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LAURENTINO GOMES O autor de 1822, livro premiado com o Jabuti, diz que nunca deixou de ser jornalista

JOSÉ LEWGOY Documentário de Cláudio Kahns faz uma homenagem comovente ao ator que também escrevia

PÁGINAS 21, 22 E 23

PÁGINAS 16, 17, 18, 19 E 20

Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

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NOVEMBRO 2011

O BRASIL NO CAMINHO DA VERDADE

Crimes da ditadura serão investigados MUNIR AHMED/UCHA

As forças democráticas conseguiram uma grande vitória com a sanção da lei que cria a Comissão da Verdade, passo importante para a investigação e divulgação dos crimes cometidos pela ditadura militar. A batalha agora será em torno da escolha dos membros da Comissão. PÁGINAS 28, 29 E 30 E EDITORIAL UM IMPORTANTE PASSO À FRENTE, NA PÁGINA 2.

MARIGHELLA NUM FILME QUE CONSUMIU 25 ANOS

SÃO TÍMIDOS OS AVANÇOS

NEGOCIATAS DE PALOCCI DÃO

A MORTE DO CINEGRAFISTA

NA LUTA ANTICORRUPÇÃO

PRÊMIO A TRÊS JORNALISTAS

PODERIA TER SIDO EVITADA

COM AMOR E PACIÊNCIA, A CINEASTA ISA FERRAZ, SOBRINHA DO LÍDER GUERRILHEIRO, FEZ LONGO DOCUMENTÁRIO SOBRE ELE. PÁGINAS 14 E 15

APESAR DA FORTE ADESÃO POPULAR, O MOVIMENTO CONTRA A CORRUPÇÃO ALCANÇA RESULTADOS INSUFICIENTES. PÁGINAS 3, 4 E 5

E QUIPE DA FOLHA DE S.PAULO ARREBATOU A PRINCIPAL DISTINÇÃO DO P RÊMIO E SSO 2011. PÁGINAS 12 E 13

S E TIVESSE UM COLETE ADEQUADO , GELSON DOMINGOS TERIA SOBREVIVIDO AO TIRO QUE O MATOU . P ÁGINAS 26 E 27


Editorial

D ESTAQUES DESTA EDIÇÃO 03 Transparência - A grande luta contra a Corrupção ○

UM IMPORTANTE PASSO À FRENTE NOS ÚLTIMOS ANOS os setores democráticos do País têm sofrido alguns reveses amargos, como aquele imposto pelo Supremo Tribunal Federal, em 30 de abril do ano passado, ao aprovar o malsinado voto do então Ministro Eros Grau que declarou como insuscetíveis de julgamento os agentes do Estado que, apoiados na força que esse mesmo Estado lhes proporcionava, cometeram toda sorte de violências contra os presos políticos submetidos à sua guarda. Pela ótica de Eros Grau, ele próprio, paradoxalmente, vítima de ilegalidades e torturas durante o regime militar, a Lei da Anistia perdoara os assassinos e torturadores, entendimento que conflita com a realidade das votações travadas no Congresso Nacional para instituição da lei libertadora. A FUNESTA DECISÃO DO SUPREMO e de seu Ministro projetou seus malefícios tempos afora, como demonstrado na recente decisão do Tribunal Federal Regional de São Paulo que mantém a salvo de qualquer punição os quatro militares, à frente o hoje Tenente-Coronel reformado Maurício Lima, que em 1969 supliciaram 20 militantes políticos presos na Operação Bandeirantes, entre os quais a jovem estudante Dilma Rousseff, que o reconheceu em depoimento prestado em 1970 como um dos seus algozes. Lima e seus cúmplices agora passeiam sua impunidade como cidadãos comuns, graças à ab-

Jornal da ABI Número 372 - Novembro de 2011

Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha presidencia@abi.org.br / franciscoucha@gmail.com

Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Edição de textos: Maurício Azêdo Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, André Gil, Conceição Ferreira, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Ivan Vinhieri, Mário Luiz de Freitas Borges. Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva, Paulo Roberto de Paula Freitas. Diretor Responsável: Maurício Azêdo Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Dr. Franco da Rocha, 137, conjunto 51 Perdizes - Cep 05015-040 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira Impressão: Gráfica Lance! Rua Santa Maria, 47 - Cidade Nova - Rio de Janeiro, RJ

solvição que Eros Grau lhes concedeu, bem como a outros criminosos. NESSE QUADRO DE DECISÕES adversas soa como grande vitória dos setores democráticos a sanção pela Presidente Dilma Rousseff da lei que institui a Comissão da Verdade, a qual constitui um importante passo à frente na luta que esses setores travam desde há muito pela revelação em sua inteireza dos crimes cometidos durante a ditadura militar, com o levantamento e divulgação ampla de informações sobre suas vítimas, as circunstâncias e os locais em que foram molestadas, o destino dado a seus corpos, no caso dos presos assassinados, e, principalmente, os nomes e funções dos agentes que lhes impuseram tratamento impiedoso e brutal e os superiores que lhes ditavam esses comportamentos. Há que chegar não só aos autores dos crimes, mas também aos superiores a que obedeciam. NÃO POR ACASO a sanção da Lei da Comissão da Verdade deu-se em ato em que foi igualmente sancionada a lei que regula o acesso aos documentos públicos, a qual rejeitou a hipótese de se recobrir de sigilo eterno o que se produziu e se produz nesse campo. Sem esse sigilo a Comissão da Verdade poderá alcançar eficácia na relevante missão de mostrar quanto de indigno aconteceu em nossa História recente.

DIRETORIA – MANDATO 2010-2013 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Orpheu Santos Salles Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretora de Jornalismo: Sylvia Moretzsohn CONSELHO CONSULTIVO 2010-2013 Ancelmo Goes, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Ferreira Gullar, Miro Teixeira, Nilson Lage e Teixeira Heizer.

CONSELHO FISCAL 2011-2012 Adail José de Paula, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Luiz Carlos Chesther de Oliveira e Manolo Epelbaum. MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2011-2012 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: Sérgio Caldieri Segundo Secretário: Marcus Antônio Mendes de Miranda Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa. Conselheiros Efetivos 2010-2013 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Fernando Foch, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Jesus Chediak, José Gomes Talarico (in memoriam), Marcelo Tognozzi, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Orpheu Santos Salles, Paulo Jerônimo de Sousa e Sérgio Cabral. Conselheiros Efetivos 2009-2012 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fernando Segismundo, Glória Suely Álvarez Campos, Jorge Miranda Jordão, José Ângelo da Silva Fernandes, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Wilson Fadul Filho. Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felipe Meiga Santiago, Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas,

Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

09 Premiação - Especial Herzog é de Elifas ○

12 Premiação - Série que derrubou Palocci arrebatou o Esso de 2011 ○

13 Premiação - Fuga no Complexo do Alemão deu o Embratel à TV Globo ○

14 Documentário - Marighella: guerrilheiro, poeta e... tio ○

16 Depoimento - Ele, José Lewgoy ○

21 Depoimento - Laurentino Gomes - A História revisitada pelo viés jornalístico ○

31 Passeata - O RJ marcha por seus recursos ○

32 História - As agruras do Correio da Manhã no pré e no pós AI-5 ○

35 Livros - Um reencontro com Bradbury, o autor de Fahrenheit 451 ○

36 Homenagem - Dia D: à procura de Drummond ○

39 Imprensa - 200 anos de Babel ○

40 Exposição - Angeli e o cinema nacional ○

42 Homenagem - Chaplin, eternamente engraçado ○

SEÇÕES 08 A C O N T E C E U N A A B I ○

26 L I B E R D A D E D E I M P R E N S A ○

O S HU M A N O S 28 D I R E I TTO Uma dívida com a Verdade ○

VIDAS 44 Luiz Mendes ○

45 Hélio Fernandes Filho ○

46 Leon Cakoff ○

ERRATA - JORNAL DA ABI 370 PÁGINA 32 - Na segunda coluna, antepenúltima resposta, Roberto Mendes não cita a Anatel, e sim o Ministério das Comunicações, “que tinha um departamento com atuação semelhante à Anatel de hoje”. E nem poderia citar: A Anatel foi instalada em 5 de novembro de 1997. PÁGINA 33 - Ao lado da carteira do Paraguai, leia-se: “Fui para Genebra e Paris, onde havia ramificações de amigos de MPL”. Nas últimas três linhas desta página, o correto é: “A anistia foi assinada no dia 28 de agosto de 1979, que é dia do meu aniversário” PAGINA 34 - Na primeira coluna: o nome correto é Jorge Ramos e não Jorge Campos, como foi publicado. PÁGINA 38 - Na penúltima resposta, o nome correto do filme dirigido por Eliseu Ewald que Roberto está produzindo é Entre Macacos e Anjos.

Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão e Wilson S. J. Magalhães.

Conselheiros Suplentes 2010-2013 Adalberto Diniz, Alfredo Ênio Duarte, Aluízio Maranhão, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel Mazola Froes de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José Silvestre Gorgulho, Luarlindo Ernesto, Marceu Vieira, Maurílio Cândido Ferreira, Sérgio Caldieri, Wilson de Carvalho, Yacy Nunes e Zilmar Borges Basílio. Conselheiros Suplentes 2009-2012 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Jordan Amora, Jorge Nunes de Freitas (in memoriam), Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Raimundo Coelho Neto (in memoriam) e Rogério Marques Gomes. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Felipe Meiga Santiago, Carlos João Di Paola, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Marcus Antônio Mendes de Miranda. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Presidente, Lênin Novaes; Secretário, Wilson de Carvalho; Alcyr Cavalcânti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel de Castro, Ernesto Vianna, Geraldo Pereira dos Santos,Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, José Ângelo da Silva Fernandes, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Mário Augusto Jakobskind, Martha Arruda de Paiva, Orpheu Santos Salles, Sérgio Caldieri e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor),Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

O JORNAL DA ABI NÃO ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA , COMO ADMITE O DECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008.

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06 Memória - Cabo Anselmo, um agente provocador, por Rodolfo Konder


TRANSPARÊNCIA

MARCELLO CASAL JR./ABR

A GRANDE LUTA CONTRA A

Nunca houve tanto destaque para o tema. Tampouco tantas manifestações nas ruas, de repúdio da população à corrupção. A imprensa tem cumprido seu papel de investigar e denunciar de forma sistemática. Mas será que o País já dispõe de instrumentos eficazes e transparentes de controle dos gastos públicos? POR PAULO CHICO

E

m termos políticos, os primeiros meses do mandato de Dilma Rousseff não têm sido dos mais tranqüilos. Em 26 de outubro, Orlando Silva, do Turismo, foi o sexto Ministro de Estado a deixar o Governo. Dos seis, cinco foram demitidos após serem alvos de denúncias de corrupção, que incluíam desde o favorecimento de organizações não-governamentais de fachada ao pagamento de contas pessoais com cartão corporativo. Por trás de uma avassaladora onda de denúncias que toma conta dos principais jornais e revistas do Brasil, parece clamar a

indignação de grande parte da população, que cobra maior controle e transparência dos gastos públicos. Nas redes sociais, proliferam manifestações em defesa da ética. O mesmo ocorre nas ruas. No dia 15 de novembro foram realizadas Marchas Contra a Corrupção em pelo menos 30 cidades brasileiras. O movimento apresenta três reivindicações prioritárias: voto aberto no Congresso, aprovação do projeto que torna a corrupção crime hediondo e a adoção da Ficha Limpa com validade já para as eleições de 2012. Fatores básicos para a conquista do exercício da cidadania no Brasil. Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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TRANSPARÊNCIA A GRANDE LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO

se confunda com simples denuncismo – muitas das acusações feitas por jornais e revistas ainda não foram provadas, mas já custaram a cabeça de alguns ministros de Estado –, é inegável que ela traduz, em parte, o sentimento da população de que é preciso dar um basta na prática de desvio de recursos no País. Exemplo disso foi a capa da Veja de número 2240, de 26 de outubro de 2011. Lançando mão da máscara do personagem do filme V de Vingança, devidamente pintada com as cores verde e amarela, a revista estampava a manchete “Dez motivos para se indignar com a corrupção”, listando problemas crônicos do Brasil que poderiam ter sido resolvidos caso não tivessem sido desviados, ao longo de 2010, R$ 85 bilhões dos cofres públicos. Diante deste cenário, é possível afirmar que a imprensa vem cumprindo com seu papel de agente fiscalizador da atuação do Poder Público? “Para ser correta, essa afirmação depende do veículo. Sob o ponto de vista estatístico, a cobertura da corrupção na imprensa brasileira é muito deficiente.

Correio Braziliense, Wagner Rossi saiu da Agricultura no dia 17 de agosto, sendo logo depois seguido por Pedro Novais. O Ministro do Turismo deixou o cargo em 14 de setembro, após ser acusado de pagar o salário de uma empregada doméstica com dinheiro da Câmara dos Deputados e de usar um funcionário do Gabinete do Deputado Francisco Escórcio (PMDB-MA) como motorista de sua mulher em horário de trabalho. Em novembro, por fim, o Ministro do Trabalho, Carlos Lupi, teve seu nome envolvido em denúncias de irregularidades em contratos com ongs. A permanência do político do PDT à frente da Pasta tornou-se mais complicada após reportagem da Veja, na edição 2243, de 16 de novembro, que afirma que Lupi fez uma viagem oficial em jatinho do dono de uma ong que tem contratos suspeitos com seu Ministério. O Ministro teria mentido à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara, quando negou conhecer Adair Meira – o proprietário da ong, com quem viajara.

Nós mantemos desde 2004 o projeto Deu no Jornal (www.deunojornal.org.br), que consiste em recolher todos os dias todo o noticiário sobre corrupção e assuntos correlatos publicados nos principais veículos impressos brasileiros. Eles são, hoje, cerca de 33, de quase todos os Estados. A grande maioria desses veículos basicamente publica despachos das agências Estado e Folhapress. Pouquíssimos têm alguma cobertura própria, por exemplo, com pautas locais”, lamenta Cláudio Weber Abramo, Diretor-Executivo do Transparência Brasil, organização independente e autônoma, fundada em abril de 2000 por um grupo de cidadãos e organizações não-governamentais comprometidos com o combate à corrupção. Para Abramo, é preciso reconhecer que o trabalho de investigação e denúncias não é feito, no Brasil, pela imprensa como um todo, e sim por alguns veículos específicos. “Não se pode falar em cobertura da imprensa, mas de uma quantidade muito reduzida de jornais e revistas, tais como Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, Correio Braziliense, Zero Hora, Veja, Época e alguns poucos outros. A cobertura dos veículos

é sempre muito mais intensa no que diz respeito a acontecimentos na esfera federal. Aquilo que ocorre no Estado em que o jornal circula recebe atenção reduzidíssima. E a cobertura do plano municipal é também deficiente, embora um pouco melhor do que a estadual. Independentemente de ser bem ou mal noticiado, o que a imprensa do País publica são esmagadoramente casos que eclodiram no Judiciário ou em algum organismo de contro-

para as que têm até 50 mil pessoas é o início de 2013. “O problema, agora, é policiar essa lei. Até porque se sabe que muitos Estados e Municípios construíram sites que trazem informações superficiais e que não permitem um controle social verdadeiro”, comenta o economista Gil Castelo Branco, presidente da ong Contas Abertas, que monitora gastos do Governo Federal. No plano federal, o quadro é mais evoluído. É possível saber, por exemplo, as compras feitas pela Presidência da República na véspera da consulta, o quanto cada gestor público gasta em diárias ou em despesas com cartões corporativos, qual empresa recebe mais recursos da União, os nomes de todos os beneficiários do Bolsa-Família, entre outros dados. Para Gil, a questão da transparência nos gastos públicos evoluiu bastante no Brasil, nas últimas décadas, principalmente após o boom da internet e da cobrança maior por parte da sociedade brasileira. “Nós passamos muito tempo com inflação alta e não tínhamos o hábito de

COMO TEM ATUADO A NOSSA IMPRENSA? Embora a onda de denúncias por vezes 4

Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

ANTÔNIO CRUZ/ABR

MARCELLO CASAL JR./ABR

O papel desempenhado pela imprensa na chamada ‘faxina’ no Ministério de Dilma Rousseff é evidente. Em 7 de junho, Antônio Palocci, da Casa Civil, foi o primeiro a perder o cargo, depois de suspeitas de ter praticado tráfico de influência em favor de sua empresa de consultoria, a Projeto. As denúncias, que apontavam um impressionante crescimento do patrimônio de Palocci, foram inicialmente publicadas pela Folha de S.Paulo. No dia 6 de julho, portanto menos de um mês depois da saída de Palocci, caiu o Ministro dos Transportes Alfredo Nascimento, cuja situação ficou insustentável após a publicação de diversas reportagens que apontavam a existência de um esquema de corrupção comandado por ele dentro da pasta. Não por denúncias de corrupção, e sim por divergências políticas, em 4 de agosto o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, pede demissão após a repercussão das declarações dadas à revista Piauí, em que afirmou que o Governo era “atrapalhado”. Alvo de uma série de denúncias de corrupção, publicadas, sobretudo, pela revista Veja e pelo

le, principalmente a Controladoria-Geral da União-CGU.”

ALGUNS AVANÇOS, AINDA QUE TÍMIDOS Com a evolução da democracia no Brasil, alguns princípios já consagrados em outros países ganham cada vez mais força. Um deles é o do acesso aos gastos públicos por parte da sociedade. A criação de sites como o Portal da Transparência, do Governo Federal, e o Siga Brasil, mantido pelo Senado, reforçaram essa tendência no plano da União. Mas nos Estados e Municípios, afora algumas iniciativas isoladas, ainda há diversas barreiras para se saber onde e como o poder público gasta o dinheiro do contribuinte. Um passo para o País tornar-se mais transparente quanto ao uso de recursos públicos foi dado no ano passado com a aprovação da Lei Complementar nª 131. Por ela, todas as cidades com mais de 100 mil habitantes já deveriam disponibilizar suas contas, na internet, desde maio de 2010. Municípios com população de 50 a 100 mil moradores tiveram até maio deste ano para fazer o mesmo. E o prazo

acompanhar as contas públicas. A própria ditadura militar teve um peso nesse processo de silenciamento de uma geração. Mas, hoje, o Brasil recupera, a passos acelerados, o tempo que perdeu”, comentou. Cláudio Weber Abramo concorda. “O Portal da Transparência, do Governo Federal, experiência emulada de forma mais deficiente em alguns poucos Estados, é bastante bom. Mais e melhores instrumentos tendem a ser criados. De modo geral, acredito que a disponibilidade de informação pública no Brasil tem avançado bastante, em especial na esfera federal – e não só no Executivo, mas também no Legislativo e no Judiciário. Mas o mesmo não se verifica nas demais esferas de poder, que estão muito atrás neste assunto.”

MAIS QUE UM DESAFIO, UMA MISSÃO HISTÓRICA “Como economista, trabalhei a maior parte da minha vida com o orçamento público, e tenho a convicção de que ele precisa ser aprimorado, não só no que diz respeito à legalidade como também à qualidade. Assim, após aposentar-me, passei a


MARCELLO CASAL JR./ABR

dedicar-me inteiramente ao Contas Abertas, entidade da qual fui o fundador número um, em dezembro de 2005. Atualmente, exerço a função de Secretário-Geral, que é o nosso cargo executivo”, explica Gil Castelo Branco. Como curiosidade, é válido destacar que a ong foi fundada exatamente no dia 9 de dezembro, Dia Internacional do Combate à Corrupção. A corrupção existe no mundo todo. Nenhum país tem nota 10 no Índice de Percepção da Corrupção-IPC, anualmente calculado pela Transparência Internacional. Nesta avaliação, estão próximos de zero os países mais corruptos e no outro extremo aqueles em que a percepção de corrupção é menor. O Brasil, desde que o IPC começou, em 1995, tem média de 3,65. Nos dois últimos anos, a nota foi 3,7. “Desta forma, na ‘matéria’ corrupção estamos sendo reprovados há muitos anos, há vários Governos. O fato tem raízes históricas. Mas entre os fatores que atualmente realimentam a corrupção eu citaria os financiamentos das campanhas eleitorais, a quantidade excessiva de funções comisMARCELLO CASAL JR./ABR

sionadas, o foro privilegiado para as autoridades, a forma de indicação dos ministros dos tribunais superiores, as facilidades concedidas às ongs, a falta de maior transparência, principalmente nos Estados, Municípios e empresas estatais, as emendas parlamentares, a não votação de aproximadamente 100 projetos de lei que poderiam reduzir a corrupção e estão paralisados no Congresso Nacional, a morosidade da Justiça”, enumera Gil Castelo Branco. O Secretário-Geral do Contas Abertas destaca a atuação da imprensa nos casos de denúncias e investigação sobre corrupção. “A mídia exerce papel essencial na fiscalização dos dispêndios públicos. Atualmente, existe o controle interno, representado pela CGU, o controle externo, executado pelo Tribunal de Contas da União, e o controle social, desenvolvido pela mídia e entidades privadas. Em um país como o Brasil, com dimensões continentais, o combate à corrupção só é eficaz quando envolve a sociedade como um todo. A pró-

pria Convenção da Onu sobre o Combate à Corrupção possui um artigo inteiramente dedicado à participação social, o artigo 13”, diz Gil Castelo Branco.

AINDA HÁ MUITO O QUE APRIMORAR Apesar dos avanços ocorridos, o Brasil ainda está atrasado frente ao cenário internacional. Em mais de 70 países, existe a chamada Lei de Acesso à Informação, que assegura a qualquer pessoa o direito de, após solicitar um dado a um órgão público, receber a resposta ou uma justificativa oficial sobre por que ela não pode ser divulgada. Em outros países, não só o hábito, como as estratégias de controle social são mais avançadas. A tendência, inclusive, é que entidades como o Contas Abertas, que hoje é chamada a levantar informações de vários Ministérios, produzam filhotes que possam atuar em setores específicos. Nos Estados Unidos, por exemplo, há instituições que atuam por áreas. São ongs que fis-

No feriado de 7 de setembro milhares de manifestantes participam da Marcha Contra a Corrupção em diversas cidades do Brasil. Eles exigiam o fim do voto secreto na Câmara e no Senado e punição para os corruptos. No dia 28, a ong Rio de Paz e os organizadores da Marcha fincaram 594 vassouras verde-amarelas na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Congresso Nacional. Na edição 2240, de 26 de outubro, a revista Veja publicou ampla reportagem sobre o assunto.

calizam o uso de recursos das políticas para negros, mulheres, crianças, entre outros. O Contas Abertas já treinou equipes de jornalistas de diversos veículos, como a do Estado de S.Paulo. “Nosso trabalho é praticamente navegar, o tempo todo, nesses portais. E procuramos mostrar aos jornalistas onde eles podem encontrar os mais variados tipos de informação. Então, quando trabalhamos com eles, não é por acaso. Este é um profissional que tem um efeito multiplicador. É melhor fazermos um curso para jornalistas do que para qualquer tipo de profissional que possivelmente não vai lidar com o assunto. Ele, com certeza, permanecerá lidando com isto e vai aprofundar levantamentos, pesquisas e matérias, aumentando o controle social. Por isso, já fizemos esse curso para vários jornais”, conta Gil Castelo Branco, lembrando que a entidade que dirige não recebe dinheiro público – é mantida exatamente pelos trabalhos que presta para entidades e empresas privadas. O Brasil vive uma grande mobilização nacional em relação à Copa do Mundo e aos Jogos Olímpicos, com a execução de

grandes obras em quase todo o País. Mas será que esse processo tem sido gerido de forma pública e transparente? A imprensa tem cumprido seu papel de agente fiscalizadora? “A imprensa tem cumprido o seu papel da melhor forma possível. O que ocorre é que só existe controle social se houver transparência e facilidade no acesso à informação. No entanto, os portais disponibilizados até o momento, especificamente para o controle das ações neste setor, são incompletos e defasados”, diz o Secretário do Contas Abertas. Cláudio Weber Abramo concorda. “O que está acontecendo em Campo Grande ou Manaus? De toda forma, o acompanhamento do assunto é difícil. O Transparência Brasil desistiu de fazê-lo devido à complexidade implicada”, revela para, logo em seguida, afirmar o papel da mídia eletrônica no controle dos gastos públicos. “A internet é o meio de monitoramento do Estado por excelência, desde que ele publique regularmente informações detalhadas e atualizadas sobre suas decisões – e isso inclui muito mais do que a execução orçamentária. A chave é a obrigatoriedade de o Poder Público publicar informação. Por outro lado, as ongs locais que deveriam analisar o que é publicado fazem isso muito mal. O Poder Público já publica muito mais informação sobre diferentes aspectos da atuação do Estado do que os intermediários da informação se mostram capazes de acompanhar”, lamenta o representante do Transparência Brasil. “O acesso à informação é tão liberdade quanto a liberdade de expressão. O cidadão tem o direito de ter acesso a estas informações. O Estado não gera um centavo. Ele sobrevive às custas dos impostos que pessoas físicas e jurídicas pagam. O cidadão tem todo o direito de saber como as autoridades, que são nossos empregados, em todas as instâncias, usam os recursos públicos. É preciso que nós acompanhemos, monitoremos tudo isso, para combater a corrupção. E até para discutir também a qualidade do gasto”, conclui Gil Castelo Branco. Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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MEMÓRIA

Cabo Anselmo, um agente provocador Desde o começo, no asilo na Embaixada do México, ele nos pareceu o que realmente era, como se provou anos depois: um farsante a serviço do golpe e da Polícia.

o tempo, o cabo Anselmo adotou uma postura provocativa, de desafio, contrária a qualquer aproximação. Era o grande inimigo da unidade entre os asilados.” “Havia um moça, ex-funcionária da Petrobrás, que se dizia apaixonada por ele. Era bonita e tentava conquistá-lo com insistência. Ao fim, declarou-se frustrada – e acusou o cabo de efeminado. Ele não parecia preocupado. Gostava de dançar, ao som de músicas modernas. Revirava os olhos, gingando os quadris. Tudo bem, embora eu não conseguisse identificar naquela figura delicada um ‘perigoso líder revolucionário’.” “Certo dia, o grupo do cabo se reuniu no seu QG para conspirar: Não queriam que um de nós soubesse dos seus planos, por medo que o denunciasse. Ficaram fechados o dia inteiro. À noite, as rádios anunciaram a prisão de Cabo Anselmo. Todos nos sentimos perplexos, porque nenhum de nós sabia que o cabo deixara a Embaixada. Max quase teve um enfarte. O grupo de marinheiros ficou desnorteado. Mas não podiam nos acusar. Haviam planejado uma ação ousada - segundo transpirou mais tarde – e o marinheiro escolhido para sair da Embaixada e levá-la a efeito recusara a heróica tarefa. Então, o cabo Anselmo apresentou-se como voluntário. Deixara a Embaixada com a incumbência de planejar o afundamento do porta-aviões Minas Gerais – uma demonstração de que a resistência ao golpe militar estava viva.” “No dia seguinte, vimos nos jornais a notícia da prisão. Surpreendentemente, o cabo aparecia rindo nas fotos, ao lado dos agentes da Polícia. Tudo era muito estranho.” “Levado mais tarde para uma prisão no Alto da Boa Vista, foi tratado com todas as regalias, como ele mesmo admite na entrevista a Isto É. Fugiu, como era de se prever. E prestou ‘relevantes serviços à repressão.” “Sempre achamos que era um agente provocador. Já estava a serviço da Polícia, antes de entrar na Embaixada do México.” “É uma história impressionante”, observa Dines. “E você precisa escrever alguma coisa sobre ela. Tem que contar isso, um dia.” ELIANE SOARES

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o domingo, a revista IstoÉ publicou a entrevista. Terça-feira, fui almoçar com o amigo Alberto Dines no Salad’s, ali na Rua Oscar Freire, quase na esquina com Augusta. Ficamos meia-hora na fila de espera, trocando impressões sobre a campanha em favor das ‘Diretas-já’. Sentamos à mesa, Dines comentou a entrevista: “Há alguns furos, talvez pelo fato de o texto ter sido reduzido, conforme diz a própria revista. Mas o Otávio Ribeiro, um bom repórter, não explica de modo claro como encontrou o Cabo Anselmo. E há pontos obscuros e contraditórios nas próprias declarações do Cabo.” Não nos parecia fortuita a publicação da entrevista naquele exato momento de tensão política. Tudo tinha o ar de matéria “plantada”, algo planejado para criar “confusão” e alimentar a discórdia e a desconfiança. Especialmente para colocar na berlinda o Governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. “Conheci este Cabo Anselmo, em 1964...” “Como?” “Ao me asilar na Embaixada do México. Ele estava lá, com um grupo de sargentos e cabos e marinheiros. Liderava o grupo, ao lado de um padre português, Alípio de Freitas, e do ex-Deputado Max da Costa Santos, que morreu, anos depois, de volta ao Brasil.” Dines balança a cabeça: “Me lembro”. “Dentro da embaixada, o grupo se comportava de forma irracional, hostilizando os demais asilados, que eram considerados “burgueses”. Havia entre nós, para citar um exemplo do clima absurdo em que vivíamos, um oficial da Marinha, com vinte e cinco anos de carreira impecável, duas medalhas de heroísmo, que arriscara tudo na defesa do Governo Jango, expondo-se muito, politicamente, ao prender alguns oficiais golpistas. Pois bem, os integrantes do grupo do Cabo Anselmo o consideravam um “traidor”, porque ele desaprovava seus planos aventureiros. “Logo ao entrar, fui chamado ao quarto onde o grupo se reunia, o seu QG. Abriram um mapa sobre uma das camas, para me falar do seu projeto. Iriam do México para Cuba, onde receberiam treinamento militar, armas e barcos, para então retornar ao Brasil e iniciar a guerrilha. Recusei amavelmente o convite para embar-

POR RODOLFO KONDER

car naquela aventura – e passei a ser tratado como um burguês”. O padre Alípio, quando passava por mim nos corredores, dizia entre os dentes: “Vamos precisar de muita corda para enforcar tantos traidores...” “Um padre nada misericordioso”, comenta Dines com um sorriso. “Logo, tínhamos dois grupos nitidamente formados. Do nosso lado, estavam os dirigentes bancários, o comandante Godoy, os dirigentes sindicais em geral, os intelectuais, como o poeta Felix Athayde e o professor Heron de Alencar. Criticávamos a utilização da Embaixada como “aparelho”, a irresponsabilidade com que o grupo do cabo e do padre jogavam bilhetes pela janela, falavam pelo telefone e faziam planos políticos, para passar aos lá de fora.” “A tensão cresceu muito, podíamos prever o entrechoque físico, tal era o grau de agressividade existente dentro daquele apartamento superpovoado. Parecíamos ratos, prestes a nos entredevorarmos. Ao longo de todo

RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.


Aconteceu na ABI

Um dvd com imagens inéditas de Roberto Marinho P OR JOSÉ R EINALDO MARQUES

Uma platéia composta por associados e conselheiros da ABI assistiu com grande interesse à projeção do documentário Roberto Marinho, O Senhor do Seu Tempo, de Rozane Braga e Demerval Neto, exibido em sessão especial na noite de 17 de novembro no principal espaço cultural da Casa, o Auditório Oscar Guanabarino, localizado no 9º andar do Edifício Herbert Moses, sede da Casa do Jornalista, no Centro do Rio. Empolgada com o resultado do trabalho, a diretora Rozane Braga falou sobre o impacto que o filme tem provocado nas platéias onde vem sendo exibido e da sua satisfação na realização do projeto, que faz parte de uma série de preservação de memória que a produtora FBL, criada por ela e por Fernando Barbosa Lima, seu marido, vem realizando há dez anos. “Essa é uma série apolítica que abrange vários segmentos da so-

ciedade. Na hora que a gente resolveu que ia falar do segmento jornalismo e comunicação, verificamos que o ícone dessa área era o Dr. Roberto. A partir daí ficou fácil. Entramos em contato com a família, que nos deu autorização, e passamos a mergulhar na vida dele para que pudéssemos entender o homem, o mito, o profissional e o empreendedor”, disse Rozane, que após a projeção manteve um diálogo com os espectadores. A equipe do filme foi a primeira que teve acesso ao casarão de estilo colonial do empresário no bairro do Cosme Velho, para filmar o seu interior: “O mais impressionante é que parece que ele vive ali até hoje. A sensação que a gente tem é de que ele vai chegar do trabalho a qualquer momento. Para nós foi interessante poder conversar com os empregados, ver como o Doutor Roberto era na intimidade, conhecer os seus hábitos, conversar com o mordomo Edgar,

que mantém uma grande admiração pelo ex-patrão. Aliás, todos os que trabalham na casa têm uma admiração muito profunda por ele. O comentário unânime entre eles é de que era uma pessoa muito solícita. A boa maneira como ele os tratava também foi ressaltada”, disse Rozane. “Roberto Marinho era uma figura polêmica, mas ao mesmo tempo uma pessoa querida”, disse Rozane Braga, revelando que o documentário é totalmente isento de qualquer influência da Rede Globo. Com depoimentos de familiares, do jornalista Argeu Afonso, de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, por muitos anos diretor da poderosa Central Globo de Produções, e de outras pessoas que trabalharam com Roberto Marinho, o filme destaca a trajetória empresarial de sucesso do fundador das Organizações Globo, desde o seu trabalho na Redação do jornal O Globo até à fundação da Rede Globo de Televisão, nos anos 1960.

Nas polêmicas, Getúlio, Lacerda, o golpe, Brizola, Collor, Lula O dvd apresenta entre outras curiosidades a intervenção de Roberto Marinho em momentos políticos históricos do Brasil, como a campanha que promoveu pela Rádio Globo em oposição a Getúlio Vargas. O filme mostra o momento mais agudo do antigetulismo de Roberto Marinho, sua parceria com Carlos Lacerda, logo depois do atentado que este sofreu em agosto de 1954, e a campanha que acabou levando à derrubada do então Presidente da República, na forma trágica do seu suicídio, em 24 de agosto de 1954. Sobre esse período, o dvd não se absteve do comentário de Roberto Irineu Marinho de que esse foi um momento difícil, porque a população que venerava Getúlio Vargas, da mesma maneira que fez com a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, voltou-se contra O Globo: “Ali ele aprendeu e se tornou mais amigo do Governo”, afirmou Roberto Irineu. Curioso também foi o comportamento de Carlos Lacerda, destacado no documentário, que de aliado passou a opositor de Roberto Marinho, porque este não apoiava a sua ambição de se tornar Presidente da República.

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Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

O filme é também muito esclarecedor sobre vários aspectos polêmicos como os motivos que levaram Marinho a apoiar o golpe militar de 1964: ele estava convencido, assim como maioria da elite empresarial do Brasil, de que o Presidente João Goulart pretendia implantar no País “uma ditadura socialista”. Nesse contexto, o dvd mostra o trânsito que Roberto Marinho tinha com o Governo da ditadura, apesar de condenar a censura e abrigar na Redação de O Globo jornalistas que eram acusados de comunistas. Outras questões polêmicas, como a CPI que, no início da TV Globo, levou ao rompimento com o grupo norte-americano Time Life, também estão presentes no vídeo. Estão presentes também a oposição de Roberto Marinho a Leonel Brizola e a rixa que o ex-Governador teve com ele a partir do caso da Proconsult, nas eleições para o Governo do Estado do Rio, em 1982, quando Brizola acusou a TV Globo de estar por trás de um golpe para impedir a sua eleição. Outro ponto polêmico apresentado é o caso da campanha para a Presidência da República

em 1989, disputada no segundo turno por Lula e Fernando Collor, que gerou o famoso episódio da edição do último debate entre os dois candidatos – edição muito favorável ao então jovem fenômeno de Alagoas. Transmitida pelo Jornal Nacional, a edição do debate, claramente prejudicial a Lula, juntamente com outros fatos explorados pela mídia, acabou influenciando o resultado do pleito e dando a vitória ao candidato que tinha a simpatia de Marinho, como confirma João Roberto Marinho em declaração no dvd. Correndo o mundo O documentário Roberto Marinho, O Senhor do Seu Tempo já foi exibido em 126 países e atualmente está sendo mostrado em circuitos universitários, para estudantes de Jornalismo e de outras faculdades. Esse é o sétimo dvd da série Os Grandes Brasileiros. O primeiro foi sobre o jornalista Barbosa Lima Sobrinho; depois vieram as produções sobre Tancredo Neves, Darcy Ribeiro, Ziraldo, José Sarney e o jornalista, pesquisador e Conselheiro da ABI Sérgio Cabral. Informou Rozane Braga que os próximos lançamentos serão Portinari do Brasil, em 2012, e Fernando Henrique e Os Caminhos Para a Democracia, em 2013.

Dezenas de pessoas compareceram ao lançamento do livro Líbia: Barrados na Fronteira, do jornalista e Conselheiro da Casa Mário Augusto Jakobskind, em noite de autógrafos realizada em 11 de novembro, na ABI. A obra, a primeira vinda a público após a deposição e morte do líder líbio Muamar Kadaf, narra a aventura da delegação brasileira encarregada de enviar à Onu um relatório sobre a situação na Líbia, a qual ficou barrada na fronteira com a Tunísia. O autor expõe e analisa falhas e contradições da cobertura sobre os conflitos que ocorriam e ainda ocorrem no país. O livro é mais uma edição da Booklink, e o evento foi uma iniciativa da Diretoria de Cultura e Lazer da ABI, com o apoio da Lidador. Antes da distribuição de autógrafos, Jakobskind participou de um debate sobre a situação na Líbia e a chamada Primavera Árabe com a jornalista Beatriz Bissio, professora universitária e editora da revista Cadernos do Terceiro Mundo. No debate houve exposição de imagens e vídeos não exibidos na mídia brasileira sobre o conflito na Líbia. O Presidente da ABI, Maurício Azêdo, destacou a relevância da publicação: “O livro é uma contribuição importante que Mário Augusto Jakobskind, um dos mais abalizados comentaristas internacionais da nossa imprensa, oferece para a compreensão do drama que o povo líbio está vivendo neste momento sob a pressão das potências imperialistas, comandadas pelos Estados Unidos, Grã Bretanha e Alemanha. Com essa contribuição ele abre um espaço para discussão do que houve e do que está havendo na Líbia, como uma forma de tornar bem clara a motivação das forças que atualmente agem no país.” “Cobertura tendenciosa” Jakobskind falou de sua motivação para escrever o livro: “Fui incentivado pelo editor da Booklink, Glauco Oliveira. A idéia inicial era, além de participar da elaboração de um relatório junto com outras nove pessoas, fazer um livro sobre o que iria acontecer na Líbia. Mas como foi impossível entrar na Líbia por causa da barreira aérea da Otan, achei que o livro não sairia mais. Então o Glauco me mandou um e-mail, dizendo: ‘Você já está com o livro’. Fiquei uma semana em Túnis, capital da Tunísia, esperando a possibilidade de entrar na Líbia por terra. O livro nasceu a partir daí.” Diz Mário Augusto que o livro é uma tentativa de expor o

RENAN CASTRO

Documentário exibido em sessão especial na Casa mostra o homem, o mito, o profissional e o empreendedor.

Líbia: Jakobskind sai na frente

Jakobskind: Foi uma cobertura bastante falha e tendenciosa.

chamado outro lado, que não foi mostrado na cobertura jornalística feita por veículos como a AlJazeera e a CNN. Ele criticou a forma como foram conduzidas as reportagens: “Foi uma cobertura bastante falha e tendenciosa, e os preceitos jornalísticos de ouvir os dois lados em pé de igualdade não foram seguidos. A Al-Jazeera, que é uma emissora de televisão do Qatar, deixou a desejar, manipulou imagens. A CNN também fez exatamente a mesma coisa. Muitas informações que não chegaram aqui no Brasil estão no livro, em cujo final eu coloco uma questão específica para os estudantes e professores de Jornalismo, para que os acontecimentos na Líbia, em matéria de cobertura jornalística, sirvam para a reflexão no estudo do Jornalismo.” Massacre da Otan Beatriz Bissio expôs os problemas da cobertura jornalística e a forma como as informações chegam até o público: “Precisamos pensar de que forma nos informamos e formamos nossa opinião a respeito do que está acontecendo em geral no mundo, e particularmente no Norte da África e no Oriente Médio. No mundo árabe, a respeito do qual há grande desinformação, quando não uma informação deturpada e tendenciosa que procura fazer que a opinião pública seja levada a assumir como legítimas algumas decisões imperialistas, como por exemplo a agressão da Otan, que diz salvar os direitos humanos da população líbia e que massacrou quase 50 mil pessoas. É uma forma bastante sui generis de fazer respeitar os direitos humanos.”


PREMIAÇÃO

Especial Herzog é de Elifas Edição 2011 faz justiça ao conjunto de sua obra, dedicada à liberdade e à justiça. O desenhista, cenógrafo e jornalista Elifas Andreato recebeu o Prêmio Especial Vladimir Herzog 2011, principal homenagem dentre as dez categorias do 33º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, entregue em 24 de outubro, no Teatro da Pontifícia Universidade Católica-Tuca, em São Paulo. Durante a cerimônia, o jornalista Sérgio Gomes, diretor da Oboré Projetos Editoriais, instituição que desenvolve programas de formação em comunicação e arte e uma das promotoras do evento, explicou que o Prêmio homenageia o conjunto da obra do artista a serviço da liberdade e da justiça. O troféu foi construído sobre uma base de mármore do local em que foi sepultado o corpo do jornalista Vladimir Herzog, cedida pela Associação do Cemitério Israelita de São Paulo, e traz impressa a mensagem “A arte é amiga da Liberdade e os artistas sempre lutam por ela. Se a ditadura de Franco teve que encarar o Picasso, a nossa precisou encarar o Elifas”. Os enfrentamentos com os inimigos da democracia, contudo, não acabaram, o que explica os esforços dos organizadores da iniciativa de buscar assegurar maior alcance e repercussão ao Prêmio. Sérgio Gomes considera que o desrespeito aos direitos humanos é permanente. “Está na violência policial e carcerária, na discriminação dos mais pobres, dos negros. Democracia e justiça, por isso, continuam na pauta. Se você considerar o Brasil como um transatlântico, o comando do barco tem sido da mesma gente nos últimos séculos. No convés, com relativo conforto, estão uns 30% da classe média; 80% estão no porão, na casa das máquinas. A democratização do Brasil não foi até lá embaixo”, diz Sérgio, frisando que uma das instituições em que esse atraso é evidente é a Polícia. O Prêmio deste ano, diz o diretor da Oboré, avançou na reformulação iniciada há três anos para seu fortalecimento. Contar com um prêmio de jornalismo de grande repercussão para a imprensa, afirma, também é um escudo a mais para proteger os profissionais que atuam em áreas de risco. “Uma contribuição aos jornalistas que estão na frente de batalha é fazer com que esse Prêmio seja profundamente representativo na composição de seus organizadores, com um amplo arco de alianças, que esteja representado na própria cerimônia de entrega, com representantes de diferentes setores, instâncias de governo, parlamentares.” O Prêmio foi criado em 1977, dois anos após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do II Exército, em São Paulo, e no âmbito das campanhas em defesa da anistia – que sairia, finalmente, em 1979. Conta com dez categorias (cobrindo, há três anos, também ma-

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POR V ERÔNICA COUTO

Elifas Andreato recebeu o seu Prêmio Especial das mãos do jornalista Sérgio Gomes.

Um criador de capas antológicas Elifas Andreato foi responsável por muitas das capas antológicas de jornais da resistência, como Opinião e Movimento, entre outros; cartazes de peças, como Mortos Sem Sepultura, de Jean-Paul Sartre, e capas inesquecíveis de discos de Paulinho da Viola, Chico Buarque, Martinho da Vila, Elis Regina, Vinicius de Moraes, entre outros, num momento em que a canção era um dos centros mais criativos de resistência à ditadura. O Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira registra que sua primeira capa de disco foi para o lp Dança da Solidão (Odeon), de Paulinho da Viola, lançado em 1972. Elifas estava então engajado na luta política, como militante da AP (Ação Popular), e trabalhava na imprensa alternativa. Nesse ano foi o responsável pelo projeto gráfico do semanário Opinião. No ano seguinte, assinou a capa do disco Nervos de Aço (Odeon), também de Paulinho da Viola, que trouxe desenho do cantor chorando com um buquê de flores na mão. Desde então, foram cerca de 470 capas de lp, para vários artistas. Também assinou a estátua de Pixinguinha, criada para o bar Vou Vivendo e que ficou perdida em São Paulo durante oito anos. Encontrada por uma menina de rua em 2003, a obra foi restaurada e exposta no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro. Com a chegada do cd, Elifas continuou produzindo capas, como Bebadosamba (BMG, 1996), de Paulinho da Viola, pela qual foi contemplado com o Prêmio Sharp, e Água da Minha Sede (Universal, 2000), de Zeca Pagodinho. Detalhe da capa do lp de Paulinho da Viola, Memórias Cantando, de 1976.

terial publicado na internet) e homenageia reportagens e trabalhos jornalísticos que promovam e defendam o exercício da cidadania, a democracia e a justiça, denunciando violações de direitos humanos. Seu primeiro troféu foi criado pelo próprio Elifas Andreato, o homenageado deste ano, “num momento em que as coisas não eram muito fáceis para quem trabalhava com comunicação no Brasil”, como ele mesmo lembrou ao receber o troféu no Tuca. Paralelamente ao reconhecimento do trabalho dos profissionais, foi entregue também o 3º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, destinado a estudantes que desenvolvam a melhor pauta em um tema pré-definido que envolva a discussão sobre os direitos humanos. Os vencedores recebem suporte para sua apuração e publicação; depois, os autores da melhor reportagem vão viajar para a Inglaterra em um encontro para discutir as “Metas do Milênio”, oito objetivos traçados pela Onu. A reformulação do prêmio começou há três anos. Em 2008, a Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 60 anos e a Onu promoveu comemorações em vários lugares do mundo. No Brasil, em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, uma das intenções era organizar um prêmio que reconhecesse o trabalho dos jornalistas que estavam lutando pela democracia e pela justiça. Começava aí a repaginação do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Segundo Gomes, uma equipe saiu a campo para localizar cada jornalista premiado, desde 1979. Criou-se um ambiente online para que todos esses profissionais indicassem, via internet, os cinco que seriam reconhecidos com o que se chamou o Prêmio “SuperVlado”, ou Troféu Especial de Imprensa 60 Anos de Direitos Humanos da Onu. Dos 700 jornalistas identificados, 350 votaram online, para escolher: Henfil, José Hamilton Ribeiro, Caco Barcellos, Zuenir Ventura. O troféu foi criado por Elifas Andreato, numa alegoria do “Vlado vitorioso”, com 30 exemplares, entregues aos escolhidos (cinco em bronze) e às entidades apoiadoras (em material especial à base de gesso). “Pude realizar um grande sonho, esculpir o Vlado vitorioso. Porque via naquela imagem a que se contrapunha aquela imagem calhorda, desonesta, que nos foi mostrada pela ditadura militar ”, disse Elifas na cerimônia, numa referência à farsa montada pela repressão para tentar convencer a opinião pública de que o jornalista havia se suicidado na cela. “Tenho muito orgulho de ter feito isso porque também simboliza a vitória da minha geração”, diz Elifas. O passo seguinte de atualização do Prêmio, diz Gomes, foi recupeJornal da ABI 372 Novembro de 2011

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PREMIAÇÃO

Jabuti para Gullar e Laurentino DIVULGAÇÃO

Fernando de Castro Lopes é o autor do desenho vencedor: Sigilo ou vergonha.

rar os trabalhos dessa base de 700 premiados para digitalizá-los e publicá-los no site do Instituto Vladimir Herzog. Hoje, cerca de 60% do material está online. “Esse acervo permite, por exemplo, que se consulte que pautas ou questões estiveram mais em evidência em cada ano, no Brasil, ou em quais áreas os direitos humanos foram mais desrespeitados: infância abandonada, violência contra a mulher, abusos policiais, etc.” O Prêmio é organizado por profissionais da comunicação e entidades civis, como o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, o Instituto Vladimir Herzog, a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, a ABI, a Ordem dos Advogados do Brasil–Seção São Paulo, a Federação Nacional dos Jornalistas, o Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo. Recentemente incorporadas ao elenco de organizadores a Unic/RioCentro de Informação das Nações Unidas no Brasil, a Ouvidoria das Polícias de São Paulo e a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

VENCEDORES 33° PRÊMIO VLADIMIR HERZOG FOTOGRAFIA Weber Sian; Expulsão A Cidade, de Ribeiro Preto

ARTES F.C. Lopes; Sigilo ou vergonha? Correio Braziliense

TV-REPORTAGEM Marcelo Gomes e equipe; Guerrilha do Araguaia, ESPN Brasil

TV-DOCUMENTÁRIO Lúcio de Castro; Haiti, o país dos Rest Avec ESPN Brasil

JORNAL Leonencio Nossa e Celso Silva Sarmento Júnior; Guerras desconhecidas do Brasil O Estado de S.Paulo

ESPECIAL: SANEAMENTO BÁSICO Joelmir Tavares; Saneamento básico: um direito de todos O Tempo, de Belo Horizonte

RÁDIO Marjuliê Martini; Racismo expulsa baiano do Rio Grande do Sul Rádio Guaíba FM

INTERNET Marcelo Bauer; Rio de Janeiro-Autorretrato Site Rio de Janeiro-Autorretrato

REVISTA Gisele Franchini e Tiago Luís Penteado; Inclusão: O que é ser normal? Revista Interativa

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Além de ter 1822 premiado como LivroReportagem, Laurentino Gomes teve sua obra reconhecida com o prêmio máximo do Jabuti ao ser anunciada, na noite do dia 30 de novembro, como Livro do Ano NãoFicção. Na solenidade oficial de entrega dos prêmios, realizada na Sala São Paulo com apresentação do jornalista Pedro Bial, foi também anunciado o Livro do Ano Ficção, prêmio concedido ao livro de poesia Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar. Além da divulgação dos dois Livros do Ano, a solenidade teve como objetivo entregar os prêmios aos vencedores das 29 categorias da 53ª edição do Jabuti. Também participaram da solenidade Karine Pansa, Presidente da Câmara Brasileira do Livro, e José Luiz Goldfarb, curador do Prêmio. A festa contou com a presença de 1.200 convidados, maior público de toda a história do Jabuti. A edição 2011 do Jabuti passou por duas mudanças no regulamento. A primeira foi a ampliação do número de categorias, que

subiu de 21 para 29. Além disso, nesta edição, cada categoria teve apenas um vencedor – antes, as três publicações mais bem votadas eram premiadas. Na primeira fase da seleção do prêmio, os jurados puderam escolher livremente os dez melhores dentre os inscritos em cada categoria. Na segunda fase, em que foi determinado o vencedor em cada categoria, a apuração teve como base a lista fechada dos fi-

nalistas de cada uma das categorias. Aberta ao público, a apuração se deu com a leitura de todos os votos dos jurados, num processo transmitido em tempo real pelo twitter da CBL, entidade promotora da premiação. Os vencedores de cada categoria recebem R$ 3 mil. Os autores dos dois Livros do Ano recebem R$ 30 mil cada. Criado em 1958, o Jabuti é o mais tradicional prêmio do livro no Brasil. O maior diferencial em relação a outros prêmios do setor é a sua abrangência. Ele valoriza não apenas os escritores, mas destaca a qualidade do trabalho de todas as áreas envolvidas na criação e produção de um livro. As categorias contemplam não só estilos – Romance, Contos e Crônicas, Poesia, Reportagem, Biografia e Livro Infantil – mas também aspectos como Tradução, Ilustração, Capa e Projeto Gráfico. (Paulo Chico)

A controversa desclassificação de Alceu Penna Mais uma polêmica cerca o Jabuti. Neste ano, o Prêmio entra para a História por uma trapalhada de sua organização. Depois de anunciar o livro Alceu Penna e as Garotas do Brasil, do jornalista baiano Gonçalo Junior, como ganhador da categoria Biografia, a comissão mudou de idéia e premiou O Teatro & Eu - Memórias, do ator Sergio Britto. Em nota oficial, justificou: “A decisão deveu-se ao descumprimento dos critérios relativos ao ineditismo, a referida obra contraria o disposto 1 do item 2 no regulamento do Prêmio Jabuti 2011”. Durante o fechamento desta edição do Jornal da ABI conseguimos entrar em contato com o jornalista, que estava no interior da Bahia, e ele nos enviou a seguinte mensagem sobre o caso: “Em 2004, lancei uma biografia do cartunista e estilista de moda Alceu Penna, construída a partir do depoimento da irmã dele, Tereza Penna, com quem passei o dia inteiro conversando e olhando fotos e documentos de seu acervo pessoal. Era uma edição quase fanzine e baixa tiragem (300 cópias, mais ou menos). Fui procurado por várias pessoas que conviveram com Alceu, inclusive o filho de Accioly Netto, Antônio, uma pessoa extremamente gentil, que me abasteceu com muitas informações, incluindo fotos. Falei com mais de uma dezena de pessoas e reescrevi o livro completamente. Tanto que passou de 144 para 352 páginas. Por isso, a editora Amarylis entendeu que se tratava de um novo livro, inédito, apesar de homônimos. Uma pessoa do mercado editorial que se faz passar por um fiel amigo, incomodado com o prêmio por um motivo bem pessoal que prefiro não falar, passou dois dias enviando e-mails para a Redação de um grande jornal de São Paulo, cobrando a desclassificação do livro, por não ser inédito. Tanto fez que uma repórter comprou a pauta, sem se dar ao trabalho de fazer o

dever de casa: comparar as duas obras. E foi cobrar uma satisfação da comissão do Jabuti. A dona da editora que publicou o livro soube, dois dias depois de divulgado o resultado, que o livro seria desclassificado no dia seguinte e sugeriu que eu fizesse uma defesa da obra por e-mail. Fiz isso com certa facilidade porque o regulamento do Jabuti é amplo, sem especificar o que quer dizer “obra inédita”. Não seria inédita aquela que não foi comercializada, só distribuída como brinde por uma empresa – que não foi o meu caso? Mesmo assim, acuado por acusações semelhantes de falta de ineditismo, o Jabuti cassou o livro horas depois, como se imaginava. Nunca fui informado formalmente da decisão. Nem a editora, pelo que sei. Soube por uma repórter da Folha, a mesma que ‘denunciou’ a obra. Desde então, o fato foi amplamente divulgado, mas nenhum órgão de imprensa do Brasil, à exceção da revista Brasileiros, procurou-me para dar a minha versão. Ou publicou que autor e editora não aceitavam a condenação. Simplesmente toda a mídia acatou a decisão como fato consumado e inquestionável.

REPORTAGEM 1822 Laurentino Gomes Editora Nova Fronteira POESIA Em Alguma Parte Alguma Ferreira Gullar José Olympio COMUNICAÇÃO Impresso no Brasil Anibal Bragança e Marcia Abreu Editora Unesp e Fundação Biblioteca Nacional CAPA Invisível João Baptista da Costa Aguiar Companhia das Letras

A cassação do meu livro é algo inédito na história do Jabuti. Nunca antes um autor havia sido desclassificado na condição de vencedor. Dessa amarga experiência, ficou no ar um certo clima de desonestidade de minha parte e da editora, que teriam tentado enganar a competentíssima comissão do Jabuti. Como jornalista, senti na pele o baixo nível, a incompetência, a irresponsabilidade e a falta de ética que predominam na nossa imprensa. Tenho 19 livros publicados e mais de duas dezenas de obras organizadas ou em que apareço como co-autor. Trabalhei oito anos na Gazeta Mercantil, quatro anos na Editora Trip, e acabei de passar pelo Diário de S.Paulo como editor de Cultura. Já colaborei para a Folha de S.Paulo e nas revistas Playboy, Bravo!, Carta Capital, Imprensa, Status e muitas outras. Nunca, jamais tive a minha reputação questionada. A perda do Jabuti redimensionou para mim que a crise ética e moral em que acredito estarmos mergulhados é muito mais grave do que imaginava, agravada pela irresponsabilidade de quem se mete a fazer jornalismo tanto na internet quanto na mídia impressa.”

Principais destaques do Prêmio Jabuti 2011 I LUSTRAÇÃO O Corvo Manu Maltez Editora Scipione ILUSTRAÇÃO DE LIVRO I NFANTIL OU JUVENIL Gildo Silvana Rando Brinque-Book Editora PROJETO G RÁFICO Theodoro Sampaio Nos Sertões e nas Cidades Karyn Mathuiy Versal Editores

TRADUÇÃO O livro de Dede Korkut Marcos Syrayama de Pinto Editora Globo CONTOS E CRÔNICAS Desgracida Dalton Trevisan Record ROMANCE Ribamar José Castello Bertrand Brasil TEORIA /C RÍTICA L ITERÁRIA Câmara Cascudo e Mário de Andrade – Cartas, 1924-1944 Marcos Antônio de Moraes Global Editora


Demorou, mas o racismo ganha espaço na mídia A blindagem de exclusão do tema é rompida pelo Prêmio Abdias Nascimento. P OR J OSÉ R EINALDO M ARQUES Ações afirmativas e outras iniciativas que têm ajudado os negros a superar as mazelas sociais provocadas pelo preconceito e o racismo, principalmente nos campos da educação e do trabalho, a situação específica da mulher negra e o panorama sobre a vida dos remanescentes de Quilombos, no campo e na cidade, foram alguns dos principais temas abordados pelos vencedores do 1º Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento, cuja cerimônia de entrega foi realizada em 7 de novembro no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, Rio de Janeiro. De um total de mais de 150 trabalhos inscritos, foram selecionados 21 finalistas para a etapa final, concorrendo a um prêmio de valor de R$ 35 mil distribuído em sete categorias (Mídia Impressa, Televisão, Rádio, Mídia Alternativa e Comunitária, Internet, Fotografia e Categoria Especial de Gênero). Cada vencedor recebeu a quantia de R$ 5 mil, um troféu criado pela designer Maria Júlia e um certificado de participação. O primeiro vencedor anunciado foi o fotojornalista Domingos Peixoto, do jornal O Globo do Rio, na categoria Fotografia, com Diploma de Alforria, foto produzida no Quilombo Kalunga, localizado no sertão de Goiás, que formou a primeira turma de ensino médio dentro de uma comunidade quilombola no Brasil. Ele recebeu o prêmio das mãos do Diretor de Cultura e Lazer da ABI, Jesus Chediak. A vencedora da categoria Televisão, Vera Valério, da TV Educativa de Alagoas, mostrou na reportagem Quilombolas a luta dos remanescentes de quilombos povoados de Alagoas pelo direito à terra. Ela recebeu o troféu das mãos da jornalista Glória Maria, cuja presença foi uma das surpresas da cerimônia. Conduzido pela jornalista Flávia Oliveira, colunista de O Globo e comentarista da Globonews, e pelo repórter Rogério Coutinho, da Rede Globo , o evento contou também com a participação especial da atriz Ruth de Souza, que trabalhou com Abdias no Teatro Experimental do Negro e leu um poema em sua homenagem; do cantor Augusto Bapt e banda Caixa Preta; e de um dos ícones da soul music no País, Gerson King Combo, acompanhado da banda Supergroove. Segundo os organizadores, o Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento foi bem recebido, tendo-se como referência o alto índice de participação de profissionais de todo o País. A Região Sudeste foi a que apresentou o maior número de inscritos (51% do total); Rio e São Paulo, com 20% e 23%, respectivamente, foram os Estados que indicaram mais candidatos ao prêmio.

A segunda Região foi o Nordeste (29%), seguida pelo Centro-Oeste (14%). As Regiões Sul e Norte, aparecem, respectivamente, com 5% e 1% do total. A Presidente do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, Suzana Blass, fez questão de elogiar e exaltar a iniciativa da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato-Cojira-RJ, da qual partiu a idéia do lançamento da premiação. No final ela convocou a platéia para um minuto de silêncio em homenagem ao cinegrafista Gelson Domingos, morto na véspera com um tiro de fuzil, durante a cobertura de uma ação policial na favela de Antares, na Zona Oeste da capital. Convidada a subir ao palco, a viúva de Abdias, Elisa Larkin Nascimento, disse que estava vivendo um dia de grande emoção e alegria. O Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento, disse, “tem vários significados que podem ser destacados, mas o melhor deles é aquele que incentiva e traz um novo momento para a cultura de comunicação do jornalismo”.

Os vencedores FOTOGRAFIA Domingos Peixoto Diploma de Alforria (foto acima) O Globo – Rio de Janeiro

MÍDIA ALTERNATIVA OU COMUNITÁRIA Eduardo Sales e Jorge Américo Supermercado ou Pelourinho Brasil de Fato – São Paulo

MENÇÃO HONROSA Leandro Uchoas Um quilombo no paraíso carioca Brasil de Fato – São Paulo

INTERNET Carolina Pimentel, Daniella Jinkings, Gilberto Costa, Vladimir Platonow e Wellton Máximo Série Especial Consciência Negra Agência Brasil

RÁDIO Eduardo Compan e Leandro Lacerda O Preconceito Cronometrado CBN – Rio de Janeiro

MÍDIA IMPRESSA Conceição Freitas Série Negra Brasília (ao lado) Correio Braziliense

ESPECIAL DE GÊNERO JORNALISTA ANTONIETA DE BARROS Célia Regina Mulheres Negras Revista Raça Brasil

TELEVISÃO Vera V alério Valério Quilombola TV Educativa – Alagoas

“Figura única”

Na opinião dos jornalistas e militantes do movimento negro que estiveram presentes ao evento, a desigualdade racial no País é um tema que demorou a ser encarado pela mídia como um debate relevante para a sociedade brasileira de maneira geral, mas a qualidade e a quantidade dos trabalhos inscritos são provas de que os meios de comunicação estão reavaliando o papel importante que têm a exercer na construção de uma nação justa e democrática. A coordenadora do Prêmio, Angélica Basthi, da Cojira-RJ, disse que é importante ressaltar também a participação de veículos e jornalistas de várias regiões do País, pois isso demonstra que o racismo é uma pauta que está ganhando vida fora do eixo Rio-São Paulo.

Vladimir Platonow, um dos integrantes da equipe da Agência Brasil, vencedora na categoria Internet, disse que teve a oportunidade de entrevistar Abdias Nascimento e pôde perceber que as suas idéias estão cada vez mais presentes no debate sobre a democratização da sociedade brasileira. O Brasil deve a Abdias, disse, o reconhecimento por tudo o que ele representa para o País: “Acho que ele merece muito mais reconhecimento do que o Brasil deu a ele. É só a gente ler um pouquinho da sua biografia para perceber que ele fez muito mais pelo Brasil do que o País fez por ele. Esse Prêmio vai marcar quem é Abdias.” Carlos Alberto Medeiros, Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais, militante e especialista em relações raciais no Brasil e nos Estados Unidos, amigo e colaborador de Abdias em várias frentes, falou sobre o projeto político do ex-Senador: “Abdias Nascimento é uma figura singular nesse universo político, intelectual, ativista, porque as suas idéias continuam tendo repercussão. É uma figura única porque participou da Frente Negra, na década de 30, lutou contra o Estado Novo, quando foi preso pela primeira vez, fundou o Teatro Experimental do Negro, participou da campanha “O petróleo é nosso!” Ou seja, uma figura que representa uma síntese da participação de brasileiros engajados nas lutas sociais que aconteceram no século 20 e início do século 21.” Quem promove, quem apóia

O Prêmio Jornalista Abdias Nascimento é uma iniciativa da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, vinculada ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, e conta com a parceria da Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj, do Centro de Informações das Nações Unidas no Brasil e do CulineAcervo Digital da Cultura Negra. Tem ainda o apoio da Superintendência de Igualdade Racial do Estado do Rio de Janeiro e do Conselho Estadual dos Direitos dos Negros. O patrocínio é da Fundação Ford, Fundação W. K. Kellogg e da Oi. Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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PREMIAÇÃO

Série que derrubou Palocci arrebatou o Esso de 2011 Repórteres da Folha foram os grandes vencedores do certame que bateu recorde, com a inscrição de 1.272 trabalhos jornalísticos. Os jornalistas Andreza Matais, José Ernesto Credendio e Catia Seabra, da Folha de S.Paulo, foram os grandes vencedores do Prêmio Esso de Jornalismo 2011, com a série de reportagens O patrimônio e as consultorias que derrubaram Palocci. Os trabalhos publicados na Folha revelaram que o mais importante Ministro do início do Governo Dilma Rousseff havia montado uma empresa de consultoria e ficado milionário durante o mandato como Deputado federal e coordenador da campanha presidencial. A série, que repercutiu nas mais importantes emissoras de rádio e televisão do País e também na imprensa internacional, resultou na queda de Palocci. Em sua 56ª edição o Prêmio Esso de Jornalismo teve um número recorde de trabalhos inscritos – 1.272 no total – e duas grandes inovações: as inscrições e julgamento online, que possibilitaram a economia de uma tonelada de papel, e a introdução da categoria Educação, pela primeira vez em sua história. “Em 2012 vamos celebrar um século de atuação no Brasil. O Prêmio Esso de Jornalismo, herdeiro do Repórter Esso, que surgiu há mais de 70 anos, é uma página importantíssima desta nossa história e mostra o nosso comprometimento com o País”, declarou Michael Seidner, Presidente da ExxonMobil no Brasil, patrocinadora do prêmio. Além do prêmio principal e do Prêmio Esso de Telejornalismo, os vencedores de outras 12 categorias de mídia impressa tiveram seus nomes escolhidos pelas comissões de premiação no dia 10 de novembro. A entrega dos prêmios foi marcada para o dia 1º de dezembro de 2011, durante um jantar no Rio de Janeiro. Os vitoriosos tiveram seus trabalhos indicados após a avaliação dos jurados de uma relação de 70 finalistas previamente selecionados no total de 1.272 trabalhos inscritos, sendo 604 reportagens e séries de reportagens; 169 trabalhos fotográficos; 211 trabalhos de criação gráfica em jornal; 58 trabalhos de criação gráfica em revista e 140 primeiras páginas de jornal, além de 90 trabalhos de telejornalismo. O Prêmio Esso de Telejornalismo foi conquistado pela equipe da Rede Record formada pelos jornalistas Gustavo Costa, André Tal, Cátia Mazin e Rodrigo Bettio, que produziu o trabalho Especial 40 Anos – Transamazônica, A Estrada Sem Fim, realizado depois de exaustiva jornada de 28 dias e 5.000 quilômetros, em plena floresta amazônica. Iniciada na década de 1970 pelo regime militar, a estrada inacabada significa, hoje, para os que dela dependem, um claro exemplo de falência social, onde pessoas humilhadas por grileiros e madeireiros estão relegadas à própria sorte. O Prêmio Esso de Reportagem 2011 foi conferido a Fabiana Moraes, com o trabalho O nascimento de Joicy, publicado no 12 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

Os vencedores PRÊMIO ESSO DE JORNALISMO 2011 O patrimônio e as consultorias que derrubaram Palocci Andreza Matais, José Ernesto Credendio e Catia Seabra Folha de S.Paulo

TELEJORNALISMO Especial 40 anos - TTransamazônica, ransamazônica, A Estrada Sem Fim Gustavo Costa, André Tal, Cátia Mazin e Rodrigo Bettio TV Record

REPORTAGEM O nascimento de Joicy Fabiana Moraes Jornal do Commercio (PE)

FOTOGRAFIA Violência abortada Epitácio Pessoa O Estado de S.Paulo

CRIAÇÃO GRÁFICA – JORNAL Troca de olhares Dennis Fidalgo Doimo e André Graciotti O Estado de S.Paulo

CRIAÇÃO GRÁFICA - REVISTA

Reportagem sobre patrimônio de Palocci deu à Folha de S.Paulo o Prêmio Esso 2011. O Prêmio de Criação Gráfica de Jornal coube ao Estado de S.Paulo, e de Primeira Página, ao Correio Braziliense.

Edição Especial Futuro Elohim Barros, Adriana Verani, Jaqueline Amaral, Eva Uviedo, Flavia Durante, Ivan Obara, Fernando Luna, Paulo Lima, Lino Bocchini, Bruno Torturra Nogueira, Camila Fudissaku, Alex Vargas Cassalho, Thiago Bolotta, Vivian Villanova e Ricardo Calil Trip

ESPECIAL DE PRIMEIRA PÁGINA Eles nos envergonham... Ela nos orgulha João Bosco Adelino de Almeida, Ana Dubeux, Carlos Alexandre, Plácido Fernandes, Marcelo Agner, Luis Tajes e Marcelo Ramos Correio Braziliense

INFORMAÇÃO ECONÔMICA As fraudes no banco de Silvio Santos David Friedlander, Leandro Modé, Fausto Macedo e Sonia Racy O Estado de S.Paulo

INFORMAÇÃO CIENTÍFICA, TECNOLÓGICA E AMBIENTAL No topo do mundo Daniela Chiaretti Valor Econômico

EDUCAÇÃO Mestre com carinho Tatiana dos Santos, Cleisi Soares, Gilmar de Souza e Arivaldo Hermes Jornal de Santa Catarina

REGIONAL NORTE/NORDESTE O paraíso às avessas Ciara Carvalho Jornal do Commercio (PE)

REGIONAL CENTRO/OESTE

Jornal do Commercio do Recife. A série revela a história do agricultor João Batista, nascido no agreste de Pernambuco que, aos 51 anos, decidiu submeter-se a uma cirurgia de mudança de sexo. O processo foi acompanhado durante cinco meses pela repórter, desde os momentos seguintes à decisão de João até o seu retorno como Joicy ao povoado pernambucano de Perpétuo Socorro.

O repórter-fotográfico Epitácio Pessoa, de O Estado de S. Paulo, foi o vencedor do Prêmio Esso de Fotografia. A sua seqüência de fotos intitulada “Violência abortada” evitou uma ação de violência contra um jovem reciclador de 19 anos que se encontrava amarrado e prestes a ser assassinado. As fotografias mostram ainda a imagem dos agressores, que desistiram do homicídio após serem flagrados.

A morte no berço das águas Vinicius Sassine Correio Braziliense

REGIONAL SUL Caça-níqueis, caça-vidas Itamar Melo Zero Hora

REGIONAL SUDESTE Depois da tempestade, vem a corrupção Antonio Werneck, Waleska Borges e equipe O Globo


Fuga no Complexo do Alemão deu o Embratel à TV Globo De helicóptero, o cinegrafista Francisco de Assis mostrou a corrida desabalada dos traficantes.

Quem viu, leu e julgou

A Comissão de Premiação do Prêmio Esso de Jornalismo 2011 que julgou os trabalhos de mídia impressa (à exceção de fotografia) foi composta pelos jornalistas Carlos Brickmann, Carlos Chaparro, Eleno Mendonça, Gilberto Menezes Cortes e Roberto Muggiati. Coube-lhes examinar 50 trabalhos finalistas e apontar os vencedores das categorias, além do Prêmio Esso de Reportagem e do prêmio principal, o Prêmio Esso de Jornalismo 2011. A Comissão de Premiação de Telejornalismo foi formada pelos jornalistas Antônio Brasil, Cárlida Emerim e Denise Lilembaum, que examinaram os dez trabalhos finalistas. Uma comissão especial formada por 50 editores de fotografia dos principais veículos brasileiros foi encarregada de apontar a foto vencedora do Prêmio Esso de Fotografia. Coube a essas diversas comissões de premiação, num total de 90 jurados, selecionar os vencedores de 13 distinções de mídia impressa, além do Prêmio Esso de Telejornalismo. A Comissão de Premiação do Prêmio Esso de Telejornalismo 2011 decidiu atribuir a distinção de “Melhor Contribuição ao Telejornalismo” aos repórteres Rogério Miguel de Paula, Bruno Barroso Miceli, Erlon Montezuma, Ariane Marques e Fabiana Lima, da Rede Inter TV, pelas cenas contidas na reportagem O resgate de Dona Ilair, exibida em várias emissoras do Brasil e do mundo, cujo trabalho, segundo a comissão “evidenciou o senso de oportunidade, a coragem e a perseverança do profissional para registrar as imagens, características que destacam a atuação do repórter cinematográfico, função fundamental para o Telejornalismo”. À Comissão Especial de Fotografia, coube apontar o trabalho vencedor dentre dez trabalhos fotográficos finalistas. O Prêmio Esso de Jornalismo destina este ano aos vencedores um total de R$ 112 mil. Além do prêmio principal, que leva o nome do programa, fixado em R$ 30 mil, e do Prêmio de Telejornalismo, estabelecido em R$ 20 mil, foram distribuídos R$ 3 mil para cada um dos quatro prêmios regionais, R$ 10 mil para as categorias de Reportagem e Fotografia e R$ 5 mil para cada uma das categorias de Primeira Página, Criação Gráfica-Jornal, Criação Gráfica-Revista, Informação Econômica, Informação Científica/Tecnológica/Ambiental e Educação.

Com a reportagem cinematográfica Fuga da Vila Cruzeiro, feita pelo cinegrafista Francisco de Assis (seqüência de fotos abaixo), a TV Globo foi a grande vencedora do Grande Prêmio Barbosa Lima Sobrinho, na 13ª edição do Prêmio Imprensa Embratel, cujos ganhadores foram anunciados em cerimônia realizada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na noite de 22 de novembro. As imagens obtidas por Francisco de Assis mostraram dezenas de traficantes fugindo da Vila Cru-

zeiro, durante a ocupação pela Polícia e pelo Exército do conjunto de favelas do Alemão, em novembro de 2010. O Presidente da ABI, Maurício Azêdo, entregou o Prêmio de Reportagem da Categoria Norte ao repórter Márcio Azevedo, da TV A Crítica, de Manaus, pela reportagem Polícia Covarde. Este ano, o Prêmio Imprensa Embratel recebeu 1.402 inscrições de reportagens de 1.964 jornalistas de todo o Brasil. Destes, 1.100 concorreram nas cate-

gorias nacionais e 302 nas categorias regionais, dos quais 199 foram pré-selecionados até a escolha dos 51 finalistas e dos 18 vencedores. O Prêmio Imprensa Embratel foi criado com o objetivo de reconhecer e estimular a produção de reportagens sobre os grandes temas nacionais. O Grande Prêmio Barbosa Lima Sobrinho deu R$ 21 mil à reportagem produzida pela TV Globo. No total, foram dados R$ 166 mil em prêmios aos vencedores.

Os vencedores GRANDE PRÊMIO BARBOSA LIMA SOBRINHO Fuga da Vila Cruzeiro Francisco de Assis TV Globo (RJTV)

Verdini, Sílvio Ribas, Gabriel Caprioli, Gustavo Henrique Braga, Victor Martins, Rosa Falcão, Fernando Braga, Mirella Falcão, Ricardo Allan, Jorge Freitas Correio Braziliense

JORNAL E REVISTA

REPORTAGEM ESPORTIVA

Guerras Desconhecidas do Brasil Leonencio Nossa e Celso Júnior O Estado de S.Paulo

Vinte Anos sem Pepê O Último Vôo de um Campeão Fellipe Awi e Roger Simões Sportv

REPORTAGEM INVESTIGATIVA TROFÉU TIM LOPES Fronteiras Escancaradas César Tralli, Pedro Mantoan e Fernando Ferro TV Globo (Jornal Nacional)

TELEVISÃO Especial 40 anos Transamazônica, A Estrada Sem Fim André Tal, Gustavo Costa e Cátia Mazin TV Record (Domingo Espetacular)

EDUCAÇÃO Publicidade Infantil Adriana Nasser, com Fábio Damasceno, Oswaldo Alves, Mauro Zambrotti, Naitê Almeida, Wesley Gomes, Carlos Átila, Cíntia Vargas, Jairom Rio Branco, Lúcio Martins Neto, Luciano Gomes, Patrícia Araújo e Ulov Flamínio TV Brasil

TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

RÁDIO Tecnolog ia a Serviço do Crime ecnologia Cid Martins e Fábio Almeida Rádio Gaúcha

A TTecnolog ecnolog ia nas Sete Ar tes Clássicas ecnologia Artes Carolina Vicentim Correio Braziliense

REGIONAL CENTRO-OESTE REPORTAGEM FOTOGRÁFICA Mor te no TTrabalho rabalho Morte Marcos Porto Jornal de Santa Catarina

Onde Eles Estão? Os Desaparecidos da Democracia Rosana Melo, Macloys Aquino e Alfredo Mergulhão O Popular (GO)

REPORTAGEM CINEMATOGRÁFICA Resgate de Dona Ilair Rogério de Paula Intertv Serra Mar, de Nova Friburgo, RJ

REPORTAGEM CULTURAL Quase Brancos, Quase Negros Fabiana Moraes Jornal do Commercio (PE)

REGIONAL NORDESTE Infância Perdida Fabiana Maranhão, Sofia Costa Rêgo, Vanessa Beltrão, Vanessa Cortez, Tião Siqueira e Geraldo Bringel TV Jornal do Commercio, Rádio Jornal e ne10.com.br

REGIONAL NORTE RESPONSABILIDADE SÓCIO-AMBIENTAL Polícia Covarde TROFÉU INSTITUTO EMBRATEL Produção Irregular de Carvão Vegetal no Sul do Piauí José Raimundo, Bárbara Bom Ângelo, German Maldonado, Robel Sousa, Genser Freire GloboNews

Márcio Azevedo TV A Crítica (Alô Amazonas)

REGIONAL SUDESTE Maria Zélia, a Mãe de Douglas Ari Lopes e Gustavo Carvalho O São Gonçalo, RJ

REPORTAGEM ECONÔMICA

REGIONAL SUL

A Nova Ordem Global Vicente Nunes, Luciano Pires, Rosana Hessel, Vera Batista, Márcio Pacelli, Cristiane Bonfanti, Vânia Cristino, Liana

Uma Rotina Contra a Vida Patrícia Auth, Daniela Pereira e Ânderson Silva Jornal de Santa Catarina

Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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DOCUMENTÁRIO FOTOS: DIVULGAÇÃO

MARIGHELLA: GUERRILHEIRO, POETA E... TIO Socióloga e cineasta, Isa Grinspum Ferraz trabalhou com Darcy Ribeiro, esteve na equipe que desenvolveu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e atualmente projeta o Museu Luiz Gonzaga, em Recife. Após 25 anos tentando, ela conseguiu finalmente terminar um documentário de longa metragem que fez sobre seu tio, um tio muito especial chamado Carlos Marighella. POR C ELSO S ABADIN JORNAL DA ABI – HÁ QUANTO TEMPO VOCÊ VINHA DESENVOLVENDO A IDÉIA PARA O FILME MARIGHELLA?

Isa Grinspum Ferraz [com um sorriso e pensativa] – Bom, para você ter uma idéia o primeiro roteiro que fiz para este filme foi depositado e registrado na Biblioteca Nacional em 1986! Na época, o projeto entrou pela Lei Mendonça [de incentivo à cultura], foi aprovado, e obviamente não conseguiu captar um único tostão. Em 1986 este tema não era exatamente uma coisa fácil, não é? Mas eu tinha esta pulsão de entender melhor a figura do Marighella, tanto do ponto de vista pessoal, mas principalmente de entender quem foi esse homem que, apesar de meu tio, eu conhecia tão pouco, quase nada. Sim, eu tinha minhas referências familiares, mas por mais que eu lesse tudo o que havia sobre ele ainda era muito pouco. Enfim, fiz o roteiro mas não consegui verba para fazer o filme, e isso ficou na minha cabeça. Com a aproximação do centenário de nascimento de Marighella, agora em dezembro, decidi ir à luta novamente. Comecei a prospectar, revi o roteiro, fui atrás de patrocínio; estava convicta de que era a hora mesmo de fazer o filme. Neste processo, foram muitos os amigos que me ajudaram. Principalmente Mário Magalhães, repórter especial da Folha de S.Paulo, que há sete anos está pesquisando incansavelmente e fazendo uma importante biografia de Marighella. Ele está desenvolvendo um trabalho incrível, fiquei amiga dele, que acabou se tornando consultor especial do filme, me ajudando a selecionar quem seriam os meus entrevistados, e assim por diante. Assim eu fui reunindo o pouquíssimo material que existe sobre Marighella. Conversei muito com a família, e tive todo o apoio da Clara, a viúva, que é minha tia, e do Carlinhos, que é o filho dele. Reuni ao máximo o pouco que havia e montei uma equipe muito boa. JORNAL DA ABI – IMAGINO QUE AS DIFICULDADES DA PESQUISA TENHAM SIDO MUITAS.

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Isa – Olha, não existe nenhuma imagem em movimento do Marighella vivo. Nenhuma! Isso apesar de ele ter vivido no século 20, o século da imagem. É uma loucura ele ter tido uma participação tão grande na vida política por 40 anos, ter sido deputado na época da Constituinte, em 1946, e não haver uma imagem em movimennto dele. A única imagem em movimento que existe é a da câmera da TV Tupi chegando no carro, já com ele morto. JORNAL DA ABI – VOCÊ ACREDITA QUE TUDO TENHA SIDO APAGADO PELA DITADURA?

Isa – Pela ditadura ou pelas ditaduras, porque ele enfrentou duas: a de Getúlio Vargas e a de 1964. Não sei se foi apagado ou se ele assumiu a clandestinidade com tanta competência que não deixou rastros. Existem pouco mais de 20 fotos dele, e praticamente só isso. Não há nada na imprensa! É muito difícil achar material sobre ele, mas o que conseguimos é incrível: o Jornal da Ação Libertadora NacionalALN, panfletos, e a cereja do bolo do filme, que é uma entrevista que ele deu para a Rádio Havana, em Cuba. JORNAL DA ABI – COMO FOI ISSO?

Isa – Foi o grande achado! Quando foi para Cuba, em 1967, ele acabou ficando por lá durante sete meses. Não tenho certeza, mas parece que o próprio Fidel ficou segurando o Marighella lá, já sabendo que não tinha mais jeito com o Che Guevara. De qualquer maneira, Marighella foi ficando por lá e só voltou em dezembro, depois da morte do Che. Como nós sabemos que tudo que o Fidel faz é filmado, começamos a pesquisar imagens de Marighella em Cuba. Fizemos altas tentativas por altos escalões para conseguir algum material sobre o Marighella, mil contatos através da Clara, até o Presidente Lula ajudou, falando diretamente com Raúl Castro pedindo pra ele abrir os arquivos. Não se encontrou nada de imagens! Até que no Instituto Cubano de Artes e Indústria Cinematográficos-Icaic encontramos uma série de entrevistas que Marighella concedeu à Rádio Havana. É um material maravilhoso que tem, inclusive, a carta de rom-

Com marcas de tiro pelo corpo, Marighella mostra onde foi baleado.

pimento dele com o Partido, que é linda. A coisa mais incrível é que aquele homem fala palavras duríssimas com a voz terna de baiano, uma coisa legal de ouvir. Enfim, essa foi a grande cereja no bolo desse filme, que é a voz do próprio Marighella, que é muito forte. Quando a voz dele entra no filme, é muito forte. E foi isso que a gente encontrou. É quase um filme arqueológico porque fui atrás de pistas, de indícios, e meu critério foi entrevistar gente que conheceu Marighella. Com a exceção de alguns historiadores, que no corte final eu usei pouquíssimo, e de um antropólogo, Antônio Risério, todos os outros depoimentos são de gente que conheceu Marighella. Porque eu queria mesmo reconstruir esta figura, e essa era a maneira que eu tinha. Assumi como linguagem o fato de não ter imagem. JORNAL DA ABI - UMA DAS COISAS QUE MAIS SURPREENDEM NO FILME É O LADO POETA DE MARIGHELLA. I SSO ERA CONHECIDO?

Isa – Não sei se todos conheciam, mas pessoalmente, como sobrinha, eu sabia porque ele fazia poemas pra mim. E não eram só poemas, fazia paródias de canções do Roberto Carlos para meus coleguinhas de classe, também. Ele tinha uma memória incrível, era muito engraçado, divertido. Era um grande tio! Foi um grande tio. Eu sabia que ele era poeta por isso, e também porque eu conversava muito com a Clara, depois

que ela voltou do exílio. A gente conversava muito, porque eu sempre fui muito inquieta para entender esse homem. Eu perguntava muitas coisas à Clara a vida inteira porque eu gostava muito dele e tinha vontade de entendê-lo. Existia um livrinho publicado de poemas dele, e a Clara também tinha algumas coisas. JORNAL DA ABI – MAS A INFORMAÇÃO DE QUE ELE ERA POETA ERA PÚBLICA OU ALGO SOMENTE FAMILIAR?

Isa – Havia alguns poemas publicados, mas as coisas de Marighella nunca tiveram espaço em lugar nenhum. E o curioso são os temas que ele trabalhava nos poemas. Não que ele fosse um grande poeta, mas alguns poemas dele são muito bons. Ele tinha a necessidade de se expressar também por esta via, o que é bem interessante. Mas os temas dele são: morena, Bahia, sempre algo relacionado ao Brasil, às vezes com uma pegada política. Ele amava o Brasil de uma maneira incrível. Ele era mulato, baiano, um mestiço que adorava ser mestiço, adorava coisas do Brasil, da Bahia, conhecia o País profundamente. Tanto que na hora de editar o filme tive de cortar muitos depoimentos incríveis. Tem um depoimento, que acabei tirando, que falava que ele sabia os nomes de todos os rios, de todas as montanhas, de todos os vales, e que conhecia o Brasil, estudava a História do Brasil profunda-


mente. Estudava o cangaço, estudava os movimentos populares, Canudos, as rebeliões populares todas. Ele era uma figura muito interessante, de verdade: passou por todas as esquerdas que o século 20 viveu, a Revolução Russa, o stalinismo, tudo aquilo. Ele foi stalinista, depois se decepciona profundamente e rompe. Acho que o grande interesse do Marighella é que ele foi conversando com o tempo dele. Como homem muito inquieto, ele tinha esta flexibilidade de ir mudando com o tempo dele. Quando resolve optar pela luta armada diante de uma ditadura feroz no Brasil, ele já tinha tentado vários caminhos, inclusive o parlamentar, e só foi dando errado. Só dá para entender a opção dele pela luta armada no contexto do mundo: Guerra do Vietnã, Cuba, Argélia, movimentos de libertação na África, nos Estados Unidos, o movimento negro se impondo, maio de 1968, enfim, há um contexto mundial de efervescência muito grande, e só assim se entende Marighella e a opção pela luta armada. Não era um louco, irresponsável, que saiu matando. JORNAL DA ABI – VOCÊ COMEÇA O FILME FALANDO DO SEU SUSTO QUANDO SEU PAI LHE CONTA QUE SEU TIO CARLOS ERA O MARIGHELLA. COMO VOCÊ

Isa Grinspum Ferraz: Inquieto, Marighella (ao lado) foi conversando com o tempo dele.

RECORDA ESTE MOMENTO?

Isa - Eu me lembro de cada detalhe desse momento. Meu pai [Salomão] estava me levando para a escola. Nós morávamos no Jardim São Paulo, que na época era um bairro afastado, justamente para poder hospedar o Marighella e a Clara. Era longe demais, numa casa sem telefone, uma coisa toda estranha para mim. Eu não entendia muito aquilo. Meu pai estava me levando para a escola e estava exatamente na Avenida Cruzeiro do Sul [Zona Norte de São Paulo], eu estava sentada no banco de trás do carro, tinha 10 anos. Como foi logo depois do seqüestro do embaixador americano, a barra estava muito pesada, e meu pai imaginou que eu fosse reconhecer o Marighella nas fotos dos cartazes de “Procura-se”, que estavam por todos os lugares. Só que até então eu nunca tinha associado as capas de revistas, de jornais, os cartazes, ao meu tio Carlos. Parece que criança só vê o que quer, não é? Meu pai me contou e eu fiquei desesperada, comecei a chorar, tive que voltar para casa. Nem consegui ir para a escola nesse dia. Daí pra frente, nunca mais vi Marighella nem a tia Clara. Porque a partir do seqüestro do embaixador foram dois meses de caça mesmo, e ele não apareceu mais em casa. JORNAL DA ABI - PROVAVELMENTE SEU PAI LHE CONTOU JÁ PREVENDO ALGUM DESFECHO MAIS TRÁGICO?

Isa - Meu pai chegou a se encontrar com Marighella um pouco antes da morte dele. O Marighella chamou meu pai, mandou um recado, e meu pai se encontrou com ele já bem no final. Inclusive meu pai me deu muitas informações para o filme, mas não quis gravar entrevista. Mas ele falou para o Marighella: “Mariga, ainda dá tempo de você sair, vai embora porque o cerco está muito forte”. E Marighella falou: “Não, eu não vou porque tem muita gente envolvida, que eu levei nesse momento, e eu não vou deixar. Eu vou morrer mas vou ficar até o fim aqui”. Foi o último encontro do meu pai com ele.

Ele era muito amigo do Marighella. Eu nasci com Marighella em casa, ele trocava as fraldas da gente. JORNAL DA ABI - POR QUE SEU PAI NÃO QUIS FALAR NO FILME?

Isa- Meu pai depois foi preso, foi torturado, ficou muito marcado pelo que sofreu depois. Eles queriam saber onde estava minha tia depois que mataram meu tio. A Clara foi para Cuba, para o exílio. Prenderam meu pai porque queriam saber onde ela estava. Ele foi para o Doi-Codi, passou por tudo aquilo, ficou muito marcado, preferiu não falar. JORNAL DA ABI - SEU FILME DIALOGA COM VÁRIOS OUTROS FILMES BRASILEIROS, TANTO DOCUMENTÁRIOS COMO DE FICÇÃO, QUE ABORDAM O PERÍODO DA DITADURA. VOCÊ ACHA QUE JÁ CHEGAMOS NUM DISTANCIAMENTO HISTÓRICO NECESSÁRIO PARA MOSTRAR ESTE PERÍODO ÀS NOVAS GERAÇÕES, QUE MAL SABEM O QUE ACONTECEU NAQUELA ÉPOCA?

Isa – Eu utilizo materiais diversos, sejam de ficção ou documentários, para contar a minha história. É uma linguagem que uso. Fiz, por exemplo, uma série grande chamada O Povo Brasileiro, a partir da obra do Darcy Ribeiro, com quem trabalhei muitos anos. Acredito que tudo o que a gente usa de bons materiais, materiais relevantes que já foram feitos, somam muitos significados, por vários motivos, não só pelo o que eles revelam, mas pelo que significam. O Gláuber Rocha, por exemplo, era um marighelista radical. Ele se encontrou com a Clara, em Cuba, quando ela estava no exílio. Um dia alguém chega e diz para a Clara: “O Gláuber Rocha está aí e quer conversar com você”. Era incrível o Gláuber ter encontrado a Clara, em Cuba, porque ela estava clandestina, usando nome falso, e sendo cuidada pelo Governo cubano até a anistia, em 1979, quando ela volta. “Bom, tudo bem, o que será que ele quer comigo?”,

Clara perguntou. Então ele chegou para ela e falou: “Clara, o que pensava Marighella?” Ela riu e falou: “Um monte de coisas”. E ele insistiu: “Me diga tudo”. Na época, o Gláuber queria fazer um filme que se chamaria História do Brasil, e queria saber o pensamento de Marighella. Aí Clara falou, falou, falou, e quando acabou, Gláuber, muito emocionado, abraçou-a e falou assim: “Concordo com tudo”. Então tem várias camadas de sentidos em você trazer outras referências, sejam musicais, sejam informativas. Até por isso eu estou no filme, tem a minha voz, e eu assumo o recorte de que é um filme feito por uma sobrinha curiosa, mas ao mesmo tempo sou socióloga. Mas não há um distanciamento científico, não busquei isso, mas de qualquer forma, meus entrevistados falam com algum distanciamento. Enfim, é o filme que eu podia fazer. Há outros filmes a serem feitos sobre Marighella? Muitos, porque é uma vida tão densa, um homem com uma história tão impressionante, que atuou tantos anos do século 20 na História do Brasil, que merece muitos filmes, inclusive acho que merece um filme de ficção à altura do personagem. Que não seria nunca eu a fazer, porque não sei fazer ficção. JORNAL DA ABI – VOCÊ TEVE DE DESCARTAR MUITA COISA NA MONTAGEM FINAL DO FILME. PELO JEITO O DVD VAI ESTAR CHEIO DE EXTRAS.

Isa - Vai ter milhares de extras! [risos]. Eu fiz 31 entrevistas, tem 25 ou 26 no filme, porque depois tive que fazer opções, o que foi bem difícil, foi um sofrimento. O primeiro corte do filme tinha quatro horas e meia! Foi um sofrimento ir cortando coisas, mas cada um destes entrevistados foi de muita generosidade, e eu acho que ser sobrinha de Marighella ajudou as pessoas a se abrirem de um jeito especial. Tem depoimentos de duas horas e meia. Nem sei o que vou fazer com

este material todo, tenho a obrigação moral de divulga-lo de algum jeito, porque são depoimentos incríveis, que eu agora preciso primeiro me distanciar um pouco do tema para poder pensar melhor. Mas depois eu vou ver o que fazer com isso. Acho que é um material para ir para escolas, para universidades, bibliotecas, no exterior, para festivais no exterior. Marighella tinha uma penetração incrível na Europa. Tanto que seu Manual do Guerrilheiro Urbano foi traduzido até em árabe. Ele teve apoio do Miró, do Godard, Sartre, vários ídolos meus que eram marighelistas, que mandavam dinheiro para a causa. Quero tentar mostrar este filme em festivais na Itália, na França, na Alemanha... Marighella inspirou até as Brigadas Vermelhas. JORNAL DA ABI - O FILME JÁ TEM DATA DE ESTRÉIA DEFINIDA?

Isa – No momento [novembro de 2011] ainda não. Estou negociando com algumas distribuidoras porque é um perfil de filme que não é para um distribuidor comercial comum. Eles não se interessam por filme assim. Eu quero que entre em circuito nas capitais, mas quero também mostrá-lo nas escolas, na periferia. Com este filme, até a Clara, que ficou mais de 20 anos casada com Marighella, descobriu coisas que não sabia. E ainda tem muito o que se descobrir. O Mário Magalhães, por exemplo, não consegue terminar o livro sobre o Marighella porque não p��ra de descobrir coisas. JORNAL DA ABI – QUAL A SUA VISÃO DO BRASIL HOJE?

Isa – Sou superotimista. Tenho paixão por este País. A história da minha vida, as oportunidades que eu tive de trabalhar com gente como Lina Bo Bardi, com Darcy Ribeiro, a minha formação familiar de esquerda, o próprio tio Carlos e as minhas experiências pela vida... eu sou otimista com o Brasil. As dificuldades que se encontram para fazer qualquer coisa no Brasil são tão brutais que dão até desânimo. A gente acha que não vai dar certo, que este País não tem como dar certo. Mas ao mesmo tempo a gente vai e faz. O povo brasileiro é poderoso. O Brasil tem uma energia que é uma loucura, mas ô coisa difícil..! Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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DEPOIMENTO AMANDA PEROBELLI/REVISTA BRASILEIROS

Ele,

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DocumentĂĄrio dirigido por ClĂĄudio Kahns faz justiça a um dos mais completos atores do cinema e da tv, que tambĂŠm era um Ăłtimo escritor. POR F RANCISCO U CHA “Voltei por quĂŞ? Saudade da famĂ­lia? O navio nem tinha zarpado e eu jĂĄ me arrependia da decisĂŁo. Deixei naquele cais minha carreira de ator internacionalâ€?. Essa frase marcante ĂŠ apresentada no inĂ­cio do documentĂĄrio Eu, Eu, Eu, JosĂŠ Lewgoy, dirigido por ClĂĄudio Kahns. Ela dĂĄ uma demonstração de como o ator lamentou deixar os Estados Unidos em 1948, no começo de sua carreira, depois de estudar teatro na Universidade de Yale. Amigo prĂłximo de Lewgoy, ClĂĄudio realizou o filme pacientemente. Foi um projeto que demorou anos para ficar pronto e, ao assisti-lo, se percebe claramente todo o cuidado e carinho em sua finalização. ClĂĄudio quis honrar o amigo. E conseguiu. Seu filme apresenta um retrato poĂŠtico, delicado, sobre essa personalidade tĂŁo controvertida e querida do cinema nacional. AlĂŠm de ser um grande ator, Lewgoy tambĂŠm era tradutor e escritor. Trabalhou na antiga Editora Globo, de Porto Alegre, ao lado de Érico VerĂ­ssimo e MĂĄrio Quintana. Foi VerĂ­ssimo quem conseguiu a bolsa de estudos na Universidade de Yale, onde Lewgoy desenvolveu todo o seu potencial na arte de interpretar. Voltou ao Brasil; nĂŁo tinha dinheiro, mesmo jĂĄ atuando em seus primeiros filmes, e chegou a dormir nos bondes. Como o enigmĂĄtico vilĂŁo Anjo, de Carnaval no Fogo, começou a ganhar notoriedade. Fez uma centena de filmes no Brasil e no exterior. Quando a televisĂŁo o descobriu, jĂĄ era um ator veterano. Durante a ditadura militar escrevia periodicamente no Pasquim. Lewgoy era um mistĂŠrio. Tinha um jeito peculiar e mal-humarado de ser. Pura fachada. Um dos depoimentos mais emocionantes do filme foi dado por Chico Caruso, decifrando a personalidade do ator: “Embora tivesse essa cara de mau e todo mundo dissesse que era mal humorado, eu fiz atĂŠ uma imagem que ĂŠ como se ele fosse assim... como se fosse as ondas do mar: vocĂŞ pulando a primeira, a segunda... lĂĄ dentro, o mar ĂŠ tranqĂźilo. Mas tem que pular aquela primeira, segunda onda para mergulhar no Lewgoy.â€? Mas Lewgoy tambĂŠm dava pistas de quem ele era: “Eu sou uma mistura de um personagem de Alice no PaĂ­s das Maravilhas, aquele gato que sorri... Chershire Cat. Vai sorrindo, sorrindo... e vai desaparecendo todo atĂŠ ficar um sorriso. Entre esse personagem e o Meursault, de O Estrangeiro, de Camus, eu estou lĂĄ no meio. Quem quiser saber como eu sou, quem eu sou, leia Alice no PaĂ­s das Maravilhas e leia O Estrangeiro, do Camus.â€? ClĂĄudio certamente sabia quem era Lewgoy. E agora todos podem descobri-lo: quem quiser saber como ele era, ĂŠ sĂł assistir ao filme Eu, Eu, Eu, JosĂŠ Lewgoy. Com larga experiĂŞncia em cinema, ClĂĄudio Kahns produziu alguns dos filmes mais premiados do Brasil, como A Marvada Carne, Vera, Feliz Ano Velho, O Judeu, Como Nascem os Anjos. Para falar sobre sua nova realização, ele concedeu esta entrevista exclusiva ao Jornal da ABI e desabafa: “Nunca foi tĂŁo difĂ­cil fazer cinema!â€? 16 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011


JOSÉ LEWGOY

휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉휉 JORNAL DA ABI – VOCÊ É UM PRODUTOR DE SUCESSO NO CINEMA BRASILEIRO, COM FILMES DE GRANDE DESTAQUE EM SEU CURR�CULO. TODOS ELES TIVE-

ACERVO UH/FOLHAPRESS

que tinha que mesclar aqueles momentos e colocå-los junto às imagens do teatro de Yale. O curioso Ê que o cenårio tambÊm estava coberto com lençóis, dando um quê de fantasmagórico. Essa foi a intenção. Hå tambÊm nessa seqßência uma locução que se refere aos melhores atores do mundo, que tirei de um filme clåssico sobre Shakeaspeare; achei que era bacana colocar aquela frase ali, na entrada do departamento de teatro de Yale, sem as imagens, só a trilha, de maneira delicada, sutil...

RAM GRANDE REPERCUSSĂƒO DE CRĂ?TICA E PĂšBLICO.

ATÉ ONDE SOUBE, EU, EU, EU, JOSÉ LEWGOY É O TERCEIRO DOCUMENTĂ RIO QUE VOCĂŠ DIRIGE DEPOIS DE UM INTERVALO DE QUASE 20 ANOS. POR QUE O RETORNO Ă€ DIREĂ‡ĂƒO E POR QUE A ESCOLHA DE LEWGOY COMO TEMA?

Clåudio Kahns – Na verdade Ê o quarto filme que dirijo; fiz tambÊm um curta chamado O Sonho não Acabou sobre o teatro feito por trabalhadores anarquistas, principalmente imigrantes italianos, no início do sÊculo 20, em São Paulo. AlÊm de um super8, Do Outro Lado, com o qual ganhei o prêmio de Melhor Filme no 1° Festival Brasileiro de Super8. Nunca parei de trabalhar e produzir cinema, mesmo nas fases mais obscuras pelas quais passamos. Mas decidi fazer e dirigir o filme sobre Lewgoy porque achava que ele tinha uma trajetória muito rica e ímpar no cinema brasileiro. Somente a sua participação em Terra em Transe e em Fitzcarraldo, para mim jå seria o bastante. Mas alÊm disso ele tinha sido o vilão das chanchadas no início dos anos 1950; tinha participado de filmes na França, nos dez anos em que viveu lå, atÊ 1964; participou tambÊm de inúmeras produçþes estrangeiras filmadas no Brasil, e tinha quase 30 anos de TV Globo. Com essa carreira, e tendo trabalhado em 100 filmes e 23 novelas, claro que valia fazer um filme sobre ele. E como acabamos ficando muito amigos! Ele era uma espÊcie de tio-conselheiro, sempre trocåvamos muitas idÊias. Algumas vezes propus de fazermos esse filme sobre ele e sua carreira, mas Lewgoy sempre rechaçava. AtÊ que, passados alguns anos, ele resolveu, de uma hora para outra, me chamar para fazermos.

JORNAL DA ABI – EM QUANTO TEMPO ESSE DOCUMENTà RIO FOI REALIZADO DESDE O ROTEIRO ATÉ O SEU LANÇAMENTO NOS CINEMAS?

ClĂĄudio Kahns – Comecei a fazer esse filme hĂĄ muitos anos (ClĂĄudio dĂĄ um grande destaque Ă  palavra “muitosâ€?). Na verdade Ă­amos fazer o filme juntos, Lewgoy e eu. Ele morreu hĂĄ mais de oito anos; por aĂ­ se vĂŞ o tempo que levou entre a idĂŠia, fazer o projeto e conseguir os recursos. Claro que nĂŁo trabalhei direto esse tempo todo; estava tocando outros projetos em paralelo. Mas comecei a produção acho que em 2004. A pesquisa levou alguns meses, depois o roteiro mais alguns. Recentemente, fiz os Ăşltimos ajustes e alteraçþes. EntĂŁo pode-se dizer que ele ficou pronto neste ano, mas jĂĄ tinha encerrado a produção hĂĄ uns dois anos. JORNAL DA ABI – FOI DIFĂ?CIL ENCONTRAR E CONSEGUIR A LIBERAĂ‡ĂƒO DAS IMAGENS ANTIGAS E DOS DEPOIMENTOS DE LEWGOY?

cínio e com meus próprios recursos. Essas cenas não devem chegar a ter um minuto no filme. JORNAL DA ABI – VOCÊS VIAJARAM MUITO PELO BRASIL, FORAM AOS ESTADOS UNIDOS E EUROPA E CHEGARAM A ENTREVISTAR ATÉ POSS�VEIS PARENTES NOS

ESTADOS UNIDOS. COMO FOI ESSE PRO-

JORNAL DA ABI – ENTĂƒO, VOCĂŠ CHEGOU A FILMAR ALGUM DEPOIMENTO DELE?

E QUANTO TEMPO DUROU?

Clåudio Kahns – Cheguei a filmar algumas poucas cenas com uma pequena câmera: o aniversårio de 80 anos, a condecoração na ABL e um depoimento, quase que um rascunho do que seria depois filmado, mas que infelizmente não chegamos a concluir. Isso antes de conseguir o patro-

Clåudio Kahns – Esse processo foi bem longo e trabalhoso. Escolher dentre os 100 filmes, 23 novelas, matÊrias jornalísticas, cinejornais de Êpoca, aqueles mais significativos, foi um trabalhão! Vimos praticamente todos os 100 filmes! A Marta Nehring coordenou essa parte da pesqui-

CESSO DE PESQUISA E DE DESCOBERTAS

sa e foi essencial; tive tambĂŠm uma Ăłtima assessoria na parte das novelas com o Mauro Alencar, o maior especialista do Brasil, que me ajudou a encontrar e escolher as principais e, sobretudo, selecionar os trechos mais relevantes. Imagine que cada novela tem cerca de 250 capĂ­tulos de 40 ou 50 minutos; encontrar algo ĂŠ como procurar agulha no palheiro. Trabalhamos alguns meses somente pesquisando e procurando cĂłpias de todos os filmes. As pessoas a serem entrevistadas tambĂŠm foram um longo processo. NĂŁo bastava localizĂĄ-las; irĂ­amos a cada lugar com a equipe e ela deveria estar disponĂ­vel naquelas datas determinadas. NĂŁo

foi fĂĄcil montar as agendas em tantas cidades, mas acabamos falando com quase todo mundo que tĂ­nhamos planejado. JORNAL DA ABI – AS IMAGENS DE LEWGOY ATUANDO NUM PALCO QUE APARECEM NO TRECHO SOBRE A UNIVERSIDADE DE YALE FORAM CONSEGUIDAS COMO? DE ONDE ELAS SĂƒO?

Clåudio Kahns – Aquelas imagens são de uma peça de Tchekov em que ele atuou no Rio, O Jardim das Cerejeiras. Achei curioso porque era uma reportagem da TV Globo e, no trecho gravado, Lewgoy se referia sobre 50 anos atrås.... e, hå mais ou menos 50 anos daquela gravação ele estava em Yale, estudando. Aí, achei

ClĂĄudio Kahns – Foram mais ou menos umas 40 fontes diferentes de materiais: de cinematecas, arquivos, produtoras no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Foi muito trabalho! Essas autorizaçþes me levaram, pelo menos, um ano de trabalho e foram todas feitas pessoalmente, por mim. AĂ­ meu lado produtor falou mais alto. A maioria dos materiais de arquivos consegui negociar razoavelmente. Outros materiais saĂ­ram bem caros. Hoje se vende material de arquivo nos Estados Unidos e na Europa por segundo! Se vocĂŞ usa um minuto ou dois a coisa vai longe... JORNAL DA ABI – QUAL FOI A MAIOR DIFICULDADE QUE VOCĂŠ ENCONTROU DURANTE A REALIZAĂ‡ĂƒO DO FILME?

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DEPOIMENTO ELE, JOSÉ LEWGOY FOTOS: DIVULGAÇÃO

Cláudio Kahns – A maior dificuldade foi justamente selecionar o que entraria no filme. Ter muito material é bom, mas te apresenta o problema de como colocar, ou não, determinado trecho, determinada fala de uma entrevista de uma ou duas horas. Esse é o trabalho de direção e edição afinados e, para isso, tive a excelente colaboração da Mirella Martinelli, experiente montadora. Ela foi superimportante no processo de experimentação. Levávamos a montagem de algumas seqüências à exaustão; colocávamos, tirávamos, colocávamos de novo. Deixávamos passar alguns dias; aí víamos o que não estava bem. Mudávamos de novo. Muitas vezes você tem de voltar e partir do zero. O processo de montagem levou mais de um ano. Ela era muito paciente comigo, pois nem sempre eu estava disponível, e tínhamos que ajustar as agendas. O que ajudou muito foi ter feito o filme na minha produtora, a Tatu Filmes. Então, se tinha que fazer algo, eu saía e voltava, e ela estava lá ajeitando os planos. A Martha também fez um roteiro básico, que reconstruímos na montagem. Era um processo de estruturação de um quebra-cabeça. Tínhamos um roteiro temático, por exemplo: “Terra em Transe”, “Veranópolis”, “família”, “Tônia Carrero”, etc. Então fomos montando a partir dele, mas reconstruindo-o, mudando e alterando seqüências ou mesmo blocos de lugar. Uma coisa é um roteiro escrito, outra as imagens em seqüência; muitas vezes uma imagem chama outra que não estava prevista, mas que funciona muito melhor experimentando. Nesse momento o tempo é fundamental: se fizéssemos tudo com pressa o filme seria outro. Num determinado momento, pensei em chamar o Hugo Carvana para fazer a narração do filme. E finalmente decidi que o filme não teria narração. Você tem que dar tempo ao tempo. Enfim, foi um processo longo, mas bonito, de construção do filme.

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No alto à esquerda, José Lewgoy quando trabalhava traduzindo originais para a antiga Editora Globo, de Porto Alegre. Á direita, foto de galã já famoso das chanchadas brasileiras. Ao lado, Lewgoy e a jovem atriz Tônia Carrero contracenam no primeiro filme de ambos, Perdida pela Paixão. Acima, junto com outra linda atriz, Ava Gardner.

O único pecado que não queria cometer era o de fazer um filme chato. Talvez eu pudesse enxugá-lo ainda um pouco mais, mas o Guilherme de Almeida Prado, após rever o filme me disse: “Cláudio, você não vai ganhar nenhum espectador a mais se reduzir o filme em dez minutos”. Ele tem razão! E para quem gostar da experiência de ver a história de Lewgoy, acho que esses dez minutos talvez sejam um prazer. JORNAL DA ABI – E QUAL FOI A MAIOR EMOÇÃO?

Cláudio Kahns – Uma das maiores emoções foi a entrevista do Herzog! Eu não podia ir à Alemanha para fazer a entrevista com ele. Pedi a um cineasta alemão, que se dispôs a fazê-la, a partir de uma pauta que eu enviaria. Bom, falei isso para o Herzog e ele me respondeu que iria passar o final de ano nos Alpes, numa região na Bavária, Áustria, mas estaria com a família e preferia não ter alguém estranho naquela ocasião. Então ele me perguntou se seu

“Era carente de amor... muito!” TÔNIA CARRERO

filho, que é cineasta, não poderia filmar a entrevista. Claro que topei imediatamente. Mandei a pauta e umas três semanas depois chegou uma fita. Quando vi o material, fiquei muito emocionado! Herzog tinha feito um belíssimo depoimento, gravado duas vezes, para que eu pudesse escolher os melhores momentos. E com planos de cobertura, inclusive em determinado momento ele mandou algumas sugestões na própria fita, “use esse material como cobertura” e vemos ele caminhando no meio do bosque. Ele foi muito bacana, extremamente generoso. Outro episódio, meio tragicômico, foi a entrevista com Ivan Lessa em Londres. Nessa, eu fui pessoalmente, levando uma pequena câmera. Foi difícil conseguir a entrevista; Ivan estava

meio adoentado, não queria, mas insisti muito. Afinal ele era meu ídolo desde os tempos do Pasquim, junto com Millôr. E ele era muito amigo do Lewgoy, que era também amigo de sua mãe, Elsie Lessa, que conheci e era uma pessoa adorável. Enfim, tinha que fazer aquela entrevista com Ivan. E contratei uma equipe que faria a produção. Eles foram indicados por uma amiga cineasta que morava em Londres; ela pegaria também algumas autorizações, pois eu queria fazer umas tomadas da cidade para dar uma ambientação à entrevista. A equipe contava com um fotógrafo inglês e um técnico de som, acho que paquistanês. Mas aí aconteceu a tragédia: chegamos no apartamento do Ivan, nos instalamos e começamos a fazer a entrevista. Imagine que tinha levado comigo um filme em que ambos, Lewgoy e Ivan tinham contracenado, acho que em 1949. Colocamos o dvd com o filme, começamos a filmar e Ivan ia comentando, lembrando de histórias do Lewgoy, que, segundo ele, ia filar bóia em sua casa, coisas do tipo, sempre sarcásticas. E eu claro, adorando! Aí, passados exatos 25 minutos de

entrevista, o técnico de som se vira e fala, bem alto: “Vamos ter que rodar tudo de novo, o som não ficou bom!”. Bem... Ivan ouve isso, se levanta, fica possesso, diz que tinha acabado a entrevista... e começa a se trocar em nossa frente, colocando um pijama! Eu tentava dissuadi-lo, mas já antevendo o desastre, já tinha percebido que seria uma missão impossível. E ele: “Eu sabia, coisa de brasileiro, não podia dar certo mesmo!”. Bom, não havia o que fazer, só nos restou ir embora. Eu tinha ido especialmente a Londres para fazer aquela entrevista e, claro, fiquei bem chateado! Mas pedi para a produtora no dia seguinte enviar-lhe umas flores, pedindo desculpas. Vi que ele realmente não estava bem, tinha feito um esforço, foi uma infelicidade! Uma pena, ele acabou ficando fora do filme. Mas, veja como são as coisas: há alguns dias uma pessoa que trabalha com ele na BBC e que estava em São Paulo de passagem, me ligou, pedindo uma cópia do filme. Parece que o Ivan tinha pedido, queria ver o filme. O mais engraçado é que não fiquei magoado, ele ainda continua sendo meu velho ídolo. Na verdade tenho bem poucos, mas seu


humor e seu texto são meio únicos. Como o Lewgoy! JORNAL DA ABI – COMO FOI A GRAVAÇÃO DO DEPOIMENTO DE TÔNIA CARRERO? AFINAL, VOCÊ LEVOU UM PRESENTÃO PARA ELA...

Cláudio Kahns – O encontro com a Tônia foi em sua casa; ela nos recebeu muito bem e ficou realmente emocionada quando lhe apresentamos o filme Perdida Pela Paixão, que ela não via há mais de 50 anos! E foi o primeiro filme de ambos, Tônia e Zé! Eles eram muito amigos desde então e a emoção dela foi totalmente espontânea e verdadeira em falar do Zé. E por isso resolvi começar o filme com ela, afinal era o primeiro trabalho em cinema de ambos... JORNAL DA ABI – E ANSELMO DUARTE? ELE NÃO QUIS FALAR MUITO SOBRE O LEWGOY?

Cláudio Kahns – Quando entrevistamos o Anselmo, ele já estava bem doente. Então foi uma entrevista um pouco estranha, pois no meio da entrevista ele me perguntou o que eu estava fazendo, aí expliquei que era um filme sobre o Lewgoy e ele se virou e disse que era perigoso fazer um filme sobre Lewgoy. Resolvi deixar esse trecho no filme porque era bem inusitado... fora o resto em que ele contava ter sido o responsável por colocar o Zé em sua primeira chanchada, Carnaval no Fogo. JORNAL DA ABI – MESMO JÁ ATUANDO EM FILMES, TEVE UM TEMPO QUE LEWGOY DORMIA EM BONDES, USAVA SEMPRE A MESMA ROUPA . E LE TAM BÉM TEVE QUE TRABALHAR COMO TRADUTOR, ESCRITOR, FOI COLUNISTA DE O PASQUIM, FOI DISCRIMINADO NUMA DETERMINADA ÉPOCA. VOCÊ ACHA QUE O B RASIL MALTRATA OS SEUS ARTIS TAS GENIAIS?

Cláudio Kahns – Sim. Pelo menos até a pessoa se impor, e nisso cada um tem o seu processo. Muitas vezes, aos trancos e barrancos, alguns conseguem, outros tombam no meio do caminho. Conheci muitos caras geniais, sobretudo no final dos anos 1960 e 1970, quando eu era ainda muito jovem. Muitos não sobreviveram. O pessoal do Cinema Novo, se você for ver, metade foi embora muito cedo. Leon Hirszman, Joaquim Pedro, David Neves, Fernando Cony Campos, isso para não falar de Gláuber, que morreu aos 42 anos! Grandes jornalistas também se foram muito cedo. Como dizia Tom Jobim, “o Brasil não é para amadores”. E esses caras geniais em geral sofrem muito, são discriminados, acredito até num processo de bullying, palavra que agora está na moda. Hoje a grande ditadura é a da burocracia, assim como a dificuldade de levantar recursos. Quem não tem um lobby apurado aca-

“Nunca houve e nem haverá ninguém como Oscarito”

ARQUIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO/FUNDO ÚLTIMA HORA/L. PINTO

falamos rapidamente, lembrei-o porque estava lá e ele vira e me diz: “Se desgrilar, autorizo”! Desgrilar do que, meu deus?! Só depois entendi: a música falava de “inferno”, e era uma música que ele não cantava há anos... bom, o fato é que ele não “desgrilou” e tive que cortar a seqüência, que substitui por um trecho do mesmo filme em que Roberto não aparece! Ficou bom também, mas eu queria a música! E fiquei querendo...

J OSÉ L EWGOY

ba sendo preterido. O talento é a última coisa que conta e acaba sendo desvalorizado em função de outras “habilidades” e espertezas, sejam de ordem política ou burocrática. Vejo mesmo muitos de minha geração meio à margem, porque ou não souberam se organizar e se adaptar a esse novo, digamos, “modelo” de produção ou simplesmente nutriram um enorme desgosto, se deprimiram. Vejo muita gente com talento, já com uma certa idade, sem ou com poucas possibilidades, e isso é muito triste. O Brasil realmente, de modo geral e com as exceções de praxe, trata muito mal seus artistas, sobretudo os que hoje são mais velhos. O próprio Lewgoy, pouco antes de morrer, estava superinseguro com a sua aposentadoria, de como iria se sustentar. Felizmente, e no caso dele é preciso reconhecer, a TV Globo tratouo com dignidade e renovou seu contrato pouco tempo antes de morrer. Ele vivia de seu salário e, até onde sei, não tinha grandes economias. E estava apavorado com a possibilidade de não renovarem seu contrato. Muitas vezes tive de acalmá-lo, dizendo que não iriam fazer isso e acabaram não fazendo mesmo.

JORNAL DA ABI – FOI MUITO COMPLICADO CONSEGUIR AGENDAR UM DIA PARA REUNIR TODA A “TURMA” NAQUELE TÍPICO BOTECO CARIOCA?

José Lewgoy e Valéria Vidal se encontram durante a cerimônia de entrega dos prêmios do Instituto Nacional do Cinema aos melhores do cinema em 1967, na qual foram agraciados, juntamente com Leila Diniz e Anselmo Duarte.

sempre que ele ia a Veranópolis. A cidade está situada numa região muito bonita, na Serra Gaúcha, e era uma forma de inserirmos a cidade numas cenas com o Fusquinha, para dar um ambiente e mostrar também com isso um pouco da cidade e arredores.

JORNAL DA ABI – POR QUE A OPÇÃO

JORNAL DA ABI – ALIÁS, SE PUDER

DE GRAVAR O DEPOIMENTO DOS MEM-

CONTE MAIS ALGUM OUTRO CASO CURI-

BROS DA FAMÍLIA DO IRMÃO DO LEWGOY

OSO DOS BASTIDORES DESSA PRODUÇÃO...

DURANTE UM ALMOÇO ?

Cláudio Kahns – Tem o episódio Roberto Carlos. No final da seqüência de Terra em Transe queria colocar outra bem contrastante. Nada melhor do que cortar para uma com Roberto Carlos, cantando “e que tudo mais vá pro inferno”. Na verdade esse corte exprimiria bem as duas vertentes principais da época, final dos anos 1660: o pessoal que ia para a política e o pessoal do desbunde, os hippies, o iê-iê-iê, a Jovem Guarda, que era representada pelo Roberto. Em Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa, Lewgoy tinha uma participação nessa seqüência, para variar, de vilão. Então, o contraste do corte era sensacional: a banda de Roberto tocando aquela música no alto do Edifício Itália, em São Paulo. Entrei em contato com a produção do Roberto Carlos e, depois de um certo tempo, de idas e vindas, alguns meses, ele finalmente quis ver a seqüência. Mandei o dvd com o filme. Passa o tempo; mais idas e vindas e nada de autorização... Ele estava gravando, estava viajando,

FIQUEI COM

PENA DO CINEGRAFISTA, QUE TINHA QUE FICAR FILMANDO ENQUANTO VOCÊS ALMOÇAVAM PRAZEROSAMENTE!

Cláudio Kahns – Não se preocupe, o fotógrafo era o Ricardo Stein e ele, depois, se regalou naquela esplêndida macarronada! Foi a solução que encontramos: juntar toda a família num só local, num almoço no domingo e acho que foi uma boa decisão. Inclusive a proposta veio deles mesmo. Um falava, o outro emendava, dava para ver todos em conjunto, a reação de todos, acho que funcionou. E eles sempre me apoiaram, foram muito bacanas. JORNAL DA ABI – FUNCIONOU MESMO! É UM MOMENTO EMOCIONANTE DO FILME. MAS, VOCÊS TIVERAM O CUIDADO ATÉ DE CONSEGUIR UM FUSQUINHA VERMELHO! CONTE ESSA HISTÓRIA DOS BASTIDORES.

Cláudio Kahns – Essa história do Fusquinha foi idéia da Martha Nehring. Ela sugeriu, achei legal e fomos procurar um Fusquinha vermelho, que era o meio de transporte característico de Lewgoy,

estava sei lá onde e nada! Fiz mais inúmeros contatos e telefonemas, pedi para a Eliana Caruso falar com a assessora de imprensa dele, enfim, fiz de tudo... E o recado da produção era que ele veria a seqüência assim que tivesse um tempinho. Detalhe: a cena tinha dois ou três minu-

Cláudio Kahns – Aquela reunião só foi possível porque a Eliana Caruso, mulher do Chico, ajudou generosamente a arregimentar todos eles. E não preciso dizer que todos foram supercolaborativos, e sou muito grato a Eliana, que foi sempre uma entusiasta e deu muita força. Eram todos muito amigos do Lewgoy, gostavam muito dele. E tinham muitas histórias! Era a “turma da Cobal”, se reuniam todos os sábados para beber e jogar conversa fora. Senti falta do João Ubaldo (Ribeiro) e do Carvana, que não puderam ir. Quem quiser saber mais sobre a “turma”, quem eram e o que falavam, vai ter que ver o filme! (risos) JORNAL DA ABI – JOSÉ LEWGOY ERA RECONHECIDAMENTE MAL-HUMORADO, MAS SEUS AMIGOS SABEM QUE ISSO NÃO ERA VERDADE; ERA APENAS UM ESCUDO, UM TIPO QUE ELE CRIAVA. AMIGO E GENEROSO FORAM ALGUNS DOS ELOGIOS FEITOS A ELE DURANTE O FILME.

MAS,

SEGUNDO O ATOR ANTÔNIO PEDRO, ELE DISSE “NÃO TENHO UMA GOTA DE SAN-

“Merda por merda, eu prefiro a merda de Paris” J OSÉ L EWGOY

tos! Esse processo todo durou uns oito meses! Sem a sua autorização, nada feito. Não bastava a do diretor do filme, Roberto Farias, que já tinha me autorizado. Daí resolvi radicalizar! Fui ver um show dele! Estava combinado com a produção que depois do show, ele me receberia no camarim. E fui, assisti ao show, notei discretamente que eu era, provavelmente, o mais jovem na platéia (risos)... o pessoal do iê-iê-iê tinha envelhecido! Acabado o show, havia umas 50 pessoas no camarim antes de chegar minha vez. Tudo muito organizado e profissional, com um fotógrafo registrando todos os encontros. Então, chegou a minha vez; ele, muito simpático,

GUE BRASILEIRO! EU SOU ESTRANGEIRO DE AVÔ, DE PAI, DE MÃE”. VOCÊ ACREDITA QUE ELE SE SENTIA DESCONFORTÁVEL VIVENDO NO

BRASIL?

Cláudio Kahns – Acredito que não, ele não estava desconfortável, digamos assim... Era o jeitão dele, ele gostava muito do Brasil, mas teve uma vida com momentos difíceis e em geral, com a idade, todos os que passaram alguns perrengues ficam meio ressabiados. Talvez Lewgoy fosse mais sensível e inseguro. Era meio reclamão, mas também era uma pessoa muito agradável, para quem tinha passado aquelas marolas, as conversas eram sempre muito divertidas e interessantes. JORNAL DA ABI – VOCÊ ERA AMIGO DELE E O ACOMPANHOU MUITO NO FIM DE SUA VIDA.

SE VOCÊ FOSSE UM DOS

PERSONAGENS DE SEU FILME, QUE DEPOIMENTO VOCÊ DARIA SOBRE J OSÉ

LEWGOY?

Cláudio Kahns – Boa pergunta! Procurei não ter uma participação maior no filme, pois o intento era contar sua vida através de pessoas que tinham muitas histórias para contar. Eu tinha também, algumas, mas achei Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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DEPOIMENTO ELE, JOSÉ LEWGOY

DIVULGAÇÃO

“José Lewgoy teve uma carreira mais ou menos limitada pelo fato de ele ser um ator trabalhando no cinema brasileiro”

JORNAL DA ABI – SEM PATROCÍNIO E LEIS DE INCENTIVO NÃO SE FAZ CINEMA NO

F ABIANO CANOSA

que não eram suficientemente boas para estarem no filme. Mas algo, de caráter muito subjetivo, também despertou meu interesse em produzir o filme: achava que o Lewgoy era muito discriminado, tinha muitos detratores; de alguma forma me identifiquei com isso e não me conformei. Como um sujeito com aquela trajetória era chamado de “chato”? As pessoas sumiam quando ele aparecia... esse tipo de coisa. Pensei comigo mesmo que algo estava errado. E resolvi ir contra a corrente. E acredito que acertei! Nesse processo de conhecimento confirmei que Lewgoy era alguém de muito valor. Era injusto ser discriminado dessa forma. Lewgoy me ligava, nos últimos anos, quase todos os dias e muitas vezes. Ai de mim se não o atendesse. Às vezes, como sabia que o telefonema duraria pelo menos vinte minutos, meia hora, realmente não poderia atendê-lo naquele preciso momento, mas ele mesmo assim, às vezes insistia em falar comigo... ficava bravo com quem atendia e não passava o telefonema! O que eu diria sobre ele? Sinto muita falta e, sobretudo, muita falta de seus telefonemas, pois trocávamos idéias e falávamos sobre tudo; muitas vezes de minhas idéias ou de meus projetos, ele contava que tinha ido jantar com não sei quem, ou tinha visto um filme tal, encontrado tal pessoa, enfim, suas histórias e sua presença, bem ou mal humorado, fazem uma falta danada! Sinto muitas saudades dele, sobretudo agora que o filme está saindo e vejo que em muitas matérias se homenageia o Lewgoy. Acho que ele adoraria estar aqui, vendo a repercussão do filme, todo mundo falando sobre ele e falando bem. JORNAL DA ABI – VOCÊ PODE NOS CONTAR ALGUNS DOS MOMENTOS EM QUE SE ENCONTRARAM ?

É VERDADE QUE, SÃO PAULO SÓ PARA ALMOÇAR CONTIGO? MUITAS VEZES, ELE VINHA PARA

Cláudio Kahns – É verdade! Ele vinha a São Paulo muitas vezes no fim de semana, em geral no domingo de manhã, chegava por volta do meio-dia, eu o pegava no aeroporto, íamos almoçar em geral no Arábia; ele gostava muito da comida de lá. Algumas

20 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

zindo mais filmes, mas grande parte desses filmes não está encontrando seu público, e isso não é bom. Precisamos ver como fazer para que isso mude! E logo!

José Lewgoy foi premiado como Ator Coadjuvante no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em 1995, por sua atuação no filme O Judeu, dirigido por Jom Tob Azulay.

vezes íamos à feirinha do Masp, ele sempre procurava gravuras japonesas, conhecia muito a arte japonesa, sabia quem eram os grandes artistas. Por vezes, acabava comprando uma ou outra gravura. Depois eu o levava de volta para o aeroporto. Uma vez me disse que ficava muito melancólico no Rio aos domingos, muitos amigos já tinham morrido e ele se sentia muito solitário. Nas últimas vezes que nos vimos, em geral para discutirmos alguma coisa sobre o filme, ele já estava com muita dificuldade de locomoção, íamos somente almoçar e eu o levava de volta para o aeroporto, nem íamos mais à feirinha... JORNAL DA ABI – COMO VOCÊ VÊ O MOMENTO DO CINEMA DE DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO? É MUITO DIFÍCIL ENCONTRAR SALAS E DATAS PARA EXIBIR FILMES COMO ESSE?

Cláudio Kahns – Muito! Neste momento, quase impossível! O filme foi finalizado em hd (highdefinition), isso significa que você tem aproximadamente 250 salas de cinema no Brasil que exibem o filme nesse formato. São poucos lugares numa mesma cidade. Acontece que, por exemplo, no lançamento em São Paulo, tivemos direito a... (faz uma pausa) duas sessões por dia! Às 16h e às 18h, numa sala apenas! Quase cancelei o lançamento quando soube que esse seria o “circuito”. Aliás, quase um “curto circuito!” Já esperava que o filme fosse lançado em uma sala, no máximo duas; mas ser exibido em apenas duas sessões é de-

primente! Então, acho que é preciso repensar essa questão do lançamento de documentários; como fazer isso de forma mais eficiente para permitir aos filmes realmente terem uma vida, encontrarem seu público, ficarem em cartaz por um tempo mínimo para quem tenha interesse e possa ir assistir. Esse filme é sobre um homem do cinema. É muito melhor vêlo numa sala de exibição do que depois na tv ou com um dvd. O envolvimento e a fruição são muito diferentes. É preciso rever essa questão das cotas de filmes nacionais. A produção aumentou muito, mas não há espaço para se exibir os filmes brasileiros. Ao mesmo tempo, um só filme blockbuster é exibido em 1.100 salas, metade do número de salas de todo o País! Talvez tenhamos que fazer como na Argentina, quanto mais salas um só filme é exibido, maior é a taxação, se não ficamos encurralados, como aconteceu com meu filme e como acontece neste momento com muitos outros filmes: não há espaço! Há espaço somente para alguns, geralmente ligados às majors ou à Globo Filmes... JORNAL DA ABI – E A EXPLOSÃO DOS FESTIVAIS DE CINEMA POR TODO O

PAÍS? É UMA SAÍDA PARA O CINEMA NACIONAL?

Cláudio Kahns – Tentei que o filme fosse ao Festival de Gramado e as pessoas que fazem a curadoria não quiseram... Então, não dá para se entender o critério de escolha. Acredito que

“Pena que não tenha escrito mais sobre o que viveu. Lia muito, escrevia bem e com graça. E poucos brasileiros teriam tanta coisa para contar quanto o nosso Levigói” L UIS FERNANDO V ERISSIMO

muitas vezes o lado pessoal, do relacionamento, conta mais do que o próprio filme. Se por acaso o sujeito que faz a seleção não gosta ou nutre alguma antipatia, corta o teu filme. E você vai reclamar... (pausa) pro bispo! Achei que seria uma bela homenagem exibir o filme em Gramado, mesmo numa sessão especial. Afinal o Lewgoy era um ilustre cidadão do Rio Grande do Sul... mas não quiseram! Vai entender, não é? Acho que há uma profusão de festivais Brasil afora, em geral positivos; estão difundindo nossos filmes. Mas os critérios das comissões de seleção e premiação talvez tenham que ser aprimorados, de forma mais impessoal; como disse, os festivais servem para promover os filmes, mas por si só não são uma saída para o cinema brasileiro. Quer dizer, estamos produ-

B RASIL?

Cláudio Kahns – Acredito que hoje o sonho de todo cineasta brasileiro é o de se libertar das leis de incentivo! A burocracia é infernal e muitas vezes sem nenhum sentido. A tradição cartorial brasileira pegou na veia do cinema! Exigem-se coisas e se é tratado como se todo cineasta fosse praticamente um meliante. Você já é culpado de cara, por estar usando recursos públicos! Posso te garantir que muita gente se afastou do cinema, sobretudo de minha geração pra cima, por conta das dificuldades encontradas para satisfazer os insaciáveis mecanismos burocráticos. A pessoa fica sem saco e abandona. Nisso se perdem muitos talentos e experiências, que poderiam estar contribuindo para fazer um cinema com mais conteúdo que, aliás, é a palavra da moda, inventada por algum publicitário. Cinema sem conteúdo não é cinema. Sinto que, de modo geral, os mecanismos de incentivo fiscal acabam premiando mais a capacidade de articulação política do que o talento. Na Europa e nos Estados Unidos a primeira coisa que te perguntam, quando você tem um projeto de filme, é quem é o diretor e querem ver o roteiro. Aí, continuam a conversa, ou não. Aqui é a última coisa! Aqui, o que interessa é saber quem é o patrocinador ou quanto vai custar o filme, ou quanto o cara que faz a intermediação vai levar de comissão! Tive várias experiências assim; em 50 contatos de patrocínio, apenas dois pediram o roteiro! Eu trabalho com minha produtora há 30 anos e nunca foi tão difícil fazer cinema! As exigências burocráticas parecem travar o processo de produção, que tem que ser necessariamente mais fluido! E, paradoxalmente, nunca no Brasil se teve tantos recursos para investir em produções na tv e no cinema; no audiovisual em geral. O que isso vai dar, não sei! Há alguns filmes muito bons sendo feitos, sem dúvida. Mas podia ser bem mais fácil fazer cinema por aqui. Temos que encontrar essa maneira. E não é dando esse poder aos distribuidores estrangeiros. E, com o aumento do mercado, com a nova legislação, o ideal é que se profissionalizem mais as decisões em função das idéias, do talento, da proposta, da criatividade, do estímulo, de certo protecionismo ao mercado interno e, principalmente, do conteúdo.


DEPOIMENTO

O jornalista LAURENTINO GOMES leva seu segundo Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não-Ficção, com 1822. Na construção de suas obras, que revisitam importantes períodos históricos do Brasil, o escritor lança mão de seus recursos de repórter. Apuração aprofundada e texto descomplicado são as suas receitas de sucesso. POR PAULO CHICO

DIVULGAÇÃO

Com inspiração nos apelidos com os quais são rebatizados os craques de futebol, não seria qualquer exagero considerar Laurentino Gomes um fenômeno. Sucesso de crítica e de público, o experiente jornalista tirou de letra a mudança de carreira. Depois de mais de 30 anos de atuação em Redações de jornais e revistas, redefiniu seus objetivos profissionais e mergulhou de cabeça no universo literário. Tudo isso sem renegar seu passado. A bem da verdade, no exercício da nova função, este paranaense de Maringá segue aproveitando ao máximo a experiência acumulada nos tempos de repórter e editor. Sua obra 1822, publicada pela Nova Fronteira, foi vencedora do Jabuti 2011, na categoria Melhor Livro-Reportagem. Na noite de entrega do prêmio, em 30 de novembro, o reconhecimento veio em dose dupla. 1822 abocanhou também o título de Livro do Ano de Não-Ficção. E não é a primeira vez que isso acontece. Em 2008, seu primeiro livro, 1808 (Planeta) ganhou ambas as distinções do Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. A história, que relata a fuga da Família Real portuguesa para o Brasil, também foi eleita o Melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras e permaneceu três anos consecutivos na lista dos livros mais vendidos de Portugal e do Brasil. Juntos, seus dois únicos títulos já somam mais de 1 milhão e 200 mil exemplares vendidos. É ou não é uma venda fenomenal? Apesar do evidente sucesso, Laurentino discorda da tese, defendida por alguns livreiros, de que tenha se tornado um Rei Midas do mercado editorial. “Já vi muitos autores, cantores e compositores fracassarem depois de uma ou duas obras bem-sucedidas. O que garante o sucesso de um livro-reportagem é a qualidade da pesquisa. Aliás, isso vale para todos os formatos de jornalismo. Um jornal pode publicar uma excelente edição e tornar-se irrelevante na seguinte. Da mesma forma, meus livros continuarão a fazer sucesso somente se eu conseguir produzir obras relevantes para os leitores”, afirma Gomes, que, a seu modo, explica a transformação profissional pela qual passou. “Nunca deixei de ser jornalista. Apenas mudei de formato. Antes escrevia para jornais e revistas. Agora faço livros-reportagem. No fundo, História e Jornalismo são disciplinas muito parecidas, quase gêmeas. Jornalistas testemunham e relatam a História a sangue quente, em tempo real. Historiadores fazem a mesma coisa, só que com um distanciamento maior no tempo e com mais método e disciplina na apuração. Jornalistas são historiadores do presente, enquanto os historiadores são os repórteres do passado”, explica Laurentino, que é membro titular da Academia Paranaense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. A seguir, sua entrevista.

Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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DEPOIMENTO LAURENTINO GOMES

JORNAL DA ABI – COMO O SENHOR RECEBEU A NOTÍCIA DA PREMIAÇÃO DE

1822 NO JABUTI 2011? AO ESCREVER A OBRA, ESPERAVA QUE ELA TIVESSE TAMANHA EXPRESSÃO EM VENDAS E JUNTO À CRÍTICA?

Laurentino Gomes – O Jabuti é uma consagração para o trabalho de qualquer escritor ou jornalista. É o mais importante e tradicional prêmio de Literatura do Brasil, entregue pela primeira vez em 1959. O processo de julgamento é demorado e rigoroso. Acho que também é o último dos três importantes estágios de provação pelos quais um livro bemsucedido tem de passar. O primeiro estágio é a satisfação do próprio autor com o resultado de seu trabalho. Às vezes, por alguma razão obscura, o livro não fica tão bom quanto o autor gostaria. Pode ser por falta de tempo, de espaço para o texto ou mesmo de inspiração. No meu caso, confesso que fiquei contente com o que escrevi. Com exceção de alguns poucos erros de revisão e checagem, eu não mudaria nada em meus livros. O segundo degrau de validação vem dos leitores. Se o livro não vende, por melhor que seja, é sempre um problema. Se vende, é porque os leitores gostaram do trabalho do autor, sentem que a obra tem alguma contribuição a dar em suas vidas e recomendam a leitura para outras pessoas. Isso, felizmente, ocorreu tanto com o 1808 quanto com o 1822. Por fim, há a avaliação dos críticos. Ela pode vir em forma de resenhas publicadas ou na forma de prê-

de formato. Antes escrevia para jornais e revistas. Agora faço livros-reportagem. Na essência, continuo a fazer jornalismo. No fundo, História e Jornalismo são disciplinas muito parecidas, quase gêmeas. Jornalistas testemunham e relatam a História a sangue quente, em tempo real, enquanto ela acontece. Historiadores fazem a mesma coisa, só que com um distanciamento maior no tempo e com mais método e disciplina na apuração. Jornalistas são, portanto, historiadores do presente, enquanto os historiadores são os repórteres do passado. JORNAL DA ABI – QUANTO ESSAS DUAS OBRAS VENDERAM ATÉ AGORA, EM QUANTAS EDIÇÕES?

Laurentino Gomes – Somados, os dois livros já venderam 1 milhão e 200 mil exemplares no Brasil e em Portugal. 1808 é o livro brasileiro que mais tempo permaneceu na lista dos mais vendidos da categoria não-ficção até hoje. São quase 200 semanas na lista. O recordista anterior era Estação Carandiru, do Dr. Dráuzio Varella, com 160 semanas. Sozinho, o 1808 já ultrapassou a marca dos 800 mil livros vendidos, em 27 edições consecutivas. O 1822 já chegou pelo menos à metade disso. São números surpreendentes em um País que tem a fama de ler pouco. JORNAL DA ABI – GOSTARIA QUE FALASSE UM POUCO DA SUA FORMAÇÃO EM

JORNALISMO E DE SUA PASSAGEM POR VEJA E ESTADO DE S.PAULO. EM QUE MEDIDA A PROFIS-

VEÍCULOS COMO

SÃO DE JORNALISTA DEFINIU OS RUMOS

A rigor, nunca deixei de ser jornalista. Apenas mudei de formato. Antes escrevia para jornais e revistas. Agora faço livros-reportagem. mios literários. Meus livros tiveram uma acolhida bastante generosa da crítica e isso se expressou nos prêmios que recebi. JORNAL DA ABI – O LIVRO 1808 TAMBÉM FOI PREMIADO DUPLAMENTE COM O JABUTI, EM

2008. O FATO DE GA2011, SIGNIFICA QUE ESTÁ SENDO CRIADA UMA ‘ESCOLA’ L AURENTINO G OMES SOBRE COMO FAZER LIVROS- REPORTAGEM ? SENTE O PESO DE, DE REPENTE, TORNAR-SE UMA REFERÊNCIA PARA PRÓXIMAS GERAÇÕES DE ESCRITORES? NHAR NOVAMENTE, EM

Laurentino Gomes – Essa “escola” a rigor não é minha. É da tradição do bom jornalismo e da boa reportagem. Portanto, vem sendo criada há muito tempo pelos grandes repórteres e editores que freqüentaram e ainda freqüentam as Redações. Toda a minha formação foi construída no jornalismo. A rigor, nunca deixei de ser jornalista. Apenas mudei

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DO LAURENTINO

GOMES ESCRITOR?

Laurentino Gomes – Fiz o curso de Comunicação Social – opção Jornalismo – na Universidade Federal do Paraná, turma de 1976. Trabalhei como repórter em dois jornais locais, Correio de Notícias e O Estado do Paraná. Em seguida, fui contratado pela sucursal da Agência Estado e, por fim, entrei na Editora Abril, na qual trabalhei durante 22 anos, quinze dos quais como repórter e editor da revista Veja. Como jornalista, trabalhei em todas as regiões do Brasil. De Curitiba, fui cobrir a Amazônia como correspondente da Veja em Belém do Pará. Em seguida, morei no Recife, em Brasília e, finalmente, São Paulo. Fui editor de Cidades e Política no Estadão e de Geral no Jornal da Tarde. Na Veja fui editor-executivo e chefe da rede de sucursais. Essa experiência jornalística me deu uma visão única do País em que vivemos. Conheci de perto as diferentes realidades regionais deste território imenso e diverso, cujas raízes históricas hoje procuro explicar nos meus livros. JORNAL DA ABI – EM SUA TRAJETÓRIA DE REPÓRTER E EDITOR, OS TEMAS HISTÓRICOS JÁ MARCAVAM PRESENÇA CONSTANTE EM SUAS PAUTAS?

Laurentino Gomes – No Jornalismo sempre gostei muito da editoria de Geral. É a área menos especializada das Redações, mas a que permite ao repórter ou ao editor tratar de assuntos muito variados. A pauta é a mais ampla possível. Inclui Educação, Saúde, Ciência, Turismo, Comportamento, Cidades e, é claro, História. Como jornalista, publiquei muitas matérias sobre História, mas essa foi sempre a grande paixão paralela na minha vida. Sempre li muito sobre o tema. Em 2007, o que era um hobby virou assunto sério. Recebi a missão de preparar um especial sobre 1808 e a vinda da Família Real portuguesa para o Brasil. Era parte de um projeto editorial da revista Veja, onde eu trabalhava como editor-executivo. O projeto foi cancelado e decidi seguir adiante por minha própria conta, publicando um livro-reportagem sobre o assunto. Isso mudou por completo minha vida desde então. JORNAL DA ABI – O SENHOR TEVE TAMBÉM PASSAGEM POR CARGO DE DIREÇÃO NA EDITORA ABRIL. EM QUE MEDIDA A BUROCRÁTICA EXPERIÊNCIA DE EXECUTIVO FOI DECISIVA PARA SEU MERGULHO NO UNIVERSO LITERÁRIO ?

Laurentino Gomes – Trabalhei como repórter e editor de jornais e revistas por mais de três décadas, mas fui também diretor superintendente de áreas de negócios da Editora Abril durante alguns anos. Decidi me tornar um executivo de negócios para entender melhor como funcionavam as outras áreas de uma empresa de comunicações, além da editorial. Áreas como assinaturas, circulação avulsa, publicidade, gestão de recursos humanos e operações gráficas, que compõem o universo das comunicações, mas nem sempre foram entendidas corretamente pelos jornalistas. Para isso, fiz cursos de Marketing, Finanças e um MBA, mestrado em Gestão de Negócios, na Universidade de São Paulo. Essa experiência foi fundamental na minha nova carreira no mercado editorial de livros. Apliquei nessas obras não apenas o conhecimento editorial, que eu adquirira nas Redações, mas também as lições de marketing, impressão e distribuição, que aprendi como executivo. Participei, junto com as editoras, dos planos de divulgação dos dois livros. Contratei uma assessoria de imprensa. E botei o pé na estrada para ajudar a vender minhas obras. JORNAL DA ABI – O SENHOR SE CONSIDERA UM JORNALISTA-ESCRITOR, OU UM ESCRITOR QUE UTILIZA TÉCNICAS DE JORNALISMO EM SUAS OBRAS? É UM EQUÍVOCO, POR EXEMPLO, CLASSIFICAR SEUS LIVROS COMO GRANDES REPORTAGENS?

Laurentino Gomes – Sou um jornalista-escritor. Meu objetivo é sempre contar a História do Brasil pela ótica da reportagem, em

Participei, junto com as editoras, dos planos de divulgação dos dois livros. Contratei uma assessoria de imprensa. E botei o pé na estrada para ajudar a vender minhas obras. linguagem acessível para um leitor comum não habituado à historiografia acadêmica. Procuro construir um mosaico do que eram o mundo, Portugal e o Brasil duzentos anos atrás. O método de apuração também é jornalístico. Não me limito a pesquisar os livros e fontes tradicionais. Vou aos locais dos acontecimentos de dois séculos atrás, mostrando como estão hoje. Durante a pesquisa do livro 1822, por exemplo, fui à Bahia assistir à festa do Dois de Julho, data da expulsão das tropas portuguesas de Salvador, em 1823. Também fui ao Município de Campo Maior, no Piauí, local do maior confronto da Independência, a Batalha do Jenipapo, travada no dia 13 de março de 1823. Foi um massacre em que morreram entre 200 e 400 brasileiros, contra apenas uma dúzia de portugueses. Preocupo-me também em atualizar valores da época, fazer comparações e dar exemplos. Por fim, tento decifrar a dimensão humana escondida sob a carapaça dos heróis e personagens históricos. Tudo isso ajuda a facilitar a compreensão do leitor. JORNAL DA ABI – FALTA ESPAÇO PARA A REPORTAGEM DE FÔLEGO E PROFUNDIDADE NOS JORNAIS E REVISTAS BRASILEIROS? A OPÇÃO POR ESCREVER LIVROS FOI, DE CERTA FORMA, UM CAMINHO PARA AMPLIAR SUA PRODUÇÃO TAMBÉM COMO REPÓRTER?

Laurentino Gomes – Um livro oferece a possibilidade de um mergulho mais profundo na reportagem, com pesquisa mais demorada, um texto maior e mais bem trabalhado. Mas acho que esse formato não exclui os tradicionais, como revistas, jornais, televisão e rádio. É apenas mais uma alternativa de oferecer às pessoas informação e cultura. Estamos em um novo século que pede uma nova linguagem e novos formatos capazes de atingir novas audiências ou novos públicos. Daqui para frente, nós – jornalistas, escritores e editores – precisamos estar cada vez mais atentos às mudanças tecnológicas e às oportunidades de desenvolver novos formatos. Por essa razão, além de escrever livros com cerca de 400 páginas, também uso o Twitter para tratar de História do Brasil. E ali o tamanho máximo do texto é de apenas 140 toques! JORNAL DA ABI – FAZER JORNALISMO, POR CERTO, É CONTAR HISTÓRIAS. MAS PODE SER, TAMBÉM, ‘PRODUZIR’ HISTÓRIA, GERAR REGISTROS PARA O FU-

TURO? ACHA QUE SEUS LIVROS CUMPREM ESSE PAPEL?

Laurentino Gomes – Procuro aplicar nos meus livros o conhecimento e a experiência adquiridos como jornalista. Na essência, a pesquisa de um escritor para escrever um livro sobre História do Brasil é muito semelhante ao trabalho de reportagem. É preciso ler muito, consultar documentos, confrontar diferentes fontes de informação na tentativa de chegar o mais próximo possível da verdade. Uso a linguagem e a técnica jornalísticas para tornar História um tema acessível e atraente para um público mais amplo, não habituado ao estilo árido e, às vezes, incompreensível dos livros acadêmicos. Portanto, tento servir de filtro entre a linguagem especializada da academia e o leitor médio. O estilo do 1822 é muito semelhante ao do 1808: capítulos curtos, pequenos perfis dos personagens e linguagem acessível. Tudo para facilitar a compreensão do leitor. O que procuro demonstrar com os meus livros é que a História pode ser fascinante, divertida e interessante, mas sem ser banal. JORNAL DA ABI – ALÉM DO SENHOR, OUTRO AUTOR DE SUCESSO NESTE GÊNERO, NO BRASIL, É EDUARDO BUENO, QUE TRAZ, EM SUAS OBRAS, UMA ABORDAGEM HISTÓRICA REPLETA DE HUMOR. HÁ, DE FATO, UM BOOM NO MERCADO BRASILEIRO, E ATÉ INTERNACIONAL, DE LIVROS QUE TRATAM DE HISTÓRIA? O QUE ISSO REVELA SOBRE OS ANSEIOS E DESEJO DOS LEITORES?

Laurentino Gomes – Acredito que as pessoas estão lendo livros de História em busca de explicações para o Brasil de hoje. Depois do fim do regime militar, alimentamos algumas ilusões a respeito deste País. Acreditamos por algum tempo que todos os problemas se resolveriam mediante passes de mágica, como a convocação de uma Constituinte, a eleição de um presidente populista como Fernando Collor, a adoção de pacotes econômicos, medidas provisórias e assim por diante. Hoje, as pessoas estão chocadas com a dificuldade de seguir em frente. É difícil construir o futuro num país com tantas desigualdades sociais, uma herança de analfabetismo e escravidão, e tantas diferenças regionais e culturais. Estudar História ajuda a entender o Brasil de hoje. Por isso vejo com grande alegria o fato de tantos livros sobre o tema freqüentarem as listas de best-sellers. Uma sociedade que não estuda História não consegue entender a si própria, porque desconhece as razões que a trouxeram até aqui. E, se não consegue entender a si mesma, provavelmente também não estará preparada para construir o futuro de forma organizada e estruturada. Se você não sabe de onde veio, como saberá para onde vai? O estudo de Histó-


DIVULGAÇÃO

ria é, portanto, fundamental para a construção do Brasil do futuro. JORNAL DA ABI – COM BASE EM SUAS DUAS OBRAS – 1808 E 1822 – QUAL ACREDITA SER A FIGURA HISTÓRICA BRASILEIRA MAIS INJUSTIÇADA? OU, AO CONTRÁRIO, AQUELA QUE, APESAR DE SEMPRE IDOLATRADA NOS LIVROS, NÃO POSSUI TANTOS FEITOS OU MÉRITOS ASSIM?

Laurentino Gomes – Um personagem do passado que me fascina é José Bonifácio de Andrada e Silva, um homem cosmopolita, hábil, bem preparado, de idéias muito avançadas para o seu próprio tempo. Tinha uma noção muito clara do que fazer com o Brasil em 1822. Graças a ele o País se manteve unido em torno da coroa num momento em que os riscos de fragmentação territorial e guerra civil eram enormes. O Patriarca passou para a história como um homem sisudo e austero. É uma imagem equivocada. Boêmio e bom de copo, costumava terminar as madrugadas dançando lundu – dança típica do Brasil colonial – em cima de uma mesa. Prendia o cabelo em forma de rabo-de-cavalo na nuca. Nas cerimônias e ocasiões importantes escondia o rabicho sob a gola da jaqueta. Era poeta e bom contador de histórias. Como Dom Pedro, amava as mulheres e teve inúmeras amantes que lhe deram dois filhos bastardos. Manejava bem uma espada e havia rumores de que havia matado quatro homens em duelo. Quanto ao personagem inflacionado, esse fica para meu próximo livro, 1889. É o Marechal Deodoro da Fonseca. Ele tem um papel mais simbólico, de figurante, do que de protagonista na proclamação da República. Liderou meio a contragosto um golpe militar que depôs o Imperador Pedro II, de quem se dizia amigo pessoal. Suas convicções, até as vésperas da proclamação, eram mais monarquistas do que republicanas. JORNAL DA ABI – UM DOS DESAFIOS DO EXERCÍCIO DO JORNALISMO É A APURAÇÃO, EM CONSTANTE CONFRONTO COM A HORA DO FECHAMENTO. NA FEITURA DE UM LIVRO, CERTAMENTE TEMSE MAIS TEMPO PARA ESSA TAREFA. MAS IMAGINO QUE SEJAM GRANDES AS DIFICULDADES DE APURAÇÃO E PESQUISA PARA OBRAS QUE ABORDAM PASSAGENS

HISTÓRIA DE DOIS SÉCULOS ATRÁS. COMO CONTORNA ESSES OBSTÁCULOS? EM QUE MEDIDA SUA EXPERIÊNCIA COMO JORNALISTA O AJUDA NESSAS TAREFAS? DA

Laurentino Gomes – O processo de apuração e fechamento de um livro é semelhante ao de uma Redação, só com prazos mais alongados. O segredo da boa reportagem está no planejamento. Jornalista que não se planeja corre dois riscos opostos: ou trabalha demais ou trabalha de menos. Se você vai para a rua sem saber se a sua matéria será reportagem de capa, de apenas uma página, ou uma coluna de uma

revista, acaba apurando mais informação do que deve, ou voltando para a Redação com menos material do que o necessário. Aprendi isso a duras penas nesses 30 anos de carreira. Ao começar a escrever um novo livro, eu planejo com detalhes todos os passos da pesquisa: quantos e quais livros terei de ler, quem poderá me dar orientação sobre o tema, quais lugares visitarei, quanto tempo cada uma dessas etapas do trabalho vai exigir. Para fazer o próximo livro, o 1889, já tenho pela frente uma bibliografia de mais de 150 livros sobre o Segundo Reinado e a proclamação da República. Estabeleci um prazo de um ano e meio para lê-los. Em seguida, mais seis meses para escrever e outros três meses para editar o livro. E, em geral, cumpro esses prazos à risca. JORNAL DA ABI – POR QUE ESCOLHEU ESSA LINHA EDITORIAL DE REVISITAR PERÍODOS CONTROVERSOS DA

HISTÓ-

RIA NACIONAL? A VERSÃO OFICIAL DOS FATOS

– COM SEUS ‘FUROS’ E ‘DETUR-

PAÇÕES’ – FOI ALGO QUE SEMPRE O INCOMODOU?

Laurentino Gomes – É quase impossível compreender o Brasil de hoje sem estudar a vinda da Corte de D. João para o Rio de Janeiro, em 1808, e a influência decisiva que esse acontecimen-

A corrupção no Brasil tem raízes históricas óbvias. É resultado da forma pela qual o Estado brasileiro foi construído, sempre de cima para baixo, sem participação do conjunto da sociedade. to teve na Independência, em 1822. Eu diria que todas as nossas características nacionais, todos os nossos defeitos e virtudes, já estavam presentes lá. A corrupção no Brasil, por exemplo, tem raízes históricas óbvias. É resultado da forma pela qual o Estado brasileiro foi construído, sempre de cima para baixo, sem participação do conjunto da sociedade. Herdamos do período colonial um país dominado pelo latifúndio, pela concentração de riquezas, pelo analfabetismo e pela escravidão. Quando a Corte portuguesa chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, a maioria da população vivia mergulhada na pobreza e no isolamento. Essa multidão de excluídos nunca foi chamada a participar do processo de construção nacional e, aparentemente, nem estava habilitada a fazê-lo. Essa tarefa coube a um Estado forte, centralizado, que distribuía oportunidades nos

te, conseguindo distribuir renda, emprego, saúde, educação e outras oportunidades. Há novos consumidores, novos leitores e novos estudantes participando desse processo de ascensão social. Temos de ser generosos com eles produzindo livros, aulas e material didático acessíveis na linguagem. O uso de uma linguagem mais didática e acessível é uma forma de democratizar e ampliar o conhecimento no Brasil.

negócios públicos, títulos de nobreza e outros benefícios que incluíam educação, saúde e segurança de acordo com as conveniências de quem estava no poder. O Estado forte sempre foi permeável à corrupção porque tinha de ser seduzido por aqueles que dele dependiam. Esse período funciona, portanto, como o nosso dna, o código genético, e ajuda a explicar o que somos hoje. JORNAL DA ABI – QUANDO

JORNAL DA ABI – É POSSÍVEL NOS ADIANTAR MAIS ALGUMA COISA SOBRE 1889, SEU PRÓXIMO LIVRO?

E COMO O SENHOR TEVE SEU INTERESSE DESPERTADO PELA

HISTÓRIA ? ALGUM PROFESSOR TEVE PAPEL ESPECIAL NESTE PROCESSO?

Laurentino Gomes – Felizmente, tive bons professores de História no ensino fundamental e médio, mas acho que a principal influência é anterior à escola. Eu me considero um bom exemplo das transformações que a educação e a leitura podem proporcionar na vida das pessoas. Meus pais eram cafeicultores pobres em Maringá, no interior do Paraná. Tinham poucos anos de estudo. Apesar disso, valorizavam muito a educação e, em especial, a leitura. Meu pai, que havia estudado só até o quinto ano primário, era um leitor voraz. Lia obras de História e Filosofia que tomava emprestadas ao pároco local. Como resultado dessa vivência familiar, eu também me tornei um leitor voraz. Desde muito cedo lia tudo o que chegava às minhas mãos: gibis, bulas de remédio, jornais velhos, revistas de consultórios e, claro, muitos livros. Esse interesse também me levou ao Jornalismo. JORNAL DA ABI – COMO ESCOLHE OS EPISÓDIOS OU FATOS HISTÓRICOS A SEREM ABORDADOS EM SUAS OBRAS? A PARTIR DESTE MOMENTO, COMO GERENCIA O PROCESSO DE PRODUÇÃO? CONTA COM ALGUMA EQUIPE DE APOIO?

Laurentino Gomes – Pesquiso sempre sozinho, sem equipe de apoio. Só assim é possível encontrar aquela “pepita” que pode mudar todo o curso de um capítulo ou mesmo do livro. Procuro sempre observar os personagens e acontecimentos com os olhos de um leitor adolescente ou um adulto mais leigo, não habituado a ler sobre História do Brasil. Se esse leitor conseguir entender o que eu tento explicar, todos os demais também entenderão. É preciso ler muito, consultar documentos, confrontar diferentes fontes de informação na tentativa de chegar o mais próximo possível da verdade. JORNAL DA ABI – QUAL É A SUA OPINIÃO A RESPEITO DA DERRUBADA DA EXIGÊNCIA DO DIPLOMA DE JORNALISMO PARA O EXERCÍCIO DA PROFISSÃO? ELA

NÃO ALTERA NADA OU AGRAVA O QUADRO JÁ DEFICIENTE DA FORMAÇÃO DESSES PROFISSIONAIS?

Laurentino Gomes – A discussão sobre a exigência de diploma para jornalistas e o fim da Lei de Imprensa são dois temas que mobilizaram muito as Redações nos últimos tempos, mas na prática são irrelevantes para o futuro da nossa profissão. Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, mas não diria que devo ao diploma o que realmente aprendi na profissão. Ao contrário. Quase tudo o que sei hoje veio da convivência com os editores e colegas de Redações e da prática da reportagem. Portanto, a exigência do diploma não vai definir, de forma automática, o sucesso ou o fracasso do jornalismo daqui para frente. Mais importante do que o diploma será a qualidade dos cursos de Comunicação, que hoje, em muitos casos, está muito abaixo do razoável, e a capacidade das próprias empresas de recrutarem e treinarem seus profissionais. E também da disposição de cada jornalista de estudar, trabalhar e se aprimorar na carreira. Quanto à Lei de Imprensa, acho que é uma herança torta da época do regime militar. Não precisamos dessa lei porque todos os crimes de imprensa já estão previstos no Código Penal, em especial os de injúria, calúnia e difamação. JORNAL DA ABI – EM LINHAS GERAIS, COMO VÊ O ENSINO DA HISTÓRIA NAS ESCOLAS?

Laurentino Gomes – Tenho observado uma mudança na atitude dos professores e das escolas em geral. Estão mais empenhados em usar uma linguagem acessível aos estudantes e, no caso da História, uma narrativa mais equilibrada dos acontecimentos do passado. Isso é muito bom. O Brasil vive um momento importantíssimo de mudanças, com a redução do número de pessoas que viviam na pobreza absoluta e o crescimento das classes B e C. Significa que estamos, finalmen-

Laurentino Gomes – Ele será sobre o Segundo Reinado e a proclamação da República. Essa é uma idéia que foi ganhando corpo desde o lançamento do meu primeiro livro. O objetivo é fechar uma trilogia com datas que explicam a construção do Brasil durante o século XIX, ou seja, 1808, ano da chegada da corte de Dom João ao Rio de Janeiro, depois 1822, data da Independência, e por fim 1889, que marca a proclamação da República. O estudo dessas três datas é fundamental para entender o Brasil de hoje. Estou no começo das pesquisas para o 1889. O plano é lançá-lo em 2013, mas pretendo me manter fiel à fórmula que consagrou as duas obras anteriores, ou seja, pesquisa aprofundada aliada a uma linguagem jornalística acessível, fácil de entender. JORNAL DA ABI – FOI RECENTEMENTE APROVADA A CRIAÇÃO DA COMISSÃO DA VERDADE, QUE TERÁ O INTUITO DE LEVANTAR DADOS E FATOS ARBITRÁRIOS OCORRIDOS DURANTE AS DITADURAS MILITARES NO BRASIL NO SÉCULO PASSADO. COMO JORNALISTA E ESCRITOR, QUAL A IMPORTÂNCIA DESSA AÇÃO?

O ESTADO NOVO

DE GETÚLIO E A DITADURA PÓS-1964 NÃO SERIAM PERÍODOS FÉRTEIS PARA A PRODUÇÃO DE LIVROS-REPORTAGEM?

Laurentino Gomes – Como jornalista, sou a favor da investigação de todos os episódios nebulosos na História do Brasil, especialmente aqueles que envolvem o interesse público, como é o caso das perseguições durante as ditaduras. Obviamente, isso tem de ser feito com critério e muita prudência para não provocar sobressaltos políticos desnecessários num momento em que o Brasil vive uma experiência prolongada e bem-sucedida no exercício da democracia. Estado Novo e Ditadura Militar são excelentes temas para livrosreportagem, mas já existem obras de excelente qualidade, feitas por jornalistas. É o caso da série sobre a Ditadura Militar escrita pelo meu ex-editor Élio Gaspari. É a melhor pesquisa sobre o tema realizada até agora. E duvido que alguém consiga superá-la tão cedo. Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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Liberdade de imprensa

A morte do cinegrafista Gelson aviva um debate: como evitar tragédias nas coberturas de risco A Polícia propõe, entre outras medidas, restrições ao trabalho dos repórteres. FERNANDO QUEVEDO/AGÊNCIA O GLOBO

A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro anunciou seu propósito de discutir com os sindicatos de jornalistas e cinegrafistas novos métodos de atuação da imprensa na cobertura de operações policiais, para estabelecer o limite ideal entre a segurança e o livre exercício da profissão. A medida foi anunciada um dia após a morte do cinegrafista Gelson Domingos, da Rede Bandeirantes, abatido por um tiro de fuzil no domingo 6 de novembro, quando cobria uma operação policial na favela de Antares, na Zona Oeste da capital. Na visão do Coronel Erir Ribeiro da Costa Filho, Comandante-Geral da PMRJ, os jornalistas devem obedecer às instruções dos policiais e não ultrapassar os limites determinados: “Vamos tentar reunir os sindicatos dos cinegrafistas e dos jornalistas para ter um critério de segurança. Quando um policial falar ‘daqui não pode passar’, que eles entendam e, por segurança, obedeçam a orientação”. O Coordenador de Comunicação Social da PM-RJ, Coronel Frederico Caldas, acrescentou que a palavra “limite” tem conotação preocupante para a mídia, mas reiterou a necessidade do debate. “É um momento importante para que os profissionais de imprensa reflitam sobre o seu papel”, disse. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro vê com bons olhos a discussão. “Precisamos repensar como a cobertura é feita”, disse a Presidente do Sindicato, Suzana Blass. “O repórter não pode ficar em igualdade

O repórter Ernani Alves, da Band, se desespera quando vê seu colega, o cinegrafista Gelson Domingos baleado durante uma cobertura da ação da polícia na favela do Antares em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

de condições com o policial, que está na linha de tiro”. Marcelo Moreira, Diretor do International News Safety Institute-INSI da América Latina, acredita que o limite deve ser decidido pelo próprio jornalista: “A

Colete sozinho não protege O uso de coletes à prova de bala é insuficiente para proteger os jornalistas nas coberturas em que haja troca de tiros, salientou a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI em declaração em que lamentou a morte do jornalista Gelson Domingos. “É preciso buscar, efetivamente, além desse equipamento de segurança, alternativas que possam garantir a vida de jornalistas em coberturas nas zonas de guerra do tráfico”, adverte a declaração da ABI. Firmada por seu Presidente, jornalista Lenin Novaes, à declaração da Comissão foi anexada nota em que um dos seus membros, jornalista Alcyr Cavalcanti, faz reparos à política de segurança pública do Estado do Rio. Disse a Comissão nesse pronunciamento: “A Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa-ABI manifes-

26 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

ta profunda consternação pela morte do repórter-cinematográfico Gelson Domingos, de 46 anos, da TV Bandeirantes, baleado no peito por um tiro de fuzil que atravessou o colete à prova de bala, no exercício da atividade profissional, quando cobria confronto entre policiais militares e traficantes, ocorrido na favela Antares, no bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste da Cidade do Rio de Janeiro, na manhã deste dia 6 de novembro, domingo. Outras quatro pessoas morreram. Na expressão do repórter Ernani Alves, seu companheiro de equipe, avaliando ser “o dia mais triste da minha vida porque saí com um amigo para trabalhar e não retorno para a emissora com ele”, reside a sensação de aflição de parentes de jornalistas que trabalham em coberturas policiais nas favelas e morros do Rio de Janeiro. A morte do repórter-cinematográfico Gelson Domingos nos permite concluir

imposição de limites deve ser uma norma do repórter. Nenhuma cobertura vale a vida de um jornalista, mas não é a Polícia que vai determinar se a imprensa vai fazer aquele trabalho ou não. O trabalho do jornalista é informar”.

Fernando Rodrigues, Presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-Abraji, defende outro tipo de discussão: “O jornalista deve ser municiado por informações para ter capacidade de co-

que colete à prova de bala não protege a vida dos profissionais de imprensa nos constantes e violentos tiroteios entre policiais militares e traficantes de drogas. É preciso buscar, efetivamente, além desse equipamento de segurança, alternativas que possam garantir a vida de jornalistas em coberturas nas zonas de guerra do tráfico. É reconhecido o esforço do Governo estadual na tentativa de combate ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro, inclusive implantando Unidades Pacificadoras de Policiamento-UPPs em morros e favelas. No entanto, é do conhecimento da opinião pública o envolvimento cada vez maior de policiais militares com traficantes de drogas, também na formação de organizações criminosas, como as milícias que dominam e exploram muitas áreas habitadas por pessoas carentes, vivendo à margem da pobreza, exigindo saneamento básico (rede de água e de esgoto, calçamento de ruas e iluminação), e em difíceis condições de saúde, educação, habitação, cultura e lazer.

A conjuntura de segurança no Rio de Janeiro, com a constatação da violência se expandindo para os Municípios do interior, vem moldando novo comportamento da população, refugiada cada vez mais em seus lares, temerosa de circular livremente e de participar de atividades culturais e recreativas, principalmente à noite. A saída voluntária do Deputado estadual Marcelo Freixo do Rio de Janeiro para o exterior, a convite da Anistia Internacional, depois de sofrer várias ameaças de morte, mesmo tendo segurança por conta de sua atuação na Asssembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, onde presidiu a CPI da Milícia, ilustra a situação da falta de segurança. A Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa exige que o Governo estadual se empenhe em prender o autor do disparo que matou o repórter-cinematográfico Gelson Domingos o mais breve possível e que ele seja levado a julgamento. Rio de Janeiro, 6 de novembro de 2011.”


REPRODUÇÃO

nhecer o grau de risco de determinada situação. Mais importante que discutir a criação de uma área de exclusão para jornalistas é debater os procedimentos que devem ser adotados para garantir a integridade física do profissional.” Ocupação Policiais militares do Batalhão de Operações Especiais-Bope, do Batalhão de Choque e do 2º Comando de Policiamento da Capital (2º CPA) e do 27º Batalhão (Santa Cruz) ocuparam a favela de Antares, na Zona Oeste, onde morreu o cinegrafista Gelson Domingos, de 46 anos, durante a cobertura de uma operação policial. Nove pessoas presas na ação foram apresentadas no dia 7, na Divisão de Homicídios da Capital, que investiga o caso, localizada na Barra da Tijuca. Em entrevista à BBC, Patrick Wilcken, representante da Anistia Internacional em casos relacionados com o Brasil, disse que a morte de Gelson “foi uma tragédia” que reforça as críticas da organização “às operações militarizadas no Rio”. Wilcken disse que elas põem em risco a vida dos moradores das comunidades invadidas pela polícia e também dos jornalistas. “É preciso questionar esse tipo de estratégia. O Rio de Janeiro já mostrou ao mundo com as UPPs que existem alternativas de combate à violência”, afirmou. Colete impróprio O corpo de Gelson Domingos foi velado no Memorial do Carmo, no Caju, onde foi sepultado às 14h do dia 7 de novembro. Nota da Secretaria de Saúde do Estado do Rio informou que Gelson foi atingido no peito por uma bala de fuzil que atravessou o colete que ele estava usando. A nota diz ainda que o cinegrafista chegou morto, às 7h40min, à Unidade de Pronto Atendimento, para onde foi levado por policiais militares para ser socorrido. Os companheiros de Gelson admitiram que ele poderia ter sobrevivido ao tiro se o colete que usava fosse de outra qualidade, adequado à hipótese de ser alvejado por disparo de fuzil. Informação então divulgada deu conta de que as Forças Armadas não liberam o uso de colete mais resistente, informação que nenhuma fonte militar contestou. Profissional premiado Quando trabalhava na antiga TV Educativa, do Rio de Janeiro, Gelson Domingos conquistou há dez anos o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, com a reportagem Pistolagem, sobre assassinatos no Nordeste. Ele trabalhou também na Record e no SBT. Casado com Edilene Domingos, 40 anos, deixou três filhos e dois netos.

O quadro-a-quadro da agressão a Monalisa Perrone: A primeira imagem registra o momento da invasão, quando dois elementos correm aos gritos em direção à repórter; ela ainda não percebe o perigo. Em seguida, um homem de camisa verde tenta agarrar os agressores numa ação de defesa à jornalista. O primeiro agressor é um brutamonte que abre espaço para um segundo elemento logo atrás dele. Abaixo, o primeiro quadro mostra o exato momento em que a jornalista se assusta ao sentir a aproximação dos agressores. Ela vira o rosto para ver o que acontece e, finalmente, é empurrada pelo agressor. Logo o segundo elemento surge gritando para a câmera e conhece seus cinco segundos de fama em rede nacional.

Agressores de repórter podem ser processados Vândalos do Merdtv vão responder pela agressão à jornalista Monalisa Perrone quando fazia matéria no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Depois que sua repórter Monalisa Perrone foi agredida durante uma reportagem ao vivo para o telejornal Hoje em frente ao hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde se encontrava internado o ex-Presidente Lula, a Rede Globo anunciou durante o SPTV, em sua edição do dia 31 de outubro, que registrou boletim de ocorrência e poderá processar o grupo responsável pela violência. A ABI divulgou nota de repúdio à ação dos agressores, classificada como “deplorável” e um “ato de vandalismo” e de agressão à liberdade de imprensa. Monalisa foi empurrada quando informava sobre o estado de saúde do ex-Presidente, internado no hospital para tratamento de um câncer na laringe. Em comunicado, a Central Globo de Comunicação identificou o grupo agressor , apontandoo como formado por “pessoas cujo propósito é aparecer ”: “Não é a primeira vez. Como houve agressão, a TV Globo estuda que medidas legais tomar.” Após o susto, Monalisa ainda voltou ao ar para tentar contornar a situação: “Levei um susto enorme, estou tremendo, não sei se consigo falar direito. Em 20 anos de televisão isso nunca me aconteceu, um desrespeito enorme. Mas enfim, televisão ao vivo é isso mesmo.” Em seguida ela passou o microfone para o repórter José Roberto Burnier concluir as informações interrompidas no momento da agressão. O grupo denominado “Merdtv”, que assumiu a responsabilidade pelo ato, ten-

tou pedir desculpas à repórter através de um texto postado em seu blog. Com diversos erros de português e redação primária, como todos os que estão postados no site, o texto diz o seguinte: “Primeiramente queremos muito pedir desculpas a repórter Monalisa Perrone. Foi um acidente de trabalho, fomos empurrados pelos próprios seguranças da Rede Globo e acabamos esbarrando na repórter sem querer, sem intenção de ferir ou remove-la de cena. Nossas Sinceras desculpas”. No blog, onde não há o nome de um responsável, o grupo se autoproclama a “Revolução contra a Rede Globo de Televisão, que destrói cada dia mais os jovens brasileiros” e procura ganhar fama através de ações pueris e agressivas durante links ao vivo da emissora. Em abril, o mesmo grupo protagonizou situação semelhante em frente ao mesmo hospital, durante boletim ao vivo com o repórter Jean Raup sobre o estado de saúde do ex-Vice-Presidente José Alencar. Ainda em outubro, os vândalos também invadiram outras duas transmissões ao vivo, em São Paulo. Solidariedade

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão-Abert publicou comunicado no qual afirma que “A tentativa de intimidar jornalistas e impedir a divulgação de informações deve ser sempre rechaçada por todos aqueles que defendem a liberdade de expressão como um dos fundamentos de uma sociedade democrática.”

Em nota assinada pelos jornalistas Rodolfo Konder e James Akel, a Representação da ABI em São Paulo também manifestou solidariedade à repórter e repúdio aos autores da agressão: “A ABI de São Paulo, estarrecida com o ato de vandalismo contra a jornalista Monalisa Perrone durante sua participação ao vivo no jornal Hoje, vem prestar solidariedade à jornalista e à direção de jornalismo da Globo, num momento tão delicado onde vândalos agridem a liberdade de imprensa e o trabalho do jornalista. Jamais, em tempo algum, ato de agressão física é aceito por qualquer motivo que seja. Debates e diferenças de idéias devem ser mostrados em discussões civilizadas e com o mínimo de dignidade. O ato de agredir publicamente um jornalista no desempenho de sua profissão e da informação livre ao povo é o mais baixo de todos os atos, que deve ser punido como tortura contra a pessoa, que foi o que realmente aconteceu, além de ameaça direta e pública contra o povo livre. A ABI já viveu momentos de defesa da liberdade de imprensa contra as torturas e ameaças de violência contra a liberdade de idéias nos momentos mais tristes do Brasil. Exatamente por isso não podemos deixar de passar este momento de agressão à mídia e à imprensa sem prestarmos solidariedade à Rede Globo e repulsa a todos aqueles que agridem moral e fisicamente a liberdade.” Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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Direitos humanos MUNIR AHMED

P OR V ERÔNICA C OUTO A criação da Comissão Nacional da Verdade e a instituição da Lei de Acesso a Informações Públicas são passos importantes para recuperar um atraso histórico e saldar o passivo nacional na área dos direitos humanos e da transparência política, mas especialistas assinalam em ambos os atos a existência de inúmeros aspectos preocupantes, entre eles a impossibilidade de punir os crimes contra os direitos humanos durante a ditadura militar, no caso da Comissão, e a falta de representantes da sociedade civil ou de entidades independentes na equipe que vai classificar o grau de confidencialidade dos documentos e seu período de sigilo. As duas leis foram sancionadas pela Presidente Dilma Rousseff no dia 18 de novembro, mas o lançamento da Comissão da Verdade, no dia seguinte, já expôs as contradições e fissuras que cercaram toda a elaboração e tramitação da lei. A filha do ex-Deputado Rubens Paiva, desaparecido político no regime militar, convidada a discursar na cerimônia de formalização da Comissão, não pôde falar. Seu discurso, no entanto, circulou pelas redes sociais acompanhado de críticas indignadas de ativistas de direitos humanos. “Não fui desconvidada, simplesmente não falei! À minha volta, diziam que a Presidente Dilma tinha que viajar e encurtaram a cerimônia, que alguém tinha falado um tempo a mais”, informou Vera Paiva. Em seu perfil pessoal no Facebook, um dos integrantes do Coletivo Intervozes, João Brant, foi mais incisivo na crítica ao incidente. “A censura à fala de Vera Paiva na sanção da Comissão da Verdade é a cereja podre de um bolo que já se mostrou bem amargo pelos termos em que foi aprovada a Comissão. Se o Governo mantiver essa postura, é capaz de legitimar uma versão da História que trata a ditadura militar 28 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

como uma guerra entre dois lados. A Comissão se transformará na reescrita da verdade. Que vergonha.” A Lei de Acesso a Informações Públicas, o outro eixo da tentativa do Governo de resgatar a dívida democrática, também tem sido alvo de questionamentos. A Professora Gisele da Silva Craveiro, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, pesquisadora do Grupo de Políticas Públicas para Acesso à Informação, explica, por exemplo, que a comissão mista responsável por classificar os documentos está vinculada à Casa Civil e será composta por representantes dos Poderes Executivo (Ministros de Estado), Legislativo e Judiciário. Não haverá entre seus membros ninguém da sociedade civil ou de organismos independentes. É esse grupo governamental que vai dizer qual o nível de risco potencial da divulgação dos documentos, considerando a segurança do Estado e dados pessoais. Os ultra-secretos serão mantidos em sigilo por 25 anos, prorrogáveis uma vez (prazo máximo de 50 anos); os secretos, por 15; os reservados, cinco. Gisele Craveiro também se preocupa com o prazo de regulamentação e implementação nas esferas federal, estadual e municipal dos mecanismos de acesso à informação, seis meses a partir da sanção presidencial. “Esses 180 dias são cruciais”, diz ela. “Em um seminário sobre o tema, realizado em julho, encontrei especialistas de outros países que alertaram muito sobre isso. Disseram que é um período de implementação curto e que teremos que nos preparar para frustrações.” Segundo a professora, em outros países, onde as medidas tiveram alcance menor ou prazo maior, ocorreram vários problemas – por exemplo, na própria organização dos arquivos, em que há grande quantidade de papel, ainda não digitalizado.

A QUEM RECLAMAR? Pela nova lei, os órgãos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, em todas as instâncias, devem oferecer serviços de informação para que as pessoas possam requisitar o acesso às informações. Se forem negadas ou não entregues no prazo de cinco dias, a instituição deve justificar a confidencialidade. Contra a recusa, cabe recurso à Controladoria-Geral da União. “Mas a quem reclamar nos casos de descumprimento nos órgãos municipais e estaduais?”, questiona a Professora Gisele. Para ela, os maiores problemas, contudo, serão de ordem cultural: “É um desafio fazer a sociedade entender que o Governo é guardião da informação e não dono dela. Será preciso criar estruturas para esclarecer o cidadão, para que ele saiba como solicitar uma informação, prever o acesso dos analfabetos. Também definir os canais de recepção dos pedidos, avaliar se o processo está sendo bem gerido, mudar culturas e estabelecer novas estruturas, tanto internas quanto na interface, tudo isso é algo de longo prazo”. Há muito a fazer e o Brasil está atrasado, afirma Gisele. Mais de 90 países já têm leis de acesso à informação, processo iniciado em meados da década de 1970. “Era bastante vergonhoso o Brasil ser um dos mais atrasados.”

UMA PARCERIA NA ONU Embora em ritmo lento, os primeiros passos nessa área, na opinião da professora, começaram a ser dados no final dos anos 1990, começo de 2000. Ela considera que recentemente o Brasil vem-se envolvendo de forma mais direta nas questões relacionadas à transparência e cita, nesse aspecto, a posição de liderança que o País assumiu na parceria, fechada em setembro, na Organização das Nações Unidas, integrando-se à iniciativa chamada Open Government Partnership-

OGP, e que se coordena com as demais medidas internas. A OGP é uma ação encabeçada pelos Estados Unidos e pelo Brasil, com mais de 50 países, destinada a promover “governos abertos”, por meio de um compromisso multilateral para avançar na transparência e nas boas práticas de governança. Para participar, é preciso estar bem pontuado em uma lista de 16 critérios, dentro de categorias básicas: transparência fiscal, acesso à informação, publicação de dados sobre representantes eleitos ou funcionários de primeiro escalão; promoção do engajamento cidadão. O próximo encontro da OGP deve acontecer no Brasil, em 2012, o que explica a necessidade de implementar rapidamente algumas medidas de abertura. Para aderir à parceria, o Brasil teve que se comprometer com um plano de ações que precisam ser realizadas dentro de 12 meses. “E será avaliado internacionalmente por isso”, afirma Gisele Craveiro. A assinatura simultânea das duas leis – a da Comissão da Verdade e a do Acesso à Informação – não é uma coincidência. Faz parte de uma tentativa de recompor bases institucionais que permanecem em Estado pré-democratização. “O atraso brasileiro é bastante vergonhoso”, lamenta a Professora. O Brasil e o Paraguai foram os que mais demoraram a criar uma comissão para investigar os crimes cometidos nas ditaduras, respectivamente 25 e 14 anos depois de os militares deixarem o poder. No mundo, 30 comissões semelhantes já foram instaladas.

SENTENÇA DESCUMPRIDA Há, assim, além do ativismo interno das entidades da sociedade civil, uma crescente pressão internacional. Marcelo Zelic, Vice-Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP e membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São


não podem continuar vendo o cidadão como inimigo interno. O Brasil precisa perder o medo de reafirmar a democracia.”

ACORDÃO SOBREVIVEU Zelic lembra também que o acordo firmado para não levar à Justiça crimes militares vem desde a transição democrática, no Governo José Sarney (1985), manteve-se com Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique. O PT, ao assumir, em 2003, teria mandado retirar de tramitação projeto de lei de autoria do Deputado federal Marcos Rolim, de seu próprio partido, que, similar ao projeto de Luiza Erundina, pretendia punir torturadores. “Mas os familiares estão se apropriando dos mecanismos da Justiça”, acredita o especialista. “Não é uma briga contra o Estado, mas a favor dos direitos humanos.” Como a Professora Gisele Craveiro , o Vice-Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais destaca a urgência de se desenvolver canais para que a sociedade acesse as informações de forma inteligível. “Você pode fazer isso educando a sociedade para as questões dos direitos humanos. São 180 dias para pensar em alguma coisa. Como não sabemos se existe uma lista com os documentos de 1948 e de 1956 para cá que não podiam ser vistos, como avaliar o trabalho da Comissão da Verdade? Ele vai ser televisionado? Como vai se dar o acesso ao seu relatório final? Vamos acessar tudo em um site? Ao criar um mecanismo para acompanhar esse processo, já se estaria educando a população para utilizar a Lei de Acesso a Informações Públicas.”

INFORMAÇÃO PARA QUÊ? A Lei de Acesso a Informações Públicas permite a qualquer cidadão ou instituição requisitar dados a órgãos públicos dos três Poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário) federais, estaduais ou municipais. Isso inclui governos, estatais, Congresso Nacional, câmaras de vereadores, assembléias legislativas, etc. Com base nessa Lei, é possível entrar na Justiça para garantir a transparência dos dados, diz a professora Gisele da Silva Craveiro. A ação pode ser contra o servidor público que recusar ou atrasar seu fornecimento e contra a instituição que ele representa. As negativas devem ser justificadas por escrito, informando ao cidadão a quem ele deve recorrer da decisão, em prazo de cinco dias. A negativa não pode conter razões descabidas ou qualquer tipo de preconceito. O sigilo só será aceito em casos que coloquem em risco a segurança nacional ou a privacidade de alguém (definidos por uma comissão a ser criada com esse fim). Quem pede a informação não precisa justificar por que a deseja. Com essa Lei, acredita a professora Gisele que se possa avançar na proteção dos direitos humanos, do meio ambiente, dos direitos das mulheres, das minorias, da governança dos recursos econômicos e na promoção da saúde e do direito do trabalhador. “A informação em poder das pessoas”, diz. Como exemplo, ela afirma que um pai pode solicitar a avaliação de uma escola feita pela Secretaria de Educação do seu Estado ou cidade; um médico especialista em hiv pode pedir todas as estatísticas do setor. “Na questão da usina de Belo Mon-

Torturador de Dilma vai continuar impune Assim como outros agentes do Estado que praticaram crimes contra presos políticos, o Tenente-Coronel reformado Maurício Lopes Lima vai continuar sem punição pelas torturas infligidas em 1969 à presa política Dilma Rousseff (foto), quando ela foi detida na Operação Bandeirante, núcleo de repressão da II Exército e da Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo. Lopes Lima foi um dos quatro ex- militares beneficiados pela decisão da 6ª Turma do Tribunal Regional Federal de São Paulo, que por unanimidade, com base em voto do relator, Juiz federal convocado Santoro Facchini, decidiu que eles não podem mais ser condenados, porque o crime que lhes era imputado – tortura de presos políticos – já está prescrito, como decidiu o Supremo Tribunal Federal em 30 de abril do ano passado ao aprovar voto do relator, o então Ministrto Eros Grau, firmando esse entendimento. Além de Lopes Lima, o TRF de São Paulo livrou de condenação o exMajor João Thomaz, da Polícia Militar do Estado de São Paulo, o ex-Capitão do Exército Homero César Machado e o exMajor do Exército Innocêncio Beltrão. A ação contra os quatro torturadores foi ajuizada pelo Ministério Público Federal em São Paulo, que pedia que os exmilitares fossem responsabilizados na esfera cível, já que a Lei de Anistia, segundo esse entendimento do Supremo Tribunal Federal, não permitia que eles fossem declarados responsáveis pelos maus tratos a que foram submetidos 20 presos políticos, entre os quais a jovem militante Dilma Rousseff. Pretendia o Ministério Público que o grupo fosse condenado a devolver o que receberam dos cofres públicos após a reforma no serviço ativo, bem como os valores pagos como indenização pelo Poder Público às vítimas da ditadura militar. Argumentou o Ministério Público que Lopes Lima e seus cúmplices nas torturas poderiam ser condenados com base no tratado que o Brasil firmou de criação do Tribunal Penal Internacional, o qual declara imprescritíveis os crimes contra os direitos humanos, como a tortura. A decisão do TRF foi aprovada na sessão do dia 27 de outubro e publica-

te, muitas entidades reclamam que os calhamaços de documento de avaliação de impacto deveriam ter sido disponibilizados na língua dos povos afetados pelas obras. Agora, isso será uma obrigação.” Outra inovação da Lei é a obrigação de entrega de dados desagregados, importante quando se fala em informação econômica. “Mesmo com todo o arcabouço legal que existe para divulgação de orçamentos, desde o ano 2000 ainda há muita dificuldade em lê-los. Muitas vezes, os dados são consolidados, o que impede construir outras análises, fazer totalizações diferentes”, diz a professora.

WILSON DIAS/ABR

Paulo, lembra que no dia 14 de dezembro o Brasil deve apresentar um relatório de cumprimento de exigências à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, que sentenciou o País a desobstruir a Justiça para que os crimes cometidos no caso Gomes Lund (e outros mortos na guerrilha do Araguaia) sejam punidos. O tribunal internacional concluiu que o Brasil é responsável pela desaparição forçada de 62 pessoas, entre 1972 e 1974, na região. E entendeu que a decisão do Governo brasileiro de não punir os responsáveis, amparando-se na Lei da Anistia, de 1979, não pode prevalecer sobre a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, de que o País é signatário. A decisão se reflete também na Lei de Acesso a Informações Públicas, porque a sentença, nos seus 14 pontos, responsabiliza o Brasil pela violação do direito de acesso à informação previsto no artigo 13 da mesma Convenção Americana, uma vez que não foram abertos os arquivos que tratam do caso. “Os crimes praticados por agentes do Estado são de lesa-humanidade e assim devem ser tratados. Não se aplica anistia”, explica Zelic. A sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, diz Zelic, pede ainda ao Brasil que ratifique a Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas, concluída em Belém do Pará, em 9 de junho de 1994, e aprovada pelo Senado em abril de 2011. O ato aguarda sanção presidencial. Para resolver o suposto conflito com a Lei da Anistia, que impede a punição dos crimes cometidos na ditadura militar, Zelic lembra que a Ordem dos Advogados do Brasil-OAB entrou com pedido no Supremo Tribunal Federal para que reinterpretasse a lei segundo a jurisprudência da Corte internacional. Em abril, o STF negou o solicitação, mas um novo recurso jurídico (embargo declaratório) ainda aguarda resposta, e a ação da OAB (uma ADPF: Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) continua no Supremo. O Projeto de Lei nº 573/2011, da Deputada Luiza Erundina, também pretende “harmonizar ” os marcos legais e permitir que as punições ocorram. “O PL diz que os agentes públicos que participaram de assassinatos, estupros, desparecimento forçado, crimes apontados na sentença da Corte IDH, não estariam cobertos pela Anistia”, argumenta Zelic. Essa contradição entre as diretrizes legais é uma das maiores fragilidades da Comissão da Verdade, que será formada por sete pessoas com atuação reconhecida na defesa dos direitos humanos. Ela terá dois anos para concluir seus trabalhos, ouvindo depoimentos e analisando documentos, para revelar e esclarecer as violações cometidas entre 1946 e 1988. Para o VicePresidente do Grupo Tortura Nunca Mais, retirar as barreiras às penalizações é fundamental para a consolidação democrática. “A Comissão da Verdade não pode ser apenas para levantamento de dados, mas deve mudar condutas”, diz. “Qual o caminho que vai trilhar o Brasil depois dessa Comissão vai depender do que se vai fazer nesse processo. Está na pauta a relação da sociedade com as forças de segurança, que

da no dia 10 de novembro. O Ministério Público recorreu. “Jornalista só entende a palavra de terrorista”

Entrevistado pela Folha de S. Paulo pelo telefone no dia 29 de novembro, o Tenente-Coronel Maurício Lopes Lima disse sobre a decisão do TRF que “está começando a se fazer justiça” e negou que tivesse torturado presos políticos. “A acusação é inverídica. Mas jornalista só entende a palavra de terrorista. O terrorista falou, é verdade. A direita falou, é mentira. Quem faz isso é Partido Comunista.” Lopes Lima, que está com 76 anos, diz que a presa Dilma e seus companheiros teriam mentido ao acusá-lo. “Eles combinavam os depoimentos na cadeia. A Dilma exerceu o direito de não criar provas contra si para se livrar do processo”, disse. “Esse pessoal estava contra o Brasil. Quando você fala em comunista, não pode admitir que seja brasileiro.” Em dezembro de 2010, lembrou a Folha, Lopes Lima contou ao jornal que participou da ação em que foram mortos os guerrilheiros Antônio dos Três Reis Oliveira e Alceri Maria Gomes da Silva, metralhados em maio de 1970 no bairro do Tatuapé, na capital paulista. Seus corpos nunca foram encontrados. Foi essa a primeira vez que um militar admitiu participação no episódio. Lopes Lima informou que depois da decisão do TRF não teve contato com seus companheiros João Thomaz, Homero César Machado e Innocêncio Beltrão: “Por que eu ia procurá-los? Só se fizerem uma festa”.

A Lei estabelece que os dados devem ser entregues brutos, de forma acessível a qualquer programa de computador, de modo que se possa desenvolver programas para construir planilhas e cruzamento de dados específicos. “Certas verificações são inviáveis manualmente; precisam ser feitas de forma automatizada. Desenvolvo um software que me dê o resultado que desejo. As organizações não-governamentais podem contratar programadores para baixar esses dados dos vários portais e comparar informações sob parâmetros diferentes. Isso é um poder muito grande.” Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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Direitos humanos

“Preservar a memória não é revanchismo”, diz a filha de Rubens Paiva Ela foi convidada a discursar no ato de sanção, mas em cima da hora cancelaram a sua fala. a paz e a justiça de todo dia. Chile e Argentina já o fizeram, a África do Sul deu um exemplo magnífico de como enfrentar a verdade e resgatar a memória. Para que anos de chumbo não se repitam, para que cada geração a valorize.” Vera Paiva agradeceu o privilégio do convite para falar na cerimônia, mas, sem explicação, não a deixaram falar. Atribuiuse o desconvite de que ela foi vítima de fato à presença na cerimônia dos Comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que poderiam, alegou-se, considerar-se alvo de uma descortesia, em face da participação de militares no seqüestro, prisão e assassinato do ex-parlamentar, morto em 1970.

ARQUIVO ABI

No discurso que faria na assinatura da criação da Comissão, Vera Paiva destacou a necessidade de fazer da verdade um valor coletivo no Brasil. “Hoje somos o último país a, muito timidamente mas com esperança, começar a fazer o que outros países que viveram ditaduras no mesmo período fizeram. Somos cobrados pela Onu, pelos organismos internacionais e até pela revista Economist, a avançar nesse processo. Todos concordam que restabelecer a verdade e preservar a memória não é revanchismo, que responsáveis pela barbárie sejam julgados, com o direito a defesa que os presos políticos nunca tiveram, é fundamental para que os torturadores de hoje não se sintam impunes para impedir

“Hoje, quem cala, consente, mais uma vez” O discurso, amplamente divulgado em diversos sites na internet, tem o seguinte teor: “Excelentíssima Sra. Presidenta Dilma, querida ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário. Demais ministros presentes. Senhores representantes do Congresso Nacional, das Forças Armadas. Caríssimos ex-presos políticos e familiares de desaparecidos aqui presentes, tanto tempo nessa luta. Agradecemos a honra, meu filho João Paiva Avelino e eu, filha e neto de Rubens Paiva, de estarmos aqui presenciando esse momento histórico e, dentre as centenas de famílias de mortos e desaparecidos, de milhares de adolescentes, mulheres e homens presos e torturados durante o regime militar, o privilégio de poder falar. Ao enfrentar a verdade sobre esse período, ao impedir que violações contra direitos humanos de qualquer espécie permaneçam sob sigilo, estamos mais perto de enfrentar a herança que ainda assombra a vida cotidiana dos brasileiros. Não falo apenas do cotidiano das famílias marcadas pelo período de exceção. Incontáveis famílias ainda hoje, em 2011, sofrem em todo o Brasil com prisões arbitrárias, seqüestros, humilhação e a tortura. Sem advogado de defesa, sem fiança. Não é isso que está em todos os jornais e na televisão quase todo dia, denunciando, por exemplo, como se deturpa a retomada da cidadania nos morros do Rio de Janeiro? Inúmeros dados indicam que especialmente brasileiros mais pobres e mais pretos, ou interpretados como homossexuais, ainda são cotidianamente agredidos sem defesa nas ruas, ou são presos arbitrariamente, sem direito ao respeito, sem garantia de seus direitos 30 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

mais básicos à não discriminação e à integridade física e moral que a Declaração dos Direitos Humanos consagrou na Onu depois dos horrores do nazismo em 1948. Isso tudo continua acontecendo, Excelentíssima Presidenta. Continua acontecendo pela ação de pessoas que desrespeitam sua obrigação constitucional e perpetuam ações herdeiras do estado de exceção que vivemos de modo acirrado de 1964 a 1988. O respeito aos direitos humanos, o respeito democrático à diferença de opiniões assim como a construção da paz se constrói todo dia e a cada geração! Todos, civis e militares, devemos compromissos com sua sustentação. Nossa história familiar é uma entre tantas registradas em livros e exposições. Aqui em Brasília a exposição sobre o calvário de Frei Tito pode ser mais uma lição sobre o período que se deve investigar. Em março deste ano, na inauguração da exposição sobre meu pai no Congresso Nacional, ressaltei que há exatos 40 anos o tínhamos visto pela última vez. Rubens Paiva que foi um combativo líder estudantil na luta pelo “O petróleo é nosso”, depois engenheiro construtor de Brasília, depois deputado eleito pelo povo, cassado e exilado em 1964. Em 1971 era um bemsucedido engenheiro, democrata preocupado com o seu país e pai de cinco filhos. Foi preso em casa quando voltava da praia, feliz por ter jogado vôlei e poder almoçar com sua família em um feriado. Intimado, foi dirigindo seu carro, cujo recibo de entrega dias depois é a única prova de que foi preso. Minha mãe, dedicada mãe de família, foi presa no dia seguinte, com minha irmã de 15 anos. Ficaram dias no Doi-Codi, um dos cenários de horror

Rubens Paiva: Preso após chegar da praia, sumiu para sempre.

naqueles tempos. Revi minha irmã com a alma partida e minha mãe esquálida. De quartel em quartel, gabinete em gabinete, ela passou anos a fio tentando encontrá-lo, ou pelo menos ter notícias. Nenhuma notícia. Apenas na inauguração da exposição em São Paulo, 40 anos depois, fizemos pela primeira vez um memorial onde juntamos família e amigos para honrar sua memória. Descobrimos que a data em que cada um de nós decidiu que Rubens Paiva tinha morrido variava muito, meses e anos diferentes… Aceitar que ele tinha sido assassinado era matá-lo mais uma vez. Essa cicatriz fica menos dolorida hoje, diante de mais um passo para que nada disso se repita, para que o Brasil consolide sua democracia e um caminho para a paz. Excelentíssima Presidenta: temos muitas coisas em comum, além das marcas na alma do período de exceção e de sermos mulheres, mães, funcionárias públicas. Compartilhamos os direitos humanos como referência ética e para as políticas públicas para o Brasil. Também com 19 anos me envolvi com movimentos de jovens que queriam mudar o País. Enquanto esperava esta cerimônia começar, preparando o que ia falar, lembrava de como essa mobilização começou. Na diretoria do recém fundado DCE-Livre da Usp, Alexandre Vanucci Leme, um dos jo-

vens colegas da Usp sacrificados pela ditadura, ajudei a organizar a primeira mobilização nas ruas desde o AI-5, contra prisões arbitrárias de colegas presos e pela anistia aos presos políticos. Era maio de 1977 e até sermos parados pelas bombas do Coronel Erasmo Dias andávamos pacificamente pelas ruas do centro distribuindo uma carta-aberta à população cuja palavra de ordem era HOJE, CONSENTE QUEM CALA. Acho essa carta absolutamente adequada para expressar nosso desejo hoje, no ato que sanciona a Comissão da Verdade. Para esclarecer de fato o que aconteceu nos chamados anos de chumbo, quem calar consentirá, não é mesmo? Se a Comissão da Verdade não tiver autonomia e soberania para investigar, e uma grande equipe que a auxilie em seu trabalho, estaremos consentindo. Consentindo, quero ressaltar, seremos cúmplices do sofrimento de milhares de famílias ainda afetadas por essa herança de horror que agora não está apoiada em leis de exceção, mas segue inquestionada nos fatos. A nossa carta de 1977, publicada na primeira página do jornal o Estado de S. Paulo no dia seguinte, expressava a indignação juvenil com a falta de democracia e justiça social, que segue nos desafiando. O Brasil foi o último país a encerrar o período de escravidão, os recentes dados do IBGE confirmam que continuamos um País rico, mas absurdamente desigual… Hoje somos o último país a, muito timidamente mas com esperança, começar a fazer o que outros países que viveram ditaduras no mesmo período fizeram. Somos cobrados pela Onu, pelos organismos internacionais e até pela revista Economist, a avançar nesse processo. Todos concordam que restabelecer a verdade e preservar a memória não são revanchismos, que responsáveis pela barbárie sejam julgados, com o direito a defesa que os presos políticos nunca tiveram, é fundamental para que os torturadores de hoje não se sintam impunes para impedir a paz e a justiça de todo dia. Chile e Argentina já o fizeram, a África do Sul deu um exemplo magnífico de como enfrentar a verdade e resgatar a memória. Para que anos de chumbo não se repitam, para que cada geração a valorize. Termino insistindo que a DEMOCRACIA SE CONSTRÓI E RECONSTRÓI A CADA DIA. Deve ser valorizada e reconstruída a CADA GERAÇÃO. E que hoje quem cala consente, mais uma vez. Obrigada. P.S: Depois de saber que fui impedida de falar, lembro de um texto de meu irmão Marcelo Paiva em sua coluna, dirigida aos militares: “Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura (…) Por que não limpar a fama da corporação? Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.”


SHANA REIS/DIVULGAÇÃO

PASSEATA

O RJ MARCHA POR SEUS RECURSOS Repúdio à emenda do Deputado Vital do Rego (PMDB-PB) leva às ruas do Rio uma multidão de 150 mil cariocas e fluminenses. Ficou para fevereiro a batalha final em defesa dos recursos atribuídos ao Estado nos royalties do petróleo.

CARLOS MAGNO/DIVULGAÇÃO

MARINO AZEVEDO/DIVULGAÇÃO

Com cantos, fantasias, improvisação de sketches e muitas faixas e cartazes, cariocas e fluminenses vindos de todos os Municípios do Estado participaram em 10 de novembro de gigantesca manifestação em defesa da preservação dos recursos atribuídos ao Estado do Rio de Janeiro na exploração do petróleo, que uma emenda do Deputado Vital do Rego (PMDB-PB) pretende reduzir drasticamente, a pretexto de favorecer os Estados não-produtores. Pelos cálculos do Governador Sérgio Cabral, que liderou a manifestação, o Estado do Rio vai perder entre 2012 e 2020 nada menos que R$ 50 bilhões se a emenda Vital do Rego for aprovada pela Câmara dos Deputados, onde será votada em fevereiro próximo. No mesmo dia houve manifestações de protesto em Vitória, capital do Espírito Santo, outro Estado que seria prejudicado pelas alterações na legislação sobre os royalties do petróleo. Além de cidadãos comuns, a manifestação reuniu representantes de inúmeras entidades da sociedade civil, parlamentares – entre eles os três senadores do Estado, Francisco Dorneles, Marcelo Crivella e Lindberg Farias —, deputados de diferentes partidos e prefeitos de inúmeras cidades, entre os quais a Prefeita de Campos, Rosinha Garotinho. O Governador Sérgio Cabral disse que aquele foi um “dia histórico para o Rio, que deu provas de maturidade e união”, e classificou de “aberração jurídica” o novo marco regulatório da matéria. Em nome dos participantes do ato, a atriz Fernanda Montenegro leu o Manifesto do Rio, o qual declara que só em 2012 a mudança proposta privará o Rio de uma receita de R$ 3,2 bilhões. Foi este o texto lido por ela:

Até o Cristo Redentor exibiu propaganda de mobilização para a manifestação em defesa dos recursos dos royalties do petróleo. A Cinelândia (acima) ferveu de gente. Perdas podem chegar a R$ 125 bilhões, disse o Governador Sérgio Cabral (foto ao lado).

“Um dos pilares da democracia é o respeito à Justiça. É ela quem promove a convivência pacífica entre os cidadãos, assegura direitos e deveres e mantém equilíbrio entre as instâncias de poder. Sem a Justiça tudo isso desaparece. O debate a respeito dos royalties pela exploração de petróleo, um direito assegurado pela Constituição brasileira aos Estados produtores, não é uma mera disputa econômica entre entes da Federação. É uma batalha por justiça. Quem viveu décadas sob o jugo do arbítrio sabe

que essa é a mais digna das lutas. É por esta razão que o Rio de Janeiro está nas ruas. Quando um direito assegurado pela Justiça é violado, não são apenas os fluminenses que se encontram ameaçados. Amanhã, outros Estados poderão se ver na mesma situação. O direito aos royalties nunca foi um ato de generosidade para com os Estados produtores. Significa um reconhecimento, pela Justiça, dos impactos – econômicos, ambientais e sociais – que a exploração petrolífera pode representar.

Mas agora, por conta de uma mistura de cobiça e ambição política, tudo isso é desprezado. Sem levar em conta não só a violação dos direitos adquiridos, mas as conseqüências práticas da atitude extrema de privar os Estados produtores destes recursos. No caso do Rio de Janeiro, isso significará, apenas no ano que vem, a saída de quase R$ 3,2 bilhões da economia fluminense. Dinheiro que representa o pagamento de aposentados e pensionistas, investimentos em projetos sociais e obras de infra-estrutura e saneamento, a manutenção de gastos em áreas essenciais como saúde, educação e segurança pública. Em todos os momentos, quando a Justiça no Brasil esteve sob ameaça, o Rio de Janeiro se fez presente. Foi às ruas clamar pela volta das garantias democráticas, pelo direito do voto, por um País livre. Assim foi no passado. Assim será, sempre.” Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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HISTÓRIA

As agruras do Correio da Manhã no pré e no pós AI-5 A invasão do jornal na fatídica noite de 13 de dezembro de 1968 e as tragédias que vieram depois e sobrevivem na memória dos que estavam lá, como o jovem advogado José Luiz Milhazes. P OR J OSÉ R EINALDO M ARQUES

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JOSÉ REINALDO MARQUES

No capítulo dedicado aos jornais, o Correio da Manhã aparece destacado como um dos principais periódicos da História da imprensa brasileira. Primeiro, porque desde a sua fundação, em 1901, sempre se apresentou como um veículo inovador, intransigente na defesa da liberdade de expressão e da sua independência para lidar com a notícia. O jornal, fundado por Edmundo Bittencourt, já nas duas primeiras décadas do século XX experimentou o primeiro golpe de censura: foi proibido de circular de agosto de 1924 a maio de 1925, devido à sua oposição à ingerência militar da Revolução de 1924. Outra qualidade do Correio da Manhã era o time de colaboradores que atuava no jornal, entre os quais se destacavam Carlos Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux, Ledo Ivo e o crítico Antônio Moniz Vianna. Nos anos 1960, o jornal, comandado por Dona Niomar Moniz Sodré, seguindo uma antiga tradição, foi novamente ousado e se opôs aos militares que deram o golpe de 1 de abril de 1964, derrubando o Governo de João Goulart, e escolheram o jornal como o principal alvo da censura que asfixiou a liberdade de imprensa e de expressão por um longo período no País. Na verdade, são muitas as histórias que podem ser contadas sobre o Correio da Manhã. Uma variedade tão grande de episódios interessantes sobre a sua trajetória, que alguns deles inclusive foram registrados em livros. Apesar de tudo o que já foi escrito e comentado sobre o jornal, o jornalista e advogado José Luiz Milhazes decidiu acrescentar a sua versão sobre o período de maior repressão sofrida pelo diário, por entender que alguns fatos foram omitidos e precisavam ser esclarecidos acertadamente. A carreira de Milhazes no jornalismo foi breve. Teve início nos anos 1960 no Jornal dos Sports e registra uma passagem no diário A Noite. Já os casos que ele relata a seguir foram testemunhados a partir do seu ingresso no Correio da Manhã, em junho de 1968, no período em que o jornal sofreu uma das mais duras perseguições a um órgão de imprensa da História recente do Brasil. No momento em que começou a trabalhar no Correio da Manhã, Milhazes acumulava a função de repórter esportivo com a profissão de bancário. No início, não teve problemas para atuar nas duas

frentes, mas um dia foi forçado a optar se ficava no jornalismo ou seguia trabalhando no setor financeiro: “Os bancos me botaram no limbo, ou eu optava pelo jornalismo ou seguia na vida bancária. Como na época eu já era casado, com filho pequeno, acabei fazendo a besteira de optar pelo banco. Digo isso porque a minha vocação e o que eu gostava muito de fazer era o jornalismo: tanto na área esportiva, quanto na cobertura política. O que eu queria mesmo era seguir a carreira de jornalista, mas depois acabei abraçando a profissão de advogado”, diz Milhazes. O antigo repórter esportivo chegou ao Correio da Manhã para trabalhar como assistente de Níbio Foutran, que era o auditor-geral do jornal e conhecia a sua experiência anterior na área financeira. Logo depois, surgiu uma oportunidade para Milhazes ocupar a vaga do gerente financeiro que tinha pedido demissão, devido à sua preocupação com o desenvolvimento da repressão política que se tornava cada vez mais intensa. “Naquela época havia os acovardados e esse rapaz, apesar dos seus dois metros de altura e a qualidade de bom funcionário, estava amedrontado porque a Presidente do jornal, Dona Niomar Moniz Sodré, começou a bater de frente com a

Milhazes foi testemunha dos dias de infortúnio pelos quais passou o Correio da Manhã em dezembro de 1968.

As primeras páginas dos dias 12, 13 e 14 de dezembro de 1968, mostram que, mesmo depois de um atentado à bomba, o Correio da Manhã continuava a fazer oposição ao governo militar. No dia 13 foi promulgado o AI-5 .

ditadura militar que já estava no auge. Ele se demitiu e ela me pediu que assumisse o lugar dele como gerente financeiro. E assim começou a minha relação mais forte com o Correio da Manhã”, conta Milhazes. Ele lembra que tão logo assumiu o cargo de gerente financeiro começou a vivenciar a perseguição imposta ao jornal de Dona Niomar Moniz Sodré, que ele considerava uma mulher de muita coragem, apesar da baixa estatura. Por se tratar de uma pessoa bem relacionada, ligada à alta sociedade, Dona Niomar tinha uma corrente de amigos muito influentes, inclusive no Itamarati e no Judiciário, que insistiam em aconselhá-la a não brigar com o regime, e seguir os exemplos de O Globo e do Jornal do Brasil, que conseguiram se manter em funcionamento apesar da censura: “Mas ela não quis ouvir. Já na edição do dia 3 de abril de 1964, a primeira opinião do Correio da Manhã sobre o golpe militar de 31 de março foi o editorial ‘Terrorismo não’ num tom fortíssimo contra a ditadura, e os absurdos que começaram a ser cometidos pelo regime”. Foi então que as coisas começaram a piorar para o Correio da Manhã, e agravaram-se mais ainda a partir do dia 13 de dezembro de 1968, com a decretação do AI5. Nesse dia, lembra Milhazes, o clima no País estava muito ruim, mas Dona Niomar mesmo assim, sem dar ouvidos aos seus conselheiros, mandou publicar um novo editorial pesado contra os militares. Milhazes disse que o texto do editorial foi redigido pelo jornalista Franklin de Oliveira, que era um dos editorialistas do jornal, juntamente com Edmundo Moniz. A extrema direita reagiu colocando uma bomba na agência de classificados do Correio da Manhã na Avenida Rio Branco, esquina com Almirante Barroso, no Centro do Rio, que depois passou a pertencer a O Globo. Coragem Diz Milhazes que o atentado contra o Correio da Manhã foi respondido imedi-

atamente por Dona Niomar com outro editorial, mais contundente que os anteriores, “afirmando com todas as letras, sem insinuações, que quem tinha jogado a bomba na agência de classificados do jornal tinha sido o Exército”: “A acusação corajosa da Presidente do Correio da Manhã aos militares movimentou toda a assessoria que ela tinha de embaixadores, advogados famosos, o então Ministro das Relações Exteriores, Vasco Leitão da Cunha, Azeredo da Silveira (Ministro das Relações Exteriores de 19741979), Augusto Loredo Fernandes, que passavam horas na sede do jornal, e outros como Heleno Fragoso e Nascimento Silva. Apesar dos conselhos ela não parou e continuou encarando o Governo” lembra Milhazes. Ele ressalta que mesmo diante de todas as circunstâncias desfavoráveis o Correio da Manhã não parou de produzir boas reportagens, entrevistas e editoriais críticos ao sistema. Até que na tarde do dia 13 de dezembro de 1968 ela o chamou para comunicar que todos no jornal deveriam fazer uma vigília cívica: “Nós nos encaminhamos para a sala do Osvaldo Peralva, então diretor-superintendente e principal editor do jornal, e ficamos aguardando os acontecimentos. De repente, o então Ministro da Justiça, Luiz Antônio da Gama e Silva, e o locutor Alberto Cury, da Agência Nacional, e que também trabalhava na Rádio JB, entraram em cadeia nacional e leram a proclamação do AI-5. O prédio do Correio da Manhã ficava na Avenida Gomes Freire (Centro), muito próximo da Rua da Relação, onde ficava a sede do Dops. Tão logo terminou a transmissão radiofônica, o porteiro do jornal, que era sargento reformado da Aeronáutica, telefonou para a Diretoria avisando da presença na portaria de policiais e militares do Exército: “O segurança trancou a porta, nós todos descemos para conversar com o inspetor do Dops que tinha em mãos uma relação com os nomes das pessoas que deveri-


am ser presas. No grupo que serviu de interlocutor estávamos eu, que trabalhava na Administração, o redator-chefe Isaac Akcelrud, e os jornalistas Pery Cotta, Franklin de Oliveira e o Edmundo Moniz, o mais visado da lista anunciada pelo policial. Outro que teria que ser levado era o Osvaldo Peralva. Segundo Milhazes, como Edmundo Moniz era um homem muito frágil fisicamente, apesar da coragem, Dona Niomar, temendo que ele fosse espancado, achou melhor providenciar a sua fuga. O episódio contou com a cumplicidade de outros funcionários do jornal. O pessoal da Oficina ajudou a pintá-lo com a graxa usada nas rotativas e a fugir pelo telhado que dava para a sede da Tribuna da Imprensa, que ficava nos fundos do imóvel que abrigava o Correio da Manhã. Tiros A confusão instalou-se na porta do Correio da Manhã. Dentro, os funcionários e a Diretoria do jornal montaram uma espécie de barricada e resistiram às investidas da Polícia, auxiliada pelos militares. Do lado de fora, o inspetor do Dops, que segundo Milhazes era muito grosseiro, começou a gritar, mas o porteiro, que por sorte não foi morto, encarou o policial afirmando que ninguém passaria por aquele portão. “Se vocês quiserem arrombar a porta podem arrombar, mas eu não vou abri-la”, teria dito ele corajosamente aos enfurecidos agentes da ditadura, segundo o relato de José Luiz Milhazes. Na sua lembrança do episódio, Milhazes recorda que, no momento em que percebeu que ninguém ia recuar, o inspetor sacou uma pistola Colt 45 e deu um tiro para o alto. A bala teria ricocheteado no teto e atingido o pé da telefonista, Dona Irene, cuja mesa telefônica ficava na entrada do jornal. O policial continuou a gritar dizendo que daquele momento em diante não haveria mais conversa e os tiros seriam direcionados para as pessoas que tentavam impedir a sua entrada no prédio:

“Nesse momento chegaram vários caminhões da Polícia do Exército (PE) e os militares então conseguiram arrombar a porta do Correio da Manhã. O porteiro teve um outro ato de coragem nesse dia. Como os agentes do Dops não sabiam quem era Osvaldo Peralva, ele se apresentou como tal e foi levado preso debaixo de muita pancadaria. Não demorou muito no Dops, porque os policiais descobriram que ele não era o verdadeiro Peralva (risos), contou Milhazes. A mentira do porteiro enfureceu mais ainda o inspetor, que ameaçou prender todo mundo caso Osvaldo Peralva não se entregasse. Segundo Milhazes, a sua prisão só veio acontecer mais tarde, em outra situação. Censura No mesmo dia da invasão, apresentaram-se na Redação do Correio de Manhã dois oficiais das Forças Armadas, um do Exército e outro da Marinha: “Por coincidência eu tinha trabalhado com o pai de um deles, que se chamava Capitão Guaranis. Eu me apresentei a ele e tentei persuadi-lo, mas não adiantou. Ele alegou que tinha ordem expressa de censurar todos os textos que eram produzidos para a edição do jornal. Os censores ficavam instalados em uma sala vasculhando inclusive os telex que vinham do exterior. O material depois de censurado era devolvido todo riscado para os editores”, lembra Milhazes. Mas no dia 5 de janeiro de 1969, antes de completar um mês do AI-5, foi decretada a prisão de todos os integrantes da Diretoria do Correio da Manhã, entre os quais Niomar Moniz Bittencourt (Presidente), Osvaldo Peralva (Diretor-Superintendente); Nelson Batista (DiretorFinanceiro), Arnold Wald (Diretor-Jurídico), Paulo Melo Bastos (Gerente Administrativo), Pedro Rocha (chefe do pessoal), Júlio Baliú Sobrinho (Departamento de Pessoal). Os presos foram levados para o Regimento Caetano de Farias, onde hoje funciona o QG do Batalhão de Choque da PM.

Depois Dona Niomar foi separada do grupo e levada para o 1º Batalhão da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita. “Lá a coisa piorou muito, pois tiveram início as torturas”, lembra Milhazes. Segundo ele, como Dona Niomar já apresentava um quadro de enfisema pulmonar, devido ao uso abusivo do cigarro, eles aproveitaram a sua deficiência e propositalmente a colocaram em um corredor onde ela não podia se proteger da friagem. Para completar enfiaram as pernas dela até a altura do joelho em uma lata de água gelada. E ali ela ficou a noite toda. No dia seguinte, amanheceu com uma febre de 40 graus: “O oficial de dia perguntou se ela tinha algum médico que a acompanhava e mandou chamá-lo. Ele diagnosticou que se ela não fosse tirada dali ia acabar morrendo. Eles então a transferiram para a Enfermaria Filinto Muller, na Praça Mauá, onde ela ficou por pouco tempo e teve o seu quadro de saúde agravado por uma pneumonia”, recorda Milhazes. Diante dessa situação Dona Niomar foi transferida para o Hospital do Corpo de Bombeiros, no Rio Comprido, na Avenida Paulo de Frontin. Lá ela ficou até o dia 28 de fevereiro de 1969, quando então foi liberada pelo mesmo policial que a prendera, para cumprir prisão domiciliar. Drama Nesse período a situação do Correio da Manhã era cada vez mais declinante, a crise financeira se agravou mais ainda, principalmente depois que toda a rede bancária foi proibida pelo Governo de descontar títulos do jornal. Como já tinha sido bancário e conhecia alguns gerentes, Milhazes tentou contornar a situação, mas não conseguiu resolver a questão: “Lembro que cheguei a tirar um empréstimo de 50 mil cruzeiros, em meu nome, para pagar alguns débitos do Correio. Foi um momento difícil, com desdobramentos financeiros dramáticos. Muita gente famosa entrou na minha sala para pedir dinheiro, como o simplório Carlos Drummond de Andrade, e um cara difícil e per-

nóstico chamado Paulo Francis, a quem emprestei 20 cruzeiros para que pudesse pagar o jantar.” Chegou então o momento em que a situação começou a atingir os funcionários das oficinas. Sobre esse contexto, José Luiz Milhazes lembrou um episódio dramático. Num determinado dia, chegou ao seu conhecimento que um operário sob forte crise de estresse dissera que ia arrancar dinheiro do jornal de qualquer maneira: “Eu pedi ao chefe do funcionário que verificasse a quantia que ele precisava, para ver a possibilidade de ajudá-lo. O cara era um homem imenso, muito forte, entrou na minha sala de maneira muito educada.” Ocorreu então o seguinte diálogo entre ele e o funcionário: “Seu Zé Luiz – era como ele me chamava. – eu estou há três meses sem receber nada, a situação lá em casa está difícil.” “Calma – eu disse a ele revelando inclusive que estava assumindo um empréstimo bancário em meu nome para poder resolver algumas dessas pendências. Mas ele não se conteve.” “Não dá para ter calma – e foi aumentando o tom de voz. – E vou lhe dizer mais, sabe quem está deitada na mesa da sala da minha casa? A minha mãe. Sabe há quanto tempo? Há quarenta e oito horas. A minha mãe está apodrecendo em cima da minha mesa de jantar. E eu não aceito mais isso.” Quando acabou de falar, o funcionário deu um murro na mesa de Milhazes, que tinha um tampo de vidro que se espatifou totalmente. Nessa hora ele já tinha perdido a calma e começou a esbravejar: “Seu Zé Luiz eu quero algum dinheiro hoje, senão eu vou quebrar esse Correio da Manhã, podem até me matar.” “Calma, meu rapaz, nós não somos seus algozes – teria dito Milhazes tentando acalmá-lo. – Algozes são os que estão lá fora.” “Mas isso não pode acontecer dentro de um jornal como o Correio da Manhã.” “Mas está acontecendo – Milhazes ponderou. – Eu prometo a você que se não conseguir o empréstimo, vou pedir ao meu pai ou a qualquer outra pessoa e lhe arranjar o dinheiro.” Milhazes comenta que esse foi o drama que mais o marcou de todos os acontecimentos que se desenrolaram no Correio da Manhã, a partir do golpe militar de 1964: “O tal rapaz tinha um amigo chamado Juci, que trabalhava no controle de anúncios, que quando ele saiu da sala veio a mim e disse: ‘José Luiz, não brinca, porque ele está desesperado. Você já pensou na situação que ele está passando de ver a mãe dele apodrecendo em cima de uma mesa no meio da sala de jantar?’. Era realmente uma situação muito difícil, uma história mesmo de arrepiar.” Milhazes afirma que a recordação desse episódio até hoje o revolta: “Eu vejo serem publicadas algumas reportagens românticas sobre o Correio da Manhã, mas ninguém conta essas coisas que aconteceram lá. A morte do Júlio Baliú, que morreu de infarto em decorrência das pressões que sofria para entregar nomes para os agentes da repressão, ou até mesmo sobre os espancamentos que eu presenciei.” Retorno Num esforço de memória, José Luiz Milhazes foi recordando outras cenas que pôde testemunhar na sua breve passagem Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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HISTÓRIA AS AGRURAS DO CORREIO DA MANHÃ NO PRÉ E NO PÓS AI-5

pelo Correio da Manhã, e que continuam muito claras em sua lembrança. Uma delas é sobre o dia em que Dona Niomar foi libertada. Todos os funcionários sentaramse no meio-fio empunhando um ramo de flores esperando a sua chegada. Quando o carro que a trazia foi se aproximando da sede do jornal, houve muita celebração, com todos cantando o Hino Nacional. Já instalada na sala da Diretoria ela teria convocado os diretores para uma reunião, para falar sobre uns documentos que havia deixado assinados quando pressentiu que ia ser presa. Esses papéis eram procurações nomeando os seus substitutos na direção do Correio. De acordo com o documento descrito por José Luiz Milhazes, Arnold Wald ficaria com o cargo de diretor jurídico; José Luiz Milhazes como diretor-financeiro; o Seu Lima, que era o mais antigo do grupo, ocuparia a Presidência; o Camilo, diretor industrial; o Melo Bastos como diretor administrativo. O motivo que levou Niomar Bittencourt a tomar essa decisão era a sua preocupação de que o jornal não parasse de circular. Depois de analisar o relatório financeiro, Dona Niomar anunciou que ia arrendar o jornal para um grupo que tinha demonstrado interesse em assumir o empreendimento. Os diretores do grupo que ia ficar com o jornal eram Maurício Nunes de Alencar e Marcelo Nunes de Alencar, ex-Governador do Rio de Janeiro. Nesse momento José Luiz Milhazes decidiu que ia sair do jornal, pois acabara de ser aprovado em um concurso para o Banco Itaú. Mas Dona Niomar fez de tudo para convencê-lo a ficar, usando como argumento a sua crença de que aquela situação de exceção imposta pela ditadura estava perto de chegar ao fim: “Isso que está acontecendo aí vai ter uma reviravolta. O Vasco Leitão da Cunha – então Ministro das Relações Exteriores – e outros amigos que eu tenho, inclusive da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) já estão atuando junto ao Governo da ditadura para o Correio da Manhã ficar livre. Mesmo que seja com o sacrifício de eu me afastar da direção para que o jornal sobreviva”, teria sido a argumentação de Dona Niomar para convencer José Luiz Milhazes a não pedir demissão. “Como gostava muito do jornal e da luta que eu havia ajudado a sustentar ali, na realidade não estava nem um pouco animado para retornar à carreira de bancário. Minha mulher discordou e me avisou para sair do Correio, prevendo que ali não havia mais futuro algum. Mas eu acabei ficando. Depois Dona Niomar me disse que havia arrendado o jornal para os Alencar.” Decepção Os irmãos Maurício e Marcelo Alencar assumiram o Correio da Manhã com uma surpreendente injeção de dinheiro no valor de um bilhão de cruzeiros. Chamaram Milhazes, que ainda era o gerente financeiro, e lhe entregaram o cheque com a recomendação de que pagasse todas as dívidas e colocasse os salários de todos os funcionários em dia: “Mas para a minha decepção aquilo tudo era uma mentira. A Niomar agiu mal comigo porque sabia das verdadeiras intenções da família Alencar ao assumir o Correio da Manhã. O que eu acho é que naquele momento, para poder resolver o seu drama

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pessoal, ela entregou as nossas cabeças. E de todos os que até aquele momento estiveram junto dela.” Maurício Alencar era empresário, dono de uma grande construtora, e nunca assumiu de verdade o Correio da Manhã. Marcelo Alencar foi nomeado diretor-superintendente, mas na verdade, na opinião de Milhazes, era o “interventor dos militares”: “Agora está aí, foi eleito duas vezes, prefeito e depois governador. Eu não sei se acho que ele se comportou de uma maneira pior do que os agentes do Dops ou igual. Melhor não foi”, declarou Milhazes em tom de indignação. Quando assumiu a direção do jornal Marcelo Alencar fez questão de ficar perto de Milhazes para, segundo ele, “controlar melhor o departamento financeiro”: “Mas ele era extremamente grosseiro, aliás ainda é. A única vez que eu encontrei com ele depois dessa época foi no Circo Voador quando ele ainda era Prefeito do Rio de Janeiro. Mas ele era um animal”, afirma Milhazes. Para ilustrar o comportamento de Marcelo Alencar na direção do Correio da Manhã, Milhazes recorda um caso envolvendo um funcionário chamado Wilson, que passou mal durante o expediente: “O Wilson teve uma crise de apendicite aguda. Aí um dos chefes do setor o levou na presença do Marcelo Alencar, que não estava acreditando na doença do rapaz. Enquanto nós estávamos providenciando uma ambulância ou até mesmo um carro do próprio jornal para levá-lo a um hospital, ele não agüentou e caiu no chão. O Marcelo então chutou o rapaz e o que aconteceu em seguida foi de arrepiar.” De acordo com o depoimento de Milhazes, Marcelo Alencar achava que o rapaz estava mentindo e teria usado de violência contra o funcionário, conforme a cena que ele reproduz a seguir: “Levanta, vagabundo. Isso é um vagabundo, um pilantra, está fingindo que é para não trabalhar ”, dizia Marcelo, enfurecido. “Eu então interferi, juntamente com os outros colegas. Ele não está mentindo, está passando mal de verdade, veja a cor dele, ponderei.” “É mentira! – teria esbravejado Marcelo Alencar. – José Luiz, me admira você, o gerente financeiro, acobertar um safado desses” – Teria dito Marcelo Alencar. “Nós então carregamos o Wilson até um carro, o levamos para o Souza Aguiar e quando ele deu entrada lá foi operado na hora de apendicite supurada: salvou-se por um triz. Quando nós retornamos do hospital fizemos questão de ir até à sala do Marcelo Alencar para dar notícias do que tinha acontecido com o funcionário.” “O que vocês querem, é algum assunto importante?” indagou Marcelo Alencar. “Nós só viemos registrar que o rapaz deu entrada no Souza Aguiar e foi operado imediatamente de apendicite supurada. É para o senhor tomar conhecimento de que ele não estava mentindo. Mas infelizmente as grosserias e os maus-tratos continuaram. A impressão que eu tive é que houve um conluio entre a Dona Niomar e a turma dos Alencar.” José Luiz Milhazes fez questão de registrar também um caso de desvio de dinheiro no Correio da Manhã. Quem deu

No dia 13 de dezembro o Correio da Manhã publicou o Editorial acima, afirmando que a Câmara Federal havia reintegrado “o Brasil em sua condição de País civilizado.” No mesmo dia, à noite a ditadura militar decretou o recesso do Congresso Nacional e endureceu o regime com o AI-5.

o alerta sobre o sumiço do dinheiro foi o tesoureiro da época, que chamava-se Laerte, e, segundo Milhazes, “era um sujeito maravilhoso e honesto”: “Um dia ele me chamou e disse que toda sexta-feira ele era obrigado a entregar 18 mil cruzeiros para o Lindomar Seabra, que era o gerente da agência Rio Branco. Era uma situação estranha, principalmente naquele momento em que o jornal não ia bem, inclusive com dificuldades para pagar os salários.” Milhazes apurou que a ordem para fazer o pagamento partia diretamente da Dona Niomar, por meio de um bilhete, como se fosse um vale, por meio do qual autorizava o pagamento dos 18 mil cruzeiros. Num determinado dia, um diretor chamado Armando surgiu com um desses vales na mão e pediu a Milhazes que explicasse a origem daquele recibo: “Eu imediatamente dirigi-me ao telefone para tentar ligar para a Dona Niomar. Ele botou a mão em cima do aparelho tentando me impedir de fazer a ligação.” “Você não vai fugir de modo algum. Não use esses artifícios”, – disse Armando para Milhazes. “Olha, Doutor Armando, eu não tenho nada a dizer a ninguém. Eu só estava querendo ligar para a Dona Niomar Moniz Sodré Bittencourt, que era quem fazia a retirada desses 18 mil cruzeiros toda sexta-feira. Para quê eu não sei. O senhor mesmo deveria perguntar a ela. Isso aqui é um segredo da Diretoria efetiva do Correio da Manhã, não é um assunto dos “reservas”. Milhazes afirma que na realidade o dinheiro era desviado pelo Lindomar, quando ele fechava o controle de venda dos anúncios às sextas-feiras. A renda era encaminhada para o departamento financeiro, onde eram feitas as devidas anotações que posteriormente eram reproduzidas para Dona Niomar Bittencourt.

Um belo dia o caixa apresentou um desfalque de 100 mil cruzeiros e Marcelo Alencar mandou chamar Milhazes na sala dele, para explicar o sumiço do dinheiro: “José Luiz o Lindomar está aqui me dizendo que 100 mil cruzeiros desapareceram do caixa do Correio da Manhã na agência Avenida e que esse dinheiro teria sido encaminhado para você, como deve ter ocorrido, só que é um valor que não aparece na contabilidade da agência”, teria dito Marcelo, supostamente responsabilizando Milhazes pelo sumiço do dinheiro. Milhazes contou que isso foi a gota d’água, porque ele já estava cheio daquela situação, e ficou mais irritado porque estava sendo acusado levianamente: “Eu então agarrei o Lindomar pelo pescoço e fui empurrando-o pela escada exigindo que ele dissesse quem foi que realmente havia se apoderado do dinheiro. A comitiva veio toda atrás. Foi a primeira vez que eu vi o Marcelo Alencar medrar. Eu então empurrei o Lindomar contra a parede, dei-lhe dois tapas na cara e ele então confessou que eu não tinha nada a ver com o desvio do dinheiro. Na mesma hora o Marcelo mandou demiti-lo.” Depois desse episódio Marcelo Alencar acabou reconsiderando o mau juízo que vinha fazendo dele. Ele então aproveitou essa proximidade para ponderar com os novos proprietários do Correio da Manhã que estes não estavam sendo justos no tratamento que dispensavam ao pessoal mais antigo: “Eu disse a ele que o futuro ia provar melhor que a turma que eles estavam botando para fora para ser substituída por novatos era a nata da imprensa brasileira, os melhores, e que iam acabar sendo absorvidos pelos grandes jornais como o JB. E isso mais tarde veio a se confirmar, pois todo grande jornalista brasileiro quando é entrevistado afirma que começou a carreira ou teve uma passagem no Correio da Manhã. Com uma certa ponta de mágoa José Luiz Milhazes recorda que em seus últimos dias no Correio da Manhã teve que enfrentar situações vexatórias, principalmente quando soube que ia ser demitido porque a filosofia imposta no jornal pelos irmãos Alencar “era se livrar de todo o pessoal remanescente do antigo quadro funcional”: “Eu lembrei a ele que até no período em que o jornal esteve sob a censura da ditadura militar o tratamento não tinha sido tão duro quanto o que passamos a receber quando o jornal foi arrendado pela família Alencar.” Em relação à Dona Niomar Moniz Bittencourt, Milhazes considera que foi uma mulher de coragem, muito culta, mas que não soube defender o Correio da Manhã quando o jornal mais precisava dela: “No meu entender as brigas que ela encampou foram feitas levianamente, porque gente de muito peso, como os amigos embaixadores e advogados, recomendaram-na certa discrição, cautela, como o fizeram o JB e O Globo, que sobreviveram ao regime ditatorial. Mas, ao contrariar todas essas recomendações, ela não foi correta com nenhum funcionário antigo do Correio da Manhã, infelizmente.”


LIVROS

Um reencontro com Bradbury, o autor de Fahrenheit 451 Conjunto de ensaios escritos entre 1965 e 1985 oferece a impressão de que os textos foram escritos na mesma época.

Há muitos livros publicados para autores novos com conselhos e receitas de como escrever bem. Alguns são técnicos e observam aspectos estruturais do enredo e da narrativa, outros investem na gramática e na sintaxe, e outros ainda ensinam como preparar um texto para agradar aos leitores ou ser aceito mais facilmente pelas editoras. Alguns são realmente úteis, outros são pretensiosos e pedantes, mas isso ocorre com todo o tipo de literatura. Nada disso vai ser encontrado em O Zen e a Arte da Escrita, seleta de ensaios do importante autor norte-americano Ray Bradbury, escritos entre 1965 e 1985, alguns deles publicados como introduções ou prefácios. Apesar do distanciamento temporal entre os textos, o conceito que os alinhava é tão sólido e coerente que dá a impressão de terem sido escritos juntos, como parte de um mesmo trabalho. O livro foi publicado no Brasil pela poderosa editora Leya, fundada em Portugal em 2008 e recentemente instalada no País. É tradução de Zen in the Art of Writing (1990) e, sendo um Bradbury, era de se esperar uma abordagem no mínimo surpreendente. A começar pelo título que o autor declara, no próprio livro, ter adotado apenas para atrair a atenção dos leitores, ainda que lá no fundo suas propostas tenham de fato algo de Zen. Onze ensaios compõem o livro: “A alegria da escrita”, “Corra, pare, ou a coisa no topo da escada, ou novos fantasmas de mentes antigas”, “Como manter e alimentar a Musa”, “Bêbado e no comando de uma bicicleta”, “Investindo moedas: Fahrenheit 451”, “Apenas este lado de Bizâncio: O vinho da alegria”, “Sobre os ombros de gigantes”, “Crepúsculo nos museus de robô: o renascimento da imaginação”, “A mente secreta”, “O zen e arte da escrita” e “Sobre criatividade”, este último um conjunto de sete poemas sobre as características da personalidade criativa valorizadas pelo autor. Bradbury não é um teórico convencional. Ele parte do princípio de que o verdadeiro escritor não é aquele que escreve para viver, mas o que vive para escrever, como algo vital, necessário, terapêutico até. Por isso usa suas experiências pessoais, principalmente seus fracassos, para demonstrar que vale a pena ser autêntico e escrever com o coração. E isso é algo que não dá para ensinar como fazer: é um caminho solitário e doloroso. Uma frase deste mestre da fantasia resume sua ideologia criativa: “Toda manhã, pulo da cama e piso num campo minado. O campo minado sou eu. Depois da explosão, passo o resto do dia juntando os pedaços. Agora é a sua vez. Pule!” Difícil de entender? Talvez conhecer um pouco da carreira de Bradbury ajude.

JACQUES SASSIER-GALLIMARD/OPALE

P OR CESAR SILVA

A propósito, o livro é quase uma autobiografia, pois R.B., como ele mesmo às vezes se refere no livro, toma a sua vida como parâmetro para explicar e ilustrar seu método criativo. Nascido em 1920 em Waukegan, Illinois, Estado do Meio-Oeste estadunidense, Ray Douglas Bradbury tinha tudo para ser um legítimo redneck. O que alterou sua caminhada foram as histórias em quadrinhos de Buck Rogers que, quando criança, ele colecionava recortando cuidadosamente dos jornais. Também era leitor ávido dos livros de Julio Verne e H. G. Wells, das novelas de Edgar Rice Burrougs, Clark Ashton Smith e H. Ride Haggard, e era fascinado com as maravilhas de seu mundo, especialmente parques de diversão itinerantes, circos, mágicos, trens, dinossauros e uma pletora de coisas simples que não era importante para mais ninguém. Aos oito anos de idade, uma experiência traumática iria determinar a trajetória de sua vida. Pressionado pelos colegas de escola que exigiam dele um comportamento mais “normal”, o pequeno Ray rasgou toda a sua coleção de quadrinhos. Mas isso só serviu para que ficasse perdido num mundo que ele não compreendia e entendeu ali que o seu destino não era ter uma

Ray Bradbury, um dos mais importantes escritores de ficção-científica e o cartaz do filme de François Truffaut, baseado em seu livro mais famoso: Fahrenheit 451. Abaixo, capa de O Zen e a Arte da Escrita.

vida “normal”. Voltou avidamente à sua coleção e decidiu que seria um escritor. Nos ensaios presentes nesta coletânea, Bradbury conta todos os detalhes dessa história. Ele chegou à publicação de seu primeiro conto em 1941, na revista Super Science Stories, embora tivesse publicado antes em um fanzine editado por ele mesmo em 1938, o Futuria Fantasia. Também conta como sofreu para entender o que significava escrever como Ray Bradbury, já que antes dele ninguém escrevia assim. A princípio, ele seguiu os manuais, mantendo uma produção diária e enviando seus contos para todas as revistas que conhecia, mas com a consciência de que seus textos não eram bons. Mesmo quando escreveu seu primeiro clássico, um conto chamado The Lake, não sabia por que havia obtido sucesso. Somente anos depois ele iria descobrir e essa busca é que torna O Zen e a Arte da Escrita uma leitura emocionante. Bradbury tornou-se um dos maiores escritores americanos, com uma produção de qualidade reconhecida pelo mainstream, apesar de instalada no que se chama de ficção de gênero que, de forma geral, é desprezada pela crítica. Entre seus grandes livros está o romance Fahrenheit 451 (1953), alegoria sobre a censura que conta a história

de um homem apaixonado pelos livros cujo trabalho é justamente destruí-los. Levado ao cinema em 1966 pelo importante cineasta francês François Truffaut, tornou Bradbury uma personalidade conhecida no mundo inteiro. Outros livros importantes de Bradbury são Martian Chronicles (1950), Something Wicked This Way Comes (1952) e Dandelion Wine (1957), além das antologias The Golden Apples of the Sun (1953), The Illustrated Man (1951) e The October Country (1955). Vários de seus contos estão entre os mais significativos da literatura mundial, devido a sua poética incomparável. Suas histórias foram adaptadas para inúmeras outras mídias, principalmente o teatro, o cinema e a televisão. A melhor versão para os quadrinhos aconteceu nos anos 1950 pela lendária editora EC Comics, de William Gaynes. Al Feldstein adaptou vários de seus contos, que foram ilustrados por grandes mestres como Frank Frazetta e Wallace Wood. Algumas dessas hqs foram publicadas no Brasil no início dos anos 1990 pela editora L&PM nos álbuns O Papa-defuntos e O Pequeno Assassino. O primeiro livro de Bradbury publicado no Brasil foi O País de Outubro, traduzido em dois volumes pela Editora GRD em 1963 e 1966, antologia que reúne alguns de seus contos mais destacados. Praticamente toda a sua obra foi traduzida por aqui, sempre ficando em catálogo. Bradbury compõe a trindade dos mais bem-sucedidos escritores de ficção científica na opinião dos especialistas e fãs brasileiros. Ao lado de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, forma o “ABC” do gênero, como é chamado pelos seus inúmeros leitores. Contudo, R.B. é um estranho no ninho, pois não se conforma com as orientações impostas pelo mercado. Sua ficção científica, por exemplo, não é científica em quase nada, uma vez que lhe importa muito mais as pessoas do que a ciência. Bradbury também é mais versátil que seus colegas de gênero, enveredando com igual desenvoltura por terrenos tão pantanosos como o terror, a fantasia, o mistério e até o realismo, sem esquecer da poesia em prosa e verso. O Zen e a Arte da Escrita, mais que um manual para escritores iniciantes, é um manual para a vida. A criatividade bradburiana pode servir a todo mundo, para todo tipo de artista ou profissional. Não seria de estranhar caso se tornasse um livro de cabeceira dos executivos. E como seria bom para o mundo se isso realmente acontecesse. Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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HOMENAGEM

Lançamento do 31 de outubro como data para celebrar o poeta atrai leitores e antecipa uma onda de ações de promoção da sua obra, previstas para 2012, nos seus 110 anos.

POR V ERÔNICA C OUTO

Mas a perspectiva de projeção de Drummond em escala de massa despertou no meio literário preocupações quanto à abordagem de uma obra com tantas possibilidades de leitura e que ainda opõe opiniões de acadêmicos e escritores em torno dela. O poeta Frederico Barbosa, diretor da Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, de São Paulo, teme que esse movimento projete nacionalmente o Drummond que ele considera menos inovador, com poemas que recuperam as formas fixas de sonetos, da década de 1950, ou aqueles escritos durante a época em que atuou como cronista de jornal, nos anos 1960. Ele prefere ver ampliada a obra do poeta de “técnica sutil e supreendente”, como o de Alguma Poesia, que teria radicalizado experimentações modernistas como o poema No Meio do Caminho, consagrado como síntese genial do movimento. Para Eucanaã Ferraz, não há risco de haver predomínio de uma linguagem poética sobre outra. “O filme (Consideração do Poema) dá a cara do Drummond amplo, vário, contraditório”, diz o consultor do IMS, responsável pela escolha dos poemas lidos no filme. Da mesma forma, ele afirma que as atividades planejadas para o Dia D, deste ano ou dos próximos, não pretendem privilegiar um viés específico da poesia, mas destacar o seu potencial “mobilizador ”. “Queremos mostrar que Drummond tem muitas faces e a multiplicidade da sua obra, abrangente, capaz de despertar interesse de jovens leitores, jovens poetas, leitores maduros, com diferentes expectativas. Capaz de seduzir a pessoa que nunca leu poesia e levá-la a algum destino desconhecido, atraente.” Insubordinado

O Poema de sete faces é o primeiro poema do primeiro livro – Alguma Poesia – publicado por Carlos Drummond de Andrade, em 1930, uma edição de discretos 500 exemplares, paga pelo autor. Para o crítico, poeta e professor de literatura Alcides Villaça, o poema faz uma apresentação das suas múltiplas possibilidades poéticas, que, exatamente por serem múltiplas, apontam também uma espécie de fracionamento da sua personalidade. “Gosto muito desse poema, porque parece que Drummond escreve profetizando acerca dos vários temas, humores e várias tonalidades que a poesia dele ainda iria explorar”, diz o crítico no filme Consideração do Poema, produzido pelo Instituto Moreira Salles-IMS e principal peça de comemoração do Dia D - Dia Drummond. Inspirado no Bloomsday, que celebra em 16 de junho o Ulysses, de James Joyce, na Irlanda, o Dia D foi criado pelo IMS para tornar o aniversário do poeta mineiro, 31 de outubro, uma festa nacional. “O País e a língua que têm um Drummond, têm um patrimônio arrojado”, afirma Eucanaã Ferraz, poeta, professor e consultor de literatura do IMS e um dos curadores da programação do Dia D. A consciência coletiva da dimensão dessa obra, no entanto, reconhece, ainda está por se construir: “Pode ser que aconteça em um ano, cinco, dez. Não posso fazer pelo Drummond daqui a cem anos. Mas, 36 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

se fizermos hoje, se juntarmos muitas manhãs, teremos um século. Ele tem força para resistir ao tempo, depende de a gente entender e revelar isso”. Nessa direção, o nome e a poesia de Carlos Drummond de Andrade se preparam para dar um salto midiático a partir de 2012, quando se completam 110 anos de nascimento do poeta. E quando a editora Companhia das Letras começa a reeditar os 40 títulos de sua obra completa, incluindo versões eletrônicas, após anos sob responsabilidade da Record. Drummond será homenageado na Festa Literária Internacional de Paraty-Flip, em julho. E o IMS pretende estender as atividades do Dia D a escolas de ensino médio e a países africanos de língua portuguesa. Este ano, a programação para estudantes ficou restrita a universidades, como a Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, e, fora do Brasil, a Lisboa, na Casa Fernando Pessoa. Segundo os organizadores, o convite a essa mobilização por Drummond que se prenuncia na mídia ganhou boa acolhida na imprensa e nas redes sociais da internet. Além disso, cerca de 150 vídeos de leitores foram enviados ao site especialmente desenvolvido para o Dia D, no qual se pode assistir à íntegra do filme Consideração do Poema. O IMS registrou 30 mil acessos durante aproximadamente 15 dias, até o encerramento do 31 de outubro, de acordo com o outro curador do evento, Flávio

Moura. “Houve também uma adesão muito grande de parceiros”, diz. Entre eles, a Flip, as Organizações Globo, a Prefeitura de São Paulo, várias redes de livrarias, etc. Conhecer e debater

O curador da Flip 2012, Miguel Conde, destaca a importância de conhecer e debater Drummond: “Além de ser um autor incontornável da literatura brasileira, como os outros homenageados da Flip, ele é também, mais particularmente, um escritor muito importante para nossa produção literária contemporânea. Discutir a obra de Drummond não deixa de ser também um jeito de pensar a poesia que se escreve hoje no Brasil.”

Dos poetas brasileiros, Conde, da Flip, diz que Carlos Drummond de Andrade “é certamente dos mais lidos, citados, amados, mesmo por pessoas que não têm o hábito de ler poesia”. Um amor natural, que resistiu até à incorporação da obra aos canais curriculares do saber oficial. “Drummond, que começou publicando seus livros em tiragens mínimas e era considerado controverso, se tornou, ainda em vida, um autor canônico. Hoje, seus poemas são incluídos em livros didáticos, constam regularmente de provas do Ensino Médio. Têm, portanto, uma difusão oficial para milhões de leitores brasileiros. Muitas vezes essa transformação em autor obrigatório produz uma antipatia ou má-vontade. Não é esse o caso com Drummond.” Há uma empatia generalizada pelo poeta, concorda Ferraz. Evidente até na relação folclórica das pessoas com a estátua do mineiro que se está em um banco do calçadão de Copacabana, de costas para o mar, e faz dez anos também em 2012. “As pessoas sentam do lado, falam, roubam os óculos, botam os óculos, fotografam. Mesmo pelo lado ruim, da depredação, há um movimento vivo. Não é um personagem que passa despercebido.” Para o poeta e professor de Teoria Literária Roberto Bozzetti, Drummond não será afetado negativamente pela exposição que eventos como o Dia D podem produzir: “Os grandes artistas nunca são institucionalizados. Fica sempre algo de fora, a


Aumento nas vendas

Chaves de leitura do poeta incomodar. Querer que apenas o Drummond lido pelo viés experimental, de ‘ruptura’, seja o ‘Drummond bom’ pode chegar a ser uma institucionalização às avessas: significa perder o grande poeta que ele foi para além dessa dimensão. Desde a suma poética de sua obra que está em Rosa do Povo, passando pelo injustamente desdenhado Claro Enigma, e desembocando em seu espantoso ‘testamento’ Farewell, sem esquecer de sua prosa, de sua crônica, de suas quase sempre corrosivas memórias poéticas em Boitempo. Poeta de obra extensa, muito complexa e multifacetada, é justamente sua complexidade que dificulta sua domesticação, se por esta palavra se quer entender o sinônimo de ‘institucionalização.” Exemplo dessa capacidade de transgredir, o poema Oficina irritada, publicado em

Claro Enigma, é lido no filme do IMS pelo tradutor Paulo Henriques Brito, que explica por que o escolheu. “Sempre dou esse poema nas minhas oficinas de criação poética, para analisar. É um soneto que viola todas as regras do soneto. Ele faz tudo errado, em termos de métrica, rima, de imagem, e é um dos grandes sonetos da língua portuguesa. Mostro como exemplo de que, quem conhece muito bem as regras do jogo pode, com conhecimento de causa, violar essas mesmas regras, justamente para fazer o jogo mais bem feito que qualquer um.” Nessa produção o poeta Antonio Cícero, que lê Fraga e sombra, outro soneto do mesmo livro, diz que Drummond conseguiu fazer uma coisa absolutamente genial, porque não há uma palavra sobrando. “Esse soneto é inacreditável, tudo é perfeito, o som é perfeito. Isso, em parte, por causa dessa autodisciplina, essa combinação de um sentimento muito forte e a forma fixa. Tem a emoção perfeita e a expressão perfeita. Enfim, poesia em estado máximo.”

“Carlos Drummond de Andrade foi o encontro da minha vida. Repetindo: Carlos Drumond de Andrade foi o encontro da minha vida. Repetindo: Carlos Drummond de Andrade foi o encontro da minha vida.” Assim, três vezes seguidas, o poeta e pesquisador Armando Freitas Filho descreve a presença do poeta mineiro em sua personalidade, no filme produzido pelo Instituto Moreira Salles especialmente para celebrar o Dia D. “Eu acredito que não seria quem eu sou sem a poesia dele”, conclui. Na mesma produção, o escritor Milton Hatoum conta que não passa dois dias sem reler um poema de Drummond. Dirigido por Gustavo Rosa de Moura, Consideração do Poema tem uma hora e cinco minutos, reúne leituras e algumas análises de estudiosos e artistas de várias áreas, e foi exibido no Dia D em vários pontos do País. De acordo com Flávio Moura, um dos curadores do evento no IMS, ele será lançado em dvd no começo do ano que vem. Entre as personalidades que recitam poemas do autor modernista, a atriz Fernanda Torres, apresenta Necrológio dos Desiludidos do Amor; o cineasta Cacá Diegues, lê Também Já Fui Brasileiro; e Caetano Veloso comparece com Elegia 1938. Outros destaques são o cantor e compositor Chico Buarque, com Inocentes do Leblon; e a atriz Marília Pêra, que recita com muita emoção, Amar. Ao todo, são apresentados 35 poemas, de 13 livros publicados por Drummond. Claro Enigma (1951), que retoma o uso de métricas e formas fixas, predomina na produção cedendo oito poemas. Em seguida, com sete, Alguma Poesia (1930), obra de estréia que levou longe as propostas do modernismo. Lição de Coisas (1962), onde experimentações gráficas refletem influências de vanguardas concretistas, na opinião de alguns críticos, cede apenas o poema Destruição, lido pela cineasta Marina Person. Alguma Poesia é também um dos dois livros de Drummond preferidos do poeta Eucanaã Ferraz, responsável pela escolha dos poemas lidos. “Dá a impressão de ter sido publicado hoje, uma obra moderna e com tanta novidade. É um clássico”, justifica. O outro título de cabeceira do curador é A Rosa do Povo (1945), lançada durante a ditadura Getúlio Vargas, que tensiona angústia política e fragilidade existencial. “Li muitas vezes, a vida inteira, anos a fio, e sempre descubro alguma coisa nova.”

Ao fim do primeiro Dia D, a Livraria Cultura, parceira no evento, contabilizou um incrível crescimento de mais de 2.000% nas vendas de livros de Carlos Drummond de Andrade entre outubro de 2010 e 2011, em comparação aos 12 meses anteriores. Segundo Robson Silva, assistente de eventos da Livraria Cultura, leituras dramatizadas aconteceram em cerca de dez lojas, no Rio de Janeiro, em São Paulo, Brasília, Salvador e no Recife. O filme Consideração do Poema atraía cerca de 30 espectadores cada vez que era exibido em sessões contínuas na principal loja da Livraria Cultura, situada no coração da Avenida Paulista. Outras 50 pessoas paravam para ver um vídeo de dez minutos produzido pelo IMS onde o poema No Meio do Caminho é lido em 11 idiomas, por personalidades como Jean-Claude Bernardet. Para o ano que vem, o lojista sugere obras multimídia, ou que representem Drummond nas artes plásticas, ou para crianças. “Essa festa não pertence ao IMS; é de qualquer um que queira comemorar”, destaca Eucanaã Ferraz. “Não vai caber ao IMS orientar nada, criar linha de ação de interpretação. Ao contrário, a proposta é que, a cada ano, o Dia D esteja mais livre. A pior hipótese seria a melhor: se o IMS não fizesse o Dia D porque não precisa mais. Isso significará que a festa está consolidada, já faz parte do calendário cultural e afetivo do País.” As repercussões da data, na avaliação do curador, indicaram que ela mostrou ter esse potencial, com a adesão espontânea de instituições e leitores, mobilização da imprensa, grande atividade digital, em blogs e redes sociais.” Além do aumento do número de leitores, “o ideal é que a obra passe a acompanhar a popularidade do autor” finaliza Eucanaã Ferraz. IMAGENS QUE ILUSTRAM ESTE TEXTO - Página oposta: Retrato de Drummond no Ministério da Educação, por Marcel Gautherot, e capa da edição original do livro Uma Pedra no Meio do Caminho - Biografia de um Poema, de 1967. Ambas foram reproduzidas do livro Uma Pedra no Meio do Caminho - Biografia de um Poema (Edição Ampliada, do IMS). Acima, desenho de Santa Rosa e uma folha com um dos poemas enviados por Drummond para Mário de Andrade com anotações manuscritas de Mário. Ambas, extraídas do livro Alguma Poesia - O Livro em Seu Tempo (IMS). À esquerda, folha de um dos cadernos onde Drummond anotava suas dedicatórias em forma de poemas. Nesta, reproduzida do livro Versos de Circunstância (IMS), se lê um poema-dedicatória para José Olympio.

Caricatura de Loredano publicada nos livros Escritores por Loredano e Uma Pedra no Meio do Caminho - Biografia de um Poema (Edição Ampliada), ambos do IMS.

Em 2012, acervo pessoal chega ao público No ano que vem, o IMS vai abrir à visitação boa parte do acervo pessoal do poeta, doado pela família ao Instituto. São 8 mil livros, muitos com anotações manuscritas, cartas para a mãe e outros parentes, ilustrações, etc. “À medida que o acervo for melhor conhecido, surgirão novas possibilidades de uma maior presença de Drummond, que poderemos colocar à disposição dos pesquisadores. Quem sabe descobrir faces novas do poeta, que possam aparecer no trabalho a ser feito nesse material. É uma coisa extraordinária”, diz Flávio Moura, do IMS. Do ano passado para cá, a entidade já lançou três livros para os interessados em aprofundar os estudos (leia matéria na página 38). O mais recente é Versos de Circunstância (2011), edição fac-similar de três cadernetas em que Carlos Drummond de Andrade transcreveu dedicatórias feitas em livros seus para familiares e amigos, como Manuel Bandeira, Lygia Fagundes Telles e Rachel de Queiroz. Alguma poesia – O Livro em Seu Tempo é outra edição fac-similar, também organizada por Eucanaã Ferraz, do livro de estréia de Drummond, a partir do exemplar que era dele e com suas emendas. Inclui pesquisa iconográfica, a recepção crítica obtida em 1930 e transcrição de cartas de amigos do poeta com comentários sobre o livro. Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de um Poema saiu em segunda edição, ampliada, com a coletânea de comentários organizada originalmente pelo próprio Drummond, com prefácio de Arnaldo Saraiva. Segundo sua assessoria, o Instituto Moreira Salles foi criado em 1992 a partir de uma dotação de recursos que a família Moreira Salles destinou a esse fim e que ainda hoje rendem e o financiam. Atualmente, o IMS não utiliza recursos beneficiados por leis de incentivo fiscal. Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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HOMENAGEM DIA D: À PROCURA DE DRUMMOND

A topada que mudou a poesia brasileira Edições especiais primorosas lançadas pelo IMS de algumas obras de Drummond mostram a atualidade de seus escritos e provam que a célebre pedra continua no meio do caminho da literatura nacional. P OR M ARCOS S TEFANO Com quantas pedras se constrói um castelo? Para muitos, esse cálculo não passa de pura figura retórica, mas não para o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Em 1928, após publicar pela primeira vez o poema No Meio do Caminho na Revista de Antropofagia, ele foi vítima de uma série de ataques na imprensa. Violentos, irônicos e corrosivos, os críticos não pouparam as repetições e o uso de “tinha uma pedra” no lugar de “havia uma pedra”. “Dizem que todo o homem é mais ou menos visível. Não creio. O senhor Carlos Drummond de Andrade faria inveja ao próprio personagem de Wells, pois não tem necessidade de ingerir uma droga violenta para sutilizar-se. O esforço dele é no sentido de inventar outra droga que o torne visível. Ainda não conseguiu”, escreveu Moacir Andrade, o “Gato Félix”, no Diário da Tarde, de Belo Horizonte, em 1934. “Há certos poetas que têm postura de Leghorn – como foi o caso de Luís Murat – e põem versos às dúzias todos os dias. O senhor Carlos Drummond é difícil. Por mais que esprema o cérebro, não sai nada. Vê uma pedra no meio do caminho – coisa que todos os dias sucede a toda gente (mormente agora, que as ruas da cidade inteira andam em conserto) – e fica repetindo a coisa feito papagaio. Homem! E não houve uma alma caridosa que pegasse nessa pedra e lhe esborrachasse o crânio com ela?”, ironizou Gondin da Fonseca no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, de julho de 1938. O que doeu mais, se foi a saraivada nos meios de comunicação ou a topada que começou toda essa história, é difícil dizer. Mas em ambos os casos Drummond foi capaz de derrubar barreiras. As que tentavam impedir o avanço do modernismo e aquelas que se negavam a dar espaço a uma obra que transformaria a poesia brasileira. Parte dessa obra vem sendo resgatada desde o ano passado pelo Instituto Moreira Salles. O formato é tradicional: livros e vídeos. Mas o conteúdo agrega originalidade na medida em que atualiza a poesia de Drummond, principalmente seus primeiros trabalhos, e documenta sua influência e repercussões históricas. Exemplo disso é Uma Pedra no Meio do Caminho – Biografia de Um Poema. Sua primeira edição foi publicada em 1967, concebida pelo próprio poeta, e mostrou como o marcante poema de dez versos, que na realidade se reduzem a três por causa das tantas repetições de palavras, provocou tantas reações, da irritação ao sarcasmo – 38 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

como se viu no começo deste texto –, e, claro, admiração também. A nova edição, organizada por Eucanaã Ferraz, revisa esse mesmo material e ainda o amplia. Por si só o material reunido por Drummond já era vasto. Na primeira edição há artigos e críticas tecidas ao longo de quatro décadas em jornais, revistas, livros, correspondências e mesmo no rádio. Como “a pedra no meio do caminho” tornou-se proverbial, a “biografia” ainda aproveita para mostrar como essa expressão passou a ser utilizada em áreas tão distintas quanto a política, a economia e os esportes. Textos do próprio autor, comentando sua mais famosa obra e tirados também da imprensa, e traduções do poema para outras línguas complementam a primeira versão do livro. A nova versão, lançada pelo IMS, conserva todo esse conteúdo, adicionando uma série de imagens. A capa da primeira edição, com a esfinge egípcia, perpetua o enigma: afinal, que pedra incômoda é essa? Ainda há capas de diversas obras que ou tratam do poema ou o usam como referência, partituras musicais e reflexões produzidas pelo poeta. Mas as melhores imagens são as diversas ilustrações e charges sobre a tal pedra. Numa delas, feita por Henfil para O Globo, em agosto de 1985, o então Ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel, acusado de envolvimento com o tráfico internacional de pedras preciosas, aparece se desculpando, com um enorme sorriso amarelo diante de uma pedra: “No meio do caminho tinha uma pedra...”. Noutra, publicada por J. Carlos na revista Careta de dezembro de 1946, dois populares conversam entre si enquanto observam o Presidente Eurico Gaspar Dutra caminhar com os olhos vendados em direção a uma pedra. “Você está vendo? Ainda há quem duvide da clarividência do futurismo”, chama a atenção um deles. “Não entendo”, retruca o outro. Ao que o primeiro responde: “Nós somos mesmo cegos. O poeta previu: ‘Pedra no caminho’...”. Duas novas seções complementam o livro. Biografia da Biografia recupera o melhor daquilo que foi dito pela crítica desde o seu lançamento. Já Ainda a Pedra reúne as melhores e mais recentes críticas e estudos sobre o poema de Drummond. Inclusive, deixando claro que a inovação do poeta não se limitou à quebra de limites em sonetos ou ao jogo de sonoridade. Como diz um desses textos, publicado originalmente por Tristão de Athayde no Jornal do Brasil de janeiro de 1983, “os grandes poetas mesmo quando mentem acertam. O que é a poesia, senão

a surpresa de viver? Mestre das palavras, Drummond executou a maior revolução poética do século. Junto às revoluções de 1930 e 1964, é uma das encruzilhadas de nossa História em que política e letras se encontram ou se separam. Com sua obra simples, ele optou pelas letras, mas não virou às costas a seu papel político”. Versos para todas as ocasiões

A segunda obra reeditada pelo IMS também é um marco da poesia modernista. Alguma Poesia, de 1930, foi o livro de estréia de Drummond. Uma obra sobre Minas Gerais, mas também um trabalho da maturidade do poeta, capaz de falar sobre a sociedade brasileira, criticar seus costumes e ser, por vezes, quase abstrata, rompendo de vez, em todos os sentidos, com o formalismo parnasiano. Nas suas páginas, surge o famoso “poeta repórter”, aquele que denuncia sem qualquer alusão ou sentido oculto: “A família mineira /

está quentando sol / sentada no chão / calada e feliz”, diz o autor em Sesta. Com o subtítulo O Livro em seu Tempo, a nova edição comemora os 80 anos da obra reunindo cartas de amigos e críticos acusando o recebimento do livro, resenhas e artigos dos jornais de 1930 e 1931, e uma análise que dá a clara dimensão do livro, peça central da poesia brasileira. Mas não é apenas por isso que se trata de uma edição especial. O Alguma Poesia original surge estampado em suas páginas em um fac-símile do volume que pertenceu ao próprio Drummond, com anotações de próprio punho, riscos, títulos mudados e observações que seriam incorporadas às edições seguintes. Versos de Circunstância, o livro mais recente da série, usa a mesma fórmula – as anotações de Drummond – mas é bem mais surpreendente. O título, usado pelo próprio poeta, não foi dado a um livro, mas a três cadernos em que anotou cerca de 300 dedicatórias e homenagens que fez em papéis, toalhas, livros e outros para familiares e amigos. Nelas, o poeta foge das tradicionais frases feitas para esse tipo de ocasião e produz pequenos textos repletos de amor, intimidade, jogos onomásticos e experimentações sonoras. Além dos versos transcritos, o leitor pode conferir os originais, já a obra reproduz os caderninhos em fac-símile. Nas mãos do autor modernista, mesmo uma simples dedicatória, homenagem, agradecimento ou voto de boas-festas virava motivo para a fina arte. Como diz o crítico Marcos Antônio de Moraes, no texto de apresentação do volume, é uma oportunidade de conhecer a intimidade do autor por meio de sua arte. Ao inspirador Manuel Bandeira declara: “Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira, teu nome é para nós, Manuel, bandeira”. Ao desejar felicidade à poeta paulistana Lupe Cotrim Garaude, ele transforma os títulos dos livros dela – Raiz Comum (1955), Monólogos do Afeto (1959) e Entre a Flor e o Tempo (1961) – em versos seus, no final das três primeiras estrofes que lhe oferece: “Este o nosso destino: amor sem conta / distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, / doação ilimitada a uma completa ingratidão / e na concha do amor a procura medrosa / paciente, de mais e mais amor. / Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa / amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”. Em 1994, sete anos depois da morte de Drummond, o crítico literário Alfredo Bosi declarou que o poeta foi mais do que um modernista. “É verdade que ele herdou a liberdade lingüística, o verso livre, o metro livre, as temáticas cotidianas. Mas foi além. Alcançou um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da História, livre de referências, ideologias ou prospectivas”, defendeu ele. A releitura de algumas das grandes obras de Drummond, passadas a limpo com novas edições e documentários, mostra a realidade dessa análise. É possível discordar das idéias e pensamentos do poeta, mas impossível negar que a pedra continua no meio do caminho, influenciando não apenas a poesia, mas toda a sociedade brasileira. Sorte é dar uma bela topada nela.


IMPRENSA raldo e Maurício de Sousa, entre outros. O ensaio de Silvia H. S. Borelli é especialmente dedicado a analisar o fenômeno Harry Potter, série de livros infanto-juvenis de autoria da escritora britânica J. K. Rowling, a partir do seu desempenho no mercado europeu, com amplo espaço argumentativo conduzido por Humberto Eco, ferrenho defensor da série.

200 anos de Babel

Cultura letrada

Premiado com o Jabuti, livro da Unesp e Fundação Biblioteca Nacional faz um recorte empolgante da História do livro no Brasil. P OR CESAR SILVA

Em 1944, o escritor argentino Jorge Luiz Borges publicou na antologia Ficciones o conto A biblioteca de Babel. Nessa fantástica biblioteca imaginária, os pesquisadores encontram, perfeitamente alinhados em estantes idênticas e intermináveis, um exemplar de cada livro passível de ser escrito com as combinações dos dígitos dos quais dispomos para registrar nossas idéias. Ou seja, entre muitas obras ilegíveis também estariam ali todos os livros legíveis do mundo, de todos os tempos e culturas. Entre muitas leituras possíveis, Borges sublimou ali um intenso maravilhamento frente ao mercado livreiro e à imponderabilidade de suas gigantescas tiragens e variedade. No romance Poeira: Demônios e Maldições, de Nelson de Oliveira, publicado em 2010 pela editora Língua Geral e vencedor do prêmio Casa de Las Americas, um bibliotecário surta quando livros começam a brotar por todos os lados, numa volúpia que inviabiliza a sua devida classificação. São ficções recheadas de espanto perante a importância do livro para a civilização. O fabuloso é que a argamassa da ficção fantástica está sempre lá. Por isso, quando se quer ser surpreendido, nada melhor que abrir um livro de ficção. Mas isso também pode acontecer com um texto de não-ficção acadêmico? Pode. Um exemplo disso é a antologia de ensaios Impresso no Brasil: Dois Séculos de Livros Brasileiros, organizada por Aníbal Bragança e Márcia Abreu, publicada em 2010 pela Editora Unesp e Fundação Biblioteca Nacional, comemorando os 200 anos da instalação da Impressão Régia no Brasil. Agora em 2011 este trabalho editorial foi agraciado pela Câmara Brasileira do Livro com o Prêmio Jabuti, na categoria Comunicação. Geralmente, as publicações acadêmicas têm um viés tão específico e rigorosamente formatado aos padrões escolásticos que pouco ou nenhum prazer dão ao leitor leigo. São compêndios de conceitos científicos, com uma linguagem difícil e jargões impenetráveis. Contudo, enquanto conta a história da indústria editorial brasileira, a leitura desta antologia revela, como em Borges e Oliveira, um ambiente deliciosamente espetacular, nas franjas do fantástico e do mitológico.

Os organizadores têm ampla autoridade do assunto. Aníbal Bragança é português, mas tem toda a sua atividade acadêmica no Brasil. É doutor em Ciência da Comunicação pela Universidade de São Paulo, docente da Universidade Federal Fluminense, Coordenador-Geral de Pesquisa e Editoração da Fundação Biblioteca Nacional. É autor de Livraria Ideal: Do Cordel à Bibliofilia (Com-Arte/Edusp, 2009), entre outros livros. Márcia Abreu é professora do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas-IEL–Unicamp, com doutorado em Teoria e História Literária na mesma Universidade e pós-doutorado em História Cultural na Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. É autora dos livros Histórias de Cordéis e Folhetos (Mercado de Letras/ALB, 1999), Os Caminhos dos Livros (Mercado de Letras/ALB/ Fapesp, 2003) e Cultura Letrada: Literatura e Leitura (Unesp, 2006), entre outros. Nova história editorial

Impresso no Brasil tem introdução do falecido bibiófilo José Mindlin (1914-2010), membro da Academia Brasileira de Letras, e em suas 664 páginas reúne 35 ensaios de autores diferentes, divididos em duas partes. A primeira, chamada “Uma nova história editorial brasileira: editores, tipógrafos e livreiros”, trata da história das editoras no País. É a parte mais volumosa do livro, composta por 22 ensaios. O primeiro é de autoria do próprio Aníbal Bragança e vai buscar os precursores da tipografia no Brasil, António Isidoro da Fonseca e Frei José Mariano da Conceição Veloso, ainda no século 18, e os motivos pelos quais seu trabalho foi interrompido por um decreto do rei de Portugal, que por longo tempo interditou o funcionamento de qualquer tipografia na colônia, até que a Família Real aqui se instalou em 1808, e fosse criada a Impressão Régia. Em seguida, Márcia Abreu trata dos primeiros livros impressos no Brasil. Ela identifica O Diabo Coxo: Verdades Sonhadas e Novelas da Outra Vida (1707), do escritor francês Alain-René Lesage, como o primeiro deles, traduzido em 1810. Nos capítulos seguintes, a História do livro brasileiro vai-se desdobrando nos ensaios de um grupo selecionadíssimo de pesquisadores acadêmicos. Eliana de Freitas Dutra aborda a Editora Garnier, Alessandra El Far comenta a moda das edições

baratas do fim do século 19, Marcia de Paula Gregorio Razzini insere na História as publicações didáticas que caracterizaram o início da indústria livreira paulista. O ensaio mais empolgante do volume provavelmente é o de Cilza Bignotto, Monteiro Lobato: editor revolucionário?, que conta como esse conhecido intelectual das letras montou a primeira rede distribuidora de livros no País. Outra personalidade importante da nossa indústria livreira tratada neste trabalho é Ênio Silveira, da Editora Civilização Brasileira, cuja característica revolucionária, ao contrário de Lobato, não é questionada pelos ensaístas Guilherme Cunha Lima e Ana Sofia Mariz. Já o ensaio de Gabriella Pellegrino Soares é inteiramente dedicado aos irmãos Weiszflog, fundadores da Editora Melhoramentos. Editoras que também mereceram atenção em ensaios específicos foram Companhia Editora Nacional (por Maria Rita de Almeida Toledo), Editora Abril (por Mateus Henrique de Faria Pereira) e Companhia das Letras (por Teodoro Koracakis). Outras tantas foram abordadas de forma mais genérica, em ensaios dedicados às editoras pequenas e médias (por Marília de Araújo Barcellos), editoras universitárias (por José Castilho Marques Neto e Flávia Garcia Rosa) e editoras regionais em Pernambuco (Denis Antônio de Mendonça Bernardes), Paraíba (Socorro de Fátima Pacífico Barbosa), Bahia (Luis Guilherme Pontes Tavares e Flávia Garcia Rosa) e Rio Grande do Sul (Elisabeth W. Rochadel Torresini). Há ainda ensaios sobre a visualidade e tipologia dos livros nos séculos 19 e 20 (Isabel Cristina Alvez da Silva Frade), sobre a censura aos livros durante a ditadura militar (Sandra Reimão) e sobre a evolução do mercado editorial entre 1995 e 2006 (Fábio Sá Earp e George Kornis). Dois ensaios destacam-se fechando esta primeira parte, por abordarem assuntos um tanto mais coloridos: Antonio Hohlfeldt trata das publicações dedicadas às crianças, citando O Tico-Tico, Sesinho, Suplemento Juvenil, Edição Maravilhosa, além de autores como Lobato, Viriato Corrêa, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Zi-

A segunda parte, intitulada “Cultura letrada no Brasil: autores, leitores e leituras”, faz um levantamento histórico e geográfico das bibliotecas, salas de leitura, comunidades de leitores, organizações de autores, e trata também da obra de alguns deles. Minas Gerais recebe a atenção nos ensaios de Luiz Carlos Villalta e Christianni Cardoso Morais, sobre as bibliotecas privadas, e de Francisca Izabel de Oliveira Galvão sobre as histórias de Lili. Marisa Midori Deaecto faz um levantamento das instituições de leitura em São Paulo, Sandra Jatahy Pesavento investiga a vida literária em Porto Alegre, enquanto Felipe Matos faz o mesmo em Florianópolis, e Maria Luiza Ugarte Pinheiro, em Manaus. A Coleção Eurico Facó recebe a atenção de Giselle Martins Venancio, e Marcello Moreira estuda a nacionalização das letras da América portuguesa. Os trechos mais emocionantes, contudo, estão nos ensaios de Lúcia Maria Bastos P. Neves e Tania Maria Bessone da Cruz Ferreira, sobre o direito autoral no Brasil do século 19, que é muito revelador sobre a tradição nacional de não respeitar esse princípio editorial. João Paulo Coelho de Souza Rodrigues recupera a história da Academia Brasileira de Letras, e Ana Maria de Oliveira Galvão trata do sempre bem-vindo tema da literatura de cordel. Fecham o volume os ensaios de Maria Tereza Santos Cunha, sobre a literatura erótica de Corin Tellado e Carlos Zéfiro, enquanto Richard Romancini avalia a obra de Paulo Coelho e seus predecessores. Ficou faltando, entretanto, um capítulo que avaliasse o impacto das novíssimas tecnologias, especialmente as publicações virtuais, na arte literária, na indústria editorial e no hábito da leitura, visto que esta é certamente a mais significativa revolução editorial no País desde a instalação da Impressão Régia em 1808. Mesmo sendo um estudo robusto e minucioso, Impresso no Brasil: Dois Séculos de Livros Brasileiros é uma leitura agradável e surpreendentemente leve, com temas variados que merecem a atenção de uma vasta gama de leitores, não apenas acadêmicos, mas de todos aqueles que trabalham com os livros, seja em bibliotecas, livrarias, editoras, comunidades de leitura e até mesmo do público leigo apaixonado pelos livros e por sua História. Provavelmente porque os próprios autores também sejam apaixonados por esses objetos prosaicos considerados por muitos como tecnologicamente ultrapassados, mas que, um por um, compõem uma Babel nacional que nem mesmo uma fabulação de Borges ou de Oliveira poderia retratar completamente. Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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Acima, a visão de Cidade de Deus (2002) + Carlota Joaquina (1994); e Durval Discos (2002). Abaixo, uma brincadeira com vários filmes estrelados por Lázaro Ramos: O Homem que Copiava (2003), Meu Tio Matou um Cara (2004), Saneamento Básico (2007), Carandiru (2003), Cidade Baixa (2005) e Ó Paí, ó! (2007). À direita, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006).

Acima à esquerda, a dobradinha Tropa de Elite (2007) + É Proibido Fumar (2009) e à direita, a homenagem a O Coronel e o Lobisomem (2005). Ao lado, sexo, drogas e bebedeira com Dossiê Rê Bordosa (2008) + Meu Nome Não é Johnny (2008).

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EXPOSIÇÃO

Angeli e o cinema nacional Mostra com obras do desenhista homenageia a retomada da produção cinematográfica no Brasil. Quem foi à 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, entre 21 de outubro e 3 de novembro de 2011, pôde conferir alguns dos desenhos de Angeli que farão parte de uma exposição itinerante em homenagem ao cinema brasileiro. Patrocinadora da Mostra nas últimas dez edições, a Petrobrás aproveitou o evento para iniciar as comemorações pelos 500 filmes produzidos pela empresa desde a retomada do cinema nacional a partir de 2004, quando foi lançado o filme Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camurati. Na Mostra de Cinema foram expostos apenas 15 desenhos que o Jornal da ABI publica nesta página dupla com exclusividade. A exposição com as obras do premiado cartunista será exibida na íntegra nos principais festivais de cinema patrocinados pela Petrobrás. O primeiro deles será a Mostra de Cinema de Tiradentes (MG), que acontece de 20 a 28 de janeiro de 2012. Dono de um estilo personalíssimo muito identificado com o ambiente urbano, Arnaldo Angeli Filho é autor de personagens como Rê Bordosa, Wood & Stock, os Skrotinhos, Bob Cuspe entre outros. Sua carreira começou em 1970, aos 14 anos de idade, na revista Senhor. Em 1973 foi contratado pela Folha de S.Paulo, veículo no qual desenvolveu a maior parte de seu trabalho. Tornou-se amigo dos também cartunistas Laerte Coutinho e Glauco Villas Boas e juntos lançaram, em 1983 pela Circo Editorial, a influente revista Chiclete com Banana, um grande sucesso que chegou a vender mais de cem mil exemplares por edição. O valor do trabalho de Angeli é tão significativo para as artes brasileiras que, em 2004, ele foi nomeado pelo Ministério da Cultura Brasileiro comendador da República na Ordem do Mérito Cultural.

Os três desenhos do alto da página homenageiam os filmes Bicho de Sete Cabeças (2001), Se Eu Fosse Você (2006) + Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock N'Roll (2006), e As Melhores Coisas do Mundo (2010). Acima, a visão de Angeli para Tainá (2000); abaixo, O Menino Maluquinho 2 (1997) + O Invasor (2001).

Na coluna à esquerda, de cima para baixo, Angeli dá o recado ao misturar produções como Cartola (2007) + Deus é Brasileiro (2003); Estômago (2007) + Besouro (2009); e Redentor (2004) + Pelé Eterno (2004)

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HOMENAGEM

Uma pequena exposição revive o gênio do cinema, que ainda hoje diverte adultos e crianças. P OR F RANCISCO U CHA O que faz uma obra ser eterna? Esta pergunta pode ser respondida conhecendo-se um pouco da história de Charles Chaplin e sua admirável criação, Carlitos, e ao mesmo tempo, percebendo a reação das crianças durante a exposição Chaplin e Sua Imagem. O evento comemorou o 10° aniversário do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, transcorrido em novembro. “Ele é tão engraçado!”, exclama extasiado um menino de seis anos no colo do pai que assistia a um dos diversos filmetes exibidos no local. Era uma grande descoberta para aquela criança acostumada com a profusão de cores, imagens e informações de nossa época. Carlitos é assim, atemporal. Emociona adultos e crianças ainda hoje, em plena era de tablets e de internet. Ocupando três salas do Instituto Tomie Ohtake, a exposição teve como curador Sam Stourdzé e foi organizada com o apoio da Chaplin Association, juntamente com a Cineteca di Bologna (Progetto Chaplin) e da empresa cinematográfica francesa MK2. Ela apresentou ao público de São Paulo parte do acervo da família Chaplin com cerca de 200 fotografias, fotogramas, reproduções de cartazes e capas de revista, além de trechos de filmes, exibidos em vários espaços. Alguns deles chamavam atenção do público pela curiosidade. Era o caso de uma pequena pérola cinematográfica de pouco mais de três minutos de duração que registra alguns momentos dos bastidores da cena do baile de O Grande Ditador. Filmado pelo irmão de Chaplin, Sid, o personagem antológico criado pelo genial comediante pôde finalmente ser visto em cores pelo público que visitava a mostra. Nenhuma novidade para quem teve a oportunidade de conhecer a belíssima Coleção Chaplin, uma preciosa reunião de 20 dvds distribuídos em três caixas lançadas no Brasil pela Warner em 2005 e que hoje se encontram esgotadas. Essa coleção apresentou os principais filmes do cineasta remasterizados e uma grande quantidade de extras, inclusive o making of mudo completo realizado por Sid Chaplin du42 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

rante as filmagens de O Grande Ditador. Entre os extras dessa coleção aparece também How To Make Movies, de 1918, que apresenta os bastidores dos estúdios de Charles Chaplin e ficou inédito na época. Esse filme também foi exibido na exposição. Mas a boa surpresa do evento foi mesmo assistir a alguns filmes caseiros coloridos de um Chaplin já grisalho em cenas com sua família, onde muitas vezes ele reprisa alguma das pantomimas que o tornaram famoso no cinema mudo. Mesmo não sendo uma mostra tão abrangente ou inédita, Chaplin e Sua Imagem teve como ponto positivo o fato de fazer uma síntese da vida e obra do artista e resgatar sua arte para as novas gerações. Assim o público pôde conhecer a criação do personagem que marcou a História do cinema e foi uma das figuras mais importantes do século 20. Os imitadores

A grande empatia que o seu personagem teve com o público logo tornou Chaplin uma figura querida e muito admirada mundo afora. Os primeiros passos de Carlitos surgiram no cinema em 1914 e logo no ano seguinte vários comediantes começaram a imitá-lo. Alguns deles apenas se inspiraram na figura do Vagabundo, mas outros o copiaram de tal maneira que, depois de alguns anos, Chaplin teve que procurar seus direitos na Justiça. Ele abriu um processo de plágio contra um certo “Charlie Aplin”, cujo verdadeiro nome era Charles Amador, ator mexicano que copiava todos os trejeitos de Carlitos no filme The Race Track. Para comprovar o crime de seus imitadores, os advogados do cineasta tiveram que provar a originalidade do personagem apresentando fotos mais an-

tigas de Chaplin como Carlitos. Assim, em 1925, a Suprema Corte do Estado da Califórnia julgou o caso a favor de Chaplin. Somente dessa forma o personagem tornou-se único e de sua propriedade. Nos três primeiros anos em que atuou no cinema – de 1914 a 1916 – Chaplin estrelou (ou co-estrelou) nada menos do que 60 filmes. Uma média de 20 curtas por ano. Detalhista ao extremo e com total liberdade criativa, em 1917 ele decide realizar menos filmes para buscar ainda mais a perfeição em suas produções, investindo seu tempo em roteiros mais elaborados para destacar todas as nuances de sua expressividade cômica. Assim, até 1919, realizou 11 filmes, entre eles O Imigrante, Vida de Cachorro e Shoulder Arms, sobre a Primeira Guerra Mundial. Em 1921 lança apenas dois filmes: o longa metragem O Garoto (The Kid), um de seus filmes mais admirados, e o ótimo curta Os Clássicos Vadios (The Idle Class). Aos poucos fica cada vez mais evidente sua opção pela crítica social. Em 1923, chega The Pilgrim; dois anos depois, outra obra marcante: Em Busca do Ouro (The Gold Rush).

Ator e Melhor Direção de Comédia, por O Circo. Mas Emil Jannings foi o escolhido por sua atuação em A Última Ordem (The Last Command). E quem ganhou na categoria Direção de Comédia foi Lewis Milestone, por Two Arabian Knights. Alguém se lembra desse filme? Porém, o grande cineasta não saiu de mãos vazias naquela noite: a Academia deu um Prêmio Especial a Chaplin “por sua versatilidade e genialidade em escrever, atuar, dirigir e produzir O Circo”. A controversa História do Oscar começava mal desde a sua primeira edição. Nos anos seguintes o cinema sonoro logo se tornou popular, mas Chaplin teimava em permanecer mudo. Ele sabia que quando o Vagabundo falasse seria o fim de seu personagem. Então, depois de cinco anos sem realizar um único filme, Chaplin ousa novamente com Tempos Modernos (Modern Times), sua produção de maior engajamento social. Carlitos continuava mudo fazendo uma crítica ao progresso e à industrialização que o mundo vivia em 1936. A única surpresa que Chaplin reserva ao seu público já acostumado com cinema sonoro foi a inclusão da antológica cena onde seu personagem finge cantar uma canção da qual esquecera a letra. Seus admiradores enfim ouviam a voz do Vagabundo, porém sem entender uma só palavra. O crescimento do fascismo na Alemanha e em outros países da Europa e a ascensão de Hitler fazem Chaplin criar sua obra mais eloqüente e controversa para a época; afinal ele iria mexer com temas muito delicados e o filme poderia se tornar uma catástrofe em sua carreira. Enga-

A chegada do som

Em 1927 o cinema americano é surpreendido por uma nova tecnologia que possibilitava o som a partir da projeção do filme. Al Jonson se torna o primeiro ator a ter sua voz ouvida pelo público em O Cantor de Jazz (The Jazz Singer). Chaplin achava que essa tecnologia não iria funcionar, seria uma moda logo esquecida e no ano seguinte lança O Circo (The Circus). Em 1928 também é realizada a primeira premiação do Oscar e Chaplin é um dos indicados nas categorias de Melhor

Uma das fotos anexadas ao processo de plágio que Chaplin moveu contra um de seus imitadores, para comprovar que ele era o criador do personagem Carlitos.


FOTOS © ROY EXPORT COMPANY ESTABLISHMENT, CORTESIA NBC PHOTOGRAPHIE, PARIS

Charles Chaplin and his team on the set of Modern Times (1936), © Roy Export Company Establishment, courtesy NBC Photographie, Paris

Caça às bruxas

Na seqüência de fotos desta página, Chaplin aparece nos bastidores do filme Tempos Modernos (Modern Times, 1936) nas duas do alto à esquerda. No alto à direita, ele e o ator Buster Keaton contracenam em Luzes da Ribalta (Limelight, 1952). Acima, Chaplin ensaia uma luta de boxe com o ator Mack Swain, que aparece com o traje usado no filme Em Busca do Ouro (The Gold Rush, 1925). Ao lado deles o boxeador Kid McCoy. Finalmente, ao lado, uma foto que registra o início simbólico da construção dos Estúdios Chaplin, em Los Angeles, produzida em novembro de 1917.

nou-se quem apostou nisso. O Grande Ditador (The Great Dictator) foi um enorme sucesso, sendo indicado a cinco categorias no Oscar: Melhor Filme, Ator, Ator Coadjuvante, Música e Roteiro Original. Não ganhou nenhum. Mas seu Vagabundo brilhara mais uma vez e se despediu de seu público com um discurso pela justiça entre os homens. Carlitos finalmente falou. E depois se calou para sempre.

“Hollywood está morrendo” A seguir, um trecho do artigo de Chaplin publicado na revista inglesa Reynolds News cujo teor tem notável atualidade: “No momento Hollywood está travando sua última batalha, e irá perdê-la a menos que decida de uma vez por todas desistir de padronizar seus filmes – a menos que perceba que obras-primas não podem ser produzidas em massa no cinema, como tratores em uma fábrica. Creio, objetivamente, que seja hora de seguir um novo rumo – para que o dinheiro não seja mais o deus todo-poderoso de uma comunidade decadente... Eu, Charlie Chaplin, declaro que Hollywood está morrendo”.

Em 1943 um escândalo abala a reputação de Chaplin, quando a jovem atriz Joan Barry o leva aos tribunais devido a um processo de reconhecimento de paternidade. Apesar de Chaplin conseguir provar sua inocência, a mídia continua com uma infame campanha contra ele, e começa a acusá-lo de ser antiamericano. O macartismo começava sua caça às bruxas. A revista Hollywood Reporter chegou a questionar em 1946 por que ainda era permitido a Chaplin viver nos Estados Unidos. No ano seguinte Chaplin publica o artigo I’ve Had Enough of Hollywood na revista inglesa Reynolds News. Os ânimos se acirram. Em 1947 Chaplin lança sua produção mais criticada pelo público, Monsieur Verdoux, na qual ele interpreta um serial-killer. É um fracasso de bilheteria nos Estados Unidos. Cinco anos depois, em 1952, chega aos cinemas o poético Luzes da Ribalta (Limelight), no qual contracena com Buster Keaton. Charles Chaplin decide fazer uma viagem de navio à Inglaterra com sua última esposa Oona O’Neill, filha do dramaturgo Eugene O’Neill, e seus filhos para lançar sua nova produção. Mas durante o percurso recebe a notícia de que seu visto para entrar nos Estados Unidos não seria mais renovado. E ele decide nunca mais tentar entrar naquele país: “Tenho sido alvo de mentiras e propagandas por poderosos grupos reacionários que, por sua influência e com a ajuda da imprensa marrom, criaram um ambiente doentio no qual indivíduos de mente liberal possam ser apontados e perseguidos. Nestas condições, acho que é praticamente impossível continuar meu trabalho do ramo do cinema e, portanto, me desfiz de minha residência nos Estados Unidos.” Mas a História expõe os erros e as vitórias. Vinte anos depois, em 1972, quase como um pedido oficial de desculpas, a Academia concede a Charles Chaplin um Oscar Honorário por sua carreira. Já com a saúde debilitada, ele aceita o prêmio para o delírio de uma platéia que o recebe aplaudindo de pé. Mesmo assim, aquele Oscar era muito pouco para premiar um gigante que ajudou a erguer Hollywood e a popularizar o cinema em todo o mundo. Apenas cinco anos depois, justamente no dia 25 de dezembro, Chaplin morreria dormindo, com 88 anos. O Natal de 1977 foi marcado por uma enorme tristeza. Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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Vidas

Luiz Mendes, o da palavra fácil, realmente Decano do comentário esportivo, ele acompanhou o esporte durante mais de 70 anos e armazenava informações com uma memória impressionante.

O futebol ficou órfão com a morte, em 27 de outubro, aos 87 anos, do radialista Luiz Mendes, cuja ausência abre uma lacuna difícil de ser preenchida pelo que ele representava para a história do jornalismo esportivo, onde deixou um registro especial como “o comentarista da palavra fácil” e marcou presença com uma memória impressionante. Ele estava internado no Hospital São Lucas, em Copacabana, desde o dia 18 de outubro. A morte foi provocada por complicações decorrentes de uma leucemia linfocítica crônica. Há muitos anos Mendes sofria com diabetes. Em sua homenagem o site da Rádio Globo ressaltou que Luiz Mendes “foi um craque do microfone esportivo’: “Na latinha foi testemunha dos mais importantes eventos esportivos do Brasil e do Mundo em mais de 70 anos de profissão – o único brasileiro a transmitir a final da Copa do Mundo de 1954”. Para a emissora, na qual ele trabalhou por mais de 60 anos, desde a sua inauguração em 1944, Luiz Mendes era “dono de uma fala simples e envolvente, de memória ampla impressionante, de carisma e simpatia sem pares, e sua morte deixa o País órfão e o futebol, triste”. Em entrevista à repórter Cláudia Souza para o ABI Online (www.abi.org.br/ paginaindividual.asp?id=3297), publicada em 19 de setembro de 2008, Mendes contou que iniciou a carreira em

1941, quando ainda era menino, no serviço de alto-falante da cidadezinha de Ijuí, no Rio Grande do Sul. Ele falou também da sua ida para a Rádio Globo no Rio de Janeiro: “No fim de novembro de 1944, estive no Rio para fazer a transmissão de um jogo do Campeonato Brasileiro de Seleções e fiquei sabendo que a Rádio Globo seria inaugurada no dia 2 de dezembro. Fui até lá e procurei o Rubens Amaral, o locutor-chefe. Como eu era muito menino, ele perguntou se eu tinha experiência. Assim que mostrei a carteirinha da Farroupilha – uma das emissoras mais fortes na época – ele pediu para eu retornar no dia seguinte. “Para fazer um teste?” indaguei. “Não! Se você é locutor da Rádio Farroupilha, será locutor da Rádio Globo”, respondeu. E assim, quase no grito, fui um dos fundadores da estação. Sou o último sobrevivente da inauguração, ao lado de Benedito Silva, que era o tesoureiro e hoje está com 92 anos. Devido ao agravamento do seu estado de saúde, antes de ser internado Luiz Mendes já não saía e participava de casa da mesa-redonda “Enquanto a bola não rola”, que vai ao ar pela Rádio Globo aos domingos. No programa “Globo espor-

“Eu posso fazer o programa” O perfil de Luiz Mendes, por seus companheiros. JOSÉ REZENDE RADIALISTA E LOCUTOR ESPORTIVO

“O Luiz Mendes fez parte da minha infância. Quando eu morava na Avenida Henrique Valadares, o quintal da minha casa dava para a Travessa Chiquita, da Vila Rui Barbosa, onde ele morava com a Daisy. Da sua janela ele me via jogar botão e irradiar os jogos. Sob o ponto de vista profissional, além do excelente locutor e comentarista esportivo, era a memória viva da história do futebol brasileiro. Essa perda irreparável ficará eternamente na lembrança dos amigos e companheiros de profissão”.

GILMAR FERREIRA GERENTE DE ESPORTES DA RÁDIO GLOBO

“Estamos tentando superar a emoção e tocar a vida em frente. Queria dizer para os ouvintes da Rádio Globo que perdemos não apenas um mestre, perdemos na nossa família aquele avô que sentava na cabeceira da mesa, que tinha um olhar penetrante, a palavra certeira e um ensinamento, que a gente precisa para tocar a vida, entendeu? A gente sempre espera esse momento, a gente se julga forte e preparado para enfrentá-lo, mas o coração fraqueja. É um tombinho aqui que a gente leva, é um esbarrão ali, e o corpo às vezes não responde da maneira que a gente deseja. Nesse momento eu queria dizer a todos aqueles que aprenderam a respeitar, a gostar e a admirar o

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nosso “Che”, o palavra fácil, que ele vai fazer muita falta, não apenas ao rádio brasileiro, mas na vida daqueles que acreditam que é possível viver em paz e harmonia até o fim dos nossos dias.” (com a voz embargada, chorando)

tivo”, apresentado por José Carlos Araújo todas as tardes, de segunda a sexta-feira, Mendes dava o seu toque especial no quadro “Da pelada ao Pelé”, no qual narrava os principais casos que presenciou na sua

Mando daqui o meu beijo carinhoso à companheira Daisy Lúcidi, que foi de uma luta extraordinária e de uma fidelidade incrível, acompanhando-o durante todo esse tempo. É difícil pra nós expressar qualquer tipo de manifestação, exatamente porque ele nos deixa com 87 anos, Mas com muito mais anos de memória, de pensamentos, de lições que ele nos transmitiu.”

ERALDO LEITE PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS CRONISTAS ESPORTIVOS DO

JOSÉ CARLOS ARAÚJO

RIO DE JANEIRO-ACERJ

RADIALISTA

“O Mendes tinha uma memória inacreditável. Ele dizia “O Pelé fez mil e duzentos, mas mais do que ele fez Arthur Friedenreich”: “Friedenreich fez mais de mil e quatrocentos gols, só que na época de Friedenreich não havia esses registros, não havia televisão, não havia rádio como se faz hoje, mas eu tenho a certeza, eu tenho computados na memória, nos meus escritos, de que ele fez mais gols que o Pelé, e o Dario fez tantos gols, o Zico fez tantos gols, o Roberto Dinamite...” Mendes tinha uma memória de a gente ficar surpreso. A gente gostava de relembrar fatos bem antigos da história do futebol só pra levantar a bola pra ele e ele poder destilar o seu conhecimento, aquele rosário de informações, de notícias, de histórias, que ele tinha armazenado na sua prodigiosa memória. Além de tudo isso que já foi dito pelo Gilmar Ferreira, pelo José Carlos Araújo, o Mendes era uma pessoa da família da gente. Preocupavam-se ele e a Daisy, até hoje a Daisy é assim, com cada coisa que acontecia na vida particular da gente — como está fulano? como está beltrano? Quando eu operei a

“Eu tenho uma amizade com o Mendes durante mais de 40 anos. Eu me lembro quando o Mendes, que foi fundador da Rádio Globo, voltou para a Rádio no início de janeiro de 1970. Ele era da Rádio Continental, junto com Mário Vianna, e o Valdir Amaral me consultou na ocasião quem deveria trazer para o lugar do Rui Porto, que tinha deixado a Rádio Globo. Garoto, eu tinha o Mendes como meu ídolo na Rádio Globo a ponto de mandar cartinha para a Rádio Globo na Avenida Rio Branco na época, expressando a minha admiração, fazendo perguntas pra ele. Quem conviveu com o Mendes sabe que, além da inteligência, da memória privilegiada, ele foi um companheiro inesquecível. Viajei com o Mendes por toda parte deste mundo, era o meu companheiro de viagem, de quarto. Hoje é um dia difícil até pra gente expressar admiração àquilo que a gente tem de melhor dele. Se por um lado fico triste porque ele nos deixa, por outro eu fico aliviado por ver o fim de um sofrimento que já levava alguns anos.

longa trajetória no universo do futebol. Batizado como Luiz Piñeda Mendes, o comentarista nasceu em Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, em 1924. Torcedor do Grêmio, no Rio de Janeiro torcia pelo Botafogo, que decretou luto oficial de três dias e cedeu a sede de General Severiano para o velório. Em mais de seis décadas de carreira, quase que integralmente ligada ao esporte, Luiz Mendes fundou emissoras de rádio, criou a primeira mesa-redonda da televisão brasileira e foi introdutor e o responsável pelo sucesso do programa TV Ringue. Foi um campeão de coberturas de Copas do Mundo: dos 19 campeonatos mundiais realizados, participou de 16. Os únicos em que não esteve presente foram os de 1930, 1934 e 1938. Na Copa de 1950, apesar da tristeza, teve a difícil missão de narrar o gol de Gigghia, o segundo da vitória do Uruguai sobre o Brasil por 2 a 1, que mergulhou o País em uma das suas mais longas decepções esportivas e ficou conhecida como Maracanazo. Mendes era casado com a atriz e também radialista Daisy Lúcidi, com quem conviveu por 64 anos e teve um filho, que lhe deu netos e uma bisneta. CELSO PUPO/FOTOARENA/FOLHAPRESS

P OR J OSÉ R EINALDO M ARQUES

coluna senti a preocupação deles — ainda ontem eu conversava com o Gérson, o Gérson dizia: “Eu estou sem coragem de ir lá visitar o Mendes, porque pra mim o Mendes é a fortaleza, é o sinal das coisas boas”. Até pra reclamar ele era de uma delicadeza, quando às vezes alguma coisa não ia de acordo com o que ele pensava, todos nós temos isso, algumas coisas agradam, outras desagradam no dia-a-dia, até pra reclamar das coisas o Mendes era de uma delicadeza, de uma singeleza sem jamais ofender alguém. Jamais proferiu um palavrão no ar; tinha consideração pelos ouvintes, pelas pessoas, até pra manifestar o sentimento de ser botafogo, de ser gremista, de ter orgulho das coisas do Rio Grande do Sul, em tudo isso ele era de uma gentileza, de uma delicadeza. Ele escreveu alguns livros, e esse mais recente, Minha gente, que foi escrito pela jornalista Ana Maria Pires, é na verdade uma tomada de depoimentos dele; na verdade a gente vai ter como livro de cabeceira pra estar relembrando as histórias, os momentos. Lembro a última vez que falei com ele, ainda no ar, ele já começava a claudicar, a voz ficava um pouco embargada, a mente variava um pouco. Já tomado pela doença, ele falava: “Não, eu estou bom, eu posso fazer o programa”. Jamais quis usufruir de folgas, de férias; fazia porque era obrigado pela legislação, mas queria trabalhar, queria estar no ar, no contato com os ouvintes. É uma perda irreparável.” (Chorando muito) Colaborou Renan Castro, estudante de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e estagiário da Diretoria de Jornalismo da ABI.


Helinho, o fascinado pelo jornalismo Nascido poucos anos após a criação do jornal que se tornaria a sua paixão, Hélio Fernandes Filho trazia do berço a vocação que depois abraçaria sem vacilações. Ele era filho do jornalista Hélio Fernandes, que a partir de 1962 se tornou proprietário da Tribuna da Imprensa, um diário em que, a partir da adolescência, Helinho, como era chamado, assimilou as virtudes que fizeram do pai um dos maiores jornalistas e homens públicos do País: a coragem, o aguerrimento, a defesa do interesse público ainda que ao preço de pesados sacrifícios. Helinho fez na Tribuna paciente e disciplinado aprendizado, iniciado no arquivo do jornal, no qual se familiarizou com as diferentes formas editoriais e gráficas que o jornal assumiu, primeiro sob a liderança de

Carlos Lacerda, seu fundador; após, sob o comando de Hélio Fernandes, que resistiu bravamente à ditadura militar, sobrevivendo à censura prévia, aos atentados terroristas, às privações econômicas que desembocaram na suspensão da circulação do jornal como veículo impresso. Em todos esses momentos Helinho se fez presente, comandando a Redação, aprimorando o veículo como produto jornalístico, produzindo manchetes que expressavam a vinculação do jornal com a causa da restauração democrática, de que a Tribuna era vigorosa combatente. Diante da necessidade de optar entre o jornalismo diário e a vida política institucional, Hélio Fernandes Filho não teve dúvidas. Eleito vereador à Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelo Partido Trabalhista Brasileiro na

Um jornalista à esquerda da esquerda POR PRISCILA MAROTTI

REPRODUÇÃO

Do início ao fim, um jornalista de excelência. Filho mais velho do grande Hélio Fernandes, irmão de Rodolfo e Isabella, sobrinho de Millôr, editor da Tribuna da Imprensa, combatente da ditadura, ex-vereador, marido, pai, botafoguense, amante da música e dos Beatles. Com 57 anos, Hélio Fernandes Filho – o Helinho – deixou uma marca forte e resistente no instável papel do jornalismo brasileiro. Ao assumir, com apenas 20 anos, a Redação da Tribuna da Imprensa no lugar de seu pai – que deixou o cargo em protesto contra a censura do regime militar, em 1974 –, Helinho iniciou uma saga que o levaria longe. A visão vanguardista – prezando, acima de tudo, a liberdade de expressão – desafiava a ditadura, dava voz aos sindicatos e marcava a presença persistente do jornal da resistência democrática. Helinho sofreu perseguições e ameaças por remar contra a corrente dos que haviam se conformado – ou se aproveitado. “Se for para ir, vamos os dois presos”, dizia a repórteres pressionados. “Helinho foi um dos poucos a acolher uma minoria gritante – a esquerda da esquerda da esquerda. Ele sempre ia além do que todo mundo esperava”,

conta o ex-fotógrafo da Tribuna Alcyr Cavalcânti. Quem teve a oportunidade de trabalhar com Helinho também destaca o respeito como uma característica fundamental para a fluência da Tribuna e de sua vida. Era conhecido por deixar todos à vontade para pensar, criar e discutir pontos de vista. Longas reuniões, incontáveis bate-papos e troca de idéias eram, sem dúvida, o carro-chefe de um jornalista que afrontava, ousava e se fazia ouvir em meio ao silêncio da repressão. E o respeito estava sempre ali, até nas divergências. Ex-Editor Internacional da Tribuna da Imprensa, Mário Augusto Jakobskind é um dos que apreciavam a personalidade desprendida de Hélio. “Liberdade de expressão, de pensamento, de criação. Essas eram algumas das grandes características de Helinho, que sempre nos deixou à vontade para escrever e criar. Era uma figura que ainda tinha muito a acrescentar ao jornalismo brasileiro”. É difícil separar a vida de Hélio do jornal Tribuna da Imprensa – que, sob seu comando, sobreviveu ao terrorismo e à repressão da ditadura militar. Conseguir levar os jornais à banca no dia seguinte a um atentado a bomba – que provocou grandes estragos na sede em 1981 – é um

eleição de 1982, fez do mandato uma forma eficaz de servir à comunidade, com proposições pioneiras, como a criação da Comissão de Defesa do Consumidor, uma das primeiras instituídas numa Casa Legislativa do País. Sob a orientação de Helinho e de uma competente integrante de seu Gabinete, a funcionária Maria Betânia Vilela, a ação da Comissão guardava pontos de contato com o jornalismo, como a permanente pesquisa sobre preços e qualidade de produtos e serviços, fiscalização das formas de atendimento dos consumidores, o respeito à legislação pelos produtores. Mesmo assim, Helinho não recuava no propósito de voltar àquilo que era o seu clima: a Redação da Tribuna. Na eleição de 1988 ele nem quis concorrer a uma reeleição dada como certa: queria

voltar, como voltou, ao jornalismo. A perda de Helinho foi o segundo grande trauma vivido pelo jornalista Hélio Fernandes em cerca de dois meses: em fim de agosto ele perdera outro filho, o também jornalista Rodolfo Fernandes, de 49 anos, Diretor de Jornalismo de O Globo. “É uma dor insuportável esta que estou vivendo com a perda de dois filhos em pouco mais de dois meses”, disse Hélio Fernandes ao Jornal da ABI. Sócio da ABI há 12 anos, Hélio Fernandes Filho faleceu no dia 28 de outubro, vítima de insuficiência respiratória e hepática, após seis meses de internação na Clínica São Vicente, no Rio. Ele deixou viúva Roberta Babo Fernandes, também jornalista, com quem tinha um filho. Estava com 57 anos.

feito que vai permanecer na memória de quem conheceu a essência da perseverança mais do que viva em Helinho. Com toda a pressão do regime militar, das dificuldades financeiras e da perda de anunciantes, Hélio ainda esteve à frente da última grande reforma do periódico, modernizando a Redação e transformando-a na primeira informatizada do País – quando o Macintosh era, ainda, uma vaga idéia dentro das empresas brasileiras. Era daqueles que olhava para frente, sempre. “Helinho tinha visão ampla e acima do óbvio – era um grande estrategista. Ele não enxergava obstáculos no caminho, apesar dos muitos que se colocavam à frente dos grandes passos dados pela Tribuna. Tinha uma mente moderna e um caráter liberal”, lembra o antigo Editor do jornal Mário Rolla. Hélio voou mais alto, entre 1981 e 1989, levando sua luta para além dos jornais. Vereador pelo PTB, transformou seu cargo em uma verdadeira batalha política pelos direitos da população, criando na Câmara Municipal do Rio a Comissão de Defesa do Consumidor – que hoje atende, também, às áreas de meio ambiente, desenvolvimento sustentável, direitos humanos e cidadania. Serviu e serve, mesmo sem querer, de inspiração para outros políticos, que criaram comissões seguindo a mesma ideologia daquela cabeça incansável que era a de Hélio Filho. O lado político e social ativo era acompanhado por outra grande paixão: a música. E se Hélio Fernandes Filho se tornou Diretor de Redação aos 20 e vereador aos 26, foi aos 40 que embarcou em uma empreitada cultural, tornando-se sócio do jornal International Magazine. Em 1994, o produtor do periódico musical, Marcelo Froes, procurou pelo Diretor de Redação da Tribuna da Imprensa – em busca de serviços da gráfica

do jornal – e encontrou Helinho, que não apenas alugou a gráfica, como tornou-se sócio na produção do jornal. Em janeiro de 1995, o International Magazine chegou às bancas e inaugurou uma sociedade que durou exatos 15 anos, durante os quais Hélio apoiou, opinou e fez parte da história do jornalismo musical. Apesar dos problemas que teve na Tribuna ou com sua saúde, sempre guardava para as reuniões o bom humor, a atenção e o positivismo. Assim como a Tribuna, o International Magazine passou por diversas crises – tanto no mercado gráfico como no fonográfico –, mas o jornal nunca deixou de sair. “Se não era uma causa impossível, Helinho encontrava uma solução e seguia adiante, por idealismo e por paixão pelo jornalismo musical”, conta Marcelo Froes. Amante dos Beatles, Helinho – que tinha um livro autografado pelo empresário do quarteto, George Martin, presente do amigo e sócio – chegou a pensar em produzir shows, articulando, inclusive, a vinda do baterista Ringo Starr ao Rio de Janeiro – apresentação que, por razões burocráticas, acabou não acontecendo. Em 2009, acabaram optando pelo encerramento das atividades, não por falência ou qualquer inviabilidade operacional. Helinho estava cuidando da saúde e os sócios trilhavam novos rumos profissionais. A sociedade acabou com a mesma elegância com que fora iniciada. Até onde pôde, mesmo com dificuldades para andar nos últimos meses de vida, freqüentou eventos e comemorações de amigos. Se o pai, Hélio Fernandes, é um dos mais destacados jornalistas do País, uma lenda viva da imprensa brasileira, Helinho foi um filho à altura. Foi modelo de trabalho e de luta pela liberdade, pela cultura e por uma imprensa independente. Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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Vidas

A Mostra de SP sem o seu criador Uma semana antes de sua abertura, o grande festival de cinema perdeu Leon Cakoff, seu idealizador e organizador durante 35 anos. Graças a ele, o público brasileiro conheceu cinematografias e realizadores que não chegavam aqui.

O mês de outubro marcou o 35º aniversário da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas o clima não era propício para comemorações. Exatos sete dias antes do início oficial da Mostra, falecia na capital paulista Leon Cakoff, idealizador, organizador, curador e diretor do evento. Mostra e Cakoff são duas instituições que se confundem. Criada em 1977 como parte das comemorações dos 30 anos de fundação do Museu de Arte de São Paulo-Masp, a hoje mundialmente reverenciada Mostra Internacional de Cinema de São Paulo também era informalmente conhecida como “A Mostra do Cakoff ”. Leon Cakoff, cujo nome civil era Leon Chadarevian, nasceu na Síria em 25 de junho de 1948 e desembarcou com a família no Brasil aos oito anos de idade. Formado na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ele adotou novo sobrenome para contornar problemas que teve com a ditadura militar. Aos 21 anos começou a trabalhar como jornalista, especializandose pouco tempo depois na crítica cinematográfica, primeiro nos Diários Associados e depois na Folha de S.Paulo. No início dos anos 1970, viajou à França para cobrir o famoso Festival de Cinema de Cannes. Seu colega Rubens Ewald Filho conta que ali nasceu em Cakoff a semente da Mostra: empolgado pela grandiosidade e diversidade do evento francês, Cakoff, que desde 1974 também dirigia o Departamento de Cinema do Masp, passou então a dedicar bom tempo para convencer Pietro Maria Bardi, Diretor do Museu, a realizar em São Paulo alguma coisa semelhante... guardadas as devidas proporções, é claro. Como a persistência sempre foi uma das características mais marcantes de Cakoff, Bardi aceitou. A primeira edição da Mostra acontece em 1977, reunindo 16 longas e sete curtas de 17 países, todos exibidos no auditório do Museu. Escolhido pelo voto popular (coisa rara na época), o filme vencedor foi o brasileiro Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, um dos primeiros a desafiar a ditadura mais abertamente. Em seus primeiros anos, o evento era conhecido como “A Mostra do Masp”, que se tornou, digamos, “independente” em 1984, quando se desligou do Museu para ganhar a cidade inteira. Muito mais que um espaço para exibir, anualmente, filmes que jamais chegariam ao público brasileiro pelas vias tradicionais de distribuição, a Mostra muito cedo descobriu sua vocação de resistência à censura. Cakoff chegou até a mover processo contra a União, lutando pelo 46 Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

MARIO MIRANDA-AGÊNCIA FOTO

POR C ELSO S ABADIN

Mauricio de Sousa criou o cartaz deste ano.

Leon Cakoff em seu escritório, durante a 34ª Mostra, realizada no ano passado.

seu direito de apresentar os filmes selecionados diretamente ao público, sem a censura prévia que comandava o setor de exibição. Surpreendentemente, a Mostra ganhou o processo, mas mesmo assim sua programação pública foi suspensa por quatro dias, tempo necessário para que o Ministério da Justiça assistisse aos filmes da programação, para depois liberá-los. A arbitrariedade teve repercussão internacional, causando protestos da comunidade artística. No ano seguinte, 1985, uma portaria assinada pelo então Ministro da Justiça Fernando Lyra isentou o evento de se submeter à censura prévia,

abrindo importante precedente para outros festivais de cinema pelo Brasil. Com os novos tempos de abertura, a Mostra não apenas cresceu como explodiu: catalisado pela tradição cinéfila do público paulistano, o evento passou a contabilizar mais de 400 filmes exibidos a cada edição, atraindo um público de cerca de 300 mil pessoas por ano. Cinéfilos de outros Estados e até de países vizinhos desembarcavam em São Paulo para formar filas diante das salas de exibição que se agregavam à verdadeira festa cinematográfica que tomava a cidade de assalto a cada novo outubro.

O sucesso da Mostra era espetacular, embora Cakoff não fosse uma unanimidade. Irascível, de gênio difícil, eram comuns os desentendimentos com seus colaboradores e fornecedores. Desafetos mais históricos chegaram a questionar o fato de ele ter conseguido montar, num tempo relativamente breve, um pequeno império cinematográfico composto por dezenas de salas de cinema pelo País e por uma distribuidora. E não foram poucos aqueles que reclamaram, e ainda reclamam, dos altos preços dos ingressos da Mostra, mesmo contando ela com generoso apoio de patrocínios, atualmente em torno dos R$ 4 milhões anuais. Todas estas controvérsias eram esquecidas no momento em que se apresentavam ao público aquelas centenas de filmes, novos ou clássicos restaurados, vindos de países dos quais até a Onu desconhecia a existência. Tudo era relevado no instante em que a Mostra fazia chegar em terras paulistanas nomes como Manoel de Oliveira, Abbas Kiarostami, Amos Gitai, Wim Weders, Pedro Almodóvar, Emir Kusturica e até um americano desengonçado com nome de cantina italiana que ninguém conhecia até então: Quentin Tarantino. Com desafetos ou não, o fato é que a contribuição que Leon Cakoff prestou à cultura brasileira é inestimável. Graças à sua persistência e determinação, milhões de pessoas nestes últimos 35 anos tiveram contato com um tipo de arte cinematográfica que seria impensável num país que tem apenas uma sala de cinema para cada 100 mil habitantes, a grande maioria delas comandada por grandes grupos multinacionais. O fim Cakoff morreu no dia 14 de outubro no Hospital São José, em São Paulo, onde se internara duas semanas antes para tratar de um câncer. Ele deixou dois filhos do casamento com Renata de Almeida, com quem se casara há 22 anos, e dois do primeiro casamento. Mesmo sem ele, a Mostra continua, agora capitaneada por Renata de Almeida, co-diretora do evento desde 1989.


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MARIO MIRANDA-AGÊNCIA FOTO

Meus momentos inesquecíveis da Mostra “Foi assistir ao filme O Ilusionista, de Jos Stelling, em 1984 ou 1985. Eu não sabia que o cinema podia ser daquele jeito.” Marcelo Avellar DIRETOR DE TEATRO, CRÍTICO E PROFESSOR DE ARTES

“Foi quando Leon Cakoff, ao final da 33ª Mostra, me agradeceu por eu ter feito a assessoria de imprensa daquele ano e me disse: “Guentaste direitinho, hein?” Maria Fernanda Bezerra de Menezes

Foi na Europa que Cakoff descobriu o sucesso dos festivais de cinema.

Um sonho e a coragem de realizá-lo

JORNALISTA

“Há alguns anos, no encerramento da Mostra, estava distribuindo panfletos promocionais dos filmes da Cult [distribuidora de filmes de arte, já encerrada] para as pessoas da fila. Depois que todo mundo entrou na sala, o Leon Cakoff me chamou de lado e falou: “Um dia vai ter um rapaz fazendo a mesma coisa que você está fazendo agora, e com certeza um dos filmes que ele estará divulgando será um filme seu.” Existiram outros momentos memoráveis relacionados com a experiência na Mostra, mas este é, pessoalmente, imbatível, porque significa muito pra mim. Quando alguém deposita em você um crédito assim, são momentos como este que ficam.” Paulo Duarte CINEASTA

CINEASTA E ARTISTA PLÁSTICO

“Uma sessão deliciosa, com direito a garoa fina, de um dos filmes de Almodóvar, com a presença do próprio, no vão do Masp, me fez lembrar de quanto gostava de ‘sessões fora do cinema’ também”. Ana Paula Campos JORNALISTA

“Várias vezes saí da Mostra com as pernas bambas, quase desmaiando de emoção. Mas em duas delas fiquei paralisado, depois de tanto chorar: Charulata, de Satyajit Ray, na Sala Cinemateca, e Rio dos Vagalumes, de Eizo Sugawa, no Cinesesc. Foram sensações muito raras, que nunca mais senti.” Sérgio Alpendre CRÍTICO DE CINEMA

Um descobridor de grandes cineastas POR C LÁUDIA SOUZA Leon Cakoff enfrentou a censura imposta pelo regime militar trazendo filmes inéditos no Brasil de países como China, Cuba, União Soviética e França, até por meio de malas diplomáticas de embaixadas e consulados. Na 28ª Mostra, em 2004, foi exibido o filme Bem-Vindo a São Paulo, organizado por ele com uma seleção de curtas sobre a cidade realizados por Caetano Veloso, Phillip Noyce, Maria de Medeiros, Daniela Thomas, Amos Gitai eTsai MingLiang. Na 35ª edição, deste ano, Cakoff produziu O Mundo Invisível, com curtas de Manoel de Oliveira, Wim Wenders e Atom Egoyan. Ao longo dos 35 anos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Leon Cakoff introduziu no Brasil o cinema de grandes autores que dificilmente chegariam ao público nacional. Entre eles destacam-se o português Manoel de Oliveira, 102 anos, o cineasta mais antigo em atividade, que se tornaria amigo de Cakoff, o iraniano Abbas Kiarostami, diretor de Gosto de Cereja e Cópia Fiel; e o israelense Amos Gitai, diretor de Kadosh e Alila. “Atravessam-se continentes e oceanos para perceber que estranhamente, nas profundezas do planeta, um amigo que pertence a uma cultura radicalmente diferente da nossa, fala muito mais à vontade a nossa língua e a nossa linguagem do que nossos próprios compatriotas”, comentou Abbas Kiarostami sobre a amizade com Leon. Outros importantes cineastas se apresentaram no evento, como o americano Quentin Tarantino com seu primeiro filme, Cães de Aluguel, em 1992, na 16ª Mostra; o espanhol Pedro Almodóvar, que abriu a 19ª Mostra em 1995 com o filme A Flor do Meu Segredo, na qual também foi convidado o diretor de fotografia mexicano Gabriel Figueroa, que trabalhou com John Huston e Luís Buñuel; o

americano Dennis Hopper, que veio a São Paulo em 1984 apresentar O Último Filme; o alemão Wim Wenders, que participou da 32ª e da 34ª Mostra; o iraniano Jafar Panahi, atualmente mantido em prisão domiciliar pelo Governo do Irã; o sérvio Emir Kusturica e o finlandês Aki Kaurismaki, entre outros. Em 2000, Leon fundou a distribuidora Mais Filmes, especializada em filmes de autor. No ano seguinte, com Ademar Oliveira, Renata Almeida, Patrícia Durães e Eliane Monteiro, criou o Unibanco Arteplex, primeira rede de cinemas do Brasil a usar o conceito de multiplex para incluir filmes de arte na programação. Nos últimos anos, mantinha com Renata de Almeida a distribuidora Filmes da Mostra, com lançamentos de filmes e coleções em dvd, em parceria com a Livraria Cultura. DIVULGAÇÃO

“Meu momento inesquecível da Mostra foi a exibição de Soluços e Soluções, o meu primeiro longa dirigido em parceria com Edu Felistoque. Já havíamos exibido o filme em diversos festivais no Brasil e no exterior, porém não havíamos projetado ainda em São Paulo. Era o começo dos anos 2000, e poucas salas exibiam produções nacionais. Fomos selecionados e bem recebidos pelo Leon e sua equipe, tendo a honra de realizar a première do filme na terra onde foi concebido e realizado, dentro de uma mostra de tamanha importância para o cinema nacional e mundial.” Nereu Cerdeira

O diretor alemão Wim Wenders foi um dos convidados especiais da 34ª Mostra de Cinema.

Leon Cakoff exibe a camiseta com a reprodução do poster criado por Tomie Ohtake para a 9ª Mostra, realizada em 1985. Nesse ano, O Ilusionista, de Jos Stelling ganhou o Prêmio do Público.

“Estou chocada com a morte de Leon Cakoff, uma perda irreparável. Em toda minha vida e formação, ele foi nome de referência. Acompanhei as suas mostras, ele orientava para o que havia de mais importante no cinema do mundo todo”, comentou a Ministra da Cultura, Ana de Holanda. O cineasta Walter Salles ressaltou o viés político-social da trajetória de Leon Cakoff: “A história da Mostra Internacional de São Paulo é o relato de uma batalha constante contra a censura, as leis arbitrárias, o descaso pela cultura. É, finalmente, uma luta pela criação e preservação da memória coletiva.” O talento vanguardista do cineasta foi destacado pelo crítico de cinema Rubens Ewald Filho: “Admiro as pessoas que têm visão, um sonho, a coragem e a determinação de não apenas realizá-lo, mas também de perseverar, não deixá-lo morrer. É o caso do Leon, que foi o primeiro de nós a viajar para o Festival de Cannes, onde nasceu e começou a ser germinada a idéia de realizar um festival de cinema na cidade de São Paulo.” Contra o bom-mocismo Em nota, o Programa Cinema do Brasil e o Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo lamentou a morte do cineasta: “Cakoff abriu para muitas gerações a chance de conhecer um cinema que não chegava ao Brasil. Nos anos 70 e 80, a cidade de São Paulo não tinha a efervescência cultural de hoje e simplesmente os filmes não chegavam por aqui. Enfrentou a censura e o ‘bom- mocismo’, apostava em novidades que, em alguns casos, seriam consagradas anos depois. Uma figura fundamental no cenário cultural da cidade e do País. Nascido na Síria, Cakoff chegou ao Brasil aos oito anos de idade e dedicou a sua vida ao cinema. Influenciou várias gerações de cinéfilos e colocou São Paulo no mapa das grandes cidades que têm uma perspectiva cinematográfica própria, com foco no debate, na crítica e na produção de filmes. Aos familiares, amigos e colegas, o nosso sincero pesar.” Jornal da ABI 372 Novembro de 2011

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