostaria de participar mais das aulas de EJA que a ocupação oferece, mas trabalho o dia todo. Mesmo assim, espero no futuro, ter uma educação melhor, para conseguir proporcionar o mesmo para o meu filho”, finaliza. ISABELLE CASTRO AMANDA BERNARDO

Poucas crianças buscam o reforço escolar Para as crianças que precisam de ajuda nas escolas e não conseguem ter auxílio dos pais, é oferecido na comunidade o reforço escolar. Elas podem semanalmente aprender as matérias nas quais enfrentam maiores dificuldades. Porém o número de jovens estudantes tem sido muito baixo. A turma que deveria ter dez alunos acabou sendo procurada por quatros jovens. Eles frequentam regularmente as aulas. Os pais dessas crianças não costumam procurar a professora de reforço para conversar sobre os filhos, mas estão sempre em contato por telefone. Quem conta é a professora de reforço Ana Rodriguez. Ela auxilia o reforço do 3° ao 9° ano, tendo duração de 1h30 por semana. Ana conta que não tem tanta procura dos responsáveis pelas crianças. “Os pais dessas quatro crianças demonstram interesse mandando os filhos

para o reforço e nos mantendo informadas, via WhatsApp, sobre eventuais atrasos ou ausências. Mas não conheço nenhum pessoalmente. Sei que três ficam em casa, mas nunca estiveram na Tenda para conversar comigo”, declara.

de ganhar dinheiro muitas vezes parece ser a opção por esse mundo. Tatiane possui exemplos dentro da sua família. Segundo ela, dois de seus irmãos se envolveram com tráfico enquanto moravam na Justo.

DIFICULDADES

Além do reforço escolar que ocorre na Tenda existe também outro projeto no mesmo local que se chama Educas. Nele, é oferecido apoio especializado às crianças e jovens da Justo, desde o ensino à pesquisa. Participam especialistas em pedagogia, psicologia, entre outras licenciaturas. Há também trabalhos diferenciados, como arte, música e jogos educativos. Além disso, a revitalização da biblioteca é um projeto novo que está em pauta para os membros do Educas.

Elisabete Carvalho tem oito filhos, e conta que quando seus filhos estavam na escola, não conseguia total atenção. Quem ficava mais em cima das notas era seu marido. Seu filho mais novo está internado por causa das drogas, o mais velho fugiu pelo medo de ser morto por pessoas envolvidas com tráfico. Ela sabe que eles tiveram a chance de estudar e melhorar, mas não teve jeito. “Meus filhos tiveram a oportunidade que não tive, mas não quiseram. Hoje meus netos são meus orgulhos”, afirma. Tatiane Maciel, 33 anos, tem

PROJETO EDUCAS

Elisabete espera que seus netos aproveitem as lições escolares, o que não ocorreu com seus filhos cinco filhos, todos estudando em escolas perto da comunidade, do ensino fundamental ao médio. Como mãe, ela fica firme em cima dos estudos das crianças para que elas continuem estudando. O problema é que Tatiane não consegue auxiliar plenamente nas tarefas, pois

lhe falta conhecimento para dar o suporte necessário Mesmo não conseguindo dar suporte ensinando, Tatiane mantém em “rédeas curtas” os seus filhos, já que como ela mesmo diz, o tráfico de drogas é um perigo constante. Como a Justo é um local carente, o jeito

ANDRÉ MARTINS GABRIEL JAEGER


4. Educação

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A falta que faz uma creche Inexistência de locais especializados para cuidar de crianças segue dificultando a vida das famílias

C

om cerca de 2500 famílias, a Justo carece de creches para o cuidado de crianças. Isso dificulta a vida das mães, especialmente na retomada do trabalho. Há casos de abandono do emprego para dedicar o tempo aos filhos. “Eu trabalhei na creche Sonho de Criança, no bairro Feitoria, por um ano e dez meses. Quando soube da gravidez da Manoela, tive que sair”, relata Rosemere da Silva, 42 anos, dona de casa. A moradora conta que, além da filha Manoela, de três anos, ela tem um filho chamado Samuel, 16 anos, com retardo mental moderado. A falta de um ambiente especializado na Justo faz com que ele frequente uma escola especializada em necessidades especiais fora da Ocupação, em São Leopoldo. “Devido à deficiência, ele não sabe pegar o ônibus, então comprei uma bicicleta para que

Josiane deixa o filho caçula com a avó enquanto trabalha consiga ir até a escola”, ex p l i c a Ro s e m e r e . Situações mais comuns, como a avó assumir o cuidado dos netos também são presenciadas. “A minha mãe gosta de cuidar, enquanto eu trabalho, ela fica com eles, mas faz falta uma creche para o desenvolvimento deles”, conta Josiane Borges, 31 anos, enfermeira. Mãe de dois filhos, Estefane, sete anos, e Gustavo, um ano, ela relembra

que a filha mais velha, após ser cuidada pela avó até os três anos, frequentou a creche Estação da Criança, em São Leopoldo. A instituição de ensino tem convênio com a Prefeitura de São Leopoldo, o que facilitou o transporte diário fornecido pelo município. Estefane ficou até os seis anos, quando atingiu a idade para iniciar o ensino fundamental. Já com o Gustavo, cuidado agora pela

Cuidadora há 3 anos, Tânia toma conta de cinco crianças avó Eliane Borges, Josiane se afastou por cinco meses do trabalho e depois retornou as atividades na enfermaria do Lar dos Anjos, em Novo Hamburgo, e na Cooperativa Mundo Mais Limpo, em São Leopoldo. Uma opção para minimizar a ausência das creches é a cuidadora Tânia Regina, 40 anos, que emprega o seu tempo há mais de três anos cuidando de crianças. Atualmente ela cuida de

cinco pequenos. O recebimento de todos inicia às 7h da manhã, de segunda a sexta-feira. “Quando eu morava em Ijuí, cuidava d o s m e u s i r m ã o s . Ve i o dessa época o desejo de agora atuar como cuidadora”, recorda Tânia. É com esse trabalho que ela vive mensalmente, sem depender de outras tarefas. GUSTAVO MACHADO JÚLIA MÖLLER

As leituras de Tamily e seus sonhos Tamily Ferreira, de dez anos, recebe de seus pais, Rogerio e Priscila Ferreira, o incentivo de ler cada vez mais. Residentes desde 2014 na Ocupação Justo, a família acredita que a leitura, além de melhorar a escrita, ampliar o vocabulário e auxiliar muito na comunicação, é a melhor forma de se adquirir conhecimento. Muito necessário à Tamily, que quer ser médica, advogada e veterinária. Ela está cursando o 3º ano do Ensino Fundamental. Foi reprovada no ano passado pois, segundo a própria, é muito “aérea”. A pequena explica que até na escola se tem um tempo dedicado a leitura. “A ‘sora’ dá uma hora para todos lermos. Independentemente de o que estivermos fazendo, temos que parar. Depois do recreio, meus colegas e eu nos reunimos

e um de nós conta uma história”, comentou. A mãe, Priscila, de 24 anos, trabalha como atendente em uma lanchonete. Lembra que quando tinha a idade da filha não era muito ligada à leitura. “Eu não era muito fã e meus pais não me incentivavam como nós incentivamos a Tamily. Me lembro até hoje, eu tive uma professora que nos dizia que a leitura nos faria pessoas muito melhores, mas eu achava muito chato”, lembra a mãe, aos risos. O pai e chefe de obras, Rogério, 34 anos, completa dizendo que a leitura faz expandir a mente. “Tem uma frase do Mário Quintana que diz: Livros não mudam o mundo, quem muda são as pessoas, livros só mudam pessoas”, afirmou o pai. Apesar de incentivar a filha a buscar cada vez mais conhecimento para alcançar

Rogério e Priscila sabem que os livros serão a principal fonte de conhecimento para a filha, Tamily seus objetivos, admite não ser um leitor assíduo. Priscila comenta que é muito comum vermos até crianças ainda de colo usando celulares, seja para olhar vídeos ou para jogar, mas Tamily não é assim. “O máximo que a gente deixa é ela olhar desenho e muito

de vez em quando, não é todo dia que emprestamos o celular para ela”. Apesar de ler muitas enciclopédias e livros da escola, Tamily diz gostar mesmo é de ler os gibis da Turma da Mônica, obra de Mauricio de Sousa. Apesar de gostar de todos, a perso-

nagem favorita da pequena é a Magali. Ela não gosta muito do Cascão e do Cebolinha. “O Cascão e o Cebolinha só incomodam a Mônica, gosto da Magali porque sou comilona igual ela, só que eu prefiro doces”, comentou sorridente. Dos livros que foram lidos recentemente, o que Tamily mais gostou foi “Por que quem espera sempre alcança?”, da autora Renata Julianelli. A obra aborda o tema da paciência ao mostrar que ter calma e saber esperar são hábitos saudáveis para lidar com a correria do dia a dia e ter uma convivência agradável com as pessoas. “Ela é bastante divertida, me ensinou a ter calma e não querer as coisas todas na pressa”, finalizou a pequena leitora. MATHEUS N. VARGAS VITOR WESTHAUSER FERREIRA


Saúde .5

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A operadora de caixa Gisele de Santos Souza, 36 anos, abraçou a causa da prevenção

Glaudete Gusto

Cinara Mello dos Santos

Sirlei Cristina dos Santos

Elisangela Roff Ramon

Leila Siqueira

Aline Marcia Jaques

Cuidando para evitar o câncer de mama Muitas moradoras da Ocupação têm conhecimento sobre a doença e realizam a mamografia através do SUS e o autoexame em casa

O

utubro Rosa é uma campanha anual realizada mundialmente para alertar a sociedade sobre o diagnóstico precoce do câncer de mama. Das sete mulheres entrevistadas na Ocupação Justo, quatro realizam através do Sistema Único de Saúde (SUS) a mamografia – radiografia, capaz de identificar alterações suspeitas de câncer antes do surgimento dos sintomas. As demais mulheres fazem o autoexame em casa, à exceção de uma. A faixa dos 50 aos 69 anos é definida como público prioritário para a realização do exame preventivo pelo SUS. Há 18 anos, Glaudete Gusto, 56 anos, depois de uma consulta ginecológica, foi encaminhada para fazer exames de rotina e o pré câncer. “Tenho uma filha adotiva, além da escola tratar sobre o assunto, eu também converso com ela para cuidar de sua saúde. Eu faço exames de rotina e cuido da minha alimentação. Pre-

tendo voltar a fazer alguma atividade física”, diz. Proprietária de um mercado na Ocupação Justo, Sirlei Cristina dos Santos, 57 anos, realizou o primeiro exame de mamografia há oito anos e depois nunca mais fez. Este ano, alertada por dores no seio esquerdo, marcou por meio da ginecologista do SUS o exame de mamografia. “Estou preocupada, pois já tenho gastrite crônica, e não gostaria de ter nenhum tumor, pois não tenho condições financeiras de realizar tratamentos”, ressalta. Já a dona de casa Leila Siqueira, 38 anos, realizará a mamografia pela primeira vez neste mês de novembro, junto com os exames de rotina.

“Esse assunto sempre está na roda de conversa entre minhas vizinhas, pois devemos conscientizar as mulheres para fazer o diagnóstico precoce” Cinara Mello dos Santos Diarista

Há 20 anos, a diarista Cinara Mello dos Santos, 48 anos, realiza a mamografia por indicação de sua ginecologista e conta que conversa sobre o tumor com suas amigas. “Depois de ter meu último filho, minha médica incluiu além dos exames de rotina, fazer também o pré câncer. Após a realização da mamografia, demora aproximadamente um mês para saber o resultado. Esse assunto sempre está na roda de conversa entre minhas v i z i n h a s , p o i s d eve m o s conscientizar as mulheres para fazer o diagnóstico precoce”, salienta.

PRIORIDADE

A comerciante Elisangela Roff Ramon, 33 anos, conta que fez o autoexame pela primeira vez há cinco meses, quando viu uma publicação em sua rede social sobre câncer de mama. “Não realizei mais o autoexame, pois estou amamentando minha filha - além dos exames de rotina, quero realizar a mamografia, pois minha saúde é prioridade”, diz. Já a dona de casa Aline Marcia Jaques, 41 anos, conta que nunca realizou algum diagnóstico precoce e acha

que não há nenhum fator de risco na família. Mesmo assim, futuramente pretende fazer a mamografia.

CONSCIENTIZAÇÃO

Há dois anos a operadora de caixa, Gisele de Santos Souza, 36 anos, encontrou um nódulo benigno o seio. “Fiquei apavorada quando realizei o autoexame no banho e encontrei um carocinho em um dos seios. Fui ao médico e relatei a preocupação, mas me comentaram que não seria nada, pois não teria idade para ter o tumor. Comecei a trabalhar em uma rede de supermercado, onde tem convênio com uma clínica, desta forma, realizei uma biopsia e descobri que não seria câncer de mama, mas um nódulo benigno”, conta. O câncer de mama pode ser detectado em fases iniciais em grande parte dos casos, aumentando assim a possibilidade de tratamentos menos agressivos e com taxas de sucesso satisfatórias. “Todas as mulheres, independentemente da idade, devem ser estimuladas a conhecer seu corpo para saber o que é e o que não é normal em suas mamas”, comenta Gisele. Ela resolveu se engajar

na causa. Nas suas redes sociais realiza postagens sobre a conscientização das mulheres para o diagnóstico precoce e auxilia as amigas que não sabem fazer o autoexame. “Expliquei para minhas colegas sobre o tumor e muitas não sabiam que havia como prevenir o câncer de mama através do SUS”, conta.

Saiba mais O câncer de mama pode ser percebido em fases iniciais, na maioria dos casos, por meio dos seguintes sinais e sintomas: Nódulo (caroço), fixo e geralmente indolor: é a principal manifestação da doença, estando presente em cerca de 90% dos casos quando o câncer é percebido pela própria mulher l Pele da mama avermelhada, retraída ou parecida com casca de laranja l Alterações no bico do peito (mamilo) l Pequenos nódulos nas axilas ou no pescoço l Saída espontânea de líquido anormal pelos mamilos l

KETLIN DE SIQUEIRA MARIANA NECCHI


6. Saúde

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Homens que evitam os médicos Saiba mais

No mês de combate ao câncer de próstata, moradores revelam que praticamente não se cuidam

O câncer de próstata é a multiplicação desordenada das células da próstata, uma pequena glândula do tamanho de uma noz. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, a doença é a segunda maior causa de mortes por doença de homens no Brasil. Na maioria dos casos, cresce de forma lenta e sem dar muitos sinais. É mais frequente em homens a partir de 55 anos.

A

campanha Novembro Azul se dedica à prevenção contra o câncer de próstata. Para os homens da Ocupação Justo, porém, os exames e as visitas ao médico ocorrem com pouca frequência. O atendimento nos hospitais é um fator desmotivador, além de uma cultura que afasta os homens dos cuidados pessoais. As esposas são as maiores incentivadoras para que eles comecem a prestar mais atenção à saúde. Osiel Ramos, 41 anos, proprietário de uma oficina mecânica, diz que vai pouco ao médico e não faz exames de rotina pela dificuldade de acesso. Na última vez que precisou, usou um plano de saúde mais acessível, que custa cerca de vinte reais por mês. O empresário fez a última consulta no centro de Sapucaia e relata que achou muito bom o atendimento. “Se fosse depender do SUS não ia dar”, relata. A esposa de Osiel dá mais importância à saúde e à alimentação: “Ela é muito mais cuidadosa, até me cobra isso. Eu tenho

Eberton conta que não faz exames de rotina, pois tem uma “saúde de ferro” que ter uma atenção maior nisso aí”, comenta. O atendimento dos hospitais é uma queixa de Eberton da Silva Lira, 38 anos, proprietário de uma ferragem. “O [Hospital] Centenário se eu puder evitar, eu evito. Ali é cruel. Eles não dão o atendimento devido”, desabafa. Ele diz que não faz exames de rotina, por ter uma “saúde de ferro”. Apesar disso, Eberton acredita que campanhas como a Novembro Azul são importantes para a conscientização. Para cuidar da saúde, ele diz que tem uma boa alimentação e se movimenta bastante. “A gente puxa pedra, cons-

Osiel faz poucas consultas e procura usar plano de saúde acessível

trói casa, lida na horta. Isso ajuda na saúde”, diz.

VISITAS RARAS

Darci de Oliveira Rodrigues, 42 anos, dono de uma fruteira, também é incentivado pela esposa a cuidar melhor da saúde. Ele conta que ela esposa sempre faz exames de prevenção do câncer, frequentando o posto de saúde mais próximo. “Ela até me incentiva, mas eu não vou. Homem é mais difícil de ir, né. Se eu tiver dor eu vou no médico, enquanto eu tô tranquilo eu não vou”, admite o empresário. Ezequiel Padilha, 35 anos, diz que só a esposa marca con-

sultas com frequência, para ela e para a filha do casal. “Na verdade, eu não dou muita bola”, admite o morador, que nunca usou os atendimentos de saúde do bairro. O último check-up que fez foi por motivos profissionais. Também é o trabalho que obriga Josiel Chaves, 28 anos, a fazer exames. “A empresa em que eu trabalho exige que eu faça exame anualmente”, diz O profissional da construção civil diz que só vai ao médico fora dessas ocasiões quando está realmente precisando. GABRIELA STÄHLER VITÓRIA DREHMER

Quais são os sintomas: A maioria dos sintomas estão ligados à urina. Dificuldade para urinar, fluxo fraco e/ou presença de sangue podem ser sintomas. A necessidade de urinar muitas vezes, inclusive à noite, também é um sinal de alerta. Como é feito o diagnóstico: Pode ser feito pelo sangue ou pelo exame de toque retal, que é indolor e demora de um a dois minutos. O exame deve ser feito anualmente por homens a partir de 45 anos. Como é o tratamento: A principal forma de tratamento é a cirurgia, junto com a radioterapia e uso de hormônios. O tratamento é oferecido pelo SUS e precisa ser indicado por um médico especializado.

Água parada e lixo preocupam O lixo depositado em local indevido causa transtorno e preocupação para os moradores da Justo. Além disso, a comunidade encontra dificuldades quando o assunto é saneamento básico. O acúmulo de lixo em locais impróprios e o perigo de contaminações e da proliferação do mosquito da dengue assusta os habitantes da ocupação. Maurício de Azevedo, 35 anos, é morador há sete anos. Está finalizando a sua casa e construindo um muro para proteger o seu lar, pois nos fundos da sua residência há lixo acumulado em local impróprio. “ É muito lixo, eu limpo aqui, mas não adianta. Tem lixeira na entrada da Ocupação e o pessoal infelizmente não respeita”, comenta. Além do problema com o lixo, Azevedo fala que as chuvas recorrentes dificultam aos moradores caminharem pelas ruas. “É complicado, pois é muito barro e água acumulada. É uma situação bem crítica. E com a água parada o perigo da dengue é real“, enfatiza.

Acabo encontrando bastante aranhas e ratos. Então eu tenho que cercar minha casa”, finaliza. A moradora Maria de Fátima dos Santos, 76 anos, aposentada, mora no Beco C e reside há mais de 30 anos na Ocupação. Ela relata que a água do esgoto sai direto para rua e a situação piora quando chove. O perigo do mosquito da dengue está sempre presente no local, com a falta de infraestrutura e de um esgoto de qualidade. A água fica parada por vários dias e a preocupação dos moradores aumenta com o calor. “No verão, o odor é insuportável, porque a água desce das ruas de cima e fica aqui acumulada”, explica. M o r a n d o s oz i n h a , Maria de Fátima preoMaria de Fátima mostra o tamanho cupa-se com os ratos, pois com o acúmulo de do rato que já viu O morador, sem- passar pela rua lixo, os animais invadem pre que pode, limo local. “Os ratos que paspa o local. Evita assim que ratos e sam aqui são do tamanho de uma baratas, por exemplo, entrem em preá. Eu compro aqueles venenos sua casa. “Eu limpo aqui, mas não para evitar que eles venham para posso estar limpando toda hora. minha casa, pois eu tenho que cuidar

da minha plantação”, relata. Apesar de morar sozinha, Maria de Fátima procura tomar todos os cuidados possíveis na hora de trabalhar. Ela se previne para evitar a contaminação por ratos e baratas, além das picadas dos mosquitos. “Eu me levanto todos os dias às 4h da manhã, coloco uma calça e as botas de borracha, para evitar os mosquitos. E não dá para deixar vasilha de água, porque eles colocam os ovos e os bichinhos ficam voando”, finaliza. Conforme o líder comunitário, Rodrigo de Azevedo, 39 anos, a própria comunidade se ajuda no combate ao mosquito causador da dengue (Aedes aegypti) e aos lixos acumulados na rua. “A gente cobra muito do pessoal sobre o lixo na rua, até para evitar sujeira e o perigo de contaminação. Teve um dia que a prefeitura passou por aqui alegando que tinha casos de dengue, mas foi só um susto, uma ameaça”, comenta. ELIAS VARGAS GABRIELA BENDER


Gastronomia .7

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Muito além da cozinha Oficina de qualificação gastronômica para moradores da Ocupação revela diversos sonhos e histórias de vida

P

ara muitas pessoas, preparar uma refeição é apenas um ato de satisfazer as necessidades do organismo, mas para outros tantos a culinária alimenta também a esperança de um futuro melhor. Em busca disso, 19 moradores da Ocupação Justo participaram de uma oficina promovida pelo curso Gastronomia da Unisinos São Leopoldo durante as noites de 23 e 24 de setembro. Orientados pela professora Viviane Weschenfelder, 25 alunos das disciplinas de Gastronomia e Ensino e Gastronomia na Hospitalidade e no Turismo ensinaram os participantes a preparar risoles, coxinhas, bolinhas de queijo e mini pizzas. O cardápio foi escolhido pela própria comunidade, com a intenção de que os salgados possam proporcionar renda para as famílias. Após a conclusão das aulas, todos receberam um certificado para incluir no currículo.

Acompanhados pelos olhares atentos da turma, composta por adultos e adolescentes, os alunos da graduação realizaram o preparo dos alimentos e depois passaram a vez para os moradores da Justo colocarem a mão na massa, enquanto tiravam dúvidas sobre as receitas. Os participantes também receberam orientações sobre os pesos e valores para a venda dos salgados. Entre os adolescentes, uma das mais animadas era Jhenifer Alves da Rosa, 18 anos. A estudante quer ser enfermeira e, apesar de não desejar um futuro na gastronomia, viu na oficina a oportunidade de melhorar a situação financeira. “Como o serviço tá difícil hoje em dia, a gente pode aprender a fazer pizza para fazer em casa e sair vendendo”, explicou. Ao contrário de Jhenifer, o jovem Emanuel Simplício Fagundes da Silva, 14 anos, sonha em ser chef de cozinha, o que o motivou a se inscrever na atividade. “Eu gosto de cozinhar e quero ser Masterchef”, diz o estudante, influenciado pelo reality show culinário. Mesmo sonhando com a carreira, ele não costuma cozinhar com

“Essa oportunidade que a Ocupação Justo está recebendo é importante para ambas as partes, porque eles aprendem com a gente e nós aprendemos com eles” Leandra Friedrich Moradora frequência em casa, deixando a tarefa com a mãe, que já lhe ensinou alguns preparos como arroz e bolinho de chuva. Quem também quer seguir na profissão é Felipe Marques Nepomuceno, 15 anos. Apesar da pouca idade, o estudante já tem certificado de um curso de padeiro que fez e decidiu participar da oficina para buscar uma nova qualificação. “Sempre gostei de cozinhar, desde criança. Fazia biscoito para dar para a professora. Sei fazer quase tudo, pudim, mousse, feijão, carreteiro. Quando me

dá vontade, eu preparo toda a janta sozinho”, revelou o garoto, que também já vendeu salgados na rua quando o pai estava desempregado.

MOTIVAÇÃO

Assim como os adolescentes, os adultos também têm seus sonhos. É o caso de Abrão Bernardo de Souza Júnior, 27 anos, que trabalha nos fins de semana em um restaurante, onde pretende colocar em prática os ensinamentos da oficina. “No futuro, quero trabalhar fixo em um restaurante e, mais a longo prazo, eu sonho em ter meu próprio estabelecimento, por isso quero me aperfeiçoar cada vez mais. Eu sou bem sonhador, sempre vejo lá na frente”. A dona de casa Luciana Rodrigues Marques, 39 anos, afirma que gosta de inventar coisas novas da cozinha para “não ficar só no arroz com feijão”. Ela costuma fazer salgados e tortas sob encomenda e também vai aplicar o que aprendeu na oficina em sua atividade. Sobre a visita à universidade, Luciana revela suas impressões. “Eu nunca tinha entrado aqui. Tu olha da rua e parece

LUIZA CASTRO

Fã do programa Masterchef, Emanuel da Silva sonha com uma carreira de chef

Mesmo tão jovem, Felipe Nepomuceno já tem muita experiência na cozinha

Luciana Marques ficou impressionada com a estrutura da universidade

GABRIEL GARCIA

LUIZA CASTRO

GABRIEL GARCIA

Almejando ter o próprio restaurante, Abrão Júnior quer aprender cada vez mais

JACQUELINE SANTOS GABRIEL GARCIA GUILHERME LAGO LUIZA CASTRO

LUIZA CASTRO

GUILHERME LAGO

Jhenifer da Rosa buscou na oficina a chance de complementar a renda em casa

pequeno, mas é uma imensidão aqui dentro. Nunca tive essa oportunidade, agora, graças à Deus, aconteceu. Então vamos aproveitar, né?”. Conhecer o campus foi a principal razão que levou Leandra Fernanda Vieira Friedrich, 36 anos, a querer participar da atividade. “Eu gosto muito da universidade e eu sempre tive o sonho de conhecer a cozinha da Unisinos. Quando vi na internet as fotos da cozinha, comecei a me imaginar pilotando o fogão. Olha, se não for pedir muito, já pedindo, vamos fazer outra oficina”. Atualmente recebendo auxílio-doença do INSS, Leandra enfatiza a relevância da parceria entre a universidade e os moradores da comunidade. “Essa oportunidade que a Ocupação Justo está recebendo é importante para ambas as partes, porque eles aprendem com a gente e nós aprendemos com eles, todo mundo sai ganhando!”, comemora a moradora.

Leandra Friedrich sonhava em conhecer a cozinha da Unisinos e quer mais atividades


8. Gastronomia

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

Sábado de chuva é um prato cheio Churrasco está entre as refeições preferidas dos moradores da Justo

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as manhãs de sábado na Justo, o cheiro de comida sempre está presente. Entre as refeições preparadas, o prato preferido de muitos moradores não é exatamente uma surpresa: o bom e velho churrasco. Nos dias chuvosos, como na última visita ao local do Enfoque, a churrasqueira é trocada pelo fogão ou pelo forno – o importante é ter a mesa cheia, o tempo ocupado e a oportunidade de reunir a família. Enquanto assava um pudim e tomava chimarrão, o autônomo Alceu Roque, 38 anos, aproveitava para descongelar carnes de costela e frango, que entrariam no forno em seguida. Os cortes iriam ser assados dessa forma, mas a comida preferida do trabalhador é mesmo o churrasco. Ele conta que gosta dos acompanhamentos também,

mas prefere a carne e o salsichão. “Salada de maionese a gente quase nunca faz, quase sempre é um aipim com farofa e alho. A gente come muito aipim”, conta o morador. No dia a dia, Alceu gosta de comer “qualquer coisa que seja bem-feitinha, até arroz, feijão e ovo ou batata frita. Não tem coisa melhor”, comenta. O autônomo, que trabalha com solda e reformas de casas, conta que tem o hábito de comer mais comida caseira, até quando está trabalhando. “Tem um senhor para quem eu trabalho em Canoas que sempre fala para eu almoçar com ele”. Quando o cardápio é doce, os pratos mais comuns na casa do morador são torta de bolacha, arroz de leite e bolos pré-prontos. Os dois filhos de Alceu, Matheus, de 11 anos, e Ana Júlia, de sete, moram com o pai e levam sempre o lanche para o colégio. A dupla, que não gosta muito da merenda oferecida pela escola, geralmente opta por torrada

Nos dias chuvosos, a churrasqueira é trocada pelo fogão ou pelo forno ou bolo, pois a escola não permite que levem lanches industrializados. “As crianças também não são muito de salada, só quando é brócolis ou beterraba, só salada boa”, afirma o pai.

FAMÍLIA

Kelly Dalla Vecchia Machado, de 22 anos, também prefere fazer a comida em casa e o ingrediente favorito para o cardápio é o frango mais saudável, segundo ela. “E barato”, como acrescenta o marido Alex. A forma de preparar a proteína varia bastante, costuma ser no forno ou na panela, acompanhada de molho, por exemplo. Para ocasiões especiais, o churrasco também é a preferência da família, sempre acompanha-

do de salada de maionese. O prato do dia da entrevista, no entanto, seria sopa de legumes e carne, acompanhada de bolinho. Já quando se fala em doces, os favoritos da família são bolachas, alfajores e rapaduras. O casal tem dois filhos. O caçula Victor, de um ano e três meses, que ainda nem sabe falar, deixa a sua preferência alimentar muito clara: o leite materno. “Ele ainda mama no peito, come pouca comida. Não quer muito desmamar”, conta a mãe. Já Natasha, de cinco anos, gosta da merenda da escola, onde sempre come alimentos como massa, carne e feijão – então não costuma levar lanche. A casa tem, ainda, dois membros caninos, que comem tanto restos de comida quanto ração.

RENDA

Para outro morador, a alimentação dos vizinhos garante o sustento. Darci Oliveira Rodrigues, de 42 anos, ficou sem trabalho e decidiu abrir

uma fruteira recentemente, uma semana antes da entrevista que concedeu para o Enfoque. “Escolhi porque não tinha fruteira na vila ainda e essas coisas eram muito caras em outros lugares”. O comerciante, que também tem prateleiras com alimentos não perecíveis, conta que as opções preferidas dos moradores são ovos, frutas e saladas, além da cerveja e refrigerantes. Entre as frutas mais pedidas, estão banana, bergamota e laranja, enquanto as saladas preferidas dos vizinhos são repolho, alface e tomate. “Carvão eu também consigo vender bem porque comprei um caminhão inteiro e consigo fazer um preço bom”, ressalta o comerciante. Quando os alimentos começam a ficar menos vistosos, ele tem colocado em um lugar separado. “Aí o pessoal mais pobre vem aqui e eu dou”, relata. LUANA ROSALES NÍCOLAS RODRIGUES

No sábado de chuva, Alceu preferiu trocar a churrasqueira pelo forno

Na casa da família Machado, todos os membros são bons de boca

Na nova fruteira, os itens mais pedidos são ovos, frutas e saladas

Kelly adora churrasco, mas o frango é o cardápio mais comum em sua cozinha


Tecnologia .9

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Cuidados com o uso da internet Jovens relatam ficar conectados de quatro a seis horas por dia

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a Justo, o uso da internet é importante ao conectar os moradores da ocupação em uma das redes digitais locais que lutam pelo bem da comunidade. Ao mesmo tempo em que pode ser aliada, a internet também desempenha um papel nem tão positivo quando o uso for excessivo. Dionata Rodrigues, 20 anos, admitiu fazer o uso em excesso da internet e que sofre com ansiedade devido a isso. “Eu geralmente fico conectado quatro horas por dia, fico jogando online e às vezes assisto vídeos no YouTube” relatou. Já a estudante do 7º ano do ensino fundamental Kimberly Mitteelstadt, 16 anos, revelou ficar conectada a maior parte da tarde em suas redes sociais. Alessandra Furtado, 15 anos, estudante do 9° ano, relatou que faz o uso excessivo e que às vezes sofre com a dependência da internet. “Faço o uso da internet com frequência, principalmente à tarde, no contra turno da escola. Na maior parte do tempo fico nas redes sociais, e as vezes faço pesquisa para a escola” declarou. Outros moradores da Ocupação relatam navegar na internet de forma mais consciente. É o caso de Jerry Adriani, 54 anos, casado e

com dois filhos. Ele contou que se conecta apenas para o trabalho, consultando valores de peças para sua mecânica automotiva. A moradora Viviane Sena, 31 anos, casada e com dois filhos, declarou utilizar no ambiente digital praticamente apenas o WhatsApp. “Mas, às vezes procuro receitas culinárias diferentes para fazer em casa”, comenta.

VISÃO PROFISSIONAL

Uma pesquisa realizada pela Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ) apontou que uma em cada quatro pessoas fazem uso abusivo da internet. Os números ainda podem aumentar caso a pessoa tenha até, ou menos de 18 anos. Embora nem todos desenvolvam dependência, os problemas que o uso excessivo da internet causa é um alerta para a sociedade. Para Ariceli Natus Colissi, 33 anos, psicóloga especialista em saúde mental, formada pela Faculdade Integrada de Taquara (Faccat), conta que atualmente alguns estudos trazem conclusões sobre o uso em excesso da internet e das redes sociais. Essa prática pode ter relação direta com o aumento da depressão e ansiedade. O uso também pode causar isolamento social, insônia, problemas de visão, entre outros. BRUNA FLACH CAMILA HENDLER

Kimberly e Dionata acreditam usar em excesso a web nos finais de semana

Youtube é febre entre jovens da Justo Sentado em frente à sua casa, Rickelme Santos, 11 anos, faz o que a maioria dos jovens de sua idade costuma fazer hoje em dia: assistir vídeos no Youtube. As brincadeiras na rua foram praticamente substituídas pelo uso do celular e as crianças da Justo seguem este padrão. Para Rickelme, o canal Play Hard, que produz conteúdo sobre jogos de celular e conta com nove milhões de inscritos, é figurinha carimbada em sua rotina. “Sempre assisto aos vídeos para melhorar no Free Fire, que é um jogo multiplayer para celular, de aventura e de ação”, pontua. Ele ressalta que está no nível 54 do jogo. Mas a obsessão pelo game não agrada a sua avó, Márcia Regina Vaz da Silva. “Eu não acho que é bom, esses jogos de tiro, de matar. Passa um mau exemplo”, afirma a mulher de 49

anos. Mesmo sem internet em sua casa, Rickelme dá um jeito: baixa os vídeos no aplicativo chamado Snaptube e assiste no conforto de sua moradia. Não é apenas para o menino de 11 anos que o Free Fire é importante. Theylor Matheus, 13 anos, é outro garoto da comunidade que assiste vídeos na plataforma audiovisual. “Meu canal preferido é o do Overman. Tem várias gameplays, mas as minhas preferidas são sobre o Free Fire”, diz. Agora, ele espera pelo seu aniversário, dia sete de novembro, para ganhar um celular novo e, finalmente, baixar o jogo que tanto anseia. Mas não é só com o Free Fire que Theylor se ocupa no Youtube. Ele também gosta de ver vídeos com histórias curiosas. “Outro canal que gosto é o do Mamute Congelado. Ele conta umas histórias

Rickelme passa seu tempo livre assistindo vídeos tipo música cantada de trás pra frente para achar uma mensagem oculta, essas coisas”, explica, em meio a risadas. Na escola, sua matéria favorita é matemática e ele usa o Youtube também para tirar dúvidas. “Uma vez, estava com dúvida sobre uma fórmula,

procurei no Youtube e aprendi melhor”, ressalta. O uso do Youtube para educação também é o foco de Vanessa Gonçalves, mãe de duas crianças, Ângelo Gabriel Gonçalves e Maiara Laine Gonçalves, de dez e seis anos, respectivamente. “Coloco ví-

deos para eles aprenderem a ler, juntar sílabas, escrever direitinho”, comenta. Mas admite: seus filhos gostam mesmo é de assistir vídeos sobre outros assuntos. Para Gabriel, vídeos de Minecraft (jogo eletrônico que permite a construção de qualquer coisa ao usar blocos quadrados) são os mais importantes. Para Maiara, o que interessa é “aprender a fazer slime (um tipo de ‘geleca’, de consistência pegajosa e parecido com uma massa de modelar)”. Até mesmo Vanessa se rende à ferramenta: gosta de assistir filmes de ação nos domingos de folga. “É bom assistir para dar uma descansada depois de uma semana de trabalho”, afirma a mulher de 31 anos, que trabalha de segunda a sábado. ANDRÉ CARDOSO LUCAS KOMINKIEWICZ DA GRAÇA


10. Infraestrutura

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Mau tempo expõe os problemas de sempre Chuva aumenta as dificuldades na Justo e moradores se unem em busca de melhorias

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ama, sujeira, buracos, falta de água e quedas de luz são os principais problemas causados pelas chuvas que afetam a vida dos moradores da Ocupação Justo. Alguns têm esperança de que dias melhores chegarão, já outros não veem perspectivas de mudanças. Os líderes da comunidade, por sua vez, buscam progressos diariamente, a fim de oferecer uma vida mais digna para quem vive no bairro esquecido pelo poder público. Moradora da Justo há um

ano e meio, Ilônia de Lourdes Prates, 64 anos, relata que é comum ver carros derrapando e motociclistas sofrendo acidentes no local. Isso porque, em dias de chuva, as ruas são tomadas pelo barro e enormes poças de água. “Sempre foi assim, pois a terra fica mole e os veículos acabam deslizando”, comenta. Outro problema citado por Ilônia são as re-

“Por enquanto a saída é todo mundo se unir e trabalhar juntos” Rodrigo Azevedo Autônomo

correntes quedas de energia elétrica no bairro. “Já perdi ventilador, micro-ondas, ar condicionado. São muitos prejuízos”, comenta, à espera de dias melhores. João Miguel da Rosa, 53 anos, mudou-se para morar com a esposa e os dois filhos em uma casa própria na Justo. De acordo com o pedreiro, a falta de água e as poças enormes em frente à casa são os principais problemas enfrentados na Ocupação em dias de chuva. “Se o prefeito olhasse para cá seria melhor, prometer é fácil, mas fazer ele não quer”, diz, num tom de indignação. O motorista Claudiomar de Andrade, 44 anos, concor-

da com João. Segundo ele, a população costuma se queixar muito da falta de saneamento básico, do barro e da quantidade de buracos. “O presidente da cooperativa e os moradores vão em busca de melhorias, mas teríamos que ter ajuda da prefeitura e dos vereadores para arrumar esgotos, água encanada e a iluminação”, entende.

SOLUÇÃO

Morador da Justo há quatro meses, Jeferson Adriano Nunes Monteiro, 43 anos, é servente de pedreiro. Recentemente, ele se viu obrigado a fazer uma valeta ao lado de casa para que a água que vem da rua não entrasse no

pátio. “Eu sei que assim pode incomodar o vizinho, já que a água pode desembocar no terreno dele. Mas não tinha outra solução”, destaca. Esposa de Jeferson, Ivani Lopes, 45 anos, lembra que uma das filhas do casal já deixou de ir à escola em dias de chuva. “Eu digo para ela ficar em casa, porque de nada adianta usar uma roupa limpa, um tênis claro e chegar na escola e estar toda suja e molhada”, relata. Os moradores, contudo, não assistem à situação de braços cruzados. No mês que vem, Jeferson e um vizinho vão dividir o valor de uma carga de saibro para melhorar as condições de trafegabilida-

Rodrigo, um dos líderes da Justo, propõe união para solucionar os problemas causados pela chuva


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ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

Ermelindo Varniere (abaixo), uma das principais vias de acesso é também uma das mais abandonadas. Os buracos crescem e as chuvas só pioram a situação. Carla sugere a participação dos alunos do curso de Engenharia da Unisinos para a melhoria do local

de na via. “O que resta é se unir e pagar alguns carroceiros para fazer isso para a gente”, complementa. A corretora Carla Lucy Baglione, 36 anos, conta que a rua Ermelindo Varniere, utilizada como atalho para a Duque, também apresenta problemas. “Os moradores se reuniram para fazer uma ‘vaquinha’ para colocar caliça nos buracos, porque quando chove não tem condições de passar”, comenta. Carla explica ainda que é comum estourar os canos na

vila, principalmente quando o tempo está ruim.

ENVOLVIMENTO

Segundo a moradora, com a coleta de lixo a situação das ruas já melhorou. Antes, além dos buracos e das poças de água, ainda havia o lixo espalhado pelo chão. Para Carla, uma solução é a conscientização dos moradores quanto ao saneamento básico. “Nos dias de chuva parece que eu estou dormindo dentro de uma patente, o cheiro é muito forte”, lamenta.

Outra sugestão dada por Carla para melhorar o local é o envolvimento dos alunos da Unisinos, como o curso de Engenharia, por exemplo. “Com tanta tecnologia hoje em dia, esses cursos poderiam pensar em algo como um pó para pavimentação com restos de caliça”, sugere. “Eu sempre penso que a Ocupação é uma espécie de laboratório para Unisinos. Uma forma de colocar em prática aquilo que aprendem e ao mesmo tempo auxiliar a comunidade”, pontua. O autônomo Rodrigo Aze-

vedo, 38 anos, um dos líderes da comunidade, ressalta a importância de ter alguém que se coloque à disposição para “puxar a frente” em cada rua. “Eu sou líder da Travessa São Francisco e aí eu tenho que sair da minha rua para resolver problemas de outras estradas”, comenta. Ele também acredita que as pessoas devem pensar mais em suas ruas e entrar em ação para melhorar os problemas. “Não adianta ficar reclamando e pedindo para os outros fazer se não costuma ajudar”, reclama.

Segundo Rodrigo, enquanto a Ocupação não ganhar o direito de ocupar ou comprar o local, os moradores não podem receber auxílio do poder público. “Muita gente reclama da falta de auxílio do poder público, mas a gente entende que não tem como cobrar a prefeitura por ser uma área particular. Por enquanto a saída é todo mundo se unir e trabalhar juntos”, conclui. LIANNA KELLY KUNST MATHEUS KLASSMANN CRISTINA BIEGER


12. Fronteiras

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOL

Os quatro can

A Rua Palmeira das Missões faz divisa com o Bairro Santa Tereza e é uma das portas de entrada da Justo

Nas extremidades da Justo, moradores se mobilizam pelas demandas locais e se beneficiam da proximidade com os outros bairros

T

odos os moradores conhecem bem o coração da Justo. É na Tenda do Encontro e na Cooperativa Alto Paraíso que se organizam as principais demandas da comunidade. Mas, fora das zonas centrais, nas divisas da vila há uma rotina própria, marcada pela convivência com os outros bairros. Como os quatro pontos cardeais, as ruas Palmeira das Missões, Beco A, Armagedon e Santa Maria delimitam a Ocupação e formam as portas de entrada do local.

LADO LESTE

Proprietário de uma mecânica, Usiel Ramos, 41 anos, conhece bem as particularidades de morar nos limites da Justo. Morador da rua Palmeira das Missões, ele tem vista privilegiada para o bairro Santa Tereza, que faz divisa com o

leste da Ocupação. “Meu endereço é um ponto de referência para os aplicativos de transporte. Além de divulgar meu trabalho, acaba ajudando as pessoas”, conta. A convivência com as regiões vizinhas é tão intensa que a maior parte dos clientes de Usiel é do centro de São Leopoldo. “Eles vêm pela qualidade do meu trabalho e pelo profissionalismo”, garante. Apesar de deixar os carros na rua, o mecânico nunca teve problemas com segurança. “Se me oferecer um ponto no centro da cidade, eu não troco. Esse lugar para mim é um presente de Deus”, declara. Oficialmente, o local é chamado de Avenida das Américas, mas os moradores preferem chamar de Palmeiras das Missões por ser uma continuação da via que começa no bairro Santa Tereza. Usiel conta que a rua participa das reuniões da Tenda do Encontro, mas muitas pessoas se mobilizam por conta própria para resolver as demandas da localidade. “Quando posso, eu mesmo compro saibro para pavimentar a frente das

SUL

SAMANTHA HARRAS

GABRIEL GARCIA

LESTE

No Beco A, a comunidade se une para concluir a canalização do esgoto e melhorar as condições sanitárias nossas casas. Inclusive, já tenho duas cargas de brita encomendadas para colocar na rua e melhorar para o pessoal”, destaca.

LADO SUL

No Beco A, a comunidade se mobilizou por conta própria para instalar a canalização de esgoto na rua. O comerciante Maicon Ramos do Amaral, 34 anos, conta que a mão de obra do projeto é inteiramente dos moradores. “Foram mais ou menos 72 metros de cano. Queremos continuar a tubulação por mais uns 100 metros”, relata. Segundo ele, a vizinhança também tem em vista um projeto de iluminação para tornar os postes de luz mais altos e facilitar a passagem de caminhões. Divisa com a região de Monte Blanco, no sul da Justo, o Beco A abriga cerca de 250 casas. Maicon explica que, por ser uma extensão do bairro vizinho, o nome da via gera confusão na comunidade. Segundo ele, a parte mais nova da ocupação chama o local de Rua Ângelo Bianchi. “Da metade pra cá, são morado-

“Se me oferecer um ponto no centro da cidade, eu não troco. Esse lugar pra mim é um presente de Deus” Usiel Ramos Morador da Palmeira das Missões res mais recentes. Já do outro lado temos moradores que estão aqui há mais de 20 anos”, explica. Conhecido como Pastor Ramos, Maicon foi escolhido recentemente como líder do Beco A. Apesar de ter parceria com a Tenda do Encontro, ele se mobiliza sozinho para resolver as demandas da rua e aposta na comunicação boca a boca para convencer os moradores. “Um problema que tínhamos aqui eram pessoas desacreditadas, devido a lideranças que vieram anteriormente e prometeram coisas que não foram cumpridas. Aos pouquinhos, as pessoas estão voltando a acredi-

tar que o dinheiro e vai ter resultad

LADO OESTE

Situada na div Duque de Caxias, se confunde com Devido à proximid radores não se c da Justo. Ao longo metros, o que sur a pavimentação d paralelepípedos m sagem de pessoa raro nos 42 hecta Apesar desse det Jailson Oliveira, ma da precarieda Ele considera lugar tranquilo, m mais atenção dos de. “Em época de aqui. Dizem que v mas é só promessa assim, Jailson ena dade da rua com c lecimentos come de Saúde do bairr Integrante do


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LDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

ntos da Justo

o vai ser investido do”, revela.

visa com o bairro a rua Armagedon o bairro vizinho. dade, muitos moconsideram parte o dos mais de 500 rpreende na via é do trecho inicial: melhoram a pass e veículos, fato ares da Ocupação. talhe, o frentista , 29 anos, reclaade da rua. a Armagedon um mas sente falta de políticos da cidaeleição, eles vêm vão colocar brita, a”, ressalta. Ainda altece a proximicolégios, estabeerciais e o Posto ro vizinho. o exército em São

Leopoldo, o jovem Gabriel de Andrade, 19 anos, concorda que a estrutura da Armagedon é problemática. Ele mora na parte da rua que não tem calçamento e acredita que o descaso dos governantes com a Ocupação resulta em péssimas condições para os moradores. “Tem dias, como hoje, que está chovendo e o meu pai não consegue sair com o carro. Deixa longe porque não dá para descer”, afirma. Morador da Justo há 15 anos, Gabriel conta os dias para sair da Ocupação. Em menos de um ano, vai nascer seu primeiro filho e, para ter melhores condições de vida, o jovem vai se mudar para o centro da cidade. Ainda assim, ele garante que as necessidades da futura família são os únicos motivos para sair da Armagedon. “O ambiente é bom. É mal falado, mas eu curto morar aqui”, declara.

LADO NORTE

Rodeada por campos e área verde, a Rua da Porteira fica próxima à localidade de Santa Maria,

ROSANE MOREIRA

Gabriel viveu e cresceu na travessa Armagedon e, apesar de adorar o local, está prestes a se mudar

GABRIELLI ZANFRAN

OESTE

NORTE

Na Rua da Porteira, próxima a Santa Maria, Alexandre e João ajudam a vizinhança com eventos de confraternização ao norte da Ocupação. Entre as pequenas casas que se amontoam na estrada, uma chácara chama a atenção. Com açude, horta, pomar e criação de animais, o terreno pertence a Alexandre Ramos, 38 anos, e serve para confraternização das crianças e famílias da comunidade. O dono do terreno está à frente das mobilizações da localidade. Ele e o vizinho João Rodrigo Machado, conhecido como Quico, distribuíram cascalho e entulho pela Rua da Porteira para amenizar o barro nos dias de chuva. Juntos, os dois amigos, que trabalham na construção civil, também começaram a canalizar a via. “Não queremos que o esgoto fique exposto na rua”, ressalta Alexandre. As obras foram custeadas com dinheiro do próprio morador. “São poucos que agem para ajudar”, lamenta. Na chácara, um quiosque campeiro com fogão à lenha e churrasqueira recebe mais de 50 pessoas. Ao lado do amigo, Alexandre distribui alimentos e

agasalhos para a comunidade e promove eventos especiais, como produção de cachorro-quente para as crianças. Como trabalha com obras ele ganha muitas doações, que repassa para quem mais precisa. “Muitos aqui não têm o que comer, então a gente ajuda com o que pode”, afirma. Mais do que serviço social, a chácara também é um espaço de educação ambiental. O açude, por exemplo, foi canalizado para preservar as vertentes que passam por ali. Além disso, Alexandre plantou mais de 80 mudas de árvores nativas no pátio. “É um lugarzinho que ainda está se ajeitando, mas é onde a gente incentiva o pessoal a cuidar da natureza”, destaca. GUILHERME PECH NÍNIVE GIRARDI RENATA GARCIA SAIMON BIANCHINI GABRIEL GARCIA GABRIELLI ZANFRAN SAMANTHA HARRAS ROSANE MOREIRA

Como identificar os pontos cardeais

Os pontos cardeais são os pontos de referência fundamentais para a localização e a orientação geográfica. São eles: Norte, Sul, Leste e Oeste. Através da posição do Sol, podemos identificá-los. Para isso, estique o braço direito para a direção em que o Sol nasceu (nascente). Este é o ponto Leste. Estique o braço esquerdo para a outra direção e estará apontando para o Oeste (poente). O Norte assim estará à sua frente e o Sul, atrás. Porém, durante o ano, o Sol também nasce em pontos distintos. Sendo assim, não podemos afirmar que o Sol nasce sempre no ponto cardeal Leste. Portanto, essa metodologia indica os pontos cardeais em relação ao lugar em que estamos. Pode-se localizar os pontos exatos por meio de mapas, equipamentos como bússolas e aplicativos de GPS.


14. Comunidade

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

O sonho do endereço próprio A numeração das casas na Ocupação Justo é uma das novidades do bairro

E

ndereço residencial é algo bem comum para toda população em qualquer lugar do mundo. Você compra um terreno e automaticamente recebe um endereço fixo com nome de rua e número da residência. Entretanto, isso era algo difícil para os moradores da Ocupação Justo. Muitas casas já possuíam números, porém agora estão recebendo uma numeração devidamente organizada. Cada rua possui um líder que é o responsável pela identificação das residências. João Alberto Correa, 52 anos, aposentado, é encarregado pela produção e entrega das placas nas residências da Rua da Tenda. “A prefeitura não faz nada, mas apoia o processo de nomear e enumerar as ruas”, comenta João. Também explica um pouco das dificuldades encontradas por ele perante a falta de um endereço fixo como, por exemplo, a tele entrega de comidas e locomoção. Apesar de muitos estabelecimentos já conhecerem o bairro e

Sem ter como obter um comprovante de residência, Jaiane (à esquerda) não conseguiu pôr a filha Sara na creche adentrem ele para a entrega dos pedidos. Mas motoristas de aplicativo não atendem na Justo, gerando certo desconforto para a população. Rodrigo Azevedo, 39 anos, trabalha em obras, é líder da Travessa São Francisco e pretendia concorrer a Conselheiro Tutelar, mas não obteve sucesso justamente por não ter um documento de moradia. Na comunidade, ele não ficou somente res-

ponsável pela numeração de sua rua, como também de outras. É o caso da Rua Santa Maria, onde o encarregado desistiu da função. Rodrigo “abraçou” a rua. Alguns moradores sofrem ainda mais com a impossibilidade de comprovarem seus locais de moradia, passando por situações bem delicadas. É o caso de Jaiane Silva, atualmente desempregada, que não consegui vaga para sua

Muitas casas já possuíam números, mas agora estão recebendo uma identificação devidamente organizada filha Sara, de quatro anos, em uma escola infantil. No ano passado ela tentou matricular a menina, porém, como não conseguiu um comprovante de residência válido, não aceitaram a criança. Isso acabou acarretando que ela não conseguisse um emprego, pois passa o dia cuidando de Sara. “Sempre foi uma dificuldade”, expõe Jaiane. Se ela não conseguir garantir a escolaridade no próximo ano para

a filha, precisará comparecer no Conselho Tutelar. Cartas e entregas maiores são geralmente efetuadas para a casa de algum parente próximo ou alguém de confiança dos moradores. Caso precisem apresentar um comprovante de residência, os moradores da Justo tendem a dar o endereço de algum familiar. LUANA ELY QUINTANA MARIANA NECCHI

Alternativas para a mobilidade Ter um carro ou uma bicicleta é muitas vezes uma necessidade para os moradores da Justo. Existe ainda muita dificuldade para pedir corridas por aplicativo, pois os motoristas não entram na Ocupação. Além disso, as paradas de ônibus ficam distantes para muitos moradores. Isso faz com que comprar o veículo próprio, como um carro ou uma bicicleta, seja a melhor opção para algumas famílias. A bike, por exemplo, virou aliada dos moradores. Natanael Souza da Silva, 37 anos, pedala quase todos os dias até o trabalho, em Campo Bom. O percurso é de 16 quilômetros, que ele demora 45 minutos para fazer. Só em 2018 rodou cerca de 13 mil quilômetros, segundo calcula. O principal desafio para o ciclista é o trânsito, que considera violento. “Os motoristas não respeitam nem outros carros, ima-

José Luiz comprou o carro por causa da filha, mas para o trabalho costuma ir a pé gina uma bicicleta”, critica. Natanael, porém, nunca sofreu nenhum acidente. Outra entusiasta das bicicletas é a comerciante Luana da Rosa Lopes, 31 anos, incentivadora das filhas no uso desse meio de transporte. “Eu não tinha condições de ter bicicleta quando era criança, então

Entusiasta das bicicletas, Luana incentiva as filhas no uso desse meio de transporte

quando comprei para elas comprei para mim também”, conta. Ela e o marido também têm um carro, utilizado para compras e para levar as crianças à escola. O maior desafio para ela em relação às bicicletas é a falta de um profissional que faça a manutenção delas dentro do bairro.

PRATICIDADE

José Luiz da Rosa Silva, 52 anos, comprou o carro por necessidade. O montador industrial comprou o veículo para levar a filha que tem deficiência até a escola, pois não conseguiu o transporte pela Prefeitura para ela. “A gente tentou várias vezes, eles dizem que o acesso

é difícil”. Para o trabalho ele geralmente vai a pé, usando mais o carro para atividades com a menina. “Quando a gente sai com nossa filha optamos pelo carro. Nem é uma comodidade, é uma necessidade”, desabafa José. Uma das poucas motoristas de aplicativo que trabalham na Justo é Miréia Matos, 35 anos. “Muito Uber não entra por causa dos buracos e porque acham que é área de risco”, afirma. “Minha filha pediu uma corrida recentemente e o rapaz disse para ela ir até a esquina encontrar ele. Eu disse que era para entrar, que era seguro, aí ele veio”, conta. A motorista começa o dia levando os filhos à escola e a partir daí inicia o expediente. “A gasolina acaba sendo mais barata que a passagem”, relata. GABRIELA STÄHLER VITÓRIA DREHMER


Política .15

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

O termômetro das opiniões Enquanto alguns moradores da Ocupação perderam a confiança nos políticos, outros seguem esperando mudanças

A

ssim como no restante do país, os moradores da Ocupação Justo têm opinião formada sobre diversos temas da política brasileira. Passado um ano da eleição presidencial e faltando outro para o próximo pleito municipal, as visões são diversificadas, seja no âmbito local ou nacional. O que chama atenção é o reflexo do cenário brasileiro na comunidade: enquanto alguns dos entrevistados se mostram desesperançosos, outros acreditam na mudança do país e têm políticos preferidos. Quando se trata das eleições municipais, muitos não votaram em nenhum candidato no último pleito de São Leopoldo. Este foi o caso de Karen Silveira, 21 anos, que votou em branco – na primeira oportunidade depois de obter o

título de eleitor. “Hoje em dia, a gente não acredita no que eles falam. É muita promessa e pouca ação”, avalia. O auxiliar de pedreiro Juliano Ribeiro Baptista, 32 anos, concorda. “Não votei em ninguém, não vai mudar m* nenhuma. Eles vêm, falam bonito e depois não aparecem mais. Pegam teu filho no colo e são capazes de sair se limpando, passando álcool gel”, reclama. A costureira Juraci do Nascimento, 69 anos, acabou justificando o voto por um motivo parecido. “Porque são tudo igual, não tem nem comentário para essas coisas que eles fazem. Perdeu o sentido a eleição”, avalia. A aposentada, dona de um brechó na comunidade, conta que o seu pensamento não foi sempre assim. “Eu já votei com convicção, mas a gente vai perdendo a esperança nas pessoas”, admite. Já o pensionista José Oliveira, 62 anos, votou no vereador para quem trabalhou na última campanha. “Ele mora aqui na Vila Duque, não

me lembro o nome”, pontua. Depois de pensar, José lembra que está falando de Fabiano Haubert, parlamentar a quem visita no Legislativo quando tem algum pedido. “Ele me dá um apoio quando preciso, até fora de época. Às vezes dá 100 pila ou compra um remédio. É uma pessoa muito boa”, avalia. Quando o assunto é governo federal as opiniões, após nove meses de governo de Jair Bolsonaro, são diversas. Para

“Eu já votei com convicção, mas a gente vai perdendo a esperança nas pessoas” Juraci do Nascimento Costureira

José ajudou na campanha do vereador em quem votou no último pleito: “Uma pessoa muito boa”

Sem esperanças, a costureira Juraci justifica o voto. A eleição perdeu o sentido para ela

Jorge defende as práticas do Presidente mas não concorda com a liberação do porte de arma

LUCAS KOMINKIEWICZ DA GRAÇA

LUCAS KOMINKIEWICZ DA GRAÇA

LUCAS KOMINKIEWICZ DA GRAÇA

Cinara não aprova o governo de Bolsonaro e preferia votar em Lula

ANDRÉ CARDOSO LUANA ROSALES LUCAS KOMINKIEWICZ DA GRAÇA NICOLAS RODRIGUES

NICOLAS RODRIGUES

Juliano acredita que existe muita promessa e pouca ação. Para ele, as coisas não vão mudar

consegui isso agora”, comenta. Sirlei aposta na religiosidade do Presidente. “Peço que ele tenha piedade do povo. Sei que ele é religioso, acredito muito em Deus e creio que ele tenha um bom coração. Acho que ele fará coisas boas”, afirma. Dono de um mercadinho na Justo, Jorge Eloi de Melo, de 64 anos, é um defensor do governo Bolsonaro, porém contrário à liberação do porte de armas. O morador é telespectador ferrenho da Record: “O canal tá muito bom. Lá que fiquei sabendo sobre as propostas do Bolsonaro. Assisto o dia todo, até o jornal das 22h30”, ressalta. Ele tem esperanças de que a situação do país vai melhorar. “A piora que a gente tá sofrendo é agora. Mas tenho certeza que depois de janeiro tudo vai mudar. Estou rezando para isso porque torço pelo pobre”.

NICOLAS RODRIGUES

NICOLAS RODRIGUES

NICOLAS RODRIGUES

Karen fez o título em 2015 e só votou uma vez em eleições municipais, em branco

Miréia Mattos, motorista de Uber, de 35 anos, a gestão de Bolsonaro está satisfatória, mas deve focar mais no combate à corrupção. “Tirando a corrupção já é meio caminho andado. Se ela não existisse, teríamos a cidade arrumada, limpa, todo mundo bem de vida. É isso que eu espero que ele resolva até o final de seu mandato”, pontua. Cinara Mello, de 48 anos, pensa diferente de sua vizinha de ocupação. Votou em branco na eleição presidencial de 2018 por um motivo: seu candidato escolhido, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi impedido de concorrer. “Ele tinha seus defeitos, mas ajudou muito o pobre, o povo. Agora, cada ano que passa os nossos governantes estão piorando”, disse. A comerciante Sirlei Castilhos dos Reis, de 57 anos, vê coisas boas na saúde e na assistência social. “Consegui internação no hospital, tratamentos. Não sei se tem conexão com o governo dele, mas

Miréia apoia o combate à corrupção porque acha que, sem ela, tudo melhoraria


16. Cotidiano

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

A Justo pede um ponto de convívio e mais lazer AMIZADE

Moradores lamentam a falta de uma praça para reforçar os laços comunitários

Ao contrário do que se espera de um final de semana, a rotina de Jerry Adriani Flores, 54, e João Batista Silveira, 44, é dominada pelo trabalho na oficina de Jerry. Os colegas são também amigos. Jerry mora longe da família, que reside no bairro Santa Teresa, em São Leopoldo. João se diz sozinho. A companhia que eles têm um do outro é o que move o trabalho no conserto de carros. Os finais de semana da dupla são movimentados, com muita mecânica entre os momentos de descontração. As zombarias parecem amenizar uma rotina cansativa.

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ntre idas e vindas na Ocupação Justo, no bairro Duque de Caxias, em São Leopoldo, os moradores reivindicam: falta um lugar para que a comunidade possa se encontrar. Além disso, ainda é necessário apoio para o trabalho que acontece no local. As histórias se dividem entre a busca por lugares para se divertir e a obrigação de trabalhar aos finais de semana. Segundo moradores, na Tenda do Encontro, atualmente, é onde eles mais se reúnem. O motivo? O futebol das crianças na quadra ao lado. A chuva, que não deu trégua nos primeiros dias de outubro, impediu a comunidade de se engajar em outras tarefas. A mulherada está sem uma das principais atividades que eram realizadas no local: as aulas de zumba. “Ia sempre com a minha mãe, que adorava. Porém, estamos sem as aulas desde o fim do ano passado”, conta Leila Siqueira Meira, 38 anos.

Leila e Najila sentem falta de um local de encontro para que a comunidade interaja mais

REUNIÃO

Quanto à necessidade de uma praça na comunidade, a opinião é quase unânime entre os moradores que ocupam regiões diferentes do local. É o caso de Leila e da vizinha Najila Deuzina Rodrigues, 26 anos. As mulheres, que, ao longo do tempo saíram e voltaram para a Ocupação, sentem falta de uma praça em um ponto central da comunidade. Elas acreditam que, além de servir como espaço destinado às crianças, proporcionaria momentos de lazer aos moradores. Leila tem três filhos. Najila, tem duas crianças pequenas. Vizinhas há pouco mais de um mês - quando Najila retornou à comunidade - as donas de casa se encontram para tomar chimarrão. Ao falar de suas atividades de lazer, Leila salientou a união da família aos finais de semana, que fica pela Ocupação mesmo. Estar em casa próximo de quem gosta parece ser a preferência.

VIOLÃO

Claudemir Antônio Fagundes, 45 anos, realiza trabalhos como pintor na

Jerry e João trabalham até nos finais de semana por conta dos serviços na oficina Justo e é um dos moradores que tem compromisso marcado nos finais de semana. Além de cuidar da pequena Roberta, que nasceu no dia 16 de setembro, toca violão na Assembleia de Deus localizada na Justo, todo sábado e domingo. De carro, considera que essa praticidade leva a família a se locomo-

ver mais nos dias de folga. A chuva, no entanto, é um dos fatores que dificulta as saídas mesmo com o veículo, principalmente com a chegada da filha. “Nos dias de chuva eu tenho que sair de carro direto. Mas é difícil, imaginem que as ruas são sempre assim, o melhor é ficar em casa”, conta.

Na companhia do seu pai Eduardo Fortes, 70 anos, o violão novamente volta “a cena. O gosto pelo sertanejo também é destaque. “Com esse violão azul, tu és o Tonico e eu Tinoco”, diz Eduardo, brincando com o filho Claudemir sobre o gosto de ambos pela música sertaneja.

“Com esse violão azul, tu és o Tonico e eu Tinoco”, diz Eduardo, brincando com o filho Claudemir sobre o gosto de ambos pela música sertaneja Jerry reclama da infraestrutura oferecida no bairro, que sofre com faltas de água nos dias de chuva, dificultando sua rotina de trabalho. Além disso, outro problema bastante destacado é o trabalho acumulado para somente duas pessoas. “Para encontrar alguém por aqui é complicado. Além do mais, falta um pouco de tudo, falta o básico, coisas que poderiam facilitar o nosso trabalho. Acaba que tudo acumula e precisamos trabalhar nos finais de semana também”, destaca Jerry, sempre com um sorriso no rosto que parece motivar também o colega. João perdeu os seus principais documentos de identificação, e relata dificuldades para o encaminhamento da papelada novamente. “Hoje eles não fazem nada de graça. Minha certidão de nascimento não está nem aqui na cidade, seria a primeira coisa que eu precisaria ir atrás, e custa dinheiro. Atrapalha tudo”, conta. LETÍCIA COSTA JORDANA FIORAVANTI


Cotidiano .17

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

O colorido que transforma Moradores embelezam e valorizam suas residências cultivando flores e árvores frutíferas

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esmo em um sábado chuvoso, dona Eva Pinheiro abriu a porta de casa logo cedo, arregaçou as mangas e foi para o pátio organizar suas pequenas plantações. Independente do clima, esse é um hábito diário para a dona de casa e muitas outras pessoas da Ocupação Justo. O colorido das flores e frutas embeleza e transforma as residências da comunidade. Conhecida como estação das flores, a primavera iniciou há apenas duas semanas, mas já apresenta suas características na Ocupação. Muitas flores já desabrocharam e, em cada esquina, as cores encantam e dão mais vida à Justo. “Sempre gostei de cultivar. Eu residia em Novo Hamburgo até seis anos atrás, e lá não tinha espaço para vegetação. Mudei-me por causa do terreno. Quando cheguei aqui, me encantei”, ressalta a dona de casa Eva, 66 anos. O costume de limpar e organizar o pátio diariamente é considerado uma terapia para

A dona de casa Eva cuida do seu jardim todos os dias e diz que isso renovou a sua vida ela. “Plantar me faz muito bem. A Justo renovou minha vida. Se eu não saísse de Novo Hamburgo, talvez hoje já estaria morta. No início, aqui era só mato, mas fui organizando o pátio aos poucos. Limpo todos os dias. Queria comprar vasos grandes para cultivar plantas, mas infelizmente não tenho condições. Não troco minha moradia atual por nada. Pretendo morrer aqui”, complementa. Assim como Eva, a dona de casa Nirva Martins, 62

anos, também gosta de cultivar flores e frutas em seu recinto. Só não possui mais plantações porque o espaço e os cachorros não permitem. “Tenho muitos cachorros (15 ao total), e eles acabam estragando as flores. Adoro decorar e enfeitar a casa, mas aqui não tem como, porque a residência é pequena e o pátio menor ainda. Então, tenho só a horta e algumas flores aqui na frente”, declara. Na casa de Clênio Zucco do Nascimento e Solange Rejane

Solange e Clênio consideram a primavera a melhor estação do ano e sempre cuidam do “cantinho” deles Garces Kraemer, a primavera é a estação do ano mais aguardada. Para o casal, que reside na Ocupação há oito anos, o colorido das flores é encantador e valoriza o pátio. “Buscamos ter um lar natural. Plantamos ipê, maricá e muitas outras espécies de plantas. Valorizo todas as flores, gosto do colorido que elas proporcionam”, frisa Clênio, que trabalha confeccionando toldos e coberturas. “Não temos vegetações dentro de casa por causa da

sombra, porque as paredes são escuras, aí as plantas não vivem por muito tempo”, acrescenta. Sua esposa, Solange Kraemer, também é fascinada por flores. “Amo as plantas. Desde quando eu era pequena, meu pai sempre incentivou a plantar e cultivar. É encantador e renova. O pátio colorido fica muito lindo. Estamos sempre organizando o nosso cantinho”, acrescenta. MATEUS FRIEDRICH NICOLAS SAMPAIO

As plantações que fortalecem Maria de Fátima dos Santos, de 76 anos, está aposentada e mora na Ocupação Justo há mais de 30 anos. Residindo no Beco C, Maria possui em seu quintal uma plantação variada: milho, alface, aipim, rúcula, cebola, repolho, alho, salsa, ervilha, beterraba, tomate, cenoura, banana, pêssego, limão, laranja e bergamota. Para cuidar de tantas plantas, sua rotina de trabalho começa às 4h da manhã, quando Maria se levanta, põe a água para esquentar e prepara seu chimarrão para encarar o dia no seu cultivo. Após o mate, calça suas botas de chuva para evitar os mosquitos, pega sua enxada e vai trabalhar no quintal. “Eu acordo cedo para começar a carpir o lote e preparar o terreno para minha plantação. Faço isso diariamente”, comenta. Um dos segredos de Maria é a utilização das cinzas do fogão a lenha. Ela utiliza-os para

adubar a terra e impedir que sua plantação seja devorada por insetos. “É uma técnica que eu aprendi lá no interior, aproveito as cinzas do fogão a lenha para utilizá-las na minha plantação”, diz. Esta rotina veio suprir a ausência de um ente querido. Seu marido tinha um quadro de diabetes avançada e faleceu há três anos. “Orei 83 vezes para Jesus livrar ele, mas Deus sabe o que faz”, lamenta. Após a morte de seu companheiro, ela não hesitou em continuar a plantar e cuidar do quintal e da horta. “É uma maneira de me manter viva. Eu gosto de cuidar da minha plantação”, diz a mulher natural de Santo Ângelo que reside em São Leopoldo há mais de 31 anos. Viúva, mãe, avó e bisavó, Maria fala com um sorriso no rosto de sua família e, sempre que pode, envia algumas de suas frutas e verduras para seus ami-

As plantações têm seus segredos: cinzas e adubos para as verduras ficarem bem cuidadas gos e familiares.“Eu planto tudo isso aqui, porém não vendo. Se Deus me deu condições para cuidar da minha plantação, eu acabo doando para quem me pede”, ressalta. Ela ainda sonha em construir uma casa de alvenaria, além de comprar o terreno dos fundos para plan-

tar feijão e batata. “Quando eu fizer 85 anos, eu peço pra Deus me levar, mas enquanto isso, eu desejo aumentar minha plantação”, finaliza.

TERAPIA

Jairo Prates, 69 anos, é outro aposentado que cultiva sua

plantação. Em seu quintal é possível encontrar salsa, cebolinha, banana, couve e mamão. E ao plantar esses tipos de alimentos, reduz os gastos com comida. “A plantação é como uma terapia para mim, além de serem produtos naturais, evitam gastos com frutas e verduras”, diz. Ele conta com o apoio da família para ajudar na plantação. Sua esposa Dioni Prates auxilia na tarefa. “Nós sempre cuidamos da maneira correta. Adicionamos adubo e deixamos o solo preto”, relata. Segundo o Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), esse tipo de cultivo familiar cresce em média 20% ao ano. O Ministério das Agricultura confirma que em 22,5% dos municípios brasileiros há o cultivo de hortas orgânicas caseiras. ELIAS VARGAS GABRIELA BENDER


18. Superação

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

Multicampeões de judô Irmãos são destaques na modalidade e colecionam títulos nas categorias iniciais

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izael Fagundes, 13 anos, e Eliezer Fagundes, 17 anos, além de serem irmãos, também possuem em comum a paixão pelo judô. A trajetória de ambos no esporte começou no projeto Instituto Educacional Espírita (Iede), de São Leopoldo. Eles são treinados pela sensei Ana Paula Feyh todas as terças e quintas-feiras. Segundo ela, o local atende 80 crianças e adolescentes da Cohab Duque de Caxias encaminhados e avaliados pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras). Eliezer entrou com 12 anos e permaneceu por três temporadas, quando deixou o Instituto para trabalhar. Enquanto esteve no judô, disputou três campeonatos na região promovidos pela Associação de Judô Gaba. Os adversários nessas competições são escolhidos por idade e por peso. Em Campo Bom e em São Leopoldo, o jovem foi campeão na categoria sub-15. Já em Estância Velha, ele foi vice-campeão na mesma categoria.

Mizael e Eliezer exibem as medalhas conquistadas nas competições promovidas pela Gaba O irmão caçula, Mizael, iniciou com nove anos no projeto e já conquistou oito medalhas. A vitória mais especial para ele aconteceu na 4ª Etapa do Circuito Estância Velha de Judô, em 2016, realizado pela Gaba. “Eu tinha levado um ippon, que é considerado um golpe

perfeito. Pensei em desistir, mas consegui reverter a situação”, conta Mizael. O judoca terá a chance de obter mais uma medalha. No dia 24 de novembro deste ano, acontecerá a 4ª Etapa do Circuito Gaba de Judô, em Campo Bom. Mizael já participou em duas oportuni-

dades da edição do torneio, com vitórias em 2016 e 2017. Detentor da faixa laranja, ele buscará subir de nível para a faixa verde no exame que ocorrerá no final de novembro, ainda sem data definida pela sensei Ana Paula. A maior parte das crianças e dos adolescentes do

IEDE competem pela Gaba, incluindo Mizael. Ana Paula relata que até 2017, oito alunos do Instituto competiam pelo estadual, na Federação Gaúcha de Judô (FGJ), mas isso acabou pela falta de verba. “Ultimamente está bem difícil manter o projeto por falta de recursos. Por isso não estamos levando eles em tantas competições”. Apesar das dificuldades, a sensei reforça a importância dos torneios na vida de cada um. “Eles adoram competir e ganhar medalhas. Faz muito bem para a autoestima de uma criança poder se superar e ser campeã”, enfatiza Ana Paula. Além do bem-estar proporcionado aos praticantes, o judô tem como propósito ensinar valores. “Aprendi a persistir nas minhas lutas, mesmo que a situação esteja difícil e tudo pareça perdido”, relata Mizael. Eliezer decidiu não continuar como judoca por conta do trabalho. Mizael, ainda possui dúvidas em relação ao seu futuro no esporte. A certeza que fica para a vida dos irmãos é os valores aprendidos no judô. GUSTAVO MACHADO JÚLIA MÖLLER

Ocupando e resistindo Viver na tensão de perder seu lar a qualquer momento e ver sua família na rua não é uma escolha. Por isso, a ocupação de terrenos sem função social torna-se uma necessidade e alguns moradores da Justo têm em seu histórico de vida passagens por outras ocupações. É o caso de Dionísio Dias, 66, que foi despejado da área onde hoje existe a Estação Unisinos do Trensurb, para a construção do local, inaugurado em 09 de dezembro de 1997. Na época, a prefeitura do município não prestou nenhum tipo de assistência para as famílias. “Só mandaram a gente embora. A gente tinha que sair rápido dali para a obra andar”, relembra o idoso, que trabalha com reciclagem de materiais plásticos. Após o despejo, Dias foi com sua família para a vila Santa Marta, também

Eberson torce pela regularização da Justo em São Leopoldo. Porém, a falta de segurança e a dificuldade para se locomover com seu filho, Cristiano Dias, 32, portador de deficiência,

Dionísio mudou para melhorar de vida fizeram com que ele decidisse se mudar para a Justo. “Minha outra filha morava aqui na Ocupação, então ela propôs que a gente trocasse

de casa, pois aqui a condição de vida é melhor”, explica o homem. Ele faz companhia ao filho sentado na frente da casa, localizada em uma das áreas mais antigas da ocupação, onde os primeiros moradores chegaram a cerca de duas décadas. Outra ocupação de São Leopoldo, a Cerâmica Anita, foi o local onde Eberson dos Santos Gonçalves, 23, viu a possibilidade de construir seu lar. O jovem, que atualmente está desempregado, foi morar no local após passar por alguns problemas familiares e aos quatro anos de ocupação, conquistou a posse do terreno. Agora, o jovem se divide entre a Cerâmica Anita e a Ocupação Justo, onde há cinco anos vive sua companheira com o pai, Ademir Pedroso, 51. Gonçalves auxilia o sogro na melhoria na residência, proporcionada pelo saque

do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), autorizada recentemente pelo governo federal. Com base na sua experiência na Cerâmica Anita, Gonçalves torce para que os moradores da Justo conquistem a regularização das terras. “Seria muito bom! Têm vários aí que não tem onde morar, não tem nem como pagar aluguel”, ressalta. Segundo o mais recente Censo Demográfico, realizado em 2010, no Rio Grande do Sul existem cerca de 300 mil pessoas vivendo em ocupações. Dessas, mais de 6,6 mil residem em São Leopoldo, o equivalente a 3,1% da população da cidade. No Vale dos Sinos, o déficit habitacional chega a 23.338 moradias. JACQUELINE SANTOS LUIZA CASTRO


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Histórias de vida .19

Mais do que “donas de casa” Mulheres relatam a preocupação com o lar e o cuidado especial pelos filhos e pela família

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avar a roupa, limpar a casa, fazer comida e cuidar dos filhos são algumas das atividades que as donas de casa exercem durante o dia. O trabalho é difícil, exige tempo e dedicação nas tarefas diárias, e na Ocupação Justo temos exemplos de mulheres e mães que deixaram de trabalhar fora para se doarem às suas famílias. É o caso de dona Ivanir Bittencourt de Souza, 64 anos, casada e com sete filhos, que, pelos filhos, decidiu ser “do lar”. “Se eu tivesse colocado meus filhos na creche, não seriam tão bem cuidados como eu cuidei”, conta. Hoje em dia além de ser dona de casa, mãe e esposa ela também é avó e cuida do neto de um ano durante a semana. Seja por escolha pessoal ou por questões circunstanciais, o trabalho de casa muitas vezes é redobrado em comparação ao trabalho fora. É o que acredita Josiane Andrade, que prefere ser chamada de Josi, 35 anos, mãe de três filhos e casada. Ela relata que ser dona de casa é ser tudo ao mesmo tempo, é preparar a comida, se dedicar aos filhos e, principalmente, manter a casa organizada. “O desafio é

Ivanir, além de cuidar do neto, também cuida do marido, que sofre com problemas de saúde fazer tudo isso e ainda ter um tempo só meu, porque trabalhar em casa muitas vezes é desgastante”, comenta. Para Josi, o desafio atual é seguir em frente, já que um de seus filhos perdeu a vida

devido à meningite. “Não posso desistir, ainda tenho dois filhos que precisam de mim”, declara. A escolha de se dedicar ao lar para Josi veio pela falta de tempo em estar com os filhos. Quando se trabalha

Para Josi, casada e mãe de três filhos, ser dona de casa é lutar pelo bem e pela felicidade da família acima de tudo fora, o único tempo que se tem é à noite, então para aproveitar a fase com os seus filhos ela decidiu ser “do lar”. No caso de Ione Pinto, 45 anos, casada e com quatro filhos, criá-los hoje em dia é o mais desafiador de

tudo. Ela, que às vezes trabalha como doméstica, também se considera “do lar”, pois cuida dele e zela pela família. BRUNA FLACH MICHELE ALVES

Um amor “justo” Uma história de amor pode começar de várias maneiras diferentes, e uma delas é uma troca de olhares entre um futuro casal. Durante um dia como qualquer outro, Camila dos Santos Nascimento, com 14 anos de idade na época, avistou de longe um jovem de 15 anos que despertou seu interesse: Isaias Boavas Dias. Após uma troca de olhares, Isaias conseguiu, por meio de um amigo de Camila, seu telefone. O futuro casal logo estabeleceu contato e, sem perder tempo, marcou o primeiro encontro em um shopping na cidade de São Leopoldo. A história de superação e amor dos dois já começou naquela primeira vez em que saíam juntos. Ao final do dia,

ambos já estavam apaixonados um pelo outro. Após o início do relacionamento, o casal passou quatro anos apenas namorando antes de decidir morar junto na Justo, onde Isaias residia. Realizada a mudança para a Justo, os dois começaram a construir a sua própria história e sua família. Com o nascimento do primeiro filho do casal, David Daniel Nascimento Dias, hoje com três anos, chegou também a nova moradia. Uma mudança dessa maneira para um casal jovem nem sempre é fácil. Com muita determinação, Camila e Isaias seguiram em frente. Isaias é o único que trabalha do casal: “Hoje eu atuo como servente”, relata. Camila não trabalha fora,

O casal Camila e Isaías decidiram enfrentar a vida juntos fica em casa cuidando de tudo. “Eu trabalho como dona de casa, cuidando das crianças”, comenta. Sim, é crianças no plural mesmo, pois há 8 meses o

casal foi agraciado com o nascimento de um casal de gêmeos: Eliza Manoeli e Alisson Luan Nascimento Dias. Camila conta que, mesmo com o dia corrido por conta

da rotina de mãe, ainda tem um tempo para o lazer. “Eu frequento a Sexta Sonhadora da Mulher (encontro de mulheres moradoras da comunidade). Vou lá para fazer tricô e para as crianças brincarem também”, completa. Mesmo com a rotina complicada com os três filhos, o casal consegue tempo para se divertir. Passear em família é um dos lazeres mais comum. “A gente gosta de ir passear no shopping. É o local que a gente mais costuma ir”, afirma Isaias. A vida segue. Juntos continuam a buscar o melhor para a família que foi construída nesses últimos cinco anos praticando um amor “justo”. LUCAS LANZONI GUSTAVO FERNANDES


20. Companheirismo

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

Inseparáveis amigos animais Moradores contam sobre o convívio e a troca de carinho com os bichos

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a Ocupação Justo várias pessoas compartilham da amizade com os animais e encontram o afeto necessário para enfrentar os dias difíceis. Carvão é o melhor amigo dos irmãos Enzo, 4 anos, e das gêmeas Ágata e Sofia, 7 anos. O vira-lata faz a alegria das crianças que o tratam como se fosse da família. A avó dos três irmãos, Marlene Da Silva Faveri, 60 anos, conta que desde quando adotaram o cachorro, os pequenos não deixam de ficar perto dele. “Ele caminhava junto com eles, cada uma das meninas segurando uma patinha, até parecia uma criança também”, revela. Marlene, que é separada, cuida dos netos na casa da filha, enquanto ela trabalha para sustentar a família. O lugar de Carvão é onde estiverem as crianças. Segundo Marlene, ele tem uma casinha para se abrigar nos fundos da residência, mas fica sempre com as crianças. “Eles me salvam da depressão”, conta a senhora que, com alegria, ob-

Melhor amigo das gêmeas Ágata e Sofia, Carvão é tratado como se fosse o caçula da família serva os quatro brincar. Alceu Roque, 38 anos, conta que os filhos de 11 e 7 anos também têm um casal de cachorros e de galinhas do tipo garnizé. De acordo com ele,

os animais já fazem parte da família e estão junto com as crianças desde que eles eram pequenos. “Eles ficam nos fundos de casa quando chove, mas se não, estão sempre com

as crianças”, relata. A companhia de Alberto Dionelo de Melo, 76 anos, é a égua Palusa. Beto, como é conhecido na Ocupação, diz já ter lidado com cavalos na época

em que trabalhava na roça, em São Francisco de Paula. Para ele os animais são os melhores parceiros das pessoas. Palusa faz parte da família Melo há alguns anos e o aposentado conta que às vezes anda de carroça com ela para passar o tempo. “Ela é o meu animal, minha condução”, explica. Além disso, ele revela que a égua é um bicho de muita confiança, obediente e carinhosa. Isso fica claro no cuidado com que trata o animal no galpão dos fundos de sua casa. Três cachorros também compartilham a atenção de Beto com Palusa: Bob, Lupi e Tabe. Ele explica que quando sai de casa para caminhar ou ir ao mercado, os três sempre o acompanham. Beto mora com a companheira Nice Andolfato, 69 anos, e conta que os animais são, de certa forma, uma segurança. “Eles cuidam de nós”, sublinha. Hoje, Alberto enfrenta um câncer nos pulmões e Nice, a doença de Alzheimer. Os dois dizem encontrar consolo na companhia dos animais. “Gosto de tê-los em minha volta”, diz Beto. CAMILA TEMPAS CAMILA BORGES

Um lar para a bicharada Eliana Fehlberg, dona de casa e moradora há dez anos na comunidade, recolhe animais em situações precárias ou de risco até que se consiga alguém para adotá-los. Inclusive já acolheu cachorros de vizinhos. Atualmente possui cinco cachorros e mais um está sob seus cuidados temporariamente, até alguém adotá-lo. Todas as fêmeas que possui foram castradas pelo Centro Municipal de Proteção Animal (Cempa). A moradora conta que seu marido, Balduino Harchibake, tira do próprio bolso e compra remédios para tratar alguns cachorros que vivem próximo da Tenda do Encontro. Ela faz um pedido de ajuda tanto para a adoção do cachorro que está sendo abrigado em sua residência, quanto para atenção dos demais animais da Ocupação. “Seria bom se houvesse

conscientização da comun i d a d e”, co m e n t a . Eliane Borges, 50 anos, catadora de lixo e uma das moradoras mais antigas do local, mãe de oito filhos, possui animais de diversas espécies. Sua casa tem 16 cachorros, um cavalo e seis porcos. Ela diz que vende os filhotes, com o objetivo de comprar ração para os demais animais. Seus cachorros são todos vacinados e castrados por uma amiga, da ONG Focinho de Rua, de São Leopoldo. Alguns de seus cachorros foram comprados pelos seus filhos, porém outros foram todos recolhidos das ruas. Entretanto, nem todo mundo possui a oportunidade de castrar os animais por meio de ONGs ou voluntários. É o caso de Sueli Schmitz, 52 anos, que trabalha confeccionando e vendendo crochê e é moradora da Ocupação Justo

Eliana, moradora da Justo há dez anos, abriga animais em situações precárias ou de risco há seis anos. Ela é dona de duas rottweilers e diz que “é um tendel” quando as cadelas entram no cio. Os cachorros que vivem soltos na rua ten-

dem a pular o muro e invadir a sua casa para cruzar com elas. Juma, de oito anos, tornou-se mãe da Shira, de um ano, depois de uma dessas in-

vasões. Sueli critica a prefeitura do município de São Leopoldo pela falta de interesse em ajudar a comunidade a cuidar dos animais. “Algumas pessoas na comunidade cuidam dos animais e outras não”, afirma uma moradora, que preferiu não se identificar. Conforme ela, os maus tratos e a negligência com os animais também ocorrem no local. A moradora contou que houve graves ocorrências com cachorros, causando até a morte deles. São duas mil e quinhentas famílias e a maioria possui animais. Nem sempre são bem cuidados, situação agravada pela falta de atenção da Prefeitura Municipal e pela ausência de organizações não governamentais (ONGs) especializadas. LUANA ELY QUINTANA MARIANA NECCHI


Festas .21

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

Árvore natalina será montada na Vila Faltando menos de dois meses para o Natal, Ocupação Justo se organiza para a data

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stimulados pelo presidente da Cooperativa Alto Paraíso, Fábio Simplício da Silva, 35 anos, líderes da Ocupação estão mobilizando os moradores para a montagem de uma árvore de Natal. Segundo Fábio, está sendo feito o recolhimento de garrafas PET de dois litros na cor verde, ou transparente, com o intuito de produzir um “pinheiro” de no mínimo quatro metros e meio de altura. Ele será posicionado na entrada da vila, na Rua Ermelindo Varniere, esquina com a Rua Palmeira das Missões.

O Fábio explica que serão necessárias mais de mil garrafas PET para a montagem dessa árvore. Esta será construída no dia 30 de novembro pelos habitantes da comunidade. “É fundamental a colaboração e a ajuda dos moradores no recolhimento destas garrafas, como na produção da árvore”, ressalta Fábio, lembrando a todos da possibilidade de estocar as garrafas em casa, para após levar até a cooperativa. A líder da Rua Armagedon, Leandra Fernanda Viera Friedrich, 36 anos, também informa que serão feitos enfeites para decorar a rua da Cooperativa e a Tenda do Encontro. “Como artesã, já estou me disponibilizando para fazer alguns adereços

“É fundamental a colaboração e a ajuda dos moradores no recolhimento destas garrafas, como na produção da árvore” Fábio Simplício da Silva Presidente da Cooperativa Alto Paraíso pequenos, mas serão simbólicos, para embelezar ainda mais a comunidade no Natal”, destaca a líder, informando que outros artesãos estão fazendo o mesmo. Ainda segundo ela, esta é uma boa oportunidade para a Justo se unir ainda mais. “O Natal é um momento de

união, de paz, de família, além de esperança de uma vida melhor para todos os moradores da vila. E nada melhor do que comemorar com esse símbolo do natal, que representará tudo isso”, salienta a líder com um olhar de felicidade à comunidade. De acordo com o sapateiro Felipe Fagundes, 28 anos, esta será a primeira árvore que será montada dentro do bairro. “Com certeza eu e minha família vamos ajudar na produção. Tem tudo para ser um momento muito legal e dar aquela animada no pessoal da vila, pois a nossa vida não é fácil. Mas para isso é preciso a ajuda de todos, para tudo funcionar bem”, observa. Fábio ressalta que a árvore contará com iluminação

de lâmpadas de luz solar e diz que a ideia da montagem da árvore já vem de alguns anos, mas nunca foi colocada em prática. “Este ano eu me adiantei, aproveitei toda a movimentação e a união da comunidade referente à ação judicial, com o objetivo de solicitar a colaboração deles nesta causa nobre, que é o Natal. Uma oportunidade de iluminar e unir ainda mais as famílias e a Ocupação Justo”, enfatiza. Acrescenta que o “pinheiro” continuará posicionado na vila até o encerramento do período natalino, tradicionalmente marcado para o dia seis de janeiro. NAGANE FREY ANDRIELE GIROTO

Presidente da Cooperativa Alto Paraíso, Fábio (esquerda) ajuda no recolhimento de garrafas PET. Serão necessárias pelo menos mil para produzir um “pinheiro” de quatro metros e meio de altura


22. Ensaio

ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

A comunidade H sob nossos olhares

á dois semestres a Ocupação Justo, em São Leopoldo, está sendo protagonista do Enfoque - jornal produzido pelos alunos dos cursos de Jornalismo e Fotografia, da Unisinos. Os moradores da comunidade Justo lutam pelo direito à moradia regularizada, saneamento básico, água e energia elétrica. Na Ocupação Justo habitam, aproximadamente, 2.500 famílias, as quais disponibili-

KETLIN DE SIQUEIRA

zam seu tempo para contarem suas histórias, lutas e sonhos aos futuros jornalistas e fotógrafos. O jornal Enfoque - que é distribuído em três edições semestrais para os moradores - apresenta sempre o resultado do trabalho dos alunos, que vêm se empenhando para entregar um jornalismo mais comunitário e cidadão. As fotos que seguem revelam um pouco sobre os bastidores do nosso trabalho!

GUSTAVO FERNANDES

EDUARDA FREIRE GABRIELA BENDER

JÚLIA MÖLLER

GUILHERME LAGO


.23 ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO | SÃO LEOPOLDO (RS) | OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

LUCAS RAFAEL ALVES

LUIZA CASTRO

MARILUCE VEIGA

MICHELE ALVES

MICHELE ALVES

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MICHELE ALVES


ENFOQUE OCUPAÇÃO JUSTO

SÃO LEOPOLDO (RS)

OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2019

EDIÇÃO

6

A solidariedade que fortalece Moradores exaltam melhorias e destacam a importância da presença da Unisinos

A

Justo está há mais de 20 anos em São Leopoldo. Em meio a disputas pelo espaço, entre moradores e a família que se diz detentora dos direitos sobre as terras, a Ocupação cresce e se enriquece de histórias. A Unisinos, e o jornal Enfoque, dos cursos de Jornalismo e de Fotografia, têm participação na composição deste cenário. Os moradores reconhecem avanços, mas seguem com reivindicações, principalmente para atender as necessidades básicas e para pagar pelo que utilizam, de modo regular. Moradora da Rua São Francisco há cerca de oito anos, Marilei Terezinha Padilha, 48 anos, costureira, destaca que a melhoria foi geral, contando o último ano na Ocupação. “Percebemos as melhoras na qualidade das casas que foram construídas. Quando viemos morar aqui, era tudo barraco”, afirma. Ela ainda destaca a segurança e a confiança mútua que há na comunidade. Participante de três grupos de WhatsApp, o da Tenda do Encontro, o da sua rua e o Movimento Justo, ela é engajada nas lutas da Ocupação. A costureira destaca o apoio dado pela Unisinos com projetos

Soel não perde a esperança, mesmo com dificuldades sociais e encara como decisivo o apoio. “Antes não tinha isso, era cada um por si e Deus por todos”, finaliza. Com um discurso bem mais comedido, Soel Rodrigues da Luz, de 54 anos, destaca o trabalho do Jornal Enfoque e afirma: “Vocês fazem o trabalho de vocês e informam o pessoal aqui”. O aposentado diz que não consegue saber de tudo o que acontece na Ocupação e que o jornal cumpre bem esse papel. Morando há cinco anos na Justo, Luz disse que decidiu se mudar por conta de seu

tratamento médico. “Tenho problemas cardíacos e diabete. Trato-me no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Antes, eu vivia em Encruzilhada do Sul”, conta o ex-motorista que tinha como primeira referência na Ocupação o seu irmão, Valter. Soel não é tão otimista quanto às melhorias que aconteceram no último ano. “A rua, por exemplo, somos nós que arrumamos. Os vizinhos se ajudam. Queríamos mesmo é a legalização de tudo para poder cobrar providências. Não queremos as coi-

Marilei é otimista com mudanças para o futuro sas de graça”, pontua. Um dos projetos que a Unisinos se preocupa em realizar na comunidade é o Programa de Educação e Ação Social, o Educas. Focado em desenvolver as potencialidades dos participantes, ele se divide em duas turmas. Crianças e adultos ficam separados nos encontros que acontecem na Tenda do Encontro, às quartas-feiras, das 14h às 16h. O grupo que coordena o projeto é formado por Marina Melchior, 25 anos e Vanessa Pereira Pacheco, 24, ambas acadêmicas de

psicologia. Completa o trio Raquel Cássia Cunha, 37, estudante de pedagogia. Um dos objetivos das ações das acadêmicas é renovar a biblioteca na Ocupação. Marina revela que a ideia de renovação literária ainda está em um estágio inicial. “Estamos indo atrás de livros com amigos e conhecidos da Unisinos. Queremos também envolver o pessoal da comunidade, para que eles possam participar do processo”, pontua. CÉSAR WEILER GUILHERME LAGO

Crônica | Luta e cooperação No dicionário de língua portuguesa, “lar” é um substantivo masculino e é apresentado como sendo “uma forma especial de se definir a casa ou os assuntos relacionados a ela, como a convivência com a família e os vizinhos”. Lar pode ter uma conotação sentimental ou carinhosa. É um local onde há harmonia e as pessoas vivem e sentem-se bem. Segundo o artigo XVII da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros e que ninguém será

arbitrariamente privado de seu imóvel. E o artigo XXV diz que, todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de prover o bem-estar a si e à sua família, incluindo a habitação como um dos critérios para o alcance desse padrão. A Ocupação Justo, de São Leopoldo, já possui mais de vinte anos de caminhada sendo moradia para mais de oito mil pessoas, que formam quase 2.500 famílias. E ao longo dessa jornada de muitas lutas e algumas vitórias, as histórias são guardadas na memória de cada morador.

Histórias que ganham voz, que ganham vida, nas linhas do jornal Enfoque. Um projeto da Unisinos que desde 26 de março de 2019 passou a acompanhar e publicar narrativas dos moradores da Justo. Voltando às definições e conceitos, “sociedade” e “liderança” são substantivos femininos e referem-se, respectivamente “a organização de indivíduos de ambos os sexos e de todas as idades que compartilham objetivos comuns” e “pessoa ou grupo de pessoas que geram motivação, inspirando e influenciando

outros a contribuírem para o sucesso organizacional”. Esses dois conceitos se tornam concretos na Justo. No segundo semestre deste ano, como aluna, acompanhei a vida da Ocupação e redigi algumas matérias sobre ela. Durante esta experiência ficou perceptível que apesar de todas as dificuldades, a comunidade é muito solidária entre si, que os moradores cooperam para manter a harmonia entre eles para que as transformações desejadas aconteçam. Pessoas que encontram novas famílias, mãos que se encai-

xam para solucionarem problemas. E a atenção dos seus moradores alcança até os animais, sendo comuns as cenas de cães que lá são protegidos e encontram abrigo. Já dizia um velho ditado “não existe lugar como a nossa casa”, e depois das vivências e relatos que presenciei, posso dizer: não há lugar mais aconchegante para se estar do que aquele onde pessoas se unem e lutam diariamente por uma casa para chamar de sua, para chamar de lar. LUANA ELY QUINTANA

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Enfoque Ocupação Justo 6  

Jornal experimental produzido por alunos do curso de Jornalismo da Unisinos (campus São Leopoldo/RS). Edição 6. Outubro/Novembro de 2019.

Enfoque Ocupação Justo 6  

Jornal experimental produzido por alunos do curso de Jornalismo da Unisinos (campus São Leopoldo/RS). Edição 6. Outubro/Novembro de 2019.

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