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ABI a dois destacados militantes do progresso social

BETINHO O ex-Presidente Lula tira o chapéu para o criador do programa de combate à fome e à miséria

PÁGINAS 12, 13, 14, 18, 19, 20 E 21

PÁGINAS 30 E 31

RAUL RYFF E MÁRIO LAGO As homenagens da Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa Órgão oficial da Associação Brasileira de Imprensa

369 A GOSTO 2011

Um grande e minucioso inventário sobre a participação da imprensa alternativa nas lutas contra a ditadura militar acaba de vir a público em São Paulo, mostrando o heroísmo com que jornalistas e outros segmentos da sociedade civil sustentaram as idéias libertárias afinal vitoriosas. PÁGINAS 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 E EDITORIAL NA PÁGINA 2

PÁGINAS 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12 E 13

LYGIA TELLES DESAFIOU A CENSURA DE BUZAID

MORTE DA JUÍZA REVELA QUE

O ESTADÃO SOB A ROLHA DA

GRUPO GLOBO DEFINE SEUS

CRIME IGNORA LIMITES

CENSURA HÁ DOIS ANOS

PRINCÍPIOS EDITORIAIS

EX-INTEGRALISTA, ELE ASSUMIU O MINISTÉRIO DA JUSTIÇA COM O PROPÓSITO DE VETAR TUDO. MAS ELA DENUNCIOU AS TORTURAS. PÁGINA 10

A CORAGEM DE PATRÍCIA ACIOLI NAS SENTENÇAS

O STF É CÚMPLICE DESSA GRAVE LESÃO À CARTA QUE ULISSES G UIMARÃES CHAMOU DE "CONSTITUIÇÃO C IDADÃ ". PÁGINAS 26 E 27

DISCUSSÃO INTERNA ELABORA NORMAS PARA

CONTRA O CRIME ORGANIZADO ARMOU O BRAÇO DE SEUS ASSASSINOS . PÁGINA 28

UM PADRÃO DE TÉCNICA JORNALÍSTICA E DE POSTURA ÉTICA . P ÁGINAS 22 E 23


Editorial

DESTAQUES DESTA EDIÇÃO 03 Especial - A imprensa que não perdeu a capacidade de se indignar

A HISTÓRIA QUE FICA

DESPROVIDOS DE RECURSOS econômicos e suportes materiais, os responsáveis por esse extraordinário fenômeno da vida política e cultural do País, homens e mulheres de variada origem social e de diferentes concepções e vinculações políticas, filosóficas e religiosas, movidos pela ânsia de recuperação da liberdade que lhes fora arrebatada, encontraram no meio social, a despeito das condições adversas, o apoio necessário para assegurar a continuidade da resistência à ditadura e sua superação. NÃO FOI ESSE UM ESFORÇO comum. Sob o guante da repressão, suas violências, suas ameaças, sob o cerco permanente em que era mantida a cidadania, era preciso coragem, criatividade, capacidade de articulação e cautelas em ações que o regime não tolerava. Suas virtudes cívicas desembocaram na materialização daquilo que derrotaria a ditadura: a palavra de denúncia de seus crimes, de sua res-

Jornal da ABI Número 369 - Agosto de 2011

Editores: Maurício Azêdo e Francisco Ucha Projeto gráfico e diagramação: Francisco Ucha Edição de textos: Maurício Azêdo Apoio à produção editorial: Alice Barbosa Diniz, André Gil, Conceição Ferreira, Guilherme Povill Vianna, Maria Ilka Azêdo, Ivan Vinhieri, Mário Luiz de Freitas Borges. Publicidade e Marketing: Francisco Paula Freitas (Coordenador), Queli Cristina Delgado da Silva, Paulo Roberto de Paula Freitas. Diretor Responsável: Maurício Azêdo

ponsabilidade pelo atraso do País em diferentes campos, entre os quais o aprofundamento de uma desigualdade social de que ainda não nos libertamos.

É ESTIMULANTE ASSINALAR que, sob o pálio das liberdades afinal restauradas, a valorização desse momento da nossa imprensa é promovida com esmero e competência por importantes instituições da sociedade civil, como o Instituto Vladimir Herzog, que, honrando a memória desse mártir da luta libertária, promoveu o inventário do que se fez nesse campo de contestação da ditadura, através do levantamento e edição de materiais preciosos, como os resultantes da realização do Projeto Resistir é Preciso, que, como se verá na nossa principal matéria de capa, mostra os protagonistas da história da imprensa alternativa, clandestina e no exílio, no período 1964-1979 (do golpe à Anistia), sua história, seus padecimentos, o fruto de sua atuação. É IGUALMENTE RELEVANTE consignar que essa notável realização do Instituto Vladimir Herzog contou com o apoio de destacadas instituições do Poder Público, como o Memorial da Resistência de São Paulo, o Governo de São Paulo e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, e o patrocínio da Petróleo Brasileiro S.A.-Petrobras. Com sua saga, a imprensa alternativa contribuiu para que se produzisse essa mudança radical: o Estado nacional perdeu seu caráter repressor e se tornou um instrumento poderoso de apoio à luta pela construção de um Brasil melhor. É essa História que fica da presença da imprensa alternativa na vida nacional.

DIRETORIA – MANDATO 2010-2013 Presidente: Maurício Azêdo Vice-Presidente: Tarcísio Holanda Diretor Administrativo: Orpheu Santos Salles Diretor Econômico-Financeiro: Domingos Meirelles Diretor de Cultura e Lazer: Jesus Chediak Diretora de Assistência Social: Ilma Martins da Silva Diretora de Jornalismo: Sylvia Moretzsohn CONSELHO CONSULTIVO 2010-2013 Ancelmo Goes, Aziz Ahmed, Chico Caruso, Ferreira Gullar, Miro Teixeira, Nilson Lage e Teixeira Heizer.

CONSELHO FISCAL 2011-2012 Adail José de Paula, Geraldo Pereira dos Santos, Jarbas Domingos Vaz, Jorge Saldanha de Araújo, Lóris Baena Cunha, Luiz Carlos Chesther de Oliveira e Manolo Epelbaum. MESA DO CONSELHO DELIBERATIVO 2011-2012 Presidente: Pery Cotta Primeiro Secretário: Sérgio Caldieri Segundo Secretário: Marcus Antônio Mendes de Miranda Conselheiros Efetivos 2011-2014 Alberto Dines, Antônio Carlos Austregésilo de Athayde, Arthur José Poerner, Dácio Malta, Ely Moreira, Hélio Alonso, Leda Acquarone, Maurício Azêdo, Milton Coelho da Graça, Modesto da Silveira, Pinheiro Júnior, Rodolfo Konder, Sylvia Moretzsohn, Tarcísio Holanda e Villas-Bôas Corrêa.

REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Diretor: Rodolfo Konder Rua Dr. Franco da Rocha, 137, conjunto 51 Perdizes - Cep 05015-040 Telefones (11) 3869.2324 e 3675.0960 e-mail: abi.sp@abi.org.br REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS Diretor: José Eustáquio de Oliveira

Conselheiros Efetivos 2010-2013 André Moreau Louzeiro, Benício Medeiros, Bernardo Cabral, Carlos Alberto Marques Rodrigues, Fernando Foch, Flávio Tavares, Fritz Utzeri, Jesus Chediak, José Gomes Talarico (in memoriam), Marcelo Tognozzi, Maria Ignez Duque Estrada Bastos, Mário Augusto Jakobskind, Orpheu Santos Salles, Paulo Jerônimo de Sousa e Sérgio Cabral.

Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

16 Ressurreição - Renascente, o Pen Clube reage à fragilidade da atividade de escritor ○

18 Centenário - Mário Lago: O homem que não fugiu do tempo ○

Conselheiros Efetivos 2009-2012 Adolfo Martins, Afonso Faria, Aziz Ahmed, Cecília Costa, Domingos Meirelles, Fernando Segismundo, Glória Suely Álvarez Campos, Jorge Miranda Jordão, José Ângelo da Silva Fernandes, Lênin Novaes de Araújo, Luís Erlanger, Márcia Guimarães, Nacif Elias Hidd Sobrinho, Pery de Araújo Cotta e Wilson Fadul Filho. Conselheiros Suplentes 2011-2014 Alcyr Cavalcânti, Carlos Felipe Meiga Santiago, Edgar Catoira, Francisco Paula Freitas,

22 Novidade - Globo abre o debate público sobre o papel e a ética do jornalismo ○

32 Renovação - A agência da infância é revista e ampliada ○

35 Enigmas - Jornalista argentino está reescrevendo a História ○

38 Documentário - Roberto Marinho, num dvd sem apologia nem censura ○

40 Livros - A redescoberta de Mariátegui ○

SEÇÕES 0 A CONTECEU NA ABI 12 Os 100 anos de Raul Ryff, uma referência como exemplo de vida ○

15 Pioneirismo de Nelson Werneck realçado em ato marcado de emoção ○

16 Advogados da União aliam-se à ABI contra a censura prévia ○

26 LIBERDADE DE IMPRENSA A censura prévia ao Estadão fez dois anos ○

DIREITOS HUMANOS 28 Para o crime, agora vale tudo ○

29 “É possível apurar já os crimes da ditadura” ○

30 Lula tira o chapéu para Betinho ○

VIDAS 42 Abrahão, o prazer da narração ○

43 Cláudio Melo e Sousa, o esteta da palavra ○

44 Rodolfo Fernandes, o príncipe ○

46 Procópio Mineiro, o jornalista que não se rendeu à Proconsult ○

47 Riomar, um mestre

Francisco Pedro do Coutto, Itamar Guerreiro, Jarbas Domingos Vaz, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Ponce de Leon, Salete Lisboa, Sidney Rezende, Sílvio Paixão e Wilson S. J. Magalhães.

Conselheiros Suplentes 2010-2013 Adalberto Diniz, Alfredo Ênio Duarte, Aluízio Maranhão, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel Mazola Froes de Castro, Germando de Oliveira Gonçalves, Ilma Martins da Silva, José Silvestre Gorgulho, Luarlindo Ernesto, Marceu Vieira, Maurílio Cândido Ferreira, Sérgio Caldieri, Wilson de Carvalho, Yacy Nunes e Zilmar Borges Basílio. Conselheiros Suplentes 2009-2012 Antônio Calegari, Antônio Henrique Lago, Argemiro Lopes do Nascimento (Miro Lopes), Arnaldo César Ricci Jacob, Ernesto Vianna, Hildeberto Lopes Aleluia, Jordan Amora, Jorge Nunes de Freitas (in memoriam), Luiz Carlos Bittencourt, Marcus Antônio Mendes de Miranda, Mário Jorge Guimarães, Múcio Aguiar Neto, Raimundo Coelho Neto (in memoriam) e Rogério Marques Gomes. COMISSÃO DE SINDICÂNCIA Carlos Felipe Meiga Santiago, Carlos João Di Paola, José Pereira da Silva (Pereirinha), Maria Ignez Duque Estrada Bastos e Marcus Antônio Mendes de Miranda. COMISSÃO DE ÉTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Alberto Dines, Arthur José Poerner, Cícero Sandroni, Ivan Alves Filho e Paulo Totti. COMISSÃO DE DEFESA DA LIBERDADE DE IMPRENSA E DIREITOS HUMANOS Alcyr Cavalcânti, Antônio Carlos Rumba Gabriel, Arcírio Gouvêa Neto, Daniel de Castro, Geraldo Pereira dos Santos,Germando de Oliveira Gonçalves, Gilberto Magalhães, José Ângelo da Silva Fernandes, Lênin Novaes de Araújo, Lucy Mary Carneiro, Luiz Carlos Azêdo, Maria Cecília Ribas Carneiro, Mário Augusto Jakobskind, Martha Arruda de Paiva, Sérgio Caldieri, Wilson de Carvalho e Yacy Nunes. COMISSÃO DIRETORA DA DIRETORIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL Ilma Martins da Silva, Presidente; Manoel Pacheco dos Santos, Maria do Perpétuo Socorro Vitarelli, Mirson Murad e Moacyr Lacerda. REPRESENTAÇÃO DE SÃO PAULO Conselho Consultivo: Rodolfo Konder (Diretor), Fausto Camunha, George Benigno Jatahy Duque Estrada, James Akel, Luthero Maynard e Reginaldo Dutra. REPRESENTAÇÃO DE MINAS GERAIS José Mendonça (Presidente de Honra), José Eustáquio de Oliveira (Diretor),Carla Kreefft, Dídimo Paiva, Durval Guimarães, Eduardo Kattah, Gustavo Abreu, José Bento Teixeira de Salles, Lauro Diniz, Leida Reis, Luiz Carlos Bernardes, Márcia Cruz e Rogério Faria Tavares.

O JORNAL DA ABI NÃO ADOTA AS REGRAS DO A CORDO O RTOGRÁFICO DOS P AÍSES DE L ÍNGUA PORTUGUESA, COMO ADMITE O D ECRETO N º 6.586, DE 29 DE SETEMBRO DE 2008.

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21 Mobilização - Luta anticorrupção vai às ruas

Associação Brasileira de Imprensa Rua Araújo Porto Alegre, 71 Rio de Janeiro, RJ - Cep 20.030-012 Telefone (21) 2240-8669/2282-1292 e-mail: presidencia@abi.org.br

Impressão: Gráfica Lance! Rua Santa Maria, 47 - Cidade Nova Rio de Janeiro, RJ

11 História - Memórias amargas, por Rodolfo Konder ○

A PRESENTE EDIÇÃO DO Jornal da ABI celebra um dos momentos mais ricos da História da Imprensa no Brasil, o qual é também, paradoxalmente, aquele em que a atividade jornalística mais dificuldades enfrentou nestes mais de dois séculos em que se editam periódicos entre nós. Esse momento é o do surgimento e funcionamento da chamada imprensa alternativa, produzida em condições extremamente adversas, para a defesa de idéias que correspondiam ao melhor interesse nacional e à necessidade de transformação do quadro de brutalidades e iniqüidades impostas ao País desde a deflagração do golpe militar de 1º de abril de 1964.

10 Resistência - Sem temer Buzaid, Lygia denunciou a tortura no auge da ditadura Médici


ESPECIAL MONTAGEM FRANCISCO UCHA

A IMPRENSA QUE NÃO PERDEU A CAPACIDADE DE SE INDIGNAR Lançado pelo Instituto Vladimir Herzog, o projeto Resistir é Preciso pretende resgatar a memória da imprensa alternativa, clandestina e no exílio, do golpe à anistia. Uma história literalmente escrita com riscos, em gráficas improvisadas e sob perseguição implacável do regime. P OR M ARCOS S TEFANO

Abril de 1973. O clima no Brasil era de tensão total e a agitação política, uma das maiores desde que os militares tomaram o poder, nove anos antes, instaurando a ditadura no País. No mês anterior, o estudante de Geologia da Universidade de São Paulo, Alexandre Vannuchi Leme, fora preso pela Operação Bandeirantes por causa de sua militância na Ação Libertadora Nacional-ALN. E só saiu do Doi-Codi morto. Primeiro, as autoridades disseram que o jovem fora atropelado por um caminhão, quando tentava fugir. Depois, que teria se suicidado com uma lâmina em sua cela. Nenhuma das versões convenceu. A desconfiança geral, quase certeza na verdade, era que ele morrera devido às bárbaras torturas a que fora sub-

metido. Os jornais foram proibidos de dar mais esclarecimentos sobre o assunto. Para alguns, até falar sobre a missa celebrada em sua memória, na Catedral da Sé, pelo Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, e que contou com a presença de mais de cinco mil pessoas, muitos artistas, líderes sindicais e estudantis que protestavam contra o regime, era fora de questão. Com o jornal Opinião não era diferente. Mas mesmo censurada, a publicação daria um jeito de noticiar o que houve com a sempre usual criatividade. Para escapar dos vetos, os textos não citavam o nome de Leme. E para a capa, nada melhor do que a imagem do Cardeal, um símbolo de paz. “Fiz a ilustração com os traços de Dom Paulo e

mostrei o desenho ao censor. Ele aprovou”, conta Elifas Andreato, então Diretor de Arte do jornal. O detalhe é que a prova revisada era em preto e branco, mas, na hora da impressão, a gráfica colocaria uma cor a mais na capa. Quando pegou o jornal impresso na boca da máquina, o censor levou um susto: o manto de Dom Paulo Evaristo Arns aparecia justamente na cor que mais causava arrepio aos militares: o vermelho. “Ele se sentiu traído porque não sabia dessa cor a mais. Não adiantou explicar que o manto que os cardeais usam é vermelho. Ele mandou parar tudo. Queria apreender o jornal e me estapear”, completa Andreato, que teve de correr para não apanhar do irado censor. Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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ESPECIAL A IMPRENSA QUE NÃO PERDEU A CAPACIDADE DE SE INDIGNAR FRANCISCO UCHA

A

história soa quase surreal, mas é apenas uma entre muitas outras que fazem parte da coleção Os Protagonistas desta História, formada por 12 dvds com os depoimentos de jornalistas que fizeram a imprensa alternativa, clandestina e no exílio. Aquela que resistiu e combateu a ditadura militar entre 1964 e 1979, do golpe à anistia. Para conseguir o material, o Instituto Vladmir Herzog selecionou e entrevistou 60 profissionais, a maior parte num período de três meses, no começo deste ano. Nomes de peso como Raimundo Rodrigues Pereira, um dos idealizadores dos jornais Opinião e Movimento; Omar de Barros Filho, o Matico, que junto com Marcos Faerman, produziu Versus; os desenhistas Laerte, com importante participação na imprensa sindical, Ziraldo, uma das colunas do Pasquim; e Ana Arruda Callado, Editora de O Sol, celebrizado nas bancas de revista pela música de Caetano Veloso. Apenas para ficar entre alguns deles. “É uma lista ampla, mas poderia tranqüilamente ser três vezes maior. Só não foi porque, a princípio, tivemos que fazer uma seleção por motivos óbvios de espaço. Dessa forma, adotamos critérios para escolher os participantes, como abrangência mais nacional das publicações, títulos mais importantes – e aí me refiro aos conteúdos publicados, longevidade e sucesso com leitores –, e equilíbrio entre as diversas correntes políticas, impulsionadoras de grande parte dessa ação da imprensa”, destaca Ricardo Carvalho, Editor de Conteúdo da obra. Foi ele quem tomou os depoimentos, sempre ao lado do Editor de Contexto, José Luiz Del Roio, do Editor de Pesquisa, Vladimir Sacchetta, e da historiadora Juliana Sartori. Em alguns momentos, o grupo também esteve acompanhado pelo jornalista Carlos Azevedo, também um personagem dessa história. O que se assiste nos dvds é um conjunto de depoimentos nostálgicos e chocantes. Relatos de pessoas que nunca tiveram a oportunidade de falar sobre o trabalho que realizaram, sobre os riscos que correram, as muitas gráficas precárias, quando não totalmente improvisadas, que usaram para reproduzir suas publicações, a vida na clandestinidade e a implacável perseguição das forças de repressão. Ainda assim, é apenas uma parte do que foi gravado. A íntegra dos testemunhos dá mais de 100 horas em vídeo em alta definição. De longe, o trabalho de maior fôlego já realizado sobre a imprensa alternativa brasileira. E que não terminou ainda. “Não conseguimos pegar todos os depoimentos que queríamos e, por isso, as entrevistas prosseguem. Um dos exemplos é o núcleo que chamamos de Associação Brasileira de Imprensa, mais corporativo e que reúne importantes publica-

Três apaixonados pela história da imprensa clandestina e perseguida no Brasil: Vladimir Sacchetta, Editor de Pesquisa, Ricardo Carvalho, Editor de Conteúdo e José Luiz Del Roio, Editor de Contexto do projeto Os Protagonistas desta História.

ções como o jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, o Coojornal, primeira grande experiência de cooperativa de jornalistas no País, realizada no Rio Grande do Sul, e o próprio Jornal da ABI. Infelizmente, na véspera de seu depoimento, o Presidente Maurício Azêdo, ativo participante de vários jornais clandestinos e alternativos no período, ligou para dizer que não poderia dar seu testemunho porque se recuperava de uma gripe muito forte. Assim que possível, queremos tomar seu depoimento e divulgá-lo no portal do Instituto por causa da importância de sua biografia”, diz Carvalho. Um dos alvos do Instituto Vladimir Herzog com a ação é tornar conhecidas as memórias de um tempo que muitos preferiam esquecer. Tanto que se compromete a enviar a íntegra dos depoimentos gratuitamente a quem pedir. Acompanhar horas e horas de relatos de sofrimentos e abusos pode ser difícil, mas pior é não ouvir e fingir que acontecimentos tão decisivos simplesmente não existiram. “Começamos a recuperar essa memória no ano passado, quando lançamos em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo a edição facsímile do jornal Ex-. Queremos dar a dimensão do que foi a imprensa alternativa na ditadura e continuamos juntando material. Se alguém tiver coleções particulares e quiser contribuir pode nos doar o material ou emprestar, para ser digitalizado e microfilmado”, informa Ivo Herzog, Diretor do instituto, deixando claro: os objetivos são ainda maiores. A série de dvds Os Protagonistas desta História é apenas o primeiro dos vários componentes de um projeto mais amplo, o Resistir é Preciso, que o Instituto Vladimir Herzog toca em parceria com outras entidades, como o Centro de Documentação e Memória-Cedem, da Universidade Estadual Paulista-Unesp, o Arquivo

Jornais clandestinos publicados no exílio: raridades que ninguém podia guardar.

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Público do Estado de São Paulo e o Arquivo Público da Cidade do Rio de Janeiro. As próximas etapas do projeto incluem a publicação de livros, lançamento de um portal na internet, produção de documentários e realização de exposições. “Uma contribuição necessária à verdade. Começamos a dá-la com o recorte nos jornalistas. Por quê? Porque eles foram personagens centrais durante os anos mais difíceis da repressão. Sem eles, o cerne da história, a imprensa alternativa, simplesmente não existiria. Diferente das grandes empresas, os veículos menores não representavam consolidadas instituições”, completa Ivo Herzog.

CLANDESTINA DE BERÇO Quando surgiu no Brasil, em 1808, a imprensa já era clandestina. Para confirmar isso, basta lembrar do Correio Braziliense, que nasceu no exílio, impresso em Londres, e circulou por aqui contra a vontade das autoridades. Não muito tempo depois, em 1822, João Soares Lisboa criou o Correio do Rio de Janeiro e usou a imprensa para defender pela primeira vez a convocação de uma Constituinte brasileira. Com isso, teve também o privilégio de ser o primeiro jornalista processado por abusar da “liberdade” de imprensa em terras nacionais. Apesar de conviverem com o fantasma da censura desde aquela época e passarem por tempos complicados durante o Estado Novo, nenhum período foi tão duro para os brasileiros quanto o da ditadura militar. Somente nos dez anos em que o AI-5 vigorou, foram proibidos ou mutilados cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio e televisão, mais de uma centena de entrevistas, mais de 500 letras de músicas, uma dúzia de sinopses e numerosos capítulos de telenovelas. Isso, segundo números oficiais, que podem estar bem aquém da realidade. Para os jornalistas, a situação não era diferente. De acordo com o levantamento Brasil: Nunca Mais, os artífices das notícias sofreram 707 processos por terem atentado contra a Lei de Segurança Nacional. Desses, 102 contêm, entre outros enunciados, incriminação por militância política em organizações clandestinas, algumas envolvidas com a luta armada, tentativas de derrubar o regime e construção do ideal socialista. Pelo menos 147 jornalistas foram criminalizados pela Justiça Militar entre 1964 e 1979. A censura atingia todos e nem os grandes veículos escapavam. O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde foram censurados

previamente entre 1972 e 1975; a revista Veja só escapou em dois períodos: 1968 e 1976; a Tribuna da Imprensa não teve a mesma sorte e conviveu com as proibições sem trégua durante dez anos. Realidade, a revista das grandes reportagens, chegou a ter uma edição inteira apreendida por conta de uma pesquisa sobre sexualidade. Já o Jornal do Brasil aprendeu a trabalhar com o eufemismo para retratar o clima no País. Assim, ao lado da manchete sobre o AI-5 e da reportagem que se limitava a destacar a movimentação nos quartéis do Rio de Janeiro e a mobilização das diversas polícias, um quadrinho informava que, na véspera, fora o “Dia dos Cegos” e outro previa “tempo negro, com temperatura sufocante e ar irrespirável”. Segundo a previsão, o Brasil era varrido por ventos fortes e a temperatura em Brasília seria máxima, com 38º C. Já nas Laranjeiras, mínima. Apenas 5ºC. Verdade seja dita, esse tipo de atitude era exceção, e não norma. Por isso, muitos jornalistas logo perceberam que já não teriam mais espaço nos veículos tradicionais. “Esses profissionais criticavam aquilo que chamavam de complacência da grande imprensa para com a ditadura”, diz o professor Bernardo Kucinski, que participou de publicações como Opinião, Movimento, Em Tempo e é autor do livro Jornalistas e Revolucionários (Scritta Editorial). A saída para fazerem oposição intransigente ao regime foi buscar novos rumos. Surgia assim a imprensa que passou a ser conhecida como “alternativa”, “nanica”, “de leitor”, “independente” ou “underground”. Os nomes são variados, mas em geral denotavam produtos com formato menor, às vezes tablóide, poucos recursos e muita coragem. Mesmo convivendo com enormes dificuldades, que iam da falta de dinheiro e estrutura à perseguição, sem exagero foi o que de melhor aconteceu na imprensa brasileira dos anos 1970. Sem outros interesses, esses jornais denunciavam sistematicamente as torturas e violações dos direitos humanos e faziam críticas ao modelo econômico, mesmo em tempos nos quais todos louvavam o aparente sucesso do “milagre”. Além de condenar o triunfalismo que reverberava em outros órgãos jornalísticos, os alternativos apontavam as brechas que, anos mais tarde, levariam o País à crise e à superinflação. Apesar de serem criticados pelo tom pedagógico e dogmático, eles foram os únicos a perceber os perigos do crescente endividamento externo, ainda em 1973, e o agravamento das mazelas sociais.


A REVELAÇÃO DE PERSONAGENS IGNORADOS As publicações alternativas também foram as responsáveis por revelar aos brasileiros novos personagens, como bóias-frias, líderes de movimentos populares, trabalhistas e estudantis, além de trazer muita discussão. Bancado por um empresário, Fernando Gasparian, produzido por jornalistas profissionais, protagonizado por intelectuais e secretamente instruído pelo comitê central da Ação Popular-AP, chegou às bancas em outubro de 1972 um dos representantes mais destacados dos alternativos: o semanário Opinião. “Não digo que foi um jornal de esquerda, mas de centro-esquerda. Capaz de resistir, apontar para a democracia e ser nacionalista”, diz o Editor Raimundo Rodrigues Pereira, que já havia criado antes o Amanhã e passado com destaque pelas revistas Veja e Realidade, antes de assumir o jornal. Ao projeto Resistir é Preciso Pereira contou que, apesar da tensão, aquele foi um tempo de euforia. Quando saiu o primeiro número do Opinião, ele próprio fez questão de pegar um exemplar na gráfica e sair às ruas para sentir a reação popular. Logo de cara, descobriu que os leitores tinham achado o jornal “o máximo”. Afinal, trazia o nome de Paulo Francis na capa. Aliás, essa mistura de intelectuais como Francis, Celso Furtado, Antonio Candido e Fernando Henrique Cardoso, que colaboravam sempre com o jornal, e profissionais da imprensa foi um dos motivos do sucesso e começo da queda do semanário. Gasparian queria dar mais voz aos intelectuais. Pereira queria um jornal feito por jornalistas. Dessa forma veio a surgir outro importante representante daquele período, Movimento. Já Opinião chegaria até abril de 1977. No editorial de seu último número, 230, o jornal avisava que só voltaria a circular livre da censura e que, se as matérias censuradas fossem acrescentadas às 5.796 páginas impressas, o jornal dobraria seu conteúdo, tendo produzido 10.548 páginas. Movimento circulou entre 1975 e 1981 e foi considerado o jornal da luta

pela redemocratização. Não que estivesse livre da censura. Pelo contrário, sua primeira capa, sobre a morte de Vladimir Herzog, foi logo proibida. Também considerado uma publicação de frente ampla, o novo semanário era mais incisivo que Opinião, discutindo inclusive a revolução brasileira. Mas não valorizava tanto o lado estético. E quem sofria mais era a equipe comandada por Elifas Andreato, que precisava fazer novas ilustrações e até capas em questão de minutos quando Brasília devolvia o material censurado em cima da hora de mandar tudo para a gráfica. Não eram todos os alternativos que se caracterizavam pelo discurso ideológico. Alguns eram marcados também pelas críticas dos costumes e pela ruptura cultural, investindo contra o autoritarismo e o moralismo das classes médias. Foi com esses tons que surgiu o Pasquim, em 1969. Com linguagem coloquial e muito humor, em pouco tempo o jornal se tornou um fenômeno, vendendo mais de 200 mil exemplares em banca. A liderança era do cartunista Jaguar e dos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, mas faziam parte da equipe profissionais como Ziraldo, Henfil, Ivan Lessa e Paulo Francis. Time que tinha no humor sua marca registrada. A única coisa sem graça eram as constantes prisões de seus profissionais. Numa delas, em novembro de 1970, a Redação inteira foi levada para trás das grades depois que o jornal publicou uma sátira do quadro de Pedro Américo em que Dom Pedro I aparece às margens do Ipiranga. O que teria irritado os militares era o balão em que o príncipe gritava: “Eu quero mocotó!”, refrão de uma música do maestro Erlon Chaves de grande sucesso na época. O intuito, no entanto, era acabar com o jornal nos dois meses em que todos ficaram presos, o que só não aconteceu porque Millôr Fernandes, que escapara à prisão, com a ajuda de Henfil, Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara e Gláuber Rocha, entre outros, evitaram. O Pasquim sobreviveu até 1991.

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ESPECIAL A IMPRENSA QUE NÃO PERDEU A CAPACIDADE DE SE INDIGNAR

A BUSCA DA MEMÓRIA CHEGA À ITÁLIA Até bem pouco tempo o maior acervo sobre a imprensa alternativa no Brasil estava no Rio de Janeiro. O Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro conta com cerca de 800 títulos e coleções parciais ou completas. São jornais e revistas tanto de esquerda, como o Versus, quanto de direita, como O Expresso, publicação financiada por empresários paulistas nos anos 1970. Coleção herdada do antigo Centro de Imprensa Alternativa, criado ainda na década de 1980, e que sobreviveu até a enchentes. Ainda assim, de todos os períodos, o mais incompleto continua sendo o mais significativo, que vai do golpe militar à anistia. “Naquele tempo, ser pego com material subversivo era certeza de prisão e tortura. Ninguém arriscava guardar ”, explica a Diretora Beatriz Kushnir. Dificuldade que não é só de sua instituição. A própria Biblioteca Nacional também tem pouquíssimos exemplares. Como se estima que pelo menos 150 títulos tenham sido criados e fechados durante o regime militar, quando os dirigentes do Instituto Vladimir Herzog se reuniram na casa do jornalista Fernando Pacheco Jordão para dar início ao projeto de recuperar a memória daqueles tempos por meio dessa imprensa e perceberam que estavam diante de um dilema. “O fato de não termos esse material foi decisivo para os 30 anos de atraso”, aponta Ivo Herzog. A solução só foi encontrada quando Sérgio Gomes, veterano da imprensa trabalhista dos anos 1970, apresentou ao grupo José Luiz Del Roio. Militante comunista e responsável pelo departamento de imprensa do Partidão na década de 1960, Del Roio participou ativamente da criação da ALN. Já exilado, colaborou com a imprensa no Peru, no Chile e, finalmente, na Itália, onde foi radialista por duas décadas e chegou a ser senador. Em meio a tantas atividades foi sua a iniciativa de montar uma verdadeira operação de guerra para salvar os arquivos da imprensa clandestina e alternativa brasileira durante os anos de chumbo. “Como atuei fazendo a ponte no exterior para muitas organizações de esquerda brasileiras, era natural que recebesse suas publicações. Não jogava nada fora e fui colecionando”, conta Del Roio. Em 1975, após a crise provocada pela morte de Vladimir Herzog nos porões da ditadura, apenas isso já não era suficiente. A partir daí e até o fim da censura, os militares elegeram a imprensa alternativa e clan-

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destina o grande inimigo da Pátria. Para sufocá-la e acabar de vez com suas publicações, além da censura prévia e da prisão de suas lideranças, lançaram mão de outros expedientes. Primeiro, combatendo seus financiadores. Depois, promovendo devassas fiscais nos veículos legalizados. Por fim, sendo conivente com uma série de atentados a bancas de jornais, que fizeram que os jornaleiros não mais quisessem vender esse tipo de publicação. O aperto do cerco também colocou em risco acervos como o do Instituto Astrojildo Pereira, já naquele tempo um dos mais completos centros de documentos da imprensa alternativa e clandestina. Com a ajuda do amigo Maurício Martins de Melo e outros contatos no Brasil, Del Roio começou a levar todo o material secretamente para o exterior. Mas onde deixá-lo? A princípio, a idéia era usar contatos para levar tudo para algum país comunista. No entanto, o temor de futuras dificuldades para resgatar os arquivos fizeram que optassem por deixar as publicações na Europa Ocidental. E entre Milão e Amsterdã, a escolhida foi a cidade italiana, onde funciona a Fundação Giangiacomo Feltrinelli, que passou a guardar o acervo. Em pouco tempo, mais material foi chegando. Melo e Del Roio criaram o Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro e o enriqueceram com os materiais que tinham em suas mãos e com outras coleções, como a do também militante comunista Roberto Morena. Tarefa feita, literalmente, via Varig. Principal companhia brasileira a operar vôos internacionais na época, era o meio pelo qual conseguiam transportar boa parte dos impressos. “Fazia amizade com funcionários da companhia na Itália e eles me indicavam pilotos que tinham inclinações políticas mais à esquerda e que topassem nos ajudar a coletar os materiais”, lembra Del Roio. Em 1979, veio a anistia, mas Del Roio resolveu ficar mais tempo no Velho Mundo. Soltou cartas circulares e começou a fazer campanhas públicas para que exilados e outras pessoas que tivessem documentos, cartazes e publicações brasileiras ou feitas por brasileiros no exterior pudessem doá-las. Dois anos depois, microfilmou tudo – procedimento que garante uma vida útil de mais 500 anos aos papéis – e guardou uma cópia num cofre forte. A ditadura se aproximava do fim, agonizava, mas ainda inspirava cuidados. No fim dos anos 1990, depois de vári-

as tentativas frustradas, um acordo com o Cedem da Unesp permitiu que o precioso acervo voltasse ao Brasil. Agora, a Universidade, que se tornou depositária de tudo, conta com o patrocínio do Governo Federal e faz um minucioso processo de restauração, catalogação, digitalização, nova microfilmagem e disponibiliza tudo para consulta de pesquisadores. Não é pouca coisa. São mais de 2 mil títulos de publicações, o maior acervo do gênero no País. Nem todas são alternativas e muito menos do período militar. Algumas datam do final do século XIX. Por isso, a equipe do Instituto Vladimir Herzog prefere chamá-los de “oprimidos”. Junto com elas, uma infinidade de cartas, manuscritos, fotos, cartazes e materiais da Internacional Comunista sobre o Brasil. Dos tempos da ditadura militar, foi possível salvar cerca de 120 títulos. Mesmo assim, muita coisa se perdeu, principalmente publicações apreendidas ou clandestinas. Com exceção de A Voz Operária, do PCB, e A Classe Operária, do PC do B, o restante eram títulos de que raramente saíam mais que uns poucos números. Outro problema é que faltam números de algumas coleções. Mas reparar esses estragos é outro dos alvos do projeto Resistir é Preciso. “Estamos iniciando uma vasta pesquisa nacional, em arquivos públicos e no material das forças gerais da repressão, como o do Dops, por exemplo, para tentar preencher o que falta. Também vamos iniciar uma campanha institucional para pedir às famílias dos militantes que doem ou emprestem o que tiverem”, acrescenta Del Roio. Uma missão difícil, mas não impossível. Ainda mais para quem tem uma experiência de 34 anos na área.

UMA NOVA HISTÓRIA Coincidência ou não, o fato é que o Resistir é Preciso é lançado em um momento que o Brasil tenta reescrever sua história recente. Há forte pressão interna e externa para que a Presidente Dilma Rousseff revogue a parte da Lei da Anistia de 1979 que protege torturadores e autores de crimes como execuções, seqüestros e estupros. Em outra frente, o Senado discute nova lei que trata do sigilo de documentos oficiais. Modificações feitas na Câmara dos Deputados impuseram um período máximo de 50 anos para que um documento possa permanecer em sigilo, prazo que muitos consideram excessivo. Diante desses debates, não dá para esquecer que o

País se encontra em meio às discussões sobre a formação de sua Comissão da Verdade, órgão que já existe em outras 40 nações e que, por aqui, deve ser responsável pela investigação da violação dos direitos humanos justamente durante a ditadura. “Esse é o mal das transições pelo alto, negociadas e que permitem injustiças. O Brasil é uma nação que teve nas últimas décadas um crescimento exponencial de sua população e, por causa disso, tem dificuldade em preservar sua memória ou mesmo instalar a Comissão da Verdade. Diferente de outras nações latinas, como o Uruguai, que há tempos tem seus 3 milhões de habitantes e está conseguindo passar a limpo sua História. Recentemente, seu Congresso anulou a Lei de Anistia recíproca, que beneficiava também criminosos civis e militares da ditadura. Estamos no caminho, mas é preciso incentivar a sociedade e reabrir investigações, pois corpos e documentos continuam desaparecidos”, opina Vladimir Sacchetta, Editor de Pesquisa do Resistir é Preciso. “Quando familiares recebem autorização para pesquisar nos arquivos da ditadura, devemos comemorar. Mas não esquecer de que, além da autorização, eles devem ter uma ajuda de custo para passar o tempo que for necessário vasculhando documentos em Brasília”, completa. Outro dos objetivos do Resistir é Preciso é despertar a consciência da sociedade para esses fatos. Assim, a série de vídeos dos Protagonistas desta História é um passo numa longa caminhada. O próximo produto a ser lançado, ainda no mês de outubro, aniversário da morte de Vladimir Herzog, é um livro em formato tablóide, de 200 páginas, com as principais capas de jornais alternativos e clandestinos e devidas explicações sobre cada uma. Ainda este ano, uma exposição deve começar a percorrer os diversos Centros Culturais do Banco do Brasil, espalhados pelo País. Também já está programada a realização de dez documentários sobre a imprensa perseguida para a televisão, que serão exibidos pela TV Brasil e pela Cultura. Aprovado pela Ancine, o projeto está em fase de captação de recursos. Por fim, outros livros devem sair. Um com a reprodução de cartazes, folders e documentos que contam a denúncia dos crimes da ditadura militar brasileira no exterior, resgatando as atividades de milhares de exilados e das redes que lhes davam apoio em países como Estados Unidos, Suécia, França e os da América Latina que não estavam debaixo dos coturnos militares. Prova de que, mesmo depois de mais de três décadas da anistia, ainda é preciso lutar.


DEPOIMENTOS EMOCIONADOS F OTOS N IVALDO H ONÓRIO DA S ILVA

Todos os depoimentos colhidos para o projeto Resistir é Preciso foram carregados de emoção e relatam lembranças de luta e oposição a um regime que não tinha respeito pelo cidadão e pela diferença de idéias. A seguir alguns trechos:

ZIRALDO ALVES PINTO PINTOR, CARICATURISTA, CHARGISTA, ESCRITOR, JORNALISTA, CARTAZISTA E TEATRÓLOGO. FOI UM DOS FUNDADORES DO PASQUIM.

“A tensão com os censores era constante. Mandávamos três, quatro números do Pasquim de uma vez para a Delegacia Política, com coisas mais complicadas, na esperança de que cortassem essas e deixassem passar o que de fato queríamos. Mas sempre procurávamos aliviar o clima. Certa vez, eram três professoras que nos censuravam. Estava na Itália e mandei um cartão para elas, com a estátua David, do Michelangelo, de costas, só aparecendo a bunda. “Mandei assim, porque se mandar de frente, é capaz de vocês mandarem cortar o pinto”, escrevi, brincando. Uma exceção foi um general-censor que nos protegia. Ficava na praia e o Ivan Lessa levava o jornal para ele lá. Só cortava piadas que não gostava. “Essa, Ivan, vou censurar. Está uma bosta, sem graça. Vou mandar uma anedota que eu tenho para vocês. É bem melhor”, dizia ele. Hoje, dá para rir. Mas naquele tempo precisava ser corajoso. Mas não acho que fomos heróis. Era da natureza da profissão. Estávamos conscientes de que não podíamos fazer apenas cartuns. Vivíamos um momento histórico. Até hoje, conheço pessoas que se arrependem por passar esse período sem tentar o enfrentamento.”

TONICO FERREIRA JORNALISTA DA TV GLOBO, COMEÇOU A CARREIRA QUANDO ESTUDAVA ARQUITETURA, NA FACULDADE

acordo de suma importância com o Le Monde. O material internacional nem sempre era tão importante, mas dava peso ao Opinião. Não queríamos ser vistos como um bando de garotos, só para tomar porrada da ditadura. Uma vez, eu mesmo levei o jornal para a sede da Polícia Federal. Quando voltei para pegá-lo, estava todo cortado. Não dava para fazer nada com o que voltou. Eles não queriam evitar que publicássemos algumas coisas. Queriam destruir o projeto. O major, inclusive, aconselhou-me: “Desistam e vão para a clandestinidade. Assim, farão o que querem”. Não aceitei e fui buscar mais material na Redação para eles. Não iríamos disputar no campo de jogo deles, onde não tínhamos qualquer chance.”

RAIMUNDO RODRIGUES PEREIRA EDITOR DA REVISTA MENSAL RETRATO DO BRASIL, FOI UM DOS PRINCIPAIS NOMES DA IMPRENSA ALTERNATIVA DURANTE A DITADURA MILITAR.

FUNDOU E EDITOU OPINIÃO E DEPOIS CRIOU E DIRIGIU MOVIMENTO.

“Imprensa e democracia são inseparáveis. Não é possível ter um regime avançado socialmente sem pessoas bem informadas. Que participem de forma mais consciente. Esse pensamento foi a mola propulsora da criação dos jornais Opinião e Movimento. Opinião chegou a ser o segundo semanário do Brasil, concorrendo com a revista Veja. Seu maior capital era humano. Tínhamos correspondentes estrangeiros como o Paulo Francis e intelectuais de peso como Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado e Antonio Cândido. Já Movimento surgiu a partir de uma frente muito ampla. E soube aproveitar muito bem as disputas pelo poder dentro do meio militar. A dissidência da repressão, aqueles que eram contra a candidatura do Figueiredo, começou a nos passar informações, escândalos e denúncias. Um absurdo. As duas publicações fizeram história e originaram muitas outras, como o Em Tempo, o Amanhã, a Hora do Povo. Sobretudo o Movimento era muito querido. Numa ocasião, a nata da MPB – Chico, Elis Regina e João Bosco, entre outros – fizeram um show no Corinthians, em apoio à publicação. Quando o jornal fechou, todo mundo chorou.”

DE ARQUITETURA E URBANISMO-FAU DA

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. EM 1972,

DÁCIO NITRINI

TRABALHOU NA REVISTA REALIDADE; DEPOIS

DIRETOR DE JORNALISMO DA TV GAZETA,

CRIOU OS JORNAIS OPINIÃO E MOVIMENTO.

PARTICIPOU DAS PUBLICAÇÕES O GRILO E EX- E

“Éramos um grupo de jornalistas aqui em São Paulo, principalmente da Editora Abril, que estava tentando alguma coisa. Ganhávamos bem, mas não estávamos satisfeitos. Então, começamos a nos reunir na casa do Raimundo Pereira e fazer projetos. Um deles se chamou ‘Assunto’, já tínhamos até boneco. Mas só deu certo mesmo com a ponte que o Fernando Gasparian, que estava em Londres, fez com o pessoal lá de fora, como Bernardo Kucinski. Conseguimos um

FOI O ORGANIZADOR DA COLEÇÃO FAC-SIMILAR DO JORNAL LANÇADA PELA IMPRENSA OFICIAL.

“O Jornalivro surgiu como idéia do Sérgio de Souza e era um livro impresso como jornal. E melhor: como dizia o slogan, a preço de banana. Depois fizemos O Grilo e o Ex-. Foi aí que aconteceu um dos momentos inesquecíveis do jornal. Em janeiro de 1974, demos como capa uma fotomontagem que mostrava o Nixon vestido de presidiário. Geisel ia tomar posse e

DÁCIO NITRINI E MYLTAINHO

tinha convidado vários Chefes de Estado. Como era de praxe, uma equipe vinha antes dos Estados Unidos, para checar todas as condições. E pegou o Ex- nas bancas. Eu, o Sérgio e o Narciso Kalili fomos presos por desrespeito a Chefe de Estado de nação amiga, algo que nem existia na Lei de Segurança Nacional.”

MYLTON SEVERIANO (MYLTAINHO) TRABALHOU EM IMPORTANTES JORNAIS E REVISTAS DE SÃO PAULO E EM EMISSORAS DE TELEVISÃO.

FEZ PARTE DA EQUIPE DOS ALTERNATIVOS O BONDINHO E EX-, E ATUALMENTE ESCREVE UM LIVRO SOBRE A REVISTA REALIDADE.

“Naquele tempo fizemos várias publicações alternativas. O Grilo era uma revistona em quadrinhos, formato tablóide, que abriu espaço para os melhores artistas e cartunistas da época. Um sonho, já que não tinham mais espaço na grande imprensa. Já o Bondinho nasceu como revista de serviços, para ser distribuída dentro das lojas do Pão de Açúcar. Mas deu tão certo que, um ano depois, ao fim do contrato, houve uma assembléia com todo mundo que fazia a revista e a ala à esquerda do grupo aprovou que fosse para as bancas. Virou uma revista de contracultura. Em toda essa trajetória, o momento de maior emoção se deu depois da morte do Vladimir Herzog. Mas havia também muito medo, pavor até. Quando surgiu a notícia de que faríamos reportagem investigando o que aconteceu, choveu voluntários para ajudar, muitos de fora do nosso jornal. Mas ao sair a matéria, a reação foi outra: pais vinham pessoalmente cancelar a ficha de assinatura da revista que os filhos haviam feito. Faziam questão não apenas de cancelar, mas de pegar a ficha e picotar. Tudo por causa do medo de serem associados com a subversão.”

OMAR DE BARROS FILHO (MATICO) JORNALISTA, CINEASTA E EDITOR DO SITE VIDA POLÍTICA. DIRIGIU, AO LADO DE MARCOS FAERMAN, O JORNAL VERSUS.

“O Versus foi um jornal que nasceu da cabeça de um repórter. No fim de 1974, começo de 1975, Marcos Faerman sai do Ex- e leva o contato

com o Eduardo Galeano e um olhar para a América Latina. Era o suficiente para fazer um jornal revolucionário que funcionaria como uma elipse, uma parábola. Falávamos da América Latina, da morte de um índio no Peru, mas estávamos nos referindo também ao brasileiro. A repressão não incomodou por muito tempo, pois combatiam apenas ataques diretos. Quando compreenderam nossa estratégia, passaram a conspirar abertamente contra o Versus. Tínhamos um amigo infiltrado na Receita Federal e ele nos avisou para que nos preparássemos: eles fariam uma devassa no jornal, procurando registros e livros contábeis. Disse que poderia segurar por 30 dias aquilo, não mais. Bateu o pânico. Mas produzimos os livros. Bem, eram exercícios de ficção contábil, mas tudo bem. Quando os agentes chegaram, ficaram surpresos. Mas na madrugada do mesmo dia que foram lá, desconhecidos invadiram e depredaram nossa Redação. Deixaram o recado, pichado na parede: ‘Fora comunistas’. E roubaram aqueles livros. Tudo muito estranho. Até hoje me pergunto se toda a aventura que vivemos foi sonho ou realidade.”

ANA ARRUDA CALLADO PRIMEIRA MULHER A OCUPAR O CARGO DE CHEFE DE REPORTAGEM EM UM GRANDE JORNAL DIÁRIO: O

DIÁRIO CARIOCA. EM O SOL FOI EDITORA-CHEFE.

“Fazer uma escola, uma faculdade, com um jornal de verdade, que formasse jornalistas. Essa era a proposta de O Sol. Quando divulgamos essa idéia na Rádio Nacional, em 1967, houve muitos estudantes universitários

interessados. As matérias ocupavam um quarto de página, para que o jornal pudesse ser dobrado e lido no ônibus. Uma criação fantástica do Reynaldo Jardim e que contou com um forte apoio: a música do Caetano Veloso. Ele diz que foi coincidência falar sobre ‘o Sol nas bancas de revista’, mas usamos a canção. Além do mais, ele namorou e casou com uma de nossas repórteres. Foi ali que me tornei craque em dar títulos, fazendo as chamadas da primeira página. E também em cobrar, mesmo quando nossos repórteres iam às manifestações e ficavam participando delas. Uma vez, houve uma rebelião em Volta Redonda e os operários foram confinados. Disfarçado, um repórter conseguiu entrar. Mas só saiu preso. Quando voltou, contou a saga, mas não teve jeito. Precisávamos fechar e ele teve que escrever a matéria em 20 minutos.”

THEREZINHA ZERBINI ADVOGADA, FUNDOU O MOVIMENTO FEMININO PELA ANISTIA E O JORNAL BRASIL MULHER PARA SER O PORTA-VOZ DESSE MOVIMENTO.

“Não fui contra a luta feminista no jornal. Mas naquele momento, em que a causa era maior e precisávamos vencer um inimigo maior, a ditadura, precisávamos de união. Um povo brigava para se libertar. Por isso, usamos para o nome de um jornal, Maria Quitéria. Queríamos provocar os milicos e eles não podiam fazer nada. Ela foi uma guerrilheira, mas das tropas nacionais. Sabia que lidava com gente poderosa. Em 1970, quando voltava de Campos do Jordão, almoçava com meu marido, o General Euryclides Zerbini, cassado após o golpe, e com minha filha. As forças de repressão entraram em casa de metralhadoras nas mãos, para me levar. Meu marido chegou a discutir e questionar o que era aquilo. O outro oficial disse que eram coisas que não eram do tempo dele. Acalmei os ânimos, convidandoos para sentar em nossa sala, tomar um cafezinho, comer bolinhos e brincar com o cachorro. Enquanto isso, eu subi para me arrumar e acompanhálos. Se fosse eu no lugar deles não teria deixado. Do jeito que eu era meio louca, poderia ter tentado alguma coisa.”

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ESPECIAL A IMPRENSA QUE NÃO PERDEU A CAPACIDADE DE SE INDIGNAR

RICARDO MARANHÃO PROFESSOR DE GASTRONOMIA NA UNIVERSIDADE ANHEMBI-MORUMBI. FOI UM DOS FUNDADORES DO JORNAL ESTUDANTIL AMANHÃ.

“Naquele tempo, ninguém entrevistava o Leonel Brizola. Mas nós, do Amanhã, resolvemos que faríamos. Eu e uma moça, foca do jornal, fomos designados para a missão. Como não tínhamos dinheiro, fomos de carona até o Uruguai. Brizola estava isolado num apartamento em Atlântida, cidadezinha balneária perto de Colônia. E vigiado pela Polícia Federal brasileira e pela polícia uruguaia. Mas ninguém mais estava com saco para aquilo. Todos estavam cheios daquela rotina e a vigília estava meio bagunçada. Em meio a um desses desencontros, subimos até o apartamento. O homem falava loucamente, coisa que não fazia há tempos. Ao lado dele, um exdeputado, cassado depois do golpe, acompanhava tudo. De repente, ouvimos três tiros lá fora. O exdeputado se jogou no chão e saiu levantando uma arma. Brizola permaneceu sereno. E eu e a menina, apavorados. De repente, um homem, cara de capanga, entra por uma porta lateral, revólver em punho: “Matei o Castelo Branco, matei o Castelo Branco’. Brizola pediu para o homem se acalmar. Aí ele contou: ouviu no rádio a notícia de que o Presidente tinha morrido num acidente e estava comemorando. Em seguida, participamos de um senhor churrasco ali. A entrevista ficou sensacional, mas nunca foi publicada. Quando voltamos, o jornal foi fechado.”

SERGIO GOMES JORNALISTA, MILITANTE E DIRIGENTE DO PCB, TRABALHOU EM GRANDES JORNAIS E FUNDOU PUBLICAÇÕES COMO A PRENSA, O BALÃO E VOZ DA UNIDADE. INTEGROU A EQUIPE QUE CRIOU A

OBORÉ, EMPRESA QUE ORGANIZOU QUASE 300 DEPARTAMENTOS DE IMPRENSA DE ENTIDADES

chamado Lula ajudou-nos, já em 1977. Ele chamou o Laerte para fazer um trabalho para o Sindicato dos Metalúrgicos. Queria jornais diferentes, um para cada fábrica, com as necessidades específicas. Mas uma revista qualificada para todas. Quem disse que operários não são conscientes e politizados?”

FRANKLIN DE SOUZA MARTINS JORNALISTA E SOCIÓLOGO, TRABALHOU NA REDE GLOBO, BANDEIRANTES E FOI MINISTRO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL DO GOVERNO LULA.

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RUTH LEAL TEGON E MARCO ANTÔNIO MOURO

ponto de encontro, pontualmente? Deixava para lá e ia embora.”

verde?’. Como dizer a eles que eram os hematomas e sinais da tortura?”

MARIA AMÉLIA DE ALMEIDA TELES (AMELINHA)

CRIMÉIA DE ALMEIDA

INTEGRANTE DA COMISSÃO DE FAMILIARES DE

QUE SE DEDICA À BUSCA DE DESAPARECIDOS

DIRIGE UMA ORGANIZAÇÃO NÃO-GOVERNAMENTAL

MILITOU EM ORGANIZAÇÕES COMO MR-8 E

CESAR AUGUSTO TELES

ALIANÇA LIBERTADORA NACIONAL-ALN E FOI

MILITANTE DO PCDOB, COMANDOU A GRÁFICA

MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS. AO LADO

POLÍTICOS. FOI UMA DAS PRIMEIRAS MILITANTES DA

MENTOR DO SEQÜESTRO DO EMBAIXADOR NORTE-

QUE IMPRIMIA A CLASSE OPERÁRIA, PRIMEIRO NO

DO MARIDO, CÉSAR, E DA IRMÃ, CRIMÉIA, FOI PRESA

GUERRILHA DO ARAGUAIA E MUDOU-SE PARA SÃO

AMERICANO CHARLES B. ELBRICK.

RIO, DEPOIS EM SÃO PAULO. PRESO PELO DOI-

NA DÉCADA DE 1970 POR CAUSA DE SUA INTENSA

PAULO EM MISSÃO, PARA MORAR COM A IRMÃ

“Fala-se muito no seqüestro do embaixador norte-americano, mas penso que conseguimos também uma vitória contra a censura. Com a leitura do manifesto, pela primeira vez a censura era quebrada, o primeiro habeascorpus eficiente depois do AI-5. O problema foi na hora de assinar o manifesto. Que nome usar? Aí surgiu a idéia do MR-8, Movimento Revolucionário 8 de Outubro, a data da morte de Che Guevara. Não éramos guevarianos, mas esse era o nome de uma organização do Rio que fora desbaratada pela Polícia algum tempo antes. Usar o nome era uma forma de desmoralizar a Polícia Política, que se vangloriava de ter desarticulado o grupo. A ação foi bem sucedida, mas nunca mais fui autorizado a entrar nos Estados Unidos. Ano passado, estive com o atual embaixador norteamericano e ele se ofereceu para arrumar as coisas. Mas disse que não aceitaria se fosse só para mim e não para os outros. Apesar de não poder, não quer dizer que não estive por lá. Em 1976, estive em Nova York com um passaporte falso. Ia ter um congresso do MR-8 no Brasil e eu estava na Europa. Consegui uma passagem de Bruxelas para Lima, no Peru. Mas havia a conexão nos Estados Unidos. Cheguei no aeroporto e logo fui abordado por dois caras. Achei que estivessem oferecendo táxi, hotel. Dispensei. Que nada, eram do FBI. Perguntaram para onde estava indo, se tinha outros documentos. Gelei. Tentei humanizar a situação, tirar aquela aura de autoridade. Comecei a falar sobre mulheres. Aliás, ia para lá para encontrar com uma peruana maravilhosa, Dolores, e esperava não voltar. No final, eles me desejaram sorte e que, realmente, não voltasse mais, ficasse por lá. Fiquei nos Estados Unidos por oito horas.”

CODI, AO LADO DA MULHER E DA CUNHADA, FOI

PARTICIPAÇÃO NA IMPRENSA COMUNISTA CLANDESTINA.

AMELINHA E O CUNHADO CÉSAR, RESPONSÁVEIS

CONDENADO A CINCO ANOS DE PRISÃO.

“Não podíamos militar mais do que três anos em atividades de imprensa. Se não haveria prejuízo mental e físico. Por causa do estresse e pressão psicológica e de respirar tinner da tinta em que eram impressos os jornais. O César teve tuberculose por causa disso. Em 1972, quando ele recebia alta do sanatório, os policiais nos cercaram e começaram a gritar: ‘Terroristas! Terroristas!”. Fomos presos no Doi-Codi. Quando nossos filhos nos viram, perguntaram: ‘Mamãe, porque você está azul e o papai,

PELA GRÁFICA CLANDESTINA DO PCDOB. SEU

SINDICAIS DOS TRABALHADORES.

“Muita gente dizia que a imprensa legal, como a feita pelos centros acadêmicos, não tinha valor. Só valia a clandestina. Mas em 1972 fizemos um jornal-mural chamado A Ponte, que reuniu 20 centros acadêmicos da Usp. A música era a trilha musical da nossa atividade política. No caso, o nome do jornal veio dos versos de uma música do Maurício Tapajós e do Paulo Sérgio Pinheiro, Pesadelo: ‘Quando um muro separa, uma ponte une’. Mas nossa grande escola foi o movimento operário. No mesmo ano, a diretoria do Sindicato dos Têxteis nos chamou para fazer os materiais deles e lançar uma publicação. Mas o que fazer? Descobrimos que as mulheres liam fotonovelas e tentamos ilustrações. Os homens não compreenderam. No fim, aprendemos a escrever com os ouvidos, aprendendo sem arrogância com a realidade deles. Um cara

reescrevia e repassava ao dirigente para revisarem. Nunca soube onde era a gráfica. Mesmo assim, certa vez, pedi documentos falsos para mim e toda a família. Eles iam a uma garagem de ônibus, diziam que tinham perdido documento na linha e o fiscal deixava entrar na cabine e procurar à vontade. Aí era só encontrar alguém com o mesmo perfil e idade. Fiquei uns oito anos com a família nessa clandestinidade, fazendo jornais para o PCdoB e outros.”

CARLOS AZEVEDO JORNALISTA, TRABALHOU EM O ESTADO DE S.PAULO, QUATRO RODAS, REALIDADE E NO GLOBO RURAL. FEZ O JORNAL LIBERTAÇÃO, DA AP, A CLASSE OPERÁRIA, DO PCDOB, MOVIMENTO E, JÁ LEGALIZADO, TRIBUNA DA LUTA OPERÁRIA, TAMBÉM COMUNISTA. ESTÁ LANÇANDO O LIVRO

JORNAL MOVIMENTO, UMA REPORTAGEM.

“A militância na Ação Popular não era fácil. Lembro que fomos distribuir jornais durante um 1º de Maio na Praça da Sé e saí para buscar bolinha de gude e uns tacos com pregos. Nunca se sabia quando teria enfrentamento. Ao voltar já estava uma batalha e o palanque estava em chamas. Fazer os jornais também não era simples. As reuniões de pauta aconteciam em cemitérios, bares, campos de futebol e andando, na rua. Ali um dirigente passava o que a direção queria, Eu distribuía as pautas, dava prazo, recebia de volta,

“Quem dava suporte às atividades da Guerrilha do Araguaia, no campo, era a cidade. Nós por exemplo, fazíamos A Classe Operária e mantínhamos contato com o exterior. Tinha todos os endereços na Europa, para os quais mandava correspondência, na memória, para que não caíssem em mãos erradas. Todo cuidado era pouco. Ia entregar um pacote de jornal? Levava numa sacola, com frutas em cima. Qualquer coisa, tinha ido à feira. E se o contato não estivesse no

FILHO, JOÃO, NASCEU NA PRISÃO.

“Estava morando há pouco tempo em São Paulo. Recebi uma missão do partido e saí do Araguaia para fazer contatos. Aí fomos presos pelos DoiCodi. O policial me pegou pelos cabelos e começou a estapear meu rosto. Estava grávida de sete meses. Já na prisão, o médico oficial do Exército se recusou a fazer meu parto. Por conta de tudo o que tinha passado, estava com problema e lhe disse que meu filho poderia morrer. O homem

O COMEÇO DA QUEDA DA DITADURA Quando o Diretor de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo Vladimir Herzog, o Vlado, compareceu ao Doi-Codi, no dia 25 de outubro de 1975, julgava que daria seu depoimento e seria liberado em seguida. Mas isso não aconteceu. Depois de uma brutal sessão de espancamento, o jornalista não resistiu: morreu na prisão. Mesmo com enormes contradições, os militares insistiram na versão de que Vlado se suicidara, enforcado com a própria gravata. Foi o suficiente para gerar uma onda de protestos da imprensa em todo o mundo, movimento que impulsionou fortemente a abertura brasileira, com o fim da censura e a aprovação da anistia. Mas toda essa mobilização só foi possível por conta da ação da imprensa alternativa no Brasil. Agora, três décadas depois, o projeto Resistir é Preciso ouviu jornalistas que viveram diretamente aqueles dias de agitação e que contaram como a tragédia foi enfrentada. “Naquele tempo, eu morava em Ribeirão Preto e ia a pé para o jornal. No caminho, havia uma banca e eu passava nela para ‘lamber a cria’, quer dizer, folhear o jornal do dia”, conta José Hamilton Ribeiro. Mas nesse dia o que chamou a atenção do premiado jornalista foi a manchete estampada pela Folha da Tarde: Comunista se suicida na prisão. “O Vlado tinha se suicidado na prisão? Não podia acreditar naquilo. Liguei na hora para o Audálio Dantas e ele pediu que eu viesse para São Paulo. Larguei tudo e viajei no mesmo dia. Era um tempo de agitação e todo mundo esperava para gritar, chorar, espernear”, lembra. A morte foi divulgada num sábado. No domingo, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo realizava uma assembléia informal, fazendo a primeira denúncia das prisões arbitrárias que eram praticadas contra jornalistas e do assassinato de Vlado. “Tudo isso era contrário à própria Lei de Segurança Nacional. Foi uma convocação histórica. Recebemos muita colaboração espontânea e, a partir dali, mesmo com receio, o movimento cresceu e culminou com o culto ecumênico da Sé, o ato que marcou o começo da queda da ditadura”, recorda o também jornalista Fernando Pacheco Jordão,

então Diretor de Cultura do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Como estopim do movimento e chamando todos para as manifestações, o Sindicato lançou uma edição especial do jornal Unidade, com a capa toda preta, uma pequena ilustração embaixo, com o nome Vlado ao lado, e a chamada: Nosso medo, nossa coragem, nossa fé. “Foi uma edição histórica. A grande imprensa só deu a versão oficial, mas os jornais alternativos denunciaram a situação ao mundo. A ditadura estava perdida, com sua farsa desmascarada e a podridão aparecendo. Não tenho dúvida de que foi o ponto alto de nossa luta”, afirma Audálio Dantas, Presidente do Sindicato na época. SERVIÇO

www.resistirepreciso.org.br Para solicitar a íntegra de qualquer um dos depoimentos, envie um e-mail para protagonistas@vladimirherzog.org


só respondeu: ‘Não tem importância. É um comunista a menos.’ Foi terrível.”

MARCO ANTÔNIO MORO ADVOGADO, FOI PRESO EM 1964, 1968 E 1970,

POR DENTRO DE MOVIMENTO

POR SUA MILITÂNCIA NO PCB. EXILADO NO CHILE, COM A DERRUBADA DO PRESIDENTE SALVADOR

ALLENDE, FOI PARA BRUXELAS, BÉLGICA, COM OS FAMILIARES. EDITOU O CORREIO SINDICAL E AJUDOU A FUNDAR A VOZ DA UNIDADE.

“Levávamos e trazíamos cartas da prisão. Tudo escrito em um pequenino pedaço de papel, com bico de pena e suco de limão. Quem pegasse acharia que o papel estava em branco. Mas bastava passar com ferro para o texto aparecer. Mesmo assim, para informar o pessoal sobre as ações, dobrávamos os papeizinhos e colávamos com durex. Depois, levávamos embaixo da língua. Já nossos jornais cumpriam outra função: não informar, mas orientar a militância.”

RUTH LEAL TEGON JORNALISTA. EXILOU-SE GRÁVIDA DO TERCEIRO FILHO NO CHILE E LÁ FICOU ATÉ A QUEDA DE ALLENDE.

COM O GOLPE, EM SETEMBRO DE 1973, ABRIGOUSE COM A FAMÍLIA NA EMBAIXADA DO PANAMÁ E DE LÁ FOI PARA A BÉLGICA. NO BRASIL, AJUDOU A FUNDAR O JORNAL VOZ DA UNIDADE, NO QUAL ATUOU COMO SECRETÁRIA DE REDAÇÃO.

“No Chile, tínhamos um mimeógrafo, que guardávamos num quartinho da caldeira, adjacente a nosso apartamento. Certo dia, uma vizinha, que tinha um parente militar, avisou que nossa rua seria passada em revista. Havia denúncias de que ali funcionava uma imprensa clandestina. Destruímos o material que estava em casa, menos o mimeógrafo, e antes do toque de queda – o recolher deles – deixamos as crianças com vizinhos e saímos, para não dormir em casa. Depois, descobrimos que a tal imprensa clandestina era de outro apartamento, vinculada ao Partido Socialista chileno.”

FERNANDO MORAIS COMEÇOU CEDO NO JORNALISMO E PASSOU POR VEJA, JORNAL DA TARDE, FOLHA DE S.PAULO, TV CULTURA E PORTAL IG. FOI DEPUTADO ESTADUAL POR OITO ANOS E SECRETÁRIO DE CULTURA (1988 A 1991) E DE EDUCAÇÃO (1991 A 1993) DO ESTADO DE SÃO

PAULO. SUAS BIOGRAFIAS, COMO OLGA E CHATÔ, E LIVROS-REPORTAGEM, COMO O RECÉM-LANÇADO OS

ÚLTIMOS SOLDADOS DA GUERRA FRIA, JÁ VENDERAM MAIS DE 2 MILHÕES DE EXEMPLARES.

“Na Redação, tínhamos um censor bastante jovem, com uns 35 ou 40 anos. Claro, não era desculpa para dizer que não sabia o que estava fazendo. Na hora do fechamento, era colocada uma mesa para ele ficar vendo o material e o pessoal todo na correria. Foi numa dessas oportunidades que um dos colegas começou a assobiar a Internacional Comunista. Logo, estávamos todos na mesma melodia. Só vimos quando o censor pediu licença para sair e ir ao banheiro ou comer alguma coisa. Foi constrangedor. Para ele, naturalmente. Ainda assim, não tanto quanto aquele que foi o último ataque da ditadura contra a liberdade de imprensa. Aconteceu quando eu era deputado estadual, em 1978. Costumo dizer que a ditadura era herbívora na época, mas ainda mordia. Descobrimos que o Centro de Informações do Exército preparava um ataque unificado entre órgãos como Receita Federal, INPS e outras instâncias de fiscalização para acabar de vez com a imprensa alternativa. Era uma forma de atacar sem parecer censura. Divulgamos, denunciamos. Todo mundo deu e tiveram que suspender a vergonhosa operação.”

Livro de Carlos Azevedo resgata a trajetória do jornal Movimento, um dos mais importantes veículos da imprensa brasileira nos anos 1970. O semanário sofreu nas mãos da censura, mas tinha no jornalismo político independente sua estratégia de contestação da ditadura militar. P OR P AULO CHICO

NIVALDO HONÓRIO DA SILVA

Algumas das leis da Física bem que podem ser aplicadas à política. Uma delas é a de que, para toda ação, há sempre uma reação oposta e de igual intensidade. A máxima de Isaac Newton ajuda a entender a trajetória do jornal Movimento que, lançado em pleno 1975, tinha a clara missão de ser uma resposta contundente ao regime totalitário instaurado no Brasil desde 1964. O papel dessa publicação, um dos símbolos máximos da combativa imprensa alternativa do País dos anos 1970, é agora desvendado pelo livro Jornal Movimento, Uma Reportagem. De Carlos Azevedo e com reportagens de Marina Amaral e Natália Viana, a obra, publicada pela Manifesto Editora, tem lançamento oficial em setembro. “A proposta do jornal era fazer jornalismo político – com independência e sem autocensura. A censura era problema da ditadura. Ele foi pesadamente censurado ao longo de três anos, de 1975 a 1978, até que a censura recuou. Movimento tinha um programa editorial explícito, assumido desde o número zero. Defendia as liberdades democráticas e o fim dos atos de exceção e atuava em defesa dos direitos dos trabalhadores do campo e da cidade, dos interesses nacionais, contra a exploração do capital estrangeiro, e pregava a preservação do meio ambiente e dos recursos naturais. O jornal foi pioneiro em lançar a bandeira da Assembléia Nacional Constituinte, que transformou em campanha permanente. Também desenvolveu a campanha pela Anistia geral e irrestrita e propôs a formação de uma ampla frente democrática e popular para unir todas as forças políticas do País que se opunham à ditadura militar”, conta Carlos Azevedo. O viés político da publicação semanal era tão evidente que até mesmo sua viabilização econômica e sua sustentação administrativa foram peculiares. Fatores sem os quais dificilmente o jornal teria conseguido seguir uma linha tão contestadora. Movimento foi um caso raro de imprensa independente, dirigida pelos próprios jornalistas que o faziam, sem a figura clássica de um patrão-empresário. Escolheu-se o formato de uma empresa de sociedade anônima. E o jornal se concretizou por meio de uma mobilização feita em todo País, e a venda de ações a apoiadores, chegando ao número de 500 acionistas – entre jornalistas, intelectuais, profissionais especializados, professores e estudantes. “Movimento circulou de julho de 1975 a novembro de 1981. O jornal tinha em média cinco mil assinantes, mas suas vendas

Pelo Conselho de Redação passaram Aguinaldo Silva, Elifas Andreato, Bernardo Kucinski, Fernando Peixoto, Murilo de Carvalho, além do Presidente da ABI, Maurício Azêdo, entre outros. Entre os colaboradores, muitos se tornaram importantes personalidades políticas, como Fernando Pimentel, Aldo Rebelo, Tarso Genro, Candido Vaccarezza e Nilmario Miranda. Carlos Azevedo destaca ainda a equipe fixa da publicação. “Um dos principais construtores do jornal foi Raimundo Rodrigues Pereira, formulador do projeto e líder da turma. Um grande talento jornalístico, corajoso e ousado, de persistência tenaz. Houve o Sergio Mota, que veio a ser Ministro no Governo FHC. Ele foi o gênio administrativo, o formulador do projeto de sustentação econômica da editora que fez o jornal, e a administrou do primeiro ao último dia. O Tonico Ferreira, repórter da TV Globo, como jornalista responsável, chegou a ser processado pela Lei de Segurança Nacional; Duarte Pacheco Pereira, jornalista e militante político, que deu contribuição na formulação das idéias e propostas políticas do jornal, através de seus ‘Ensaios PopuCarlos Azevedo: “Movimento lançou a bandeira lares’; Chico Pinto, o ex-Deputado casda Assembléia Nacional Constituinte e propôs a formação de uma ampla frente para unir todas as sado pela ditadura, que era o diretor da forças políticas que se opunham à ditadura militar”. sucursal de Brasília. Ao lado destes, mais de uma centena de jornalistas e mais importantes eram feitas nas bancas intelectuais que se pode ver pelo expedide jornais, podendo chegar a 20 mil por ente, transcrito no livro.” edição. E havia a venda direta, feita maciNão faltaram motivações profissionais çamente por estudantes e jovens trabalhae pessoais para que Carlos Azevedo se dedores. Havia vendas especiais aproveitandicasse à produção do livro, que é acompado eventos como as reuniões da Sociedade nhado de um dvd onde estão gravadas toBrasileira para o Progresso da Ciência. O das as 334 edições do jornal, além das ediMovimento foi muito prejudicado pela cenções especiais. “Sempre achei que fazia sura. Diversas edições, mesmo falta um registro da história do jornal, de censuradas, acabaram sendo sua trajetória e importância naquele moapreendidas. Quando a censumento histórico. Cheguei a fazer um prora recuou, setores militares jeto para realizá-lo em 2003, mas probleadotaram o terrorismo para mas pessoais me levaram a desistir. Em combater o jornal, bombarde2008, a Editora Manifesto obteve condiando as bancas que o vendições materiais pela Lei Rouanet e me conam, assim como outros jornais vidou para fazer o livro, junto com uma alternativos. Como o ponto pequena equipe. Durante a existência de forte eram as vendas em banMovimento eu estava na clandestinidade ca, foi um golpe brutal, que por pertencer à resistência à ditadura. precipitou seu fechamento”, Mesmo assim, consegui dar alguma colacontextualiza Carlos Azeveboração como jornalista. Publiquei uma sédo, jornalista com passagens rie de artigos, a maioria sob pseudônimos”, por veículos como O Estado de S.Paulo, recorda o jornalista, para quem, mesmo que Quatro Rodas, Caros Amigos e Realidade, e num País hoje liberto das amarras do autoautor do livro Cicatrizes de Reportagem, ritarismo, faz falta a presença de publicalançado pela Editora Papagaio em 2007. ções de perfil contestador. Movimento foi um jornal sustentado “Sempre há espaço para publicações pelo movimento democrático e popular independentes, que busquem informar o que se opunha à ditadura. Do Conselho leitor honestamente, dando condições à sua formação como cidadão e participanEditorial fizeram parte nomes como Chico Buarque, Fernando Henrique Cardoso, te consciente da sociedade. Só assim podeAlencar Furtado, Edgar Mata Machado, remos ampliar a democracia no rumo de uma sociedade mais justa”, sentencia. Hermilo Borba Filho e Orlando Villas Boas. Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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RESISTÊNCIA

Sem temer Buzaid, Lygia denunciou a tortura no auge da ditadura Médici Num dos capítulos do seu clássico As Meninas, a autora de Ciranda de Pedra reproduziu em 1973 o depoimento de uma das vítimas de sevícias nas masmorras do Doi-Codi de São Paulo. enegrecidas devido às queimaduras elétricas. E etecetera, etecetera. Dobro a folha. Madre Alix me encara. Os olhos cinzentos têm uma expressão afável. – Conheço isso, filha. Esse moço chama-se Bernardo. Tenho estado muito com a mãe dele, fomos juntas falar com o Cardeal.”

ríodo da ditadura militar, Doi-Codi. Devido à importância do assunto que Você tem repetido na sua bela revista, aproveito a ocasião para lhe enviar o meu romance As Meninas, que vai com o meu afetuoso abraço. (a) Lygia, S. Paulo, 8.8.11.”

...

Lygia Fagundes Telles encaminhou ao Presidente da ABI exemplar de As Meninas com as páginas 148 e 149 assinalando o texto transcrito e a seguinte mensagem manuscrita: “Meu caro Maurício, Nas páginas 148 e 149 está reproduzido um panfleto que recebi em casa no pe-

FOLHAPRESS

Iniciou-se ali um cerimonial freqüenteSem se intimidar com o currículo do mente repetido e que durava de três a novo Ministro da Justiça, que pertencera seis horas cada sessão. Primeiro me perà cúpula da Ação Integralista Brasileira, guntaram se eu pertencia a algum grumovimento de caráter fascista de Plínio po político. Neguei. Enrolaram então Salgado, e marcaria a sua passagem pelo alguns fios em redor dos meus dedos, inicargo com a oficialização da censura ciando-se a tortura elétrica: deram-me prévia a jornais, livros, criações musicais choques inicialmente frae filmes, a escritora Lygia cos que foram se tornando Fagundes Telles destacoucada vez mais fortes. Dese na década de 1970 como pois, obrigaram-me a tirar a uma das mais corajosas miroupa, fiquei nu e desprotelitantes da resistência à digido. Primeiro me bateram tadura militar, embora sem com as mãos e em seguida alardear as posições que com cassetetes, principaladotava. mente nas mãos. MolhaFoi Lygia quem primeiram-me todo, para que os ro colocou numa obra de choques elétricos tivessem ficção a denúncia das tormais efeito. Pensei que fosse turas cometidas durante o então morrer. Mas resisti e Governo Garrastazu Médiresisti também às ci. Nas páginas 148 e “CARREGARAM-ME surras que me abri149 de uma de suas EM SEGUIDA PARA A ram um talho fundo mais importantes CHAMADA CAPELA: A em meu cotovelo. obras, o romance As Meninas, Lygia con- CÂMARA DE TORTURAS. Na ferida o sargento Simões e o cabo Pascebeu um diálogo INICIOU-SE ALI sos enfiaram um fio. em que as duas inUM CERIMONIAL Obrigaram-me a terlocutoras discuFREQÜENTEMENTE aplicar choques em tem espiritualidade, REPETIDO E QUE mim mesmo e em medo e violência, tema que enseja esta DURAVA DE TRÊS A SEIS meus amigos. Para que eu não gritasse intervenção de uma HORAS CADA SESSÃO.” enfiaram um sapato delas, baseada num dentro da minha boca. Outras vezes, documento da vida real a que Lygia teve panos fétidos. Após algumas horas, a ceacesso: rimônia atingiu seu ápice. Penduraram(...) Mas já que a senhora falou em vime no pau-de-arara: amarraram minhas olência vou lhe mostrar uma – digo e promãos diante dos joelhos, atrás dos quais curo o depoimento que levei para mosenfiaram uma vara, cujas pontas eram trar ao Pedro e esqueci. – Quero que ouça colocadas em mesas. Fiquei pairando no o trecho do depoimento de um botâniar. Enfiaram-me então um fio no reto e co perante a Justiça, ele ousou distribuir fixaram outros fios na boca, nas orelhas panfletos numa fábrica. Foi preso e levae mãos. Nos dias seguintes o processo se do à caserna policial, ouça aqui o que ele repetiu com maior duração e violência. diz, não vou ler tudo: Ali interrogaramOs tapas que me davam eram tão fortes me durante cinco horas enquanto gritaque julguei que tivessem me rompido os vam traidor da pátria, traidor! Nada me tímpanos, mal ouvia. Meus punhos esfoi dado para comer ou beber durante esse tavam ralados devido às algemas, minhas tempo. Carregaram-me em seguida para mãos e partes genitais completamente a chamada capela: a câmara de torturas.


HISTÓRIA

ARQUIVO PESSOAL

Memórias amargas POR RODOLFO KONDER

Q

ARQUIVO JB

uarenta anos atrás, no dia 1º de abril de 1964, acordei sobressaltado. Na televisão, a voz arrogante de Flávio Cavalcante anunciava a vitória dos golpistas e a fuga, de Brasília, do Presidente João Goulart. Na tela, surgiam imagens de lençóis brancos nas janelas de alguns prédios da Zona Sul do Rio de Janeiro. Comemoravam o fim do Governo Jango e o início de uma prolongada ditadura militar. As perseguições que se iniciaram a partir de então não perturbaram a rotina das ruas – pelo menos até 1967 a 1968 – mas eram reais. Arrastaram muita gente, na penumbra. Levaram parentes e amigos. Seqüestravam as pessoas e, às vezes, faziam-nas imergir no lodaçal insondável do “desaparecimento”. À noite, casas e mentes eram invadidas, enquanto os cães uivavam nos quintais e o vento investia contra as sombras. A casa dos meus pais foi ocupada. Prenderam minha mãe – doce e inofensiva mulher de 50 anos –, meu irmão e minha cunhada. Transformaram a casa numa espécie de papel pega-mosca: quem tocava a campainha caía na armadilha. Dirigente sindical na Petrobras, fui logo procurado pelos agentes da repressão. E cassado. Com a ajuda de Luís Carlos, funcionário da empresa que eu jamais vira antes, mas que me levou até a Embaixada do México, na Praia do Flamengo, escapei e parti para o primeiro exílio. Antes de embarcar, vivi uma experiência claustrofóbica, num apartamento ocupado por mais de 60 pessoas que se odiavam e pareciam ratos de laboratório. No México de Lopes Mateus, conheci o lendário Lázaro Cardenas, visitei Acapulco, estive em La Quebrada, para ver mergulhadores que pareciam pássaros, e sobrevivi a um terremoto. Depois, desci pela Costa do Pacífico, com Osmildo Stafford e Humberto Pinheiro, até o Chile. Então, Argentina e Uruguai. Vivi quase clandestinamente, após regressar do primeiro exílio, pela fronteira com o Uruguai, em Rivera e Santana do Livramento. Consegui meu primeiro emprego na Agência Reuter, com a ajuda de Luís Gazzaneo, em 1965. Na cobertura da

Conferência da OEA, no Hotel Glória, Aristélio Andrade, Milton Coelho, Maurício Azêdo e eu criamos uma comissão de jornalistas que preparou um texto com denúncias contra o regime militar. Com a ajuda de Lygia Sigaud e dos membros da comissão, o texto foi distribuído dentro do hotel, para o desespero da polícia política. Na esteira do AI-5, no final de 1968, mudei-me para São Paulo, onde fui preso, em 1975. As torturas a que me submeteram, nos porões do Doi-Codi, deixaram seqüelas que até hoje não consigo avaliar com precisão. Mas creio que o seu efeito mais perverso é uma sensação insuperável de isolamento, um sentimento de solidão que se instalou para sempre. No dia 1º de abril de 1976, doze anos depois do golpe militar, a Segunda Auditoria de Guerra, em São Paulo, decretou minha prisão preventiva. Autorizado a me defender em liberdade, deixei de comparecer semanalmente ao gabinete do Delegado Sérgio Fleury – e me encontrava “em lugar ignorado e não sabido” (SIC). Na verdade, eu fugira para a Argentina, atravessando clandestinamente a fronteira, em Foz do Iguaçu. Ao receber cartas e telefonemas de uma organização que se dizia “O Braço Armado da Repressão”, decidi sair do País para um segundo exílio.

Da Argentina fui para o Peru. Mas acabei em Montreal no Canadá, onde trabalhei durante dois anos como “announcer producer ”, na “Canadian Broadcasting Corporation”. Participei de encontros internacionais, entrei para a Liga dos Direitos Humanos, esquiei nas Lawrentian Mountains. Depois, morei quase um ano em Nova York, como correspondente do jornal Versus, dirigido por Marcos Faerman. Após meu regresso ao Brasil, em outubro de 1978, fui intimado a prestar depoimento na Polícia Federal. Durante três horas, fizeramme perguntas, na presença do meu advogado, José Roberto Leal, e do Vice-Presidente do Sindicato dos Jornalistas, Fernando Moraes. Mas o clima era de respeito. A abertura política se esboçava. Hoje, posso dizer que estive na guerra. Estivemos todos, na verdade. Não combatemos na Coréia, nem no Vietnã, nem no Chade, nem na Croácia, mas estivemos na guerra. Na Guerra Fria. Durante vinte anos, enfrentamos o regime militar implantado no Brasil em 1964 – quarenta anos atrás. Não podemos esquecer, até porque os demônios do autoritarismo e da intolerância ainda nos espreitam, na sombra. RODOLFO KONDER, jornalista e escritor, é Diretor da Representação da ABI em São Paulo e membro do Conselho Municipal de Educação da Cidade de São Paulo.

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Aconteceu na ABI HOMENAGEM

Os 100 anos de Raul Ryff, uma referência como exemplo de vida

Saturnino sublinhou também a admiração que Raul Ryff nutria por João Goulart: “Raul Ryff dizia que Jango era um democrata, que Jango gostava de ouvir o trabalhador, de escutar o povo, de sentir e atender o pensamento e a verdadeira vontade popular. Ele distinguia o Jango das demais lideranças por esta característica única e isto vinha de uma forma afetiva.” A imagem de Jango

Governador do Estado do Rio, jornalista e sócio da ABI, Marcello Alencar deu o tom da homenagem que a ABI prestou ao jornalista Raul Francisco Ryff por motivo do centenário de seu nascimento. “Ele foi uma referência nacional pelas características de fidelidade que demonstrou ao longo da vida”, disse Marcello, que ratificou assim o título que a Casa deu ao ato em memória do ex-Secretário de Imprensa do Presidente João Goulart: Raul Ryff, O Companheiro Fiel. POR CLÁUDIA SOUZA

“Símbolo de seriedade”

O ex-Governador Marcello Alencar, que convidou Raul Ryff para o cargo de Secretário Extraordinário durante a sua primeira gestão na Prefeitura do Rio de Janeiro, no início da década de 1980, declarou seu carinho ao ex-companheiro e amigo: “Em 1982, Leonel Brizola me convocou para ocupar a Presidência do Banerj. A minha primeira preocupação foi formar uma equipe e convidei Raul Ryff para ser meu Secretário. Este homem é 12 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

MUNIR AHMED

Ex-Governador do Estado do Rio, jornalista e sócio da ABI, Marcello Alencar deu o tom da homenagem que a ABI prestou ao jornalista Raul Francisco Ryff por motivo do centenário de seu nascimento. “Ele foi uma referência nacional pelas características de fidelidade que demonstrou ao longo da vida”, disse Marcello, que ratificou assim o título que a Casa deu ao ato em memória do ex-Secretário de Imprensa do Presidente João Goulart: Raul Ryff, O Companheiro Fiel. O centenário de nascimento do jornalista Raul Ryff foi homenageado em evento especial realizado na noite de 24 de agosto na ABI, com a participação de parentes, amigos e admiradores do ex-Secretário de Imprensa do Governo João Goulart, que foi lembrado como companheiro leal e solidário e exemplo de lisura e seriedade. Formaram a mesa de honra da cerimônia o Presidente da ABI, jornalista Maurício Azêdo, o ex-Governador Marcello Alencar, o ex-Senador Saturnino Braga, os filhos de Raul Ryff, Tito Bruno Bandeira Ryff e Luiz Carlos Bandeira Ryff, a socióloga e ex-nora de Raul Ryff, Maysa Machado, a viúva do ex-Presidente Jango, Maria Thereza Goulart, e sua filha Denize Goulart, o cineasta Silvio Tendler, Diretor do documentário Jango, e o ex-Deputado Eduardo Chuay, amigo do homenageado. Na abertura da solenidade, após a execução do Hino Nacional, o Presidente da ABI falou sobre a importância da homenagem: “Gostaria de agradecer a honrosa presença de todos os que estão aqui para aplaudir o jornalista extraordinário que foi Raul Francisco Ryff, um modelo de competência profissional, de clarividência política e, sobretudo, de coerência com as idéias que agasalhou desde a sua juventude no Rio Grande do Sul”.

uma referência neste momento de tantas situações negativas no quadro político. Vemos em Ryff um símbolo de seriedade e notável presença nos acontecimentos mais graves da nação. Ele é uma referência nacional pelas características de fidelidade que demonstrou ao longo da vida”. A convivência íntima de Raul Ryff com João Goulart foi outro aspecto destacado por Marcello Alencar: “Ele era o homem, talvez, de maior confiança do Presidente Goulart. Seu comportamento ético e sua presença enobreciam os ambientes. Hoje é um dia justo com a memória deste homem, que merece estar no quadro dos grandes cidadãos brasileiros. Deixo aqui a expressão de minha saudade, e gostaria que vocês todos comungassem desse meu sentimento”.

O xodó das mulheres

Jango, um injustiçado

Tito Ryff também comentou a relação do pai com o ex-Presidente João Goulart, cuja relevância histórica, em sua opinião, muitas vezes foi subestimada: “Não há personalidade política e histórica mais injustiçada do que o ex-Presidente João Goulart. Está na hora de resgatarmos a sua memória. Gostei muito da frase que dá título a esta cerimônia: “o companheiro fiel”. Raul Ryff foi amigo fiel de João Goulart porque ele era fiel ao seu compromisso com o povo, com as suas convicções e com os ideais de uma sociedade. O País deve muito aos seus jornalistas, à sua imprensa. Jornalistas não só aqueles de esquerda que queriam a transformação social do país, mas jornalistas liberais, conservadores, que assumiram as fronteiras da liberdade e da democracia, para combater a ditadura que se implantou neste País. Até hoje a ABI é com sua história política e social um exemplo de instituição que serviu aos maiores ideais da nação brasileira”. “Ulisses Guimarães disse certa vez que tinha nojo e ódio das ditaduras. Nós devemos ter ódio e nojo das ditaduras, porque não há valor mais supremo do que o valor das liberdades, de modo que para nós o fato de esta solenidade ocorrer na

Amigo da família, o ex-Deputado Eduardo Chuay assinalou o papel de Raul Ryff na reconstrução da imagem de Jango:”Eu jamais encontrei uma pessoa com a honradez, a dignidade e a discrição de Raul Ryff. Comentava-se muito sobre o quanto Jango era mal visto. Entre 1964 e 1978, e em 1982. Raul ajudou a recuperar a verdadeira imagem de João Goulart. Ryff também foi lembrado pelo seu carisma e pela disposição em colaborar com os amigos. “Ele sempre procurou ajudar as pessoas para que elas progredissem. Ele gostava de ver as pessoas se desenvolvendo profissionalmente, tendo uma vida mais digna”, disse Luiz Carlos Ryff, filho do homenageado. Tito Ryff complementou: “Nosso pai nos ensinou vários exemplos importantes, um desses era o da tolerância. Ele era um homem que não procurava impor suas convicções a ninguém. Ele as tinha firmes, mas jamais procurou impôlas a outros ou fazer que elas prevalecessem em qualquer debate ou discussão. Ele respeitava a opinião dos outros, ainda que não fosse exatamente a sua”.

ABI é motivo de especial satisfação e contentamento. Celebramos a memória de Raul Ryff, que estaria fazendo hoje 100 anos se estivesse vivo. Gostaria que esta celebração não fosse uma comemoração em torno da pessoa ou dos valores, ou exclusivamente da pessoa ou da figura do Raul Ryff, mas que fosse para todos nós uma forma de celebrar as conquistas que tivemos a duras penas, a conquista da liberdade, a conquista da democracia.” Gosto de ouvir o povo

O ex-Senador Saturnino Braga conviveu com Raul Ryff quando esteve à frente da Prefeitura do Rio de Janeiro: “Convivi diretamente com Raul Ryff durante aqueles anos na Prefeitura. Todo fim de tarde ele vinha conversar comigo sobre as notícias que deveria encaminhar à imprensa, e essa conversa sempre versava sobre fatos e personagens da História do nosso País. Raul Ryff era da geração de meu pai, aprendi muito com sua retidão, sua ética, sua lealdade a seus princípios. Ele é absolutamente digno desta homenagem que a ABI e todos nós estamos prestando”.

Presente à cerimônia, o neto Luiz Antônio Ryff falou sobre a influência do avô em sua vida: “Tive a oportunidade, a honra e a felicidade de conviver com meu avô. Passei a adolescência com ele. Fui morar com ele aos dez anos, e era uma relação completamente diferente. Sou o representante da terceira geração de jornalistas da família, que além do papai Luiz Carlos, do tio Tito, tinha também o tio Sérgio, que foi jornalista, irmão mais velho do Tito e do Luiz Carlos e que seguiu o Raul. Ele dava livros de vários jornalistas para eu ler, dividia os jornais todos os dias comigo, foi me guiando para o jornalismo. Quando ele teve um enfarto pela primeira vez eu tinha 12 anos. No dia em que ele voltou ao Jornal do Brasil para rever os colegas, eu o acompanhei. Quando chegamos lá, foi aquele bafafá com as mulheres todas da Redação correndo na direção dele. ficou aquele monte de mulher beijando, agarrando, abraçando. E eu pensei: “É isso que eu quero fazer na vida!” Vovô era uma pessoa extremamente sedutora, muito querida pelas pessoas. Sou herdeiro desse carinho que o meu avô construiu na vida dele. Enquanto há memória, a pessoa sobrevive.” O fotógrafo Evandro Teixeira, companheiro de Raul Ryff no Jornal do Brasil, descreveu a longa amizade com o colega:


“Trabalhei durante muito tempo com ele, era uma pessoa maravilhosa, era o mais querido da Redação, principalmente entre as mulheres. Na pesquisa, então, ele era louvado, aplaudidíssimo. Naquela época, o Governo dava ao jornalista o direito de adquirir um apartamento com uma assinatura do Presidente da República, e com essa assinatura você tinha o privilégio de comprar um apartamento sem entrar na fila da Caixa Econômica. E isso eu devo ao Raul Ryff, que um dia me disse: ‘Evandro, está na hora de você comprar o seu apartamento. Faz uma carta que eu vou conversar com o Jango’. Uma semana depois eu estava com o apartamento comprado. E isso eu devo ao Jango, ao Ryff, especialmente. Sinto saudades do Ryff, porque ele foi um dos maiores jornalistas com quem eu convivi e trabalhei. Esta é a minha homenagem ao Raul Ryff.” “Ele me tratou como gente”

A jornalista Leda Nagle também evocou sua convivência com Raul Ryff no início da carreira: “Conheci Raul Ryff no meu primeiro dia de estágio. Ele foi a primeira pessoa a prestar atenção em mim, a falar comigo. Porque estagiário ninguém vê, e ele me tratou como gente, falou comigo carinhosamente e me convidou para almoçar no primeiro dia. Era uma pessoa encantadora, me contou várias histórias ao longo dessa convivência maravilhosa.” Silvio Tendler acentuou o aspecto bemhumorado da personalidade de Raul Ryff:

RENAN CASTRO

RENAN CASTRO

Ao assumir a Prefeitura do Rio, Saturnino Braga convocou para Secretários Raul Ryff e seu filho, o economista Tito (à esquerda).

“A gente não pode esquecer o lado do Raul absolutamente contador de histórias, sempre resolvendo as situações mais dramáticas com humor. Quando ele voltou do exílio, desembarcou no Galeão e o seguraram para prestar depoimento na Praça Mauá. Chegando lá, o escrivão não podia tomar o depoimento porque tinha esquecido os óculos em casa, na Penha. “Vai lá que eu te espero aqui”, disse Ryff para ele. Enquanto fazia hora, o Delegado comentou com Ryff: “Doutor, o senhor não sabe o que fizeram com o nosso Flamengo neste período em que o senhor estava fora!” Maysa Machado lamentou a ausência de Raul Ryff: “Eu não fui apenas nora do Raul, fui também companheira de militância, porque a visão que a gente tem é completamente diferente de quem não se doa. Nós vemos como as pessoas se entrelaçam nessa necessidade contemporânea que temos de respeitar alguém que tem uma vida pública. O Raul preenche esse vazio que existe na expectativa de cada um de nós.”

Um combatente do movimento sindical Antes de encerrar o evento, o Presidente da ABI sublinhou o papel de Raul Ryff na imprensa e na política nacional: “Gostaria de aduzir aos depoimentos políticos e de caráter pessoal que foram feitos algo estritamente profissional com vinculação com a ABI e com o movimento dos jornalistas no Rio de Janeiro e no Brasil. Como lembrou o jornalista Osvaldo Maneschy em sua intervenção, houve época em que Carlos Lacerda ia para a televisão e tinha como referência o comunista Raul Francisco Ryff, um dos jornalistas mais atacados pelas suas convicções políticas, por sua filiação ideológica e adesão ao Partido Comunista Brasileiro ainda nos anos 1930, em seu Estado, o Rio Grande do Sul.” “Quando veio para o Rio de Janeiro. Ryff vinculou-se ao grupo democrático de jornalistas da cidade, um grupo muito forte e também muito expressivo do ponto de vista profissional e intelectual, ÁLBUM JOTABENIANO

Xodó: Pausa para o cafezinho no Jornal do Brasil, sob o olhar de admiração da jornalista Rita Luz.

Maria Thereza e sua filha Denise, ao lado de Maurício Azêdo: Ryff foi um amigo presente.

A emoção de Maria Thereza e de Denise, filha de Jango A viúva do Presidente João Goulart, Maria Thereza Goulart, e sua filha Denise Goulart, que era uma menininha quando o pai foi deposto e compelido a se exilar, também se revelaram felizes e emocionadas por participar da homenagem a Ryff. Em e-mail aos organizadores do ato, Denise confessou que ficou emocionada já ao receber o convite, pelo título dado à solenidade: Raul Ryff, O Companheiro Fiel. “Com muita honra estou aqui neste momento homenageando uma pessoa que foi de grande importância na nossa vida, que foi um grande amigo do meu um grupo que reunia, entre outros, Samuel Wainer, Moacyr Werneck de Castro, Rubem Braga, além dos intelectuais e artistas que transitavam no entorno, como Di Cavalcânti, que era presença constante nas publicações da época, entre as quais a revista Diretrizes, que Samuel Wainer criou e foi o embrião de arrojado projeto de jornalismo que ele desenvolveria 20 anos depois através da criação do jornal Última Hora.” Maurício lembrou as dificuldades para os jornalistas que se declaravam comunistas: “Com o perfil ideológico com que desembarcou no Rio de Janeiro, Raul Ryff sempre esteve na mira dos reacionários, dos conservadores e dos anticomunistas, alguns dos quais babavam de ódio contra os comunistas. Nessa época, o meio profissional dos jornalistas no Rio de Janeiro, apesar desses que mencionei, sobretudo na grande imprensa, era muito fechado para quem era de esquerda ou tinha idéias comunistas. Lembro que no meu começo de profissão, no final dos anos 1950, nós sabíamos de cabeça que na Redação do jornal O Globo só havia dois comunistas: o jornalista Lucílio de Castro, que por uma das muitas contradições positivas do Roberto Marinho era Secretário de Redação do jornal, e João Antônio Mesplé, que foi um dos mais atuantes militantes do movimento sindical dos jornalistas.” Ainda sobre a ligação de Raul Ryff com o Partido Comunista e o sindicalismo, Maurício comentou: “Ryff vinculou-se desde então ao grupo de jornalistas do Par-

esposo em todos os momentos, uma grande figura brasileira e um grande amigo”, disse Maria Thereza. Denise recordou a dedicação e a solidariedade de Raul Ryff: “Não foi só no momento de Governo, mas também nos momentos mais difíceis do exílio, Ryff era um amigo que esteve sempre presente e isso era um dos motivos pelos quais meu pai sempre acreditou naquela amizade. Eu também tive a honra e o privilégio de manter essa amizade depois que voltei ao Brasil. O Raul sempre manteve contato conosco e com a família.” tido Comunista Brasileiro, e teve um papel fundamental na organização dos jornalistas, do ponto de vista de defesa profissional, a partir dos anos 1930. O sindicato mais antigo de jornalistas do Brasil foi o do Rio de Janeiro, fundado ainda no começo dos anos 1930, que tinha entre os seus fundadores alguns nomes destacados da imprensa na época, como o iniciante Evandro Lins e Silva, e o já reconhecidamente talentoso Carlos Lacerda, entre outros. Ryff sobressaiu-se em termos de dedicação para atrair jornalistas para a criação da Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj, de que participaram o citado João Antônio Mesplé, Fernando Segismundo, que foi Presidente da ABI, Carlos Alberto Costa Pinto, todos devotados à causa da organização dos jornalistas para que eles não fossem presas fáceis da política do patronato da grande imprensa e também da sufocação que poderiam sofrer na defesa de suas idéias.” O Presidente da ABI finalizou reafirmando os valores de vida do jornalista: “Entre outros motivos, esta homenagem a Raul Ryff é realçada por esta sua participação e, para honra da ABI, e como um jornalista exemplar do ponto de vista daquilo que nós pusemos neste banner: competência, desambição e sobretudo lealdade, porque foi muito difícil durante mais de 25 anos as pessoas manterem a lealdade às suas próprias idéias e aos seus companheiros e contemporâneos. É esse Ryff que com muito orgulho a Associação Brasileira de Imprensa evoca e homenageia neste ano de seu centenário.” Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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Aconteceu na ABI Waldir Pires: Ryff tem assento na História Nas horas tormentosas que precederam à queda do regime constitucional, em 1° de abril de 1964, o Presidente João Goulart contava no primeiro escalão do Governo, em Brasília, com três leais e corajosos colaboradores: Darcy Ribeiro, Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, que imaginava poder montar a resistência armada aos golpistas; Waldir Pires, Consultor-Geral da República, e Raul Francisco Ryff, jornalista, Secretário de Imprensa do Presidente. Derrotados, todos, à frente o Presidente deposto, tomaram o caminho do exílio. Eram tempos "tumultuados e ricos de sonhos, objetivos e idéias", como relembra Waldir Pires nesta mensagem em que relatou sua dificuldade de vir ao Rio para o ato em homenagem a Ryff: "A Maysa Machado, pedindo que o leve, também, a Maurício Azêdo, Presidente da ABI, Muito grato pelo convite para a reunião de amanhã, no auditório da ABI, em homenagem ao centenário de Raul Ryff. Infelizmente não tive condições, ontem, de mudar compromisso de hora e dia de palestra que terei de fazer amanhã, aqui em Salvador. Sinto enormemente. Quero me solidarizar com a ABI e com todos os que aí estão, amigos e companheiros e com os filhos e a família de Raul, pelo encontro de memória que realizam no centenário dessa grande figura humana de cidadão brasileiro que foi Raul Ryff. Abraço todos afetuosamente, convivemos ao longo da vida nos embates dos nossos tempos, tumultuados e ricos de sonhos, objetivos e lutas. No Governo do Presidente João Goulart e, depois, no exílio, no Uruguai e na França. Guardo de Raul Ryff uma lembrança de enorme apreço e admiração. Sua honradez pessoal, sua lealdade constante e responsável, no cotidiano da vida profissional, jornalista sério, irrepreensível, e na atividade política, no dia-a-dia das ações políticas, incapaz de leviandades e íntegro sempre, no compromisso de suas responsabilidades. Parabéns pela manifestação de respeito à História contemporânea do Brasil onde tem assento Raul Ryff, com dignidade absoluta. Muito cordialmente (a) Waldir Pires."

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Uma vida de trabalho, de prisões e de exílios Raul Ryff nasceu em Berna, na Suíça, em 8 de agosto de 1911, filho de pai suíço naturalizado brasileiro e de mãe brasileira. A família veio para o Brasil quando Raul tinha oito meses de idade. O primeiro contato de Ryff com o jornalismo foi ainda na adolescência, no colégio jesuíta Ginásio Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre, como colaborador do jornal escolar O Pindorama, que era dirigido pelo colega de escola Érico Veríssimo, que veio a se tornar um dos maiores nomes da literatura nacional. Em 1935, aos 24 anos, Ryff fundou a Aliança Nacional Libertadora(ANL), juntamente com Dionélio Machado, Aparício Cora de Almeida, Agildo Barata e João Antônio Mesplé. A entidade, vinculada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi pontuada pelo viés nacionalista e antifascista. Em julho de 1935, a ANL foi fechada pelo então Presidente Getúlio Vargas e passou a atuar na clandestinidade. No final de 1935, Ryff se mudou para o Rio de Janeiro, onde foi preso sob a acusação de envolvimento na insurreição armada de novembro de 1935, organizada pelo PCB. Em 1936, Ryff foi deportado para o Rio Grande do Sul, onde permaneceu preso por determinação de Filinto Müller, que chefiava a polícia política no Governo Vargas, e foi responsável pela prisão da militante política Olga Benário, mulher do histórico revolucionário Luís Carlos Prestes. Em maio de 1937, Ryff seguiu para o exílio no Uruguai, ao

Um fã de Lupicínio P OR M AYSA M ACHADO Em dezembro de 2009, a ABI homenageou o centenário de Beatriz Ryff. A cerimônia foi organizada por parentes, amigos e admiradores da escritora, aplaudida como símbolo de luta pelos direitos humanos e pela garantia das liberdades democráticas, autora dos livros Roteiro, Profissão de Fé, Antes que Seja Tarde e A Resistência – Anotações do Exílio em Belgrado. A socióloga e militante política Maysa Pinto Machado, ex-nora de Beatriz, foi uma das organizadoras da homenagem a Beatriz e também da cerimônia comemorativa ao centenário de Raul Ryff, ambas na ABI. A convivência com Raul Ryff foi tema de um artigo especial assinado por Maysa, que tem teor a seguir. “A vida quase sempre, em meio às lembranças, oferece paisagens, sons, cheiros, frases. Não são apenas sensações renovando momentos percorridos. São pequenas e sábias repetições. Corria a década de

lado da mulher Beatriz Bandeira Ryff. O casal se conheceu nas fileiras do Partido Comunista, na década de 1930. “Fui procurá-lo para levar uma palavra de ordem do partido, ficamos amigos e acabamos presos no mesmo dia”, recorda Beatriz. Integrante do movimento Juventude Comunista e da ANL, Beatriz foi presa em 1936, tendo dividido a cela com Olga Benário, e em 1964. Do casamento com Ryff, que durou mais de cinco décadas, nasceram Vitor Sérgio Ryff, morto na década de 1990, o economista e político Tito Bruno Ryff e o físico Luiz Carlos Ryff. O nome de Luís Carlos é uma homenagem a Luís Carlos Prestes, e o de Tito Bruno é uma dupla homenagem ao Marechal Tito, que unificou a Iugoslávia em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, e a Giordano Bruno, filósofo italiano que foi queimado na fogueira, em Roma, em 1600, durante a Inquisição. O casal exerceu a militância política ao lado de grandes nomes como o líder revolucionário Carlos Marighela, os jornalistas e escritores Eneida de Moraes e Álvaro Moreyra, sua mulher Eugênia, e Graciliano Ramos, que retratou a amizade com Beatriz e Raul Ryff no livro Memórias do Cárcere. Após o exílio no Uruguai, a família retornou ao Brasil em 1938. Um ano depois, Ryff começou a trabalhar em Porto Alegre, como redator do jornal Correio do Povo. Em 1951, foi transferido para a sucursal carioca do jornal. Na cobertura do Ministério do Trabalho, Ryff conhe-

ceu João Goulart, responsável pela Pasta. Os dois se tornaram amigos e o jornalista passou a assessorá-lo junto à imprensa. Com a eleição de Jango para a VicePresidência da República na chapa de Juscelino Kubitschek, Ryff assumiu o cargo de Assessor de Imprensa de Jango. Com a eleição deste à Presidência da República, o jornalista passou a atuar na função de Secretário de Imprensa do Governo, exercendo forte liderança para a implementação do projeto das reformas de base. Em 1964, após a queda de Jango pela ditadura militar, Ryff permaneceu escondido no Brasil com a ajuda de amigos, mas teve os direitos políticos cassados e se exilou na Iugoslávia e na França, onde trabalhou como correspondente da Revista Mundo Econômico, e para a tevê francesa. Beatriz fez a cobertura jornalística de desfiles de moda para uma agência de notícias brasileira. De volta ao Brasil, em 1968, Ryff ingressou na Redação do Jornal do Brasil e filiou-se ao MDB, partido de oposição ao Governo. Uma década depois, foi beneficiado pela Lei da Anistia, promulgada em 1979, ano em que lançou o livro O Fazendeiro Jango no Governo. No início da década de 1980, a convite do então Prefeito Marcello Alencar, assumiu a Secretaria Extraordinária da Prefeitura do Rio de Janeiro. Filado ao PDT, permaneceu no mesmo cargo até 1987, já na gestão do Prefeito Saturnino Braga. Ryff morreu em 1989.

1970. Morávamos na Urca. O casal e seus dois filhos. No apartamento pequeno, de sala, dois quartos, árvores e pássaros, além do suave ranger do bondinho do Pão de Açúcar, ainda, pintado de vermelho – subindo e descendo o morro – as cigarras cantavam, e enlouqueciam o despertar, tornando-o compulsivo, às cinco e meia da manhã. Nesse trecho do bairro, incrustado entre a Praia Vermelha e a enseada da Baía de Guanabara, o asfalto ficava atapetado por minúsculas flores amarelas, que os garis, um pouco mais tarde, varriam e colocavam na caçamba. Continua até hoje pacato, bucólico, um paraíso para quem gosta de viver em tranqüilidade. Um pouco mais adiante, a pracinha do Quadrado com seus barcos de pequeno porte. Chama-se, de fato, Praça Cacilda Becker. Em 1974, Caetano gravara Lupicínio, a canção ecoava. “Felicidade foi-se embora/ a saudade no meu peito inda mora/ É por isso que eu gosto lá de fora/ porque sei que a falsidade não vigora...” A melodia nostálgica invadia nossas almas, em grande parte, doídas pelo cotidiano sem liberdades, de expressão, ir e vir, reunião. Algumas tardes, vinha nos visitar um

dos avós das crianças. Elegante, discreto, num tom quase cerimonioso, ficava ali conversando com os netos, e tomando o chá inglês, aroma de bergamota, que lhe era servido com amor. Meu sogro era uma pessoa encantadora. Reservado, porém solícito, de quando em quando um comentário leve, irônico. A canção rodava num LP, em suas 78 rpm. Sabia trechos da letra, repetindo-os como quem filosofa: “O pensamento parece uma coisa à toa/ mas como é que a gente voa/ quando começa a pensar...” Assim, fiquei sabendo de sua predileção pelas composições do autor – Lupicínio Rodrigues – gaúcho, como ele se sentia. Hoje, nesta data, se ainda entre nós estivesse, espalhando com habilidade e sabedoria tudo que descobriu e conheceu, havíamos de comemorar seus cem anos de forma suave e bem humorada. Relembro com saudade sua importante passagem por minha vida. Repetiria o gesto e colocaria as músicas lindas, de seu compositor preferido para tocar, no CD. Quem sabe não o ouviria repetindo frases melódicas, enquanto ia sorvendo, no chimarrão, goles de esperança? Compartilhando causos e notícias dos bastidores políticos, da sofrida época.


Pioneirismo de Nelson Werneck realçado em ato marcado de emoção A ABI e entidades culturais do Rio festejam o centenário do historiador em sessão marcada pela emoção de sua filha, a psicóloga social Olga Sodré. RENAN CASTRO

Uma assistência numerosa e representativa da área cultural do Rio participou no dia 22 de agosto do ato promovido pela ABI e uma série de instituições em homenagem ao centenário de nascimento de Nelson Werneck Sodré. A cerimõnia teve um elemento especial de emoção: a participação da psicóloga social Olga Sodré, filha do homenageado, que veio de Itu, interior de São Paulo, onde mora, para falar sobre a trajetória profissional e o pensamento do pai. O evento foi organizado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro; Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Estado do Rio de Janeiro; Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica do Rio de Janeiro; Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado do Rio de Janeiro e pelo Clube de Comunicação. A mesa de honra do encontro reuniu Olga Sodré; Jorge Coutinho, Presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Estado do Rio de Janeiro; Miguel Walther Costa, Presidente do Sindicato dos Radialistas do Rio de Janeiro; Luiz Antônio Gerace da Rocha e Silva, Presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Cinematográfica do Rio de Janeiro; o jornalista Sergio Caldieri, 1º Secretário do Conselho Deliberativo da ABI, o ex-Deputado Eduardo Chuay, amigo de Nelson Werneck Sodré, e o jornalista Mário Augusto Jakobskind, membro da Comissão da Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI.

Ao lado de Olga Sodré, Jorge Coutinho relembrou Nelson Werneck Sodré (abaixo, quando jovem) e os tempos da Une: “Discutíamos cultura nacional”.

CENTRO DE ESTUDOS BRASILEIROS NWS

lista foram duramente golpeados. Não preciso falar que ele foi preso, não podia mais ensinar, mas aproveitou para escrever. Essa luta, que foi derrotada em 1964, já vinha acontecendo nos bastidores desde a década de 1930, com sucessivas tentativas de golpes, que desaguaram no suicídio de Vargas, na tentativa de impedimento da posse do Juscelino Kubitschek, na tentativa de impedir a posse de João Goulart. Nelson esteve presente em todas essas lutas, pensando, participando, escrevendo sobre tudo isso.” Uma visão pioneira

Cortina de silêncio

Ao iniciar sua intervenção, Olga Sodré criticou o abandono da obra do pai, que ela atribui à valorização no ambiente acadêmico de autores estrangeiros em detrimento de pensadores nacionais: “Tenho falado muito na cortina de silêncio sobre a obra do Nelson Werneck Sodré. Marcos Silva, professor titular de Metodologia da História da Universidade de São Paulo e Coordenador do Dicionário Nelson Werneck Sodré, comentou em uma palestra no Museu Republicano da Usp, em Itu, que o Nelson tinha sido completamente eliminado das bibliografias das universidades. Contou que quando era estudante da Usp fez um trabalho baseado na obra de Nelson. O professor achou uma maravilha e perguntou quem tinha sido a fonte. Quando ele disse o nome do historiador Nelson Werneck Sodré, o professor se calou. Nós temos em Nelson Werneck Sodré um intelectual que representa um ícone do pensamento brasileiro e uma luz nesse momento atual. Por isso, seria impor-

Nos tempos da Une

tante combatermos a alienação brasileira e lembrarmos que até hoje nas nossas universidades temos que ter a tiracolo um autor estrangeiro para justificarmos uma tese, o que inclui muitas citações desses autores estrangeiros, sem nenhuma reflexão.” Olga Sodré também destacou a atuação de Nelson Werneck Sodré na política e na defesa dos interesses nacionais: “Nós vivemos em uma sociedade moldada pela pressão constante e incessante ao consumo. As revoltas que aconteceram em Londres são motivadas pelo consumismo. Atrelar a vida humana a isto é um empobrecimento que só vai gerar violência. É claro que o projeto de nação de Nelson Werneck Sodré tinha sido derrotado, e ele poderia ter entregue a chuteira, mas ficou aqui e produziu uma parte de sua obra que é muito interessante, na qual vai analisar essas transformações. Os principais intérpretes do modelo naciona-

Werneck iniciou a carreira na imprensa em 1934 e inovou ao aliar o conhecimento histórico à prática do jornalismo: “Ele realizou uma coisa fantástica que os acadêmicos não entenderam, mas que uma psicóloga social como eu entende, que é o entrelaçamento entre o jornalismo e a História. A imprensa é considerada não apenas como a fonte de informação, mas também como a representação e o testemunho de uma época. Então, trabalhar a imprensa como ele trabalhou representa pioneirismo, inclusive científico”, sublinhou Olga. Outra importante contribuição de Sodré, destacou Olga, foi o estudo sobre a comunicação social no Brasil: “Ele refletiu sobre as transformações e foi um precursor do pensamento sobre a comunicação no Brasil, denunciando a massificação cultural implantada a partir da padronização dos gostos, da utilização de filmes estrangeiros. Denunciando o milagre econômico, o neoliberalismo, no papel de observador atento às mudanças que estavam se implantando, sempre com uma grande lucidez contra a farsa do liberalismo. Já nos anos 1970 Nelson apontou para a crise que está acontecendo agora.”

Jorge Coutinho também assinalou a luta de Nelson Werneck Sodré pelo fortalecimento da cultura nacional: “Falando sobre Sodré, eu retorno à Une, em 1959, 1960. Discutíamos muito sobre a cultura nacional, o cinema, a música. É importante estarmos aqui hoje unidos por esse pensamento em prol de um Brasil melhor ”. Luiz Antônio Gerace da Rocha e Silva acentuou a importância da participação coletiva para a valorização da identidade cultural no País: “Para nós, este evento é uma oportunidade muito especial, já que o cinema e, de certa maneira, a História, fica registrada através de seus protagonistas. Nós, os coadjuvantes, também ajudamos a construir o cinema. Somos cerca de 15 mil trabalhadores no Brasil, sendo 8 mil sindicalizados. Atualmente, quando se fala tanto em globalização, vale citar aquela máxima do futebol “Quem não faz leva”, o que significa que se nós não produzirmos ficaremos condenados ao consumo. Esta identidade nacional precisa ser fixada.” Antes do encerramento do encontro, os participantes da mesa e o público debateram as idéias de Nelson Werneck Sodré e sua relevância na construção histórica nacional. Os organizadores do evento presentearam a platéia com exemplares do livro Desenvolvimento Brasileiro e Luta pela Cultura Nacional, organizado por Olga Sodré, sobre a obra do homenageado. Uma obra fecunda e eclética

Nelson Werneck Sodré foi um pensador brasileiro que refletiu sobre a realidade de seu tempo e analisou a formação histórica da nossa sociedade, pelo ponto de vista marxista, configurando um pensamento crítico registrado como base ideológica para um projeto revolucionário de nação. É reconhecido como um dos maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos por sua trajetória de escritor, jornalista, professor e pesquisador da História do Brasil. Nelson deixou uma obra singular – marcada pela linguagem concisa e clareza das idéias – conduzida por um pensamento dialético e esclarecedor. Publicou ainda inúmeros artigos e cerca de 60 livros, entre os quais História da Imprensa no Brasil, História da Literatura Brasileira, História Militar do Brasil, Formação Histórica do Brasil e Capitalismo e Revolução Burguesa no Brasil. Informações sobre a vida e a obra de Nelson Werneck Sodré podem ser consultadas no site www.nws.itu.com.br.

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Aconteceu na ABI

RESSURREIÇÃO

Advogados da União aliam-se à ABI contra a censura prévia

Renascente, o Pen Clube reage à fragilidade da atividade de escritor

A Unafe, a entidade deles, e a Casa vão ingressar no Supremo Tribunal Federal com uma ação de inconstitucionalidade de dispositivo da Lei Orgânica da Advocacia-Geral da União que impõe a mordaça aos advogados públicos federais.

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A Casa anuncia seus planos para recuperar o antigo prestígio, com iniciativas como a retomada de seu Prêmio Literário, que já foi um dos mais importantes do País, e ações em defesa da liberdade de criação e de expressão e dos direitos humanos. P OR J OSÉ R EINALDO M ARQUES

Palácios: os membros da Unafe não podem ser tutelados previamente.

ação civil pública, para questionar esses atos” — salientou Palácios. “Um dispositivo jurídico como esse (inciso 3) em pleno ano de 2011 é totalmente inconcebível”, asssinalou. Palácios ressaltou que a iniciativa da Unafe vai trazer benefícios para a população de maneira geral, inclusive jornalistas e outros profissionais cuja matéria-prima é a informação. Um dos objetivos da iniciativa é também fazer com que a Unafe fique conhecida e conquiste o reconhecimento da sociedade: “Somente mediante a manifestação dos seus membros, que não podem ser tutelados previamente conforme a lei quer determinar, é que poderemos alcançar esse objetivo, por meio dos nossos erros e acertos, o que é normal e fundamental no Estado Democrático de Direito”, disse Palácios. O Diretor da Unafe informou que a ABI é a primeira entidade a ser procurada para se unir à iniciativa, devido ao seu histórico de notoriedade de lutas em defesa da liberdade de expressão: “Iniciar esta ação com a parceria da ABI nos dá uma robustez que fortalece sobremaneira a nossa iniciativa. Foi por isso que ela foi escolhida”, disse o dirigente da Unafe, informando que a OAB também já manifestou interesse em apoiar a ação. Essa é a terceira demanda judicial que a Unafe submete ao Supremo Tribunal Federal. Uma delas contou com um parecer elaborado sem ônus para a Unafe pelo renomado jurista e professor Celso Antônio Bandeira de Melo. Fundada em 5 de junho de 2006 e sediada em Brasília, a Unafe tem atualmente cerca de 1.800 associados.

No ano em que comemora 75 anos de fundação, completados no dia 25 de abril, o Pen Clube do Brasil acaba de anunciar o lançamento da edição 2011 do seu Prêmio Literário, que será oferecido nas categorias Poesia, Ensaio e Narrativa, e incluirá também literatura infanto-juvenil. A cerimônia de abertura foi realizada na sede da entidade, na Praia do Flamengo, no dia 24 de agosto, durante o encontro mensal dos “Amigos do Pen”, liderado pelo escritor Cláudio Aguiar, atual Presidente da Casa dos escritores brasileiros. Os vencedores em cada categoria irão receber uma escultura em metal, denominada “Pen”, criada pelo artista plástico Cavani Rosas e uma dotação no valor de R$ 3 mil, além de certificado de participação. Na atual edição será permitida excepcionalmente a inscrição de livros mais recentes publicados entre janeiro de 2009 e 31 de dezembro de 2010. As editoras também poderão encaminhar obras de seus autores. As inscrições encontramse abertas até o dia 30 de setembro. Lançado pela primeira vez em 1938, dois anos após a fundação da agremiação, em 1936, o Prêmio Literário Pen Clube do Brasil em pouco tempo tornou-se um dos mais prestigiados certames literários do País. A sua revitalização foi recebida com muito entusiasmo pela categoria dos escritores. “É uma iniciativa muito boa que contribui para o diálogo do Pen Clube com a sociedade”, disse a cronista, ensaísta, poetisa e tradutora Luiza Lobo. Cláudio Aguiar falou ao Jornal da ABI sobre o significado dos encontros dos “Amigos do Pen” (realizados desde 1937 na última quarta-feira de cada mês) e da importância do Prêmio Literário. Ele disse que as reuniões dos autores serão aproveitadas para o anúncio de novidades do interesse do quadro social: “Nessas reuniões sempre procuramos trazer uma novidade. Na vez anterior anunciamos a chegada à Casa de uma escritora importante, que foi a Clarice Lispector, que passou a integrar para sempre a lista dos “Amigos do Pen” (risos), representada por uma escultura em bronze da artista plástica Dirce Caval-

REPRODUÇÃO

A União dos Advogados Públicos Federais da União-Unafe e a ABI vão-se associar no ajuizamento de ação de declaração de inconstitucionalidade do art. 28, inciso 3, da Lei Complementar nº 73/93, que instituiu a Lei Orgânica da carreira. Por esse dispositivo, os advogados públicos federais ficam sujeitos a uma espécie de mordaça, pois só poderão manifestar-se por qualquer meio de divulgação sobre assunto pertinente às suas funções, salvo por ordem ou com autorização do Advogado-Geral da União. O ajuizamento da argüição foi discutido pelo Diretor-Executivo da Unafe, Luís Carlos Palácios, com o Presidente da ABI. Maurício Azêdo, em encontro realizado na Casa no dia 1° de agosto. Palácios explicou que a ação busca eliminar do ordenamento jurídico atual, que rege a função de advogado público federal, “um dispositivo que cerceia a liberdade de expressão dos membros da AdvocaciaGeral da União-AGU”. O Diretor da Unafe classifica o inciso 3 do art. 28 da Lei Complementar nº 73/93 como um mecanismo de censura, porque, além dos impedimentos decorrentes do exercício de cargo público, ele proíbe os membros efetivos da AGU de “manifestar-se por qualquer meio de divulgação sobre assunto pertinente às suas funções, salvo por ordem ou com autorização expressa do Advogado-Geral da União”: “Há uma previsão no ordenamento jurídico vigente que representa uma verdadeira censura prévia, já que um membro da Advocacia-Geral da União pode ser obrigado ou impedido de falar sobre um assunto funcional dependendo da manifestação do chefe do órgão”, afirmou Palácios. Na opinião de Palácios, essa determinação é prejudicial ao interesse público, por dois motivos: primeiro, porque fere a liberdade de imprensa e de manifestação, que “são bens muito caros pelos quais a ABI vem brigando muito ao longo dos seus cem anos de História”; segundo, porque a visibilidade dos atos administrativos é importante, pois permite ao cidadão comum tomar ciência e também controlar os atos da administração pública”: “Só por meio da publicidade é que a população toma conhecimento do que está sendo feito na máquina pública e, conseqüentemente, pode utilizar-se dos meios constitucionais, como a

RENAN CASTRO

P OR J OSÉ R EINALDO M ARQUES

Cláudio de Souza: fundador e benemérito do Pen Clube do Brasil, foi o primeiro Presidente da agremiação.

canti Matos, que também é escritora”, disse Aguiar. Os premiados: uma seleção

Aguiar lamentou que, apesar da sua importância e tradição, o Prêmio Literário tenha ficado adormecido por quase uma década. Somente agora foram criadas condições para que fosse retomado, em uma nova versão, fazendo referência inclusive ao elenco de premiados nas edições anteriores. Com entusiasmo, Aguiar diz que a lista de escritores que conquistaram o Prêmio Literário Pen Clube do Brasil reúne um elenco extraordinário, “uma grande seleção da literatura brasileira”, que inclui nomes consagrados e muitas revelações. Ele lembra que no passado o prêmio não era um concurso para iniciantes, apenas os escritores mais conhecidos podiam participar. Alguns desses autores foram lembrados pela jornalista e escritora Cecília Costa, Vice-Presidente do Pen Clube, entre eles Guimarães Rosa e Brito Broca. Outros escritores renomados também foram contemplados com o Prê-


JOSÉ REINALDO

Cláudio Aguiar: É necessário tomar as decisões adequadas para defender as finalidades do Pen Clube como uma associação de classe dos escritores.

mio, como Antônio Callado, Dinah Silveira de Queirós, Josué Montello, Lygia Fagundes Telles e Barbosa Lima Sobrinho, ex-Presidente da ABI. Barbosa Lima Sobrinho foi o segundo Presidente do Pen Clube do Brasil. Foi ele quem sucedeu ao fundador e grande benemérito Cláudio de Souza, que morreu em 1954. Outras personalidades do mundo literário ligadas à ABI também fizeram parte do quadro de associados do Pen Club do Brasil, como Elmano Cruz e Celso Kelly, este último muito elogiado por Aguiar: “O Celso Kelly foi um dos maiores Presidentes desta Casa como realizador. Foi muito atuante. Ele herdou do Cláudio de Souza um ambiente muito bem organizado e deu seqüência às atividades culturais, promoveu a publicação de boletins e a realização de um curso internacional, com o apoio do então Vereador Raimundo Magalhães Júnior”, lembrou Aguiar. Celso Kelly presidiu o Pen Clube do Brasil quando a sede da entidade ficava na Avenida Nilo Peçanha, no Centro do Rio. Era um conjunto de sete salas com cerca de 200 metros quadrados, além de um teatro, com 150 lugares, que mantinha uma agenda recheada de bons programas. O espaço tinha sido residência do fundador Cláudio de Souza e funcionou de 1954 até 1971, quando a instituição foi transferida para o atual endereço da Praia do Flamengo. Pobre não pode ostentar

Aguiar diz que no momento não está sendo cogitada a possibilidade de retomada do imóvel da Nilo Peçanha. Como os tempos mudaram, ele quer avaliar com mais cuidado suas decisões nesse sentido, pois verificou que durante muito tempo os espaços da associação foram utilizados com finalidades que não se afinavam com a proposta original idealizada pelo fundador. Em 1945, quando Cláudio de Souza fez a doação do prédio do Centro, foi um gesto para ajudar a instituição a garantir a sua sustentabilidade: “O mesmo aconteceu com o imóvel da Praia do Flamengo, mas na realidade os espaços vinham sendo subutilizados, servindo apenas para as reuniões, com o Pen Clube contraindo dívidas porque não soube explorar o patrimônio como receita”, disse Aguiar.

É essa mentalidade que o atual Presidente do Pen Clube deseja mudar. Ele diz que a associação hoje não pode se dar ao luxo de se perpetuar “como uma entidade pobre bancando uma riqueza que não tem condições de sustentar ”. Ele cita exemplos de organizações como a Academia Brasileira de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que utilizam seus espaços para gerar receita. Cecília Costa diz que uma das marcas da atual administração do Pen Clube do Brasil é a luta para resgatar a imagem de Casa do Escritor: “Começamos com a recuperação da memória a partir da inauguração, este ano, da nossa galeria, em homenagem aos antigos presidentes. E continuamos com a idéia de que, assim como o fazem a ABL e a ABI, o nosso papel é defender o escritor, a liberdade de expressão e os direitos humanos, princípios que nos acompanham desde a fundação do Pen Clube Internacional, em 1921, e nosso Pen Clube, em 1936”, disse a Vice-Presidente. Tanto o Presidente quanto a Vice-Presidente fazem questão de afirmar que a preservação da memória do Pen Clube do Brasil é uma das principais metas da atual diretoria: “Uma das nossas preocupações é restaurar a memória da nossa instituição, pois uma entidade que se mantém viva aos 75 anos demonstra longevidade e, embora com os problemas de saúde normais da idade (risos), está sobrevivendo por meio de uma nova dinâmica em dois pontos fundamentais: nas questões culturais e administrativas. Esses são os dois pilares da nossa gestão, um não pode existir sem o outro, pois corremos o risco de comprometer o nosso patrimônio, que é invejável”, afirmou Aguiar. Sérvia, um exemplo

Outra preocupação é o investimento no quadro social. Diz Aguiar que o Pen Clube do Brasil tem um histórico muito curioso no que se refere aos sócios. Nos anos 1960, no período em que Celso Kelly era o dirigente, a associação contava com mais de 500 escritores associados. Há dez anos, quando Aguiar chegou ao Pen Clube, havia o mito de que este era uma entidade de culto às personalidades: “Mas a nossa finalidade é outra, não é uma Academia, nem um sindicato de es-

critor. Somos uma associação de escritores integrada a uma rede. As nossas questões, a nossa bandeira e palavras de ordem obedecem a um contexto internacional”, declarou. Com um quadro social atualmente com 250 associados, o principal objetivo do Pen Clube do Brasil, diz seu Presidente, é quebrar o estigma de uma agremiação que não consegue atrair novos autores para engrossar o quadro social. Ele confessa que o estatuto da Casa é engessado e acaba criando barreiras que dificultam o acesso de novos sócios. Uma situação que difere totalmente do que acontece em outros países. Nesse contexto Aguiar cita como exemplo a Sérvia, ex-Iugoslávia, onde vai ser realizado o congresso internacional da entidade. A Sérvia tem uma população de cerca de 4 milhões de habitantes e a associação local conta com 1.000 sócios. Como um guarda-chuva

Para atrair mais escritores, Aguiar disse que está sendo idealizada uma campanha que possa servir inclusive para que, internamente, o grupo possa entender que os tempos estão mudados e que a associação precisa “tomar as decisões adequadas, para defender as suas finalidades como uma associação de classe dos escritores”. Na visão de Aguiar, o engessamento que envolve o Pen Clube do Brasil poderá desaparecer na medida em que seja divulgado e mostrado à categoria que uma associação de escritores tem finalidades específicas. Ou seja, quanto mais a classe estiver sintonizada e consciente de que os problemas que afetam os escritores são mundiais, não se restringem aos autores brasileiros, além de estarem acima de qualquer viés político, ideológico ou partidário: “Respeitamos todas as correntes, tanto é assim que o Pen Clube Internacional mantém essa linha de ação em países islâmicos e em outros de regimes fechados, como Cuba. Há escritores cubanos ligados à rede oficial, dentro da ilha, e outros filiados na sede em Miami”, informou. Diz Aguiar que o Pen Clube funciona como um guarda-chuva que abriga todas as correntes, sem que isso signifique algum tipo de acordo com os princípios mais radicais em detrimento de outros: “Todos os grupos têm o direito à liberdade de expressão, um tema muito discutível, mas que para a nossa entidade é encarado como um princípio fundamental”. Cecília Costa compara o caminho trilhado pelo Pen Clube com a trajetória de outras entidades, como a ABI e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sempre atuando em defesa dos direitos humanos e “da palavra livre”. Ela cita como exemplo a decisão do Pen Internacional de manter uma política de acompanhamento e auxílio a escritores que estão presos. Ela lembrou também que o Pen Clube desempenhou um papel importante na Resistência Francesa, durante a Segunda Guerra Mundial: “O Ionesco era membro do Pen Clube na Romênia e participou como integrante da organização da Resistência na França. Ele esteve no Brasil, em 1973, durante a ditadura militar (1964-1985) e fez questão de visitar a sede da associação no Rio. Ele tinha sido con-

vidado pela Academia Brasileira de Letras, mas quis nos fazer uma visita para tomar conhecimento das nossas propostas e fortalecer o intercâmbio com a entidade internacional. O então General Lyra Tavares ficou inquieto querendo saber por que o Ionesco fez questão de vir ao Pen Clube brasileiro”, contou Cecília. Ofício sem futuro

O Brasil ainda está dando os primeiros passos para que o ofício de escritor seja considerado como uma atividade profissional, diz Aguiar. Ele recorda que o fundador do Pen Clube do Brasil, antes da instalação do Estado Novo, em 1937, já tinha essa preocupação e preparou um anteprojeto para a criação de uma espécie de instituto de aposentadoria do escritor: “Com o advento do Estado Novo o projeto não pôde ir adiante. O Cláudio de Souza tinha um apoio muito grande dentro do Congresso, mas este acabou sendo desmantelado pela ditadura do Getúlio. Eu encontrei boletins da nossa associação em que ele lamenta que isso tenha ocorrido. O Cláudio queria ter criado também uma rádio para divulgar as idéias do Pen”, contou Aguiar. Aguiar lamenta que as idéias de Cláudio de Souza não tenham ido adiante e diz que a profissão de escritor no Brasil “está fragilizada”: “Nos últimos anos tem havido um movimento no Congresso para reformular a lei do direito autoral, mas os escritores, por falta de uma liderança que pudesse representá-los, foram derrotados em relação aos seus direitos relativos ao chamado contrato editorial, que eu classifico como leonino. É feito com letra miúda, com imposições dos editores e nos obriga a aceitá-lo sem poder discutir as cláusulas. Muitas vezes fazendo concessões como a cessão de direitos para a terceira geração de empresários do setor editorial”, reclama Aguiar. Essas questões poderiam ser discutidas por meio de uma campanha para regulamentar a profissão de escritor, diz Aguiar: “O Pen Clube poderia ocupar um espaço nessa direção, assumindo uma parcela de responsabilidade nessa questão, tornando-se porta-voz dos escritores, defendendo os seus direitos com base nas experiências bem-sucedidas realizadas em outros países. Cláudio Aguiar espera que ainda na sua gestão possa contar com o apoio da categoria dos escritores para implementar todas essas medidas, que, segundo ele, inclusive estariam em sintonia com as propostas da Unesco, uma vez que o Pen Clube no âmbito internacional defende o direito à cultura e à liberdade de expressão. A festa está marcada

A entrega dos prêmios aos vencedores de cada categoria será realizada no dia 12 de dezembro de 2011, no terraço do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, durante a tradicional festa de confraternização de fim de ano do Pen Clube do Brasil. O regulamento e a ficha de inscrição poderão ser solicitados por e-mail ou diretamente na sede social, na Praia do Flamengo, 172 , 11º andar. O telefone para contato é (21) 2556-0461. Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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AMÉRICO VERMELHO/FOLHAPRESS

CENTENÁRIO

MÁRIO O homem que não LAGO Há 100 anos nascia o criador de Amélia, um ator, autor, compositor, escritor e militante político que recusou morrer. P OR C ELSO S ABADIN

que poderia haver de comum entre um militante comunista preso em quase todas as ditaduras brasileiras, o autor do samba Ai, que Saudades da Amélia e o Dr. Molina da novela O Clone? Tudo. Por mais incrível que possa parecer, o comunista, o sambista e o ator coexistiram na mesma pessoa: Mário Lago, cujo centenário de nascimento será lembrado no dia 26 de novembro próximo. A música e a militância política faziam parte da história familiar de Mário Lago. Seu avô materno era o flautista e anarquista italiano Giuseppe Croccia, e seu pai, o piracicabano Antônio de Pádua Jovita Correia do Lago, foi spalla (primeiro violino) da Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, compositor popular nos anos 1930 e 1940 e igualmente militante comunista.

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A música, tanto a erudita quanto a popular, e a poesia, sob forma de letras de canções, sempre foram presença constante na casa de Antônio, da esposa Francisca Maria e do filho único, Mário. Não por acaso, logo aos 15 anos o rapaz teve seu primeiro poema publicado. Mas na hora de escolher um curso superior o conservadorismo falou mais alto, e Mário ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, hoje Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O efervescente ambiente universitário aguçou ainda mais as tendências socialistas do jovem estudante, que logo se filiou ao Centro Acadêmico da escola (batizado Cândido de Oliveira), associação de profunda sintonia com o PCB. Pelos seus corredores, na mesma época, circulavam Jorge Amado, Carlos Lacerda e Lamartine Babo, entre outros. Do lado de fora, corriam os revolucionários anos 1930, com Getúlio Vargas tomando o poder a força. O conflito seria inevitável: aos 21 anos Mário Lago “estréia” sua primeira prisão política. Muitas outras viriam, em ditaduras futuras. Mário sai quase que simultaneamente de duas “prisões”, a política e a acadêmica: após concluir o curso de Direito, exerce a profissão de advogado por apenas três penosos meses, período mais que suficiente para provar a si mesmo e à família que nada havia em comum entre o mundo das leis e o de Mário. O ra-

paz se sentia seduzido mesmo pelas artes, pela música, pelos palcos, pela inebriante noite repleta de atrações da então capital federal.

O COMPOSITOR SE ARREPENDE

Alforriado dos livros de Direito, não demora para Mário se encantar com o universo do teatro de revista carioca. Começa a escrever, a compor, a atuar, a viver o ambiente intensamente. Aos 24 anos, vê orgulhoso o primeiro disco gravado com uma composição sua: a marchinha Menina, Eu Sei de uma Coisa, música de Custódio Mesquita, letra de Mário Lago e interpretação do xará Mário Reis. Décadas depois, no programa Ensaio, da TV Cultura, o compositor declarou publicamente a sua vergonha e seu arrependimento por ter escrito versos dignos de um, palavras dele, “miserável dedo-duro”: “Menina eu sei de uma coisa/ Que pode sua vida encrencar/ Se você não quer fazer camaradagem/me desculpe, mas eu vou espalhar”. Mero erro de principiante. Pouco depois, em 1938, em nova parceria com Custódio Mesquita, o letrista se “redimiria” com o clássico Nada Além, imortalizado no vozeirão de Orlando Silva: “Nada além/ Nada além de uma ilusão/ Chega bem/Que é demais para o meu coração”.

Comunista de carteirinha, Mário Lago sempre foi perseguido pelas ditaduras: estes são os registros das prisões em1941 (esquerda) e em 1964.


fugiu do tempo Outros clássicos viriam depois, como as inesquecíveis Atire a Primeira Pedra, e Ai que Saudades da Amélia, ambas em parceria com Ataulfo Alves. Estes sucessos colocariam definitivamente o nome de Mário Lago na história da música popular brasileira... e na histeria de feministas que passaram a rotular a tal Amélia, aquela que “achava bonito não ter o que comer” como o ápice da dominação machista sobre a mulher subserviente. Sob protestos ou não, o fato é que até os dias

BOSCO/ACERVO ULTIMA HORA/FOLHAPRESS

tro brasileiro dos anos 1940, além de ser co-autor de 29 peças, afora uma tradução de Brecht, para a Ópera dos Três Vinténs. Tanto talento e disposição deveriam obrigatoriamente escoar através do grande veículo de comunicação de massa daquele Brasil dos anos 1940: o rádio. E para isso era necessário deixar a capital paulista e regressar ao Rio, sede da Rádio Nacional, a Meca da mídia brasileira da época. Foi o que Mário fez. Chegou no lugar certo, no momento exato, e atuou em todas as frentes radiofônicas possíveis, escrevendo, dirigindo e atuando em radioteatros e radionovelas. Seu vozeirão portentoso e sua dicção perfeita eram inconfundíveis. Assim como suas idéias comunistas, que fazia questão de difundir, e que durante este período lhe renderam mais duas prisões, em 1941 e 1946. Em 1948 publica clandestinamente seu primeiro livro, O Povo Escreve a História nas Paredes, reunindo poemas sobre o direito à terra e a defesa dos trabalhadores. A inEm outubro de 1964 Mário Lago lança um livro com um nome trodução diz: “Muitos provocativo, depois de preso pelo regime militar: 1° de Abril. dirão que estas poesias falam em tom de comíde hoje não apenas Amélia como tamcio. Concordo!”. No mesmo ano, troca a bém Aurora (que fez em parceria com Rádio Nacional pela Mayrink Veiga, mas Roberto Roberti) são verdadeiras obriganão troca jamais sua posição política. E astoriedades em qualquer baile de carnaval sim experimenta a sua quarta prisão, em que se preza. 1949. Com a chegada da televisão no BraApesar de ter gravado mais de 200 sil, em 1950, migra rapidamente para o músicas, Mário Lago é mais lembrado novo veículo, como aconteceu com a maipelo grande público pela sua igualmenoria dos grandes talentos radiofônicos. te extensa carreira de ator. Não por acaNa tela pequena da pioneira Tupi, so. O teatro também era uma das granencara as câmeras ao vivo, com a mesdes paixões de Mário, que chegou a coesma desenvoltura de sempre. E na tela crever cinco espetáculos cômicos e de grande do cinema prossegue seu trabarevista, antes mesmo de completar 25 lho de argumentista, ator e roteirista anos. Ele começou a investir mais seriainiciado em 1939 com Banana da Terra, mente na carreira de ator ao ingressar na dirigido por Ruy Costa. Histórico, este companhia teatral do jornalista e escrifoi o primeiro filme em que Carmem tor carioca Joracy Camargo, consideraMiranda aparece vestida com o traje de do o primeiro dramaturgo brasileiro a baiana que a consagrou internacionaltratar em suas peças de assuntos relacimente. Sem preconceito de gênero, a onados à questão proletária. Mudou-se carreira cinematográfica de Mário Lago depois para São Paulo, onde aprimorou inclui tanto chanchadas como Mulhesua arte estudando teatro com Oduvalres, Cheguei!, de 1961, como o clássico do Viana. Assalto ao Trem Pagador, de 1962, ou mesmo o cinemanovista Terra em TranA ERA DO RÁDIO CARIOCA se, de 1967. Dirigido por Carlos Manga Alto, esguio e elegante, Mário se torou Gláuber Rocha, passando por Gustanou um dos mais famosos galãs do teavo Dahl, Joaquim Pedro de Andrade,

Daniel Filho e Eugenio Kusnet, Mário participou de 38 filmes brasileiros. Em 1964, nova ditadura de direita para o Brasil e, conseqüentemente, nova prisão para Mário Lago. Escreve então seu segundo livro, 1º de Abril, sobre fatos e personagens vividos e conhecidos durante o tempo que passou nos presídios da Ilha das Flores e Fernandes Viana. Nos anos 1970, o livro foi revisto, ampliado e relançado sob o título Reminiscências do Sol Quadrado.

UM ATOR GLOBAL

Em 1966, o ator da TV Globo Henrique Martins consegue finalmente realizar um de seus velhos sonhos: convencer o até então irredutível Roberto Marinho a contratar o comunista de carteirinha Mário Lago. Não foi tarefa fácil. Afinal, Mário havia visitado a União Soviética oito anos antes, convidado pela Rádio de Moscou para ajudar na reestruturação do programa Conversando com o Brasil, do qual participavam artistas e intelectuais brasileiros. A emissora não via com bons olhos a presença “subversiva” de Mário nos quadros da empresa, mas o talento falou mais alto, mesmo porque a ditadura ainda não havia ingressado em sua fase mais feroz, aquela após o AI-5.

Desenho publicado em setembro de 1986 na Revista da Tevê, do jornal O Globo, quando Mário Lago interpretava Antônio Villar na novela Roda de Fogo.

O dono da bola P OEMA DE M ÁRIO LAGO Quando o Juca concordava, a garotada tomava conta da rua e armava o campo de futebol. Juca era o dono da bola, Juca era o dono do jogo. Fazia o que bem entendia e quando alguém discutia o Juca guardava a bola. Ninguém brigava com o Juca, Juca era o dono da bola. Na hora de escolher o time, era o Juca quem primeiro dizia os meninos que queria pro time dele. Se o capitão do outro time discordava, o jogo nem começava, o Juca guardava a bola. Ninguém brigava com o Juca, Juca era o dono da bola. A garotada corria de um lado para o outro. Dribla daqui, chuta pra lá, passa para ali, cabeceia prá cá... Juca ficava sentado o tempo todo. Mas, na hora de fazer gol, se mexia. Corria e gritava: "Passa que quem faz gol sou eu". E se o outro não passava ou se chutava e marcava o gol que o Juca esperava, o Juca guardava a bola. Ninguém brigava com o Juca, Juca era o dono da bola. Todo gol que o outro time fazia era anulado. Ou tinha sido com a mão ou impedido. Anulado. O Juca dava rasteira, canelada, cabeçada, aleijava a garotada e o juiz não marcava nada. O tranco mais delicado dado no Juca era pênalti

E quando alguém discordava... o Juca guardava a bola. Ninguém brigava com o Juca, Juca era o dono da bola. Um dia, o Alfredinho achou que aquilo era desaforo. Driblou o primeiro, driblou o segundo, driblou o terceiro, o quarto... O Juca xingou a mãe dele. Ele meteu a mão no Juca (a garotada ficou espantada). O Juca avançou pra ele, ele tornou a dar no Juca (a garotada ficou animada) O Juca avançou outra vez. ele então jogou o Juca no chão (a garotada foi toda em cima do Juca) Quando Alfredinho voltou pra casa o pai estava se queixando que o dinheiro que ganhava não chegava pra alugar outra casa ao menos com mais um quarto pra botar seus nove filhos; para comprar mais comida, feijão pra seus nove filhos; para comprar umas roupas pra vestir seus nove filhos; – Papai, por que o dinheiro que você ganha não chega? – É pouco. – Por que é pouco? – Porque o patrão paga pouco. – Papai, por que vocês não pedem mais ao patrão? – O patrão despede a gente, a gente fica sem pão. – Por que o patrão despede? – Porque ele é o dono das fábricas, porque ele é dono das máquinas. – Papai, por que vocês não fazem com ele o mesmo que nós fizemos com o Juca? – Quem é o Juca? – Juca era o dono da bola. – Que foi que vocês fizeram? – Tomamos a bola dele.

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MANOEL PIRES/FOLHAPRESS

CENTENÁRIO MÁRIO LAGO, O HOMEM QUE NÃO FUGIU DO TEMPO

LEWI MORAES/FOLHAPRESS

Mário Lago e sua esposa Zeli passeiam no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, com o primeiro filho, Antonio Henrique. ÁLBUM DE FAMÍLIA

Na Globo, onde trabalhou de 1966 até um ano antes de sua morte, em 2002, Mário Lago participou de cerca de uma centena (não é figura de linguagem, é uma centena mesmo) de novelas, minisséries, casos especiais e episódios de seriados como Shazan, Xerife e Cia., Você Decide, Malu Mulher e Armação Ilimitada, entre outros. Ainda nos anos 1970 lança dois volumes de memórias: Na Rolança do Tempo, abrangendo da infância até os anos 1940, e Bagaço de Beira Estrada, que narra dos anos 1940 até 1964. Publicou também Chico Nunes das Alagoa, uma pesquisa sobre o poeta popular Francisco Nunes Brasil, que Mário realizou durante as filmagens de São Bernardo, de Leon Hirszman, além do livro de contos No Rabo da Noite e da coletânea Meia Porção de Sarapatel, reunindo casos, poesias, e pequenas histórias. Já em Manuscritos do Heróico Empregadinho de Bordel, Mário cria uma versão romanceada das aventuras do jornalista Henrique João Cordeiro Filho, seu cunhado, e sua fuga dos órgãos da repressão. E em 16 Linhas Cravadas faz um exercício de estilo ao escrever historietas que devem, obrigatoriamente, caber em 16 linhas impressas. O livro foi amplamente elogiado por Carlos Drummond de Andrade. Chama a atenção também a publicação, nos anos 1980, de O Monstrinho Medonhento, única incursão do autor na literatura infantil.

Dois gigantes da música popular brasileira: Mário Lago e Adoniran Barbosa em 1977, quando participaram do primeiro programa Levanta Poeira, na TV Globo.

“Tenho o gosto da palavra” Seu último livro foi Segredos de Família, uma união de prosa, verso e fotografias feito especificamente para comemorar seus 80 anos de idade. Trata-se de uma celebração feita ao lado da esposa, Zeli, que conheceu numa manifestação política, e dos cinco filhos: Vanda, Antonio Henrique, Graça Maria, Luís Carlos (assim batizado em homenagem a Luís Carlos Prestes) e Mário Lago Filho, que atualmente coordena os eventos comemorativos do seu centenário. Mário Lago morreu em 30 de maio de 2002, aos noventa anos de idade. Nunca parou de compor, nunca parou de escrever (deixou um livro inacabado, Meus Tempos de Moleque), atuou na tv até o penúltimo ano de sua vida, e nos palcos até o último. Nunca deixou a militância política – foi um dos “âncoras” da eleição de Lula à Presidência – e nunca saiu do Partido Comunista Brasileiro-PCB. O tema da morte o incomodava. Pensava em chegar vivo aos 100 anos. Durante uma entrevista, chegou a afirmar: “Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo; nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia, a gente se encontra.” Talvez seja verdade. Talvez, na verdade, Mário Lago nunca tenha morrido.

Engajado, Mário Lago vestiu a camisa pelas Diretas Já! e participou de comícios durante a histórica campanha derrotada pelo Congresso Nacional.

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“Eu nasci inconformado. Eu sou vocacionalmente rebelde.” “Evidentemente cometi erros, sofri dúvidas, mas sempre procedi de acordo com a opção tomada. Acho que posso encarar de frente a companheira, os filhos, os amigos, companheiros, colegas, gente que acredita em mim e me respeita.” “Sou marxista comunista autônomo.” “Eu não fico na calçada pra ver o desfile passar. Eu vou junto.” “Tudo na vida é risível. É só você prestar a atenção. As coisas têm sempre um lado debochado.” “Eu estou diariamente levando a vida na flauta. Pra ela sentir que não me amedronta. Porque o pior de tudo é quando a vida sente que você tem medo dela.” “O Rio é vício realmente, você é dependente dele. É a beleza... As montanhas do Rio têm contorno de mulher, uma mulher deitada. O Rio de Janeiro é um orgasmo.” “Sou amarrado em partido-alto. Pra mim, é a expressão mais legítima da música popular brasileira.” “Nós, os radialistas do Rio, fomos uma das grandes forças das lutas sindicais, a primeira categoria a colocar na direção de uma empresa – a Rádio Nacional – o presidente do nosso sindicato de então. Por isso, quero homenagear a nós mesmos.“ “Estava escrito nas estrelas! Se eu soubesse que era tão bom, teria casado antes.” “Não tenho estilo, tenho jeito de escrever. Quero pôr a mão no ombro

do leitor. Sei que não sou um escritor enxuto, mas tenho o gosto da palavra. Ela é manga madura que deve ser bem saboreada. “ “Eu sei de uma coisa: estou incurso em vários artigos do código penal: ator, escritor, compositor, dramaturgo, vários artigos do código penal. “ “Mantenho-me jovem porque sou comunista. O comunismo sempre foi a juventude do mundo. “ “A vida tem que ser feita lá no fundo. Tem que ir até a pirosfera. Chegar até o fundo do poço pra ver. Se, no fundo do poço, você continuar com paixão, continua. Se não, procura outro poço.” “Não fui guarda-livros da vida pra juntar dever e haver. Eu vivi. Não fiz contabilidade para anotar prejuízo e lucro. Viver apenas já foi lucro.” “Até os 70 anos, você paga a conta. Viveu mais além, é gorjeta pro garçom. Estou satisfeito de pagar a gorjeta pro garçom.” “Não foi vida jogada fora a que vivi.” “Os caminhos da lembrança estão cheios de vielas e transversais. Quando a gente menos espera, essas vielas e transversais despejam carga no que vinha servindo de pensamento central.” “Sou mais rabugento que o Jamelão e mais preguiçoso do que Dorival Caymmi, de forma que não dá pé...” “Quando deixarmos de ter esperança, é melhor apagar o arco-íris.” “O tempo não comprou passagem de volta.” “Tenho lembranças, e não saudades.”


ÁLBUM DE FAMÍLIA

MOBILIZAÇÃO

Luta anticorrupção vai às ruas Entidades representativas da sociedade civil juntam-se a senadores para organizar um movimento popular contra a roubalheira na coisa pública.

Mario Lago aos quatro anos.

Cds e filme marcarão o centenário A produção de dois cds e de um documentário de longa-metragem servirá de comemoração, no último trimestre deste ano, do centenário de nascimento do famoso compositor, ator e escritor. O primeiro cd, Canções Inéditas e Poemas Musicados, unirá o centenário de Mário a novos parceiros, como Joyce, Arnaldo Antunes, Frejat e Caetano Veloso, entre outros. O segundo, intitulado Folias do Lago, trará alguns dos principais sucessos carnavalescos de Mário Lago revividos pelos músicos e intérpretes do Cordão do Boitatá, um dos expoentes do atual Carnaval carioca. Dedicado a esses clássicos eternos, o cd trará ainda duas históricas marchinhas inéditas: Meu Rio, Meu Vício, única parceria de Mário com o compositor Braguinha, e Braço é Braço, primeiro hino do Cordão da Bola Preta, escrito em parceria com Nelson Barbosa, cuja música original se perdeu, sendo a atual de autoria do mestre João Roberto Kelly. O cd será lançado com um baile pré-carnavalesco na sede do Cordão da Bola Preta no dia do aniversário do homenageado, 26 de novembro. Já o documentário Mário Lago – Homem do Século XX terá direção de Marco Abujamra e abordará os principais personagens e momentos da vida e da obra de Mário Lago. Diferentes atores, atrizes, músicos, políticos e personalidades viverão Mário Lago, e toda a trilha sonora do filme será de músicas do artista, incluindo algumas inéditas. Mais informações podem ser obtidas no site Mário Lago 100 Anos – O Homem do Século XX - Memória em Movimento (mariolago.com.br), onde estão disponíveis textos biográficos, fotos, depoimentos, frases e obras inéditas, como seu último livro, Meus Tempos de Moleque, que não chegou a ser concluído.

Lideranças parlamentares e representantes de diversas entidades da sociedade civil, entre as quais a ABI, lançaram no dia 23 de agosto no Senado Federal, em audiência pública, uma frente de “Ações contra a Corrupção e a Impunidade no País”, com o objetivo de deter o processo de assalto aos dinheiros públicos pelos ocupantes de cargos na administração de todos os níveis da Federação. A frente prevê a realização de manifestações de ruas e outros atos em que a população possa expressar seu repúdio à corrupção. A convocação da audiência pública foi formalizada em requerimento proposto pelo Senador Pedro Simon (PMDB-RS) e firmado por senadores de diferentes partidos, como Paulo Paim (PT-RS), Cristovam Buarque (PDT-DF), Luiz Henrique (PMDBSC), Ana Amélia (PP-RS), Eduardo Suplicy (PT-SP), Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), Randolfe Rodrigues (Psol-AP), Pedro Taques (PDT-MT), Marcelo Crivella (PRBRJ) e Casildo Maldaner (PMDB-SC). Durante o encontro foram apresentadas várias sugestões em defesa da “limpeza da Administração pública” iniciada pela Presidente Dilma Rousseff, entre as quais a criação de uma comissão no Congresso para a reunião e votação de todas as matérias que permitam o combate à corrupção, como o financiamento público de campanhas eleitorais, o reconhecimento da data de validade e vigência da Lei da Ficha Limpa, a revisão do processo de elaboração da lei orçamentária, para maior controle das emendas individuais dos parlamentares, a redução dos cargos em comissão na administração. A proposta de redução dos cargos em comissão partiu do Diretor-Executivo da organização não-governamental Transparência Brasil, Cláudio Weber Abramo, segundo o qual o excesso de cargos em comissão permite o loteamento da administração pública entre os partidos, constituindo aquilo que ele chamou de “usina de corrupção”. Leniência do Judiciário O Presidente da ABI, Maurício Azêdo, declarou que em sua participação no Conselho da Transparência Pública e do JOSÉ CRUZ/AGÊNCIA SENADO

Combate à Corrupção a Casa pôde verificar como a Controladoria-Geral da União e o Ministério Público promovem permanentemente a defesa dos recursos públicos, infelizmente prejudicada pela leniência do Poder Judiciário em julgar os processos de corrupção e de agressão à moralidade e à lei. Como exemplo dessa leniência citou o episódio da censura prévia do jornal O Estado de S.Paulo imposta há dois anos por um juiz de Brasília, sem que o Presidente do Supremo Tribunal Federal e Presidente do Conselho Nacional de Justiça, Ministro César Peluso, como é seu dever em razão desses dois cargos que ocupa, chame esse processo à correição e determine o seu julgamento, sem se render às filigranas judiciais e jurídicas que transformaram o caso numa verdadeira chicana. “Esse exemplo é da área de comunicação e constitui uma prova da lentidão com que o Poder Judiciário julga os casos de agressão até mesmo à Constituição, que veda a censura política, artística e ideológica”, disse. O representante da ABI manifestou-se contra a proposta de redução dos cargos comissionados da administração, feita pela Transparência Brasil, porque “o partido que ganha a eleição tem o direito, independentemente de quantitativo, de trazer para a administração os quadros afinados com seu projeto político”. Ele acrescentou: “Entendemos que os partidos têm de ser valorizados para construirmos uma democracia e uma forma de fazer isso é levá-los à gestão da coisa pública”. “Um tiro no pé” O Reitor da Universidade de BrasíliaUnB, José Geraldo de Sousa Júnior, propôs que os senadores realizem debate sobre o tema no espaço da universidade, para dialogar com outros segmentos. Cláudio Abramo argumentou também que o financiamento público de campanha – um dos principais pontos da reforma política que tramita na Câmara – “não é uma solução para o combate à corrupção”. Na sua opinião, a proibição do financiamento privado vai provocar um aumento do chamado caixa 2, que é o di-

nheiro recebido em campanha e não declarado. “Essa idéia é um tiro no pé. Isso vai fazer que o caixa 1 se torne o caixa 2. O que hoje é conhecido [no financiamento] de campanha vai ficar no caixa 2. Se proibírem vai ficar no caixa 2”, argumentou. Plenário representativo Participaram da audiência pública, na Comissão de Direitos Humanos e Participação Legislativa do Senado, o Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante; o Ministro Chefe da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage Sobrinho (CGU); Dom Raymundo Damasceno Assis, Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; Dom Manuel João Francisco, Presidente do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil-Conic; o Reitor José Geraldo de Sousa Júnior. A audiência, sob a presidência do Senador Paulo Paim, teve seguimento com a formação de mesas para discussão de temas relacionados com o combate à corrupção, como Marlon Reis e Jovita José Rosa, representantes do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral; Gabriel de Jesus Tedesco Wedy, Presidente da Associação dos Juízes Federais-Ajufe; Alexandre Camanho de Assis, Presidente da Associação Nacional dos Procuradores da RepúblicaANPR; Henrique Nélson Calandra, Presidente da Associação dos Magistrados do Brasil-AMB; César Bechara Nader Mattar Júnior, Presidente da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público-Conamp; e Bolívar Steinmetz, Presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal-ADPF, além de Cláudio Abramo e Maurício Azêdo. Eventos programados Antes do encerramento da sessão, o Senador Pedro Simon leu uma relação de eventos já programados da luta contra a corrupção, entre os quais uma manifestação no dia 20 de setembro na Cinelândia, no Rio de Janeiro, enquanto o Senador Paulo Paim leu uma síntese das principais propostas expostas durante as discussões.

MÁRCIA KALUME/AGÊNCIA SENADO

O Senador Pedro Simon formalizou a audiência pública, que teve a presidência do Senador Paulo Paim (esquerda): sugestões para limpeza da Administração pública.

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NOVIDADE

Globo abre o debate público sobre o papel e a ética do jornalismo O grupo divulgou os Princípios Editoriais que devem orientar a produção de informação em todos os seus veículos. Para especialistas, o documento pode servir de modelo para outras empresas de comunicação e fomentar discussões com a sociedade sobre a mídia. e todos os aspectos que tratam da internet deixaram de merecer um capítulo específico. As novas mídias já não precisam ser mencionadas à parte, vale para elas, em termos de ética e procedimento, o mesmo que para os demais veículos. Foi o contexto das redes sociais, contudo, que teria motivado a publicação dos Princípios Editoriais das Organizações Globo, segundo a exposição de motivos assinada pelos sócios – os irmãos Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho e José Roberto Marinho.

P OR V ERÔNICA C OUTO As Organizações Globo divulgaram, em todos os veículos do grupo, inclusive no horário nobre do Jornal Nacional, os seus “Princípios Editoriais”. É a primeira vez que uma empresa jornalística brasileira torna públicos seus valores e código de conduta, em uma plataforma tão abrangente. O documento, lançado no dia 6 de agosto, inclui desde uma definição de jornalismo até a indicação de procedimentos práticos, por exemplo, para o tratamento da informação e para as relações com as fontes. Jornalistas e pesquisadores saudaram a iniciativa, que, na opinião deles, deve provocar ações similares em outras empresas e estimular o debate com a sociedade sobre a mídia. Entre as críticas, a principal é a ausência de ombudsman ou outras instâncias para controle social da aplicação efetiva dos preceitos anunciados. “Acho muito positivo que, pela primeira vez no Brasil, uma organização empresarial da área de comunicação e jornalismo tenha lançado seus princípios editoriais, válidos para todos os seus veículos”, diz o coordenador de Jornalismo da Puc-Rio, Leonel Azevedo de Aguiar. “Os movimentos sociais organizados devem tomar esses Princípios a sério. Apresentam uma abordagem do jornalismo como bem público, o que contribui para a democracia e para a sociedade.” O documento, na opinião de Azevedo, funciona como instrumento de cobranTV Brasil, em artigo publicado no site do ça social e faz uma reflexão importante programa, mesmo apontando várias lasobre o papel do jornalismo em uma socunas, considerou a medida um “exercíciedade democrática. cio de auto-análise” a ser saudado e enO ineditismo no alcance e a ênfase na tendido como “um passo inicial de um publicidade dada aos Princípios também salutar processo de transparência”. João chamaram a atenção do pesquisador do Brant, integrante da Coordenação Exedepartamento de Jornalismo da Univercutiva do Coletivo Intervozes vai ainda sidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mais longe. Para ele, o conteúdo elaboraRogerio Christofoletti, um dos fundadodo pelas Organizações Globo pode até res da Rede Nacional dos Observatórios servir de base para uma proposta futura de Imprensa (Renoi). As Organizações de regulação pública das Globo, segundo ele, distin“Na ausência de comunicações. “Na auguem-se, nesse caso, por serem a primeira do setor mecanismos de auto- sência de mecanismos de auto-regulação ou de a buscar o que ele chama regulação ou de uma uma regulação geral, a de uma “prestação de contas” com sua audiência e regulação geral, a sua sua existência é um avanço na direção de um comseus leitores. “Isso é altaexistência é um promisso”, diz, advertinmente positivo”, afirma. avanço na direção de do que a opinião é pesso“BBC, New York Times, Reuters, várias empresas um compromisso” al e não do Coletivo, ainda em fase de análise do jornalísticas têm docudocumento. Nos Princípios, Brant enmentos desse tipo fora do Brasil. Era mais contra, por exemplo, diretrizes clássicas do que momento de chutarem a bola para que também constam das normas sobre frente por aqui, para o jogo começar.” conteúdo da Ofcom (a agência reguladoO jornalista Alberto Dines, que dirira das comunicações no Reino Unido), ge o Observatório da Imprensa, exibido na 22 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

Redes sociais

especialmente no que diz respeito à busca de isenção e diversidade. Os Princípios Editorais não se confundem com os “manuais de redação”, disponíveis em quase todas as grandes Redações e que até podem, como no caso da Folha de S. Paulo, trazer algumas normas de conduta. “Os manuais são feitos para jornalistas, não dialogam com o público”, explica Christofoletti. Os Princípios Editoriais das Organizações Globo foram comunicados a leitores, ouvintes, telespectadores – lidos na televisão, publicados nas páginas das revistas, dos jornais e dos sites. Representam, então, um compromisso firmado com a sociedade. “Os manuais de redação dão uma certa ordenação, tratam de detalhes da técnica redacional, etc.”, compara o professor da Puc-Rio. “Nesse caso, é um conglomerado que está tornando claras suas políticas editoriais, para a sociedade.” Como já faz, por exemplo, a BBC, televisão pública do Reino Unido, que atualiza sua diretriz editorial a cada cinco anos, segundo o professor da UFSC. Na edição mais recente, as redes sociais

A apresentação do texto destaca, antes de tudo, a consolidação da Era Digital e o que os irmãos Marinho chamam de “certa confusão entre o que é ou não jornalismo, quem é ou não jornalista, como se deve ou não proceder quando se tem em mente produzir informação de qualidade”. Em entrevista por e-mail, com respostas atribuídas à “equipe de Princípios Editoriais das Organizações Globo”, a empresa afirma que “todos aqueles que desempenham o jornalismo profissionalmente devem expressar seus princípios, para diferenciar-se e pôr-se ao julgamento do público”. Fica claro, para os estudiosos, que as redes digitais entraram no campo da disputa política da mídia. “Há uma série de reposicionamentos de forças, disputas de espaço, de audiência, de atenção, de credibilidade”, observa o professor da UFSC. Para Christofoletti, a importância das redes se tornará cada vez mais evidente, e os grandes grupos, como O Globo, deixam de ter o protagonismo exclusivo na produção de informação. O resultado é a fragmentação de audiência, com repercussão direta na alocação de recursos publicitários. Os Princípios Editoriais têm 28 páginas e cobrem, além da definição de jornalismo, uma seção dedicada aos atributos necessários a uma informação de qualidade – “isenção, correção, agilidade”; outra, sobre como o jornalista deve se comportar com fontes, público, colegas e com o veículo onde trabalha; e, finalmente, uma explicação sobre os valores que o grupo considera “imperativos” para o jornalismo. Para o pesquisador da UFSC, o documento está “em linha com os principais cânones do próprio jornalismo”, afinado com a escola norte-americana e os seus conceitos de objetividade. É significativo, diz Aguiar, da Puc-Rio, que o jornalismo tenha sido definido como uma forma de conhecimento da realidade social. “É um dos entendimentos possíveis e bastante produtivo, do ponto de


vista teórico e político. Significa reconhecer que existem outras formas de conhecimento da realidade e que elas disputam. Ou seja, que a própria questão do jornalismo é objeto de disputa.” No campo teórico, explica Aguiar, esse enfrentamento opõe de um lado, pensadores como Adorno e Max Horkheimer, da Escola de Frankfurt, da década de 1930, na Alemanha, ou dos anos 1940 e 1950 nos Estados Unidos, e que enfatizavam a visão do jornalismo como instrumento de dominação ideológica e da manipulação da informação. E, de outro, a que aparentemente se filiam os Princípios da Globo, a Escola de Sociologia de Chicago, nos mesmos anos 1930, “que pensou o jornalismo não como mero meio de transmissão de informação, mas como forma de conhecimento, ligado ao senso comum, mas que nos dá um entendimento sobre a realidade social e que torna o jornalista um mediador social”. E que procura a isenção por meio de procedimentos como dar espaço ao contraditório, submeter os textos a mais de um leitor, compor um corpo editorial diversificado, etc. “Um ponto positivo”, diz Brant, do Intervozes, “é que os Princípios definem uma referência normativa para avaliação dessa busca de objetividade”. Da teoria à prática

O caminho escolhido pelas Organizações Globo é o “correto”, afirma Aguiar. “A questão é saber como passar dos princípios à prática.” Esse foi o questionamento mais recorrente feito à empresa, após a divulgação dos Princípios Editoriais. Principalmente, devido à ausência de ombudsman ou de outras instâncias para o controle social do que está descrito no papel. “A empresa precisa de um canal mais eficiente de crítica e ser tolerante a ela, aprender a ouvir mais a sociedade, descer do seu pedestal histórico e ser capaz de debater publicamente com os setores organizados”, afirma o coordenador do Jornalismo da Puc-Rio. “A Globo se expõe de forma positiva”, diz Brant. “Mas precisa reconhecer que é um primeiríssimo passo, se a própria emissora não tem um ombudsman para receber reclamações.” Na entrevista por e-mail, a equipe de Princípios Editoriais das Organizações Globo explica que os veículos do grupo devem estabelecer canais próprios de interação com o público, mas não detalha quais seriam eles. Nem há referência à crítica externa. No máximo, a observações – positivas ou negativas – vindas de fora. “Não temos a figura do ombudsman, mas todos os nossos veículos são orientados a ter estruturas e canais próprios para receber e processar observações, positivas e negativas, vindas do público em geral, incluindo os consumidores das informações, as fontes, os especialistas e os personagens das reportagens.” Por enquanto, na falta de ombudsman, ouvidoria, ou similar, Aguiar defende a discussão dos Princípios pelo movimento social, em canais que já estejam abertos – Observatório da Imprensa, Federação Nacional dos Jornalistas-Fenaj ou a ABI. Muito importante nos Princípios, diz o professor da Puc-Rio, foi as Organizações Globo terem marcado o caráter laico do jornalismo. “A Constituição diz

que o Estado é laico. Nada mais óbvio do que reafirmar esse princípio democrático.” Mas, além disso, ele explica que “estão dizendo também que os veículos de comunicação não vão servir de instrumento para nenhuma guerra santa entre grupos empresariais de comunicação”. O jornalista Alberto Dines discorda. Para ele, as Organizações Globo não são laicas, favorecem determinados grupos religiosos no espaço cedido a seus colunistas e o documento tem imprecisões. “O documento, além de longo, é ambíguo: em alguns momentos defende princípios e valores, em outros se revela indeciso em questões cruciais, inclusive no tocante à definição da sua própria razão de ser ”, escreveu. “A ‘breve definição de jornalismo’ é imensa, imprecisa, antiquada e maçante. Jornalismo é algo vivo, eletrizante; se a sua definição não consegue ter os mesmos atributos algo está errado – na ontologia ou na formulação.” Para ele, falta, fundamentalmente, mais menções à pluralidade de opiniões.

“O bom jornalismo é esse que consegue ser plural, atender a essas múltiplas fontes de informação.”

Brant, do Intervozes, também enxerga contradições. “Diz que os veículos vão buscar um corpo plural, representando o arco mais amplo de tendências da sociedade. A Globo não tem isso. Não oferece nenhum programa de debates na televisão aberta, nem na área esportiva.” Outro risco, para ele, está na apresentação dos “valores” da empresa. Nos Princípios, as Organizações Globo descartam totalmente a existência de qualquer viés – ideológico, político, mercadológico – na informação de qualidade, aquela que tem isenção, correção e é dada com agilidade. O Grupo aponta, contudo, muitos valores que estão na base de sua atuação: a democracia, as liberdades individuais, a livre iniciativa, os direitos humanos, a república, o avanço da ciência e a preservação da natureza. “Democracia é valor fundador, mas há visões diferentes do que ela seja”, alerta Brant. “Outros valores apontados, como

Um manual para a EBC A empresa recebe sugestões para definir um padrão que será adotado em todos os seus canais públicos. Responsáveis por vários canais públicos, entre eles a TV Brasil, a Empresa Brasil de Comunicação-EBC publicou na internet, em 16 de agosto, dez dias depois do anúncio dos Princípios Editoriais das Organizações Globo, os conceitos fundamentais que vão orientar a empresa na produção do seu Manual de Jornalismo. A intenção é que a sociedade opine, enviando contribuições por e-mail para o projeto final, previsto para chegar ao Conselho Curador no final de setembro. A partir daí, o controle da aplicação efetiva dos seus preceitos éticos e normas de conduta poderá ser feito pela sociedade por meio do Conselho, uma instância supervisora, e da Ouvidoria, que faz a mediação entre público e diretoria. A elaboração do Manual começou em abril, com a publicação de portaria da Presidência criando um grupo de trabalho encarregado de fazer o texto preliminar, a partir de debates internos e pesquisas sobre outras experiências. São 20 participantes no grupo, profissionais de todos os veículos da empresa, coordenados pelo jornalista Antônio Achilis da Silva, ex-Presidente da TV Minas, membro da ABI Minas Gerais e ex-Presidente da Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais-Abepec. O texto gerado por esse grupo foi encaminhado à Diretoria-Executiva há cerca de um mês, e nova portaria estabeleceu as futuras etapas do trabalho. Agora, será definido um prazo para que os diretores avaliem e façam emendas ao texto. Daí surgirá um anteprojeto, aberto para todos os

colaboradores da EBC criticarem, via intranet. Finalmente, os comentários internos e externos serão consolidados por um relator em um projeto final, a ser submetido à Diretoria e, depois, ao Conselho Curador. Os princípios norteadores do Manual, que estão publicados na internet, citam a lei que criou a EBC (Lei 11.652/2008), a Constituição brasileira, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Declaração da Unesco sobre os Meios de Comunicação. “Todo jornalismo é um serviço público, e como tal, é importante que seus princípios e seus compromissos sejam conhecidos do público a quem se dirige o serviço”, informou a equipe do Manual, por e-mail: “No caso da EBC, a existência de um manual normativo, que explicite as diretrizes editoriais, é ainda mais importante. Estamos falando do jornalismo praticado pelos canais públicos de comunicação, financiados pelo Estado para aumentar a oferta de conteúdos e informação aos cidadãos. Dos canais públicos, a sociedade tem o direito de exigir toda transparência, isenção e apartidarismo, ou qualquer forma de comprometimento que não seja com o interesse de todos.” Para ler as diretrizes básicas da EBC e enviar colaborações para o futuro Manual de Jornalismo da empresa basta acessar o site (ebc.com.br) e clicar no banner Manual de Jornalismo – Princípios e Conceitos, publicado com destaque na página inicial.

liberdades individuais e livre iniciativa, se tomados em uma perspectiva absoluta, afetam todo o código de Princípios. Não vejo ninguém defendendo nos veículos os direitos trabalhistas.” Christofoletti, da UFSC, reconhece “que não há produção simbólica sem viés.” Para evitar o engajamento ou a parcialidade, ele diz que é preciso abrir o leque de pessoas envolvidas na produção e adotar a pluralidade como controle de qualidade. “É um movimento contraditório, como é a natureza do próprio jornalismo: embora combatamos o mito da imparcialidade e da neutralidade, nós a buscamos.” O documento declara que as ações que possam ameaçar esses valores “devem ser retratadas com espírito isento e pluralista, acolhendo-se amplamente o contraditório, de acordo com os princípios aqui descritos, de modo a que o público possa concluir se há ou não riscos e como se posicionar diante deles”. Por e-mail, a equipe responsável pelos Princípios diz que há uma “preocupação muito grande em deixar claro para o público o que é notícia/informação e o que é comentário/ opinião nossa ou de terceiros.” Por isso, garante contar com comentaristas, cronistas e colaboradores com pontos de vista diferentes e contraditórios. “O jornalismo moderno se dá como um espaço de luta em relação a esse processo de conhecimento da sociedade e a disputa pela sua hegemonia”, afirma Aguiar, da Puc-Rio. Entre as várias forças que se enfrentam na produção da informação, ele aponta, além dos jornalistas e das empresas jornalísticas, as fontes – sejam empresas ou entidades do movimento social. “Há interesses econômicos e sociais, de classe, que entram em acordo com interesses de classe de outras fontes de informação. Recentemente, o professor lembra que um jornalista foi demitido, na Bahia, porque fez denúncias acerca de um empreendimento imobiliário. “Houve aí um óbvio conflito de forças. O jornalista se aliou a uma força diferente daquela aliada da empresa jornalística. Esse é um espaço o tempo todo de disputa. O bom jornalismo é esse que consegue ser plural, atender a essas múltiplas fontes de informação.” Segundo a equipe das Organizações Globo, os Princípios já estavam contidos no documento Princípios e Valores, que o grupo revisa periodicamente. “Formalizamos os conceitos, normas e procedimentos da atividade jornalística nas Organizações Globo em um esforço para dar mais transparência ao nosso trabalho.” Se as diretrizes não são novas, a equipe da Globo admite que a sociedade mudou. “Em um momento em que a opinião pública ganha cada vez mais força, seja no Brasil ou em outros países, consideramos essencial ter um código que normatize e regulamente esta atividade. Entendemos que não deve ser uma atividade corporativa, mas a profissão de fé de cada grupo de comunicação.” Os Princípios Editoriais das Organizações Globo estão disponíveis para consulta no G1, o portal de notícias da Globo, no endereço g1.globo.com/principioseditoriais-das-organizacoes-globo.html que pode ser acessado no link publicado em destaque na primeira página do site. Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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Liberdade de imprensa

A censura prévia ao Estadão fez dois anos O Supremo nada faz contra a ilegalidade. Na condição de Presidente da Suprema Corte e do Conselho Nacional de Justiça, o Ministro Cezar Peluzo deveria proceder à correição do processo contra o jornal e determinar o seu julgamento imediato, para impor o respeito à Constituição violada pela Justiça de Brasília. “É incrível que o Presidente do STF, Ministro Cezar Peluso, até agora não tenha se sentido na obrigação, como chefe do Poder Judiciário, de determinar, por dever de ofício, a correição desse processo e seu julgamento para restabelecimento pleno da normalidade constitucional há dois anos vítima de uma violação inadmissível.” A cobrança foi feita pela ABI, através de seu Presidente, Maurício Azêdo, em declaração ao suplemento especial publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo, na edição de domingo 31 de julho, em protesto contra a manutenção da censura prévia que lhe foi imposta há dois anos pelo Juiz Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, atendendo a solicitação do empresário Fernando Sarney, filho do Presidente do Senado, Senador José Sarney (PMDB-AP). No entender da ABI, o Supremo Tribunal Federal e o Conselho Nacional de Justiça, ao qual cabe zelar pela qualidade da chamada prestação jurisdicional, a eficácia dos serviços prestados ao povo pelos órgãos do Poder Judiciário, deveriam intervir nesse processo, desconside-

rando as filigranas judiciais que marcam a sua tramitação, transformando-o numa chicana judiciária, e determinar o julgamento do recurso do Estadão, tanto para defender o interesse legítimo do jornal como para restabelecer a integridade do texto constitucional, desrespeitado pelo Juiz Dácio Vieira.

“É UM TRISTE MOMENTO EM QUE A JUSTIÇA RECUSA A DEMOCRACIA E SE ALIA AOS VELHOS CACOETES DA DITADURA.” Além do Presidente da ABI, foram ouvidos nessa edição do Estadão: MIRO TEIXEIRA DEPUTADO FEDERAL (PDT-RJ)

“Antes ficava claro que a censura aos cidadãos, ditada pela Polícia, era uma ofensiva do poder ditatorial. A censura a O Estado de S. Paulo é um triste momento em que a Justiça recusa a democracia e se alia aos velhos cacoetes da ditadura. Tudo aí se mistura, ninguém pode ignorar o poder do Presidente Sarney.”

JUDITH BRITO P RESIDENTE DA A SSOCIAÇÃO N ACIONAL DE JORNAIS

“É inacreditável e inaceitável essa situação de um jornal estar há dois anos proibido pela Justiça de publicar informações sobre determinado assunto, quando a Constituição brasileira é absolutamente clara no sentido de que é vedado qualquer tipo de censura, sob qualquer argumento.” OPHIR CAVALCANTE P RESIDENTE DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO B RASIL

“Dois anos sem julgar e manter, sob todos os aspectos, um jornal sob censura, demonstra, de um lado, o lamentável problema da morosidade da Justiça brasileira; de outro, a incompreensão que ainda persiste sobre o papel fiscalizador dos meios de comunicação em uma sociedade livre.” CELSO SCHRÖDER PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS

“A extinção da Lei de Imprensa autoritária, do período da ditadura, mas sem deixar nada no lugar, criou um vazio jurídico muito perigoso e que está levando

o Judiciário a enquadrar as ações jornalísticas no crime comum. E aí cria-se um mundo que conhecemos: um Judiciário que judicializa a vida pública brasileira.” FERNANDO LATTIMAN-WELTMAN CIENTISTA POLÍTICO

“Vivemos um certo vácuo legislatório. O problema todo é que por um princípio claro da Constituição que impede qualquer forma de censura; por outro lado, existem argumentos que também podem ser respaldados na Constituição e que podem garantir direito à privacidade, além da questão do sigilo processual em determinados casos.” PAULA MARTINS DIRETORA DA ORGANIZAÇÃO NÃO-GOVERNAMENTAL ARTIGO 19

“O sigilo judicial é, em princípio, uma justificativa legítima para restrição do acesso e disseminação de determinadas informações. Quando se trata de assuntos de relevante interesse público, impedir a publicação corresponde à prática de censura, com a violação não apenas da liberdade de imprensa, mas do direito à informação de todos nós.”

Mais um caso de censura prévia, desta vez em Rondônia Decisão de um juiz cível confirma que magistrados da primeira instância não conhecem a Constituição, não a respeitam e adotam decisões que agridem o texto constitucional. POR CLÁUDIA SOUZA Mais uma decisão judicial confirma o que a ABI vem sustentando há mais de três anos: juízes da primeira instância não conhecem a Constituição, ignoram que seu texto proíbe qualquer forma de censura e não a respeitam. A mais recente manifestação dessa prática inconstitucional ocorreu em Porto Velho, capital de Rondônia, onde um juiz cível proibiu a Rádio Cultura FM de citar o nome da empresa Engecom Engenharia, relacionando-a com qualquer problema na construção do Centro Político e Administrativo do Estado, o CPA, cujas obras foram paralisadas por suspeita de irregularidades.

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A decisão inconstitucional foi do Juiz José Jorge Ribeiro da Luz, da 5ª Vara Cível de Porto Velho, o qual determinou que “os réus se abstenham de divulgar quaisquer informações que contenham os nomes dos autores, relativas a matérias ainda não consideradas definitivas judicialmente”. No caso de não cumprimento do despacho, será punida com multa de R$ 3 mil cada informação divulgada sem acatamento do estabelecido pelo Juiz Ribeiro da Luz. Em declaração divulgada por seu Presidente, jornalista Carlos Alencar, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Rondônia-Sinjor-RO condenou a censura prévia imposta à Rádio e definiu a decisão do Juiz Ribeiro da Luz como uma tentativa de retorno ao período ditatorial.

O árbitro da verdade: ele

Na liminar que concedeu, Ribeiro da Luz contesta que tenha promovido censura e cita um trecho de decisões anteriores que adotou sobre a interferência do Judiciário no trabalho da imprensa de Rondônia: “Não se trata de coibir ou tentar coibir os direitos de informações por parte da imprensa, quer seja escrita, televisada ou até pelos meios de comunicação pela rede mundial de comunicações via internet. Penso que o que se pode exigir é que todas as informações levadas ao público consumidor sejam idôneas e devidamente divulgadas após serem consideradas definitivas e caso não o sejam, que contenham a informação da precariedade delas. Infelizmente não é o que ocorre com parte de órgãos da imprensa em nosso País. Mas penso que é assim que deveria ocorrer. O que vemos, em alguns casos, é que a mídia coloca informações ao público que em algumas ocasiões não correspondem à

verdade absoluta dos fatos que divulga. É verdade que em alguns casos há a retificação, mas o mal já foi feito com a divulgação de matéria não idônea.” A Engecom, que recorreu à Justiça em maio passado, pediu indenização por danos morais “por ter sofrido ofensas que causaram prejuízos materiais e morais depois de o radialista afirmar sem subsídio fático que a licitação da nova sede do Executivo possuía irregularidades”. “O Juiz me amordaçou”

O jornalista Arimar Souza de Sá, que pretende recorrer da decisão, diz que a construtora estaria vencendo “o filé das licitações” em Rondônia. “O Juiz me amordaçou. Sinto-me aviltado no meu direito de comunicador ”, declarou. O Diretor de Conteúdo da Rádio Cultura FM, Carlos Geovane, disse que se surpreendeu com a decisão. Ele informou que o programa A Voz do Povo é indepen-


Cresce no Brasil o número de jornalistas assassinados Entre agosto de 2010 e julho passado foram mortos cinco profissionais, revela relatório da Associação Nacional de Jornais-ANJ. Houve nove casos de censura imposta pelo Poder Judiciário, três deles pela Justiça Eleitoral.

HISTORIADOR E MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

“É uma faca de dois gumes. De um lado, o ativismo do Judiciário pode cobrir vácuos deixados pelo Legislativo. De outro lado, esse ativismo corre realmente o risco de, a pretexto de defender direitos individuais, acabar realmente prejudicando o coletivo. No caso da censura à imprensa, a situação claramente é uma restrição, sobretudo quando a Justiça não é rápida.” GREGORY MICHENER CIENTISTA POLÍTICO CANADENSE

“Um dos fundamentos de uma democracia forte é a liberdade de imprensa. Pelo que sei sobre o caso “Estado”, havia base factual para as denúncias. Acho (a censura) um déficit democrático. O Judiciário deveria proteger mais a imprensa e tomar o lado do cidadão, não o lado do político.”

dente e de responsabilidade de Souza de Sá, que compra o espaço. Recentemente, o Juiz Ribeiro da Luz determinou a penhora dos bens (computadores e outros equipamentos) de um site de notícias de Rondônia, decisão que foi suspensa pelo Tribunal de Justiça. O protesto do Sinjor-RO

O protesto do Sindicato foi formulado na seguinte declaração: “O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Rondônia-Sinjor-RO, inconformado com a censura aplicada ao jornalista Arimar Souza de Sá pelo Poder Judiciário deste Estado, repudia, de forma veemente, tais práticas que tentam retroagir ao período ditatorial. A função precípua da imprensa é informar, inclusive os desacertos da administração pública, especialmente quando quem paga pelos desmandos é a sociedade. Em nome da Diretoria deste Sindicato, nos solidarizamos com o colega, esperando que o Poder Judiciário reveja tal medida que fere os princípios basilares da democracia. Porto Velho, 4 de agosto de 2011. (a) Carlos Alencar, Presidente.”

Ataques sem cerimônia Mais cedo, durante a 6ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Expressão, na Câmara dos Deputados, acadêmicos, parlamentares, representantes do Governo e jornalistas defenderam a liberdade de imprensa. O professor da Universidade de São Paulo Eugênio Bucci disse que existe no Brasil uma “mentalidade autoritária” que está por trás de iniciativas que tolhem a liberdade de expressão, entre elas a chamada censura judicial, criticada por diversos participantes da conferência. “Na nossa cultura política, a brutalidade do Estado se manifesta na falta de cerimônia com que as autoridades atacam a imprensa. Essa mentalidade, além do monopólio da força, pretende ter o monopólio da opinião”, disse Bucci. “Faz parte do dna da nossa cultura política.”

PAULO LIEBERT/AE

JOSÉ MURILO DE CARVALHO

Em relatório sobre a liberdade de expressão, cobrindo o período agosto de 2010-julho de 2011, apresentado no dia 16 de agosto em sua assembléia anual, a Associação Nacional de Jornais-ANJ registrou 34 eventos que representam alguma restrição à liberdade de expressão. O relatório destaca o aumento do número de assassinatos de jornalistas: foram cinco no período, enquanto nos dois anos anteriores foi registrado um caso. No documento, a Associação afirma que “é preocupante a quantidade de eventos gerados a partir de iniciativas do Poder Judiciário: dos 34 casos ocorridos, nove corresponderam a censura imposta por decisões judiciais, sendo três medidas restritivas determinadas por juízes da Justiça Eleitoral”. No total, foram registrados cinco assassinatos, uma prisão, sete agressões, dois atentados, três casos de abusos cometidos por autoridades, 12 casos de censura, uma ameaça de morte e duas decisões judiciais, além de uma manifestação considerada hostil à imprensa do então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em comício em Campinas, SP, em setembro de 2010, o ex-Presidente disse que “vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como partido político”. No relatório também está registrada a preocupação em ver aprovada uma lei garantindo o direito de qualquer cidadão a ter acesso a informações produzidas por qualquer um dos três Poderes, em todas as esferas da administração pública. O projeto que a institui ainda não foi aprovado no Congresso por resistência dos Senadores José Sarney (PMDB-AP) e Fernando Collor (PTB-AL), que também já foram Presidentes da República.

Ricardo Gandour: “Censura não tem dose. O único porto seguro é a plenitude”

O evento foi promovido pelo Instituto Palavra Aberta, que reúne entidades como a Associação Nacional de Jornais, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão-Abert e a Associação Nacional de Editores de Revistas-Aner. Um dos temas abordados foi a internet. A Secretária-Executiva da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Yole Mendonça, disse que a liberdade de imprensa é fundamental: “É um tema muito caro ao Governo Federal, que o entende como um dos pilares da democracia plena”. Quem ganha quanto? O jornalista Fernando Rodrigues, colunista do jornal Folha de S.Paulo e Presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo-Abraji, disse que, no Brasil, a liberdade de expressão não é encarada como princípio basilar da democracia. Ele citou a inexistência de uma lei ampla de acesso a informações públicas – um projeto está em discussão no Senado – e a não divulgação detalhada, pelos diferentes níveis de Governo, dos valores que gastam com publicidade. Para ele, “trata-se de uma anomalia de países subdesenvolvidos”. Rodrigues criticou também a falta de transparência sobre os salários de servidores públicos. Ele fez referência aos supersalários, que são alvo de ação na Justiça e foram investigados pelo Tribunal de Contas da União. Disse Rodrigues que nos Estados Unidos é diferen-

te: na página da Casa Branca na internet há uma lista com o nome dos servidores e o quanto recebem do Governo. Censura, com os Sarney O Diretor de Conteúdo do jornal O Estado de S. Paulo, Ricardo Gandour, criticou a censura judicial, fazendo referência à proibição, que já dura dois anos, de que o Estadão publique notícias sobre a Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, que investigou o empresário Fernando Sarney, filho do Presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Gandour afirmou que há quem não veja problema em haver no País “um pouquinho” de censura, como forma de proteger setores da sociedade. Para ele, porém, o raciocínio é “perigosíssimo”, pois poderia levar à tolerância com “um pouquinho de mentira ou de tortura”. “Não tem dose: o único porto seguro é a plenitude”, afirmou Gandour. Os participantes lembraram a censura à exibição do filme Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard, proibido em 1985 no Governo do então Presidente José Sarney. A advogada Taís Gasparian, que patrocina causas do jornal Folha de S.Paulo, observou que tanto a censura judicial ao jornal O Estado de S.Paulo, por conta da Operação Boi Barrica, quanto a proibição de exibição do filme, tiveram origem na mesma família Sarney. Ela critica o Poder Judiciário por ainda não ter derrubado a restrição ao jornal, e sugerie que o mesmo acione tribunais internacionais. Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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Direitos humanos

Para o crime, agora vale tudo A audácia dos bandidos passou a não ter limites, como demonstrou o atentado em que bandos fora-da-lei executaram com 21 tiros a Juíza Patrícia Acioli, considerada uma magistrada de mão pesada, por não aceitar a versão de policiais de que os fuzilamentos que cometem são conseqüência de atos de resistência à prisão.

Um atentado brutal roubou a vida, na noite de 11 de agosto, da Juíza Patrícia Lorival Acioli, 47 anos, da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, assassinada ao chegar de carro em seu condomínio em Piratininga, Região Oceânica de Niterói, antiga capital do Estado. Testemunhas contaram que homens encapuzados que ocupavam dois carros e duas motos efetuaram os disparos quando a Juíza ainda estava dentro do automóvel. Peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli-ICCE realizaram na manhã seguinte perícia no veículo, no qual foram encontrados projéteis de calibres 40 e 45, próprios de armas privativas da Polícia e das Forças Armadas. O Delegado titular da Divisão de Homicídios, Felipe Ettore, afirmou que houve uma emboscada seguida de execução e que a juíza foi morta com 21 tiros. Ao longo do dia, cerca de dez pessoas prestaram depoimento na Delegacia, entre elas vizinhos da Juíza e o namorado dela, Marcelo Poubel. A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados informou que vai acompanhar as investigações sobre o assassinato. Titular da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo desde 1999, a magistrada era a única que julgava processos de homicídio e crimes correlatos na cidade, a segunda de maior população no Estado do Rio de Janeiro. Ela era conhecida por sua atuação rigorosa contra grupos de extermínio que agem em São Gonçalo e por dar celeridade aos processos. Na lista de condenações que ela impôs h�� casos contra milícias e máfias dos combustíveis e dos transportes alternativos. Horas antes de ser assassinada, Patrícia Acioli havia decretado a prisão preventiva dos policiais-militares Carlos Adílio Maciel e Sammy dos Santos Quintanilha, do 7º BPM (Alcântara), acusados de forjar um auto de resistência, ocorrido no dia 5 de junho deste ano, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Fontes da Polícia informaram que nos últimos dez anos a Juíza Patrícia foi responsável pela prisão de cerca de 60 policiais ligados a milícias e a grupos de extermínio. Seu nome constava em uma lista de doze pessoas marcadas para morrer. O documento foi encontrado com Wanderson da Silva Tavares, o Gordinho, preso em janeiro deste ano em Guarapari, no Espírito Santo, acusado de chefiar uma milícia em São Gonçalo. O jornalista Humberto Nascimento, primo de Patrícia Acioli, disse que ela estava sem escolta por determinação do exPresidente do Tribunal de Justiça, Desembargador Luiz Zveiter. Atual Presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Rio, Zveiter negou que tenha determinado a retirada da escolta da ju-

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FREDERICO ROZARIO/AGÊNCIA O GLOBO

POR CLÁUDIA SOUZA

Patrícia Acioli: sem escolta, mesmo constando em uma lista de doze pessoas marcadas para morrer.

executaram a Juíza. O Presidente da Associação dos Magistrados do Estado do Rio-Amaerj, Antônio Siqueira, disse que a execução de Patrícia Acioli chocou a magistratura fluminense porque há muitos anos não se tem notícia de atentados contra magistrados no Estado do Rio. Em nota à imprensa, o Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, cobrou “a imediata apuração dos autores e mandantes do assassinato, uma barbaridade contra um ser humano e, sobretudo, contra a Justiça brasileira e o Estado de Direito”.

Nem todos os Tribunais respondem à Corregedoria acerca de segurança

íza. O Desembargador, que presidiu o Tribunal de Justiça em 2009 e 2010, disse que a escolta da juíza foi retirada em 2007, quando ele ainda não presidia o Tribunal de Justiça, a pedido da magistrada.

No Brasil todo, há 30 juízes ameaçados; sob risco há 500 O Presidente da Associação de Juízes Federais do Brasil-Ajufe, Gabriel Wedy, informou que pelo menos 30 juízes federais comunicaram terem recebido ameaças devido ao seu trabalho em 2010: “Os juízes federais não têm escolta, porque não há efetivo policial para isso. O número de 30 do ano passado é apenas uma amostra, pois todos os 500 juízes federais criminais estão potencialmente correndo risco. O dia em que o juiz tiver medo de julgar, ninguém mais vai dormir tranqüilo. Todo magistrado federal que processa e julga o crime organizado ou narcotraficantes está potencialmente sujeito a ser morto. O crime organizado hoje tem serviço de inteligência, armamento igual ao do Exército. Precisamos ter a nossa polícia, vinculada ao Poder Judiciário, para poder dar segurança aos juízes, às testemunhas e às pessoas que transitam nos tribunais.” O Projeto de Lei Complementar nº 3 (PLC-3/2010), que está tramitando no Congresso, prevê a criação de uma Polícia Judiciária para dar poder de polícia aos agentes dos tribunais, porte de arma e também atuação como agentes de escolta, informou o Presidente Gabriel Wedy.

O Presidente do Tribunal de Justiça, Desembargador Manoel Alberto Rebelo dos Santos, afirmou que admite a hipótese de a Juíza ter sido assassinada por sua atuação rigorosa contra grupos de extermínio formados por policiais militares. Ele determinou que fossem lacrados o gabinete e as câmaras de segurança da 4ª Vara Criminal, que ficarão à disposição da Polícia para a apuração do crime, e afirmou que pretende criar uma comissão de juízes criminais para assumir os processos da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo que estavam sob a responsabilidade de Patrícia Acioli. O Procurador-Geral de Justiça do Estado do Rio, Cláudio Lopes, designou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público-Gaeco para a investigação da morte da juíza. Outros três Promotores de Justiça auxiliarão o grupo, analisando as linhas de investigação e levando em consideração as pessoas que já foram condenadas ou julgadas pela Juíza e que teriam interesse em sua morte. Em janeiro deste ano, Patrícia Acioli decretou a prisão preventiva de seis policiais do 7º BPM, acusados de forjar um auto de resistência (morte em confronto com a Polícia), em outubro do ano passado, em São Gonçalo. Em setembro de 2010, ela expediu os mandados de prisão de quatro policiais militares acusados de participar de um grupo de extermínio que teria executado 11 pessoas, em São Gonçalo. O Presidente da Seção de Niterói da Ordem dos Advogados do Brasil, Antônio José Barbosa da Silva, pediu uma apuração rigorosa para se chegar aos criminosos que

Em entrevista coletiva concedida na sede do Conselho Nacional de Justiça, em Brasília, no dia seguinte ao assassinato da Juíza Patrícia, a Corregedora Nacional de Justiça, Ministra Eliana Calmon, disse que a Ajufe chegou a dar uma declaração de que havia cerca de 40 magistrados que estavam ameaçados. “Eu já oficiei duas vezes à Associação dos Juízes Federais para que fornecesse à Corregedoria o nome desses magistrados ameaçados, para tomarmos as devidas providências’, disse a Ministra. Informou a Ministra que pelo menos 87 juízes trabalham sob ameaça de morte ou de agressões físicas no País: “Os dados do CNJ são parciais, porque, apesar de o Conselho ter enviado ofícios aos 27 Tribunais de Justiça e aos cinco Tribunais Regionais Federais do País, nem todos responderam à solicitação de informações sobre ameaças a juízes. Há cerca de dois meses o Conselho pediu aos Tribunais a adoção de práticas efetivas para garantir a segurança dos magistrados e solicitou também que informassem, no prazo de 15 dias, se havia juízes ameaçados nas respectivas regiões. O CNJ não faltou com o seu dever de estar ao lado da magistratura. Pedimos a todos os Tribunais que garantissem a segurança dos magistrados, especialmente daqueles que trabalham nas Varas Criminais e nas Varas de Execução Penal. No mesmo ofício, foram pedidos os dados sobre juízes ameaçados.” Em resposta ao ofício, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro respondeu, de acordo com a Ministra, que havia 13 magistrados com escolta porque foram ameaçados: sete desembargadores e seis juízes de primeira instância: “O nome da Juíza Patrícia Acioli não constava da relação. Os Tribunais de Justiça de São Paulo e de Minas Gerais, por exemplo, não enviaram informações ao CNJ”, disse Eliana Calmon. Os ofícios foram enviados depois que o CNJ criou um grupo de trabalho para


fazer um estudo sobre a segurança da magistratura. O grupo é formado por dois juízes auxiliares da Corregedoria Nacional de Justiça, um policial federal e um membro do Ministério Público. O Maranhão preocupa

“Estamos tentando levantar informações sobre todos os aspectos relacionados à segurança para sugerir o que será preciso fazer. Há, no Maranhão, 24 pedidos de escolta e aperfeiçoamento de segurança por ocorrência de assaltos, arrombamentos e invasões a sedes dos Juízos nos últimos dois anos. A situação do Estado é preocupante.” De acordo com o CNJ, a Juíza Patrícia foi alvo de quatro representações feitas por advogados e envolvidos em processos que ela julgaria. Todas as representações, por abuso de poder, foram arquivadas porque não tinham fundamento. A Ministra destacou que essas representações são comuns a todos os juízes que agem de forma mais rigorosa: “Meses atrás, por exemplo, verificamos que o PCC (sigla do Primeiro Comando da Capital, organização criminosa criada nos presídios do Estado de São Paulo) tinha formulado na Corregedoria em relação a uma juíza da Vara de Execuções Penais nada menos do que 46 representações. Os próprios bandidos fazem representações. E isso nós já sabemos”, disse Eliana Calmon. Contou a Ministra que uma juíza de Vara de Execuções Penais de Pernambuco foi ameaçada de morte e pediu ao Tribunal de Justiça um carro blindado. O TJ colocou a juíza sob escolta, mas negou o pedido do carro blindado, com o argumento de que não tinha recursos financeiros para arcar com o gasto. A magistrada, então, fez o pedido ao CNJ. “A juíza faz o mesmo trabalho que fazia a Patrícia Acioli. Ela julga causas que envolvem grupos de extermínio. A Corregedoria Nacional de Justiça providenciou o carro, que já está à disposição do Tribunal de Justiça para ser utilizado por ela.” “Não ficará em vão”

Eliana Calmon informou que o Presidente do CNJ, Ministro Cezar Peluso, acionou a Polícia Federal através do Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para que as investigações sobre a morte da Juíza Patrícia Acioli sejam rigorosas. “Está comprovado que o crime é de extermínio. Não foi passional, não foi assalto. A morte da Doutora Patrícia não ficará em vão. Acho que é um acontecimento que vai despertar a magistratura como um todo, especialmente por parte dos Tribunais de Justiça, para termos um pouco mais de cautela, de cuidado, na segurança dos magistrados. Não se pode ter numa Vara de Execuções tão forte, onde existem grupos muito audaciosos, perigosos, um único juiz. Isso tem de ser diluído por alguns juízes. Tanto que já foram designados três juízes para substituir a juíza morta. O Ministério Público já toma cuidados como esses. Denúncias mais difíceis, que envolvem pessoas mais perigosas, são assinadas por diversos procuradores da República ou promotores. Quando se concentra a responsabilidade em um único juiz, o risco é maior”, ressaltou a Ministra.

“É POSSÍVEL APURAR JÁ OS CRIMES DA DITADURA” Entidades da sociedade civil lançam o Coletivo RJ Verdade, Memória e Justiça e sustentam que a apuração dos crimes da ditadura independe da criação da Comissão Nacional da Verdade, antes mesmo da instituição desta. Em declaração divulgada em ato público realizado na Ordem dos Advogados do Brasil-Seção do Estado do Rio de Janeiro, na noite de 15 de agosto, entidades representativas da sociedade civil do Rio lançaram o Coletivo RJ Verdade, Memória e Justiça. Antes mesmo da criação da Comissão Nacional da Verdade, que é indispensável, é possível apurar desde já os crimes da ditadura militar, porque na maioria dos casos “as informações disponíveis permitem o início das investigações, processamento judicial e responsabilização dos agentes públicos e privados, não havendo necessidade de se aguardar os resultados da Comissão Nacional da Verdade”. Esse entendimento foi expresso na declaração em que essas entidades formalizaram o lançamento do Coletivo RJ Verdade, Memória e Justiça. A manifestação foi aberta com a execução da canção instrumental Guerra de Canudos, de Chico Mário, irmão de Betinho e Henfil, por seu filho Marcos de Souza, e com a exibição de trecho do filme Três Irmãos de

Sangue, de Ângela Patrícia Reininger, que mostra a vida, a obra e a atuação política de Betinho e seus dois irmãos. A mesa de honra dos trabalhos, sob a presidência de Pedro Strozemberg, um dos organizadores do Coletivo RJ, foi integrada pelo Presidente da OAB-RJ, Wadih Damous; pelo Presidente da ABI, Maurício Azêdo; pela Assessora Especial da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República Nadine Borges; pelos Deputados Chico Alencar (PsolRJ) e Marcelo Freixo (Psol), pelo Secretário de Direitos Humanos do Estado do Rio, Antônio Carlos Biscaia, e pelos representantes do Coletivo RJ, Ana Bursztyn Miranda, Pedro Strozemberg e Maurice Politi. Entre os presentes encontravam-se inúmeros sócios da ABI, entre os quais Modesto da Silveira, Ronaldo Aguinaga e Paulo Gomes Neto, além da Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Margarida Pressburger, e do Vice-Presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes, Luiz Ragon.

“É preciso esclarecer o que aconteceu” A declaração do Coletivo RJ foi lida pelo Vice-Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Marcelo Chalréo, e tem o seguinte teor: “O Coletivo RJ Verdade, Memória e Justiça iniciou seus trabalhos em junho de 2011 quando pessoas, grupos e organizações da sociedade civil se uniram para discutir e promover atividades relacionadas ao reconhecimento do direito à Memória, à Verdade e à Justiça. Desta forma, tendo como objetivo a consolidação desses direitos humanos e visando o período da última ditadura no Brasil – de 1964 a 1988 –, o Coletivo RJ vem se reunindo semanalmente para debater e formular possíveis contribuições para a consolidação da democracia na construção do “Nunca Mais” no Brasil. Por conhecer a importância da reparação integral aos homens e mulheres que foram presos, torturados, banidos, exilados e aos que tiveram familiares executados e desaparecidos pela repressão militar, entendemos que esta é uma causa do presente, que diz respeito, sobretudo, a toda a sociedade brasileira. Demanda, por isso, uma resposta efetiva, democrática e

participativa, e exige das autoridades competentes responsabilidade na formulação de políticas públicas. Não podemos perder de vista que ainda ocorrem no País prisões arbitrárias, tortura sistemática, seqüestros, execuções e desaparecimentos forçados, que vitimam a população em geral, e que são práticas inaceitáveis, inadmissíveis em um Estado Democrático de Direito. Torna-se, então, urgente e necessário que as políticas públicas incluam em suas pautas os Direitos Humanos, para que estes deixem de ser mero acessório retórico às políticas de segurança pública. Para reduzir os danos sociais, é preciso que se esclareça definitivamente o que aconteceu no período da ditadura militar, se reconheçam publicamente os crimes cometidos por agentes do Estado e colaboradores, se identifiquem e se responsabilizem individualmente seus autores. É neste sentido que valorizamos a proposta de instalação da primeira Comissão da Verdade no Brasil, entendendo que esse instrumento poderá ser de importância fundamental no processo de conquista do direito à Memória, à

Verdade e à Justiça e no fortalecimento da democracia. O Coletivo RJ tem formulado observações críticas sobre alguns itens do projeto de lei da criação da Comissão Nacional da Verdade, atualmente tramitando no Congresso, e considera a necessidade de que se amplie esse debate com os mais variados setores da sociedade civil, situação que o Estado ainda não se dispôs a fazer. Isto possibilitará um processo inclusivo e co-responsável, permitindo reformulações neste Projeto de Lei. Uma Comissão da Verdade deve ser independente e autônoma e buscar garantir um processo transparente e participativo. Pretende-se, desta forma, assegurar que seus resultados sejam bem documentados, esclarecedores sobre o ocorrido no período e diretos na identificação das responsabilidades pelos crimes de Estado. Mais ainda, seu relatório final deve ser amplamente difundido no País e formalmente encaminhado às autoridades competentes. Para tanto, é preciso que se tenha acesso irrestrito a toda e qualquer documentação referente à última ditadura, e é essencial que o País cumpra seus compromissos internacionais de respeito aos Direitos Humanos. Enfatizamos ainda que o debate acerca da Comissão da Verdade não exclui a necessidade de Justiça em seu âmbito formal. Ambos os instrumentos podem acontecer concomitantemente, já que na maioria dos crimes as informações disponíveis permitem o início das investigações, processamento judicial e responsabilização dos agentes públicos e privados, não havendo necessidade de se aguardar os resultados da Comissão Nacional da Verdade. Concebendo a Memória, a Verdade e a Justiça como dimensões esclarecedoras e reparatórias, interdependentes e complementares, o Coletivo RJ luta: – Por uma Comissão da Verdade autônoma e independente; – Pela abertura de todos os acervos documentais produzidos naquele período e contra qualquer instrumento que promova o ‘sigilo eterno’; – Pelo cumprimento integral da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso da Guerrilha do Araguaia; – Pelo resgate da Memória e da Verdade sobre a história da resistência à ditadura 1964-88. Rio de Janeiro, 15 de agosto de 2011.” Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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Lula tira o chapéu para Betinho Convidado especial de uma série de eventos programados e abertos em sessão fechada para convidados pela Caixa Econômica Federal para celebrar os 30 anos de criação do Ibase, o ex-Presidente exaltou a atuação de Betinho, que “conseguiu nacionalizar um problema dos anônimos deste País”. POR CLÁUDIA SOUZA Fundado em 1981 pelo sociólogo Hebert de Souza, o Betinho, o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e EconômicasIbase celebrou seus 30 anos com um grande evento na Caixa Cultural Almirante Barroso, no Centro do Rio, o qual incluiu um ciclo de conferências sobre cidadania e suas vertentes, uma mostra de filmes com temática política e a exposição fotográfica Betinho e o Ibase. O ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu os festejos na noite do dia 9 de agosto em solenidade fechada para convidados. Ele aplaudiu o Ibase pelas iniciativas voltadas para o fortalecimento da cidadania no País e sublinhou a luta de Betinho contra a fome e a miséria: “Eu sabia que a fome era um problema social que tinha que ser transformado

num problema político. E aí foi importante o papel do Betinho, que conseguiu nacionalizar um problema dos anônimos deste País. Fizemos várias reuniões com o Ibase para organizar o Fórum Social Mundial.” Após a conferência, Lula visitou a exposição Betinho e o Ibase, que estará aberta ao público até o dia 18 de setembro. Presente à cerimônia, o Presidente dos Correios, Wagner Pinheiro, homenageou a trajetória do Ibase com o lançamento de um carimbo comemorativo com a imagem de Betinho. O Diretor-Geral do Ibase, o sociólogo Cândido Grzybowski, disse que a organização completa 30 anos de fundação ainda com o desafio de lutar contra a exclusão social de cerca de 16 milhões de brasileiros: “Quem são essas pessoas? Qual é a sua voz, a sua identidade, onde

estão e quais são as faces da exclusão e da pobreza extrema do Brasil? Cabe a nós trazer isto para o debate público. A aposta na democracia é um processo no qual o conflito é construtivo. Há muito a se fazer, pois a desigualdade é extrema, 1% do País controla a metade do território. Isso é escandaloso”. Seis princípios O Ibase foi fundado com o propósito de lutar pela democracia e a cidadania ativa. As iniciativas são regidas por seis grandes princípios: liberdade, igualdade, solidariedade, participação, diversidade e justiça socioambiental em âmbito global, como o Fórum Social Mundial, do qual o Ibase foi um dos criadores; a campanha Pacto pela Cidadania – Favela é Cidade, e o desenvolvimento do Alternex, primeiro provedor de internet no Brasil.

O Ibase organiza-se atualmente em quatro núcleos programáticos responsáveis pela gestão direta dos seguintes projetos: Cidades e Territórios; Democratização do Estado e da Economia; Diálogo dos Povos e Alternativas Democráticas à Globalização; e Emancipação Social e Políticas Públicas. As linhas de trabalho são: Alternativas ao Desenvolvimento e Criação de Novos Paradigmas; Combate ao Racismo e ao Patriarcalismo; Direitos Humanos; Estratégias de Comunicação; Estratégias de Gestão e Sustentabilidade Política e Financeira; e Fórum Social Mundial. Mais informações sobre a entidade podem ser obtidas no site ibase.br, que está disponível também em inglês e espanhol e é constantemente atualizado. Além disso, o Ibase está presente nas principais redes sociais, como o Facebook e YouTube.

A opção pela democracia está no dna do Ibase Em artigo especial publicado no site do Ibase, Cândido Grzybowski fala sobre os 30 anos da entidade e os desafios para os próximos anos. O Instituto Brasileiro de Análises Socibases democráticas para a disputa, ainda ais e Econômicas-Ibase, neste 2011, complefrustrantes em muitos aspectos. ta 30 anos. Curta história em termos de soMas quanta coisa mudou, além de nosciedade, mas muito para a geração que funso próprio sonho e horizonte! dou o Ibase. A opção pela demoO Ibase foi imaginacracia está no dna do do no exílio por BetiIbase, como de todas as nho e companheiros e organizações co-irmãs. fundado após a AnisNão vou lembrar aqui tia. Na verdade, ele é as memoráveis jornauma entre tantas orgadas democráticas, das nizações de cidadania Diretas Já até hoje, que ativa que se gestaram contaram com a contrina luta contra a ditabuição estratégica desdura e pela democratitas pequenas organizazação. São, por isso, ções. Afinal, elas não um pedacinho da Hisprestam serviços, não tória recente do Brasil. dão assistência aos desO Ibase é sonho e provalidos no sentido trajeto compartilhado por dicional, não são orgamuitos desde o nascinizações de consultomento, no começo dos ria, nem acadêmicas, 80 do século passado. A não pertencem a partifundação de tais orga- Betinho foi tema de uma belíssima capa dos, não são estatais, de Veja, em dezembro de 1993. muito menos privadas, nizações pelos anistiados, que então voltanão visam lucro, não vam ao Brasil, marcou uma mudança de são religiosas. São simplesmente organizaestratégia deles na luta pelo grande sonho ções de cidadania ativa. Defendem causas de igualdade e justiça social – um dos de cidadania com argumentos éticos e fungrandes princípios éticos mobilizadores damentados, sua legitimidade. São organidos últimos três séculos –, deixando de zações onde a razão de ser não é um intelado a idéia de conquista do Estado e aposresse privado ou de um grupo, mas a cautando na construção de uma sociedade cisa da cidadania e da democracia, do local vil democrática entre nós. Significava, ao mundial, inspirando-se nos grandes por isto, a sintonia fina dos exilados com princípios e valores da igualdade, liberdao que se passava no interior do Brasil. de, diversidade, solidariedade e participaNo final dos anos 1970 e início dos ção, fundantes da própria democracia anos 1980 se gestou uma grande revolução como Betinho escreveu tantas vezes. democrática no Brasil – ou alguém duviVale a pena se debruçar na intrigante da que tenha sido? – com a emergência de questão sobre o que significam organizanovos sujeitos políticos, da entranha da ções de cidadania ativa, como o Ibase, para própria sociedade, demandando direitos, a sociedade brasileira e mundial hoje. Uma justiça e participação, além da Anistia e do tal reflexão é oportuna nos 30 anos do fim da ditadura. A ditadura acabou e temos Ibase, pois se refere a muitas organizações,

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muitos gestores de políticas governamentais, legisladores, juízes, empresas. Para começar, é fundamental estabelecer que a condição de existência de organizações de cidadania ativa é a total autonomia, tanto em relação ao Estado, como a empresas, a partidos e a igrejas, em relação a este ou aquele sujeito coletivo, por mais forte que seja. Aliás, uma opção preferencial de tais organizações são os excluídos e os sem identidade e voz, bem como o combate ao machismo, ao racismo e à homofobia. Elas se definem e buscam ser simplesmente organizações cidadãs. Tais organizações funcionam como pequenas pulgas, quase invisíveis, pois seu papel fundamental é incomodar e fazer as coisas andarem, como a mordida de pulga, apesar de sua pequenez, incomodar e fazer até um elefante se coçar. Por não agir em benefício próprio, seja de uma facção ou igreja, seja de um grupo social, mas pelo interesse público e comum da cidadania, são organizações que em rede cumprem um fundamental papel de vigilância e radicalização da democracia. Sua referência são direitos e não privilégios, espaço e bem público e não o interesse privado individual ou de um grupo social, democratização – no sentido de gestão por todos do bem comum – e não a estatização ou a privatização. No Brasil dos últimos anos, criou-se uma criminalização genérica das organizações não-governamentais. São ongs tanto entidades fantasmas de mulher de prefeito, entidades de deputados para manter cativas suas bases sociais e muitas organizações oportunistas criadas unicamente para acesso a recursos públicos (na falta de regulamentação adequada, este conjunto cresceu exponencialmente nos últimos anos), como organizações de cidadania ativa que nada têm a ver com

isto, pelo contrário, estão na frente da luta contra este tipo de práticas. Uma tal generalização acabou pondo em questão organizações de cidadania ativa voltadas à promoção dos direitos e da cidadania, à radicalização da democracia, de denúncia da globalização conduzida por grandes corporações e clamando por “outros mundos possíveis”, de pressão política para mudar de rumo diante da iminência da destruição ambiental, ela como nova forma de injustiça social e, mais, de destruição da natureza e da própria vida. Segundo dados do IBGE, seriam mais de 350 mil organizações, considerando todos os tipos de organizações não-lucrativas. Aí dentro, organizações de cidadania ativa não chegam a 1 mil (menos de 0,35% do total), das quais umas 350 são formalmente membros da Abong-Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais. O momento é de pausa, reflexão e revisão de rumos futuros. É o que o Ibase propõe com o Mês Ibase 30 Anos. Avaliemos juntos se uma organização como o Ibase, que se constituiu em torno de extensa rede, do local ao mundial, irradiando para fora questões de cidadania e democracia do Brasil e trazendo para dentro questões da cidadania planetária para a sociedade civil brasileira, tem um papel estratégico diante dos desafios de hoje. Afinal, nascido numa onda de cidadania, 30 anos atrás, inspirado no legado do Betinho, um de seus fundadores, o Ibase ainda é estrategicamente importante? Para a necessária nova onda democratizadora, que ensaia emergir entre nós, com sua demanda de democracia mais radical, mais inclusiva, ao mesmo tempo que redefinindo os termos do desenvolvimento brasileiro – sem exclusão social e sem destruição ambiental –, que Ibase é necessário?”


O poder de uma utopia

MARIZILDA CRUPPE-AGÊNCIA O GLOBO

‘‘L

utar contra a violência é uma forma de lutar contra a miséria, a indiferença, a solidão e com um País rico e um povo pobre.” Herbert José de Souza ou Betinho, como o Brasil inteiro o conheceu, era um orador de primeira, desses que jamais usam slides, gráficos, textos auxiliares ou transparências, mas são capazes de prender a atenção do público por horas e, no final, levam-no às lágrimas. Talento que dispensava a preparação de discursos antecipadamente e por escrito. Organizava as idéias a caminho de sua palestra e precisava de apenas um copo de água e um microfone para cunhar as mais eloqüentes frases. Ainda assim, por mais marcante que tenha sido sua oratória, o que não pode ser esquecido é a causa à qual ela servia, o trabalho em que o sociólogo empenhou sua vida e seu exemplo, que finalmente tornou termos como “fome”, “cidadão”, “desigualdade”, “emprego” e “terra” reais para os brasileiros. Por mais destaque que tenha recebido, a campanha Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida foi apenas uma entre tantas empreitadas suas. Antes disso, o homem que muitos consideravam apenas mais um sonhador já tinha fundado o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas-Ibase, em um tempo em que nem se falava ainda em terceiro setor e trabalho social. Também foi um dos articuladores da luta pela reforma agrária, ajudou a criar a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e fez parte do Movimento pela Ética na Política, que culminou com o impeachment do então Presidente Fernando Collor de Mello. Uma história que celebrou a vida e mostrou o poder de uma utopia do possível. Curioso que um dos maiores defensores da vida no Brasil nos últimos tempos já tenha nascido ameaçado pela morte. Mineiro de Bocaiúva, Betinho nasceu em 3 de novembro de 1935. Foi o quarto filho de uma família de oito irmãos, entre os quais o cartunista Henfil e o músico Chico Mário, que com ele compartilhavam o drama da hemofilia, herdada da mãe. Mais importante do que as aulas na escola, às quais faltava muito por conta da saúde precária, foi a experiência de ter crescido entre uma penitenciária e uma funerária que começou a lhe moldar a sensibilidade humana. Por conta do trabalho do pai, funcionário de um presídio, conheceu a agrura dos cativos e aprendeu a lidar melhor com a realidade da morte. A militância política começou na adolescência, sob a influência dos padres dominicanos, que o levaram para a Juventude Católica, em Belo Horizonte. Na Universidade Federal de Minas Gerais, onde cursou Sociologia, foi um dos fundadores da Ação Popular (AP) e se tornou defensor do socialismo. Depois da formatura, em 1962, engajou-se na luta pelas reformas de base do Governo João Goulart, trabalhando primeiro no Ministério da Educação e Cultura, dedicando-se ao ambicioso Programa Nacional de Alfabetização (PNA) que, inspirado nas propostas de Paulo Freire, pretendia acabar

Herbert José de Souza, o Betinho, ajudou não só a colocar mais comida na mesa do brasileiro: incorporou ao dicionário termos como “justiça social”, “reforma agrária” e “ética na política”.

P OR M ARCOS S TEFANO

com o analfabetismo num curto espaço de tempo. Em seguida, na Superintendência de Reforma Agrária. A luta pelas causas sociais foi momentaneamente interrompida pelo combate à ditadura militar instaurada com o golpe de 1964. Inicialmente, Betinho foi para o Uruguai, onde passou sete meses. Voltou ao Brasil para participar da resistência e foi trabalhar como operário na cidade de Mauá, na Grande São Paulo. Sem muito êxito e com o recrudescimento político, partiu novamente para o exílio em 1971. No Chile, participou do Governo de Salvador Al-

lende, como assessor na Oficina de Planificação da Presidência da RepúblicaOdeplan. Em dois anos, novo golpe, fim de outro sonho e quase de sua vida. O sociólogo só escapou das forças de Pinochet porque encontrou refúgio na Embaixada panamenha. De lá, partiu para o Canadá e para o México. Bêbado e equilibrista

Ao todo foram oito anos no exílio. Antes de voltar, porém, Betinho passaria a ser conhecido como “o irmão do Henfil”, por conta da música O Bêbado e a Equilibrista, de Aldir Blanc e João Bosco,

gravada por Elis Regina, que se tornou uma marca da campanha pela anistia. “Meu Brasil / Que sonha com a volta do irmão do Henfil / De tanta gente que partiu” pedia a composição. Um sonho que se tornou realidade com a volta de Betinho, em 1979. Sem perder tempo, logo começou a se articular e, dois anos depois, fundou o Ibase, ao lado dos economistas e companheiros de exílio Carlos Afonso e Marcos Arruda. Falava-se em fiscalizar os governos e propor políticas afirmativas. Mas o grande propósito era mesmo o de lutar pela democracia e pela cidadania. “Enquanto se desenvolvem as ações de caráter estrutural, enfrentar situações de emergência com medidas de emergência é inevitável. A grande questão é transformar a emergência em uma ação que atinja quem necessita, com mecanismos públicos, sem paternalismo e exploração política”, defendia ele. Meta que continuaria a ser buscada nos anos seguintes também em outras frentes. Em 1990, o movimento Terra e Democracia, liderado por Betinho, reuniu milhares de pessoas no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, para buscar a democratização também da terra. A força da mobilização popular seria sentida novamente três anos mais tarde. Em 11 de fevereiro de 1993, o Presidente Itamar Franco anunciou o programa de combate à fome e convidou o sociólogo para coordenar o Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Betinho não aceitou. Alegou limitações físicas, conseqüências da contaminação pelo HIV, o causador da Aids, contra o qual lutava pelo menos desde 1985 e que foi contraído em uma de suas tantas transfusões de sangue no tratamento da hemofilia. Em 1988, ele já havia perdido Henfil e Chico Mário. Agora, lutava pela própria vida. Mesmo assim, aceitou ser consultor do Conselho. Era o suficiente para ocasionar uma das maiores mobilizações populares de todos os tempos contra a fome. No período de um ano, 25 milhões de pessoas contribuíram com doações. Outros 2,8 milhões se engajaram diretamente na campanha, colocando a mão na massa nos comitês da Ação da Cidadania que surgiam por todos os cantos. Seja em escritórios, seja em favelas. Em meio a tudo isso, Betinho “comemorava a vida todas as manhãs”, como ele mesmo dizia. Ao ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 1994, ressaltou que a grande vantagem de concorrer era que isso o obrigava a estar vivo para a cerimônia de premiação, em dezembro daquele ano. Não ganhou o prêmio, mas continuou na batalha. Até o dia 9 de agosto de 1997, quando faleceu em sua casa, no bairro de Botafogo, no Rio. Em seu quarto, com vista para o Corcovado e para várias favelas, morreu como desejava: com serenidade e ao lado de sua segunda esposa, Maria Nakano, dos filhos Daniel e Henrique e de sua família. Quanto ao legado deixado por ele, este permanece vivo desde o dia em que suas utopias começaram a se tornar realidade. Graças a elas, milhões de brasileiros puderam se sentir menos desamparados. Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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RENOVAÇÃO

P OR P AULO CHICO Há quem mude de nome simplesmente por não gostar da escolha de batismo feita pelos pais. Outros mudam a assinatura em função da numerologia. Em alguns desses casos, porém, tais alterações na certidão não são meramente cosméticas, mas repletas de sentido. Representam algo como um renascimento. A ampliação de uma proposta. Este é o caso da Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância). Criada formalmente em 1993, mas atuando de maneira voluntária desde 1990, a entidade é uma organização da sociedade civil, sem fins de lucro e apartidária, que articula ações inovadoras em mídia voltadas para o desenvolvimento. Recentemente, em março deste ano, foi rebatizada e passou a se chamar AndiComunicação e Direitos. “Nós formalizamos esta mudança agora, mas ela é resultado de um processo longo de reflexão que envolveu debates não só junto à própria equipe da Andi, como também com membros de nossa Assembléia de Sócios e do Conselho Diretivo, além de consultas a jornalistas e a lideranças do movimento social. Em síntese, o que se deu foi uma atualização da missão e das nossas linhas de atuação, reconhecendo avanços que, na prática, já vinham ocorrendo ao longo dos últimos anos”, explica Veet Vivarta, Secretário-Executivo da entidade. A Andi nasceu com o objetivo de contribuir para que os temas relacionados aos direitos de crianças e adolescentes ganhassem o merecido espaço na esfera pública de debates. Para isso, desenvolveu uma série de metodologias de apoio ao trabalho da imprensa, segundo três vertentes principais: mobilização das Redações em relação a questões de interesse público; monitoramento e análise da cobertura e capacitação de jornalistas para uma abordagem mais qualificada dos temas com os quais atua. “Os resultados extremamente positivos alcançados terminaram chamando a atenção de entidades de outras áreas da agenda social. Desde o início da década passada nós começamos a aplicar nossas ferramentas de monitoramento e análise a diversos outros campos. Estudos avaliando a cobertura da mídia sobre o perfil do usuário de drogas, sobre investimento social privado e responsabilidade social empresarial, sobre ciência, tecnologia e inovação, questões de gênero, o direito das pessoas com deficiência, mudanças climáticas... Ficou claro para nós que a sociedade brasileira, de forma ampla, passava a pensar a comunicação como fator estratégico para os direitos humanos e para um modelo inclusivo de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, nos parecia que a Andi, como organização pioneira, tinha um importante papel a cumprir diante do novo cenário”, conta Veet. 32 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

A agência da infância é revista e ampliada Perto de completar duas décadas de atuação, a Agência de Notícias dos Direitos da Infância muda de nome e acrescenta os temas da Inclusão e Sustentabilidade e das Políticas Públicas de Comunicação à sua linha de estudos e atuação social. Na prática, a mudança da razão social significa que, além de seu foco inicial – voltado para as questões da Infância e Juventude – a entidade passa a dedicarse de forma sistemática a duas outras linhas de estudo: a de Inclusão e Sustentabilidade, que cobre todas as outras temáticas da agenda sócio-ambiental, e a de Políticas Públicas de Comunicação. “Nesse último aspecto, nossa decisão levou em conta que o Brasil está vivendo um momento relevante no que diz respeito à atualização de seu marco regulatório e das políticas para as comunicações. Na verdade, também já vínhamos fazendo isso há alguns anos. Em 2006 lançamos um estudo detalhado de como 50 diários de todas as regiões do País cobriam as temáticas relacionadas às políticas de comunicação. Logo em seguida participamos ativamente da mobilização em torno da nova ferramenta de Classificação Indicativa de conteúdos audiovisuais, estabelecida pelo Ministério da Justiça”, explicou o Secretário-Executivo.

Há avanços a registrar: em quase 20 anos, a escolarização de crianças chegou a 97,6% Nas quase duas décadas de atuação da Andi, a boa notícia é que as políticas públicas que procuram promover os direitos da infância e da adolescência avançaram de forma considerável no Brasil.

Há, segundo estatísticas oficiais, vários indicadores relevantes e que merecem ser comemorados. Dois exemplos são o fato de que hoje o Brasil tem 97,6% das crianças de 7 a 14 anos na escola, e a taxa de mortalidade infantil caiu para 22,5/ 1000 em 2009 contra os 46,9/1000 verificados em 1990. Contudo, afirma Veet, ainda há muito o que zelar quando o tema em debate são os direitos de crianças e adolescentes. “Basta registrar, por exemplo, que os 2,4% de crianças fora da escola representam nada menos que 660 mil indivíduos, entre os quais estão sobre-representados os grupos tradicionalmente vítimas da exclusão: indígenas e afro-descendentes, meninos e meninas com algum tipo de deficiência, moradores do Semi-Árido e da Região Amazônica. Quanto à mortalidade infantil, a média nacional de 22,5/1000 esconde os extremos vividos por Estados como o Rio Grande do Sul (com 12,7/1000) e Alagoas (46,4/1000). Mas a lista de problemas é bem mais


liar os processos de formulação e implementação dos programas se torna cada vez mais estratégico. E dar conta desse novo quadro exige não apenas capacitação continuada para o quadro de repórteres e editores, mas também garantir prioridade para essas temáticas na linha editorial do veículo – e isso realmente ainda não é uma realidade”, lamenta Veet Vivarta. Para ele, um exemplo recente dessa limitação está na cobertura recebida pelo lançamento do programa Brasil sem Miséria. Se, por um lado, é certo que o Governo de Dilma Rousseff precisava de uma agenda positiva para tentar desviar o foco das denúncias em torno do exMinistro Antonio Palocci, por outro o programa estava sendo articulado havia seis meses para ocupar a posição de principal política do País em relação à desigualdade social – e apostando em uma meta absolutamente ambiciosa. Além disso, o Brasil sem Miséria chegava com a missão de dar continuidade às iniciativas do Bolsa Família e programas associados, todos reconhecidos internacionalmente. “Portanto”, afirma Veet, “ao ignorar a necessidade de um debate aprofundado sobre o novo programa, descartando-o rapidamente como uma tática governista para tentar driblar a crise política que se apresentava, a mídia brasileira jogou fora o bebê junto com a água da banheira.”

Os estudantes de Jornalismo precisam conhecer a fundo a dinâmica social O jornalismo – para o bem ou para o mal – é feito por jornalistas. Portanto, boa parte das deficiências na prática da profissão origina-se na formação dos profissionais, nos bancos escolares. “De maneira geral, as faculdades de Jornalismo preparam muito mal o futuro profissional para cobrir os desafios que dizem respeito à agenda social e ambiental do País. O Ministério da Educação já desenvolveu uma proposta de atualização desse currículo – neste momento o texto espera avaliação do Conselho Nacional de Educação. É kafkiano: temos um País historicamente reconhecido pelos níveis absurdos de desigualdade social e pelas dificuldades em encontrar um modelo sustentável de desenvolvimento, mas faze-

mos que os estudantes de Jornalismo permaneçam quatro anos nas salas de aula sem lhes dar a oportunidade de entenderem mais a fundo as dinâmicas que terão que cobrir no mundo real.” É para interferir positivamente neste processo de formação que a Andi desenvolve, há cinco anos, o programa InFormação, que busca contribuir para o tratamento dessas questões no âmbito das instituições de ensino superior. A entidade colabora hoje com várias faculdades de Comunicação que já identificaram este problema, entre as quais as da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de Brasília. Nesta parceria, oferece regularmente um curso online para jornalistas e estudantes de Comunicação com foco no orçamento público, para facilitar uma cobertura mais qualificada nesse aspecto tão crucial para a efetividade de qualquer política pública. TAINÁ FROTA

ampla: a qualidade da educação pública continua sendo um enorme desafio, a exploração sexual está longe de ser eliminada, temos dificuldades graves em lidar com as questões da deficiência e do racismo. Também os indicadores relacionados ao homicídio de adolescentes e jovens no Brasil estão entre os mais altos do mundo.” Se tais problemas constituem uma verdadeira vergonha nacional, quais tipos de contribuição a imprensa pode dar para sua resolução? Em relação à cobertura da mídia impressa brasileira sobre essas temáticas, a Andi tem dados interessantes, registrando avanços expressivos em termos de quantidade e também quanto à qualidade. A realidade de exclusão que segue atingindo milhões de crianças e adolescentes não está ausente das pautas – especialmente da mídia impressa. Há denúncias importantes sendo trazidas à tona pela imprensa e, além disso, são alimentados debates em torno das possíveis soluções para os principais desafios do País. “Por outro lado, as Redações não têm se preparado adequadamente para acompanhar um cenário que se torna mais complexo em função precisamente dos avanços conseguidos pelo País ao longo das últimas duas décadas. Na medida em que as políticas públicas com foco na agenda social passam a dar resultado, o papel da imprensa em acompanhar e ava-

Uma instituição criada para servir ao dever dos jornalistas de informar com qualidade A Andi foi criada por jornalistas para servir aos jornalistas. Com sede em Brasília, conta com a atuação de cerca de 30 colaboradores e se mantém com o apoio financeiro e/ou técnico de entidades e empresas como Unicef, Unesco, Organização Internacional do Trabalho, Fundação Ford, Save the Children, Petrobras, Secretaria de Direitos Humanos e Instituto Camargo Correa, entre outros. Sua missão sempre esteve focada em contribuir para que a mídia possa exercer de forma eficiente o seu papel na construção de um debate plural sobre as questões mais relevantes da agenda social brasileira – isso tanto no sentido de oferecer informação qualificada para a população quanto no de garantir visibilidade para os temas de interesse público, além da sempre fundamental fiscalização do poder público em relação às políticas e aos programas voltados para essas áreas. Na medida em que foi se consolidando como referência junto aos veículos de comunicação para o acesso a insumos qualificados sobre as temáticas da infância e da adolescência, a Andi passou também a diversificar os tipos de serviços que são oferecidos aos jornalistas. Hoje mantém um diálogo muito próximo com as Redações. Por um lado, atende a demandas que vêm dos repórteres que já estão desenvolvendo pautas. Por outro, adota uma abordagem mais pró-ativa: busca as Redações para sugerir temas capazes de gerar boas histórias, disponi-

biliza materiais de aprofundamento sobre determinados assuntos, aponta fontes de informação que podem contribuir para uma maior pluralidade no processo de construção da notícia. “Creio que a grande conquista da Andi, ao longo de sua história, tenha sido contribuir decisivamente para que a sociedade brasileira passasse a entender a comunicação como ferramenta estratégica nos processos de consolidação democrática e desenvolvimento inclusivo. Quando surgiu a entidade, esta idéia era vista, no mínimo, como exótica pelos atores do movimento social – e, por muitos veículos, como uma tentativa de ingerência na autonomia e independência dos meios

Publicado em espanhol e disponível na internet, o livro Pediodismo de Investigación tem 162 páginas e ajuda a explicar o impacto do Concurso Tim Lopes.

Vivarta: A mudança é resultado de um longo processo de reflexão que culminou com a atualização da missão e das linhas de atuação da Andi, reconhecendo avanços que já vinham ocorrendo.

de comunicação. Nessa leitura em perspectiva, é fundamental também destacar os muitos avanços na cobertura das temáticas dos direitos da infância e adolescência pela imprensa do País”, analisa Veet Vivarta. O Secretário da Andi destaca a contribuição dada pela imprensa à agenda dos direitos da infância e adolescência. Um exemplo está no crescimento de mais de 1.000% no número de notícias publicadas a cada ano pelos 50 diários monitorados, nas diversas regiões do País. Em 1996, a Andi computou ao redor de 10.500 notícias sobre os direitos da criança e do adolescente. Ao longo de 2009, os dados ultrapassaram o patamar de 160 mil textos. Outro ponto relevante é que nos primeiros anos de análise os jornais do eixo Rio-São Paulo predominavam na lista dos que mais publicavam sobre estas questões. A partir do ano 2000 – e isto coincide com a criação da Rede Andi Brasil, que hoje reúne organizações atuando articuladamente em nove Estados – esse cenário começa a mudar, com

muitos diários de outras regiões expandindo sua cobertura e ganhando posições de destaque neste ranking. A evolução da imprensa brasileira gera interesse para além de nossas fronteiras, tendo sido um elemento central na decisão de se criar, em 2003, a Rede Andi América Latina, atualmente presente em 12 países. Duas ações da Andi, em especial, chamam a atenção justamente por darem visibilidade às produções que se dedicam às causas defendidas pela entidade: o Jornalista Amigo da Criança e o Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo. O primeiro nasceu com o objetivo de reconhecer publicamente os profissionais que se destacavam por uma cobertura mais regular ou de maior qualidade sobre as temáticas relacionadas aos direitos da infância e da adolescência. Surgiu em 1997 e já reconheceu 364 profissionais de todas as regiões do Brasil e dos mais diversos tipos de veículos. A idéia é oferecer a eles acesso regular a informações diferenciadas, a viagens a campo e a cursos de capacitação. Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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RENOVAÇÃO A AGÊNCIA DA INFÂNCIA É REVISTA E AMPLIADA

“Já o Concurso Tim Lopes surge da idéia de que é possível incentivar a mídia a contribuir de maneira mais articulada para o enfrentamento de um tema específico, de grande importância para os direitos humanos no Brasil – nesse caso, a violência sexual contra crianças e adolescentes. Lamentavelmente, apesar de esforços importantes empreendidos tanto no campo governamental quanto no da sociedade civil e da cooperação internacional, ainda temos aí situação de extrema gravidade, que se manifesta de formas muito perversas: turismo com fins sexuais, exploração sexual nas estradas e no entorno das grandes obras, tráfico de crianças e adolescentes, uso da internet para o assédio... E eventos do porte da Copa do Mundo e das Olimpíadas trazem novos complicadores a esse cenário”, avalia.

Uma análise crítica do modelo brasileiro Desde sua fundação, a Andi tem desenvolvido um trabalho de acompanhamento analítico e crítico sobre a mídia. Na prática, qual a importância desse olhar ‘externo’ sobre a imprensa e em que medida isso contribui para o aprimoramento da prática jornalística? “Considero que esse tipo de trabalho, com perfil de ‘observatório de mídia’, é fundamental por, pelo menos, três aspectos. Em primeiro lugar, o fato de operarmos essas análises aprofundadas e sistemáticas tem como objetivo oferecer insumos para o debate sobre o desempenho da imprensa brasileira enquanto provedora de informação relevante para sociedade – ou seja, informação que pode ser

considerada um bem público e que contribui para a tomada de decisões de maior impacto pelos diversos atores e segmentos sociais.” Um segundo ponto de relevância destacado pelo Secretário é apoiar a necessidade dos jornalistas e dos grupos de comunicação por ferramentas que permitam não só a avaliação de sua produção, mas que também orientem iniciativas de aprimoramento da cobertura. Uma terceira motivação, segue Veet Vivarta, está em proporcionar um diagnóstico acurado para que os atores ligados à agenda social e ambiental – sejam eles do setor governamental ou não – possam entender melhor os limites e méritos da cobertura sobre um determinado tema, se preparando para contribuir de maneira mais efetiva, enquanto fontes de informação, para o processo de construção da notícia. Na raiz de todo este processo – e de boa parte das mazelas da mídia nacional – estão as contradições da organização política dos meios de comunicação no País. Como pensar numa imprensa mais democrática e plural sem que sejam discutidos pontos históricos, como os critérios de concessão de canais de rádio e tv? Esse é, na verdade, um dos tópicos mais importantes do debate atual sobre comunicação no Brasil. Ao que tudo indica, o País avança para o resgate daquilo que um documento recente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento-Pnud e da Organização dos Estados Americanos-OEA, intitulado Nuestra Democracia, aponta como um dos principais déficits democráticos da região: a ausência de um marco regulatório saudável para o campo das comunicações, bem como discutir a utilização

adequada dos crescentes recursos digitais. “Parte do problema deriva do fato de que o Brasil e a maioria de seus vizinhos, até muito recentemente, estiveram sob o jugo de regimes militares, nos quais a liberdade de expressão era totalmente cerceada. O atraso na atualização dos marcos legais e das políticas públicas para o setor de mídia acaba impactando fortemente nossos processos de consolidação democrática. Nos últimos meses, a própria imprensa vem apontando algumas das distorções do sistema brasileiro, como a falta de um órgão regulador independente para a área de comunicação e a posse de empresas de comunicação por políticos que exercem cargos no executivo e no legislativo.”

Muito já feito. E ainda mais por fazer Uma das fundadoras da Andi, a jornalista Âmbar de Barros relembra o contexto de sua criação, no início da década de 1990. “Várias coisas me motivaram neste sentido. O nascimento dos meus filhos, e o contato com as reportagens do meu então marido, Gilberto Dimenstein, também fundador da Andi. Elas traziam denúncias de assassinato de meninos em situação de rua, e a exploração sexual de meninas. Também o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, com que trabalhei, o contato com o Unicef, a ausência total dos temas relacionados a direitos de crianças e jovens na mídia de então, que cobria estes assuntos na editoria de polícia e não de política. Fazer parte do movimento pela aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente também foi fundamental.”

Para ela, a mudança do nome da entidade reflete seu amadurecimento e também o do País, em busca de garantir os direitos humanos a todos os brasileiros e brasileiras. “Levamos, para o nome, o que já estava acontecendo na prática, pois os movimentos sociais, as ongs e os setores governamentais que trabalham com temas relacionados aos direitos de mulheres, índios, negros, gays, nos procuravam pedindo apoio. E nós, embora sobrecarregados, nunca nos furtamos da nossa obrigação de contribuir para tornar o Brasil um País mais justo para todos, em especial para crianças e adolescentes. Mas tudo o que afeta a família e a sociedade também afeta as crianças. Então, colocamos nossa experiência e as ferramentas que desenvolvemos ao longo dos anos a serviço dos mais diferentes movimentos sociais.” Âmbar considera que muitos são os avanços que devem ser creditados à atuação da Andi. “Hoje temos mais denúncias, mais espaço para o tema, para as matérias de educação, sabemos mais e em maior profundidade sobre a necessidade de garantirmos educação de qualidade para todos. Exigimos vacinas, pré-natal, medicamentos. Sabemos da importância da amamentação, da prevenção, acompanhamos melhor a votação de temas sociais relevantes. Enfim, definitivamente, o tema dos direitos conquistou outro patamar. A mídia cobre mais e melhor aquilo que realmente interessa para a qualidade de vida das pessoas. Mas, é claro, isto não basta. Ainda temos muito o que caminhar. E o papel da mídia – de cobrança, de apontar caminhos, de fazer denúncias e de mostrar o que dá certo – é fundamental para avançarmos.”

DIVULGAÇÃO

ORGANIZAÇÃO

Críticos de cinema em toque de reunir Durante a realização do Festival de Cinema de Paulínia, São Paulo, em julho passsado, os críticos de cinema finalmente concretizaram antigo sonho: criar uma associação representativa de âmbito nacional. Após várias reuniões preparatórias, 38 profissionais reunidos na primeira assembléia-geral da nova entidade oficializaram a criação da Associação Brasileira de Críticos de Cinema-Abraccine. “Trata-se de uma iniciativa histórica, pois esta é a primeira entidade nacional a reunir os críticos de cinema do Brasil”, informa Luiz Zanin Oricchio, crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo, eleito o primeiro presidente da Abraccine para o biênio 2011/2012. Existem há vários anos algumas poucas entidades de críticos com representatividade estadual, mas a Abraccine é a pioneira com abrangência 34 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

A primeira diretoria da Abraccine para o biênio 2011/2012: de pé, da esquerda para a direita, Marco Antonio Moreira Carvalho, Luiz Joaquim, Neusa Barbosa, Marcos Santuário e João Nunes. Sentados, Paulo Henrique Silva, João Sampaio, Luiz Zanin, Ivonete Pinto e Marcelo Miranda.

nacional. Ela nasce com o objetivo de reunir e congregar os profissionais da crítica cinematográfica em todo o País, promovendo as diversas formas de pensamento crítico, reflexão e debate sobre o Cinema. A ênfase consiste em contribuir para a elevação da análise crítica cinematográfica no Brasil.

A primeira diretoria eleita traz críticos de oito Estados e é composta pelos seguintes nomes: Luiz Zanin Oricchio, Presidente, SP; Ivonete Pinto, Vice-Presidente, RS; João Nunes, Secretário-Geral, Campinas, SP; João Sampaio, Secretário, BA; Paulo Henrique Silva, 1º Tesoureiro, MG;

Marcelo Miranda, 2º Tesoureiro, MG. Conselho Fiscal – Titulares:: Carlos Heli de Almeida, RJ; Marco Antônio Carvalho,PA; Luiz Joaquim da Silva Júnior, PE; Suplentes: Marcos Santuário, RS; Neusa Barbosa, SP; Carlos Eduardo Lourenço Jorge, PR.


ENIGMAS FOTO MARCOS STEFANO. MONTAGEM DE ARTE FRANCISCO UCHA

‘‘H

itler não morreu?” “Fugiu num submarino?” “Foi para a Argentina?” Carlos De Nápoli já perdeu a conta de quantas vezes lhe fizeram essas perguntas nos últimos anos. Oficialmente, diz-se que na tarde do dia 30 de abril de 1945 Adolf Hitler teria se despedido das pessoas mais próximas e se trancado com Eva Braun, a mulher com quem se casou na véspera, em seus aposentos. O clima transpirava tensão no bunker erguido seis metros abaixo da Chancelaria do Terceiro Reich, em Berlim, capital da Alemanha, onde o Führer e seus mais próximos escudeiros estavam abrigados nos últimos cem dias. Por volta das 15h50min, o barulho de um tiro ecoou pelo ambiente. Quando os soldados conseguiram abrir a porta, encontraram o corpo de Hitler estirado no chão. Morto com um tiro na cabeça e uma pistola nas mãos. Ao lado, Eva também jazia sem vida após ter ingerido uma cápsula de cianureto dada pelo companheiro. Não houve tempo para mais nada. Bombardeado pelos soviéticos, o local teve que ser abandonado às pressas. Poucos dias depois, a KGB teria chegado. Lá encontrou os corpos de Josef Goebbels, de sua esposa Magda e de seus filhos, de Hitler e de Eva Braun. Um relato convincente, não fossem as muitas discrepâncias e contradições apresentadas por quem teria presenciado algum destes momentos. E também se, em 2009, os principais troféus de guerra que os russos ainda guardavam como sendo de Hitler – parte da arcada dentária e um fragmento do crânio – não se mostrassem provas falsas. Com tudo isso, teorias como a de que o líder nazista não morreu na Alemanha, mas fugiu para a Espanha, Japão ou mesmo Patagônia argentina deixaram de ser “conspiração” ou “devaneio” para se tornarem ainda mais críveis do que a própria idéia do suicídio. “Não sei se Hitler fugiu para a Argentina. Sou uma pessoa que trabalha com história e com provas. Não há cadáveres, testemunhas ou fatos incontroversos. Certo mesmo é que muitos criminosos nazistas conhecidos fugiram para a América do Sul com o fim da guerra. Submarinos chegaram a Mar Del Plata. Quem estava neles ainda permanece um mistério”, diz De Nápoli. Jornalista, historiador e escritor, há mais de 30 anos ele divide seu tempo entre negócios agropecuários e investigações. Já colaborou como assessor histórico na produção de documentários para o canal pago History Channel e lançou diversos livros sobre os mais inquietantes temas. O último, Ultramar Sul (Civilização Brasileira), conta a história daquela que teria sido a última operação secreta do Terceiro Reich: a fuga submarina de dirigentes nazistas para a Argentina. Nesse caminho, o ataque e o afundamento do cruzador brasileiro Bahia, um incidente que a Marinha, décadas depois, ainda prefere tratar como um acidente provocado por uma sucessão de imperícias de seus tripulantes. Em entrevista exclusiva ao Jornal da ABI, o escritor argentino falou sobre esses polêmicos assuntos e quais interesses estariam em jogo para repetir mentiras até virarem verdades ao longo do tempo. Também analisou o atual momento do jornalismo investigativo latino-americano e a tensão que atravessa a imprensa argentina em sua relação com o Governo Christina Kirchner.

Jornalista argentino está reescrevendo a História Também escritor e empresário, que financia suas pesquisas com a receita de seus negócios agropecuários, CARLOS DE NÁPOLI desvenda a nebulosa fuga de submarinos nazistas para a Argentina no fim da Segunda Guerra, o afundamento do cruzador brasileiro Bahia em águas da América do Sul, os últimos dias de Hitler e da cúpula do nazismo, a fuga de Josef Mengele para países sul-americanos, incluído o Brasil, o colaboracionismo do Governo Perón com os nazistas. De quebra, fala sobre as tumultuadas relações entre a grande mídia argentina e o Governo Christina Kirchner. P OR M ARCOS S TEFANO T RADUÇÃO DE C INTIA TUNES

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ENIGMAS JORNALISTA ARGENTINO ESTÁ REESCREVENDO A HISTÓRIA

“A operação Ultramar Sul foi concebida para permitir a fuga de Hitler e de altos oficiais para a Argentina. Não saiu totalmente como planejada, mas aqueles que escaparam atravessaram o Atlântico com o conhecimento e a autorização das nações Aliadas”, diz De Nápoli. JORNAL DA ABI – ULTRAMAR SUL REVELA A FUGA ARGENTINA E, NESSA JORNADA, O AFUNDAMENTO DO CRUZADOR BAHIA. HÁ ALGUMA EVIDÊNCIA DE QUE ADOLF HITLER ESTAVA NESSA OPERAÇÃO?

perseguição feita por outro navio, o torpedeiro Babitonga, aos U-Bootes com a guerra já terminada, confirma a incursão desses submarinos em águas brasileiras, ao final da guerra. E documentos a que tivemos acesso, como a manifestação de pesar que o Presidente Getúlio Vargas enviou aos familiares das vítimas, deixam claro que o Bahia foi atacado.

SUBMARINA DE DIRIGENTES NAZISTAS PARA A

Carlos De Nápoli – Não acredito que Hitler e seus próximos conseguiram cruzar o Atlântico anônimos em apertados submarinos U-Boote. Mas não podemos afirmar com toda certeza que ele morreu em Berlim. Ou negar que essa última operação secreta do Terceiro Reich foi concebida justamente para que o Führer e outros altos oficiais nazistas pudessem escapar. De que se trata a Ultramar Sul? Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, um comboio de submarinos alemães partiu da Noruega com destino à Argentina, mais especificamente à Patagônia. Sabemos de pelo menos seis que fizeram esse trajeto, levando nazistas e seus aliados. Nessa fuga, deixaram um rastro de sangue, afundando cinco navios e matando mais de 400 pessoas. Entre essas embarcações, uma corveta em águas norte-americanas e depois o cruzador Bahia, na maior tragédia naval da História brasileira. Conseguimos depoimentos de testemunhas e documentos, alguns secretos, que confirmam tudo isso. Um dos submarinos, por exemplo, entregou-se ao chegar à costa de Mar Del Plata. Outros dois continuaram sua viagem até o Sul, diante de centenas de testemunhas. Um mês depois, outro submarino se entregou. No litoral, há evidências de submarinos afundados, verdadeiros sarcófagos no fundo do mar. Quem estava neles? Quem desembarcou nas praias de Miramar ou Mar Del Sur poucas horas antes da rendição? Em Londres e Washington, os marinheiros que estavam a bordo dos submarinos que se entregaram foram submetidos a extenuantes interrogatórios. Mas estes relatórios foram considerados como top secret. No caso britânico, uma classificação mantida há 75 anos. Qual seria o teor inconfessável que os faria encobrir esses documentos há tanto tempo e justificar isso como “razão de Estado”? JORNAL DA ABI – ATRAVESSAR UM OCEANO TÃO BEM PATRULHADO AO FINAL DA GUERRA SEM O

ESTADOS UNIDOS E DA INGLATERRA TAMBÉM PARECE UM POUCO DIFÍCIL.

CONHECIMENTO DOS

De Nápoli - Até impossível, eu diria. O que revela que houve consentimento do almirantado britânico e norte-americano, além de cumplicidade da Marinha argentina, que encobriu o fato. Mesmo no Brasil, contra todas as evidências de que o Bahia foi torpedeado, o afundamento do cruzador ainda é tratado como acidente. Resultado de uma série de negligências e sandices, que teriam feito com que um tripulante desconhecido do próprio cruzador disparasse contra o paiol que armazenava, na popa, as cargas de profundidade, supostamente imunes aos disparos de armas de fogo. Uma versão que ofende a memória do comandante Garcia D’Ávila e seus homens, que não morreram por serem incapazes e incompetentes, mas por causa de um ataque pérfido e traiçoeiro. A

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JORNAL DA ABI – POR QUE ESSE ACOBERTAMENTO? E DEPOIS, POR QUE TANTO SEGREDO E DURANTE TANTO TEMPO?

De Nápoli - A operação ficou encoberta pelos Aliados porque era necessário deixar claro que a guerra já havia terminado. Todos tinham horror somente em pensar na figura de Hitler, quanto mais suspeitar que ele e outros altos oficiais nazistas estivessem vivos e que poderiam voltar. Para a imagem dos países Aliados era fundamental a vitória total, como o foi quando chegaram primeiro na Lua. Na prática, as coisas eram diferentes. A Segunda Guerra já havia terminado. Hitler já não era mais o inimigo. A briga voltava a ser contra a União Soviética, que era comunista e só tinha se fortalecido. Para os Estados Unidos, um desafio muito mais importante do que a guerra contra a Alemanha. O alvo é Stálin e há uma intensa disputa por armas, territórios e conhecimentos de guerra, principalmente dos alemães. Assim, torna-se importante negociar com os nazistas. Diferentemente do que alguns pensam, para os britânicos também. Quando foi derrotado em Stalingrado, Hitler não somente não conseguiu ter acesso às grandes jazidas de petróleo do Cáucaso. Viu a Wehrmacht ficar à beira da paralisia e contemplar o Exército Vermelho avançar de forma incontrolável. Winston Churchill também tinha essa preocupação. Internamente precisava controlar as tendências socialistas daquilo que chamava de “populacho” inglês. No plano externo, evitar que a União Soviética controlasse todo o Continente. E reconheceu isso em A Segunda Guerra Mundial, obra pela qual ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 1957. JORNAL DA ABI – PARECE UM ABSURDO QUE SOA QUASE COMO “INJUSTO”.

De Nápoli - Sim, mas foi a política da época. Várias das grandes empresas alemãs encontram-se nas mãos de descendentes de nazistas. Um dos mais importantes laboratórios do país é controlado pela neta de Magda Behrend, mulher de Josef Goebbels. Por que suas riquezas não foram confiscadas? Porque as potências Ocidentais precisavam do apoio alemão para conter a União Soviética. Hoje, a luta dos historiadores é por acabar com mitos e estabelecer essas verdades. Mas é muito difícil lutar contra a História oficial, estabelecida como dogma ao longo de 60 ou 70 anos. JORNAL DA ABI – COM TANTO SEGREDO, NÃO DEVE TER SIDO FÁCIL ESCREVER ULTRAMAR SUL. COMO FOI O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO LIVRO?

De Nápoli - Eu e Juan Salinas gastamos mais ou menos um ano e meio no processo de confecção do livro. Mas a obra é resultado de mais de 30 anos de pesquisas. E continua sendo ampliada em estudos, entrevistas e viagens pela América do Sul e pela Europa. Tenho documentos inéditos sobre a presença nazista na Argentina, coisas que nunca foram publicadas e deverão virar outras obras ou ser divulga-

das em sites na internet. Alguns dos mais recentes dizem respeito a Josef Mengele, o médico que fazia experimentos com seres humanos em Auschwitz e que recebeu o apelido de “anjo da morte”. Na Alemanha, seu pai era dono de uma das maiores fábricas de maquinaria agrícola do país. Também foi sócio de um importante laboratório farmacêutico. Quando Mengele deixa a Alemanha, passa suas ações a sócios e testas-de-ferro. Ao chegar a Argentina, ele traz consigo uma riqueza avaliada em cem milhões de dólares. E usa os mesmos esquemas, com sócios laranjas e testas-de-ferro. Sabemos disso por causa de Estatutos de Conformação de Sociedades, aos quais tivemos acesso. Porém, aqui no Brasil Mengele viveu em um bairro bastante humilde, na periferia de São Paulo. Como explicar isso, senão porque tinha muitos problemas com seu nome e que o impediam de ter acesso ao dinheiro? Basta lembrar que, em 1960, um comando do Mossad, o serviço secreto israelense, seqüestrou Adolf Eichmann, principal executor da “solução final”, o extermínio de milhões de judeus em campos de morte, e o levou para Jerusalém, onde foi julgado e enforcado. Depois disso, Mengele foge para o Paraguai e, de lá, para o Brasil, onde morre em 1979. JORNAL DA ABI – É NOTÓRIO, E UM POUCO EMBARAÇOSO, QUE O GOVERNO PERÓN FOI O GRANDE APOIADOR DO EIXO NA AMÉRICA DO SUL. QUANTOS CRIMINOSOS NAZISTAS TERIAM VINDO AO PAÍS POR CONTA DESSA POLÍTICA?

De Nápoli - Cerca de cinco mil pessoas. As relações de Juan Domingo Perón e de parte dos oficiais das Forças Armadas argentinas com o nazifascismo começam ainda nos anos 1930. Os militares acreditavam na vitória do Eixo e sonhavam construir um bloco sul-americano liderado pela Argentina e aliados do Terceiro Reich. Se fosse preciso, organizando golpes de estado em outros países. Por outro lado, os nazistas viam a Patagônia e Bariloche como ótimos lugares de refúgio. A relação era tão estreita que somente um mês antes do suposto suicídio de Hitler a Argentina declarou guerra à Alemanha. Foi um esquema enorme, que também envolveu o Vaticano e até a Cruz Vermelha. Mas é necessário entender que não foi somente para a Argentina que os nazistas fugiram. Perón tentava trazer ao país cientistas, mas a maioria ia para outras nações, como Estados Unidos e União Soviética. JORNAL DA ABI – ADOLF HITLER SE SUICIDOU EM BERLIM, EM 1945, OU TAMBÉM FUGIU PARA A

xo do solo onde funcionava a Chancelaria. Primeiro, acharam os cadáveres dos filhos de Goebbels. Depois, do próprio casal Goebbels. Por fim, carbonizados, os de Hitler e Braun. Os restos mortais teriam sido incinerados em 1970 pelos soviéticos, só restando o suposto crânio do Führer. Uma história que se mostrou bastante fantasiosa e perdeu muita credibilidade ao longo do tempo. JORNAL DA ABI – POR QUE VOCÊ ACHA QUE PERDEU CREDIBILIDADE?

De Nápoli - Bem, começando por suas fontes. O principal responsável por sua popularização foi um livro escrito pelo major e historiador britânico Hugh Trevor-Roper, em 1947: Os Últimos Dias de Hitler. A história desse livro é bastante nebulosa. Com a rendição alemã, Stálin expressava a qualquer um que quisesse escutá-lo suas veementes suspeitas de que Churchill teria facilitado a fuga de Hitler e que o líder nazista poderia estar na Espanha, no Japão ou até na Argentina. Claro, com isso, queria persuadir os Aliados a continuarem unidos na luta contra o Japão e, depois, desestabilizá-los. Mas como não havia provas para contradizê-lo, o primeiro-ministro da Inglaterra mandou urdir um relato “calaa-boca”. Trevor-Roper foi impedido de entrevistar os principais colaboradores de Hitler, que estavam detidos pelos soviéticos. Assim, redigiu seu informe com base num único depoimento de importância. É bom lembrar que, quase quatro décadas depois, em 1983, o mesmo autor certificou a autenticidade de uns diários íntimos de Hitler, num episódio que acabou sendo a maior fraude cometida contra os veículos de imprensa em toda a história. JORNAL DA ABI – MAS ESSA VERSÃO NÃO FOI KGB, O SERVIÇO SECRETO SOVIÉTICO?

CONFIRMADA PELA PRÓPRIA

De Nápoli - Sim, os registros abertos em 1992 confirmaram essa versão. Mas é bom esclarecer que as tais testemunhas da incineração dos cadáveres deram declarações bastante discrepantes da História. Mas o que a fez perder a credibilidade foi a descoberta, em setembro de 2009, de que o tal crânio que seria o de Hitler era, na verdade, de uma mulher entre 20 e 40 anos. Não poderia ser de Braun, pois nunca houve qualquer rumor de que ela houvesse disparado o tal tiro. Mas não foi a partir dos suicídios que esses relatos soam estranhos. Dizer que Hitler passou todos aqueles meses decisivos em Berlim provoca dúvidas. Ele odiava a cidade e a evitou por toda a vida.

ARGENTINA?

De Nápoli - Há defensores para as duas teorias. Como disse, acho difícil, por causa das evidências, ele ter vindo para a Argentina. Mas a versão mais aceita de seu suicídio também é bastante discutível. Duvido de muita coisa porque sou um historiador e não tenho nenhuma prova. Nunca apareceu o cadáver. A versão mais divulgada diz que em 30 de abril de 1945 ele se trancou em seus aposentos com Eva Braun, a mulher com quem se casou na véspera. Depois de ouvir um tiro, os soldados entraram no local e encontraram o líder morto, caído no chão com um tiro na cabeça e uma pistola nas mãos. A mulher também estava morta. Tinha tomado cianureto. Quando ficaram sabendo do ocorrido, os soviéticos revistaram o bunker, em Berlim, seis metros abai-

JORNAL DA ABI – NÃO SERIA NATURAL ELE ESTAR NA SEDE DO PODER, DE ONDE PUDESSE COMANDAR OS DESTINOS DO PAÍS?

De Nápoli - De forma alguma. Considerava que na cidade havia comunistas e não gostava daquele lugar. Esteve poucas vezes por lá. Em Berlim funcionava um palácio, mas seguramente Hitler pisou poucas vezes nele. Sua residência oficial ficava em Obersalzberg, na Bavária, cidade bastante próxima a Munique e à fronteira com a Áustria. Mas nos últimos tempos ele não esteve na cidade e, sim, próximo a Berchtesgaden, mais precisamente na montanha de Kehlstein. Ali funcionava o fantástico Ninho da Águia, uma fortaleza escavada na rocha. Hoje, há um museu no local. É como se fizessem uma enorme moradia, cheia de túneis, dentro do Pão de


tava do outro lado, o Clarín tinha apoio do Governo. Toda essa confusão existe porque as coisas não são feitas às claras, de modo mais transparente. Os dois lados precisam se expor de forma mais clara.

Dois oficiais nazistas envolvidos na Ultramar Sul: Karl Dönitz (ao lado) substituiu Hitler e deu início à Operação; Heinz Schäffer é o principal suspeito de ter afundado o Cruzador Bahia.

JORNAL DA ABI – O SENHOR TAMBÉM DISSE QUE ESTÁ TRABALHANDO AGORA EM UM DOCUMENTÁRIO PARA A TELEVISÃO. PODE FALAR UM POUCO MAIS SOBRE ESSE PROJETO?

De Nápoli - Recentemente, estreou um documentário que produzi, mas focalizando a hipótese da fuga de Hitler. Agora, estou preparando outro, sobre o naufrágio do cruzador Bahia. Será uma produção cara. Queremos ir ao local e descer com um minissubmarino equipado com diversas câmeras para mostrar como está o navio e tentar encontrar as avarias, de repente, os locais no casco em que os torpedos o atingiram. Reconstituir essa história não será fácil e custará milhões de dólares. Temos de fechar acordos comerciais e ter empresas apoiando para que seja uma produção bem feita, com efeitos especiais e reconstituição à altura. Estou com 61 anos e acredito que seja minha última grande produção.

Açúcar. Lugar estratégico, que dava extrema proteção e que facilitava uma fuga. JORNAL DA ABI – ALÉM DE ESCREVER LIVROS, O NÃO PENSA EM DI-

SENHOR JÁ FOI JORNALISTA.

VULGAR AS NOVAS DESCOBERTAS NA FORMA DE REPORTAGENS EM JORNAIS E REVISTAS?

De Nápoli - Escrevi para algumas das principais publicações argentinas, como a revista Caras y Caretas e os jornais Clarín e La Nación, mas hoje não tenho mais tempo. Sou produtor agropecuário, especialista em biocombustíveis e viajo o mundo realizando investigações para livros e documentários, atividade que me realiza e uma grande paixão da minha vida. O principal motivo de não escrever mais para periódicos é a falta de tempo. Sempre me pedem matérias, artigos, tanto na Argentina quanto na Espanha e na Alemanha, mas recuso. Para fazê-los teria de parar uma semana e interromper outra produção custosa. Como historiador e jornalista, continuo o trabalho investigativo, mas agora para essas produções maiores, que demandam tempo. E nisso a tecnologia me ajudou demais. Pela internet consigo acompanhar e administrar minhas fazendas mesmo à distância. Não posso descuidar dessa parte, pois faço as viagens muitas vezes com recursos próprios. Mas não é apenas dessa maneira que a internet mudou a forma de se fazer jornalismo invesgativo na área de História. JORNAL DA ABI – QUAIS OUTRAS MUDANÇAS ELA TROUXE?

De Nápoli - Agora, é muito mais fácil estabelecer redes de contatos e encontrar fontes. Na maioria das vezes, as pessoas mesmo te procuram, o que aumenta demais as possibilidades de investigação. Por isso, sempre deixo um e-mail meu disponível. Pessoas que conheceram alguém ou sabem de alguma coisa lêem os livros e entram em contato comigo. Antes, se alguém de outro país queria fazer isso, precisava mandar uma carta. Gastava-se um tempo absurdo e havia pouco retorno. Agora, o feedback é imediato. Muita gente apenas elogia o trabalho, lembra que tudo “é como o avô sempre contava”. Mas outros dão informações valiosas. Há algum tempo, um ex-sócio de Mengele me escreveu. Travei contato com ele e, dessa maneira, consegui reconstituir de forma mais detalhada os negócios e a trajetória do médico na Argentina e no Paraguai. Inclusive, como se deu todo o processo de divórcio com uma de suas esposas na Alemanha, Irene Schoenbein. Quando você se dedica a qualquer tipo de investigação, seja histórica, econômica ou política, precisa de tempo. Tempo para montar uma rede de contatos. A internet ampliou o alcance dessa rede. Hoje, tenho diversos contatos no Uruguai, na Espanha, na Alemanha e nos Estados Unidos, com quem troco informações constantemente. JORNAL DA ABI – NOS ÚLTIMOS TEMPOS, CADA VEZ MAIS JORNALISTAS ESTÃO LANÇANDO LIVROS

JORNAL DA ABI – ESTÁ TRABALHANDO EM ALGUM NOVO LIVRO?

COM REPORTAGENS INVESTIGATIVAS. O FUTURO DESSE TIPO DE JORNALISMO PODE ESTAR AÍ?

De Nápoli - Não tenho dúvidas de que é uma excelente porta que se abre cada vez mais para o trabalho investigativo. Mas acho que depende do trabalho e da sua complexidade, pois jornais e revistas ainda continuam o espaço do jornalismo investigativo por excelência. Em trabalhos mais complexos, como esses assuntos de cunho histórico, o problema maior é a urgência, o valor pago e o espaço que podem te dar. Uma página? No máximo duas? É pouco. Mas vários assuntos podem ser publicados em partes, numa série. Assim, foi feito o melhor do jornalismo investigativo argentino. Como a repressão bárbara contra os apoiadores de Perón, deposto em 1955. Numa noite de junho de 1956, 12 homens que nada sabiam a respeito do assunto foram surpreendidos enquanto acompanhavam uma luta de boxe pelo rádio. De madrugada, acabaram brutalmente fuzilados. Esse abuso foi denunciado pelo jornalista Rodolfo Walsh, no livro Operação Massacre (publicado no Brasil pela Companhia das Letras). A obra foi lançada em 1957, mas a história foi contada antes, numa série em veículos menores da imprensa. É um dos picos do jornalismo investigativo, talvez em sua fase áurea, na Argentina. JORNAL DA ABI – DESDE O ANO PASSADO A GRANDE ARGENTINA ENFRENTA UMA BATALHA CONTRA O GOVERNO KIRCHNER. NO CENTRO DESSA BATALHA ESTÁ UMA FÁBRICA DE PAPEL-JORNAL. COMO ESTÁ A QUESTÃO?

IMPRENSA DA

De Nápoli -É uma queda de braço entre o Governo de Cristina Kirchner e os dois maiores jornais da Argentina, o Clarín e o La Nación. Os dois juntos têm a maior parte das ações da Papel Prensa, que produz 76% do papel-jornal consumido no país. Kirchner diz que os veículos usam esse poder para conceder a si próprios maiores descontos na compra de papel-

jornal e tenta aprovar uma lei que garante o controle estatal da empresa. O nível de discussão tem baixado demais. Autoridades acusam os jornais de ter forçado a antiga proprietária, a família Graiver, a assinar a venda da empresa. Também estaria fomentando protestos de sindicalistas para atrapalhar a distribuição dos periódicos. É uma situação tensa, complicada. E os veículos reclamam, com razão, de um aumento desproporcional do controle do Estado sobre a imprensa. JORNAL DA ABI – A LIBERDADE DE IMPRENSA ESTÁ EM RISCO?

De Nápoli - Continua existindo liberdade de imprensa. Mas quem não está alinhado com o Governo sofre duras represálias. O ex-Presidente Néstor Kirchner, que até sua morte em outubro passado mandava e desmandava na administração da mulher, iniciou uma campanha para convencer a opinião pública de que a dona do Clárin, Ernestina Herrera de Noble, estava por trás do seqüestro de bebês durante a ditadura. Dois de seus filhos adotivos, inclusive, seriam filhos biológicos de casais torturados e assassinados pelo regime militar. Só que exames de dna desmentiram essas acusações. Já seus aliados ganham novas concessões e financiamentos, fortalecendo a estrutura governamental de comunicação. Tanto jornais quanto canais de tv críticos ao Governo são perseguidos. Profissionais enfrentam problemas de escutas telefônicas, muitos sofrem campanhas de difamação para perderem a credibilidade, há cortes de publicidade oficial, piquetes de sindicatos aliados do Governo nas portas das gráficas para impedir que exemplares das publicações saiam das oficinas e investigações sem justificativa da Afip, a Receita Federal de lá. A situação é muito tensa e diversos jornalistas diminuem o tom com medo de perder o emprego. Nessa história não há santo. Quando es-

De Nápoli - Em alguns. Mas o que está mais avançado é sobre Richard Walther Darré, que foi Ministro da Alimentação e da Agricultura do Reich, entre 1933 e 1942. Nascido na Argentina, em 1895, ele foi cedo para a Alemanha, onde se tornou o principal ideólogo das idéias raciais de Hitler. Foi uma espécie de “pai” do Holocausto, a principal voz a dizer que era preciso salvar a pureza da raça ariana nórdica e que todos os demais deveriam ser mortos. Nesse processo, transforma-se também num dos mentores da SS, a força de elite do nazismo. Darré orquestrou a formação da Oficina Principal para a Raça e o Reassentamento, a RUCHA, que passou a impor as características que os candidatos à SS deveriam ter para fazer parte da força. Na genealogia da pessoa não poderia haver qualquer mistura com sangue não-germânico. Para se casar com os escolhidos, as mulheres também teriam de ser puras e não podiam ter enfermidades transmissíveis ou defeitos. Todas essas regras acabam criando o principal corpo armado do Führer, o Estandarte Adolf Hitler, com os melhores artilheiros e as tropas de elite mais bem preparadas e com maiores privilégios. Em 1942, Darré tem uma suposta divergência por conta da diminuição das cotas de ração nos campos de trabalho. Aproveitando que estaria enfermo, pede demissão. Na verdade, o que mostro no livro é que todo esse jogo não passou de encenação. Ele havia recebido ordens de Hitler para começar a preparar o projeto de fuga para a Argentina. O homem possuía campos e estâncias gigantescas no país. Nesses lugares, localizados principalmente em Córdoba e Bariloche, os nazistas encontraram um abrigo seguro. Nesse livro, ainda pretendo desvendar algumas das ligações obscuras e associações que o nazismo mantinha com poderosos. Poucos sabem, mas quem desenhou o uniforme negro das SS, ainda em 1929, foi a empresa de Hugo Boss, famosa hoje por suas marcas de perfumes e de roupa de alto nível. Naquela época, o próprio Boss havia se associado a Hitler e se tornado um de seus colaboradores. Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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DOCUMENTÁRIO FOTOS: DIVULGAÇÃO

Roberto Marinho teve que assumir a direção de O Globo inesperadamente e passou a ter contato com todas as etapas de produção do jornal, incluindo a linotipo, nos anos 1930.

Roberto Marinho, num dvd sem apologia nem censura A série criada por Fernando Barbosa Lima e Rozane Braga mostra em 85 minutos os momentos mais expressivos da vida e da obra do criador do maior império de comunicação do País. POR C ELSO S ABADIN Depois de Barbosa Lima Sobrinho, Tancredo Neves, José Sarney, Ziraldo, Darcy Ribeiro e Sérgio Cabral, a FBL Criação e Produção lança agora um documentário de longa metragem sobre o empresário e jornalista Roberto Marinho. Intitulado Roberto Marinho, o Senhor do Seu Tempo, trata-se do sétimo volume da coleção Os Grandes Brasileiros, série de dvds que homenageia e documenta a trajetória e as obras de nomes importantes da vida nacional. Com 85 minutos de duração, o dvd alcança satisfatório nível de isenção, sem concessões a qualquer forma de apologia do retratado, nem a ataques inspirados por considerações de ordem política. O documentário procura registrar, em detalhes, a trajetória deste que foi (e de certa maneira ainda é) um dos nomes mais instigantes da História da mídia brasileira, tanto pelo seu empreendedorismo, como pelos desafetos que conquistou durante as décadas que esteve à frente do maior conglomerado de comunicação do País. O filme aborda a história de Roberto Marinho desde o início de sua vida profissional, quando assume o jornal O Globo apenas três semanas após a sua fundação, em virtude da morte do pai, Irineu Marinho. 38 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

Mostra também os históricos embates políticos que ele manteve com Getúlio Vargas, Leonel Brizola e Carlos Lacerda, além, evidentemente, de analisar o pioneirismo e a forte atuação de Marinho no comando da Rede Globo, sem deixar de lado temas polêmicos, como o comentado acordo com o grupo Time-Life para a implantação da TV Globo, suas relações com os governos militares, a omissão no movimento Diretas Já e a famosa edição tendenciosa do Jornal Nacional para o debate entre Collor e Lula no final da campanha eleitoral de 1989. A vida pessoal de Roberto Marinho, morto em 2003, também faz parte do registro. Imagens inéditas mostram seu mordomo Edgar Peixoto, comandando um tour pela casa que Marinho morava em Cosme Velho, exibindo detalhes do quarto do empresário/jornalista, suas obras de arte, seu fardão da Academia Brasileira de Letras e seus objetos pessoais, que continuam intactos, como foram deixados no momento de sua morte. As paixões de Roberto Marinho também estão no documentário: além de sua história de amor com Lily Marinho, são mostradas a sua admiração pelos cavalos, o Cassino da Urca e a boemia. O filme traz depoimentos inéditos dos filhos Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho, além de trechos de um vídeo

No dvd, extras com um tour pela casa do Cosme Velho, onde Roberto Marinho morava.

raro, em que o próprio Roberto Marinho narra, emocionado, a morte do pai. Depoimentos de personalidades políticas (Brizola, Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Lula) e saborosas histórias de bastidores ajudam a compor este perfil audiovisual sobre o homem e o mito.

O lançamento do dvd deu-se no dia 8 de agosto em ato no Palácio da Cidade, sede da Prefeitura do Rio, com a presença do Governador do Estado Sérgio Cabral, do Prefeito Eduardo Paes e de inúmeros membros da Academia Brasileira de Letras, de que Marinho foi membro.


Brasil, país sem memória. Ainda? Durante décadas nos acostumamos com o jargão de que “o Brasil é um país sem memória”. E talvez, durante estas mesmas décadas, esta idéia tivesse sido realmente a expressão da verdade. Porém, muita coisa mudou e continua mudando, principalmente graças a uma recémdescoberta vocação cinematográfica brasileira de produzir documentários sobre personalidades marcantes da nossa cultura. Apenas num primeiro e superficial levantamento, nomes como Caetano Veloso, Wilson Simonal, Ademir da Guia, Cartola, Henfil e seus irmãos, Maria Betânia, Humberto Teixeira, José Lins do Rego, Dorival Caymmi, Carlos Drummond de Andrade, Chacrinha, Gláuber Rocha, Jânio Quadros, Paulo Francis e tantos outros foram documentados em produções recentes que, em maior ou menor escala, chegaram às nossas telas de cinema. A coleção de dvds Os Grandes Brasileiros, desenvolvida pela FBL Criação e Produção, se insere neste esforço de tirar do País a pecha de “desmemoriado”. O objetivo “é resgatar a memória nacional através de documentários”, afirma Rozane Braga, fundadora da produtora ao lado de Fernando Barbosa Lima, seu marido, falecido em 2008. Não são filmes que passaram no cinema, tampouco encontrados na videolocadora da esquina, mas todos os títulos foram distribuídos gratuitamente para universidades, bibliotecas e centros culturais. Até o momento, foram sete: Barbosa Lima Sobrinho, Cidadão do Brasil; Tancredo Neves, Mensageiro da Liberdade; Ziraldo, O Eterno Menino Maluquinho; Darcy Ribeiro, O Guerreiro Sonhador; Sergio Cabral, A Cara do Rio; José Sarney, Um Nome na História; e o recém-lançado

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Sergio Cabral, ao lado de Martinho da Vila durante gravação de seu documentário, e Ziraldo, imitando seu personagem maluquinho: o espírito carioca e o jeito mineiro presentes na coleção.

Roberto Marinho, O Senhor do Seu Tempo. Como se percebe, a série não segue nenhuma orientação política ou partidária. Afinal, que coleção com este viés colocaria, lado a lado, nomes como Ziraldo e José Sarney? Rozane Braga explica que “os homenageados são de diferentes esferas da vida brasileira, e a curadoria

Os primeiros sete brasileiros BARBOSA LIMA SOBRINHO CIDADÃO DO BRASIL

O documentário traz material inédito e depoimentos com personalidades da imprensa e da política. Foram editadas também mais de 30 horas de gravações, entre depoimentos, entrevistas e participações em programas de tv. O dvd é dividido em quatro partes: O Século de Barbosa Lima Sobrinho, relacionando sua vida com os acontecimentos da época; Depoimentos; A Avenida, sobre o carnaval de 1999, que homenageou o jornalista; e O Centro de Cidadania Barbosa Lima Sobrinho, da Uerj. Com duas horas de duração, o filme é apresentado por Fernanda Montenegro.

TANCREDO NEVES MENSAGEIRO DA LIBERDADE

Enfoca a trajetória política de Tancredo, desde sua atuação como vereador em São João Del Rey, até sua eleição indireta como o primeiro Presidente civil pós militar. Traz imagens e depoimentos inéditos e está dividido em duas partes: A Vida Política de Tancredo Neves; e Depoimentos de parentes e amigos. 90 minutos de duração.

JOSÉ SARNEY UM NOME NA HISTÓRIA

Darcy Ribeiro foi documentado em suas diversas faces: do antropólogo ao educador, do escritor ao político, um apaixonado pelo Brasil.

dos nomes foi feita através de uma pesquisa qualitativa que a empresa Sample Estudos Mercadológicos realizou com formadores de opinião”. A produção da série começou em 2000, com a morte do jornalista, historiador e advogado Barbosa Lima Sobrinho, pai de Fernando Barbosa Lima. “Tí-

nhamos medo de que a importância dele se diluísse ao longo dos anos, e resolvemos fazer então um documentário”, conta Rozane. “A idéia evoluiu para deixar um legado às próximas gerações, mostrar às nossas crianças quem foram os nossos heróis”. Bem recebida, a iniciativa que nasceu da necessidade de um registro histórico-familiar ganhou vulto e já tem programados os próximos documentários da coleção: Cândido Portinari e Fernando Henrique Cardoso.

Documentação da carreira política e intelectual de Sarney, desde a eleição para o governo do Maranhão, aos 35 anos, passando pela posse como Presidente, após a morte de Tancredo, a Constituição de 1988 e o Plano Cruzado.

ZIRALDO O ETERNO MENINO MALUQUINHO

Produzido em 2007, aproveitando a comemoração dos 75 anos de Ziraldo e dos 25 do Menino Maluquinho. Tem narração do ator José Mayer e 90 minutos de duração. É dividido em três partes: Memórias, narradas pelo próprio escritor e desenhista; Cronobiografia, com depoimentos de amigos; e Releituras, sobre as adaptações de sua obra no teatro, no cinema e na tv.

DARCY RIBEIRO O GUERREIRO SONHADOR

Narrado pela atriz Cássia Kiss, o documentário aborda Darcy Ribeiro em suas diversas facetas, como intelectual, antropólogo, professor, educador, político, escritor e nacionalista apaixonado pelo Brasil. Com destaque para duas sequências históricas filmadas e narradas pelo próprio Darcy nos anos 1940 e 1950, onde ele registra raros rituais da cultura indígena.

SERGIO CABRAL A CARA DO RIO

Jornalista, escritor, músico, vascaíno, sambista, boêmio e, acima de tudo, carioca, Sergio Cabral é registrado com bom humor e irreverência neste documentário apresentado pela atriz Débora Nascimento e pelo compositor Haroldo Costa. Enfoca desde sua infância, em Cascadura, até sua carreira como produtor musical, passando pelo Jornal do Brasil, Pasquim e pela sua militância política que o levou à prisão, durante a ditadura militar.

ROBERTO MARINHO O SENHOR DO SEU TEMPO

Uma das personalidades mais emblemáticas do jornalismo brasileiro tem aqui sua vida e sua carreira documentadas sob vários ângulos. Desde o início, no jornal O Globo, lançado por seu pai três semanas antes de morrer; os embates políticos com Getúlio Vargas, Brizola e Carlos Lacerda; a abertura da Rádio e da TV Globo; o caso Time Life; a relação cordial com os governos militares; os cavalos, o Cassino da Urca. Imagens inéditas mostram o mordomo Edgar Peixoto conduzindo uma visita pela casa e objetos pessoais de Marinho. O dvd traz também dois extras: Casa do Cosme Velho, sobre o lar do jornalista e empresário. E Roberto Marinho em 5 Episódios, com cinco histórias curiosas e divertidas envolvendo o biografado.

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LIVROS

A redescoberta de Mariátegui Mais de oitenta anos após o seu aparecimento no país de origem, é lançado no Brasil um conjunto de estudos do filósofo e revolucionário peruano José Carlos Mariátegui. P OR Y URI M ARTINS FONTES

A

obra do filósofo e revolucionário peruano José Carlos Mariátegui – um dos principais expoentes da filosofia contemporânea na América –, somente neste novo século vem ocupando nos meios editorial e acadêmico o espaço de posteridade que sua densidade e pertinência lhe designaram. Com delicado estilo analítico e clareza expositiva, o autor constrói um texto ponderado e sempre regado por detalhadas fontes – no qual mesmo críticas agudas sabem ser colocadas de maneira gentil. Elaborados especialmente nos anos 1920, seus escritos percorrem temas históricos, filosóficos e artísticos, dentre outros, manejando com precisão a ferramenta dialética materialista para desvendar desde a História de seu país, inserida em um contexto latino-americano periférico, até aspectos da geopolítica mundial. Sem ter buscado com imensos tratados aventurar-se a formular alguma solução abstrata para todo o sempre da Humanidade, este marxista de efetiva práxis – cuja vida teórica e prática foram inerentes – aliou seu faro de jornalista e viajante à solidez do cientista humano, para investigar aspectos essenciais que tornassem possível transcender nossa sociedade decaída e subjugada pela violência do capital. Conforme afirma: “Meu pensamento e minha vida constituem uma única coisa, um único processo”. Seus ensaios tratam de diversos problemas da época – qual um vaga-lume insistente a prover de fagulhas as noites sem lua do pós-Guerra em que via o Homem se perder. Com originalidade e 40 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

erudição, e sem deixar de ter como princípio a comunicação com as massas, conjugou sua vida de militante com reflexões acerca de como tornar viável o caminho da mais nobre e saudável utopia comunista. Segundo ele, a “faculdade de pensar a História” identifica-se com a “faculdade de fazê-la e criá-la”, e deve ser valorizado aquele “capaz de traduzir em atos” o que até então “não pôde ser senão idéia”. E de fato, o tempo histórico confirmaria a pertinência de suas idéias – e diversos movimentos sociais americanos da atualidade manifestam sua influência, desde o MST e a Via Campesina, às guerrilhas do Túpac Amaru, Sendero Luminoso, Farc e Exército Zapatista. O marxismo, um método Trabalhando como jornalista, nos anos 1920 Mariátegui se aproxima do movimento operário, enfrentando a classe dirigente limenha e apoiando greves. O então presidente peruano, casado com uma parente sua, impõe-lhe o exílio. Ele segue para a Europa e elege a Itália para viver a maior parte do tempo – país em que “desposaria algumas idéias e uma mulher”. Aí, vê de perto a ascensão do fascismo, no que entende ser uma resposta do grande capital a uma crise social profunda – a expressão de uma classe dominante que já não se sente protegida por suas instituições precariamente democráticas. Neste período se forma como ideólogo do comunismo, travando também contato com a psicanálise e a filosofia intuitiva de Nietzsche – assunto que o interessa especialmente no to-

cante à impotência do Homem moderno, inserido na estrutura cultural burguesa-cristã. Quando regressa a Lima, Mariátegui já se declarava comunista; suas idéias foram acusadas de europeizadas por nacionalistas, ao que ele contesta: “Fiz na Europa o melhor de minha aprendizagem e acredito que não há salvação para a Indo-América sem a ciência e o pensamento europeus ou ocidentais”. Participa então da fundação do Partido Socialista Peruano – para o qual não elege a denominação comunista, devido à apropriação do termo na época por uma linha moscovita que se burocratizava. Para o autor, a teoria marxista sobre as revoluções nacionais não pode ser obstruída por uma visão estagnada e préestabelecida – mas é antes um método interpretativo e uma prática de vida que devem ser construídos segundo a realidade de cada país. Refuta assim, a leitura européia de revolucionários ortodoxos defensores do etapismo, que enxergam no capital um papel civilizador: “não existe no Peru, como jamais existiu, uma burguesia, com sentido nacional”. Entende que é preciso que se desenvolva uma perspectiva revolucionária com raízes nas próprias tradições e culturas populares. Tal posição foi vista como afronta não apenas pelos socialistas ortodoxos, como pelos revisionistas da Aliança Popular Revolucionária Americana – movimento reformista influente no Peru. O marxismo latino-americano, como analisa Michael Löwy (em O marxismo na América Latina), estava então polarizado entre duas atitudes extremistas: os ortodoxos, que queriam submeter o particular ao universal; e os revisionistas, que superestimavam as especificidades locais em prejuízo da universalidade da teoria de Marx. Já Mariátegui entendia que o comunismo na América não poderia ser uma cópia européia, mas sim uma “criação heróica”, onde a comunidade camponesa autóctone, essencialmente solidária em suas relações sociais tradicionais,

tornar-se-ia a base do Estado contemporâneo. Em defesa desta tese, expõe sua concepção sobre o comunismo primitivo em que viviam os incas, povo “disciplinado e simples”, e que dispunha de “bem-estar material”. Seu marxismo dito heterodoxo – tachado de irracionalista por socialistas ainda atados ao espírito positivista típico dos tempos – foi um dos primeiros que acusou a necessidade de que o Homem desenvolvesse todas as faces de seu ser: a racional e a irracional; a intelectual e a sentimental; a sensual e a criativa. Exercendo sua ampla capacidade de visão desde os alicerces do materialismo-histórico, e sem cair nas vias anárquicas de um ecletismo diletante, soube absorver as essências conceituais que havia de libertárias em pensadores proscritos pela esquerda ortodoxa, agregando à sua contribuição ético-ontológica – categorias fundamentais ao ideal do materialismohistórico – auscultando desde as idéias de Nietzsche às de Georges Sorel e Freud, dentre vários outros nomes centrais ao contemporaneismo. Ensaios por uma filosofia da práxis Nos artigos selecionados para o livro Polêmica Revolucionária e Outros Escritos, Mariátegui se atém às questões filosóficas e políticas mais prementes do conturbado momento em que viveu, quando por um lado, as potências capitalistas haviam levado a Humanidade a conhecer uma das piores carnificinas da História – a I Guerra –, enquanto por outro a Revolução Soviética apontava uma possibilidade de fuga daquele sistema que ele percebia como ilógico e imoral. Sua técnica de dissecar experiências da discussão socialista e equívocos dos revisionistas, ou ainda de iluminar personagens importantes no jogo dos poderes e idéias, no entanto não se limita a um abstracionismo esquerdista, ou a uma emotiva história política – mas é antes uma plataforma tática de onde ele se ergue para enxergar o porvir humano naquele instável pós-Guerra, em que um


capitalismo feroz demonstrava sua incapacidade de oferecer ao Homem uma solução de paz duradoura, em meio às ambições contrapostas de nações imperialistas dispostas a obter máximas vantagens. É assim que o jornalista e historiador, ao propor uma direção aos rumos da ciência e da história, afirma-se também como filósofo. Diante de seu discurso eloqüente e cativante, esta tradução buscou preservar o estilo do autor e da época, mantendo a contundência de suas repetições, seus ritmos de pontuação e sua escolha de termos que, sem serem prolixos, são eruditos, exigindo conceituação precisa. Deste modo, pretendeu-se falsear o menos possível a mensagem e poder de persuasão dos textos originais – cujo tom beira mesmo o poético. Abre esta edição Defesa do marxismo – polêmica revolucionária, seu principal livro sobre temas filosóficos, no qual esboça pontos de vista fundamentais acerca do marxismo – e que ora ganha sua primeira versão em português, mais de oitenta anos depois de escrito. Na obra, elaborada entre 1928 e 1929 – últimos anos de estabilização capitalista antes da grande crise econômica – podese perceber um pensador cujos conhecimentos sobre as principais teorias que ao lado da filosofia da práxis¹ de Marx e Engels fundaram o mundo contemporâneo, despontam em meio à ortodoxia do

comunismo daquele início de século. O idealismo e a fé racional de Mariátegui – à semelhança dos também tidos como heterodoxos, Gramsci e Caio Prado – o levariam em rumo distinto do evolucionismo tímido da II Internacional. Na obra destes três pensadores, apesar das distintas realidades históricas vividas, nota-se a mesma característica ensaística ou experimental, a denotar seu caráter jornalístico e militante de intervenção na opinião pública. Em seu duro embate contra o revisionismo – que a partir de críticas ao socialismo burocrático predominante na Europa Ocidental quer negar ou superar o marxismo –, Mariátegui envereda pela discussão da moderna psicanálise, que vinha sendo usada como arma por pretensos reformadores. É o caso do principal personagem atacado em sua defesa marxista, o “derrotista” Henri de Man – “reformista desenganado” pela medíocre experiência do socialismo na Bélgica. Para Mariátegui, sua crítica não é original e nem cabe ao marxismo de fato – heróico e revolucionário –, mas serve sim ao próprio “reformismo” do ambiente em que o belga se situa – o “ambiente medíocre e passivo” do sindicato e da socialdemocracia de seu país. Em sentido inverso, o peruano mostra como as contribuições de Freud e da psicologia contemporânea são convergentes e úteis ao materialismo-histórico, concluindo

Escrita apaixonada, empenhada com sangue Com uma abordagem abrangente, os conceitos mariateguianos abalaram o conservador marxismo mecanicista do início do século XX – motivo pelo qual sua obra foi tachada de “ensaística” e “romântica” pela crítica socialista da época. À primeira destas críticas ele responderia ressaltando o valor da escrita apaixonada, revolucionária, empenhada com sangue – e foi deste modo, paralelo à sua vida prática, que se concretizou sua ação teórica. Há em sua obra filosófica ensaística um sentido didático e ativo – um pensamento inquieto que não se basta na abstração. Como ele mesmo analisaria, suas várias viagens – com os obstáculos diários que naturalmente o novo sempre acarreta – contribuíram para essa formação, não apenas ampla, mas prática. Diante da segunda crítica, a racionalista, Mariátegui defenderia a importância da utopia numa existência mais plena, postando-se contra o niilismo cansado do burguês cético, pusilânime e desprovido de sonhos, que só valoriza o que pode possuir, sugar de imediato e controlar, acovardando-se diante de quaisquer enfrentamentos com o desconhecido – o que Nietzsche vê

como a prática daquele que apenas percebe a necessidade de superar o que é obsoleto, sem colocar a mão na massa e “destruí-lo”. Nesta questão, percebe-se, além de Nietzsche, clara influência do sindicalista Georges Sorel – tido por Mariátegui como um dos mais vigorosos continuadores de Marx. Em Defesa do Marxismo, idéias de Sorel são convocadas em diversos momentos. Distinguindo o que é essencial à teoria marxista daquilo que lhe é apenas contingente, o revolucionário francês (em Reflexões sobre a violência), em meio a um pálido período de parlamentarismo socialdemocrata, esclarece a função histórica da violência – incorporando o irracionalismo filosófico ao materialismo-histórico. Mariátegui, em consonância com Sorel, defende que a revolução “desgraçadamente” não pode ser feita com “jejuns”: “Os revolucionários de todas as latitudes devem escolher entre sofrer a violência ou usá-la”. Se não se deseja que o “espírito e a inteligência estejam às ordens da força” – afirma –, “há que se pôr a força às ordens da inteligência e do espírito”.

Mariátegui, em 1929, ao lado de sua esposa, Anna Chiappe. Abaixo, ilustração de Karl Marx, de David Alfaro Siqueiros, utilizada na capa da edição peruana de 1964 do livro Defensa del Marxismo.

que a “interpretação econômica da História não passa de uma psicanálise generalizada do espírito social e político”. Os quatro títulos seguintes da presente coletânea foram selecionados dentre aqueles que vieram a público em castelhano sob o nome de La Escena Contemporánea [A cena contemporânea], nos quais o autor foca com destreza psicológica figuras e aspectos da realidade internacional – analisando-os segundo a dialética materialista, inseridos no contexto histórico. São “impressões – como ele as define – por demais fragmentadas” para se pretenderem uma explicação da época, mas que contêm “um esboço ou ensaio de interpretação dessa época e de seus tormentosos problemas”. A seleção de artigos, à semelhança da edição peruana, foi dividida segundo os seguintes temas: Crise da democracia, Crise do socialismo, Fatos e idéias da Revolução Russa e A mensagem do Oriente. Já os dois últimos escritos vêm a ilustrar seu espírito engajado, atento a tensões que pulsam em seu entorno social – no caso, o advento de ainda confusas idéias feministas ao Peru, bem como suas teses como líder socialista a traduzir o marxismo ao contexto peruano, expostas no programa de seu partido. Uma questão que lhe é recorrente é a de como articular de modo dialético o

desenvolvimento científico de origem ocidental (tradição intelectual européia), com o desenvolvimento comunitário fraterno oriental² (típico dos indígenas), no intuito de conceber uma perspectiva comunista autêntica. Para tanto, realiza análises históricas, econômicas, socioantropológicas, literárias e pedagógicas, demonstrando erudição científica e artística que pode ser observada em vários dos ensaios da publicação. Assim, de modo a oferecer ao leitor um panorama didático sobre o conhecimento do autor a respeito de idéias que o cercavam – facilitando a fluidez da leitura –, confeccionou-se o Índice Onomástico que compõe esta edição. Como Mariátegui sugere relativamente a muitos de seus escritos, os ensaios que elaborou foram intervenções ativistas, apaixonadas, constituindo-se em germes de livros mais orgânicos que desejaria desenvolver mais tarde. À revelia de qualquer enquadramento ideológico ou acadêmico, declara que seu trabalho se desenvolve “segundo a observação de Nietzsche, que não apreciava o autor envolvido na produção intencional e deliberada de um livro, mas sim aquele cujos pensamentos formavam um livro de forma espontânea”. No calor da luta, escreve por amor, atua movido pela fé na causa revolucionária – sentimento que acredita ser a grande contribuição dos povos indígenas à Revolução. Contudo, sua vida abreviada antes dos 36 anos não lhe permitiria ampliar e sistematizar em teses sua produção ensaística – vítima de uma infecção na perna, derivada de um golpe que recebera quando jovem, morre em 1930. 1 . “Filosofia da práxis”, assim como “materialismohistórico”, é designação da filosofia marxista. Em Filosofia da práxis, o filósofo mexicano Sanchez Vázquez define a práxis como uma “teoria condicionada historicamente e fundamentada cientificamente” – atentando à necessidade de que o pensamento una a teoria à prática, que seja totalizante, transformador, que transponha as especialidades que reduzem o indivíduo contemporâneo, permitindo ao Homem desenvolver com plenitude suas potências psíquicas e físicas.

. Mariátegui usa o termo oriental como sendo o nãoocidental – os outros, os diferentes.

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YURI MARTINS FONTES é filósofo, jornalista, tradutor e pesquisador da Universidade de São Paulo. É o responsável pela organização e tradução do livro Defesa do Marxismo – Polêmica Revolucionária e Outros Escritos, de José Carlos Mariátegui (Boitempo Editorial).

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REPRODUÇÃO

Vidas

Abrahão, o prazer da narração CARLOS NAMBA/DEDOC/EDITORA ABRIL

WALTER ABRAHÃO EM 1974.

Criativo, sóbrio, ele enriqueceu as transmissões esportivas com inovações que, pela adequação e bom gosto, foram adotadas por outros profissionais. P OR C ELSO S ABADIN “Daqui a pouco chega o leiteiro e a gente ainda vai estar aqui narrando esta cobrança de pênaltis.” O comentário, entre irritado e irônico, foi disparado pelo narrador esportivo Walter Abrahão, durante uma decisão qualquer, de um jogo qualquer, cujas cobranças alternadas de penalidades máximas se prolongavam noite adentro. Não me lembro quais eram os times, muito menos o que eles estavam decidindo, mas me lembro do comentário de Walter. Era uma época em que o leiteiro ainda entregava leite nas casas. Assim era Walter Abrahão, falecido no dia 8 de agosto, narrador de extrema habilidade verbal que tinha o poder de, entre outras coisas, transformar em memorá-

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veis momentos esportivos aqueles nem tão inesquecíveis assim. Nascido em Piraju, interior paulista, em 5 de janeiro de 1931, Walter gostava de brincar de locutor desde criança, quando “narrava” as próprias partidas de futebol de botão que disputava com os amigos. Apaixonado pelo ofício, narrou seu primeiro jogo profissional já aos 16 anos de idade, na Rádio Difusora Noroeste de Promissão. Trabalhou também na Lins Rádio Clube, mas seu cuidadoso pai, o comerciante José Abrahão, não acreditava que locutor esportivo pudesse ser uma profissão promissora e fez Walter estudar Contabilidade. Para agradar à família, Walter concluiu o curso, mas a

paixão pelo esporte falou mais alto. Em 1950, ano em que os ânimos esportivos do País ferviam com a realização da Copa do Mundo em território nacional, ele arrumou a mala e mudou-se para a capital paulista, com o sonho de narrar futebol. Foi recusado nas Rádios Cultura e Piratininga, entre várias outras, mas finalmente aceito na Cruzeiro do Sul. Paralelamente ao rádio e ao futebol, Walter Abrahão começa a desenvolver também interesse pelas leis e pela justiça, e aos 23 anos ingressa na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Quatro anos mais tarde, exatamente no ano em que o Brasil se sagraria campeão mundial de futebol pela primeira vez, torna-se então Dr. Walter, advogado. Mas sem abandonar o esporte. Da Cruzeiro do Sul Walter passou para a Rádio Tupi, onde conheceu Aurélio Campos, então diretor de Esportes das Associadas de São Paulo, que percebendo o estilo diferenciado do narrador logo o levou à TV Tupi. Ao contrário da maioria dos locutores da época, a narração de Walter era serena e – convenhamos – bem mais realista que aquelas narrações épicas e heróicas da antiga escola, que transformavam qualquer arremesso lateral num ato da Ilíada. Ele conversava com o espectador em tom sóbrio, sem gritar; mesmo sem ser efetivamente um comentarista, tecia aqui e ali observações inteligentes sobre a partida. Mauro Beting, comentarista esportivo da Rádio Bandeirantes, classifica Walter de “simpático sem ser acrítico; amável sem ser ácido”; “Até quando chamava alguém de ‘gordo’, era de um jeito suave, divertido.” “Com ele, aprendi a criticar sem atacar, a defender pontos de vista sem ferir os dos outros”, diz Mauro Beting. Em 1963, Walter criou o que chamou de “bilance”, ou seja, a repetição de jogadas importantes da partida quase que imediatamente após a sua realização, graças à inovação da recém-chegada tecnologia do videoteipe. Somente três anos depois a novidade foi incorporada pela televisão britânica, durante a realização da Copa do Mundo na Inglaterra. Para o mundo, o “bilance” foi rebatizado como replay. “O tom da narração de Abrahão era ameno, não havia gritaria, nenhum sinal de histeria”, observa Antero Greco, comentarista esportivo do jornal O Estado de S. Paulo e da ESPN. “E era quente, convidativo, emocionava quase tanto quanto as transmissões de rádio com Fiori Gigliotti, Pedro Luiz, Darci Ribeiro e, mais tarde, Joseval Peixoto”. Greco considera Walter Abrahão um de seus maiores ídolos na crônica esportiva: “Por causa dele também eu era metido a irradiar futebol desde criança, nas peladas de rua ou em batalhas memoráveis de jogos de botão”, conclui. Walter também criou e popularizou a expressão “oxo”, neologismo que lembra “chocho”, para informar que o jogo estava empatado sem gols. No placar, o zero a zero, marcado como “0 X 0”, formava o tal “oxo” que São Paulo inteira aprendeu a curtir (ainda não estávamos na era das transmissões nacionais).

“Ele”, segundo Walter Abrahão.

O jornalista esportivo Milton Neves atribui também a Walter a criação da escolha do melhor jogador em campo, que, eleito pelos próprios membros da equipe de transmissão do jogo, recebia seu prêmio ainda no gramado, antes mesmo de descer para o vestiário. O “troféu” era um rádio para automóvel da marca Motorádio, ofertado pelo patrocinador e entregue pelo repórter de campo Eli Coimbra. A expressão “ganhar o Motorádio”, na época, passou a ser sinônimo de jogar bem, de se destacar numa partida, ou mesmo na vida. Lembro particularmente de uma partida entre Santos e Portuguesa, perdida em algum lugar dos anos 1970, na qual Pelé fez um gol tão bonito que Walter Abrahão gritou entusiasmado para o seu repórter: “Eli, entra em campo agora e dá o Motorádio pra ele!”. As inovações de Walter Abrahão não se restringiram apenas ao futebol. “Foi ele quem sugeriu que o vôlei deveria deixar de ter a chamada ‘vantagem’, que deixava o jogo lento, para ter pontos corridos”, conta o jornalista Paulo Gustavo Pereira. Porém, entre as criações de Walter, há uma que Juca Kfouri considera a mais genial: “Sua melhor sacada foi a de não falar o nome do Pelé, referindo-se apenas a ‘Ele’, quando o Rei pegava na bola”, afirmou Kfouri ao Jornal da ABI. Era uma espécie de respeito quase religioso. Nas transmissões de Walter, Pelé era simplesmente “Ele”, como um Deus da Bíblia esportiva. A Copa de 1970, no México, foi um marco histórico não somente para o futebol, como também para as transmissões esportivas brasileiras. Estávamos vivendo a pré-história dos satélites de comunicações, que operavam o milagre de mostrar um evento, ao vivo, simultaneamente para todo o Brasil, fato absolutamente impensável poucos anos antes. O País montou então um pool de narradores esportivos que se revezavam para transmitir as partidas do Brasil, um a cada tempo de jogo. É como se fosse, nos dias de hoje, por exemplo, Luciano do Valle narrando o primeiro tempo de um jogo e Galvão Bueno narrando o segundo tempo da mesma partida. No confronto seguinte, Milton Leite dividiria o trabalho com Sílvio Luiz, e assim por dian-


FABIO SEIXO/FOLHAPRESS

te. Por mais estranho que possa parecer, foi exatamente isso que aconteceu naquele distante 1970. Claro que Walter Abrahão estava lá, e imortalizou sua voz junto com as imagens daquela seleção inesquecível comandada por... “Ele”. O narrador esportivo Jota Júnior, hoje no SporTV, atribui a Walter grande parte do sucesso de sua carreira: “Quando eu ainda estava dividido entre rádio e televisão, Walter me aconselhou a ficar apenas na tv, dizendo que eu me daria muito bem com o veículo. Além de um conselho, foi um for-

te elogio, assim entendi. Afinal, quem recomendava era um dos maiores profissionais da tevê brasileira”, conta. A atuação de Walter Abrahão como advogado (na qual, dizem, jamais cobrava dos colegas de profissão) e o prestígio popular que alcançou na carreira de jornalista esportivo abriram seus caminhos para a carreira política. Eleito vereador de São Paulo, em 1988, exerceu dois mandatos e chegou posteriormente à Presidência do Tribunal de Contas do Município, cargo que ocupou de 1997 a 2001.

Entre os profissionais, uma unanimidade “Sou de uma geração que, no começo dos anos 1960, se encantou com as narrações de Walter Abrahão e Raul Tabajara, para ficar em dois speakers (sempre achei pomposa essa designação) que alegravam as tardes de domingo. Não tinha noção, na época, mas o estilo deles foi marcante. Abrahão tinha linguagem mais soltinha, usava expressões diferentes como o oxo, para designar o placar de 0 x 0 em suas transmissões na TV Tupi. Quando havia uma defesa mais espetacular, ele ressaltava que o goleiro posou para as objetivas do Diário da Noite, ou lascava um “tá gorrrrdo, senhores”, ao se referir a um jogador acima do peso. Sem contar que achava o máximo quando Pelé pegava na bola e, em vez de dizer o nome do Rei, simplesmente falava: “Ele!”. Tabajara era mais clássico e era um doce ouvilo na TV Record, ao lado do professor Flavio Iazetti e de Paulo Planet Buarque. O tom da narração de Abrahão (assim como o de Tabajara) era ameno, não havia gritaria, nenhum sinal de histeria. E era quente, convidativo, dava emoção quase tanto quanto as transmissões de rádio com Fiori Gigliotti, Pedro Luiz, Darci Ribeiro e, mais tarde, Joseval Peixoto. Walter Abrahão é um dos meus ídolos na crônica esportiva. Por causa dele também eu era metido a irradiar futebol, nas peladas de rua, em batalhas memoráveis de jogos de botão ou mesmo quando ia à padaria ao lado de casa, a Vila Flor. Eu pegava um microfone com fio que um dos garçons tinha, ligava na tomada e soltava a voz. Até que um dia, liguei o bichinho com uma mão e não me dei conta de que, com a outra, apoiava na pia de inox. Levei um choque que me derrubou no chão! Mas não deixei de narrar o lance de gol, nem a vocação para o jornalismo. Porque eu sabia que meus ídolos Walter Abrahão, Raul Tabajara, os repórteres Tom Barbosa, Eli Coimbra e Silvio Luiz (sim, esse mesmo) também levavam choques, com seus tijolões (os microfones portáteis), e não perdiam o rebolado.” ANTERO GRECO, comentarista esportivo de O Estado de S.Paulo e da ESPN

“Conheci Walter na Tupi em 1974, quando comecei a trabalhar na Redação da rádio. Foi ele quem sugeriu que o vôlei deveria deixar de ter a chamada ‘vantagem’, que tornava o jogo lento, para ter pontos corridos, idéia que ele colocou em prática num amistoso entre Santo André e Santos, então duas equipes poderosas de vôlei masculino. Eu tive o prazer e a honra de ver este jogo acontecer no Ginásio do Palmeiras,

com transmissão de Walter Abrahão. Ele sempre foi um apaixonado pelo esporte. Sua forma séria e divertida de narrar uma partida de futebol, ou basquete ou vôlei, demonstrava que ele gostava de tudo aquilo que movia as pessoas para um ginásio de esportes, um campo de futebol ou mesmo uma piscina olímpica. Se tivéssemos mais dessa paixão nas transmissões esportivas de hoje, daria gosto de assistir tv. Walter Abrahão deixa saudades com certeza.” PAULO GUSTAVO PEREIRA, Diretor de Conteúdo do NFK

“De suas criações falam mais do oxo e bilance, embora eu considere que sua melhor sacada tenha sido a de não falar o nome do Pelé, e se referir apenas a Ele, quando o Rei pegava na bola.” JUCA KFOURI, comentarista esportivo da Folha de S. Paulo

“Meu primeiro contato pessoal com Walter Abrahão foi em 1978, numa excursão da Seleção Brasileira à Europa. Eu trabalhava na época para a Rádio/TV Gazeta. Nessa viagem Walter foi muito atencioso comigo, procurando passar um pouco de sua experiência. Aliás, Walter tinha essa característica, a da simplicidade e de sempre ajudar os profissionais em início de carreira. Com o passar dos anos, tive vários contatos com ele, em estádios e eventos sociais. Quando eu ainda estava dividido entre rádio e televisão, com as narrações, Walter me aconselhou a ficar apenas na tv, dizendo que eu me daria muito bem com o veículo. Além de um conselho, foi um forte elogio, assim entendi. Afinal, quem recomendava era um dos maiores profissionais da tevê brasileira. Faço questão de ressaltar o lado humano de Walter. Simples, humilde, carinhoso no relacionamento com as pessoas.” JOTA JÚNIOR, narrador do SporTV

“Walter Abrahão foi o pai do replay, o bilance. Criou vários bordões para as transmissões e até para a Tupi. Mas era o prazer de narrar que fazia a diferença. Dele e de outros poucos mitos. Walter era de uma simpatia no ar tanto quanto era como pessoa fora dele. Simpático sem ser acrítico; amável sem ser ácido. Até quando chamava alguém de “gordo”era de um jeito suave, divertido. Aprendi muito com ele. Voz marcante, é daquelas pessoas que me ensinaram a ser o que sou como jornalista.” MAURO BETING, comentarista esportivo da Rádio Bandeirantes

Cláudio Melo e Sousa, o esteta da palavra Leitor dos clássicos e admirador especialmente de Eça de Queirós, sobre o qual, agora no fim da vida, pretendia escrever um livro, além de outro acerca de seu amigo Carlos Lacerda, jornalista e Governador do antigo Estado da Guanabara, Cláudio Melo e Sousa era um esteta da palavra, um fascinado pelo texto bem escrito, enxuto e repassado de emoção, como aconselhou um dia ao seu jovem amigo Renato Maurício Prado, seu companheiro e discípulo na Editoria de Esportes de O Globo nos anos 1970. Companheiro de Armando Nogueira no apogeu do Jornal do Brasil e de Nélson Rodrigues em O Globo, Cláudio trabalhou na TV Rio, na TV Globo, na revista Fatos & Fotos e no diário Extra, veículos em que foi editor, cronista e eventualmente repórter de pautas especiais. No Extra, sua colaboração como colunista esportivo estendeu-se de 1998 a 2006. Paralelamente à atividade de jornalista, exerceu a partir de 1990 a função da Assessor da Presidência da Rede Globo de Televisão. Pôde então conviver mais de perto com o jornalista Roberto Marinho, o que lhe permitiu atuar, com segurança, como principal depoente no dvd Roberto Marinho – O Senhor do Seu Tempo, de Rozane Braga. Por trágica coincidência, o dvd foi lançado em 8 de agosto em concorrida sessão na sede da Prefeitura do Rio, cinco dias antes do passamento de Cláudio, ocorrido no dia 13 no Hospital Copa d’Or, em Copacabana, no qual ele estava internado desde janeiro, com leucemia. Cláudio, de 76 anos, era casado com Leila Abrantes e pai de Pedro Eduardo, de 49 anos, e de Eduardo, 47, filhos de seu primeiro casamento, e de Eduarda, de 11 anos. Em sua primeira coluna em O Globo após o falecimento do amigo, o jornalista Renato Maurício Prado falou das atividades profissionais de Cláudio, seus hábitos, suas relações com os amigos. O texto, publicado no caderno Esportes, página 3, no dia 13 de agosto, e que apresenta um perfil, diz num dos seus trechos mais comoventes: “Graças a ele tive ventura de sentar à mesa com Rubem Braga (mestre dos mes-

tres, entre os cronistas do cotidiano), num jantar inesquecível no antigo e saudoso Florentino’s. Restaurante que, na época em que Cláudio editou o Esporte do Globo, se tornou uma espécie de nosso quartelgeneral. Fechávamos o jornal e seguíamos para o final do Leblon, onde encontrávamos amigos, jogávamos conversa fora e avaliávamos erros e acertos da última edição e planejávamos as futuras. Tudo em conversas que eram, invariavelmente, experiências encantadoras. Extremamente culto e bem vivido, seu papo ia muito além do futebol ou do próprio esporte. Falava, com igualmente propriedade, de jornalismo, da obra teatral de Shakespeare, da arte existente numa tourada, de mitologia grega, de política (fora grande amigo de Carlos Lacerda) e até de prosas e versos. Sim, era, de fato, um poeta, autor de três livros do gênero (O Domador de Cavalos, Corpo e Alma e O Passageiro do Tempo). Na minha opinião, porém, suas maiores poesias foram impressas nas colunas em que retratava, com inspirada leveza e acurado rigor, musas, heróis e vilões das quadras, das piscinas e dos campos. Foi com Cláudio, aliás, que aprendi a importância de um vocabulário farto e de um texto emocionante: – Você escreve direito, mas tem que evitar as repetições. Hoje em dia, está-se utilizando, no máximo, 500 palavras – me disse, certa vez, sem rodeios quando lhe perguntei se gostara da reportagem que eu acabara de redigir. “Somos contadores de histórias. E história sem emoção não presta”, ensinou, quando lhe entreguei uma crônica fria de um jogo ruim. “Até as peladas têm alma. E é preciso escrever sobre elas com sentimento. Nem que seja o de revolta pela pobreza do espetáculo”, resumiu, de forma brilhante. Graças ao Cláudio, passei também a editar e, após me tornar seu assistente, acabei substituindo-o quando, casado com uma linda milionária, pediu demissão, ‘para aproveitar a vida’. Assim era ele. E se algo me consola neste momento é saber que soube viver com intensidade o prazer dos seus 76 anos. Descansa em paz, amigo.” Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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Vidas MARCO ANTÔNIO TEIXEIRA/AGÊNCIA O GLOBO

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or mais que fosse uma tragédia anunciada, a morte do Diretor de Redação do jornal O Globo, Rodolfo Fernandes, em 27 de agosto, comoveu profundamente os profissionais ligados à comunicação de uma forma geral e ao jornalismo em particular. Não só pela sua juventude, 49 anos, como principalmente pelo profissionalismo e pela retidão de caráter que sempre demonstrou em sua breve porém marcante carreira. Fazia mais de dois anos que Rodolfo lutava contra uma esclerose lateral amiotrófica, avassaladora e incontrolável doença degenerativa, mas ele não se rendeu até o último minuto. Internado na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, Rodolfo apresentava nas últimas semanas fortes sinais de insuficiência respiratória, e mesmo assim permaneceu trabalhando na Redação de O Globo até dois dias antes de sua morte. Nem a perda de parte dos movimentos o abalou: munido de um computador adaptado, continuava a comandar sua Redação.

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Durante o velório realizado no Memorial do Carmo, no Caju, a maciça presença de alguns dos nomes mais importantes do jornalismo, da política e da cultura brasileiras não deixava dúvidas sobre a importância de Rodolfo. Lá estiveram personalidades como o ex-Governador de São Paulo José Serra; o Deputado federal Miro Teixeira; os Senadores Aécio Neves e Lindbergh Farias; o Vice-Governador do Rio, Luiz Fernando Pezão; o Prefeito Eduardo Paes; o Ministro de Assuntos Estratégicos, Moreira Franco; o antropólogo Roberto DaMatta, a atriz Sílvia Buarque, além de inúmeros jornalistas. Entre eles, Luis Fernando Veríssimo, Merval Pereira, Zuenir Ventura, Míriam Leitão e o VicePresidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho. Rodolfo Fernandes carregava o dna do jornalismo. Ele era sobrinho de Millôr Fernandes e filho do também jornalista Hélio Fernandes, ironicamente o proprietário da Tribuna da Imprensa, um dos jornais que mais combateu as Organizações Globo, onde Rodolfo encerrou sua

carreira e sua vida. E foi exatamente na Tribuna que Rodolfo Fernandes se iniciou no jornalismo, logo aos 16 anos de idade. Não permaneceu, porém, por muito tempo no Rio de Janeiro. Preferiu trocar a cidade natal pela capital federal, onde passou a acompanhar de perto o agitado momento político do Brasil da abertura democrática, durante os efervescentes anos 1980. Em Brasília, trabalhou na Última Hora, Jornal de Brasília e na sucursal do Jornal do Brasil. Atuou também na Folha de S. Paulo, na qual participou do projeto de modernização do jornal, comandado por Octávio Frias Filho. Em 1989, aos 27 anos, transfere-se para a sucursal de Brasília de O Globo, onde foi Coordenador de Política até chegar a Chefe de Redação. Em 2000, decide regressar ao Rio. Torna-se Editor de Política, e logo no ano seguinte assume a Direção de Redação de O Globo, cargo que ocupa até sua morte. É voz corrente entre seus colegas que Rodolfo era a antítese da imagem estereotipada que muitos fazem do jornalista estressado e agressivo (leia

quadro). Pelo contrário, era um homem cuja voz de comando se situava na firmeza e na elegância de seus atos e decisões. Primou sempre pelas possibilidades humanísticas da profissão, fazendo da solidariedade e do bom humor duas de suas principais bandeiras. Tanto pela sua “linhagem” de família de jornalistas, como pela sua postura sempre serena, Rodolfo Fernandes também era chamado de Príncipe. No dia 27 de agosto, um sábado, o Governador Sérgio Cabral decretou luto oficial de três dias e se comprometeu a dar o nome de Rodolfo a uma escola estadual em homenagem ao jornalista que não chegou a ver, no dia seguinte, o seu querido Flamengo enfrentar o Vasco da Gama. Mas o time da Gávea homenageou o jornalista, entrando em campo de luto e respeitando um minuto de silêncio antes da partida. Rodolfo Fernandes deixou esposa, a economista Maria Sílvia Bastos Marques, e dois filhos, Felipe e Letícia, do primeiro casamento, com Sandra Fernandes.


“Eu e meus irmãos sempre vimos no Rodolfo um jornalista de um talento imenso, curioso, competente, criativo, incansável e ético. Essas características ficaram bastante evidentes nos últimos dez anos, quando comandou a Redação do Globo, conseguindo manter muito vivo o caráter que sempre marcou o jornal: não perder o espírito carioca, estar absolutamente ligado à Cidade e ao Estado, mas com uma enorme influência nacional. À parte isso, foi sempre um prazer tê-lo como colaborador, pela pessoa adorável que era: sereno, amigo e bem-humorado. Nos dois últimos anos, apesar das imensas dificuldades que a doença lhe impôs, fez questão absoluta de trabalhar até o último dia. Desse exemplo, e tenho certeza de que falo em nome de todos os colegas do Globo, também não vamos nos esquecer.” JOÃO ROBERTO MARINHO, Vice-Presidente das Organizações Globo, em O Globo.

e, entre outros, Luiz Antônio Novaes, no comando da Redação.“ MÁRCIO CHAER, editor da revista Consultor Jurídico “Morreu um santo da minha profissão no sentido cristão de quem desempenha uma obra admirável em vida. Perdi um irmão. Conheci poucos com tão elevado sentimento de amizade e generosidade, que distribuía igualmente para reis e plebeus.” ANCELMO GOIS, colunista de O Globo, em Consultor Jurídico. “O Rodolfo é a maior referência jornalística que eu tenho. Eu costumava dizer que o Rodolfo era minha fonte, sempre recorria a ele. Apesar de sermos de mídias diferentes, a gente se encontrava muito. Eu discutia mais com ele as coisas que ia fazer na carreira, no trabalho. É uma das pessoas que mais sabem da minha vida. E a gente tinha uma predileção por jogar bola: jogávamos em Brasília, no Rio, nos times que o Chico (Buarque) montava.” HERALDO PEREIRA, repórter, comentarista de política e apresentador da TV Globo, em O Globo. “O Rodolfo cobria o Planalto, muito novo, e era considerado um prodígio no jornalismo. Tinha um diferencial, porque fazia as matérias sempre com mais sensibilidade, mais gostosas de ler. JOÃO DOMINGOS, repórter de O Estado de S. Paulo, em O Globo. “Essa é uma perda muito grave para o jornalismo porque Rodolfo era um profissional muito talentoso, ascendeu

“Conheci poucas pessoas com uma aura como a de Rodolfo. Sempre alegre, educado, gentil e, ao mesmo tempo, sempre muito rigoroso com a responsabilidade do jornalista. Ficamos amigos durante a Constituinte, em Brasília, quando fui deputado, em 1986, mas eu já o conhecia antes, do Rio. Na campanha das Diretas, lembrome dele, muito mocinho, ao lado do Doutor Tancredo” ROBERTO D’ÁVILA, jornalista e apresentador, em O Globo “Foi um dos chefes mais justos com quem já trabalhei. Nos dez anos em que fui editor do Segundo Caderno, sempre que ficava na dúvida em como tratar determinado assunto, perceber que lado tinha razão, questões éticas, problemas de relacionamento entre os repórteres, o melhor era sempre consultar o Rodolfo. Ele nunca errava.” ARTUR XEXÉO, colunista de O Globo em O Globo “Tivemos um contato mais estreito na Copa do Mundo da Alemanha, e foi um convívio espetacular. O estilo de chefia dele era mais de um companheiro que de um chefe, sempre discreto, calmo, uma pessoa admirável em todos os sentidos.” LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO, em O Globo “Rodolfo era um príncipe. No jornalismo e na amizade. Leal, veraz e perspicaz, dava gosto vê-lo comandando a Redação, do mesmo modo como era prazeroso estar com ele em um bar ou num jantar de amigos. Manteve a discreta ironia, o charme e o humor até o fim. Não faz tanto tempo, ainda recebi e-mails escritos a golpes de olhar com o mesmo espírito alegre com que o conheci há 25 anos. Deixa saudades e um vazio imenso.” FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, exPresidente da República, em O Globo. “A morte inevitável para todos lhe foi anunciada com prazo certo para chegar. Não o intimidou. Parece que nesse breve tempo nasceu outra vida, com fibra redobrada. Também parece que percebeu o fim

próximo. Na última semana, aumentou o ritmo dos e-mails, como que numa despedida. As lágrimas são poucas para lhe agradecer o convívio e a lição. No exercício do jornalismo, era de uma impessoalidade muito rigorosa e exemplar.” MIRO TEIXEIRA, Deputado Federal e membro do Conselho Consultivo da ABI, em O Globo

“Sempre falei que não queria escrever em jornal grande. Quando, afinal, procurei reunir motivos para me convencer a aceitar o convite de O Globo, poder atender a um desejo de Rodolfo pesou muito. Ele era um grande cara. Sinto saudades das vezes em que conversei com ele. Rodolfo comandou esse grande jornal com firme equilíbrio e com o brilho que seu histórico exigia.“ CAETANO VELOSO, em O Globo “O Flamengo perde um ilustre torcedor, amante do futebol, e o jornalismo, um profissional que sempre exerceu a profissão com excelência.” PATRÍCIA AMORIM, Presidente do Flamengo, em O Globo “Era uma pessoa de quem se gostava imediatamente, pela gentileza com que tratava a todos, de maneira igual. Um jornalista que honrou a sua profissão.” RICARDO TEIXEIRA, Presidente da Confederação Brasileira de Futebol-CBF, em nota oficial “Rodolfo foi ascendendo na hierarquia do jornal e mantendo sempre a mesma postura, sua serenidade e tranqüilidade, a cada cargo com maior poder e prestígio. Sequer alterava a voz e a maneira de falar com as pessoas. Era uma pessoa muito doce, mas também muito respeitada pelos seus colegas, pelos políticos; enfim, uma pessoa que nos deixa absurdamente jovem.” SÉRGIO CABRAL, Governador do Estado do Rio de Janeiro, em O Globo “Com sua inteligência, seriedade e a busca constante pela notícia completa e bem apurada, Rodolfo Fernandes marcou época no jornalismo brasileiro à frente das mais importantes coberturas da História recente do País. Lamento sua partida tão precoce, mas tenho certeza de que ele deixa seu exemplo às novas gerações de jornalistas brasileiros.” HELENA CHAGAS, Ministra da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República em nota oficial RENATOARAUJO/ABR

“Rodolfo Fernandes aperfeiçoou no Globo o que há de melhor no jornalismo brasileiro: o humanismo, a solidariedade e, sempre que possível, o bom humor. Não por acaso ele valorizou o trabalho de profissionais como Chico Caruso, Ancelmo Gois e Chico Otávio. Não por acaso ele se fez cercar de pessoas como Ascânio Seleme, José Casado, Aluizio Maranhão

Hélio Fernandes: Ele foi jornalista a vida toda.

FRANCISCO UCHA

“O Rodolfo foi um dos melhores chefes que já tive. Tudo isso com a maior ternura, com o maior rigor, a maior exigência. E com aquela elegância dele. Mostrou pra gente uma lição de jornalismo, que para liderar uma Redação não precisa dar soco na mesa, não precisa dar grito. Nunca se ouviu um grito. Mas também nunca abaixou a cabeça. A comoção na Redação demonstra tudo isso. Era uma coisa esperada, mas bateu como se fosse uma surpresa. Está sendo um choque para todos nós. Uma perda para o jornalismo. Um grande jornalista. E com apenas 49 anos.” ZUENIR VENTURA, em O Globo.

FRANCISCO UCHA

“O destino não o deixou completar nem 50 anos. Ele nasceu jornalista, foi jornalista a vida toda, assim como foi Flamengo desde que começou a ir ao Maracanã comigo. Vimos juntos duas Copas do Mundo, na Itália e na França. Ele era uma pessoa extraordinária. Tanto que todos os seus colegas me disseram: não era um chefe, era um amigo.” HÉLIO FERNANDES, pai de Rodolfo, em O Globo.

muito cedo a postos destacados, como é o caso da direção de Jornalismo e de Redação do Globo. Do ponto de vista pessoal, era um ser adorável, que merecia estima e alta consideração pelas suas virtudes. É com extremo pesar que a comunidade jornalística recebe essa notícia. É realmente doloroso saber que ele se foi tão cedo.” MAURÍCIO AZÊDO, Presidente da ABI, em O Globo.

BETO OLIVEIRA/AGÊNCIA CAMARA

“Não era um chefe, era um amigo”

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Vidas

Procópio Mineiro, o jornalista que não se rendeu à Proconsult

Procópio, dignidade acima de tudo

Foi a firmeza dele, à frente do Jornalismo da Rádio JB, que desmontou a fraude que tentava arrebatar a vitória de Leonel Brizola para Governador do Rio em 1982.

Presença fundamental Beatriz Bissio, editora da revista Cadernos de Terceiro Mundo, na qual Procópio Mineiro também trabalhou como editor, falou sobre o desaparecimento de seu antigo companheiro: “É uma perda irreparável, ele era um amigo muito querido, um braçodireito e sempre muito positivo. Foi um brilhante jornalista, extremamente culto e preocupado com os rumos do Brasil e com o aprofundamento da democracia. Aqui ele foi uma presença fundamental. A revista sempre teve a marca dele, muito meticuloso como editor”, afirmou Beatriz. O Presidente da Imprensa Oficial do Estado, Haroldo Zager, também lamentou a morte de Procópio: “Ele sempre foi um colaborador de primeira hora, um profissional de mão cheia, tinha uma consciência plena e um ótimo caráter”, lembrou Haroldo. 46 Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

ÁLBUM PESSOAL

Além do seu fecundo trabalho à frente da Redação da Rádio JB nos anos 1980, o jornalista Procópio Mineiro ficou conhecido nacionalmente porque foi um dos responsáveis pela revelação do escândalo da Proconsult, nas eleições para o Governo do Estado do Rio de Janeiro em 1982, que quase tirou a vitória do então candidato Leonel de Moura Brizola. Procópio, que faleceu no dia 24 de julho de um acidente vascular-cerebral, também foi Diretor de Jornalismo da Rádio Roquette- Pinto em duas ocasiões e ultimamente trabalhava como redator na Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Ele foi sepultado no cemitério de Irajá no domingo 31 de julho. Natural de Pernambuco, Procópio veio para o Rio de Janeiro com 12 anos e desde então sempre morou em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Criador da revista Ecologia e Desenvolvimento, vencedora de diversos prêmios de reportagem, foi um dos fundadores na Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro do periódico D.O. de Notícias, existente até hoje. Sócio da ABI há 34 anos, Procópio foi autor de um dos mais belos textos em homenagem ao centenário da Casa, publicado na revista O Prelo, da Imprensa Oficial, em abril de 2008, e transcrito na íntegra, por sua excepcional qualidade, no Jornal da ABI.

POR S IDNEY R EZENDE

Procópio Mineiro ao lado de Vanessa Rodrigues, a companheira dos últimos três anos.

“Com a firmeza de seu caráter, ele suportou a pressão” A atuação de maior destaque de Procópio Mineiro aconteceu quando era Diretor de Jornalismo da Rádio JB e comandou a equipe que desvendou a fraude nas eleições diretas para Governador do Estado do Rio de Janeiro, em 1982, no episódio conhecido como o “escândalo da Proconsult”. Pery Cotta, Presidente do Conselho Deliberativo da ABI e colega de Procópio na Rádio JB na época, lembra de detalhes daquela cobertura histórica: “Montamos uma estrutura especial para a cobertura, pois sabíamos que havia um esquema de favorecimento às Organizações Globo. Então, tínhamos que ter um esquema próprio. Botamos repórteres em cada Zona Eleitoral, os quais passavam os dados por telefone para nossa central de apuração.” Conta Pery que na seqüência da apuração se percebeu a discrepância entre os números oficiais que estavam sendo divulgados e os que foram apurados pela Rádio: “O Procópio teve uma enorme participação nesse esquema, e nós acabamos descobrindo essa fraude. Os outros veículos davam o resultado oficial que eram os dados da Proconsult, e nós éramos pressionados inclusive pelo Sistema de Informática do JB, que dizia que nós estávamos errados, mas ele (Procópio) foi extraordinário no apoio e no crédito ao trabalho que estávamos fazendo”, contou o Presidente do Conselho da ABI.

Sem a influência de Procópio, diz Pery Cotta, a fraude naquelas eleições não seria descoberta: “Tudo aquilo só foi possível porque o Procópio bancou e suportou a pressão, graças à firmeza, ao caráter e ao espírito profissional que ele tinha, e em função do espírito de uma equipe que ele montou”, destacou Pery Cotta. “Fiel às causas do povo brasileiro” Luiz Erthal, companheiro de Procópio na Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro desde o primeiro Governo Brizola no Estado do Rio de Janeiro (1983-1987), elogiou as escolhas profissionais feitas pelo companheiro ao longo da vida: “Ele sempre fez as escolhas na vida a favor dos interesses do povo brasileiro. Por sua atuação em 1982, teve que fazer uma escolha e optou pelo lado certo, o que lhe custou caro, pois passou a ser perseguido e nunca mais conseguiu um cargo de destaque no Jornalismo”, disse Erthal, revelando que Procópio pretendia publicar no ano que vem um livro sobre os 30 anos do escândalo da Proconsult. Sobre as qualidades do colega, ele acrescentou: “Foi um jornalista que não se rendeu, foi fiel até o fim da vida aos seus princípios, ao bom jornalismo e às causas a favor do povo brasileiro”, sintetizou Erthal.

A minha primeira oportunidade no jornalismo somente aconteceu por causa de um convite de minha colega de faculdade Ana de Ava Câmara. Ela conseguiu uma janela na programação da Rádio Roquette-Pinto, no Rio de Janeiro. Gente da Terra, Terra da Gente dedicava o seu editorial ao homem do campo. Quando Leonel Brizola venceu a eleição de 1982, mudou toda a direção da emissora e fomos dispensados do nosso “breve estágio”. Eu era um estudante/ locutor sem expressão. Mas um colaborador aplicado. Quando o novo diretor assumiu é que soubemos que ali se pretendia fazer uma programação mais fortemente jornalística. E, de fato, foi um sucesso. Da última colocação no ranking, a nova grade escalou para o quinto lugar de audiência. O novo gestor chamava-se Procópio Mineiro, egresso, como seus demais companheiros, da respeitada Rádio Jornal do Brasil. Todos com intimidade na “latinha”, expressão cunhada para os que sabiam falar no microfone. Só para relembrar para os mais jovens, a Rádio JB era um exemplo de credibilidade na comunicação do nosso País. Com muita coragem, ela ajudou a manter vivo na sociedade o sentimento de que vale a pena lutar pela democracia. Procópio Mineiro comandava a equipe na Rádio JB durante a montagem da apuração paralela que possibilitou desmascarar a tentativa de fraude que ficou conhecida como o escândalo da Proconsult. Uma manobra fraudulenta que tinha a intenção de barrar Brizola e conduzir ao poder o atual Ministro de Dilma Rousseff, Moreira Franco. Um dia toca o telefone da minha casa e do outro lado da linha, com a voz bem calma, um homem se identificou antes da frase direta: “Aqui é o Procópio, o novo diretor da ‘Roquette’ e eu ouvi a Rádio nos últimos meses e gostaria de saber se você aceitaria o convite de trabalhar conosco?”. Eu senti um aperto no coração e, ao mesmo tempo, uma felicidade incomensurável. Eu disse sim, sem pestanejar. Era o início de uma carreira em que já se vão quase 30 anos. Eu tenho orgulho muito grande de ter compartilhado aqueles anos com uma das equipes mais incríveis do jornalismo. Pois bem. O querido Procópio Mineiro da Silva, que apostou naquele inexperiente jovem repórter, foi sepultado no Cemitério de Irajá neste domingo (31/7), na Zona Norte do Rio de Janeiro, com apenas 65 anos de idade. A saudade é grande. Homem simples, digno, não colocou um centavo no bolso além do seu salário de jornalista. Ele era de uma dignidade a toda prova. Poderíamos resumir seu caráter em duas palavras: pessoa honesta. Texto publicado no dia 2 de agosto no portal SRZD, de Sidney Rezende (sidneyrezende.com), disponível no endereço goo.gl/bUptk


Riomar, um mestre Chefe de Reportagem por vários anos e de jornalistas de mais de uma geração, a quem formou, orientou, acolheu, Riomar Trindade foi embora. Morreu dia 25 de agosto, aos 66 anos, na sua casa, em Copacabana, Rio de Janeiro. Deixa dois filhos, Renato e Marco, e muita saudade. Era gaúcho de Santana do Livramento, cidade do Rio Grande do Sul na fronteira com o Uruguai. Circunstância que explica um pouco, mas não totalmente, o modo veemente e bastante próprio de falar, em que se misturavam tangos, milongas, candombes. Era apaixonado pelo jornalismo, obsessivo no cuidado com a apuração e com o texto claro, limpo. Fora da Redação, varava a noite com os amigos, lamentando erros, comemorando acertos, cantando. Quase sempre, antes de pedir a saideira, a inescapável Mano a Mano, de Carlos Gardel. Engajado no bom combate, implacável contra o mau-caráter. “Para conhecer o sujeito, repare se ele manda as críticas por escrito e elogia por telefone – porque isso não se faz”, ensinou uma vez. Paulo Totti, repórter especial do Valor Econômico, era editor de política e nacional em O Globo, em 1976, quando o conheceu. “Apareceu uma matéria feita por um repórter de geral, com um texto muito bom, surpreendente, superior à média da reportagem que eu conhecia. Quis saber quem era o cara. Ele falava de uma forma esquisita, mas conseguia se expressar por escrito muito bem”. Ficaram amigos. “O tipo de amizade que, em jornalismo, é muito gostosa, porque surge no trabalho. Depois que a gente se torna amigo, fica com o respeito profissional pela pessoa.” Com exceção de pequenos intervalos, praticamente por toda a década de 1980, os dois conviveram na Gazeta Mercantil. “Riomar era tremendamente rigoroso no trabalho. Impunha-se pelo respeito profissional, sem precisar recorrer à autoridade do posto. As pessoas o respeitavam muito.” Especialmente, à frente da chefia de Redação da sucursal, onde esteve a maior parte do tempo. “É uma posição complicada, em que a pessoa se relaciona para cima e para baixo. E ele a ocupava com muita competência, sempre defendendo as suas equipes.” Na década seguinte, anos 1990, o Editor de Economia do Correio Braziliense, Vicente Nunes, foi dos amigos que estiveram mais próximos de Riomar. “Convivi com ele metade da minha vida, a melhor fase dela”, diz. Conheceram-se no Jornal do Brasil, em 1991. “Eu era inseguro, cobria mercado financeiro. E ele me dava todas as orientações: ouve tal pessoa, escolhe tal abordagem, destaca um personagem. E era impressionante

GISELE TEIXEIRA

P OR V ERÔNICA C OUTO

Riomar descontraído nos tempos da “república dos cariocas”, na casa do Lago sul, em Brasília.

como minhas matérias ficavam melhores do que as de outros repórteres até mais experientes no setor.” No final de 1993, passaram três dias sem se falar. Repórter de Economia, Vicente escapou no sorteio que escolheu quem ia passar a virada do Ano-Novo acompanhando Fernando Henrique Cardoso, então Ministro da Fazenda e candidatíssimo ao Planalto. Mas o chefe não facilitou. “Ele soube do sorteio e não gostou: ‘quem está chefiando o plantão sou eu, e quem vai fazer é o Vicente’. Fiquei muito bravo. Mas foi uma cobertura histórica, importante, e ele tinha toda a razão.” Os dois vieram para Brasília no início da década de 1990, Riomar para o Estadão, Vicente para o Correio Braziliense. E surgiu a “república dos cariocas”, casa no Lago Sul, onde moraram os dois (um gaúcho e o outro, paulista), ao lado dos jornalistas Rosane Oliveira, Paula Santamaria, Daniela Schol. Com algumas mudanças nos moradores – tam-

bém estiveram lá Carlos de Lannoy e Cláudia Bensimon – os dois ficaram ali até o ano 2000. E quase todas as fontes importantes de economia e política de Brasília devem ter visitado a “república” alguma vez. Indomável A casa de Brasília era grande, com quatro suítes, piscina. Mas nem precisava. Arthur Monteiro, na sua coluna na agência ABC Digital, lembrou que foi recebido em acomodações bem mais modestas. “Riomar Trindade me fez uma que pouca gente faz. Acolheu-me por uma semana em seu minúsculo apartamento da Rua da Praia, quando eu não tinha onde ficar. Um colchão no chão da sala era tudo de que eu precisava até ajeitar as coisas. Aquele gesto de generosidade vou levar sempre comigo.” Riomar começou a carreira na Platéia, jornal de Santana do Livramento. Trabalhou na Zero Hora, de Porto Ale-

gre, de onde foi para o Rio – para O Globo, Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil. Foi correspondente no Rio do Coojornal, projeto de jornal alternativo do Sul. Nos anos 1990, mudou-se para Brasília – trabalhando também na Gazeta Mercantil, no Jornal do Brasil, em O Estado de S. Paulo e no Correio Braziliense. De volta ao Rio, já doente, trabalhou na Empresa Brasil de Comunicação-EBC. O perfil de Riomar Trindade no Facebook recebeu dezenas de mensagens de afeto, após a notícia da sua morte. Muitos jornalistas o homenagearam em blogs e crônicas. O próprio Vicente Nunes (no Blogdovicente) registrou o “sentimento de vazio” deixado pela perda do amigo. “Com ele, tive as melhores lições que um profissional pode ter. Seu jeito de ser, de falar alto, muitas vezes enrolado, assustava à primeira vista. Não à toa, tinha o apelido de ‘bagual’, que, no Rio Grande do Sul, onde nasceu, significa ‘cavalo chucro, indomável’. Mas era somente uma defesa. Uma barreira que logo era quebrada por gestos de generosidade incomuns. Muito do que conquistei nos meus quase 25 anos de carreira devo a ele, que me mostrou o jornalismo ético, questionador, persistente, que não desiste diante das dificuldades, desde que o objetivo seja o de levar aos leitores as melhores informações.” Patrícia Cunegundes Guimarães, no blog Zeromeia, também lembra o estilo bagual, inflexível na defesa dos seus amigos e da sua equipe. “Em dezembro de 2000, eu desembarquei em Brasília para conhecer meus colegas de Redação na GZM [Gazeta Mercantil]. Voltei para Fortaleza, para organizar a mudança, apavorada. Não entendi uma palavra do que aquele gaúcho dizia. ‘Se eu disser que não entendi o que ele falou, apanho.’ A primeira impressão se dissipou em pouco tempo. De bravo, só a voz. O coração molengo cuidava de todos nós como filhos. Era um chefe que defendia a equipe, que se preocupava, que ensinava.” No artigo “Meu querido Riomar”, Jorge Oliveira descreveu a chegada de Riomar Trindade no Céu, carregando a madrugada na sacola. O texto foi reproduzido na internet por jornalistas de todos os cantos do País, entristecidos pela morte do repórter, chefe de reportagem, editor, amigo, dono das madrugadas de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília. A jornalista Cristina Chacel costumava saudá-lo no restaurante Lamas, no Rio, cantando um trecho de um samba da Portela, Lendas e Mistérios da Amazônia: “A Lua apaixonada chorou tanto, que do seu pranto nasceu o rio, o mar.” E o Riomar sorria de orelha a orelha. Quem viu esta cena não esquece. Jornal da ABI 369 Agosto de 2011

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