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FECHAMENTO AUTORIZADO. PODE SER ABERTO PELA ECT.

DESDE 1968

A IGREJA, A MISSÃO E OS LIVROS

ENTREVISTA | JULIA CAMERON

QUILOMBOLAS CADA VEZ MENOS INVISÍVEIS

REPORTAGEM

Ano XLIX • nº 362

Setembro/Outubro 2016

A TÃO FAMIGERADA “MISSÃO INTEGRAL” PAUL FRESTON


Está faltando imaginação para 2017?

Leituras Diárias das Crônicas de Nárnia – Um Ano com Aslam 16 x 23 cm 488 páginas


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ABERTURA

“TUDO VAI BEM, QUANDO TUDO VAI MAL”? No correr da história tem havido vozes que insistem em dizer que “tudo vai bem, quando tudo vai mal”. São vozes que desejam manter o status quo e não mudanças. Nenhum remorso, nenhum arrependimento, nenhuma confissão de fracasso, nenhuma reviravolta, nenhuma limpeza, nenhuma reforma são necessários porque “tudo vai bem”. Elas são incapazes de assumir o contrário, que tudo vai mal. Para essas pessoas o mundo vai bem, o país vai bem, a sociedade vai bem, a igreja vai bem, a economia vai bem, a moral vai bem, o casamento vai bem, a família vai bem e “eu vou bem”. Isso ocorre mais por causa de alguma estratégia oculta de ordem política, de ordem econômica ou de ordem religiosa, do que por causa da falta de atenção e observação. Os portadores da mensagem de que “tudo vai bem, quando tudo vai mal” pretendem fazer uma lavagem cerebral. Como se pode dizer que o mundo vai bem se os atentados terroristas estão cada vez mais frequentes, mais sangrentos e mais ousados, principalmente na Europa? Se uma em cada 113 pessoas no mundo, no final de 2015, era refugiada ou deslocada ou estava em busca de refúgio em algum país? Se “estamos em meio de algo como uma verdadeira epidemia mundial de depressão que fez números insignificantes saltarem a proporções massivas” (Vladimir Safatle)? Se em abril de 2016, Barack Obama solicitou ao Congresso americano a aprovação de um orçamento de um bilhão e cem milhões de dólares para prevenção e tratamento do uso de opiáceos, e se 450 novas drogas sintéticas se juntaram às demais em 2014? Se o racismo ainda mata brancos e negros, menos de cinquenta anos depois da morte de Martin Luther King? Se “há uma enorme possibilidade”

de Donald Trump, caso seja eleito presidente dos Estados Unidos, ter acesso aos códigos nucleares (Tony Schwartz)? Como se pode dizer que o Brasil vai bem se “a Lava Jato ameaça transformar o país numa imensa jaula onde todos ficaremos presos e difamados” (Carlos Heitor Cony)? Se o Jornal The New York Times sugere que o Brasil deve ganhar a medalha de ouro em corrupção, e o ministro de nosso Supremo Tribunal Federal diz que a corrupção se tornou “uma espantosa regra”? Como se pode dizer que o casamento e a família vão bem se “casamentos não mais são feitos para durar” e se “a traição conjugal virou vício” (Walcyr Carrasco)? Como se pode dizer que a moral vai bem se comportamentos amorais são cada vez mais divulgados e ensinados sem o menor pudor? Se o beijo gay de 2014 é substituído agora por uma cena de sexo gay, tudo muito natural? Por volta dos anos seiscentos antes de Cristo, quando os exércitos da Babilônia estavam bem próximos, quando Nabucodonosor armou aríetes – máquinas de guerra para derrubar muralhas – em torno de Jerusalém, quando a fome era tal que as mães matavam, cozinhavam e comiam seus próprios filhos – os falsos profetas enganavam o povo de Israel dizendo “tudo vai bem, quando tudo vai mal” (Ez 13.10). Por causa dessa mensagem sem cabimento, o povo não deu ouvidos às vozes de Isaías, Jeremias, Ezequiel e outros. Então, a guerra, a fome e a doença deram cabo deles!

E. César Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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CARTA AO LEITOR DESDE 1968

PERDÃO, ESPERANÇA, LIVROS, MISSÃO Samuel Davies (1723-1761), por dois anos reitor da instituição que é hoje o Seminário Teológico de Princeton, em Nova Jersey, deixou-nos algo muito bonito sobre o perdão: Atordoados de admiração, trêmulos de alegria, recebemos o perdão de nosso Deus. Perdão pelos crimes mais tintos, perdão comprado com o sangue de Jesus. Quem é Deus perdoador como Deus? Ou que Deus tem graça tão rica e livre?

A pergunta de Davies, que morreu de pneumonia com a idade de 38 anos, ainda está sem resposta, pois não há outro perdoador igual a Deus. Para valorizarmos mais o perdão terapêutico de Deus, tornado possível pelo sangue de Jesus na cruz, Ultimato se alegra por trazer mais uma vez esse tema na matéria de capa. Lembremos que a Jesus foram imputados os pecados dos seres humanos e aos seres humanos foi imputada a justiça dele! Julia Cameron, entrevistada desta edição, é diretora de publicações do Movimento de Lausanne. Ela dá um tremendo valor aos livros. Escreveu vários, editou muitos outros e, por onde vai, leva consigo exemplares do “belo e profundo livrinho” de James Philip A Glória da Cruz – explorando o significado da morte de Cristo para presentear quem encontra. O Mineiro com Cara de Matuto está de volta, desta vez para aproximar os leitores dos quilombolas, um dos cinco segmentos menos evangelizados do Brasil, junto com os ciganos, indígenas, ribeirinhos e sertanejos. Segundo o Governo, deve haver 2.197 quilombos reconhecidos no Brasil, que abrigam 214 mil famílias e 1,17 milhão de quilombolas, a maior parte deles abaixo da linha da extrema pobreza (74,73%). Um segmento quase invisível da população. Há esperança e desesperança nos títulos dos artigos desta edição. Em Um rio de desesperança, o autor mostra que ao longo das margens do rio Doce pescadores, agricultores e famílias estão com o futuro comprometido por falta de perspectiva. Estão sem esperança. Em Missão e esperança, René Padilla afirma: “Ninguém pode viver sem esperança. A pessoa que perde toda a esperança é como uma flor que murcha e morre. A esperança cristã dá senso de direção à missão integral e é a base para a perseverança na prática da mesma”. Boa leitura!

Elben e Klênia 4

ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

ISSN 1415-3165 Revista Ultimato – Ano XLIX – N° 362 Setembro - Outubro 2016 www.ultimato.com.br Publicação evangélica não denominacional destinada à evangelização e edificação, Ultimato relaciona Escritura com Escritura e acontecimentos com Escrituras. Visa contribuir para criar uma mentalidade bíblica e estimular a arte de encarar os acontecimentos sob uma perspectiva cristã. Pretende associar a teoria com a prática, a fé com as obras, a evangelização com a ação social, a oração com a ação, a conversão com santidade de vida, o suor de hoje com a glória por vir. Circula em meses ímpares Diretor de redação e jornalista responsável: Elben M. Lenz César – MTb 13.162 MG Capa e projeto gráfico: Rick Szuecs Diagramação: Ana Cláudia Nunes Impressão: Plural Tiragem: 30.000 exemplares Colunistas: Alderi Matos • Ariovaldo Ramos • Bráulia Ribeiro • Carlos “Catito” Grzybowski • Carlinhos Veiga Dagmar Fuchs Grzybowski • Ed René Kivitz • Gladir Cabral Lissânder Dias • Marcos Bontempo • Paul Freston • René Padilla • Ricardo Barbosa de Sousa • Rubem Amorese Valdir Steuernagel Participam desta edição: Ana Cláudia Nunes Cleverson Paes Pacheco • Davi Pinto • Julia Cameron Lyndon A. Santos • Marcelo Renan D. Santos Martin Weingaertner • Rosana Basile • Rute Salviano Almeida • Timóteo Carriker Publicidade: anuncio@ultimato.com.br Assinaturas e edições anteriores: atendimento@ultimato.com.br Reprodução permitida: Favor mencionar a fonte. Os artigos não assinados são de autoria da redação. Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro da Associação de Editores Cristãos (AsEC) Editora Ultimato Telefone: (31) 3611-8500 Caixa Postal 43 36570-000 — Viçosa, MG ADMINISTRAÇÃO/MARKETING: Klênia Fassoni Ana Cláudia Nunes • Ariane Gomes Ivny Monteiro • Lílian Almeida • Lucinéa Campos Tânia Saraiva EDITORIAL/PRODUÇÃO/ULTIMATO ONLINE: Marcos Bontempo • Bernadete Ribeiro • Djanira Momesso César • Eduarda Sperancini • Lilian Rodrigues • Lissânder Dias • Natália Superbi FINANÇAS/CIRCULAÇÃO: Emmanuel Bastos Cristina Pereira • Daniel César • Fábio Freitas Filipe Emerick • Jair Avillez • Karina de Lima Nayuk Valentim • Paulo Lourenço • Sâmella Ferreira VENDAS: Lúcia Viana • Aguida Abreu • Bruno Coelho Elines Cabral • Érica Oliveira • Jaqueline Soares Romilda Oliveira • Vanilda Costa ESTAGIÁRIOS: Ingrid Reis • Jean Mendes Marina Rodrigues • Phelipe Reis • Thiago Maia Tymoteo Schafer


A Bíblia de Estudo Cronológica Aplicação Pessoal o ajudará a compreender a palavra de Deus. Em vez da ordem canônica tradicional, o texto bíblico está na ordem dos fatos e nos ajuda a ver como a história realmente se desenrolou. Isto proporciona uma experiência única sobre a história, e fornecerá uma nova e empolgante compreensão dos livros da Bíblia que poderiam ter sido difíceis de entender caso não soubéssemos sua posição em ordem cronológica.


Andrzej Pobiedziński

PASTORAIS | nº 104

A GUERRA DOS REFRÕES São dois refrões. Um diz uma coisa. Outro, diz outra. Ambos estão no ar. O primeiro tem tom de zombaria: “O tempo passa e as profecias não dão em nada”. O segundo é uma resposta ao primeiro: “Está chegando o dia em que as profecias se cumprirão” (Ez 12.23, NBV). Um refrão não fala a verdade e é repetido por um falso profeta. O outro fala a verdade e é repetido por um profeta de fato. Disto todos nós sabemos. O problema é discernir um do outro. O que alimenta o primeiro refrão é a demora das profecias. Entra ano, sai ano, e as promessas do tempo do fim não se concretizam. O que alimenta o segundo refrão é a certeza de que as promessas procedem da boca de Deus, aquele que não sabe mentir nem pode mentir (Tt 1.2). A promessa ou a profecia mais acalentada e aguardada é aquela que diz respeito à volta do Senhor, prometida por ele mesmo, pelos anjos, pelos profetas e pelos apóstolos. Usa-se mais a expressão: a segunda vinda de Cristo. Ela faz sentido. Abre as portas para outras profecias, como a promessa da ressurreição dos mortos e da transformação dos vivos e a promessa de novos céus e nova terra e a promessa do juízo final. Nenhuma delas pode falhar. A cerimônia da Ceia do Senhor relembra continuamente o retorno de Jesus: “Cada vez que vocês comem deste pão e bebem deste cálice, estão anunciando a morte do Senhor até que ele venha” (1Co 11.26). Apesar da suprema importância dessa promessa, que não se perde no tempo, o falso profeta põe faixas em toda parte, grita em alta voz, serve-se da mídia e 6

ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

escreve livros para proclamar que “o tempo passa e as profecias não dão em nada”. Todavia, o outro refrão continua a insistir: “Está chegando o dia em que as profecias se realizarão”. É uma guerra de refrões. Não há lugar para a neutralidade. A humanidade inteira abraça um refrão e dispensa o outro, ou para a sua desgraça eterna ou para a sua felicidade eterna. Alta madrugada do domingo da ressurreição, os soldados do Sinédrio saíram da casa de Caifás com o refrão: “O corpo de Jesus foi roubado pelos seus discípulos” (Mt 28.13). Momentos depois, Maria Madalena e a outra Maria saíram do jardim da casa de José de Arimateia em direção aos discípulos de Jesus com outro refrão: “O Senhor ressuscitou” (Lc 24.22-23). Os agnósticos, os irreligiosos, os secularizados, os escarnecedores têm poucos elementos para convencer os crentes de que a esperança deles é infundada. Estes, por sua vez, respondem que dezenas de profecias já se cumpriram à risca, no tempo certo. Entre elas estão a queda de Jerusalém, o cativeiro babilônico, a volta dos exilados, a primeira e a segunda destruição do templo, a descida do Espírito Santo e muitas outras. A mais antiga, a mais demorada e a mais empolgante promessa – a de que a semente da mulher pisaria a cabeça da serpente (Gn 3.15) – foi plenamente cumprida quando o Verbo se fez carne e quando o véu do templo se rasgou de alto a baixo, às três horas da tarde da sexta-feira da primeira Semana Santa da história. E. César


SUMÁRIO

COLUNAS O CAMINHO DO CORAÇÃO 31 O desafio da transmissão da fé Ricardo Barbosa de Sousa

CASAMENTO E FAMÍLIA 32 O presente do Dia das Crianças

Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski

REDESCOBRINDO A PALAVRA DE DEUS 34 “#É a graça, estúpido!”

LightStock

Valdir Steuernagel

MEIO AMBIENTE E FÉ CRISTÃ 38 Um rio de desesperança Marcelo Renan D. Santos

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ALTOS PAPOS

40 Grafite, arte e preconceito Cleverson Paes Pacheco

CAPA

O perdão nosso de cada dia

Precisamos nos valer mais do perdão de Deus, tornado possível pelo sangue de Jesus na cruz. Ele acaba com alguns distúrbios emocionais causados pelo pecado, por isso é também um perdão terapêutico. Deus não perdoa o pecado tal só uma vez, mas quantas vezes ele for cometido e confessado. Apropriemo-nos da verdade de que a Jesus foram imputados os pecados dos seres humanos e aos seres humanos foi imputada a justiça dele!

SEÇÕES

REFLEXÃO

48 Tudo se fez novo Ed René Kivitz

REFLEXÃO

50 De como Joel Osteen me trouxe a Yale Bráulia Ribeiro

HISTÓRIA 52 Panamá 1916: um congresso missionário pioneiro Alderi Souza de Matos

3 4 6 8 12 14 42

ABERTURA CARTA AO LEITOR PASTORAIS CARTAS ULTIMATOONLINE MAIS DO QUE NOTÍCIAS REPORTAGEM Quilombolas cada vez menos invisíveis

46 ENTREVISTA

Julia Cameron | A Igreja, a missão e os livros

60 ARTE E CULTURA

MISSÃO INTEGRAL 54 Missão e esperança René Padilla

CONTRAPONTO 56 Do lar

Ariovaldo Ramos

ÉTICA 57 A tão famigerada “missão integral“ Paul Freston e Rafael Freston

PONTO FINAL 66 A arte do não poder Rubem Amorese

UM PONTO DE ENCONTRO

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ABREVIAÇÕES: AM – A Mensagem; AS21 – Almeida Século 21; BH – Bíblia Hebraica; BJ – A Bíblia de Jerusalém; BP – A Bíblia do Peregrino; BV – A Bíblia Viva; CNBB – Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; CT – Novo Testamento (Comunidade de Taizé); CV – Cartas vivas; EP – Edição Pastoral; EPC – Edição Pastoral-Catequética; HR – Tradução de Huberto Rohden; KJ – King James (Nova Tradução Atualizada dos Quatro Evangelhos); NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia.

Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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CARTAS

dizendo que no final de tudo Deus vai nos fazer prosperar porque “ele é amor”.

Marcos José Júnior, Recife, PE

SÍNDROME DE BURNOUT

Eu ainda não tinha ouvido falar sobre a síndrome de Burnout. Hoje me deparei com o artigo Jeremias com a síndrome de Burnout? e confesso que o artigo me fez repensar sobre a questão ministerial, e, pelo que percebo, essa síndrome é mais real do que conseguimos imaginar. Edvar Gonzaga Eler, Tarumirim, MG

OS PREGADORES DA ESPERANÇA E OS PREGADORES DA DESCRENÇA

Eu completaria o artigo O que é evangelizar (p. 25) dizendo que evangelizar é acabar com essa história de que o homem é vítima e fazê-lo saber que nós somos transgressores e incircuncisos de carne como sugere o apóstolo Paulo (Cl 2.6-15). Só podemos entender e sentir o amor de Deus quando primeiro entendemos a gravidade da nossa transgressão. E desevangelizar é mentir para o pecador, é querer justificar os seus erros em cima de outras pessoas e achar que Deus sempre irá passar a mão em sua cabeça e dizer “vai lá”, é mentir para ele

O IMPÉRIO DA BARBÁRIE

Excelente e oportuno o artigo O império da barbárie, de Alderi Matos. Aproveito para me dirigir aos cristãos que são educadores. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB), nos artigos 74 a 79, trata expressamente da educação do trânsito e a resolução nº 265 de 2007 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) preconiza atividades extracurriculares para os alunos do ensino médio sobre a mesma temática. No entanto, poucas escolas fazem parcerias com os Detrans, para que a lei e a resolução sejam aplicadas. E 98% dos acidentes de trânsito ocorrem por falhas humanas. Eude C. da Rocha, Sorocaba, SP

O FEMINISMO ESTÁ MATANDO AS MULHERES?

Fiquei decepcionada com o artigo De como o feminismo está matando as mulheres, de Bráulia Ribeiro. Generalizar o movimento a, basicamente, duas pautas que ainda geram discussões também entre as feministas é reforçar um estereótipo já existente dentro das igrejas. Não se pode negar que o feminismo fez e ainda faz muito pelas mulheres. Esconder isso por trás de um preconceito é, no mínimo, injusto. Concordo que há algumas incoerências e pautas que precisam ser debatidas de forma melhor, mas não se pode negar a importância do movimento e as vertentes e discussões que existem dentro dele, diminuindo-o a duas pautas com argumentos rasos, como foi feito na matéria. Gabriela

AME E SEJA (IN)FELIZ!

Achei muito bom o artigo Ame e seja (in)feliz! (maio/junho de 2016), de Carlos Catito, pois mostra que o verdadeiro amor perdura para sempre, um amor sacrificial e não egoísta como o que temos visto ultimamente. Precisamos seguir o exemplo do mestre Jesus, que entregou a vida por nós; portanto, devemos entregar a nossa pelos nossos irmãos (1Jo 3.16). Ewerton N. de Oliveira, Fazenda Rio Grande, PR

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ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

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O MINEIRO E OS FRESTONS

As matérias de capa, embora com mais destaque, nem sempre são o melhor da revista – pelo menos na minha opinião. No entanto, surpreendi-me com a matéria sobre São Thomé das Letras (maio/junho de 2016). O Mineiro com Cara de Matuto foi muito feliz naquela visita. Também não posso deixar de parabenizar o excelente artigo A crise continua. Os princípios cristãos também, de Paul Freston e Raphael Freston, publicado na mesma edição da revista. Coerente, equilibrado e claro. Era a palavra que faltava sobre o assunto. Antônio P. Alves, Americana, SP

OS MALUCOS DA BR

Li a matéria de capa sobre São Thomé das Letras (maio/junho de 2016) e fiquei pensando sobre como podemos nos aproximar de artesãos e os ditos “malucos da BR”. Parabéns pela matéria, em tempo oportuno!

Helen Mara S. G. Santos, São José dos Campos, SP

POBRE E LIMPINHO

Gostei muito do artigo “Sou pobre, mas sou limpinho”, de Bráulia Ribeiro (“Reflexão”, maio/junho de 2016), que me fez recordar meu tempo de criança, quando morava em

uma casa de pau a pique, na roça, onde era tudo muito limpinho. Sobre ser corrupto ou não, seria utopia pensar diferente, à luz de Jeremias 17.9.

Abel A. Campos, Planura, MG

FALA COMIGO!

Muito corretas e atuais as palavras de Rubem Amorese em Fala comigo! Precisamos estar sempre com o coração humilde, prontos para receber o alimento de Deus para o nosso espírito. Coisas inefáveis dos céus! Wilson de Oliveira Jr., Recife, PE

ARTE E CULTURA

Sou assinante de Ultimato há alguns anos. Observo que vocês separam um espaço para a arte e isso é muito legal, pois tenho conhecido alguns novos trabalhos por meio da seção “Arte e cultura”. Marcos Dirceu, Santarém do Pará, PA

O MAIOR PROBLEMA DO BRASIL

Conheço Ultimato há muitos anos. Trata-se de uma publicação séria, interessante e envolvente. Seu conteúdo é muito apropriado para os nossos dias, pois o maior problema do Brasil é ético e moral. Ultimato tem tratado destes assuntos com muita clareza. Ozeias Rocha, Campo Grande, MS

MAIS FÁCIL DE SER LIDA

Agradeço a todos da revista Ultimato, pois a edição de maio/junho, a partir da página 22, se tornou mais fácil de ser lida. “Letras pretas sobre papel branco”, não mais com as letras empalidecidas. Espero que a próxima edição já venha toda impressa assim, pois sou grato a Deus por ser assinante dessa revista. Vigando Ziehlsdorff, Rio Negro, PR

VIVA O MEU TIO E VIVA ULTIMATO

Conheci Ultimato por meio do meu tio, que é assinante. Ele sempre lia e depois me emprestava a revista. Este ano ele me deu uma assinatura de presente e estou radiante! Tenho 22 anos e Ultimato se tornou um grande auxílio na minha caminhada cristã e na minha forma de enxergar o mundo, trazendo sempre assuntos atuais, como o feminismo. Sou professora de adolescentes na escola dominical e a revista tem sido um grande suporte para as minhas aulas. Cintya Passos, Itajubá, MG

QUANTO MAIS FÁCIL, MELHOR

Quero sugerir que Ultimato desenvolva apps para smartphones. Adoraria, por exemplo, abrir suas devocionais (que são excelentes, por sinal) direto no meu celular, sem ter de ligar o computador para isso. Marcos André E. Rocha, Porto Alegre, RS

Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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CARTAS

JOHN STOTT, UM DISCÍPULO RADICAL

Parabéns pela iniciativa de fazer com que assinantes da revista e leitores do boletim semanal Últimas se dediquem mais a estudar a obra de John Stott. Penso que a divulgação poderia até ser mais ampla. Acredito que a igreja evangélica brasileira (gospel e americanizada) tem de ler mais Spurgeon, Jonathan Edwards, John Owen, Gill, Stott e também contemporâneos como John Piper, Timothy Keller e Paul Washer. Neste mundo de extremismos (apatias e radicais), temos de estar no centro da vontade do Pai e alicerçados pelo que as Escrituras afirmam. Edward Saraiva, São Paulo, SP

Sugiro que os artigos e estudos bíblicos da campanha John Stott, um discípulo radical sejam publicados na revista Ultimato por se tratar de ótimo conteúdo que outras pessoas que não têm acesso à internet poderiam ler. Dorival Alves, Ponta Porã, MS

– Os estudos bíblicos da série “O Discípulo Radical” podem ser encontrados em goo.gl/Fys1yA.

RESSALVA

Há anos recebo e leio com interesse a revista Ultimato. Considero-a muito importante por

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transmitir conhecimento e proporcionar edificação. Aprecio os escritos de vários dos seus colaboradores. Lamento que a revista dê muito apoio à Igreja Romana, citando opiniões de padres e bispos e até do papa, muitas vezes elogiando-os ou destacando as suas virtudes. Discordo de tal atitude, pois que comunhão pode haver entre a luz e as trevas, Cristo e Belial, o templo de Deus e os ídolos (2Co 6.14-16)? Edgard Leitão, Caruaru, PE

UNIDOS PELA EVANGELIZAÇÃO

Líderes altamente visíveis em seus esforços evangelísticos – homens como o célebre pastor evangelista Billy Graham, que usou padres e freiras católicos como conselheiros em suas cruzadas; o renomado evangelista Bill Bright, que colocou católicos praticantes em posições de liderança na Campus Crusade for Christ (Cruzada Estudantil e Profissional Para Cristo), na Irlanda; e o conhecido pastor evangelista Luis Palau, que colaborou com os católicos na América do Sul. Sob a liderança do eminente ministro evangélico Chuck Colson e do padre católico Richard John Neuhaus, entre outros, evangélicos influentes e líderes católicos assinaram o documento Evangélicos e Católicos Juntos, por meio

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do qual se comprometiam a trabalhar juntos para converter o mundo a Cristo. Inácio José do Vale

Tudo em Ultimato tem cheiro de Cristo. Wellington da Silva

HÁ 45 ANOS Temos um chefe de turma de topografia, já distante de Santarém, para o sul, mais ou menos 80 quilômetros, em plena selva, que é crente novo. Está chefiando uma turma de dezessete homens e diariamente lê as Escrituras para eles. Aproveitei e mandei um exemplar de Ultimato para o irmão na fé. Assim, [a revista] também está empenhada no desbravamento da Amazônia. Artur Blaesi, Santarém, PA Março de 1971

PORTAL ULTIMATO Excelente o artigo A mulher por trás de John Stott (Blog John Stott, 15/7/2016). “Tia Frances”, secretária de John Stott, foi uma mulher muito especial e fez muito por ele e seu ministério. Sem a sua eficiente e fiel ajuda, John Stott não teria tido a chance de fazer tudo o que realizou. Louvo a Deus pela vida

2

Contém aplicação prática da meditação em linguagem específica para as crianças

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Apresenta 52 roteiros para grupos de relacionamentos

UNIÃO FEMININA MISSIONÁRIA BATISTA DO BRASIL Rua Uruguai, 514 - Tijuca - Rio de Janeiro, RJ - Cep 20510-060 Tels.: (21) 2570-2848 / 2288-6596 - E-mail: pedidos@ufmbb.org.br

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dela e alegro-me por esse reconhecimento que ela não buscou, mas certamente merece. Antônia Leonora van der Meer, Carambeí, PR

Eu estava preparada para curtir e compartilhar o artigo De que missão integral estamos falando?, publicado originalmente na revista Cristianismo Hoje. Infelizmente, apesar do conteúdo excelente, não consigo me conformar em ver algo a respeito da missão integral em que a voz feminina é quase ausente. Esta exclusão da voz feminina nas comunidades faz parte do problema de opressão e injustiça que tantas famílias estão vivendo. Nós, como promotores do reino de Deus, não podemos continuar sendo parte do problema. Tantas fotos e falas de homens de Deus deveriam ser uma bênção, mas acabam não sendo. Beth Anne Wood, Middle Sackville, Canadá

Os conselhos do artigo Dez mandamentos para começar um namoro (Blog Ultimato Jovem, 10/6/2016) são muito valiosos! Uma má escolha na área de relacionamentos pode ter consequências catastróficas para todos os envolvidos, direta e indiretamente. Seja sábio, analise cada um desses “mandamentos” e tome a decisão certa. Reafirmo o que meu esposo disse: casamos muito bem! Gesiê Castro Lima

Parabéns pela coragem de denunciar o abuso de crianças e adolescentes em ambiente evangélico no artigo Evangélicos que abusam de crianças (“Opinião”, 18/5/2016). É preciso quebrar o tabu e as lideranças começarem a falar mais sobre esse assunto nas igrejas. Alguém poderia me dizer quantas vezes ouviu esse tema em sua igreja? Eu ouvi apenas quando eu mesma preguei. Luciana F. da Silva, Rio de Janeiro, RJ

LIVROS ULTIMATO Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas, de Ricardo Barbosa, nos convoca à santidade e aos poucos vai tocando em nosso interior e desvendando nossos mais íntimos segredos. O livro tem muitas informações sobre como podemos nos libertar e compreender o nosso eu. A partir desta leitura, não vou ser mais o

mesmo! Vou ser mais dedicado e mais compreensivo com minha mulher e minhas filhas! Também pude entender o que é o amor de Deus. E é isso que o evangelho nos oferece.

Daniel S. Oliveira, Maceió, AL

FALE CONOSCO CARTAS À REDAÇÃO

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SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO LEITOR Para assinar ou adquirir exemplares anteriores, consultar dados de sua assinatura, comunicar alteração de endereço, tirar dúvidas sobre pagamento ou entrega, renovação e outros serviços. • 31 3611 8500 de segunda a sexta, das 8h às 18h • atendimento_sac@ultimato.com.br Editora Ultimato – Caixa postal 43 Cep 36570-000, Viçosa, MG

Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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ULTIMATOONLINE • por Lissânder Dias

NOVIDADES, LINKS E OPORTUNIDADES NO PORTAL ULTIMATO

OS MAIORES TEMPLOS DE SÃO PAULO goo.gl/XK9As6 Os maiores templos da maior cidade do Brasil são evangélicos. É o que constatou um levantamento do jornal Folha de São Paulo. A famosa Catedral da Sé ocupa apenas o 21º lugar (5.700 metros quadrados de área construída).

ww.sites.universal.org/templodesalomao

Colocação

Igreja

Área construída

1

Igreja Universal do Reino de Deus (Templo de Salomão)

75.948 m2

2

Igreja Pentecostal Deus É Amor

63.775 m2

3

Igreja Universal do Reino de Deus

30.168 m2

4

Congregação Cristã no Brasil

19.028 m2

5

A Igreja de Jesus dos Santos dos Últimas Dias

17.355 m2

6

Brasil Soka Gakkai Internacional

15.126 m2

7

Igreja Messiânica Mundial do Brasil

14.678 m2

8

Santuário Mãe de Deus (Pe. Marcelo Rossi)

12.582 m2

9

Igreja Universal do Reino de Deus

11.138 m2

10

Igreja Evangélica Assembleia de Deus

10.711 m2

10 ANOS DE A ROCHA BRASIL

ultimato.com.br

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O Portal Ultimato vai ganhar cara nova! Além de design mais moderno, o portal será responsivo, ou seja, se adaptará automaticamente se acessado em dispositivos móveis, como tablets e smartphones. Ainda não há uma data definida para o lançamento oficial, mas falta pouco. Aguarde!

A Rocha Brasil comemorará 10 anos de existência no dia 24 de setembro de 2016. O mandado divino para cuidarmos da criação tem nesta ONG cristã uma expressão coerente da igreja evangélica. O site d’A Rocha, hospedado no Portal Ultimato, oferece uma vasta quantidade de conteúdo para igrejas sobre educação ambiental: artigos, cartilhas, estudos bíblicos, notícias etc. Confira!

O blog da Ultimato continua publicando a série “O Meu Lugar no Mundo”, em que cristãos de diversas áreas e idades relatam suas jornadas vocacionais. Você já pode ler os depoimentos de gente como o teólogo René Padilla, a médica Soraya Dias e a jornalista Érica Neves.

kaboompics.com

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ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016


Abraçar o cristianismo é rejeitar a ciência? A ciência torna desnecessária a fé? O diálogo continua. A série “Ciência e Fé Cristã”, lançada em março deste ano, ganha a partir de setembro mais três títulos imperdíveis

MENTES, CÉREBROS, ALMAS E DEUSES Um a c o nve rs a s o b re fé, psicologia e n e u ro c i ê n c i a

O MUNDO PERDIDO DE ADÃO E EVA O d e b a t e s o b re a o r i g e m da humanidade e a l e i t u ra d e G ê n e s i s J o h n Wa l to n

M a l c o l m J e eve s

Conheça outros livros da série www.ultimato.com.br/sites/serie-ciencia-e-fe-crista

DEUS E DARWIN Te o l o g i a n a t u ra l e p e n s a m e n t o evo l u t i vo A l i s te r M c G r at h


+ DO QUE NOTÍCIAS

E-MAIL RESPONDIDO Você foi jogado vivo dentro de um poço. Uma pedra é colocada em cima de você. A água sobe acima de sua cabeça. Você exclama: “Estou perdido!”. E faz uma rápida oração: “Salva-me, Senhor!”. Então o Senhor vem, aproxima-se, chega perto, bem perto e salva a sua vida da morte (Lm 3.53-58). Em uma versão moderna, você contaria o seu livramento assim:

UMA SÓ CARNE No que diz respeito ao casamento no plano original da criação, não há lugar para o adultério, para o divórcio nem para a homossexualidade. A união sexual é tão perfeita que os cônjuges se tornam uma só carne e ninguém pode ter a ousadia de profaná-la, separando-os. Considerada ridícula e ultrapassada, essa é a herança deixada por Deus e confirmada por Jesus Cristo (Mt 19.4).

CONFERÊNCIA QUER DESMITIFICAR CONFLITO ENTRE FÉ E CIÊNCIA

O Senhor atendeu o meu telefonema O Senhor respondeu meu e-mail O Senhor se levantou de sua cadeira O Senhor me abriu a porta O Senhor me estendeu sua mão O Senhor me ofereceu uma cadeira

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NÚMEROS

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5.000.000

91.774

de iraquianos já foram enterrados no cemitério Najaf, no Iraque, o maior do mundo. A maioria é de muçulmanos xiitas. A cada ano, 50 mil enterros são realizados ali. O número de corpos sepultados é igual ao da população da Noruega

crianças de até quatro anos estão entre os 227.000 sepultados no Cemitério São Luiz, em São Paulo (mais de 40%) desde 1981

ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

6 volumes é o tamanho da autobiografia do escritor norueguês Karl Ove Knausgard, de apenas 47 anos

É isso que você quer dizer quando conta que o Senhor chegou perto, bem perto, de você e o tirou do poço!

Jay Wennington

Deesha Chandra

1ª Conferência Nacional Cristãos na Ciência, que acontece de 17 a 19 de novembro de 2016, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, SP, quer aprofundar a reflexão sobre o diálogo entre fé e ciência e desmitificar o conflito aparente entre as duas áreas. Além de Roberto Covolan e Guilherme de Carvalho, integrantes da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²), o evento tem a presença confirmada de palestrantes reconhecidos pela comunidade científica internacional. Entre eles, o professor de ciência e religião na Universidade de Oxford Alister McGrath, autor de A Ciência de Deus – Uma introdução à teologia científica e Deus e Darwin – Teologia natural e pensamento evolutivo, e o professor de Antigo Testamento no Wheaton College John Walton, autor de O Mundo Perdido de Adão e Eva – O debate sobre a origem da humanidade e a leitura de Gênesis. Os três livros fazem parte da série “Ciência e Fé Cristã”, publicada pela Editora Ultimato em parceria com a ABC².

2.800.000

11.000

pessoas morrem de Aids, tuberculose e malária ao redor do mundo a cada ano

cristãos foram mortos pela violência religiosa nos últimos anos na Nigéria, segundo a Associação Cristã da Nigéria


FRASES

Em artigo publicado em O Mensageiro da Paz, órgão oficial das Assembleias de Deus, Rayfran Batista da Silva, pastor da Assembleia de Deus em Santa Inês, MA, e diretor do Instituto Bíblico Pr. Estevam Ângelo de Souza, diz onde podem ser encontrados sinais do falso evangelho: 1) na teologia liberal; 2) no ensino de seitas; 3) na pregação descomprometida de pregadores superficiais; 4) em várias afirmações e práticas do movimento neopentecostal; 5) em qualquer movimento religioso que não considera uma boa hermenêutica bíblica e não leva a sério a doutrina de Cristo. Rayfran é graduado em filosofia, letras e história e pós-graduado em teologia.

Reprodução Youtube

QUEM PROCURA, ACHA!

AS HABILIDADES DE AUTOCONTROLE PODEM SER APRENDIDAS, APRIMORADAS E EXPLORADAS

João Silas

Quem quer e precisa parar de fumar, beber, consumir drogas, roubar, odiar, vingar-se, discriminar os outros, orgulhar-se etc. – precisa assentar-se aos pés de um psicólogo de 86 anos, um dos principais estudiosos de autocontrole. Em entrevista à revista Veja, o doutor Walter Mischel, professor da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, diz que é difícil refrear nossos desejos porque somos humanos. Todavia, “as habilidades de autocontrole podem ser aprendidas, aprimoradas e exploradas, não importa qual seja a nossa capacidade original”.

Não tem jeito, fomos criados como seres espirituais, para adorar. E se não conhecermos o Deus vivo e adorá-lo, nosso coração fabricará deuses para cultuar. Pedro Paulo Valente

Pastor de adolescentes

A Europa tornou-se cristã só de nome e não de testemunhos, onde os poucos cristãos de fato não podem mais pensar como se fossem a maioria. Cardeal Luis Antonio Tagle

4.200.000 reais por mês é quanto ganha Edson Arantes do Nascimento, Pelé, o rei do futebol, 75 anos, só com a venda de imagem e contratos de publicidade

Paulo Pinto/ Fotos Públicas

Arcebispo de Manila

Querer ser famoso, para mim, é uma doença tão ruim quanto querer ficar rico. Nunca quis. Pelo contrário, aos 30 anos, resolvi caminhar para trás. Mas andei para a frente enormemente porque cumpri minha vocação. Leonardo Fróes Poeta e tradutor

Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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+ DO QUE NOTÍCIAS

Tomaz Silva/Agência Brasil

A LOUCURA DAS ESTATÍSTICAS

O LIVRO DE CAPA DURA DE ANA CRISTINA CÉSAR É A BÍBLIA

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No livro Inconfissões – fotobiografia de Ana Cristina César, lançado em Paraty, uma das fotos mostra Ana Cristina, criança ainda, segurando na mão esquerda uma boneca e um barco de brinquedo e na outra, um livro. Comentando a foto, Alice Sant’Anna diz que o livro é de capa dura, mas não dá para ler o título: “Não seria absurdo supor tratar-se de um livro de poemas”. Na verdade, embora contenha vários poemas, principalmente o Cântico dos Cânticos, não se trata de um livro de poemas. É a Bíblia.

10.000

3.000.000

judeus da Europa Ocidental emigraram para Israel em 2015, quase a metade eram judeus franceses (8.000). Isso lembra a volta de cerca de 50 mil judeus para sua terra depois dos 70 anos de exílio na Babilônia, 500 anos antes de Cristo

de 1,3 bilhão de chineses são milionários e quase 300 são bilionários

ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

1.220.000.000 de pessoas ao redor do mundo vivem com menos de um dólar e meio por dia (nos Estados Unidos, quem vive abaixo da linha de pobreza ganha 11.000 dólares por ano)

Pressfoto / Freepik

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14ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), realizada em junho de 2016, começou com um tributo a Ana Cristina César, a poeta brasileira que, se estivesse viva, teria completado 64 anos, agora em junho. Ela nasceu no seio de uma família evangélica no Rio de Janeiro. Seu pai, Waldo César, era presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil e teve um papel muito importante em chamar a atenção da igreja para os problemas sociais do país. Só por causa disso, esteve na mira do governo militar da época e foi obrigado a passar algum tempo no exterior.

Multidões escolhem passar pela porta larga e caminhar pela estrada larga, enquanto poucos passam pela porta estreita e caminham pela estrada estreita. O alto peso das “multidões” sufoca o baixo peso dos “poucos”. Essa verdade bíblica (Mt 7.13) torna válida a palavra de Eugene Peterson: “As pesquisas de opinião popular condicionam-nos a procurar a verdade nas porcentagens: aquilo que a maioria faz ou pensa é o mais correto. A parábola de Jesus sobre os lavradores maus expõe a loucura da estatística: por mais que os lavradores rejeitem a verdade, essa permanece para julgá-los”.

1.907 novos crentes foram batizados em julho de 2013 no templo sede da Assembleia de Deus do Belém, na capital de São Paulo


+ DO QUE NOTÍCIAS

NEM O JEITINHO RESOLVE O PROBLEMA BÁSICO DA NATUREZA HUMANA

CC0/Pixabay

ATÉ O CARRASCO!

lita a traição e que as pessoas usam alegremente”. Na última frase do artigo intitulado A infidelidade ao alcance de todos, Carrasco não se intimida em afirmar que a “traição virou vício”. Vozes não necessariamente religiosas ou cristãs parecem

preocupadas com a permissividade atual. 18

ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

Ryan McGuire

Na revista Época de 23 de maio de 2016, Walcyr Carrasco, jornalista e autor de livros, peças de teatro e novelas de televisão, afirmou que “casamentos não mais são feitos para durar” e comentou: “Às vezes, nem dá tempo de os dois abrirem os presentes”. Comenta ainda que “atualmente, parece até que se separar é mais importante que casar”. Um mês depois, na Época de 20 de junho de 2016, o mesmo Carrasco fala de um site que “faci-

Sue Nagyova

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or que usamos cadeados em nossas bicicletas? Por que colocamos grades em nossas janelas? Por que instalamos um sistema de alarme em nossos carros e em nossas lojas? Há tantos ladrões assim à nossa volta e à volta de nossos pertences? Meu vizinho é ladrão? Eu sou ladrão aos olhos do meu vizinho? Por que senhas para fazer retirada bancária e para abrir a porta de nossa própria casa? Os cadeados e as senhas são a nossa maior vergonha, são a maior evidência de que o mal habita em nós, são a maior prova da pecaminosidade latente. Não temos como negar aquilo que biblicistas e teólogos chamam de queda (o pecado inicial). Em 2017, a Constituição Americana vai completar 230 anos. Os autores desse documento histórico estavam bem por dentro da corrupção alojada no interior de cada cidadão americano. O mais notável deles, James Madison (1751–1836), o quarto presidente da nação, pergunta: “O que é o próprio governo, se não a maior das críticas à natureza humana?”. Em seguida ele acrescenta: “Se os homens fossem anjos, não seria necessário governo algum. Se fossem governados por anjos, o governo não precisaria de controles externos nem internos”. O jornalista Helio Gurovitz cita James Madison ao escrever o artigo Nenhuma reforma política muda a natureza humana, publicado em sua coluna na revista Época de 16 de maio de 2016.

QUEM ESTÁ NA GARUPA NÃO PEGA NA RÉDEA O psicanalista Francisco Daudt explica que a palavra autonomia vem do grego – “regras para si” – e “significa mandar na própria vida, tomar decisões e rumos próprios”. Acrescenta: “O que não for proibido por lei será de nosso direito fazer”. Para o verdadeiro cristão, a liberdade de fazer o que se quer é menor. Como cidadãos deste mundo, nosso limite de fato é a Constituição do país, mas como cidadãos dos céus (Fp 3.20), o limite é bem maior. Jesus não ocultou isso de ninguém: “Se alguém quer ser meu seguidor, que esqueça os seus próprios interesses, esteja pronto para morrer como eu vou morrer e me acompanhe” (Mc 8.34; Lc 9.23). (Na paráfrase de Peterson lê-se: “Quem quiser seguir-me tem de aceitar a minha liderança. Quem está na garupa não pega na rédea. Eu estou no comando”.) Muito provavelmente, essa restrição da autonomia humana, imposta por Jesus – para o nosso bem – é a maior razão para a não aceitação do evangelho.


+ FRASES

wikimedia.org

Não temos um Deus morto que deixou um livro, mas um Deus vivo que continua falando. De palavras de Deus hoje, eu preciso viver. Se todo dia como pão para o sustento da vida, preciso, da mesma forma, escutar todos os dias as palavras de Deus constantemente atualizadas e personalizadas. Paul Freston

PADRE ZEZINHO MORRE DE SAUDADE Algum tempo atrás havia santos atrás dos púlpitos católicos e protestantes no Brasil. Eles eram dignos da maior reverência, porque o tempo todo pensaram no povo e no reino de Deus. Quem chama atenção para esse fato é o escritor, cantor e compositor Padre Zezinho. Ele faz um acréscimo muito importante e sutil: “Esses pregadores, no entanto, não enriqueceram, não moraram em casas luxuosas, não tiveram carros vistosos, não levaram vantagem alguma, viveram pobres e morreram pobres. Sua vida foi de intensa alteridade, por isso tinham autoridade e credibilidade. Sua pregação apontava para a terra e para o céu, e tinha as dimensões das quais fala Paulo – altura, profundidade, largura e comprimento. Diziam coisa com coisa!”.

Professor colaborador na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático na Wilfrid Laurier University, no Canadá

A pena de morte é cruel e priva a pessoa condenada da misericórdia de Deus, eliminando a possibilidade de se arrepender e encontrar paz com Deus e com os outros. Conferência Episcopal da Austrália

O cristão, como Cristo, não mais pertence a este tipo de mundo e não partilha sua lógica. Contudo, sabe que permanecer é parte irrenunciável da própria missão. Padre Bruno Maggioni

Sacerdote da Diocese de Como, na Itália

Não seremos livres para adquirir e acumular bens enquanto houver pessoas que não têm o que comer ao nosso lado. Sylvio Macri

A eternidade não começa quando morremos. Começa quando morremos para as nossas vidas antigas e aceitamos uma vida nova em Cristo. Hank Hanegraaff

Diretor do programa Bible Answer

A ciência, que prometia elucidar a condição humana, só faz aumentar o tamanho da nossa insignificância e da nossa ignorância. Eduardo Giannetti

Economista, autor do recém-lançado Trópicos Utópicos

Vivemos em um planeta insignificante em uma banal estrela perdida em uma galáxia aninhada em um canto esquecido de um universo com mais galáxias do que seres humanos neles. Carl Sagan

Astrofísico morto há 30 anos

A santificação começa por ocasião da conversão e se desenvolve durante toda a vida. É um processo contínuo e crescente, que exige esforço, renúncia e zelo. Ezequiel Peixoto de Andrade Diretor da Didaquê

Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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+ DO QUE NOTÍCIAS

CONEXÕES por Lissânder Dias

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Favarin estão reunindo jovens em cafés para, de forma contextualizada, transmitir o evangelho. Da China, ouvimos que a juventude cristã está ameaçada pelo secularismo. Milhares de cristãos que saíram do país e foram morar no Ocidente, quando retornam para a China, perdem a fé. Da África, soubemos que, sim, já chegou a hora do continente enviar missionários, e não somente recebê-los. O Brasil esteve presente em uma quantidade significativa no encontro. A começar pela coordenadora geral, Sarah Breuel, e seguindo com o tamanho da nossa delegação: Mais de cinquenta pessoas, algumas delas trabalhando em outros países, como Indonésia, Burkina Fasso, Espanha, Malásia, França, Itália. Selecionamos a seguir algumas das muitas histórias que conhecemos no Encontro de Líderes Jovens de Lausanne 2016. MAIS NA INTERNET Confira o que publicamos sobre o ELJ2016 diretamente de Jacarta goo.gl/2hBh6p

Movimento Lausanne

Movimento Lausanne

ais de mil jovens líderes cristãos de 150 países se reuniram em uma universidade de Jacarta, Indonésia, de 3 a 10 de agosto de 2016, para refletir e compartilhar experiências sobre os diversos horizontes da igreja global, a partir da grande história de Deus. Promovido pelo Movimento Lausanne, foi a terceira edição do Encontro de Líderes Jovens de Lausanne 2016 (ELJ2016) – o segundo aconteceu em 2006. O tema principal deste ano foi “Unidos na Grande História”. Com exposições bíblicas, painéis de liderança, pequenos grupos e testemunhos, foi possível olhar de forma mais panorâmica para a igreja no mundo. E o que vimos? Uma igreja com uma liderança jovem diversificada. Muitos estão criando novas formas de comunicar o evangelho, como é o caso de Prashan De Visser, do Sri Lanka, que tem conseguido articular milhares de jovens cristãos em torno da reconciliação no país. Em regiões mais urbanas e secularizadas como a Espanha, pastores como o brasileiro Hélder

David McEachan

OLHARES DE JOVENS LÍDERES SOBRE A IGREJA GLOBAL

Movimento Lausanne

HÁ AMOR EM DÉLI

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Momentos do Encontro de Líderes Jovens de Lausanne 2016 em Jacarta, Indonésia

ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

Um homem de 29 anos, barba longa, com roupas amarelas. Assim é Ravi “Jojo” Landge. Ele é cristão e indiano. Mora em Déli – segunda maior cidade da Índia – e começou em 2008 um projeto chamado “Love Movement”, que pretende alcançar a juventude indiana para Cristo. Por meio da narrativa de histórias, do teatro, da música e do diálogo, o movimento transmite e demonstra o evangelho de forma relevante e contemporânea. A razão do uso da roupa laranja é porque, na cultura indiana, esta cor simboliza a religiosidade e autorrenúncia. Além de criar pontes para o evangelho, os adeptos ao “Love Movement” também perguntam aos participantes: “Você ama sua cidade?”. A partir deste questionamento, as pessoas se envolvem em um diálogo.

É POSSÍVEL A AMIZADE ENTRE CRISTÃOS E MUÇULMANOS?

Bel (nome fictício) tem apenas 33 anos, mas já lidera uma organização cristã nos Estados Unidos que promove relacionamentos reconciliados entre cristãos e muçulmanos no país. Ela nasceu em Israel, mas cresceu na Holanda. É PhD no assunto. O clima crescente de inimizade entre cristãos e muçulmanos devido ao terrorismo e campanhas políticas xenófobas tornam 2016 um ano difícil. A atuação de Bel é exatamente no meio cristão, tentando estimular igrejas a assumir seu compromisso cristão em favor da reconciliação. “O elemento essencial para a construção da paz é a amizade. Sem amizade entre cristãos e muçulmanos, não podemos esperar que haja paz. Tenho visto e crido nisso há anos”, diz.

ELA PODERÁ SER A PRIMEIRA PASTORA DO ORIENTE MÉDIO E NORTE DA ÁFRICA

Anne Zaki é egípcia, tem quatro filhos e é mestre em psicologia e teologia. Ela é professora no Seminário Evangélico de Cairo, onde vive com sua família. Além disso, Zaki atua na área de música e faz parte de um ministério global no Calvin Institute of Christian Worship. Anne é uma excelente expositora bíblica. Seu sermão sobre a torre de Babel foi um dos mais elogiados durante o Encontro de Líderes Jovens de Lausanne 2016. Anne está prestes a dar mais um passo significativo: Ela está em processo de ordenação pastoral na Igreja Presbiteriana do Egito. Se isso acontecer, Zaki se tornará a primeira mulher ordenada como pastora no Norte da África e Oriente Médio.


DE BRASILEIROS PARA BRASILEIROS

Uma edição verdadeiramente verde-amarela, a Bíblia Brasileira de Estudo foi inteiramente escrita por autores nacionais e dirigida ao povo brasileiro que vive a realidade singular do nosso país e da nossa cultura. A obra menciona personalidades que marcaram história do Brasil. Cita, por exemplo, o amor de Dom Pedro II pela Palavra e faz referência a poemas célebres de Castro Alves e Manoel Bandeira.

De perfil interdenominacional, a BBE oferece mais de 12 mil notas de estudo, artigos, mapas e referências especiais, organizados em 13 áreas: linguística, hermenêutica, família, técnica, ministério, espiritualidade, literatura, homilética, teologia, cultura, crítica textual, ética e missões. Com organização e supervisão editorial de Luiz Sayão, a BBE contou com mais de 60 colaboradores e consumiu 10 anos de produção. Biblia Brasileira de Estudo 16 x 23 cm | 1.984 p.

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Facebook /hagnoseditora Siga-nos @editorahagnos Acesse www.hagnos.com.br Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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MATÉRIA DE CAPA

A Ação

TERAPÊUTICA DO PERDÃO

O PERDÃO DE DEUS NÃO ELIMINA AS CONSEQUÊNCIAS NATURAIS DO PECADO

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perdão de Deus não exclui aquele intervalo amargo provocado pelas consequências naturais do pecado confessado e perdoado. O Senhor aconselha Jerusalém a suportar e aguentar calada o peso da vergonha e da humilhação que se abateram sobre ela quando era uma esposa infiel (Ez 16.52). Tamanho foi o seu pecado que ela tinha de passar por essa situação difícil sem se zangar, sem reclamar, sem se revoltar. Davi foi plenamente perdoado, mas o seu mau exemplo impediu que ele punisse seu filho mais velho por ter estuprado a própria irmã. E porque não fez nada, Absalão, o irmão por parte de pai e mãe da moça violentada, mandou assassinar o criminoso. Mais ainda, o pecado de Davi abalou sua reputação perante o povo, facilitando a revolução armada contra ele feita pelo próprio filho. Os escândalos palacianos fizeram Davi sofrer muito, mas ele suportou e aguentou tudo sem abrir a boca contra Deus, que já lhe havia dado perdão e purificação. A certeza do perdão fez com que Davi superasse aquele período sombrio!

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Janeiro/Fevereiro 2015 ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

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CA DE PE

uitas pessoas não sentem a bem-aventurada necessidade do perdão de Deus. Nem sequer passa pela cabeça delas a ideia do perdão. São pessoas irreligiosas na teoria e na prática, descomprometidas, sem o menor temor do Senhor. Para haver uma notável reviravolta, elas precisam ser trabalhadas antes de tudo pela graça de Deus. Essa insensibilidade, esse apagão frente ao pecado e ao perdão em grande parte é devido ao não cumprimento da Grande Comissão, dada por Jesus aos seus discípulos pouco antes de sua ascensão. O Senhor ordena que a mensagem deles seja “sobre o arrependimento e o perdão dos pecados” (Lc 24.47). Se os ministros religiosos de hoje fossem como os profetas de ontem, um número muito maior de pessoas passariam a sentir necessidade de perdão e correriam atrás dele. Além da omissão há também o problema da distorção. Hoje quase não se fala em perdão – fala-se mais em cura. Quase não se fala em pecado – fala-se mais em doença. Quase não se fala em pecaminosidade – fala-se mais em prosperidade. Somos curados, mas não perdoados. Somos livres do câncer, mas não da culpa. Se a cura pressupõe a doença, o perdão pressupõe a culpa. Negar a doença não leva à cura. Negar a culpa não leva ao perdão. Em alguns casos a remissão da culpa pode contribuir para a remissão da doença. Em tudo, o perdão sempre leva vantagem! Há distúrbios emocionais bastante desagradáveis, que são provocados por desacertos, por equívocos, por escorregões morais, por omissões e transgressões. O bom comportamento é um ótimo protetor do bem-estar, da saúde emocional. Aliás,


LightStock

ADOS Billy Graham uma vez escreveu que as leis de Deus são placas sinalizadoras fincadas em ambas as margens da estrada da vida para nos proteger de algum acidente desastroso. O perdão de Deus é tão saudável que acaba com alguns distúrbios emocionais causados pelo pecado, como, por exemplo, o autonojo, o auto-ódio e a autodepreciação. O AUTONOJO A Bíblia fala de coisas nojentas, pecados nojentos, ídolos nojentos, especialmente no livro de Ezequiel (7.4; 11.21; 20.8 etc). Eram práticas tão nojentas que até as nações pagãs tinham nojo daqueles que as faziam (Ez 22.16). O livro de Isaías descreve a situação moral do povo eleito de sua época: “Da ponta dos pés até o alto da cabeça nada está bem: machucaduras, escoriações, feridas abertas, não cuidadas, não lavadas, não tratadas” (Is 1.6, AM). Mais na frente, o profeta acrescenta: “Todos nós nos tornamos impuros, todas as nossas ações são como trapos sujos” (Is 64.6). Ao tratar da sujeira interior, Jesus vociferou contra os hipócritas: “Vocês são como túmulos pintados de branco, que por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de podridão” (Mt 23.27). Em ocasiões assim, nada pode impedir que a graça venha à tona e mude o quadro: “Borrifarei água limpa sobre vocês e os purificarei de todos os seus ídolos e todas as coisas nojentas que vocês têm feito” (Ez 36.25). Afinal, “o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7). A graça de Deus cura o autonojo. Davi tinha tanta certeza disso que em sua confissão, ele clama: “Purifica-me de todas as minhas maldades [ou

O PERDÃO MAIOR E OS PERDÕES MENORES

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erdão é sempre perdão. Parece estranho falar em perdão maior e em perdões menores. Parece, mas não é. Não é à toa que o perdão maior está no singular e os perdões menores estão no plural. O perdão maior é o perdão por atacado e os perdões menores são o perdão a varejo. O perdão maior é o perdão inicial, o resgate de todas as dívidas, de todas as culpas e de todas as manchas, em um único momento, tudo de uma só vez. Inclui todos os pecados já cometidos, todos os pecados que estão sendo cometidos e todos os pecados que vão ser cometidos. Quer dizer, as culpas de ontem, as culpas de hoje e as culpas de amanhã. As culpas futuras são perdoadas por antecipação junto com as culpas presentes e passadas. Trata-se de uma graça inacreditável, tão grande que é. O perdão maior não se repete. É um só. Dura para toda a vida. Não perde a força, não declina, não tem data de validade, não caduca em tempo algum. O perdão maior é o perdão que leva à salvação, é o perdão que justifica o pecador, é o perdão que arrola o pecador no Livro da Vida, é o perdão que torna o pecador filho de Deus e herdeiro de Deus, é o perdão que marca o início da nova criatura. Depois do perdão maior, segue-se o perdão menor, que não é um só, mas inúmeros, quantos forem necessários. O perdão menor não inclui o perdão das culpas futuras, porque é um por um, um para cada vez. Ele resolve o problema do pecado eventual, do pecado repetido, do pecado cometido sem querer, do pecado cometido por querer, do pecado “brando” e do pecado absurdo. Ninguém sobrevive, tanto sem o perdão maior quanto sem os perdões menores! Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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MATÉRIADE DECAPA CAPA MATÉRIA

sujeiras] e lava-me do meu pecado” (Sl 51.2). Ele estava certo de que ficaria “mais branco que a neve” (Sl 51.7). Numa das peças de Shakespeare, certa mulher, que foi cúmplice do marido no assassinato de um rei, tenta livrar-se, por vias naturais, do autonojo que a acometeu. Lady Macbeth sente a mão suja de sangue, mesmo lavada cuidadosamente vezes seguidas. Em seu desespero, confessa: “Nem todos os perfumes da Arábia jamais limparão esta pequena mão”. O AUTO-ÓDIO Existe tal coisa como auto-ódio? Existe, sim. É um sentimento estranho e até perigoso. Perigoso porque quem odeia muito e não consegue controlar o ódio pode ser induzido a tirar a vida de quem odeia. Se o ódio é contra si mesmo, ela corre o risco de cometer suicídio. Basta ler uma passagem de Ezequiel, referindo-se aos israelitas de seu tempo: “Eles odiarão a si mesmos por causa das suas maldades e das coisas nojentas que fizeram” (Ez 6.9). Será que Davi não teve momentos de ódio de si mesmo por ter interrompido a sua comunhão serena com Deus, por ter manchado sua A chegada do reputação, por ter pecado contra esposas, seus filhos, Urias e perdão, o benefício suas Bate-Seba? Por ter cedido ao clamor do perdão, a do sexo, o salmista teria antecipado alegria do perdão, o apóstolo Paulo, quando este gritou: a surpresa do “Miserável homem que eu sou” (Rm perdão e o alívio 7.24). que o filho pródigo não teve do perdão acabam ódioSerá de si mesmo quando, assencom o autonojo, tado num chiqueiro de porcos, lemo auto-ódio e a brou-se da besteira que havia feito autodepreciação jogando fora a herança do pai em troca de alguns dias de prazeres carnais, enquanto os colonos da fazenda do pai comiam e bebiam com fartura? Será que Pedro não teve ódio de si mesmo quando o galo cantou e Jesus virou o rosto em sua direção? Quando percebeu que havia negado três vezes ao Senhor, no momento mais impróprio possível e depois de garantir, poucas horas antes, que jamais faria tal coisa? Será que Judas não teve ódio de si mesmo quando viu que Jesus havia sido condenado por Herodes? Por

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ULTIMATO 2016 ULTIMATO •• Setembro/Outubro Setembro/Outubro 2016

que o apóstolo após a tentativa fracassada de reparar a traição, comete suicídio? Não será este um exemplo do risco de morte por causa da agonia do auto-ódio não curado? A AUTODEPRECIAÇÃO Não é possível evitar certa dose de autodepreciação após o cometimento de algum pecado. Quanto mais hediondo o pecado, maior será esse sentimento. Embora incômoda, a baixa estima é terapêutica porque pode levar a pessoa ao sentimento de culpa, ao arrependimento, à confissão e finalmente ao perdão. Pois ela quer pôr-se de pé mais uma vez e caminha nessa direção. É terapêutica também por outro motivo. A autodepreciação cura a autoapreciação demasiada, infundada e enganosa. É o caso de Pedro. O apóstolo estava como que fora de si quando romanticamente declarou ao Senhor: “Eu nunca abandonarei o senhor, mesmo que todos o abandonem” (Mt 26.33). A autodepreciação é provisória. Dura enquanto durar o processo de restauração. A chegada do perdão, o benefício do perdão, a alegria do perdão, a surpresa do perdão – a graça sempre surpreende – e o alívio do perdão põem a autodepreciação a correr. E tudo volta ao normal. O mesmo Deus que gera, que permite e que se serve da autodepreciação, retira-a na hora em que ela não é mais necessária e passa a ser prejudicial. Foi isso que Jesus fez com Pedro, dando-lhe muito graciosamente a oportunidade de declarar três vezes seguidas e em público que o amava de fato. O arquiteto do perdão sabe perdoar: além das perguntas provocadoras, Jesus pôs fim à autodepreciação de Pedro ordenando-lhe três vezes: “Tome conta das minhas ovelhas” (Jo 21.15-17). A autodepreciação é notória na experiência de Davi. Ele sente necessidade de confessar: “De fato, tenho sido mau desde que nasci; tenho sido pecador desde o dia em que fui concebido” (Sl 51.5). MAIS NA INTERNET Leia e imprima o estudo bíblico baseado neste artigo goo.gl/e3u3DM


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alicerce

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ideia de um sacrifício vicário para remover a culpa do pecado está ligeiramente presente em algumas culturas e religiões remotas. Mas, no cristianismo, ela se acha profundamente enraizada, tanto nas Escrituras como na história da igreja. A CÓLERA DE DEUS ACALMADA Chama-se de expiação o “ato pelo qual Deus restaura o relacionamento de harmonia e unidade entre ele e os seres humanos”. É também aquele sacrifício que “torna agradável a Deus um ser que antes lhe era desagradável” ou a oferta que “acalma a cólera de Deus e o torna propício e agradável ao homem”. A expiação é necessária por causa de três fatores: a universalidade do pecado, a seriedade do pecado e a incapacidade humana em resolver o problema da culpa do pecado (L. L. Morris). A Bíblia deixa claro que se o pecador tiver de depender de si mesmo para obter o perdão de Deus, ele nunca será perdoado. Essa preciosa

do perdão graça só pode ser conseguida por meio do sacrifício de uma vítima qualificada – sem qualquer pecado, mancha ou defeito. No Antigo Testamento, todos os que quebrassem, propositadamente ou não, uma das leis de Deus e fizessem o que é proibido teriam de oferecer um sacrifício pelo pecado. Não importava se o transgressor fosse um cidadão ou o próprio sacerdote, Se o pecador tiver não importava se fosse um indi- de depender de si víduo ou o povo todo – ninguém mesmo para obter era dispensado do sacrifício. Os ricos teriam de oferecer um o perdão de Deus, bovino de grande porte; os de ele nunca será classe média, um caprino de perdoado pequeno porte; os pobres, duas rolinhas ou dois pombinhos; os que estivessem debaixo da linha de pobreza, apenas um quilo da melhor farinha (Lv 5.7-13). Os sacrifícios serviam para tirar o pecado e a culpa e proporcionar o completo e perfeito perdão de Deus. As expressões “tirar pecados” e “tirar a culpa do pecado cometido” aparecem dezenas de vezes em

O PAI ESPIA, O FILHO EXPIA

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diferença entre o verbo espiar e o verbo expiar é enorme. Mas ela não aparece na pronúncia. Só aparece na escrita. Espiar com “ésse” é uma coisa, expiar com “chis” é outra. Espiar quer dizer observar, espionar, procurar descobrir com o fim de acusar, denunciar. Expiar quer dizer exatamente o contrário: remir, desculpar – tirar a culpa –, perdoar. Por ser absolutamente santo, Deus espia – observa – qualquer pecado, grande ou pequeno, cometido à luz do sol ou nas trevas da morte. Por ser absolutamente gracioso, Jesus expia – perdoa – qualquer pecado de qualquer natureza. Se Deus não espiasse os nossos escorregões e não anotasse os nossos pecados, Jesus não precisaria expiar nem uns nem outros na cruz do Calvário.

A Crucifixação, de Genua (1622)

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MATÉRIA DEDE CAPA MATÉRIA CAPA

Levítico e em Números. Esta última tem alguns sinônimos significativos: “Conseguir o perdão”, “ficar livre da culpa” ou “pagar a dívida” (Lv 4-6). O GRANDE DIA DO PERDÃO Além dos sacrifícios comuns, havia a cerimônia anual no décimo dia do sétimo mês no calendário judaico, conhecido como o Dia da Expiação ou o Dia do Perdão, que cumpria um ritual solene e bem elaborado. Primeiro, fazia-se a purificação do altar, do sacerdote e de sua família e do povo. Em seguida, dois bodes eram trazidos Na noite do grande à presença do sacerdote. Um deles era dia da expiação, sacrificado pelos pecados do povo. o povo poderia Sobre a cabeça do outro, o sacerdote dormir em perfeita colocava as mãos, confessava todas paz, sem encharcar as culpas de todo mundo e as transferia para o bode vivo, despachando-o o travesseiro depois para bem longe, onde não de lágrimas, morava ninguém, e ali o abandonava absolutamente juntamente com a imundícia que ele convicto da carregava (Lv 16.5-10). O processo remoção do representava a transferência da culpa do povo de Israel, a remoção completa pecado e da culpa de tudo que feria a santidade de Deus e a promulgação do completo e perfeito perdão divino. Na noite daquele dia, o povo poderia dormir em perfeita paz, sem encharcar o travesseiro de lágrimas (como aconteceu com Davi antes de ser perdoado), absolutamente convicto da remoção do pecado e da culpa (Sl 6.6). SANGUE DE CRISTO E NÃO DE BODES Porém, os sacrifícios diários e o sacrifício anual eram meramente simbólicos e apontavam para um sacrifício futuro e definitivo, único e suficiente, perfeito e divino. A Epístola aos Hebreus explica:

O sangue de touros e de bodes não pode, de modo nenhum, tirar os pecados de ninguém. Por isso Cristo, ao entrar no mundo, disse: Tu, ó Deus, não queres animais oferecidos em sacrifícios nem ofertas de cereais [...] Depois ele disse: “Estou aqui, ó Deus, para fazer a tua vontade”. Assim Deus acabou com todos os antigos sacrifícios e pôs no lugar deles o sacrifício de Cristo. E, porque Jesus Cristo fez o que Deus quis, nós somos purificados do pecado pela oferta que ele fez, uma vez por todas, do seu próprio corpo (Hb 10.4-10).

O sacrifício de Jesus, feito na cruz na SextaFeira da Paixão por volta do ano 30 depois de Cristo, foi anunciado com setecentos anos de antecedência. No tempo certo, Jesus tomou sobre si as nossas culpas e, por este motivo, foi contado com os transgressores e condenado em nosso lugar. Foi também preso, torturado, condenado à morte. Mas levou para o deserto todo o nosso pecado e toda a nossa culpa (Is 53). POR CAUSA DA CRUZ Só por causa da cruz, o pecador arrependido e contrito que crê em Cristo como único perdoador, pode declarar sem qualquer dúvida: Os meus pecados estão perdoados a minha dívida está paga a lista de minhas faltas está queimada a ordem de minha prisão está cancelada Jesus remove e prega tudo na cruz. E ponto final! MAIS NA INTERNET Perdão e purificação goo.gl/vwyozo

É NECESSÁRIO SUBIR TODOS OS DEGRAUS

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a verdade, o Espírito Santo não convence o pecador apenas do pecado, da justiça e do juízo. Convence-o também do perdão. Para obter o perdão, o pecador precisa ter certeza de que é pecador, ter certeza da justiça de Deus, ter certeza do juízo divino e ter certeza do sacrifício vicário de Jesus. Se ele sobe todos os degraus da salvação, ele é convencido tanto das primeiras coisas como da última. Então, o pecador poderá assinar embaixo da declaração de Paulo: “Portanto, agora já não há nenhuma condenação para aqueles que pertencem a Cristo Jesus” (Rm 8.1). Na paráfrase de Peterson, essa palavra paulina seria mais poética:

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“Com a chegada de Cristo, o Messias, o dilema fatal foi resolvido. Os que estão em Cristo não precisam mais viver numa nuvem escura e depressiva. Um novo poder está atuando. O Espírito de vida em Cristo, como um vento forte, limpou totalmente o ar, libertando vocês de uma tirania brutal nas mãos do pecado e da morte”. MAIS NA INTERNET O homem que não entendia nada de perdão goo.gl/fKmraa


Pecado repetido, Perdão repetido

PECADO SEM PERDÃO

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costumados a orar ou a cantar o Pai Nosso, cristãos do mundo inteiro repetem milhares de vezes: “Pai nosso que estás no céu, perdoa as nossas dívidas” (Mt 6.12). Mas, se a oração for apenas uma mera repetição, um gesto mecânico, ela não vai ajudar em nada. Outro dia, em entrevista a um dos nossos maiores jornais, um conhecido empresário usou várias vezes a expressão “janela de oportunidade”. Em uma delas, ele declarou: “Temos uma janela de oportunidade para enfrentar um problema estrutural muito grave”. Pois bem, consideremos o pedido de perdão a nossa janela de oportunidade para enfrentar o problema da culpa. O pecado que não pode ser perdoado é obviamente o pecado de não valorizar o perdão de Deus ou a insensatez de não se apropriar dele. Que Deus perdoe também esse pecado!

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eus não perdoa o pecado tal só uma vez. Ele perdoa o pecado tal quantas vezes ele for cometido. Pecado repetido reclama perdão repetido. Ao mesmo tempo, se cometermos o pecado tal uma única vez e honestamente não nos arrependermos dele, não haverá perdão para nós. Mas se cometermos o pecado tal sete vezes, setenta vezes, setenta vezes sete, ou mais vezes ainda, caso nos arrependamos honestamente dele sete vezes, setenta vezes, setenta vezes sete ou mais vezes ainda, seremos tão perdoados como o fomos na primeira vez! Quem diz isso é o próprio Jesus, quando nos ordena agir assim quando alguém pecar contra nós: “Se [seu irmão] pecar contra você sete vezes num dia e cada vez vier e disser: ‘Me arrependo’, então perdoe” (Lc 17.4). É preciso ser honesto e humilde para admitir que cometemos o mesmo pecado diversas vezes, principalmente os pecados relacionados com a nossa própria fragilidade, que varia de pessoa a pessoa. Se usarmos o perdão repetido para cometer o pecado repetido, as coisas complicam demasiadamente e não haverá perdão de forma alguma. A não ser que confessemos não só o pecado repetido, mas principalmente o evidente cinismo. Deus não tolera o cinismo! Se não houvesse perdão repetido para o pecado repetido, todos estaríamos perdidos. O pecado repetido é uma tremenda realidade, enquanto o crente não aprende ou não consegue negar-se a si mesmo (Lc 9.23) e esmurrar o seu corpo e fazer dele o seu escravo (1Co 9.27). O alvo maior é não pecar mais uma vez, depois do último perdão, mas “se alguém pecar, temos Jesus Cristo [e] é por meio do próprio Jesus que os nossos pecados são perdoados” (1Jo 2.1-2)! A confissão de pecados da boca para fora e o abuso do perdão são crimes contra Deus.

A GENEALOGIA DO PERDÃO

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perdão é filho da confissão de pecado, a confissão de pecado é filha do arrependimento, o arrependimento é filho da consciência pesada e a consciência pesada é filha da ação do Espírito que convence o pecador do pecado – o que é errado –, da justiça – o que é certo – e do juízo – o salário do pecado. Em outras palavras, a consciência pesada, o arrependimento e a confissão de pecados dão ensejo ao perdão ou redundam em perdão. Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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assunto “expiação” é longo e complexo tanto no sentido linguístico quanto na sua compreensão teológica. É complexo no sentido linguístico porque a palavra “expiação” não traduz uma só palavra. Ela é derivada do latim (de “ex”– a remoção de; e “piare”–aplacar ou apaziguar), traduz duas palavras em hebraico (kata’ach para “transgressão” em Nm 8.7 e kipur para “apaziguar” em Dt 32.43) e está por trás de pelo menos três palavras em grego (lutron para “resgate”, katharismos para “purificação” e teleiosis para “perfeição”). O tema expiação é mais complicado ainda na sua expressão teológica. Uma rápida busca pela Wikipédia revela a existência de dois tipos de expiação: A expiação limitada, que é advogada por escolásticos e reformados, e a expiação ilimitada, que é defendida por católicos romanos, ortodoxos e arminianos. E há pelo menos oito teorias diferentes sobre a expiação, a saber: Christus Victor, governamental, da influência moral, da substituição penal, do resgate, da recapitulação, da satisfação e a da substituição. E isto só para introduzirmos o assunto. Devo dizer que a controvérsia surge, a partir de dois motivos, primeiramente as Escrituras não se preocupam em entrar nos pormenores das diversas teorias, e o outro assunto que é de suma importância, pois trata do restabelecimento da nossa comunhão com Deus. A Bíblia usa diversos termos para falar disso: A justificação, a salvação, a reconciliação, a nova criação, a libertação e a cura para mencionar apenas alguns dos mais conhecidos. Ou seja, a “expiação dos nossos pecados” não é a única maneira da Bíblia falar sobre o significado da morte e ressurreição de Cristo a fim de colocar o crente em bom estado diante de Deus. E convém que a gente não se limite a esta única maneira, por mais importante que seja. Também vale a pena dizer logo no início que, quando a Bíblia trata do assunto expiação, ela não nos dá uma teoria abstrata. Ao invés disso, descreve eventos. Inclusive, quando Jesus trata do significado da sua morte, ele também não nos apresenta uma teoria. Ele estabelece uma refeição. Devemos refletir seriamente neste dado. Finalmente, é do interesse da igreja cristã refletir sobre o significado especificamente cristão da expiação. Digo isto porque seria fácil mantermos o nosso enfoque apenas na origem da expiação no Antigo Testamento e simplesmente dizer que Cristo cumpriu aquilo sem antes levar em consideração: 1) a interpretação dos autores do Novo Testamento sobre o significado da morte e ressurreição de Cristo para o perdão dos nossos pecados e 2) sem refletir sobre o desenvolvimento, ao longo do Antigo Testamento, do sistema e conceito dos sacrifícios em geral, no qual o ato de expiação se baseia. Este será então o esboço desta reflexão: Primeiro, a perspectiva que o Novo Testamento dá à expiação e depois, as raízes desta perspectiva no desenvolvimento do sistema de sacrifícios no Antigo Testamento. Este discurso nos dará uma base um pouco mais sólida para fazer algumas observações para hoje sobre a teologia ou a doutrina da expiação.

De um jeito ou de outro, a restauração da nossa comunhão com Deus é assunto de todos os autores do Novo Testamento e um tratamento mais “completo” do assunto ocupará literalmente volumes de livros. Neste espaço limitado queremos considerar apenas duas perspectivas: A perspectiva daquele que é o meio da expiação, Jesus Cristo, e a perspectiva de quem mais elaborou o assunto teologicamente: o apóstolo Paulo. O SIGNIFICADO QUE JESUS DEU À SUA MORTE E RESSURREIÇÃO Certamente esse é o lugar onde devemos começar a nossa conversa. Como Jesus apresentava para os seus discípulos o significado da sua morte e ressurreição. Lógico que recebemos a sua orientação por meio dos evangelistas e a coerência entre essas perspectivas atestam a fidelidade da transmissão da sua apresentação. Penso especialmente em duas ocasiões: Primeiro, o estabelecimento da Ceia do Senhor, a refeição pascal, na véspera da sua morte, e segundo, a afirmação da necessidade do seu sofrimento. Vejamos: É notável que Jesus não tenha feito uma palestra e nem exposto de maneira abstrata o significado da sua morte e ressurreição. Ao invés disso, ele estabeleceu uma refeição que era justamente com a celebração da Páscoa (Mt 26.17-30; Mc 14.12-26; Lc 22.7-23; Jo 13.120; 1Co 11.17-34). Ao fazer isso, Jesus fazia duas referências: Uma, à libertação do povo de Deus lembrada na Ceia pascal, e a outra, ao propósito da vinda do “Filho do Homem”. A primeira referência é facilmente reparada nos estudos sobre a última Ceia. Ao associar o pão e o vinho com o seu corpo e sangue, Jesus explicitamente interpreta o propósito da sua morte e


Homem de Daniel 7 com o Servo Sofredor de Isaías 53, cujo propósito era de efetuar um resgate, a linguagem do êxodo lembrada também na celebração da Páscoa judaica. Desta forma, Jesus aponta para si mesmo como a esperada figura nas Escrituras que realizará a salvação definitiva do povo de Deus por meio do sofrimento e no lugar deles (“resgate por muitos”, veja também 1Pe 1.18-19). Assim, já temos o significado dado por Jesus da “expiação”, isto é, o livramento das nossas transgressões. Não que isto esgote o que Jesus disse a respeito do significado da sua morte e ressurreição. E o maior teólogo da igreja primitiva? Como ele interpretava a morte e ressurreição de Jesus? Paulo elabora de diversas maneiras o significado disto, falando da justificação, da reconciliação, da redenção, da salvação, da conversão, do perdão, da libertação, da regeneração e do revestimento de uma nova pessoa, mencionando apenas algumas das expressões. Vamos focar em uma só dessas expressões de Paulo de como a morte de Jesus efetuou a nossa salvação e nos colocou de novo no propósito dado para Abraão, do povo de Deus ser uma bênção para todas as famílias da terra (Gn 12.1-3). O SIGNIFICADO QUE PAULO DEU À MORTE E RESSURREIÇÃO DE JESUS

TIMÓTEO CARRIKER ressurreição, associando-as à maior obra de Deus lembrada pelos judeus a seu favor: A libertação da escravidão no Egito e o livramento da morte como castigo de Deus dado a faraó e, por consequência, ao povo egípcio. Assim, Jesus estava anunciando efetivamente que o livramento do povo de Deus estava prestes a acontecer na sua morte. Mas há mais, afinal de contas, o povo de Deus havia experimentado livramento diversas vezes ao longo da sua história: dos egípcios, dos babilônios e dos sírios. O livramento dado por Jesus será mais um entre outros que ocorreram e quem sabe, ainda acontecerão? Nesse sentido é importante observar que ao associar a sua morte com a Páscoa do êxodo, Jesus colocou o significado desse evento dentro do contexto da esperada vinda do “Filho do Homem” (Mt 26.2, 24; Mc 13.24-27; 14.21; Lc 21.36; 22.22) e assim, deu um significado definitivo. A expressão, “Filho do Homem” pode se referir a uma figura humana, por exemplo, um profeta ungido por Deus, como no caso do profeta Ezequiel (veja também Dn 8.17). Ou por se referir a uma figura sobrenatural, como a figura divina que fica ao lado do “Ancião de Dias” (Deus), cujo domínio abrange nada menos que o mundo inteiro (Dn 7.13-14). Quando Jesus falava de si como o “Filho do Homem”, entretanto, ele estava fazendo referência à figura de Daniel 7, o qual fica ao lado de Deus e tem domínio sobre tudo (veja especialmente Mt 9.6; 13.41; 16.27-28; 19.28; 24.2730; 25.31; 26.64 e os paralelos nos outros evangelhos). Mas Jesus acrescenta uma informação nova e muito importante a respeito desse Filho do Homem que não faz parte da descrição em Daniel 7: Esse Filho do Homem teria de sofrer (Mt 12.40; 17.12, 22; 20.18,28; 26.2 e paralelos). Por exemplo: “Tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.28). Assim, Jesus associa o Filho do

Paulo descreve a morte de Jesus em termos de expiação mais explicitamente nas seguintes passagens: Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou [...] Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões [...] Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus. (2 Co 5.14-15, 19, 21, ARA) [...] Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus. (Rm 3.23-26) Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida; e não apenas isto, mas também Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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MATÉRIA DE CAPA

nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação. (Rm 5.6-11) Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado [...] (Rm 8.1-3) Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro”), para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido. (Gl 3.13-14)

Já foram escritos volumes e comentários de teologia apenas sobre estas passagens e aqui podemos oferecer somente algumas observações iniciais. Repare, por exemplo, a linguagem de expiação nestas passagens: A ideia de um sacrifício realizado por uma vítima inocente no lugar de outras pessoas não inocentes. Isto é afirmado em todas as passagens acima: Cristo morreu no nosso lugar e assim pagou a pena das nossas transgressões de tal modo que os que põem a sua confiança em Cristo – creem – são agora inocentados – justificados ou reconciliados – diante de Deus. Em Gálatas, isto ocorre da seguinte maneira: • Primeiro, pela sua morte na cruz, Jesus é pronunciado maldito pela lei judaica que estipula que os defuntos deverão ser enterrados e não deixados ao ar livre “pendurado em madeiro” para apodrecer – citando as leis de pureza e impureza em Deuteronômio 21.23. Assim, a condição de “maldito” é a condição de um impuro, a qual, na compreensão do judeu, é a condição dos gentios porque não obedecem a lei judaica. Por isso, falando para a sua audiência predominantemente não judia, Paulo pode dizer que Cristo se fez maldição “em nosso lugar”, como todos que não obedecem a lei, o que inclui também os judeus, porque Paulo logo antes havia afirmado que esta condição de maldição cabe a qualquer um que não obedece toda a lei. • Segundo, Paulo era o ex-fariseu que, entre outras características, cria na ressurreição dos mortos como evidência da vindicação – inocência ou “justificação”, nós podemos entender isto melhor se lermos “justiça-ficação” – por Deus. O raciocínio funciona assim: O mesmo autor da lei, que condenou Jesus como maldito, ressuscitou Jesus e assim reverteu a maldição anterior em bênção, a condenação em aprovação. E lembrem-se que a condição anterior de maldito colocou Jesus na posição de um gentio impuro, ou melhor, de qualquer ser humano, gentio ou judeu, que não consiga seguir, à risca, a sua lei. Ao inocentar, vindicar e justificar Jesus pela sua ressurreição, 30

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Deus está vindicando ou justificando as pessoas que se identificam com ele – “em nosso lugar” –, e isso ocorre “pela fé”, quer gentio quer judeu, sem o pré-requisito da lei. Por isso, Paulo conclui que Cristo, antes-morto-masagora-ressurreto nos resgata da maldição da lei e assim a bênção de Abraão – de abençoar todas as famílias da terra – (Gn 12.1-3) chega aos gentios. CONCLUSÃO O Novo Testamento fala muito mais sobre o significado da morte e ressurreição de Jesus. Aliás, está em todas as páginas do Novo Testamento sendo o assunto principal e o mais importante de todos. Por isso mesmo, é tão difícil resumir. Mas arriscamos fazer algumas observações finais. Primeiro, a fé cristã baseia-se fundamentalmente em um dado histórico, a ressurreição de Jesus (1Co 15.1-19). Sem este dado, é apenas uma entre muitas outras religiões. Segundo, este acontecimento testemunhado por muitos teve efeito muito além da pessoa de Jesus. Pois a maneira que ele morreu e as características da sua vida e ministério apontavam para ele como a encruzilhada e cumprimento das promessas de Deus feitas a partir de Abraão: de abençoar um povo para ele e por meio deste povo abençoar mais povos ainda. Terceiro, geralmente os estudos sobre a expiação começam com uma exposição da ideia do Dia de Expiação elaborado em Levítico 16. Seria importante fazê-lo especialmente para uma exposição de Hebreus 9 e 10, mas não é o referencial mais importante na perspectiva de Jesus e de Paulo, embora seja pressuposto por ambos. E finalmente, algo essencial que precisamos acrescentar aqui: A apropriação da expiação, a eficácia da substituição da morte de Jesus pelas nossas transgressões e para a nossa transformação posterior em povo de Deus é efetuada pela vinda e habitação plena do Espírito Santo nas nossas vidas, o qual possibilita transformação de fato. Assim, Deus se revela tanto como um Deus justo que estabelece um meio correto – a lei – de nos relacionarmos com ele e disciplina-nos quando não obedecemos, quanto como um Deus misericordioso e perdoador que paga, ele próprio na pessoa do seu Filho, a pena que de outra sorte merecemos. Como disse o Apóstolo Paulo: Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! (Rm 11.33-36) Timóteo Carriker é missiólogo norte-americano naturalizado brasileiro e vive no Brasil desde 1978. É professor de teologia e missões e autor de, entre outros, Trabalho, Descanso e Dinheiro e A Visão Missionária na Bíblia. Acompanhe seu blog pessoal: ultimato.com.br/sites/timcarriker.


O CAMINHO DO CORAÇÃO

Movimento Lausanne

RICARDO BARBOSA

Encontro de Líderes Jovens de Lausanne (Jacarta, Indonésia, 2016) é um movimento de apoio à nova geração de líderes cristãos

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uas pesquisas feitas há pouco tempo, uma nos Estados Unidos e a outra no Canadá, mostram que entre 60 a 70% dos jovens que cresceram na igreja se afastam da fé e da instituição religiosa no início da fase adulta, e metade deles não reconhecem a tradição religiosa em que foram criados, considerando-se ateus ou agnósticos. As razões para o abandono da fé e da igreja são várias e, de certa forma, complexas. Muitos jovens entrevistados admitiram que, em algum momento, começam a questionar o significado da fé e da Igreja. Isso deve nos levar a refletir sobre a credibilidade da fé cristã. Estudiosos definem a secularização como o processo por meio do qual as instituições religiosas, bem como o pensamento religioso perdem sua relevância social. Porém, antes de perder a relevância social, perde-se a relevância pessoal da fé. A pergunta que devemos nos fazer é: “Quão pessoal é nossa fé?”. Se os cristãos conseguirem reconquistar o valor pessoal da fé, decerto reconquistarão sua credibilidade. Não basta termos instituições sofisticadas, dinâmicas e funcionais, precisamos de mais que isso. Precisamos de uma fé viva, de corações aquecidos pela verdade do evangelho, da alegria de Cristo que se expressa na serenidade e segurança de um relacionamento pessoal e profundo com Deus. Precisamos também da transcendência que nos leva a olhar para além do nosso mundo reduzido e limitado. Diante do desafio de transmitir a fé para novas gerações, precisamos

O DESAFIO DA TRANSMISSÃO DA FÉ

considerar com seriedade três dimensões que demonstram a natureza pessoal de nossa fé em Cristo. A primeira é a necessidade de sermos intelectualmente íntegros. Os cristãos têm o compromisso de argumentar e falar em favor da verdade. Muitos jovens abandonam a fé porque encontram respostas evasivas aos grandes questionamentos, o que os leva a uma crise de confiança. O compromisso com a integridade intelectual exige de nós uma mente cristã e a disposição de pensar, de forma honesta, com nossos jovens, sobre qualquer assunto que envolva sua fé em Cristo. A segunda é a necessidade de sermos moralmente íntegros. A fé cristã requer de nós uma coragem moral como expressão do caráter transformado que experimentamos em Cristo. Os escândalos envolvendo líderes cristãos, o moralismo de uns e o silêncio de outros nos grandes temas éticos e morais, têm provocado nas novas gerações um enorme descrédito em relação ao significado da fé. A terceira é a necessidade de sermos espiritualmente íntegros. A fé cristã é um chamado para nos relacionarmos com a Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo. O convite de Jesus para segui-lo envolve estar com ele e não somente aprender com ele. Não podemos viver constantemente agitados e inquietos, uma vez que a justificação é um presente da graça de Deus a nós. Muitos jovens abandonam a fé porque se cansam do pragmatismo agitado, que não os inspira a uma vida de devoção. A prática da oração e da meditação

e expressiva na vida daqueles que amam a Deus de todo o coração e alma. A fé no Deus vivo da Bíblia, no Deus de nossos pais, só pode ser abraçada num relacionamento pessoal e íntegro com ele. A transmissão da fé se dá de coração para A fé no Deus coração. É lamen- vivo da Bíblia, tável que muitos no Deus de jovens estejam abannossos pais, donando a fé por causa da hipocrisia só pode ser de seus líderes, da abraçada num s u p e r f i c i a l i d a d e relacionamento consumista de seus pessoal e pais, do pragmaíntegro com ele tismo tecnológico de suas igrejas, da ausência de respostas honestas a seus dilemas e dúvidas. O sábio diz que “não havendo profecia, o povo se corrompe” (Pv 29.18). Sem uma visão clara de quem somos e para onde desejamos ir, sem a consciência de que somos um povo peregrino em terra estranha, caminhando em direção à terra que Deus nos prometeu, seremos facilmente absorvidos pela cultura que nega seu passado e não tem proposta alguma para o futuro. Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja

Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de, entre outros, A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja e Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas. MAIS NA INTERNET Leia e imprima o estudo bíblico baseado neste artigo goo.gl/e3u3DM Quatro razões por que jovens cristãos abandonam a igreja goo.gl/lwfNjb Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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CASAMENTO E FAMÍLIA

CARLOS “CATITO” E DAGMAR GRZYBOWSKI

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Dia das Crianças está se aproximando. Naturalmente é mais uma data artificial criada pela sociedade do consumo a fim de fazer a economia girar. Infelizmente em muitas famílias a supervalorização do dar dilui a consciência do estar com. Uma reflexão importante sobre isso pode ser apreciada no curta metragem Criança, a alma do negócio, disponível na internet no canal Youtube. Por que os pais precisam sacrificar recursos As crianças de que muitas vezes nem precisam de dispõem – parcelando compras em muitas prescontextos tações – para satisfazer relacionais que os desejos (quase sempre lhes assegurem transitórios) dos filhos? sentido de Imagino a pronta ressegurança, posta de alguns leitores: pertencimento “Para ver a alegria no rosto da criança!”. e amor Com facilidade, caímos incondicional na equação: crianças com seus desejos de consumo satisfeitos são crianças felizes. Será? Vejo alguns problemas nesta equação. Em primeiro lugar, há o problema da medida da satisfação. O desejo humano é simplesmente insaciável e o nível que demarca a medida final é “um pouco mais”. Assim, quanto mais os pais se esforçam para atender às demandas consumistas infantis, mais demandas surgirão. Em segundo lugar, se a equação fosse verdadeira, teríamos ao redor do mundo um exército de crianças deprimidas, cujos pais vivem em condições de 32

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pobreza absoluta ou miserabilidade e jamais podem contemplar desejos de consumo criados pela mídia. Por último, é imprescindível distinguir entre o conceito de felicidade e o de euforia. Crianças ficam eufóricas quando os desejos que foram implantados em suas cabecinhas pela mídia são satisfeitos, mas tal euforia se esvai em um tempo relativamente curto e então é necessária outra dose midiática para ativar um novo desejo, num espiral crescente infinito. Isso nada tem a ver com felicidade, que é um estado de relaxamento e contentamento mais perene, que depende de outros fatores. Se a euforia é resultado da satisfação do desejo consumista, o que é de fato a felicidade e como ela pode ser alcançada? Em nosso entendimento a felicidade é resultado do estar com, ou seja, tem um caráter essencialmente relacional. As crianças precisam de contextos relacionais (em geral a família) que lhes assegurem sentido de segurança, pertencimento e amor incondicional. Os filhos precisam que seus pais estejam presentes em seu universo: brinquem com eles entrando em seu mundo fantasioso; ouçam suas “bobagens”; conversem sobre coisas que são importantes para os filhos. É comum recebermos para aconselhamento pais que se preocupam com o desempenho escolar dos filhos, seu comportamento na escola ou na casa de amigos e suas atividades extraclasse – que os tornarão competitivos no mercado de

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O PRESENTE DO DIA DAS CRIANÇAS

trabalho –, porém muitas vezes nem sequer sabem os nomes dos amigos dos filhos. Dão-lhes brinquedos eletrônicos para não terem de “se incomodar”, pois o eletrônico absorve toda a atenção da criança, que assim “dá um descanso para os pais”. E se os filhos requerem mais atenção os pais queixam que ter filhos é muito trabalhoso. Sim, ter filhos dá trabalho! Mas é um privilégio singular. Sentar-se de forma relaxada com eles e realizar atividades que eles apreciam; ter conversas inteligentes com adolescentes preocupados com as “nascentes espinhas”; inventar coisas para se divertirem juntos – como transformar caixas de papelão e pedaços de ripas num barco de piratas ou montar um carrinho de rolimã – são oportunidades ímpares de convivência com os filhos. Felicidade é poder ver o filho – criança ou adolescente – aninhar-se no seu colo e dizer relaxadamente: “Que dia legal tivemos hoje, não?!”. Deixamos com você a pergunta: “Que presente você dará a seu filho no próximo Dia das Crianças?”. Carlos “Catito” e Dagmar são casados,

ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. São autores de Pais Santos, Filhos Nem Tanto. Acompanhe o blog: ultimato.com. br/sites/casamentoefamilia.

MAIS NA INTERNET Documentário “Criança: a alma do negócio” goo.gl/6J6Vyh


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REDESCOBRINDO A PALAVRA DE DEUS

“#É A GRAÇA, ESTÚPIDO!”

H

á uma famosa expressão usada por Bill Clinton em sua campanha pela presidência dos Estados Unidos nos anos 90: “It’s the economy, stupid!” (É a economia, estúpido!). Usada num momento de recessão, a expressão foi um sucesso. Aqui, eu me permito parafrasear para dizer “#É a graça, estúpido!”. A graça está no cerne da nossa fé e sem ela acabamos com uma religião meritória. A graça é igualmente central em nossa vida. Sem ela somos acantonados em nossos becos Sem a graça sem saída e fadados somos a nossos gritos sem resposta. Deus fala acantonados sério quando diz em nossos a Paulo: “A minha becos sem graça é suficiente para saída e fadados você”; e Paulo aceita a nossos gritos e integra isso a sua vida e ministério. Ele sem resposta aprende a reconhecer a sua fragilidade e suas fraquezas e a admitir que é nelas que Deus age e se manifesta como o Deus da graça (2Co 12.9). A graça de Deus é tão central e tão preciosa que nos custa uma vida para aceitá-la, pois estamos sempre querendo negociar com Deus. Vivemos tentando descaracterizá-la para poder manipulá-la. Bonhoeffer diz que a graça de Deus é preciosa 34

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e nós somos sempre tentados a transformá-la em graça barata. Em seu livro sobre o discipulado, ele diz que a graça é preciosa por ter custado a Deus o seu próprio Filho. E ela nos custa a vida enquanto Deus nos dá, por meio dela, a única verdadeira vida. Ela é graça barata quando é exposta no mercado como um mero produto, quando é anunciada como perdão sem arrependimento, comunhão sem confissão, quando se anuncia graça sem discipulado, sem cruz e sem Jesus Cristo. Para reencontrar-nos com a beleza dessa graça preciosa e manter-nos alertas contra a tentação de com ela brincar, voltamos ao relato da “menina sem nome” (2Reis 5), que tem sido o foco desta coluna nas últimas edições.

Há esperança na tragédia! A Menina Sem Nome era escrava. Vítima de uma guerra na qual o exército sírio invadiu o seu povo e a levou cativa, ela foi parar no palácio do comandante do exército conquistador. Porém, quando ele é acometido de uma avassaladora lepra, a menina se torna mensageira de uma esperança inusitada: “Se o meu senhor procurasse o profeta que está em Samaria, ele o curaria da lepra” (v. 3). De forma surpreendente, a sugestão é aceita e o comandante

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Naamã vai em busca do tal profeta. E desse encontro sai curado da lepra e anunciando a sua conversão: “Agora sei que não há Deus em nenhum outro lugar, senão em Israel. Por favor, aceita um presente do teu servo” (v. 15). Uma experiência única e indescritível. Um misterioso milagre que só Deus é capaz de fazer. Um milagre no qual uma menina escrava e um conhecido profeta são instrumentos de Deus para que um leproso encontre cura e o poderoso comandante inimigo encontre um Deus em quem pode confiar, a quem pode se entregar e a quem passa a adorar. E tudo isso acontece por pura graça. Por isso, diante da insistência de Naamã em pagar pelo milagre ou, pelo menos, presentear o profeta como sinal de gratidão, este permanece firme: “Juro pelo nome do Senhor, a quem sirvo, que nada aceitarei”. Embora Naamã insistisse, ele recusou (v. 16). Naamã volta para casa trazendo consigo todos os presentes que havia levado. Entretanto, volta com mais que isso: sua lepra está curada e sua pele, renovada. E mais: encontrou-se com o Deus verdadeiro, experimentou a sua graça e descobriu que nada precisaria dar em troca. Ele é o Deus da graça e esta basta, como Paulo descobriria tempos depois.


Nem todos, porém, ficaram satisfeitos com esta história. “Meu Senhor foi bom demais para Naamã” (v. 20). Enquanto Naamã, curado e transformado, está a caminho de casa, uma semente vai germinando no coração de Geazi, o servo do profeta. Ele havia testemunhado tudo, estupefato. Um leproso ser curado era coisa de outro mundo. Coisa de Deus intermediada por um homem de Deus. No entanto, o que ele não consegue entender nem aceitar é que o profeta despeça esse ricaço com um simples “vá em paz”. Ali há ouro, prata e roupa de marca; e tudo vai embora assim como veio, e eles continuarão comendo pão velho e usando roupa barata? Geazi vislumbra uma mesa mais farta, um guarda-roupa mais decente... E, logo depois, sai correndo atrás de Naamã com o “recado”: “O meu senhor enviou-me para dizer que dois jovens, discípulos dos profetas,

acabaram de chegar, vindos dos montes de Efraim. Por favor, dê-lhes 35 quilos de prata e duas mudas de roupas finas” (v. 22). É tudo invenção, mas a coisa funciona. Ele recebe mais do que pediu e, ao voltar para casa, esconde tudo e vai se encontrar com o profeta como se nada tivesse acontecido. Todavia, o que ele não desconfia é que o profeta tem os olhos de Deus e traz à luz o que Geazi pensava poder esconder: “Você acha que eu não estava com você em espírito quando o homem desceu da carruagem para encontrar-se com você? Este não era o momento de aceitar prata nem roupas, nem de cobiçar olivais, vinhas, ovelhas, bois, servos e servas. Por isso, a lepra de Naamã atingirá você e os seus descendentes para sempre”. Então Geazi saiu da presença de Eliseu já leproso, parecendo neve (v. 26-27). Que fim assustador! O relato começa com uma menina escrava que está em sintonia com o coração

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de Deus e termina com um servo de profeta que não entende a graça de Deus, pensa que a pode desviar para benefício próprio e acaba tendo o próprio corpo tomado pela doença da qual o estrangeiro Naamã se livrou pela graça. O ouro, a prata e a roupa cara que escondeu permanecerão como testemunhas de sua lógica egoísta, mentirosa e fatal. Agora, o leproso é ele. Pobre Geazi! Tão mais rico e tão mais pobre! “#É a graça, estúpido!” Com Deus não se negocia e a Deus não se engana. E não é apenas Geazi que precisa ouvir isso. Valdir Steuernagel é pastor na Comunidade do Redentor, em Curitiba, PR. Faz parte da Aliança Cristã Evangélica do Brasil, da Aliança Cristã Evangélica Mundial e da Visão Mundial. MAIS NA INTERNET Leia e imprima o estudo bíblico baseado neste artigo goo.gl/e3u3DM Outros artigos desta série de “Redescobrindo a Palavra de Deus” goo.gl/JOIyUi

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MEIO AMBIENTE E FÉ CRISTÃ

UM RIO DE DESESPERANÇA

N

ove meses após a tragédia do rio Doce, a lama, agora diluída, continua fluindo por suas águas enquanto a incerteza e a desconfiança marcam presença entre a população. Dezenas de estudos foram feitos, milhares de amostras de água, peixes e outros animais analisados, mas não há certeza entre a população de que se possa consumir a água ou se alimentar do pescado com Ao longo segurança. A pesca no mar continua das margens proibida devido do rio Doce, aos altos níveis de pescadores, contaminantes na agricultores e carne dos camafamílias estão rões, mas, contraditoriamente, no com o futuro rio que seria a fonte comprometido da contaminação por falta de está permitida. As perspectiva informações técnicas sobre diversas análises feitas pela Universidade Federal do Espírito Santo sobre o efeito negativo da lama no mar podem ser obtidas no site www.redeufes-riodoce.ufes.br. As informações oficiais fornecidas pela empresa e órgãos de fiscalização sobre as ações de reparação já realizadas podem ser obtidas no site www.governancapelodoce.com.br. Porém, muitas páginas do site estão vazias. As instituições que deveriam ser a salvaguarda dos direitos da população 38

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Leonardo Merçon

MARCELO RENAN D. SANTOS

Moradora de uma das cidades às margens do rio Doce

afetada uniram-se ao estado em um grande acordo no qual a Samarco criou uma fundação que ela mesma vai gerir para realizar os projetos para a recuperação do rio Doce. Foram prometidos 20 bilhões de reais para serem gastos em vinte anos. Tudo resolvido nos gabinetes em Brasília, sem a participação dos principais interessados, que são as populações diretamente afetadas. O Instituto Últimos Refúgios, com apoio de outras ONGs e com recursos próprios documentou a situação dos habitantes das margens do rio Doce em novembro de 2015 e em julho de 2016. Os vídeos com testemunhos e imagens podem ser vistos em www.ultimosrefugios.org.br. Esses vídeos e imagens sensibilizaram organismos internacionais e levaram a voz das pessoas que, a partir disso, passaram a ser atendidas pela empresa. Decerto, outras iniciativas surgiram de diversos setores e pessoas para assistirem às vítimas no início da tragédia. Porém, como sempre, o tempo passa e a gente se acostuma. Esquece. Apesar de diversas ações realizadas pela Samarco, para reparar e minimizar os danos, há aspectos irreparáveis na tragédia como a perda de entes queridos e da história de vida que foi soterrada. Neste momento, muitas famílias ainda estão com suas vidas afetadas ao longo das margens do rio Doce. Pescadores não podem pescar, agricultores dependem de caminhões pipa para beber e dessedentar o gado. As duas

vilas destruídas ainda esperam ser reconstruídas. Pessoas estão adoecendo por não terem outra alternativa de abastecimento de água. Pescadores, agricultores, milhares de crianças estão com o futuro comprometido por falta de perspectiva. Estão sem esperança. É hora de as igrejas evangélicas locais – e não locais – buscarem conhecer a realidade próxima a elas e buscar meios de intervir positivamente na vida dessas comunidades. A igreja de Cristo pode e deve estar presente nesse contexto levando a mensagem de esperança e também ações efetivas para ajudar essas pessoas. Alguns exemplos de ações incluem o fornecimento de filtros de água, construção de poços, amparo jurídico e apoio na mobilização das pessoas diretamente atingidas pelo desastre, ajudando-as a serem ouvidas. Não se sabe quando nem se as instituições conseguirão fazer algo naquilo que a história relegou a uma situação extrema de arcar com as consequências do descaso e mau uso da natureza criada, mas a igreja de Cristo pode e deve chegar primeiro.

Marcelo Renan D. Santos, médico veterinário e ecólogo, congrega na Igreja Batista da Praia do Canto, Vitória, ES. MAIS NA INTERNET A lama, o pecado, o amor e a esperança goo.gl/DUwb4P


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leverson Paes Pacheco, conhecido como Café, tem 31 anos, é de Curitiba, PR, e trabalha com grafite há cerca de dezesseis anos. É professor no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e voluntário em projeto social de sua igreja, The Blessing Church. Ele acredita que trabalhar com o grafite é uma forma de mostrar como Deus se revela por meio da arte. Além disso, Café encontrou nesse caminho a possibilidade de valorizar a beleza negra e combater o preconceito.

Quando e como foi a transição desse dom artístico para um ministério?

belos também e podemos estar em lugares de visibilidade.

O que aconteceu foi um entendimento do grafite como parte do ministério que Deus me deu, ou seja, entender que esse dom criativo vem dele e é para ele e usar disso para transmitir uma realidade espiritual para a vida dos observadores.

Você acha que é preciso discutir sobre racismo na igreja? Por quê?

Por que o grafite foi “a arma” que você escolheu para a batalha contra o racismo?

A população negra é retratada pelas mídias sempre de forma subalterna e inferiorizada. Então, para ajudar no processo de reconstrução da identidade da população negra, comecei a retratar homens, mulheres e crianças negras para que eles vejam como são belos, como nossa estética é bela, como nossa origem é importante. Foi o grafite que me escolheu. Desde pequeno eu gostava de ampliar desenhos de gibi; quando conheci o grafite e vi a possibilidade de criar meus desenhos, de pintar na rua em lugares maiores, isso me encantou. O grafite é minha maneira de dizer a todos que somos 40

Arquivo Pessoal

GRAFITE, ARTE E PRECONCEITO

ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

Acredito ser muito necessário. A igreja, ao longo do tempo, tem reproduzido racismo, pois vivemos numa sociedade racista. Formada por seres sociais, a igreja reproduz esse mesmo racismo, muitas vezes sem perceber. Precisamos discutir, sim, e dar voz aos tantos negros dentro de nossas igrejas. Já ouvi muitas piadas racistas dentro das igrejas e até mesmo de púlpito. A igreja precisa entender que racismo não é piada, a dor do outro não pode ser motivo de piada e termos racistas não devem ser pronunciados e reproduzidos. Na sua opinião, como a igreja percebe a arte?

Muitas vezes dentro das igrejas a arte é usada apenas de forma funcional. Por exemplo, a arte do grafite, que é considerada boa apenas quando usada para o evangelismo. Não há incentivo por parte das igrejas para que as pessoas sejam artistas, estejam nesse meio para influenciar e revelar

o Cristo por meio do fazer artístico. Precisamos que dentro das nossas igrejas surjam bons atores, cineastas, escritores de ficção, escultores e pintores, por exemplo. Como a cultura de rua pode contribuir para a expansão do evangelho?

A cultura de rua aproxima a igreja da rua. As expressões artísticas de rua de periferia comunicam e revelam o reino de Deus de maneira fácil de ser entendida para leigos na fé, servindo como forma de abrir diálogo e falar de Cristo de maneira informal. Qual a sua missão pessoal?

É trazer libertação e restauração da identidade de muitos dos meus irmãos; revelar, por meio da arte, que um Deus bom nos criou, não nos esqueceu nem errou conosco, ao contrário do que sempre ouvimos. Minha missão é levar o amor de Cristo por meio da arte a todos os cantos. MAIS NA INTERNET Galeria de obras de Cleverson, o Café ow.ly/Jaw0302XMXX


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Ana Cláudia Nunes

REPORTAGEM

O MINEIRO COM CARA DE MATUTO VISITA COMUNIDADES QUILOMBOLAS

QUILOMBOLAS CADA VEZ MENOS INVISÍVEIS Murilo, idade desconhecida, do quilombo Vila da Mezina, crente presbiteriano

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Hoje, quilombo é uma comunidade afrorrural, habitada por afrodescendentes oriundos dos antigos quilombos, que se organizaram e mantêm sua identidade. Seus moradores são conhecidos como quilombolas. Há também comunidades quilombolas urbanas, poucas em relação às rurais, porém oficialmente reconhecidas como tal. Segundo o governo, deve haver 2.849 quilombos reconhecidos no Brasil, que abrigam 214 mil famílias e 1,17 milhão de quilombolas, a maior parte abaixo da linha da extrema pobreza (74,73%). Praticamente são todos pretos ou pardos (92,1%). Um quarto deles não sabe ler (24,81%). Mas o Ministério do Desenvolvimento Social identifica um número bem maior: 3.524 comunidades. É provável que o número final possa chegar a 5 mil. Os cinco estados com maior número de quilombos em ordem decrescente são Maranhão (856), Bahia (549), Pará (417), Minas Gerais (207) e Piauí (173). Eles abrigam 62,5% das comunidades quilombolas.

autora do livro Coração Quilombola (ainda não publicado), membro fundadora da Aliança Evangélica PróQuilombolas do Brasil, pós-graduada em missiologia e pós-graduanda em africanidades e cultura africana. Um dos capítulos do seu livro é exatamente sobre o quilombo Cachoeira dos Forros, para ela um dos mais bem organizados. Até pouco tempo atrás, Jordânia era a presidente do quilombo. Afastou-se porque fora convidada a concorrer ao cargo de Davi Bastos

A

ntes de visitar a comunidade quilombola Cachoeira dos Forros, na zona rural da pequena cidade mineira de Passa Tempo (8 mil habitantes), MG, a 143 quilômetros de Belo Horizonte, o Mineiro com Cara de Matuto procurou ficar bem inteirado do significado da palavra “quilombo”. Para tanto, leu o precioso livro Quilombolas – somos todos parte dessa história, de Nila Rodrigues Barbosa e Ulisses Manoel da Silva, e com muitas fotografias de Roberto Murta (Bicho do Mato, 2014), além de passar os olhos nas 331 páginas do Dicionário da Escravidão e nas 174 páginas do Dicionário Escolar Afro-brasileiro. Historicamente, quilombo é a “comunidade formada pela fuga de negros, índios e, por vezes, até mesmo de brancos pobres, da condição de trabalho forçado”. De origem bantu, a palavra “quilombo” sempre existiu, mas com outro significado: lugar de pouso para viajantes e desenraizados, lugar de refúgio. Em 1740, a definição oficial era de uma habitação de pelo menos seis negros fugidos em algum lugar despovoado e sem moradias disponíveis. Os quilombos eram chamados também de terras de preto, comunidades negras e mocambos.

Jordânia Ao chegar ao quilombo Cachoeira dos Forros, o Mineiro procurou logo a casa de Jordânia e Paulo Mariano, por indicação de Miriam Zanutti,

Jordânia Mariano, 33 anos, do quilombo Cachoeira dos Forros, onde nasceu e vive – uma quilombola e tanto


Uma casa para cada família Duas surpresas estavam à espera do Mineiro no quilombo Cachoeira dos Forros. Uma era a quantidade de templos religiosos, considerando o pequeno tamanho da área e o pequeno número de moradores: os templos da Igreja Católica, das Testemunhas de Jeová, da Congregação Cristã no Brasil e da Assembleia de Deus. O padre que dá assistência aos quilombolas é o responsável pela Paróquia Nossa Senhora da Glória, em Passa Tempo. Ele é negro e tem boa afinidade com o pessoal do quilombo. A outra surpresa foi ver casas novas e casas em

construção. Casas não geminadas, de dois quartos, sala, banheiro e cozinha, com água encanada, energia elétrica e rede de esgoto. Dez dias antes, o Mineiro havia visitado os quilombos Buieié e Vila da Mezina e o que ele vira neste último era totalmente oposto ao que encontrou em Cachoeira dos Forros. Ana Cláudia Nunes

vereadora no município de Passa Tempo pelo Partido Trabalhista Cristão (PTC). Ela tem a idade de Cristo ao morrer, nasceu no próprio quilombo, é casada com um quilombola que faz de tudo na área de construção e tem dois filhos. A casa deles, bem construída e equipada, fica entre a casa dos pais dela e o templo da Assembleia de Deus, igreja na qual são membros. Embora tenha nascido 95 anos depois da lei que declarou extinta a escravidão no Brasil, Jordânia e vários outros quilombolas de Cachoeira dos Forros, anos atrás, passaram por situações bem próximas daquelas do período da escravidão. Na época da colheita do café, um caminhão vinha buscá-los para trabalhar em fazendas no sul de Minas, em troca de um salário miserável do qual era descontado o preço da comida, produzida e vendida pela própria fazenda. Dormiam num barracão e trabalhavam sob os olhares de um capataz. Pelo menos uma coisa boa acontecia: enquanto os mais velhos iam dormir, os mais jovens dançavam em volta de uma fogueira e alguns encontravam ali o seu futuro cônjuge, como Jordânia e Paulo. O quilombo Cachoeira dos Forros é banhado pelo rio Pará e possui aproximadamente duzentos moradores, quase todos primos entre si, distribuídos em 62 famílias. Seus bisavós e tetravós são oriundos de Serra Leoa, um dos menores países da África. Suas terras foram doadas pelo padre Antônio Rodrigues da Costa e entregues ao escravo e sacristão Severino, de sua inteira confiança, na primeira metade do século 19, de acordo com Dom Miguel Ângelo, bispo de Oliveiras, MG.

Maria Helena Mateus, 40 anos, do quilombo Buieié, onde nasceu e vive até hoje, crente assembleiana

Jordânia explica que aquelas casas fazem parte do Programa Nacional de Habitação Rural, criado pelo governo federal em 2009, com a finalidade de possibilitar, não só ao quilombola, mas a todo agricultor familiar rural, o acesso à moradia digna no campo, seja construindo uma nova casa ou concluindo, reformando e ampliando a já existente.

Iniciativas governamentais De volta a Viçosa, o Mineiro teve acesso ao Guia de Políticas Públicas Para Comunidades Quilombolas, publicado pela presidência da República, em Brasília, em 2013. Foi quando tomou conhecimento da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). Nesse documento ele encontrou todos os programas de que os quilombolas precisam: Água para Todos; Luz para Todos; Programa do Livro Didático; Programa Bolsa Família; Programa Saúde da Família; Programa Saúde Bucal; Programa Brasil Quilombola e o referido Programa Nacional de Habitação Rural.

Iniciativas particulares Providencialmente, o Mineiro teve a oportunidade de conhecer duas pessoas de Passa Tempo que chegaram ao quilombo Cachoeira dos Forros quase no mesmo momento.

Um deles é formado em relações públicas e trabalha com eventos sociais, como música na praça. Chama-se Bianc Amorim. O outro é Wilson Ribeiro, professor de educação física. Ambos colaboraram muito com Jordânia para o bem-estar dos quilombolas. Em fevereiro de 2015, Bianc promoveu o 1º Seminário Universo Quilombola em Cachoeira dos Forros, com oficinas de cerâmica, medicina natural, tranças e penteados afro e seminários sobre políticas públicas para as comunidades quilombolas do Brasil. Já o professor Wilson tem o propósito de desenvolver um projeto de atividade física para a população quilombola em benefício de sua saúde, principalmente entre os mais idosos, já que o negro é mais propício a desenvolver doenças cardiovasculares e pressão alta.

Muita água e muita luz Dois programas do governo têm nomes muito significativos: Água para Todos e Luz para Todos. A água, porém, que ele quer e deve oferecer à população rural é aquele líquido sem cheiro nem sabor, essencial à vida; e a luz é aquela luz produzida por uma lâmpada acesa. Ambas são indispensáveis, mas não suficientes. As comunidades urbanas e rurais precisam também de outra água e de outra luz. Esse tipo de água e de luz não são visíveis nem produzem coisas necessariamente visíveis, como saciedade espiritual, comunhão com Deus, quietude, paz de espírito, alegria, vontade de viver, certeza da salvação, sensação de perdão, segurança emocional e outras riquezas transcendentais. Por se apresentar como a luz do mundo e como a fonte da água viva, Jesus fornece água para todos e luz para todos, aquela água que mata a sede íntima ou sede da alma e aquela luz que ilumina o caminho em direção ao Pai.

Aliança Evangélica PróQuilombola do Brasil Em junho de 2015 realizou-se em João Pessoa, PB, uma assembleia séria que está se tornando cada vez mais histórica. Líderes de várias agências e projetos missionários reuniram-se para listar o panorama geral dos segmentos menos evangelizados do país. A consulta arrolou cinco grupos em ordem alfabética: Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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ciganos, indígenas, quilombolas, ribeirinhos e sertanejos. É possível que os menos conhecidos até então sejam os quilombolas. Dois anos antes, em abril de 2013, tinha acontecido no mesmo lugar a Consulta Quilombolas do Brasil, coordenada pelo missiólogo e pesquisador Ronaldo Lidório, exmissionário brasileiro em Gana, na África, e com a presença de 55 pessoas, inclusive os quilombolas José de Anchieta da Silva, um dos líderes da igreja organizada no quilombo Serra do Machado (117 casas e 600 moradores), em São José do Egito, PE,

e gestão de processos, além de coordenar a Central de Missões da Missão Juvep, é representante da Aliança. Outras três pessoas ligadas à Aliança Evangélica Pró-Quilombolas do Brasil são Sérgio Ribeiro, Ronaldo Lidório e Paulo Feniman. A história dos quilombos e dos quilombolas deu uma forte guinada em direção à luz para todos e à água para todos.

e Edvan João da Costa, pastor da Assembleia de Deus de Capoeiras, em Macaíba, RN. O maior trunfo desse Evento foi a criação da Aliança Evangélica Pró-Quilombola do Brasil, cujos objetivos são: 1) fomentar pesquisas entre os quilombos do país; 2) ampliar a mobilização da igreja brasileira em prol dos quilombolas; 3) colaborar com o treinamento missionário neste objetivo; e 4) promover a relação de comunhão entre agências, pessoas e igrejas que atuam neste segmento. O paraibano Alisson Gomes Medeiros, graduado em teologia, missiologia

MAIS NA INTERNET Leia mais textos da reportagem goo.gl/e8R1rR

O TAMANHO DA DÍVIDA QUE A SOCIEDADE BRASILEIRA TEM COM A RAÇA NEGRA A escravidão africana começou, no Brasil, em meados do século 16 e terminou três séculos depois, em 1888. Vai de 2,5 a 10 milhões o número de escravos embarcados em navios negreiros em todo o período da escravidão. Entre 38 e 39% deles eram destinados ao Brasil (quase 4 milhões). Ao desembarcar nos portos brasileiros, a esposa e os filhos iam para um lugar e o marido para outro, e, regra geral, nunca mais se encontravam. No início do século 18, o padre jesuíta Antonil dizia que para o negro era reservado um

tratamento baseado em três “p”: “pão”, “pau” e “pano” – pão para comer, pau para apanhar e pano (grosseiro) para vestir. Os escravos moravam em porões ou casas separadas (senzalas), altamente insalubres.

Em meados do século 19, os escravos homens, aos 15 anos, teriam uma expectativa de vida entre 29 e 32 anos.

escravos para aumentar o capital de seu senhor.

O escravo era uma “coisa”, e não gente; “algo”, e não “alguém” para ser comprado e vendido. Era um reprodutor de bebês

No início do século 19, 40% ou mais da população brasileira era constituída de negros e pardos.

Reprodução

OS INVISÍVEIS DE ONTEM TENDEM A PERMANECER INVISÍVEIS HOJE

Escravidão no Brasil, de Jean-Baptiste Debret, 1835

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Charge publicada na Revista Ilustrada de 20 de agosto de 1886, dois anos antes da Lei Áurea (1888)

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m março de 1816, 72 anos antes da Lei Áurea, um francês nascido em Paris chegou ao Rio de Janeiro. Era o famoso pintor Jean-Baptiste Debret, de 48 anos. Ele veio para iniciar no Brasil o ensino de artes plásticas. De volta à França, quinze anos depois, Debret publica em três volumes o seu livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, com forte conteúdo social. Por meio de algumas telas, o pintor torna visível o que era invisível, as mazelas sociais do Brasil Colônia. Uma delas mostra o espancamento de um negro com as pernas dobradas e presas ao peito e com as mãos amarradas. Outra exibe a magreza de crianças escravas, que se “alimentavam mediocremente”, como ele mesmo escreve. A maior parte da sociedade brasileira daquela época não enxergava ou não dava atenção aos horrores da escravidão. Isso explica por que o Brasil foi o último país do mundo a extinguir o trabalho escravo.

Mas os invisíveis de ontem tendem a continuar invisíveis hoje. Conforme recente relatório da Anistia Internacional, as comunidades quilombolas continuam enfrentando graves ameaças a seus direitos humanos geralmente em decorrência de litígios vinculados a terra. A juíza Catarina Volkart Pinto, de Novo Hamburgo, RS, lembra que tramita no Supremo Tribunal Federal uma ação contrária ao decreto que regulamenta todo o processo em relação às terras quilombolas. Segundo a juíza, os quilombolas “são desconhecidos inclusive perante grande parte da própria população local. Parecem ser invisíveis”, como os “ninguéns” de Eduardo Galeano: “Aqueles que não fazem arte, mas artesanato; que não têm arte, mas têm artesanato; que não têm nome, mas têm número”. Apesar de o governo estar melhorando a situação dos quilombos, há verbas prometidas que ainda não foram repassadas ao programa Brasil Quilombola.


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ENTREVISTA

A IGREJA, A MISSÃO E OS LIVROS JULIA CAMERON editoriais regionais ao redor do mundo, o que implica decisões tomadas por líderes que entendem o contexto local melhor do que eu ou outros de fora entenderíamos.

Lissânder Dias

Como vocês pensam em alcançar as igrejas locais e que iniciativas esperam desenvolver para interagir, de forma dinâmica, com elas?

J

ulia E. M. Cameron, 62 anos, é uma inglesa sorridente que ama livros. Na verdade, ela acredita que, mais do que entretenimento, a literatura pode ser usada para diminuir abismos e para ensinar e encorajar a Igreja na missão de Deus. Residente em Oxford, professou sua fé por meio do Ministério “Alguns de nossos de Billy Graham. Durante anos atuou na títulos já são International Fellowship of Evangelical Students (IFES) e na OMF International. usados para servir Julia edita livros e é autora de três, congregações entre os quais um sobre John Stott locais em diferentes para crianças e outro sobre Frances culturas” Whitehead, a fiel secretária de Stott por quase toda a vida ministerial do teólogo britânico (John Stott’s Right Hand – the untold story of Frances Whitehead). Julia começou escrevendo notas obituárias para a imprensa do Reino Unido e hoje ocupa o cargo de Diretora de Publicações do Movimento de Lausanne. Qual é o seu papel em Lausanne como diretora de publicações? E quais os planos do movimento nesta área?

Julia Cameron: Chefio a publicação de livros e atuo como editora sênior. Produzimos publicações tanto curtas como extensas e servimos a Igreja em 28 línguas. Nossos livros menores mais divulgados são de autores consagrados como John Stott, Ajith Fernando e James Philip. Para o meio acadêmico, estamos publicando livros de consultas globais, as quais reúnem algumas das mais brilhantes mentes evangélicas para trabalhar temas chaves identificados no Compromisso da Cidade do Cabo. Estamos estabelecendo um novo paradigma para as publicações Lausanne. Temos comitês 46

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Nós consideramos muito a igreja local e alguns dos nossos títulos menores já são usados para servir congregações locais em diferentes culturas, inclusive no coração dos mundos muçulmano, hindu e budista. Para mim isso é um teste decisivo do valor daquilo que produzimos. Afinal, se o nosso ministério de publicações não tiver utilidade em âmbito local, também não será útil em âmbito global. As publicações têm o poder de manter a memória dos conteúdos, resoluções, conceitos. Em português nos beneficiamos muito da publicação do Pacto de Lausanne e, mais recentemente, de O Compromisso da Cidade do Cabo. Você é uma espécie de guardiã das memórias do Movimento de Lausanne. Falta à Igreja valorizar mais sua própria história? O que perdemos com isso?

Obrigada por essa importante pergunta. Ela se relaciona com os dois aspectos de Lausanne. Vou responder em duas partes: de fato, é a palavra publicada, como você disse, que preserva o conteúdo. Eu sinto um grande senso de responsabilidade por garantir que seja assim, especialmente porque [o Movimento de] Lausanne é guardião de riquezas raras. John Stott uma vez descreveu o movimento de forma muito bonita como sendo “um compartilhar de presentes”, como se a igreja de cada continente trouxesse o seu presente para a mesa para compartilhar. Por isso é tão importante publicar materiais dos nossos encontros e nos esforçar para disponibilizá-los em diversas línguas. O segundo objetivo é preservar a história. A igreja seria muito mais pobre se não aprendesse com sua própria história ao longo dos séculos e das décadas. Por quarenta anos o Movimento de Lausanne, devido ao seu grande alcance, tem sido um instrumento catalizador de mudanças em diversas frentes. Eu acredito que líderes da América Latina diriam que o Pacto de Lausanne de 1974 mudou o entendimento da essência da missão. Estima-se que possivelmente 70% das organizações cristãs na América Latina mantenham o Pacto de Lausanne em suas bases de fé. Mais especificamente, sabemos


de duas grandes igrejas na América Latina em que a teologia da prosperidade distorcia o evangelho e cujos pastores têm mudado de percepção por terem ouvido a apresentação de Femi Adeleye sobre o tema no Terceiro Congresso de Lausanne. O Compromisso da Cidade do Cabo está aos poucos influenciando as prioridades de igrejas e agências missionárias, trazendo assim novos assuntos para as pautas de reunião. São fatos notáveis na vida da Igreja que devem ser preservados. Você acha que a Igreja tem lido satisfatoriamente? Há coisas e pessoas sobre as quais a Igreja precisa ler ou saber mais?

Eu tenho visto líderes cristãos do Sul Global mergulhando em estandes de livros em eventos da IFES e de Lausanne; com certeza há uma sede de livros em algumas culturas. Infelizmente há muitas publicações sem peso que não servem bem aos leitores. Sempre defendi que cristãos leiam boas biografias para aprender mais sobre a vida de fé e as dificuldades da fé de grandes homens e mulheres de Deus; que leiam textos doutrinários para construir uma clara definição de suas crenças; e que leiam sobre a missão mundial – seja com foco em um campo específico, seja com interesse geral. Aqueles que servem em profissões seculares talvez se beneficiariam de ajuda para adquirir uma visão bíblica sobre seu trabalho. Também sugiro que os cristãos adotem uma obra favorita para distribuírem de presente. No meu caso, adotei o belo e profundo livrinho de James Philip The Glory of the Cross – Exploring the Meaning of the Death of Christ [A glória da cruz – explorando o significado da morte de Cristo]. Carrego alguns exemplares comigo quando viajo. Você tem um olhar privilegiado da igreja global. Como a Igreja está hoje? Quais são suas expectativas? Quais são os maiores desafios que a Igreja deve enfrentar nos próximos anos?

Devo ressaltar que grande parte da minha visão passa pelos prismas de Lausanne e da IFES. Ao examinar alguns líderes mais jovens muito especiais, eu tenho esperança. Mas também sei que alguns dos líderes de igrejas mais experientes começaram bem, mas depois relaxaram, de forma que nunca devemos ser complacentes. Quanto aos maiores desafios: Controvérsias sobre gênero; a disseminação do islamismo; migrações em massa; poucas vozes cristãs no meio acadêmico que dialogam com o dia a dia do povo; menos motivação para leituras com profundidade, o que diminui a habilidade para uma defesa forte. Também fico atenta às vis perseguições que pairam sobre tantos irmãos e irmãs nossos, aqueles de quem o mundo não é digno. Seria muita inocência de nossa parte não perceber que isso vai piorar. Qual foi sua motivação principal para contar a história de Frances Whitehead?

Pieter Kwant me convidou a escrevê-la. Após

algumas pesquisas e conversas com Frances, descobri que o próprio John Stott tinha esperanças de que a história fosse contada um dia. A parceria entre “tio John e tia Frances”, como eram conhecidos mundo afora, era única e de grande valor para a Igreja. A rara bagagem familiar de Frances, sua mente esperta e seu grande comprometimento com Cristo foram fatores que tornaram possível o ministério de Stott. O trabalho dele não seria nem metade tão bem-sucedido sem ela. A história dos dois juntos é um testemunho tocante da providência de Deus, uma história que precisa ser preservada. Você escreveu outros livros? Eles também são biográficos ou tratam de outras temáticas?

Escrevi alguns outros livros, como The “Sempre defendi Humble Leader [O líder humilde], uma que cristãos leiam biografia de John Stott para crianças e Silhouettes and Skeletons [Silhuetas boas biografias e esqueletos], um pequeno livro sobre para aprender Charles Simeon, contemporâneo de mais sobre a William Wilberforce e um colosso na his- vida de fé e as tória evangélica. Também editei muitos dificuldades de fé outros livros, o que me dá a mesma satisde grandes homens fação. Onde há conteúdo precioso que merece atenção para se tornar mais claro, e mulheres” eu amo trabalhar ali. Em 2008 lancei uma modesta série de pequenos livros de grandes autores, os quais foram publicados em 24 línguas. Assim, entendo que editar é meu chamado tanto quanto o é escrever. Frances Whitehead foi descoberta por John Stott. Houve algum líder que descobriu seus dons e talentos e a encorajou a assumir essas responsabilidades?

Sim, Edward England, da editora Hodder e Stoughton. Tudo aconteceu de um modo não esperado. Eu me lembro do culto fúnebre de uma talentosa escritora, Phyllis Thompson, que, durante uma geração e por meio de uns cinquenta livros, trouxe o tema da missão mundial para dentro dos lares de dezenas de milhares de cristãos. Ela se tornara uma amiga querida e eu havia estado com ela no momento de sua morte. Seu editor, Edward England, fez um discurso no culto fúnebre em Londres sobre a dedicação e o ministério dela, como eu mesma já havia feito no velório. Depois ele me disse: “Talvez você devesse tomar esse manto agora, Julia”. Essa declaração súbita me pegou de surpresa. Mas resolvi levá-la a sério. Naquela época eu era a responsável pela área de publicações da OMF. De uma forma ou de outra, permaneci ativa em empreitadas editoriais desde então. E, pela graça de Deus, acredito que esse privilégio vai continuar. MAIS NA INTERNET Versão ampliada da entrevista com Julia Cameron goo.gl/V3bAaJ A mulher por trás de John Stott goo.gl/IgR3FE

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REFLEXÃO

ED RENÉ KIVITZ

TUDO SE FEZ NOVO “Quando o sol brilhou naquela manhã, ouvi Jesus me chamando a ser um novo homem, vivendo de acordo com o novo mundo chamado reino de Deus”

N

ão lembro qu ando foi, mas sei que aconteceu. Sei também que não aconteceu da noite para o dia. Foram necessários muitos anos, e muita gente, para que acontecesse. O fato é que num instante qualquer perdido no passado tomei consciência de que alguns paradigmas haviam mudado na minha teologia. Quando digo “minha teologia” quero dizer o sistema de crenças e compreensões que organizam meu mundo e me permitem transitar por ele. Nesse sistema de crenças estão as principais coisas que tomo como verdadeiras: o que penso a respeito de Deus, de Jesus e do Espírito Santo; da Bíblia e da maneira como Deus se comunica por meio dela; do ser humano, sua A convocação natureza, conde Jesus aos dição, origem e seus discípulos destino; do unisempre foi para verso criado; da o engajamento história e da saga humana em suas no reino de Deus, múltiplas exprese não para o céu sões sociais, culmetafísico turais e religiosas; do pecado, da salvação, da vida e da morte, e da vida depois da morte. Cada um desses temas funciona mais ou menos como uma peça de um quebra-cabeça. Caso as peças estejam desalinhadas, o risco de resultarem num quadro sem sentido é grande. A falta de coerência entre elas gera uma colagem sem nexo, que não diz nada, ou deixa o apreciador entregue às próprias interpretações, ou, pior, diz várias coisas contraditórias entre si e ao mesmo tempo. Desde 1981, quando pela primeira vez estudei um texto de René Padilla, percorro um caminho teológico iluminado pelo Movimento 48

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Lausanne e a teologia da missão integral. Foi justamente nesse caminho que três conceitos fundamentais sofreram grande transformação e se encaixaram, dando coerência a todo o meu sistema teológico. O primeiro conceito que percebi mudado em minha teologia foi o antropológico. O conceito de homem da cultura ocidental é essencialmente platônico e neoplatônico. A concepção de corpo, alma e espírito como partes separadas constitutivas do ser humano encontra – inclusive na terminologia bíblica – amplo respaldo. Mas a cultura hebraica compreende o ser humano sobretudo como uma unidade indivisível constituída de pó da terra e fôlego de vida. O ser humano hebreu é o conjunto inseparável de corpo e espírito. Quando o salmista declara “minha alma engrandece ao Senhor e tudo o que há em mim bendiga seu santo nome”, está dizendo que alma é igual a “tudo o que há em mim”. Na declaração de Maria em seu Magnificat, “minha alma engrandece ao Senhor e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”, está presente o paralelismo da poesia hebraica, que utiliza palavras diferentes para se referir à mesma realidade, sendo alma e espírito equivalentes. Meu conceito antropológico está longe de Platão e muito próximo dos poetas e profetas hebreus. O segundo conceito que percebi mudado em meu sistema teológico foi a referência do que será o mundo quando a redenção estiver consumada. A tradição cristã hegemonicamente fala do céu metafísico, uma outra dimensão de existência, própria da cosmogonia platônica. Mas o Novo Testamento

e especialmente Jesus falam de reino de Deus. A convocação de Jesus aos seus discípulos sempre foi para o engajamento no reino de Deus como realidade presente na história, e não para o céu metafísico para onde vamos após a morte do corpo: “O reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!” (Mc 1.15); “Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.9,10); “Busquem, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6.33); “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7.21). Penso na consumação da redenção muito mais em termos da realização plena do reino de Deus do que num lugar chamado céu. O terceiro e último conceito que percebi mudado em minha teologia foi o horizonte escatológico. Talvez por causa da declaração de Jesus “meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36), a expressão bíblica “novo céu e nova terra” (Ap 21.1) geralmente é interpretada como referência a “outro mundo”, “outro lugar geográfico” para onde vamos após a morte. Mas não podemos desconsiderar que o que torna novos o céu e a terra é o fato de que “a cidade santa, a nova Jerusalém, descia do céu” (Ap 21.2). O apóstolo Paulo fala do futuro não necessariamente em termos de outro mundo em outro lugar, mas também e principalmente em termos de outro tempo: “não apenas nesta era, mas também na que há de vir” (Ef 1.2023). Penso no final escatológico muito mais como “uma nova era” do que como “um outro mundo”.


Aqueles que compreendem o homem como dividido em três ou duas partes distintas e separáveis (corpo, alma e espírito; ou corpo e alma; ou corpo e espírito) e acreditam que a salvação consiste no apodrecimento do corpo nesse mundo que será substituído por outro chamado céu, onde somente os espíritos salvos habitam para sempre, realmente têm dificuldade em assimilar a lógica de uma teologia integral. Entretanto, para quem compreende o ser humano como uma unidade indivisível que está sendo transformada à semelhança do Cristo ressurreto para viver no reino de Deus, que já está inaugurado na história e será consumado na era que está por vir, quando todo o universo estiver sob o reinado de Deus, a lógica da teologia integral é não apenas de fácil assimilação, mas também inevitável. Você pode acreditar que a salvação é o processo por meio do qual o espírito se desprende do corpo e vai para o céu depois da morte para passar a eternidade com Deus. A

Bíblia está cheia de versículos que sugerem isso e a tradição cristã historicamente acredita assim. Mas você pode também acreditar que a salvação é a retomada da unidade corpo mais espírito cindida pela morte e restaurada na ressurreição, e o ingresso numa nova era em que a vontade de Deus é feita na terra como no céu, isto é, o tempo do reino de Deus consumado. Pode acreditar que Jesus Cristo ressurreto é o primeiro homem perfeito e o primeiro a viver “neste mundo” segundo a lógica do “outro mundo”, isto é, o primeiro a viver na presente era desfrutando aquilo que será possível em plenitude para todos nós apenas na era que está por vir. Pode acreditar que a salvação tem início aqui e agora, quando nosso espírito é unido ao Espírito de Deus, que começa a nos transformar à imagem de Jesus Cristo, o primogênito entre muitos irmãos. E pode acreditar que desde já somos chamados a viver neste mundo sob o reinado de Deus, adotando como nossa missão trazer para o aqui e agora a maior densidade possível do que será

perfeito ali e além. A Bíblia está cheia também de versículos que permitem você acreditar assim. Não sei quando foi, mas sei que acordei um dia e já não pensava mais num outro mundo chamado céu onde meu espírito viveria para sempre depois da morte do meu corpo. Quando o sol brilhou naquela manhã, ouvi Jesus me chamando a ser um novo homem, vivendo de acordo com o novo mundo chamado reino de Deus, já presente entre nós. Desde então não consigo mais pensar em termos platônicos e neoplatônicos. E quase não consigo pensar em termos metafísicos. P.S. Milagre é tudo aquilo do outro mundo que acontece neste mundo. Traduzindo, sempre que acontece aqui e agora alguma coisa que deveria ser possível somente quando o reino de Deus estiver consumado, isso é um milagre. Não é lindo? Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia. facebook.com/edrenekivitz

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REFLEXÃO

BRÁULIA RIBEIRO

DE COMO JOEL OSTEEN ME TROUXE A YALE A redescoberta da verdade de que Deus ama com amor personalizado [e se importa com cada um individualmente]

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aminho nos corredores da Yale Divinity School com reverência. Imagino um magro Henri Nouwen pregando na Marquand Chapel, e isto é suficiente para tornar o lugar sagrado a meus olhos. Vou estudar com Miroslav Volf e Lamin Sanneh. Sento-me numa das salas da imensa biblioteca com Händel “no ouvido”, só ele pode traduzir em música a expectativa de redenção e esperança que o lugar inspira. Enfim, sintome no “céu acadêmico”, onde nunca imaginei ser capaz de estar. Porém, o que não vou contar a ninguém para não virar chacota geral é que chego aqui guiada pela “mão” do mal afamado Joel Osteen. Já escrevi várias vezes nesta coluna sobre a importância do Deus comunitário. A oração que nos ensina Jesus é sobre um Pai que é nosso, não apenas meu. Chegamos ao Pai na unidade com o corpo, na oração plural, na adoração multiforme, na intensa consciência da grandeza de Deus manifesta na experiência coletiva. Penso que o evangelho que agrada a Deus é o evangelho do “outro”. Amo o próximo, sirvo a minha comunidade, logo existo como cristão. Mas esta não é a única verdade da Palavra. Existe outra tão evidente quanto esta, o amor de Deus por mim. Por mim, meu eu pecador. Meu eu assassino escondendo-se no deserto e que de repente ouve uma voz saindo de um arbusto em chamas. Meu eu viúva estrangeira seguindo minha sogra para uma terra que não é a minha. Meu eu gadareno louco abandonado num cemitério. Meu eu pescador matutando coisas que só o Mestre percebeu. Meu eu mulher prostituída e desprezada que recebe o presente de

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ser a primeira a vê-lo ressuscitado depois da morte. Este paradoxo entre o amor personalizado de Deus e nossa responsabilidade coletiva torna a religião cristã radicalmente diferente de todas as outras. No budismo, não há lugar para a consciência individual. No taoísmo, o indivíduo deve seguir a trilha pré-determinada e perfeita do universo – o tao, que inclui o esvaziamento total do eu. No Islã, o amor de Alá é condicional e genérico. Alá não prevê um destino para os fiéis que não esteja determinado pelos hadiths (conjunto das tradições islâmicas). O destino não é definido de forma individual, mas é a submissão ao destino coletivo traçado por Alá. Alguns meses atrás, sentimos que nosso tempo em missões estava chegando ao final. O que fazer então? Sem dinheiro, sem aposentadoria, restava-nos entrar no mercado de trabalho “por baixo”, ou tentar qualificar-nos de forma rápida para alguma profissão. Fui contratada pela Macy’s. Aprendi a ser gentil com os compradores, a dobrar bem calças e camisas. Mas sabia que aquele serviço não iria me realizar. Todo trabalho é digno, mas nem todo trabalho usa as suas habilidades e dons, ou cumpre o propósito para o qual Deus criou você. Trabalhando muitas horas por dia, perdi os prazos no doutorado que cursava. Então, mergulhei num desespero absoluto. O que fazer, Deus? Os filhos precisavam sair da ilha; fora de missões o paraíso se tornou Santa Helena. Meus dias se converteram num lamento sem fim aos ouvidos divinos. Até que encontrei Osteen. A mensagem simples do texano me tocou. Havia me esquecido do amor de Deus por mim. Sabia, sem

dúvida, que ele ama os pobres, os não-alcançados. Porém seu amor personalizado deixara a minha Bíblia. Inspirada por Osteen voltei a crer que ele me vê. Ele me conhece, sabe o que me faz feliz. Meu marido e meus filhos estão no seu radar. Ele nos vê como gente, não como ferramentas. Ele se importa com o nosso sucesso. A glória de Deus não é o serviço religioso, mas a realização de nossos dons pessoais no amor e nos princípios dele. A fé me tira do fatalismo pessimista. A fé gera em mim coragem para ir além de um destino medíocre. A fé pessoal inclui a ideia do milagre pessoal. Se você acredita nele, deve acreditar em si mesmo. Ele vê você com esperança. Ele quer que você tome passos em direção ao que você quer porque seu sucesso depende tanto do seu esforço pessoal quanto da “ajudinha” divina. Osteen diz: “Sou quem ele me diz que sou”. Resolvi candidatar-me a Yale apostando no impossível, só como voto de confiança no Deus que também confia em mim. Agora, aqui, andando por este lugar “quase-sagrado”, só posso agradecer a Osteen por ter coragem de ser uma voz que proclama este amor pessoal de nosso Deus, contraintuitivo, contra o senso comum, contra, até mesmo, a minha teologia. Bráulia Ribeiro trabalhou como

missionária na Amazônia durante trinta anos e no Pacífico por seis anos. Hoje é aluna de teologia na Universidade de Yale, Estados Unidos, e candidata ao doutorado pela Universidade de Aberdeen, Escócia. Mora em New Haven, CT, com sua família e é autora dos livros Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?, publicados pela Editora Ultimato. www.braulia.com.br. MAIS NA INTERNET Ambição e desejo: o que o amor tem a ver com isso? goo.gl/IgNglh


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HISTÓRIA

ALDERI SOUZA DE MATOS

PANAMÁ 1916: UM CONGRESSO MISSIONÁRIO PIONEIRO A importância de um congresso centenário como marco histórico e como inspiração para a atual realidade da América Latina

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O Estandarte

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o início do século 20 uma questão foi muito discutida nos círculos missionários do hemisfério norte: seria a América Latina, com sua longa história de presença e atuação católica romana, um campo legítimo de atuação para as missões protestantes? Algumas sociedades missionárias inglesas e alemãs entendiam que não. Por insistência dessas organizações, a célebre Conferência Missionária Mundial, reunida em Edimburgo em 1910, excluiu de suas considerações a América Latina, por considerá-la um continente cristão. Daí o objetivo oficial da conferência: “Para considerar problemas missionários em relação ao mundo não-cristão”. As únicas missões latino-americanas convidadas a participar foram aquelas que trabalhavam entre povos indígenas pagãos. Ocorre que, ao realizar-se a Conferência de Edimburgo, as missões protestantes já estavam atuando na América Latina há mais de meio século. Como resultado desse trabalho, haviam surgido centenas de igrejas de diferentes denominações. Aceitar a tese dos organizadores da Conferência Missionária Mundial significava pôr em dúvida a legitimidade desse esforço e da própria comunidade evangélica latino-americana. Assim, durante a conferência, vários líderes missionários interessados na região se encontraram informalmente para tratar dessa questão. Três anos depois, em março de 1913, reuniu-se em Nova York uma pequena conferência sobre missões na América Latina. Na ocasião foi criado o Comitê de Cooperação na América Latina (CCAL), tendo como presidente Robert Eliott Speer, secretário-geral da Junta de Missões

Revs. Erasmo Braga, Álvaro Reis e Eduardo Carlos Pereira, na viagem para o Congresso do Panamá (1916)

Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos. O CCAL patrocinou o Congresso sobre o Trabalho Cristão na América Latina, que se reuniu de 10 a 19 de fevereiro de 1916 no Hotel Tívoli, em Ancon, na Zona do Canal. O local foi escolhido por causa da proximidade dos Estados Unidos e da recente abertura do Canal do Panamá, tido como um grande símbolo da integração americana. A representação foi fortemente anglo-americana. Dos 230 delegados oficiais, 145 moravam na América Latina, mas somente 21 eram naturais da região. A delegação brasileira incluiu vários missionários estrangeiros e apenas três líderes nacionais, os pastores presbiterianos Álvaro Reis, Eduardo Carlos Pereira e Erasmo Braga. Este último escreveu uma excelente narrativa do evento:

Pan-Americanismo, Aspecto Religioso. Embora o congresso tenha sido presidido por Eduardo Monteverde, um professor universitário uruguaio e membro atuante da Associação Cristã de Moços, os principais dirigentes das sessões foram Robert Speer, Samuel G. Inman e John R. Mott. Oito comissões apresentaram os estudos preliminares, que foram discutidos amplamente: (1) levantamento e ocupação; (2) mensagem e método; (3) educação; (4) literatura; (5) trabalho feminino; (6) a igreja no campo missionário; (7) a base doméstica e (8) cooperação e promoção da unidade. Após o congresso, foram realizadas conferências regionais no Peru, Chile, Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica e Cuba, tendo por objetivo divulgar as propostas do encontro.


Com o mesmo objetivo, nos anos seguintes foram criadas sucursais do movimento em vários países, como foi o caso da Comissão Brasileira de Cooperação. Mais tarde, foram realizados dois congressos regionais para dar prosseguimento à agenda do Panamá, um para a América do Sul (Montevidéu, 1925) e outro para o Caribe (Havana, 1929), nos quais a participação de latino-americanos natos foi muito mais expressiva. Qual a importância do Congresso do Panamá? Foi o pr imeiro encontro das forças evangélicas da América Latina e imprimiu sobre os participantes a necessidade de maior cooperação e unidade em áreas como educação religiosa, missões, literatura e treinamento ministerial. Pablo Alberto Deiros, pastor batista em Buenos Aires, argumenta que o congresso marcou uma importante transição no entendimento da missão evangélica no continente – de uma expansão espontânea e inarticulada para um trabalho orgânico e planejado, com alvos definidos. Embora tenha sido antes de tudo uma reunião de juntas

missionárias estrangeiras, esse evento produziu a primeira discussão séria do protestantismo latino-americano. No Brasil, o impacto do Congresso do Panamá foi bastante significativo. Sob a hábil liderança do pastor, professor e intelectual Erasmo de Carvalho Braga, a Comissão Brasileira de Cooperação promoveu um grande esforço colaborativo entre as principais denominações protestantes da época. Alguns frutos valiosos desse trabalho foram o Seminário Unido do Rio de Janeiro, a Federação Universitária Evangélica, a Missão Evangélica Caiuá e a Confederação Evangélica do Brasil. Todavia, o movimento do Panamá teve também algumas características que o tornaram pouco atraente para algumas igrejas: teologia progressista, ênfase ecumênica e entusiasmo pelo chamado evangelho social. Mais tarde, seguindo o precedente do Panamá e seus sucessores imediatos, seriam realizadas outras séries de encontros missionários no continente. Duas delas foram especialmente marcantes: as Conferências Evangélicas LatinoAmericanas (CELA – 1949, 1961, 1969) e os Congressos Latino-Americanos de

Evangelização (CLADE – 1969, 1979, 1992, 2000, 2012). Com o seu pioneirismo e as suas propostas, esse congresso centenário é um marco expressivo na trajetória das igrejas e das missões protestantes em terras ibero-americanas. Muitas das realidades com que se defrontou continuam relevantes nos dias atuais. Muitas de suas preocupações e análises permanecem válidas e dignas de consideração. A comunidade evangélica da América Latina tem muito a aprender com o Congresso do Panamá ao refletir sobre o seu lugar e a sua missão neste continente complexo e conturbado. Alderi Souza de Matos é doutor em

história da igreja pela Universidade de Boston e professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É autor de Erasmo Braga, o Protestantismo e a Sociedade Brasileira, A Caminhada Cristã na História e Fundamentos da Teologia Histórica. Artigos de sua autoria estão disponíveis em www.mackenzie.com.br/historia_igreja.html. MAIS NA INTERNET Erasmo Braga: um líder singular no protestantismo brasileiro goo.gl/hIWSTI

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MISSÃO INTEGRAL

RENÉ PADILLA

MISSÃO E ESPERANÇA A esperança cristã dá direção à missão integral e motiva a perseverança na sua prática

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Adina Voicu

N

inguém pode viver sem esperança. A pessoa que perde toda a esperança é como uma flor que murcha e morre. Porém, o que é esperança? Não é um mero desejo, mas sim um desejo que tem uma base suficientemente sólida para se projetar em direção ao futuro. No caso da esperança cristã, a base é a confiança na fidelidade de Deus no cumprimento de suas promessas. Em Romanos 8.18-27 o apóstolo Paulo mostra que a esperança cristã abarca, em primeiro lugar, a libertação de toda a criação (v. 18-22). De alguma maneira, por causa do pecado humano, a criação “ficou sujeita à vaidade” (v. 20), ou seja, perdeu sua razão de ser. As palavras que Deus dirige ao homem depois da queda apontam para isso: “maldita é a terra por causa de ti”, e tal maldição é simbolizada pelos “espinhos e cardos” que a terra produz e que dificultam o cultivo (Gn 3.18). No entanto, a criação está incluída na esperança de redenção. Consequentemente, por um lado, “a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus”, ou seja, a manifestação da glória de Jesus Cristo nos filhos de Deus (Rm 8.19). Por outro lado, espera ser liberada, ela própria, da escravidão à destruição a que está sujeita por causa do pecado (v. 21). Deus tem o propósito de renovar a totalidade da criação e, portanto, “segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2Pe 3.13, ver Is 65.17). A esperança cristã abarca, em segundo lugar, a libertação dos filhos de Deus (Rm 8.23-25). Naturalmente, nós, que pusemos nossa fé em Jesus Cristo, já fomos regenerados pelo Espírito. No entanto, a obra de Deus não está terminada em nós: a presença do Espírito é apenas uma antecipação e uma garantia do que ele quer fazer em nossa vida. Ainda

estamos sujeitos à enfermidade e à morte; ainda há momentos em que sentimos a opressão imposta pelo “corpo desta morte” (7.24) porque permitimos que o pecado continue dominando em nosso corpo mortal (6.12-13). Por isso sofremos profundamente, “gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (8.23). A referência aqui é a glorificação do corpo por meio da ressurreição. Já somos filhos de Deus (v. 14,16), mas Deus quer que a glória do Cristo ressuscitado se manifeste em nós plenamente. Aguardamos o dia em que nosso corpo mortal (que é corruptível e como tal não pode herdar o reino de Deus) será transformado em um corpo incorruptível, “um corpo espiritual” semelhante ao corpo com o qual Cristo se levantou dentre os mortos (ver 1Co 15.50-52; 1Jo 3.1-3). A esperança cristã inclui, em terceiro lugar, a ação do Espírito Santo em nós, que pusemos a nossa confiança em Jesus Cristo (Rm 8.26-27). Não estamos sozinhos em nossas lutas diante dos fatores que se opõem ao cumprimento de nossa esperança de libertação da criação e do poder da morte. Deus é o Deus da esperança, e ele cumprirá suas promessas de redenção por meio de seu Espírito,

que “ajuda as nossas fraquezas” e “intercede por nós com gemidos inexprimíveis... segundo Deus”. Do princípio ao fim, a redenção, objeto de nossa esperança, não é obra nossa, mas sim de Deus. A esperança cristã dá senso de direção à missão integral e é a base para a perseverança na sua prática. Porque sabemos que o que fazemos dará como fruto sinais do que Deus quer fazer por meio de nós no poder do Espírito, estamos dispostos a continuar a tarefa que Deus nos encomendou, sem desanimar diante das dificuldades. Por isso, em uma passagem impregnada de esperança cristã, o apóstolo exorta os crentes: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor” (1Co 15.58). Traduzido por Wagner Guimarães.

C. René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de Missão Integral – O reino de Deus e a igreja. Acompanhe seu blog pessoal: kairos.org.ar/blog. MAIS NA INTERNET A esperança cristã deve ocupar o lugar da utopia goo.gl/h71TYw


Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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CONTRAPONTO

ARIOVALDO RAMOS

DO LAR Jesus tem o mesmo lugar para homens e mulheres

“Indo eles de caminho, entrou Jesus num povoado. E certa mulher, chamada Marta, hospedou-o na sua casa. Tinha ela uma irmã, chamada Maria, e esta quedava-se assentada aos pés do Senhor a ouvir-lhe os ensinamentos. Marta agitava-se de um lado para outro, ocupada em muitos serviços. Então, se aproximou de Jesus e disse: Senhor, não te importas de que minha irmã tenha deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me. Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada.” (Lc 10.38-42)

M

Johannes Vermeer [Public domain]

arta hospedou Jesus e os seus discípulos. Todos foram bem tratados, O que deu, de certo, muito trabalho... Marta cuidou de tudo. Maria se sentou aos pés de Jesus, Como quem queria aprender com o mestre. Essa era a postura de discípulo. Isso só era permitido aos homens. Marta se incomodou. Vergonha alheia! Marta era recatada e do lar. O lugar da irmã era ao seu lado. Recatada e do lar! Maria estava se expondo à vergonha. Também envergonhava a Jesus. Ser discípulo era para homens... Marta achou a solução; Para Maria e para Jesus. Que Jesus pusesse Maria no lugar certo: Recatada e do lar. Resolveria dois problemas: Maria deixaria de se expor, Deixaria de querer o lugar de homens, E Jesus escaparia do vexame, E de forma pastoral. Jesus não aceitou a sugestão. Aceitou Maria como discípula. Quebrou um paradigma milenar. E, de forma pastoral, Convidou Marta para a mesma posição. Jesus se ocupa em preservar o lar. Mas do lar cuidam todos os que do lar são. Jesus tem o mesmo lugar Para homens e mulheres: O lugar de discípulo.

Ariovaldo Ramos é escritor, conferencista e presbítero na Comunidade

Cristã Reformada, em São Paulo, SP. Foi, por quatro anos, membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e é presidente da Visão Mundial no Brasil. É autor de Pare de Conjugar o Verbo Sofrer.

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ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016


ÉTICA

PAUL FRESTON

A TÃO FAMIGERADA “MISSÃO INTEGRAL” O cristianismo evangélico é caracterizado pela vontade de ser radicalmente bíblico; mas ser bíblico é um desafio permanente, e nunca uma posse

A

chamada missão integral tem recebido tantas, e tão fortes, críticas que muitos evangélicos que antes se identificavam com ela começam a se perguntar se não deveriam abandoná-la. E outros que não a conheciam ficam se perguntando como os seus (supostos?) irmãos na fé poderiam ter sido enganados por uma teologia tão claramente nociva. Claro que “missão integral” é só um nome. Usemos outro nome, se for necessário, mas não abandonemos o que a missão integral, a nosso ver, representa.

O intuito de somar Longe de ser a negação do evangelicalismo tradicional, muito menos a adoção do marxismo, a missão integral nasce na América Latina nos anos 70 com o intuito de somar ênfases que costumavam ser encontradas em campos opostos, rejeitando a necessidade de optar entre elas. Nem o unilateralismo verticalista, nem o unilateralismo horizontalista. A sã doutrina e a piedade são importantes, como também o são o compromisso social e a contextualização. Mas não basta uma mera justaposição artificial de ênfases distintas. Tem de haver uma teologia capaz de integrar essas ênfases num todo harmonioso. Proeminentes nesse labor teológico eram pessoas como René Padilla, Samuel Escobar, Pedro Arana e outros – e não Moltmann, Küng, Boff etc, como alguns irmãos críticos da missão integral têm veiculado.

O resgate histórico A missão integral não nasce do nada. Há muitos precursores. Por falta de espaço, mencionaremos apenas os mais longínquos, em termos cristãos, os autores patrísticos. Também por falta de espaço, fiquemos com apenas

um deles, Gregório Nazianzeno, o único agraciado com a alcunha de “teólogo”, por sua contribuição à compreensão da Trindade. O verticalismo ele tinha! E o horizontalismo? Eis três frases de Gregório (ênfase acrescentada): É necessário que todos que são seres humanos demonstrem uma porção de bondade aos outros seres humanos, qualquer que seja a sua necessidade: viuvez, orfandade, exílio, crueldade de senhores, brutalidade de juízes, desumanidade de fiscais de impostos, violência de bandidos, avareza de ladrões, confisco, naufrágio. Todos […] esperam pelas nossas mãos, assim como nós esperamos pelas mãos de Deus. Preste atenção na igualdade original, e não na diferença posterior. Não na lei dos poderosos, mas na lei do Criador. Tanto quanto puder, ajude a natureza; honre a liberdade original. Já que somos seres humanos, em primeiro lugar demos o fruto da nossa compaixão aos seres humanos […] Em seguida, imitemos a primeira e suprema lei de Deus, que envia sua chuva tanto aos justos como injustos […] que distribui por toda a terra seus rios e […] bosques para todos os seres vivos […] E suas dádivas não estão sob o domínio de ninguém, nem são regidas por leis, nem demarcadas por fronteiras, mas todas são possuídas em comum […] sustentando a dignidade da nossa natureza.

A missão integral e o kuyperianismo são incompatíveis? Um de nós foi talvez a primeira pessoa a escrever sobre o grande

neocalvinista holandês Abraham Kuyper em português – nos anos 80. Globalmente, o seu legado é reivindicado por pessoas de variadas posições políticas. Afinal, Kuyper escreveu: Lutar contra um mal social isolado ou resgatar os indivíduos, embora excelente, é muito diferente de agarrar o problema socioeconômico em si com o sagrado entusiasmo da fé. A igreja foi organizada não somente para buscar o bem-estar eterno de seus seguidores, mas também para remover as injustiças sociais [...] Quando ricos e pobres se opõem uns aos outros, [Jesus] nunca fica do lado dos ricos, mas sempre do lado dos pobres [...] Ele se colocava invariavelmente contra os poderosos e aqueles que viviam luxuosamente, e a favor dos que sofriam e eram oprimidos.

Ser “conservador” na fé e “progressista” na vida social é contraditório? Alega-se que a missão integral é inconsistente, porque quem é conservador na teologia tem que ser conservador nas suas posições sociopolíticas também. Faltaria “integralidade” à missão “integral”. Essa crítica esquece que os termos “conservador” em teologia e “progressista” – aliás, um termo de que não gostamos, por várias razões – em posicionamentos sociais apenas refletem o uso convencional nos debates teológico e social. Os termos servem apenas como códigos convencionais para mapear posições nesses dois debates. Mas os nomes não importam. Para os adeptos da missão integral, há uma integralidade plena entre essas duas posições; uma decorre da outra. Há uma coerência Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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entre ser o que se convencionou chamar de “conservador” nos debates teológicos, e o que se convencionou chamar de “progressista” nos debates sociopolíticos.

A missão integral possibilita a “liberdade dos filhos da casa” Para nós, a missão integral representa também um espírito, um tom, uma maneira de conduzir os debates dentro da igreja e de recomendar a fé para a sociedade. Por isso, a missão integral não deve usar o mesmo tom de que lançam mão alguns de seus críticos, nem devolver-lhes o mesmo tipo de alegações e acusações. Abreviando as palavras do grande filósofo Julián Marías, falando da tragédia da teologia católica de sua época: Só em liberdade, sentindo-se “em casa”, instalado no amor que “lança fora o temor” (1Jo 4.18), é possível a vida cristã. O espírito inquisitorial, a obsessão com o erro e o projeto ilusório de fazer ciência sem equivocar-se paralisaram a teologia e, ainda mais grave, a vida. Resultou difícil viver livremente o cristianismo, na segura instalação amorosa dos filhos da casa. Os cristãos têm vivido “em casa alheia”, sem atrever-se a respirar, obcecados com o temor das censuras. Claro, liberdade não quer dizer arbitrariedade, ausência de conteúdos e normas. Ao contrário: A realidade tem uma estrutura rigorosa, e temos que nos apoiar nessa estrutura para sermos livres. Mas o cristianismo não é algo que se “aplica” como um código jurídico, mas algo que se vive como a língua. Esta tem uma estrutura, uma gramática, mas quem fala uma língua usa-a livre e criativamente.

Para nós, a missão integral é uma maneira de possibilitar a “liberdade dos filhos da casa”, destemida no pensamento e no viver, no fazer ciência sem medo de equivocar-se, mas respeitando sempre a estrutura da realidade e da revelação, usando criativamente a gramática da fé.

A missão integral inclui um biblicismo integral Em artigo anterior nesta coluna (março/abril de 2014), dissemos que o cristianismo evangélico é caracterizado pela vontade de ser radicalmente 58

ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

bíblico; mas que ser bíblico é um desafio permanente, e nunca uma posse nossa. E é um desafio com muitas dimensões, as quais fazem parte da integralidade da missão integral. Repetimos aqui algumas dessas dimensões:

Ser bíblico significa: Reconhecer a amplitude da Bíblia A Bíblia é como um país muito grande, que não se pode conhecer numa visita rápida de turista. Enamorar-se da, e situar-se na, história bíblica Como diz C. S. Lewis: “Para ser realmente cristãos, temos que não apenas concordar com o fato histórico, mas também abraçar o mito com o poder da imaginação”. O cristianismo tem a melhor história do mundo, de um Deus que entra pessoalmente no seu mundo, vive como pessoa pobre num país oprimido, é incompreendido e rejeitado, sofre e morre de forma indigna, e vence a morte pela ressurreição. Imergir-se na cultura do reino de Deus Significa aprender a “cultura” do reino de Deus, adaptar-se às prioridades e valores deste. Isso envolve desaprender tanto quanto aprender, pois Jesus inverte os valores do mundo e nos oferece um mundo impregnado de outros valores. Ler a Bíblia em comunhão com a igreja de todos os tempos Não podemos ser bíblicos sozinhos. Temos de ler a Bíblia na comunhão dos santos, que é local, mas também é geográfica e historicamente dispersa. Devemos ler a Bíblia por meio dos melhores intérpretes, mesmo que estejam do outro lado do mundo, ou tenham morrido há muitos séculos. Entender a liberdade evangélica Se ser evangélico é a vontade de ser bíblico, isso nos dá uma nova liberdade. A liberdade de não ter de defender determinadas tradições e execrar outras. A liberdade de examinar todas as tradições, avaliando-as pelos critérios da revelação e da relevância. A liberdade de

aplaudir tudo o que for bíblico, onde quer que se encontre, inclusive entre não cristãos. Ser calibrado nas ênfases Devemos ser bíblicos também no peso que cada assunto tem na Bíblia. Quem é bíblico sabe dimensionar as questões. Um pregador que fala 50 % do tempo sobre um assunto que representa 0,05 % da Bíblia não está sendo bíblico. Ser persistente Nas palavras de Efrém, o Sírio (século 4º): No estudo de um texto bíblico, “quem encontrar um dos seus tesouros não deve pensar que ali existe somente aquilo que encontrou, mas antes, que ele foi capaz de encontrar somente aquilo. Dê graças pelo que você conseguiu tirar, e lembrese que o que ficou também faz parte da sua herança [...] Procure recebê-lo em outro momento, não desista”. Reconhecer a diversidade do corpo de Cristo Primeiro, diversidade de níveis em que a Bíblia funciona: psicológico, emocional, relacional, social, político, intelectual etc. Segundo, a diversidade entre as pessoas que leem a Bíblia: de diversos temperamentos, diversos níveis educacionais, diversas situações sociais, diversos momentos da vida. E, terceiro, as diversas perspectivas contidas na própria Bíblia. Como diz novamente Efrém: “[...] Muitas são as perspectivas de sua Palavra, como também muitas são as perspectivas daqueles que a estudam. Deus escondeu na sua Palavra todo tipo de tesouro, para que cada um de nós, toda vez que meditamos, seja enriquecido”.

Paul Freston, inglês naturalizado

brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

Raphael Freston é mestrando em

sociologia na Universidade de São Paulo e é membro da diretoria nacional da ABUB. MAIS NA INTERNET Os pioneiros falam sobre missão integral http://goo.gl/DFWRoc


V O C Ê Q U E R P R O M OV E R O S E U P R O D U TO O U S E R V I Ç O J U N TO A O P Ú B L I C O E VA N G É L I C O ?

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ANA CLÁUDIA NUNES

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Vila da Mezina, Coimbra, MG flickr.com/palindromica

ARTE E CULTURA

LITERATURA E CULTURA

GLADIR CABRAL

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PRIMO LEVI: ENTRE AS CINZAS DE AUSCHWITZ

Primo Levi, 1950’s

60

É Isto um Homem?, de Primo Levi (1947), é um livro profundo cuja leitura é mais do que necessária para nossa formação humana e compreensão da história. As narrativas de Primo Levi apresentam, a partir do ponto de vista de um interno, todo o processo de desumanização realizado nos campos de concentração de Auschwitz, a lenta e inexorável transformação dos prisioneiros em seres brutalizados, entorpecidos, indiferentes à sorte. Esse sistema de dilapidação do ser humano começa logo depois da prisão, nos vagões de um trem, na hostilidade gratuita e irracional, no confisco dos pertences, na nudez, na raspagem dos cabelos, na tatuagem do número que será agora a única identificação da pessoa. Nesse processo de perdas, morre Deus. Ele morre, como diria Elie Wiesel, no corpo estremecido de um menino enforcado no campo de concentração. Ou como diria outra testemunha sobrevivente de Auschwitz, Deus se ausentou dali, pois aquele lugar era horrível demais até para ele. Levi parece dizer que em Auschwitz testemunha-se a morte de Deus, pelo menos a morte de certa compreensão de Deus, de um Deus que não subsiste aos extremos da experiência humana, de uma fé que se desintegra na avalanche da barbárie. Entretanto, a narrativa de Primo Levi não fica apenas na acidez das decepções ou na amargura da desesperança. De certa forma, sua vida é redimida por alguns marcos importantes, coisas que aconteceram no campo, todas relacionadas com pessoas que trouxeram a ele algum alento, como a amizade com Lourenço, um trabalhador de origem italiana que mostrou a Levi que ainda existe um mundo

ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

justo; a humanidade ainda é possível. A história é curta: “Um operário italiano me trouxe um pedaço de pão e os restos das suas refeições, cada dia, durante seis meses; deu-me de presente uma camiseta cheia de remendos; escreveu por mim um cartão-postal à Itália e conseguiu resposta. Por tudo isso não pediu nem aceitou compensação alguma, porque ele era simples e bom e não pensava que se deve fazer o bem a fim de receber algo em troca” (p. 115). A amizade com Alberto foi outro grande alento a Primo Levi, uma prova de que ainda não havia perdido completamente a sua humanidade. Fala do poder redentor da amizade. Com Alberto, Primo Levi aprendeu a arte da resistência, como gravar o nome no fundo da gamela onde se come a ração de sopa, quando todos gravavam simplesmente seus números de identificação. “Alberto entrou no Campo de cabeça erguida e vive no Campo ileso, íntegro. Foi o primeiro a compreender que esta vida é uma guerra” (p. 51). Alberto era amigo de trabalho, caminhadas, refeição, silêncio, “companheiro inseparável”. Na experiência dura de Primo Levi no campo de concentração, ainda que ele mal reconheça, há “um resíduo de esperança inconfessável”, algo que é mais forte do que seu cansaço, do que sua fome, do que a perda de significado da vida naquela situação extrema. Deus não está ali, onde a voz de comando e o aceno da mão ordenem o fuzilamento de uma vítima inocente. Deus está na amizade que floresce entre as cinzas de Auschwitz. Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na

Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal: ultimato.com.br/sites/gladircabral. MAIS NA INTERNET Quem você chama em caso de urgência? goo.gl/cJUQA7


Igreja: agente

IPSIS LITTERIS

de transformação

Literatura não é uma conversa crua como desejam as ciências exatas. É mais delicada. Ela trabalha com a dúvida, com as incertezas, com as inseguranças, com as faltas, que são coisas que nos unem.

negativespace.co

Bartolomeu Campos de Queirós

é mais que um livro, está relacionado a um projeto de missão integral impulsionado pela troca de saberes entre diversos parceiros, onde o livro é uma ferramenta de reflexão, debate e formação. Não estamos promovendo prom um autor com sua obra, mas sim um projeto diaconal, um jeito de olhar e fazer missão.

Toda igreja, grande ou pequena, necessita uma visão clara do que significa ser povo de Deus na sociedade secular.

ARTE PARA TODOS

KLÊNIA FASSONI

C. René Padilha

Não são muitas as igrejas que cantam congregacionalmente os hinos antigos. Não são poucos os mais idosos que sentem falta deles. Para quem tem saudade dos velhos hinos, e para os jovens que têm abertura para o “novo”, o site Hinologia Cristã é um prato cheio. Segundo Simei Monteiro, colaboradora do site, não há muito interesse na divulgação de hinos e cânticos de nossa tradição hinódica. Uma cultura do cântico “descartável” permeia o repertório das igrejas o que relativiza o valor documental dos cânticos, os quais vão se tornando apenas “da moda” ou “hits” do momento. Hinologia.org surgiu para preencher esta lacuna. Seu idealizador é o jovem Robson José dos Santos Júnior, músico cristão, que recebe o apoio necessário de sua igreja para este trabalho. São muitos os colaboradores. O site, além de ser um guardião das letras dos hinos, traz notícias, artigos e multimídia. A lista de biografados é extensa: muitos autores de hinos, Jerônimo Gueiros, João W. Faustini, Sérgio Pimenta. Os artigos trazem temas variados, tais como: Como compor hinos; Os Wesleys e o canto congregacional; Calvino e a música; Hinos famosos; O despontar da hinódia cristã; Salmos, hinos e cânticos. Uma das matérias faz uma justa homenagem à dona Henriqueta Rosa

Basileia

QUEM SE IMPORTA COM OS HINOS?

Henriqueta Rosa Fernandes Braga

Fernandes Braga (1909-1983). Ela é autora de Pontos de História da Música, Música Sacra Evangélica no Brasil e o verbete sobre este assunto para a Grande Enciclopédia Delta Larousse, nas edições de 1970 e 1979. Doutora em música, foi membro titular da Academia Nacional de Música, e, com apenas 27 anos de idade, passou a lecionar na atual Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durante muitos anos contou nas páginas de Ultimato a história dos hinos. Klênia C. Fassoni

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MAIS NA INTERNET As histórias de cinco hinos publicadas em Ultimato entre 1968 e 1982, da autoria de Henriqueta Rosa Fernandes Braga goo.gl/c03Fze Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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ARTE E CULTURA

NOVOS ACORDES

CARLINHOS VEIGA

ASSOBIANDO UMA CANÇÃO

COMO DIZ O OUTRO

TIGRES [DE BENGALA]

Os Tigres surgiram de maneira despretensiosa. Um grupo de velhos amigos se reuniu para cantar as “velhas músicas” da safra dos anos 70 e 80. O objetivo era simplesmente uma apresentação. Mas a aceitação foi tão grande que novos convites surgiram, chegando a ponto de entenderem que valia a pena fazer um registro. Assobiando uma canção é o primeiro trabalho e está disponibilizado em DVD e CD. Foi gravado ao vivo no conhecido quiosque do Prosa e Canto, evento de artes realizado anualmente em Anápolis, GO. No repertório, conhecidas canções gravadas originalmente por Vencedores por Cristo, Rebanhão, Josué Rodrigues, Expresso Luz, entre outros. A direção geral e produção são de Beto Ribeiro, direção de áudio de Josimar Bianchi e projeto gráfico de Romero Fonseca. Contatos pelo WhatsApp (62) 99832-7512.

CROMBIE

Esse é o quarto trabalho do Crombie. Inaugura uma fase diferencial, fruto do amadurecimento de vida desses talentosos garotos. Brotam nas poesias temas complexos da urbis, como a rotina, a falta de tempo, as intrincadas relações humanas. Como diz o outro se abre para ouvir o outro. Paulo Nazareth continua sendo o poeta da trupe musical. Certamente sua vida paulistana dos últimos anos trouxe outros olhares sobre a cidade e as pessoas. No entanto, a marca sonora do grupo permanece: vigoroso, melódico, harmônico. A direção musical do eclético Daniel Maia, produtor que vai de VPC a Tom Zé, harmonizou bem, acrescentando mais peso sonoro. O CD tem a participação de Jair Oliveira, Lay Soares e Lilian Machado (Simonami) e Vinicius Calderoni (5aSeco). O trabalho está em todas as plataformas de música digital.

ENTREVISTA BRASILIDADE CRISTÃ VIRA APLICATIVO PARA CELULAR

O que é Brasilidade Cristã?

É um ministério que Deus colocou no meu coração. Seu objetivo é simplesmente propagar a música cristã brasileira, em suas diversas vertentes, por meio das mídias sociais. Como surgiu?

Inicialmente eu tinha interesse em gravar os cantores que gosto e depois postava no meu canal particular no Youtube. Jorge Caetano sugeriu que eu criasse uma página reunindo todo esse material. O Brasilidade Cristã está no ar há dois anos e meio. Hoje divulga

as agendas dos artistas e vídeos com canções dos diversos segmentos da música cristã no Brasil. Que tipo de vídeo você posta?

Não faço clipe. Apenas faço o registro de apresentações ao vivo, como uma pessoa que vai a um evento e o filma em seu celular. Tento captar aquele momento da melhor maneira possível. Recentemente o Brasilidade Cristã lançou um aplicativo para celulares.

Foi uma surpresa para mim. Agradeço a Nio Felipe, o diretor responsável da Pippa. Sabendo da minha visão ministerial, ele quis abençoar o Brasilidade me presenteando com esse aplicativo que está disponível no Google Play e na Apple Store. O aplicativo reúne todas as informações do Brasilidade no Facebook, Instagram e a biblioteca do canal no Youtube. Toda vez que faço uma nova postagem, ele é atualizado automaticamente no aplicativo.

Carlinhos Veiga

Johny Chan é um jovem empresário de São Paulo, SP. Brasileiro, descendente de taiwaneses, é cristão e apaixonado por música de todos os estilos – do erudito ao pop contemporâneo. É o criador de Brasilidade Cristã, um ministério de apoio que divulga os artistas cristãos brasileiros por meio das mídias sociais.

MAIS NA INTERNET Versão ampliada da entrevista com Johny Chan http://goo.gl/4lwDkL

Carlinhos Veiga é pastor, músico e jornalista. Ouça trechos dos álbuns apresentados nesta seção visitando o blog novosacordes.com.br.

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ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016


INSTALAÇÃO

ROSANA BASILE E DAVI PINTO

Em junho de 2016, aos 81 anos, o artista húngaro Christo, famoso por instalações que já incluíram embrulhar com tecido o parlamento alemão e uma ponte em Paris, apresentou seu mais novo trabalho. Durante os curtos dezesseis dias em que a obra foi exposta, visitantes tiveram a oportunidade de andar sobre as passarelas cobertas por tecido laranja que flutuavam sobre as águas do Lago de Iseo, no norte da Itália. Nas palavras do próprio artista, “aqueles que experimentaram andar sobre ‘Os Píeres flutuantes’ sentiram como se estivessem caminhando sobre a água”. O trabalho reflete a tendência atual de valorizar a interação entre as pessoas e a arte. A escultura deixa de ser um objeto a ser visto de seus vários ângulos e se expande em instalações que são verdadeiros lugares de encontro com a obra. Deixamos de ser meros espectadores e somos convidados a mergulhar na experiência proposta pelo artista. Christo fez isso de forma surpreendente. O toque vibrante e dourado da cor laranja aguça os sentidos e contrasta com o azul do lago e com as montanhas ao redor. Apesar das grandes dimensões, a obra proporciona uma reflexão intimista, um

encontro com a beleza da criação e consigo mesmo. Inspira a meditar sobre a possibilidade de vivenciar o impossível e traz à memória o milagre de Jesus caminhando sobre as águas. Assim como Pedro, milhares de pessoas foram atraídas pela possibilidade de andarem sobre as águas. Poderíamos pensar a instalação como uma reprodução simbólica do milagre relatado em Mateus 14. E chegaríamos à conclusão de que muitos dos milagres de Jesus pareceriam hoje desnecessários. Afinal, a tecnologia e a criatividade humana nos permitem reproduzir, pelo menos na aparência, muitos dos feitos de Jesus, como a cura de doenças ou a multiplicação de alimentos. O avanço tecnológico tem ainda a suposta “vantagem” de eliminar a necessidade de fé. Para deixar o barco e caminhar sobre as águas turbulentas do mar da Galileia, Pedro precisava de fé, mas essa lhe faltou e o apóstolo precisou ser socorrido por Jesus. Já os milhares de turistas que viajaram à Itália para experimentar a sensação de caminhar sobre as águas do Lago de Iseo não precisaram de fé. Dispomos hoje de recursos para, em termos humanos, resolvermos nossas necessidades básicas. Numa

NewtonCourt

DE ESPECTADOR A PARTICIPANTE

cultura racionalista e de abundância material sem precedentes em termos históricos, é fácil considerar dispensáveis a fé e os milagres de Jesus. Temos à nossa disposição inúmeras passarelas flutuantes que nos proporcionam sensações de poder e de bem-estar. Nosso desafio é o mesmo de Pedro: Fixar os olhos no Mestre e depositar nossa fé nele, ao invés de confiar na aparente segurança dos nossos recursos humanos. Jesus não promete eliminar todos os riscos, mas continua sendo capaz de nos sustentar e de nos socorrer de forma milagrosa. Rosana Basile, artista plástica e Davi Pinto, diplomata, são casados e têm três

filhas. Juntos criaram o Teologarte, site que busca conectar as artes e a fé cristã. MAIS NA INTERNET Conheça o projeto “Os píeres flutuantes”, de Christo e Jeanne-Claude goo.gl/omp2Ut Artes visuais e fé cristã goo.gl/diziJb

Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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VAMOS LER!

OS MELHORES LIVROS SOBRE A REFORMA PROTESTANTE Em 2017, a Reforma Protestante fará 500 anos e, como Ultimato não quer ficar fora dessa celebração, aqui estão notas de livros relacionados a esse marco histórico. Da história da Reforma aos debates sobre ela, de nomes famosos à participação das mulheres, os livros sugeridos apresentam um pouco do que foi esse acontecimento. Boa leitura! REFORMAS NA EUROPA CARTER LINDBERG TRAD. LUÍS HENRIQUE DREHER E LUÍS MARCOS SANDER

504 páginas • Sinodal, 2011

Importante obra histórica que parte da concepção da pluralidade das reformas religiosas na Europa, incluindo a Contrarreforma católica. Traz um debate historiográfico fundamental para os historiadores do protestantismo, além das fontes da pesquisa. Aponta como ocorreram tentativas de diálogos entre protestantes e católicos, mesmo com o acirramento das intolerâncias. Por Lyndon A. Santos

A REVOLUÇÃO PROTESTANTE ALISTER MCGRATH

532 páginas • Editora Palavra, 2012

McGrath retrata o panorama protestante de cinco séculos, dos primórdios na Alemanha, Suíça e Inglaterra ao desenvolvimento das igrejas vinculadas aos estados na Europa. Em seguida, descreve a migração para a América, onde as igrejas – sem retaguarda governamental – desenvolveram um “empreendedorismo pastoral” no século 19. Por fim, aponta como o movimento pentecostal contribuiu para ultrapassar barreiras étnicas e sociais. As marcas comuns dessa história são: a autoridade da Bíblia e o sacerdócio geral dos crentes.

Por Martin Weingaertner

HISTÓRIA DA REFORMA DO DÉCIMO SEXTO SÉCULO J. H. MERLE D’AUBIGNÉ

1912 páginas • Casa Editora Presbiteriana • 6 volumes

Para os leitores que buscam relatos detalhados das Reformas na Alemanha, França e Suíça, a obra de D’Aubigné, ministro protestante suíço, cumpre bem esse papel ao narrar com paixão os acontecimentos. Essa coleção será fundamental para estudantes em seus trabalhos acadêmicos. Por Rute Salviano Almeida

DE LUDER A LUTERO: UMA BIOGRAFIA MARTIN NORBERTO DREHER

304 páginas • Sinodal, 2014

O professor Dreher, historiador e pastor luterano brasileiro, é apaixonado pela Reforma e nascido no mesmo dia de Lutero. Sua biografia é singular, com texto leve e uma linguagem bem brasileira. A obra recebeu o Prêmio Areté 2015 e é a mais recente obra em português sobre o grande reformador. Por Rute Salviano Almeida

LEITURAS DIÁRIAS DAS CRÔNICAS DE NÁRNIA UM ANO COM ASLAM C. S. LEWIS

488 páginas • Ultimato, 2016

Leituras Diárias das Crônicas de Nárnia – Um Ano com Aslam reúne uma seleção preciosa de 365 trechos dos sete volumes mais amados de C. S. Lewis, que se tornaram clássicos da literatura mundial e também ganharam o cinema. Agora, leitores de todas as idades têm à disposição um guia confiável para navegar em meio às aventuras e sabedoria do mundo de Nárnia. As perguntas e reflexões no final de cada leitura diária nos ajudam a perceber melhor os dilemas e o significado da vida, tanto dos personagens como dos leitores dos nossos dias. Por Marcos Bontempo

LEIA MAIS NA INTERNET Mais dicas de livros sobre a Reforma Protestante goo.gl/gXvsje

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ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016


Classificados Ultimato s

Oportunidades, serviços e evento

MINISTÉRIOS MISSÃO BASE

Já imaginou um lugar onde você possa conhecer as oportunidades para servir com os seus dons e talentos na missão de Deus? No www.chamado.org necessidades e oportunidades se conectam todos os dias. Faça o seu cadastro e saiba quais as necessidades têm a sua cara. BASE, JUNTOS PELO REINO.

MULHERES EM MINISTÉRIO

É um movimento de cuidado mútuo e mentoria para esposas de pastor, pastoras e mulheres em campos missionários. O carro-chefe de Mulheres em Ministério são grupos pequenos de acolhimento, encorajamento, amor e apoio mútuo. Contato: mulheresemministério@gmail.com | barbara@sepal.org.br

MISSIONÁRIO DE TI

Uma organização na Índia precisa de alguém que possa, entre outras coisas: desenvolver soluções de tecnologia, projetar, testar, instalar e manter hardware, aplicações e software de sistemas, gerenciar projetos (parte técnica). Fale conosco: isbpessoal@gmail.com | www.cem.org. br/site/interserve/

INTERNET CONSELHOS PARA MENINAS

Você já se perguntou se a Bíblia é realmente relevante para a sua vida? O Conselhos para Meninas quer ajudar você a conhecer e aplicar a Bíblia, na busca de um relacionamento vivo e ativo com Deus. Acesse o site e confira! www.conselhosparameninas.blog.br

HINOLOGIA.ORG

Somos um grupo composto por músicos evangélicos de diversas denominações, mas unidos pelo desejo de aperfeiçoar e resgatar o valor dos hinos e cânticos na consolidação da doutrina bíblica na Igreja de Cristo, disponibilizando artigos biográficos, históricos além de pesquisas e recursos musicais.

ARTE E FÉ CRISTÃ

ilustracaoaquarela@gmail.com Mais doce que o mel (Facebook)

Já pensou no que a arte que você consome tem a ver com a sua fé? E como a fé impacta a arte? Em Cristo temos o ministério da reconciliação, que envolve tudo – inclusive arte, entretenimento e cultura. Confira nossos textos e podcasts em sobrado518.com.br e busque caminhos de redenção com a gente!

OUTROS DESENVOLVIMENTO

Em novembro, CADI e Lumen Assessoria realizarão uma Formação em Tutoria, Mentoria e Coaching para Desenvolvimento Integral, destinada a pessoas interessadas em autodesenvolvimento, ou que apoiam outras pessoas nas áreas emocional, profissional e espiritual. Consulte https://lumen4you.net/apoio/ftmce

INSTITUTO NWK

Rede de profissionais cristãos que dedicam seu conhecimento e experiência a serviço do Reino de Deus, apoiando igrejas e organizações através de programas de desenvolvimento das lideranças e serviços de consultoria para alinhamento estratégico e maior eficácia na gestão dos recursos. www.nwk.net.br

SISTEMA IGREJAS

Organize sua igreja do PC, Tablet ou Celular. Com os módulos: Rol de Membros, Células, Aulas, Eventos, Ministérios, Escalas para Cultos, Reuniões, Atas, Inventário, Dízimos, Ofertas, Finanças e Contabilidade. Visite: www.gestaodemembros.com.br

Para conhecer formatos e valores entre em contato pelo email anuncio@ultimato.com.br ou whatsapp (31) 98933-0027.

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Setembro/Outubro 2016 • ULTIMATO

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PONTO FINAL

RUBEM AMORESE

A ARTE DO NÃO PODER

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ULTIMATO • Setembro/Outubro 2016

Marco Zuchi

S

omos todos fracos. Nascemos ameaçados de morte. Não somos capazes de sobreviver aos primeiros desafios de nossas vidas. Sem o cuidado de alguém, ou um fogo aceso, morremos. Temos medo das ameaças de morte. Medo da fome, do frio, de animais, de insetos, de gente desconhecida, de ambientes hostis, de abismos, de assaltantes, de mar bravio. Por causa desse medo, tão natural, passamos a vida em busca de segurança. E ela nos vem dos “recursos” que amealhamos. Seja da ajuda dos outros, como o desvelo dos pais, seja do poder pessoal, simbolizado pelos músculos. O sobreviAs palavras de vente por excelência é uma pessoa forte, cercada por uma rede de coosabedoria das peração. Por algum tempo, assim, Escrituras nos temos algum poder de evitar a morte. ensinam sobre A sofisticação que a vida traz o cultivo da arte a esses recursos pode nos levar a do não poder, buscar diversas formas de poder, sobre devoção e seja sobre a natureza, seja sobre as pessoas. Assim, em nossa luta pela entrega sobrevivência, amealhamos capacidades e energias provenientes de complexos mecanismos de troca com nossos semelhantes. Essas energias, ao serem acumuladas, convertem-se em tratados, alianças, contas bancárias, patrimônio etc., sem mencionar os bens imateriais, como honra, prestígio e fama. Em geral, as origens de nossa busca por segurança são invisíveis aos nossos olhos. São inconscientes. Não distinguimos naquilo que fazemos a luta pela sobrevivência, ou o medo da morte. Alguns passam a gostar do poder. E do complexo jogo que ele instaura. Chegam a achá-lo um recurso necessário, inevitável. Ou uma vantagem pessoal. Como no caso da riqueza, distribuída de forma assimétrica na sociedade. Afinal, “os pobres sempre os tereis convosco”. Não vou mencionar as heranças políticas, as dinastias ou as unções divinas. Na vida comum, o poder é exercido naturalmente. Seja para abrir uma torneira enferrujada, seja para convencer um comprador a fechar um negócio. Como se a vida fosse um “jogo de dificuldades”, no qual o mais hábil ou forte vencesse e “acumulasse vidas”. Adormecido por toda a existência, esse assunto saltará à consciência na velhice. Seja como

lembrança do desamparo dos primeiros anos (marcas profundas, ativas até hoje), seja para viver novas formas daquele mesmo medo, daquela insegurança. Sim, a senilidade é também um problema de poder. O problema de não mais poder. Com o agravante da consciência sobre o que se passa. Existem muitas palavras de sabedoria, nas Escrituras, para lidar com esse tema na infância, na vida adulta e na velhice. Sabendo que a anterior prepara para a posterior. De modo que a obediência da criança ou a honra ao pai e à mãe estão tratando da questão do poder. Essa sabedoria nos ensinará sobre o cultivo da arte do não poder; sobre devoção e entrega (Sl 37.5). Não é assim o ato de adoração? Não é assim o ato de contrição, ou a invocação do Senhor como rocha, força, castelo, refúgio? Sem essa sabedoria, jamais compreenderemos a graça de Deus; jamais usufruiremos de sua providência; jamais descansaremos em seu amor, como as aves do céu ou os lírios do campo. Sim, jamais nos fará sentido um poder que se aperfeiçoa na fraqueza. Exercitemo-nos, portanto, na lógica do Cordeiro, a todos proposta por Jesus: a de que seremos tão mais poderosos quanto menos medo da morte tivermos. Porque ele cuida de nós. Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. Foi professor na Faculdade Teológica Batista por vinte anos e também consultor legislativo no Senado Federal. É autor de, entre outros, Fábrica de Missionários e Ponto Final. Acompanhe seu blog pessoal: ultimato.com.br/sites/amorese. MAIS NA INTERNET Versão ampliada do artigo “A arte do não poder” goo.gl/qiVgrh Canção “Confia no Senhor – Salmo 37” goo.gl/8IWaoB Canção “Entrega – Salmo 31” goo.gl/oPXpgV


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