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Fellini, o cineasta que só queria desenhar PÁGINA 42

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Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

J ULHO 2012

Centenários Nelson Rodrigues e Jorge Amado: dois dos mais lidos e celebrados autores brasileiros completam 100 anos e recebem variadas homenagens pela densa obra que produziram com sua criação fecunda. PÁGINAS 34 E 39

DIREITOS HUMANOS

A infame tortura sobrevive nas delegacias e penitenciárias PÁGINA 21

LANÇAMENTOS

Uma antologia de Audálio e a ficção de Zuenir Ventura PÁGINAS 27 E 28

VEÍCULOS

A trajetória de resistência de 15 anos de Caros Amigos PÁGINA 16

HERZOG: FARSA IMPUNE

Por temer os remanescentes da ditadura militar, o Governo coonesta a farsa do laudo da morte do jornalista. PÁGINA 3 E EDITORIAL NA PÁGINA 2

VIDAS CARDEAL DOM EUGÊNIO SALES • MANECO DO JB


EDITORIAL

DESTAQUES

A SURPRESA DO CAPITULACIONISMO MAURÍCIO AZÊDO EMBORA NÃO ALIMENTASSEM dúvidas a respeito, em face da tibieza que o Governo demonstrou na questão desde a gestão presidencial anterior, a ponto de manter à frente do Ministério da Defesa uma personalidade preocupada em fazer o jogo dos remanescentes dos bastiões da antiga direita militar, o ex-Ministro do Supremo Tribunal Federal Nélson Jobim, os setores democráticos da vida nacional receberam com surpresa e justificada indignação a decisão do Governo Dilma Rousseff, formalizada através do Ministério das Relações Exteriores, de coonestar a versão da ditadura de que o jornalista Vladimir Herzog se enforcou na prisão do Doi-Codi de São Paulo, quando se apresentou para prestar o que pensava ser um depoimento sem riscos, ainda que se vivesse então o terrorismo da repressão. A VERSÃO APRESENTADA para o trágico fim de Herzog mostrou-se carente de qualquer fundamento já nos dias que se seguiram à brutalidade de que ele foi vítima, por absoluta inconsistência da grosseira farsa logo montada e apresentada publicamente pelo Comando do II Exército. No próprio sepultamento de Vlado, como ele era carinhosamente chamado pelos amigos, o rabino Henry Sobel pôs por terra a pantomima dos militares, ao decidir, como líder religioso, que o infortunado jornalista seria sepultado no espaço comum do campo

santo israelita, e não junto aos seus muros, como se impõe àqueles judeus que põem termo à vida. A decisão de Sobel, de extrema coragem naqueles momentos de arbítrio desenfreado, constituiu um libelo de acusação do nefando crime de que Herzog fora vítima. A ALEGAÇÃO DO GOVERNO, exposta pelo Itamarati em palavroso documento, desvia o foco da questão de seu ponto central, que nada tem a ver com a decisão do Supremo Tribunal Federal de conceder perdão aos torturadores e demais criminosos do regime militar, sob o fundamento de que a Lei da Anistia assim estabeleceu, como sustentou em infeliz parecer e voto o então Ministro Eros Grau. O atestado de óbito de Herzog é um documento fraudulento, forjado pelas autoridades militares com a cumplicidade de um de seus capachos, o médico legista Harry Shibata, que descreveu a causa mortis, como confessou recentemente, sem examinar o corpo que lhe foi apresentado. O GOVERNO FEDERAL TEM a indeclinável obrigação política e ética de determinar a apuração da causa real da morte de Herzog, sob pena de acumpliciar-se com a farsa que há 37 anos, a se completarem em 25 de outubro próximo, constitui uma nódoa na nossa História e pode marcar para a posteridade a imagem dos atuais dirigentes do País.

CARTAZ DISTRIBUÍDO DURANTE A REVOLUÇÃO DE 1932, QUE COMPLETA 80 ANOS PÁGINA 30

03 ESPECIAL - Medo da verdade ○

09 MEMÓRIA - Trinta anos sem Gláuber, Santo Guerreiro, por Rodolfo Konder ○

13 I MPRENSA - Os desafios do Jornalismo no mundo sem fronteiras ○

14 B ALANÇO - A Rio+20 aqueceu as Redações ○

16 V EÍCULOS - Caros Amigos: 15 anos de resistência na informação ○

18 TRAJETÓRIAS - “Eu comecei assim” ○

27 LANÇAMENTO - Uma antologia de Audálio ○

28 LITERATURA - Moral de confessionário ○

30 H ISTÓRIA - A imprensa foi à guerra em 1932 ○

TRILOGIA NIKOPOL, DE ENKI BILAL. PÁGINA 32

32 QUADRINHOS - O passado e o futuro mais que perfeito ○

O OLHAR DE D ÁLCIO

Publicado no portal Correio Popular, em 19 de julho.

34 C ENTENÁRIO - Amado para sempre ○

39 CENTENÁRIO - Nelson Rodrigues, o homem sem pecado ○

42 CINEMA - Simplesmente felliniano ○

SEÇÕES 08 C ARTAS DOS L EITOR ES ○

100 A CONTECEU NA ABI Uma noite de gala em homenagem aos 100 anos de Osny Duarte Pereira ○

21 D IREITOS H UMANOS A tortura sobrevive ○

26 L IBERDADE DE I MPRENSA Juíza do Espirito Santo atropela a Constituição e impõe censura prévia ○

O Brasil é o quinto em mortes de jornalistas ○

V IDAS 46 Dom Eugênio de Araújo Sales ○

47 Maneco, uma segurança para o JB ○

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ESPECIAL MUNIR AHMED

Nas comemorações dos 75 anos do nascimento do jornalista Vladimir Herzog, a negativa do Governo brasileiro em reabrir as investigações sobre sua morte coloca em dúvida a eficácia dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. P OR M ARCOS S TEFANO

sábado, 25 de outubro de 1975, é um dia para ficar marcado na memória brasileira. Na véspera, agentes do II Exército haviam convocado o jornalista Vladimir Herzog, então Diretor de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo, a prestar depoimento sobre suas atividades políticas. Vlado acordou mais cedo, fez a barba, tomou banho e se despediu da esposa, Clarice, com um beijo, e se dirigiu espontaneamente às dependências do Doi-Codi. Mais tarde, seria oficialmente dado como encontrado enforcado com o cinto de sua própria roupa, numa das celas do órgão de repressão. A versão de suicídio começou a ser questionada imediatamente e logo se mostraria infundada. Testemunhas e impossibilidades denunciavam que se tratava de uma farsa montada pelos militares para encobrir

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o que realmente tinha acontecido: um homicídio. Herzog, na realidade, morrera após ser barbaramente torturado. O caso não somente gerou uma onda de protestos no Brasil e no exterior, como também impulsionou fortemente o movimento pelo fim da ditadura. Passadas quase três décadas do término do regime, Vlado continua vivo como símbolo de luta pela liberdade e pela justiça. As comemorações pelos 75 anos de seu nascimento, realizadas de maio a julho, evidenciam a importância de sua figura. Resta saber se terá força suficiente para impulsionar a recém-formada Comissão Nacional da Verdade e levar o País à plena democracia, caminho que passa necessariamente por dar uma resposta a tantos casos de mortos e desaparecidos na ditadura que ainda permanecem sem solução. JORNAL DA ABI 380 • JULHO DE 2012

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ESPECIAL MEDO DA VERDADE

s dúvidas se tornaram ainda maiores depois que o Brasil foi denunciado, em março, na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados AmericanosOEA precisamente por não apurar as circunstâncias da morte de Herzog, processar e punir os responsáveis. Esgotadas todas as medidas legais em território nacional para se obter justiça, o caso foi levado ao organismo internacional por entidades de defesa dos direitos humanos, como o Centro pela Justiça e o Direito Internacional-Cejil, a Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos-FIDDH, o Grupo Tortura Nunca Mais e o Instituto Vladimir Herzog. Como resposta, o Itamaraty produziu um documento de 47 páginas, no qual diz ser impossível reabrir o processo para apurar responsabilidades legais. O motivo alegado é a vigência da Lei da Anistia de 1979, que beneficiou também os agentes do Estado acusados de violar os direitos humanos com torturas e execuções sumárias. Na época, o engenheiro Ivo Herzog, filho de Vlado e Diretor Executivo do Instituto Vladimir Herzog, considerou a resposta brasileira “inaceitável” e “afrontosa”. Não pelas ditas impossibilidades legais de reabrir o processo, mas por ter arrolado em defesa do Estado o apoio dado às atividades do próprio Instituto: “Medidas compensatórias dadas às famílias, tais como indenizações financeiras, divulgação de relatos do ponto de vista das vítimas e reconhecimento das mortes não são o bastante. No caso do meu pai, queremos um pedido oficial de desculpas e o reconhecimento, em novo atestado de óbito, de que ele não se suicidou. Há 37 anos esperamos por isso e a cada dia que passa o Estado confirma sua cumplicidade no crime e na mentira. O volume de fatos desmentindo o suicídio é tão grande que o atual atestado de óbito, que o Governo incluiu entre os documentos de sua defesa, é uma ofensa à inteligência dos brasileiros.” Um inquérito militar instaurado ainda em 1975 reforçou a tese de que Vlado se matou. Depois disso, porém, as muitas evidências de execução já levaram a Justiça a ordenar a reabertura do caso em duas oportunidades, ao reconhecimento do crime pela União e pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. Só que, até agora, nada foi investigado para se determinar quem foram os agentes culpados pela morte, seus nomes e cargos. Também o depoimento de testemunhas, investigações independentes e reportagens publicadas por diversos veículos jogam por terra a tese do suicídio. Uma das mais recentes saiu na Folha de S. Paulo em fevereiro. O jornal localizou em Los Angeles, Estados Unidos, o fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, autor da foto de Herzog no Doi-Codi. Então aluno da Academia da Polícia Civil de São Paulo, ele contou ter sido convocado pelo Departamento de Ordem Política e Soci-

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O Jornal da Tarde do dia 27 de outubro de 1975 dava a notícia da morte de Herzog em página inteira, com chamada na primeira página.

al-Dops para ir às instalações do Exército. Lá chegando, encontrou a cena do suicídio já pronta. Numa das celas, o corpo do jornalista pendia de uma tira de pano atada a uma grade da janela. As pernas estavam arqueadas e os pés, no chão. Próximo ao corpo, papel picado de um depoimento que ele fora forçado a assinar se espalhava pelo chão, ao lado de uma carteira escolar. No Brasil de meados dos anos 1970, “suicídios” nos porões da repressão eram rotineiros. Apenas dois meses antes do caso Herzog, o tenente reformado da PM paulista e militante comunista José Ferreira de Almeida, o Piracaia, também teria se enforcado no Doi-Codi amarrando o cinto do macacão à grade da cela. Meses depois, seria a vez do metalúrgico Manoel Fiel Filho. Para se matar, Vladimir Herzog teria usado a cinta do macacão que usava. Mas os macacões do Doi-Codi não tinham cinta. Para fazer a foto, Vieira não teve liberdade. Só foi autorizado a ir até à porta da cela, de onde fez a foto. Ao sair, não pôde levar nada. A máquina e o filme ficaram com os militares. A foto mostrava que o jornalista “se enforcou” amarrando a cinta com um nó na primeira barra da janela, a 1,63 metro de altura. A imagem divulgada na época, no entanto, fora cortada. A versão original, dos arquivos do Serviço Nacional de Informações-SNI, mostra uma barra superior da janela, que Herzog deveria ter usado caso quisesse mesmo se matar. Bastaria subir na carteira escolar e se projetar no vão livre. “Ainda carrego um triste sentimento de ter sido usado para montar essas mentiras. Tudo foi manipulado”, disse Silvaldo Vieira em entrevista à Folha.

DO CEMITÉRIO AOS ESCULACHOS

O laudo do Instituto Médico Legal afirmou que a causa mortis de Vlado foi “asfixia mecânica por enforcamento”. Assim, de acordo com as tradições judaicas, o corpo de um suicida deveria ser enterrado na periferia do cemitério. Não foi o que aconteceu. O sepultamento ocorreu com liturgia clássica e foi realizado no centro do Cemitério Israelita do Butantã. A decisão do Rabino Henry Sobel foi considerada um desafio ao regime militar. Na semana seguinte à morte de Herzog, São Paulo continuava em convulsão. Cerca de 30 mil estudantes da Universidade de São Paulo, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Fundação Getúlio Vargas entraram em greve. Na sexta-feira, 31 de outubro de 1975, milhares de pessoas foram à Catedral da Sé participar de um culto ecumênico celebrado pelo Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, pelo Reverendo Jaime Wright e pelo Rabino Sobel. Ruas que davam acesso ao Centro foram fechadas por barreiras policiais. Policais a cavalo ou com seus cachorros tomaram a praça. Ainda assim, as pessoas iam. Mesmo a pé e evitando aglomerações, chegavam. No final, lotaram o templo e ocuparam as escadarias da Sé. Foi a maior manifestação contra a ditadura depois do AI-5. Era somente o começo. Mortes como as de Herzog e de Fiel Filho expuseram o controle e a bagunça dos porões. A linha dura, que não aceitava a distensão “lenta, gradual e segura” do Presidente Ernesto Geisel, resistia e dizia que o Brasil ainda estava ameaçado pelo comunismo. Mas manifestações passaram a ser

cada vez mais freqüentes e contribuíram para que Geisel e o Ministro Golbery do Couto e Silva vencessem a queda de braço contra o General Ednardo D’Avila Mello, Comandante do II Exército em São Paulo, e contra o Ministro do Exército Sílvio Frota. Em 1979, João Batista Figueiredo, da linha mais “moderada”, chegava ao poder. “Todos esses movimentos confirmam que o assassinato do Vlado se tornou um divisor de águas na ditadura. Tratava-se de um personagem que foi acusado de ser espião da KGB, o serviço secreto da União Soviética, mas que nada tinha com isso. Era politizado, mas não estava envolvido com nenhum grupo radical ou com a luta armada. A foto produzida durante a simulação do suicídio tornou-se uma bandeira icônica, que até hoje é usada nas manifestações de jovens, como os esculachos que vimos recentemente. Eles são os legítimos herdeiros das gerações que foram às ruas contra os milicos nos anos 1960, 1970 e 1980”, analisa o jornalista e pesquisador Vladimir Sacchetta. Na semana em que se lembraram os 48 anos do golpe militar de 1964, a juventude saiu às ruas e organizou manifestações em diversas cidades brasileiras. Muito comuns em países como Argentina e Chile, onde são conhecidas como “escrachos” e denunciam a participação de agentes dos regimes autoritários em perseguições, torturas e assassinatos, por aqui, as manifestações ganharam o apelido de “esculachos”. Criatividade e irreverência deram o tom em todos os lugares. Em Porto Alegre, a moçada realizou apresentações teatrais no Parque da Redenção, representando cenas de torturas. Em São Paulo, desfilaram num bloco carnavalesco, o Cordão da Mentira, protestando contra o golpe e apoiando a Comissão da Verdade. A concentração foi na Rua Tutóia, em frente à sede da antiga Operação Bandeirantes (Oban). No Rio de Janeiro, grupos de esquerda reuniram pelo menos 300 pessoas e bloquearam a entrada principal do Clube Militar, no Centro da cidade. Com palavras de ordem que falavam em “tortura” e “assassinatos”, eles tiraram do sério os militares da reserva que ali comemoravam o aniversário do golpe. Faixas e cartazes declaravam que “Ditadura não é revolução” e perguntavam “Onde estão nossos mortos e desaparecidos do Araguaia?”. Houve confronto com a tropa de choque da Polícia Militar, que usou bombas de efeito moral e spray de pimenta para dispersar a multidão. Antes, porém, os manifestantes jogaram tinta vermelha na escadaria principal do Clube para representar “o sangue derramado durante a ditadura” e projetaram a icônica e chocante foto da farsa do suicídio de Vladimir Herzog numa das paredes externas da instituição.

SUPERPRODUÇÃO

Jornalista e militante, mas também um apaixonado pelas artes, principalmente teatro, fotografia e cinema. Vlado Herzog, o homem que começou a as-


sinar “Vladimir” por considerar seu primeiro nome exótico nos trópicos, nasceu no dia 27 de junho de 1937, em Osijek, na Croácia, quando o país fazia parte da Iugoslávia. Formado em Filosofia pela Usp, trabalhou em órgãos de imprensa como o jornal O Estado de S. Paulo e a BBC. Antes de assumir a direção do Departamento de Telejornalismo da TV Cultura, já na década de 1970, tornou-se professor na Escola de Comunicação e Artes-Eca da Usp. As homenagens aos 75 anos de seu nascimento refletiram toda essa diversidade de interesses e trabalhos. “Além de celebrar o que representa a vida de Vladimir Herzog no cenário político brasileiro, procuramos realizar atividades culturais e gratuitas que pudessem contribuir para a discussão sobre a importância da memória para um povo, um assunto tão importante neste momento em que a Comissão da Verdade é instaurada no Brasil. O tempo, na realidade, passa, mas as violações são perpetuadas”, explica Ivo Herzog, lembrando que as diferentes linguagens escolhidas para serem trabalhadas nos últimos três meses na capital paulista, de filmes a concerto, passando por exposição e debates, levaram mensagens em favor da democracia, liberdade, direitos do cidadão, justiça social e fim da violência como pano de fundo. A programação teve início no fim de maio, com a Mostra de Cinema Memória e Transformação, exibida na Cinemateca e no CineSesc. Ao todo foram apresentados 49 documentários produzidos a partir de 1950 até à atualidade sobre o cenário político e social latino-americano, especialmente obras que tratam das lutas de resistência às ditaduras, governos totalitários e outras formas de opressão contra o povo, grupos étnicos e minorias. Destaque para o curta Marimbás (1963), o único documentário dirigido pelo próprio Herzog; Tire Diré (1960), do documentarista argentino Fernando Birri, parceiro e mestre do jornalista brasileiro; O Edifício dos Chilenos (2010), de Macarena Aguiró; e Vlado, 30 Anos Depois (2005), de João Batista de Andrade. Finalizando a mostra, esteve no País o documentarista chileno Patricio Guzmán, que ministrou um curso para estudantes de cinema de 4 a 7 de julho. No encerramento, dia 8, ele também ministrou uma aula magna na Cinemateca e apresentou ao público seu filme Nostalgia da Luz (2010), seguido de acalorado debate. Paralela à mostra, ainda aconteceu na Cinemateca a exposição Os Cartazes da Resistência, que contou com 96 materiais gráficos e visuais, de cartazes e folhetos a imagens de faixas e pichações, que enfrentaram a ditadura militar brasileira, produzidos aqui e no exílio. Com curadoria de Vladimir Sacchetta, as peças para a exposição foram selecionadas de um acervo de mais de 1.400 imagens do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro-Asmob, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Centro de Documentação e Pesquisa Científica-Cedic da Puc-SP e Centro Pastoral Vergueiro-CPV.

Foram expostos cartazes de vários países da América Latina e que estarão reunidos no livro Os Cartazes desta História. Entre os nacionais, podem ser identificados vários “artistas-militantes” que colaboraram em sua produção: Nani (ao centro), Claudius (direita) e Oscar Niemeyer (abaixo).

RESISTIR É PRECISO, AINDA A exposição de cartazes e materiais gráficos realizada pelo Instituto Vladimir Herzog na comemoração dos 75 anos de nascimento do jornalista não foi uma atividade isolada. Ela faz parte de um projeto maior, o Resistir é Preciso, que resgata o embate das mídias alternativas, clandestinas e no exílio contra a ditadura, desde o golpe de 1964 até a anistia. O primeiro produto lançado foi a coleção Os Protagonistas Desta História, formada por 12 dvds com os depoimentos de 60 jornalistas, como Raimundo Rodrigues Pereira, um dos idealizadores dos jornais Opinião e Movimento; Omar de Barros Filho, o Matico, que junto com Marcos Faerman produziu o jornal Versus; os desenhistas Laerte, com importante participação na imprensa sindical, e Ziraldo, uma das colunas do Pasquim; e Ana Arruda Callado, Editora de O Sol, celebrizado nas bancas de revista pela música de Caetano Veloso. O seguinte foi o livro Capas desta História, com capas marcantes dessas publicações. Agora, em outubro, mês no qual é lembrada a morte de Vlado, os cartazes devem virar livro. Com o título provisório Os Cartazes desta História, a obra reunirá uma seleção de 400 peças, entre pôsteres, panfletos e imagens, escolhidos a partir do acervo de mais de mil trabalhos do Arquivo Histórico do Movimento Operá-

rio Brasileiro-Asmob. Retirado do Brasil e levado para Milão, numa espetacular ação de resistência à ditadura, voltou ao País em 1994 e agora está sob a guarda do Centro de Documentação e Memória-Cedem, da Unesp, em São Paulo. A ele se somam outras peças garimpadas no Arquivo Público do Estado de São Paulo, no Centro de Documentação e Pesquisa Científica da Puc-SP e no Centro Pastoral Vergueiro-CPV. “São belas e criativas obras impressas no Brasil e em diversos países por artistas-militantes, na maioria anônimos e trabalhando em condições precárias e clandestinas. Formam um elaborado painel e apontam para modelos e referências estéticas que vão do realismo socialista, tão cultuado pelos soviéticos e chineses, ao tropical pop cubano”, explica Vladimir Sacchetta, que realizou as pesquisas ao lado de Juliana Sartori e Luis Alberto Zimbarg. O lançamento do livro não deve ser a única novidade do projeto para os próximos meses. As entrevistas feitas com jornalistas e militantes e que serviram de base para a coleção Os Protagonistas Desta História agora devem dar origem a uma série de documentários sobre a imprensa alternativa e clandestina, no Brasil e no exílio. Serão pelo menos dez documentários e já há um acordo para a exibição na TV Cultura e na Rede Bra-

sil. O projeto está bem adiantado por conta das muitas horas de entrevistas já feitas, mas ainda faltam recursos, que precisam ser captados. A previsão é de que no primeiro semestre do ano que vem os programas estejam prontos para a televisão.

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ESPECIAL MEDO DA VERDADE

Parte do movimento Resistir é Preciso, essas imagens devem tornar-se livro a ser lançado em outubro desse ano . Outra atração que chamou atenção foi a cantata O Diáriode Anne Frank, produção musical erudita apresentada pela primeira vez nas Américas, durante três dias, no Auditório do Ibirapuera. De autoria de Leopoldo Gamberini e Otto Frank, pai de Anne, e regida pelo Maestro brasileiro Martinho Lutero, a cantata também foi apresentada pela primeira vez em sua versão integral, com orquestra sinfônica, coral de 110 vozes, bailarina, solista e diversos recursos audiovisuais, trazendo ao público uma superprodução sobre a história da menina que foi vítima do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Um debate de alto nível sobre resgate da memória e justiça marcou o encerramento das homenagens. No dia 28 de junho, o Itaú Cultural reuniu Amérigo Incalcaterra, representante regional do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos na América do Sul; Tito Milgram, curador do Museu Yad Vashem, de Jerusalém, Israel, e Marco Antonio Rodrigues, presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos (Ministério da Justiça), para compartilhar experiências dos países latino-americanos, sobre o Holocausto e de movimentos que exigiram maior transparência, seus sucessos e fracassos em tempos recentes no Brasil. Chamado de Direito à Verdade e à Memória, o seminário teve mediação do Professor Sérgio Adorno, Diretor do Núcleo de Estudos da Violência da Usp. “Toda a programação teve como alvo recordar o passado para construir o futuro. Precisamos promover a educação em direitos humanos no Brasil. As violações hoje são de outra natureza, mas continuam acontecendo. Não basta consolar, lutamos por atitudes que tragam justiça”, afirma o jornalista Vladimir Sacchetta, numa clara indicação de que, diante de tantos desafios que envolvem o começo dos trabalhos da Comissão da Verdade, o Brasil precisa mudar algumas posições.

CONCILIAÇÃO, NÃO!

No fim do mês de junho, Ivo Herzog ficou muito contrafeito e irritado. Não tanto pela negativa do Itamarati em reabrir as investigações sobre a morte de seu pai, decisão que, de certa forma, já era esperada, mas pelos argumentos usados pelo Governo brasileiro, que citou até o Instituto Vladimir Herzog para dizer que já está fazendo o que pode em relação ao assunto. O clima azedou de vez depois que o Arquivo Nacional liberou o acesso ao público de mais de 5 mil fotos tiradas por agentes da repressão, várias delas inéditas até então. Nove retratos mostram o corpo de Vlado, antes e depois da necropsia. Para agravar, foi divulgado que a Presidente Dilma Rousseff se recusou a receber o Presidente da Confederação Brasileira de Futebol-CBF, José Maria Marin. Segundo o jornalista Juca Kfouri, o motivo seria o cartola ter 6

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discursado a favor da prisão de Herzog 16 dias antes da morte do jornalista. Em entrevista ao Jornal da ABI, Ivo Herzog garantiu que essas arestas já foram aparadas e os problemas superados numa reunião que teve com a Ministra Maria do Rosário. Apesar da posição oficial do Itamarati, existe um clamor também das autoridades pelo esclarecimento do caso. Porém, um confronto direto no momento em que a Comissão Nacional da Verdade está em processo de instalação pode ser muito negativo para todos os casos de mortos e desaparecidos políticos. Outra certeza de que as coisas não ficarão dessa maneira vem do passado mais recente. Não é a primeira vez que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA se reúne para julgar uma negativa do Estado brasileiro. Em 1995, o mesmo Centro pela Justiça e Direito Internacional-Cejil acionou a Comissão em relação à responsabilidade do Poder Público no massacre dos guerrilheiros do Araguaia. Nessa região do Sul do Pará, 80 militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) mantiveram, entre 1972 e 1976, uma luta armada para derrubar a ditadura e criar o embrião de um regime socialista. Ao descobrir a movimentação, o Exército despachou para lá 4 mil homens armados. Menos de dez militantes sobreviveram. Porque foram presos no início da ação, quando os militares precisavam interrogá-los para obter mais informações, ou porque escaparam ao cerco, poucos morreram em combate. A maioria, segundo relatos de moradores e ex-militares, teria sido presa, torturada e executada sumariamente. Esgotadas todas as medidas legais para se obter justiça no Brasil, a única saída era a Comissão da OEA. No processo de investigação, o Ministério das Relações Exteriores entrou com oito pedidos de arquivamento, também alegando, como agora, que a Lei de Anistia perdoara tanto os agentes da repressão quanto os insurgentes. Só em 2009 a Comissão decidiu que a razão estava ao lado das famílias dos mortos no Araguaia e fez reiterados pedidos para que o Governo brasileiro prestasse contas. O Brasil se limitou a pedir prazos e mais prazos. No ano seguinte, o assunto foi parar na última instância da entidade para o caso de graves violações de direitos humanos: a Corte Interamericana. Antes do julgamento, as pressões foram enormes e vindas de todos os lados. O Supremo Tribunal Federal derrubou uma ação de inconstitucionalidade impetrada pela Ordem dos Advogados do Brasil contra a Lei da Anistia, decisão que transformava torturadores e criminosos em intocáveis. Depois, duas semanas antes de a sentença ser proferida, o Brasil fez uma doação de 400 mil dólares ao organismo, deixando no ar a impressão de que esperava pela “boa vontade” dos magistrados. De um jeito ou de outro, em maio de 2010, a Corte finalmente se reuniu em

São José da Costa Rica. Durante dias, o tribunal ouviu relatos de testemunhas, representantes das vítimas e histórias de tentativas de buscas. Em defesa do Governo falaram o embaixador do Brasil no país, representantes da Advocacia-Geral da União e um surpreendente advogado do Ministério da Defesa. Em relação à polêmica Lei da Anistia, os juízes da Corte tiveram um único entendimento: beneficiar os dois lados foi uma manobra esperta dos militares brasileiros para impedir, no futuro, o eventual julgamento de seus crimes. “O Brasil gosta de dar um ‘jeitinho’ em tudo. Só que a Corte não conhece esse mecanismo para burlar uma convenção que considera imprescritíveis os crimes de grave violação dos direitos humanos, convenção da qual os brasileiros são signatários”, declarou um dos juízes. A sentença saiu em dezembro do mesmo ano. Por decisão unânime, o Estado brasileiro foi condenado. Dentre os 20 pontos elencados nela, destaca-se o primeiro: as disposições da Lei de Anistia que impedem a investigação das violações dos direitos humanos são incompatíveis com a convenção da OEA e não podem continuar como obstáculo para a investigação não apenas das mortes no Araguaia, mas também de todos os outros casos de tortura e desaparecimento. Assim, determinou que uma investigação penal dos fatos fosse conduzida eficazmente e os responsáveis, punidos. A própria Corte ficou de supervisionar o cumprimento dessas determinações. A expectativa das entidades de defesa dos direitos humanos para o caso Herzog é de nova vitória. E de mais força para impulsionar ações concretas, já que até agora a sentença, como alertou ainda durante o julgamento o advogado do Ministério da Defesa, parece inexequível. Embora a OEA não tenha poderes para impor sanções ao Brasil, o desrespeito ao tribunal pode enfraquecer diversas de suas reivindicações internacionais, como a de conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Criar a Comissão da Verdade foi uma resposta bem concreta. Mas como já alertou a Corte da OEA a iniciativa não substitui a obrigação de levar a julgamento os agentes envolvidos com tortura e assassinatos.

SEQÜESTRO DE BEBÊS

A Justiça sobre o passado é sempre sensível aos interesses do presente, não há dúvida. Mas quanto mais as ditaduras ficam para trás, mais chances aparecem de julgá-las com isenção. Quem dá o exemplo nesse caso é a Argentina. Na quinta-feira, 5 de julho de 2012, o exditador Jorge Rafael Videla foi condenado a 50 anos de prisão pelo seqüestro de bebês durante o regime militar no país (1976 – 1983). A Justiça argentina entendeu o rapto como parte de um plano sistemático de subtração, retenção, ocultação e substituição da identidade de crianças pelas forças de repressão. Segundo cálculos das Avós da Praça de

Maio, mais de 500 crianças teriam sido roubadas de suas famílias biológicas na tentativa de desestabilizar os grupos de oposição e resistência. Além de seqüestrar, a ditadura argentina tirava de suas mães as crianças nascidas em centros de detenção militares e as entregavam a outras famílias. Sentado na primeira fila do tribunal, Videla escutou a sentença sem esboçar reação. A ela se soma outra, de prisão perpétua, por crimes contra a humanidade. Além dele, desta vez a lista ainda conta com outros nomes: outro ex-ditador, Reynaldo Bignone, foi sentenciado a 15 anos de prisão; o Almirante reformado Antonio Vañek, a 40 anos; o ex-Capitão-de-Fragata Jorge Eduardo Acosta, a 30; o ex-General Omar Riveros, a 20. Foi uma clara demonstração de que crimes não são legais nem em regimes de exceção, que normalmente sequer aceitam a denúncia da existência de tortura e desaparecidos políticos em seus porões. Se é assim, para que anistia? Claro, cada nação tem a sua dinâmica e sua relação interna de forças políticas. Mas um relatório da Anistia Internacional, divulgado há dois anos, mostrou que de 40 Comissões da Verdade já instaladas em todo o mundo, entre 1974 e 2010, a grande maioria rejeitou as leis de anistia concedidas a agentes criminosos do Estado. De todas essas, apenas cinco pouparam os soldados da repressão. Na Argentina mesmo, a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas surgiu ainda em 1983, após a derrocada da ditadura, a qual acusou o antigo regime pela morte e desaparecimento de 30 mil pessoas e levou mais de mil agentes a julgamento. No ano de 1985, teve início no Uruguai a Comissão de Investigação sobre a Situação de Pessoas Desaparecidas e suas Causas, que coletou e enviou à Justiça do país informações sobre 64 agentes públicos acusados de crimes. Após pressões dos militares, o Governo local fez o Congresso aprovar uma lei de anistia. Nem isso impediu que o ex-Presidente Juan Maria Bordaberry fosse condenado, em 2006, a 30 anos de prisão por ataques a opositores. Por problemas de saúde, ele cumpriu prisão domiciliar até morrer, em 2011. No Chile, a ditadura de Augusto Pinochet durou de 1973 a 1990. Nesse período, mais de 40 mil pessoas foram torturadas e 4 mil, mortas. Pinochet foi preso em outubro de 1998, em Londres, a pedido da Justiça da Espanha, que o processava por crimes contra cidadãos espanhóis. Foi extraditado depois para o Chile, mas acabou condenado por desvio de dinheiros públicos. Todos aqueles que foram apontados como torturadores e assassinos também foram processados. O Peru criou sua Comissão da Verdade em 2001, com poderes para processar e enviar para a Corte documentos que comprovassem violações. O ex-Presidente Alberto Fujimori foi condenado a seu pedido. Em 2003, foi a vez do Paraguai. Sua Comissão encaminhou à Justiça os documentos que per-


FOTOS ARQUIVO NACIONAL

mitiram vários processos. Em 2007, o mesmo aconteceu no Equador. A Comissão Nacional da Verdade aprovada no Brasil poderá investigar, solicitar documentos e convocar pessoas para depor, mesmo agentes públicos dos tempos da repressão. Apurar, com certeza. Julgar, não. Essa foi a exigência dos comandantes militares para aprovála. Também para não se restringir ao regime militar, o período de investigação foi ampliado, de 1946 a 1988. Trabalho que deverá ser concluído em dois anos. Apesar dessas limitações há esperança de que aqui se repita o que já houve em todos os países sul-americanos e a apuração dos crimes não substitua as ações judiciais. Uma das primeiras opções da Comissão brasileira, o sigilo dos depoimentos de agentes militares que também não aceitem divulgar suas identidades, igualmente não é problema.

PELAS LENTES DA REPRESSÃO

“A questão é delicada. Tudo bem, dentro de uma estratégia jurídica, essas pessoas não serem expostas no momento do depoimento. O que não pode acontecer é esses depoimentos serem mantidos em sigilo ao final das investigações”, cobra Ivo Herzog. Na opinião dele, nem questões jurídicas podem impedir a apuração de casos como o da morte de seu pai. Para tanto, cita uma ordem judicial datada de 1978 e nunca cumprida ou contestada. O autor é o Juiz Márcio Moraes e o pedido é de reabertura das investigações. Com ela em mãos e com o caso pautado na OEA e na Comissão Nacional da Verdade, o que ainda falta é vontade política. Mesmo os militares precisam saber diferenciar suas ideologias dos abusos e crimes de tortura e desaparecimento, que não podem prescrever. Nos Estados Unidos, um estudo da Universidade de Minnessota descobriu que julgamentos e Comissões da Verdade trazem maior respeito à vida e à integridade física do povo. Mas no Brasil, esse trabalho é fundamental para consolidar uma democracia efetiva, real.

O Arquivo Nacional liberou o acesso ao público de 5 mil fotografias tiradas por agentes da ditadura militar. No acervo, há fotos de centenas de presos acusados de subversão ao sistema, inúmeras delas inéditas. Muitos dos fotografados foram obrigados a posar em roupas íntimas ou totalmente nus. As fotos eram do extinto Serviço Nacional de Informações-SNI e estavam na Agência Brasileira de Informação-Abin até 2005, quando foram transferidas para o Arquivo Nacional. Puderam ser divulgadas somente agora, com a edição da Lei de Acesso à Informação. Entre as imagens, há muitas da Guerrilha do Araguaia. Um dos fotografados é Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, no momento da prisão pelos militares. Ele foi um dos primeiros a chegar ao local, para organizar o movimento.

Outra é Maria Lúcia Petit da Silva. Seis fotos a mostram já morta, envolta em um pára-quedas na mata. As lentes da ditadura ainda registraram acampamentos militares e fizeram mapas detalhados da região. Outras nove fotos são do corpo do jornalista Vladimir Herzog, antes e depois da necropsia. Fotografado nu, de frente e de costas, seu pescoço apresenta uma nódoa escura. O Arquivo Nacional também disponibilizou imagens da campanha pela anistia, de 1979. Elas mostram eventos religiosos com o Bispo Dom Hélder Câmara e manifestações, como uma realizada no Rio de Janeiro, em que, à distância, foram fotografados o cantor Milton Nascimento, os atores Sérgio Britto, Osmar Prado e Carlos Vereza e as atrizes Bete Mendes, Renata Sorrah e Lucélia Santos.

Agentes do SNI fotografaram o ato de defesa da Lei da Anistia no Rio, em agosto de 1979. Entre as personalidades marcadas com caneta nas fotos estão os atores Antônio Pedro e Osmar Prado (acima à esquerda), Sérgio Britto (ao lado), Lucélia Santos (abaixo à esquerda) e o cantor e compositor Milton Nascimento (abaixo).

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AMEAÇA

CARTAS DOS LEITORES ESCREVA PARA O JORNAL DA ABI Rua Araújo Porto Alegre, 71 - 7° andar. Rio de Janeiro, RJ. Cep 20.030-012 | E-mail: abi.presidencia@gmail.com

Tortura Nunca Mais do Rio sofre invasão

SURPRESA

PINHEIRO • Caro Ucha, Um toque sobre a edição de maio do Jornal da ABI, que, aliás, está muito bom, como sempre. No gordo currículo do Pinheiro Júnior faltou O Jornal, órgão líder dos Diários Associados, por ele editado antes do arrendamento ao Estado de Minas, que acabou fechando suas portas. Lembro que na ocasião o citado Amado Ribeiro era repórter de Polícia. (a) Benito Alemparte.

IVAN LESSA • Oi, Ucha Recebi cópia do Jornal da ABI com a matéria do Ivan. Ficou ótima, muito obrigado! Aliás, a revista como um todo tem matérias muito boas. Parabéns pela qualidade editorial. (a) Cláudio Kahns.

Jornal da ABI ÓRGÃO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha presidencia@abi.org.br / franciscoucha@gmail.com

Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Edição de textos: Maurício Azêdo

Depois de telefonema ameaçador, atacantes da sede da entidade furtaram dinheiro e documentos.

ABSURDO • Oi, Paulo Chico Que absurdo a resposta do Governo pra OEA, afinal não se investigam crimes de homicídio no Brasil? (a) Silvaldo Leung.

DITA BRAVA • Prezado Konder, Agradeço a gentileza pelo envio da edição de junho do Jornal da ABI, que, entre outras pérolas, traz belíssima homenagem a Ivan Lessa e faz o filme de volta ao tempo da dita brava para resgatar as músicas que a censura proibiu e, por outro viés, remete àquele período de chumbo para o artigo Somos nossa memória, em que você nos oferece o testemunhal de sua própria experiência. Abraço (a) Daniel Pereira, Diretor de Comunicação - União Brasileira de Escritores.

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O Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, que há 27 anos vem lutando pela memória, verdade e justiça do período de terrorismo de Estado que se implantou no País de 1964 a 1985, em menos de dez dias sofreu com a violência das forças retrógradas e saudosistas da ditadura civil-militar, que insistem em continuar com seus atos de intimidação. No dia 12 de julho, a sede do Grupo recebeu um telefonema ameaçador: “Vamos voltar, isto aqui vai acabar”. No dia 19, quando chegou para trabalhar, a secretária da entidade verificou que a sede do Grupo tinha sido invadida; do caixa do Projeto Clínico Grupal fora furtada a quantia de R$ 1.567,37, além de diversos documentos da entidade e notas fiscais de serviço. Alguns arquivos também foram revirados; o computador, ligado. A Vice-Presidente do Grupo, Cecília Coimbra, manifestou-se sobre o episódio: “Continuaremos exigindo e lutando por uma efetiva Comissão Nacional da Verdade e Justiça transparente e pública, pela abertura dos arquivos da ditadura e pelo cumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre o caso Araguaia, pois casos como esse não nos amedrontam”, disse Cecília, que confessou sua emoção com a solidariedade de várias entidades, entre elas a ABI, a OAB, o MST entre outras. Na segunda-feira seguinte, dia 23, cerca de

DIRETORIA – MANDATO 2010-2013 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Orpheu Santos Salles Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretora de Jornalismo: Sylvia Moretzsohn CONSELHO CONSULTIVO 2010-2013 Ancelmo Goes, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Ferreira Gullar, Miro Teixeira, Nilson Lage e Teixeira Heizer.

Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, Conceição Ferreira, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Ivan Vinhieri, Mário Luiz de Freitas Borges.

CONSELHO FISCAL 2011-2012 Adail José de Paula, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Luiz Carlos Chesther de Oliveira e Manolo Epelbaum.

Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva.

MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2011-2012 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: Sérgio Caldieri Segundo Secretário: José Pereira da Silva (Pereirinha)

Diretor Responsável: Maurício Azêdo Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Dr. Franco da Rocha, 137, conjunto 51 Perdizes - Cep 05015-040 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br

Conselheiros Efetivos 2012-2015 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fichel Davit Chargel, Glória Suely Alvarez Campos, Henrique Miranda Sá Neto, Jorge Miranda Jordão, José Ângelo da Silva Fernandes, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Vítor Iório. Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa.

REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira

Conselheiros Efetivos 2010-2013 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Fernando Foch, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Jesus Chediak, José Gomes Talarico (in memoriam), Marcelo Tognozzi, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Orpheu Santos Salles, Paulo Jerônimo de Sousa e Sérgio Cabral.

Impressão: Taiga Gráfica Editora Ltda. Avenida Dr. Alberto Jackson Byington, 1.808 - Osasco, SP

Conselheiros Suplentes 2012-2015 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro

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GABRIEL DE PAIVA/AGÊNCIA O GLOBO

• Prezado jornalista Rodolfo Konder, Recebi hoje pela primeira vez o Jornal da ABI, edição de junho, pelo correio no Memorial da América Latina, fundação na qual trabalho no departamento de comunicação. Sou jornalista e escritor, autor do romance O Filósofo Voador, que ganhou o ProAC de literatura de 2008. Sou amigo e admirador do grande jornalista Audálio Dantas, que por aí passou com o brilho que lhe é peculiar. Gostaria de registrar minha surpresa e felicidade ao percorrer as folhas do jornal. Os mais novos não conhecem a história que vocês contam, por isso vou fazer circular entre os estagiários que comigo trabalham. Parabéns e aguardo os próximos números. (a) Eduardo Rascov.

Cecília Coimbra: a luta continua.

40 pessoas, representando várias entidades, foram à sede do Grupo, na Rua General Polidoro, Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, para se colocar à disposição da instituição. A invasão está sendo investigada pela Polícia Civil do Estado e os diretores do Grupo querem que a Polícia Federal participe das investigações, pois entendem que o episódio não é um crime comum, mas de uma investida política de extremistas da direita que atuaram durante o golpe militar. A Ministra Maria do Rosário, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, expressou solidariedade ao GTNM, colocando-se à disposição da entidade, e garantiu a participação da Polícia Federal nas investigações para apurar a violência.

Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Continentino Porto, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Irene Cristina Gurgel do Amaral, Jordam Amora, Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Rogério Marques Gomes e e Wilson Fadul Filho.

Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felipe Meiga Santiago, Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas, Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão e Wilson S. J. Magalhães. Conselheiros Suplentes 2010-2013 Adalberto Diniz, Alfredo Ênio Duarte, Aluízio Maranhão, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel Mazola Froes de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José Silvestre Gorgulho, Luarlindo Ernesto, Marceu Vieira, Maurílio Cândido Ferreira, Sérgio Caldieri, Wilson de Carvalho, Yacy Nunes e Zilmar Borges Basílio. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Felipe Meiga Santiago, Carlos João Di Paola, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Marcus Antônio Mendes de Miranda. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Mário Augusto Jakobskind; Secretário, Arcírio Gouvêa Neto; Alcyr Cavalcânti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Daniel de Castro, Ernesto Vianna, Geraldo Pereira dos Santos,Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, José Ângelo da Silva Fernandes, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Martha Arruda de Paiva, Orpheu Santos Salles, Sérgio Caldieri e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor),Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

JORNAL DA ABI • JULHO 2012 O 380 JORNAL DADE ABI NÃO ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA , COMO ADMITE O DECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008.


MEMÓRIA

(1939-1981)

Trinta anos sem Gláuber, Santo Guerreiro O mais talentoso dos nossos cineastas, ele se considerava profeta. E profeta, dizia, não tem obrigação de acertar. POR RODOLFO KONDER

G

ELIANE SOARES

láuber Rocha tinha 42 anos e morreu de madrugada. Era baiano de Vitória da Conquista, de família protestante. Talvez nisso resida um pouco do seu segredo. Estudou em Salvador, onde começou a trabalhar no rádio, no teatro e na imprensa. E foi também ali que se deixou morder pela política. E pelo cinema. Em 1958, realizou seu primeiro curta-metragem: O Pátio. Em seguida, fez A Cruz na Praça. Em 1962, a fama chegou com sua estréia no longa-metragem: Barravento conquistou o Prêmio Obra-Prima no Festival de Karlovy Vary, na Tchecoslováquia. À frente do chamado Cinema Novo, dirigiu Deus e o Diabo na Terra do Sol, um filme magistral sobre o grande drama dos trópicos. Conquistou vários prêmios no exterior, inclusive na Itália e no México, com esse trabalho. Produziu Menino de Engenho, de Walter Lima Júnior, e co-produziu A Grande Cidade, de Cacá Diegues, antes de dirigir Terra em Transe, em 1967. Mais prêmios: Cannes e Havana entre eles. O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro foi seu sucesso seguinte. Em 1970, dirigiu O Leão de Sete Cabeças. A seguir, fez Cabeças Cortadas. Três anos depois, realizou História do Brasil, produção ítalo-cubana. Em 1977, filmou o documentário Di Cavalcanti. Seu último filme, A Idade da Terra, foi lançado em novembro de 1980. Mas tudo isso é pouco para se falar de Gláuber. É preciso lembrar que Gláuber não era apenas o maior cineasta brasileiro: era um intelectual apaixonado, um homem capaz de se indignar diante das injustiças, uma vítima do autoritarismo. Era um perseguido. O odiento AI-5, de tão triste memória, levouo ao exílio. Durante anos, o irrequieto, irreverente cineasta deambulou pelo mundo, para se manter longe das garras da ditadura que assombrava seu país, como o Dragão da Maldade. Cabeças Cortadas ficou por muito tempo no pelourinho da Censura, até ser finalmente liberado, em 1979. Mesmo a última viagem de Gláuber ao exterior se fez à sombra das ameaças da ultradireita radical. Quando ele embarcou para a Europa, o Brasil inteiro tremia com as explosões de bombas colocadas pelos inimigos da abertura política na goela do próprio regime. Nos últimos anos, Gláuber também se viu odiado pela esquerda autoritária. Muitos democra-

tas discordavam dele, embora continuassem a respeitar seu gênio. Os autoritários, porém, odiavamno. Jamais puderam compreender seus rompantes, sua irracionalidade. Não adiantava ele mesmo dizer que era “apenas um artista, um intérprete do inconsciente coletivo”, nem pedir que não lhe exigissem coerência, advertindo que podia “mudar a qualquer momento”. Viam somente seus elogios indignados ao General Golbery e ao Presidente Figueiredo. O artista que gostava de chocar, ora comparecendo a um jantar a rigor, em Paris, de chinelos e jeans, ora candidatando-se à Presidência da República, como “candidato alternativo”, era um profeta. E um profeta, como ele dizia, “não tem obrigação de acertar, sua função é profetizar”. Mas o profeta jamais se desligou da realidade brasileira. “Minha intenção”, disse, “é mergulhar

nela, em suas lutas e lendas, para exprimir a alma do meu povo em toda a sua profundidade”. Cumpre fazer mais uma citação sua: “Não podemos continuar fazendo política baseada no latifúndio improdutivo e injusto, com uma oligarquia atrasada, ignorante, e uma burguesia decadente que não modernizou o Brasil, não fez uma revolução capitalista e que aceita passivamente um país metade estatizado, metade nas mãos das multinacionais”. Gláuber Rocha tinha apenas 42 anos e morreu de madrugada. A morte sempre me pareceu mais triste de madrugada. Mais triste ainda se toma da gente um pedaço da nossa justa indignação – que se foi com ele. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.

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ACONTECEU NA ABI

Uma noite de gala em homenagem aos 100 anos de Osny Duarte Pereira CARLOS DI PAOLA

P OR C LÁUDIA S OUZA

Os cem anos de nascimento do juiz, jornalista e escritor Osny Duarte Pereira, um dos maiores pensadores brasileiros, foram celebrados na noite de 5 de julho no Auditório Oscar Guanabarino, localizado no 9º andar do Edifício Herbert Moses, no Centro do Rio, por numeroso elenco de entidades e instituições da sociedade civil. Organizado pela viúva do homenageado, Kátia Valladares, o evento foi promovido pela ABI e apoiado pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro, a Associação de Juízes para a Democracia, Associação Cultural José Marti, a Associação Democrática e Nacionalista de Militares-Adnam, a Associação dos Engenheiros da Petrobras-Apet, a Casa da América Latina, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, o Clube de Engenharia, a Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do BrasilCTB, o Instituto dos Advogados Brasileiros-IAB, o Movimento em Defesa da Economia Nacional-Modecom, a Ordem dos Advogados do Brasil-OAB/RJ e o Grupo Tortura Nunca Mais. Em carta de agradecimento à ABI quando esta lhe concedeu o título de sócio honorário, Osny afirmou: “Sendo neto de jornalista profissional, atribuo a esse fato a inclinação, desde menino, para as atividades na imprensa, inclinação que marca a minha biografia com exercício paralelo à principal de advogado e juiz, preocupado com os problemas sociais de nosso povo”. A solenidade teve início com a exibição de um vídeo com o depoimento feito por Osny Duarte Pereira em 29 de maio de 1996 ao Museu da Imagem e do Som-MIS do Rio de Janeiro, a convite da ABI. No relato, Osny fala sobre a sua aplaudida trajetória em diferentes campos sociais em defesa da democracia brasileira. Mesa e platéia lotadas

Cerca de 500 pessoas prestigiaram a cerimônia, que foi conduzida pela advogada Olga Amélia, Vice-Presidente do Modecon, fundado por Barbosa Lima Sobrinho, Presidente da Federação de Mulheres do Estado do Rio de Janeiro-Femulher e VicePresidente do Movimento dos Aposentados, Pensionistas e Idosos do PDT(Mapi). “Estamos reunidos na ABI, esta Casa tradicional, para homenagear o centenário de Osny Duarte Pereira, um dos mais ilustres filhos desta pátria, um dos melhores representantes da brava gente brasileira, não somente por ser jurista, cidadão maravilhoso, historiador, mas princi10

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Membro da Assembléia Constituinte, o Deputado Paulo Ramos (PDT) destacou que Osny Duarte Pereira teve participação decisiva na inclusão do monopólio estatal na Constituição.

palmente por sua ternura e simplicidade. Apesar da saudade, vamos fazer um ato de muita alegria, a mesma que ele nos transmitiu ao longo de sua vida”, ressaltou Olga Amélia. Para a composição da mesa foram convidados o Presidente da ABI, Maurício Azêdo; César Duarte Pereira, filho do homenageado; Brigadeiro Rui Moreira Lima, representando a Adnan; o Deputado estadual Paulo Ramos; a Professora Zuleide Faria de Melo, da Associação José Marti; o Juiz Renato Lima Sertã, representando o Desembargador Cláudio dell’Orto, Presidente da Amaerj; o advogado Modesto da Silveira, Conselheiro da ABI e Presidente da Casa da América Latina; Vitória Grabois, Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ; Paulo Sérgio Faria, da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil; Professor Lincoln Penna, Presidente do Modecon; o exVereador Ricardo Maranhão; o Juiz João Batista Damasceno, da Associação de Juízes para a Democracia; o Desembargador José Muiños Pinheiro e o ex-Deputado Luiz Alfredo Salomão, ex-Subchefe-Executivo da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Presentes na platéia, diversas autoridades e representantes de entidades da sociedade civil e movimentos sociais, entre os quais o Desembargador Fernando Foch, Presidente do Fórum Permanente de Direito à Informação e de Política de Comunicação Social do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro; o Secretário de Ciência e Tecnologia e Inovação do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Edmundo da Costa Leite; os Diretores da Aepet Fernando Siqueira e Francisco Soriano; Raimundo de Oliveira e Sérgio de Moraes, do Conselho Diretor de Engenharia; Antônio Carlos Conrado, do Sindicato

dos Bancários, e José Barroso, do Instituto Cultural Karl Marx. Aula aos militares

Após a execução do Hino Nacional, César Duarte Pereira, filho de Osny, discursou sobre a homenagem: “Gostaria de cumprimentar a mesa na pessoa do nosso bravo lutador da Segunda Guerra Mundial, o ilustre Brigadeiro Rui Moreira Lima, companheiro de meu pai e de muitos participantes deste encontro. A homenagem ao meu pai é justa porque ele foi um cidadão que soube superar as dificuldades impostas pela vida e manteve a integridade moral e intelectual e o compromisso permanente na defesa dos direitos e das liberdades. Nossa família recebeu dele este legado”, disse César Duarte, que recordou episódios que ilustram o perfil combativo do pai. “Em 1970, agentes da Aeronáutica foram até a nossa casa para fazer o que chamavam de vistoria e para prendê-lo. Insisti em acompanhar meu pai e fomos levados para o Campo dos Afonsos, onde ele permaneceu preso em uma cela. No dia seguinte, consegui sair de lá e busquei ajuda junto ao Ministério da Guerra. Na ante-sala do General Sizeno Sarmento, Comandante do I Exército, expus a situação. Cinco minutos depois fui informado de que meu pai estava sendo transferido para a Vila Militar e que não correria risco de vida. Dias depois, conseguimos autorização para visitá-lo. Chegando lá, meu pai estava dando aula de economia política para os quadros do Exército Brasileiro situado na Vila Militar! Este é o exemplo perfeito de um militante brasileiro, de um homem que tem convicção de suas idéias. Este episódio é emblemático do exemplo de vida que ele nos deixou.”

Após a exposição de César Duarte, o Presidente da ABI promoveu a abertura oficial da cerimônia. “Companheiros da mesa, eminente brigadeiro Rui Moreira Lima, que como César Duarte sublinhou, é um herói do povo brasileiro que nos enche de orgulho pela sua luta contra o nazifascismo, pela defesa do monopólio estatal do petróleo, pela justiça sonegada a milhares de patrícios das Forças Armadas que constituíram um dos segmentos mais atingidos por tropelias, abusos e arbitrariedades promovidos pela ditadura militar. A ABI se sente muito orgulhosa em ter o Brigadeiro Moreira Lima mais uma vez em seus espaços e transmite através dele a saudação a todos os membros desta mesa”, disse o Presidente. Em seguida, Maurício ressaltou a relevância do resgate da memória de Osny Duarte Pereira: “Assim como Barbosa Lima Sobrinho, o grande patriarca desta Casa, Osny foi um brasileiro exemplar pela sua dedicação ao interesse nacional, pela sua preocupação com o destino do nosso povo, com a justiça social e sobretudo com o restabelecimento entre nós do respeito à legalidade democrática nos diferentes campos, como vimos no vídeo de seu depoimento ao professor e jornalista Henrique Miranda. No que concerne aos direitos constitucionais, ele desenvolveu atividade pedagógica intensa, inclusive editando importantes livros como Quem Faz as Leis no Brasil, e O Que é Constituição, editados por outro admirável brasileiro que foi Ênio Silveira. A ABI se sente no cumprimento de um dever de prestar as homenagens devidas a Osny Duarte Pereira, com atuação destacada no campo do Direito e na imprensa, como um dos mais destacados colaboradores de O Semanário, combativo periódico de Osvaldo Costa, no qual Osny apresentava as idéias que conduziram à formação de uma consciência nacional pelas reformas de base defendidas pelo Presidente João Goulart e pelo movimento social. Osny está presente!” Um repto a Ermírio

Em continuidade ao encontro, o Deputado Paulo Ramos (PDT), representando a Alerj, aplaudiu a presença do Brigadeiro Rui Moreira Lima e falou sobre a convivência com Osny Duarte Pereira. “Tive a honra e o privilégio de estar com Osny em vários momentos, especialmente na Assembléia Nacional Constituinte, integrando a Frente Parlamentar Nacionalista, que também contou com a participação de Luiz Alfredo Salomão, aqui presente. Osny foi um dos mais importantes constituintes pela sua influência e dedicação. Cito como exemplo o seu empenho em questões como o monopó-


Mestre em brasilidade

Dando seguimento ao encontro, Olga Amélia passou a palavra ao Brigadeiro Rui Moreira Lima, que agradeceu de forma emocionada as manifestações de apreço do público presente e a oportunidade de homenagear Osny Duarte Pereira “Todos aqui me fizeram uma deferência – disse ele –, mas eu apenas cumpri o meu dever. Muito obrigado a todos. Conheci Dr. Osny depois que saí do Maranhão, aos 17 anos, vindo para o Rio. Meu pai já trocava cartas com ele, mas não teve a satisfação e a glória de conhecê-lo pessoalmente. Isto só veio a acontecer aqui na ABI, a Casa de Barbosa Lima Sobrinho, de Maurício Azêdo e de todos nós. Um dia, Donato, que foi meu colega de turma na Escola Militar, me chamou para conhecer o Osny, do qual me tornei muito próxi-

AGÊNCIA AGÊNCIAO OGLOBO GLOBO

lio estatal do petróleo, a nacionalização do subsolo, a definição de empresa brasileira de capital nacional.” Ramos acentuou a posição de Osny Duarte Pereira na Constituinte diante dos desafios impostos pelo grande capital. “Durante os trabalhos da Constituinte, ouvimos vários empresários nacionais. Alguns, como Antônio Ermírio de Moraes, defendiam idéias de globalização e internacionalização da economia. Na conversa com Antônio Ermirio, em dado momento, Osny deu um tapa na mesa e disse: ‘O senhor já leu os discursos de seu pai, conhece o pensamento dele? O senhor herdou a fortuna e deveria ter herdado também o pensamento s de seu pai, porque ele, apesar de ser empresário, defendia um projeto nacional.’” Representando a Associação Cultural José Marti, a Professora Zuleide Faria de Melo, Presidente da entidade, também iniciou o seu discurso saudando o Brigadeiro Moreira Lima e relacionou a conquista de Monte Castelo pela Força Expedicionária Brasileira-Feb em 1945 à luta de Osny Duarte Pereira pela democracia frente à ditadura militar de 1964 e o ineditismo de suas propostas para o desenvolvimento da nação. “Conheci o Dr. Osny Duarte Pereira depois que li Juízes Brasileiros atrás da Cortina de Ferro, de sua autoria, que mudou a minha vida. Quero destacar a importância das idéias que podem mudar o ser humano. Nasci em Alagoas, um dos Estados mais conservadores do Brasil, em uma família de minifundiários. Quando li esse livro, surgiu para mim uma nova forma de vida que eu não conhecia, contrária ao que afirmavam minha mãe e avós que o comunismo era uma coisa de anticristo. Conheci o Dr. Osny na Editora Civilização Brasileira, na qual eu atuava na produção de livros. Participei de quase todos os livros do Dr. Osny. Ele não era apenas um figura doce e cândida, mas também um intelectual, dos poucos deste País, que tinha a concepção de justiça em sua plenitude, para os pobres e para os ricos. Ele foi o primeiro a denunciar a Transamazônica em um livro que fez história. O conjunto de sua obra representa um marco para a formação da consciência de toda uma geração. O seu exemplo de liberdade, de amor à democracia e de defesa de seus ideais deve ser seguidos por todos os jovens.”

de mais justa e igualitária. Em nome do Grupo Tortura Nunca Mais eu saúdo a família, especialmente Kátia e seu filho Marcos, nossos companheiros de militância.” Atuação na Constituinte

Ricardo Maranhão, ex-Vereador do Município do Rio de Janeiro, ressaltou a luta democrática de Osny Duarte Pereira no Brasil e no exterior. “Dr. Osny não foi apenas o juiz concursado, o líder estudantil, o autor de dezenas de livros, preocupado em defender aqueles, que como ele, foram vítimas da arbitrariedade e da intolerância no Brasil, Guatemala, Paraguai e outros países. Aos 24 anos, ele já se preocupava em organizar num sindicato os trabalhadores de Rio do Peixe, em Santa Catarina. Tive a alegria e a honra de conhecê-lo na Assembléia Constituinte quando atuamos em defesa da Petrobras, do monopólio estatal e para proibir os famigerados contratos de risco. Embora não fosse deputado ou senador, Osny foi considerado um dos mais importantes constituintes, como José Afonso da Silva e outros juristas que assessoravam Mário Covas e Ulysses Guimarães. A homenagem que podemos oferecer a ele é dar prosseguimento ao seu caminho pela soberania plena e a democracia.” “Defensor da Soberania”

Osny Duarte Pereira era conhecido por seu bom humor e por sua alegria de viver.

mo. Certa vez, relatei para ele a experiência de meu pai, que doou terras no Maranhão para os melhores caboclos que tinham vindo do Ceará e do Piauí. Osny me incentivou a escrever sobre essa experiência em reforma agrária e me ajudou muito na tarefa. Foi um sucesso enorme. Estou com 93 anos e sinto uma vontade danada de seguir em frente relendo os livros do Dr. Osny, com quem eu aprendi a ser muito mais brasileiro do que eu julgava que era. Esta celebração pelo centenário de seu nascimento é uma das coisas mais honrosas de que tomei parte em toda a minha vida. Viva o Dr. Osny Duarte Pereira!” O Juiz Renato Lima Sertã, da Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro-Amaerj, discursou em seguida. “Infelizmente, como tenho um compromisso urgente, vou expressar de forma breve a minha satisfação e honra em estar aqui representando a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro. Embora eu não tenha conhecido pessoalmente o Desembargador Osny Duarte Pereira, reúno as histórias que aqui ouvi e outras que já eram do meu conhecimento sobre a sua trajetória na luta pelas liberdades, no estudo do Código Florestal, na preocupação, já naquela época, com o meio ambiente, um assunto que atualmente mobiliza a sociedade. Poucas foram as pessoas que se debruçaram sobre este tema e lançaram idéias em forma de sementes que hoje colhemos. Embora eu não seja versado na biografia do Dr. Osny, como outros aqui presentes, me parece este um ponto mui-

to importante. A Amaerj expressa a alegria de toda a classe de ter tido e de tê-lo ainda, pois ele está entre nós, como um de seus mais ilustres membros.” Na sequência, Vitória Grabois, do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, falou sobre os laços de amizade que unem a sua família ao homenageado. “Osny Duarte Pereira era muito ligado às minhas tias Maria e Anita, irmã e cunhada de meu pai, respectivamente. O Dr. Osny sempre fez parte das conversas e do dia-a-dia da família Grabois. Não me lembro de tê-lo conhecido pessoalmente. Minha mãe era militante da Federação das Mulheres do Brasil, da qual a primeira esposa do Dr. Osny era Presidente. Vivi na clandestinidade durante 16 anos na cidade de São Paulo. Fiquei afastada do partido ao qual eu pertencia em 1976, após a queda da Lapa, e depois da Anistia em 1979 eu, minha mãe e meu filho ainda vivíamos na clandestinidade. Minha tia Maria recorreu ao Dr. Osny para perguntar quais seriam as medidas legais para retornarmos à vida pública. Dr. Osny indicou vários advogados de São Paulo. Indiretamente, ele é o responsável pela minha volta à vida social, à minha família, aos meus amigos e aos meus companheiros. Tenho com ele esta dívida de gratidão. Por todos os motivos que aqui foram falados, me cala pessoalmente a sua figura. O Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, em 1993, concedeu ao Dr. Osny a Medalha Chico Mendes de Resistência, com a qual condecoramos anualmente pessoas que lutam pelos direitos humanos, por uma socieda-

Como parte das comemorações, a família de Osny Duarte Pereira recebeu o diploma Defensor da Soberania Nacional das mãos de Lincoln Penna, Presidente do Modecon: “O Modecon, fundado por Barbosa Lima Sobrinho em 4 de setembro de 1989, é filho dileto da luta pelas liberdades no Brasil, da luta de Osny Duarte Pereira. O movimento surgiu quando o Deputado Osvaldo Lima Filho procurou Barbosa Lima Sobrinho sugerindo que a Frente Parlamentar Nacionalista tivesse um desdobramento no Rio de Janeiro, criando raízes na sociedade civil. Osny deve ser lembrado como grande construtor do movimento que surgiu a partir do apoio às reformas de base do Presidente João Goulart. Em 2011, quando o Modecon completou 22 anos, a Diretoria instituiu um diploma de Defensor da Soberania Nacional. Temos a honra de aproveitar esta solenidade para entregar ao filho de Osny, César Duarte, este diploma em homenagem à trajetória de seu pai, que louva a História do Brasil”. Após a homenagem, em nome da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil-CTB, Paulo Sérgio Faria fez a leitura de um documento elaborado pela entidade festejando o centenário de Osny Duarte Pereira. “É uma honra inestimável estar presente neste ato falando em nome dos trabalhadores e podendo externar aos familiares e amigos de Osny Duarte Pereira o nosso reconhecimento pela sua importante contribuição ao Brasil. A CTB da Light vem declarar a sua eterna e emocionada gratidão ao Dr. Osny, que em toda a sua vida foi um nacionalista e um dos maiores lutadores pela soberania e consolidação do Estado brasileiro. Com sua prodigiosa inteligência e saber incomparável de jurista, Dr. Osny apontava os enormes prejuízos que as grandes multiJORNAL DA ABI 380 • JULHO DE 2012

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ACONTECEU NA ABI ra, assim como Osny, um dos recordistas. Na realidade, não fomos presos, mas seqüestrados, pois a prisão apresenta alguma validade legal. Osny derramou vinte dos melhores livros sobre todas as áreas do conhecimento humano, direitos humanos, justiça social, patriotismo. Tem reconhecida luta contra a maior estupidez humana que é a guerra, o homicídio coletivo de uma nação contra a outra. ‘Temos que lutar pela paz!’, já dizia Osny. A paz coletiva e a paz individual que representam a busca pela felicidade, o bem que todos nós almejamos”. Discorrendo sobre o pensamento de Osny Duarte Pereira, o Juiz João Damasceno salientou aspectos importantes da trajetória de Osny. “Vamos encontrar uma absoluta coerência na obra de Osny, seja no seu primeiro livro, editado em 1950, sobre Direito Florestal brasileiro, quando o Brasil ainda não tinha um código florestal, seja no seu último livro sobre as riquezas nacionais. O conceito de nacionalismo que ele apresenta é direcionado ao povo brasileiro. Quando ele trata das florestas, aborda um ponto que pouca gente conhece: ao longo do século 20, o Brasil importava madeira para fazer caixotes e escoar a produção agrícola para o exterior. No final das contas, estávamos dando o suor do povo e recebendo em troca caixotes. Ele aponta isso em 1950 e lembra ainda que as florestas brasileiras são heterogêneas e que para retirar algumas espécies se destrói tudo.

Ele chama a atenção também para as condições sociais do homem do campo, cujos direitos trabalhistas foram assegurados apenas em 1988.” Damasceno assinalou ainda a dificuldade para encontrar material de pesquisa sobre Osny: “Descobri que na biblioteca do Tribunal de Justiça só há dois livros dele. Fiz, então, a doação de oito títulos que eram da minha biblioteca particular para a biblioteca do TJ, pois acredito que a disseminação de suas idéias e conhecimentos é a chave para um mundo melhor. Tive muita dificuldade para localizar a ficha funcional dele. Quando finalmente encontrei, vi que ele recebeu ao longo de sua carreira muitas advertências e punições, a maioria fundamentada no artigo 118 do Código de

Organização Judiciária do Distrito Federal. Este artigo é o que vetava o juiz de se manifestar publicamente. Na campanha pelo petróleo, por exemplo, Osny é punido. Quando da sua reintegração em virtude da Anistia, o Dr. Osny pediu a revisão de apenas duas, preservando as demais, nas quais ele manifestou suas idéias democráticas e nacionalistas”. No final do evento, Olga Amélia convidou os parentes do homenageado a se aproximarem do palco para cantar a música Feliz Aniversário, de Villa-Lobos e Manuel Bandeira, “Saudamos o grande dia/Em que hoje comemoras/Seja a casa onde mora/A morada da alegria/ O refúgio da ventura / Feliz Aniversário”, e o Hino da Independência, com acompanhamento e aplausos da platéia.

Pioneiro no Direito, lutador pela paz, cassado por suas idéias progressistas

Democratas, da qual foi Secretário e, depois, Presidente. Integrou, ainda, a Associação Internacional de Juristas Democratas, com sede em Bruxelas, onde foi eleito Secretário para a América Latina. Solidarizou-se com os perseguidos políticos da América do Sul, participou de diferentes congressos em defesa das liberdades democráticas. Foi Secretário-Geral das Conferências Latino-Americanas do Rio de Janeiro e da Guatemala, em 1952 e 1953, e da Conferência pelas Liberdades Democráticas, em Santiago, em 1955. Participou de lutas importantes como a campanha O petróleo é nosso, que levou à criação da Petrobras, em 1953. Nesse mesmo ano, Osny Duarte foi um dos principais assessores da Missão Florestal da Fao-Agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Foi presidente da Associação dos Amigos do Povo Paraguaio e da Associação dos Amigos do Povo da Guatemala, participou de missões visando à libertação de presos políticos dos cárceres do Chile, Paraguai e Guatemala. Foi, ainda, Secretário-Geral do Instituto Cultural Brasil-Cuba, então presidido por Oscar Niemeyer. Nas décadas de 1950 e 1960, escreveu vários artigos para a imprensa popular. Em meados dos anos 1950 sofreu

diversas penalidades impostas pela Corregedoria de Justiça, dentre as quais advertências e censura pública, por sua conduta pública de defesa dos interesses nacionais. Ao mesmo tempo recebeu moções de elogio do então Presidente do Tribunal, numa demonstração da diversidade de comportamentos dos membros da administração do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e o embate de forças antagônicas no seio da magistratura, tal como se desenvolvia na sociedade, na época da Guerra Fria. Nos anos 1960, fez parte do corpo docente do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-Iseb, como chefe do Departamento de Ciência Política. Escreveu mais de 20 livros, o primeiro deles em 1950, intitulado Direito Florestal Brasileiro, que o colocou em posição pioneira na defesa do meio ambiente. Foi um dos autores do anteprojeto e da emenda constitucional da reforma agrária, por nomeação do Presidente João Goulart. Teve os direitos políticos cassados em 1964 e enfrentou diversos inquéritos policiais-militares. Em decorrência da cassação dos seus direitos políticos por dez anos, no dia 9 de abril de 1964, o Governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, colocou-o em disponibilidade na magistratura.

Osny exerceu a Presidência do Conselho Brasileiro de Defesa da PazCondepaz, organização sucessora do Movimento Brasileiro dos Partidários da Paz, atuante nos anos 1950 e 1960. Com a Lei da Anistia, encaminhada pela oposição pelo então Deputado Modesto da Silveira, reassume seu cargo na magistratura, como Desembargador, em 28 de dezembro de 1979. Em 12 de maio de 1982 aposenta-se a pedido, seis meses e quatro dias antes das eleições de 1982. Entre 1987 a 1988, participou dos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, preparando projetos e dando assessoria aos relatores. Em reconhecimento pela sua atuação democrática, a Câmara dos Deputados elegeu-o, em 1989, membro suplente do Conselho da República. Com o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, o jurista Evandro Lins e Silva e o advogado Lavenè Wanderley, Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, foi um dos signatários, em 1992, do pedido de impeachment do ex-Presidente Fernando Collor de Mello. Osny Duarte Pereira morreu no Rio de Janeiro em 23 de outubro de 2000, aos 88 anos, de insuficiência cardiorespiratória.

Uma densa trajetória na Justiça e na vida social. Aos sete anos Osny Duarte Pereira já redigia jornal manuscrito do grupo escolar. No ginásio criou um espaço para a discussão de problemas de interesse social. Na Universidade Federal do Paraná, onde estudou Direito, foi candidato da Esquerda Universitária e eleito, em 1931, primeiro Presidente do diretório acadêmico. Em 1932 participou da Revolução Constitucionalista e aos 19 anos foi promotor público no Estado do Paraná. Já advogado, fundou em 1934 o primeiro sindicato de operários do Vale do Rio do Peixe, no Oeste de Santa Catarina. Ingressou na magistratura de carreira do Distrito Federal em 1946, Participou da fundação da Revista de Direito Contemporâneo, publicação voltada para a defesa das liberdades da América Latina. Na década de 1950, integrou a Associação Brasileira de Juristas

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CARLOS DI PAOLA

nacionais impunham ao desenvolvimento do nosso País e o atraso na busca da oferta de uma vida digna ao nosso povo. Dr. Osny foi a voz mais importante do Brasil na denúncia da Light, pela exploração de tarifas, especulação fundiária e atraso na criação de Eletrobrás por mais de dez anos(...) Mas o Brasil de hoje é outro. Os generais fracassaram no seu projeto de manter o País subalterno no cenário mundial. Se hoje ainda há muito a lutar, muito já avançamos. Devemos parte desta nova ordem ao Dr. Osny Duarte Pereira, pelos eletricitários da Light do Rio sempre presente e amado.” Penúltimo orador da noite, o advogado Modesto da Silveira expressou a relevância de Osny para as futuras gerações e o crescente interesse dos jovens pela sua biografia. “Na última segunda-feira, acompanhei a palestra do Dr. João Damasceno, um estudioso profundo sobre a vida e a obra de Osny. Surpreendeu-me saber que muitas pessoas o procuraram interessadas em pesquisas, estudos e teses de mestrado sobre a vida e a obra deste homem brilhante, pelo qual sentimos até inveja, a inveja do bem. Até as mulheres devem sentir inveja das duas mulheres que tiveram o privilégio de se casar com um homem como Osny.” Modesto da Silveira grifou o compromisso de Osny na busca pelo bem comum e pela paz universal. “Ele costumava se empenhar em idéias sobre como salvar vidas e acabar com os atos de tortura infligidos a tantos de nós. Muitos dos que estão aqui foram presos durante a ditadu-

Filho de Osny, César Duarte recebeu das mãos do Presidente do Movimento de Defesa da Economia NacionalModecon, Professor Lincoln de Abreu Penna, o diploma de Defensor da Soberania conferido a seu pai.

O pioneiro no Direito


IMPRENSA

que temos, até agora, um começo promissor”, pontua Victor. Ele é taxativo quando perguntado sobre o maior desafio do jornalismo norte-americano – e também de boa parte do mundo. O fantasma a confrontar os meios de comunicação nos Estados Unidos é a necessidade de encontrar um novo modelo de negócios. Na era da internet, os anunciantes migraram para as mídias digitais, onde se paga muito menos. E ninEm visita ao Brasil, o jornalista norte-americano Victor Navasky celebra a parceria que guém veio ainda com a receita de mistura viabilizou o lançamento da Revista de Jornalismo ESPM. E fala sobre os desafios da mídia. perfeita dos meios de comunicação tradicionais e novos. “Eu não sei o suficiente para fazer pronunciamentos sobre a mídia ESPM e a CJR. O norte-amebrasileira, mas suspeito que P OR P AULO C HICO ricano, aliás, é só elogios à edidois dos problemas significaDiscutir as tendências e a prática do jornação brasileira. “Uma inovação tivos que enfrentamos nos lismo brasileiro e mundial, sempre sob o ponmuito bem feita pela revista Estados Unidos também se to de vista de profissionais experientes e estufoi publicar, além de seus prófazem presentes no Brasil. Pridiosos da comunicação. Com esse objetivo foi prios artigos originais, artigos meiro, como conseguir e manlançada, em maio deste ano, a Revista de Jornaque apareceram originalmenter diversos pontos de vista e lismo ESPM (Escola Superior de Propaganda e te na CJR, adaptando e aplievitar a tendência à homogeMarketing), na verdade uma edição brasileira cando o tema em debate à sineização em face da crescenda Columbia Journalism Review, tradicional putuação do Brasil, incentivante concentração da mídia? E, blicação acadêmica da Faculdade de Jornalismo do a reflexão sobre os assuntos depois, como conciliar a neda Universidade de Columbia, nos Estados Uniabordados.” cessidade de mídia digital dos. A parceria entre as duas instituições de Eugênio Bucci falou ainda para velocidade com a manuensino teve capítulo especial em junho, com a sobre o futuro. “Nós teremos, tenção de normas profissiovinda ao Brasil de Victor Navasky, chairman da em média, algo como 50% dos nais?”, indaga. publicação norte-americana e diretor editorial artigos da revista vindos direPara o especialista, é nítido da The Nation. tamente da CJR. Convidados e lamentável o fato de que, Também escritor e professor, Victor comparestrangeiros não virão apenas nos Estados Unidos, a mídia tilhou, em especial com jornalistas e estudantes participar de debates especidigital não apure os fatos com de Comunicação, um pouco de sua história e ais, como fez o Victor. Isso o mesmo rigor com que faz a Victor Navasky durante palestra na ESPM: Começo promissor. experiência profissional. E interagiu com os deverá ser uma rotina. Partimídia tradicional. “A falta de presentes, respondendo a perguntas da platéia. normas, e sua vontade de se cularmente, não defendo a tese O evento se estendeu por três dias – de 12 a 14 impressos tradicionais nos Estados Unidos curvar ao que é visto como imperativo tecnode que essas visitas nos trazem um ‘olhar esperderam bastante verbas de publicidade para de junho, em São Paulo – e contou com paleslógico, tal como a prevalência da velocidade trangeiro’. E vou te explicar por quê. O jornatras de Victor, além de workshop ministrado a mídia digital. Algumas empresas executaram sobre a exatidão, são os maiores pecados do jorlismo é um discurso que perpassa todas as pelo convidado. “A maioria das minhas explacortes pesados, justamente por não terem connalismo online. Proliferam as fontes anôninações. Como atividade profissional, podemos seguido chegar a um modelo de negócio que connações tinha a ver com a importância da crímas; no mundo da mídia digital, a maioria dos entendê-lo assim, como um ofício supranacitica de mídia, como exemplificado pela Columcilie as novas tecnologias no processo de capblogueiros sequer assume sua identidade, preonal, uma prática que não se resolve nem se conbia Journalism Review - CJR e sua nova edição tação de notícias. “Minha crença é de que, com ferindo adotar um pseudônimo”, lamenta tém no interior de um único país. Portanto, os muitos experimentos híbridos agora em brasileira, via ESPM. Os dois outros temas que Victor, que fala ainda do persistente perigo da quando falamos dessa grande pátria que é o jorme pediram para explorar tinham a ver com curso, a imprensa vai encontrar o seu camicensura, que insiste em rondar a prática do nalismo, não temos estrangeiros. Todos os jorJornalismo de Opinião e a Liberdade de Expresnho”, aposta. jornalismo em todo o mundo. nalistas são iguais entre si. Pretendemos, sim, O jornalista norte-americano traça ainda são”, explicou o próprio Victor, em entrevista “A imprensa norte-americana é 100% confazer da nossa revista um fórum internacional concedida por e-mail ao Jornal da ABI. um paralelo entre a CJR e a sua versão brasitra a censura governamental. Especialmente a serviço desse tema – a imprensa, sua histó“Quanto ao primeiro aspecto, eu argumenleira. Fundada em 1961 pela Escola de Pósem nome da segurança nacional, os governos ria e seus desafios. Mas pretendemos cumprir Graduação de Jornalismo da Universidade de tei que é um erro confundir o Jornalismo de têm tentado limitar a sua capacidade de relaesse objetivo com olhos na realidade do públiOpinião com blogs opinativos. Exemplos de Columbia, a revista é publicada seis vezes por tar o que encontra. Minha própria experiência co brasileiro. Queremos ser úteis para estudanJornalismo de Opinião feito com seriedade, ano e tem como princípio estimular a excelência é que, nos dias de hoje, as restrições sobre a lites, professores e profissionais brasileiros.” no jornalismo e busca examinar o desempenho incluindo aí opiniões críticas à própria imprenberdade de expressão acontecem em decorrênsa, são revistas como The Nation e The Natioda imprensa no cotidiano, assim como as cia da concentração dos grandes grupos de mídia Reflexões nal Review, ambas nos Estados Unidos, além da ameaças que afetam a sua atuação. Proposta nas mãos de poucos e da terrível autocensura. Questionado se ainda é verdadeira a afirmaeditorial que segue inalterada até hoje, garanThe New Statesman e The Spectator, estas no Mas, comparado com a maioria dos países, há ção de que o jornalismo nos Estados Unidos se Reino Unido. Eu cheguei mesmo a tratar do te Victor. “Talvez o que tenha mudado neste menos censura nos Estados Unidos”, avalia ele, concentra demais em questões nacionais, sem tema, que sempre gera um grande número de período foi que, além do foco nos tradicionais que traça um retrato bastante diferente de um importar-se com o que acontece no resto do jornais e publicações impressas, a cobertura da perguntas, em meu livro A Matter of Opinion passado nem tão distante da mídia em seu país. mundo, Victor adota uma postura crítica, mas (Uma Questão de Opinião). Já no aspecto relarevista passou a ser muito mais ampla. Ela é “Durante os anos do chamado macarthistambém cautelosa. “Os Estados Unidos potivo à livre expressão, abordei tópicos como a também interessada em explorar novos modemo, na década de 1950, quando a Guerra Fria dem e devem fazer melhor. Mas depende de que los de negócios.” Primeira Emenda e o Iluminismo, bem como estava muito aquecida, houve grandes pressões revistas, jornais e programas de televisão você a censura do Estado, a censura privada, esta sobre a imprensa para enquadrar a maioria das está falando. Canais de tv a cabo e semanáriexacerbada pela mídia monopolista, e a autoDesafios no horizonte notícias, em termos de defesa irrestrita do chaos de opinião como a The New Republic, The WeA revista da ESPM tem periodicidade tricensura”, disse Victor. mado ‘mundo livre’, liderado pelos Estados ekly Standard, The Nation e National Review são A chefia da Redação da Revista de Jornalismo mestral e tiragem média de 20 mil exemplares. Unidos, contra o ‘mundo totalitário’, comanmais propensos a dar maior atenção às quesESPM é de Eugênio Bucci, que dirige o curso de No próximo ano, o projeto prevê que a publidado pela então União Soviética. Este enquadratões internacionais. Mas é sempre perigoso gecação ganhe uma versão online, exatamente Pós-Graduação em Jornalismo da instituição, mento simplista dos eventos foi acompanhaneralizar, já que isso depende de quais questões e também conversou com o Jornal da ABI. como sua matriz norte-americana. A ousadia do pelo ‘grande medo’ da chamada conspiração internacionais estamos falando. Os meios de “Creio que estreamos razoavelmente bem. do projeto foi fundamental para que acontemundial comunista – pavor ventilado e aquecomunicação mais populares dos Estados cesse a parceria entre as instituições do Brasil Temos ainda falhas, temos limitações, mas não cido pelo FBI , pelo Senador McCarthy e sua laia Unidos dão um monte de espaço para o terrohá exagero em manter uma expectativa de que e dos Estados Unidos. “A ESPM nos procurou no congresso. Esse sentimento permeou toda a rismo internacional. E mais espaço para a rapidamente teremos uma velocidade de crupropondo que embarcássemos nesta colaboranossa sociedade, mas vale registrar que muitos cobertura do Oriente Médio do que a imprenzeiro satisfatória, com um padrão aceitável”, ção. Tivemos uma série de reuniões e, ao troresistiram a essa imposição, incluindo aí elemensa da América Latina.” afirmou, quando questionado sobre sua avacarmos idéias, descobri que todo o pessoal do tos da imprensa. Com o fim da guerra do VieVictor acredita que o status de ‘Quarto liação a respeito do primeiro número da publiBrasil estava, de fato, entusiasmado. É muito tnã, felizmente a Guerra Fria, travada no camPoder’ conferido à imprensa está mais forte do cação, que traz como matéria de capa a visão cedo ainda para saber o quão importante essa po político e psicológico, parece ter diminuído, que nunca. Reconhece, porém, que há mudande Victor Navasky sobre a parceria entre a troca de experiências vai ser. Mas posso afirmar aliviando a pressão sobre a imprensa.” ças importantes em curso no país. Os jornais

Os desafios do Jornalismo no mundo sem fronteiras

RUBENS CHIRI/PERSPECTIVA

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BALANÇO MARCELLO CASAL JR./ABR

A RIO+20 AQUECEU AS REDAÇÕES Se do ponto de vista dos seus principais objetivos a Conferência Internacional das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, não agradou plenamente a boa parte dos seus participantes, por causa do adiamento de decisões importantes sobre o futuro do Planeta, em relação ao trabalho desempenhado pela imprensa, nacional e estrangeira, e pela mídia de maneira geral, a avaliação foi altamente positiva. P OR J OSÉ R EINALDO M ARQUES

Espaço privilegiado

Realizada entre 13 e 22 de junho, a Conferência da Onu atraiu a atenção do mundo inteiro. De acordo com seus organizadores, entre Chefes de Estado e de Governos, representantes de organizações civis e ambientalistas, o encontro teve a participação direta em solo brasileiro de mais 45 mil pessoas. Doze mil jornalistas fizeram a cobertura da Rio+20, segundo informou ao portal Comunique-se Ana Julião, Diretora da agência In Press Porter Novelli, responsável pela comunicação do evento. Fontes não oficiais estimam que 5 mil profissionais da mídia internacional vieram ao Brasil para cobrir a Conferência. A Onu credenciou 4.078 profissionais de veículos de comunicação (repórteres, editores, fotojornalistas, cinegrafistas, produtores e técnicos), que ficaram encarregados de produzir os noticiários sobre as cúpulas realizadas dentro da Arena principal da Rio+20, no Riocentro, no bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste. A entidade informou que não podia fornecer a nacionalidade desses profissionais. Até bolsas de estudos foram oferecidas para que 21 jornalistas de 18 países pudessem participar da Conferência. A iniciativa partiu da organização O Eco e da organização não-governamental Internews, que criaram um programa de bolsas para ajudar profissionais de diversas nacionalidades que encontram dificuldades para “reportar sobre desenvolvimento sustentável”, conforme explicou o Diretor da Rede Earth Journalism Network da Internews, James Fahn. O programa beneficiou representantes da Argentina, Brasil, Butão, China, Colômbia, Dinamarca, Equador, Espanha, Estados Unidos, Índia, Indonésia, México, Montenegro, Nigéria, Quênia, Paraguai, Peru e Sérvia. No período de dez dias, os jornalistas participaram de um programa de treinamento nos principais temas da reunião internacional e tiveram encontros com fontes governamentais, sociedade civil e organismos multilaterais.

A Rio+20 mudou completamente a rotina da Cidade, desde os aspectos como trânsito e mobilidade aos padrões de comportamento, devido ao caldeirão multirracial e ideológico que ocupou espaços como Riocentro, palco central da Conferência; a Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo; e o Espaço Humanidade 2012, no Forte de Copacabana. A variedade de pautas e fontes disponíveis para os jornalistas foi muito atraente. Eles puderam abordar com profundidade temas como sustentabilidade, política, economia e diplomacia, além dos protestos organizados por diversos grupos da sociedade civil, formados por índios, estudantes, ambientalistas e mulheres que, em grande número, ocuparam as ruas centrais da cidade. É claro que um evento internacional como a Rio+20, que contou com a participação de lideranças mundiais, entre as quais a anfitriã Presidente Dilma Rousseff, apesar de ausências importantes, como a do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e do Premiê britânico David Cameron, só poderia mesmo ocupar um espaço privilegiado na mídia. Todas as emissoras de rádio e televisão espalharam repórteres, fotojornalistas e cinegrafistas pelas áreas da Cidade onde foram realizados os eventos paralelos da Rio+20. A TV Globo e a Globo News instalaram estúdios em locais próximos ao evento para onde foram deslocados os apresentadores e comentaristas, como Ana Paula Araújo, André Trigueiro, Márcio Gomes, Patrícia Poeta, Leila Sterenberg, Eduardo Grilo e Miriam Leitão, com entradas nos principais telejornais e programas das duas emissoras. As TVs Brasil, Band, SBT e Record também tiveram participação atuante na Rio+20, por meio da produção de reportagens especiais sobre os principais debates da Conferência e entradas ao vivo durante as coletivas da cúpula dos Chefes de Estado, além de matérias factuais registradas nos locais onde foram realizados os eventos paralelos da Conferência, como a

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Cúpula dos Povos, no Aterro do Flamengo. A coordenação do pool de transmissão das emissoras nacionais foi da EBC, a Empresa Brasileira de Comunicação. Para facilitar o trabalho dos jornalistas, a organização da Rio+20 montou um Centro de Imprensa no Riocentro, com cerca de 600 estações de trabalho com internet sem fio, além de telões mostrando conteúdos produzidos pela TV Onu e em webcast, apresentados em vários idiomas e também por meio de traduções. A subeditora de Cidade do jornal O Dia, Daniela Dariano, atuou na Rio+20 fazendo matérias de comportamento. Ela elogiou a infra-estrutura montada para atender aos jornalistas, mas criticou o acesso dos profissionais aos principais fóruns de discussão. “Em termos de infra-estrutura funcionou muito bem. Mas achei que os repórteres que foram ao Riocentro para cobrir as discussões com os Chefes de Estado foram prejudicados, porque não tiveram acesso aos pavilhões e foram obrigados a acompanhar tudo por um telão ou pelo monitor do computador no Centro de Imprensa, a não ser quando eram convocados para uma coletiva. Ou seja, era como se estivessem fazendo a cobertura de dentro da própria Redação”, disse Daniela. Prioridade nas Redações

A cobertura da Rio+20 pelos veículos de imprensa brasileiros foi um trabalho muito bem planejado, que resultou na publicação de cadernos especiais, como fizeram O Globo e o Estadão, e de espaços privilegiados nos cadernos tradicionais, a exemplo da Folha de S. Paulo, que publicou a série de matérias sobre a Conferência nas páginas do caderno Cotidiano. Segundo o Editor-Executivo da Folha, Sérgio Dávila, a cobertura da Conferência foi uma das prioridades do ano para o jornal. “É o maior encontro para discussão de questões do clima e ambientais em décadas. Não poderíamos deixar de cobrir bem”, explicou. O jornal iniciou o planejamento da cobertura da Conferência no meio do

ano passado, quando iniciou a preparação da agenda do ano seguinte, e envolveu cerca de 20 profissionais na produção desse trabalho. Dávila observa que um evento internacional como a Rio+20 acaba provocando uma hipercobertura, com muitos jornalistas, de muitos veículos, olhando para o mesmo acontecimento: “Para diferenciar-se, cabia à Folha encontrar o olhar original, a informação exclusiva, o enfoque inesperado. Achamos que conseguimos isso com as colunas de Luiz Felipe Pondé, por exemplo, ou José Eli da Veiga, e com textos como Países que enviaram governantes representam 44% do PIB dos 30 mais ricos, contra 70% de 92 (Rio+20), de Fernando Rodrigues. Para dar conta do caderno Vida/Planeta Rio+20 o Estadão preparou uma equipe com 23 chefes e repórteres da Sucursal do Rio e cinco fotógrafos, que ganhou o reforço de quatro profissionais da sede do jornal em São Paulo e três do escritório de Brasília. A Rádio e a TV Estadão enviaram dois repórteres e um cinegrafista, respectivamente, e o jornal também publicou artigos do jornalista Washington Novaes, que é especialista em questões ambientais. A coordenação-geral do trabalho foi do jornalista Marcelo Beraba, atual Diretor da Sucursal do Estadão no Rio. “Fizemos uma cobertura bem extensa, com a produção de um caderno de seis páginas diárias com a preocupação de levar a sério a Conferência inserindo nesse trabalho os nossos jornalistas mais qualificados para uma cobertura dessa natureza”, disse Beraba, assinalando que a Conferência da Onu é um evento que exige muito conhecimento dos profissionais escalados para fazer a sua cobertura. Por isso o Estadão enviou de São Paulo Herton Escobar, especialista em ciências, e Fernando Dantas, da Economia, além de Marta Salomon, de Brasília, que domina políticas públicas e meio ambiente. “O clima da cobertura da Rio+20 exigiu um comportamento histórico, e nós


ANA CAROLINA FERNANDES/FOLHAIMAGEM

conseguimos combinar seriedade com análise crítica do impacto da Conferência na Cidade, entretenimento, cultura, protestos e passeatas. Foi o que consideramos uma cobertura de conteúdo abrangente e aprofundado, com pessoas qualificadas que conhecem bem a diplomacia e as principais questões que estavam sendo tratadas na Conferência”, disse Beraba. Riqueza de fontes

O jornal O Globo destacou uma equipe grande para fazer a cobertura da Rio+20, formada com 50 profissionais produzindo conteúdo para as plataformas de mídia impressa e online. O Chefe de Reportagem Luiz Carlos Cascon elogiou o resultado final do trabalho e disse que o principal para o jornal na cobertura da Conferência das Nações Unidas foi contar com o envolvimento de profissionais de quase todas as editorias, desde os mais experientes ao pessoal mais novo. “Acho que um dos diferenciais do Globo nessa cobertura foi a capacidade e o profissionalismo da equipe mesclada com o pessoal mais novo e os repórteres mais experientes, profissionais mais capacitados em suas áreas específicas, como a Ramona Ordoñez, especialista em energia, com grande capacidade de avaliação dos assuntos debatidos na Conferência”, disse Cascon. Um dos integrantes da equipe do Globo com mais experiência na cobertura da Rio+20 foi o repórter da editoria Ciência e Vida, Cláudio Mota. Ele considerou boa a infra-estrutura do encontro e disse que o mais importante para um jornalista desenvolver um bom trabalho em um evento de porte internacional – com a participação de Chefes de Estado e de Governo debatendo assuntos de extrema relevância e de interesse público – é não deixar para se preparar em cima da hora e buscar o quanto antes o maior volume de informações possíveis sobre os temas que estarão no foco do seu trabalho. “Em um evento como a Rio+20 o principal é o jornalista saber com antecipação os assuntos que vai tratar e que fontes poderá consultar. Não dá para achar que se trata de um factual, essa seria a receita para não conseguir fazer um bom trabalho”, observa Cláudio Mota. Como a equipe do jornal era muito grande, os repórteres foram divididos em grupos e Cláudio escolheu escrever sobre questões científicas relacionadas aos oceanos, tema que é uma das suas especialidades. Ele lamentou que o documento final da Rio+20 tenha apresentado poucos avanços nesse ponto, como era esperado por ambientalistas e outros especialistas no assunto. Mota considerou que a Conferência ofereceu no aspecto jornalístico um cenário muito especial para os jornalistas trabalharem. “O acesso pessoal que tive aos especialistas que estavam disponíveis para falar sobre os temas foi muito bom, inclusive porque depois dos primeiros contatos eles passaram a me procurar. O número de cartões de visita de fontes importantíssimas que eu ganhei é um grande legado pessoal, que vai enriquecer o meu trabalho daqui por diante”, disse Mota.

Jaguar doente e cheio de humor

O

cartunista Jaguar, 80 anos, revelou no sábado 21 de julho, em sua coluna semanal no jornal O Dia que tem cirrose e câncer. Ele foi internado no dia 9 no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, para ser submetido a uma cirurgia. Segundo seu amigo Aroeira, também cartunista, Jaguar se recupera bem e não quer falar com a imprensa. Jaguar comentou sua doença e sua operação em duas crônicas: além da do dia 21, voltou ao assunto no sábado seguinte, dia 28. Na primeira, sob o título ‘Piscina olímpica’ ele afirma que nos últimos 62 anos deve ter bebido o equivalente a uma piscina olímpica e que o diagnóstico apontou para carcinoma hépato celular (CHC) em avançado estágio. Caso a operação não fosse feita, disselhe o médico, “você vai ter entre 2 a 20 dias de vida, na melhor das hipóteses”. Na segunda crônica, ele retificou o cálculo constante da primeira: bebeu 11 caminhões-pipa de cerveja, sem contar os destilados. São transcritos a seguir os textos de Jaguar publicados em O Dia.

Piscina de cerveja Uma piscina olímpica, no mínimo, foi o que bebi nos últimos 62 anos (completei 80 há 7 meses e bebo desde os 18). Para ficar só nas cervejas, sem falar nos vinhos e nos destilados: cachaça, underberg, bagaceira, grapa, tequila, steinhager, pisco, conhaque, rum, aquavit, gim, sakê, até absinto. E mil coquetéis, do Hi-Fi ao dry-martini. Durante esse tempo todo, consumi no mínimo uns 5 litros por dia da loura gelada, façam as contas. Quem persevera sempre alcança: fui fazer um checape de rotina e deu cirrose em estágio pra lá de avançado e vários cânceres (tem plural?), no que os antigos boêmios chamavam carinhosamente de figueiredo. Em linguagem técnica, eu estava com CHC (carcinoma hépato celular). O médico do Chico Caruso aconselhou procurar o maior oncologista (especializado em câncer), com consultório em São Paulo. Ele foi sucinto. “Precisa operar imediatamente”. Levei um susto. Cheguei aos 80 sem um furo no meu corpo, exceto os que já nasci com eles. “E se não quiser operar, doutor ?” “Você vai ter entre 2 a 20 dias de vida, na melhor das hipóteses”. Achei um exagero: “Mas não sinto nada, nenhuma dor”. “ Você é um caso raro. Qualquer um no seu

estado teria náuseas, dor e febre”. “Depois da operação posso voltar a beber?” Como o corvo de Edgar Allan Poe, respondeu: “Nunca mais”. “Então deixa pra lá, o que tinha que fazer fiz e o que não fiz não farei mais.” O resto da vida vendo tevê, lendo jornal ou jogando biriba no Posto 6 com outros velhinhos. Mas não houve jeito de escapar. Célia me internou no Hospital Sírio-Libanês, o mesmo onde estiveram Lula e a Presidenta. Antes almoçamos no Gero com drymartinis, vinho e underberg. Pelo menos minha presumida última refeição foi bem melhor que a de Cristo. Quando chegamos, havia uma multidão de fotógrafos e cinegrafistas. “Como descobriram? Só os médicos, Célia e eu sabíamos”. Ledo Ivo engano (licença, Sérgio Porto). Estavam na porta do hospital para cobrir a saída de Pedro, filho do cantor sertanejo Leonardo. No meu tempo era cantor caipira, com chapéu de palha e botina. Agora é chapéu texano, muita jóia e botas de grife.

Adeus alambiques Desde que contei o procedimento (operação, para os antigos) no Sírio-Libanês, o telefone não parou. A crônica terminou com minha entrada no hospital anunciando que continuaria

hoje. O pessoal entendeu que eu praticamente estava com o pé na cova. Então vou contar tudo e depois não se fala mais nisso, tá? Resumindo: os médicos disseram que eu tinha que extirpar o quanto antes tumores que boiavam na minha cirrose. Caso contrário, eu não duraria um mês. Me internei, ou melhor, me hospedei, porque parece um hotel 5 estrelas. Ocupa um quarteirão, todo iluminado dia e noite. Lá trabalham 3.200 pessoas. E não tem a chamada “comida de hospital”. No restaurante, o serviço é a la carte, só não tem carta de vinhos, é claro. Adorei a cama com controle remoto, só falta cantar nana neném. Ah, sim o tal procedimento: meu corpinho continua sem nenhum furo, exceto os de nascença. Enfiaram numa artéria um catéter que vai até o fígado e cauteriza os tumores. Para resumir: estou com uma ponte de safena, só que hepática. Quando tive alta, fomos almoçar num restaurante, com direito à presença de Maluf, na mesa ao lado. Pediu ao garçom o prato do dia: robalo. Daqui pra frente, álcool zero. “O homem se acostuma com tudo” (Dostoiévski e Woody Allen). O problema não é deixar o álcool, é o álcool me deixar. Ninguém acredita que parei de beber, principalmente os garçons. Disse anteriormente que já sorvi uma piscina olímpica. Exagero. Refiz as contas (os números estão no Google) e constatei que bebi, em 62 anos (dos 18 aos 80), 11 caminhõespipas de cerveja, além dos destilados e fermentados. E agora? Beber o quê? Achei tudo enjoativo, do guaraná a cerveja sem álcool. Ironia do destino: a melhor coisa que descobri foi uma coisa que raramente tinha bebido depois de adulto: água. Para minhas insônias, costumo engolir antes de deitar um comprimido de Stilnox. Agora, troquei por um sonífero muito mais poderoso: o replay do jogo da nossa seleção olímpica 3 contra o Egito 2, gols de Ramsés e Tutankamon.

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MUNIR AHMED

VEÍCULOS

Caros Amigos: 15 anos de resistência na informação Revista fundada por Sérgio de Souza, um dos criadores de Realidade, sobrevive com dificuldades mas sustenta com vigor as idéias de liberdade e justiça social.

P OR E DUARDO S Á

Em abril a revista Caros Amigos completou 15 anos de existência, sempre proporcionando à sociedade uma informação crítica e independente. O projeto se tornou uma das referências da mídia alternativa no Brasil. A Editora Casa Amarela, responsável pela revista, é sediada em São Paulo, mas sua publicação mensal circula por todo o País. Em sua página na internet (www.carosamigos.com.br) também são veiculadas notícias de interesse nacional e internacional. As entrevistas e reportagens longas são suas principais características, além dos colunistas fixos. O próprio formato da revista já mostra que ela não busca o convencional. Em entrevista ao Jornal da ABI, Hamilton Octavio de Souza, jornalista, editor da Caros Amigos e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, conta a história da revista e analisa a conjuntura política e midiática no Brasil. Ele diz que há um monopólio na distribuição de revistas impressas nacionais e os meios de comunicação devem assumir urgentemente compromisso com a transformação. Na sua visão, a mídia dominante usa o seu poder para sustentar ideologicamente o sistema capitalista e são necessárias mais vozes críticas ao modelo de sociedade hegemônico. Jornal da ABI – Gostaria que você iniciasse falando da sua vida profissional e como ingressou na Caros Amigos.

Hamilton de Souza – Tenho 40 anos de jornalismo profissional. Comecei no jornal O Estado de S. Paulo em 1972, no período em que o jornal fazia críticas à ditadura, passei pela Folha de S. Paulo na época da campanha das Diretas e por outros jornais e revistas do mercado. Ao mesmo tempo fui colaborador e apoiador de inúmeras publicações alternativas, como Movimento, Brasil Mulher, Jornal da Vila, Manifesto etc. Trabalhei na Tribuna Metalúrgica de São Bernardo do Campo e fui editor da revista Sem Terra, do MST, por mais de cinco anos. Fui 16

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colunista dos jornais Brasil de Fato, Cantareira e Correio do Brasil e de vários jornais e sites do interior de São Paulo. Tive uma coluna sobre mídia na Caros Amigos a partir de 2004 e em março de 2009 assumi a função de Editor-Chefe da revista, onde permaneço até hoje. Jornal da ABI – Como surgiu a revista, qual a sua história?

Hamilton de Souza – A revista Caros Amigos foi criada pelo jornalista Sérgio de Souza – e um grupo de amigos jornalistas e publicitários – em 1997. Completou em abril 15 anos de resistência. A proposta original era fazer uma revista crítica ao pensamento único neoliberal, que dominava a maior parte da imprensa na época. Uma revista com grandes entrevistas e muitos articulistas, com mais liberdade para os autores das reportagens e dos artigos. A revista cresceu, conquistou um grande público porque era bastante crítica ao Governo FHC. Chegou a vender mais de 35 mil exemplares nas bancas. Depois, a partir do Governo Lula, em 2003, a revista começou a perder leitores porque ficou numa linha editorial mais governista. De 2009 para cá tentamos recuperar o prestígio da Caros Amigos com mais empenho na qualidade jornalística, com boas reportagens e boas entrevistas, com uma linha editorial mais independente em relação aos Governos e partidos, com material mais crítico e mais comprometido com as posições da esquerda. A revista se mantém com muita dificuldade financeira, tem bom respaldo do público-leitor, mas recebe pouca publicidade. A Caros Amigos tem uma tiragem de 32 mil exemplares, sendo que vende em bancas de 7 mil a 8 mil exemplares, e tem atualmente perto de 10 mil assinantes (varia um pouco todo mês com renovação e novos assinantes). Além disso, as edições especiais (uma por bimestre) vendem entre 5 mil e 6 mil exemplares. O site tem este ano uma média mensal de 100 mil visitantes/mês. Jornal da ABI – No momento em que a Caros Amigos assume uma linha editorial

mais governista, a revista começa a perder prestígio. Isso quer dizer que uma publicação nunca deve se alinhar a um Governo para não perder leitores?

Hamilton de Souza – Não creio que a relação seja automática e definitiva. Não dá para dizer que toda publicação que se torna governista perde prestígio. No caso da Caros Amigos, ela conquistou leitores com uma revista crítica ao Governo FHC e ao neoliberalismo dominante na época. Vale lembrar que a revista foi criada em 1997 e atingiu o seu pico histórico de vendas em 2002. Com a posse do Lula, em 2003, boa parte das entrevistas e dos articulistas passaram a defender o novo Governo, mesmo durante a crise do mensalão, as várias dissidências no PT, os seguidos escândalos no alto escalão do Governo e as alianças com Sarney, Calheiros, Barbalho, Maluf, Fiesp, agronegócio, etc. O fato é que a revista perdeu muitos leitores a partir de 2003, a venda em banca despencou, tanto é que por volta de 2007 e 2008 circulou o boato de que a Caros Amigos estava para fechar as portas. Tudo indicava que a revista perdia leitores porque o seu projeto estava cansado, esgotado e que precisava retomar o caminho do jornalismo crítico ao neoliberalismo. A virada aconteceu em 2009. Agora já se pode dizer que a revista conseguiu superar o momento mais difícil da crise de identidade. Jornal da ABI – Na sua opinião, qual é o legado de Sérgio de Souza para o jornalismo brasileiro?

Hamilton de Souza – O Sérgio de Souza deu grande contribuição para o jornalismo brasileiro. Criou inúmeras publicações e por onde passou (nas Redações em que

trabalhou) deixou a marca de um jornalismo aberto, democrático, criativo e preocupado com as transformações sociais. No caso da Caros Amigos, ele foi o grande mentor e articulador da revista. Só ele poderia reunir numa publicação pessoas tão diferentes e conseguir um mix (de entrevistas, reportagens, articulistas, colunistas) que tenha funcionado muito bem num momento de total mediocridade do jornalismo brasileiro. Com a morte do Sérgio de Souza, em 2008, a revista precisava encontrar outro caminho, já que não contava mais com o seu idealizador. E o caminho encontrado foi o de fazer ajustes no projeto original e buscar uma definição mais clara de linha editorial no campo da esquerda. A maior parte dos colaboradores da Caros Amigos ainda é constituída por amigos convidados pelo Sérgio de Souza. Jornal da ABI – Por que o projeto tem realizado ultimamente algumas mudanças editoriais e gráficas?

Hamilton de Souza – O projeto da Caros Amigos sofreu algumas mudanças em 2008 para reduzir custos gráficos, por exemplo, a mudança de papel. Sofreu depois outras mudanças gráficas para ajustes no projeto editorial, na medida em que reduzimos o número de colaboradores (articulistas) para ampliar o espaço das reportagens. Investimos atualmente mais nas reportagens. Antes de 2010 a revista centrava as edições numa grande entrevista, que dava a foto de capa. Procuramos hoje colocar na capa as chamadas das melhores reportagens e entrevistas. Temos dado duas a três entrevistas por edição e até cinco boas reportagens. E man-


Juca Kfouri e Caco Barcelos foram os destaques das duas primeiras edições da Caros Amigos, de 1997. À direita, capas das edições mais recentes, além de uma especial sobre a Comissão da Verdade.

temos uma excelente equipe de articulistas conhecidos e respeitados. Jornal da ABI – A Caros Amigos tem promovido debates políticos sobre temas de relevância nacional. Por quê?

Hamilton de Souza – Na medida do possível (das nossas pernas) organizamos debates e eventos que tenham a ver com o perfil editorial da revista. Isso ajuda a estreitar as relações entre a editora e o público que acompanha o site, a revista e as demais publicações da editora (especiais, fascículos, livros etc). Fizemos em junho novo debate no Tucarena, em São Paulo, sobre “Projetos para o Brasil”. É uma forma de afinar o trabalho jornalístico com o pensamento político atual, além, é claro, de ajudar no marketing da marca Caros Amigos. Jornal da ABI – Entre os anos 1960 e 1980 a imprensa alternativa teve forte participação contra a ditadura que foi instalada no País. Hoje, com o regime democrático, qual o papel que ela desempenha?

Hamilton de Souza – A imprensa alternativa ou contra-hegemônica deve procurar sempre fazer o contraponto à imprensa dominante, que é a imprensa ligada ao capital. Vivemos no chamado “Estado Democrático de Direito”, mas não temos uma democracia verdadeira nos meios de comunicação. Amplos setores da sociedade não têm acesso aos meios e nem sempre podem se expressar. Vivemos numa sociedade com muita desigualdade e muita violência, com total desrespeito aos direitos humanos. Achamos que existe espaço para uma imprensa sensível às lutas dos trabalhadores, aos movimentos sociais e à crítica ao modelo neoliberal. Além disso, sempre é necessário ter uma imprensa independente, crítica, que possa expor e debater com a sociedade todas as mazelas do sistema capitalista. É o papel que tentamos desempenhar. Jornal da ABI – Quais são os principais desafios para se fazer uma comunicação alternativa hoje no Brasil?

Hamilton de Souza – Os desafios são imensos, a começar pela dificuldade de sustentação financeira, de conseguir espaço no mercado e até de fazer a distribuição nacional de revistas impressas, já que existe um monopólio da distribuição. Além disso, existe o baixo poder aquisitivo do povo brasileiro, que impede a maioria de comprar jornais e revistas com freqüência. É claro que uma publicação alternativa precisa contar com respaldo político de setores não contemplados pela imprensa comercial burguesa, precisa ter

solidariedade das esquerdas. Outra dificuldade é encontrar jornalistas dispostos a trabalhar em veículos alternativos, os quais geralmente dispõem de poucos recursos financeiros e de infra-estrutura. Enfim, é uma luta árdua, que é compensada pela satisfação de saber que a imprensa alternativa cumpre um papel relevante de elevar o nível da consciência sobre a realidade do Brasil e do mundo. Jornal da ABI – Mas essa visão de “publicação alternativa” na realidade não seria um equívoco mercadológico, na medida em que deveria existir no Brasil uma imprensa plural, que representasse diversos setores da sociedade democrática?

Hamilton de Souza – Pode ser um equívoco ou pode ser uma marca, um diferenciador ideológico e referencial. Ao longo dos 200 anos de história do jornalismo brasileiro sempre tivemos jornais e revistas que não fazem parte do esquema das classes dominantes; sempre tivemos veículos ligados às lutas dos trabalhadores e às correntes de pensamento contrárias ao capitalismo. Sempre tivemos imprensa libertária, anarquista, socialista e comunista. Durante a ditadura militar (1964-1985), a imprensa contra-hegemônica e alternativa – também chamada de nanica – assumiu a luta pela democracia, contra o autoritarismo, contra as violências do Estado. No quadro atual, o que chamamos de imprensa alternativa é o jornalismo que não se alinha com o pensamento neoliberal. Jornal da ABI – Mas também não falta ousadia aos homens de mídia e aos grandes empresários, que desprezam uma fatia tão importante da população, como os leitores de publicações à esquerda? Afinal, eles têm necessidades de consumo como qualquer outra pessoa e têm um perfil econômico e cultural bem qualificado. Na sua opinião por que a publicidade despreza esse grande mercado consumidor no Brasil?

Hamilton de Souza – A publicidade privada procura fortalecer os veículos do mercado. Também sempre foi assim. A mídia liberal e neoliberal concentra a maior fatia das verbas privadas de publicidade nos veículos que defendem a sociedade capitalista. Poucos anunciantes privados colocam anúncios na mídia contra-hegemônica, dos trabalhadores ou de esquerda. Quem tem o dever de democratizar as verbas publicitárias são os poderes públicos, na medida em que deveriam contemplar todos os veículos da sociedade, sem fazer discriminação, os que expressam o poder dominante e os que expressam os interesses populares, dos trabalhadores e de todos aqueles que acredi-

tam num outro sistema político-econômico. O movimento pela democratização da comunicação social no Brasil defende que as verbas publicitárias também sejam distribuídas de forma equitativa para todos os meios. Isso sim é iniciar um processo de democratização da comunicação. Estamos esperando que essa democratização aconteça desde o Governo Lula, mas mesmo no Governo Dilma Rousseff não há a menor sinalização nessa direção. Por isso não devemos ter ilusão, devemos continuar lutando contra esse modelo das classes dominantes. Jornal da ABI – Qual é a sua avaliação sobre o cenário atual das comunicações no Brasil?

Hamilton de Souza – Vivemos um momento de grande contradição: de um lado o modelo econômico favorece a concentração dos meios em poucos oligopólios, que dominam e controlam a informação que circula no mundo; de outro lado existe uma pressão cada vez maior da sociedade para que o Estado adote medidas no sentido da democratização. Para que o Brasil possa avançar em transformações sociais, econômicas e políticas (mais democracia, menos desigualdade, maior respeito aos direitos humanos) é preciso urgentemente que os meios de comunicação (rádio, tv, jornais e revistas) assumam compromissos com a transformação. É preciso muito mais veículos com críticas e combate direto ao sistema capitalista, já que a mídia dominante usa o seu grande poder para sustentação ideológica desse sistema. Jornal da ABI – O que a internet tem feito ou tem a fazer nesse contexto?

Hamilton de Souza – A internet ainda tenta escapar do controle do sistema, mas já é uma ferramenta a mais para fortalecer o capitalismo. A tendência é aumentar o controle da internet pela ordem estabelecida. As mensagens comerciais ganham em muito das mensagens libertárias e contra-hegemônicas. Os sites mais visitados são os mesmos dos comunicadores que dispõem de maior espaço nos veículos (tv, rádio, jornais) da mídia empresarial tradicional. É preciso reforçar e defender o espaço de liberdade na internet, especialmente do que está ligado às lutas dos trabalhadores e às transformações sociais e políticas. Jornal da ABI – As universidades têm formado bons repórteres? Qual é o perfil dos jornalistas hoje?

Hamilton de Souza – As universidades brasileiras estão perdidas porque elas não estão sintonizadas com nenhum projeto de nação. Elas estão apenas preocupadas

em formar mão-de-obra para o mercado, o que significa não se preocupar com a pesquisa, a experimentação, a inovação e o contato com o povo brasileiro. Poucas universidades se relacionam com os movimentos sociais, poucas interagem com os excluídos, explorados e oprimidos. Portanto, a universidade – e os cursos de Jornalismo não escapam dessa lógica – não tem conseguido contribuir de forma efetiva para as transformações que a sociedade brasileira está a demandar há muitos anos. Qual é o projeto de país? Manter o consumo para garantir o funcionamento da economia? Falta envolver a universidade num projeto de inclusão, igualdade e justiça – com o Jornalismo envolvido nesse projeto. Assim todo mundo saberá por que está fazendo Jornalismo. Jornal da ABI – Como você avalia a atual conjuntura brasileira e o que é prioridade para conquistarmos mais avanços no sentido de uma sociedade mais justa?

Hamilton de Souza – Para reverter o quadro de concentração da renda e da riqueza, para promover a justiça e alcançar um patamar de igualdade e direitos para todos, é preciso combater os privilégios, é preciso enfrentar os que levam vantagem no Brasil atual. Para isso acontecer é preciso organização popular, que os trabalhadores voltem à cena política, que a esquerda lute realmente contra o capital, que o Estado assuma mesmo o papel de defensor de políticas para a maioria. A crise tende a se agravar. As forças anticapitalistas precisam se organizar e entrar na luta.

Jornal da ABI – Há pouco tempo a revista mudou seu logotipo para “Caros Amigos – A primeira à esquerda”. Por que e qual é a esquerda hoje no Brasil?

Hamilton de Souza – Podemos ter várias compreensões para a designação esquerda. A começar pela defesa intransigente da igualdade, como demarcou Norberto Bobbio. No nosso caso, penso que podemos ter uma proposta editorial no campo da esquerda desde que a gente procure pautar os assuntos relacionados com as mazelas produzidas pelo capitalismo, pelo coronelismo, pelos resquícios de escravismo ainda presentes na sociedade brasileira. Acho que defender a igualdade e os direitos humanos (moradia, saúde, educação, cultura, comunicação etc) já é atuar na oposição ao neoliberalismo. Defendemos o fim dos privilégios e das discriminações, dos preconceitos e da violência do Estado contra todos os que lutam por seus direitos fundamentais. É isso que queremos dizer com esquerda, hoje, no Brasil. (Colaborou Francisco Ucha)

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TRAJETÓRIAS

Jornalistas contam como se iniciaram na profissão, em estágios que valeram por um curso. P OR R OGÉRIO M ARQUES

DALCIO MALTA/ÁLBUM JOTABENIANO

R OMILDO G UERRANTE

“O JB era a grande escola da garra jornalística” Nos quase 20 anos que passei na Redação do Jornal do Brasil, inicialmente na velha sede da Avenida Rio Branco e depois na Avenida Brasil, quando o entorno do prédio novo era um vasto manguezal cheio de sapos, aprendi cotidianamente a fazer jornal com a experiência daqueles que lá encontrei, com a curiosidade, a intuição, o faro, o método e a fome pela notícia dos que labutavam naquela casa. Um corte pra voltar no tempo e exemplificar. Meados da década de 70. Chega pelo telex mais uma das muitas proibições da Polícia Federal. Era proibido noticiar a morte do médico fulano de tal. Armando Strozenberg, chefe de Reportagem, me passa cópia do telex para eu apurar quem é esse médico e por que estão proibindo a divulgação. Ligo para o Conselho Regional de Medicina, a moça me enrola e, depois de algumas consultas, me diz que não pode dar essa informação por telefone. Corro ao Conselho. Na ante-sala, onde conversavam três senhores, falo com a mocinha que me atendera ao telefone. Ao ouvir a menção do nome do médico, um dos cidadãos que estavam conversando, o mais velho deles, me disse, ao saber que eu era do JB e que estava interessado em dados do médico, que eu tivesse cuidado com o que iria escrever, porque o morto era o médico do presidente Geisel. E disse mais: morreu em Nova Friburgo. Quase explodi de ansiedade. Peguei os dados da ficha do médico e saí voando de lá para arranjar um telefone. Não existia celular e os telefones normais não davam linha, esperava-se uma eternidade. Mesmo assim, consegui falar com a Redação. Armando me disse: Pega um carro e um fotógrafo e se manda pra Friburgo. Decisão típica do JB: para uma boa notícia, não se medem gastos. Nem conforto de repórter. Foi o que fiz, com a roupa do corpo, levando comigo o fotógrafo Basílio Calazans, que fez muxoxos de desinteresse quando soube de nossa missão. Calazans já era personagem folclórico no JB pelo hábito que tinha de dizer que não era pre18

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ciso fazer mais fotos de nada, porque havia de tudo na Pesquisa. E ele foi pra Friburgo comigo. Lá, a primeira providência foi comprar agasalhos para nós, inclusive para o motorista Neucy, meu conterrâneo de São Fidélis e um dos melhores parceiros de matérias que tive ao volante dos carros do JB. Foram três dias de penosa apuração. Ninguém queria falar nada, havia temor até da Polícia por causa da circunstância da morte do médico, que fui levantando pouco a pouco. Aos 66 anos, tinha se internado num hotel meio escondido na mata da periferia da cidade para fazer um tratamento experimental de rejuvenescimento. O colega dele que tinha inventado o método comprava cabritas prenhes e as matava no próprio quarto do hotel com choques elétricos sem que as cabritas dessem um ai. Retirava a placenta, fazia um soro e aplicava nas nádegas do paciente. No caso do médico do Geisel, o tratamento acabou causando uma gangrena que veio a matá-lo lá mesmo. Era uma história ótima, de apuração difícil, mas eu desci da Serra meio desanimado por causa da proibição que havia de divulgar o nome do morto. Cheguei à Redação, informei tudo ao Armando e perguntei se era para fazer um relatório para o “livro branco” que guardávamos na pesquisa do JB com as histórias que um dia publicaríamos, quando se levantasse a censura à imprensa. Livro que, conto agora, desapareceu misteriosamente de lá. Armando me disse que não era para livro branco. É matéria. Ponderei quanto à

Prédio da antiga Redação do Jornal do Brasil, na Avenida Rio Branco.

proibição. Faz a sua tarefa, deixa o resto comigo, me disse. No dia seguinte, pra minha surpresa, a matéria estava no jornal, bonitinha, assinada, com muitas fotos – inclusive uma que o Basílio resistiu muito em fazer, que era do criador que fornecia as cabritas prenhes para o tratamento. Li a matéria toda pra ver se o copidesque tinha

mudado muito. A matéria passou pelas mãos do Marcos de Castro, que fez um título muito bonito (“Médico transforma em morte um sonho de juventude”). O texto estava na íntegra. Menos o nome do médico, porque, afinal, o que era proibido, lendo-se ao pé da letra o telex da censura, era a divulgação do nome. Não do fato.


Á LVARO C ALDAS

“Eu conheci no JB dos anos 60/70 a fina flor do jornalismo” Foi em agosto de 1964 que entrei pela primeira vez na Redação do Jornal do Brasil, Avenida Rio Branco,110. Um amplo salão, sem divisórias e aquários, uma mesona comprida no centro atulhada de laudas, telefones pretos e máquinas Olivettis verdes. Nas laterais, mesinhas individuais, gente passando apressada e conversando alto, cinzeiros espalhados por todos os cantos, fumaça de cigarros impregnando o ambiente, com aquela agitação típica de um local de criação. Desordem aparente, nada a ver com os escritórios de hoje. Poucas moças, muitos rapazes. Fazia jornalismo na Faculdade Nacional de Filosofia, a Fnfi, e tinha acabado de ser dispensado de um estágio no Globo, por ter sido visto participando de uma passeata estudantil. Nesta época, trabalhava também no jornal da Une, Movimento e, é claro, misturava as estações. Paguei o preço. Dei uma geral em torno e logo identifiquei, sentado em sua mesa ao fundo, atento na leitura da pauta, o homem que eu procurava. Apresentei-me a ele, Jaime Negreiros, chefe de Reportagem, jovial e simpático, uns 30 anos mas já meio careca, pele clara, vestido em manga de camisa. Nenhuma aparência de chefe. Havia sido indicado por um dos repórteres da casa, o baiano Gildávio Ribeiro, o Praga de Mãe, apelido que herdou de um bandido famoso da época. Algumas perguntas e a primeira tarefa. Cobrir uma manifestação de policiais militares cassados por um dos primeiros atos do golpe de 1964. Mandou descer um fotógrafo e então conheci o bom guerreiro Alberto Jacob. A manifestação era ali perto, na Candelária. Descemos para a rua, Jacob, um experimentado fotógrafo, e um apreensivo foca, em sua primeira missão no respeitado JB, objeto de desejo de todo aspirante a jornalista nos anos sessenta/setenta. Resultado é que graças à foto do Jacob fomos para a primeira página no dia seguinte. Para um primeiro dia, nada mal. Fui contratato como repórter-auxiliar e passei seis anos no JB da Condessa Pereira Carneiro, de onde saí repórter especial, em dezembro de 1969, direto para a clandestinidade. Neste período trabalhei e convivi com a fina flor do jornalismo brasileiro. Na Redação, J.G.Fontes, com sua coleção de prêmios Esso, PC Araújo, Luís Orlando, Beatriz, Abel Matias, Derly Barreto, Bella, Fritz, Tarcísio Holanda, Ivo, Hamilton Almeida, Fernando Pin-

to, Sérgio Galvão. Ali ao lado, uma das invenções do JB, a Pesquisa, covil dos mineiros, hora para um cafezinho com Beluzzo, Clô e Adauto. Na bancada do Esporte, Touguinhó, Dácio Malandro, Marcos de Castro, Trajano, Areosa, Sandro Moreira, Milton Siri. E no andar de cima Hamilton Correa, Jacob, Alberto Ferreira, Ronaldo Theobald, Odyr Amorim, o japa Kazuo e outras feras da fotografia. Caminhando em direção à outra extremidade chegamos ao salão do Copy, a requintada turma do texto final, dos títulos e das chamadas. Cada um em sua mesa, sua Olivetti e seu cigarrinho, lá estavam Lago Burnett, Callado, Esdras Passaes, Campelo, Bandeira, o contista Hélio Pólvora e outros ourives da pro-

sa que às vezes penavam para pentear os textos dos repórteres, com o Silveira e o Fenefa, Avelar, conferindo tudo e contando batidas, editando e diagramando. De vez em quando havia tempo para descer e virar um chopinho rápido no Simpatia, vizinho da Casa José Silva, na Rio Branco. Durante o dia o espaço abrigava o pessoal do B, outra novidade da casa. O editor era o Grisolli, mas ali as mulheres já haviam invadido. E num anexo de porta envidraçada ao lado, com a batuta de regente na mão, Lemos, o secretário, que tocava a orquestra com a supervisão do Dines. Nunca numa Redação nada foi tão simples e tão bem feito. Um senhor jornal. Reencontrei alguns desta memorável trupe anos depois, na sucursal da Folha de S. Paulo, na Presidente Vargas, para onde fui levado pelo mesmo José Silveira, já nos anos oitenta, após o interregno de dois anos e meio nos cárceres na ditadura, seguido de passagens pelo Jornal dos Sports e sucursal do Estadão. Outra coesa e exemplar Redação, a da Folha carioca, moldada pelo estilo e pelas artes do Silveira, que sabia tudo da profissão, das artimanhas do texto aos temperos da cozinha e da edição, profissão que ele sempre exerceu com integridade e paixão.

A NDRÉ L UIZ A ZEVEDO

“A Rádio JB foi o grande aprendizado da minha vida” “Eu era um jovem cabeludo de 20 anos quando a Rádio Jornal do Brasil me deu a primeira carteira funcional de estagiário. E a história para chegar até ela é cheia de armadilhas e suspense. Tinha passado seis meses no O Jornal, dos Diários Associados, já em grande decadência, indo de repórter de polícia a colunista social e crítico gastronômico. Mas tudo sem ganhar um tostão, sem carteira e sem nada. No máximo um vale para o táxi. Era preciso mudar de vida urgentemente. Estava ainda no primeiro ano da Escola de Comunicação da UFRJ quando soube do cursinho do Jornal do Brasil para selecionar estagiários. Fui até lá. A coordenação do curso era do Roberto Quintaes e era o que havia de mais cobiçado e disputado na época. Era ainda no lindo prédio velho da Avenida Rio Branco, 110. Seis andares, elevador de porta pantográfica, a Redação toda junta no terceiro andar com os monstros sagrados do JB da época. Fiz a prova. Fomos chamados para o resultado e eu estava entre os aprovados. Das questões tento lembrar e só me lembro mesmo de uma em que errei feio. Mas escrevi uma besteira tão grande que o Quintaes deve ter gostado pela criatividade. A pergunta era o que é “flan”? A resposta certa, fiquei sabendo pouco depois, é que era um papelão duro usado numa das etapas da antiga impressão a quente dos jornais da época. Na minha santa ig-

norância disse que flan era um pudim, o novo lançamento das gelatinas Royal. Mas o Quintaes anunciou os aprovados e eu estava dentro. Ele explicou ainda que só estavam sendo chamados alunos a partir do terceiro ano da faculdade e que podiam por lei fazer estágio. Eu estava no primeiro ano e tinha sido chamado. Mas aí quase o meu destino de jornalista foi interrompido ali mesmo. Um colega da faculdade (que colega...) pediu para fazer uma conferência nos nomes porque tinha gente do primeiro ano. Fui descoberto. Minha entrada no JB tinha sido barrada. Fui conversar com o Quintaes e ele me ofereceu uma opção. A Rádio Jornal do Brasil tinha uma vaga de estagiário e lá eu podia começar como radialista, mesmo no primeiro ano da faculdade. E foram seis meses de estágio, depois contratação como repórter e o grande aprendizado da minha vida. A Rádio JB nos anos 70 era um veículo poderoso, corajoso, criativo e desafiador na forma e no conteúdo. E era um orgulho ser repórter da Rádio JB. Foram dez anos lá até ser convidado para a Globo. Hoje olho essa carteirinha e vejo pela data que já são quase quarenta anos. O cabelo diminuiu, a barba cresceu e ficou branca, no lugar do microfone da JB agora o da TV Globo, e o trabalho do estagiário continua do mesmo jeito agora com o velho repórter.”

W ILSON M ACHADO

“Minha primeira escala foi na Voga, de Millôr” Era 1950. Eu havia deixado a Revista do Globo, quinzenário da família Bertazo, em Porto Alegre, e seguido para o Rio de Janeiro, em busca de mais espaço no jornalismo de um centro maior. Ainda não era usada a palavra “mídia” a significar imprensa. Minha primeira escala, no Rio, seria na revista Voga, do Millôr Fernandes. A publicação teve vida curta. Logo, por mão amiga, ingressei no jornal O Globo, que era vespertino e ainda lançava uma segunda edição diária. Ali, casei-me com a filha de um dos fundadores do jornal, o jornalista Eurico de Oliveira Matos. Eurico morreu pobre. A empresa lhe pagou o enterro. Na minha jornada de repórter transitei por vários órgãos da imprensa, além do

Globo, Última Hora (Rio e São Paulo), A Hora (RS), Jornal do Brasil, Rádio Guanabara e outros. Minha geração viveu a fase do teletipo, da linotipo e do telefone fixo. O jornal impresso e as emissoras de rádio comandavam o mercado da comunicação. A televisão ainda engatinhava, fraquinha, considerado o que esse meio eletrônico significa hoje, como poder. Alguns jornais impressos minguaram e outros sumiram, entre estes o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, Última Hora, Jornal do Brasil. Muitos jornalistas passaram para a tv. Outros, como eu, botaram o pijama e levaram para cadeira de balanço lembranças de viagens, coberturas e entrevistas no País e no exterior. JORNAL DA ABI 380 • JULHO DE 2012

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TRAJETÓRIAS “EU COMECEI ASSIM”

A RTHUR P OERNER

“Da carteira assinada ao exílio em sete anos” Cheguei à imprensa em 1962, no Jornal do Commercio, mas só em 1º de outubro do ano seguinte, dia em que completava 24 anos, me tornei jornalista na carteira de trabalho, como redator do Correio da Manhã, no copidesque. Eu não podia imaginar o quanto aquele presente de aniversário iria acelerar a minha carreira alguns meses depois, quando o golpe militar guindou o intrépido diário carioca à liderança da resistência à ditadura na imprensa. Abatido pelo golpe, que contara com o beneplácito de três editoriais do jornal contra o Governo do Presidente João Goulart, eu me surpreendi, dois ou três dias depois, numa das principais trincheiras de combate à opressão. Era só seguir a orientação de um quarto editorial, Basta, fora a ditadura!, escrito pelo Otto Maria Carpeaux, e a trilha inaugurada pelo Carlos Heitor Cony com o artigo O ato e o fato; e manter ouvidos, mente e coração abertos para as denúncias dos desmandos e das violências que nos traziam as vítimas da repressão. Virei articulista e, como repórter especial, fui ao Uruguai, para entrevistar Leonel Brizola e outros exilados brasileiros, e à Argélia, para acompanhar a chegada ao exílio de Miguel Arraes. Sem deixar reduzir o trabalho no jornal, assumi a direção do semanário alternativo comunista Folha da Semana e publiquei os meus dois primeiros livros pela Civilização Brasileira; um deles, Argélia: O Caminho da Independência, com prefácio do Carpeaux. Se correu tudo bem? De minha parte, acho que sim. A ditadura deve ter achado que corria bem demais, porque, em 5 de julho de 1966, aos 26 anos e com menos de três de carteira assinada, ouvi na Re-

dação, pelo Repórter Esso, o decreto do Marechal-Presidente Castello Branco que suspendia os meus direitos políticos por 10 anos. O que, dessa vez, não me abateu nem calou, graças, inclusive, ao apoio e à solidariedade dos colegas. O Redator-Chefe, Antônio Callado, chegou a escrever um artigo em que, com a sua britânica ironia, dizia sentir-se injustiçado, como veterano na imprensa, por ainda não haver recebido a “comenda” a que eu fizera jus com menos de quatro anos de jornalismo. Por isso, continuei a participar daquela luta pela democracia, que ainda incluiria uma rocambolesca fuga pelas janelas do diário, com os colegas Franklin de Oliveira e Edmundo Moniz, na noite da decretação do AI-5, quando o jornal foi invadido por forças policiais e militares. A minha saga pessoal no Correio da Manhã se encerrou no início de abril de 1970, quando, com o jornal já silenciado e arrendado a um grupo de empreiteiros, fui preso na Redação e encarcerado por mais de três meses no quartel da PE do I Exército, na Tijuca, o que tornaria impossível a minha permanência no País; a do jornal, que teria completado 110 anos de fundação em 15 de junho passado, acabou em 9 de junho de 1974, quando deixou de circular.

V ANDA V IVEIROS

“Conheci no Correio uma Redação nada ortodoxa” Um colega de trabalho, ao ouvir que eu havia começado a carreira no Correio da Manhã, me chamou num canto e disse: “Você não deveria contar isso, vão achar que você é muito antiga!” Sugeria que eu escondesse o meu orgulho por ter trabalhado, mesmo ao apagar das luzes, no que pode ter sido o jornal mais importante deste País! Cheguei lá já na “nova” fase, em uma Redação festiva e nada ortodoxa. Mesmo não tendo testemunhado seus dias gloriosos, aquela Redação ainda tinha história... No primeiro dia, com vergonha de perguntar a pessoas que eu ainda não conhecia onde se almoçava por ali, atravessei a longa Avenida Chile, para comer no Bob’s do Largo da Carioca. Logo descobri que repórter sem boca não se cria, e que havia um enorme restaurante “bandejão” no andar de cima do prédio, e era ali que todos comiam. Além de bem razoável, o cardápio era divertido, com suas opções de “Filé à Francesa, Filé à Brasileira, Filé à Avenida”, talvez em homenagem à Avenida Gomes Freire, que até hoje abriga o velho prédio. Mesmo não sendo o jornal combativo que havia sido no passado, era tudo tão vivo ali que as pessoas se esbarravam na Redação. Eram tantas que faziam fila para uma máquina de escrever – havia máquinas de escrever e rotativas! Nunca cheguei a ouvir, mas ali ainda seria possível gritar: Parem as máquinas! Durou cerca de dois anos essa experiência, até que o jornal se juntasse ao Última Hora e pouco tempo depois parasse as máquinas para sempre. Tenho poucos registros das matérias que fiz ali, mas recortes guardados ajudam

a lembrar detalhes de duas entrevistas que não esqueci: um barão e um artista que escolheu sua viola como sobrenome. A primeira, com Aparício Torelly, o Barão de Itararé, jornalista gaúcho vindo para o Rio nos anos 20, depois de “fundar e afundar jornais no Sul”, como declarou. Trabalhou em O Globo e depois em A Manhã, que sem o til deu o título para a mais famosa de suas criações, o jornal A Manha. O título de nobreza veio de uma batalha que não se deu, apesar de muito anunciada pela imprensa, a batalha de Itararé. Ele tinha voltado a ser notícia por ter ido ao Ministério da Educação pedir autorização para participar, como ouvinte, do curso de Biônica Aplicada da UFRJ, no campus da Ilha do Fundão. Aos 75 anos, afirmava que tinha muito o que aprender. A segunda entrevista, publicada em 19 de fevereiro de 1970, era sobre um jovem e mesmo assim já famoso calouro do Instituto Vila-Lobos: Paulinho da Viola. Outro futuro universitário, que dizia estar decidido a cursar os quatro anos de escola e se redimir do mau aluno que foi (segundo ele, “aluno média seis”). Achava importante se organizar, pois sem disciplina era difícil conseguir alguma coisa. Paulinho tinha planos singelos: uma tournée pelo Brasil, com um grupo de amigos, e um show teatral. Seu sucesso gravado em um compacto duplo tinha se tornado o hino da Portela, e o rio que ele criou só fez se tornar cada vez mais caudaloso. O que lamentavelmente não foi o destino da quase totalidade dos jornais que vimos abrir, e/ ou fechar, desde que entrei na minha primeira Redação.

exemplo, estava longe de experimentar. Um dos diretores do Correio era o grande jornalista e poeta Reynaldo Jardim. As minhas lembranças daquela Revisão são as melhores possíveis. Eu era tratado quase como um filho pelos colegas mais velhos, entre eles Bento Hyarup Cabral, Dilo Potrick, José Maria de Sá Peixoto, Derlan Navarro, Hélio Barbosa Gomes, craques do idioma com quem muito aprendi. Das enormes janelas da Revisão, no segundo andar, eu via o já decadente Teatro República, onde hoje funciona a TV

Brasil. Por aquela época ele foi reformado e virou Teatro Novo, onde a peça Hair estreou no Rio. Eu achava o máximo freqüentar os bares e cafés da vizinhança e ver ali os atores de Hair, curtir o clima da contracultura que tanto me atraía. Enquanto isso a ditadura continuava fazendo vítimas, entre elas muitos colegas jornalistas dos jornais de oposição. Depois de Niomar, foi a vez de Samuel Wainer jogar a toalha. Última Hora também foi arrendada pelos irmãos Alencar. Passaram-se 42 anos e a carteira funcional virou lembrança de uma época. Além da foto, hoje um tanto hilária, aliestãoostítulos dedoisgrandesjornaisagonizantes, que não quiseram se render à censura e pagaram um preço. Deixei o Correio da Manhã em 1973, um ano antes de seu fechamento. Depois de revisor, fui redator e secretário gráfico. Ainda hoje quando passo pela Avenida Gomes Freire é impossível não olhar aquele edifício e os arredores que me trazem tantas lembranças.

R OGÉRIO M ARQUES

“Fui tratado como um filho pelos mais velhos da Revisão” Eu tinha exatamente 19 anos quando tirei esta foto. A mesma idade com que comecei a trabalhar no Correio da Manhã, em 1970. Dois anos antes, em meados de 1968, eu já havia tentado entrar no jornal da Avenida Gomes Freire, ainda adolescente. Fiz estágio de alguns meses na Revisão, mas não fui contratado. Eu tinha pela frente o serviço militar obrigatório, e o chefe alegou que em caso de contratação a empresa seria obrigada por lei a guardar a minha vaga durante um ano. Acabei conseguindo dispensa do Exército, quando lá me apresentei, mas já tinha perdido o emprego. O fato é que entre a minha primeira passagem pelo jornal e a segunda, quando fui contratado, 20

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muita coisa mudou no Brasil e no próprio Correio da Manhã. Em 1968, com 17 anos, eu e alguns colegas mais velhos e mais politizados atravessávamos a Avenida Chile para acompanhar de perto as passeatas do movimento estudantil contra a ditadura militar. Até que em dezembro veio o Ato 5. Quando retornei ao Correio da Manhã em 1970 ele já havia mudado de mãos e de orientação editorial, sob violenta pressão dos militares. Saiu Niomar Moniz Sodré Bittencourt, entraram os irmãos Maurício, Mário e Marcello Alencar. Ainda assim, é bom que se diga, o jornal guardava uma certa liberalidade e um arejamento cultural que O Globo, por


DIREITOS HUMANOS

A TORTURA SOBREVIVE Policiais torturam para arrancar confissões, agentes penitenciários para castigar os presos. Há centenas de denúncias todos os anos, mas raríssimas resultam em punições.

P OR A NA A RANHA Colaboração de Jessica Mota

“Zero Um” é o mais nervoso dos quatro policiais militares que revistam a casa de Marlene. Depois de encontrar um cigarro de maconha, além de um relógio, munição e um computador roubados, os PMs a levam para o quarto algemada, fazem que se ajoelhe e desferem uma rodada de tapas no seu rosto, coronhadas na cabeça e chutes pelo corpo. É de “Zero Um” a idéia de pegar um saco plástico: “Não vai falar, vagabunda?”. Ele coloca o saco preto ao redor da cabeça de Marlene. Ela desmaia. O nome da vítima foi trocado, para preservar sua identidade, mas o apelido “Zero Um” é verídico, escolhido pelos PMs entre os codinomes usados pelos personagens de Tropa de Elite – filme que retrata a ação do grupo de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Eram dez horas da noite do primeiro dia de 2012 quando a camareira de 28 anos autorizou a entrada dos policiais em sua casa, que fica em um bairro pobre de Manaus. Ela estava grávida de cinco meses, perdeu a criança dois dias depois. A “técnica” do saco no rosto para extrair informação também aparece nas cenas de Tropa de Elite. Na vida real, era o início de uma sessão de mais de duas horas de tortura – relatados por Marlene à reportagem da Pública que a visitou na Cadeia Pública Feminina Desembargador Raimundo Vidal Pessoa, onde está presa desde então por posse de objetos roubados. Marlene acordou do desmaio provocado pela falta de ar dentro do saco preto com um jato de spray de pimenta no rosto e foi arrastada para a cozinha. Mais uma vez, foi de “Zero Um” a idéia: esquentar objetos metálicos no fogão. Os policiais usaram suas próprias ferramentas de trabalho para queimá-la: primeiro, a algema, pressionada em brasa contra sua perna esquerda com a ajuda de um alicate. Depois, a ponta do cano do revólver, dentro da pele queimada pela algema – formando dois círculos circunscritos.

As marcas deixadas pela Polícia no corpo da camareira são inconfundíveis. São a prova de que eles não temiam punição. Embora amplamente conhecida pela população, a tortura cometida por agentes da lei é um tabu para a Justiça. Raramente condena-se um policial ou um agente carcerário pelo crime. Uma enraizada cultura de resistência da própria corporação dificulta o julgamento, a investigação e produção de provas. Isso quando a vítima consegue registrar a denúncia, vencendo outra série de obstáculos antes da abertura do inquérito. O silêncio realimenta o crime ao conceder a segurança da impunidade aos policiais violentos.

A COMISSÃO DA VERDADE E A TORTURA ONTEM E HOJE

A recente constituição da Comissão da Verdade, em maio deste ano, foi considerada um passo importante para quebrar o ciclo histórico da violência praticada por agentes do Estado no País. A cerimônia de lançamento da Comissão, que deve trazer à tona os relatos sobre tortura e homicídio cometidos pelo regime militar, contou com um discurso emocionado da Presidente Dilma Rousseff, ela própria uma vítima da tortura em 1970. O mesmo Governo que lança luz sobre os crimes do passado, porém, faz pouco sobre a tortura que acontece no presente. É isso que diz um duro relatório da Organização das Nações Unidas que o Governo manteve sob sigilo por quatro meses. Quando o documento foi divulgado, em 15 de junho, não foi difícil entender o porquê: ele aponta diversas brechas e falhas no combate ao crime dentro das instituições brasileiras. Com base em visitas a presídios e entrevistas no Brasil, o Subcomitê de Prevenção à Tortura-SPT faz recomendações concretas sobre como os governos podem – e devem – combater o crime. E destaca que pouco mudou desde a última visita do grupo, em 2001. “O SPT recor-

da que muitas das recomendações feitas no presente relatório não estão sendo apresentadas ao Brasil pela primeira vez”, diz o documento. “Infelizmente, o SPT detectou muitos problemas semelhantes aos identificados nas visitas anteriores”. Um dos compromissos mais simples assumidos pelo Governo brasileiro com a Onu era o de criar, até 2008, um mecanismo nacional para combater a tortura, que teria um comitê responsável por organizar os dados estatísticos, promover medidas de prevenção ao crime e fazer visitas sistemáticas a presídios e delegacias. Nem isso foi feito. O projeto de lei que criava o mecanismo só foi enviado ao Congresso em setembro de 2011, o mesmo mês em que o Subcomitê voltava a visitar o País. Passado quase um ano, o projeto ainda aguarda votação.

A PASSIVIDADE DAS OUVIDORIAS

É difícil ter uma dimensão da prática da tortura no Brasil, pois não há um órgão que centralize as denúncias contra policiais civis e militares e agentes carcerários. Cada Polícia estadual tem sua ouvidoria (civil) e corregedoria (militar), e o sistema penitenciário tem sua própria corregedoria. A Pública solicitou os dados de denúncia de violência em cada uma dessas instituições, em todos os Estados. Foram 57 ouvidorias contatadas (em alguns Estados, a Ouvidoria da Polícia é unificada) e 18 responderam. Ou seja, menos de um terço dos órgãos a que a informação foi solicitada. Embora restritos, os dados dão uma idéia da dimensão do crime. Foram 1.356 denúncias de tortura, agressão física e lesão corporal praticadas por policiais e agentes penitenciários em 14 Estados entre 2010 e 2011. A Lei de Acesso à Informação, aprovada junto com a instituição da Comissão da Verdade, diz que os órgãos do Estado têm o dever de passar informações públicas quando solicitados. “Por essa lei, os

dados de direitos humanos nunca mais poderão ser reservados, secretos ou ultra-secretos”, disse a Presidente Dilma no discurso com que saudou a aprovação da lei. Na prática, os órgãos públicos ainda encontram variadas maneiras de negar o acesso à informação. Dados solicitados com até três semanas de antecedência não foram fornecidos a pretexto de “falta de tempo”, e algumas Ouvidorias simplesmente se recusaram a prestar a informação. “Não passo porque o tratamento que o jornalista dá é de servir essa máquina do capitalismo, é para vender”, disse o Coronel Lourival Camargo, Corregedor da Polícia Militar de Goiás. A falta de preparo das instituições para entender a função dos órgãos em que atuam também ficou evidente diversas vezes. Um exemplo: questionado sobre denúncias de violência contra agentes penitenciários, o funcionário de uma Ouvidoria do sistema penitenciário (que tem como principal função receber denúncias contra os agentes do sistema) não escondeu seu estranhamento: “Agressão ao preso? Você não quer dizer ao agente? Você quer saber quantos presos bateram nos agentes, né?”.

ESPANCAMENTOS, “SUBMARINO”, “MICROONDAS”

Segundo levantamento de 2010 da Pastoral Carcerária, organização que visita presídios em todos os Estados, a prática de tortura por parte de agentes públicos foi documentada em 20 dos 26 Estados acompanhados. Os relatos coletados entre as vítimas vão de espancamentos pela Polícia Civil ou Militar no momento da prisão a agressões dentro das unidades de detenção. As mais comuns são feitas com porrete, cano da arma e com o uso das mãos e botas. José Dias de Jesus Filho, assessor jurídico da Pastoral, que acompanha todos os casos que passam pela entidade, descreve outras “técnicas” relatadas: “Além do saco plástico, tem o microondas, que é quando

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DIREITOS HUMANOS

TORTURA, FORMA DE ARRANCAR CONFISSÕES

E por que se tortura? Com base nas denúncias que recolheu nos presídios de 1997 a 2009, a Pastoral concluiu no Relatório Sobre Tortura de 2010 que a Polícia Civil tortura para obter informação ou forçar a confissão de um crime; a PM tem o castigo como primeiro motivo e, em segundo lugar, obter uma confissão; e os agentes penitenciários agridem para castigar. O Relatório também aponta a relutância das autoridades responsáveis por receber e apurar as denúncias como o principal motivo para a impunidade, ou seja, as ouvidorias ou corregedorias. Luiz Gonzaga Dantas, Ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, reconhece que as corregedorias e ouvidorias ainda não têm a autonomia necessária para exercer o papel de fiscalização que deveriam desempenhar. Ele defende uma das recomendações feitas pelo relatório da Onu: um plano de carreira independente para os funcionários desses órgãos. “Ocorre de policiais que trabalham na Ouvidoria irem trabalhar com as equipes que puniram. E aí, como ele fica?”, questiona Dantas. Os corregedores lidam com outra limitação grave: depois de receber a denúncia contra um policial, eles entram com um procedimento inicial e pedem a abertura de um inquérito. Esse inquérito volta para a Polícia, que é quem conduz a investigação. No caso de denúncia contra policiais civis, por exemplo, o responsável pelo inquérito que vai investigar crimes cometidos pelos colegas é da mesma corporação. Quando tentam quebrar o ciclo de silêncio, mentira e impunidade, presos e seus familiares chegam a ser ameaçados pelos agentes, como aconteceu com a Associação de Amigos e Familiares de 22

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Presos, a Amparar, que trabalha com mães de adolescentes internados na Fundação Casa, em São Paulo, para incentivar as denúncias de tortura. “Famílias que denunciam são humilhadas e expostas. Eles chamam a mãe numa sala com vários funcionários e perguntam por que ela tomou aquela atitude. Se sabe que isso pode fazer com que seu filho fique lá ainda mais tempo”, diz o representante da Amparar, que pede para não ser identificado por temer – ele próprio – retaliações. Na segunda semana de junho, ele conta, diversos pais procuraram a Amparar para relatar violências cometidas contra seus filhos na unidade Raposo Tavares da Fundação Casa. Os agentes foram especialmente cruéis com os internos. “Um dos adolescentes estava com a mão machucada, os agentes bateram sistematicamente nessa mesma mão. Outro estava ferido na cabeça, ele tinha apanhado com o cassetete até rasgar. De novo bateram na cabeça dele”, afirma. “É importante ressaltar que essas não são violências isoladas, isso acontece com frequência. É a pedagogia do cassetete”.

MORTE NA POLINTER E A MANIPULAÇÃO DE PERÍCIAS

A história de Indaiá Mendes Moreira mostra a gravidade e a urgência de se obter controle sobre as forças policiais. Em menos de dois meses, seu filho Vinícius foi preso por tentativa de assalto, torturado e morto dentro da carceragem da Polinter de São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro. Em fevereiro de 2009, ao receber a notícia sobre a prisão de Vinícius, então com 20 anos, Indaiá foi a duas carceragens verificar onde ele estava. Mas os agentes se recusaram a dar informação. Ela teve que ameaçar chamar a imprensa para ter a confirmação de onde o filho estava preso. Depois de um mês de visitas, Indaiá já estava assustada com as histórias que ouvia na fila: casos de detentos sendo agredidos, extorquidos e ameaçados pelos policiais. “Teve um dia que um agente falou bem alto pra uma mãe na fila: ‘A senhora quer seu filho? Vai procurar no IML [Instituto Médico Legal]’.” Indaiá lembrou da frase ao acordar com um mau pressentimento na manhã de visita e ligou para o advogado para que a acompanhasse até a carceragem. Lá, foi informada de que seu filho estava doente e tinha saído há poucas horas para o hospital. Correu para lá e os médicos disseram que Vinícius havia sido levado para o hospital na noite anterior, mas nem chegou a sair do carro da Polícia Civil. “Na porta já mandamos levar ao IML”, ela ouviu do médico. No IML, a família notou diversas marcas de agressão no corpo de Vinícius, que não estavam no laudo entregue pelo Instituto. Proibidos de fotografar o corpo, os parentes tiveram que despi-lo no dia seguinte, pouco antes do enterro, para registrar os machucados. Mesmo com a repercussão na imprensa, o inquérito foi arquivado em abril deste ano. Um dos argumentos do promotor é que não seria possível determinar quem matou Vinícius.

APUBLICA.ORG

se deixa o preso por horas dentro do carro no sol, ou quando ele é colocado algemado no camburão e corre, fazendo ziguezague”, explica. “O submarino é quando se enfia a cabeça da pessoa na água. E tem muito choque nos testículos com o teaser”. Há ainda as técnicas específicas para as mulheres, que são variações da violência sexual. “Eles passam a mão no corpo, deixam a mulher nua na frente do batalhão ou levam para um lugar ermo onde ela acha que vai ser violentada”. Marcia Honorato, colaboradora do Comitê para Prevenção à Tortura no Rio de Janeiro, acrescenta: a violência não é só contra pessoas que estão presas. Em contato com mais de 15 comunidades carentes do Rio, ela recebe relatos de violência sistemática de policiais contra os moradores dos morros cariocas, inclusive aqueles que foram “pacificados”. “Eles espancam e torturam sob a justificativa de desacato. Qualquer coisa é desacato, uma festa com som mais alto, uma resposta de que eles não gostam”, afirma. “O cidadão fica arrebentado e ainda vira réu”. Segundo ela, as agressões mais comuns são com escopeta na cabeça, socos no rosto e chute na boca do estômago e nas costas. “Isso é o que as pessoas vêem a céu aberto e nos contam. De outras violências, que acontecem dentro das casas, nós nem ficamos sabendo”.

Marlene mostra um dos ferimentos que sofreu depois de uma sessão de mais de duas horas de tortura.

PERITOS CONIVENTES COM TORTURADORES

Como a Ouvidoria, a perícia médica também padece do vício de ser ligada à corporação policial. “Há muitos Estados em que a perícia é diretamente subordinada à administração da Polícia Civil, como no Rio de Janeiro e em Minas Gerais”, afirma a médica legista Débora Vargas, membro do Grupo de Peritos Independentes para a Prevenção da Tortura e da Violência Institucional, ligado à Secretaria dos Direitos Humanos. “Nossa visão é aproximar a perícia de um serviço técnico, distanciar dos órgãos de repressão”, diz Débora, citando o exemplo de Portugal, onde os grupos de perícia são ligados às universidades. A autonomia da perícia é outra recomendação feita pelo relatório da Onu e sua importância já foi aferida na prática pela Pastoral Carcerária: muitos detentos agredidos no momento da prisão, portanto, antes do exame médico obrigatório ao ingressar no presídio, não têm as marcas das sevícias registradas nos laudos. Segundo denúncias feitas à entidade, alguns policiais esperam de 15 a 20 dias para levar o preso ao médico – período em que as marcas cicatrizam. Também é muito comum que o mesmo policial que comete a agressão leve o preso ao médico e, em muitos casos, acompanhe o exame. “Isso acontece no Brasil inteiro”, afirma Débora. “Temos dificuldade de fazer com que a PM e a Polícia Civil aceitem que o preso deve ficar na sala sozinho com o médico legista”, diz. Há casos extremos em que os médicos nem olham para as vítimas, como ocorreu, segundo denúncia, na cidade de Tefé, a 650 quilômetros de Manaus, feita por quatro detentos à equipe da Pastoral. Suspeitos de tráfico de drogas, eles contam que ficaram quatro dias amarrados dentro de um barco antes de serem conduzidos à prisão: “Presos em correntes, esmurrados e sufocados com o saco plástico na cabeça. Ameaçados com armas de fogo apontadas para suas cabeças,” descreve o relatório da Pastoral. Ao final desses dias, os quatro presos foram levados para o exame de corpo de

delito. “Ao chegarem na clínica, permaneceram na viatura e o comandante trouxe o laudo já assinado pelo médico”, descreve o relatório. Segundo testemunha que viu o exame, mas prefere não se identificar, o único registro no documento é de marca da algema. O relatório cita nominalmente um major da Polícia Militar como autor das diversas torturas relatadas por esse e outros presos da cidade. O documento foi encaminhado à Defensoria Pública e ao Ministério Público.

A TORTURA PSICOLÓGICA E UMA CARTA DE SUICÍDIO

Se sociedade e Governo não reagirem, a violência policial, especialmente contra os detentos, tende a se agravar com a superlotação dos presídios, alerta o Padre Valdir João Silveira, Coordenador Nacional da Pastoral Carcerária. Entre 2005 e 2011, o número de presos cresceu 42%, aponta o Padre. Só em São Paulo, que tem a maior população carcerária do País, 2011 terminou com 9.417 presos a mais que 2010 – o que dá uma média de 25 presos novos por dia no Estado. Para o Padre Valdir, a necessidade de contenção aumenta com a superlotação, gerando mais violência. “A tortura acontece como castigo para que os presos não se amotinem, não reivindiquem, não peçam para ser lembrados de que estão vivos”, afirma Luciano Mariz Maia, Procurador da República em Recife e membro do Comitê Nacional Contra a Tortura. Nem sempre a violência cruel que define a tortura se expressa em pancadas e sufocamentos. Nos relatos colhidos pela Pastoral, há casos de presos que dormem no chão sujo da cela e até no chão do banheiro; presos que disputam espaço com ratos durante a noite; celas que ficam constantemente molhadas devido a vazamentos; presos que têm constantes infecções alimentares e alergias na pele devido à comida inadequada. Tudo isso, diz o Procurador, é tortura. José Carlos Brasileiro, presidente e fundador do Instituto Nelson Mandela, organização civil que nasceu dentro do sistema carcerário, alerta para a tortura


psicológica que essas situações provocam: “A força do terror psicológico é das maiores: ele condiciona a pessoa à inferioridade, humilhação, ao medo constante. A pessoa vai pro isolamento, leva porrada, fica com a mão para trás e cabeça curvada. Imagine quais são as conseqüências desse tratamento no longo prazo?” Foi esse cenário que levou o detento Célio Rodrigues a pensar em suicídio e manifestar essa intenção em uma carta manuscrita em junho do ano passado. A carta foi entregue à Pastoral Carcerária por um colega de cela depois que Célio morreu, após deixar a prisão de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas. Preso há “seis longos anos”, Célio escreveu: “Já passei por tantas humilhações nesse lugar principalmente agressões verbais e agora físicas também. Tô sofrendo muito e pra completar, (…) dois cabos entraram na cela e tiraram os materiais de uso pessoal e higiênico (…) ainda me agrediram fisicamente”. E continua: “Por eu ser o detento mais antigo, sei de muitas coisas, coisas que eles fazem de errado aqui nesse lugar, (…) como a entrada de celulares, entorpecentes e algumas outras facilitações, e também agressões da parte deles com outros detentos e isso acontece sempre. Eles sabem que eu sei de tudo isso, tenho muito medo deles fazerem alguma coisa comigo, é por isso e outras coisas, abandono da família, que tento me matar. Embora eu saiba que quando sair daqui eles vão querer me matar”.

VEXAME E TORTURA DE PARENTES DE PRESOS

“Existe um preconceito arraigado entre os que operam no sistema de Justiça de que a pessoa com uma condenação – ou suspeita de um crime – está desprovida de um atributo inerente ao ser humano: a dignidade”, afirma Kenarik Boujikian, Desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e co-fundadora da Associação Juízes para a Democracia. Em muitos casos, essa visão se estende à família dos presos, ela observa, principalmente em relação às mulheres que vão visitar seus maridos ou parentes na cadeia. O procedimento padrão de revista em muitas penitenciárias do País é fazer a mulher tirar toda a roupa e abaixar seis vezes (três de frente, três de costas) na frente da agente penitenciária. É um procedimento que pode ser considerado tortura pela imposição de sofrimento psicológico contínuo, como explica Cristina Rauter, psicóloga da Universidade Federal Fluminense e membro da equipe clínica do Grupo Tortura Nunca Mais. “É uma situação delicada que conjuga estereótipos da sexualidade, proibições e vergonhas. Você ser obrigado a se desnudar na frente dos outros e mostrar as partes sexuais já mexe com muitos tabus, proibições, valores. Fazer isso associado à suspeita de um crime é muito cruel. Eles sabem que o familiar já tem vergonha por estar ali e exploram isso.” A costureira Patrícia Okorie, que entre 2010 e 2011 visitava mensalmente o marido na Penitenciária Franco da Rocha 2, na grande São Paulo, já estava acostumada com esse procedimento. “Eu só não gostava quando mandavam abrir a vagi-

na com as mãos”, lembra. “Mas a gente evita reclamar”. Os largos limites de sua tolerância foram testados numa manhã de setembro de 2011. Patrícia chegou cedo, era a quarta da fila. Quando abaixou pela primeira vez na sala de revista, a agente colocou as mãos em seus joelhos, forçando para que ela abrisse as pernas. “Eu disse que não permitia aquilo, ela se irritou e chamou uma PM”. Enquanto esperava, Patrícia era humilhada pela agente, que insistia que ela escondia drogas na vagina. Ao final da segunda revista (desta vez segurando a respiração enquanto abaixava na frente de duas agentes e da PM), Patrícia chorou e desabafou: “Você me acusou injustamente, vou procurar os meus direitos”. Por mencionar seus “direitos”, Patrícia foi acusada de desacato à autoridade com suspensão de direito de visita por 30 dias, e obrigada a ir a um hospital fazer uma revista “ginecológica” – exame feito por um ginecologista para buscar drogas dentro da vagina. “Tive que assinar um papel dizendo que estava indo de livre e espontânea vontade. Eu disse que não era verdade e me mandaram calar a boca”. No hospital, Patrícia conta que esperou a médica, que estava em cirurgia, por horas. Quando entrou no consultório, a médica pediu que ela deitasse na maca com os pés para o alto. “Achei que iam fazer ultrassom, quando vi que era exame com as mãos fiquei com muito medo”. A médica introduziu então um “aparelho que girava”, provavelmente um espéculo vaginal, ferramenta que abre o canal vaginal em direção ao útero, utilizada em exames de rotina. Assustada e sem entender o que ia acontecer, ela contraiu os músculos abdominais, fazendo força para resistir ao movimento do espéculo. “A cada vez que ela rodava aquela máquina por baixo, doía. Teve uma hora que ouvi um estalo e senti muita dor, segurei o braço da médica e pedi pra ela parar”, afirma. “No final do exame, fiquei em pé e vi um fio de sangue escorrer pela minha perna”. A médica não encontrou nenhuma substância ilícita no interior do corpo de Patrícia. Atormentada pela humilhação, sem conseguir dormir, Patrícia pesquisou seus direitos na internet e achou a Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura (Acat), que dá assistência psicológica e jurídica às vítimas. Resolveu entrar com um processo de tortura contra a agente, mas conta que foi chamada pela direção do presídio e recebeu uma ameaça: se continuasse, o marido seria transferido “para bem longe”. Logo depois de ser chamada pelo diretor, ela foi visitar o marido. “Eles foram bem educados, nunca fui tão bem tratada ali dentro”, ela lembra. “Foi tudo direitinho: três de frente, três de costas”. Só quando o marido saiu da cadeia, Patrícia pôde entrar com uma ação contra as agentes do presídio.

judiciais, ainda é preciso conseguir um julgamento justo, o que é bastante difícil. Os problemas começam com a própria lei contra tortura, de 1997, que estabelece que o crime pode ser praticado por qualquer pessoa – não apenas agentes do Estado. Isso significa que a mesma lei que enquadra as violências praticadas por “Zero Um”, de Manaus, também vale para babás que batem em crianças. “A lei é genérica, deixa frouxa a interpretação para os tribunais, quase não tem sido utilizada para reprimir”, afirma o Procurador Luciano Maia, do Comitê Nacional Contra a Tortura. “O principal propósito da criação dessa lei é evitar que policiais, agentes penitenciários ou autoridades públicas deliberadamente inflijam violência física e mental a pessoas submetidas a sua autoridade”, argumenta. “Mas quase não tem sido utilizada para isso.” A tendência da Justiça é condenar mais pessoa comuns do que agentes do Estado por tortura, revela uma pesquisa

“Tive que assinar um papel dizendo que estava indo de livre e espontânea vontade. Eu disse que não era verdade e me mandaram calar a boca.”

A IMPUNIDADE, COM O AVAL DA JUSTIÇA

Mesmo quando conseguem denunciar os crimes de tortura e entrar com ações

do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, que analisou o desfecho de 51 julgamentos de acusados de tortura que passaram pelo Tribunal de Justiça do Estado entre 2000 e 2008. A pesquisadora Maria Gorete Marques mapeou os resultados em primeira instância, que envolviam 203 réus, dos quais 181 eram policiais ou agentes penitenciários e 22 eram civis. A pesquisadora chegou à conclusão de que a proporção se inverte na hora da condenação: apenas 18% dos agentes julgados foram condenados, contra 59% dos civis. Ou seja, a taxa de condenação dos agentes do Estado foi três vezes inferior à condenação de civis. O Procurador Luciano, que em sua tese de doutorado analisou sentenças de casos de tortura praticada por agentes do Estado, diz que o policial já entra em vantagem no sistema que vai julgá-los: “O sistema jurídico evoca o tempo todo a credibilidade do cargo, a presunção de que ele aja corretamente”, diz. Em uma sentença de Brasília, Luciano encontrou a seguinte afirmação: “A Polícia não tem necessidade de recorrer a qualquer espécie de constrangimento para apurar a autoria do delito”. Em São Paulo, um desembargador usou o mesmo argumento em oito casos diferentes: “[os policiais] Jamais iriam correr o risco de responder pelo crime de abuso de autoridade ou de denunciação caluniosa para incriminar alguém que sequer conheciam e com quem não tiveram qualquer desentendimento”. Todos os policiais dos casos citados foram absolvidos, prolongando o sofrimento das vítimas. Como observa a psicóloga Cristina Hauter, que atende a ví-

timas de tortura da ditadura militar e vítimas atuais, a impunidade atrapalha o processo de recuperação, especialmente quando a fala da vítima não é considerada como prova e o processo é arquivado: “Vem um sentimento de desacreditar na Justiça, no Estado. As relações de confiança são quebradas e eles se sentem profundamente injustiçados. Esse é o quadro mais complicado de trabalhar”, explica.

A PRESIDENTE DILMA E O LEGADO DA DITADURA

A visão distorcida da Justiça para os casos de tortura policial está ancorada na opinião de um grupo crescente da população – atualmente, quase a metade dos brasileiros. De acordo com pesquisa do Núcleo de Estudos da Violência, feita em 12 capitais, apenas 52% das pessoas ouvidas em 2010 “discordavam totalmente” da idéia de que os tribunais devem aceitar provas obtidas através de tortura. Porcentagem bem menor daquela de 1999, quando respondendo à mesma pergunta, 71% dos entrevistados declararam “discordar totalmente” da prática. Ainda é difícil prever qual será a influência da Comissão da Verdade no combate à tortura de hoje ao investigar os crimes cometidos no passado. Também é difícil determinar quanto da “tradição” do período militar é responsável pelas práticas policiais dos dias de hoje. Para a Desembargadora Kenarik, porém, esse legado de violência foi incorporado à cultura das instituições. “Naqueles anos, havia certos grupos tidos como ‘inimigos do Estado’ e que por isso, alegavam, podiam ser torturados. Hoje, apenas mudou o ‘inimigo’”, ela diz. Tim Cahill, pesquisador da Anistia Internacional para o Brasil, que também faz visitas aos presídios, considera evidente a ligação entre o crime nos dias de hoje e os cometidos no passado, mas ressalta que isso não torna mais difícil enfrentálos. “Algumas pessoas dizem que o problema de tortura no Brasil é cultural, como se fosse uma herança inevitável, mas não é verdade”, afirma. “Cada ato é um crime e ele só persiste porque não há uma ação do Estado para coibir.” Cahill se recorda do efeito negativo de uma declaração feita sobre o tema pela Presidente Dilma Rousseff, ela mesma vítima de torturas durante a ditadura, na Universidade de Harvard, em abril deste ano. Depois de palestra, a Presidente foi indagada por um aluno sobre o caso de uma prisioneira política na Venezuela. Em sua resposta, ao justificar por que não se manifestaria sobre política do outro país, a Presidente fez esta afirmação: “Eu sei o que acontece, mas não tenho como impedir em todas as delegacias do Brasil de haver tortura”. Em resposta, 15 organizações que atuam no combate à tortura no Brasil, entre elas a Conectas, a Acat e a Pastoral, firmaram uma nota de repúdio: “É muito grave que a autoridade máxima do País se declare incapaz de coibir o crime de tortura nas delegacias. E é ainda mais grave que tenha escolhido um momento de enorme visibilidade para fazer tal declaração”. Publicado originalmente na Pública - Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo (www.apublica.org)

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LIBERDADE DE IMPRENSA

Juíza do Espírito Santo atropela a Constituição e impõe censura prévia Numa decisão corporativa em favor de um promotor, a titular da 6ª Vara Cível de Vitória proibiu a publicação em um jornal eletrônico de notícias e opiniões sobre ele. P OR C LÁUDIA S OUZA

A juíza Ana Cláudia Rodrigues de Faria Soares, da 6ª Vara Cível de Vitória, ES, determinou em decisão liminar a exclusão de três reportagens e dois editoriais publicados pelo jornal eletrônico Século Diário, do Espírito Santo, relacionados ao promotor de Justiça Marcelo Barbosa de Castro Zenkner, autor de uma ação por danos morais, que considerou os textos “sensacionalistas” e “desrespeitosos”. Foram retirados do site as matérias Promotor ‘esquece’ de protocolar recurso, recebe aula de magistrado e pode ser punido, Decisão judicial contrária à ação de Zenkner e precedente contra denúncias sem elementos e Vereador vítima de abuso de poder e intimidação denuncia Marcelo Zenkner e os editoriais Nota zero para Zenkner e Para dançar o fado, publicados entre 2010 e março de 2012. “A liberdade de imprensa não é absoluta, pois pode colidir com os direitos fundamentais da personalidade”, afirmou a juíza na decisão, em que determinou ainda que futuras reportagens “primem pela objetividade das informações, abstendo-se de incluir adjetivações pejorativas ou opiniões desfavoráveis que extrapolem os limi-

tes da crítica literária, artística ou científica; limitem-se a narrar os fatos sem se pautar por comentários, boatos, acusações isoladas e desprovidas de idoneidade, sempre fazendo referência a fontes; e procedam com imparcialidade e isenção na divulgação de notícias relacionadas ao autor, observando apenas o contexto fático, sem se pautar por tendências, ideologias ou intuito de autopromoção ou promoção de terceiros em detrimento do autor.” A direção do Século Diário classificou a medida como censura prévia e recorreu da decisão. O jornalista Rogério Medeiros, Diretor de Redação do Século Diário e autor do recém-lançado livro Memórias de Uma Guerra Suja, ressalta que os problemas com a Jjustiça do Estado remontam ao ano de 2010, após a publicação de Um Novo Espírito Santo: Onde a Corrupção Veste Toga, escrito por ele e pelo jornalista Stenka do Amaral Calado, por 11 anos Diretor do periódico. “Denunciamos o nepotismo, o enriquecimento ilícito e a corrupção no Judiciário do Estado a partir da cobertura diária de escândalos. A imprensa capixaba não escreve uma linha contra os desmandos do Judiciário e está totalmente integrada ao sistema, mas nós fazemos

jornalismo responsável e vamos noticiar os fatos.” Medeiros citou as investigações do jornal a partir da Operação Naufrágio, deflagrada em 2008, com a denúncia de venda de sentenças no Judiciário: “No início da Operação Naufrágio foram pegos quatro desembargadores. A partir daí o jornal entrou no assunto e começou a buscar informações. Este trabalho revelou o envolvimento de 14 pessoas num universo de 24. Um escândalo. Desde então, o jornal vem sendo perseguido. Respondemos a inúmeros processos e estamos sendo censurados pela terceira vez. O Promotor Marcelo Zenkner tentou fechar o jornal e chegou a tirar o nosso site do ar. Apesar de tudo, cerca de 50 mil pessoas acompanham as notícias pelo Século Diário. Temos influência e responsabilidade”. A Associação Espírito-Santense de Imprensa-AEI, através de seu Diretor José Ângelo Fernandes, Conselheiro da ABI, manifestou repúdio pela censura imposta ao jornal. “A decisão da juíza representa uma agressão, um abuso”, declarou Joé Ângelo. “A liberdade de expressão é um direito sagrado de todos, previsto na Constituição e que deve ser respeitado na demo-

cracia. A AEI está irmanada com o jornal Século Diário e empenhada em lutar para que esta situação não se repita.” A Associação Nacional dos Jornais-ANJ divulgou declaração de protesto contra a decisão judicial: “Não satisfeita em desobedecer o dispositivo constitucional que veda a censura à produção jornalística, tenha se arrogado o direito de determinar que o jornal digital Século Diário doravante siga ‘recomendações’ editoriais por ela estipuladas, numa descabida ingerência na autonomia editorial de que constitucionalmente gozam os órgãos de imprensa nos termos da Constituição e das sucessivas decisões do Supremo Tribunal Federal no julgamento de casos similares. A esse respeito, cabe recordar decisão do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, em decisão relativa ao Agravo de Instrumento no 690841/SP, de 21 de junho do ano passado: ... o Estado, inclusive Juízes e Tribunais, não dispõe de poder algum sobre a palavra, sobre as idéias e sobre as convicções manifestadas pelos profissionais de imprensa, não cabendo ainda, ao Poder Público, estabelecer padrões de conduta cuja observância implique restrição indevida aos ‘mas media’, que hão de ser permanentemente livres.”

O Brasil é o quinto em mortes de jornalistas Com seis assassinados no primeiro semestre de 2012, o País supera o Afeganistão e o Iraque, países com conflitos internos, no número de profissionais de imprensa abatidos no exercício de sua atividade. P OR J OSÉ R EINALDO M ARQUES

Com seis jornalistas mortos no primeiro semestre de 2012, o Brasil já ocupa a quinta posição entre os países onde mais se assassinaram profissionais no mundo. O País se igualou à Somália e ao Paquistão, que enfrentam guerra e atos terroristas. Os dados foram divulgados pela Press Emblem Campaign-PEC, organização da Suíça que se dedica à defesa da liberdade de imprensa. De acordo com o levantamento da entidade, 72 jornalistas foram mortos em 21 países no primeiro semestre deste ano, o que significa um aumento de 33% em relação aos crimes registrados no mesmo período de 2011. O número de assassinatos de jornalistas preocupa a categoria e foi o tema de uma audiência pública realizada no dia 4 de julho, em Brasília, pela Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, da Câmara dos Deputados, com a participação de José Carlos Torves, representando a Federação Nacional de Jornalistas-Fenaj. 26

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Informou Torves que a maioria dos crimes contra jornalistas é cometida por agentes públicos, especialmente com envolvimento de parlamentares estaduais e municipais, além de integrantes das forças policiais, que agem à margem da lei na certeza da impunidade. Torves lembrou que os casos mais freqüentes ocorrem nas cidades do interior, onde a pressão política geralmente é mais forte e conta com a conivência do Judiciário e das polícias locais. “Há uma situação já comprovada de que as todas as investigações de crimes contra jornalistas no interior do Brasil acabam sendo engavetadas. Por um conluio de várias autoridades políticas e policiais, os crimes nunca são esclarecidos. Então com a federalização, nós acreditamos que vai sair desse controle paroquial e vai haver a apuração do caso pela Polícia Federal”, argumentou. Obrigação do Estado

O representante da Fenaj defendeu a aprovação de um projeto de lei em tramitação na Câmara (PL nº 1.078/11), que

federaliza os crimes praticados contra a atividade jornalística. Pela proposta, a Polícia Federal poderá atuar nos inquéritos onde haja “omissão ou ineficiência” das Polícias Militar e Civil dos Estados e Municípios, expirado o prazo de 90 dias para a conclusão da apuração dos crimes. A audiência pública foi convocada pelo Presidente da Comissão de Segurança da Câmara dos Deputados, Deputado Efraim Filho (Dem-PB), a requerimento do Deputado William Dib (PSDB-SP), que questionou a eficácia do projeto de lei, por temer que as Polícias locais se omitam na apuração dos crimes praticados contra jornalistas, ao saberem que a PF vai assumir as investigações. Dib considera que, além disso, a autoridade policial federal não dispõe de recursos para assumir tal papel. Apesar do pessimismo, o Deputado William Dib disse que proteger a imprensa livre é obrigação do Estado, porque é a maneira de se proteger a democracia. “Essa função do Estado é maior que todas as outras funções. Se a imprensa for calada, pode ter certeza de que o Estado De-

mocrático de Direito está suspenso. Não podemos imaginar um Estado democrático com imprensa calada pelo poder econômico, por ameaças físicas ou, de fato, pelo delito, que é o crime”, afirmou. Previsão sombria

O número de assassinatos de jornalistas no Brasil é superior à soma dos crimes praticados no Afeganistão e Iraque e contribuiu para que a América Latina se transformasse na região mais perigosa para o exercício da profissão, superando o Oriente Médio, segundo dados da PEC. A PEC registrou 23 mortes de jornalistas na América Latina em 2012, sendo oito no México, quatro em Honduras, duas na Bolívia. Um jornalista foi morto na Colômbia, no Haiti e no Panamá no mesmo período. Citando o caso da Síria, onde, por causa dos conflitos que lá se travam, 20 jornalistas morreram este ano, o SecretárioGeral da PEC, Blaise Lempen, prevê em 2012 um número maior de mortes do que 2011, quando 107 jornalistas foram assassinados no exercício da profissão.


LANÇAMENTO

FRANCISCO UCHA

Audálio Dantas ao lado de sua admiradora confessa, a jornalista Eliane Brum, durante evento em sua homenagem ocorrido em dezembro de 2011 no Itaú Cultural de São Paulo.

Uma antologia de Audálio Homenagem aos 80 anos do repórter de O Cruzeiro e Realidade, Tempo de Reportagem reúne textos que ele escreveu entre 1958 e 1973. P OR M ARCOS S TEFANO

Outubro de 1975 começou com prisões e seqüestros de jornalistas. Uma forma das forças de repressão intimidar os profissionais que se organizavam contra a censura e as muitas ameaças que sofriam. O 12º da lista foi Vladimir Herzog. Das dependências do Doi-Codi, em São Paulo, ao qual compareceu para prestar depoimento naquele sábado, dia 25, ele só sairia morto, após ser brutalmente torturado. Quando soube do ocorrido, Audálio Dantas, então Presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, deixou imediatamente Presidente Prudente e, num banquinho improvisado entre as poltronas de um avião que lá fazia escala, voltou à capital paulista. Começava ali a batalha para denunciar a morte de Vlado e garantir a liberdade de expressão em uma nação sufocada pela mordaça de um regime que já durava mais de uma década. Uma luta que ganhou o mundo, iniciou o processo de enfraquecimento da ditadura e tornou seu nome conhe-

cido como um dos protagonistas dessa história que, no entanto, acabou por obscurecer outra faceta: a do grande repórter. Tempo de Reportagem, livro lançado agora pela Editora Leya e que funciona como uma antologia, reunindo 13 de suas grandes reportagens, realizadas entre os anos de 1958 e 1973, ajuda a corrigir essa injustiça e mostrar às novas gerações o trabalho de um dos grandes profissionais da imprensa brasileira. A obra também é uma homenagem ao alagoano que acaba de completar 80 anos. Nascido em Tanque D’Arca em 8 de julho de 1932, três anos depois do que consta no registro feito para que tivesse mais chances de realizar o sonho do pai e ingressar na Escola de Aprendizes Marinheiros, Audálio Ferreira Dantas mostrou-se um líder dentro e fora das Redações. Mesmo afastado do mainstream da grande imprensa desde que assumiu a direção do Sindicato dos Jornalistas, foi Deputado federal, o primeiro Presidente eleito por voto direto da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Presidente do Conselho da

Fundação Cásper Líbero e Vice-Presidente da ABI. O começo da carreira foi em 1954, no Grupo Folha, como repórter da Folha da Manhã. Depois, passou pelas revistas O Cruzeiro, em que também foi redator e Chefe de Reportagem; por Quatro Rodas, nas funções de Editor de Turismo e Redator-Chefe; Realidade, como Redator e Editor; Manchete, em que foi Chefe de Redação; e Nova, como Editor. Apesar de tais cargos, sempre levou a sério a máxima de que “lugar de repórter é na rua”. Essa foi a receita usada em todos os textos que fazem parte de Tempo de Reportagem. Um deles foi tirado da Folha da Noite e outro, extemporâneo, de um especial para a Playboy. Os demais vieram de O Cruzeiro e da Realidade, revistas que tinham na grande reportagem seus pontos fortes. Chamar de antológicas matérias como O Drama da Favela Escrito por Uma Favelada não se trata de exagero. Esta narra a vida da catadora de papel Carolina Maria de Jesus, moradora da antiga favela do Canindé no fim dos anos 1950,

tempo em que a imprensa dava mais destaque para extravagâncias e fatos inusitados do que à denúncia social e aos dramas humanos. Nesse aspecto, a reportagem de Audálio é uma precursora daquilo que agora está na moda e nas páginas de jornais e revistas. Mas não somente isso. Durante três anos, Carolina, que lotava cadernos com contos e poesias que ela mesma escrevia, manteve um diário de sua vida naquela comunidade. Audálio juntou extratos desse material com seu próprio texto, que serviu, na verdade, como introdução para uma visão bastante original sobre uma das mais graves mazelas do País e que, como ele mesmo reconhece, não seria capaz de exprimir com tamanha naturalidade. A reportagem teve enorme repercussão e fez com que, tempos depois, os diários virassem o livro Quarto de Despejo – forma como a autora tratava a favela, segundo ela “uma espécie de quarto de despejo das coisas velhas e sem utilidade da grande metrópole”. Desde então, a obra correu o mundo, foi traduzida para 13 línguas e se tornou objeto de estudos para inúmeros acadêmicos. Ao analisar a reportagem original, Audálio Dantas é severo com a primeira parte do texto: “Faço autocrítica. Nela encontro impropriedades, excesso de adjetivos, alguma pieguice e imperdoáveis falhas de informação, como não registrar os nomes dos filhos dela”. Um exagero, já que o repórter trabalha com propriedade o estilo literário, que anos depois se tornaria referência do melhor jornalismo. Outro texto marcante é O Circo do Desespero, publicado originalmente em março de 1963 em O Cruzeiro, e que também foi o título de uma primeira coletânea de reportagens de Audálio Dantas, de 1976. Nele, Audálio revela uma face até então desconhecida do Carnaval paulistano: a dor. Num tempo em que as reporJORNAL DA ABI 380 • JULHO DE 2012

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tagens das revistas mostravam apenas bastidores cheios de alegria e muita folia, a matéria se destacou ao abordar a insana disputa dos 246 participantes do XI Concurso de Resistência Carnavalesca. Promovida pela TV Record, a competição daria gordos prêmios ofertados por patrocinadores a quem conseguisse enfrentar 70 horas de maratona de dança, do sábado à terça-feira, em um tablado montado no Ginásio do Ibirapuera. O detalhe é que o repórter revela muito sem precisar fazer juízo de valores. Em sua reportagem, as pessoas não têm nomes. Como no concurso, são apenas números para divertir o público. Criatividade para contar histórias é um ponto alto de Tempo de Reportagem. Já em 1970, Audálio e a fotógrafa Maureen Bisilliat viajaram para a Paraíba, a serviço de Realidade. O desafio era mostrar a vida e o trabalho dos caçadores de caranguejos da aldeia de Livramento, às margens de um dos braços do Rio Sanhauá, a 30 quilômetros de João Pessoa. Eles poderiam se limitar a observar e entrevistar, mas não ficaram nisso. Também colocaram o pé na lama, algumas vezes o corpo inteiro até, à procura dos crustáceos. E, no texto final, o jornalista resolveu narrar tudo por dois prismas diferentes e inusitados: o da caça e o do caçador, do homem e do caranguejo. A antologia é completada por textos novos e inéditos com o making of de cada reportagem. Neles, o autor conta a história das matérias, bastidores de suas realizações e traz importantes lições e reflexões sobre o fazer-jornalismo. Algumas vezes, contextualizando e mesmo atualizando os textos com repercussões e acontecimentos posteriores. Um prato saboroso que é completado por um posfácio diferente, formado pela introdução à primeira edição do livro O Circo do Desespero, escrita por Ricardo Kotscho, e pela transcrição de uma entrevista que Audálio concedeu recentemente à série Repórter, patrocinada pelo Instituto Itaú Cultural e comandada por Eliane Brum. Ao terminar a leitura, a sensação é de desassossego. Onde foram parar as grandes reportagens e os textos bem escritos? Tão raros hoje na imprensa brasileira, em que cada vez mais páginas são preenchidas a partir de apurações por e-mail ou, no máximo, por telefone, nos quais faltam descrições, interpretação, boas histórias e profundidade. Não se trata somente de escrever melhor. Como ensinou certa vez Graciliano Ramos, conterrâneo de Audálio Dantas, “a palavra não foi feita para enfeitar, mas para dizer”. Porém, como lembra oportunamente Fernando Morais, no prefácio de Tempo de Reportagem, não dá para fazer isso sem levar em conta o que disse Gay Talese, expoente do New Journalism, e “sujar os sapatos”. Essa lição Audálio Dantas aprendeu e ensina muito bem. 28

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DIVULGAÇÃO

LITERATURA UMA ANTOLOGIA DE AUDÁLIO

LITERATURA

Moral de confessionário No romance quase autobiográfico Sagrada Família, o jornalista e escritor Zuenir Ventura dá vida a um Brasil moralista, porém erotizado. P OR G ONÇALO J ÚNIOR

O que é verdade e ficção em Sagrada Família, romance que o jornalista Zuenir Ventura está lançando pela Alfaguara, é algo que ele não revela. Apesar da insistência, desconversa. Não confirma nem desmente nada. Zuenir prefere culpar a própria memória quanto às incertezas do que aconteceu ou não e se diverte com isso, ao que parece. Não é bem assim. Parte da trama veio mesmo de suas lembranças, alteradas para evitar constrangimentos familiares ou públicos. Ele faz o que se poderia chamar de segredos de confessionário a respeito da intimidade de sua família, pela predominância de um tema cada vez mais atual em tempos da ditadura do politicamente correto: a sexualidade no Brasil na ditadura do Estado Novo e durante a Segunda Guerra Mundial. Não na capital do País, mas no microcosmo de uma cidade vizinha, onde tudo isso se torna mais evidenciado, mais palpável, perceptível. Aos 81 anos de idade, Zuenir não faz um tratado da sexualidade do brasileiro, não quer ser chato em estabelecer uma discussão. Mas explora o tema com sutileza e, assim, convida à reflexão: o que mudou de lá para cá? Há, hoje, um retrocesso no moralismo que coloca a todos próximos daquele distante ano de 1942, no qual seu romance é ambientado? Ele prefere a ironia, o humor, a sátira, a paródia, quase como um cartunista, a desnudar a hipocrisia do brasileiro, uma insti-

tuição tão dissimulada quanto o racismo e o preconceito cordiais que ainda têm fôlego impressionante no começo do século 21, tanto de cor, quanto de sexo ou de classe social. Numa passagem, apresenta o código de conduta rigidamente obedecido pelas prostitutas da pequena Florida, cidade fictícia do interior do Rio de Janeiro. Tudo isso está lá, mostrado com elegância narrativa e precisão descritiva de época, indispensáveis para se contar bem uma história. O romance é narrado na primeira pessoa por certo Manuéu Araújo, que volta à infância para rememorar e até fazer comentários sobre os tempos em que passava férias na casa de uma tia, a recatada Dona Cotinha, uma viúva “balzaquiana” de 37 anos, e suas duas filhas, Leninha e Nonoca, de 15 e 14 anos, respectivamente. Em torno delas e do convívio como um menino observador, voyeur na descoberta da sexualidade, o contador da história faz a reconstituição de um tempo ingênuo e, ao mesmo tempo, malicioso, onde quase tudo era permitido, desde que se feito às escondidas. No início da história, por exemplo, descreve como flagrou sua tia numa suposta sessão de “injeção” com um farmacêutico da vizinhança. O fato desencadeia constrangimento, vergonha, culpa e altera as relações entre os personagens e o modo como o garoto passa a ver o sexo. Como explica o próprio Zuenir, ele que sempre fez livros sobre o passado,

mas a partir da memória dos outros, agora a principal fonte foram suas memórias, o que lhe permitiu trabalhar com mais desenvoltura e imaginação. Sagrada Família é um romance que intercala fatos do cotidiano com acontecimentos históricos como a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial e a vinda do cineasta norte-americano Orson Welles como representante do governo de seu país, dentro da Política de Boa Vizinhança, que pretendia garantir o apoio de todo o Continente à presença dos Estados Unidos no conflito. O autor tem o mérito de fazer o leitor imaginar o período com riqueza de detalhes, graças à preocupação em ir além dos fragmentos de memória, em torná-los “reais”. Como se quisesse colocar em cenários de verdade, precisos, os eventos relevantes que continuam a sobreviver em suas lembranças, adestradas e formatadas por meio século de jornalismo. O colunista do jornal O Globo recusa o rótulo de memorialista, embora tenha feito pelo menos um livro referência com muito de si mesmo, 1968 – O Ano Que Não Terminou, pulsante por causa de seu olhar como testemunha e personagem, mais do que pelo esforço de repórter, pesquisador ou historiador. Se neste romance pode criar, inventar, modificar, há algo de mais relevante que sobressai em sua ficção memorialística: a intenção de cutucar esse jeito tão imutável do brasileiro de negar a sua hipocrisia. Impressões que, de cer-


to modo, ele confirma nesta entrevista exclusiva: Jornal da ABI – O que predomina no seu novo livro, a ficção ou suas memórias de infância? Zuenir Ventura – É a ficção, porque mesmo as memórias são ficcionadas, ou seja, inventadas. Aliás, as recordações de um passado muito distante acabam sendo ficção. Não podemos esquecer que coloquei como epígrafe do livro um verso de Manoel de Barros: “Só dez por cento é mentira. O resto é invenção”. Jornal da ABI – Esse foi o tipo de tema que o perseguiu a vida toda, a necessidade de escrever sobre pessoas próximas, mesmo com pitadas de ficção, ou a idéia surgiu quando pensou em escrever um romance? Zuenir Ventura – As recordações desse passado, às vezes real, às vezes imaginado, perseguem-me há pelo menos dez anos, quando resolvi escrever sobre elas. Foi um processo demorado até que o livro ficasse pronto. Comecei, parei, escrevi pelo menos dois outros livros nesse intervalo, e, finalmente, por pressão de meu editor Roberto Feith, da Editora Objetiva (que tem o selo Alfaguara, por onde o livro saiu), retomei e, enfim, terminei. Jornal da ABI – Você parece apostar mais na elaboração, na riqueza e humanização dos personagens do que no esforço de contar uma história. Concorda com isso? Foi algo cuidadosamente planejado nesse sentido? Zuenir Ventura – Talvez você tenha razão. Por “deformação” profissional minha – mais de 50 anos de jornalismo – sou fascinado por gente. Sempre fui assim e não mudei. Acho que não existe uma boa história sem um bom personagem. Tanto no jornalismo quanto na ficção. O que seria de Sagrada Família sem a presença de tia Cotinha e suas filhas? Jornal da ABI – Você buscou mais referências em suas lembranças e nas memórias familiares ou o livro exigiu uma pesquisa histórica? Zuenir Ventura – Exigiu também uma pesquisa histórica sobre os anos de 1940, principalmente a fatos relacionados à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e ao Estado Novo (1937-1945), de Getúlio Vargas. O pano de fundo, isto é, o contexto histórico, é rigorosamente real, embora eu me tenha dado a licença de incluir entre os personagens históricos aqueles

“A regra que parecia funcionar para todos era a de que o importante era parecer, não ser. No plano do comportamento, era possível fazer tudo, contanto que as pessoas não soubessem.” por mim inventados. Eu diria que há um auxiliar de confiança de Vargas que é inventado. Jornal da ABI – O que há de pessoal nesse livro? Zuenir Ventura – As emoções, as sensações, principalmente as sensoriais. Tanto que o narrador fala que as recordações chegam a ele mais pelo cheiro – o cheiro dos perfumes da farmácia, do aroma do café torrado, do creme de barbear do barbeiro, que ele sentia ao passar diariamente pela calçada. Essas lembranças proustianas estão vivas em mim até hoje. Jornal da ABI – Às vezes, o título de um livro é bem claro, direto. Você escreve sobre parentes e colocou o título Sagrada Família. Qual foi o sentido? Ironizar? Zuenir Ventura – É. Tem uma carga de ironia sim. Mas algumas pessoas que têm lido vêem por trás dessa ironia um grande carinho pelos personagens. Vai ver que foi um recurso do autor para não cair na pieguice, que é uma tendência perigosa quando se escreve sobre o passado. Jornal da ABI – Você disse que pretendeu escrever uma história que representasse “a hipocrisia daquela época”. Por que teve essa intenção? De alguma forma, o moralismo daquele tempo o incomodou diretamente ou a alguém de sua família? Zuenir Ventura – Foi sim uma época de recato e pudor, mas também de muita hipocrisia. A regra que parecia funcionar para todos era a de que o importante era parecer, não ser. No plano do comportamento, era possível fazer tudo, contanto que “as pessoas não soubessem”, às escondidas (como está mostrado no episódio que abre livro, em que o protagonista antecipa para o leitor que vai mostrar de que modo perdeu a inocência). Isso incomodava muito o narrador, aquele menino de nove anos que viu o que não imaginava ver, perdendo a inocência.

Jornal da ABI – É uma história mais carioca ou mineira, já que teve vivência em seus primeiros anos em Minas e no Rio? Zuenir Ventura – Deveria ser mais fluminense que mineira, porque a maior parte das ações se passa na região serrana do Estado do Rio. Mas há uma presença muito forte de reminiscências mineiras (onde está a origem da família Ventura). Afinal, o narrador fez seus primeiros estudos num seminário de Minas. Jornal da ABI – Você tem um estilo elegante, meticuloso, bem descritivo, inclusive de objetos do cotidiano, do que se usava na época em que Sagrada Família é ambientado. Isso é algo natural no seu processo de criação ou foi uma opção de estrutura do romance, de seu estilo? Zuenir Ventura – Creio que isso está presente não só no pano de fundo da trama – a Segunda Guerra Mundial, a ditadura de Vargas –, como também no contexto social – os usos e costumes da época. Tudo isso me exigiu muita pesquisa, além das lembranças pessoais. Jornal da ABI – Há um tom quase poético, pungente, de nostalgia, como se você arrancasse memórias e sentimentos pessoais profundos. Concorda? Como vê esse tipo de interpretação? Zuenir Ventura – Não só concordo como fico lisonjeado e agradecido por essa sensível interpretação. O verbo é de fato esse: “arrancar” memórias e sentimentos pessoais profundos. Jornal da ABI – Uma curiosidade que, imagino, deve ter muitos dos seus leitores é o caso que abre o livro. Aquela história é autobiográfica? Zuenir Ventura – Juro que não sei. O meu editor, Roberto Feith, fez a mesma pergunta e quando dei essa mesma resposta ele disse: “Não esconde o jogo, confessa só pra mim!” O grande memorialista Pedro Nava dizia que, em matéria de

memórias não se sabe quando termina a lembrança e começa a imaginação. É claro que o episódio ficou guardado no meu inconsciente. Só não sei ao certo se era uma recordação de uma cena de fato acontecida ou uma fantasia erótica, uma invenção (aliás, o livro está cheio delas). Jornal da ABI – Além de colunista de jornal, você tem um histórico de repórter e autor de livros históricos. O que é mais difícil, escrever sobre fatos reais ou contar histórias de ficção? Zuenir Ventura – Contar uma história de ficção é mais fácil, porque você não está sujeito às exigências do jornalismo. A liberdade é muito maior. O autor não fica escravizado aos fatos, não precisa checar as informações, não é obrigado a apurar até a exaustão. Enfim, você pode mentir à vontade. Na reportagem, a memória é voluntária; na ficção, é involuntária, intrometida, se mete aonde não é chamada. Jornal da ABI – A ficção entrou na sua vida por acaso ou você é daqueles jornalistas que sempre sonharam um dia escrever um romance ou publicar um livro de contos? Zuenir Ventura – Não, nunca pensei em escrever romance ou contos. Mas na minha vida tudo ocorre por acaso. Nunca pensei, por exemplo, em ser jornalista ou escritor. No caso de Sagrada Família, como disse, fui perseguido, fui quase obrigado a atender ao assédio de minhas memórias. Jornal da ABI – Ficção é um interesse maior agora em sua profissão ou Sagrada Família é uma produção à parte para você? Zuenir Ventura – Como estou em período pós-parto, em “resguardo”, como diria uma personagem do livro, estou pensando em tudo, menos num novo livro, seja de ficção ou de não ficção. Jornal da ABI – Você se define como um memorialista, um escritor que busca na sua história de vida temas para escrever livros? Foi assim com 1968 – OAno Que Não Terminou, não? Zuenir Ventura – Não tenho a pretensão de me definir como memorialista, mas como um escritor jornalista atraído pelo passado, num País amnésico que, como dizia Ivan Lessa, a cada 15 anos esquece os últimos 15 anos. Mas, atenção, não sou um passadista. Gosto de parodiar meu amigo Paulinho da Viola: “Não vivo no passado, o passado é que vive em mim”.

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HISTÓRIA

IMAGENS ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SP

principalmente as de São Paulo, mais ricas, excluídas de qualquer participação nas decisões importantes do País. O mesmo grupo político e militar que havia colocado Vargas no poder se levantou contra a tal “provisoriedade”, isto é, a continuidade de um Governo que não deveria durar muito. Isso provocou uma cisão dentro da Aliança Liberal e levou à guerra civil paulista. Os liberais, antes da rebelião, ainda tentaram dar início a um movimento para eleições diretas o mais breve possível, com data a ser fixada. Enquanto isso, o Presidente irritou as elites quando reconheceu oficialmente os sindicatos, legalizou o Partido Comunista Brasileiro e apoiou um aumento no salário dos trabalhadores.

País. Ele aboliu todas as instituições do Legislativo, do Congresso Nacional às Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais. Também depôs os governadores dos Estados e nomeou interventores. Impôs ainda a censura aos jornais que fizeram oposição, perseguições políticas, torturas, prisões, exílios e mortes. E passou a usar esses meios para se manter no poder. Todos esses fatos trouxeram descontentamento às oligarquias estaduais,

Autonomia política Medidas assim estimularam a realização, no começo de 1932, de uma greve que mobilizou cerca de 200 mil operários no Estado. O fato levou empresários e latifundiários paulistas a juntarem forças contra o poder federal. A situação piorou em 23 de maio, durante um comício que reivindicava o cumprimento dos ideais da Aliança Liberal que havia tomado o poder em 1930. Ou seja, os reconstitucionalistas, formados por paulistas civis e parte dos militares, discursaram que queriam autonomia política e uma nova constituição. O evento terminou com pancadaria, com a presença de tropas federais e a morte de quatro estudantes. Letras dos nomes das vítimas (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo) formaram a sigla MMDC, que se transformou no grande símbolo da revolução. A insurreição teve início no dia 9 de julho. Imediatamente, tropas federais tomaram as ruas para conter os rebeldes. As forças paulistas lutaram contra o Exército nacional durante três meses, com muitos combates que deixaram, oficialmente, cerca de 800 mortos. As tropas paulistas se espalharam pela capital e montaram barricadas, na expectativa de que outros Estados aderissem. Civis voluntários de todo o interior de São Paulo e também de Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Bahia, Pará e Amazonas chegaram, mas em menor número que o esperado. Ajudou ainda a cisão militar ocorrida nas Forças Armadas. O principal suporte, o financeiro, veio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo-Fiesp, que se articulou junto aos seus setores produtivos – tanto os industriais quanto o operariado – para produção de armamentos, além de mobilizar o comércio. Populares de todas as classes sociais correram para entregar objetos de valor que pudessem ajudar no esforço de guerra. Quem doasse jóias em ouro recebia como souvenir um anel de ferro que simbolizava a participação patriótica na Revolução. Logo se notou que estavam em desvantagem ante as forças federais, mais numerosas e bem equipadas – estima-se que 35 mil homens de São Paulo enfrentaram 100 mil soldados, enquanto os revoltosos esperavam a adesão de outros Esta-

A imprensa foi à guerra em 1932 Há exatos 80 anos, rebeldes em São Paulo se levantaram contra o Governo Federal e os jornais fizeram a diferença em todo o conflito. P OR G ONÇALO J ÚNIOR

A História da Imprensa em São Paulo tem um capítulo singular no já distante ano de 1932. Há precisos 80 anos, comemorados no último dia 9 de julho, os nove maiores diários paulistas – O Estado de S. Paulo, Correio de S. Paulo, Folha da Noite, Folha da Manhã, A Gazeta, Diário de S. Paulo, Diário da Noite, Diário Nacional e A Tribuna de Santos – se envolveram quase como protagonistas, em sua maioria, numa guerra contra o poder nacional, como nunca se vira até então e que jamais se repetiria – mesmo na adesão ao movimento que depôs o Presidente João Goulart, no dia 1º de abril de 1964. Foi a primeira vez também que uma imprensa regional mostrou seu poder de mobilização e influência – processo abortado dois anos antes, pelo movimento dos tenentes que derrubou e impediu a posse, respectivamente, dos paulistas Washington Luiz e Júlio Prestes. Durante três meses, donos de jornais e jornalistas de diversas correntes ideológicas se uniram para mobilizar a opinião pública e foram decisivos na deflagração do Movimento de 1932. Agora, essa História aparece em interessante análise no livro A História da Imprensa Paulista, do jornalista e escritor Oscar Pilagallo, que sai pela Editora Três Estrelas, do Grupo Folha. Por sua abrangência e ineditismo, o volume chega às livrarias como obra de referência e leitura indispensável para profissionais da área e, principalmente, estudantes de Jornalismo. Pilagallo cobre dois séculos de História, mas revela para o Jornal da ABI suas impressões e resume o contexto daquele conflito, quando o papel da imprensa ajudou a desenrolar a guerra, seu desfecho e as consequências de seu envolvimento direto no sangrento conflito. “A principal lição que podemos tirar da participação da imprensa em 1932 talvez seja a de que o engajamento dos jornais, embora responda à demanda imediata do leitor, não favorece a compreensão do momento histórico. Claro que é fácil dizer isso hoje, com o benefício da perspectiva histórica, mas o fato é que o noticiário de 1932 tinha mais calor do que luz”, observa o autor. A chamada “Revolução de 1932”, como a guerra ficou conhecida, nasceu de uma 30

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espécie de revolta contra o Presidente Getúlio Vargas, que havia assumido o poder menos de dois anos antes, após o levante de outubro de 1930. Vargas deveria governar o País em caráter provisório, mas obteve desde o início amplos poderes, excepcionais e autoritários, para fazer o que propunha o movimento, liderado pelos chamados “tenentistas” – corrente de revoltosos da década anterior que pregava a participação de militares na condução do


Registro do início da guerra civil com indisfarçável ufanismo nas primeiras páginas dos jornais A Gazeta, de 11 de julho, e a Folha da Manhã e Diário Nacional, ambos do dia 12. A Gazeta deu grande apoio ao Movimento Constitucionalista. Não raro, abriu páginas com fotos do avanço das tropas paulistas (abaixo, edição de 7 de agosto). Ao lado, O Estado de S.Paulo e Correio de S.Paulo, edições de 12 e 26 de agosto.

dos, em especial Minas Gerais, o que não aconteceu. A rendição ocorreu em outubro, seguida de uma série de retaliações – prisões, cassações e deportações se seguiram à capitulação paulista. Mobilização de massa Tanto as causas que levaram à guerra quanto o entendimento de suas conseqüências na sociedade paulista nunca ficaram claras e ainda são discutíveis até hoje. Há quem acredite que não foi um movimento de elite, embora ela o tenha liderado e patrocinado. Por outro lado, houve adesão total de todas as camadas sociais, tanto que se tornou a maior mobilização de massa da História brasileira – o que fez da ‘Revolução de 1932’ o maior confronto militar no Brasil no século 20. Desde o começo a imprensa paulista defendeu a causa dos revoltosos, como afirma Oscar Pilagallo, em entrevista. No rá-

dio, o entusiasmo do jovem locutor César Ladeira o transformou em celebridade e no locutor oficial da Revolução. Ao mesmo tempo, uma intensa campanha de mobilização teve início nas páginas dos diários. Isso fez com que uma multidão saísse às ruas em apoio aos revoltosos. Tropas paulistas foram enviadas para os fronts em todo o Estado. O principal jornal envolvido no movimento, “disparado”, era o Estado de S. Paulo, já com tradição de mais de meio século, explica Pilagallo. Destacaram-se também, diz ele, dois outros de propriedade de Assis Chateaubriand: o Diário da Noite e o Diário de S. Paulo. O Grupo Folha contava com dois títulos: a Folha da Noite e a Folha da Manhã. Circulavam também A Gazeta, de Cásper Líbero, e o Diário Nacional, porta-voz do Partido Democrático. “Nenhum deles ficou indiferente à Revolução, e nem poderia ter sido dife-

rente, dada a importância do movimento para o Estado”, sublinha Pilagallo. O grau de envolvimento, no entanto, não foi o mesmo, ressalta. O Estado, a maior publicação e a mais influente, porta-voz informal de uma elite liberal, era mais identificado com a causa. “A defesa da revolução ia além dos limites editoriais. No aniversário da cidade, de 25 de janeiro de 1932, seis meses antes de estourar o conflito, Júlio de Mesquita Filho, dono do jornal, discursou em praça pública, defendendo que São Paulo, até então nas mãos de interventores indicados por Getúlio Vargas, fosse governado por paulistas”. Júlio de Mesquita Filho e seus irmãos não hesitaram em tomar parte das articulações que levaram ao conflito com o governo central. “E, coerentemente, pegaram em armas durante os combates.” O paraibano Chateaubriand, que entrara

no mercado paulista em meados da década anterior, também apoiava a Revolução, “mas, talvez, sem as mesmas convicções e autenticidade exibidas pela família Mesquita”. Quanto às ‘Folhas’, ressalta Pilagallo, aderiram tardiamente ao movimento. Em 1931, quando o descontentamento dos paulistas – refletido nas páginas de O Estado – já era grande, as ‘Folhas’ ainda defendiam o interventor e pediam calma aos que queriam logo a prometida Constituinte. “Só no início de 1932 é que os dois jornais passaram a apoiar o movimento, mas, mesmo assim, apenas com editoriais e sem fazer uma campanha aberta e ostensiva. Claro que, à medida que se aproximava a deflagração do conflito, o tom de todos os jornais foi subindo, em defesa dos interesses imediatos do Estado.” Pilagallo não acredita que, ao encampar o levante de 1932, tenha acontecido JORNAL DA ABI 380 • JULHO DE 2012

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HISTÓRIA A IMPRENSA FOI À GUERRA EM 1932

algum tipo de revanche por parte da imprensa como motivação para questionar o poder de Vargas, devido à destruição das Redações de alguns diários, ocorrido em outubro de 1930, por terem se posicionado contra o golpe tenentista. “Na realidade, os jornais que mais defenderam a Revolução Constitucionalista haviam apoiado o Governo surgido em 1930. Vamos lembrar que O Estado, o Diário da Noite e o Diário de S. Paulo eram partidários da Aliança Liberal, que enfrentava os interesses da oligarquia da República Velha. Os jornais só se voltaram contra o Governo federal provisório quando ficou claro que Getúlio não tinha planos tão provisórios assim, que não havia pressa em se realizar a Constituinte e que São Paulo não seria beneficiado pelo novo Governo.” Os diários empastelados em 1930 foram o Correio Paulistano, A Gazeta e as ‘Folhas’. Estas, depois de apoiarem a Aliança Liberal, mudaram de posição na última hora e passaram a defender um Governo que estava com os dias contados. “De qualquer maneira, não houve revanchismo. Os jornais que mais se empenharam no movimento de 1932 não haviam sido empastelados em 1930, com exceção do Diário Nacional.” Na grande imprensa, por assim dizer, explica Pilagallo, havia a predominância da defesa da Constituinte, o que direcionou o movimento às últimas consequências. “Existiam também vozes separatistas, mas elas não refletiam necessariamente a posição dos jornais”. O separatismo era defendido mais abertamente em publicações que teriam surgido exclusivamente para fazer a propaganda do movimento, como o Jornal das Trincheiras e O Separatista, que traziam no próprio título sua razão de ser. Ao mesmo tempo, O Estado de S. Paulo teve uma atuação assumidamente passional, como se vê nas manchetes da época, enquanto as ‘Folhas’, mesmo pró-revolução, fizeram uma cobertura mais sóbria. “A posição de O Estado se confundia com a das elites de São Paulo. Já as ‘Folhas’ não tinham relevância nessa época”. A explicação para isso estava nos fatos políticos ocorridos dois anos antes. “Os dois jornais do grupo haviam perdido a pouca importância que tinham em 1930, quando uma guinada editorial os colocou contra a vitoriosa Aliança Liberal. Foram empastelados e em seguida vendidos a Otaviano Alves de Lima, um comerciante de café sem experiência em jornalismo”. Assim, as ‘Folhas’, acrescenta Pilagallo, distanciaram-se das questões políticas e só aderiram à idéia da Revolução quando o movimento já estava nas ruas. “A partir daí, sem dúvida que o apoio das ‘Folhas’ foi grande, mas nada comparável ao que fazia O Estado”. E a História se fez com jornalistas armados de todas as formas possíveis – máquinas de escrever e imprimir e baionetas nas mãos. Literalmente. 32

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QUADRINHOS

O passado e o futuro mais que perfeito Dois livros com tratamento gráfico de primeira trazem exemplos do que de melhor se produz na Europa. P OR C ESAR S ILVA

Cena 1 Histórias em quadrinhos documentais estão cada vez mais em pauta, tanto sobre o passado distante, quanto recente. As guerras são um cenário recorrente, rico em roteiros e já sustentaram séries importantes em todos os mercados do mundo, como a coleção Combate, publicada no Brasil nos anos 1960 pela Editora Taika; Sgt. Rock, de Joe Kubert, publicado pela DC nos Estados Unidos também nos anos 1960, e The ‘Nam, publicado pela Marvel nos anos 1980. Clássicos como Maus de Art Spiegelman e Gen: Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, mostram que ainda há muito o que se dizer sobre os grandes conflitos humanos. Entretanto, alguns conflitos parecem interessar mais do que outros. A guerra do Vietnã e a Segunda Guerra Mundial ocupam a maior parte das páginas publicadas. Por isso é valioso o lançamento no Brasil de Era a Guerra de Trincheiras (C’était la Guerre des Tranchées), do multipremiado cartunista francês Jacques Tardi, que conta episódios dramáticos reais acontecidos nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, um dos conflitos mais sangrentos e absurdos da História da humanidade. Publicado originalmente na Europa em 1993 pela Casterman, o álbum chegou com a marca de qualidade da Nemo, uma jovem editora que se esmera – e surpreende – a cada lançamento, distribuindo no Brasil elegantes álbuns com quadrinhos de renomados artistas europeus. Tardi nasceu em 1930, em Valence, França. Começou a fazer quadrinhos aos 23 anos

na prestigiosa revista Pilote, em parcerias com Jean Giraud (Moebius), Serge de Beketch e Pierre Christin. Um de seus maiores sucessos foi a série Les Aventures Extraordinaires d’Adèle Blanc-Sec, iniciada em 1976, com histórias de uma investigadora paranormal ambientadas no início do século 20. Praticamente inédito no Brasil, Tardi teve publicado por aqui Le Cri du Peuple (O Grito do Povo, Conrad, 2005), álbum em dois volumes com roteiros de Jean Vautrin. Contudo, suas mais importantes contribuições para a arte dos quadrinhos são seus muitos relatos anti-bélicos, tais como Adieu Brindavoine (1974), Le trou d’obus (1984), e este Era a Guerra de Trincheiras, vencedor do Eisner Awards 2011 em duas categorias.

As histórias reproduzem os relatos do avô de Tardi, que participou dessa guerra e testemunhou o cotidiano terrível e brutalizante que os soldados enfrentaram no front durante anos de imobilidade, enterrados em buracos lamacentos e insalubres, apenas porque seus comandantes não sabiam como lutar com as novíssimas tecnologias disponíveis. Blindados, aviões, bombas cada vez mais poderosas, gás, metralhadoras, tudo era experimentado como num show de horrores mortal. Para compor suas histórias, Tardi não se importou com os motivos e o desfecho do conflito, mas com os dramas particulares de soldados mal preparados que, na maior parte do tempo, sequer sabiam o que estavam fazendo ali.


O traço despojado e levemente caricato, trabalhado completamente em preto e branco, reforça o horror da guerra. Também transmite uma sensação de instabilidade contínua, de sujeira e umidade, que impregna a percepção. Embora não tenha sido intenção do autor fazer um documentário, a reconstituição foi cuidadosa, com arquitetura, armas, veículos e uniformes perfeitamente caracterizados. Como na maioria dos lançamentos da Nemo, o acabamento do álbum é primoroso, com 128 páginas impressas em papel couchê, encadernado em capa dura. Com tradução de Ana Ban, a obra ainda contém uma lista com filmes e livros sobre a Primeira Guerra Mundial, que valem como um guia de pesquisa para quem quiser se aprofundar no assunto. Cena 2 A mesma Editora Nemo recupera a clássica aventura de ficção e fantasia A Trilogia Nikopol, obra-prima do quadrinista Enki Bilal, cuja primeira aventura foi lançada originalmente há 32 anos. E ela chega em um único e luxuoso volume de quase 190 páginas. O livro apresenta os episódios A Feira dos Imortais (La Foire aux Immortels, 1980), A Mulher Armadilha (La Femme Piège, 1986) e o até então inédito no Brasil Frio Equador (Froid Équateur, 1992). As duas primeiras partes foram publicadas por aqui em álbuns distintos, no final dos anos 1980, pela editora Martins Fontes, sob os títulos Os Imortais e A Mulher Enigma. Mas a edição da Nemo, traduzida por Fernando Scheibe, além de trazer a história completa numa única edição muito bem cuidada, foi acrescida com elementos gráficos e escritos extraídos do álbum especial Bleu Sang, também de Bilal, lançado na Europa em 1994. O primeiro episódio, A Feira dos Imortais, mostra a situação político-social de

uma Europa no ano de 2023, formada por uma decadente sociedade de pós-humanos e alienígenas, dominada por um governo fascista e corrupto. No céu de Paris assombra uma pirâmide, que é a astronave de alienígenas imortais que já foram tidos como deuses no antigo Egito. Apesar de poderosos, esses seres meio-homens, meio-animais, precisam da colaboração do governo humano para reabastecer o seu veículo estelar. Mas o Governador de Paris pretende receber dos alienígenas favores muito especiais para ceder a enorme quantidade de combustível exigida. Durante o impasse nas negociações uma antiga cápsula espacial, que estava em órbita da Terra há décadas, cai no subúrbio da cidade. Dentro dela está o corpo congelado de Alcides Nikopol, condenado a trinta anos de exílio por desafiar o governo. O corpo é capturado por um dos alienígenas, o sociopata Horus, que tem um plano para mudar as coisas na estagnada hierarquia alienígena. As ações de Horus e Nikopol desencadeiam uma crise que vai mudar radicalmente a situação política da Europa, não necessariamente para melhor, como pode ser visto na seqüência A Mulher Armadilha, em que Jill Bioskop, uma jornalista correspondente de conflitos políticos em Londres, envolve-se numa situação de violência e morte que a levará a se encontrar com Nikopol em Berlim, ambos importantes para a continuidade do plano de Horus. A seqüência final, Frio Equador, avança alguns anos até Equador City, localizada em algum lugar do continente africano, cidade habitada por uma fauna de animais inteligentes que convivem com a população póshumana e alienígena. Nikopol agora são dois: pai e filho idênticos. O filho tornou-se um líder político atualmente em desgraça, acusado de um crime que não cometeu, enquan-

to o Nikopol original vai aos poucos perdendo a racionalidade pela influência de Horus. A narrativa errática e repleta de pontas soltas tem um subtexto inconclusivo sobre as reportagens de Jill, que viajaram no tempo e foram publicadas em 1993 no jornal Libération. Um fac-símile com duas páginas desse jornal, impresso em papel couchê, foi encartado no álbum e o leitor pode ler algumas dessas estranhas reportagens supostamente vindas do futuro. Nascido em 1951 em Belgrado, na antiga Iugoslávia, hoje Sérvia, filho de pai bósnio e mãe tcheca, Bilal ganhou notoriedade nas páginas da lendária revista francesa Metal Hurlant. Uma de suas primeiras histórias foi Exterminador 17 (1979), com roteiros de JeanPierre Dionnet, publicada no Brasil pela Editora Globo em 1992 na coleção Graphic Globo. Com seu estilo barroco perturbador, Bilal também ilustrou diversas histórias que enveredam pelo fantástico, escritas pelo roteirista Pierre Christin, como O Cruzeiro dos Esquecidos (La Croisière des Oubliés,1975) e O Navio de Pedra (Le Vaisseau de Pierre, 1976), entre outras. A arte de Enki Bilal segue a tradição de outro grande mestre do quadrinho francês de fantasia e ficção-científica: Jean Giraud, também conhecido como Moebius. Con-

temporâneos e parceiros na Metal Hurlant, Bilal nunca escondeu sua admiração pelo trabalho do amigo, morto no início de 2012. Eles criaram mundos fantásticos que inspiraram diversos autores e até cineastas. Aliás, o cinema também despertou o interesse dos dois artistas. Moebius trabalhou em diversos projetos, como Alien e O Quinto Elemento, e Bilal adaptou Nikopol para a tela grande no longa-metragem Imortal [Immortel (ad vitam), 2004]. O roteiro, no qual contou com a ajuda do escritor Serge Lehman, tem pequenas alterações com relação à história original, mas as imagens guardam grande similaridade com as vistas nos seus desenhos, bem como o estilo narrativo fragmentário e aberto, com uma excelente direção de arte. Em 2008, a saga de Nikopol, Jill e Horus chegou aos videogames com Nikopol: Secrets of the Immortals, com roteiro do próprio Bilal, baseado no filme. Bilal dirigiu anteriormente outros dois longas, Tykho Moon (1996) e Bunker Palace Hotel (1989), filmes considerados cult pelos apreciadores do trabalho desse autor. Seu trabalho mais recente para os quadrinhos é Julia & Roem, publicado em 2011 pela Casterman, e ainda inédito no Brasil. (Com Francisco Ucha)

Era a Guerra de Trincheiras Jacques Tardi Tradução Ana Ban Editora Nemo ISBN 978-85-64823-07-5 128 páginas Formato 22,5x29,5cm A Trilogia Nikopol Enki Bilal Tradução Fernando Scheibe Editora Nemo ISBN 978-85-64823-01-3 184 páginas Formato 24x32cm

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CENTENÁRIO

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oucos escritores brasileiros são tão amados quanto Jorge. Nascido em Itabuna no dia 10 de agosto de 1912, ele completaria 100 anos em 2012. E bem poderia atender por outro sobrenome. Além de Amado, Jorge é também popular. Muito popular. E não só no Brasil. É um dos autores nacionais mais publicados em todo o mundo, atrás apenas de Paulo Coelho, que atua em outra linha editorial que não o romance – marca registrada do baiano – e construiu sua carreira numa época em que o marketing, por vezes, conta mais do que o apreço pelas palavras. A obra de Jorge foi editada em 52 países e traduzida em dezenas de idiomas, alguns tradicionais, como o inglês e o espanhol. Outros muito diferentes ou herméticos, como o chinês, o russo, o grego e o hebraico. Morto em 6 de agosto de 2001, o escritor continua surpreendendo. Uma de suas facetas menos conhecidas era a de jornalista. É justamente parte dessa produção que pode ser conferida em A Hora da Guerra, obra editada em 2008 pela Companhia das Letras, que reúne as 103 melhores crônicas dentre as diariamente publicadas por Jorge entre 1942 e 1943, no jornal O Imparcial, de Salvador. Reunidos pela primeira vez em livro, os textos tratam da Segunda Guerra Mundial, e revelam um autor engajado no esforço dos aliados para derrotar o nazifascismo na Europa, na África e na Ásia. “O leitor descobre que os ânimos baianos estavam exaltados durante a guerra, sobretudo depois de agosto de 1942, quando cinco navios brasileiros foram bombardeados no litoral nordestino, deixando um saldo de mais de 500 mortos e levando a população a depredar casas comerciais pertencentes a alemães e italianos. Aprende que ficou interditado o uso de luz elétrica na orla de cidades costeiras, a fim de despistar os submarinos alemães. As crônicas registram, ainda, outras curiosidades, como o mistério das camisas negras integralistas que foram encontradas enterradas no Ceará; a existência de campos de concentração no Paraguai; a exposição em Belo Horizonte na qual simpatizantes do Integralismo rasgaram telas de pintores modernistas; ou a polêmica em torno dos direitos autorais de uma obra de Humberto Campos, psicografada por Chico Xavier”, resume Ilana Goldstein. Antes de continuar, vamos às apresentações. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, Ilana é mestre em Antropologia Social e em Mediação Cultural – esta última pela Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris. Doutora em Antropologia Social pela Unicamp, é docente na pós-graduação “Gestão Cultural: Cultura, Desenvolvimento e Mercado”, do Centro Universitário Senac, e atua como professora convidada no MBA “Gestão de Bens Culturais”, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Consultora em projetos culturais de diversas instituições acadêmicas, é autora de dois livros, um deles dedicado ao escri34

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Amado

Jorge descansa. Dona Lalu observa.


para sempre tor baiano: O Brasil Best-Seller de Jorge Amado: Literatura e Identidade Nacional, lançado pelo Senac, em 2003. É ela quem nos conta um pouco mais sobre a atuação jornalística de Jorge Amado. “Essas crônicas de guerra constituem apenas uma das suas várias incursões ao universo do jornalismo e da editoração. Ele começou a carreira como repórter policial, aos 16 anos. Foi editor de uma coleção de romances soviéticos. Foi Diretor de Redação do jornal Paratodos, na década de 1950. E teve uma coluna na extinta revista Senhor”, descreve ela, que volta a chamar a atenção para o conteúdo de A Hora da Guerra. “A idéia de fazer esse livro partiu de Myriam Fraga, Diretora da Fundação Casa de Jorge Amado. Fizemos juntas a seleção dos textos. As crônicas reunidas exalam o ‘calor da hora’. À época do lançamento desse livro, um resenhista criticou Jorge Amado por tecer apologias a Stálin e ao socialismo soviético. Ouso discordar que esse seja um problema. É preciso ler o texto dentro de seu contexto. Trata-se, na verdade, de um riquíssimo documento sobre um capítulo da História do Brasil, que segue pouco conhecido do grande público. Fica fácil criticar, 70 anos depois, ideologias que, naquele momento, faziam todo o sentido para parte da intelectualidade”, resume. A militância política, por sinal, é outro aspecto da personalidade de Jorge Amado – este um pouco mais conhecido do público. São temas constantes em suas obras o folclore, a política, crenças e tradições, e a sensualidade do povo brasileiro. Misturados a tudo isso, também estão presentes os problemas e injustiças sociais. Jorge chegou mesmo a adotar a política como profissão. Em 1946, foi eleito Deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), o que lhe rendeu fortes pressões políticas. Como parlamentar, foi o autor da emenda que garantiu a liberdade religiosa. “Ele foi preso várias vezes, se auto-exilou algumas outras, em países como Argentina e Uruguai, além das temporadas em Paris e Praga. Teve seus livros Mar Morto e Capitães da Areia queimados por ordem do Governo Getúlio Vargas, apenas para citar algumas passagens de conflito”, relata a professora. Uma exposição comemorativa Além da colaboração no livro A Hora da Guerra, Ilana Goldstein está diretamente envolvida em outro importante

No dia 10 de agosto de 2012, Jorge Amado completaria um século de vida. Passada mais de uma década de sua morte, a obra do escritor permanece viva nas livrarias, em exposição comemorativa, em novas adaptações para o cinema e televisão e, sobretudo, mantém-se pulsante no imaginário do povo brasileiro. P OR P AULO C HICO

projeto que, em pleno curso, busca manter em evidência a relevância do escritor e de sua obra. A exposição Jorge, Amado e Universal esteve em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, até 22 de julho. A partir de 10 de agosto, poderá ser vista no Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador. Provavelmente, o roteiro incluirá passagens por outras capitais, como Recife, além da cidade do Porto, em Portugal. Goldstein foi responsável pelo conteúdo da exposição, juntamente com Ana Helena Curti e Fernando Lion. A mostra tem direção de Willian Nacked, da N&A Mercado Cultural, cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, e conta com o patrocínio do Santander, por meio da Lei Rouanet. “Foi um grande desafio escolher os recortes dessa exposição. Não apenas porque Jorge Amado é superlativo e plural, mas também porque o visitante traz consigo seu próprio Jorge – não raro, o escritor do estereótipo e das telenovelas. Procuramos encontrar uma abordagem que ultrapassasse o senso comum; que permitisse o contato direto com sua obra literária; e discutisse de que maneira ele, além de escritor, foi um intérprete do Brasil. Seja como militante político, no início da carreira, ou como romancista que, mais tarde, recriou o povo mestiço e o ‘jeitinho brasileiro’, Amado sempre discutiu, explicitamente ou nas entrelinhas, questões de âmbito nacional. Graças a esse interesse pelo País e à enorme

repercussão sua literatura tornou-se uma verdadeira formadora de opinião sobre o Brasil”, avalia Ilana. Assim, reforça ela, a mostra Jorge, Amado e Universal pretende ajudar a desconstruir eventuais preconceitos e estigmas, para reavaliar a importância do escritor na cultura brasileira e redescobrir o prazer da leitura de sua obra. Para tanto, duas grandes dimensões se entrecruzam na exposição. De um lado, a criação do escritor, os personagens e temáticas de sua ficção. De outro, o posicionamento do homem Jorge Amado: suas ideologias, utopias e leituras da realidade. Essas duas frentes se combinam e perpassam os diversos módulos temáticos que compõem a mostra. O módulo dedicado à faceta política de Jorge Amado reúne as publicações e os eventos das décadas de 1930, 1940 e 1950, entre os quais a eleição para Deputado Federal pelo PCB, a viagem pelo mundo socialista e a autoria de uma biografia de Luís Carlos Prestes. Trechos de livros, cartazes, páginas de jornal e fotos de época circulam em esteiras rotatórias que, não por acaso, lembram uma prensa de jornal. Em Mestiçagem e Sincretismo, o público percebe a intensa mistura vigente na sociedade brasileira, em paradoxal confronto com a classificação e a discriminação, que toma como base a aparência racial e as diferenças entre as práticas religiosas. O erotismo e a malandragem também estão presentes na exposição, que tem seu maior módulo dedicado à Bahia – principal matéria-prima do escritor. Não é casual a escolha das sementes de cacau na parede em que são apresentados vídeos sobre o homem e o escritor. Tampouco é arbitrário o fato de o mar, elemento tão central no universo amadiano, estar representado por uma enorme quantidade de azeite de dendê. Ali estão as paisagens paradisíacas, a culinária saborosa, mas também as desigualdades sociais, a sujeira e o processo de decadência do Estado. A Bahia de Jorge Amado era múltipla – bela e feia. Sedutora e repugnante. Alegre e triste. Mais uma vez, Gabriela na tv Por certo, Jorge Amado é o escritor brasileiro cuja obra foi adaptada em maior número de vezes para o cinema e a televisão. Dona Flor e Seus Dois Maridos, filmado por Bruno Barreto em 1976, atraiu cerca de 12 milhões de espectadores – firmando-se como um recorde de bilheteria nacional, feito que perdurou por três décadas. Tieta virou novela de sucesso nas

mãos de Aguinaldo Silva, em1989, na TV Globo, além de filme dirigido por Cacá Diegues, em 1996. A personagem título coube a Betty Faria e Sônia Braga, na telinha e na telona, respectivamente. Sônia, aliás, deu vida a Gabriela na TV Globo (em 1975) e no cinema (em 1980), além de ter estrelado o já citado Dona Flor. Tenda dos Milagres, Capitães da Areia, Teresa Batista Cansada de Guerra e O Compadre de Ogum foram outras minisséries da mesma emissora, feitas a partir de adaptações de romances do escritor. “O problema é que assistir a uma dessas adaptações não é o mesmo que ler um livro. São linguagens diversas, com ritmos e níveis de profundidade diferentes. Aquela cena clássica da Sônia Braga buscando uma pipa no telhado foi criada em Gabriela só para mostrar as curvas da atriz. Essa situação simplesmente não existe no romance. Por isso mesmo, Jorge Amado não costumava ver as adaptações, nem ler as traduções de seus livros. Dizia que a melhor tradução era aquela num idioma que ele desconhecia... Afinal, uma adaptação é praticamente outra obra. Além disso, creio que a superexposição de Jorge Amado teve um lado perverso, que foi o de estereotipar a sua Bahia. Na mostra Jorge, Amado e Universal tentamos justamente recuperar a obra literária de Jorge Amado em sua essência, com suas próprias palavras, evitando as adaptações, por mais que elas possam ter méritos técnicos e criativos”, explica Ilana. Em junho de 2012, mais uma vez a personagem Gabriela chegou à tela da TV Globo, em formato de mini-série, com Juliana Paes no papel principal. Gabriela, Cravo e Canela, publicado em 1958, foi um grande marco na trajetória de Jorge. Vinte mil exemplares esgotaram-se em duas semanas e mais de 100 mil foram vendidos na seqüência. Gabriela fundou uma nova fase literária, menos marcada pelo engajamento político, na qual ele substituiu a ideologia socialista pela exaltação da mestiçagem e da cultura popular. O humor, cheiros, a religiosidade e as cores da Bahia vieram se sobrepor à denúncia social. Do ponto de vista da vida pessoal, o livro teve impactos. Jorge vendeu os direitos de filmagem à Metro Goldwyn Mayer, em 1961. Com o dinheiro, comprou um terreno no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, onde construiu a famosa casa em que morou com sua esposa Zélia Gattai – falecida em 17 de maio de 2008 e autora de Anarquista, Graças a Deus. Ilana Goldstein conta outras curiosidades sobre a obra. “Há histórias interessantes sobre a repercussão deste livro na vida dos leitores. Li uma carta de um fã italiano que escreveu ao romancista para lhe agradecer: após ler Gabriela, resolveu ir da Calábria para a Bahia em busca de sua Gabriela. E não é que de fato a encontrou? Casaram-se e tiveram filhos mestiços, bem ao estilo das histórias de Jorge Amado. Na cidade de Ilhéus, passageiros de cruzeiros de navio desembarcam para conhecer o restaurante Bataclan, no local onde era o bordel de Antonia Machadão, e o Vesúvio, bar que era propriedade JORNAL DA ABI 380 • JULHO DE 2012

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de Nacib. Como livro, portanto, há muito a dizer sobre Gabriela. Em relação às adaptações feitas para a televisão, não tenho tempo de analisar nesse momento. Precisaria assisti-las.” A versão atual de Gabriela, em exibição da TV Globo, é uma adaptação de Walcyr Carrasco, escritor e autor de telenovelas de sucesso, como O Cravo e a Rosa, Chocolate com Pimenta e Alma Gêmea. Em resposta ao Jornal da ABI, ele contou como se deu o seu contato inicial com a obra de Jorge Amado, e como o mesmo o influenciou em suas escolhas profissionais. “Comecei a ler Jorge aos 12 anos, justamente por Gabriela. E devorei toda sua obra. Obviamente, isso fez crescer minha paixão pela literatura, e estimulou meu desejo de me tornar escritor. A dimensão profunda dos seus personagens, a discussão da moral e do comportamento e a questão política o tornam um autor extremamente brasileiro e, ao mesmo tempo, universal. O maior desafio na adaptação de suas obras, como a que estou fazendo agora, é justamente ser fiel à maneira como via o mundo, e que está sempre presente em seus livros.”

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Jorge Amado em três momentos: em 1914 com dois anos; discursando durante sua posse na Academia Brasileira de Letras, em julho de 1961. Abaixo, com a neta Mariana. ACERVO FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO

Popularidade e preconceito Inegável é o fato de que tais adaptações ajudaram na divulgação da obra de Jorge Amado junto ao grande público. Tamanha popularidade talvez explique parte do preconceito que o escritor enfrentou, em diferentes momentos, junto ao meio acadêmico, apesar do reconhecimento junto aos colegas, que o acolheram na ABL (Academia Brasileira de Letras), onde ingressou em 1961, ocupando a cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar. “O fato de Jorge Amado ter se tornado um best-seller provavelmente contribuiu para o preconceito que sempre houve contra ele nas universidades do Sul e do Sudeste. Uma respeitável pesquisadora de São Paulo chegou a acusá-lo de escrever livros grossos, a fim de poder cobrar mais caro por eles. Outro fator a ser levado em conta é a aproximação do escritor, no final da vida, com políticos conservadores como José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Isso gerou incômodo em quem conhecia sua trajetória de militante socialista, nos anos de juventude. Quando desenvolvi minha pesquisa sobre Jorge, entre 1995 e 2000, surpreendeu-me o número relativamente baixo de dissertações e teses defendidas sobre o escritor até aquele momento – bem como o nariz torcido de alguns colegas”, lamenta a pesquisadora. Merecem menção, portanto, algumas iniciativas recentes no sentido de recuperar e rediscutir a relevância deste baiano. Ao vencer concorrência lançada pela família de Jorge Amado, em 2007, a editora Companhia das Letras incluiu em seu projeto editorial uma série de ações voltadas à formação de leitores e à contextualização dos romances. As novas edições trazem cronologias no final de cada volume, cadernos de imagens com reproduções de capas antigas e fotos da época em que foi escrito o livro, bem como posfácios inéditos assinados por cientistas sociais e artistas do porte de Mia Cou-

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ARQUIVO/AGÊNCIA O GLOBO

CENTENÁRIO AMADO PARA SEMPRE

to, Milton Hatoum, Nélson Pereira dos Santos, Roberto DaMatta, Antônio Sérgio Guimarães, Alberto da Costa e Silva e Yvone Maggie, que lançam novas luzes sobre a produção amadiana. A Companhia das Letras coorganizou ainda, com a Usp e a Ufba, o Seminário Internacional Jorge Amado, em maio de 2010. Os auditórios ficaram lotados, tanto em São Paulo, como em Salvador, tendo sido contabilizado público de 400 pessoas. “Naquela ocasião ficou claro, em primeiro lugar, que hoje existe interesse acadêmico em debater Jorge Amado; em segundo lugar, que ainda há terrenos férteis a serem explorados. Júlio de Assis Simões, professor de Antropologia da Usp, abordou, por exemplo, a homossexualidade em alguns romances. Ana Rosa Ramos, professora do Departamento de Letras e Linguística da Ufba, analisou as transformações das capas dos livros ao longo do tempo. Daniel Aarão Reis, professor de História Contemporânea da Uff, mostrou o grande potencial da literatura amadiana para a pesquisa histórica, sugerindo que os livros de sua primeira

fase contêm descrições fidedignas e detalhadas dos bastidores da militância política no Brasil”, festeja a professora. Ela ainda lembra que, graças ao apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ao patrocínio da Volkswagen e a parcerias com Secretarias de Educação de vários Estados e Municípios, a mesma editora capacitou mais de dois mil professores da rede pública, ao longo de dez workshops de formação, realizados no ano de 2009. Os workshops abordaram metodologia de projetos educacionais, aspectos da vida e da obra de Jorge Amado e a utilização de literatura em sala de aula. Paralelamente, 12 mil exemplares dos materiais paradidáticos A Literatura de Jorge Amado e O Universo de Jorge Amado foram distribuídos gratuitamente para escolas das redes pública e privada em todo o País. “Tive a oportunidade de participar do projeto educativo e fiquei impressionada com o número de questões suscitadas nos educadores pela obra de Amado, ainda hoje. Os meninos de rua que habitam Capitães da Areia (1937) geram comoção e debate, assim como o preconceito de

gênero que ronda Gabriela, Teresa Batista e Tieta do Agreste. A defesa do sincretismo religioso se revelou um ponto particularmente polêmico: em razão de filiações religiosas conservadoras de parte da comunidade escolar, cultos afro-brasileiros tendem a ser considerados como demoníacos e perigosos. Os livros de Jorge permitem problematizar tal posicionamento em sala de aula. Creio, portanto, que estamos assistindo a um reposicionamento de Jorge Amado, como escritor e intérprete do Brasil”, relata Ilana. Amado e imortal A Fundação Casa de Jorge Amado foi inaugurada em 1987, com sede em um casarão azul cuidadosamente restaurado, no Centro Histórico de Salvador. Foi, na verdade, a pedra fundamental da reforma a que foi submetido o Pelourinho, nos anos seguintes, visando a embelezá-lo e a oferecer mais conforto e segurança aos turistas. Desde a reforma, os eventos culturais organizados pela Bahiatursa no Pelourinho, voltados para turistas e soteropolitanos de classe média, realizam-se no Largo Teresa Batista, Largo Pedro Archanjo ou Largo Quincas Berro D’Água – todos estes nomes de personagens amadianos com os quais foram batizados alguns locais históricos. Mas o que faz Jorge ser tão especial, a ponto de rebatizar lugares públicos da capital baiana? Como conquistou lugar cativo no imaginário nacional? “Jorge deixou 32 livros que, até o ano 2000, quando fiz minha pesquisa, tinham vendido mais de 30 milhões de exemplares. No exterior, foi editado em mais de 50 países e traduzido para 29 línguas. Sem contar as inúmeras adaptações teatrais, cinematográficas e televisivas. Porém, mais do que números expressivos, o escritor nos legou registros e interpretações da Bahia e do Brasil que tiveram ampla penetração. Por quê? Por vários motivos. Em primeiro lugar, pelo uso do registro coloquial em sua obra, incorporando o modo de falar do povo, e democratizando a recepção de seus livros. Depois, porque lança mão de elementos típicos do folhetim e da literatura de cordel, como as constantes reviravoltas, a vitória do bem contra o mal, o romantismo e o humor. Em terceiro lugar, porque discute, em meio a uma ficção aparentemente leve e fácil, questões fundamentais do País, como a mestiçagem cultural, as desigualdades sociais e a mistura entre público e privado que caracterizam o ‘jeitinho brasileiro’ como o conhecemos”, aposta Ilana. Além disso, vale lembrar que Jorge relacionava-se bem com a elite política, econômica e artística, mas ao mesmo tempo era muito querido pelo povo da Bahia. “Não foi à toa que escolheu Exu como logotipo para ser impresso em sua correspondência e na contracapa de seus livros. Trata-se de uma divindade de iorubá associada ao movimento e à transgressão de fronteiras. A escolha de Exu parece indicar tanto a filiação à cultura popular mestiça como a valorização da habilidade de transitar entre universos sociais e culturais distintos e até antagônicos. Isso pode também ter favorecido a cir-


As intencionalidades da narrativa de Jorge Amado POR FÁBIO LUCAS

N

o meu mais longo estudo sobre a obra de Jorge Amado, persegui as motivações de sua literatura social. Algo como a inserção da esfera igualitária no sonho do futuro e, simultaneamente, a presença da utopia na representação da realidade. Humanismo visionário. Além dessa medida, procurei alcançar a busca da identidade nacional centrada na caracterização da periferia do modo pré-capitalista de exploração econômica. O olhar humanista de Jorge Amado se voltava para o imenso território dos excluídos e se fixava na composição racial multiforme, com foco especial na figura do mestiço. A simpatia do ficcionista devotou-se ao ramo afro-brasileiro de nossa composição racial, em contrabalanço do fervor romântico pelo tronco indigenista. É o que consta do meu trabalho “A contribuição amadiana ao romance social brasileiro” (cf. Cadernos de Literatura Brasileira, n° 3, S.Paulo: Instituto Moreira Salles, março de 1997, pp. 98-119). Um aspecto formal, entretanto, distingue a obra de Jorge Amado: a engenhosidade do relato, o modo simples e magnificamente bem arquitetado de conduzir o enredo, a ponto de envolver e cativar o leitor. O romance, como veículo da mensagem social do ficcionista, atinge vasta camada do público. E tal engenho passou pela prova da tradução e a obra do autor circula por vários idiomas do planeta com o mesmo poder de aceitação. Daí ter eu apontado a façanha de Jorge Amado de proceder a conciliação da capacidade narrativa com os objetivos ideológicos de denúncia das condições de trabalho no Brasil, quer no campo, quer na cidade. Outro aspecto da análise social do Brasil reside no estudo das migrações internas, determinadas pela busca de melhores condições de trabalho nas regiões de maior prosperidade econômica. O primeiro setor explorado por Jorge Amado, que se tornará uma constante de sua temática, foi o da produção do cacau. Enfim, o romancista revela a transposição das personagens da situação de inconsciência de si para o estado de consciência de classe. Ainda no campo da mobilidade populacional, o romancista foi notório simpatizante das imigrações que tornaram ainda mais heterogêneo o nosso composto racial. Assim, pode-se dizer que, na obra de Jorge Amado, a indignação moral terá como principal fomento a ânsia de justiça. O campo da transformação do homem é explorado em polaridades várias. Por exemplo: o choque entre a natureza e a cultura.

MUNIR AHMED

culação de sua obra”, prossegue a pesquisadora de São Paulo. A professora alerta que a diversidade da obra do escritor – vasta e heterogênea – também fez com que ele conquistasse diferentes públicos. Uma coisa é a biografia engajada de Luís Carlos Prestes, escrita na década de 1940, sob o título O Cavaleiro da Esperança. Outra bem diferente é O Sumiço da Santa, mistura entre romance policial e comédia, publicado em 1988. Há ainda Mar Morto, de 1936, no qual Iemanjá e o destino dos homens do mar são envoltos em lirismo. Outra bem diferente é Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1964, no qual Jorge faz, em meio a muito humor, uma espécie de metáfora da sociedade brasileira – já que dona Flor só fica feliz tendo a seu lado os dois maridos, o certinho e o malandro, tal como o Brasil, que tenta conciliar a lei e o ‘jeitinho’, o mérito e o favor. Amado, na verdade, era muitos escritores em um só. “Uma de suas grandes armas estilísticas, recorrente em várias obras, e que provavelmente ajuda a prender o leitor, era o discurso indireto livre. Trata-se de uma técnica de narração que cria cumplicidade entre narrador e personagem, deixando ambíguo quem emite o enunciado. Ilustrando com um trecho de Tenda dos Milagres: no discurso direto ficaria: ‘Ele perguntou: - Por que Nilo escreveu aquele horror sobre os mestiços?’; o indireto seria: ‘Ele perguntou por que Nilo escrevera aquele horror sobre os mestiços’. O indireto livre combina os dois, não apresenta dois pontos, aspas ou travessão, nem os pronomes interrogativos ‘que’ ou ‘se’: ‘Ele caminhava pensativo. Por que Nilo teria escrito aquele horror sobre os mestiços?’. Outra característica é o desejo despretensioso de ser só um ‘contador de histórias’, como ele próprio se designava. Dizia que só sabia escrever sobre fatos que vivenciara, e que nunca teve a pretensão de realizar grandes inovações. Por fim, a presença de heróis pobres e negros é outro traço. Antonio Balduíno, protagonista de Jubiabá, de 1935, é o primeiro herói negro da literatura nacional”, conclui Ilana. Visitada por grande parte dos turistas que percorrem diariamente o Centro Histórico de Salvador, a Fundação que leva o nome do escritor abriga coleções de homenagens, de artigos na imprensa e até produtos comerciais que trazem o seu nome. Constam de seu acervo centenas de publicações sobre Jorge – teses e outros textos acadêmicos, como artigos e ensaios. Cartas de fãs estão classificadas por data. Embora lute, às vezes, contra a falta de recursos – já que só pode receber verba pública para projetos específicos e temporários – a entidade organiza colóquios, publicações e pequenas exposições, sempre ligadas às temáticas e preocupações amadianas. Com a memória do talento de Jorge, e as bênçãos dos orixás, a Fundação tem feito verdadeiros milagres com o orçamento de que dispõe. Que o Amado continue sempre a ser lembrado.

Depois, a situação assimétrica entre o homem e a mulher. Em seguida, o contraste entre a cidade e o campo, ou o confronto entre a terra e o mar. Apontei, ainda, a dessemelhança entre a criança e o adulto. Por cima das polaridades, mencionei as dualidades de cunho dialético, como o trabalho versus o capital, o rico versus o pobre, o patrão versus o operário. No caso do estrato racial, Jorge Amado abona a miscigenação como o estuário da luta do branco contra o negro. E descreve condutas de abrandamento do fator racial, como a alegria de viver, a importância dos cultos e artes coletivos, como as astúcias do amor, a ruptura com as determinações sociais e com o sincretismo religioso. Aqui chegamos à obra Jubiabá (1935), espécie de matriz daquela à qual Jorge Amado empresta o caráter de sua mais alta realização: Tenda dos Milagres (1969).

Jubiabá traz, no seu bojo, características que definem a temática de Jorge Amado: a psicologia da população marginal da cidade, o misticismo como apoio da liderança de Jubiabá, o descompromisso de grande parte da vida da personagem Antônio Balduíno, protagonista da obra. Dá-se, com ele, a mudança dialética do aventureiro prestador de serviços avulsos, para o trabalhador sindicalizado, engajado na luta salarial. Indica a marcha do oprimido para a luta social. Em ambas as obras, Jubiabá e Tenda dos Milagres, apresenta-se algo de novo na ficção brasileira: a superioridade da raça negra. Mas, vê-se, o capitalismo do Brasil e, de modo específico, o da Bahia, não tinha conquistado o amadurecimento que alimentasse projetos de transformação social que levassem ao socialismo. Em segundo trabalho, procurei acompanhar a mudança temática de Jorge Amado a partir de Gabriela, Cravo e Canela (1958). Na temática do romancista, a tese de cunho social cede lugar à expressão do JORNAL DA ABI 380 • JULHO DE 2012

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ACERVO FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO

riso associada ao sentimento de liberdade. A estética do cômico e das situações hilariantes conduz a pena do escritor para afortunadas narrativas de grande alcance popular. Enquanto se afasta da verdade préestabelecida, aproxima-se das camadas oníricas e imaginativas, da ilusão sensorial, tão do espírito de A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água (revista SR., junho de 1959 e, após, em Os Velhos Marinheiros, S.Paulo: Martins.1961). O enredo continua intrincado, mas agora conduzido pela troça e o bom-humor. É o caso de A Completa Verdade Sobre as Discutidas Aventuras do Comandante Vasco Moscoso, Capitão de Longo Curso, a outra novela de Os Velhos Marinheiros. Ali é permitida tanto a intervenção da irracionalidade quanto, até, do sobrenatural, travestido de um temporal no fim da narrativa. O relato permite a multiplicidade de versões, há uma espécie de metalinguagem na qual a historiografia é ridicularizada em nome da variedade das versões dos fatos. Jubiabá traz ainda o mundo simplificado da marginalidade excluída do processo produtivo. O próprio narrador enumera as “carreiras” (não diz “profissões”) nesta escala: malandragem, desordeiro e ladrão. Em outra escala, temos: a escravidão das fábricas, do campo e dos ofícios proletários (cf. Jubiabá, S. Paulo: Clube do Livro, s/d, p. 26). O romance é regido por uma polaridade binária, como está no diálogo de Antônio Balduíno com o companheiro de viagem clandestina, que lhe diz numa síntese fatalista: “Pobre tem que sofrer... Uns nascem pra gozar: são os ricos. Outros pra sofrer: são os pobres. Isso é assim desde o princípio do mundo.” (ob, cit., p, 169). No ABC de Zumbi dos Palmares, imaginado por Balduíno, o herói, nascido na África, briga com leões, mata tigres e, um dia, enganado pelos brancos, entra num navio que o traz cativo para as plantações de fumo (cf. ob. cit., p. 219). O romance investiga o tema, caro a Jorge Amado, da grandeza do negro. Quando um branco bêbado se dirige agressivamente a Antônio Balduíno, este o atira ao chão e o narrador comenta: “Depois o negro limpa as mãos e começa e pensar no motivo por que este homem insulta assim os negros. A greve é dos condutores de bondes, dos operários das oficinas de força e luz, da companhia telefônica. Tem até muito espanhol entre eles, muito branco mais alvo que aquele. Mas todo pobre agora já virou negro, é o que lhe explica Jubiabá.” (ob. cit., p.248). Mais adiante, numa assembléia do sindicato, o negro Henrique toma a palavra para dizer: “Aqueles galegos que dirigem os bondes também estão com fome. A gente é negro, eles são brancos, mas nesta hora tudo é pobre com fome...”(ob. cit.,p.249). Daí se tira a tese, sempre sustentada por Jorge Amado, de que a maior discriminação vem da desigualdade social, que engloba todos os pobres, entre os quais estão os negros. A descoberta disso por Antônio Balduíno está descrita no final do romance Jubiabá. A personagem reconhece que tivera grande desprezo pelos

Jorge Amado acompanha as baianas durante a Lavagem do Bonfim, em 1975.

que trabalham. Mas, na circunstância da greve, sabe que eles “... podiam deixar de ser escravos.” No seu processo de aquisição de autoconsciência, Balduíno pensa em Jubiabá nestes termos: “Ele não compreende por que Jubiabá ainda não lhe ensinara a greve, Jubiabá que sabia tudo”. (ob. cit., p.355). Jorge Amado afronta as questões do divino, da verdade e da História. Não se entrega às querelas do ser, não tinha vocação especulativa, mas se entregou aos questionamentos do estar. Ultrapassa a tradição judaico-cristã e cartesiana de nossa cultura. Dada a proximidade do aspecto afrobrasileiro, envereda por essa trilha a fim de desautomatizar conceitos e pré-conceitos já instituídos com foro de verdade. Mais do que um livro de formação, Jubiabá é uma obra sobre a conversão do negro pobre à luta social. A greve é redentora. Temos a inserção do homem numa comunidade orgânica, pré-capitalista, num contexto pré-moderno e religioso. A primazia é dada à revelação, à fé e às formas não instrumentais do pensamento. Prevalece o irracionalismo como forma de conhecimento não codificado. O romance, deste modo, se apresenta como um comentário intuitivo do mundo real, um argumento. Realiza o ideal de tornar político o divertimento da leitura. É que tornar o público consciente de que está sendo iludido pelos preceitos morais e religiosos estimula o impulso latente do conhecimento a manifestar-se. O pensamento se desloca do simples para o complexo, ativando-se o potencial emancipatório do indivíduo. Joga-se uma luz profunda sobre as noções místicas e transcendentais. Impõe-se o humanismo materialista típico de Jorge Amado. Dessa obra-chave da ficção do autor, Jubiabá, abertura para determinado tipo de engajamento, passemos para um dos seus derradeiros escritos A Descoberta da América pelos Turcos (Rio, Record, 1994), cujo título assim se desdobra: ou de como o Árabe Jamil Bichara, Desbravador de Florestas, de Visita à Cidade de Itabuna para Dar Abasto ao Corpo, Ali lhe Ofereceram Fortuna

e Casamento ou Ainda os Esponsais de Adma. Jorge Amado, nessa novela de alto sabor humorístico, cuida de outra de suas costumeiras obstinações temáticas: a importância da imigração para o Brasil. Associada a essa investigação, o princípio de que o país, vasto cadinho racial, acaba por transformar o estrangeiro em ardente compatriota nacional, cuja conduta acentua os traços já sedimentados em nossa tradição. No caso, como os turcos (ou árabes, ou sírios, ou libaneses, é variada a denominação) praticam a mesma sensualidade brasileira, se confundem com os nativos e adotam a mesma estratégia de trilhar, em caracóis, o caminho da realização econômica e afetiva. Na verdade, aquele modelo de conquista da liberdade pela derrogação dos valores da herança patriarcal e latifundiária, pela derrota das normas éticas e religiosas, por meio do riso e da chalaça, perde com A Descoberta da América pelos Turcos, sua virulência de sátira e cai na esfera branda da galhofa, quase na farsa, que é o exagero do cômico. Parece que o único propósito do autor fosse divertir. Seres inautênticos (imaginados) praticam atos inautênticos (imaginados) para autenticar o retrato de um país injusto e desigual.

Q

uais as determinações de Jorge Amado, consideradas as duas fases de sua ficção? As personagens se caracterizam pela volição, portanto, pela capacidade de se determinarem no sentido da mudança. Há, desde o início de sua obra, uma intencionalidade que conduz a ação narrativa, dotando-a de uma camada crítica que muitas vezes se configura como rebeldia. A rebeldia se define contra o status quo. Cria-se uma noção de liberdade compatível com certos condicionamentossociais:abuscadajustiça, por exemplo. Ou conduta oposta à repressão do corpo na vida sexual. Ou, ainda, a predisposição contra o tabu das palavras ou contra os preconceitos de natureza moral, política, social, religiosa e racial. Deste modo, podemos acompanhar na ação dramática de suas narrativas os suces-

sivos anéis de libertação. O primeiro quadro aponta para o rompimento com a desigualdade econômica, herança que vem desde a exploração colonial, escravagista e latifundiária. Naquele contexto, o narrador chegou ao limite do dogmatismo e, até, do sectarismo que, com o andamento da obra geral, vai abandonando aos poucos. Em outra esfera, parte o autor para a guerra contra os preconceitos. E o faz pela arte do humor e da desautomatização da conduta humana. O escritor se apodera de um materialismo original, complacente com o sincretismo religioso. “Meu materialismo não se limita”, conforme preceitua a personagem Pedro Arcanjo em Tenda dos Milagres. Tudo em razão da intencionalidade em Jorge Amado adquirir uma característica de linguagem e não uma peculiaridade metafísica do mundo mental. Nessa linha, ultrapassa o modelo de José de Alencar. Chegou a se declarar antes um escritor profissional a um escritor comercial, retirando, assim, do mercado, o critério de avaliação da obra (cf. entrevista a Antônio Roberto Espinosa em junho de 1981, constante de Jorge Amado – Literatura Comentada, org. por Álvaro Cardoso Gomes, S. Paulo: Abril Educação, 1981, p. 33). Enfim, Jorge Amado, com o seu jogo múltiplo de intencionalidades, chegou à expressão máxima da sua potencialidade ideológica, ou, de outro modo, atingiu os limites do possível, o alcance extremo de seu romantismo visionário. Daí não ter abrangido um daqueles anéis de libertação que se refere à condição da mulher no quadro patriarcal. O contexto não lhe permitia aquela extensão. Mas, na sua visão de totalidade, os motivos que conduzem à libertação do homem atingiram, por certo, os parâmetros de libertação da mulher. É na entrevista acima referida, a Antônio Roberto Espinosa, que proclama orgulhosamente: “Nós somos o único País mestiço do mundo.” (ob. cit. , p. 34). E, em outra ocasião, indagado sobre o erotismo, postula: “Não me amedrontam nem as palavras, nem os temas, não tenho por que fugir daquilo que é fundamental à vida do homem. Por que esconder a beleza do sexo, a sua grandeza, em certos casos, sua mesquinhez, sua desgraça? Escrevo sobre a vida e a morte do homem, e o sexo é para o homem vida e morte.” (cf. revista 365 – Três Meia Cinco, n° 1, S. Paulo, s/d, p.147). Sua obra não convida a preparar um banquete para o passado. Antes alimenta formas submersas, de inversão do curso da História. Não sem, todavia, reencantar o mundo, desvelando nas práticas cotidianas da classe mais pobre os dois arquétipos da mente: a visão poética, de um lado, e a selvageria, de outro, extraídos do processo fatalizante, da transformação de todos e de tudo em mercadoria. Os novos meios de comunicação de massa tendem a embaçar as relações entre a arte e a política, pois vivemos a época da resignação pós-moderna, quando as experiências mítico-religiosas e político-filosóficas se tornam gêmeas e deslizam para o rio sagrado do mercado.


CENTENÁRIO

NELSON RODRIGUES

O homem sem pecado Com uma vida recheada de acontecimentos dramáticos como os que permeiam sua obra teatral, o autor de Vestido de Noiva teve uma existência sofrida que não o impediu de criar no teatro e na crônica esportiva textos que o transformaram ao longo de décadas num dos autores mais admirados e lidos do País. P OR C ARLOS J URANDIR

Romancista, cronista, jornalista, filósofo e apaixonado por futebol, Nelson Falcão Rodrigues – nascido em agosto de 1912 no Recife – completaria 100 anos este ano. Pensador original, dramaturgo amplamente consagrado em vida, jornalista de trajetória turbulenta e intensa, seus textos permanecem atuais, reafirmando talvez seu título mais famoso: A Vida Como Ela é..., série de crônicas publicadas em jornal com que pretendeu retratar a sociedade brasileira em suas paixões e pecados. Mesmo sem ter conquistado uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, Nelson ganhou, em cerca de quatro décadas de atividade, o coração dos brasileiros de todas as classes sociais, tanto o espectador de teatro que vai assistir a uma montagem de Álbum de Família ou Vestido de Noiva, duas de suas peças mais conhecidas, quanto o anônimo torcedor de futebol que escuta pelo radinho de pilha uma das máximas de cronista esportivo que o imortalizaram, até hoje citadas por narradores de futebol de todos os matizes. “Um Fla-Flu começa quarenta minutos antes do nada” foi exaustivamente repetida neste mês de julho, antes, durante e depois do último jogo entre as duas equipes mais famosas do Rio. Entre os personagens inesquecíveis de Nelson, do lado tricolor (ele era torcedor fanático pelo Fluminense), está o Sobrenatural de Almeida, espécie de santo dedicado a defender o clube das Laranjeiras de todos os ventos desfavoráveis. Muitos anos como repórter policial e cronista nas páginas esportivas de jornais como Última Hora e O Globo, ele plasmou

o estilo literário e jornalístico no convívio com as paixões. “Toda a história humana ensina que só os profetas enxergam o óbvio”, disse uma vez, denunciando a natureza da inspiração que o levou a escrever, por exemplo, Beijo no Asfalto, peça que, segundo alguns, o elevaria ao nível dos maiores dramaturgos de sua época, em escala mundial. Primeiros passos

Nelson Rodrigues foi o quinto filho entre os catorze do casal Maria Ester Falcão e Mário Rodrigues, jornalista do Jornal do Recife, que em 1916 se mudou com a família para o Rio de Janeiro, para trabalhar como redator parlamentar do jornal Correio da Manhã. O escritor Ruy Castro, autor de O Anjo Pornográfico – biografia de Nelson Rodrigues publicada em 1992 pela Editora Companhia das Letras, em São Paulo –, conta que a família havia vendido tudo para cobrir as despesas de viagem, e teve que ficar hospedada na casa do escritor Olegário Mariano por algum tempo. Em agosto de 1916 alugaram uma casa na Aldeia Campista, bairro da Zona Norte do Rio. O futuro “anjo pornográfico”, como ele se autodefiniu, depois que a família se mudou para Copacabana, algum tempo depois, jamais esqueceu o ambiente suburbano daqueles primeiros anos. As vizinhas gordas na janela, fiscalizando a vida de todo mundo, solteironas ressentidas, viúvas tristes, com as pernas amarradas com gazes por causa das varizes. Naquela época os nascimentos eram assistidos por parteiras de confiança e feitos em casa. Os velórios também ocorriam dentro das casas; era o tempo das escarradei-

ras e do banho de bacia. Daí o cronista, o romancista e o jornalista extraíram muitos personagens usados pela vida afora. Com sete anos, em 1919, foi matriculado na escola pública Prudente de Morais, a dois quarteirões de casa. Aprendeu a ler rapidamente e era por isso elogiado por sua professora, Dona Amália Cristófaro. Ela pediu certa vez que cada aluno escrevesse sobre um tema livre. A melhor redação seria lida em voz alta na classe. Finda a aula, a professora quase desmaiou com o trabalho de Nelson: era uma história de adultério. O marido chegava em casa, entrava no quarto, via a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela. Pegava uma faca e matava a mulher. Depois, ajoelhado, pedia perdão. A redação, apesar do espanto que causou em todo o corpo docente, não tinha como não ser premiada, muito embora não pudesse ser lida na classe. Nelson já era leitor de romances como Rocambole, de Ponson du Terrail, Epopéia do Amor, Os Amantes de Veneza e Os Amores de Nanico, de Michel Zevaco, O Conde de Monte Cristo e As Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas, entre outros. Foi a época em que descobriu o Fluminense. Era o primeiro ano do tricampeonato tricolor, muito embora nem ele

nem seu irmão Mário (Mário Filho), posteriormente famoso como jornalista esportivo e que teve seu nome escolhido para ser o nome oficial do Estádio do Maracanã, tivessem dinheiro para ir a Laranjeiras para ver o time jogar. O repórter de calças curtas

A família muda-se em 1922 para a Tijuca, fato que, na época, indicava melhora de padrão de vida. Nomeado diretor do jornal Correio da Manhã, Mário Rodrigues, seu pai, meteu-se numa batalha entre Epitácio Pessoa e Artur Bernardes, o que lhe custou um ano de cadeia, em 1924, no Quartel dos Barbonos, na Rua Evaristo da Veiga. A partir da data de sua prisão o Correio da Manhã foi silenciado pelo Governo por oito meses. Antes, os Rodrigues haviam mudado para uma casa na Rua Inhangá, próximo do Copacabana Palace. Ali, aos doze anos, Nelson aprendeu a nadar. De volta da prisão, seu pai pede demissão a Edmundo Bittencourt e funda em seguida seu próprio jornal, A Manhã. Ali Nelson inicia sua carreira jornalística em 29 de dezembro de 1925, como repórter de polícia, ganhando trinta mil réis por mês. Tinha treze anos e meio, era alto, magro, de cabelos “indomáveis”. Teve que comprar calças compridas para impor respeito aos colegas de Redação, onde labutavam, entre outros, Antônio Torres, Medeiros e Albuquerque,

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CENTENÁRIO NELSON RODRIGUES - O HOMEM SEM PECADO

Agripino Griecco, Ronald de Carvalho e Maurício de Lacerda, além de Danton Jobim, Orestes Barbosa, Renato Viana, Joracy Camargo, Odilon Azevedo e Henrique Pongetti. Outra figura de A Manhã era Apparício Torelly – Apporely –, que mais tarde se autodenominaria “Barão de Itararé” e fundaria o jornal, A Manha. Nelson impressiona os colegas com sua capacidade de dramatizar pequenos acontecimentos. Especializou-se em descrever pactos de morte entre jovens namorados, tão constantes na época. Outro cenário que o atrai é a zona do Mangue, onde se concentravam as prostitutas mais pobres, que cobravam 2 mil réis por alguns minutos. Na Rua Benedito Hipólito, ficavam as mais asseadas, a 5 mil réis. Ali, aos catorze anos, Nelson foi pela primeira vez com uma mulher para dentro de um quarto. É a época em que cria um tablóide de quatro páginas, Alma Infantil, nascido da troca de cartas com seu primo Augusto Rodrigues Filho, que ainda morava no Recife. Em 1928 a família se transfere para uma nova e luxuosa casa na Rua Joaquim Nabuco, 62, em Copacabana. Nelson e os irmãos mais velhos trabalhavam no jornal A Manhã: Milton era o secretário, Roberto ilustrava algumas reportagens, Mário Filho começou como gerente, foi depois para a página literária e após, a de esportes. Nelson havia abandonado desde 1927 a terceira série do ginásio no Curso Normal de Preparatórios. Nunca mais voltou à escola, apesar do esforço feito por seu pai. Tendo garantido uma coluna assinada na página três do jornal – a página principal –, Nelson publica seu primeiro artigo, em 7 de fevereiro de 1928. Tinha o título de A tragédia de pedra..., com as solenes reticências. Depois vieram Gritos Bárbaros, O elogio do silêncio, A felicidade, e Palavras ao mar, todos de grande sensibilidade poética. Seu lado monstro só apareceu na crônica de 16 de março, O rato... (com as famosas reticências), em que conta como viu um rato morto, achatado por um carro, defronte à Biblioteca Nacional. Mas contrariou o pai ao começar a “bater” em Rui Barbosa. No segundo artigo contra a “Águia de Haia”, foi rebaixado, saiu da página três e retornou à seção de polícia, onde trabalhou nos cinco meses seguintes. Mal administrada, A Manhã estava cheia de dívidas. O sócio de seu pai, Antônio Faustino Porto, que há tempos vinha arcando com os pagamentos urgentes, torna-se sócio majoritário e oferece o emprego de diretor a Mário. Este aceita, mas fica só um dia. A intervenção do novo dono em seus artigos faz que ele e a família deixem o jornal. A tragédia

Amigo de Melo Viana, Vice-Presidente da República, no dia em completava 43 anos, 21 de novembro de 1928, e apenas 49 dias depois de perder A Manhã, Mário Rodrigues lançou seu novo jornal de grande sucesso: Crítica, que chegou a ter uma circulação de 130.000 exemplares. Sob a acusação de que um deles era o mandante do assassinato do argentino Carlos Pinto, repórter de A Democracia, foram, pai e irmãos, todos presos. Nelson escapou por não se encontrar no Rio, em 40

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viagem ao Recife. Cheio de paixões, ora por Lilia, ora por Carolina e ora por Marisa Torá, estrela da companhia teatral de Alda Garrido. Em 26 de dezembro de 1929 o jornal estampa matéria, na primeira página, sobre o desquite de Sílvia e José Thibau Jr. No dia 27, pela manhã, Sílvia entra na Redação da Crítica procurando por Mário Rodrigues. Não o encontrando, pede para falar com seu filho Roberto e dá-lhe um tiro no estômago. Nelson viu e ouviu aquilo tudo. Com dezessete anos e quatro meses, era a primeira cena de violência brutal que presenciava. Seu irmão faleceu no dia 29. O teatro de Nelson Rodrigues deverá refletir a trágica morte de Roberto. Logo depois, Mário Rodrigues sofre, aos 44 anos, uma trombose e morre de encefalite aguda e hemorragia. A família muda-se para outra casa, na Rua Sousa Lima, também em Copacabana. Sílvia foi absolvida, a 23 de agosto, exatamente quando Nelson completava 18 anos. Com a Revolução, em 3 de outubro, no Rio Grande do Sul, Minas e quase todo o Nordeste, ocorre o empastelamento da Crítica, que continuou a atacar os rebeldes. De todos os jornais do velho regime, é o único que não voltaria a circular. Isso sem contar que Milton e Mário Filho foram novamente presos, porém logo libertados. Irineu Marinho havia fundado o jornal O Globo em 1925, mas apenas 21 dias após o jornal circular pela primeira vez morreu de infarto. Roberto Marinho, filho de Irineu, era o sucessor natural mas achou-se muito inexperiente para comandar um jornal. Chamou um velho companheiro do pai, Euricles de Matos. Mas, em maio de 1931 Euricles também faleceu e Roberto Marinho convida Mário Filho para assumir a página de esportes de O Globo. Mário aceitou, desde que pudesse levar seus irmãos Nelson e Joffre. Roberto Marinho deu seu “de acordo” com a condição de só pagar o ordenado a Mário Filho. Nelson trabalhou alguns meses no jornal O Tempo. Joffre foi para A Nota, onde já trabalhava o outro irmão, Milton. O futuro romancista e dramaturgo provocava comentários entre os colegas de O Globo por seu aspecto desleixado: tinha só um terno e não usava meias. Com a ajuda de Mário Martins e o beneplácito de Roberto Marinho, Mário Filho lança seu jornal, Mundo Esportivo, justo no fim do campeonato de futebol. Sem ter assunto, inventaram algo que seria uma mina de dinheiro anos depois: o concurso das escolas de samba. Em 1932 Nelson teve a carteira assinada em O Globo, com salário de 500 mil réis por mês. Entregava todo o dinheiro para sua mãe e recebia uns trocados de volta para comprar seus cigarros (média de

quatro carteiras por dia). Em compensação, economizava, pois voltava de carona com o “Dr. Roberto” para casa. Para arranjar mais algum dinheiro, trabalhou como redator da firma Ponce & Irmão, distribuidora no Rio dos filmes da RKO Radio Pictures. Criava textos para os anúncios dos filmes nos jornais. Estava apaixonado por Loreta Carbonell, argentina de olhos azuis, bailarina do Municipal; por Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, também bailarina, linda e jovem morena. Dividia com seu irmão Joffre a paixão por ela. Depois vieram Clélia, uma estudante de Copacabana, e Alice, professora de Ipanema. A tosse seca e uma febre persistente foram os avisos tidos por Nelson, que em seguida teve diagnóstico de tuberculose pulmonar, o grande fantasma do ano de 1934. Vai, então, para Campos do Jordão, SP, local recomendado para tratamento,

Nasce Joffre, seu primeiro filho. Por ordem médica, ele não podia ficar perto dele. Descobre que tem uma úlcera do duodeno. O médico lhe prescreve regime alimentar e manda que ele pare de tomar café e de fumar, o que nunca fez. Depois de muita luta, em 9 de dezembro de 1942, A Mulher Sem Pecado foi levada à cena pelo grupo Comédia Brasileira, com direção de Rodolfo Mayer, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Lá ficou por duas semanas e não teve repercussão nenhuma perante o público. Alguns críticos e amigos elogiaram, e isso bastava ao autor. Em janeiro de 1943 Nelson escreve a segunda peça, Vestido de Noiva. Elza fez mais de vinte cópias datilografadas para serem entregues a jornalistas, críticos e amigos. O primeiro a receber foi Manuel Bandeira. Ele gostou. Como outros, escreveu sobre ela e elogiou. Os jornais e suplementos falavam sobre Vestido de AGÊNCIA O GLOBO

onde passou 14 meses. De volta a O Globo, pede transferência da página de esportes para a de cultura. Queria escrever sobre ópera. Começa arrasando a Esmeralda, ópera do compositor Carlos de Mesquita. Foi sua única incursão nessa área. Nasce um dramaturgo

Em 1937 Elza Bretanha, moradora do Estácio, começa aos 19 anos a trabalhar no jornal.Nelson e ela se apaixonam e se casam no civil, em 1940. Alugaram uma casinha no Engenho Novo. Um dia, ao passar diante do Teatro Rival, ele viu enorme fila que se formava para assistir A Família Lerolero, de R. Magalhães Júnior. “Por que não escrever teatro?” – perguntou-se o futuro autor de Toda Nudez Será Castigada. Pouco depois, escreveu sua primeira peça, A Mulher Sem Pecado. Nessa época as peças ficavam, no máximo, duas semanas em cartaz. Nelson oferece sua criação a dois grandes artistas de então: Dulcina e Jaime Costa, que a recusam. Submeteu-a a Henrique Pongetti, a Carlos Drummond de Andrade e ao crítico Álvaro Lins. Não conseguiu encená-la.

Noiva mas Nelson não conseguia encenála. Todos diziam que a montagem exigia cenário complexo e teria custo muito alto. Só Thomaz Santa Rosa, um pernambucano ex-funcionário do Banco do Brasil, cantor lírico, desenhista, músico e poeta, achou que era possível. Falou então com um polonês recém-chegado ao Brasil: Zbigniew Ziembinski. Tem início então a epopéia do grupo Os Comediantes: oito meses de ensaios, oito horas por dia. Às 20h30min do dia 28 de dezembro de 1943, os portões foram abertos e 2.205 espectadores viram a peça. Duas horas depois a peça chegou ao fim. O silêncio foi total na platéia. Nos bastidores ninguém sabia o que fazer. Ziembinski, entre palavrões em polonês, manda subir o pano. Os artistas surgem e o aplauso é ensurdecedor. O diretor aparece e o teatro delira. Alguém grita na platéia: “O autor, o autor ”. Nelson estava escondido em um camarote, lutando contra a dor de sua úlcera, e não foi visto por ninguém. Disse, depois, que sofreu naquele momento, sentindo-se “um marginal da própria glória”. Quando o autor, após as


comemorações com a família na leiteria Palmira, pegou o bonde de volta para casa já eram quase duas da manhã de 29 de dezembro de 1943. Naquele momento completavam-se catorze anos da morte de seu irmão Roberto. O destino de Suzana Flag

Apesar da fama que a peça lhe deu – o ano de 1944 foi cheio de acontecimentos – ele continuava sendo mal pago pelo O Globo Juvenil. Em fevereiro de 1945 é convidado por David Nasser, de O Cruzeiro, para uma conversa com Freddy Chateaubriand. Foi nomeado Diretor de Redação das revistas Detetive e O Guri. Como a função lhe tomava pouco tempo, ficava perambulando pela Redação da revista O Cruzeiro, que era no mesmo andar. Sempre procurando fazer “bicos” que permitissem um ganho extra – continuava a ajudar sua mãe financeiramente – soube

niões se dividiam entre os intelectuais, os críticos e os jornalistas da época, uns a favor da liberação, outros contra. Venceram os contra, pois a peça só foi liberada em 1965 e levada pela primeira vez em julho de 1967. Outro sucesso de 1946 foi a publicação de Minha Vida, uma “autobiografia” de Suzana Flag. Como das vezes anteriores, além de publicada em O Jornal, virou livro e vendeu horrores. Anjo Negro estréia em abril de 1948. Como sempre, gerou comentários polêmicos. Os ganhos com a peça permitiram que o autor comprasse uma casa no Andaraí, com parte financiada no IAPC (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários). Senhora dos Afogados é proibida em janeiro de 1948. Com duas peças interditadas, o autor luta para tentar liberá-las. Escreve Dorotéia, em 1949, que muitos consideram seu melhor trabalho teatral. Ainda em 1948 é publicado mais um folhetim, Núpcias de Fogo, ainda como Suzana Flag. Em 1949 Freddy Chateaubriand vai comandar o jornal Diário da Noite e leva Nelson com ele. Para trás fica Suzana Flag, que o autor não agüentava mais. Em seu lugar surgiu Myrna, a nova máscara feminina do biografado. A diferença é que Myrna respondia a cartas de leitoras. Atire a primeira pedra

que Freddy Chateaubriand estava querendo comprar um folhetim francês ou americano para O Jornal, que estava com uma tiragem de apenas 3.000 exemplares por dia e sem anúncios. Nelson ofereceuse para escrever o folhetim. Daí nasceu Suzana Flag e Meu Destino é Pecar. Cada episódio ocupava uma página inteira de O Jornal, com ilustração de Enrico Bianco. Foram 38 capítulos que elevaram a tiragem do jornal para quase 30 mil exemplares. Apesar de estar ganhando um extra por capítulo, o autor não gostava que soubessem que escrevia com pseudônimo feminino. Quando a história terminou, o sucesso foi tão grande que foi lançado um livro pelas Edições O Cruzeiro. Calcula-se que a venda tenha ultrapassado 300 mil exemplares. Isso provocou o começo de outro folhetim, Escravas do Amor, cujo sucesso foi também retumbante. Em 1944 sai em livro Vestido de Noiva, e em 1945 e 1946 Os Comediantes encena Vestido de Noiva e A Mulher Sem Pecado no Teatro Phoenix, com lotação esgotada. Nelson começa a escrever Álbum de Família, mas a peça foi proibida. As opi-

Em 1950, Nelson dá adeus aos Diários Associados e fica esperando convites de outros jornais. Nesse período, salvam a família as economias de Elza e um bico no Jornal dos Sports de seu irmão Mário Filho. No ano seguinte sai do buraco e vai para a Última Hora. Começa com o salário de 10 mil cruzeiros, considerado não tão ruim, tendo em vista seu baixíssimo prestígio naquela época. Foi logo após a estréia de Valsa nº 6, um monólogo estrelado por sua irmã Dulce, que ficou quatro meses em cartaz e foi outra desilusão para o autor. Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora, propõe-lhe uma coluna diária sobre um fato real. Poderia se chamar Atire a Primeira Pedra. Nelson sugere A Vida Como Ela É. Sugestão aceita, vai para a máquina escrever a primeira coluna. O sucesso foi estrondoso. Em 1951 relançou Suzana Flag em O Homem Proibido. Em 8 de junho de 1953 estréia no Teatro Municipal do Rio a peça A Falecida. Chamada de “tragédia carioca” era, na verdade, uma comédia. Na mesma época, produziu o último folhetim de Suzana Flag, que chamou-se A Mentira e foi publicado no semanário Flan, lançado por Wainer. Senhora dos Afogados é encenada no Rio em 1954, com direção de Bibi Ferreira. Perdoa-me por me Traíres teve, também, problemas de liberação com a censura, em 1957. No mesmo ano, surgiu Viúva, Porém Honesta, que estreou em 13 de setembro. Em 1958 é a estréia Os Sete Gatinhos, com Jece Valadão no elenco. De agosto de 1959 a fevereiro de 1960, centenas de milhares

de leitores acompanharam a história de Engraçadinha e sua família em Asfalto Selvagem. Foram publicados dois livros, intitulados Engraçadinha – Seus Amores e Seus Pecados dos Doze aos Dezoito e Engraçadinha – Depois dosTrinta. Nelson almoçava com sua mãe quase todo dia. Tomava o ônibus na Central do Brasil e ia até o Parque Guinle. Um dos motoristas gostava de exibir-se: tinha 27 dentes na boca, mas eram todos de ouro. Nelson juntou esse fato ao bicheiro do submundo carioca Arlindo Pimenta e daí surgiu o Boca de Ouro. A peça também teve problemas com a censura. Foi levada para São Paulo e foi um retumbante fracasso. Ziembinski insistiu em viver o papel principal e não deu certo. Em janeiro de 1961, com Milton Morais no papel do Boca de Ouro, estréia no Rio com grande sucesso. Ainda no final de 1960 Nelson entrega a Fernanda Montenegro e a seu marido Fernando Torres a peça Beijo no Asfalto. O espetáculo estava a um mês e meio em cartaz quando Jânio Quadros renunciou à Presidência da República. Ficou sete meses em cartaz, pelo Brasil. Ela provocou a saída de Nelson da Última Hora, pois nela fazia referências pouco positivas à imagem do jornal. Voltou ao Diário da Noite com A Vida Como Ela É e, após dez meses, em julho de 1962, foi para O Globo, com a coluna de futebol À Sombra das Chuteiras Imortais. Apresentado por sua irmã Helena, Nelson conhece Lúcia Cruz Lima, que logo passa a ser sua namorada. Só que desta vez a coisa era séria. Casada e bem casada, mãe de três filhos, ela logo se apaixona, deixa o marido e volta a viver com os pais. Ele demora dois anos para se separar de Elza. Seus amigos Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Cláudio Melo e Souza ficam chocados. Nos primeiros meses de 1963 nada impedia a separação do autor. Já havia alugado um pequeno apartamento e Lúcia estava grávida. Após um almoço de despedida, findo o qual Elza tentou suicidar-se, ele partiu de malas e bagagens para o apartamento de sua mãe. Ia ficar lá uns tempos até acertar tudo. A primeira novela

Nelson escreveu para Walter Clark a primeira novela brasileira de todos os tempos: A Morte Sem Espelho. Tinha grande elenco, encabeçado por Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Britto (que também respondia pela direção), Ítalo Rossi, Paulo Gracindo (que estreava na tv) e música de Vinícius de Moraes. Na sua novela seguinte, Sonho de Amor, em 1964, seu nome apareceu mas ela foi anunciada como uma adaptação de O Tronco do Ipê, de José de Alencar. Sua última novela para a televisão foi O Desconhecido, com direção de Fernando Torres, tendo no elenco Jece Valadão, Nathalia Timberg, Carlos Alberto, Joana Fomm e outros mais. A novela só foi liberada graças ao poder de convencimento de Walter Clark. Depois de ser renegada por muitas atrizes, Toda Nudez será Castigada estréia no dia 21 de junho de 1965 e é um sucesso. Os artistas são aplaudidos em cena

aberta, os ingressos são avidamente disputados e fica em cartaz por seis meses no Teatro Serrador e em excursão pelo Brasil. Após três anos de apresentações no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Salvador, a peça é proibida em Natal, RN. Em 1966 o autor muda-se, a convite de Walter Clark, para a TV Globo, lanterninha na preferência dos telespectadores. No programa Noite de Gala, Nelson apresentava o quadro A Cabra Vadia, onde entrevistava pessoas. O primeiro foi João Havelange, Presidente da CBD - Confederação Brasileira de Desportos. No jornal O Globo, passa a publicar À Sombra das Chuteiras Imortais e As Confissões, já que não podia usar Memórias, cada uma patrocinada por um banco. Como recebia uma comissão por esses patrocínios (mais que o dobro de seu salário), estabilizou sua situação financeira. A primeira Confissão foi publicada em 4 de dezembro de 1967. 1970 marca o recrudescimento da ditadura. Nelson, conhecido e admirado pelos militares, luta para tirar da prisão Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura. Seu próprio filho, Nelsinho, é um dos mais procurados pelas Forças Armadas. “Prancha”, seu codinome, foi apanhado em 30 de março de 1972. Dois anos antes, quando o filho já vivia na clandestinidade, Nelson consegue com o Presidente da República, General Garrastazu Medici, que ele saísse do País. Nelsinho não aceita o privilégio. O drama de Nelsinho se desenrolava longe dos olhos do autor. Apesar disso, era muito procurado para ajudar pessoas em apuros com o regime militar. De 1969 a 1973 ele teve participação ativa na localização, libertação ou fuga de diversos opositores da ditadura. Após a prisão de Nelsinho, começa a luta para localizá-lo e procurar mantê-lo vivo, pois a tortura corria solta. Nelson escreve Anti-Nelson Rodrigues no final de 1973. Em 1974, a peça fazia bela carreira no teatro do Serviço Nacional do Teatro. O autor faz alguns exames e é levado de imediato para São Paulo para ser operado de um aneurisma da aorta. Passou por duas operações, quase morreu, retornou ao Rio e, apesar de terminantemente proibido pelo médico, voltou a fumar. Em abril de 1977 é internado com uma arritmia ventricular grave e nova insuficiência respiratória. Elza volta para casa e voltam a viver juntos. Na verdade, já se encontravam há tempos quase todas as noites no restaurante O Bigode do Meu Tio, em Vila Isabel, de propriedade de Joffre. Nelson escreveu sua grande e última peça – A Serpente – em meados de 1979, pouco antes de seu filho Nelsinho iniciar greve de fome com 13 companheiros, os últimos presos políticos do Rio, com a finalidade de transformar a anistia ampla em anistia total e irrestrita. Finalmente, no dia 23 de agosto, dia do aniversário do pai, Nelsinho é autorizado a deixar a prisão e assistir ao nascimento da filha Cristiana. No dia 16 de outubro Nelsinho recebeu a liberdade condicional mas não pôde ver Nelson, que estava inconsciente no Hospital Pró-Cardíaco. Nelson morreu na manhã do dia 21 de dezembro de 1980, um domingo.

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COLEÇÃO CHRISTOPH SCHIFFERLI, ZURIQUE

CINEMA

Simplesmente P OR C ELSO S ABADIN

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telectuais e jornalistas. De formação simples, Fellini, contudo, não se considerava um intelectual e fazia questão de preservar sua imagem de simplicidade. Tanto que anos mais tarde alguém pediu para que ele listasse seus 50 filmes favoritos, ao que ele respondeu: “Eu nunca vi 50 filmes na minha vida”.

DIVULGAÇÃO

Certa vez estava dando uma aula sobre neo-realismo italiano, discorrendo sobre cineastas desse período, quando um dos alunos me perguntou: – E Fellini? – O que tem ele?, respondi, já perguntando. – Era neo-realista? – Não, não era exatamente. – Ele era o quê, então? – Ele era... ele era... felliniano, respondi. Os alunos riram, eu também ri, mas logo percebi que o famoso cineasta italiano não poderia se encaixar em nenhuma outra categoria didática a não ser “felliniano”. Materializador de sonhos e pesadelos, sua obra não se assemelha à de ninguém; e nenhum filme de qualquer outro cineasta se assemelha aos dele. Fellini foi, sozinho, todo um movimento estético cinematográfico. Em novembro do próximo ano serão lembrados os 20 anos da morte deste cineasta que se considerava “um grande mentiroso”. Irônico, adorava dar entrevistas falando de coisas em que não acreditava, de truques cinematográficos que não havia feito, e de realidades que só existiam em suas fantasias. Divertia-se dizendo que tinha fugido de casa aos sete anos de idade para trabalhar no circo, o que nunca correspondeu à verdade. Por isso, toda e qualquer biografia de Fellini deve ser vista com ressalvas. Inclusive esta.

Nascido na pequena cidade litorânea de Rimini, Federico Fellini era o mais velho entre cinco irmãos de uma família solidamente estabelecida. Seu pai viajava pelo país vendendo café, temperos e grãos para mercearias, e sua mãe era dona de casa. Muda-se para a capital, Roma, aos 19 anos de idade para estudar Direito, mas logo abandona o curso para se dedicar à sua maior paixão de adolescente: fazer desenhos e cartuns. Autodidata, domina várias técnicas, e logo consegue trabalho no jornal Il Popolo di Roma e na revista de humor Marc’Aurelio. Em pouco tempo, além de desenhos passa também a escrever pequenos contos de humor e a realizar entrevistas e reportagens. É como jornalista que Fellini conhece e inicia uma grande amizade com o ator Aldo Fabrizi, que teria uma importância fundamental para sua carreira. Seus textos ácidos e satíricos são bem recebidos pelo público, fazendo que o futuro cineasta trabalhe também como redator do programa de rádio Cico e Pallina. É ali que Fellini é acometido de uma fulminante paixão por uma das atrizes, Giulietta Masina, com quem se casa em 1943, após quatro meses de namoro, e com quem permanece casado até o final de sua vida. A Itália fascista e toda a efervescência política da Europa, em plena Segunda Grande Guerra, encontravam forte eco, positivo ou negativo, entre artistas, in-

Em dezembro de 1972, Fellini produziu para a revista Vogue uma fotonovela com Mastroianni interpretando o mágico Mandrake.

Terminada a Guerra (Fellini nunca serviu o Exército porque seus documentos teriam sido perdidos num incêndio, o que também pode ser outra de suas mentiras), o cinema italiano ganha novos ares, e passa a apostar no registro humano e cruel da realidade de seu povo. Leva as câmeras para a rua, mistura ficção com documentário, e cria o movimento estético que recebe o nome de neo-realismo, que mais tarde influenciaria a cinematografia do mundo inteiro. Incluída a brasileira. Não se passa nem um ano da libertação da capital italiana quando o cineasta Roberto Rossellini, na época já com vários filmes no currículo, procura Fellini para que ele lhe apresente o amigo Aldo Fabrizi. Neste contato, Rossellini fica sabendo que Fellini havia esboçado um roteiro para um filme sobre a capital italiana, e o encoraja a levar o projeto adiante. Junto com Sergio Amidei, Alberto Consiglio e com o próprio Rossellini, Fellini então desenvolve e finaliza o roteiro de Roma, Cidade Aberta, filme que seria dirigido por Rossellini e se transformaria num dos trabalhos mais importantes não só do neo-realismo, como da própria História do Cinema. O filme leva o


COLEÇÃO FONDATION JÉRÔME SEYDOUX – PATHÉ, PARIS

DIVULGAÇÃO

Giulietta Masina como Gelsomina de A Estrada da Vida (La Strada, 1954).

ego nas telas e fez com que as mulheres grotescamente gordas passassem a receber a alcunha de “fellinianas”. Seu método de trabalho era tão sensorial que em várias oportunidades pedia a seus atores que falassem qualquer coisa durante as filmagens (contar de 1 a 100, por exemplo), pois depois ele iria dublar as falas com diálogos que criaria mais tarde. Eternamente fiel às suas origens de cartunista, desenhava cenas, planos, figurinos, cenários e story boards de seus filmes. E entregou a parte musical da maioria de sua obra a um dos melhores compositores de trilhas sonoras de todos os tempos: Nino Rota. Quando descobriu as teorias de Carl Jung, passou a explorar temas relacionados à psicanálise, incorporando ainda mais elementos de sonhos, fantasias e desejos em seus filmes, casos de 8½, Julieta dos Espíritos, Satyricon, Casanova e A Cidade das Mulheres. É responsável por algumas das cenas mais inesquecíveis da História do Cinema. O banho de Anita Ekberg na Fontana di Trevi em A Doce Vida (filme ao qual devemos a expressão “paparazzi” para designar fotógrafos inconvenientes), o homem cego pedindo a alguém que lhe explique como é um transatlântico em Amarcord, a dança de Mastroianni e Giulietta Masina em Ginger e Fred, os delírios de 8 ½, o rinoceronte no porão do navio em E La Nave Vá... Assim, não é difícil perceber por que produtores e distribuidores passaram a incorporar o próprio nome do cineasta à sua obra, como um selo de qualidade. Os filmes já não mais se chamavam Roma, Casanova ou Satyricom, mas Roma de Fellini, Casanova de Fellini e Satyricom de Fellini. Sua carreira foi coroada por quatro prêmios Oscar, dois Leões de Prata, uma Palma de Ouro, o prêmio do Festival Internacional de Filmes de Moscou, o prestigiado Prêmio Imperial da Associação de Arte do Japão, e inúmeros outros. Em 1993, mesmo ano em que recebeu um Oscar de Honra pelo conjunto de sua obra, Fellini sofre um ataque cardíaco fatal, um dia após completar cinqüenta anos de casado (Giulietta morreria seis meses depois). Ambos estão enterrados no mesmo túmulo de bronze esculpido por Aldo Pomodoro, em formato de barco, na entrada do cemitério de Rimini. COLEÇÃO FONDAZIONE FEDERICO FELLINI, RIMINI

felliniano Grande Prêmio no Festival de Cannes de 1946, o troféu de melhor filme estrangeiro pela Associação dos Críticos de Nova York, e nada menos que uma indicação ao Oscar de Melhor Roteiro para Fellini. As portas do cinema se abriam definitivamente para ele. Mas antes de dirigir seu primeiro filme (Mulheres e Luzes, de 1950, que co-dirigiu ao lado de Alberto Lattuada), Fellini foi durante três anos assistente de direção de Rossellini e do próprio Lattuada, e chegou até a ensaiar alguns passos como ator, vivendo um vigarista confundido com um santo no episódio Il Miracollo do longa L’Amore, também de Rossellini. Fellini assinou o roteiro deste episódio. Sua primeira direção solo aconteceria em 1952 com O Abismo de um Sonho, a partir de uma história criada por ele mesmo e por Michelangelo Antonioni. A trama fala de um casal do interior que chega a Roma para uma visita importante aos primos do marido. Porém, a jovem esposa se perde pelas ruas da capital e acaba se envolvendo com um galã de fotonovela. Parece familiar? Pois trata-se basicamente da mesma história que pode ser vista no recente Para Roma, com Amor, de Woody Allen. Não, não há nenhum crédito para Fellini no filme de Allen. Logo no ano seguinte, a confirmação do talento do cineasta: Os Boas Vidas é indicado para outro Oscar de Roteiro, e ganha o prêmio de Direção no Festival de Veneza.

Na foto atribuída a Pierluigi, o momento em que Fellini filma uma das cenas memoráveis da História do cinema: o banho de Anita Ekberg na Fontana di Trevi em A Doce Vida. Abaixo, um dos desenhos do livro dos sonhos de Fellini, feito em 18 julho de 1980.

Daí para frente Fellini dirigiu mais 16 longas para cinema, três episódios, um punhado de comerciais, e um documentário para a televisão que é uma verdadeira preciosidade: Os Palhaços, sobre a profissão mais divertida do circo. O mesmo circo com o qual ele nunca fugiu quando era criança. Fiel ao cinema autoral, Fellini idealizou e escreveu todos os filmes que dirigiu. E ainda escreveu outros que não dirigiu. Jogou em sua obra boas doses de recordações de infância, de vivências pessoais, e das mais oníricas fantasias. Elegeu o ator Marcello Mastroiani como o seu alter

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CINEMA SIMPLESMENTE FELLINIANO PIERLUIGI/COLEÇÃO FONDATION FELLINI POUR LE CINÉMA, SION

Fellini ensaia com Marcello Mastroianni uma cena memorável de A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960); abaixo, Anita Ekberg descansa durante intervalo na filmagem em foto atribuída a Pierluigi. Ao lado, cartaz italiano de Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria, 1957). COLEÇÃO FONDATION JÉRÔME SEYDOUX – PATHÉ, PARIS

Fellini, o jornalista multimídia Exposição e catálogo de luxo celebram a vasta obra e a carreira do grande cineasta italiano.

Adolescente, Fellini queria trabalhar como desenhista. A charge à esquerda e a historieta abaixo foram publicadas em 1947 no popular jornal humorístico Il Travaso Delle Idee.

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Fellini? Cinema, claro! Não é tão simples assim. A exposição Tutto Fellini, que chega a São Paulo após passar pelo Instituto Moreira Sales, no Rio de Janeiro, mostra um Federico Fellini que vai além das telas de cinema. Com curadoria de Sam Stourdzé, diretor do Musée de l’Elysée, em Lausanne, Suíça, Tutto Fellini traz fotografias de bastidores, desenhos feitos pelo próprio diretor, revistas de época, cartazes, entrevistas e, claro, trechos de filmes. Isso sem contar curiosidades como fotos de anônimos que se candidatavam aos papéis de seus longas. Há também uma atenção especial sobre os vários tipos de mulheres presentes

nos filmes de Fellini. São prostitutas, mães, femme fatales, ninfomaníacas e registros de atrizes que se tornaram divas, como Anita Ekberg (de A Doce Vida, Boccaccio 70, Os Palhaços e Entrevista), Anna Magnani (Roma de Fellini) e Giulietta Masina (Mulheres e Luzes, Abismo de um Sonho, A Estrada da Vida, A Trapaça, Noites de Cabíria, Julieta dos Espíritos e Ginger e Fred), com quem Fellini se casou após um namoro relâmpago e de quem nunca mais se separou. Segundo o curador, “o que interessa a Fellini não é a realidade em si, e sim a percepção da realidade. Parece que, com seus filmes, ele quer nos dizer que o cinema é um ins-


TECNOLOGIA E CIÊNCIA

trumento intermediário entre a realidade e a percepção que temos dela”. Toda a exposição está eternizada na edição de um caprichado catálogo muito especial com 184 páginas trazendo fotos de cenas dos filmes de Fellini, cartazes de divulgação, gravuras feitas pelo próprio cineasta e imagens dos bastidores. A profusão de desenhos, aquarelas e gravuras feitas por Fellini não é um acaso. Bem antes de se transformar num dos maiores cineastas da História do Cinema, Fellini já era um desenhista de muito talento, que dominava as mais diferentes técnicas, e mostrava clara preferência pelos cartuns e caricaturas. Quando os tanques norte-americanos entraram pelas ruas de Roma, libertando a capital italiana dos nazistas, ao final da Segunda Guerra Mundial, Fellini estava lá. Não empunhando armas, mas lápis e pincéis, fazendo e vendendo caricaturas para os soldados aliados. Aos 25 anos de idade, ele já era multimídia, antes mesmo da existência do termo, pois além de desenhos também fazia reportagens, entrevistas e roteiros para rádio na imprensa italiana. Depois de Paris, San Sebastian, Moscou e Toronto, a exposição chega ao Brasil através de uma parceria firmada entre o Sesc e o Instituto Moreira Sales. Seguindo um percurso pontuado por temas de interesse de Fellini, a mostra prefere não seguir um padrão cronológico, mas sim temático, abrindo espaço tanto para o cinema como também para a televisão (que o cineasta tanto odiava), a imprensa e a publicidade. A exposição Tutto Fellini foi organizada com o apoio da Fondation Fellini pour le Cinéma (Sion, Suíça), Fondazione Federico Fellini (Rimini, Itália), Carlotta Films (Paris, França), Cineteca di Bologna (Bologna, Itália), Fondation Jérôme Seydoux-Pathé (Paris, França), e Gaumont (Paris, França). Com entrada gratuita, fica em cartaz até 16 de setembro, de terça a sexta das 10h30min às 21h30min, sábados das 10h30min às 21h e domingos e feriados das 10h30min às 18h30min, no Espaço Expositivo do 2º andar do Sesc Pinheiros, em São Paulo, na Rua Paes Leme, 195.

Catálogo Tutto Fellini Sam Stourdzé Tradução Cecília Ciscato e Samuel Titan Jr. Editora Edições Sesc SP/Instituto Moreira Sales ISBN 978-85-7995-032-2 184 páginas Formato 24x28x1,5 cm

Biblioteca da ABI ganha publicação pioneira Editada no fim dos anos 1970, a Cadernos de Ciência e Tecnologia reunia grandes expressões da ciência do País, como Leite Lopes, Goldemberg, Candotti e Pinguelli Rosa. A Biblioteca da ABI (Biblioteca Bastos Tigre) ganhou em julho, por doação do jornalista Carlos Eduardo Ulup, sócio da Casa e membro do seu Conselho Deliberativo, a coleção completa dos Cadernos de Tecnologia e Ciência, uma das publicações pioneiras no setor, que reunia nomes da vanguarda científica e tecnológica do País, como José Leite Lopes, José Goldemberg, Luiz Pinguelli Rosa, Ênio Candotti, Cláudio Mammana, Ivan Marques e Raimundo de Oliveira, entre muitos outros. Lançada em junho de 1978, a publicação incorporou-se ao debate sobre a importância do desenvolvimento autônomo de C&T no Brasil, quando se multiplicavam os sinais de resistência à ditadura que controlava o País, ao mesmo tempo em que grande parte do debate político reprimido se deslocava para o campo da economia, da cultura e do controle nacional sobre a produção brasileira de conhecimento e sua aplicação. Logo no primeiro número, o Conselho Editorial da revista dizia ao que veio, questionando: “Tecnologia e ciência: como, para quê, para quem?”. E desdobrava-se em outra pergunta, desta vez do cientista José Leite Lopes, um dos cassados pela ditadura ainda em 1964, ano do golpe militar: “A quem serve a ciência na América Latina?” Leite Lopes, um dos mais importantes homens da ciência brasileira e internacional, já falecido, respondia, num artigo de oito páginas, inicialmente apresentado em reunião da Sociedade Venezuelana para o Progresso da Ciência: “Hoje, tecnocratas falam muito da transferência de tecnologia como resultado da instalação local de fábricas de empresas multinacionais. O fato de que trabalhadores de nossos países terão que aprender a manipular máquinas importadas para fazer carros, televisores e outros produtos é de importância relativa se considerarmos que estas máquinas são inventadas, projetadas e construídas fora do País e que os planos de como fazer a mercadoria não podem ser mudados por engenheiros locais”. E adiante: “Será que não devemos questionar, discutir, perguntar sempre de novo: que tipo de sociedade objetivamos? Devemos imitar os países industrializados em benefício de uma pequena elite?”. Outro articulista, o economista e pesquisador Adilson de Oliveira, então professor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia-Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro e hoje um dos defensores do controle nacional sobre as reservas petrolíferas do pré-sal, denunciava na época: “Petrobrás: uma estratégia de submissão”. Depois de analisar a evolução financeira e tecnológica da Petrobras desde a sua criação e a implantação do monopólio estatal do petróleo, depois extinto, Oliveira expôs a guinada que levou a empresa à dependência de financiamentos externos e à redução da sua capacidade de investimento nos anos

1970, levando à concessão dos chamados “contratos de risco” às empresas petrolíferas internacionais. Ainda no primeiro número, o cientista A. Rahman, então Diretor do Centro para Estudo da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento do Conselho de Pesquisa Científica e Industrial da Índia, deu entrevista aos Cadernos sobre a política científica e tecnológi-

Um feliz encontro do jornalismo com a ciência A convergência de jornalistas profissionais, técnicos e cientistas foi decisiva para a produção e edição dos Cadernos de Tecnologia e Ciência durante os dois anos de vida da publicação. No seu Conselho Editorial estavam os jornalistas Aluizio Maranhão, Eduardo Ulup e Silvia Helena Rodrigues; os técnicos e cientistas Elói Fernandez, José Fernandes Dias, Luiz Frederico da Cunha, Marília Rosa Milan e o economista Alexis Cavichini. A publicação contava ainda com a concepção gráfica de Cláudia Zarvos. Além de artigos assinados e entrevistas, os jornalistas produziam o encarte especial Jornal de Tecnologia e Ciência, com as notícias mais recentes sobre o setor. O Conselho Consultivo dos Cadernos tinha um time de peso na produção e orientação dos artigos científicos: Alberto Luís Coimbra, Álvaro Sales, Cláudio Mammana, Eduardo Rappel, Frederico Gomes, Gérson Fernandes, Ivan Marques, José Goldemberg, Luiz Bevilacqua, Luiz Flávio Autran, Luiz Pinguelli Rosa, Mário Dias Ripper, Mário Peter Ludwish, Nélson Maculan, Raimundo de Oliveira, Roberto do Couto e Ronaldo Miragaya. A impressão era feita pela Editora Vozes Ltda., que também distribuía a publicação.

ca do seu país, deixando clara sua posição: “Os Estados Unidos e a Europa temem que os países subdesenvolvidos passem a usar seus próprios recursos naturais, sua cultura, sua economia. A América não sobrevive sem o suprimento barato de matérias-primas dos países pobres e precisa que eles continuem a comprar tecnologia em troca de matérias-primas”. Outro entrevistado, o físico Ênio Candotti, que tem no currículo quatro mandatos de Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência-SBPC, reforçou na época a tese de Rahman sobre a necessidade de democratizar o acesso às questões da política científica. “A Ciência e a Tecnologia estão longe de ter contribuído para amenizar as condições de vida e de miséria e inverter os índices de subdesenvolvimento. Não se tem notícia de que as condições de trabalho melhoraram, e bastaria relembrar a nocividade do trabalho nas modernas indústrias químicas para evidenciar esta tese (...) Acredito que as observações de Rahman sobre a necessidade de um amplo e democrático debate, na comunidade científica e na sociedade, sobre a política científica, devam ser interpretadas sob esta luz”. Durante exatamente dois anos, de junho de 1978 a junho de 1980, os Cadernos de Tecnologia e Ciência circularam principalmente no meio universitário e entre cientistas e técnicos, abrigando em suas páginas, além dos já mencionados, artigos e entrevistas de personalidades como Ignácio Rangel, Antônio Houaiss, Osny Duarte Pereira, Rogério Cerqueira Leite, Antônio Barros de Castro, Alberto Passos Guimarães Filho e Plínio Cantanhede, entre tantas outras. As sempre presentes dificuldades financeiras determinaram finalmente a transferência do seu título para um dos integrantes do seu Conselho Editorial. Ficou o legado, muitas vezes profético, destes Cadernos, resultado de uma feliz convergência entre jornalistas, empresários de comunicação, cientistas e tecnólogos brasileiros e estrangeiros.

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VIDAS

P OR C LÁUDIA S OUZA

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Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, de 91 anos, Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro, morreu na noite de 9 de julho, de infarto, na Residência Assunção, onde morava, no Sumaré. O Governador Sérgio Cabral e o Prefeito Eduardo Paes decretaram três dias de luto oficial no Estado e na cidade do Rio de Janeiro. Seu corpo foi embalsamado na manhã seguinte, no Cemitério de Inhaúma, e seguiu em cortejo num carro do Corpo de Bombeiros para ser velado na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. Milhares de fiéis compareceram ao templo para homenageá-lo. No dia seguinte, Dom Eugênio tornou-se o segundo cardeal a ser enterrado no chão da cripta da Catedral. O primeiro foi Dom Jaime Câmara, morto em 1971. O sepultamento foi realizado após a chegada de Dom Heitor de Araújo Sales, Arcebispo Emérito de Natal, RN, seu irmão, que estava na Suíça, e do Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro, Karl Homer, que estava em Roma, na Itália. O site do Vaticano publicou no dia 10 o telegrama enviado pelo Papa Bento XVI ao Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, lamentando o passamento: “Recebida a triste notícia do falecimento do venerado Cardeal Eugênio de Araújo Sales, depois de uma longa vida de dedicação à Igreja no Brasil, venho exprimir meus pêsames a si e aos bispos auxiliares, ao clero e comunidades religiosas, e aos fiéis da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, que por três décadas teve nele um intrépido pastor, revelando-se autêntica testemunha do Evangelho no meio do seu povo. Dou Graças ao Senhor por ter dado à Igreja tão generoso pastor que, nos seus 70 anos de sacerdócio e 58 de episcopado, procurou apon-

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JORNAL DA ABI 380 • JULHO DE 2012

tar a todos a senda da verdade na caridade e do serviço à comunidade, em permanente atenção pelos mais desfavorecidos, na fidelidade ao seu lema episcopal: “impendam at supermpendar”(gastarei e gastar-me-ei por inteiro por vós). Enquanto elevo fervorosas preces para que Deus acolha na sua felicidade eterna este seu servo bom e fiel, envio a essa comunidade arquidiocesana, que lamenta perda dessa admirada figura, à Igreja no Brasil, que nele sempre teve um seguro ponto de referência e de fidelidade à Sé Apostólica, e a quantos tomam parte nos sufrágios animados pela esperança da ressurreição, uma confortadora benção apostólica”. O Arcebispo Dom Orani Tempesta, comunicou a morte de Dom Eugênio pelo Twitter por volta de 0h40m de terça-feira: “Nosso querido Cardeal Dom Eugênio faleceu. Pedimos orações pelo seu descanso eterno!” Dom Orani também lamentou a morte numa declaração: “É uma tristeza anunciar essa notícia nesse momento. Mas ele era um homem de Deus e serviu a Jesus Cristo. Sempre esteve presente nos momentos importantes do Brasil principalmente na questão dos refugiados e na defesa dos perseguidos e teve presença marcante na Igreja do Brasil e do Vaticano. Trabalhou em educação de base e na evangelização nas Arquidioceses do Rio, Natal e Bahia. Viveu quase 92 anos principalmente pelo sua presença significativa na Igreja e no Brasil. Ele foi alguém que sem dúvida soube viver dando continuidade aos ensinamentos.” Ditadura Nascido em 8 de novembro de 1920, em Acari (RN), Dom Eugênio teve o nome citado entre os candidatos a Papa depois da morte de João Paulo I. A vocação para o

sacerdócio surgiu no início dos anos 1930, após ser matriculado num colégio marista de Natal. Antes de optar pela Igreja, pensou em ser engenheiro agrônomo. Foi ordenado em 21 de novembro de 1943. Em 67 anos de vida dedicada à Igreja, Dom Eugênio foi rotulado tanto de líder conservador quanto de “bispo vermelho”, por ter ajudado a criar os primeiros sindicatos rurais no Rio Grande do Norte. Durante a ditadura militar 1964-1985. Dom Eugênio abrigou no Rio mais de quatro mil perseguidos pelos regimes militares do Cone Sul, entre 1976 e 1982, especialmente argentinos. A história da participação do arcebispo foi revelada 30 anos depois numa reportagem do jornalista José Casado no jornal O Globo. Esta sua atuação teve início em 1976, quando um jovem bateu na porta do Palácio São Joaquim, escritório e residência de Dom Eugênio, na Glória. Sem documentos, explicou que era refugiado do regime militar instaurado seis semanas antes na Argentina. “Com o crucifixo na mão, eu pensava: Como cidadão brasileiro, não posso receber montonero, tupamaro, aqueles refugiados que vinham. Em seguida, repensava: Agora, como pastor, eu tenho o dever de receber”, relembrou Dom Eugênio, contando que telefonou para o General Sylvio Frota, então Ministro do Exército e anunciou a sua decisão de ajudar aquelas pessoas: “Chamei o Frota no telefone vermelho e disse: ‘Frota, se você receber comunicação de que comunistas estão abrigados no Palácio São Joaquim, de que estou protegendo comunistas, saiba que é verdade, eu sou o responsável. Ponto final’.” Para dar conta dos inúmeros pedidos de abrigo, Dom Eugênio autorizou o alu-

guel de quartos e apartamentos. Foram 80 imóveis alugados em 14 bairros da Cidade, como Centro, Lapa, Flamengo, Copacabana e Botafogo. Mandou abrir os cofres da Mitra e liberou dinheiro para gastos pessoais, assistência médica e auxílio jurídico. Em pouco tempo, o número de foragidos das ditaduras do Cone Sul desembarcando no Rio chegou a 15 por semana. “Se eu anunciasse o que estava fazendo, não tinha chance. Muitos não concordavam, mas eu preferia dialogar e salvar”, disse Dom Eugênio a O Globo. “Eu não tinha nem nunca tive interesse em divulgar nada disso. Queria que as coisas funcionassem, e o caminho naquele momento era esse, o caminho de não pisar no pé (do governo). Dom Eugênio costumava visitar os presos da ditadura no Brasil no Natal e na Páscoa. Em certa ocasião, enfrentou o General Abdon Sena, que lhe pediu uma missa pelo aniversário do Ato Institucional nº 5. “Vocês que estão satisfeitos com o AI-5 podem agradecer a Deus, mas não por meu intermédio”, respondeu. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB lamentou a morte de Dom Eugênio e destacou a sua luta contra a opressão: “Ele defendeu os direitos humanos. A cada época, ele viveu o seu tempo, buscou soluções para a ditadura e para as questões sociais. Foi um dos brasileiros com mais influência no governo central da Igreja”. Dom Eugênio Sales foi agraciado com o prêmio “Personalidade Cidadania 2009”, promovido pela Folha Dirigida, pela ABI e pela Unesco. A premiação homenageia personalidades e instituições que contribuem para o desenvolvimento humano e a cidadania. Dom Eugênio fez por merecê-la.


Pesar pela morte de Dom Eugênio Em mensagem enviada ao Arcebispo Dom Orani Tempesta, a ABI expressou seu pesar pelo passamento do Cardeal Dom Eugênio Sales, “líder religioso que por quase sete décadas se impôs ao respeito e à admiração coletiva por sua devoção à Igreja, sua dedicação aos desprovidos de bens materiais e sua pregação incansável em defesa de padrões éticos de comportamento na vida pessoal e na gestão da coisa pública”. É o seguinte o texto da mensagem: “Digníssimo Dom Orani Tempesta, Consternada por tão infausto acontecimento, a Associação Brasileira de Imprensa manifesta a Vossa Eminência Reverendíssima e à comunidade católica do Rio de Janeiro e do País seu forte sentimento de pesar pelo passamento de Dom Eugênio de Araújo Sales, líder religioso que por quase sete décadas se impôs ao respeito e à admiração coletiva por sua devoção à Igreja, sua dedicação aos desprovidos de bens materiais e sua pregação incansável em defesa de padrões éticos de comportamento na vida pessoal e na gestão da coisa pública. Desde o começo de sua fecunda trajetória na Igreja, ainda no Rio Grande do Norte, sua terra, Dom Eugênio voltou suas atenções para a multidão de despossuídos, apoiando, no início de sua carreira sacerdotal, a criação de sindicatos

rurais em seu Estado, para difundir entre os trabalhadores rurais a consciência de seus direitos e, através desta e de lutas, a melhoria de suas condições de vida. As preocupações de caráter social acompanharam-no durante sua longeva existência, como através da criação de pastorais especializadas, entre as quais a Pastoral Penal e a das favelas, e da solidariedade e assistência material a vítimas de regimes ditatoriais, tanto no Brasil como nos países vizinhos – Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai. Dono de sólida cultura, Dom Eugênio cedo percebeu a importância da comunicação social para a difusão dos princípios religiosos e da fé e produziu milhares de textos de grande sabor jornalístico como colaborador de destacados veículos impressos, como O Globo e O Dia, e criador de programas para rádio e televisão. Além de líder religioso, era também um multimídia. É a esse admirável sacerdote, intelectual e homem público que a ABI presta sentidas homenagens neste momento doloroso. Receba, Eminente Dom Orani Tempesta, a saudação afetuosa da Associação Brasileira de Imprensa. Respeitosamente Maurício Azêdo, Presidente”

Ele acolheu o Cony perseguido Em artigo publicado na Folha de S. Paulo do dia 15 de julho sob o título Dom Eugênio, o jornalista, escritor e acadêmico Carlos Heitor Cony revelou que recebeu solidariedade do Cardeal Dom Eugênio Sales quando foi perseguido pela ditadura militar, nos anos 1960 e 1970. Além de designar dois auxiliares para rastreá-lo, para informar-se sobre o que acontecesse ao jornalista, Dom Eugênio abrigou-o em sua casa, no Sumaré, na qual Cony dormia. Seu depoimento é aqui reproduzido: “Se fosse muçulmano, umbandista, técnico de futebol, comunista ou lixeiro, Dom Eugênio Sales seria o que sempre foi: um homem reto, sincero, fiel a seus princípios e, sobretudo, humano. Acontece que foi sacerdote, bispo e cardeal. Sua trajetória tinha um ponto de referência lá em cima – no caso dele, o Deus no qual acreditava e a igreja a que servia em tempo integral e em modo total. Conservador, sim, e mais do que isso: coerente e sincero com sua forma de pensar e agir no mundo. O pessoal de certa esquerda o criticava porque não bajulava causas e doutrinas que entravam em moda. Ele fizera sua opção básica por uma religião estruturada,

multissecular, que passara por um “aggiornamento” no Concílio Vaticano 2º. Não trocaria esse corpo de pensamento social e ação por um marxismo superado, um socialismo terceiro-mundista e badalativo. Além da doutrina tradicional da igreja à qual servia, atualizou-se com as encíclicas que foram até citadas por João Goulart no famoso comício de 13 de março de 1964: a “Mater et Magistra”, a “Populorum Progressio” e a “Pacem in Terris”. Pessoalmente, creio que nem Jango nem a turma que o cercava tivessem lido (ou entendido) os documentos que gostavam de brandir para amenizar resistências numa sociedade que, afinal, se rotula de cristã ocidental. Protegeu perseguidos políticos daqui e de fora, com uma firmeza que desarmava os militares. Eu próprio, em certa época, fui rastreado por ele e por dois de seus auxiliares, Dom Eduardo e Dom Rafael. Em alguns momentos de perigo que atravessei, ia dormir na casa de Dom Eugênio, no Sumaré, quando fumávamos nossos charutos. Detalhe importante: ele nunca me chamou pelo meu nome usual, mas de Heitor. Como meu pai e minha mãe.”

Maneco, uma segurança para o JB Nos anos 1970 e 1960, era difícil para qualquer jornal do Rio furar o Jornal do Brasil, que liderava o jornalismo na Cidade e no País. A segurança na performance do jornal era garantida por um profissional que varava o fim da noite e a alta madrugada para acompanhar seu processo de impressão e comparar a edição com a dos concorrentes que já chegavam às ruas, para ver que informações importantes estavam deixando de ser publicadas no JB. Se a notícia destacada não estava no jornal, ele mandava parar a rotativa para modificar a edição e impedir que o jornal fosse furado. Esse zeloso e eficiente profissional era Manoel Aristharco Bezerra, o Maneco, como era chamado pelos amigos e colegas de Redação do Jornal do Brasil, um dos grandes personagens do jornalismo no Rio, que morreu aos 78 anos, na manhã de 24 de julho, de morte natural, em sua residência no Rio. Seu corpo foi enterrado no dia seguinte, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, na presença de parentes e de amigos e ex-companheiros de trabalho. Companheiros que conviveram com ele desde essa época em que Maneco era o Secretário noturno da Redação do JB lembraram emocionados do amigo. Entre eles José Silveira, exChefe do Copidesque do JB, que disse que foi acordado com a notícia de sua morte: “Fui avisado pelo rapaz que o acompanhava. Ele apagou e descansou”, contou Silveira. Carlos Lemos, ex-Chefe de Redação do JB, emocionou-se ao lembrar do amigo e disse que seu dia ficou “mais triste”. “Perdemos um grande amigo, extraordinário. Além de ser um homem honrado e trabalhador, Maneco exercia um papel importante na feitura do Jornal do Brasil como Secretário, atuando entre a Redação e a oficina”. O obituário publicado no JB Online em 25 de julho registrou que Maneco será lembrado por ser “jornalista por excelência, competente na resolução de problemas e com grande respeito

dos amigos de profissão contemporâneos”. Laerte Gomes, ex-Editor de Arte do JB, falou sobre o que admirava no ex-companheiro, que era “dotado de um bom humor ímpar e distribuía altas gargalhadas pela Redação”: “Manecão tinha uma gargalhada gigante que dá muita saudade”, disse Laerte. Ao lembrar os momentos de divertimento e trabalho que compartilhou com Maneco no JB, Romildo Guerrante apontouo como um dos melhores profissionais com quem trabalhou. “Rigoroso com a qualidade, cercava na oficina, no tempo em que foi Secretário noturno, as bobagens e muitas distrações que nós no Copidesque, às vezes cansados pelas jornadas noite adentro, deixávamos escapar na Redação. Carinhoso, tratava todo mundo com enorme dignidade, capacidade de trabalho imensa. Maneco foi um padrão que busquei para mim mesmo no jornalismo”, disse Guerrante. Maneco trabalhou no JB num período importante do jornal, marcado por um projeto gráfico ousado e inovador. Ele foi um personagem importante desse período, na sede do jornal na Avenida Rio Branco e mais tarde quando a Redação foi transferida para o prédio da Avenida Brasil, 500, em frente ao Cais do Porto, no Caju. No local atualmente funciona o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia-Into. O jornalista Sérgio Noronha, ex-Secretário de Redação do JB, destaca que Maneco também foi responsável pela transformação que ocorreu entre os anos de 1960 e 1970 no jornal: “Maneco foi um dos responsáveis pela reforma gráfica do JB. Na época, este fato foi uma grande revolução no jornalismo de todo o País”, disse Noronha. Maneco era pernambucano, casado com Martha Engert, com quem teve quatro filhos, todos já formados, e tinha uma neta. Há alguns anos, sofreu um acidente vascular cerebral que lhe deixou seqüelas e o manteve preso a uma cadeira de rodas.

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