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MARTIN CARONE DOS SANTOS

MILTON LEITE

PÁGINA 31

“Hoje temos muitas faculdades formando jornalistas no tapa” PÁGINA 16

392 A GOSTO 2013

FERNANDO FRAZÃO/ABR

ÓRGÃO OFICIAL DA A SSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA

Atônitos diante da amplitude das manifestações de ruas que sacudiram o País, os governos e as lideranças políticas não sabem como tirar o Brasil desse impasse. PÁGINA 23 E EDITORIAL A REPRESSÃO ALUCINADA NA PÁGINA 2.

O fotógrafo Yasuyoshi Chiba e a publicitária Renata da Paz (acima): vítimas da brutalidade policial.

A censura econômica levou à morte 150 jornais alternativos do Brasil. PÁGINA 3 VIDAS LUIZ PAULO HORTA • DOMINGUINHOS • HELEN THOMAS


MARCELLO CASAL JR/ABR

EDITORIAL

DESTAQUES 03 E SPECIAL - Uma imprensa sem alternativas ○

11 REFLEXÕES - O medo necessário, por Rodolfo Konder ○

13 PROPOSTA - Voto distrital misto, uma solução, por Victor Faccioni ○

13 V ISITA - As homenagens da ABI ao Papa Francisco, o Peregrino da Paz ○

14 JORNALISMO - E o que era segredo virou manchete... ○

15 H ISTÓRIA - Os 150 anos da Guerra do Paraguai ○

16 DEPOIMENTO - Que fase do Milton Leite! ○

31 TRAJETÓRIA - Eliane Brum e as histórias para modificar a vida ○

32 H ISTÓRIA - Um parque com a alma de São Paulo ○

33 T ÉCNICA - A arte de entrevistar escritores ○

34 C INEMA - Dossiê Jango questiona a morte do ex-Presidente ○

36 LANÇAMENTO - Três vezes Graciliano ○

38 Q UADRINHOS - Os sonhos da pequena Nemo ○

Durante as manifestações, a Polícia Militar promoveu agressões inadmissíveis que feriram gravemente jornalistas e manifestantes.

A REPRESSÃO ALUCINADA indecente domínio do sistema de transporte público por insaciáveis empresas privadas, que auferem lucros assombrosos com a cumplicidade dos governantes, as mazelas da educação, a impiedade do sistema de atendimento à saúde da população, exatamente aquela que mais depende da gestão pública desse setor, a corrupção que grassa na administração pública e nos negócios privados. O povo não agüenta mais o descaramento com que os recursos públicos são desviados para contas privadas. Nunca se roubou tanto no País como atualmente.

AS VIGOROSAS MANIFESTAÇÕES de ruas que sacudiram o País de ponta a ponta em junho e julho deixaram atônitas as autoridades governamentais nos diferentes níveis de poder, as lideranças políticas e partidárias e experimentados analistas, que não supunham que o descontentamento e a indignação do povo tivessem raízes tão profundas como esses protestos revelaram. A princípio incrédulos e indiferentes ao clamor das ruas, os donos do poder só recuaram em seu autoritarismo quando viram, sobretudo nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, que o povo expressava seu cansaço e sua insubmissão diante de tantos desmandos que os governos vêm praticando.

COM ESSAS MANIFESTAÇÕES, pôs-se a nu o elenco intolerável de políticas, decisões e atos contrários ao interesse público, como a condescendência dos governos diante do MARCELOCAMARGO/ABR

ESTA EDIÇÃO DO JORNAL DA ABI registra uma suma destes momentos de pavor impostos à cidadania e cobra do Ministério Público da União e de diferentes Estados ações para responsabilização penal e civil desses criminosos e dos hierarcas que os deixaram à solta. 2

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44 E LEIÇÃO - Schröder é reeleito na Fenaj com 2.524 votos ○

SEÇÕES 12 A CONTECEU NA ABI Órgão Especial do TJ-RJ reafirma a validade da posse da diretoria da ABI ○

L IBERDADE DE I MPRENSA 23 Violência da PM-RJ causa perda de um olho de jovem de 26 anos ○

26 Quando o celular é uma arma ○

27 RSF quer punir agressores de jornalistas durante a visita do Papa ○

D IREITOS H UMANOS 28 O dramático relato do advogado Wellington Cantal, perseguido e torturado por defender posseiros esbulhados ○

30 O golpe puniu militares que defendiam a legalidade ○

AS MANIFESTAÇÕES EVIDENCIARAM também que o Estado Democrático de Direito é alvo de agressões inadmissíveis, como as praticadas em São Paulo, Rio e Brasília desde a malsinada Copa das Confederações, em que as autoridades, cedendo ao colonialismo da Fifa, criaram zonas interditadas a manifestações da cidadania, com grosseira violação do texto constitucional. Do furor da repressão violenta e desalmada restaram vítimas com lesões graves, entre jornalistas e pessoas comuns perseguidas pelas tropas alucinadas.

41 TELEVISÃO - A ascensão, agonia e morte da TV Manchete

MAURÍCIO AZÊDO

40 QUADRINHOS - Uma viagem singela, por Rita Braga

30 Caminhos da verdade, por Fábio Lucas ○

V IDAS 45 Helen Thomas, a ‘fera’ da Casa Branca ○

46 Dominguinhos, o discípulo de Gonzagão que se tornou um gênio da sanfona ○

47 Luiz Paulo Horta, jornalista e músico ○

O DESENHISTA E CARICATURISTA FERNANDES ILUSTRA A HISTÓRIA DO PARQUE ANTARCTICA. PÁGINA 32


ESPECIAL

POR PAULO CHICO MUNIR AHMED

Entre 1964 e 1980, nasceram e morreram 150 jornais alternativos no Brasil. Menos do que enfraquecidos pela derrubada do inimigo em comum – a ditadura militar – eles parecem ter sido vítimas de outro tipo de censura: a econômica. Ignorados pelos anunciantes privados, e abandonados pelo Estado, eles não resistiram. Saíram de cena. Poucos ainda persistem. Mas, embaladas pelas plataformas digitais, coberturas diferenciadas ganham espaço. E já incomodam a chamada ‘grande mídia’.

Democracia pressupõe liberdade. Esta, por sua vez, rima com diversidade. Mas para quem busca meios de informação que escapem do filtro dos conglomerados de comunicação parece não existirem muitas opções. ‘Não há mais imprensa alternativa’, lamentam alguns. Será mesmo? Nas décadas de 1960 e 1970 dezenas de títulos com propostas diferenciadas se espalharam pelo Brasil. O fenômeno editorial arrefeceu justamente a partir do processo de abertura lenta e gradual feita pelos militares, que culminou com a redemocratização, já na década de 1980. Amenizou-se o ambiente de tensão que amedrontava o País. Saía de cena o inimigo comum de toda uma geração de combativos jornalistas: a ditadura implantada no golpe de 1964. A mudança de cenário político certamente tirou parte do poder de fogo de veículos que, de certa maneira, tinham como compromisso primeiro contestar o regime de exceção, seus abusos e barbáries. Contudo, terá sido somente este o motivo que levou ao fechamento de tantas publicações? Não, parece que não. Há outros aspectos relevantes nesta crônica sobre a morte anunciada. JORNAL DA ABI 392 • AGOSTO DE 2013

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ESPECIAL UMA IMPRENSA SEM ALTERNATIVAS

Entre os alternativos, havia de tudo um pouco. Publicações de caráter mais conservador e político, como Opinião (lançado em 1972), Movimento (1975) e Em Tempo (1977). Outras mais rebuscadas, menos doutrinárias e voltadas para reflexões existenciais, como Bondinho (1970), Grilo (1971) e Ex (1973). E exemplares da linhagem satírica, feitos basicamente por intelectuais, humoristas e cartunistas cariocas, como Pif Paf (1964), O Pasquim (1969), Flor do Mal (1970) e Enfim (1979). Não dá para deixar de fora os representantes regionais – isto é, produzidos fora do eixo Rio-São Paulo – como Pato Macho (1971), editado por Luiz Fernando Veríssimo, em Porto Alegre, e Fala Paraná (1981), braço do Movimento na cidade de Londrina. Os temas também eram diversos. Lampião (1978) abriu espaço para a

discussão sobre o homossexualismo. Na relação de ‘falecidos’ há veículos que marcaram época, como os jornais Última Hora, Correio da Manhã, e Tribuna da Imprensa, além da TV Excelsior. Os títulos listados acima estão todos extintos. Outros poderiam engrossar este obituário. É, no mínimo, ingênuo pensar que a causa mortis de tantos veículos tenha sido apenas a falta de capacidade de seus jornalistas de se adaptarem ao contexto de um Brasil que trilhava o caminho de retomada da democracia – causa pela qual tanto lutaram. Aquelas eram Redações habitadas por gente competente, talentosa. Alguns eram mesmo geniais. Vários estão na ativa até hoje. Dinheiro. Sim, o vil metal que, diz o ditado, não traz felicidade. Mas, comprova a realidade, faz girar quase tudo. Menos do que da perda do foco editorial –

diante da queda do regime militar –, a mídia alternativa parece ter sido vítima de outra espécie de ditadura, não mais pautada pelo patrulhamento político, mas sim pela asfixia econômica. Com a reabertura, os governos, já eleitos democraticamente, passaram a gozar de liberdade para a destinação de verbas públicas de publicidade. E, curioso, concentraram seus recursos nos já estabelecidos, nos jornais, emissoras de tv e de rádio que pertencem aos grandes grupos de comunicação. Neste ponto, Presidentes, Governadores e Prefeitos eleitos pelo voto direto não se diferenciam tanto de seus antecessores militares. Os ‘nanicos’ – como eram chamados os veículos alternativos – acabaram sendo condenados à míngua. À extinção. Não foram reconhecidos pelo Estado como

relevantes para a construção de um ambiente plural de comunicação. Para entender como ocorreu esta concentração da mídia, identificar os responsáveis por este processo, apontar suas conseqüências e buscar alternativas, o Jornal da ABI ouviu diversos especialistas que, nesta reportagem, ajudam a compreender melhor o quanto é complexo o setor das comunicações no Brasil. Quem inicia as análises por aqui é Francisco José Bicudo Pereira Filho, jornalista e professor universitário, mestre em Ciências da Comunicação pela Eca-Usp e autor do livro Caros Amigos e o Resgate da Imprensa Alternativa no Brasil. De forma didática, Chico Bicudo, como costuma ser chamado, começou pelo princípio de tudo: a definição da chamada imprensa alternativa – ou independente.

FRANCISCO BICUDO

“A alocação das verbas publicitárias para os meios de comunicação é indecente”

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DIVULGAÇÃO

“A imprensa alternativa se define a partir de três olhares. O primeiro deles, de natureza política. São veículos que atuam com a visão mais à esquerda sobre a realidade, defendendo princípios democráticos, humanistas, com ampliação dos direitos dos trabalhadores, defesa irrestrita dos direitos humanos, contrariando o discurso dominante na chamada imprensa de referência, que é mais conservador, reacionário, pautado pelo cerceamento das liberdades. Os alternativos denunciam de forma contundente situações que devem ser combatidas, como preconceitos, racismo, homofobia, e a não defesa dos direitos das mulheres”, explica o professor Bicudo, que aponta a seguir os outros dois pontos vitais que caracterizam esta prática jornalística. “Sob o aspecto de execução, eles tendem a ser veículos que valorizam muito mais a questão da linguagem, da apuração, do rigor, de fazer prevalecer a melhor versão da realidade, do cuidado nas entrevistas – apresentando um padrão melhor do que estamos acostumados a encontrar na maioria dos veículos da grande imprensa. Nestes, muitas vezes em nome do entretenimento, do espetáculo ou da pressa em chegar às bancas, a gente se depara com um jornalismo pouco cuidadoso e, não raro, que vende teses e faz publicidade, e não exatamente trabalha com histórias e narrativas. Eles também estão a serviço de alguns interesses econômicos e políticos. Por fim, claro, surge a questão do financiamento. Como são veículos menores, os ‘nanicos’ não contam com o aporte dos anúncios de empresas privadas por questões ideológicas, evidentemente pelas questões conflitantes. Também não contam com o apoio das verbas oficiais, do Governo, pelo seu perfil questionador. Assim, têm que buscar formas alternativas

Francisco Bicudo: a favor da redistribuição da verba publicitária do Governo federal.

“É inaceitável que, ao invés de usar verbas publicitárias oficiais para ampliar a possibilidade de diferentes vozes se manifestarem, os Governos estejam fazendo exatamente o contrário.” de financiamento, como ações entre amigos, promoções estratégicas de internet, vendas de assinaturas e em bancas, além de pequenos anunciantes”. Para Francisco Bicudo, o segmento da mídia alternativa brasileira não se perdeu

– apenas se transformou. “Combater um inimigo comum, durante um regime de exceção, era mais fácil. Neste sentido, combater a ditadura militar, com o aglutinar, a soma de forças, facilitava as coisas. Com a retomada da democracia, os jornalistas se dispersaram, foram abraçar diferentes experiências. As forças da imprensa alternativa ainda podem e continuam a ser encontradas, talvez não com o grau de resistência de antigamente, até pelo contexto. Elas estão vivas nas rádios comunitárias, na internet. Na web, a Mídia Ninja tem sido importantíssima, sobretudo no contexto das recentes manifestações de ruas. É ela quem está conseguindo cobrir tudo de fato, de perto, das ruas, com proximidade, e não de cima dos prédios e dos helicópteros. No impresso também temos alguns casos pontuais, como as revistas Caros Amigos e CartaCapital. E blogueiros classificados como progressistas, tais como Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha. Um pessoal interessante, que vem tentando abrir fileiras na internet.” Bicudo contemporiza sobre qual deve ser o papel da mídia alternativa. Durante os oito anos do Governo FHC, por exemplo, havia uma alternativa de imprensa mais clara do que nos dias atuais, exatamente pelo fato de o projeto da época ser evidentemente conservador, baseado no neoliberalismo, na flexibilização dos direitos do trabalho, nos ataques aos movimentos sociais e no incremento das privatizações. Havia uma consistência de unidade para rechaçar de forma contundente o discurso tucano. “Com as eleições de Lula e Dilma Rousseff, embora eu possa fazer uma série de restrições em função de alianças, por vezes, perigosamente flertando com a direita, o fato é que

temos, em linhas gerais, um Governo com viés de esquerda. Também é preciso se pensar o que é uma imprensa alternativa neste contexto. Como ela pode atuar, quando está no poder um governo de linhagem de esquerda? Acho que ela deveria tensionar: radicalizar este exercício de defesa da democracia, combatendo a homofobia, defendendo a reforma agrária, trazendo à tona discussões abertas sobre o aborto, a cobrança de impostos sobre grandes fortunas, maiores investimentos em educação, além da própria necessidade de se promover a democratização da mídia. A mídia alternativa deveria desempenhar o papel de ampliar seu espectro de atuação.” Falando em radicalizar, Bicudo é taxativo ao tratar da questão do não emprego das verbas públicas nos veículos alternativos. “Precisamos repensar com urgência, nesse processo de democratização da mídia, essa questão da alocação das verbas publicitárias para os meios de comunicação. Como está, é indecente. É inaceitável que, no ano de 2013, ao invés de usar verbas publicitárias oficiais para ampliar a possibilidade de diferentes vozes se manifestarem, os Governos estejam fazendo exatamente o contrário. Usando essas verbas para concentrar ainda mais a produção da mídia. Se pegarmos os últimos balanços, é uma excrescência o que o Governo federal investe de verbas na Folha de S.Paulo, na Editora Abril, sobretudo na revista Veja, e na TV Globo. Isso só faz desequilibrar ainda mais o jogo que já é absolutamente desfavorável para os médios e pequenos. Deveria haver uma redistribuição, de maneira a sustentar veículos de tamanhos, alcance, posturas políticas e públicos variados.” Aqui cabe um importante parênteses. Embora defenda melhor partilha no re-


passe de verbas de publicidade oficial, o acadêmico diz ser contrário a projetos que obriguem os Governos a anunciarem em jornais e rádios de pequeno porte. “Seria grande o risco de sair da ditadura das verbas privadas e cair numa ditadura de chapa-branca, por causa desse financiamento oficial. Uma das exigências da imprensa alternativa é a garantia irrestrita de independência. Ela deve, claro, contar com verbas públicas, mas não pode ficar atrelada, dependente disso. Vai acabar ‘escorregando’, deixando de fazer um jornalismo plural e democrático. Acabaria se transformando, infelizmente, em assessorias de imprensa do Poder Público. Esse risco precisa ser evitado!”, alerta. No entender de Bicudo, a democratização da mídia no Brasil, assim como no restante do mundo, passa pelo ambiente digital. Ainda não dá pra imaginar que a internet seja verdadeiramente concorrente dos grandes veículos. Mas há novidades alvissareiras na rede. “É claro que a internet pode ser usada para reproduzir neonazismo, racismo, pedofilia e um monte de lixo que precisamos combater. Mas ela é um meio bacana de profusão de valores democráticos, de princípios republicanos e humanistas. A internet pode e vem cumprindo esse papel de resistência. E vem pautando o noticiário dos veículos tradicionais. Um exemplo, bastante representativo, foram as manifestações populares de junho. A Folha de S.Paulo e o Estadão chegaram a ‘autorizar’ que as tropas entrassem batendo para valer no manifestantes, mas tiveram que recuar, diante das reações daquilo que era publicado nas análises, textos, fotos, enfim, informações que foram compartilhadas, pulverizadas, distribuídas e reverberadas nas redes sociais. Volto a citar a Mídia Ninja – feita por garotos perspicazes que perceberam as brechas e decidiram atuar. Quem quiser entender de fato o que acontece nas ruas do Rio, ou em frente ao apartamento do Governador Sérgio Cabral, não pode se desconectar do que é produzido na internet!”.

se eles foram ‘afastados’, até porque nunca foram ‘buscados’. Optamos pelo caminho mais difícil, mas isso nos dá legitimidade para cobrar, por exemplo, transparência nos gastos públicos em publicidade e propaganda. Num ambiente de jornalismo horizontal, colaborativo e não hierarquizado, achamos justo que leitores nos ajudem e sejam recompensados pelas pautas e assuntos de sua preferência. Nossos maiores colaboradores são nossos comentaristas e leitores, com os quais temos contato permanente no campo dos comentários. É como se fosse uma reunião de pauta contínua, sem fim, entre os moderadores e os comentaristas. Eles nos colocam para trabalhar e agora também fornecem meios para que a gente produza conteúdo próprio”, revela, explicando como mantém o blog no ar. “Nossas campanhas de assinaturas e de doações específicas foram surpreendentemente bem sucedidas até agora. Será certamente um processo longo e lento até chegar ao ideal, que é a montagem de uma equipe básica de apoio. Quando digo ‘apoio’ quero dizer que os jornalistas, fotógrafos e cartunistas que eventualmente trabalharem conosco vão servir aos leitores/financiadores do Viomundo, às sugestões de pauta feitas por eles.” Azenha tem dúvidas se a desconcentração da mídia no País poderia começar pelo redirecionamento das verbas públicas. “Acho que isso dependeria mesmo de uma lei de meios que impeça, por exemplo, a propriedade cruzada, aquela que matou muitos jornais em capitais brasileiras, na medida em que um mesmo empresário era dono da tv, rádios e dos jornais locais, usando uns para promover os outros, em detrimento da concorrência. Analise a lenta morte do Jornal do Brasil impresso no Rio de Janeiro e você vai ver que, dentre outros motivos, figura a propriedade cruzada dos Marinho na cidade.” E já que o assunto é a concentração da mídia, a relação de Azenha com as Organizações Globo – maior empresa de comunicação do País e um dos maiores conglomerados do setor em todo o mundo – é um polêmico capítulo à parte. “Eu era correspondente da TV Globo em Nova York e me sentia insatisfeito pelo fato de ter apenas 60 segundos para fazer reportagens diárias no Jornal Nacional. Um amigo sugeriu que eu fizesse um blog com os bastidores. Por isso o mote do site se tornou ‘o que você não vê na mídia’, que adquiriu outra conotação com o passar dos anos. O Viomundo nasceu, portanto, de um desabafo”, confessa, lembrando que, por muito pouco, o blog não saiu do ar no início deste ano. Na esfera judicial, Luiz Carlos Azenha foi condenado a pagar indenização de R$ 30 mil a Ali Kamel, Diretor-Geral de

“Estamos na idade da informação e é importante que o público se dê conta de que o mensageiro é parte integral do sistema de poder e filtra as mensagens de acordo com seus próprios interesses.”

Padronização dos discursos e crise da narrativa

Citado por Francisco Bicudo como exemplo de mídia alternativa atual, Luiz Carlos Azenha, que comanda o blog Viomundo, também falou com o Jornal da ABI para esta reportagem. Um banner no alto de seu espaço digital anuncia a todos os visitantes que o ambiente não conta com o apoio de verbas públicas e nem com anúncios das grandes corporações. Será que essa é uma opção do jornalista ou, na verdade, a linha editorial independente é que termina por afastar virtuais anunciantes de peso? “Não tenho tino comercial. Não lido com anunciantes. Por isso, é difícil dizer

Jornalismo da TV Globo. “Estamos recorrendo. Ele me acusou de difamá-lo, de citá-lo de forma crítica repetidamente. Sim, de fato ele foi citado várias vezes, mas em função do cargo que ocupa, na alta hierarquia de uma das empresas mais poderosas do Brasil. Um dos objetivos do jornalismo crítico que exerço na internet é desmistificar algumas idéias relativas à profissão: a de que empresas e profissionais pairam ‘acima’ da sociedade, com uma suposta neutralidade que na verdade não existe; a de que as empresas de mídia não têm interesses políticos e econômicos e que não os defendem; a de que jornalistas estão acima das críticas ou merecem tratamento privilegiado. Portanto, fazer e receber críticas é do jogo. E foi neste contexto que critiquei o Ali. Em minha opinião, na falta de argumentos para vencer o debate político, ele buscou a Justiça, até porque as idéias que defendia – contra as cotas raciais, por exemplo – foram derrotadas na sociedade. Fiquei desanimado porque meu blog é sustentado do próprio bolso e ações na Justiça são custosas. Porém, o grande apoio dos leitores me fez rever a decisão e mantê-lo no ar.” A questão a seguir, apesar de delicada, é inevitável. Há quem relacione as críticas de Azenha às Organizações Globo ao seu ingresso na Rede Record, onde trabalha desde 2008. “Minhas críticas à Globo nasceram dentro da própria emissora, na medida em que, em minha primeira cobertura de campanha política nacional no Brasil, vivi experiências que não tinha vivido antes. Em outras palavras, vi com os meus próprios olhos. Faz toda a diferença e foi marcante. Aliás, o Viomundo era hospedado na Globo.com e eu era repórter da Globo de São Paulo, quando noticiei o arranjo entre o Delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e jornalistas para vazar fotos do dinheiro apreendido com petistas bem na véspera do primeiro turno das eleições presidenciais de 2006. Fui cobrado pelo meu chefe na emissora por fazer isso e não me arrependi: era notícia! Na Record, meu blog nunca foi assunto. São trabalhos distintos e independentes. A Record nunca impôs qualquer restrição a meu trabalho na blogosfera, nem fez qualquer sugestão direta ou indiretamente. Se o fizesse, eu optaria pelo blog.” A declaração de Azenha traz de volta a figura de Francisco Bicudo. “O jornalismo sofre três crises distintas e profundas. A primeira é de formação: quem é esse profissional hoje, que deve ser preparado para atuar diante da diversidade, multiplicidade e profundidade de tantos problemas? O segundo ponto trata de um dilema ético: escrevemos e produzimos para o público ou para o patrão? E, por fim, como fruto direto da concentração dos veículos nas mãos de poucos, com o quase extermínio das vozes dissonantes, vivemos uma crise de narrativa. Sofremos com a pasteurização, a padronização, a homogeneização do discurso, que levam distintos veículos a falarem quase sempre a partir dos mesmos olhares, enfoques, princípios, a partir dos mesmos pressupostos ideológicos – o que quebra o prin-

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ESPECIAL UMA IMPRENSA SEM ALTERNATIVAS

ARQUIVO PESSOAL

cípio de jornalismo como um serviço público que pretende oferecer à sociedade focos diversos da realidade.” O professor da Eca-USP pisa ainda mais fundo. “Fazer e ler jornalismo é, cada vez mais, tarefa enfadonha, cansativa, cinzenta, pois parece que escrever matéria é como preencher um boletim de ocorrência. É sempre a mesma fórmula, estrutura, as mesmas mensagens, o mesmo tom conservador, em que você vai alterando nomes, motivações do crime, local, a arma, num jogo de lego para responder às perguntas básicas de ‘o quê, quem, como, onde, por que e como’. As matérias acabam reproduzindo estereótipos, preconceitos e o senso comum, banalizando a discussão”, critica, ressaltando que entre seus alunos há jovens que mantêm acesa a chama da rebeldia. “Vejo uma garotada disposta a fazer cumprir o intuito básico de jornalismo, que nasceu nos séculos 15 e 16 como filho direto das revoluções humanistas, pela necessidade de esclarecimento da sociedade, a partir da ruptura dos diques dos segredos, tão comuns na Idade Média.” Talvez isso possa garantir maior prestígio à categoria. Ou, pelo menos, maior

Azenha: “Não queremos menos, queremos mais mídia e, com ela, mais democracia”

segurança aos profissionais e ao patrimônio de jornais e emissoras de televisão que, em vários dos protestos realizados desde junho, foram alvos de agressões e seguidos ataques. “Condeno de forma veemente

qualquer restrição ao trabalho de colegas. Compreendo, porém, que as manifestações se voltaram contra todas as fontes de poder constituído. Minha percepção é de que muitos manifestantes compreenderam o papel importante desempenhado pela mídia. Estamos, afinal, na idade da informação e é importante que o público se dê conta de que o mensageiro é parte integral do sistema de poder e filtra as mensagens de acordo com seus próprios interesses. Esse entendimento é essencial para que se lute por maior pluralidade, mais conteúdo local e regional, ampliação dos canais de comunicação comunitária, maior número de canais públicos – já que a mídia corporativa, como diz o nome, representa os interesses privados de corporações. Costumamos dizer: não queremos menos, queremos mais mídia e, com ela, mais democracia”, sublinha Azenha. Essa conquista vem ocorrendo, aos poucos, no ambiente digital. É o que garante o criador de Viomundo. “Muitos debates pautados exclusivamente na blogosfera influenciam a sociedade brasileira, passando ao largo da grande mídia corporativa. Ainda assim, o Brasil tem concentração da mídia como poucos

países do mundo. Imagine que 50% de tudo o que o Governo federal gasta em publicidade vai para uma única empresa! Tudo isso é agravado pelo fato de que existem deputados e senadores ligados a grupos de comunicação, de tal forma que a mídia extremamente concentrada encontra apoio político no Congresso; por outro lado, promove a concentração do poder político nos âmbitos regional e local. O exemplo mais notório é o do Senador José Sarney (AP-PMDB) – com seu controle sobre a mídia local e sobre a política de dois Estados.” Em sintonia, Francisco Bicudo diz ter entendido o recado vindo das ruas. “Para usar uma expressão da moda, as pessoas disseram de uma forma explícita que essas corporações com monodiscursos ‘não as representam’. Esses veículos precisarão se reinventar, readaptar, recuar algumas vezes, como fizeram na caracterização inicial de que os protestos eram promovidos por ‘vândalos’. Esse, na verdade, é um campo aberto, em disputa... Não queremos mais narrativas sectárias, nem ser enganados, pautados unilateralmente por empresas midiáticas partidarizadas da pior maneira possível.”

Apontada pelo professor Francisco Bicudo como um dos exemplos contemporâneos de produção alternativa, a Mídia Ninja começa a ganhar espaço. Aos poucos, deixa de ter sua produção veiculada exclusivamente na internet. Seus vídeos, sem produção refinada mas feitos de perto, em cima dos acontecimentos, passam a ser citados e reproduzidos em vários telejornais – chegaram, inclusive, ao Jornal Nacional, da TV Globo, e ao Roda Viva, da TV Cultura. Jornalista, escritora e poeta, Elizabeth Lorenzotti é graduada e mestre pela Eca-Usp, foi repórter, redatora, editora de jornais e revistas da grande imprensa, alternativa e sindical de São Paulo. Ela fez uma análise especialmente para o Jornal da ABI. Afinal, por que a tal Mídia Ninja parece incomodar tanto os ditos ‘grandes’ veículos, das principais corporações? “Porque é independente, não tem patrocínio, é livre. A sigla Ninja quer dizer ‘Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação’. Jornalismo é o que eles fazem: eles são repórteres entrevistando pessoas onde a notícia está, e no meio dela. Isso não é novidade; é a boa e velha essência do jornalismo, e já tivemos muito disso na História da nossa imprensa. Mas eles também são ativistas, consideram-se parte das manifestações populares. Oficialmente, define-se o jornalista como um ser imparcial – o ativismo não entra. Os manuais de redação pregam que sejamos seres sem história e ideologia frente à notícia. Ora, todos sabemos que essa visão é irreal. E que também 6

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sejam dados todos os lados da notícia. Mas quantas vezes nós, jornalistas, cercamos o fato por todos os lados e chegamos ao lide, e na Redação essa reportagem foi editada ao bel prazer da linha editorial do órgão? Quantas?”, questiona Elizabeth. “A Mídia Ninja assusta porque tem credibilidade, porque milhares de jovens diariamente repetem ‘A Mídia Ninja me representa’. Eu descobri os Ninjas quando, irritada com a GloboNews que transmitia tudo do alto de prédios, no início das jornadas de junho, fui até a internet e os encontrei. Fiquei impressionadíssima com tudo o que via, em tempo real, sem cortes, sem edição. E não conseguia desgrudar da tela. Não sei de outra cobertura em tempo real tão verdadeira.” Para Elizabeth, que é autora de livros como a biografia Tinhorão, o Legendário, a Mídia Ninja e outros grupos de mídia livre são herdeiros diretos da chamada ‘imprensa alternativa’ que nos anos 1970 enfrentou a ditadura militar bravamente – se autofinanciou, escreveu, diagramou, imprimiu, foi censurada e presa. A diferença é que aqueles, quase sempre, trabalhavam nas Redações, na maioria, e dedicavam seu tempo livre, e suas matérias que jamais seriam publicadas nos veículos tradicionais, aos títulos ‘nanicos’. O princípio básico dos ‘alternativos’, segundo ela, é praticamente o mesmo. Os tempos – e, sobretudo, as tecnologias – é que mudaram. “A evolução digital já revolucionou a indústria fonográfica e está no mesmo

DANILO VERPA/FOLHAPRESS

Afinal, o que é e o que quer a Mídia Ninja?

Com celulares na mão, os integrantes do grupo Mídia Ninja fazem o registro dos eventos ao vivo.

caminho no setor de livros. E, como não poderia deixar de ser, na mídia impressa e televisiva. Tv, jornal, internet, tudo já cabe nas palmas de nossas mãos. Em breve, não haverá mais aparelhos de tv em nossas salas. A imprensa escrita, que se debate há décadas com crises, não quer acreditar, e prefere permanecer deitada em berço esplêndido, criticando as outras mídias. Em recente artigo intitulado ‘Imprensa nas redes sociais: autoridade sem centralidade’, o professor Fabio Malini explicou com detalhes como sua entrevista foi cortada ao meio pela Folha de S.Paulo, pois ele afirmou que a velha mídia tem autoridade, ainda, na rede, mas não mais centralidade. Ele acentuou que “quando computado o volume de RTS que os jornais recebem em relação ao número total de tweets o resultado é mínimo”. Para o especialista, ‘não adianta o @folha

ser autoridade e estar isolado do mundo social que interage intensamente. O núcleo da interação e a densidade das relações ficam com os ativistas, porque eles conversam, compartilham, republicam uns aos outros. Eles estão em contato e em contágio permanente, enquanto perfis como o @folha ficam só difundindo informações para seus milhares de seguidores fixos’”, descreve Elizabeth. Espertos, e ainda beneficiados pela difusão e barateamento das tecnologias, os meninos do Mídia Ninja conseguiram quebrar a ditadura da visão editorial conservadora dos grandes grupos de comunicação. Oxigenaram a cobertura, informaram de modo plural e, mais do que isso, fizeram alguns dos principais jornais do País caírem no flagrante ridículo da manipulação. Ao contrário das tradicionais publicações dos anos 1960 e 1970, eles


RODRIGO VIANNA

“O Governo Dilma ajuda a concentrar as verbas nas mãos de poucos” Outro blogueiro ‘alternativo’ citado por Chico Bicudo no início desta reportagem é Rodrigo Vianna, que, em seu blog Escrevinhador, publicou, em 11 de março deste ano, elucidativo artigo sobre as dificuldades pelas quais passam os veículos alternativos. O texto é de Juliana Sada. “Nesta segunda-feira, a Redação da revista Caros Amigos, que estava em greve desde o dia 8, foi alvo de demissão coletiva. Nas redes sociais, leitores protestaram, considerando a atitude incompatível com uma revista de esquerda. Wagner Nabuco, diretor da Editora Casa Amarela, responsável pela publicação, alegou ‘quebra de confiança’ da equipe. Disse ter sido surpreendido pela declaração de greve dos onze integrantes da Redação. Os funcionários demitidos, por sua vez, dizem que entraram em greve por causa da falta de diálogo e para reagir ao anúncio de cortes de 50% na folha de pagamento.” A jornalista segue em sua análise: “A crise da chamada ‘imprensa alternativa’, no entanto, é mais ampla. A greve e as demissões em Caros Amigos expõem uma situação grave: a precariedade e a falta de recursos que afetam vários sites e publicações. O portal Carta Maior reagiu de forma direta: divulgou uma nota criticando a postura do Governo federal, e informou que a origem do problema da Caros Amigos está na ‘asfixia financeira, decorrente das decisões do Governo federal de suprimir publicidade de utilidade pública nos veículos da mídia alternativa’. Carta Maior disse mais: a revista resistiu ao ciclo tucano dos anos 1990, mas não suportou os ‘critérios técnicos’ da Secom no Governo Dilma, cuja prioridade é concentrar recursos nos veículos conservadores.” Rodrigo Vianna também avaliou o cenário de dificuldades dos veículos alternativos. “As informações que chegam de Brasília indicam que a Secom não tem qualquer intenção de mudar os critérios de distribuição das verbas oficiais de publicidade. O Governo Dilma ajuda a concentrar as verbas nas mãos de poucos. Age, assim, na contramão das políticas adotadas por democracias ocidentais que destinam parte da verba para os ‘fundos de democratização da mídia’; e parece mais preocupado em não criar ‘zonas de atrito’ com meia dúzia de famílias que, donas de revistas e jornais conservadores, se esbaldam com a verba de publicidade oficial.” Dados divulgados pela própria Presidência da República, no final de 2012, confirmam a tese de Rodrigo. Há mais de 3.000

ANTÔNIOCRUZ/ABR

não têm maiores problemas de financiamento. Quase tudo é feito e transmitido ao vivo, a partir de pequenas câmeras de vídeo e celulares. “Em São Paulo, veja só, há uma banca que desistiu de vender jornais, porque eles não têm mais saída. A audiência global registra graves quedas. A antiga mídia ainda em vigor pode demorar a cair, mas seus dias estão contados. É só consultar os especialistas em comunicação do século 21”, condena Elizabeth. Capixaba de Domingos Martins, Cicília Peruzzo é graduada em Comunicação Social, habilitação Relações Públicas, pela Faculdade de Comunicação Social Anhembi, mestre pela Metodista de São Paulo e doutora pela Usp. Dedica-se especialmente aos estudos da comunicação popular, alternativa e comunitária, da mídia regional e local e suas interfaces no processo de ampliação do exercício da cidadania. Ela concorda com a visão de Elizabeth sobre o papel estratégico do ambiente digital para desconcentrar a produção de mídia no Brasil. “A profusão desse tipo de canal é de suma importância para os povos de todo o planeta, pois viabiliza a troca de conhecimentos e da informação, além de favorecer processos de mobilização e articulação social. Há um crescente número de canais independentes e de redes sociais virtuais no ciberespaço – ao lado das redes sociais presenciais e dos meios tradicionais que persistem por todo o Brasil, tais como blogs, fotologs, websites, e-zines, webradios, webtvs, sites colaborativos... Porém, convém lembrar que nem todo blog é alternativo. Ser independente, por si só, não quer dizer ser alternativo. Há que se atentar para o conceito que tem uma carga histórica na sua configuração. Porém, o termo ‘alternativo’ é de emprego muito impreciso, os conceitos são controversos, e o mesmo tem sido criticado e seu uso até suspenso por longos anos na literatura da comunicação. No entanto, o ressurgimento de novas expressões comunicacionais o recolocou no debate. Há que se dizer que a comunicação alternativa é aquela que se pauta pela desvinculação de aparatos governamentais e empresariais de interesse comercial e/ou político-conservador”, disse Cicília Peruzzo em entrevista ao Jornal da ABI. Para Cicília, que foi presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação-Itercom, de 1999 a 2002, os grupos independentes de mídia podem até representar um contraponto aos modelos pré-estabelecidos. Mas carecem de estrutura – leia-se financiamento – para combater de fato as redes de televisão e os jornalões. “Grupos como a Mídia Ninja ainda têm alcance bastante disperso diante dos veículos de massa, que desfrutam de um poder de influência imensurável. No entanto, esses meios alternativos e comunitários são importantes enquanto canais que participam do debate e se tornam fontes autônomas e complementares de informações. Além disso, é bastante curioso o fato de eles não constituírem apenas meios de difusão, mas se inserirem em processos mais amplos de articulação e organização social.”

Durante o Governo Dilma, dez empresas concentram mais de 70% da verba federal para publicidade. As outras 2.990 dividem o restante do bolo publicitário: pouco mais de R$ 16 mil para cada uma.

veículos cadastrados no Núcleo de Mídia da Secom. Do total de R$ 161 milhões pagos aos meios de comunicação, durante o Governo Dilma, R$ 112,7 milhões couberam a apenas dez empresas. As demais 2.990 dividiram o bolo dos R$ 48,3 milhões restantes. É isso mesmo: dez empresas concentram mais de 70% da verba federal para publicidade – dentre elas, em especial, a TV Globo. O argumento da Ministra Helena Chagas, da Secretaria de Comunicação, não variou desde o início do Governo de Dilma Rousseff. Na opinião dela, “é inevitável que o maior volume de pagamentos seja dirigido a meios e veículos de maior audiência, que atingem um maior público, como é o caso da televisão”. Mas há quem discorde. O Presidente da Altercom (Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação), Renato Rovai, contesta a visão da Ministra. “No Brasil a verba publicitária é pessimamente distribuída”, dispara ele, que defende que 30% das verbas publicitárias sejam repassadas a pequenas empresas e empreendedoras individuais de comunicação, como já acontece em outras áreas, como na compra de alimentos da agricultura familiar para a merenda escolar. “Reafirmamos nossa posição de que a distribuição das verbas publicitárias governamentais não pode atender apenas à lógica de mercado. Ela precisa ser referenciada nos artigos da Constituição Federal que apontam que o Estado brasileiro deve promover a diversidade e a pluralidade. A melhor divisão fortaleceria a cadeia produtiva do setor da comunicação. E colocaria o Brasil num

“A distribuição das verbas publicitárias governamentais não pode atender apenas à lógica de mercado.”

outro patamar democrático, possibilitando o fortalecimento e o surgimento de novas empresas e veículos.” Bernardo Kucinski é jornalista e uma das maiores autoridades sobre mídia alternativa no Brasil – atuou em Movimento, Opinião e Em Tempo. É autor de vários livros, como O Que São Multinacionais (editado em 1981), Síndrome da Antena Parabólica: Ética no Jornalismo Brasileiro (de 1998) e Jornalismo na Era Virtual – Ensaios Sobre o Colapso da Razão Ética (2005). Em 2002, com a vitória de Lula, se tornou Assessor Especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, cargo que deixou em 2006. Polêmico, mas extremamente respeitado nos meios jornalísticos e acadêmicos, ele também respondeu às perguntas enviadas pelo Jornal da ABI. “Deveria haver uma política pública de apoio à diversificação, experimentação e pluralismo no jornalismo. Eu propus algo desse tipo quando trabalhei na Secom no Governo Lula, mas a proposta não prosperou. Ela é refém da mídia convencional, o que não ocorre no Ministério da Cultura, que sempre teve uma visão mais avançada da questão do pluralismo e da criação – e do seu papel como agência contra-hegemônica. A atual proposta de vale-cultura da Ministra Marta Suplicy se assemelha em parte à que eu fiz naquela época para o jornalismo. Também deveria haver uma política pública de uso do jornalismo na formação dos jovens, desde a escola primária. Eu propus isso quando Paulo Freire era Secretário da Cultura em São Paulo, ainda na gestão Luiza Erundina, mas a proposta também não prosperou. Eu sempre fui muito bom em fazer propostas e muito ruim no encaminhamento delas.” Para Bernardo Kucinski, os alternativos surgiram impulsionados por dois fa-

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ESPECIAL UMA IMPRENSA SEM ALTERNATIVAS

tores principais. Um de âmbito mundial: a rebelião da juventude contra o convencional. E outro de âmbito de motivação local ou específica: a revolta contra a ditadura. “Os nossos jornais alternativos principais, com exceção do Pasquim e do Coojornal, foram criados e apoiados por coligações de grupos políticos, a maioria de cultura sectária, o que levava ao rompimento de alianças conforme mudava a conjuntura, com o conseqüente enfraquecimento e até fechamento dessas publicações. O fim da ditadura, permitindo a legalização desses grupos políticos, foi a pá de cal desses jornais. Cada grupo foi fazer seu próprio jornal abertamente partidário. Já o definhamento do Pasquim deve-se a múltiplas causas, a principal delas, creio, a relutância dos seus dirigentes em se tornarem empresários. Houve o envelhecimento do tipo de humor que eles praticavam, e a curta, mas dramática, prisão de parte de sua equipe pelo regime militar – o que não ocorreu em nenhuma outra Redação alternativa”, indica ele, numa referência à temporada que nomes como Ziraldo e Jaguar passaram atrás das grades. Na visão de Kucinski, o poder dos conglomerados de mídia foi atropelado pela revolução tecnológica. Além do conteúdo, hoje são alternativos os próprios meios. “A produção midiática de entretenimento e jornalística ainda se origina em grande parte das Redações e empresas convencionais, mas todo processo de filtragem, mediação, disseminação e fruição se dá pelos meios que estão fora do controle dos grandes grupos. São esses meios hoje que movem as multidões, seja na Praça Tahir, seja na Avenida Rio Branco, ou em Tel Aviv. Os grandes jornais impressos são dinossauros em extinção. As gigantescas rotativas engolindo florestas de eucaliptos não têm mais lógica econômica. Esse jornalismo desaparecerá com a rapidez com que a máquina de escrever foi substituída pelo computador. A adaptação ao digital permitirá que muitos sobrevivam, mas em outra configuração e ambiente midiático. A democratização da comunicação já está instalada há muito tempo. Isso não significa que não se deveria impor lei e ordem nas concessões de rádio e canais de televisão, que vivem um verdadeiro caso de polícia no Brasil.” Não somente os jornais impressos sofreram agruras no combate com o regime militar de pós-1964. Muitas empresas nacionais foram perseguidas por fazerem oposição à ditadura, ou tão somente por terem demonstrado simpatia política a governos anteriores de linhagem democrática e popular, como os de Juscelino Kubitschek e João Goulart. A TV Excelsior, por exemplo, teve a sua concessão cassada em 1970. Um de seus sócios era Mario Wallace Simonsen, sócio da Panair – então a maior companhia aérea do País, arbitrariamente fechada cinco anos antes, por decisão do Presidente Castelo Branco. Um episódio que continua a ser analisado por um grupo de trabalho da Comissão Nacional da Verdade, que investiga a participação direta de empresários brasileiros como apoiadores da ascensão e permanência dos fardados no poder – fato que perduraria por duas sombrias décadas. 8

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Caros Amigos, um caso de resistência Francisco Bicudo esclarece que sua pesquisa sobre a Caros Amigos cobriu a trajetória da revista desde a sua fundação, em 1997, até 2002. “Até a conclusão da minha tese, ela era representante clássica da tendência alternativa sob os pontos de vista político, jornalístico e de financiamento. O pessoal de lá ‘ralou’ muito naquele início. Tiveram sucesso, chegando a vender mais de 60 mil exemplares por edição – bom número para uma proposta tão segmentada. Mas a ascensão do Governo do PT colocou a publicação diante de um certo dilema... Isso bateu forte neles, inclusive em discussões acaloradas internas, quando o Sérgio de Souza – um dos fundadores, falecido em 2008 – defendia o maior afastamento do Governo Lula, que ele já não considerava tão de esquerda assim, àquela época. Nos últimos anos, houve problemas e dilemas que, se não abalaram, ao menos trincaram a imagem da revista. Ainda assim, acho que ela continua desempenhando um papel importante no cenário da imprensa nacional”, diz o professor, que, no entanto, lamenta a posição da direção da Editora Casa Amarela quando da recente greve. “Ela agiu exatamente como agiria qualquer grande corporação de mídia, com a demissão de boa parte da Redação, sem maior espaço para a abertura de diálogo.” Atual Editor-Executivo da Caros Amigos, o jornalista Aray Nabuco falou sobre a situação da publicação – que segue como referência de independência editorial — especialmente para o Jornal da ABI. “A revista sobrevive de assinaturas, venda em banca e pouca publicidade do Poder Público, já que a iniciativa privada tende a recusar anúncios em veículos que, ao produzirem jornalismo independente, atentam contra os seus interesses mercadológicos. Assim, os anunciantes da revista são do Poder Público – e obviamente não os que estão nas mãos de partidos de direita, como o PSDB e Dem. Não aceitamos nenhum outro tipo de subvenção, de governos ou da iniciativa privada. Mas, realmente, ainda é pouco o que recebem os veículos alternativos, quando comparado com a verba pública para publicidade gasta na mídia tradicional. Por isso, a direção da revista integra um grupo de editores – a Altercom, dirigida por Renato Rovai – que pleiteia um reparte mais equilibrado das verbas públicas de publicidade para as revistas alternativas e de pequeno porte, como forma de democratizar a informação e romper com os monopólios e a concentração de poder nas mãos das poucas famílias.” Aray Nabuco considera que não há dúvida de que, enquanto política de Estado, deveria ser estimulada a pluralidade de opiniões – até para a quebra dos cartéis de comunicação. “Sabemos, por exemplo, que a Caros Amigos, apesar de ter uma posição

diversa de outras revistas, não está entre as que são compradas e distribuídas no Congresso Nacional, onde circulam as publicações da mídia hegemônica. Mas o principal debate é que a sociedade tem de encontrar mecanismos para democratizar a informação, de ter diversos pontos de vista disponíveis para que os leitores formem sua opinião, o que não será conseguido com a atual concentração de mercado.” Sem dúvidas, a revista é uma resistente. Uma sobrevivente. As dificuldades de colocá-la mensalmente nas bancas são grandes, sobretudo financeiras. “Ela foi a primeira revista à esquerda, quando surgiu nos anos de 1990 – hoje não mais, há outras, e ainda bem. Cumpre o papel de fazer jornalismo sério e independente no retrato e debate de questões políticas e sociais, abordando assuntos que não aparecem na mídia hegemônica ou que aparecem com a visão conservadora dos que detém o poder econômico ou político. Um grande exemplo foi a revelação feita pela revista do filho fora do casamento de Fernando Henrique Cardoso com uma jornalista da Globo, assunto que era mantido em segredo na mídia tradicional. Mas há muitos outros exemplos. Outro deles será veiculado na próxima edição, de agosto.” Questiono Aray sobre os riscos, para o País, de tamanha concentração da mídia nas mãos de tão poucos. “Não é um risco. A falta de uma mídia realmente plural e democrática já é um fato. Atualmente, uma única família detém dezenas de veículos, entre jornais, sites, rádios e tvs, e todos eles rezam a mesma ladainha. Os exemplos são muitos, mas um bom para citar é a defesa e blindagem pela mídia tradicional dos políticos conservadores, que defendem seus próprios interesses, e as manipulações contra os Governos progressistas e trabalhistas. Por isso, a Caros Amigos e tantas outras pessoas defendem um novo marco para a mídia, uma regulamentação de fato, que impeça o cruzamento da propriedade das mídias, o que afronta, inclusive, a Constituição brasileira e impede o debate plural e democrático de idéias.” Apesar do contexto de dificuldades, ele conserva um olhar otimista sobre o futuro. “Não creio que a tradição da imprensa alternativa se perdeu; atualmente, pode-se dizer que se diversificou, ao mesmo tempo em que há outras mudanças que ocorrem após a abertura política, fim da ditadura e da censura, já nos anos 1980. A Caros Amigos e outros veículos, como a revista Fórum ou o jornal Brasil de Fato, são exemplos de imprensa alternativa que continuam veiculando notícias,

movimentos sociais, visões de mundo e opiniões bem distintas – e à esquerda – do que se vê na mídia tradicional. Há uma diversificação maior de publicações alternativas, além de, atualmente, com a internet, surgirem novos meios de comunicação direta. Mas as alternativas estão aí, circulando por fora do ‘mainstream’.” O Editor de Caros Amigos reconhece a importância histórica de seus ‘antepassados’. “Veículos como Pasquim, Opinião e Movimento cumpriram a sua função em um momento específico. Naquele tempo, eram as raras vozes dissidentes. Tiveram uma história barra pesada – os atentados a bomba contra bancas. A pressão da ditadura sobre os jornaleiros que vendiam esses jornais foi determinante. O Pasquim ainda sobreviveu mais; mas já nesse Brasil pós-ditadura, com uma nova geração de leitores, que já tinha acesso a informações do mundo todo. Vimos florescer até mesmo uma nova geração de humoristas, como a turma do Casseta & Planeta, com seu Planeta Diário.” Já que o Pasquim foi citado tantas vezes, com a palavra, o jornalista Sérgio Cabral. “Temo que o desaparecimento das principais publicações da imprensa alternativa reflita uma crise de que padece o próprio jornalismo impresso. Movimento, Opinião, Pasquim e outros desapareceram como também sumiram o Diário de Notícias, Última Hora, O Jornal, Diário da Noite e Correio da Manhã... Os problemas financeiros do Pasquim começaram com a nossa prisão, quando os anunciantes foram avisados pela ditadura que anunciar no jornal seria subsidiar a subversão. O jornal sobreviveu mais alguns anos porque ficou na mão de um herói, o nosso Jaguar. De verdade, temo o monopólio da produção midiática, como qualquer outro monopólio. Afinal, estamos falando do monopólio da opinião, o que não é nada democrático. Como jornalista, vejo a imprensa alternativa como uma garantia de liberdade e um campo magnífico para o exercício da democracia.” Movimento é outro marco da imprensa no Brasil. Seu viés alternativo era tão evi-

“A imprensa alternativa é uma garantia de liberdade e um campo magnífico para o exercício da democracia.”


dente que sua viabilização econômica e sustentação administrativa foram peculiares. Fatores sem os quais dificilmente o jornal semanal teria conseguido adotar uma linha tão contestadora. Movimento foi um caso raro de imprensa independente, dirigido pelos próprios jornalistas que o faziam, sem a figura clássica de um patrão-empresário. Era uma empresa de sociedade anônima. E o jornal se concretizou por meio de uma mobilização feita em todo o País, e a venda de ações a apoiadores, chegando ao número de 500 acionistas – entre jornalistas, intelectuais, profissionais especializados, professores e estudantes. “Movimento circulou de julho de 1975 a novembro de 1981. O jornal tinha em média 5.000 assinantes, mas as suas vendas mais importantes eram feitas nas bancas de jornais, podendo chegar a 20 mil por edição. E havia venda direta, feita maciçamente por estudantes e jovens trabalhadores. Havia vendas especiais aproveitando eventos como as reuniões da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Sua circulação foi muito prejudicada pela censura. Diversas edições acabaram sendo apreendidas. Quando a censura recuou, setores militares adotaram o terrorismo para combater o jornal, bombardeando bancas que o vendiam, assim como outros jornais alternativos. Como o ponto forte eram as vendas em banca, foi um golpe brutal, que precipitou o seu fechamento”, afirma Carlos Azevedo, jornalista com passagens por veículos como O Estado de S.Paulo, Quatro Rodas, Caros Amigos e Realidade, e autor do livro Cicatrizes de Reportagem, lançado em 2007 pela Editora Papagaio. Em setembro de 2011, Azevedo lançou a obra Jornal Movimento, Uma Reportagem, pela Manifesto Editora. O livro contou com a colaboração de Marina Amaral e Natalia Viana – as duas à frente da Agência Pública, espaço digital diferenciado, totalmente dedicado a reportagens especiais e ao jornalismo investigativo. Mais um respiro de criatividade e ousadia diante da mesmice dos grandes veículos. “Sempre haverá espaço para publicações independentes, que busquem informar o leitor honestamente, dando condições à sua formação como cidadão e participante consciente da sociedade. Só assim nós poderemos ampliar a democracia no rumo de uma sociedade mais justa”, sentencia Carlos Azevedo. No meio acadêmico, críticas à falta de diversidade

A tradição de concentração da grande mídia por grupos econômicos e políticos acercados do Estado é um problema nacional. É o que pensa Cicília Peruzzo. “O controle dos meios de comunicação por esses grupos representa o domínio das mais importantes unidades de produção econômica do setor, que por suas características estendem as visões de mundo das classes dominantes ao conjunto da sociedade. São mecanismos facilitadores da conquista da hegemonia social por meio do controle do modo de

nitário. Este último conta com aproximadamente seis dezenas de canais organizados no País. “Há mil rádios comunitárias, também sem fins lucrativos, espalhadas de Norte a Sul do Brasil trabalhando temas locais, algumas com a perspectiva transformadora da realidade, que oferecem conteúdos a audiências específicas. Sem falar nos pequenos jornais e fanzines que, além de impressos, hoje podem também ser virtuais. Ao que se podem acrescentar as micro-experiências sociais no uso da internet – sites, blogs, redes sociais virtuais, plataformas colaborativas, rádios e tvs na web. No conjunto, são sinais de mudança não muito visíveis para o conjunto da sociedade, mas que vêm construindo novos espaços de expressão e para externar reivindicações.” Durante as recentes manifestações nas ruas, o inconformismo com o status quo veio à tona de modo tão expressivo graças à mobilização e organização social promovidas pelos canais de comunicação virtuais. “Se houve essa manifestação pública, ela não ocorreu pelo incentivo da grande mídia, que está mesmo é preocupada em oferecer uma programação alienante e incentivadora da criação e manutenção de massas de consumidores afáveis a padrões reprodutores de um tipo de sociedade que preza mais o negócio para o lucro de poucos do que as necessidades humanas. Tanto que, no início, a mídia nem sabia como lidar com as manifestações. Aproveitou para alimentar o seu intento ao sensacionalismo ao invés de ser capaz de analisar a fundo os acontecimentos de modo a entender as razões de tanta revolta com base na história”, considera Cicília. Ela, no entanto, destaca experiências positivas de resistência alternativa na esfera da mídia. “A imprensa alternativa se revigora de modo extraordinário no Brasil. Entre as várias iniciativas apontamos algumas, como a Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (Adital), a revista Caros Amigos, a Agência Brasil de Fato e o jornal Brasil de Fato, ambos ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Le Monde Diplomatique Brasil, iniciativa conjunta do Instituto Paulo Freire e do Instituto Pólis, com edições eletrônica e impressa em português, que analisam criticamente e em profundidade os mais importantes acontecimentos. Podemos destacar ainda a Agência de Notícias Carta Maior e o Jornal Pessoal, um alternativo que incomoda gente poderosa na Amazônia, mantido há quase três décadas pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto, no Pará. Temos as revistas Viração, produzida de uma forma coletiva por adolescentes e jovens, e Ocas (Organização Civil de Ação Social), com análises críticas dos acontecimentos pela ótica da população de rua, além de jornais similares como o Trecheiro (SP) e Boca de Rua (Porto Alegre/RS). Num outro universo, não propriamente de jornais e de agências de notícias, há iniciativas como a do Centro de Mídia In-

dependente (CMI Brasil) e o Overmundo. um site colaborativo.” A ‘pasteurização’ do conteúdo como um fenômeno próprio da grande imprensa – que tem suas estratégias de produção de conteúdos e de formação de audiências – encontra, sim, seu contraponto na imprensa alternativa. “A internet de fato facilita a constituição de ambientes comunicacionais do ‘jornalismo cidadão’, do ‘jornalismo cívico’, de fontes abertas (open sources), que pode ser feito por qualquer um, principalmente, por suas organizações de base e coletivas. O meio de comunicação não existe mais somente para ser visto, consumido, e sim para ser processado por qualquer leitor ou telespectador ”, teoriza Cicília Peruzzo. Francisco César Pinto da Fonseca é cientista político, historiador e professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. “Muitos fatores levaram à extinção dos jornais alternativos. Sobretudo, o fato de a mídia, no Brasil, ter ampliado a sua oligopolização, mesmo após a redemocratização política. Isto é, tanto em termos político/institucionais (com a ausência de marco regulatório da mídia, por exemplo) como de linhas de crédito, sobretudo quando avaliamos o papel do BNDES, que financia os grandes conglomerados midiáticos, e não pequenos jornais. Assim, eles foram perdendo a capacidade de concorrer, minimamente, com os grandes meios de comunicação”, diz Fonseca. Autor de O Consenso Forjado – A Grande Imprensa e a Formação da Agenda Ultraliberal no Brasil, livro editado pela Hucitec, em 2005, Fonseca analisa na obra o papel dos quatro grandes jornais do País entre as décadas de 1980 e 1990 – JB, O Globo, Estadão e Folha de S.Paulo – acerca de temas referentes à democracia política e social, aos direitos sociais e trabalhistas e, sobretudo, à ‘agenda neoliberal’, notadamente no Governo Collor. A tese consubstanciada no livro analisou dez anos, sem amostragem, desses periódicos e concluiu justamente pela atuação uníssona. Todos eles foram invariavelmente favoráveis à agenda neoliberal, ou seja, às privatizações, à abertura da economia, à diminuição da atuação do Estado e contrários aos direitos sociais e trabalhistas, por exemplo, na Constituinte de 1986-1987. “Apenas para citar um dado muitíssimo esclarecedor: nesses dez anos de análise nenhuma greve foi considerada legítima pelos quatro jornais! Isso diz tudo.” Tamanho alinhamento leva à ‘pasteurização’ do conteúdo, com a perda da identidade dos próprios veículos. No caso dos jornais, fica, para os leitores, a estranha sensação de que “leu um leu todos”. “De fato, não há pluralidade de opiniões na grande mídia, uma vez que 11 famílias – com histórico de golpismo, elitismo, conservadorismo e postura patronal – dominam os meios de comunicação, processo esse que se estende aos grandes portais como G1, Estadão e Uol. Os incentivos a

“A imprensa alternativa se revigora de modo extraordinário no Brasil.”

interpretar a realidade e de pensar o mundo, segundo os parâmetros favoráveis à manutenção da sociedade capitalista ou ao ajustamento dos seus interesses. Há que se observar que a realidade comunicacional do País não se resume ao sistema midiático tradicional que aqui nos referimos como sendo os grandes meios de comunicação, abarcando a mídia privada e a pública estatal. Mesmo sendo o sistema predominante, ele vem sendo modificado por intermédio da inserção de novos canais que oferecem conteúdos segmentados, criam suas audiências ‘especializadas’ e ajudam a conformar uma realidade mais democrática quanto aos meios de comunicação.” Cicília Peruzzo se refere, por exemplo, aos canais de acesso gratuito da televisão a cabo que têm hoje em dia oito tipos de canais televisivos ocupados e sendo operados por diferentes segmentos da sociedade, como os órgãos legislativos (Câmara dos Deputados, Senado Federal e Assembléias Legislativas nos Estados e Municípios), e os canais do Executivo federal, da Justiça, Universitário e Comu-

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opiniões alternativas passam não apenas pelo marco regulatório, engavetado pelo Governo Dilma Rousseff, como pela revisão da estrutura das comunicações no Brasil, à luz da reforma argentina, por exemplo, em que 1/3 do universo comunicacional (rádio e televisões) é privado, 1/ 3 estatal (como, aliás, é comum na Europa) e 1/3 comunitário. Sem esse conjunto de reformas, jamais haverá democracia no Brasil, pois, aqui, a ‘censura do capital’ obsta a diversidade e a pluralidade de opiniões”, afirma Fonseca, que ainda escreveu Liberalismo Autoritário – Discurso Liberal e Práxis Autoritária da Grande Imprensa Brasileira, editado pela Hucitec, em 2011. Na opinião dele, a profusão de novas formas comunicacionais tem sido fundamental à criação de contra-informação e ao desmascaramento das grotescas manipulações. “Contudo, ainda se trata de um processo circunscrito às classes médias intelectualizadas. No Brasil, segundo números divulgados este ano, apenas metade da população tem acesso com regularidade à internet, sendo que a maioria esmagadora é constituída por setores de classe média. Em outras palavras, os pobres ainda têm acesso bastante restrito aos meios digitais, seja pelo preço dos computadores e da banda larga, que no Brasil está entre os mais caros do mundo, seja pelo chamado ‘analfabetismo digital’. Os próprios celulares dotados desses recursos são caros, e implicam gastos com o acesso, impossibilitando a inclusão dos pobres nestas novas ferramentas. E devese ressaltar que sequer o ‘analfabetismo funcional’ foi resolvido no País, uma vez que a cada quatro brasileiros que sabem ler e escrever, apenas um ou dois, dependendo da região, entendem o que leram! Embora o processo de inclusão digital, nesse sentido amplo, possa ser revertido ao longo do tempo, isso pode levar muitos anos. Além do mais, as inovações tecnológicas são rápidas, o que torna, a cada momento, obsoletos os padrões digitais até então vigentes.” Mas será que o modelo combativo de jornalistas engajados, tão comum nas décadas de 1960 e 1970, também se perdeu? Isto é, além da questão de viabilidade econômica, será que não existem mais veículos alternativos justamente porque faltam jornalistas com aquele perfil, dispostos a encarar o desafio? “Certamente, a sociedade não vive o mesmo momento político em que jornalistas, militantes de esquerda e estudantes tiveram que viver na clandestinidade. Por conta dessa realidade, havia uma oposição ‘esquerda x direita’ mais bipolar. Há muitos jornalistas comprometidos com o sistema hegemônico, é claro. Profissionais que projetam na comunicação a lógica do capitalismo. Mas, ainda há aqueles comprometidos, que atuam dentro das próprias mídias comerciais, como existem aqueles mais definidos por uma comunicação

popular. Esses profissionais não desapareceram. Eles existem e atuam de forma mais plural”, acredita Catarina Farias de Oliveira, doutora e professora de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará. Então, sendo a vontade de quase todos, por que não existem leis ou projetos que já definam o repasse de publicidade pública para práticas alternativas de comunicação? Catarina responde: “No Brasil, tenho presenciado experiências que têm apoios do Estado. Com o tempo elas desaparecem. Não há política definida. Cada governante que entra cria a sua. Assim, as experiências de comunicação vivem profundas crises financeiras. Isso ocorre pois nos projetos alternativos, o lucro não define a lógica. Precisamos ter outras conferências de comunicação para discutir isso. Tivemos a primeira em 2009 e paramos aí. Sem essa reflexão, não teremos transformações efetivas. Durante as mobilizações, no período da Copa das Confederações, ouvi em todo o Brasil gritos de críticas às grandes redes de televisão. A população está insatisfeita, não se sente representada e pede transformações. Fiquei muito feliz em ouvir nas ruas esses gritos. Atos como estes são fundamentais para lutarmos por mudanças na nossa política de comunicação. Não apenas definir recursos para as mídias populares, mas para questionarmos nosso contexto de concessão de meios de comunicação.” O resgate da imprensa alternativa, com o estabelecimento de regras claras de financiamento público que garantam a sua existência, é, por fim, uma questão de justiça histórica. “No caso da ditadura, aqueles veículos foram vitais para interligar e representar uma história das minorias. Havia ali a oposição mais explícita da sociedade brasileira. Com o fim do período ditatorial – e é preciso esclarecer isso! – não conquistamos a plena liberdade de expressão. Tivemos, sim, um País que já não estava sob o jugo de militares, com bem mais liberdade. Mas a realidade política dos meios de comunicação continuou e segue controlada por uma minoria empresarial. Há respostas importantes. O mais belo na História da Humanidade é que sempre vivemos processos de resistências e questionamentos ao estabelecido. Mesmo em condições desiguais, não nos calamos. Gosto muito do filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, em que o personagem central, sem tinteiro e pena, escreve com sangue. Ainda que sem caneta, usa a oralidade para se expressar. E, mesmo sem língua, usa de fezes para escrever na parede. Relaciono toda essa busca por comunicação, vivida por ele no filme, com a luta de dores, embates, sangue e brados vivenciadas pelos atores sociais que têm constituído a trajetória dos meios de comunicação na América Latina e em outros países.” Pelo visto, apesar de tudo, ainda temos alternativas, sim.

“A população está insatisfeita, não se sente representada e pede transformações. Fiquei muito feliz em ouvir nas ruas esses gritos.”

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TRIBUNA DA IMPRENSA

ESPECIAL UMA IMPRENSA SEM ALTERNATIVAS

Hélio Fernandes chega à Tribuna da Imprensa totalmente destruída depois de um atentado.

A imprensa alternativa cresce com a ditadura POR HÉLIO F ERNANDES E SPECIAL PARA O JORNAL DA ABI

Enquanto existirem ditadores, opressão contra o povo, desigualdade social, haverá resistência. E essa resistência virá sempre das ruas mas comandada por jornalistas. Estes se arriscam, se entregam, até mesmo se imolam, oferecem a própria vida em nome da liberdade. Na História do Brasil e do mundo, os nomes desses verdadeiros heróis se somam, se juntam, se multiplicam, são inesquecíveis. E em todos os tempos, esses lutadores se incluem numa longa lista, chamada de imprensa alternativa. As empresas organizadas raramente combatem, o sacrifício e a responsabilidade é exercido individualmente. Vem de longe essa tradição, alguns se eternizaram, as ditaduras acabam derrotadas, embora os jornalistas não saiam vencedores, nem mesmo têm como objetivo a vitória pessoal, e sim a destruição da arbitrariedade. Cipriano Barata, uma lenda e uma legenda, fundou mais de 50 jornais, com nomes diferentes, geralmente batizados com lembranças da última cadeia. Vivia entrando e saindo de prisões, e enquanto estava livre lutava apenas pela liberdade – não à própria. Frei Caneca, sem jornal fixo ou fixado, escrevia onde podia, foi o líder maior da Insurreição de 1817, que levou à Independência de 1822, entre essas duas datas, foi fuzilado. Mas lembrado eternamente. Líbero Badaró lutou demais, resistiu demais, escreveu demais. Como não havia como silenciá-lo com vida, foi assassinado em 1831. Suas últimas palavras podem ser ouvidas até hoje:”Morre um liberal, mas não morre a liberdade.” Depois do Império e com a nascente e logo triturada República, que com mais de 100 anos é muito citada, apesar de não ser a dos nossos sonhos de sempre, tivemos várias ditaduras, ostensivas ou enrustidas, mas todas perseguidoras, torturadoras, selvagens e cruéis, assassinando em nome apenas da ambição do Poder e pelo Poder. Mas tiveram que enfrentar quase que diariamente a resistência de jornalistas, que não pretendiam outra coisa a não ser lutar. Disse quase diariamente, porque a concentração da luta se fazia mais em torno de revistas, como aconteceu no Brasil, (nas duas ditaduras, de 1930 a 1945, depois de 1964 a 1985) com tantos mortos e desaparecidos, alguns nem lembrados são. Nos terríveis regimes de opressão de Portugal (Salazar) e da Espanha (General Franco), semanários que não se entregavam alcançavam grandes tiragens. Aqui no Brasil, principalmente na última ditadura, muitos semanários apareciam, lutavam, desapareciam ou surgiam com outros nomes. Um dos mais notáveis foi o Pasquim, fundado, dirigido e comandado por um brilhante grupo de jornalistas. Chegou a uma tiragem de 300 mil exemplares, muitas prisões e perseguições, mas continuavam a luta. Não tinham nem o objetivo da recompensa, seja financeira ou através da glória, pois derrubada a ditadura os alternativos da resistência desapareciam também. Os ditadores, quando investem contra o povo, sabem que terão que enfrentar os heróicos alternativos. Estes também sabem que serão personagens da História, o mundo não pode ser dominado pela violência ou pela arbitrariedade. Liberdade, Igualdade, Fraternidade, não é invenção da Revolução Francesa. Foi emprestada pela Humanidade, e pela ditadura não será usurpada.


REFLEXÕES

ELIANE SOARES

O medo necessário Ao longo da História, os seres humanos se tornaram animais medrosos por excelência. POR RODOLFO KONDER

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uitos séculos atrás, quando ainda se aprumava, ao descer das árvores, o homem primitivo temia os lugares abertos e as profundezas das cavernas, porque era vítima freqüente, naqueles cenários, da fúria dos predadores. Assim, o medo nos acompanha desde o nosso despertar como bípedes – e ainda agora trabalhamos com os mesmos mecanismos de defesa que nos permitiam sobreviver, naqueles tempos. Algumas pessoas, aliás, tornam-se até prisioneiras dos velhos medos, que nelas se transformam em fobias. O medo de lugares abertos virou agorafobia; o medo das cavernas escuras pode ser a claustrofobia de hoje. Ao longo da História, os seres humanos se tomaram animais medrosos por excelência. “Todos os homens têm medo”, disse Sartre. Além disso, somente os seres humanos podem antever a própria morte, conhecendo, portanto, o medo num grau mais temível e duradouro do que o podem conhecer os seres de qualquer outra espécie. O nosso medo é ambíguo, inerente à nossa natureza, perturbador. Pode nos fazer regredir. Pode até nos matar. O medo freqüentemente dá forma ao Estado, nos casos de regi-

mes totalitários como o nazismo, que caía do céu com a Luftwaffe, descia das colinas com as “panzer divizionen”, torturava, estuprava, construía campos de extermínio, promovia genocídios e ameaçava o mundo com o “Reich dos mil anos”, o “Armagedon” de Adolf Hitler. O Estado fascista também se ergue apoiado no medo, cria aparelhos repressivos e estabelece a violência totalitária, que vai além das guerras e despreza todos os direitos individuais. Às vezes, o fascismo se combina com as ditaduras militares; às vezes, simplesmente empresta traços particulares a outros regimes de exceção, formas de organização do Estado igualmente molhadas no medo e jamais limitadas no tempo, já que sempre podem ressurgir, especialmente na garupa das crises. O medo também marcou para sempre a experiência socialista, os Estados policiais construídos em nome da maior utopia da História, sob o pretexto de que combatiam a opressão dos trabalhadores e lutavam pela liberdade para todos os homens. Anos atrás, atentados terroristas contra a liberdade e a democracia, no dia 11 de setembro de 2001, chocaram a consciência do mundo civilizado e libertaram, mais uma vez, os insidiosos demônios

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“O Estado fascista também se ergue apoiado no medo, cria aparelhos repressivos e estabelece a violência totalitária”

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do medo. Dos porões do destino, emergiram naquele momento as forças incontroláveis da destruição e da morte, para nos amedrontar. Na América Latina, o medo moldou regimes de exceção e ditaduras militares, inclusive aqui, no Brasil. Atualmente, vivemos numa democracia, mas o medo não desapareceu. Ele se alimenta da violência urbana, da droga, da ação de maus policiais, dos saques do MST, da corrupção, da fisiologia, do desemprego. No Brasil, como no mundo inteiro, estamos com medo, porque experimentamos as incertezas de uma fase de mudanças aceleradas, de transformações profundas, de dúvidas insuportáveis. Mas o medo é o começo da sabedoria, como descobrimos em nossa sofrida caminhada – ou na obra de artistas como T. S. Eliot. É uma defesa essencial, proteção eficaz contra os perigos, reflexo indispensável à nossa sobrevivência. Pode ser causa da nossa regressão, como pode ser a fonte das respostas corretas e necessárias às indagações que sempre nos chegam em tempos de mudança. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.

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ACONTECEU NA ABI VITÓRIA

ÓRGÃO ESPECIAL DO TJ-RJ REAFIRMA A VALIDADE DA POSSE DA DIRETORIA DA ABI Mandado de segurança concedido pelo Desembargador Antônio Eduardo Ferreira Duarte impediu que a Casa ficasse acéfala, como pretendiam Domingos Meirelles, Orpheu Salles e seus aliados. Em decisão divulgada no dia 30 de julho e proferida em mandado de segurança ajuizado pela ABI, o Desembargador Antônio Eduardo Ferreira Duarte, membro do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado do Rio, restabeleceu na integralidade a posse dos eleitos para a Diretoria da Casa, ocorrida em 20 de maio de 2013, e “os plenos poderes de gestão e administração da entidade”. Com esssa decisão, o magistrado impediu que a ABI ficasse acéfala, como pretendiam, irresponsavelmente, Domingos Meirelles, Orpheu Salles e seus aliados, que vêm fazendo campanha contra a Casa desde março passado.

DIREITO LÍQUIDO E CERTO É este o inteiro teor da decisão do Desembargador Antônio Eduardo Ferreira Duarte: “TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Órgão Especial Mandado de Segurança nº 04048586.2013.8.19.0000 Relator: Desembargador Antônio Eduardo Ferreira Duarte Decisão 1- Defiro a liminar para que seja anulado o ato coator que concedeu efeito suspensivo ao Agravo de Instrumento nº 0030250-60.2013.8.19.0000, até o julgamento final da presente ação mandamental. Com o presente deferimento da limi-

Jornal da ABI ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha presidencia@abi.org.br / franciscoucha@gmail.com

Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Edição de textos: Maurício Azêdo Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, Conceição Ferreira, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Ivan Vinhieri, Mário Luiz de Freitas Borges. Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva. Diretor Responsável: Maurício Azêdo Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Dr. Franco da Rocha, 137, conjunto 51 Perdizes - Cep 05015-040 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 - Osasco, SP

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nar, ficam restabelecidos na integralidade a posse dos eleitos para a diretoria da ora impetrante, ocorrida em 20/05/2013 e os plenos poderes de gestão e administração da entidade. O direito líquido e certo se encontra configurado no fato de que sem a posse dos eleitos, a ora impetrante não pode realizar movimentações de cunho financeiro no tocante ao pagamento de tributos e dos salários de seus funcionários, permanecendo totalmente acéfala. Também por isso, vê-se nesse aspecto a configuração do periculum in mora a exigir a concessão da medida antecipatória. 2 – Defiro prazo de 15 (quinze) dias, contados de 22/07/2013 para a juntada do mandato outorgado aos advogados da impetrante. 3 – Oficie-se à autoridade apontada como coatora, requisitando as necessárias informações e dando ciência do deferimento da presente liminar. 4 – Oficie-se ao Juízo de primeiro grau para igual efeito, ou seja, informar o deferimento da medida. 5 – Em seguida, à douta Procuradoria de Justiça. Rio de Janeiro, 29 de julho de 2013.”

AS PANTOMIMAS DE MEIRELLES E ORPHEU Poucas horas antes de conhecida essa decisão, os ex-Diretores Domingos Mei-

relles e Orpheu Santos Salles se declararam reinvestidos nos cargos de Diretor Econômico-Financeiro e Diretor Administrativo, embora seus mandatos, nos termos do Estatuto Social da Casa, estejam extintos desde 13 de maio passado. Orpheu, que chegou a se sentar à mesa do atual Diretor Administrativo, Fichel Davit Chargel, tentou fazer que a Polícia Militar do Estado invadisse a ABI, a pretexto de garantir que fosse empossado. Com esse fim, dirigiu solicitação ao 5º Batalhão da PM, que destacou uma patrulha para o saguão do edifício-sede da ABI. Questionado sobre a origem do pedido de policiamento, um dos responsáveis pela patrulha, Cabo Bezerra, informou que partira dos “opositores”. Em face da decisão da Juíza Maria da Glória Oliveira Bandeira de Mello, de determinar a suspensão da reunião ordinária que o Conselho Deliberativo da ABI faria a partir das 15 horas, os Presidentes do Conselho e da Diretoria, Pery Cotta e Maurício Azêdo, convidaram os Conselheiros presentes a realizarem uma reunião informal como simples associados. A suspensão da sessão do Conselho fora pleiteada pelos autores da ação contra a ABI, Domingos Meirelles e Paulo Jerônimo de Souza e comunicada à ABI por um oficial de Justiça às 15h. Foi esta a segunda tentativa que Meirelles e Orpheu fizeram de assumir o con-

DIRETORIA – MANDATO 2013-2016 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Fichel Davit Chargel Diretor Econômico-Financeiro: Sérgio Caldieri Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretor de Arte e Cultura: Henrique Miranda Sá Neto Diretor de Jornalismo: Alcyr Cavalcanti CONSELHO CONSULTIVO 2013-2016 Ancelmo Gois, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Miro Teixeira, Nilson Lage, Teixeira Heizer, Villas-Bôas Corrêa. CONSELHO FISCAL 2013-2014 Adail José de Paula, Dulce Tupy Caldas, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Manolo Epelbaum. MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2013-2014 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: José Pereira da Silva Segundo Secretário: Moacyr Lacerda Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa. Conselheiros Efetivos 2012-2015 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fichel Davit Chargel, Glória Suely Alvarez Campos, Henrique Miranda Sá Neto, Jorge Miranda Jordão, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Vítor Iório. Conselheiros Efetivos 2013-2016 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Dulce Tupy Caldas, Fernando Foch, Germando de Oliveira Gonçalves, João Máximo, Marcelo Tognozzi, Milton Temer, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Sérgio Cabral, Sérgio Caldieri e Zilmar Borges Basílio Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felippe Meiga Santiago (in memoriam), Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz,

trole da ABI. No dia 24 de julho, quartafeira, eles simularam que estavam de posse de uma decisão judicial que os transformava em diretores da Casa. Depois de intimidar os funcionários da ABI, exigindo-lhes que entregassem documentos da Tesouraria, a dupla encenou que estava examinando a documentação da Casa, em poses para o fotógrafo Osmar Amicucci Gallo, que os acompanhava. Em seguida, Meirelles chamou o elevador e se dirigiu ao 13º andar, para fingir que fiscalizava as obras de reforma ali em andamento. A farsa só foi encerrada depois que a advogada da ABI, Dra. Maria Arueira Chaves, do escritório Siqueira Castro Advogados, manteve contato pelo telefone com o advogado de ambos, Dr. Jansen dos Santos Oliveira, e fez ver que a atuação de Meirelles e Orpheu carecia de fundamento legal. Na reunião informal dos Conselheiros, Orpheu confessou que solicitara ao 5º Batalhão da PM que invadisse a ABI para impedir que fosse realizada a sessão do Conselho Deliberativo que a Juíza Maria da Glória decidira suspender e que a Diretoria da ABI acatara. Na reunião, o Primeiro Secretário do Conselho Deliberativo, José Pereira da Silva (Pereirinha), lamentou que um associado da ABI defendesse a ocupação militar da Casa, violência sempre repelida pelo corpo social desde a ditadura militar 1964-1985.

José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão (in memoriam) e Wilson S. J. Magalhães.

Conselheiros Suplentes 2012-2015 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Continentino Porto, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Jordan Amora, Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Rogério Marques Gomes e Wilson Fadul Filho. Conselheiros Suplentes 2013-2016 Antônio Calegari, Aluízio Maranhão, Carlos de Sá Bezerra, Daniel Mazola, Gilson Monteiro, Ilma Martins da Silva, José Cristino Costa, Luiz Carlos Azêdo, Manoel Pacheco, Marceu Vieira, Miro Lopes, Moacyr Lacerda, Paulo Gomes Netto, Vilson Romero e Yacy Nunes. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Alberto Marques Rodrigues, José Pereira da Silva, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Marcus Antônio Mendes de Miranda e Zilmar Borges Basílio. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Mário Augusto Jakobskind; Secretário, Daniel Mazola; Alcyr Cavalcanti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Carlos de Sá Bezerra, Carlos João Di Paola, Ernesto Vianna,Geraldo Pereira dos Santos, Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, Lênin Novaes de Araújo, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Milton Temer, Miro Lopes, Modesto da Silveira, Vilson Romero, Vitor Iório e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. Assistente: Rosani Abou Adal REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor), Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

JORNAL DA ABI • AGOSTO DE 2013 O 392 JORNAL DA ABI NÃO ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA , COMO ADMITE O DECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008.


VISITA ALCYR CAVALCANTI

PROPOSTA

Voto distrital misto, uma solução P OR V ICTOR F ACCIONI

A Presidente da República Dilma Rousseff e o Congresso Nacional colocaram em pauta matéria da maior relevância para o futuro da Nação, com o anúncio da decisão de promover, com certa urgência, uma reforma política, na expectativa de melhor ordenar a vida pública em nosso País. Como fui Constituinte em 1988, e dela saí frustrado, pela derrota do parlamentarismo, e pior, ao deixarem dele a medida provisória que lhe é específica, mas inadequada sua presença no presidencialismo puro, o que abastardou o Congresso Nacional e que, dentre outros males, acabou gerando o mensalão, fico agora na expectativa de adequadas correções. Não sendo possível o parlamentarismo, na sua originalidade, diante do plebiscito de 1993, que estabeleceu o voto direto para a Presidência da República, seria mais que apropriado que o Brasil olhasse para o modelo presidencialista de Portugal e França, nos quais temos um presidencialismo com o Poder Moderador, e daria regular função para o uso da medida provisória. Afora tal adequação do sistema de Governo com a medida provisória, no sistema eleitoral, mais que urgente e oportuno seria a Presidente e o Congresso Nacional decidirem pelo voto distrital misto. Voto distrital misto, modelo Milton Campos, que creio seria mais adequado que o modelo alemão, ou mesmo o distritão. No modelo Milton Campos, o Estado dividiria as eleições parlamentares por distritos, em número equivalente à metade das vagas, e para cada distrito seria eleito o candidato mais votado; que os menos votados se classificariam com os votos obtidos no distrito para as vagas proporcionais, como hoje, que cada partido vier a conquistar no Estado. Com a campanha restrita a cada distrito eleitoral, o candidato ficaria mais próximo do eleitor, e mais transparentes suas ações de campanha, o custo e a prestação de contas, e o exercício do mandato. Sua atividade parlamentar, depois de eleito, também ficaria mais transparente perante os eleitores do distrito que o elegeu. Estas duas propostas contemplariam o fortalecimento dos partidos, e principalmente do próprio sistema político-democrático nacional, melhorando o sistema eleitoral e resolvendo o esvaziamento do Legislativo, com a medida provisória no presidencialismo, quando ela é do parlamentarismo, ao qual se vincula para sua eficácia democrática, mas pode conviver com o presidencialismo que propomos. E ainda assegura melhor viabilização do financiamento público de campanha. Penso tratar-se o mínimo de uma urgente e importante reforma política, numa grandiosa tarefa que urge ser equacionada, e sem a qual creio impossível conseguir-se também a tão reclamada reforma tributária. VICTOR FACCIONI foi membro da Assembléia Nacional Constituinte de 1986-1987 e Presidente do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul.

As homenagens da ABI ao Papa Francisco, o Peregrino da Paz As boas-vindas da Casa ao primeiro Sumo Pontífice latino-americano. P OR I GOR W ALTZ

Um pontífice carismático, próximo ao povo e interessado em fortalecer o sentimento de solidariedade e justiça social dentro da Igreja. Essa é a imagem que o argentino Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, imprimiu em sua passagem pelo Brasil, entre os dias 22 e 28 de julho, para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro. Para a ocasião da chegada do Santo Padre, na qual ele desfilou e saudou fiéis pelas ruas do Centro do Rio a bordo do papamóvel, a ABI prestou suas boas-vindas com uma faixa na frente de seu edifício-sede, na Rua Araújo Porto Alegre, com os dizeres “ABI saúda o Papa Francisco – o Peregrino da Paz. Salve a Jornada Mundial da Juventude”. A JMJ, megaevento católico criado em 1984 pelo então Papa João Paulo II, trouxe para o Rio de Janeiro um contingente de 400 mil peregrinos, que se somaram aos fiéis locais. Durante sua estada em terras brasileiras, Francisco mostrouse aberto ao contato com fiéis. Desfilou em um papa móvel aberto nas laterais pelas ruas do Rio, beijou crianças e cumprimentou idosos e cadeirantes. Acostumado ao trabalho social nas periferias de Buenos Aires, o pontífice visitou a casa de moradores da comunidade de Varginha, no conjunto de favelas de Manguinhos, Zona Norte do Rio, e recebeu jovens infratores no Palácio

São Joaquim, de onde, na sacada, celebrou a oração do Ângelus. Ele celebrou ainda uma missa, no dia 24, para 200 mil pessoas no Santuário Nacional de Aparecida, em Aparecida do Norte, interior de São Paulo. Durante os eventos, o Papa representou uma Igreja interessada em renovar-se por meio da aproximação com os mais jovens e do reforço na promoção de justiça social e combate à corrupção. Ao mesmo tempo, reafirmou posicionamentos como o combate ao aborto e à eutanásia. Francisco falou ainda em maior diálogo com o Estado laico e com outras religiões. “É fundamental a contribuição das grandes tradições religiosas. A laicidade do Estado é favorável à pacífica convivência entre religiões diversas, pois sem assumir como própria qualquer posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade, favorecendo as suas expressões concretas”, afirmou Francisco durante evento realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro no dia 27, onde se encontrou com representantes da sociedade civil. A primeira visita internacional do novo Papa desde que assumiu o trono de Pedro chamou a atenção dos olhos do mundo. Segundo a organização do evento, a edição do Rio de Janeiro da JMJ quebrou o recorde de profissionais de imprensa credenciados para a cobertura. Foram quase 6 mil comunica-

dores, entre jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas, sendo 2 mil da imprensa internacional. Na edição passada da JMJ, realizada em 2011 em Madri, foram 5 mil profissionais cadastrados. Protestos A visita do Papa não transcorreu, no entanto, sem a realização de protestos. No dia 22, primeiro dia do Sumo Pontífice no País, durante uma recepção organizada pela Presidente Dilma Rousseff no Palácio Guanabara, sede do Governo do Estado, na Zona Sul do Rio de Janeiro, uma passeata, inicialmente em defesa dos direitos da população LGBT, mas da qual participaram outros segmentos, foi violentamente reprimida por forças policiais. Dois fotógrafos, Yasuyoshi Chiba, da agência France-Presse, e Marcelo Carnaval, do jornal O Globo, foram atingidos e dois membros do grupo de mídia alternativa Ninja foram detidos por fazerem a cobertura em tempo real da ação repressora policial, acusados de incitação à violência. No dia 27, uma marcha organizada por grupos feministas em Copacabana reuniu cerca de 2 mil pessoas durante a tarde. Houve troca de hostilidades entre fiéis que estavam na praia à espera do Papa e manifestantes que levavam cartazes em defesa do direito das mulheres, a favor da descriminalização do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

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JORNALISMO

E o que era segredo virou manchete... Série especial de O Globo denuncia a política de espionagem praticada pelos Estados Unidos sobre o Brasil. E reafirma o valor do ‘furo’ jornalístico. P OR P AULO C HICO

A prática sugere uma viagem ao passado. Parece coisa dos tempos da Guerra Fria, em que o planeta se dividia entre a influência bipolar do capitalismo e do socialismo. Faz lembrar os filmes de James Bond. Ledo engano. A espionagem entre países não é, pois, página virada na História. Tampouco está restrita ao mundo da ficção. Série de reportagens publicadas por O Globo causou polêmica, gerou desconforto político em Brasília e suscitou debates sobre a ética no campo internacional. A informação dava conta de que os Estados Unidos mantiveram, até 2002, um esquema de espionagem na capital federal brasileira, via satélites e sistemas de computação, envolvendo diretamente instituições norte-americanas, como a Agência Central de Inteligência – popularmente conhecida como Cia. O mesmo ocorreu em outros países da América Latina. A notícia colocou em xeque as relações diplomáticas entre as nações. E agitou a própria imprensa nacional. Sob a tarja de ‘Exclusivo’, a série de reportagens teve início num domingo – 7 de julho. Data em que a manchete ‘EUA espionaram milhões de e-mails e ligações de brasileiros’ ocupou, com o devido destaque, a capa de O Globo. Na página 36 da mesma edição, destacava o lide: “Na última década, pessoas residentes ou em trânsito no Brasil, assim como empresas instaladas no País, se tornaram alvos de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (National Security Agency — NSA, na sigla em inglês). Não há números precisos, mas em janeiro passado o Brasil ficou pouco atrás dos Estados Unidos, que teve 2,3 bilhões de telefonemas e mensagens espionados. É o que demonstram documentos aos quais O Globo teve acesso”. A reportagem de estréia foi assinada por José Casado, Glenn Greenwald e Roberto Kaz. Este último falou com o Jornal da ABI sobre o processo de produção da série. “O material chegou a nós através do Greenwald, que assinou algumas das matérias em parceria conosco, como freelancer. Ele esteve com o Edward Snowden em Hong Kong, acompanhado ainda da documentarista Laura Poitras, que também entrevistamos, e de mais um jornalista do The Guardian. Eu o conheci duas semanas antes da publicação, enquanto fazia uma matéria sobre o que os correspondentes es14

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trangeiros haviam pensado das manifestações que tomaram o Brasil em junho. A partir de então, houve uma confiança jornalística que o levou a dividir parte das informações comigo, com o José Casado e, claro, com O Globo”, contou. Em tempo. É preciso apresentar o personagem Edward ao leitor. Segue, então, mais um trecho da primeira reportagem da série publicada em O Globo. “Os dados foram coletados por Edward Joseph Snowden, técnico em redes de computação que nos últimos quatro anos trabalhou em programas da NSA entre cerca de 54 mil funcionários de empresas privadas subcontratadas — como a Booz Allen Hamilton e a Dell Corporation. No mês passado, esse americano da Carolina do Norte decidiu delatar as operações de vigilância de comunicações realizadas pela NSA dentro e fora dos Estados Unidos. Snowden se tornou responsável por um dos maiores vazamentos de segredos da História americana, que abalou a credibilidade do governo Barack Obama.” Figuras como Edward, hoje caçado pelo Governo dos Estados Unidos, e Julian Assange, do Wikileaks, atuam como os principais colaboradores na geração de pautas de investigação e denúncia, em diversos países. A pedido do Jornal da ABI, Rober-

to Kaz avaliou essa parceria. “Vejo isso como um fenômeno que tende a aumentar. Existe um site americano maravilhoso, de notícias falsas, chamado The Onion. Me lembro que, um ano atrás, eles noticiaram que o partido republicano dos Estados Unidos havia acabado de encontrar o candidato à Presidência para 2040. Tratava-se de um rapaz jovem, jagunço, iletrado, mas que possuía a seguinte qualidade: era o único americano a não ter um perfil nas redes sociais. Ou seja: era o único que ainda não havia comentado ou postado alguma foto que viesse a desacreditá-lo no futuro. A partir do momento em que tudo que fazemos e que os Governos fazem está registrado na ‘nuvem’, não há como escapar de vazamentos cada vez mais constantes dessas informações”. O jornalista de O Globo conta ainda como se deu o processo de publicação da primeira reportagem. Procedimento que levou 72 horas. Pouco tempo, dadas a complexidade do assunto e a gravidade de suas implicações políticas. “Tivemos acesso ao material numa quarta-feira de tarde. Fechamos a primeira matéria na sexta-feira pela noite. Além de mim, do José Casado e do Greenwald, o conteúdo foi discutido com editores e repórteres da editoria Mundo, com editores-executivos e com o Dire-

tor de Redação. A cúpula do jornal esteve constantemente envolvida. O Glenn já conhecia bem o material que tinha em mãos. Ele havia passado onze dias em Hong Kong ao lado do Snowden, para tentar entender o teor das informações. Glenn é americano radicado no Brasil. E foi procurado por Snowden em função do blog que tinha sobre segurança interna e direitos humanos, no site do The Guardian. Ele é o ponto nevrálgico da série de reportagens. A mim e ao Casado coube ter acesso à parte do material, e traduzi-lo de forma a fazer o leitor entender.” Os documentos eram sigilosos e reais. O The Guardian, o Washington Post e a Der Spiegel, três dos veículos de mais prestígio na imprensa internacional, haviam publicado parte deles. “Também tivemos o cuidado, através da Flávia Barbosa, correspondente em Washington, de procurar o Governo americano antes da publicação – mas obviamente, o teor completo do material só foi visto pelos Estados Unidos quando o jornal chegou às bancas. Por fim, zelamos para que nenhuma informação publicada pudesse colocar pessoas em risco. Não publicamos nomes que apareciam nos documentos, e nos ativemos exclusivamente ao material que dizia respeito ao Brasil e à América Latina”, explica Roberto. A resposta foi imediata. A denúncia de espionagem foi desdobrada por praticamente todos os veículos brasileiros. Jornais, televisões, rádios e portais pegaram carona na pauta lançada por O Globo. “A verdade é que nós esperávamos essa repercussão. Antes mesmo de termos os documentos em mãos, já acreditávamos que essa seria a manchete do jornal de domingo. Quando vimos os documentos, tivemos a certeza disso. Publicamos três manchetes seguidas sobre o assunto, que foi repercutido pelos dois outros maiores jornais do País e por inúmeros veículos internacionais”, revela Roberto Kaz, para quem a série teve outro mérito. Resgatar o valor do ‘furo’ – um dos mais nobres ‘produtos’ jornalísticos. Na era de informação online, produzida a jato, muitos analistas da comunicação pregam a tese de que o ‘furo’ jornalístico acabou. Qual será a visão de Roberto sobre a questão? “O furo não acabou. Muito pelo contrário. Creio que, nas últimas três décadas, desde o fim do Gover-


HISTÓRIA

no militar, vivemos o período mais rico de furos jornalísticos no Brasil. Foram derrubados um Presidente, dois ministros da Casa Civil e um ministro da Fazenda em função de investigações jornalísticas. O furo ainda é a matéria-prima mais cara e buscada entre os veículos da imprensa diária e semanal. Surgiram várias outras formas de fazer jornalismo que não existiam, mas ainda há espaço para todos os tipos de apuração”. Ao menos nesta produção de O Globo, não houve conflitos entre o material impresso e o digital. É o que garante Roberto. “O material que saiu no impresso foi publicado online. Além disso, fizemos entrevistas em vídeo com o Glenn para o site. Por fim, havia uma atualização constante na página de O Globo sobre a repercussão do caso. Basicamente, a divisão foi: furos primeiro no papel, depois no online; repercussão, primeiro no online, depois no papel”, afirma o jornalista, que revela qual fato mais lhe causou espanto nesta série de matérias. “O rastreamento das informações, em si, não me surpreendeu. Me chamou a atenção que parte delas pareça ter sido usada para fins comerciais – o que contraria o discurso de que servem apenas para prevenir atos de terrorismo. O que me assusta é que empresas e Governos tenham acesso a dossiês tão grandes sobre pessoas físicas. Não é porque os Estados Unidos são uma democracia chefiada por um Presidente democrata e, dentro do possível, progressista, que o país se manterá assim no futuro. O possível uso dessas informações me parece ser muito perigoso.” Ninguém admite que faz

A respeito da gravidade do ‘delito’ cometido pelos norte-americanos, o Jornal da ABI ouviu José Augusto Fontoura Costa, 44 anos, professor da Faculdade de Direito de São Paulo (Usp). “A espionagem não é tipificada internacionalmente e, portanto, não pode ser tecnicamente chamada de ‘crime internacional’. O Direito Internacional não regula o que normalmente se designa como espionagem. Isso se dá porque, pela própria natureza da atividade, ela é e sempre será negada pelos países que a realizam, mesmo que, curiosamente, seja possível e comum a colaboração formal entre as agências de in-

teligência. Trata-se de um âmbito sempre posto fora do Direito: ninguém admite que faz e, portanto, não há incentivo para regulá-la publicamente. A menos que exista algum prejuízo específico e claramente mensurável para um Estado. Na maioria dos casos, o que pode acontecer são pedidos e respostas diplomáticas, como explicações, desculpas formais ou mesmo a ruptura das relações. Evidentemente, esse episódio não é para tanto... Há algum jogo de cena no ambiente político. Mas o mundo continua a girar, como sempre.” Para ele, a relação diplomática entre os dois países dificilmente será abalada por esse episódio. “Não acredito nessa hipótese. Essas são relações muito sólidas e importantes. Do ponto de vista jurídico, a prática da espionagem pelos Estados Unidos não se justifica, nem mesmo diante do antigo inimigo comunista – a extinta União Soviética, ainda na época da Guerra Fria – ou de ameaças terroristas. De uma perspectiva ética, há questões bastante complexas, como o dever de não faltar com a verdade e ser fiel aos amigos e aliados, por um lado, e a preocupação com a própria segurança, pelo outro... Parte da política de Estado não se altera de acordo com o partido que está no Governo – e os temas relacionados com a defesa são os que conservam maior continuidade. Os Estados Unidos são um país com enorme capacidade militar, que possibilitou a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial e protegeu, em seguida, a Europa Ocidental”. Segundo o professor, embora as ações militares dos Estados Unidos estejam sempre relacionadas a seus interesses estratégicos e econômicos, não se pode negar que muito da condição de paz – ou de guerra – mundial repousa exatamente sobre o poderio americano. Por lá, a espionagem é estrutural, uma prática recorrente do Estado, inclusive dentro das trincheiras do próprio país. “Por isso, não acho que esse caso possa ser compreendido como uma política de Governo Obama, Bush ou Clinton. É mais profundo do que isso”, pondera José Augusto, fazendo crer que os aparelhos norte-americanos de espionagem no Brasil, como indicam os documentos levantados recentemente por Edward, podem não ser exatamente um episódio do passado. Roberto Kaz fala sobre os possíveis desdobramentos da série de reportagens. “Acredito que relações – diplomáticas, afetivas, amorosas ou comerciais – são cíclicas, porém duradouras. Caberá aos dois países saber conduzir o caso de forma a que ele não abale as relações. Muitas das respostas neste caso competem à PF, à Anatel, às empresas privadas, à Abin... Me parece que o tipo de investigação que se busca no momento compete mais ao Governo do que à imprensa. Mas O Globo evidentemente está empenhado no caso, embora seja da natureza de um jornal diário ter um interesse amplo, por todo tipo de assunto. Ou seja, o Globo está empenhado nisto tanto quanto está empenhado em cobrir as manifestações populares, a votação do projeto de ‘cura gay’, as mudanças no Ecad e a vinda do Papa ao Rio e, num futuro não muito distante, a Copa de 2014”, concluiu.

ARIMATÉIA - GENERAL OSÓRIO NA BATALHA DO TUIUTI - ÓLEO SOBRE TELA MUSEU HISTÓRICO DO EXÉRCITO E FORTE DE COPACABANA, RIO DE JANEIRO.

Os 150 anos da Guerra do Paraguai Foi esse o mais sangrento conflito da América Latina: mortos 50 mil brasileiros, 18 mil argentinos e 200 mil paraguaios. P OR P AULO R AMOS D ERENGOSKI

Um dos episódios mais mal tratados e mal contados da História é a guerra da Tríplice Aliança, ocorrido há 149 anos e que foi a maior e mais sangrenta conflagração da América Latina. Teses vagamente esquerdistas esquecem que o Paraguai, desde 1813, sob a ditadura de Francia, O Supremo, se transformara numa nação poderosa, centralizada, baseada nas Estâncias Comunitárias do Estado e com o maior exército americano. Só lhe faltava uma saída para o mar. O pretexto foi uma divergência na antiga Cisplatina. O ditador Solano López tentou um golpe com os “blancos” argentinófilos, e o Império brasileiro mandou Tamandaré bloquear com a Marinha o porto de Montevidéu. Como resposta, López cometeu seu primeiro erro estratégico, abrindo duas frentes: invadiu Mato Grosso em 24 de dezembro de 1864 e logo depois atravessou Corrientes e ocupou São Borja e Uruguaiana. No episódio de São Borja o General Canabarro se rendeu sem combater. Fato pelo qual foi expulso, condenado à morte (depois perdoado). Os argentinos também não aceitaram a ousadia de López e então se formou a chamada Tríplice Aliança. O caos se estabeleceu nas várzeas lamacentas do Prata. Só com a chegada do General Lima e Silva, futuro Duque de Caxias do Império, em 1866, o Brasil tomou a ofensiva. Ele era um organizador nato que já havia esmagado Balaios e Farrapos e derrotado Rosas e Oribe. Em Tuiuti fez alianças com antigos inimigos, organizou uma podero-

sa cavalaria, articulou-se com o poder de fogo na nossa Marinha de Guerra, construiu hospitais e aumentou por dez o efetivo do Exército, incorporando massa enorme de Voluntários da Pátria e ex-escravos. Desceram tropas do Ceará ao Rio Grande do Sul. Os combatentes foram crudelíssimos. Em terra e nos rios. Gaúchos a cavalo, barrigas-verdes a pé, baianos capoeiristas seminus adentravam pelas trincheiras paraguaias, lutando como demônios negros. Uruguaiana, Corrientes, Jataí, Passo da Pátria, Tuiutí, Curupaiti, Humaitá, Angostura, Lomas Valentinas, Avaí, Itororó – um mar de sangue até à ocupação de Assunção em 3 de janeiro de 1869. E o fim: em 1º de maio de 1870, quando o cabo Chico Diabo atravessou uma lança no peito de Solano López (que morreu de armas na mão) em Cerro Corá. Houve heróis de ambos os lados. Aos milhares. Como o catarinense Marcílio Dias levantando nossa bandeira com o braço decepado. Ou as crianças paraguaias morrendo lutando pelo seu país em Acosta Nhu. Mais de 50 mil brasileiros, 18 mil argentinos e 200 mil paraguaios foram queimados no solo guarani. O Brasil, que antes da Guerra Grande estava despreparado, criou um poderoso Exército nacional, nascido no fogo das batalhas e com raízes por todos os lados. Os argentinos levaram para o Pampa um soldo de milhões de cabeças de gado. O Uruguai se firmou como Estado-tampão. O Império brasileiro logo se transformaria em república. Tudo isso a mostrar que as contradições (e os imprevistos) são a única lei da História, que é escrita com sangue, suor e lágrimas.

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DEPOIMENTO

Jornalistas profissionais, jogadores de futebol e público concordam: Milton Leite é o melhor narrador esportivo do Brasil. A afirmação é compactuada tanto por uma enquete realizada pelo portal Uol Esporte (na qual 100 jogadores de 15 equipes deram a Milton a liderança, com 25% dos votos), como pelo Prêmio Comunique-se 2012, na qual votam os profissionais da imprensa no primeiro turno e o público em geral no segundo. Barba, cabelo e bigode, como se dizia antigamente. Os motivos da unanimidade? Simplicidade, bom humor e espontaneidade. Milton Leite não inventa previamente seus bordões, que nascem naturalmente do dia-a-dia, faz do humor seu estilo de vida, e é apaixonado por esportes e pela profissão que escolheu. Queria ser escritor, virou jornalista. Este é Milton Leite. Que beleza!

Com uma sólida experiência em jornal, rádio, tv e internet, o jornalista, que é um dos mais festejados locutores esportivos do País, fala de sua carreira, dos bastidores da profissão, do prazer de narrar jogos, e critica o repórter que não se interessa pela informação. P OR C ELSO S ABADIN E F RANCISCO U CHA F OTOS M ARTIN CARONE DOS S ANTOS

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Jornal da ABI – Como o Jornalismo entrou na sua vida? Milton Leite – Na verdade minha paixão de adolescente era ser escritor. Eu queria escrever livros. Sempre gostei muito de escrever, mas logo de cara percebi que não tinha muito talento para isso. Comecei a buscar então um trabalho que me permitisse escrever, e foi aí que percebi que o jornalismo era o meu caminho. Por isso sempre me imaginei como um jornalista de jornal impresso, trabalhando em Redação, com máquina de escrever, tudo isso. E foi assim que comecei. Jornal da ABI – Você começou sua carreira em Jundiaí, não foi? Milton Leite – Sim, mas nasci em São Paulo. Ainda garoto fomos morar em Uberlândia, pois meu pai foi ser sócio de uma empresa lá. O negócio não deu certo, e meu pai não quis voltar para São Paulo porque não agüentava o estresse da cidade. Imagina, 40 anos atrás e ele já não agüentava a agitação da cidade [risos]. Ele queria morar próximo à capital, mas preferia uma coisa mais calma. Assim, quando eu tinha de 15 para 16 anos, fomos morar em Jundiaí. Foi ali que eu entrei na Faculdade de Jornalismo, em 1978. Minha família ainda mora lá. Jornal da ABI – Como foi sua infância? O que o levou a querer ser escritor? Milton Leite – Eu cresci na Vila Olímpia, pertinho do Itaim Bibi [ambos são bairros paulistanos]. Minha família vinha da classe média baixa, meu pai era sócio de um pequeno escritório de contabilidade e minha mãe era dona de casa. Sempre pratiquei muito esporte, sempre joguei muita bola na rua, brincava de carrinho de rolimã, numa época em que ainda dava para brincar na rua em São Paulo. Eu morava na Rua Casa do Ator, que na época era um lugar bem tranqüilo. Hoje não dá nem para imaginar brincar na rua por ali. Depois fomos para Jundiaí, e logo no primeiro ano de faculdade, comecei a procurar alguma forma de trabalhar em jornal, e rapidamente entrei no Jornal de Jundiaí. Como o mesmo grupo do jornal também era proprietário da Rádio Difusora, eles me convidaram para trabalhar na rádio, acumulando funções, e eu fiquei um bom tempo trabalhando nos dois veículos, rádio e jornal. Todo o meu início de carreira foi em Jundiaí: durante nove anos trabalhei no Jornal de Jundiaí, no Jornal da Cidade, na Rádio Difusora e na Rádio Cidade. Na rádio eu comecei como repórter de esportes, cobrindo o time do Paulista de Jundiaí, e ao mesmo tempo também fazia o jornal diário, onde eu era repórter da geral. Foi na rádio que também comecei a fazer programas de variedades, o que mais tarde eu viria a comandar na Jovem Pan. Fiz de tudo em Jundiaí: programas de variedades, reportagens, escrevi programas, editei jornais, tudo. Nos jornais

impressos foi a mesma coisa. Sabe como é, jornal pequeno, de interior, você acaba fazendo um pouco de tudo. Houve uma época no Jornal da Cidade em que eu era Chefe de Reportagem, ajudava a fechar o jornal à noite, diagramava, canetava, tudo [risos]. Quando vim para São Paulo, em 1987, eu já tinha trabalhado quase 10 anos em Jundiaí. Jornal da ABI – Quando você ainda pensava em ser escritor, que tipo de livros você queria escrever? Milton Leite – Eu queria ser ficcionista. Eu me lembro com 10, 12 anos eu já tinha esse sonho de querer ser escritor. Jornal da ABI – Você lia muito? Milton Leite – Lia e leio até hoje. E sempre me imaginava escrevendo histórias. Agora, mais recentemente, eu até consegui escrever dois livros, mas de futebol. Mas naquela época eu só me imaginava como ficcionista. Jornal da ABI – Você se espelhava em quem? Quais eram seus autores favoritos? Milton Leite – Eu li muita literatura brasileira. Quando era menino, li a coleção completa de Monteiro Lobato; depois, mais tarde, muito Jorge Amado, muito Machado de Assis. Depois fui expandindo para literatura estrangeira, García Márquez, e comecei a me interessar muito por biografias. Li e continuo lendo muitas biografias até hoje. Enfim, leio um pouco de tudo, gosto muito. Acho que escrevo bem, que tenho um bom texto, mas não tenho talento para a ficção, e isso eu percebi logo cedo. Ficção é um passo além: não basta ter um bom texto. Precisa ter idéia, compor personagens, é tudo mais complicado. Mas depois me encontrei no jornalismo. Não que eu tenha me arrependido, pelo contrário: o trabalho em jornal acabou me levando para o rádio, pelo qual eu me apaixonei também. Hoje lamento não ter tempo de fazer alguma coisa em rádio, de que eu gosto muito. Mas por outro lado o rádio acabou me levando para a televisão, que era uma coisa que eu nunca tinha pensado nem em chegar perto. E hoje eu vivo de televisão. Enfim, a vida foi meio que me levando, e as coisas foram acontecendo sem que eu tivesse muito controle. E é curioso porque eu trabalhei em várias áreas diferentes. Quando vim para São Paulo, para trabalhar em jornal, trabalhei na editoria de economia. Quando fui para a rádio, em São Paulo, foi para fazer programas de variedades, ou seja, o esporte só voltou para a minha vida quando eu fui para a ESPN. Jornal da ABI – Quando sentiu que Jundiaí estava pequena para você? Milton Leite – Depois de quase 10 anos de carreira, eu já estava com 28 anos e três filhos. Você percebe que seus custos estão altos e que o seu

horizonte acabou. Eu já tinha sido Chefe de Reportagem, Subeditor, Editor... não tem muito para onde avançar. O máximo que eu podia chegar a ser era Chefe de Redação, mas o problema é que este cargo lá era do Sidney Mazzoni, que era um baita amigo meu, falecido no ano passado, prematuramente. Nós éramos muito amigos. Foi ele quem me ajudou a vir para São Paulo. Naquela época, anos 1980, havia muita gente de Jundiaí trabalhando no Grupo Estado, no Estadão e no Jornal da Tarde. Hoje ainda há, mas naquela época havia muito mais. E um ia trazendo o outro. Foi naquele momento que eu percebi que, se quisesse crescer, teria de trabalhar em São Paulo. Fiquei sondando meus amigos até que apareceu uma vaga, uma única vaga no Estadão, para redator de economia. E eu fui. Nunca tinha trabalhado em economia, mas fui. Inclusive eu sempre falo isso quando dou palestra para estudantes: quem está construindo a carreira não pode ter nenhum tipo de preconceito contra nenhuma editoria. Peguei a oportunidade. Continuei por um tempo morando em Jundiaí e trabalhando em São Paulo. Fazia rádio de manhã, em Jundiaí, vinha para São Paulo e entrava à tarde no Estadão, onde eu ficava até de noite, no fechamento. Fiquei quase quatro anos no Estadão. Em 1989 ou 1990, um ano antes de sair do Estadão, tive a chance de ir para a Jovem Pan, por outra destas coincidências da vida. O diretor de Jornalismo da Pan, na época, Fernando Vieira de Mello, tinha uma casa em Cabreúva, perto de Jundiaí, onde ele passava alguns finais de semana. E ele, apaixonado por rádio, ficava “corujando” várias estações, até que um sábado de manhã ele acabou me ouvindo no programa que fazia na rádio, em Jundiaí, gostou do meu trabalho e me convidou para trabalhar na Jovem Pan. Então comecei na Jovem Pan, fazendo o programa Show da Manhã, entre o final de 1989, começo de 1990, e ainda fiquei uns seis meses no Estadão. Ainda morando em Jundiaí, saía de lá cedinho, chegava na Pan onde ficava até umas duas da tarde, depois entrava no Estadão às 4 da tarde e ficava até umas 10 da noite, pegava o ônibus e voltava pra Jundiaí. Eu só ia pra Jundiaí para dormir. Na Jovem Pan eu fiquei quase oito anos. E por estar na Jovem Pan acabo tendo a chance também de trabalhar em televisão, porque na época eles estavam começando o projeto da Jovem Pan TV. No final de 1990 saio do Estadão e fico só na Pan. 1991 foi o ano de maior empolgação do projeto da TV Jovem Pan. A emissora já estava no ar, em caráter experimental, e eles eram uma espécie de segundo canal da Globo, já que a Globo repassava para a Pan os eventos que não cabiam na sua grade. Tanto que naquele ano nós, na Pan, fizemos o campeonato paulista de futebol, e uma série de outros even-

“Galvão Bueno e Luciano do Valle foram os profissionais que mais valorizaram a profissão de narrador esportivo.” tos esportivos que a Globo não tinha como transmitir, mesmo porque na época ela ainda não tinha o SporTV. Em troca, a Pan emprestava os seus equipamentos, que eram os melhores e mais modernos de São Paulo, para a TV Globo. Só pra dar uma idéia, naquela época, o ônibus que a Globo usava para transmitir Fórmula-1 era da TV Jovem Pan. Mas já em 1992 e 1993 o projeto da TV começa a não dar certo por causa de brigas entre os sócios, e em 1995 eu já começo a trabalhar naquilo que estava começando a ser a ESPN Brasil. Concilio o trabalho na Pan e na ESPN até 1997, e somente a partir do ano seguinte é que eu fico só na ESPN Brasil. É em 1998 que, pela primeira vez na vida, eu fico num único emprego [risos]. Jornal da ABI – Por que você optou por sair do Estadão e ficar só na rádio? Milton Leite – Achei mais vantajoso, sob o ponto de vista de perspectiva, pois a Pan estava desenvolvendo o projeto de televisão. E as idas e vindas estavam muito cansativas. Até fisicamente não estava valendo a pena. Jornal da ABI – Em que momento você se especializa no Esporte? Milton Leite – A TV Jovem Pan utilizava todo o pessoal da rádio, e eu fui para a TV para ajudar especificamente no esporte. Embora na rádio eu não fizesse parte da equipe de esportes, na TV eles me pediram para ajudar nessa área, porque eu gostava muito de esportes e acompanhava tudo neste assunto. Então eu passei a apresentar programas esportivos, fazer os intervalos dos jogos, e ali foi a primeira vez que passei a trabalhar mais diretamente nesta área. Eu tinha feito isso em Jundiaí, mas muito pouco. É na TV Jovem Pan que eu viro narrador também, porque num primeiro momento me colocaram na TV para ser só apresentador. Num determinado final de semana, por algum motivo eles ficaram sem narrador, que era o Flávio Prado, e o Tuta sugeriu que eu narrasse o jogo. Eles gostaram e eu virei narrador esportivo de televisão. Jornal da ABI – Mas foi assim, de repente, sem nenhuma preparação? Vem aquele instinto de quem narrava pelada na rua? Milton Leite – Pelada na rua e jogo de botão [risos]. Jornal da ABI – Quais eram os locutores que lhe serviam de referência?

Milton Leite – Minhas referências de locutores eram as do pessoal de rádio: Osmar Santos; José Silvério, com quem eu vim a trabalhar depois, na Jovem Pan; Joseval Peixoto, que na minha opinião é um grande narrador, uma pessoa muito culta, advogado formado pela São Francisco que além de narrar bem tem vocabulário e coisas interessantes para falar. Essas eram as minhas referências de rádio, mas é óbvio que é impossível citar minhas referências de televisão sem falar de Galvão Bueno e Luciano do Valle. Foram eles os profissionais que mais valorizaram a profissão de narrador esportivo: eles colocaram o narrador em posição de destaque nas transmissões esportivas. Todos nós devemos muito a eles. Jornal da ABI – O seu humor lembra o Walter Abrahão. Milton Leite – Já me falaram isso. Eu cheguei a ver o Walter trabalhar, na TV Tupi, quando eu era menino. Eu conheci o Walter Abrahão quando ele já era do Tribunal de Contas. Cheguei a participar de um programa com ele no então CBI, o Canal Brasileiro da Informação, que foi meio que um sucessor da TV Jovem Pan. Jornal da ABI – Estrear como locutor esportivo foi uma coisa sossegada pra você? Porque seu estilo é muito sossegado. Já era assim na época? Milton Leite – Bom, não sei se na época foi tão sossegado quanto é hoje [risos]. Lembro que nas minhas primeiras transmissões eu me apoiava na minha memória afetiva, tanto que se você ouvir o meu começo de carreira na televisão vai perceber que as transmissões tinham estilo de rádio. Eu falava demais e mais alto do que precisava. Eram as minhas referências: eu cresci ouvindo futebol e gostando de futebol ouvindo rádio, e não como a geração mais nova, que é da televisão. Daí o Tuta e o Fernando Viera de Mello foram me moldando, me ensinando que a imagem era mais importante do que o que eu tinha para falar. Jornal da ABI – Quem te pôs para narrar na televisão será que já tinha o feeling de que você daria certo? Milton Leite – Não sei dizer, mas o Tuta é um cara genial! Ele, o Nilton Travesso, e a chamada Equipe A, no auge da Record, fizeram coisas geniais. Ele me deu muita segurança porque eu acreditei no taco dele. Somos amigos até hoje: às vezes eu vou lá na rádio conversar com ele. E tinha o Fernando Vieira de Mello, já falecido, mas que era um baita jornalista e fazia coisas incríveis. Lembro que o Fernando insistia em pautas que ninguém achava que iriam dar certo, e todas elas funcionavam muito bem, davam muita repercussão. Jornal da ABI – Lembra de algum exemplo?

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Milton Leite – Teve uma vez que ele descobriu um professor da Usp que tinha desenvolvido um líquido que prometia eliminar o ácaro das roupas, dos estofados, enfim. Ele sugeriu a pauta, e ninguém colocou fé. Bom, a reportagem foi pro ar e foi uma loucura, aquilo explodiu, com todo mundo querendo saber mais sobre o tal líquido que combatia o ácaro. Ele tinha umas sacadas assim, era um cara genial. Então se estes dois caras geniais falaram que eu poderia ser locutor de televisão, eu acreditei, né? Acho que deu certo [risos]. Jornal da ABI – No Grupo Estado você trabalhou na Rádio Eldorado também, não foi? Milton Leite – Isso foi o seguinte: um dos profissionais que comandavam o Estadão naquela época era o italiano Sandro Vaia, que era muito amigo meu. Ele foi um dos fundadores do Jornal da Tarde, foi durante muitos anos editor do jornal, mas a gente se conhecia mesmo era de Jundiaí, onde ele chegou até a ter um jornal, quando era moço. Na época em que a família Mesquita foi afastada do Grupo Estado, o Sandro passou a fazer parte de um comitê que administrava as empresas do Grupo, na área de conteúdo. E ele me chama perguntando se eu teria interesse em ajudá-lo na reformulação da Rádio Eldorado, me convidando para fazer um programa de manhã. Disse a ele então que só fazer mais um programa de rádio não iria acrescentar muita coisa na minha vida, que eu não teria interesse. Na época, eu estava saindo da ESPN e indo para o SporTV. Mas disse ao Sandro que eu teria, sim, muito interesse num novo desafio: dirigir a rádio. Foi aí que acertamos de eu ser o editor-chefe da Eldorado. Eu fazia o programa de manhã, mas participei de toda a reformulação da programação, criava programas, montava equipes de trabalho etc. Fiquei 20 meses lá, entre 2004 e 2005. Foi exatamente quando a rádio sai do bairro da Aclimação e vai para o prédio onde estava todo o Grupo. Feita a reformulação, a audiência cresceu, e chegou-se naquele ponto em que, para dar continuidade ao crescimento, seriam necessários mais investimentos, pois a nossa equipe era formada quase toda só por estagiários, por estudantes ou recém-formados, com poucos profissionais experientes. Mas eles estavam vivendo toda aquela crise do Grupo e não tinham mais como injetar dinheiro. E também como eu estava tendo alguma dificuldade em conciliar a rádio com o SporTV, pois tinha de viajar muito, decidi sair, com o dever cumprido da reformulação terminada. Foi uma experiência espetacular! Uma das melhores experiências que eu tive na vida foi ter dirigido a Redação da Eldorado. Jornal da ABI – Foi bom trabalhar com a garotada?

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Milton Leite – Eu achei, sim. É um pessoal sem vícios, querendo se firmar na profissão, muito legal. Eu já tinha sido Chefe de Redação e Chefe de Reportagem tanto em Jundiaí como na Jovem Pan, mas na Eldorado eu fui chefe de tudo, comandava o sistema todo. Do meu ponto de vida pessoal, a certeza de que eu podia fazer aquilo foi muito legal. Jornal da ABI – Uma coisa que chama muito a atenção nas transmissões esportivas é a memória e a rapidez que o locutor deve ter para reconhecer e lembrar os nomes de todos os jogadores em campo, muitas vezes de times pouco ou nada conhecidos. A memória é um dos requisitos básicos para um narrador? Milton Leite – Hoje em dia é um pouco mais fácil por causa da internet: um dia antes do jogo é fácil entrar no site do time e tentar memorizar os rostos e os nomes. Mas eu tenho uma facilidade em desenhar um mapa dos jogadores na minha cabeça desde o iniciozinho do jogo. Como lá de cima, da cabine de transmissão, muitas vezes há jogadores que acabam se tornando muito parecidos, eu me atenho aos detalhes, como a cor da chuteira, o jeito que o cabelo balança mais ou balança menos, estas coisas. E faço estas associações. Por exemplo, lá de cima, o Alessandro, o Émerson e o Fábio Santos, todos do Corinthians, são muito parecidos, pois são todos carecas, brancos e mais ou menos da

mesma altura. O jeito de correr do Émerson é um pouco diferente, mas são parecidos. Então a gente percebe que um deles está usando uma munhequeira branca, memoriza este detalhe e faz a diferenciação. Acho que cada um tem sua técnica para memorizar os jogadores. Jornal da ABI – Você fica mais de olho no campo ou no monitor? Milton Leite – Eu divido. Quando a bola está em jogo, quando o jogador está com a bola, eu fico mais de olho no campo. Quando a bola está parada, e a câmera corta para a torcida, corta para o banco, aí é hora de ir pelo monitor. Quando a câmera não está na bola, você não sabe o que vai ser mostrado, então é necessário ficar de olho no monitor para poder informar o público sobre o que está sendo mostrado. Atualmente a qualidade da imagem é tão boa, a tecnologia é tão boa, tem tantas câmeras em campo, o telespectador está vendo tantas coisas em casa que o narrador precisa acompanhar tudo, para que o público não pense que você não está prestando atenção naquilo que ele, telespectador, está vendo. Muitas vezes o SporTV pega o mesmo sinal da Globo, mas há câmeras que são exclusivas nossas, do canal. E como o profissional que está comigo, na coordenação, não tem poder sobre o sinal da Globo, ele não tem como me avisar, com antecedência, o que o sinal da Globo vai mostrar. Ele só vai conseguir fazer isso nas câmeras exclusivas do SporTV. Então se o

“Eu sou um jornalista, e estou contando uma história. Se eu for me colocar na posição de torcedor, não vou cumprir bem o meu papel”. sinal da Globo mostra, por exemplo, um ator, uma pessoa famosa vendo o jogo, eu não tenho como saber isso com antecedência. Eu preciso ficar muito atento ao monitor para poder informar ao telespectador, imediatamente, quem é aquela pessoa que acabou de aparecer na tela. Jornal da ABI – Percebe-se muito o diretor de TV praticamente “narrando” o jogo, direcionando o locutor através das imagens. Milton Leite – Isso acontece mais na Globo que no SporTV. A Globo gosta muito de mostrar torcida, mostrar personagens quando a bola está parada. Ela corta mais. Jornal da ABI – E o quero-quero e a mariposa? [A pergunta se refere a um jogo onde, repentinamente, Milton Leite aproveitou um momento de bola parada e passou a “narrar” uma briga entre um pássaro quero-quero e uma mariposa, que estava sendo focalizada pelas câmeras do SportTV. A brincadeira já havia alcançado mais de 37 mil visualizações no You Tube, até o fechamento desta edição.] Milton Leite [risos] – Ninguém me falou que a câmera ia mostrar aquilo. Eu olhei para o monitor e lá estavam o quero-quero e a mariposa brigando. Eu fui pego de surpresa, mas como tenho raciocínio rápido tive esta sacada na hora. A repercussão foi enorme. Jornal da ABI – Você é brincalhão em qualquer circunstância? Milton Leite – Sou. O que me deixa natural no ar é que eu sou assim mesmo. Eu não fico pensando antes em coisas para dizer quando estiver no ar. Faço naturalmente estas brincadeiras com os amigos, com as pessoas, eu me divirto muito. Os bordões todos foram surgindo naturalmente, nada foi pensado antes, nada é planejado. Eu nunca pensei em criar bordões. Nos três ou quatro primeiros anos, na ESPN, eu não tinha bordão nenhum. O primeiro que apareceu, o “que beleza!”, surgiu não lembro agora se foi nas Olimpíadas de Sidney ou de Atenas, que eu peguei emprestado do Wanderely Nogueira, que já o utilizava há muito tempo na Jovem Pan. Eu trabalhei muito com ele e meio que absorvi. A gente sempre falou o “que beleza!” nas rodinhas, nas brincadeiras, até que um dia escapa, vai pro ar, e você percebe que as pessoas gostam. E como na ESPN a

gente lia os e-mails diretamente do telespectador, sem filtro nenhum, percebemos que as pessoas tinham gostado muito do “que beleza!”, mas não é uma coisa que eu fique pensando. Eu quero é narrar direito, identificar certinho os jogadores, fazer daquilo um entretenimento, fazer uma boa transmissão. O bordão é só uma coisinha a mais. Jornal da ABI – E o que o Wanderley Nogueira acha de você ter pego o bordão dele? Milton Leite – Ele não tem problema nenhum com isto [risos]. Já falei com ele, sempre que eu dou entrevista eu cito que o bordão é dele, está tudo certo com o Wanderley. Este bordão é o único de alguém conhecido que já fazia isso no rádio. Os outros são de amigos, gente que não trabalha no meio, outros são meus mesmo, e por aí vai. Jornal da ABI – Então o seu maior trabalho é traduzir os bordões para outros idiomas? Milton Leite – [risos] A primeira vez que eu fiz isso foi na Copa do Mundo na África. Não lembro agora em que jogo foi, mas eu traduzi o “que beleza!” para o idioma do time que estava jogando, e ficou muito engraçado! Tanto que o rapaz que fazia a coordenação das transmissões internacionais começou a pesquisar e sempre antes de cada jogo ele me passava as expressões “que beleza!”, “que fase”, “segue o jogo” nos idiomas das seleções que iriam jogar. Foi muito divertido. Jornal da ABI – Em caso de Copa do Mundo, você não encarna a figura do narrador/torcedor, não é? Milton Leite – Não, não é muito o meu perfil. No fundo eu sou um jornalista, e teoricamente estou contando uma história. Se eu for me colocar na posição de torcedor, não vou cumprir bem o meu papel de contar uma história que tem dois lados. Tem o time do meu país, e tem o time que não é do meu país, mas que pode ser melhor que o meu. Não é do meu perfil e eu nem saberia fazer isso direito, se eu me propusesse a fazer. Não vai aí nenhuma crítica a quem faz isso; cada um tem a sua maneira de fazer. Jornal da ABI – Mas nem na hora de gritar gol? Milton Leite – Ah, na hora do gol, sim. O grito do gol do adversário não sai com o mesmo entusiasmo do gol do Brasil, mas não a ponto de eu me exacerbar na torcida. Por exemplo, no jogo em que o Boca desclassificou o Corinthians, nesta última Libertadores, os erros de arbitragem foram enormes e grotescos, mas não ficamos valorizando isso como se fosse uma tragédia, um roubo, nada disso. Tratamos o fato como puro e simples Em jogos internacionais, Milton Leite tem o hábito de falar seus bordões nos idiomas dos times estrangeiros que estão em campo.


Jornal da ABI – Você sente diferença quando narra um jogo pela Globo e pelo SporTV? Existe alguma orientação diferente? Milton Leite – Não, pelo contrário. Eles me falam para fazer na Globo exatamente o que eu faço no SporTV. No começo eu ficava meio preso, não sabia se podia soltar os bordões, se podia brincar como eu brinco no SporTV, e a única coisa que eles me disseram foi para eu fazer na Globo exatamente o que faço no SporTV, que tá dando certo. Mas nunca ninguém me disse “não fale isso, não fale aquilo, ou fale isso e fale aquilo”. Sempre tive carta-branca.

erros de arbitragem e ponto final. Segue o jogo. Jornal da ABI – Na TV Jovem Pan você não gritava gol. Milton Leite – É, não gritava. Como a TV Jovem Pan tinha muitos recursos gráficos, quando saía o gol, eles colocavam uns caracteres bem grandes com a palavra “gol”, e no áudio vinha aquela mesma musiquinha que tocava na Rádio Joven Pan: “É gol, que felicidade! É gol, o meu time é a alegria da cidade!” Então o narrador não gritava gol, e isso também foi uma idéia do Tuta, pois ele achava que gritar gol seria redundante. Ele pediu para que cada um dos três narradores da TV, que eram o Milton Neves, o Flávio Prado e eu, criasse uma frase para dizer na hora do gol. A minha era “A emoção acontece na Pan”.

Jornal da ABI – Pra você, é diferente narrar um jogo pela tv paga e pela tv aberta? Milton Leite – A grande diferença é o público, que na tv aberta é muito mais heterogêneo. O que a gente imagina e as pesquisas também mostram é que o público do SporTV é muito mas “especialista”, vamos dizer assim, que entende mais de esportes, acompanha, sabe o que está acontecendo, e está ali porque gosta daquilo. A TV Globo pega um público muito mais diversificado: ali não está só o público que gosta de futebol, que em geral é o pai, o filho mais velho, enfim. Lá também está a mãe que está assistindo ao jogo só para esperar o Faustão, ou porque acabou a novela e está vendo o jogo com o marido, etc. Então o grande desafio para quem narra na tv aberta é tentar angariar este público não especialista. Eu gostaria de narrar mais jogos na tv aberta, ter mais freqüência, para ver se eu consigo fazer isso. Seria um bom desafio.

Jornal da ABI – E difícil não gritar gol na hora do gol? Milton Leite – Ah, no começo foi, tinha que ficar segurando [risos]. Jornal da ABI – Quantas Copas do Mundo você já cobriu? Milton Leite – Três: França, Alemanha e África do Sul. Jornal da ABI – Do que vivenciou, como jornalista, nestas três Copas, você acha que o Brasil terá condições de oferecer, para o jornalista que vem nos visitar, as mesmas condições de trabalho que você teve como visitante? Milton Leite – São duas coisas. Se você pensar nos estádios, nas estruturas de imprensa, equipamentos e logísticadosjogos,achoqueagentevaifazer igual ao que os outros já fizeram. Até porque tudo isso é terceirizado pela mesma empresa multinacional que cuida de todas as Copas. Deste ponto de vista, acredito que não teremos problemas.Acho que teremos problemas com outro tipo de estrutura, como deslocamentos, hotéis, transporte, trânsito etc. Houve problemas assim na África do Sul. Lá, algumas cidades eram pequenas, com aeroportos pequenos, e em determinadas ocasiões não havia vôos suficientes para que os jornalistas pudessem se deslocar para fazer as coberturas. Nós mesmos do SporTV perdemos uma conexão porque o vôo atrasou, não havia outrosvôosdisponíveis,eaequipetoda tevedepercorrerquase400quilômetros de carro para não perder o jogo que tinha que ser transmitido. Numa das semifinais o aeroporto ficou congestionado, e muita gente com ingresso comprado não conseguiu nem pousar na cidade que teria o jogo. A estrutura hoteleira também não era grande o suficiente na África do Sul. Muita gente teve de ficar em pousadas ou em casas de família. Acho que este tipo de dificuldade também vai acontecer aqui. Jornal da ABI – Essas dificuldades na África do Sul não foram muito divulgadas...

Milton Leite – É, foi muito pouco falado. Todos estavam tratando a África do Sul com muita condescendência, levando em conta que o país saiu de um terrível regime de apartheid há relativamente pouco tempo, e que estava somente agora voltando para um convívio social e internacional. Todos trataram a África do Sul com muita boa vontade, o que eu acredito que não vá acontecer com o Brasil. Temos economia de Primeiro Mundo, é um país que está crescendo, que já recebe muitos turistas. A imprensa internacional não terá com o Brasil a mesma condescendência que teve para com a África do Sul. Jornal da ABI – No caso da Globo, por exemplo, que é quase uma patrocinadora, praticamente uma co-promotora do evento, em casos como este você acredita que ela omitiria as informações ruins para a Copa? Ela deixa de tratar o evento de forma jornalísti-

“Vejo novela, sim. Se eu quero entender o meu público, eu preciso saber o que ele acompanha.” ca para tratá-lo de maneira mais promocional? Milton Leite – Bom, no caso da África do Sul eu cobri pelo SporTV, que é da Globo mas não é exatamente a Globo. Não houve orientação para não falar de problemas porque pegaria mal para o evento. Tanto que o caso da conexão perdida nós chegamos a comentar no ar, sem problema algum. Acredito que não foi falado muito dos problemas porque no fim das contas todos eles acabaram sendo contornados. Não foi uma calamidade, não foi uma catástrofe e havia

coisas mais importantes a serem ditas. Mas orientação para esconder problemas não houve nenhuma, não. Jornal da ABI – E como você vê estes casos em que o jornalismo fica em segundo plano em relação ao evento? Por exemplo: a Globo não fala de Fómula Indy porque o evento é da Band, e a Band não fala da Fórmula 1 porque o evento é da Globo. Milton Leite – A Globo não é patrocinadora ou apoiadora de eventos. Ela compra os direitos. Claro que ela quer dar um tratamento bom para o evento do qual comprou os direitos porque ela pagou caro para transmitir. Mas se der problema, ela vai falar mal. Eu não sei qual é a política que faz com que a Globo não fale da Indy e a Band não fale da Fórmula 1, talvez seja para não alertar o telespectador que o evento está em outro canal, mas exatamente qual é a política eu não sei. Mas noticiar tem que noticiar, não é?

Jornal da ABI – Então aquela brincadeira que você faz na tv paga, quando diz “ele pensou que era o Gérson e tentou fazer um passe de 40 metros” não vai funcionar na tv aberta? Milton Leite – Sim, muita gente não vai entender porque não vai saber quem é o Gérson. Eu posso até fazer a piada, mas vou ter que explicar. Jornal da ABI – Piada com legenda não dá, né? [risos] Milton Leite – As brincadeiras têm que ser diferentes, têm que mexer com o universo mais próximo da maioria das pessoas. No ano passado, quando narrei alguns jogos na Globo, fiz algumas brincadeiras usando o universo das novelas, porque sabia que o público feminino entenderia. Eu acompanhava bem a novela para poder usar nas transmissões. Jornal da ABI – Você vê novela? Milton Leite – Vejo, vejo sim. Até para ficar por dentro do que está acontecendo. Se eu quero entender o meu público, preciso saber o que ele acompanha. E acho as novelas bem feitas também.

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Jornal da ABI – A Uol fez uma pesquisa que te colocou como o preferido entre os narradores de futebol. Como você recebeu isso? Milton Leite – Embora a pesquisa do Uol não tenha um caráter científico, é sempre bom ficar em primeiro, né? Melhor que ficar em último [risos]. Jornal da ABI – Principalmente levando em consideração que você transmite num canal pago, que não tem a mesma cobertura de um canal aberto... Milton Leite – Neste sentido é sem dúvida um resultado espetacular. Fiquei muito feliz e pra mim isso é sempre muito bom. Jornal da ABI – Qual é o segredo do seu sucesso? [risos] Milton Leite – Não sei, acho que tenho essa característica de levar as coisas no bom humor, um jeito mais leve de brincar com os personagens, isso faz com que as pessoas se identifiquem com a transmissão. Quando encontro as pessoas na rua, em hotéis ou aeroportos, percebo que tenho um grande público infanto-juvenil e feminino, que é um público que não é tão cativo do futebol quanto o homem adulto. Acho que o jeito leve de fazer a transmissão me dá um certo prestígio com este tipo de público. E tem ainda o fato de eu estar no SporTV, que transmite os melhores eventos e cuja audiência tem crescido muito. Tudo isso ajudou muito, porque eu cheguei no SporTV exatamente neste momento de crescimento da participação da paga no Brasil, em função do crescimento do poder aquisitivo de uma boa parte da população. Eu me lembro que, na época da ESPN, tínhamos uma base de 2,5 milhões de assinantes, o que é quase nada para um País de 220 milhões de habitantes. E agora já ultrapassamos a base de 18 milhões de assinantes. O crescimento foi realmente muito grande. Jornal da ABI – Foi este público jovem que te fez abandonar o bordão “Agora eu se consagro”? Milton Leite – Abandonei por um período, mas ultimamente tenho usado novamente. Não com tanta freqüência, mas uso. Aconteceu que uma vez um amigo me disse que o fato do bordão ter este erro de concordância chamou a atenção do filho dele. Ele me pediu para pensar se eu não estaria ajudando a difundir um erro junto à garotada. Fiquei então meio temeroso com isso, e passei mais ou menos um ano sem usar. Mas aí depois me disseram: “Fala-se tanta merda na televisão, que não vai ser esse o problema”. E eu voltei a usar, mas agora sempre com uma advertência. Depois que eu uso o bordão, complemento dizendo que “O Ministério da Educação adverte: a frase eu se consagro tem um grave erro de português” [risos].

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“Torcedores do Santos invadiram a cabine, jogaram o equipamento no chão, ameaçaram bater.” Jornal da ABI – Por falar em Ministérios, o fã de futebol, ao acompanhar o noticiário esportivo, cada vez mais se vê diante de notícias sobre denúncias e corrupção que propriamente sobre esportes. Como você vê isso? Milton Leite – O esporte é uma representação da sociedade. O que acontece na sociedade acontece no esporte também. Se você for analisar todos os outros setores, Congresso, governo, prefeituras, empresariado temos no esporte uma representação disso tudo. O que deveria acontecer é que os dirigentes deixassem de criar seus feudos particulares dentro das entidades esportivas. Quem fica 40 anos no poder, numa federação, cria uma estrutura viciada. Deveria haver no Brasil um mecanismo que não permitisse isso. Deveria haver uma oxigenação de administração esportiva. Como jornalista, como uma pessoa que sempre foi apaixonado por esportes, acho muito triste ver estas figuras comandando. João Havelange, por exemplo, de que todo muito sempre falou muito bem, de repente tem que sair corrido da Fifa por causa de corrupção! Assim como nós poderíamos estar melhor em vários setores da vida brasileira, também no esporte, se não houvesse corrupção, poderíamos hoje estar num estágio muito mais avançado.

Jornal da ABI – Como você vê hoje a qualidade do jornalismo esportivo no Brasil? Milton Leite – Enfraqueceu muito, enfraqueceu muito! E há várias razões para isso. Temos muitas faculdades formando muita gente, assim, “no tapa”, para colocar muita gente no mercado. Com a chegada das tvs a cabo e dos portais de internet, o próprio mercado cresceu, demandando muita gente num período muito curto. E eles contratam pessoal sem experiência, formação, e até mesmo sem um bom nível pra saber o que está fazendo. Hoje todo mundo tem opinião sobre tudo. Nos blogs, todo mundo escreve sobre tudo, todo mundo mete o pau em todo mundo. Esta expansão muito rápida do mercado fez com que a qualidade do jornalismo esportivo que se faz hoje tenha caído muito em relação a quando eu comecei.

melhor de execução, de produção, de pautas, de idéias, do que deveria ser noticiado, do que não deveria ser noticiado, enfim. Hoje o jornalismo esportivo está muito centralizado em fofocas, do que fulano falou, do que sicrano disse, “o que você acha do que ele falou de você?”, essas coisas. Isso não é jornalismo.

Jornal da ABI – E na época em que você começou, o jornalismo esportivo era do mesmo nível dos outros tipos de jornalismo, do econômico, por exemplo? Milton Leite – Naquela época o pessoal do esporte era visto como uma espécie de segunda divisão do jornalismo. A gente ficava lá no fundo da Redaçãoequandoapareciaalguémque não era muito bom, o pessoal falava: “Põe na editoria de esportes” [risos].

Jornal da ABI – Aconteceu isso contigo num programa com o Vanderley Luxemburgo... Milton Leite – Sim, foi. Em geral, o profissional de futebol, o jogador, o técnico, ele só acha que você é bom jornalista se você fala bem dele. Quando você faz alguma crítica, eles falam que você é fofoqueiro, que você quer derrubar a pessoa, etc. O episódio com o Luxemburgo foi claramente isso. Eu fiz um comentário sobre uma contratação que ele tinha feito no Palmeiras, na época, que eu achava inexplicável. E eu disse que “é com este tipo de contratação que a gente acaba achando que existe alguma coisa a mais que só uma contratação”. E ele viu isso como um ataque. Ele ligou na hora do programa, dizendo que queria entrar no ar ao vivo de qualquer jeito, e a gente bateu boca no ar. E eu falei exatamente isso pra ele: que ele é uma pessoa que quando não está sendo elogiado se rebela e vem atacar. Ele ameaçou me processar. Foi isso.

Jornal da ABI – No esporte e na editoria de polícia, não é? Milton – Isso, exatamente! Mas isso hoje melhorou muito. O esporte hoje tem um espaço nobre nos jornais, e passou a ter a importância que merece. Mas o nível daquela época era um pouco melhor. Digo o nível das pessoas que faziam, um nível

Jornal da ABI – Você abandonou seu blog? Milton Leite – Já tentei três vezes ter blog... meu Deus! Primeiro no Globo Esporte, parei. Depois num site pessoal que eu tinha criado, abandonei também. Depois me chamaram de novo no Globo Esporte, fiquei lá um tempo, mas não deu. Este meio da

internet é muito virulento: o sujeito por trás do anonimato se sente no direito de te xingar de tudo o que é nome, não discute a sua opinião, te agride pessoalmente, escreve barbaridades, e eu cheguei à conclusão de que o desgaste não valia a pena. Gosto muito de escrever, tinha um espaço legal, a audiência do blog no Globo Esporte era muito bacana (era o segundo blog mais lido do Globoesporte. com), mas não valia a pena. Primeiro porque é preciso dar uma atenção quase diária ao blog, atualizando, e eu já não tinha tanto tempo pra fazer isso, porque viajo muito. Além disso eu ainda tinha de aprovar os comentários, porque eu não tinha uma equipe pra fazer isso. Eu tinha a opção de deixar os comentários em aberto, ou seja, qualquer coisa que o leitor escrevesse sairia publicado, mas eu não queria isso porque sabia que deixar tudo aberto baixa o nível da discussão. E os caras escrevem umas barbaridades que você para e pensa: não mereço isso. As pessoas não têm controle. Jornal da ABI – Fora do blog, você sente pressão de torcida? Milton Leite – Em alguns momentos. No episódio do vídeo do Rogério Ceni, sempre que eu chegava para transmitir um jogo no Morumbi, aparecia gente xingando, jogando bolinha de papel, estas coisas. [Refere-se a um vídeo que vazou na internet onde, fora do ar, Milton Leite comenta que o goleiro sãopaulino Rogério Ceni é “chato”]. Já teve o caso de a cabine de transmissão ser invadida na Vila Belmiro, num dia em que o Santos perdeu... Jornal da ABI – Invadiram a cabine?


Milton Leite – Invadiram, jogaram o equipamento no chão, ameaçaram bater... Não era uma coisa pessoal, mas a gente estava ali representando a imprensa e o torcedor quando perde a noção acha que quando o time dele perde é porque a imprensa está contra, a Globo está contra. Isso aconteceu duas vezes na Vila Belmiro, as duas contra o SporTV, e nas duas eu estava lá. Tanto que ficamos uns quatro ou cinco anos sem transmitir jogos da Vila; fazíamos tudo do estúdio, e só o repórter ia ao campo. E agora está acontecendo algo semelhante com a Ponte Preta: não conseguimos mais transmitir o jogo da cabine porque as pessoas ficam ameaçando o tempo inteiro. Eles acham que a Ponte Preta é perseguida, e que isso é culpa da imprensa, da mídia, da Globo. Até o presidente da Ponte Preta veio pedir desculpas, mas enquanto eles não garantirem a nossa segurança a gente não transmite mais jogo de lá. Jornal da ABI – Você acha que isso é algo contra a imprensa em geral ou mais direcionado à Globo? Milton Leite – Como a Globo é a Globo, como ela é a grande vidraça, acaba respingando mais sobre ela. Mas se fosse a Bandeirantes que transmitisse os jogos do campeonato, acabaria caindo sobre ela também. Não é nada pessoal, mas naquela hora, naquele momento, o narrador é a Globo. E os caras querem bater no narrador. Jornal da ABI – É por coisas assim que dificilmente o narrador diz para que time ele torce? Milton Leite – Basicamente sim. No meu caso, sim. Se, sem falar para qual time a gente torce, nós já somos ameaçados, imagine falando. [O Jornal da ABI apurou para que time Milton Leite torce, mas a informação nos foi passada somente em off]. Jornal da ABI – Como é ter uma profissão na qual quase não se tem fim de semana? Milton Leite – Bom, eu estou acostumado, minha mulher também é jornalista então compreende mais, mas é difícil. Não tem domingo, não tem feriado, não tem aniversário... A gente sempre está na contramão do calendário dos outros. Tem hora que é cansativo também porque envolve muitas viagens. Claro que tem um lado bacana, mas muito avião, muito aeroporto, muito hotel, tudo isso também cansa. É desgastante, mas por outro lado você participa de eventos como Copa do Mundo, Olimpíadas, de que todo mundo quer participar. Jornal da ABI – Normalmente o jornalista que aparece na tv é assediado na rua. Como você lida com isso? Milton Leite – Às vezes ainda me encabula um pouco, porque eu sou um pouco tímido, quando não conheço a pessoa. Às vezes eu ainda me

surpreendo com pessoas que querem tirar foto comigo, mas a minha mulher se diverte muito. E eu fico me questionando: “Mas eu sou só um jornalista...” Mas encaro numa boa, acho que faz parte da profissão, afinal eu entro na casa das pessoas por causa da profissão. Além do que este assédio é sempre respeitoso. Nem me empolgo, nem deixo me seduzir, porque isto é absolutamente passageiro. No dia em que eu não estiver mais na televisão, isso passa. Jornal da ABI – Dentro do jornalismo esportivo, você acha que o espaço dado à cobertura futebolística é proporcional ao interesse e à paixão que o público tem pelo futebol em relação aos outros esportes? Milton Leite – Sim, é proporcional. Muita gente diz que se a imprensa desse mais espaço para outros esportes fora o futebol, esses esportes se desenvolveriam mais. Mas eu acho que é meio o contrário: o futebol tem o espaço que tem porque as pessoas procuram consumir futebol. Tem gente que fala, por exemplo, que o basquete está uma droga porque a televisão não cobre basquete. Não é isso: o basquete está nesta droga porque as pessoas não assistem basquete. Se você coloca um jogo de basquete no ar, a audiência é zero. Vôlei vai um

pouquinho melhor, mas está longe de ser a audiência do futebol. A televisão cobre o que as pessoas procuram, não é o contrário. Se tem público, a televisão vai atrás. Jornal da ABI – O sucesso dos outros esportes é pontual. Um Guga, talvez... Milton Leite – O Brasil torce para quem ganha. O tênis teve aquele ápice porque o Guga é um vencedor. Por que o vôlei cresceu? Porque o Brasil se tornou um vencedor. O brasileiro não torce por um esporte de que ele gosta; ele torce pelos esportes onde estão os vencedores. Veja como caiu o interesse das pessoas pela Fórmula-1 depois que o Senna morreu. Uma vez o jornalista Maurício Cardoso me falou uma coisa que me marcou muito. Ele disse: “No Brasil, a gente não gosta de esporte. A gente gosta de vitória”. Jornal da ABI – E você tem mais planos para escrever outros livros, além dos dois já publicados? Milton Leite – Eu gostaria muito. Os dois livros que eu fiz foram lançados pela Editora Contexto, e só foram feitos porque eles me convidaram. Conheci o Jaime Pinsky, o dono da Contexto, quando o Noriega [Maurício Noriega, comentarista do SporTV], lançou o primeiro livro dele. Na verdade o Noriega começou

“Muito repórter sai pra rua pensando em qual será a brincadeira que ele vai fazer com aquela pauta. Não interessa a informação.” uma coleção com o livro Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileiro. Isso deuorigemaumacoleçãointeira,como os 11 goleiros, 11 laterais, 11 centroavantes e assim por diante. Quando fui ao lançamento do Noriega, ele me apresentou à família Pinsky. Além de comandar a editora, são todos loucos por futebol. Conheci o Jayme, conversei com ele, que me encomendou, primeiro, Os 11 Maiores Centro-Avantes do Futebol Brasileiro, e mais tarde As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos, que acabou saindo primeiro para aproveitar o clima de Copa do Mundo. Há outras idéias, outros projetos. Eu gostaria muito de escrever outros livros. Me dou muito bem com o pessoal da Contexto. Jornal da ABI – Vamos fazer para você a mesma pergunta que você fez, no Programa do Jô, para o Paulo Soares e para o Antero Grecco. Você falou o seguinte: “Hoje a gente vive uma era de muita gente querendo fazer graça com programas jornalísticos. Sobretudo o esportivo. E muitas vezes passam do ponto, o que não é o caso de vocês. Queria saber como vocês equilibram isso, para não desrespeitar a informação. Onde está o limite do bom humor, para não extrapolar?” Milton Leite – Acho que o limite está em justamente você não usar a informação para fazer graça. Eu faço graça com outras coisas, não com a informação. E não saio de casa pensando em fazer graça; eu saio de casa pensando em transmitir o jogo direito. Acaba ficando uma coisa bem humorada porque eu sou assim. E esta pergunta que eu fiz tem uma crítica embutida... Jornal da ABI – Uma crítica embutida a quem? Milton Leite – É geral, não é contra um programa específico ou uma pessoa específica. O que está acontecendo é que muito repórter sai pra rua pensando em qual será a graça que ele vai fazer com aquela pauta. Não interessa qual a informação que ele vai buscar. Ele que saber da brincadeira. Eu vejo isso acontecer todos os dias, não só na nossa empresa. Jornal da ABI – Isso no jornalismo esportivo ou geral? Milton Leite – Eu vejo mais específico no esportivo. Acontece em outras editorias, mas acho que houve

um boom no esporte. E porque isso começou a acontecer? Porque o Tiago Leifert começou a fazer isso no Globo Esporte de São Paulo. Mas ele é uma pessoa que saber fazer a brincadeira, sabe fazer um programa mais leve, mais descontraído, ele bate papo com o telespectador e faz uma coisa diferente daquela que é ficar lendo TP [teleprompter]. E logo de início ele fez um sucesso muito grande, ao quebrar aquele esquema mais sisudo da Globo. Quando ele começa a fazer sucesso, os outros acham que esse é o caminho, e todo mundo quer fazer igual. Mas são poucos os que têm o talento, o conhecimento, a informação que o Tiago tem. Assim, houve uma proliferação errada dessa idéia de que pra fazer sucesso tem que fazer gracinha. E não é isso. Cada um tem que fazer dentro de sua característica. Muita gente começou a sair para a pauta pensando na gracinha, e não na informação, e perdeu-se a mão. Passou do ponto. Já melhorou bastante, mas ainda há muita gente que acha que a boa matéria precisa ser engraçada. E não precisa. Em relação ao que eu faço, sempre tenho muito cuidado em saber até onde posso fazer graça, quando estou lidando com a informação. Quando estou lidando com a mariposa e com o quero-quero, ali não é informação. Ali eu estou entretendo. E faço porque sou assim. Se eu não estivesse na televisão, e visse um quero-quero brigando com uma mariposa, provavelmente teria dito as mesmas coisas que disse na televisão. O problema é que a maioria das pessoas que quer fazer brincadeira dentro da reportagem não sabe fazer. Não tem característica nem talento para fazer. E aí fica ruim, e muita gente força a mão e passa do ponto. Isso não é jornalismo. Eu cheguei a falar isso para o Tiago, e ele me disse que prefere arriscar um pouco, e errar a mão, a não arriscar nada e deixar tudo como está. Jornal da ABI – Não seria mesmo o momento de o telejornalismo arriscar um pouco mais? Estamos vivendo uma crise do próprio modelo do telejornalismo, que reproduz até hoje um formato Repórter Esso e não se reinventa. Milton Leite – Estamos vivendo uma crise muito grande do jornalismo impresso, e a televisão provavelmente vai passar por isso daqui a pouquinho, sobretudo a tv aberta. Hoje as pessoas estão vendo as coisas no celular. A tv aberta já tem uma queda clara de público e provavelmente vai ser questionado já-já o jeito de se fazer telejornalismo. Talvez seja o caminho de se reinventar mesmo... eu não sei exatamente qual será este caminho mas alguma coisa vai ter que ser feita. Tanto no telejornalismo como no impresso. Jornal da ABI – Você também foi narrador de videogames da Fifa!

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Milton Leite – Fui. Entre 1999 e 2006, no único jogo que leva o nome da Fifa é a minha voz que está lá. Jornal da ABI – Como é narrar um jogo que não existe? Milton Leite – É mais um trabalho de interpretação que de narrador. Eu não ficava assistindo ao jogo. Eu recebia um calhamaço de textos que eu tinha que interpretar, e dar a entonação correta dependendo de cada situação de jogo. E era uma infinidade de nome de jogadores! Mas foi uma experiência interessante, porque na época eu estava na ESPN, logo depois que eu voltei da Copa na França. Foram duas semanas de estúdio, gravando de quatro a cinco horas por dia, três ou quatro mil nomes de jogadores, e cada nome eu tinha que gravar três ou quatro vezes em entonações diferentes. E cada arquivo com um jeito de gravar, um trabalho monstruoso! Mas a experiência foi muito legal, porque isso fez com que muita garotada daquela época me conhecesse primeiro do videogame, e só depois pela televisão. O garoto ouvia a ESPN e falava: “Olha, é a voz do cara do videogame!”. Eu me lembro de receber e-mails na ESPN perguntando se este Milton Leite da tv é o mesmo do joguinho da Fifa. Até hoje eu encontro gente que me diz que começou a curtir futebol comigo, mas no videogame! Jornal da ABI – Você tem estes jogos em casa? Milton Leite – Todos eles! Jornal da ABI – E você os joga? Milton Leite – Nem sei jogar [risos]. Jornal da ABI – Você falou da Copa na França, você que esteve lá, o que foi aquela convulsão do Ronaldo? Milton Leite – A melhor explicação que eu vi foi na biografia do Ronaldo, escrita pelo Jorge Caldeira [Ronaldo - Glória e Drama no Futebol Globalizado, da Editora 34]. Lá diz que o Ronaldo é sonâmbulo, e que ele teria tido uma convulsão logo depois de ter dormido um pouco depois do almoço, em função desse sonambulismo. Foi a melhor explicação que vi, inclusive em termos científicos. É muito boa esta biografia. Jornal da ABI – Você falou que gosta de ler biografias. Já pensou em escrever uma? Milton Leite – Eu gostaria muito! No ano passado, quando falei com a Editora Contexto, a idéia era eu fazer grandes perfis, quase biografias. Começamos a cogitar nomes e eu pensei em fazer o perfil do José Roberto Guimarães, técnico da seleção de vôlei, o único tricampeão olímpico que o Brasil tem. Gostaria muito de fazer biografias do César Cielo, do Guga; enfim, há muita gente no esporte brasileiro que mereceria grandes biografias.

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Jornal da ABI – Você tem idéia de como aquele vídeo que você chama o Rogério Ceni de chato foi parar no You Tube? Qual foi sua reação quando isso aconteceu? Milton Leite – Posso falar uma coisa em minha defesa? Faz uns dois anos, o Rogério Ceni foi capa da Revista da ESPN Brasil, e a chamada era assim: “Eu sou chato mesmo” [risos]. Era ele dizendo que ele é chato mesmo, que é perfeccionista, que não pára de treinar, etc. etc. Então ele me absolveu [risos]. Este episódio aconteceu em julho de 2007. Eu e o André Rizek estávamos na Vila Belmiro para fazer o jogo Santos X São Paulo pelo Première FC. Nem era o SporTV. Os técnicos dizem que hoje isso não é mais possível, mas naquela época quando saía o sinal do caminhão do estádio, ia para o satélite, e do satélite ia para a emissora; se você conseguisse encontrar o sinal através da antena parabólica, você conseguiria ver o jogo em casa. E foi assim que alguém captou e gravou aquela imagem. O curioso é que o episódio aconteceu em 2007, mas só foi parar na internet em janeiro de 2009. Por que, eu não sei. E ele ficou no You Tube uns 3 ou 4 meses e ninguém tomou conhecimento dele. Nem eu sabia. Até que o site de humor Kibe Loco descobriu e colocou no site. Em seguida o programa Pânico, ainda na Rede TV!, viu no Kibe Loco e colocou no ar, na televisão. Aí estourou! Até hoje colocam este vídeo no ar, na televisão. Na época, o que me preocupou não foi

chamar o Rogério Ceni de chato, porque afinal “chato” nem é uma ofensa tão grande assim. O que me preocupou foi a possibilidade de sofrer pressão da torcida do São Paulo, que tem o Rogério Ceni como mito. Mas o que ninguém fala é o seguinte: este vídeo é pirata! E as emissoras de televisão o utilizam sem sequer pedir minha autorização. Ele é pirata porque a gente não estava no ar. Estávamos esperando para entrar no ar, e a câmera estava nos focalizando, mas nós não estávamos no ar. E o sinal foi roubado no meio do caminho. E qual é o contexto daquele vídeo? A câmera nos pega de frente. Eu estou vendo o monitor do que está no ar no SporTV, mas isso a câmera não pega. E no ar estava uma entrevista do Rogério Ceni gravada no dia anterior, se referindo ao jogo que a gente ia transmitir. E a entrevista estava longa, estava chata, e eu falei: “Mas o Rogério Ceni é chato pra caralho!”. Eu estava me referindo à entrevista. Eu nem conheço direito o Rogério Ceni, que eu só tinha encontrado pessoalmente até então uma única vez. Mas o que deve ser discutido é que as emissoras pegaram este vídeo pirata e colocaram no ar sem pensar que de repente eu poderia ser ameaçado pela torcida do São Paulo por causa dele. Não pensaram nas conseqüências, muito menos me deram uma ligadinha pra pedir autorização para veiculá-lo, nem para explicar o contexto. Além do que usaram a minha imagem, e eu sou contratado de outra emissora. Nun-

“O que ninguém fala sobre o vídeo do Rogério Ceni é que ele é pirata! E as emissoras de televisão o utilizam sem sequer pedir minha autorização.” ca ninguém veio falar comigo sobre isso. Eu poderia ter movido um processo contra eles. Jornal da ABI – O resultado da Copa das Confederações foi surpreendente para você? Em que proporção ele altera ou não o quadro dos favoritos para a Copa do Mundo? Milton Leite – O resultado nem tanto. Acreditava que o Brasil poderia vencer. Equipes que jogam em casa sempre crescem, tem o fator tradição, camisa, essas coisas. Mas imaginava que o time fosse jogar menos do que jogou e que tivesse mais dificuldades. Acredito que não altera o quadro de favoritos, mas mostra que o Brasil pode ser mais forte do que imaginávamos. E é preciso levar em consideração que em mata-mata nem sempre o melhor vence e numa Copa do Mundo, dependendo do sorteio dos grupos, do caminho na tabela, as coisas podem ser facilitadas. Em 2002 foi assim.

Jornal da ABI – E como vê as manifestações populares contra a realização da Copa no Brasil? Acredita que isso possa ter alguma conseqüência mais grave para o evento e para o País? Milton Leite – Acredito que as manifestações são legítimas, mas como mostrou o Datafolha não representam a maioria, que continua sendo a favor da Copa. Eu sempre fui contra o Brasil sediar Copa e Olimpíada, porque sempre considerei que se o País tem tantos bilhões para fazer tantos estádios, vila olímpica, instalações esportivas, deveria ter também para acabar com os problemas da educação, saúde, transporte, etc. Infelizmente, “o gigante acordou” com alguns anos de atraso nesse assunto. Deveria ter se manifestado antes, quando o Brasil se candidatou. Tenho a impressão de que quando as manifestações começaram, por outras motivações, perceberam que o evento poderia ajudar na visibilidade das reivindicações e só aí a Copa das Confederações e a Copa do Mundo entraram na pauta. Para o ano que vem, dependendo do que acontecer até lá no que diz respeito às reivindicações, talvez utilizem de novo a visibilidade do Mundial para manifestações. E a Copa do Mundo é muito maior do que a Copa das Confederações. Portanto, o barulho pode ser muito maior, ainda mais que logo depois teremos eleições. A esta altura imagino que Fifa e Governo devam estar tratando de como evitar isso em 2014.


LIBERDADE DE IMPRENSA FABIO SEIXO/AGÊNCIA O GLOBO

Mortos 56 jornalistas em 23 países A sucursal da rede Al-Jazeera foi fechada e diversos funcionários presos poucas horas após o golpe militar que derrubou o Presidente Mohamed Mursi em 3 de julho. A Polícia interrompeu também os canais Misr 25, da Irmandade Muçulmana, e El Rahma, El Nas e Jaliguiya, de tendência salafista. A ong Artigo 19 aponta que as agressões contra a imprensa no México aumentaram 46% no primeiro semestre de 2013 em relação com o mesmo período do ano passado — a organização registrou um total de 151 ataques, entre eles, dois assassinatos, um desaparecimento, quatro ataques armados, 26 ameaças e sete privações ilegais de liberdade. O estudo revela que um terço dos agressores foram funcionários públicos. Apenas em 3% dos casos os agressores eram reconhecidamente membros do crime organizado. A ong Presse Emblème Campagne (PEC) revelou que menos jornalistas foram assassinados no primeiro semestre de 2013 em relação ao mesmo período de 2012, mas muitos foram vítimas de seqüestro. A PEC informa que, ao todo, 56 jornalistas perderam a vida desde janeiro em 23 países. No ano passado, 75 profissionais morreram em seis meses. Quanto ao seqüestro, prática que se tornou comum no Iraque de 2003 a 2006, a ong anunciou que ao menos sete jornalistas estrangeiros estão detidos ou desaparecidos atualmente na Síria: Didier François e Edouard Elias (França, desde 6 de junho), Armin Wertz (Alemanha, desde 5 de maio), Domenico Quirico (Itália, desde 9 de abril), James Foley (Estados Unidos, desde 22 de novembro de 2012), Austin Tice (Estados Unidos, desde 13 de agosto 2012) e Bashar Fahmi Al-Kadumi (Palestina, desde 20 de agosto de 2012). Outros jornalistas foram seqüestrados recentemente em Honduras e no Iêmen. Desde o início do ano, o Paquistão é o país mais perigoso, com dez vítimas, à frente da Síria, com oito. A Somália e o Brasil estão em terceiro lugar, com cinco repórteres mortos em cada local. Fonte: Tambor da Aldeia, nº 28, 8 de julho de 2013.

Atingida por uma bomba de efeito moral durante uma manifestação no Rio de Janeiro, Renata da Paz corre o risco de perder a visão.

Violência da PM-RJ causa perda de um olho de jovem de 26 anos A ABI pede ao Ministério Público do Estado a instauração de investigação para apurar as lesões causadas na publicitária Renata da Paz Ataíde e no jornalista Pedro Vedova. Renata da Paz Ataíde e Pedro Vedova foram vítimas das violências desenfreadas cometidas por praças e oficiais da Polícia Militar do Estado durante a repressão desencadeada contra as manifestações de protesto no Rio de Janeiro. O pedido de investigação foi formalizado pela ABI em representação ao ProcuradorGeral de Justiça do Estado, Marfan Martins Vieira, assim redigida: “Na qualidade de instituição devotada à defesa dos direitos humanos e do respeito às disposições constitucionais que garantem as liberdades públicas, a Associação Brasileira de Imprensa vem reiterar a Vossa Excelência o pedido de investigação das violências praticadas contra cidadãos comuns pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, que vem cometendo tropelias que ferem fundo o Estado Democrático de Direito. Essas tropelias têm mandantes situados na alta hierarquia da corporação, incluído o seu Comando-Geral, os quais acionam um aparelho repressor tão violento quanto aquele que celebrizou tristemente a ditadura militar 1964-1985. Os agentes que cumpriram essas ordens ilegais saíram de suas unidades em obediência a escalas de serviço que podem ser requisitadas para

sua identificação, visando à responsabilização penal que se impõe e a assunção dos ônus civis das lesões causadas por esses agentes públicos. Essa violência provocou lesões graves em muitos concidadãos, como o jornalista Pedro Vedova, atingido na testa por uma bala de borracha disparada à queima-roupa, como deu conta levantamento efetuado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-Abraji (Documento 1), e a publicitária Renata da Paz Ataíde, como noticiou o jornal O Globo em sua edição de 14 de julho corrente (Documento 2). Um relato cru dessa violência foi feito pelo jornalista Daniel Mazola no texto O dia em que a ordem da PM era atirar e bater, publicado na Edição de número 391 do Jornal da ABI, data de capa junhojulho de 2013 (Documento 3). Também os episódios por ele narrados estão a demandar investigação, conforme solicitamos formalmente a Vossa Excelência em email expedido em 17 de junho passado, conforme cópia anexa (Documento 4). Igual investigação deve ser promovida em relação à denúncia relatada na internet neste 18 de julho em curso pelo nosso concidadão que se assina Rafucko,

o qual foi vítima de ação violenta e preconceituosa por agentes do Batalhão de Choque na noite de 17 de julho, quando participava de ato diante do prédio onde mora o Secretário de Estado de Segurança José Beltrame, na Rua Redentor. Rafucko foi vítima de uma prisão ilegal e de uma farsa montada pelos policiais que o prenderam. Preconceituoso, o agente da PM dirigiu-se de forma ofensiva à sua vítima, cujo relato é também anexado ao presente. (Documento 5). Há fundadas suspeitas, Senhor Procurador-Geral de Justiça, de que parte das violências atribuídas a grupos chamados de baderneiros é praticada por agentes da própria Polícia Militar, integrantes do segmento denominado P2, utilizado para justificar a consumação da repressão violenta. Há registros fotográficos que comprovariam a procedência dessa versão, a qual deve igualmente merecer investigação. Em razão do exposto, vem a Associação Brasileira de Imprensa mais uma vez formalizar o pedido de apuração dos fatos narrados, como fizera através de email em 17 de junho passado. Rio de Janeiro, 19 de julho de 2013 Maurício Azêdo Presidente da ABI.” JORNAL DA ABI 392 • AGOSTO DE 2013

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MÍDIA NINJA

LIBERDADE DE IMPRENSA

Quando o celular é uma arma Depoimentos dos integrantes da Mídia Ninja e do Advogados Ativistas desmentem versão oficial da Polícia Militar. P OR E LIZABETH L ORENZOTTI

“Tem algo de histórico nesta foto. Ainda não sei bem o que é. Como imagem, entre as duas janelas a nítida divisão entre o poder e o nosso direito de ver/saber/ transparecer e de tatear outras formas de jornalismo. O dia em que um Ninja transmitiu ao vivo de dentro de um camburão.” Este foi o desabafo do cineasta paulista Rogério Velloso – autor do documentário Daquele Instante em Diante sobre Itamar Assumpção – depois de ver a foto de Filipe Peçanha, representante da Mídia Ninja, preso dentro de um camburão durante as manifestações do Rio de Janeiro (acima). O texto foi publicado no dia 22 de julho em sua página no Facebook. Ninja é a abreviação de “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. É um formato de transmitir eventos e fatos acontecendo ao vivo de uma forma independente e transparente. E ganhou exposição nacional com suas transmissões ao vivo na PosTV (postv.org) das jornadas de junho – as manifestações que tomaram conta do Brasil naquele mês – transmitindo por celulares, durante horas, sem edição, os acontecimentos no olho do furacão. No dia da prisão de Filipe Peçanha e Filipe Gonçalves (este transmitia a detenção ao vivo), ambos representantes da Mídia Ninja, a Polícia Militar do Rio de Janeiro publicava em seu Twitter que “foram presos, por incitar violência, dois manifestantes que transmitiam ao vivo as manifestações”. No dia seguinte, Filipe Peçanha contava no Facebook como fora a sua prisão na 9ª Delegacia de Polícia, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. A seguir, partes de seu relato: “Uma mão segura forte meu braço. Um homem alto, de óculos, com uma camisa clara fala: ‘Me dá uma entrevista? Quero pegar um depoimento seu’. Achando estranho, pergunto: ‘Qual é o seu nome, pra que veículo?’ Ele não responde. Com a outra mão ao celular falava freneticamente com alguém que parecia coordenar sua ação. Eis que começo a ser levado à força pelo ‘entrevistador’ enquanto um policial fardado chega junto. Ele pede para que eu abra a mochila. Revista, pede meu documento. Não acha nada de suspeito ou ilegal. Ainda assim, me avisa que serei encaminhado para a Delegacia. ‘Averiguação’, diz o policial. Naquele ponto, ao meu redor, mil pessoas tomavam a escadaria da igreja do Largo do Machado. Inconformadas após a investida da tropa de choque contra os manifestantes que, meia hora antes, já começavam a se dispersar. Seria, em tese, o final das manifestações nos arredores do Palácio Guanabara. Mas a Polícia preferiu atacar. 26

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Comigo, 10 mil pessoas assistiam à transmissão da PosTV. Desde às 14 horas eu estava com a equipe da Mídia Ninja em campo transmitindo o primeiro dia da visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro. Às 20h30 o policial à paisana me puxa pelo braço. A comoção foi muito grande. Maior do que podia imaginar. Centenas de pessoas cercaram o carro da Polícia, enquanto confiscavam meu celular à força e tentavam partir para a 9ª DP. No meio do caminho, o mesmo paisana, após me agredir, pede para parar a viatura. ‘Vou ter que voltar, preciso prender mais um’, disse. Cheguei à Delegacia, mas não cheguei sozinho. Me esperando, três advogados da OAB para defender o caso. Dentro da Delegacia, a narrativa foi burocrática. Em poucos instantes surge mais um ninja na sala de espera. Foi detido também, porque estava transmitindo ao vivo. Enquanto aguardava as providências, alguns rumores no ar. ‘A manifestação está vindo pra cá’, comentam os oficiais. Depois de 30 minutos já se ouve o grito nas ruas: ‘Ei polícia, solta a Mídia Ninja!’ Sem acusação formal, dou meu depoimento e, finalmente, sou liberado. Ao sair senti milhares de pessoas vibrarem. Ali diante da 9ª DP, e diante de seus computadores, onde quer que estivessem. A fusão entre a rede e a rua se mostrou mais clara. Eles tentaram derrubar nossa transmissão ao deter um, dois, três ninjas. Mas eles não entenderam que não é uma câmera, um repórter... é uma rede. Podem até derrubar um. E assim surgem outros mil.” “Amanhã vai ser maior”

No mesmo dia, o outro ninja preso, Filipe Gonçalves, conta sua versão no Facebook: “Ontem à noite eu estava na Rua Pinheiro Machado, transmitindo a manifestação ao vivo para a Mídia Ninja. Minha pauta era clara: o discurso da Polícia Militar do Rio de Janeiro é o de que os manifestantes incitam a violência, e eu estava ali justamente tentando esclarecer isso. Cinco policiais estavam à paisana (P2) e a pelo menos um metro e meio de distância dos manifestantes que pediam que se retirassem. Um policial estava com a máscara do Guy Fawkes [máscara usada por um personagem da série em quadrinhos V de Vingança]. Após pressão popular, eles se dirigiram para o gradil e foram acolhidos pelos colegas fardados. Minutos depois, após a saída do Papa do Palácio da Guanabara, toda a tropa empunhou os escudos. Foi estranho porque não havia manifestantes gritando ou sequer próximos ao gradil. Imediatamente corri pra lá. Todos gritavam para os policiais abaixarem os escudos. Fiquei ao lado do manifestante

Abuso de poder contra o direito de informar: Filipe Peçanha, do grupo Mídia Ninja, foi preso e levado num camburão para a delegacia porque transmitia a manisfestação ao vivo.

Bruno Ferreira Telles, que foi detido por portar coquetel molotov em sua “mochila” que, conforme mostra uma foto da Folha, ele não carregava mochila alguma. Percebi que o comandante se comunicava em pequenos gestos com alguém no meio da manifestação e fui apurar. (...) Passei por um homem que falava ao telefone: ‘já olhei e não tem nenhum jovem do JMJ aqui’. Um outro manifestante alertou ‘estão cercando as ruas’. Menos de um minuto depois, voa um molotov na Polícia e, adivinhem? Caíram quatro grades do meio, exatamente por onde passaram os policiais atacando. Presenciei na correria (e transmiti ao vivo) a tropa de choque que vinha na direção contrária, encurralando covardemente, dando tiros de arma letal, fuzil, em manifestantes e transeuntes. Um foi levado ferido a um hospital na Tijuca. Me refugiei dentro de uma loja na Rua das Laranjeiras, onde havia crianças e idosos. Ainda assim, a tropa de choque atirou bombas e perseguiu manifestantes em seu interior enquanto cercava o local. Saí de lá com ajuda da OAB e recebo a informação que um ninja estava sendo preso. Corri até à 9ª DP, no Catete. Enquanto filmava sua prisão ouvi um policial atrás de mim falando: ‘Sim, sim! Quer que leve ele? Ok!’. Nesse momento uma menina tentou me tirar dali, mas o policial me pegou pelo braço [identificado como Tenente Puga] e disse que eu estava ‘incitando a violência’ e me convidou a entrar na delegacia. (...) Por fim, um homem à paisana, fala ao telefone ‘é pra acabar com a história? Vou acabar então!’. Neste momento, já dentro da Delegacia, ele e mais três policiais agarram minha mão, tomam meu celular e permanecem com ele por pelo menos uma hora. Sim, eles acompanham a Mídia Ninja. Nesta noite, duas coisas estavam a meu favor: os amigos e a verdade. Preciso apenas destas duas coisas pra não sentir medo. (...) Saí de lá com a certeza de que amanhã vai ser maior.” A análise dos Advogados Ativistas

Com uma página no Facebook, os Advogados Ativistas se definem como “um coletivo sem hierarquia, não representativo, consensualista, voluntário e sem fins lucrativos que fornece subsídios e assessoria jurídica aos manifestantes”. Depois de ver o vídeo da prisão de Filipe Gonçalves [youtube/k1wQHxFTEZM],

o grupo publicou em sua página do Facebook, no dia 22 de julho, as seguintes considerações: “Uma equipe dos Advogados Ativistas acabou de assistir ao vídeo da prisão de um dos membros da Mídia Ninja. Em um primeiro momento, o policial pede para que o acompanhe até à Delegacia, pois existem indícios de que ele estaria ‘incitando o movimento’. Que fique claro, como já postamos diversas vezes na página dos Advogados Ativistas, não existe prisão para averiguação. Uma pessoa só pode ser presa em flagrante ou com ordem judicial. Essa história de ‘me acompanhe até a delegacia’ é um resquício de costumes militares implantados durante a ditadura. Na seqüência, o membro da Mídia Ninja (...) diz que o policial o estava prendendo. O policial responde que não foi isso o que ele disse, e ameaça prendê-lo por calúnia. Gostaríamos de esclarecer que calúnia (artigo 138 do Código Penal) significa imputar falsamente fato definido como crime. Dizer, por exemplo, ‘O Tenente Puga roubou minha carteira’. Por outro lado, dizer ‘esse policial quer me prender’, não configurou calúnia, não obstante o crime de calúnia necessita de dolo, ou seja, a intenção de caluniar, o que visivelmente não ocorreu. O debate continua, e o Tenente Puga diz o seguinte ‘se eu entender mais uma vez que você está sendo mal educado com funcionário público em serviço, eu posso conduzi-lo por desacato’. Não, você não pode, Tenente Puga: a simples falta de educação não caracteriza desacato. Para o desacato é preciso o menosprezo, ‘seu vagabundo’, ‘seu mentiroso’, por exemplo. Ademais, um policial não pode ameaçar alguém de prisão em flagrante, ou realiza a prisão ou não realiza, simples assim. Instantes depois, o policial é chamado por um colega, conversam entre si e no telefone. Ao voltar o Tenente Puga anuncia a prisão com os dizeres ‘agora é uma ordem’. Entendemos que essa suposta ‘ordem’ deveria estar acompanhada de um mandado de prisão, ou seja, uma ordem escrita de um juiz, basicamente com o nome do acusado e a classificação do crime que motivou sua prisão. Não foi o que ocorreu, portanto, abuso de autoridade. Lei nº 4.898, de 9 de dezembro de 1965, art. 4º: Constitui abuso de autoridade a) ordenar ou executar medida privativa da liberdade individual, sem as formalidades legais ou com abuso de poder.”


RSF quer punir agressores de jornalistas durante a visita do Papa P OR I GOR W ALTZ

A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) pediu no dia 24 de julho que as autoridades brasileiras punam os “abusos policiais” registrados contra a imprensa durante a visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro. A RSF afirmou que a agressão mais grave durante os protestos do dia 22 de julho no Rio contra os gastos públicos gerados pela visita do Papa foi a sofrida pelo fotógrafo da agência France Presse Yasuyoshi Chiba, que ficou “seriamente ferido no rosto e no corpo por golpes de cassetete de um policial militar”. A organização dirigiu-se expressamente ao Governador do Estado, Sérgio Cabral, e ao Prefeito da cidade, Eduardo Paes, para que abram uma investigação sobre essa e outras detenções e agressões aos jornalistas da Mídia Ninja e do jornal O Globo. “A ‘primavera brasileira’ de junho já revelou a incrível brutalidade de algumas forças da Polícia em São Paulo e Rio de Janeiro, em particular”, afirmou a RSF. A organização de defesa da liberdade de imprensa, com sede em Paris, pediu uma investigação e sanções contra os responsáveis, assim como uma reforma profunda das instituições incapazes de distinguir a manutenção da ordem e a repressão.

Paulo Henrique condenado por injúria contra Heraldo Pereira O apresentador Paulo Henrique Amorim, da Rede Record, foi condenado à prisão por crime de “injúria preconceituosa” contra o jornalista Heraldo Pereira, da Rede Globo, por chamá-lo de “negro de alma branca”, em seu espaço na Internet. Em 2009, Amorim publicou um post em seu blog Conversa Afiada com críticas ao jornalista da Globo. Além de chamá-lo de “negro de alma branca”, o apresentador afirmou que Pereira “não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde”. A Desembargadora Nilsoni Custódio definiu na sentença que as declarações do apresentador “foram desrespeitosas e acintosas à vítima”, reconhecendo que “foi nítida a intenção de ofender a honra” de Pereira. Amorim pode recorrer da decisão.

MINO PERDE O Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou um pedido de indenização

“A maioria destas agressões, por vezes acompanhada de prisões, são atribuíveis às forças policiais”, mas “alguns manifestantes participaram da hostilidade contra jornalistas”, indicou a organização. A crítica da mídia “não autoriza o ataque contra os jornalistas” e a “ambição de um debate” sobre os meios de comunicação não deve permitir “excessos perigosos para o exercício das liberdades civis”, escreveu a RSF, notando que “o direito de informar, assim como o direito de se manifestar, é garantido” pela Constituição brasileira. O Brasil é palco de grandes manifestações que, em alguns casos, resultaram em atos de violência e confrontos. Os protestos começaram com a exigência da revogação do aumento do preço das passagens dos transportes públicos, a que rapidamente se somaram outras reivindicações e reclamações. Mais cauteloso Em entrevista às repórteres Bárbara Marcolini e Roberta Salomone, publicada na edição do dia 24 de julho de O Globo, Yasuyoshi Chiba revelou que acabou de se mudar para o Rio com a mulher e a filha de nove meses, mas já está há dois anos no Brasil, onde queria ter mais informações

por danos morais do Diretor da CartaCapital, Mino Carta, contra o excolunista de Veja Diogo Mainardi e a Editora Abril. Para os desembargadores da 2ª Câmara de Direito Privado, os jornalistas devem suportar as críticas que recebem, já que também as utilizam na profissão. Mino Carta questionou artigos de Diogo Mainardi. No primeiro, intitulado “Observatório da Imprensa”, Mainardi dizia que Mino era “subordinado a Carlos Jereissati” e tinha “a missão de atacar Dantas e de defender a ala lulista representada por Luiz Gushiken”. No segundo, “Mensalão da Imprensa”, o colunista condena um suposto favorecimento à CartaCapital por meio de verbas publicitárias. “O mensalão não é só para deputados. Há também o mensalão da imprensa. No último número da revista CartaCapital, quase 70% dos anúncios eram do Governo Federal. Lula sempre soube remunerar direito seus aliados”, escreveu Mainardi. A 2ª Câmara considerou que, “embora extremadas”, as opiniões de Diogo Mainardi “não caracterizam aleivosia e, portanto, não causaram danos morais ao autor [Mino Carta]”.

PABLO JACOB/AGÊNCIA O GLOBO

Uma das vítimas foi o fotógrafo Yasuyoshi Chiba, da France Presse, atacado com golpes de cassetete no Rio por um policial militar.

Golpes de cassetete feriram gravemente Yasuyoshi Chiba, fotógrafo da agência France Presse.

sobre a colônia japonesa de São Paulo. “Amo o País mas sei que agora vou ter que tomar mais cuidado”, disse Chiba, que tem 42 anos. Ele levou três pontos na cabeça. Chiba era um dos 6 mil jornalistas estrangeiros que vieram ao Brasil para a cobertura da visita do Papa Francisco. Ao todo eles representavam 1.200 veículos de 70 países – um terço deles a serviço de jornais, revistas e sites religiosos. O correspondente de guerra italiano Alfreedo Macch, da TV

LEMBRANDO VALÉRIO Parentes e amigos do cronista esportivo Valério Luiz de Oliveira, assassinado com seis tiros em 5 de julho de 2012 na porta da rádio onde trabalhava, realizaram uma passeata em 5 de julho para lembrar o caso. O protesto foi organizado pelo Instituto Valério Luiz, entidade criada por pessoas próximas ao jornalista com a missão de acompanhar o caso. A Polícia Civil acredita que o crime está ligado às críticas e denúncias que o comentarista fazia aos times de futebol do Estado, principalmente o Atlético-GO. Um inquérito aponta o empresário e ex-dirigente do clube Maurício Sampaio como mandante do crime.

MORTOS EM MATO GROSSO EM 16 ANOS NOVE JORNALISTAS O Deputado federal Fabio Trad (PMDB/MS) fez pronunciamento no plenário da Câmara dos Deputados defendendo a criação da 10ª Força Tarefa entre Polícia Federal, Polícia Civil, Ministérios Públicos Federal e Estadual com o objetivo de investigar com rigor os assassinatos de jornalistas no Mato Grosso do Sul.

Mediaset, confessou sua surpresa diante da violência dos confrontos entre policiais e manifestantes. “Tudo bem que as pessoas queiram se manifestar pacificamente, mas a visita do Papa não me parece o momento para tamanha violência. Ontem (terça, 23 de julho), uma granada em chamas caiu a menos de 30 centímetros da minha perna. Estive nas manifestações no Cairo e na Turquia, sei me proteger. Mas ontem um fotógrafo foi agredido”, contou.

Nove jornalistas foram executados no MS nos últimos 16 anos, sem que os crimes fossem solucionados. O caso mais recente foi o do jornalista Eduardo Carvalho, dono do site Última Hora News, assassinado em novembro de 2012 em frente à sua residência, em Campo Grande.

FOTÓGRAFO BALEADO O fotógrafo André Borges, do jornal Folha de S. Paulo, foi ferido no rosto por uma bala de borracha durante protesto realizado em 1º. de julho. Reunindo cerca de 500 pessoas, o ato terminou em confronto entre manifestantes e PM, nas proximidades do Estádio Nacional Mané Garrincha.

TV BAND CONDENADA A TV Bandeirantes foi condenada a pagar mais de R$ 20 mil pela exibição indevida da imagem de uma mulher beijando o ex-namorado, no Jornal da Band. A cena de um casal se beijando no calçadão da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, gravada e veiculada em junho de 2004, mediante prévia autorização da mulher, foi reproduzida outras duas vezes – em 2005 e 2007 –, ambas sem autorização, quando o

relacionamento dos dois havia terminado e ela já estava com outro namorado. Alegando que a exibição lhe causou constrangimento e ao novo namorado, a autora relatou que o ocorrido incitou comentários maldosos de colegas e questionamentos de familiares sobre sua relação com o ex. A emissora recorreu ao STJ, mas a Turma do STJ rejeitou o recurso e manteve integralmente a condenação.

TV CORREIO PUNIDA A rede Sistema Correio deve ser multada em R$ 200 mil por ter exibido cenas de um estupro. A Juíza federal Cristina Garcez, da 3ª Vara da Seção Judiciária, determinou que o valor da indenização será revertido ao Fundo Municipal de Defesa da Criança e do Adolescente dos Municípios de João Pessoa e Bayeux. O processo foi movido contra a TV Correio e o apresentador Samuka Duarte, que exibiu em seu programa vespertino cenas de uma garota de 13 anos sendo estuprada, em 2011. Ainda cabe recurso. Fonte: Tambor da Aldeia, nº 28, 8 de julho de 2013. Pesquisa e edição: Vilson Romero.

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DIREITOS HUMANOS

O dramático relato do advogado Wellington Cantal, perseguido e torturado por defender posseiros esbulhados Preso duas vezes durante a ditadura militar, Cantal sofreu toda espécie de sevícias, comandadas pelo filho de um grileiro, o Capitão do Exército Ronald Carvalho.

Wellington Cantal e Cida Cantal são pessoas simpaticíssimas. Ele cearense, da cidade de Caucaia, antiga Sore, ela, paulistana. Ambos são advogados, ambos são idealistas, ambos têm a mesma visão dos problemas da nossa Pátria e plena consciência de que é preciso coragem e determinação para resolvê-los. Sou amigo e admirador do Cantal e da Cida, conheço pedaços da provação que ambos passaram por serem idealistas, portadores de nobres sentimentos humanos, usando sempre o seu saber, na defesa dos mais humildes e necessitados. Neste mundo em que vivemos desprovidos desses nobres sentimentos, reflexo da atuação da mídia irresponsável e sem compromissos com o social, propagando nas 24 horas do dia a violência, o sexo e a droga; faturando cada vez mais com essas matérias safadas numa eterna lavagem cerebral, no nosso pobre e sofrido povo. Cantal fazia Direito em Fortaleza, rapaz estudioso não perdia os eventos culturais da cidade, logo não poderia deixar de comparecer à Conferência, que o famoso jurista Miguel Reale proferiu sobre A Teoria Tridimensional do Direito. No decorrer da mesma, fez algumas perguntas ao conferencista. Após a conferência, na saída, o professor Joaquim Pimenta se aproximou e disse-lhe: “Jovem, você tem futuro, vá para o Rio de Janeiro”. Cantal respondeu-lhe: “Professor, sou pobre, não tenho dinheiro, como é que eu faço?” “Vá, me procure”. Deu-lhe o endereço de sua residência no bairro do Rio Comprido, no Rio de Janeiro. Isso foi em 1957. Joaquim Pimenta se encontrava em Fortaleza a fim de proferir uma conferência, comemorando o centenário de Clóvis Bevilácquia. Pimenta lecionava na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, era catedrático do Direito do Trabalho. Foi um dos pais da Lei Sindical, datada de 1931, da Lei dos 2/3, que defendia o trabalhador brasileiro, obrigando as empresas estrangeiras instaladas no Brasil a contratar 2/3 de brasileiros entre seus empregados, e também da lei que presenteou o nosso trabalhador com a Carteira Profissional; da Lei de Convenções Coletivas de Trabalho, de 1932, conforme afirma Mestre Arnaldo Sussekind, de quem foi professor, em depoimento, na sua riquíssima biografia, organizada por seis mãos femininas — Ângela Castro Gomes, Eliana da Fonte 28

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ACERVO PESSOAL

P OR G ERALDO P EREIRA DOS S ANTOS

Peçanha e Regina de Moraes Morel –, intitulada Arnaldo Sussekind – Um Construtor do Direito do Trabalho. A transferência de Cantal da Faculdade de Fortaleza para a Faculdade do Rio de Janeiro – coisa inimaginável na época – foi obtida rapidamente, com o apoio do professor Joaquim Pimenta. Filho de pais pobres, a luta de Cantal pela sobrevivência, no Rio de Janeiro, não lhe foi fácil, nada fácil. Vendedor de publicidade, de máquinas de datilografia, enfim, já estava matriculado numa faculdade na capital da República, estudando. Uma vitória! Tinha como professores nomes ilustres como Joaquim Pimenta, Roberto Lyra, Célio Boja, Hélio Gomes, entre outros. “A Faculdade do Catete era o esteio dos grandes mestres, ela pagava aos professores mais do que as outras, então todos os professores queriam ser professores lá”, lembra Cantal. Na cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, visitava os sindicatos tentando vender as máquinas de datilografia. “Já estava no 4º ano quando conheci um grupo de advogados que trabalhava para os sindicatos, Everaldo Martins, José Geraldo Martins, José Maria, esses foram os meus primeiros mestres na advocacia trabalhista. Eu fazia as audiências, aprendendo o ‘beabá’, daí passei a estudar mais o Direito do Trabalho, fiz outros cursos.” Defendendo os excluídos

Cantal forma-se em 1962, reside no Rio e instala seu escritório na Avenida Pre-

sidente Kennedy, no Centro de Caxias. A defesa dos trabalhadores e dos posseiros o empolga, seu escritório é movimentadissimo;, são oito sindicatos de trabalhadores que recebem os seus serviços profissionais. Participa ativamente de atividades culturais e políticas, sem falar na defesa dos posseiros, na luta constante contra os grileiros, que forjavam títulos de propriedade nos cartórios, falsificavam documentos e expulsavam as famílias; famílias que já estavam na terceira geração de posse daquelas terras, cultivando-as. “Os grileiros eram militares, ou filhos de militares, eu era conhecido como advogado da CGT – Central-Geral dos Trabalhadores. Quando eu entrava para conversar com o juiz, ele achava que eu atuava para subverter a ordem. O pai de um capitão que forjou títulos de propriedade passou com um monte de jagunços a expulsar os posseiros. “Eu entrei com uma Ação de Manutenção de Posse. Consegui uma liminar e para fazer cumprir essa liminar foi uma batalha tremenda. O oficial de Justiça não queria ir. O delegado de Polícia também não. A liminar precisava ser cumprida. Encontramos uma fórmula. Havia um delegado de Polícia amigo do Secretário da Segurança Pública. Esse delegado era um homem sério, chamava-se Hélio Estrela. Consegui sustar a saída dos posseiros que estavam sendo expulsos por militares. Um capitão do Exército, filho desse grileiro, foi quem me prendeu em Caxias. O delegado Hé-

Wellington e Cida Cantal recebem o jornalista Geraldo Pereira para um depoimento emocionado.

lio Estrela, depois, com a ditadura militar, foi torturadíssimo pelos seus colegas.” Cantal estava no Fórum, em Duque de Caxias, onde presidia a OAB da região, quando uma patrulha do Exército, comandada pelo Capitão Ronald Carvalho, filho do grileiro, o prende e o leva para a Vila Militar. Lá, é interrogado logo que chegou. Com a convicção própria de um homem de bem, nega-se sistematicamente a denunciar seus colegas, companheiros e amigos. O capitão chefe do interrogatório manda levá-lo para a cela. Isso foi na tarde de sua prisão. Na madrugada trazem-no de volta, à frente do grupo está o filho do grileiro, Capitão Ronald de Carvalho, que o prendeu. Fixando-me nos olhos, tomado de forte emoção e revolta, com a voz embargada, Cantal lembra-se dos sofrimentos que passou nas mãos dessa ‘besta-fera’ fardada de capitão do Exército brasileiro. “Ele é uma figura que eu não posso esquecer. Torturava com muita frieza. Eu negava que era comunista. Essa confissão era o caminho para entregar outras pessoas, era o primeiro passo. Você confessa que é comunista. ‘Mas de que organização?’ Quem eram os membros dessa organização?” Acabado o interrogatório volta para a cela. “De madrugada foram-me buscar. Já fui direto para o pau-de-arara. Isso era comandado pelo Capitão Ronald de Carvalho, um sargento e mais três ou quatro soldados. Quando era necessária uma tortura mais sofisticada eles traziam uma equipe da Polícia Civil. Esse pessoal era mais sofisticado na tortura. Eles colocavam o sujeito pendurado, com os pés para cima, amarrados numa viga de ferro, tiravam-lhe a roupa, enfiavam um cassetete no seu ânus. Eu saí de lá com vários problemas: muito depauperado, magro, com problemas na coluna vertebral, com algumas vértebras quebradas, com essa cicatriz na testa, um tím-


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pano estragado, escuto menos, quase nada, tudo isso sob o comando do Capitão Ronald de Carvalho, que eu vim encontrar depois, depois, muito tempo depois, na minha segunda prisão, aqui em São Paulo”. O meu advogado aqui em São Paulo foi o Iberê Bandeira de Melo; no Rio, o Modesto da Silveira. O Iberê me disse: ‘Cantal, tem um juiz auditor, aqui na Auditoria Militar, ele quer te ver. Chama-se Nélson, foi seu colega na faculdade’.” “Nós o chamávamos de Nelsinho na faculdade. Não me opus. Marcamos. Cheguei com Iberê, o Nélson vem com sua beca de juiz, sentou, estendeu a mão, cumprimentei, ele não falou praticamente nada. Eu estava abatido, ele sabia que eu tinha sido torturado aqui no Doi-Codi. Esse encontro foi na Auditoria Militar. De repenWellington e Cida Cantal, com Laura, uma de suas filhas. te eu olho para os componentes da mesa, e quem estava lá? O Capitão Ronald de Carvalho, como Auditor Militar, um torA proteção do exílio pouco preso, na Vila Militar, no Regimento turador, capitão há oito anos quando da A repressão o procura. Alguns compaEscola de Infantaria. No dia 13 de dezemminha primeira prisão. Tornou-se Coronel nheiros seus já haviam desaparecido nas bro de 1968, foi baixado o Ato Institucie Auditor Militar. Era tudo escolhido; era câmaras da tortura. É preciso tomar todas onal número 5. Foi o dia da maior tortuesse sujeito que ia me julgar.” as precauções. De posse de documentação ra, eles gritavam: “Pronto! “Eu fui para o Acabou! A lei somos nós! Foi falsa, Cantal consegue embarcar, no aeroPergunto a Cantal qual seria sua reação se encontrasse o hospital, mas eu uma tortura terrível, Geraldo, porto do Galeão, no Rio de Janeiro. Seu Capitão Ronald de Carvalho. destino é Paris. Após alguns dias em Paris, tortura de toda natureza, tudo me vinguei, Ele me responde: “Eu fui muisegue para Moscou. o que não se pode imaginar.” tá vendo estas to ajudado aqui em São Paulo “A solidariedade dos companheiros so“Um dia, depois que fui para por Dom Evaristo Arns, que viéticos foi excepcional. Passei seis meses outra cela, um soldado deixou unhas aqui, tinha uma aura de santo. Ele no Hospital Central de Moscou. Passei por cair um pedaço de jornal, meferi a cara de passou para mim alguma coisa duas operações”, diz-me Cantal. nos da metade de uma folha. um deles de espiritual, disse-me para eu não Quando deixa o hospital em Moscou, Eu li e reli aquilo mil vezes; de guardar muito ódio, nem ran- cima em baixo.” outra feita um cabo e dois solapós um período de total recuperação, vai cor, nem mesmo pelos meus estudar. “Passei cinco anos na União Sodados iam me levar comida ditorturadores, porque são homens que viética, fiz doutorado. Eu era um rato de ariamente, abriam a porta e me entregacertamente foram maus filhos, mal encabiblioteca, estudava horas, horas e horas. vam a comida. Esse cabo esperou que os minhados na vida, porque quem vira torNo Brasil se estuda pouco, os que gostam soldados dessem alguns passos e deixou turador perdeu todo valor do ser humano. de estudar não têm recursos!” cair um livro. Eram Poesias de Ho Chi Min, Se eu encontrasse o meu torturador eu Cantal, encontrou muitos brasileiros o libertador do Vietnã. Levei muito temperguntaria: Capitão, o senhor lembra-se em Moscou? Sim, ele responde: po para me lembrar, ou saber por que aquele daqueles episódios, daquelas torturas, “Muitos brasileiros, sul-americanos, rapaz fez aquilo! Lembrei-me: ele havia valeu a pena para o senhor? O que é que europeus, eu convivi muito com o pessosido meu aluno.” o senhor lucrou? Eu lucrei mais amadual que esteve na guerra do Vietnã; compa“Como não tinham mais motivo para recimento, mais sabedoria diante da vida. nheiros mutilados, sem pernas, pessoal do me torturar, me enviaram para o RegiE o senhor? Sua família como é que está Laos, pessoal da Guiné, das colônias afrimento Caetano de Farias, da Polícia Mihoje? Está bem? Os seus filhos soube o canas. Do pessoal brasileiro, com quem litar. Um dia mandaram me buscar, eu senhor educá-los? A gente não muda convivi muito, é uma memória saudosa que pensei que ia começar tudo de novo. Aí nada com ódio e rancor!” eu tenho de Gregório Bezerra, um grande me fizeram uma acareação com Herval líder comunista. Tive um convívio muiArueira. Esse elemento era do meio sinto rico com Gregório, inclusive ajudei-o a A falsa “cela especial” dical, pertencera ao Partido Comunista, datilografar uma parte das suas memórias. Após as torturas no pau-de-arara, pordepois passou a ser informante deles, fiQuem também trabalhou nas memórias do radas, cassetetes no ânus, durante horas cou conhecido como informante da PoGregório foi o Ferreira Gullar; ele fazia e horas, Cantal sai da sala de tortura arralícia, ele dizia que eu era do Partido Couma parte, eu fazia outra. Convivi com sado, volta para a cela, era madrugada. Os munista. Eu neguei na cara dele.” esse pessoal todo. Convivi com Prestes, companheiros de cela esboçaram alguma “Passei seis meses no Regimento Caecuja família eu fui apanhar no aeroporto. reação? Ele responde: tano de Farias. Só quando o local da priLá vinha Maria Prestes, com aquela pen“Geraldo, eu estava numa solitária, para são foi descoberto por um promotor o ca de filhos, se eu não me engano eram sete. sair da solitária a OAB lutou muito, pois meu advogado Modesto da Silveira en“Em São Paulo eu tinha escritório na eu tinha direito a uma cela especial como trou com um habeas corpus e eu fui liRua Senador Feijó, ao lado da Igreja, na portador de curso universitário. A Auditobertado. Fui para a clandestinidade, eu Praça da Sé. Nosso escritório era no 6º ria mandou que eu fosse transferido para sabia que eles iam me buscar de novo, o andar, as badaladas dos sinos, às 12 e às uma cela especial. O que eles fizeram? Eles Capitão Ronald de Carvalho não se con18 horas, não davam 15 metros da mipegaram uma cela isolada, fecharam toda formava que eu não tivesse falado nada. nha mesa. Eu achava lindo assistir àqueela com material escuro; não entrava uma Isso é uma derrota para o torturador, a les sinos badalarem. Eu estava jurado de réstia de luz, me puseram isolado e dissemaior vingança do torturado é não dar morte pelo CCC-Comando de Caça aos ram: “Taí, estamos cumprindo as ordens da o que o torturador quer!” Comunistas. Nós vivíamos numa cordaAuditoria. Esta é a sua cela especial”. “Eu estava fragilizado, não dormia há bamba Eu estava no saguão, próximo ao “Um colchão no chão e um buraco, pelo muito tempo. Os companheiros me manelevador, quando eles invadiram com qual eu recebia comida. Fiquei um ano sem daram para um clínica, para fazer terapia. estrema violência, eu resisti à prisão. receber visitas, fiquei um ano sem tomar O Dr. Saad, médico, membro do Comitê Foi o que salvou a minha vida, ter resisum banho de sol, passei um ano sem ler Central do PCB, é que me aplicou a sonotido, porque nesse período todo eles nada, sem falar com ninguém, um ano e terapia, dormi 15 dias.”

prenderam vários companheiros que desapareceram.” “Meus colegas atravessaram a rua, do outro lado estava a OAB, aí requereram habeas corpus e legalizaram minha prisão. Quando cheguei no Doi-Codi, o comandante, quando viu o meu estado, gritou: “Vocês são uns incompetentes, esse homem era para chegar sem ninguém saber.” Porque as equipes de ‘resgate’ agiam de acordo com a pessoa que iriam prender, mas no meu caso, como houve resistência, sete pessoas do prédio foram para o hospital, sem ter nada a ver com isso, todas quebradas também. Quando eu fui libertado, e voltei ao prédio, uma moça que lá trabalhava me disse: “Eu fui para o hospital, mas eu me vinguei, tá vendo estas unhas aqui, feri a cara de um deles de cima em baixo.” “Essa reação foi que me salvou a vida – essa reação muitos companheiros passaram a praticá-la. Antes, Marighella e Apolônio Carvalho já haviam resistido.” Tortura à americana

Porradas, pau-de-arara, cadeira do dragão, lembro-me que o líder sindical Antônio Aparecido Flores, meu saudoso amigo, que também, como você, foi barbaramente torturado, falava-me da tortura com os dois pés em cima de duas latas de óleo; se caísse, era espancado por dois torturadores. Você que passou por tantas torturas, também passou por essa? “Eu estava no Dops quando houve a Revolução dos Cravos, em Portugal. Encontrei de passagem com Flores e o Afonso Delelis e outros dirigentes sindicais que estavam presos. Na minha cela, a cela dos intelectuais, havia alguns professores da Usp, presos porque estavam lendo O Capital, de Karl Marx. Esse tipo de tortura foi ensinado pelos torturadores americanos, que vieram em 1972 ou 1974 dar curso em nosso País. Ensinaram alguns métodos a mais, esse, por exemplo, passou a ser muito difundido. Tinha outro: deixar a pessoa de pé com os braços erguidos no alto, amarrados numa viga de ferro, isolada do chão. Fizeram isso com Neusa, na frente do marido; para variar, colocaram-na de ponta-cabeça, com os pés amarrados e pendurados numa barra de ferro.” “Outra tortura: a pessoa fica de pé, com as mãos amarradas, dia e noite, se cair eles batem, batem, batem. Foi o que aconteceu comigo. Houve um momento em que desmaiei. Levaram-me para o hospital, senão eu teria morrido, porque eu tive uma parada cardíaca”. Pergunto a Cantal, quanto tempo ele passou de pé, com as mãos amarradas, erguidas por cima da cabeça? Ele pensa por algum tempo e responde: “Umas 48 horas seguidas é muito tempo, muito tempo, encapuzado. É uma questão do instinto humano, para não levar pancada. Resistir!”. Mais uma pergunta: como funciona a cabeça da vítima após receber tanta violência? “Nas primeiras horas você fica muito oscilante entre o desespero e uma tentativa de encontrar o seu ponto de equilíbrio emocional. Para isso você tem que pensar!”

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DIREITOS HUMANOS

O golpe puniu militares que defendiam a legalidade Em depoimentos na Comissão da Verdade do Rio, oficiais e marinheiros relatam as violências que sofreram por se opor à derrubada do Governo constitucional em 1964. P OR M ÁRIO A UGUSTO J AKOBSKIND

Em relatos feitos sob grande emoção, como o do ex-Capitão-de-Mar-Guerra Ferro Costa, que interrompia sua narrativa para conter as lágrimas, membros da Marinha de Guerra contaram em audiência da Comissão da Verdade do Estado do Rio, em 18 de junho, as violências que sofreram por se opor à derrubada do Governo constitucional do Presidente João Goulart. Todos revelaram as torturas a que foram submetidos logo nos primeiros dias de março de 1964, quando os novos donos do poder buscaram justificar a deposição do Presidente. Depois de fazer um breve histórico das raízes do golpe, Ferro Costa lembrou que os inquéritos julgados pelo Superior Tribunal Militar foram baseados em mentiras e farsas que tinham por objetivo justificar a quebra da ordem constitucional. Ele assinalou que os golpistas usaram as falsas acusações para apresentar à opinião pública a idéia segundo a qual a derrubada do Presidente evitou a instauração do comu-

nismo no Brasil. Preso no navio Princesa Leopoldina e posteriormente expulso da corporação, Ferro Costa disse que nunca existiu o propalado “perigo comunista”; o que houve de fato foram militares tentando defender a legalidade e que por isso foram presos, cassados, torturados e expulsos das Forças Armadas. Ele exortou a Comissão da Verdade a convocar o oficial militar Vlander Moreira, hoje residente na Rua Fadel Fadel, 186, apartamento 202, para prestar depoimento sobre os inquéritos no STM e o acusou de ser “um mentiroso por denunciar falsamente militares legalistas”. Emocionado e fazendo esforço para conter as lágrimas, ao relatar a sua prisão em 1970, quando foi levado para o quartel da Barão de Mesquita, onde “conheceu o horror da tortura e viu a face dos mortos nas paredes impregnadas de sangue dos torturados”, Ferro Costa lembrou que foi conduzido em um camburão para a sede do antigo Ministério da Marinha, onde chegou desidratado por causa do calor superior a 40 graus. “Lá então fiquei

numa prisão, no subsolo do Ministério, em um espaço de quatro palmos por 11”. Em outro depoimento, o marinheiro Antônio Duarte relatou o processo de criminalização sofrido pelos integrantes da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, acusados de “baderneiros”, por defenderem a legalidade. “Se os oficiais sofreram o que sofreram, pode-se imaginar o que aconteceu com os marinheiros e fuzileiros navais”, disse. Duarte relatou a série de prisões que sofreu até ser conduzido como “criminoso comum militar” para a Penitenciária Lemos Brito, onde uma ação de resistentes conseguiu libertá-lo, juntamente com outros presos políticos. Ele tinha sido condenado a 12 anos de prisão. Hoje antropólogo, Duarte optou por continuar no Brasil e participar da resistência armada contra a ditadura. O marinheiro Osvaldo Araújo disse que não foi expulso, mas obrigado a ir para a reserva depois de ter sido investigado durante sua permanência em um hospital da Marinha onde se recuperava de um aci-

dente em que sofreu graves queimaduras por todo o corpo. O cabo José Bezerra da Silva, que serviu na Base aérea do Galeão de 1970 a 1979, denunciou ter presenciado torturas naquele local e contou uma história conhecida entre a oficialidade. O Brigadeiro João Paulo Bournier teria dado um tapa na cara do ex-Deputado Rubens Paiva e teria dito a ele: “Quero ver você falar o que falava quando deputado”. Depois disso, segundo José Bezerra da Silva, Rubens Paiva desapareceu. Bezerra da Silva revelou ainda que o então cabo enfermeiro Jose Augusto Queiroz Pereira Filho, que prestava serviços ao Brigadeiro Eduardo Gomes, tinha sido designado para uma operação secreta em Paris com o objetivo de matar o então Professor Fernando Henrique Cardoso, que lecionava na Sorbonne, com uma injeção letal. Segundo Bezerra, a missão do cabo enfermeiro vazou e posteriormente ele foi internado como “doente mental” e colocado na reserva. Sua mãe passou a receber o soldo dele.

Caminhos da verdade Vale a pena unir a nação em torno de princípios humanísticos. P OR F ÁBIO L UCAS

“When we resist...concentration of power, we are resisting the powers of death, because concentration of power is what always precedes the destruction ofhuman liberties.” Woodrow Wilson Encontro na Literatura e nas Ciências Sociais os melhores conceitos apologéticos da Verdade. A Literatura tem sido uma das fontes indispensáveis à Lingüística que se pretende Ciência da Palavra (Escrita e Falada). A palavra, no contexto, comparece, tanto na fala, quanto na escrita, com dupla possibilidade de uso: o pragmático, instrumental, que empurra o emissor, direta ou indiretamente, ao regime de trocas. É bem provável que, naquele comércio, haja ganhador e perdedor. A outra face da palavra é estética. O emissor necessita exprimir-se e ser reconhecido. O receptor, por sua vez, procura encantar-se, tirar proveito da obra alheia. As partes, na comunicação estética, podem inscrever-se numa relação vantajosa para ambos. No momento, atua no Brasil uma Comissão da Verdade. Instituída oficialmente, destina-se a desvendar os crimes praticados por agentes ocasionalmente no 30

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poder, durante período em que os delitos não puderam ser revelados, já que os agentes encarregados supostamente de defender a população e aprimorar o exercício da Justiça e da Democracia apoderaram-se das armas para violar direitos universais. Ora, estas pertencem ao povo, foram compradas, mantidas e renovadas graças aos impostos pagos pelos brasileiros. Jamais para praticar ofensas contra os contribuintes. Seguiram-se destruição de provas, seqüestros, torturas e assassinatos, ocultação de cadáveres, queimas de arquivos. Em razão da censura e do silêncio impostos aos nacionais, muitas famílias foram agredidas com o desaparecimento inexplicável de pessoas queridas, estimadas em seu meio. Busca-se, portanto, a Verdade, sem a qual a democracia se frustra. Ou se torna imperfeita, ao reduzir a cosmovisão dos patriotas brasileiros, ao obstruir os caminhos da paz. Ocorreu-me, ao isolar expressivo trecho de um dos mais sensíveis poemas líricos de Mário de Andrade, Girassol da Madrugada, a citação seguinte a fim de qualificar os atos de ocultamento e destruição: que desvio triunfal da verdade! Ao repassar um dos inúmeros cadernos de anotações das minhas leituras e de acon-

tecimentos da minha vivência intelectual, surpreendi breve e contundente manifestação de Carlito Maia, notável ativista da liberdade democrática, num daqueles dias de efervescência popular em favor das eleições diretas. Vale a transcrição da nota de fevereiro de 1996: “Num boletim da Pensão Jundiaí (21-11-1995) encontro esta frase de Carlito Maia: ‘A verdade deve ter escravos, não donos’. Síntese, creio eu, do sentimento generalizado dos brasileiros. Opõe-se à verdade a minoria interessada na mentira, ou envergonhada da desinformação daqueles tempos bárbaros. Vale a pena unir a nação em torno de princípios. Princípios humanísticos, pois a paz percorre os caminhos da verdade. Nota final: Rodolfo Konder, que foi Presidente e Vice-Presidente da Seção Brasileira da Anistia Internacional, na obra Desafios da Memória – 1973-2005 (S. Paulo: RG Editores, 2013), dedicou alguns capítulos à prática monstruosa da tortura contra opositores em diversas ditaduras, inclusive as brasileiras. Informa que, na Dinamarca, funciona desde 1982, o Rehabilitation Center for Torture Victims e que, no Canadá, desde 1984, se instalou o Canadian Center for Investigation and Prevention of Torture.

Cuidam ambos os organismos dos impactos da tortura sobre as vítimas, submetidas a tratamentos cruéis, degradantes e desumanos. É sabido que a Assembléia-Geral das Nações Unidas aprovou, em regime de consenso, a 10 de dezembro de 1984, resolução que estabelece como compromisso supranacional, o combate à tortura e às formas de tratamentos cruéis, desumanos e degradantes. Deste modo, o torturador pode ser julgado e condenado pelo crime cometido, mesmo fora do país em que haja atuado. Tudo por ter praticado crime hediondo, de tal sorte que lhe fica defeso argüir, em própria defesa, que o praticara em decorrência de ordens superiores. Finalmente, tendo a convenção criado o Comitê Contra a Tortura, autoriza o organismo a receber denúncias e a proceder à investigação na busca da verdade. Os Direitos Humanos, portanto, passam a constituírem-se servos da Verdade. Ou seja, servos do homem livre. FÁBIO LUCAS é escritor, ensaísta e crítico literário. Membro da Academia Mineira de Letras, da Academia Paulista de Letras, do PEN Clube do Brasil, da Modern Language Association (USA); Sociedade Portuguesa de Estudos Clássicos (Coimbra, Portugal) e da Association Internacionale des Critiques Littéraires (Paris).


LILO CLARETO/ARQUIPÉLAGO

TRAJETÓRIA

Eliane Brum e as histórias para modificar a vida Novo livro da cronista dos desacontecimentos reúne 64 histórias publicadas em sua coluna no site da revista Época. P OR J OSELIA A GUIAR

A compra de uma escrivaninha Xerife, daquelas de madeira com gavetas, escaninhos e uma tampa, selou a mudança de vida de Eliane Brum quando completava 21 anos de exercício do jornalismo em grandes Redações. Começava uma nova trajetória, de repórter independente, em 2010. A busca pelo móvel com que sonhara desde a infância, somada à reflexão sobre a vida até ali e a que iniciaria, abre o volume A Menina Quebrada, recém-publicado pela Arquipélago Editorial. A obra reúne 64 histórias que, aparentemente banais, acabam por ser únicas no espaço fixo semanal que ela ocupa às segundas-feiras, há quase três anos, no site da revista Época. Eliane retrata quase sempre gente que não costuma aparecer no noticiário. A autora não só se detém nos ângulos da vida brasileira pouco vistos na grande imprensa, como também levanta fatos de impacto que os jornais nem sempre conseguem contemplar – se contemplam, não com a mesma contundência. Como os bastidores da construção da usina de Belo Monte, o suicídio de Aaron Swartz e o anúncio da intenção de morte coletiva, como forma de resistência, dos guarani kaiová. Por vezes, as colunas também tratam de livros, outras de filmes, e há aquelas em que, vencendo a natural reserva, registram sua memória pessoal. A “carne de suas reportagens”, como diz na apresentação do livro e também em entrevistas como esta que concedeu ao Jornal da ABI, “são os desacontecimentos”, “a extraordinária vida comum”, “aquilo que se repete e, por equívoco ou por miopia, é interpretado como banal”. Ao empreender esse tipo de narrativa, busca “subverter o foco, embaralhando os conceitos de centro e de periferia.” Só faz sentido escrever, acrescenta, “se for para desacomodar, perturbar, inquietar, para compreender a época em que vivemos.” Apesar de repórter de “desacontecimentos”, Eliane reconhece que cada vez mais aborda os assuntos mais relevantes da semana. Pouco a pouco, vão surgindo ao longo do livro os acontecimentos, pois é movida, como explica, pela necessidade de

lançar luz para o que “desacontece” neles. “Busco iluminar os cantos escuros, que é o que acredito ser uma das principais funções do jornalismo. Só escrevo se acredito que posso colaborar para lançar luz sobre algo que está nas sombras, das mais variadas maneiras e pelos mais variados motivos. Acabo me movendo na coluna de opinião por esses espaços vazios dos acontecimentos – ou os ‘desacontecimentos’ dos acontecimentos. E aí a coluna ganhou outra dimensão pra mim, também, que não estava planejada, ocupando um espaço muito maior do meu tempo.” Escrever longos textos é o contrário do que se costumava recomendar na internet, onde só haveria lugar para mensagens curtas, rápidas, fragmentadas. Sua marca é outra: são longas as suas histórias, no que tem a aprovação do leitor. Conta que recebe muitos e-mails, embora parte dessa comunicação tenha já migrado para o Twitter. “Quando a coluna se torna viral, já cheguei a receber mil emails por dia. Mas em geral são algumas dezenas ou centenas por semana, depende da audiência da coluna. Quando falo da Amazônia, especialmente, recebo muitas denúncias. É bem complicado, porque são denúncias importantes, e eu não tenho como dar conta delas. Fica bem claro como é grande a demanda por reportagem nessas regiões do País em que há poucos – ou nenhum – jornalista documentando a história.” As colunas são escritas entre o sábado e o domingo. Eliane ainda revisa e corta na segunda-feira, dia em que entram no ar. Antes, bem antes disso, inicia-se a apuração. “Sempre parto do meu olhar sobre algo e, a partir dele, faço uma investigação. Minha vida é bem vertiginosa, porque junto com a coluna estou sempre escrevendo um livro e fazendo uma reportagem. Hoje demoro muito mais para fazer uma reportagem, por conta disso. Quando estou em São Paulo, acordo por volta de cinco horas da manhã, sozinha, sem despertador, que detesto. Descobri que esse é o meu horário. Sou matinal, gosto das manhãs, gosto de ver o dia aparecer. Abro a cortina da sala, dou uma

olhada na paisagem pra ver o que mudou, faço o chimarrão e vou escrever.” Da safra de 1988 do curso de Jornalismo da Puc-RS, atuou por vinte anos em Redações de jornal e revista – primeiro, o Zero Hora, de Porto Alegre, depois a Época, em São Paulo – até intensificar uma atuação independente a partir de 2010. Venceu a timidez ao descobrir que com bloquinho e caneta entraria em qualquer lugar. O espaço foi duramente conquistado. No começo, produzia até cinco pautas por dia, e encontrou também resistência aos textos que fugiam da fórmula da pirâmide invertida. Valeu persistir. Conta hoje quase 50 prêmios nacionais e internacionais, como Esso, Vladimir Herzog, Ayrton Senna, Sociedade Interamericana de Imprensa e Rey de España, Troféu Especial de Imprensa Onu. Num levantamento feito em 2011 pelo Instituto Corda e a publicação Jornalistas & Cia, foi apontada como a repórter mais premiada do Brasil em todos os tempos. Não é a primeira vez que seus textos migraram para os livros. De reportagem, publicou três: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida que Ninguém Vê (Arquipélago), que levou o Jabuti de 2007 como melhor livro de reportagem, e Olho da Rua (Globo). Como documentarista, realizou como co-diretora e co-roteirista Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. Em junho de 2011, lançou seu primeiro romance, pela editora LeYa Brasil, Uma Duas. Transformações

“Reportagem não é o que eu faço, é o que eu sou”, costuma responder, recordando também uma sensação que a acompanha desde a infância, uma dor que aprendeu a transformar em palavra escrita. No jornalismo que atravessa hoje um período de transformações, “a reportagem continua fundamental, está mais viva, porque sempre vai ser importante

contar a história deste momento, a história cotidiana, e a internet amplia isso”. Volta e meia, gasta o que consegue ganhar financiando as próprias viagens de reportagem. “Estou ainda buscando alternativas, como todo mundo. Estou tateando nesse novo jeito de viver. Mas me sinto muito viva nesse processo. Minha maior angústia ainda é a mesma: não vai dar tempo de viver todas as vidas que quero numa vida só. Estou com 47 anos e tenho tantos sonhos, tantos projetos, tanto mundo pra conhecer, tanto de mim que ainda desconheço. Não vai dar tempo, eu sei. Mas, enquanto isso, vou tentando alargar o tempo que tenho.” Eliane Brum conta que escreve “para desacomodar o leitor, para perturbá-lo, para provocá-lo a ver o mundo de outros ângulos.” Para alcançar o que deseja, precisa antes “se desacomodar”. A experiência com os formatos diferentes de escrita – “mesmo quando escrevo com imagens, como no documentário” – passa por isso. “Sempre que sinto que estou me acomodando a um certo jeito de contar as coisas, busco algo que me quebre, me coloque de novo no vazio. Porque olhar para ver é um ato de resistência cotidiana, tudo nos leva a domesticar o olhar – ou a ver apenas aquilo que nos é dado para ver. Então, tento ficar muito atenta a isso, porque essa é a armadilha cotidiana – e também a morte do repórter.” Esse processo de “desinvenção” por que passa, um percurso de “desidentidades”, como diz, “tem tudo a ver com esse mundo fluido da internet”. “Acredito profundamente no poder da história contada, da narrativa, para transformar a vida.” Entre a força das pautas que corajosamente faz circular pela internet e a delicadeza com que as escreve, Eliane Brum segue sua trajetória singular no jornalismo brasileiro. A Menina Quebrada é prova disso.

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HISTÓRIA

Um parque com a alma de São Paulo Dupla de cartunistas desvenda as histórias e curiosidades de um parque chamado Antarctica. P OR C ELSO S ABADIN “A História da arena esportiva mais antiga do País”. É assim que se auto-intitula Alma, um livro que conta, em quadrinhos, fatos e detalhes dos mais curiosos que envolvem o chamado Parque Antarctica, o histórico estádio da Sociedade Esportiva Palmeiras. Atualmente na fase final de uma reforma que o modificou radicalmente, o Parque Antarctica, além de ter sido palco de grandes jogos do time alviverde, também já foi pista de corrida e até “aeroporto” improvisado. Estas e várias outras histórias são mostradas em Alma através dos textos e traços da dupla de cartunistas e ilustradores premiados Custódio e Luís Carlos Fernandes, este último também colaborador do Jornal da ABI. Jornal da ABI – Como surgiram o projeto e a parceria entre vocês? Custódio – Quando soube que havia o projeto de reforma do Parque Antarctica, isso já pelos idos de 2005, pensei em contar a História, em quadrinhos, do espaço físico onde hoje está o Palmeiras. Acumulei livros e referências, como por exemplo um mapa da cidade de São Paulo onde há um bairro chamado Palmeiras entre Santa Cecília e Perdizes, do qual sobrou somente a Rua das Palmeiras. Quando o estádio realmente foi fechado, achei que era hora de fazer o projeto. Tive uma das decisões mais felizes da vida, que foi chamar o Fernandes, que considero

um dos cinco maiores desenhistas/caricaturistas do mundo. E foi durante a viagem que fizemos para uma um festival literário no interior de São Paulo que tentei convencê-lo a entrar no projeto. Coitado! Foram seis horas de estrada! Gastei o estoque de histórias interessantes e toda a minha lábia [risos]. Fernandes – Sim, foi durante esta viagem para Votuporanga. Ele me falou da idéia de escrever sobre o Parque Antarctica, me contou, com entusiasmo palmeirense, vários fatos que eu desconhecia, como, por exemplo, que o grande inimigo do Palmeiras sempre foi o São Paulo, e que o Corinthians sempre foi parceiro, não atravessando nenhuma compra de jogadores. Ele me contou também o caso do “jogo das barricas”, no qual Palmeiras e Corinthians marcaram uma partida para salvar o São Paulo, em 1938: como o grande clássico das multidões, que levava mais gente aos estádios, era Palmeiras contra Corinthians, os times fizeram um jogo no qual os torcedores e sócios dos dois lados depositavam o dinheiro do ingresso em barricas, na entrada do Parque Antarctica. E foi esse dinheiro que tirou o São Paulo da falência naquela época. Para contar todas essas passagens o Custódio teve a idéia de criar um fantasminha que viveu todos esses anos no Parque, antes mesmo de o Palmeiras ter sido fundado. E ele me disse que gostaria de ver essa

história no meu traço. Gostei da idéia e até sugeri que esse fantasminha renascesse nos dias atuais com a reforma deste novo estádio do Palmeiras, e assim a gente fechou a História. Jornal da ABI – Quais foram suas referências de imagens para retratar as diversas fases históricas que o livro aborda? Custódio – As referências históricas factuais foram buscadas em livros, arquivos de internet, triangulando informações de várias fontes. Neste tipo de trabalho sempre se encontram furos nas versões oficiais, ou mesmo incongruências. É trabalhoso, mas quando você monta o quebra-cabeças e sente contribuir para a História ser bem compreendida de alguma maneira, é gratificante. Já a questão das imagens ficou toda com o Fernandes. Como já fiz trabalho histórico também como desenhista, enviei referências de imagens sempre que podia, mas deixei por conta dele buscar e refinar as escolhas. Não faz sentido chamar um grande profissional para parceria se não deixar o instinto dele trabalhar com liberdade. Fernandes – Foram muitos livros e muita coisa da internet. Tive dificuldades com as cores, não pelo fato de eu ser daltônico, mas pela falta de cores das fotos antigas, por isso abusei do sépia. Eu não sabia, por exemplo, qual era a cor da camisa de times antigos. Também não sabia quantos cravos tinha a chuteira em determinada época, e coisas assim... Jornal da ABI – Como está o mercado para livros ilustrados no Brasil? O tema futebol ajuda a vender? Fernandes – Tem muita gente fazendo livros independentes e vendendo. Tenho visto muitas adaptações de obras literárias, por exemplo. Estou com um livro de caricaturas em preto e branco, que espero lançar logo, e acredito que as vendas paguem o livro. A internet, as redes sociais, ajudam muito na divulgação. O livro Alma foi premiado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da CulturaProac, de São Paulo, tivemos uma verba do Governo, porém só com as vendas ele já se pagou. Fizemos tudo de forma independente, sem editora. E mesmo assim tivemos um pequeno lucro. Livros com o tema futebol com certeza vendem bem. O engraçado é que vendi muito para corinthianos e são-paulinos, que compram para presentear amigos. E agora com a Copa aqui no Brasil acho que surgirão muitos outros títulos. Custódio – Sempre houve uma dicotomia entre quem gosta de futebol e quem gosta de ler. Um não costuma se misturar com o outro. Mas felizmente acho que isto está acabando, e as torcidas aos poucos vão compreendendo que gostar de um clube é também conhecê-lo, saber de sua História. Mas não sei se o tema futebol ajuda a vender. As pessoas vão atrás de ídolos, seja ele o goleiro Marcos, seja o Paulo Coelho. Jornal da ABI – Já que Alma é sobre o Parque Antarctica, como vocês veêm as atuais modificações das arenas e estádios brasileiros para o padrão Fifa? Fernandes – Vejo com bons olhos. O brasileiro é apaixonado por futebol e merece estádios modernos e belos. Só não merece o preço dos ingressos, que estão caríssimos. Alguém por aí com certeza fatura muito além do que investe. Custódio – Há duas abordagens. Uma delas é de quem acha inevitável esta moderni-

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O craque Ademir da Guia, no traço de Fernandes.

zação. As pessoas pagam bem mais do que um ingresso de filme em shopping e são maltratadas nos estádios. Com o dinheiro envolvido no esporte e a passagem do País para um outro patamar econômico, os estádios iriam acompanhar isso. A outra abordagem é que esta modificação vai afastar o futebol de suas origens populares, a alma do esporte. O futebol é o mais humano e universal dos esportes porque o baixinho, o magrinho, o desdentado, pode jogar e vencer o rapaz rosado dos Jardins. Regras simples, poucos equipamentos e identificação popular são a causa de o futebol ser o esporte mais popular do mundo. A elitização do público nas arenas vai mudar esta relação no estádio. Não sei se é bom. Fico num ponto entre estas duas visões. Jornal da ABI – Vocês, como palmeirenses, aceitariam fazer um livro sobre o Parque São Jorge [sede do arqui-rival Corinthians]? Fernandes – Sou palmeirense desde criancinha. No momento não faria um livro sobre o Parque São Jorge, mas por absoluta falta de tempo. Mas poderia pensar no assunto, sim.... afinal me casei com uma corintiana e tive uma filha e um filho corintianos. Digo sempre que descuidei da educação dos meus filhos [risos], eu trabalhava demais quando eles eram pequenos [risos]. Mas só para dar uma idéia, fiz recentemente uma escultura do goleiro Cássio, do Corinthians, e enviei para um concurso. Curti muito fazer. Custódio – Eu não faria. Acho que isso tiraria a autenticidade tanto de um livro quanto de outro. E olha que eu tenho uma história com o Corinthians: quando eu era garoto, fui convidado para fazer teste para jogar lá, mas não aceitei. Meu pai fez duplas de bocha com Seu Nicola, o pai do Rivellino, sentamos próximos, lado a lado, para ver os jogos dos nossos pais, uma vez ou duas. Mas eu nunca pedi autógrafo pra ele, mesmo sendo eu um moleque de 12 anos, meia-esquerda, canhoto, que o imitava. Afinal, ele era do Corinthians... Mal sabia eu que a toda família dele é palmeirense... [risos].


TÉCNICA

A arte de entrevistar escritores De Gore Vidal a Vargas Llosa, 26 ficcionistas são sabatinados pela jornalista australiana Ramona Koval. P OR J OSELIA A GUIAR

Curiosidades desvendadas Impresso em papel couchê, formato magazine, totalmente colorido e com capa dura, Alma revela, em suas 64 páginas, muitas curiosidades sobre a História de São Paulo e do Parque Antarctica. Eis algumas delas: • Em 1891, um grupo de alemães fundou uma fábrica de cervejas e, ao seu lado, construiu um imenso parque com bosques, lagos, pavilhões, coretos, restaurantes e praças de esporte. O Parque, chamado de Antarctica, se tornou uma área de lazer para os paulistanos. • Fundado em 1899, o clube Germânia passou a ocupar os espaços do Parque para práticas esportivas. • O primeiro jogo do futebol brasileiro aconteceu no Parque Antarctica em 3 de maio de 1902: Mackenzie College 2 x 1 EC Germânia. • A primeira corrida de automóveis da América latina, vencida pelo Conde Sílvio Penteado, aconteceu em 1908 e a linha de chegada foi no Parque Antarctica. • No dia 30 de agosto de 1910 jogam AA Palmeiras e Corinthians FC, quando os dois grandes rivais ainda nem haviam sido fundados.

Palmeiras conseguiu parar o Santos de Pelé e sagrar-se campeão paulista em 1963 e 1966.

Nesse mesmo ano o Palmeiras foi campeão pela primeira vez no Parque Antarctica contra o CA Paulistano (2x1). • O famoso aviador francês Roland Garros decolou do Parque Antarctica com o seu Blériot para uma viagem a Santos, em 1912. Na volta a São Paulo, ele retornou com o paulistano Edu Chaves, que trouxe uma carta: estava inaugurado simbolicamente o Correio Aéreo no Brasil. Santos Dumont prestigiou o evento. • O Palestra Itália é criado com apoio de uma elite de imigrantes italianos e das Indústrias Matarazzo, que via com simpatia a criação do clube. • O clube passa a realizar seus jogos no Parque Antarctica em 1918. Em 27 de abril de 1920, o Palestra Itália concretiza a compra do Parque lançando mão até de um título-bônus no ano anterior para levantar fundos, com apoio dos funcionários das Empresas Matarazzo. • No dia 22 de outubro de 1922 a Seleção Brasileira vence dois jogos no mesmo dia com dois escretes diferentes: no Parque Antarctica ela ganha a Copa Roca sobre a Argentina; no Rio de Janeiro, ganha o Campeonato Sul-Americano sobre o Paraguai. • Em 1933 é inaugurado o “Stadium” Palestra Itália, o maior e mais moderno na época e o primeiro do País a ter arquibancadas de cimento armado e alambrados. No jogo inaugural, vence o Bangu, que seria o campeão carioca daquele ano, por 6 a 0. • Com o início da Segunda Grande Guerra e a entrada do Brasil no conflito, o Palestra Itália passou a sofrer uma intensa campanha de difamação. Sem alternativa, o clube mudou seu nome para Palestra (que é um nome grego, e não italiano) de São Paulo. Mas as pressões continuaram. No dia 20 de setembro, o time entra em campo na decisão do campeonato contra o São Paulo, com uma bandeira do Brasil e um novo nome: Palmeiras. O Palestra terminava invicto e o Palmeiras nascia campeão em seu primeiro jogo. (Francisco Ucha)

Gore Vidal discorre sobre as inverdades da História dos Estados Unidos. Vargas Llosa aborda a natureza dos ditadores, Toni Morrison recorda a experiência negra americana. Ao todo, 26 grandes ficcionistas tratam de vida e morte, literatura e política, e às vezes de gatos e de cheiro de pele de guaxinim em Conversas com Escritores, volume que sai pela coleção Biblioteca Azul, da Globo Livros. A maioria é conhecida do público brasileiro, alguns já laureados com o Nobel, outros cotados para recebê-lo a qualquer momento. E há os que, ainda restritos ao circuito da alta literatura, começam a circular em festas literárias, como Anne Enright, Hanif Kureishi, Ian McEwan e John Banville, este convidado da última Festa Literária de Paraty - Flip. Quem os conduz é Ramona Koval, hoje com 59 anos, jornalista que passou os últimos 15 anos entrevistando-os em suas casas, festivais literários ou no programa que manteve na ABC Radio National, na Austrália. A tradução é de Denise Bottmann. Não há só material de grande interesse para quem gosta de literatura. Será útil para quem deseja aprender um pouco mais sobre esse complexo subgênero da arte da entrevista, a arte de entrevistar escritores. É complexo subgênero porque, em primeiro lugar, se costuma pensar que um escritor, dotado de habilidade muito além da trivial para escrever, será capaz de reproduzir verbalmente o que já diz à perfeição nos livros. Não raro ocorre o contrário. Uma das mais prolíficas autoras da atualidade, com mais de 40 romances e dezenas de volumes de contos, não ficção e poesia, Joyce Carol Oates reage embaraçosamente lacônica até o instante em que uma pergunta a desarma. A repórter quer saber sobre seus primeiros livros, que são pouco difundidos, e ainda demonstra conhecê-los muito bem. A autora fica tão surpresa, que se anima para falar não só sobre esse como outros assuntos mais. Complexo subgênero também porque é preciso dominar tecnicamente o assunto, mas guardar medida equilibrada para que a conversa não seja apenas alcançada por poucos especialistas. Uma a uma, as entrevistas mostram como Ramona Koval enfrenta os dois desafios, e foge do convencional levantando assuntos quase sempre inesperados, sem temer parecer banal ou piegas. De Joseph Heller, autor de Ardil 22, quer saber: “Você acredita no amor?” A P.D. James, dama do crime, pergunta por que

os assassinos têm sempre cachorro, nunca gato. Quando se encontra com Norman Mailer, entre questões várias sobre revolução sexual e política americana, quer saber: “Você consegue lembrar a primeira janela pela qual quis jogar alguém, ou se jogar você mesmo?” Não raro dessas questões banais surgem as respostas mais densas. Pede a Saul Bellow, por exemplo, que lhe diga como é mesmo o cheiro de pele de guaxinim de que fala em vários livros. É o ponto de partida para que o autor fale de crenças e de antropologia. Às vezes não há respostas, ou por outra: às vezes as respostas estão no imponderável. Por que Amós Oz escolheu uma forma inusitada, de romance em versos e poema em prosa, no seu O Mesmo Mar? “Seria muita pretensão de minha parte dizer que eu escolhi”, confessa. Na verdade, trabalhara em completa solidão por várias semanas numa varanda que dava para as montanhas e o Mar Mediterrâneo. “Descobri que era assim que essa obra queria ser escrita”. Em alguns casos, a ficção funciona como surpreendente premonição. Como quando, em meio à crise financeira nos Estados Unidos em 2008, John Lee Carré lança uma nova história de espionagem que se passa num banco. “Devo dizer que foi pura sorte”, e pondera logo mais, “Claro que eu tinha a sensação, como eu imagino que a maioria de nós também tinha, de que o sistema bancário estava se transformando, e todos aqueles pequenos bancos muito elegantes (...) provavelmente quebrariam”. Desconcertos também rendem algumas das passagens mais comoventes. Harold Pinter se recuperava de uma grande cirurgia para tratar de um câncer no esôfago. Antes da entrevista, quis saber se em algum momento teria de falar a respeito. A repórter lhe explicou que sim, havia preparado uma pergunta para fazer em algum momento. Então Pinter lhe pede para começar com o assunto, e ela acata o pedido. “Creio que você precisa de dois tipos de coisas para sobreviver”, ele explica. “Uma é um cirurgião excelente; a outra, uma esposa excelente. E tive muita sorte de ter ambos”. Nenhuma das premonições será mais terrível que a de Gore Vidal, com quem conversa no começo de 2001. Ramona Koval quer saber como estão os Estados Unidos no começo do século 21. “O pulso está irregular, eu diria”, responde com humor, um dos mais ferinos críticos do seu país. A certa altura, diz que ainda vão pagar muito caro pela “mania de ser polícia do mundo”. Pouco depois ocorreria o 11 de Setembro.

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CINEMA

Dossiê Jango questiona a morte do ex-Presidente Documentário reclama apuração da estranha coincidência: Goulart, JK e Lacerda morreram num período inferior a um ano, na década de 1970.

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P OR C ELSO S ABADIN

Nunca antes na história deste País foram produzidos tantos documentários (e ficções também, por que não?) sobre a época da ditadura militar. E pelo que vimos recentemente nas redes sociais, onde pessoas totalmente desinformadas chegaram a pedir a volta desta infame ditadura como forma de governo, podese afirmar com certeza: quanto mais filmes forem feitos esclarecendo o que foi o terror daquele período, melhor. Neste sentido, é mais do que bem-vindo o lançamento do documentário Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle, mesmo sabendo-se que João Goulart já havia sido documentado pelo cinema brasileiro no filme Jango, que Silvio Tendler dirigiu em 1984. “São duas obras que falam de um mesmo personagem, mas com ótica e linguagem completamente diferentes”, afirma Fontenelle. “Enquanto o filme de Silvio Tendler foca mais a carreira política de Jango e o golpe militar de 1964, o Dossiê Jango foca não somente o lado político, como também o lado humano do ex-Presidente”, afirma. Tendler diz não ter visto ainda o filme de Fontenelle, mas concorda “ser importante para o País conviver com versões diferentes, com o debate. Não pode haver um único filme sobre um personagem tão rico como João Goulart, um homem re34

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pleto de conflitos internos, um personagem que vivia a contradição de ser um homem rico num País pobre. Ele era acusado por fazer a reforma agrária, e acusado por não ter feito a reforma agrária”, lembra Tendler. “Jango é um filme importante, que vai ficar na história do cinema, mas não pode ser o único”, diz. Queimas de arquivo

O ponto de partida do novo documentário é, no mínimo, intrigante: a partir do fato incontestável de que João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda morreram em circunstâncias não totalmente esclarecidas, no curto período de tempo inferior a um ano, o filme denuncia, com clareza e pés no chão, sem descambar para insanas teorias de conspiração, como os tentáculos da ditadura se estenderam por tempos e espaços que a História oficial não registra, cometendo sórdidas queimas de arquivo. Além disso, “falamos também da angústia de Jango, seus pensamentos nos anos de exílio, que é um período pouco retratado da vida do ex-Presidente, e das ameaças que ele sofria”, diz Fontenelle. O projeto surgiu a partir de um argumento de Paulo Mendonça e Roberto Farias, não por acaso, a mesma dupla responsável pelo filme Pra Frente Brasil, que desafiou a ditadura em 1982. Na época, Mendonça escreveu a história junto com Farias, que di-

rigiu o filme. Hoje, ambos fazem parte da o filme propõe é quais os motivos que esdiretoria do Canal Brasil, que produz o dotariam entravando tal exumação. cumentário. “Roberto esta“Colhemos novos depova começando a desenvol“A partir da entrevista imentos e iniciamos um ver um longa de ficção soque fizemos com um verdadeiro trabalho de inbre a vida de João Goulart vestigação sobre o tema, ex-agente da polícia no exílio, e nós começarecolhendo documentos mos a filmar algumas entredo então Serviço Nacional secreta uruguaia, vistas iniciais que serviriam de Inteligência-SNI, da que afirmava ter de pesquisa para o projeto CIA, e das polícias secretas conhecimento do dele”, afirma Fontenelle. “A uruguaias e argentinas, que partir da entrevista que ficomprovavam as ameaças suposto plano de zemos com um ex-agente assassinato de Jango, e os riscos de vida que Janda polícia secreta uruguaia, go sofria no exílio”, relata vimos que tínhamos que afirmava ter conheciFontenelle. O filme tammento do suposto plano de bém entrevistou pessoas uma nova história assassinato de Jango, vimos que conviveram com o expara contar.” que tínhamos uma nova Presidente, tanto durante história para contar. E partimos para a proseu Governo como no exílio, além de jordução do documentário”, conta. nalistas e membros de movimentos de No filme, o depoimento do ex-agente de direitos humanos desses países que pesfato é estarrecedor. Ele conta detalhes, com quisavam não somente a morte de Jango, lucidez e coerência, do que seria toda a tramas também a história da Operação Conma armada pelos militares para assassinar dor na America Latina. “Cada entrevista Jango, já em seu exílio. Incluindo uma pílevava a um novo contato, a uma nova lula especial, desenvolvida pela Central de pista. Foi um trabalho árduo que durou três Inteligência Americana-CIA, que mata anos, mas que, no final, conseguiu fazer um sua vítima deixando como rastro apenas painel bem amplo, não somente sobre João sintomas que sugerem infarto. Hollywood Goulart e sua morte, como também de um não faria melhor. Diz-se, já que nada até grande período da História do Brasil e da o momento pode ser totalmente comAmérica do Sul”, orgulha-se o cineasta. provado, que uma exumação do corpo de A busca pela informação foi penosa. João Goulart revelaria traços do suposto “Além da colaboração do Instituto Presiveneno. E a pergunta, sem resposta, que dente João Goulart e do Movimento de


Justiça e Direitos Humanos que nos cederam imagens, documentos, fotos e gravações, tivemos que recorrer a diversos arquivos no exterior para suprir a dificuldade dos arquivos brasileiros”, relata Fontenelle, que aproveita para fazer um desabafo: “Está cada vez mais difícil fazer documentário no Brasil. O preço cobrado por minuto de imagem, em grande parte dos arquivos no Brasil, é exorbitante e completamente fora da realidade para um projeto de baixo orçamento. Isso é algo que precisa ser revisto”.

“Está cada vez mais difícil fazer documentário no Brasil. O preço cobrado por minuto de imagem, em grande parte dos arquivos no Brasil, é exorbitante.” Após tantas revelações e novos fatos vindo à tona, o Jornal da ABI perguntou tanto a Fontenelle como a Tendler as opiniões pessoais de ambos em relação à morte de João Goulart. Diz Fontenelle: “Depois de tudo que vi e pesquisei, para mim, a hipótese de assassinato faz muito mais sentido do que a de morte natural. Levantamos documentos que comprovam que João Goulart estava marcado para morrer. Agora, a verdadeira razão de sua morte é algo que só conseguiremos comprovar quando uma investigação séria for feita por parte do Governo brasileiro.”

Tendler lembra como a possibilidade de assassinato, já aventada na época em que ele dirigiu Jango, influenciou seu filme: “Convivi muito com Maria Teresa [a viúva], João Vicente e Denise Goulart [filhos], e quando surgiu a denúncia de que ele poderia ter sido assassinado, a própria família se fechou em copas. Eles mesmos não queriam falar sobre isso. E eu pensei: já estou brigando com a di-

tadura, vou brigar também com a família? E se o filme é lançado e imediatamente desmentido pela família, o eu que faço? Decidi, então, não abordar o assunto no filme”. De qualquer forma, Dossiê Jango prova mais uma vez que ainda há muito o que cavar. Por mais que setores mais conservadores da sociedade defendam a tese de que é preciso colocar uma pedra sobre tudo isso,

novos fatos e novas informações incessantemente trazidas à luz comprovam que esse tipo de esquecimento não é possível, pois quanto mais se pesquisa mais pedras se encontram pelo caminho. E várias destas pedras são lápides que precisam ser honradas. Dossiê Jango foi o vencedor do prêmio de melhor filme pelo júri popular da 16ª edição da Mostra Tiradentes deste ano.

Tendler: Resistência causaria um banho de sangue Silvio Tendler é modesto ao dizer que para este ou aquele momento político”. seu filme, Jango, entrará para a História. Com o distanciamento histórico neEle já entrou: com mais de meio milhão cessário, Tendler afirma que Jango fez de espectadores só nos cinemas, Jango muito bem em não resistir ao golpe e que está entre as cinco maiores bilheterias de ‘a frota norte-americana estava nas cosdocumentários brasileiros em todos os tas do Brasil, e isso hoje está provado. Se tempos. E com a “nova ordem social” das ele tivesse resistido ao golpe haveria um mídias pós-internet, é praticamente imbanho de sangue e o País seria dividido”. possível que esta posição lhe seja tomada. Tendler admite ter feito um filme parci“Revi o filme agora e ele al, favorável ao ex-Presidennão perdeu nada com o temte. “Imparcialidade, no cine“Muitas matérias po. A realidade, a verdade ma, só com a câmera deslisobre o filme sobre ele permanecem”, gada. Fiz um filme, sim, fa‘caíram’, muitas disse mês retrasado o crítivorável ao Jango porque eu co Luiz Carlos Merten, de entrevistas minhas já sou favorável a ele, e como O Estado de S.Paulo. documentarista tenho este agendadas foram Em conversa com o Jordireito. E mesmo assim, desmarcadas nal da ABI, Silvio Tendler num debate acontecido no relembrou detalhes de Janquando viram que Festival de Gramado de go: “Comecei a fazer o fil1984, fui acusado de direino filme havia um me em 1981, sabendo que tista porque defendi a idéia depoimento da ele jamais ficaria pronto de Jango não ter resistido para as eleições de 1982, Presidente Dilma.” ao golpe”. como era a vontade de alPara Tendler, existe um guns grupos políticos. Falei que ficaria patrulhamento que nunca termina e pronto, sabendo que não ficaria, apesar nunca terminará. Muito mais recentedas pressões. Quando o filme, conforme mente, em 2009, ele viu diminuir o espaço previsto, não ficou pronto em 1982, as pesna mídia para seu documentário Utopia soas se dividiram: metade achou que ele e Barbárie por conta de fatores políticos: prejudicaria a eleição de Brizola, metade “Muitas matérias sobre o filme ‘caíram’, achou que ele ajudaria na eleição do Brizomuitas entrevistas minhas já agendadas la. Mas eu não me preocupei com isso foram desmarcadas quando viram que no porque não faço filmes circunstanciais filme havia um depoimento da Presidente

Dilma. Só que quando eu a entrevistei para o filme ela ainda não era sequer candidata, quanto mais Presidente. No ano seguinte, quando lancei o documentário sobre Tancredo Neves, vivi o mesmo problema, mas do lado contrário: entrevistei Aécio Neves quando ele não era candida-

to a nada, e quando o filme saiu, fui criticado. Eu não faço filmes para o ano que vem. Eu faço filme para discutir a História. Nunca vou colocar ou deixar de colocar uma pessoa que eu acho importante para contar esta História, se ela é candidata ou não deste ou daquele partido”. Defensor do cinema como “a arte da militância”, Tendler lamenta a atual distribuição das salas de cinema pelo País: “No Brasil de hoje, os cinemas se concentram em apenas 9% do território nacional, e 99% deles estão dentro de shopping centers. Quem entra num shopping não vai ver filme político. O público do cinema nacional hoje está nos cineclubes, nas periferias, nas lajes, em locais em que os órgãos que medem a quantidade de espectadores não têm como aferir. O que está errado é o modelo de contabilizar o público: ele existe, mas só se mede quem vai aos shoppings. Se um filme é visto por 2 mil pessoas num festival ou por 130 mil no You Tube, isso infelizmente não é contabilizado em lugar nenhum”. JORNAL DA ABI 392 • AGOSTO DE 2013

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LANÇAMENTO Othon Bastos e Isabel Ribeiro em São Bernardo, de Leon Hirszman, um verdadeiro tratado de sociologia brasileira.

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Três vezes Graciliano

Caixa com filmes baseados na obra do escritor faz uma homenagem a Graciliano Ramos e destaca dois grandes diretores do cinema brasileiro. P OR C ELSO S ABADIN

No último dia 20 de março, foram relembrados os 60 anos de morte do escritor, jornalista, professor e político alagoano Graciliano Ramos. Em sua vasta obra há romances, contos, crônicas, histórias infanto-juvenis e cartas que no decorrer dos anos foram publicados e republicados em várias oportunidades. Alguns destes trabalhos foram adaptados para o cinema e para a televisão, com maior ou menor repercussão e sucesso. Entre os menos conhecidos estão Insônia (longa-metragem em episódios lançado em 1980) e a A Terra dos Meninos Pelados, exibido pela Globo, em 2003 e 2004, sob a forma de minissérie. Mas a obra de Graciliano rendeu também três filmes que são verdadeiras obrasprimas do nosso cinema. Três longas-metragens que invariavelmente ocupam as listas dos melhores já feitos no Brasil: Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere. Os três ganham agora uma caixa especial, com cópias restauradas em dvd, lançada pelo Instituto Moreira Salles com curadoria de José Carlos Avellar. Desta bem-vinda caixa de três filmes lamenta-se apenas a ausência de extras nos dvds, lacuna parcialmente preenchida pelos livretos que acompanham a edição. Em Vidas Secas há análises críticas de Jean Claude Bernardet, José Carlos Avellar e Júlio Bressane. Em São Bernardo, texto de José Carlos Avellar, e em Memórias do Cárcere há depoimentos de Nelson 36

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Pereira dos Santos, e outra análise crítica de Avellar.

VIDAS SECAS, NASCE UM FOTÓGRAFO Vidas Secas foi o quarto título de Graciliano a ser publicado. Em 1938, após a repercussão positiva de Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Angústia (1936), a Editora José Olympio, na época comandada pelo próprio José Olympio Pereira Filho, lançou nas livrarias esta contundente história de uma família fugindo da seca, no sertão nordestino. O livro só viraria filme em 1963, pelas mãos de Nelson Pereira dos Santos, cineasta que, embora ainda jovem na ocasião (35 anos), já havia marcado seu nome na história do cinema brasileiro com Rio 40 Graus. Vidas Secas é um marco do nosso cinema. Sua narrativa árida e crua, quase documental ao mostrar os hábitos do sertanejo, sem os vícios estilísticos do filme americano, ajudou a colocar o cinema brasileiro daquela época num patamar superior diante da produção mundial. Já vivíamos os ares do Cinema Novo, que pregava que os filmes deveriam denunciar rasgadamente os nossos problemas sociais, sem escapismos. O próprio crítico e historiador francês Georges Sadoul chegou a afirmar que o cinema mais criativo dos anos 1960 foi o brasileiro. E certamente Vidas Secas muito contribuiu para isso. Como faz parte da nossa própria cultura e jeito de ser, há um divertido componente de improviso em todo este suces-

so. Conta-se que quando Nelson Pereira dos Santos estava montando a equipe para fazer o filme, Glauber Rocha sugeriu que ele contratasse como diretor de fotografia um talentoso fotógrafo da revista O Cruzeiro. Nelson achou estranha a sugestão, pois fotografar para jornais e revistas é uma atividade bem diferente de fotografar para cinema. Aliás, o próprio fotógrafo indicado também achou tudo muito insólito, mas diante da insistência de Glauber, Nelson aceitou. O resultado é um dos mais brilhantes trabalhos de direção de fotografia do cinema brasileiro, onde o branco explode em toda a sua intensidade, chegando a incomodar os olhos da platéia, da mesma forma que o sol nordestino ao exalar todo o seu insuportável calor. Os tons em preto tornamse mais silhuetados, o filme équase um altocontraste, e a sensação da exasperante aridez dos personagens é transferida para o público. E assim começou a notável carreira de um jovem diretor de fotografia chamado Luiz Carlos Barreto, que acabou assinando também a produção de Vidas Secas. E de muitos e muitos outros filmes mais, daí por diante. Não foi só na carreira cinematográfica de Barreto que Vidas Secas deu o pontapé inicial. Ao chegar na locação do filme (Palmeira dos Índios, Alagoas, cidade onde o próprio Graciliano Ramos havia

sido prefeito, nos anos 1920), Nelson conheceu um habitante local, um senhor já com seus 45 anos, bem falante, de raciocínio rápido, voz rouca e possante. Conhecedor de tudo no lugar, o homem rapidamente se tornou um verdadeiro assistente de produção do cineasta, ajudando até na contratação de figurantes. Nelson percebeu que o tal senhor poderia fazer até um papel no filme. E fez, o de Fazendeiro. E ali nasceu um astro: mesmo começando sua carreira tardiamente, Jofre Soares não parou mais de atuar, e colecionou mais de uma centena de títulos, entre filmes, novelas e minisséries, numa carreira brilhante que só terminou no ano de sua morte, 1996. Uma outra casualidade delineada pelo conhecido poder de improvisação brasileiro marcou Vidas Secas: na verdade, o filme deveria ter sido feito dois anos antes, mas quando Nelson Pereira desembarcou no local escolhido para as filmagens, em pleno sertão nordestino, a natureza tinha “estragado” tudo: as chuvas dos últimos dias haviam varrido a aridez necessária ao filme, pintando de verde e cobrindo as locações com belas, inesperadas e indesejáveis folhas. Para não perder a viagem, no sentido literal da expressão, Nelson rapidamente escreveu uma outra história, utilizou como atores os próprios habitantes do local, e fez um filme totalmente diferente: Mandacaru Vermelho.


Impossível não conjecturar o que teria acontecido se o cineasta, como é obrigatório nos dias de hoje, tivesse de se submeter à interminável burocracia imposta pela Agência Nacional de Cinema-Ancine e suas mastodônticas aprovações de projeto. Talvez Nelson estivesse na caatinga até agora, aguardando algum carimbo. Vidas Secas foi produzido pela Herbert Richers (que, contrariamente ao que muitos pensam, não era apenas uma empresa de dublagens) com recursos do então Banco do Estado de Minas Gerais. Que virou Banco Nacional, que virou Unibanco, que virou Itaú. O filme foi selecionado para a Mostra Competitiva do Festival de Cannes, e levou o prêmio da Organisation Catholique Internationale du Cinéma et de l’Audiovisuel-OCIC, no mesmo evento.

SÃO BERNARDO, MICROCOSMO DO BRASIL Quase dez anos após Vidas Secas, outro livro de Graciliano Ramos, o segundo, chega às telas: São Bernardo, editado em 1934, ganha adaptação do cineasta carioca Leon Hirszman, que na época ainda não havia realizado seu trabalho mais famoso, Eles Não Usam Black-Tie. No papel principal, Othon Bastos, um dos atores mais icônicos do Cinema Novo, interpreta Paulo Honório. Mais que um simples protagonista, Paulo Honório é a própria História do Brasil compactada: homem de origem humilde, explorado, revolta-se contra o sistema para tentar ser alguém na vida. Em sua trajetória obsessiva, não se importa em matar para alcançar seus objetivos. Sua ambição o torna tão cego que sequer percebe que, ao combater o sistema social totalitário, cria ele próprio o seu totalitarismo, tornando-se um latifundiário poderoso tão explorador quanto os exploradores que o exploravam. É um verdadeiro tratado de sociologia brasileira travestido em celulóide. Em sua ganância, o personagem se mostra uma pessoa incapaz de amar, que nunca teve interesse por mulher (que é “difícil de governar”, segundo ele) , e que vê num filho nada além de um herdeiro para dar continuidade ao seu nome e à sua fortuna. O diretor Hirszman não esconde a origem literária de seu filme, recorrendo várias vezes ao recurso do texto narrado em off. O problema é compensado pelos magníficos planos abertos, eminentemente cinematográficos, e pela notável fotografia de Eduardo Escorel. O elenco tem os olhos tristes de Isabel Ribeiro vivendo a infeliz esposa de Honório, e participações especiais de Mário Lago e do já citado Jofre Soares, revelado por Nelson Pereira dos Santos. A trilha é de Caetano Veloso. São Bernardo ganhou o prêmio Interfilm no Festival de Berlim, e os troféus de Melhor Ator e Melhor Fotografia em Gramado.

MEMÓRIAS DO CÁRCERE, DUAS DÉCADAS DE ESPERA Nelson Pereira dos Santos ainda nem havia terminado as filmagens de Vida Secas, em 1963, e já esboçava o projeto para filmar Memórias do Cárcere. Porém, com o

Indicado por Glauber Rocha, Luiz Carlos Barreto – na época, fotógrafo de O Cruzeiro – foi o responsável pela direção de fotografia de Vidas Secas, um marco do cinema brasileiro. Abaixo, Carlos Vereza como Graciliano Ramos no épico Memórias do Cárcere. Ambos foram dirigidos por Nelson Pereira dos Santos.

golpe militar de 1964, o cineasta decidiu arquivar a idéia, já que jamais a ditadura brasileira permitiria a realização de um filme sobre outra ditadura brasileira. Foram necessárias duas décadas para que o projeto se tornasse realidade, mas a espera valeu a pena: com pouco mais de três horas de duração, Memórias do Cárcere é um épico do cinema brasileiro. Óbvio que, numa primeira leitura, o “cárcere” ao qual Graciliano se refere no título são os anos que ele passou preso, vitimado pelo totalitarismo da ditadura de Getúlio Vargas, que mandou trancafiar o escritor sem nem ao menos existir um processo formal contra ele. No momento de sua detenção, Graciliano era, como se chamava na época, o “Diretor de Instrução” do Estado de Alagoas. Algo similar a um Secretário Estadual de Educação. Uma leitura menos

imediatista do livro e do filme revela, na realidade, que o “cárcere” do título é o próprio País, em seus diversos níveis de privação de liberdade. Num primeiro momento é retratado o quartel do Exército de Recife, um presídio mais “liberal”, se é que podemos usar esta expressão para uma cadeia. Mas, de qualquer forma, ali o escritor goza de certa mobilidade, com direito inclusive a usar o “banheiro dos oficiais”. Passa-se depois para uma embarcação que nos remete aos antigos navios negreiros, tão básicos e estruturais na formação do povo brasileiro. Acontece neste navio, diga-se, uma das melhores cenas do filme, onde os ricos da primeira classe, sem ter noção do que acontece sob seus pés, se entretêm e aplaudem a música cantada com raiva pelos prisioneiros das galés. É o eterno abismo sócio-cultural brasileiro cine-

matograficamente representado dentro de uma nau dos insensatos. É feita depois a transferência para um presídio mais “convencional”, à brasileira, onde as celas ficam sempre de portas abertas e as divisões de poder são difusas e confusas. Instala-se ali um novo microcosmo do País, onde os militares presos impõem sua suposta e alegada disciplina superior aos demais. São todos presos, mas uns são mais presos que outros, neste pequeno Brasil penitencial. No terço final do filme a prisão é a colônia penal de Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Fisicamente aberta, mas psicologicamente a mais cruel de todas. É tocante o momento onde os presidiários, em conjunto, se mobilizam para tentar esconder, aos pedaços, o vasto manuscrito no qual Graciliano vem trabalhando há anos. Mesmo porque todos os detentos querem “entrar no livro”, fazer parte dele, sair do anonimato, nem que seja através de um par de linhas. O filme não conta, mas sabe-se que o esforço dos prisioneiros foi em vão: o manuscrito foi, sim, confiscado na cadeia, e Graciliano escreveu seu Memórias do Cárcere de cabeça, anos mais tarde. Infelizmente, não chegou a ver sua obra publicada, já que ela veio a público em 1953, algumas semanas após sua morte. No elenco, Carlos Vereza dá um show de interpretação no papel principal, enquanto uma muito jovem Glória Pires, então com 20 anos, faz o papel de sua esposa. Destaques também para Jofre Soares (sempre ele), José Dumont, Nildo Parente, e Fábio Barreto, filho de Luiz Carlos Barreto, que mais tarde dirigiria O Quatrilho e outros marcantes longas brasileiros. Memórias do Cárcere ganhou o Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cannes.

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QUADRINHOS

Os sonhos da pequena Nemo Editora mineira completa dois anos ousando na forma de lançar hqs ao investir na qualidade gráfica e artística das obras publicadas, muitas delas inéditas no Brasil. P OR F RANCISCO U CHA

Moebius, Loisel, François Bourgeon, Hugo Pratt, Enki Bilal, Jacques Tardi. Estes são alguns dos nomes de maior destaque dos quadrinhos europeus e, embora tenham grande prestígio, suas obras nunca foram publicadas no Brasil com o cuidado gráfico que elas merecem e, muito menos, com a regularidade necessária. Porém, uma pequena editora mineira, fundada há dois anos, começou a mudar esse panorama inóspito com bastante determinação e criatividade. A Nemo iniciava sua jornada em julho de 2011 lançando um álbum icônico que abriria a Coleção Moebius: Arzach, do festejado quadrinista francês Jean Giraud, falecido em março de 2012. Para os apreciadores de quadrinhos era quase inacreditável ver uma edição tão bem cuidada como aquela: capa dura, formato grande (24x32cm), papel de ótima qualidade, impressão primorosa, bem editada e com um texto de introdução do próprio Moebius, nome com o qual Giraud assinava suas incríveis histórias de fantasia e ficção-científica. Isso não significa que outras editoras não tenham lançado, vez por outra, quadrinhos de qualidade em álbuns bem acabados. Mas a Nemo elevou esse trabalho a outro nível de competência. Ao mesmo tempo despertou uma certa desconfiança sobre os rumos de seus próximos passos, já que manter essa qualidade nos lançamentos a seguir exigiria uma certa dose de empreendedorismo e coragem para apostar num mercado tão instável. Mas o lançamento seguinte logo causou uma nova surpresa: a memorável edição de Corto Maltese – A Juventude, de Hugo Pratt, encheu os olhos até dos mais exigentes consumidores dessa arte. Além de ter um alto nível de qualidade gráfica, o livro traz, em 25 páginas, prefácio que contextualiza a juventude do personagem, escrito por Marco Steiner e ilustrado com fotos magníficas de Marco D’Anna. Mais um ponto para a pequena Nemo. E ela não parou de ganhar pontos. 38

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Entre um ou outro lançamento um pouco mais questionável, foram editadas obras de fôlego como Era a Guerra de Trincheiras, de Jacques Tardi; A Trilogia Nikopol, um livrão que reuniu a futurista saga criada por Enki Bilal em um volume; Animal’Z, outra criação de Bilal; Peter Pan – Volume 1, o início da cultuada série de Régis Loisel; O Apanhador de Nuvens e A Narradora das Neves, dois álbuns com singelas histórias da dupla francesa que assina como Béka (Bertrand Escaich e Caroline Roque) e lindos desenhos de Marko. Corto Maltese retorna em dois álbuns com a mesma excelência do primeiro volume: As Helvéticas e Mu, a Cidade Perdida. E a Coleção Moebius também não parou. Foram lançados mais sete volumes e, com isso, finalmente Jean Giraud teve uma grande parte de suas aventuras oníricas de fantasia e ficção-científica lançada no Brasil. O Homem é Bom?, A Garagem Hermética, As Férias do Major, O Homem do Ciguri e outras obras se juntaram ao recém-lançado e muito aguardado álbum O Mundo de Edena, que abre uma nova coleção de três volumes na qual Moebius apresenta seu conhecido estilo artístico de forma mais despojada. Esse lançamento praticamente inicia as comemorações de dois anos da Nemo, que em julho presenteou os leitores brasileiros com mais uma grande obra dos quadrinhos europeus: Os Companheiros do

Corto Maltese, de Hugo Pratt (à direita), e Linus e seu inseparável cobertor, de Charles M. Schulz, são dois protagonistas dos álbuns lançados pela Nemo.

Crepúsculo, de François Bourgeon. Lançado há 30 anos na Europa, quando rapidamente foi aclamado pelo público e crítica, o álbum é inédito no Brasil e chega depois de longa espera num grande volume de capa dura e 240 páginas. A história se passa na Idade Média, durante a Guerra dos Cem Anos, e se completa em três livros. Mas a Nemo não voltou os olhos somente para a Europa. Dos Estados Unidos chegaram O Incrível Cabeça de Parafuso e Outros Objetos Curiosos, com o desenho inconfundível de Mike Mignola; Bolland Strips!, com o elegante traço do inglês Brian Bolland, e Snoopy – A Felicidade é um Cobertor Quentinho!, com os queridos personagens criados por Charles M. Schulz que, pela primeira vez, ganharam uma edição com uma história única, adaptada de um novo especial de animação e também das tiras originais da série. Do Brasil, o destaque vai para três boas adaptações da obra de Shakespeare – A Tempestade, Hamlet e Macbeth –, dos relançamentos de

Estórias Gerais, e Fantasmagoriana & Outros Contos Sombrios, ambos de Wellington Srbek com desenhos primorosos do mestre Flávio Colin. Houve tentativas também de resgatar alguns clássicos argentinos, mas elas ainda não deram frutos. “Há um clássico argentino inédito no Brasil que eu gostaria muito de publicar, mas não consegui quem me respondesse sobre os direitos. Ajudaria se as editoras de lá respondessem a e-mails...”, lamenta Wellington Srbek, que além de autor é também o editor da Nemo e o responsável pela linha de qualidade que a editora vem mantendo. A Nemo faz parte do Grupo Autêntica, que surgiu em 1997 a partir da fundação da Autêntica Editora, especializada em publicações acadêmicas. Em 2003 o grupo aumentou seu campo de ação com a criação da Editora Gutemberg, buscando atingir o público de livros de interesse geral, ficção, literatura fantástica e no segmento jovem. O diretor-executivo da empresa, Arnaud Vin, afirma que trabalhar no mercado de quadrinhos brasileiro tem sido “uma experiência de grande aprendizagem e grande desafio”, e resume a proposta da jovem editora: “trazer autores e hqs de alta qualidade, em edições à altura dessas obras e com preços acessíveis e voltados a leitores de todas as idades. Paralelamente, buscamos auxiliar da melhor forma possível as livrarias e lojas especializadas em quadrinhos, nossos grandes parceiros no trabalho de tirar as histórias em quadrinhos do anonimato. Há ainda o objetivo concreto de oferecer espaço e trabalho a novos talentos brasileiros, como a Nemo tem feito desde o início.” Parece que os sonhos da pequena Nemo estão apenas começando.


DIVULGAÇÃO

Na hora certa O editor Wellington Srbek fala ao Jornal da ABI sobre a proposta da Nemo e comemora os resultados favoráveis. Jornal da ABI – Como surgiu e como funciona a sua parceria com o Grupo Editorial Autêntica? Wellington Srbek – Tudo começou em setembro de 2010, quando a editora de livros infantis do grupo, Sônia Junqueira, entrou em contato comigo para conversarmos a respeito de um livro sobre quadrinhos. Sônia só sabia de minha produção acadêmica, mas contei a ela que também atuava como autor de quadrinhos e enviei as páginas iniciais de meu roteiro desenhado da adaptação de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Sônia então repassou esse material para Rejane Dias, a diretora do Grupo Autêntica. Acontece que a Rejane e o empresário Arnaud Vin, grande leitor de quadrinhos europeus, já conversavam há algum tempo sobre publicar hqs pela Autêntica. Creio que fui “a pessoa certa na hora certa”! E agora sou o editor de quadrinhos do Grupo Autêntica, atuando na coordenação editorial da Nemo, para qual proponho e discuto títulos e projetos, acompanho a produção das hqs nacionais e supervisiono a edição dos álbuns estrangeiros. Jornal da ABI – Houve alguma resistência no lançamento de álbuns com um acabamento tão luxuoso?

Wellington Srbek – Tratamos os quadrinhos com toda a dedicação que essa apaixonante arte merece. Não é à toa que começamos a editora com o lema “paixão pelos quadrinhos”! Além disso, também acreditamos que os leitores de quadrinhos merecem todo o respeito. Daí, optamos por trabalhar os álbuns europeus com uma qualidade gráfica similar à das edições originais, além de cuidarmos das traduções e buscarmos preços acessíveis. Estamos publicando verdadeiros tesouros dos quadrinhos e queremos que o máximo de leitores possível descubra esses fantásticos trabalhos de autores como Moebius, Hugo Pratt, Enki Bilal e Régis Loisel. Jornal da ABI – Como foi sua história profissional? Wellington Srbek – Como acontece com a maioria das pessoas que se tornam autoras de quadrinhos, desde pequeno eu gostava de desenhar, tinha revistas por perto e adorava desenhos animados. Em 1986, aos 11 anos, desenhei minha primeira hq e não parei mais. No início dos anos 1990, lancei meus primeiros fanzines e, em 1996, minha primeira revista, a Solar. A partir daí, deixei o desenho um pouco de lado e me especializei no rotei-

Wellington Srbek satisfeito com o trabalho realizado na Nemo: “não poderia cometer o mesmo erro que outros cometeram ou cometem.” Acima, capa do álbum feito em parceria com Flavio Colin.

ro e edição de quadrinhos. Vieram então a série Caliban, as revistas e álbuns especiais, como Estórias Gerais e Fantasmagoriana, desenhados pelo saudoso mestre Colin. Paralelamente, comecei a escrever críticas e textos sobre quadrinhos para jornais e tv aqui, em Belo Horizonte. Em 1997, formei-me em História e, em seguida, produzi pesquisas de mestrado e doutorado em Educação sobre os quadrinhos como forma de arte e linguagem educativa. Trabalhei também com a produção de quadrinhos institucionais e cartilhas educativas, além de produzir álbuns e textos para editoras. Jornal da ABI – Alguns dos álbuns de Moebius têm muitas diferenças com relação aos publicados anteriormente no Brasil. O que aconteceu no processo de edição?

Wellington Srbek – Basicamente, o ponto de partida para os álbuns da Nemo são as edições francesas atuais publicadas pela Les Humanoïdes Associés. Embora na França elas não existam com o título Coleção Moebius, seguimos o formato, a qualidade de impressão e a organização dos volumes originais. Já em relação às edições brasileiras anteriores, os volumes da Nemo como O Homem é Bom? e A Garagem Hermética, por exemplo, têm novas traduções, novas introduções do autor, um formato maior, capa dura e impressão em papel de melhor qualidade. Sobretudo, nossa Coleção Moebius traz mais histórias que as edições anteriores, incluindo hqs jamais publicadas no Brasil, como a genial Arzach e os novos volumes lançados este ano: O Homem do Ciguri, Crônicas Metálicas e Caos.

Página do primeiro volume da saga Peter Pan, quadrinizada por Loisel (à esquerda) e dois trabalhos de Moebius que marcaram época nos anos 1970: A Garagem Hermética (acima) e Arzach.

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QUADRINHOS OS SONHOS DA PEQUENA NEMO

A atriz que vive com o Bispo no álbum Bolland Strips!, do desenhista inglês Brian Bolland.

Jornal da ABI – O Tenente Blueberry jamais teve uma atenção editorial digna do personagem no Brasil. O personagem de Jean Giraud está nos planos da editora? Wellington Srbek – Concordo que Blueberry é um quadrinho que merecia um melhor tratamento no Brasil. Mas, no momento, não está em nossos planos. Quem sabe, futuramente. Jornal da ABI – Alguns álbuns de luxo que a Nemo edita estão sendo impressos fora do Brasil. Essa opção é só econômica ou há outra razão? Wellington Srbek – Apenas alguns de nossos títulos foram impressos fora do País. Todos os volumes da Coleção Moebius, por exemplo, foram impressos no Brasil. O que foi impresso no exterior são os volumes da série Corto Maltese e os álbuns de Enki Bilal. Mas não por uma opção econômica, e sim porque a detentora dos direitos não libera a impressão desses álbuns para outros países. O mesmo caso com a série O Mundo de Edena, do Moebius: quem quiser editar tem que imprimir na China através da detentora dos direitos, que é a Casterman. Ou seja, não foi por uma opção econômica, e sim por uma questão contratual que imprimimos alguns álbuns na China. Mas, de fato, imprimir A Trilogia Nikopol lá nos possibilitou lançar um livrão de 184 páginas, em cores, capa dura e ótimo papel, por um preço bastante acessível. Assim, utilizamos a economia na impressão para reduzir o preço de venda final. Mas, no último ano, com a alta do dólar, imprimir na China não se tornou necessariamente mais barato. Então, o que é permitido imprimir no Brasil, nós imprimimos aqui mesmo, mantendo a qualidade das edições originais. Jornal da ABI – Você pode nos contar em poucas palavras como é o trabalho e quais são as dificuldades de licenciamento dos materiais estrangeiros? Wellington Srbek – Resumidamente, é entrar em contato com a editora que detenha os direitos sobre a obra, discutir as condições, assinar um contrato, pagar um adiantamento e receber o cd com os arquivos digitais. Mas nem tudo que eu gostaria de publicar está disponível. Infelizmente, temos uma situação no mercado brasileiro de uma editora que, por contrato de exclusividade com as editoras originais, detém os direitos sobre diversas obras, não as publica, mas impede que 40

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outras editoras as publiquem. Então, nem sempre é uma questão de querer publicar uma hq, mas muitas vezes de ela estar disponível para publicação no Brasil. Jornal da ABI – O nome “Nemo” nos remete a Júlio Verne e ao pequeno sonhador de Winsor McCay. Era essa a intenção? Por falar em Little Nemo in Slumberland, há planos de publicar álbuns com este personagem? Wellington Srbek – O nome Nemo remete antes de tudo a uma passagem da tradução de A Odisséia para o latim, na qual Ulisses engana o ciclope dizendo-lhe que seu nome é “Nemo”, que significa “ninguém”. É daí que o personagem Capitão Nemo tirou seu nome, para manter-se incógnito. Mas, sim, o nome da editora veio mesmo dessas referências literárias e quadrinísticas que você citou. E seria muito legal publicar algum álbum com páginas d e Little Nemo! Talvez, futuramente. Jornal da ABI – Os editores brasileiros normalmente acham muito arriscado lançar álbuns com essa qualidade com que a Nemo está trabalhando. Como tem sido a receptividade do público aos álbuns de luxo? Esses resultados estão dentro do esperado pela direção da Autêntica? Wellington Srbek – Antes de ser editor de quadrinhos, sou leitor de quadrinhos. E como leitor, não gosto quando me apresentam edições em papel de qualidade ruim ou que não respeitem as obras originais. Então, na condição de editor da Nemo eu não poderia cometer o mesmo erro que outros cometeram ou cometem. Acredito que o mercado brasileiro de quadrinhos está maduro o bastante para edições em formato álbum, e nossos leitores merecem material com a mesma apresentação gráfica que os leitores europeus recebem. Agora, totalmente independente de mim, o Grupo Autêntica tem uma história de busca pela qualidade gráfica, em belas edições de literatura e filosofia, por exemplo. Então, creio que os quadrinhos encontraram no Grupo uma cultura editorial que os está levando a sério e tratando com o devido cuidado e carinho. Quanto à receptividade, está sendo ótima! Os leitores estão gostando e elogiando muito nosso trabalho, e estamos junto com eles contribuindo para o retorno dos quadrinhos europeus ao mercado brasileiro, e também para o estabelecimento de um espaço reservado aos quadrinhos nas livrarias.

Uma viagem singela A Narradora das Neves faz uma imersão afetiva e social num dos ambientes mais inóspitos do planeta. P OR R ITA B RAGA

Um dos fundamentos da antropologia é manter o olhar ativo como um pêndulo entre o exótico e o familiar. Assim também, literatura e arte, de modo geral, têm suas raízes entre o subjetivo e o universal. Os quadrinhos de A Narradora das Neves – Uma Aventura no País Inuit (Nemo, 2013/ Dargaud, 2012) brinda o público com uma experiência mais do que agradável. Os autores, Béka e Marko – pseudônimos dos roteiristas franceses Bertrand Escaich e Marc Armspach – já foram premiados por outros trabalhos com o mesmo cunho de imersão cultural, e também lançaram recentemente O Apanhador de Nuvens – Uma Aventura no País Dogon (Nemo, 2013). Como mais um exemplo da complexidade desse universo tantas vezes subestimado por educadores e leitores, A Narradora das Neves pode desdobrar-se em inúmeras leituras que confrontam culturas em várias instâncias. No contexto brasileiro é possível que o primeiro estranhamento venha a partir do termo “Inuit”. Entre nós, no uso relativamente cotidiano ou mesmo no senso comum, ainda vigora a palavra “esquimó” para distinguir esse que é um dos povos aborígenes da região do Canadá, nas proximidades do Alasca. Além do cuidadoso desenho do francês Marko (pseudônimo de Marc Armspach) que já nos convida a uma viagem à parte, na qual as nuances e cores conduzem o olhar sensível pela paisagem, a narrativa em si é uma imersão em outro ethos, outra organização política, afetiva e social. Vale lembrar que a história se passa num dos ambientes mais inóspitos do planeta e ao ver como as personagens se resolvem a cada passo ou palavra o leitor tem alguns flashes de como a tecnologia, as regras sociais e até a percepção dos eventos mais triviais assumem singularidade. O enredo é simples e singelo. Após a experiência de ouvir um viajante que trazia as histórias de outros

clãs, a jovem Buniq desafia seu avô – o velho Unioq, que naquele momento se preparava para a morte – a acompanhála em uma última aventura; ela também quer ser uma contadora de histórias, mas para isso precisará provar que já pode ser responsável pela transmissão dos saberes, dos acontecimentos e símbolos que marcam essas comunidades tão distantes. Na leitura atenta descobrimos temas existenciais sob a perspectiva dentro daquele grupo: como nascer, como crescer, o que é se apaixonar e até o mistério de acreditar em algo ou de simplesmente reconhecer quais são os verdadeiros limites da vida naquele mundo de gelo. Se é preciso apurar o olhar para enxergar a diversidade de tons e texturas da neve, o livro de Béka e Marko também nos oferece um ponto pouco conhecido de referência cultural que nos orienta e localiza no mundo.


GIL PINHEIRO

TELEVISÃO

Equipe da Copa de 1990 da TV Manchete: Oscar Ulisses, Armando Marques, Halmalo Silva, Isabel Tanese, Osmar de Oliveira, Alberto Léo, João Saldanha, Adolpho Bloch, Paulo Stein, Osmar Santos, Falcão, Mylena Ciribelli, Marcio Guedes.

A ascensão, agonia e morte da TV Manchete No ano em que a Rede Manchete completaria 30 anos, personagens de sua história destacam a independência jornalística como um marco da emissora. P OR M ÁRIO M OREIRA

Liberdade. Para informar, criar, comentar, criticar. Trinta anos após a inauguração da Rede Manchete, liberdade é a palavra mais freqüente nos depoimentos dados ao Jornal da ABI por alguns personagens que ajudaram a fazer a história da emissora. História curta, tratando-se de uma rede de televisão: atolada em dívidas, deixou de existir apenas 16 anos depois de começar a operar, dando lugar à atual Rede TV!. Com o slogan “Televisão de Primeira Classe”, a Manchete se propunha explicitamente a ser uma alternativa para o público mais intelectualizado e de maior poder aquisitivo. Com esse objetivo, apostava em muita informação e em entretenimento de qualidade, com filmes, documentários, transmissões esportivas e programas de entrevistas. A partir do momento em que entrou no ar, às 19h do dia 5 de junho de 1983, com uma mensagem de seu proprietário, Adolpho Bloch, saudando as demais emissoras, a Manchete sempre enfatizou a cobertura jornalística como pilar principal. Não por acaso, passaram por suas bancadas alguns dos maiores mestres do ramo no Brasil. E o que sobressai nos depoimentos é justamente a liberdade de expressão, um dos mandamentos do bom jornalismo. Esse aspecto ganha ainda mais importância quando se considera o momento histórico que o Brasil atravessava no período em que a Manchete surgiu, cresceu e se consolidou. Quando ela foi ao ar pela primeira vez, o País ainda vivia sob

a ditadura militar; seis anos e meio depois, no final de 1989, realizava suas primeiras eleições livres para Presidente em quase 30 anos. Para não falar em outros episódios marcantes daquela década, como a Campanha das Diretas, em 1984, a eleição indireta e depois a morte de Tancredo Neves, em 1985, e o Plano Cruzado, no ano seguinte. Nos programas e noticiários da rede, caracterizados pela sobriedade, a presença de jornalistas do porte de Villas-Bôas Corrêa, Carlos Chagas e Murilo Mello Filho nos comentários e entrevistas contribuía para dar credibilidade à Manchete. Egresso da Globo – emissora que “abraçou com força total a candidatura Collor” contra as de Lula e Leonel Brizola e que “era uma panela de pressão”, como define hoje –, o jornalista e apresentador Eliakim Araújo atesta a diferença radical que ele e a mulher, Leila Cordeiro, sua companheira de bancada, encontraram ao chegar à nova casa, onde estrearam em agosto de 1989 para apresentar o Jornal da Manchete, o principal da rede: “Nenhuma pressão política, ao contrário, entrevistamos todos os candidatos na bancada do telejornal com liberdade total de formular as perguntas. Se a direção tinha preferência por algum candidato, isso jamais chegou ao nosso conhecimento”. Liberdade que contava a favor

“A troca de emissora se deu de maneira suave, sem traumas, e com muita vontade de fazer o que não podíamos nem pensar em fazer na outra emissora”, continua Eliakim.

A liberdade de opinião, porém, não se restringia ao jornalismo político. No esporte, outra área de destaque na programação da Manchete, a independência era total, garante Paulo Stein. Ele, que havia sido contratado como repórter antes da inauguração, foi em seguida efetivado como locutor e apresentador e assumiu a direção de esporte após a Olimpíada de Los Angeles, em 1984, coordenava os trabalhos em programas e transmissões que contavam, entre outros, com Márcio Guedes, Armando Marques e o temperamental João Saldanha. “Uma vez o próprio João falou no ar: ‘Aqui na Manchete o Adolpho Bloch nunca mandou falar isso ou aquilo!’. Essa liberdade contava muito a favor”, afirma Stein. Mas Saldanha não era a única fera que o narrador tinha sob seu comando. Também nas transmissões de Carnaval, ele coordenava um time de comentaristas cuja principal estrela era Fernando Pamplona, o legendário carnavalesco que revolucionou os desfiles de escolas de samba nos anos 1960 ao usar a temática negra em enredos do Salgueiro – e, assim como o João Sem Medo, dono de forte personalidade. “Meu jeito de tratar com o Pamplona e o Saldanha era de peito aberto. Eu dizia pra eles: ‘Se vocês não me respeitarem, a coisa vai pro caralho’”, conta Stein. “Eu fazia um sinal de tesoura com a mão quando precisava cortar a palavra dos comentaristas. E eles me respeitavam, porque sabiam que depois eu devolvia a palavra. Com o João eu às vezes tinha que dar uma cotovelada discreta”, diverte-se. “O nosso trabalho tinha liberdade absoluta”, confirma Pamplona. “Na abertu-

ra de todas as transmissões eu dizia que, assim como matéria assinada é responsabilidade de quem assina, nós respondíamos pelas opiniões que seriam dadas no ar. O Bloch dava total liberdade, nunca recebi nenhuma restrição ou orientação. Isso era muito importante. Nas transmissões da Globo é ela que define tudo, o cara não tem liberdade.” Pamplona também se recorda das tesouradas de Paulo Stein. “Falávamos quando queríamos. Nossa única restrição era quando o Paulo fazia um sinal com os dedos para entrar a publicidade ou o jornalismo.” Além dos dois, a cobertura das escolas de samba na Manchete incluía nomes como Albino Pinheiro, José Carlos Rêgo e Roberto Barreira, os mais assíduos, além de outros que tiveram participação eventual, como Haroldo Costa, Sérgio Cabral, a ex-carnavalesca Maria Augusta, Mestre Marçal e até João Saldanha. Segundo Paulo Stein, embora fossem todos grandes conhecedores das escolas de samba, cada um tinha sua especialidade: “O José Carlos Rêgo, por exemplo, sabia quem era cada componente da escola, sobrinho do compositor tal ou descendente da Tia Fulana. Já o Roberto Barreira via uma baiana a 50 metros de distância e logo identificava que a roupa era de organdi. Eu nem sabia o que era isso”. A cobertura de Carnaval da Manchete foi importante para a emissora não somente pela qualidade das transmissões. O primeiro ano em que ela cobriu os desfiles foi 1984, justamente na inauguração do Sambódromo do Rio. Segundo Paulo Stein, a Globo, que tradicionalmente cobria o evento, não concordou com o desdobramento do desfile em dois dias – até o ano anterior, era tudo de uma tacada só, começando no início da noite de domingo e terminando por volta do meio-dia de segunda-feira, numa maratona que só os aficcionados mais resistentes agüentavam. O então Governador Leonel Brizola, inimigo da Globo, decidiu oferecer a transmissão dos desfiles à Manchete. “Tive que criar um estúdio às pressas”, lembra o diretor artístico da emissora na época, Maurício Sherman. “Mas deu certo e, a partir dali, a rede ficou com a imagem ligada ao Carnaval.” Paulo Stein lembra que sua escolha para ancorar a transmissão dos desfiles foi feita por Sherman. “Ele argumentou que locutor de esporte é que tem improviso”, recorda. “Mas eu gostava mesmo, então fomos para a Avenida. Começamos transmitindo a primeira noite do Grupo de Acesso, na sexta-feira. Só saí às duas da tarde do dia seguinte. Aí o Adolpho me chamou, deu os parabéns e me ofereceu um colete para a minha mulher acompanhar o resto dos desfiles. A partir dali, ela sempre estava na cabine com a gente.” Não foi o único episódio curioso envolvendo o locutor e o patrão. Quando se preparava para ir ao Equador para um torneio sul-americano de futebol júnior (atual sub-20), primeira cobertura esportiva internacional da Manchete, Stein foi chamado à sala de Bloch. “Ele pediu, com

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TELEVISÃO A ASCENSÃO, AGONIA E MORTE DA TV MANCHETE DIVULGAÇÃO

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João Saldanha, Alberto Léo, Paulo Stein e Márcio Guedes participam da bancada do programa Toque de Bola. Roberto D'Ávila entrevista Woody Allen para o Conexão Internacional. Abaixo à esquerda, Gracindo Júnior e Maitê Proença em sua primeira participação na Rede Manchete na minissérie Marquesa de Santos. À direita, Cristiana Oliveira na novela Pantanal, que marcou época na tv brasileira. RICARDO ANDERAUS/FOLHAPRESS

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aquele sotaque: ‘Por favor, cuida bem dos equipamentos, não deixa colocarem as câmeras no chão... Você é o responsável’. Depois tirou do bolso 200 dólares e me deu: ‘É pra você comer uma puta’”, conta o narrador, dando risada. “Mas falei pra ele que não precisava.” 80 horas no ar

Também para Stein, a transmissão do Carnaval de 1984 foi fundamental na trajetória da Manchete, que ainda não completara um ano no ar: a emissora passou a ser mais conhecida em todo o Brasil. Segundo ele, para concorrer com os desfiles a Globo decidiu, em cima da hora, reprisar o especial de fim de ano de Roberto Carlos, mas não adiantou. “Ganhamos de 96 a 2.” Já Pamplona lembra de números um pouco menos acachapantes: “Às sete da manhã deu 77 a 7 para nós, aí o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o então todo-poderoso Vice-Presidente de Operações da Globo) me ligou dando os parabéns”, conta. “Na quarta-feira, recebemos cartas e mensagens de todo lado, desde presídios até convento de freiras, porque só nós ficávamos 80 horas direto 42

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no ar.” A cobertura ao vivo do Sambódromo durou praticamente sem interrupções até o Carnaval de 1998. Ainda no jornalismo, outro programa que marcou época na emissora foi o Conexão Internacional, apresentado por Roberto D´Ávila. Ao entrevistar personalidades da importância de Fidel Castro, Jorge Luís Borges, Woody Allen ou Marcello Mastroiani, entre mais de 70 nomes, ele ajudou a consolidar a imagem de qualidade que a direção da Manchete pretendia. O programa era produzido pela Intervídeo, uma associação de D´Ávila com Walter Salles e Fernando Barbosa Lima. A repercussão costumava ser grande, principalmente entre estudantes de classe média e os chamados formadores de opinião. “Houve apenas uma entrevista que eu não consegui colocar no ar: a do Presidente argentino Raúl Alfonsín. Ele estava tão desfocado, havia manifestações por toda a Argentina, ele caiu seis meses depois, que a entrevista não vingou. Ele não conseguia se concentrar”, lembra Roberto. D’Ávila ainda apresentou outros programas na Manchete, como Diálogo e Persona, também criações de Barbosa Lima. Sempre

com total liberdade na relação com a emissora, afirma. “Da parceria com a Intervídeo não temos nada para reclamar. Eles só viam o programa no ar, nunca houve nenhum tipo de censura ou algo assim.” Variedades

Para Maurício Sherman, porém, a ênfase no jornalismo e a excessiva preocupação com uma “televisão de primeira classe” constituíam um problema. Ele afirma que, ao assumir a direção artística da emissora, dois meses após a inauguração, convenceu Adolpho Bloch a adotar uma programação “normal, voltada para a audiência, pois sem audiência você não consegue nada”. “Essa coisa de classe A é ilusória, nunca funcionou. A classe A, artística e culturalmente falando, não existe no Brasil. É ínfima e não vê tv. Nos meus mais de 60 anos de televisão, nunca fui apresentado a ela.” Para Sherman, que atualmente assina a direção-geral do humorístico Zorra Total, da Globo, a linha que Adolpho Bloch buscava para sua rede “ia levá-lo à bancarrota”. “Consegui convencer o Adolpho a fazer uma televisão variada, com programas

infantis, filmes, humor e até novelas. Lancei a Xuxa como apresentadora (do Clube da Criança), fiz programa feminino à tarde, trouxe o Costinha e o Clodovil, lancei a Angélica (então com 11 anos) e uma programação jovem no fim da tarde”, relembra. E quanto ao Bar Academia? “Era um programa sofisticadíssimo, mas com os pés na música popular”, relembra, comentando a atração musical que estabelecia paralelos entre velhos mestres e grandes nomes da moderna mpb. Na teledramaturgia, o marco inaugural foi a minissérie Marquesa de Santos, com 40 capítulos, exibidos entre agosto e outubro de 1984. A protagonista era vivida por Maitê Proença, trazida da Globo. Ela contracenava com Gracindo Jr., que interpretava Dom Pedro I. Mas as dificuldades inicialmente eram grandes, conta Sherman. “A Manchete não tinha nem estúdios, só os de jornalismo. Tive que improvisar o estúdio de fotografia das revistas da casa como estúdio de novela. Também aluguei os da antiga Tupi, na Urca, que estavam abandonados, e fiz três séries lá.” De acordo com ele, a situação só melhorou quando Bloch decidiu


transformar um depósito de papel no subúrbio carioca de Água Grande em estúdio permanente para as novelas. Após o relativo sucesso de Marquesa de Santos, a Manchete investiu cada vez mais nessa área, com produções como Dona Beija (novamente protagonizada por Maitê Proença), Corpo Santo, Carmem, Kananga do Japão e o maior sucesso de todos, Pantanal, exibida em 1990. “Não sei como não fomos presos!”

Um certo improviso, porém, ainda era perceptível em 1987. “Durante as gravações de Corpo Santo, fomos a Los Angeles gravar cenas externas e havia uma burocracia danada para poder filmar. Mas a gente saía filmando sem nenhuma autorização. Não sei como não fomos presos! A gente fazia com tanta confiança que conseguia”, relata Maitê. A atriz afirma que não se lembra exatamente do motivo de ter trocado a Globo, onde já fizera alguns papéis importantes, pela Manchete. “O que deve ter me seduzido foi a história da Marquesa de Santos, o que é importante num País que não tem memória. E também o fato de que se abria um novo mercado para todo mundo, contra o monopólio da Globo.”

Segundo ela, as condições de trabalho no geral eram boas, embora os profissionais envolvidos ainda estivessem “tateando, aprendendo a fazer”. “A gente brincava dizendo que a Manchete era um restaurante ótimo com uma editora e uma emissora em cima”, diz, referindo-se à sede da empresa na Rua do Russel, na Glória. “Mas havia compensações, uma relação mais direta com os diretores e o empenho de todo mundo. Eu precisava de afetividade para deixar aflorar a minha sensibilidade, e ali era um ambiente mais amigo.” Maitê relembra detalhes da segunda passagem pela Manchete, na qual interpretou Dona Beija, papel que a consagrou definitivamente como uma estrela. “Quem me chamou foi o Herval Rossano (diretor), que tinha me tratado muito mal na Globo. Fui para lá perplexa, porque 70% da novela era em cima do meu personagem. Falei pro Herval: ‘Você não precisa gostar de mim, mas precisa me tratar bem, ou não vai dar.’ Ele prometeu isso e cumpriu, viramos grandes amigos. Só houve uma vez em que eu estava gravando fazia várias horas e ele me cobrou um atraso quando eu estava me maquiando. Fiquei irritada e joguei os textos em cima do Herval, mas ele fingiu que fazia parte

da marcação da cena. Aí chorei por horas e ele teve que me esperar.” Em relação às cenas em que aparecia nua – o que provocou alvoroço na época, pois era algo inédito em novelas –, a atriz conta que participava da edição. “A preocupação era que todas essas cenas fossem editadas com a minha presença. Eu autorizava aquela edição, e assim ia ao ar.” Para Maitê, Dona Beija foi um momento decisivo em sua carreira. “No meu caso, a novela representou que dava para eu ser atriz. Até então eu tinha dúvidas. Olhava o meu trabalho e não sabia por que não conseguia fazer o que eu queria e imaginava. No papel de Dona Beija, senti que comecei a acessar o lugar das minhas emoções pela primeira vez.” Hoje ela atribui essa virada na carreira ao ambiente que encontrou na Manchete. “Na Globo eu me defendia muito no processo. Era ignorante do meu ofício e de como agir nos corredores, não sabia direito quem cumprimentar. Olhava o resultado e achava deplorável o que eu estava fazendo. Na Manchete havia muita gente novata, aprendendo como eu, então era mais simples de começar a trabalhar meu universo mais sensível”, avalia. “Para

mim foi uma passagem inaugural. Só fiquei como atriz porque passei por lá.” O ápice da teledramaturgia da emissora, porém, só viria quatro anos depois, com Pantanal. A novela de Benedito Ruy Barbosa, uma trama de realismo mágico ambientada entre fazendas, campos, riachos e praias fluviais, tinha no elenco atores já rodados, como Cláudio Marzo, Jussara Freire e Antônio Petrin, e jovens como Cristiana Oliveira, Marcos Winter e Marcos Palmeira. A direção-geral ficou a cargo de Jayme Monjardim, que já ocupava a direção artística da rede e imprimiu à novela uma linguagem mais cinematográfica – o que foi considerado uma novidade –, com um ritmo mais lento na ação e longas tomadas aéreas do Pantanal Matogrossense. “A pessoa que mais incentivou o novo foi Adolpho Bloch, um homem com visão de futuro com muita vontade do inédito e das grandes mudanças. Pantanal tinha isso, ousadia, e era nova, diferente e principalmente emocionante, a base de uma boa novela. Mas acho que a Manchete conquistou pelo bom gosto, pela qualidade e pelo jornalismo com muito conteúdo”, avalia hoje Monjardim. Segundo ele, nessa época a estrutura de trabalho era “maravilhosa”. “Tive toda a li-

“Liberdade total para formular perguntas” Leila e eu deixamos a Globo em julho de 1989, um momento extremamente delicado da vida nacional, pois o País se preparava para escolher o primeiro Presidente pelo voto direto depois de período de escuridão iniciado em 1964. A Globo era uma panela de pressão, nem Lula nem Brizola poderiam ser eleitos. Brizola porque prometia fechar a emissora no primeiro dia de seu governo e Lula porque era a ameaça de transformar o Brasil em uma república sindicalista. Covas foi a opção da família Marinho por muito pouco tempo, pois logo logo ela abraçou com força total a candidatura Collor, jovem descendente da oligarquia alagoana e parceiro local no negócio de comunicação. No início daquele ano, a direção de jornalismo da Globo, leia-se Armando Nogueira, convocou ao seu gabinete cada um dos sete apresentadores de rede, individualmente, e a cada um recomendou que mantivesse em segredo absoluto o nome do candidato em quem votaria. “De preferência, nem a sua família deve saber em quem você vai votar”, dizia. Essa aparente neutralidade, entretanto, não combinava com a linha editorial dos telejornais da emissora. Quase diariamente, no noticiário e nos editoriais de O Globo, geralmente aos sábados, os apresentadores eram obrigados a ler notícias e editoriais totalmente parciais, sobretudo contra a administração Brizola no Es-

tado do Rio. O noticiário antibrizolista era tão massacrante que até hoje as pessoas menos amadurecidas acham que ele é o culpado de todas as mazelas da cidade. Enquanto isso, uma edição especial do Globo Repórter, acho que em abril, enaltecia as virtudes do “caçador de marajás”. Alguns apresentadores, incomodados com essa situação, agendaram uma reunião dos sete com o objetivo de discutir uma pauta de reivindicações que seria Leila Cordeiro e Eliakim Araújo em foto promocional quando foram apresentada à Direção de contratados para assumir a bancada do Jornal da Manchete. Jornalismo. A reunião foi em nossa casa e dela saiu um Na Manchete – onde estreamos em 21 documento em que, entre aumento de sade agosto – encontramos um clima baslários e melhores condições materiais de tante diferente. Nenhuma pressão polítrabalho, encaixamos um pedido para que tica, ao contrário, entrevistamos todos os os editoriais fossem lidos por algum reprecandidatos na bancada do telejornal com sentante da Direção, para que se mantivesliberdade total de formular as perguntas. se incólume a neutralidade dos apresentaSe a direção tinha preferência por algum dores, como queria a Direção. candidato, isso jamais chegou ao nosso Evidentemente, um questionamento conhecimento. desse tipo na Globo só poderia dar no que Por isso a troca de emissora se deu de deu: uma retaliação geral, com mudanças maneira suave, sem traumas, e com muinas bancadas dos telejornais. Toda essa ta vontade de fazer o que não podíamos pressão nos levou à sala do Boni, onde penem pensar em fazer na outra emissora. dimos diretamente a ele a rescisão de nosParticipei como representante da emissosos contratos. ra dos dois debates presidenciais, um na Assinamos a rescisão e entramos no Bandeirantes, em São Paulo, e outro no carro de seu Adolpho Bloch, um velho MerTeatro Manchete, no Rio, também com cedes de cor verde, que nos esperava na total liberdade de escolher as questões. Rua Lopes Quintas. DIVULGAÇÃO

E LIAKIM A RAÚJO (D EPOIMENTO A MÁRIO M OREIRA )

Certamente na Globo eu não teria essa chance, sobretudo por minha conhecida preferência brizolista, embora jamais deixei que isso interferisse em meu trabalho jornalístico. Na Manchete foram três anos e meio deliciosos, com Mauro Costa à frente do Jornalismo, e uma equipe onde poucas vezes encontrei tanta garra e vontade de fazer a melhor tv. Haja vista o trabalho que a emissora fazia nas transmissões do Carnaval. Até hoje encontro pessoas que sentem saudade da transmissão empolgante da Manchete em contraste com a transmissão gelada da concorrente. Muitas das idéias da Manchete foram copiadas pela Globo, como o Botequim do Samba. Hoje podemos afirmar que pegamos a época de ouro da Manchete. Na noite em que fomos apresentados à mídia, numa festa na sede do Automóvel Clube do Brasil, na Rua do Passeio, a emissora estava lançando sua primeira novela de grande impacto, Kananga do Japão. Depois dela, veio seu maior sucesso, Pantanal, que fez tremer os alicerces da Globo e elevou a Manchete a números fantásticos no Ibope, ajudando o Jornal da Manchete, que a antecedia, a conquistar audiências próximas de 20 pontos. Mas como tudo que é bom dura pouco, os Bloch, em dificuldades financeiras, acabaram transferindo o controle da emissora ao empresário paulista Hamilton Lucas de Oliveira. Para nós, foi o sinal de que era hora de partir. Em janeiro de 1993 já estávamos em São Paulo para assumir o comando do Jornal do SBT.

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TELEVISÃO A ASCENSÃO, AGONIA E MORTE DA TV MANCHETE

ELEIÇÃO

ANA CAROLINA FERNANDES/FOLHAPRESS

Maurício Sherman acredita que a Manchete foi uma tv vitoriosa, mas tinha uma reclamação: “Adolpho consumia muito a gente.”

berdade do mundo. Levamos Benedito Ruy Barbosa, vários atores, Alice-Maria no jornalismo e muitos artistas na linha de show. Foi um momento mágico em minha vida.” A crise

Para Paulo Stein, o que acabou derrubando a Manchete foram as dívidas. “Não posso afirmar com absoluta convicção. O que sei é que o Adolpho fez um empréstimo de US$ 200 milhões para pôr a emissora no ar e, com a maxidesvalorização do cruzeiro, a dívida aumentou muito.” A moeda brasileira foi desvalorizada em 30% em fevereiro de 1983, menos de quatro meses antes de a emissora entrar no ar. Mas os investimentos – oficialmente, foram US$ 52 milhões só na compra de equipamentos – já vinham sendo feitos desde que Adolpho Bloch recebeu do Governo Federal, em março de 1981, a concessão da extinta Rede Excelsior, em São Paulo, e de quatro canais da Tupi (no Rio, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza). “O Adolpho tinha mania de perfeição. As revistas da Bloch, por exemplo, tinham alta qualidade gráfica. Ele dizia que era pobre, não podia gastar duas vezes. Então, quando ganhou a concessão, comprou os melhores equipamentos da época, inclusive as câmeras japonesas Ikegami, muito superiores às da Sony, que eram usadas então. As câmeras tinham tripé com amortecedores a óleo, o que dava mais estabilidade para movimentá-las”, conta Stein. “Uma vez convidei o Walter Clark (diretor da Globo entre 1965 e 1977 e que foi o principal responsável por transformar a emissora na grande potência do setor), que era diretor do Flamengo na ocasião, para participar de um programa, e ele pediu para chegar uma hora mais cedo só para conhecer os equipamentos.” Em maio de 1992, devendo o que não tinha e pressionado pelo Governo Collor 44

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a pagar os empréstimos contraídos em bancos federais, Adolpho Bloch vendeu a Manchete para o Grupo IBF, de São Paulo, presidido pelo empresário Hamilton Lucas de Oliveira. A nova direção demitiu centenas de funcionários e transferiu a sede da emissora para a capital paulista. A crise, porém, continuava. Em outubro daquele ano, Paulo Stein foi escalado para ir a Zurique narrar um confronto entre Brasil e Suíça pela Copa Davis de tênis. “Me pediram para pagar as despesas com meu cartão de crédito, que depois me reembolsariam. Quando chegou a fatura e fui cobrar, quiseram me dar o calote. Tive que segurar o funcionário pelo colarinho para ele mandar vir o dinheiro.” Em meio a atrasos de salários, greves de funcionários, interrupções da transmissão e muitos boatos sobre o futuro da emissora, Adolpho Bloch conseguiu na Justiça recuperar o controle da Rede Manchete em abril de 1993, sob a alegação de que o IBF não honrara integralmente o pagamento. “Foi quando os funcionários decidiram tomar a Manchete. No dia seguinte, com o sindicato na porta, aquela confusão toda, o Adolpho subiu num murinho e prometeu a todo mundo pagar em 12 parcelas os nove meses de salários atrasados, junto com os salários normais. Ele cumpriu, mas a situação continuou se degradando”, relembra Stein. Após um período de relativo reerguimento, na segunda metade da década, no qual adotou uma linha de programação mais popular, a emissora entrou definitivamente em decadência e acabou vendida, em maio de 1999, ao empresário Amilcare Dallevo Jr. Maurício Sherman, que ficou apenas três anos na Manchete e nem chegou a vivenciar de perto o auge da emissora, acredita que saiu “na hora certa”. “Eu tenho um faro tremendo. Voltei para a Globo, onde não tinha que me ocupar dia e noite. O Adolpho consumia muito a gente.” Na sua avaliação, o que derrubou a Manchete foram mesmo problemas administrativos, e não artísticos. “Você percebe quando a emissora entra no velório”, diz. “Apesar de tudo, a Manchete foi uma estação vitoriosa.”

Schröder é reeleito na Fenaj com 2.524 votos Com 2.524 votos, o jornalista Celso Schröder foi reeleito Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj em pleito realizado nos dias 16 a 18 de julho e apurado no dia 22. A chapa de Schröder elegeu também os membros da Comissão Nacional de Ética: Sérgio Murilo de Andrade, Elizabeth Costa, Ângela Marinho, Beatriz Barbosa e Mário Messagi Jr. Participaram do processo eleitoral 4.365 jornalistas. A Chapa 2 “Luta Fenaj” obteve 1.393 votos. Foram registrados 80 votos nulos, 107 votos em branco e 261 votos nulos. De acordo com a Fenaj, não foram realizadas eleições em Mato Grosso e no Maranhão. A Comissão Eleitoral Nacional, embora tenha valorizado o esforço de realização da eleição na Bahia e em Rondônia, não computou o resultado nesses dois Estados. No primeiro caso porque os critérios para definição dos sócios aptos foi diferente do definido no Regimento Eleitoral da Fenaj; no segundo, porque a ata não foi enviada em tempo hábil. A posse da nova Diretoria ocorrerá durante o XIX Encontro Nacional de Jornalistas-Enjai, que será realizado no Rio de Janeiro, de 22 a 25 de agosto. Schröder, em nome da nova Diretoria, agradeceu o empenho da categoria para a realização do pleito: “Muito obrigado pelo apoio de milhares de jornalistas que participaram da mobilização para garantir esta eleição direta, que nos orgulha por ser a Fenaj a única, tanto entre as federações de trabalhadores brasileiros, como nas organizações de jornalistas em nível mundial, a radicalizar a democracia e submeter-se à decisão direta da base. O apoio da sociedade brasileira é fundamental para que nestes momentos importantes e desafiadores à nossa jovem e custosa democracia se defenda a atividade jornalística como um patrimônio que não só custou vidas e liberdade de diversos jornalistas, mas também o sacrifício de centenas de brasileiros.”

gipe, a eleição foi com chapa única. Em Sergipe haverá nova eleição nos próximos dias, pois na votação ocorrida no dia 18 de julho o número de votantes foi insuficiente para alcançar o quórum estatutário do Sindicato em caso de eleição com chapa única, 50% mais um. No Rio de Janeiro

Para o Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro a disputa contou com quatro chapas. A Chapa 2, “Sindicato É Pra Lutar – Oposição de Verdade”, foi a vencedora da eleição com 143 votos dos 429 contabilizados. A Chapa 1, ficou com 95 votos; a 4 com 94 e a Chapa 3, obteve 90 votos. A chapa vencedora, encabeçada por Paula Mairán, vai comandar a entidade no triênio 2013-2016. A eleição aconteceu entre os dias 16 e 18 de julho, junto com o pleito da Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj. A apuração foi encerrada na madrugada de sexta-feira, 19 de julho. Os integrantes da futura diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio, que assume em agosto, são estes: Presidente: Paula Mairán; Vice-Presidente: Randolpho de Souza; Secretário-Geral: Cláudia de Abreu; 1º Tesoureiro: Camila Marins; 2º Tesoureiro: Amélia Sabino; Conselho Fiscal: Daniel Fonsêca, Cecília de Moraes, Fran Ribeiro; Delegados na Fenaj: Gizele Martins e Vivian Virissimo; Suplentes: Regina Quintanilha, Raquel Júnia, José Olyntho Contente Neto, Samuel Tosta, André Vieira; Comissão de Ética: Sylvia Moretzson, 169 votos; Alberto Jacob, 150 votos; Alvaro Britto, 116 votos; Iara Cruz, 116 votos, Dante Gastaldoni, 114 votos. Foi esta a votação no Sindicato do Rio: Chapa 1, Linha Direta Com Os Jornalistas, 95 votos; Chapa 2, Sindicato É Pra Lutar, Oposição de Verdade, 143 votos; Chapa 3, Sindicato De Todos Para Todos, 90 votos; Chapa 4, Democracia e Transparência, 94 votos; nulo, 1; em branco, 6; total, 429 votos.

Nos sindicatos

Simultaneamente à eleição da Fenaj, sete sindicatos de jornalistas realizaram o pleito também para suas direções entre os dias 16 e 18 de julho. Em três deles houve disputas envolvendo mais de uma chapa. A eleição para o Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco teve a Chapa 1, “Avançar Com Mobilização”, como vencedora, com 224 votos contra 15 votos da Chapa 2, “Você Sabe Porquê”. No Ceará a Chapa 1, “Jornalistas Unidos, Sindicato Forte!”, venceu as eleições por 197 votos. A Chapa 2, “Jornalistas: O Sindicato Merece Mais”, obteve 160 votos. Nos Sindicatos dos Jornalistas de Goiás, Bahia, Rio Grande do Sul e Ser-

Eleição da Fenaj no Rio

Chapa 1, Sou Jornalista, Sou Fenaj!, 143 votos; Chapa 2, Luta, Fenaj!, 184 votos; nulos, 31; em branco, 34; total, 392 votos. Eleição da Comissão Nacional de Ética no Rio

Beth Costa, 171 votos; José Alves Pinheiro Júnior, 162 votos; Bia Barbosa, 107 votos; Sérgio Murilo Andrade, 92 votos; Helena Palmquist, 73 votos; Romário Schettino, 72 votos; Francisco Canindé, 67 votos; Ângela Maria Marinho Pereira, 66 votos; Luiz de Azevedo Compiani Júnior, 52 votos; Mário Messagi Júnior, 43 votos.


VIDAS UNITED STATES LIBRARY OF CONGRESS

Gerald Ford e Barack Obama (abaixo): Helen Thomas era íntima do poder.

Helen Thomas, a ‘fera’ da Casa Branca Por quase cinco décadas ela ocupou a primeira fila de entrevistadores dos Presidentes norte-americanos. Nada menos que dez deles enfrentaram suas perguntas desafiadoras. P OR P AULO C HICO

A longevidade, o pioneirismo e a ‘língua afiada’ fizeram dela uma ‘lenda’ entre os jornalistas da capital dos Estados Unidos. Helen Thomas teria alcançado um estatuto mítico no jornalismo políti-

OFFICIAL WHITE HOUSE PHOTO BY PETE SOUZA

Poucas pessoas tiveram tanto acesso à Casa Branca quanto ela. A jornalista Helen Thomas, que cobriu o centro do poder dos Estados Unidos por quase cinco décadas, morreu aos 92 anos, em seu apartamento em Washington, no dia 20 de julho. A veterana ficou conhecida por sempre ocupar a primeira fila em coletivas de imprensa e fazer perguntas afiadas aos Presidentes norte-americanos. Ao longo de 49 anos de atividades, desenvolveu a habilidade de fazer questionamentos contundentes aos dez titulares que por lá passaram – de John F. Kennedy, que se tornou chefe da nação em 1961, a Barack Obama. Quando do aniversário de 89 anos da jornalista, comemorado em 2009 (foto à esquerda), o atual Presidente até ofereceu a ela cupcakes – numa referência ao gesto de seu colega de Partido Democrata Bill Clinton, que lhe ofereceu um bolo em 1997. Obama lamentou a morte de Helen, a quem chamou de ‘verdadeira pioneira’, que quebrou barreiras ‘para gerações de mulheres no jornalismo’. “Ela nunca deixou de deixar presidentes, incluindo eu

mesmo, sob pressão”, afirmou Barack, elogiando a jornalista por sua crença de que a democracia funciona melhor quando as perguntas mais difíceis são feitas. Suas perguntas sempre afiadas e seu tom duro a tornaram uma personalidade não só no pequeno mundo dos jornalistas políticos, mas também para a audiência das redes de televisão dos Estados Unidos. Entre Kennedy – o primeiro – e Obama, cobriu os Governos de Lyndon Johnson; Richard Nixon; Gerald Ford; Jimmy Carter; Ronald Reagan, George Bush, Bill Clinton e George W. Bush. Helen Thomas, que trabalhou por 57 anos para a United Press International, não escondia sua opinião de que George W. Bush foi o pior Presidente da História dos Estados Unidos. Não por acaso, ele ficou três anos sem responder à jornalista, que, numa pergunta, o acusara de mentir sobre as reais causas que levaram o país a entrar na Guerra do Afeganistão. Em 2009, Helen evocou George, ao questionar Obama: “Quando você vai sair do Afeganistão? Por que continuamos matando e morrendo lá? Qual é sua desculpa realmente, e não fale esse ‘bushimo’ de ‘se nós não formos lá, eles virão para cá’”, disparou.

co norte-americano, não fosse o episódio que a afastou definitivamente da profissão, em 2010, com quase 90 anos: a divulgação de comentários anti-semitas, numa conversa filmada por um rabino e documentarista que estava de visita à Casa Branca. Ela surgia a dizer que os judeus ‘deviam pôr-se a andar da Palestina’ e ‘ir para um lugar a que pertençam, como a Alemanha, os Estados Unidos ou a Polônia’. Helen é filha de dois imigrantes libaneses. A jornalista pediu desculpas por suas afirmações e disse que aquelas palavras não expressavam sua crença de que a paz no Oriente Médio só viria quando todos os envolvidos tivessem respeito e tolerância entre si. Não resistiu à controvérsia, que acabou por ditar a sua aposentadoria. Helen nasceu no dia 4 de agosto de 1920, em Winchester, Kentucky, e foi criada em Detroit. Era uma entre os dez filhos de George e Mary Thomas. Seu pai era analfabeto e incentivou todos os filhos a estudarem e irem para a universidade. Foi o que ela fez. Depois de sair da faculdade, tornou-se garçonete, mas não durou, segundo ela, “porque não sorria o bastante”. Logo depois, começou a trabalhar no The Washington Daily News. Durante sua carreira, escreveu diversos livros, principalmente sobre a cobertura dos mandatos presidenciais – criticando, inclusive, a postura da imprensa, após os atentados de 11 de Setembro de 2001, de ser muito leniente com os Presidentes em relação a suas supostas ações contra o terrorismo. Ela sempre foi declaradamente contra a guerra no Iraque. Em uma entrevista ao New York Times, em 2006, questionada sobre a diferença entre uma pergunta afiada e uma mal-educada, ela simplesmente disse: “Eu não acho que existam perguntas mal-educadas”. Helen, que completaria 93 anos em 4 de agosto, morreu em seu apartamento, após prolongada doença.

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MONICA IMBUZEIRO/AGÊNCIA O GLOBO

VIDAS

O DISCÍPULO DE GONZAGÃO QUE SE TORNOU UM GÊNIO DA SANFONA “Foi ele que me deu a estrutura toda para eu vê-lo tocar e aprender sobre o instrumento”, reconhecia o menino de Garanhuns que o Rei do Baião protegeu.

P OR C ELSO S ABADIN

“Minha mãe olhou para os quatro cantos. Não tinha nada na panela. Ela pegou os filhos e levou todos pra feira, pra gente tocar. E o pessoal começou a jogar moedinha. Ela foi minha primeira empresária”. Assim, saudosamente sorridente, que Dominguinhos conta ao jornalista Tárik de Souza, em entrevista no Canal Brasil, como foi seu “início de carreira”. José Domingos de Morais nasceu na cidade de Garanhuns, Pernambuco, em 12 de fevereiro de 1941. A origem era das mais humildes, mas o berço era musical. Seu pai, Mestre Chicão, era conhecido sanfoneiro da região, além de afinador de sanfona para outros tocadores. Aos seis anos, Dominguinhos já se virava bem no seu pequeno acordeom de oito baixos. Junto com seus irmãos, Morais e Valdomiro, apresentava-se em feiras, festas e em portas de hotéis. Foi exatamente na porta de um desses hotéis de Garanhuns (o Tavares Correia, que existe até hoje) que alguém chamou os meninos, dizendo que eles deveriam tocar para uma pessoa muito importante que lá estava hospedada. E lá foram os garotos, mais o pai, fazer uma rápida apresentação para ninguém menos que Luís Gonzaga, o próprio Rei do Baião, em carne, osso e chapéu de couro. “Eu nem o conhecia”, confessou depois Dominguinhos. Mas o fato é que Gonzagão se encantou com o grupo musical, e 46

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deu para Mestre Chicão uma quantia em dinheiro e um endereço para que eles fossem encontrá-lo, assim que possível, no Rio de Janeiro. Parece cena de filme? Havia mais. Na saída do hotel, na mesma hora, no mesmo dia, uma senhora chamada Almerinda, que havia presenciado o pequeno show, perguntou a Mestre Chicão se os meninos estavam estudando. Não estavam. E ela, dona da Escola Prática Comercial de Olinda, arrumou todos os preparativos para transferir a família para Recife, onde os garotos poderiam ter uma educação formal. E tocar, é claro. Almerinda financiou quatro anos de estudos para os irmãos, ao mesmo tempo em que empresariava pequenos shows para os garotos. De calças pretas, jalecos brancos e gravatinhas borboletas, lá foram os irmãos Morais, lançados ao estrelato com o nome de Os Três Pingüins. Porém, a tal da “educação formal” prometida não era exatamente o que se esperava. Pelos mais diversos motivos, os irmãos invariavelmente apanhavam na escola. Diz Dominguinhos que Morais pulou o muro do internato e denunciou os maus tratos a um tal Dr. Arnaldo, figurão local. O caso virou sindicância, o que evidentemente enfureceu Almerinda. E os pequenos “pingüins”, expulsos da escola, voltaram a Garanhuns, na mesma penúria com que saíram. Era hora então de pegar o velho endereço dado por Luís Gonzaga, quatro anos antes, e tentar a sorte no Rio de Janeiro.

Morais foi na frente, em 1953, e arrumou emprego numa tinturaria. Dominguinhos, que ainda não tinha este apelido, foi um ano depois, de pau-de-arara, numa viagem que durou 11 dias. E conseguiu também trabalho na mesma tinturaria do irmão. O pai também foi. Quando a família localizou a casa de Luís Gonzaga, que morava em Nilópolis, o Rei do Baião reconheceu a todos imediatamente. “Ele nem mandou a gente entrar, nem falou nada. Já foi logo colocando uma sanfona de 80 baixos no pescoço do pai, de presente”, recorda Dominguinhos, que passou a acompanhar Gonzagão como sanfoneiro de seus shows. “Eu não saía mais da casa de Luís Gonzaga”, conta Dominguinhos no programa Ensaio, da TV Cultura. “Lá eu comia bem, bebia, e ainda ficava o dia inteiro vendo o Mestre ensaiando e tocando. Foi ele quem me deu toda a estrutura para eu sobreviver tocando baião”, afirma. Certo dia, durante uma entrevista para a revista Radiolândia, Gonzagão apresentou Dominguinhos ao repórter como sendo seu “herdeiro artístico”. A matéria saiu com duas páginas de destaque para o menino, que desta forma estreava em grande estilo também na mídia especializada. Faltava, porém, mudar o apelido do rapaz, a quem todos chamavam de “Neném” ou “Neném do Acordeom”. Luís Gonzaga, sempre ele, achava que “Neném” era coisa de criança, e o “rebatizou” como Dominguinhos, não apenas por causa do sobrenome Domingos, como também para homenage-

ar Domingos Ambrósio, que fora mestre de sanfona de Gonzaga, no tempo em que ele serviu o Exército, em Juiz de Fora. Tocando em shows de Gonzaga e aos poucos se enturmando no meio artístico carioca, Dominguinhos conheceu Pedro Sertanejo, que, assim como seu pai, também era afinador de sanfonas (e que mais tarde viria a ser conhecido ainda como “pai de Osvaldinho”). Apaixonado por música, Pedro monta em São Paulo uma pequena gravadora, a Cantagalo, e convida Dominguinhos para gravar seu primeiro disco: Fim de Festa, em 1964. O primeiro grande sucesso veio em 1967, com Lamento de Sertanejo (“Por ser de lá, do sertão, lá do cerrado. Lá do interior do mato, da caatinga do roçado....”), composição do próprio Neném... ou melhor, Dominguinhos. “Enquanto o selo era Cantagalo, era tudo uma maravilha”, diz Dominguinhos em entrevista ao Canal Brasil. “Mas depois que venderam a gravadora para a CBS, estragaram tudo. Os discos vendiam muito e eu, que não sou de briga, nunca vi um vintém. Nunca pagaram nada!”, diz, sem deixar de sorrir. Também em 1967 conheceu Lucinete Ferreira (cantora de forró que usava o nome artístico de Anastácia), com quem se casa e faz uma pareceria musical de 11 anos de sucessos. Entre eles, Só Quero um Xodó, canção quase “instantânea” na qual Anastácia cria a letra em poucos minutos, a partir de uma melodia que Dominguinhos assobiava na rua.


Luiz Paulo Horta, jornalista e músico Amante das letras e da música clássica, Horta preparava a festa dos seus 70 anos, mas o coração pregou-lhe uma peça. DIVULGAÇÃO/ACERVO DA ABL/ANDRÉA MORAES

Mesmo vários anos após o término da relação, Dominguinhos sempre se manteve eternamente grato a Anastácia, com quem compôs dezenas de canções, “muitas das quais só tocavam no Nordeste”, afirma. Dominguinhos conta que a parceria nasceu por acaso, num hotel em Aracaju, durante uma turnê que fazia com Gonzagão. À noite, distraído na porta do hotel, Dominguinhos dedilhou em sua sanfona uma melodia qualquer. Anastácia, que de longe ouvia o dedilhado, aparece de repente com um pedaço de papel dizendo que havia escrito uma letra que cabia naquela música. Surge o sucesso Mundo de Amor (“Eu de repente vi surgir no meu caminho amor tão lindo assim e cheio de carinho”) e Dominguinhos, sem querer, descobre que também é compositor. E passa a se apresentar em shows e forrós também como sanfoneiro de Anastácia. Porém, ainda nos anos 1960, “a sanfona cai em desgraça, ninguém mais quer tocar”, conta o próprio Dominguinhos. Associado pela classe média à imagem da pobreza nordestina, o instrumento sai de moda, principalmente depois que a Jovem Guarda e o iê-iê-iê passam a utilizar o órgão. “Nem Luís Gonzaga mais sabia se queria continuar tocando sanfona”, diz Dominguinhos. Morais, o irmão mais velho, começa a se dedicar ao piano, mas Neném insiste: “Minha mão já está acostumada. Não vou agora aprender tudo de novo em outro instrumento”. A teimosia valeu a pena, principalmente quando, no início dos anos 1970, ele ganha mais dois outros padrinhos importantes: cai nas graças de Caetano Veloso e Gilberto Gil, que voltavam do exílio europeu dispostos a mexer nas estruturas da música brasileira. O Tropicalismo incorpora a sanfona de Dominguinhos e muda completamente a imagem do instrumento, até então rotulado pelas elites como “coisa de baiano”. Ou de “paraíba”, se a elite fosse carioca. Neste sentido, tocar no show de Gal Costa foi um divisor de águas para o músico, que se torna parceiro de Gil e vê sua carreira decolar novamente. A contribuição musical de Dominguinhos é bem maior do que as pessoas em geral imaginam. Foi arranjador e exímio tocador de choros, frevos, sambas, tangos e até Bossa Nova. Gravou mais de 50 discos e compôs em parcerias que muitos sequer imaginam, como Rita Lee (Anjo Forasteiro) e Chico Buarque (Tantas Palavras). Ganhou inúmeros prêmios nacionais e internacionais do setor musical e aventurou-se até no cinema, onde foi “mestre de cerimônias” do ótimo documentário O Milagre de Santa Luzia (que mapeou os diversos estilos de se tocar sanfona pelo Brasil). Ainda compôs a trilha sonora e participou como ator na refilmagem de O Cangaceiro. A sanfona se calou no dia 23 de julho no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, quando Dominguinhos perdeu uma luta de seis anos contra um câncer de pulmão.

P OR I GOR W ALTZ

Uma vida dedicada a três paixões: a música clássica, a religião e o jornalismo. É o que se pode dizer em poucas palavras sobre a obra deixada pelo intelectual Luiz Paulo Horta. Ocupante da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras desde 2008, Horta foi autor de obras sobre música clássica e teologia e dedicou mais de cinco décadas à carreira na imprensa. Horta nasceu no Rio de Janeiro em 14 de agosto de 1943, chegou a estudar Direito, mas abandonou o curso e, no início dos anos 1960, começou a colaborar com o Correio da Manhã. Em 1964, passou ao Jornal do Brasil, onde trabalhou por 26 anos. No início dos anos 1990 trabalhou no jornal O Globo, onde por mais de duas décadas foi editorialista e crítico de música clássica. Em seus artigos, refletia com erudição e clareza sobre política, artes e religião. Prestes a completar 70 anos, no dia 14 de agosto, organizava a festa de seu aniversário, mas o coração cortou seus planos. Ele se dedicava à produção de um livro sobre a transição promovida na Igreja por Francisco, em quem via uma rara figura pública a inspirar “esperança, numa época em que as lideranças decepcionam”. Sua obra mais recente, A Bíblia: Um Diário de Leitura, foi lançada em 2011 pela Editora Zahar, como resultado de mais de dez anos de pesquisas e debates em um grupo de estudos que mantinha na própria casa. Também liderou um grupo de estudos bíblicos no Centro Loyola da Puc-Rio, entre 2000 e 2001, e foi membro da Comissão Cultural da Arquidiocese do Rio. Como crítico musical, era generoso nos elogios e construtivo nas críticas, num claro reflexo do seu temperamento sereno e amistoso. Acompanhava a vida musical do Rio desde a década de 1960, quando começou a escrever críticas para o Jornal do Brasil. A música brasileira, sobretudo a de Villa-Lobos, era sua grande paixão. Sobre ele, escreveu artigos e o livro Villa-Lobos: Uma Introdução (Zahar), de 1987. De 1985 a 1990, dirigiu a seção de música do Museu de Arte Moderna do Rio e trouxe ao Brasil personalidades como o compositor alemão Karlheinz Stockhausen. Antes disso, já havia publicado, em 1983, Caderno de Música

(Zahar), uma coleção de suas crônicas musicais, e, em 1984, “Dicionário de Música Zahar”, adaptação brasileira do Dicionário Hamlyn inglês. Seu empenho em apresentar a música clássica como uma arte prazerosa e acessível era notório. Detestava a expressão “música erudita”, que considerava pedante e nociva. Preferia “música de concerto” ou, simplesmente, “música clássica”. Em suas críticas, antes de abordar qualidades ou defeitos das performances, costumava gastar alguns parágrafos comentando as obras e compartilhando com os leitores os sentimentos que elas proporcionam. Em 1994, Horta se tornou membro titular da Academia Brasileira de Música.

Luiz Paulo Horta foi o 150º acadêmico ligado à imprensa, reforçando a posição do jornalismo como a profissão com mais representantes na história da casa. E o primeiro a ter uma relação estreita com o universo da música. No discurso de posse da cadeira 23, que tem como patrono José de Alencar e foi ocupada antes por Jorge Amado e Zélia Gattai, descreveu a ABL como “lugar de congraçamento, de amor às letras, de dedicação à nacionalidade através da língua”. O corpo de Luiz Paulo Horta foi velado na sede da ABL no dia 3 de agosto e sepultado no mausoléu da instituição no Cemitério São João Batista. Ele era casado com a jornalista Ana Cristina Reis e deixa três filhos e seis netos. JORNAL DA ABI 392 • AGOSTO DE 2013

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