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SURPREENDIDO PELA

ESPERANÇA


6.

O QUE O MUNDO INTEIRO AGUARDA Os cristãos primitivos não acreditavam em “progresso”. Eles não achavam que o mundo estava se tornando, por si mesmo ou pela firme influência de Deus, um lugar cada vez melhor, mas também não acreditavam que o mundo estava piorando cada vez mais e que a melhor coisa a fazer seria escapar dele. Eles não eram dualistas. Sabiam que Deus faria alguma coisa para consertar o mundo. Atualmente, a maioria das pessoas que reflete sobre essas coisas tende a aceitar um desses pontos de vista, e ficamos surpresos ao descobrir que os cristãos primitivos sustentavam uma visão bem diferente. Eles acreditavam que Deus realizaria em todo o cosmos a mesma obra que ele havia realizado em Jesus na Páscoa. Essa esperança é tão surpreendente, e tão pouco discutida, mesmo nos círculos cristãos, que devemos analisá-la detalhadamente, observando as diferentes imagens desenvolvidas pelos escritores primitivos e que, juntas, formam um quadro impressionante de um futuro aguardado ansiosamente pelo mundo inteiro.


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ESTRUTURAS BÁSICAS DA ESPERANÇA

As demonstrações mais evidentes da esperança cristã, em termos gerais, podem ser encontradas no Novo Testamento, mais especificamente nas cartas de Paulo e no livro do Apocalipse. Em nossa análise, pretendemos destacar como elas contestam as duas visões opostas esboçadas anteriormente e o aparecimento de três temas. O primeiro é a excelência da criação. Diante das diferentes visões de mundo disponíveis no primeiro século, é realmente extraordinário o modo como o cristianismo primitivo se recusou a cair no dualismo cosmológico, que não considera a criação uma boa dádiva de Deus. No entanto, a criação é boa por ser criação de Deus, e não pela sua “natureza” independente ou autossuficiente. Não há qualquer sugestão de panteísmo, ou mesmo de panenteísmo. Não significa que Deus e o mundo sejam a mesma coisa; nem que todas as coisas sejam parte de algo chamado “deus”. Na teologia bíblica permanece o argumento de que o Deus vivo e único criou um mundo distinto dele mesmo, que não se confunde com ele. A criação foi, desde o princípio, um ato de amor, de reconhecimento da bondade de Deus. Deus viu tudo o que fez, e viu que tudo era muito bom, porém, não divino. O ponto alto da criação, que de acordo com Gênesis 1 é a criação dos seres humanos, foi projetado para ser o reflexo de Deus na adoração ao próprio Deus e no cuidado com a criação. No entanto, o fato de a raça humana refletir a imagem divina não significa que ela tenha um caráter divino. Essa distinção deve ficar bem clara, caso contrário, estaremos inclinados a cair em um panteísmo que não é capaz de compreender, muito menos de lidar com o problema do mal. O segundo está relacionado à natureza do mal. O mal é real e poderoso na teologia bíblica, mas isso não está baseado no fato de ter sido criado, nem no fato de não ser como Deus (uma vez que ser amado na vida pelo único Deus é suficientemente bom!), nem ainda no fato de que é feito de matéria e pertence ao espaço e ao tempo, em vez de ser puro espírito em um céu eterno. Nem — e isso é crucial — em ser transitório, feito para deteriorar-se. Não há nada de errado com a árvore que solta suas folhas no outono. Não há nada de errado com o


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pôr-do-sol que desaparece na escuridão da noite. O mal não consiste em nenhuma dessas coisas. Na verdade, a transitoriedade da boa criação serve como indicação para seu propósito maior. A criação é boa, mas sempre esteve voltada para o futuro. A transitoriedade é um sinal dado por Deus, apontando não do mundo material para um mundo não-material, mas do mundo como ele é para o mundo como ele foi feito para ser um dia; em outras palavras, apontando do presente para o futuro que Deus tem reservado. O projeto humano de organizar o jardim ainda não se completou, e sem a transitoriedade poderemos cair facilmente na idolatria, tratando a criatura como se fosse o criador — e Deus sabe quanto isso é fácil. Isso nos leva de volta ao que afirmamos nos dois primeiros capítulos: o que importa é a dualidade escatológica (a era presente e a era por vir), não o dualismo ontológico (uma “terra” má e um “céu” bom). O mal, então, não consiste no fato de ter sido criado, mas na idolatria rebelde praticada pelos seres humanos ao adorar e honrar elementos do mundo natural e não ao Deus Criador. Como resultado, o cosmos está em desordem. Em vez de os seres humanos administrarem sabiamente a criação de Deus, eles ignoraram o Criador e tentaram adorar algo menos exigente, algo que lhes proporcionasse poder ou prazer a curto prazo. Em consequência, a morte, que sempre fez parte da transitoriedade natural da boa criação, passou a ter uma nova dimensão, que a Bíblia às vezes chama de “morte espiritual”. Em grande parte do Antigo Testamento, especialmente no livro de Gênesis, a imagem predominante da morte é o exílio. Adão e Eva ouviram que morreriam no dia em que comessem do fruto, mas o que aconteceu de fato foi que eles foram expulsos do jardim. Abandonar a adoração ao Deus vivo significa voltar-se para o que não tem vida em si mesmo. Quando adoramos o que é transitório, isso poderá resultar em morte. Porém, quando praticamos essa idolatria, o mal se espalha pelo mundo numa espécie de reação em cadeia, com consequências incalculáveis. Misteriosamente, essa desordem parece confundir-se com a transitoriedade e a deterioração da boa, porém incompleta, criação. Assim, aquilo que erroneamente chamamos de “mal natural” pode ser enxergado, entre outras coisas, como um sinal que precede aquela

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“sacudida” final do céu e da terra, que os profetas entendiam como necessária para o surgimento do novo mundo de Deus (Ag 2.6ss; compare com Rm 8.18-26). O terceiro é o plano de redenção. Precisamente porque a criação é obra do Deus de amor, a redenção não é algo estranho ao Criador, mas um ato de entrega que ele assume com alegria. A principal característica da redenção é que ela não pretende jogar no lixo tudo que foi feito até o presente para começar uma “ficha nova”, partindo do zero. Antes, redenção é libertar o que está escravizado. Tendo compreendido que o mal não está na matéria, mas na rebelião contra Deus, então a escravidão dos seres humanos e do mundo não está na encarnação, cuja redenção significaria a morte do corpo e a consequente liberação da alma ou do espírito. A escravidão é quanto ao pecado, cuja redenção deve, por fim, envolver não apenas a essência da alma ou do espírito, mas uma nova vida em um novo corpo. Esse plano é apresentado claramente por toda a Bíblia, começando com a escolha de Israel como instrumento por meio do qual Deus irá redimir seu povo, seguido pela longa e tortuosa história sobre Deus e Israel, até o envio de seu filho, Jesus. A encarnação — já esboçada na tradição judaica na imagem do templo como a morada de Deus na terra — não foi um acidente de percurso, como os platônicos antigos e modernos imaginam, mas o cerne e o cumprimento, a longo prazo, do plano de um sábio e bondoso criador. Se alguém contar essa história da perspectiva da boa criação, a vinda de Jesus emergirá como o momento pelo qual toda a criação está esperando. Os seres humanos foram criados para serem mordomos de Deus sobre a criação; assim, aquele por meio de quem todas as coisas foram feitas, o filho eterno, a sabedoria eterna, “se fez carne” para poder se tornar verdadeiramente mordomo de Deus e governar sobre todo o mundo. Do mesmo modo, se alguém contar essa mesma história da perspectiva da rebelião humana, por meio da qual o pecado e a morte atingiram o mundo inteiro, a vinda de Jesus surgirá novamente como o momento ansiosamente aguardado por toda a criação: a expressão eterna do amor do Pai se tornará a expressão encarnada do amor do Pai, para que assim, por meio de sua morte


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sacrificial, e morte de cruz, toda a criação possa se reconciliar com Deus. Se juntarmos essas duas maneiras de contar a história e acrescentarmos um pouco de poesia, estaremos reescrevendo Colossenses 1.15-20. Essa é a verdadeira “cristologia cósmica” do Novo Testamento: não um tipo de panteísmo, dependente de seu próprio esforço e sem nenhum vínculo com o Jesus real, mas a história judaica recontada da perspectiva do próprio Jesus, tendo a cruz como meio pelo qual a boa criação se reconcilia com seu sábio criador. A harmonia dos versos no texto de Colossenses 1 revela o empenho de Paulo em manter junto criação e redenção.1 Redenção não é uma forma de tornar a criação um pouco melhor, como poderia sugerir algum evolucionista otimista. Também não é um modo de resgatar espíritos e almas de um mundo material e perverso, como os gnósticos gostariam que fosse. Redenção implica a renovação da criação, tratando o mal que a desfigura e corrompe. Quem a realiza é o mesmo Deus, revelado em Jesus Cristo, por meio de quem ela foi feita em primeiro lugar. É altamente significativo que, na passagem logo após o grande poema de 1.15-20, Paulo declare que o evangelho “foi pregado a toda criatura debaixo do céu” (1.23). O que aconteceu na morte e na ressurreição de Jesus Cristo não afeta apenas os seres humanos que creem no evangelho e por meio dele desfrutam de uma nova vida aqui e no porvir, mas repercute, de forma incompreensível para nós, nos mais distantes recônditos do universo. Assim, a excelência da criação, a natureza do mal e o plano de redenção, revelado por meio da ação de Jesus Cristo, são os temas constantes dos escritores do Novo Testamento, especialmente de Paulo e do autor do Apocalipse. Examinaremos agora os textos-chave do Novo Testamento que abordam a dimensão cósmica da esperança cristã. Há seis temas principais a serem explorados; vários deles são imagens poderosas, extraídas da própria natureza. Falaremos de Deus fazendo algo novo, mas que confirma o que foi feito no passado. Para isso, nada melhor do que falar de plantação e de colheita, de nascimento e de nova vida, e de casamento. Comecemos com a primeira imagem: plantação e colheita.

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PLANTAÇÃO E COLHEITA

Em 1 Coríntios 15, Paulo usa a imagem dos “primeiros frutos” (1Co 15.20,23; cf. Rm 8.23; 11.16; 16.5; 1Co 16.15; 2Ts 2.13; Tg 1.18), ou “primícias”, referindo-se às festas judaicas da Páscoa e do Pentecostes, ambas relacionadas à agricultura e à história da salvação. A Páscoa era a época em que o primeiro grão de cevada era apresentado diante do Senhor, enquanto o Pentecostes, sete semanas depois, era o tempo de apresentar os primeiros frutos da colheita do trigo. O oferecimento dos primeiros frutos significava que a grande colheita ainda estava por vir. Em relação à história da salvação, a Páscoa, evidentemente, comemorava a saída de Israel do Egito, enquanto que o Pentecostes, sete semanas depois, comemorava a chegada ao monte Sinai e a entrega da Torá. Esses dois significados se misturavam, uma vez que junto à promessa de libertar Israel e lhe dar a Lei estava também a promessa de que Israel herdaria a terra e que a terra seria fértil. Paulo aplica essa imagem da Páscoa judaica a Jesus, afirmando que ele representa os “primeiros frutos”, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos. No entanto, ele não seria um caso isolado. A oferta dos primeiros frutos era um sinal de que haveria muitos, muitos mais. A Páscoa de Jesus, isto é, o Calvário e a ressurreição que ocorreram por ocasião da Páscoa judaica foi, desde o princípio, interpretada à luz daquela festa, indicando que o poderoso senhor de escravos, o grande Egito, o pecado e a morte, foram derrotados quando Jesus atravessou o mar Vermelho da morte e chegou ao outro lado. Paulo continua a expor, um pouco mais adiante, a natureza do corpo ressurreto do cristão com base no novo corpo de Jesus. Observe como essas imagens, em total oposição ao gnosticismo, são indicativas de um movimento de continuidade e descontinuidade. Observe também, em oposição a qualquer tipo de otimismo evolucionista, que entre o plantio de sementes e a colheita do grão há um movimento de continuidade e descontinuidade, e especialmente, que o êxodo do Egito, simbolizado por esta imagem, só poderia ser um ato de pura graça. O “progresso”, por si só, não teria como fazê-lo.2


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A BATALHA VITORIOSA

Na continuação do texto da Primeira Carta aos Coríntios, Paulo passa a apresentar uma imagem um pouco diferente, não só estruturalmente ligada à ordem natural da criação, mas com muitos antecedentes bíblicos: a imagem de um rei estabelecendo seu reino e sujeitando todos os inimigos possíveis. Paulo é cuidadoso ao enfatizar que Jesus reinará até que ponha todos os inimigos “debaixo dos seus pés”, mas que Deus, o Pai, não se inclui nessa categoria. Qualquer que seja a cristologia implícita nesta passagem, Paulo está claramente articulando uma teologia da nova criação. Todo poder, toda autoridade, em todo o universo, deverá se sujeitar ao Messias, e por fim, a morte, o último inimigo, será vencida. Isso quer dizer que tudo aquilo que consideramos como um estado permanente do cosmos — entropia, caos e dissolução — será transformado pelo Messias, agindo como o agente do Deus criador. Se o otimismo evolucionista se cala diante das sérias suposições dos cientistas de que o universo, tal como o conhecemos hoje, está se desintegrando e não durará para sempre, o evangelho de Jesus Cristo anuncia que o que Deus fez por Jesus na Páscoa, ele fará, não somente pelos que estão “em Cristo”, mas pelo cosmos inteiro. Este será um ato da nova criação, paralelo e derivado do ato da nova criação, quando Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos. Vemos aqui um dos resultados diretos da declaração de que Jesus ressuscitou corporalmente dentre os mortos, e não de que com sua morte ele passou a ter uma existência diferente, de uma forma não física. Como observamos anteriormente, se depois de morto Jesus passasse a ter algum tipo de existência não física, a morte não teria sido derrotada. Ao contrário, permaneceria intacta, ou seria, quando muito, redefinida. Jesus, a humanidade e o mundo não conseguiriam ficar à espera de um futuro com um corpo igual ao que temos agora. É exatamente isso que Paulo está negando. A morte é o último inimigo, não uma boa parte da boa criação, portanto, ela deve ser derrotada para que o Deus doador da vida seja reconhecido como o verdadeiro Senhor do mundo.3 Quando isso tiver acontecido, e somente depois

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disso, Jesus, o Messias, o Senhor do mundo, entregará o comando do reino a seu Pai, e Deus será tudo em todos. Retornaremos a esse assunto em breve. CIDADÃOS DO CÉU — COLONIZANDO A TERRA

Antes de entrarmos no tema em questão, observe outra imagem real, em Filipenses 3.20-21. Essa imagem é bastante semelhante ao tema desenvolvido em 1 Coríntios 15 e tem como ponto crucial o mesmo salmo (Sl 8) que enfatiza a autoridade de Jesus sobre todos os outros poderes. Filipos era uma colônia romana. Augusto havia estabelecido seus veteranos ali, após as batalhas de Filipos, em 42 antes de Cristo, e Actium, em 31 antes de Cristo. Nem todos que moravam ali eram cidadãos romanos, mas todos conheciam o significado da palavra “cidadania”. As colônias romanas surgiram por dois motivos. Primeiramente, com o objetivo de estender a influência romana ao redor do mundo mediterrâneo, criando células e redes de pessoas leais a César em um contexto mais amplo. Segundo, por ser uma forma de evitar os problemas de superpopulação na capital. O imperador por certo não queria soldados aposentados, com tempo (e sangue) nas mãos, perambulando por Roma, prontos a causar problemas. Seria muito melhor se eles estivessem cultivando terras ou cuidando de negócios em outro lugar. Assim, quando Paulo diz, “nossa pátria está nos céus”, ele não quer dizer que em seguida à morte iremos morar no céu.4 Ele está dizendo que o Salvador, o Senhor, o Rei Jesus — todos esses títulos, evidentemente, são imperiais — virá do céu para a terra, para mudar a condição atual e a situação de seu povo. A palavra-chave aqui é “transformar”: ele transformará nossos frágeis corpos atuais para torná-los como seu corpo glorioso. Jesus não dirá que nossos corpos atuais são supérfluos e, portanto, podem ser descartados. Nem irá simplesmente melhorálos, talvez acelerando seu ciclo evolutivo. Em uma manifestação de grande poder — o mesmo poder que o ressuscitou, como Paulo diz em Efésios 1.19-20 — ele transformará nossos corpos atuais em corpos


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semelhantes ao dele, como parte de sua tarefa de sujeitar todas as coisas a si mesmo. Embora esteja se referindo primeiramente à ressurreição humana, Filipenses 3 indica que ela ocorrerá no contexto da transformação vitoriosa de todo o cosmos.5 DEUS SERÁ TUDO EM TODOS

Voltando a 1 Coríntios 15, lemos que, como propósito de toda a história, Deus será “tudo em todas as coisas”, ou, nas palavras de Paulo, “tudo em todos” (15.28). Esta é uma das mais claras declarações do verdadeiro cerne da visão de mundo voltada para o futuro apresentada no Novo Testamento. Nesse sentido, o problema com o otimismo evolucionista de Teilhard de Chardin, bem como de todas as formas de panteísmo, é que esse tipo de pensamento destrói todo o futuro no presente, na verdade, no passado. Deus será tudo em todos. O tempo verbal é futuro. Esse momento só irá chegar com a vitória final sobre o mal e, particularmente, sobre a morte. Sugerir que ele já chegou é corroborar com o mal e com a morte. Como então podemos refletir seriamente sobre a relação atual de Deus com a ordem criada? Se Deus é, de fato, o criador do mundo, então a criação é distinta de Deus. Não se trata de um problema moral, como alguns têm pensado (se Deus é bom, então quando ele faz algo distinto de sua própria natureza, isso pode não ser tão bom quanto ele, portanto, ao fazê-lo, ele não é um Deus bom). Também não é uma questão de lógica (se, no princípio, Deus era tudo que existia, como haveria espaço ontológico para qualquer outra coisa ou ser?). Como dissemos anteriormente, se a criação foi um ato de amor, então isso deve tê-la envolvido a criação de modo a torná-la distinta de Deus. Esse amor, portanto, permite que a criação seja ela mesma, sustentando-a em providência e em sabedoria, mas não em domínio e poder. A lógica não tem como compreender o amor; assim, pior para ela. Esse, no entanto, não é o final da história. No fim, Deus pretende encher toda a criação com sua presença e com seu amor. Isso serve de réplica, ao menos em parte, à proposta de Jürgen Moltmann de trazer

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de volta a doutrina rabínica do zimzum, pela qual Deus como que se retrai ou se recolhe para dentro de si mesmo a fim de dar espaço ontológico para algo mais que não seja ele mesmo.6 Se estou certo, o que acontece é exatamente o contrário. O amor criativo de Deus, precisamente por ser amor, cria um novo espaço para aquilo que é genuinamente distinto de Deus. O Novo Testamento desenvolve a doutrina do Espírito exatamente nessa direção, mas Isaías nos oferece um vislumbre do futuro. No capítulo 11, antecipando as passagens que falam sobre a “nova criação”, e nos capítulos 65 e 66, o profeta declara que “a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Is 11.9; Hc 2.14). Trata-se de uma declaração extraordinária. Como as águas podem cobrir o mar? Elas são o mar. Ao que parece, Deus pretende inundar o universo dele mesmo; como se o universo, o cosmos inteiro, tivesse sido projetado para ser o receptáculo do seu amor. Poderíamos até mesmo sugerir, como parte de uma estética cristã, que o mundo é belo, não apenas por nos lembrar constantemente de seu Criador, mas por apontar para o futuro: ele foi projetado para ser preenchido, inundado, encharcado com o amor de Deus. Assim como um cálice é belo porque sabemos o que lhe foi designado a conter, ou como um violino é belo porque conhecemos a música que ele é capaz de produzir. Retornarei a esse ponto mais tarde. A réplica ao panteísmo manifestado, de um lado, pelo otimismo evolucionista ou progressivo, e de outro pelo dualismo gnóstico ou maniqueísta começa agora a surgir na forma da escatologia cósmica oferecida no Novo Testamento. A criação é boa, porém incompleta. Um dia, quando todas as forças da rebelião forem derrotadas e a criação responder com alegria e liberdade ao amor de seu criador, Deus a encherá de si mesmo, para que ela possa permanecer independente, distinta de Deus, e ao mesmo tempo ser inundada pela própria vida de Deus. Essa é uma das características do paradoxo do amor: quando o amor é livremente concedido, ele cria o contexto para ser livremente correspondido, formando assim um ciclo contínuo, onde a completa liberdade e a perfeita união não se anulam, mas se completam e celebram essa união.


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NOVO NASCIMENTO

Chegamos, assim, a Romanos 8, onde encontramos uma imagem ampliada do novo nascimento, profundamente inserida na própria ordem criada. Essa passagem do livro de Romanos tem sido constantemente negligenciada por exegetas e teólogos que pretendem transformar Romanos em um livro que trata apenas da maneira como indivíduos pecadores são individualmente salvos. A imagem do novo nascimento, inserida na própria criação é, no entanto, um dos pontos mais importantes da carta e, na verdade, de todo o pensamento de Paulo. Nessa passagem, Paulo novamente usa a imagem do êxodo do Egito, mas desta vez não relacionada a Jesus ou a nós mesmos, mas à criação como um todo. A criação, ele diz, (v. 21) está, no momento, “no cativeiro”, como os filhos de Israel. O plano de Deus era dirigir a criação à uma existência sábia e sensata, por meio das criaturas humanas criadas à sua imagem. Porém, essa foi sempre uma promessa para o futuro, a promessa de que, um dia, o ser humano real, a verdadeira imagem de Deus, seu filho encarnado, viria para conduzir a raça humana à sua verdadeira identidade. Enquanto isso, a criação estaria sujeita à futilidade, à transitoriedade e à decadência, até o tempo em que os filhos de Deus serão glorificados, quando o que aconteceu a Jesus na Páscoa acontecer a todo o seu povo. É nesse ponto que Romanos 8 junta-se a 1 Coríntios 15. Toda a criação, como ele diz no versículo 19, aguarda, em ardente expectativa, o dia em que os filhos de Deus serão revelados, o dia em que a ressurreição anunciar a eles sua nova vida. Paulo, então, usa a imagem das dores de parto — uma metáfora judaica bem conhecida para anunciar o surgimento da nova era de Deus — para se referir não somente à igreja (v. 23) e ao Espírito, alguns versículos depois, mas à própria criação, no versículo 22, enfatizando mais uma vez o movimento de continuidade e descontinuidade. Esta não é uma suave transição evolucionista, em que a criação simplesmente passa para um patamar superior, para um estilo de vida mais elevado. Este é um processo traumático, envolvendo contrações e

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gemidos e a completa descontinuidade, tal como quando mãe e filho são separados e se tornam não um ser, mas dois. Porém, também não é uma rejeição dualista da matéria, como se Deus devesse rejeitar a criação presente por ela ser transitória e repleta de destruição e morte, e começar tudo de novo. A metáfora usada por Paulo para demonstrar esse ponto decisivo em seu argumento mostra que ele não estava pensando em eliminar a criação, nem em simplesmente firmar seu desenvolvimento. O que ele tinha em mente era o drástico e dramático nascimento da nova criação, saindo do útero do passado. O CASAMENTO DO CÉU E DA TERRA

Chegamos agora à última, e talvez à maior imagem na Bíblia inteira, da nova criação e da renovação cósmica. Esta cena, descrita nos capítulos 21e 22 do Apocalipse, é pouco conhecida ou mesmo considerada (talvez porque, para podermos lê-la, precisamos ler também os demais capítulos do livro do Apocalipse, que nos parece um tanto assustador). Dessa vez, a imagem é a de um casamento. A nova Jerusalém desce do céu, como uma noiva adornada para o seu marido. Notamos de imediato o quanto essa cena é diferente de todas as outras imagens aparentemente cristãs, que mostram no fim da história a alma do cristão indo para o céu, sem nenhum adorno, para encontrar, temendo e tremendo, seu Criador. Como lemos em Filipenses 3, não somos nós que vamos para o céu; é o céu que vem a terra; na verdade, é a igreja, a Jerusalém celestial,7 que desce a terra. Esta é uma rejeição definitiva a todos os tipos de gnosticismo, a toda visão de mundo que entende que o propósito final é a separação entre Deus e o mundo, entre matéria e espírito, entre terra e céu. É a resposta final à oração do Pai-Nosso: que o reino de Deus venha e que a sua vontade seja feita assim na terra como no céu. É a isso que Paulo está se referindo em Efésios 1.10, ao afirmar que o plano de Deus era convergir em Cristo todas as coisas, tanto as do céu como as da terra. É o cumprimento final, por meio de imagens repletas de simbolismo, da promessa feita em Gênesis 1, pela qual a criação do


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homem e da mulher, juntos, reflete a imagem de Deus no mundo. E é também o cumprimento final do grande plano divino de derrotar e abolir a morte para sempre — o que significa resgatar a criação do estado de decadência em que ela está. Ao que parece, céu e terra não estão, apesar de tudo, em oposição, nem será preciso separá-los para sempre, quando todos os filhos do céu forem resgatados dessa terra cruel. Também não podemos dizer que se trata apenas de maneiras diferentes de olhar para a mesma coisa, como sugerem alguns tipos de panteísmo. Não, céu e terra não são a mesma coisa; são diferentes, radicalmente diferentes; no entanto, foram feitos um para o outro, da mesma maneira que o homem e a mulher (é o que sugere o Apocalipse). Quando eles finalmente se unirem, isso será motivo de regozijo, e assim como o casamento, este é um sinal criacional de que o projeto de Deus está se cumprindo; que os opostos na criação foram feitos para a união, não para a competição; que o amor, e não o ódio, tem a última palavra no universo; que a fertilidade, e não a esterilidade, é a vontade de Deus para a criação. A promessa contida nessa passagem, portanto, é o que Isaías previu: a promessa de um novo céu e uma nova terra, em substituição ao antigo céu e à antiga terra, que estavam destinados à destruição. Isso não quer dizer, como tenho insistido até aqui, que Deus começará tudo do zero. Se fosse assim, não haveria celebração, nem vitória sobre a morte, nem essa longa preparação, finalmente concluída. No desenrolar do capítulo, a Noiva, a esposa do Cordeiro, é descrita amorosamente como a nova Jerusalém, prometida pelos profetas do exílio, especialmente Ezequiel. No entanto, diferentemente da visão de Ezequiel, na qual a reconstituição do templo ocupa lugar de destaque, não há nenhum templo nessa cidade (21.22). O templo de Jerusalém simboliza a presença de Deus entre o povo de Israel. Porém, quando Deus está de fato presente, o símbolo não é mais necessário. Como em Romanos e em 1 Coríntios, o Deus vivo habitará com o seu povo, no meio deles, enchendo a cidade com a sua glória e com o seu amor, derramando graça e cura no rio da vida, que flui da cidade para as nações. Há um sinal aqui do projeto futuro que aguarda os remidos no mundo novo e definitivo de Deus. Em vez de se assentarem sobre

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nuvens, tocando harpas, como as pessoas muitas vezes imaginam, o povo redimido de Deus no novo mundo será agente de seu amor, que se manifestará de novas maneiras, para realizar tarefas criativas, celebrar e ampliar a glória do seu amor.

*** Certamente há muitas outras passagens no Novo Testamento que falam da nova criação. Alguns gostariam de analisar detalhadamente a gloriosa imagem da cidade que descerá do céu, e que está no momento presente no céu, mas destinada à terra, que encontramos em Hebreus 11 e 12. Outros, por certo, gostariam de discutir a famosa passagem de 2 Pedro 3 que repercute as palavras de Isaías e fala da espera por novos céus e nova terra, nos quais habita justiça. Comentários sobre essa passagem podem ser encontrados em meu livro The Ressurrection of the Son of God. Devemos incluir aqui Efésios 1.15-23, uma das mais notáveis declarações sobre o tema. Porém, retorno, como tenho feito inúmeras vezes ao longo dos anos, ao magnífico poema encontrado em Colossenses 1, e que muitas vezes tem sido reduzido a um retrato superficial de um suposto “Cristo cósmico”, legitimando um Jesus isolado de seu contexto histórico e uma transição condescendente, distante de uma teologia judaica da criação e próxima a várias versões conciliadoras do pensamento de Teilhard de Chardin e similares. No entanto, o texto de Colossenses permanece como uma advertência a todas essas tentativas, principalmente porque, se Jesus é a chave do universo, evidentemente estamos nos referindo ao Jesus que foi crucificado e ressuscitou dentre os mortos. Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra. Coisas que podemos ver e que não podemos — tronos, soberanias, principados e potestades — Tudo foi criado por meio dele e para ele.


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Ele é o primeiro, antes de todas as coisas. E nele tudo subsiste. Ele é o supremo, a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, Para em todas as coisas ter a primazia. Porque aprouve a Deus que nele habitasse toda a plenitude, E por meio dele, reconciliar consigo mesmo todas as coisas, Fazendo a paz por meio do sangue da sua cruz, Por meio dele — sim, reconciliasse as coisas sobre a terra, E também nos céus. Colossenses 1.15-20

Certamente, é só por meio de imagens, metáforas ou símbolos que podemos imaginar como será o novo mundo que Deus pretende criar. Essa é a maneira correta e apropriada. As expressões que usamos para descrever o futuro, como tenho mencionado, são como sinalizadores indicando o caminho em meio a uma neblina intensa. O sinalizador não nos oferece uma fotografia do que iremos encontrar logo que chegarmos, mas nos oferece uma indicação segura da direção que devemos seguir. Minha proposta é que o Novo Testamento nos oferece uma imagem tão coerente da esperança futura de todo o cosmos, fundamentada na ressurreição de Jesus, quanto necessitamos ou poderíamos ter de um futuro prometido ao mundo inteiro. Nesse futuro, sob a soberania e o sábio governo do Deus criador, a corrupção e a morte serão eliminadas e uma nova criação nascerá, para a qual a criação presente será como uma mãe para o filho. Essa imagem, que alguns escritores recentes, como John Polkinghorne, têm demonstrado, fornece uma configuração à esperança cristã que lhe permite estabelecer um diálogo com a física mais avançada de um modo que a síntese oferecida por Teilhard de Chardin e outros simplesmente não consegue estabelecer. A criação não é um projeto que deve ser abandonado nem um processo evolutivo. O que ela precisa é de redenção e de renovação; e isso é prometido e garantido pela ressurreição de Jesus dentre os mortos. É isso o que o mundo inteiro está aguardando.

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Isso, por sua vez, abre caminho para outros temas relacionados à esperança cristã futura, como Deus consertando todas as coisas por meio da vinda de Jesus, e a ressurreição em um corpo. Ao meditar sobre os planos futuros de Deus para o mundo, lembrei-me de um grande mestre e pastor, bispo Lesslie Newbigin. Quando alguém lhe perguntou certa vez se ele era otimista ou pessimista em relação ao futuro, ele respondeu simplesmente: “Não sou otimista, nem pessimista. Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos!”. Este capítulo é uma maneira de dizer “amém” a essas palavras. O mundo inteiro está aguardando, ansiosamente, o momento em que a vida e o poder da ressurreição irão invadir a terra, enchendo-a com a glória de Deus, como as águas cobrem o mar. Antes de passarmos a tratar do tema da ressurreição propriamente dito, devemos nos reportar a um elemento vital na imagem do futuro definitivo de Deus no Novo Testamento: a presença pessoal de Jesus.


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O que o mundo inteiro aguarda