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FECHAMENTO AUTORIZADO. Pode ser aberto pelos Correios.

S E T E M B R O – O U T U B R O 2 0 1 2 • A N O X LV • N º 3 3 8

O ser

humano

Deus incomparável

é admirável.

é

PAUL BENDOR-SAMUEL

MISSÃO DE PONTA-CABEÇA DA ORDEM PARA IR AO CONVITE PARA VIR

PAUL FRESTON

O SENTIDO DO CENSO 2010

VALDIR STEUERNAGEL

CHORO E GRAÇA EM RUANDA

Setembro-Outubro, 2012

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Michel Meynsbrughen

A berturA

O teólogo a serviço de Deus e não da teologia

A

ntes de conhecer Deus academicamente, o teólogo precisa conhecê-lo pessoalmente. Antes de descrever Deus, o teólogo precisa ter comunhão com ele. Antes de descrever o amor de Deus, o teólogo precisa sentir-se amado por ele. Antes de descrever a autoridade de Deus, o teólogo precisa submeter-se a ela. Antes de descrever a santidade absoluta de Deus, o teólogo precisa descrever a sua absoluta pecaminosidade. Antes de mencionar a sabedoria de Deus, o teólogo precisa confessar a sua ignorância. Antes de se enveredar pelo problema filosófico e teológico do sofrimento, o teólogo precisa aprender a chorar com os que choram e a alegrar-se com os que se alegram. Antes de tentar explicar as coisas mais profundas e misteriosas da teologia, o teólogo precisa ser honesto consigo mesmo e com os outros e admitir que nas cartas de Paulo e em outras passagens da Bíblia há coisas realmente difíceis de entender. Antes de ensinar e escrever teologia, o teólogo precisa entender que sua responsabilidade é enorme, porque, exatamente por ser reconhecido como teólogo, ele será ouvido, lido, consultado, citado. O teólogo não pode inventar suas teologias, assim como o profeta não podia inventar suas visões nem declarar “assim diz o Senhor”, se o Senhor nada lhe dissera.

O teólogo não pode ser nem frio nem seco. Ele tem de declarar com toda empolgação que Deus é amantíssimo, graciosíssimo, justíssimo, misericordiosíssimo, puríssimo, santíssimo, sapientíssimo e terribilíssimo1. O teólogo precisa de humildade para explicar as coisas já reveladas e calar-se diante das ainda ocultas. O teólogo precisa caminhar lado a lado com a fé e com a razão e, se em algum momento tiver de abrir mão de uma delas, deve ficar com a fé. O teólogo deve construir e, em nenhum momento, destruir. O teólogo obriga-se a separar o trigo do joio, a verdade do mito, a revelação da tradição, a visão verdadeira da falsa visão, o bem do mal, a luz das trevas, o doce do amargo, a vontade de Deus da vontade própria. O teólogo tem o compromisso de insistir na unicidade de Deus e condenar a pluralidade de deuses, tanto os de ontem como os de hoje2. O teólogo tem a obrigação de equilibrar a bondade e a severidade de Deus, o perdão e a punição, a vida eterna e a morte eterna, a graça e a lei. O teólogo é um fracasso quando não menciona que Deus amou tanto o mundo que deu seu único Filho por uma só razão: para que ninguém fosse condenado, mas tivesse, pela fé em Jesus, plena e eterna salvação! Notas 1. Veja Deus no superlativo, pág. 28. 2. Como, por exemplo, o deus-eu

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s umário

CAPA

COLUnISTAS

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O caminho do coração o ser humANo é Admirável. deus é iNComPArável!

Qualquer conjetura a respeito de Deus deve partir do princípio de que Deus não é uma nebulosa nem uma sombra. Deus é o “Eu sou”, o primeiro e o único, o Eterno, aquele que precede o tempo e o espaço, que não desaparece nem morre. Ele é incomparável por uma simples e clara razão: Deus é o Criador e o ser humano é a criatura. nada mais de complicado precisa ser acrescentado.

SEçõES

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esCrAvos moderNos

Ricardo Barbosa de Sousa

Da linha de frente

36

vulNeráveis A durAs PeNAs

Bráulia Ribeiro

Casamento e família

40

o PlaNo de deus PArA o CAsAl

Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski

Meio ambiente e fé cristã

41

soNhos e visões

Marina Silva

Missão integral

3 AberturA 4 CArtA Ao leitor 6 PAstorAis 8 CArtAs 12 FrAses 12 Números 14 mAis do que NotíCiAs 18 NotíCiAs l Lissânder Dias 42 o leitor PerguNtA l Ed René Kivitz 44 de hoje em diANte... 45 Novos ACordes l Carlinhos Veiga 46 Altos PAPos l Paula Mazzini Mendes 48 esPeCiAl l Paul Bendor-Samuel 60 CAmiNhos dA missão l Luiz Fernando dos Santos 64 vAmos ler!

47

A missão do reiNo de deus (PArte 2)

René Padilla

Redescobrindo a Palavra de Deus

52

Choro e grAçA em ruANdA

Valdir Steuernagel

História

54

os Cristãos e A esquerdA

Alderi Souza de Matos

Ética

56

o seNtido do CeNso 2010

Paul Freston

Cidade em foco

58 A CidAde de deus, A CidAde dA justiçA Jorge Henrique Barro

ABREVIAçÕEs:

AM – A Mensagem; AS21 – Almeida Século 21; BH – Bíblia Hebraica; BJ – A Bíblia de Jerusalém; BP – A Bíblia do Peregrino; BV – A Bíblia Viva; CNBB – Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; CT – Novo Testamento (Comunidade de Taizé); EP – Edição Pastoral; EPC – Edição Pastoral – Catequética; HR – Tradução de Huberto Rohden; KJ – King James (Nova Tradução Atualizada dos Quatro Evangelhos); NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia.

Ponto final

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A reCoNCiliAção e o mistério do Perdão triANgular

Rubem Amorese

Um ponto de encontro www.ultimAto.Com.br Setembro-Outubro, 2012

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lEiTOR pERguNTA

ed rené Kivitz

Envie sua pergunta para: edrenekivitz@ultimato.com.br

O que significa ser um discípulo de Jesus? — André, 23 anos

André, a relação de Jesus com seus discípulos (em hebraico: pl. talmidim, sing. talmid) segue o modelo da tradição judaica. Quando um rabino chamava alguém para segui-lo era como se perguntasse ao discípulo: “Você quer ser igual a mim?”. Todo rabino acreditava que seus discípulos poderiam aprender as coisas que ele sabia, fazer as coisas que ele fazia, viver do jeito que ele vivia. O processo do discipulado implicava a imitação do rabino, mas para isso o discípulo deveria seguir seu mestre bem de perto. Esse era o significado da recomendação do rabino Yose ben Yoezer: “Deixese cobrir pela poeira dos pés do seu rabino”. O apóstolo Paulo diria, portanto, que ser um discípulo de Jesus significava seguir a Jesus com a intenção de se tornar semelhante a ele. O propósito eterno de Deus é ter muitos filhos à imagem de seu Filho Unigênito, de modo que Jesus seja o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.28-30). Essa é a razão por que Deus concedeu os dons espirituais e as pessoas-dons: “Para que todos cheguemos à maturidade,

atingindo a medida da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). Fazer discípulos exige que os mestres sejam modelos que reflitam o Cristo para os seus seguidores: “Sejam meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1Co 11.1); “Tudo o que vocês aprenderam, receberam, ouviram e viram em mim, ponham-no em prática” (Fp 4.9). Pois a finalidade do discipulado é a transformação do discípulo à semelhança de Cristo: “Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que Cristo seja formado em vocês” (Gl 4.19); “A fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1.28). Em síntese, podemos lembrar as palavras de Santo Agostinho: “Quid est enim sequi nisi imitari?” (O que é seguir, senão imitar?). O discípulo de Jesus é um aprendiz completamente submisso, que imita seu mestre, acreditando que um dia será igual a ele.

ESTUDOS BÍBLICOS ULTIMATO O QUE SIGNIFICA SER DISCÍPULO? Acesse o estudo bíblico com base neste artigo. >> estudosbiblicos.ultimato.com.br

Considerando que toda autoridade é designada por Deus, deve ser respeitada e a ela deve-se submissão, posso participar de greve? — Elton, 28 anos

Elton, creio que sua questão pode ser esclarecida com três argumentos: o princípio estabelecido por Jesus quando disse que devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, os dois critérios de submissão às autoridades defendidos pelos apóstolos e o conceito de Estado de Direito. Jesus usou a tradição rabínica que ensinava que, assim como os imperadores estampavam sua imagem nas moedas, Deus colocou sua imagem no ser humano. Os seres humanos pertencem a Deus e devem ser cuidados como tal. Todo poder totalitário que exige sacrifício de vidas humanas deve ser desrespeitado. Paulo, apóstolo, disse que as autoridades civis são ministros de Deus para coibir o mal e promover o bem. Todo governante que usa sua espada em conivência com o mal e contra seus cidadãos está desrespeitando o fato de que sua autoridade é delegada por Deus para fazer a vontade de Deus e, portanto, deve ser desrespeitado. Além disso, os apóstolos ensinaram que “mais importa obedecer a Deus do que aos homens”. Quando a submissão aos homens implica pactuar com a injustiça, importa obedecer a Deus. Finalmente, devemos lembrar que vivemos em um Estado de Direito, em regime democrático, no qual a autoridade não está nas mãos dos governantes, mas da lei maior que rege a nação, no caso brasileiro, a Constituição da República Federativa do Brasil.

Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia www.edrenekivitz.com

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P oNto

FiNAl

rubem Amorese

A reconciliação e o mistério do perdão triangular

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apóstolo Paulo nos informa que Deus estava em o ofendido nasceu, como criança, entre seus ofensores. E seu ministério entre nós envolveu o bater às portas... Cristo reconciliando consigo o mundo e que nos deu o ministério da reconciliação, fazendo-nos Porém — dirá você —, e se aquele a quem ofendi nem me receber? Ou se meu ofensor me disser que nada me seus auxiliares nessa missão gigantesca (2Co 5.18-20). deve? E se eu achar que não devo nada ao irmão que me Em que consiste essa comissão? Como cumpri-la, se procura dizendo que o ofendi? nem sequer compreendemos seus mecanismos? Pensei em puxar o fio da meada investigando o Sugiro que, neste momento, alcemos voo da fria mecânica do perdão para a dimensão da graça e do poder mistério da graça de Deus, mas achei a tarefa difícil de Deus. Aqui, a triangulação se torna essencial. E a demais. Optei, então, por partir das nossas próprias resposta que encontro a essas perguntas é uma só: oração. experiências, com o auxílio da Palavra. Passo a orar pelo irmão a quem ofendi, ou pelo irmão Eis uma lição prática, de Jesus: “Deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com que me ofendeu, ou mesmo pelo irmão que teu irmão; e, então, voltando, faze a tua diz que eu o ofendi. Oro para abençoar. oferta” (Mt 5.24). Passo a orar insistentemente, inclusive por Alcemos voo da Sempre reverente diante do mistério, mim mesmo, pedindo que Deus me dê fria mecânica do gostaria de extrair três lições dos dois textos condições de prosseguir. perdão para a bíblicos mencionados. E depois refletir sobre Primeiro, peço o bem; em seguida, dimensão da graça desejo o bem; e, finalmente, disponhoelas. e do poder de Deus me a ser agente ou canal desse bem. Eis A primeira lição é que Deus se envolve com as brigas de seus filhos. A tal ponto uma progressão emocional misteriosa. que toda ira, separação ou ruptura assumem A princípio, cheia de impossibilidades. Contudo, prossigo em obediente oração. Se meu irmão uma dimensão triangular: eu, meu irmão (ou inimigo) não me perdoa, vou a Deus e oro por ele; se meu inimigo e Deus. “Quer me agradar? Então vá e se acerte com seu não me recebe, diante de Deus lhe ofereço “perdão irmão; então volte e me ofereça esse gesto. E isso me será liminar” (perdão a quem não o pediu). O resultado de agradável”. tudo isso é o triângulo funcionando; e o ministério da A segunda é que tanto o “devedor” quanto o reconciliação em curso. “credor” estão envolvidos nesse triângulo, sem que o comportamento de um seja condição para o do outro. A “Mas nada mudou! Eu orei tanto...” — alguém poderia dizer. um Deus diz: “Deixa no altar a tua oferta e vai procurar teu irmão”; a outro diz: “Se teu irmão te procurar, Nada mesmo? Observe melhor seu coração. E veja o arrependido... perdoa”. Mais ainda: “Se teu inimigo tiver que Deus já fez. fome, dá-lhe de comer... abençoa”. Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília, e foi E a terceira lição é: quando Jesus me diz para deixar no professor na Faculdade Teológica Batista de Brasília por vinte anos. Antes de se aposentar, foi consultor legislativo no Senado Federal e diretor de informática no Centro de Informática altar minha oferta e procurar meu irmão, não esclarece e Processamento de Dados do Senado Federal. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e se vou na condição de “devedor” ou de “credor”. Se eu Liturgia e Fábrica de Missionários — nem leigos, nem santos. ruben@amorese.com.br me lembrar que ofendi meu irmão, devo procurá-lo para pedir-lhe perdão; mas o que faço se me considero ESTUDOS BÍBLICOS ULTIMATO “credor”? Devo procurá-lo, mesmo assim? Nesse RECONCILIAÇÃO: QUEM DEVE TOMAR A INCIATIVA? momento, me vem à mente nosso exemplo maior. Não Acesse o estudo bíblico com base neste artigo. foi isso que Deus, em Cristo, fez? (Fl 2.7). Na encarnação, >> estudosbiblicos.ultimato.com.br

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Estudo bíblico: O que significa ser discípulo? - Ultimato 338