Jornal da ABI - 170 Anos da Caricatura no Brasil

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Uma foto histórica com refinado elenco de jornalistas das primeiras décadas do século passado. No centro da primeira fila, Raul Pederneiras, Presidente da ABI em 1916-17 e 1920-26.

RAUL, O PRESIDENTE CARICATURISTA Raul Paranhos Pederneiras foi um brasileiro maior. Dizem que não existiu, em sua época, alguém mais popular na Capital Federal do que ele. Era o mais velho da tríade composta por ele, K.Lixto Cordeiro e J. Carlos, considerados os maiores caricaturistas da primeira metade do Século 20 que enfeitaram as páginas das principais revistas humorísticas da época e circularam com elegância pelas ruas do Rio de Janeiro. Intelectual de prestígio, nasceu no Rio de Janeiro no ano da graça de 1874. Multitarefa, foi pintor, escultor, compositor e poeta; no teatro, foi figurinista e cenógrafo, autor de diversas revistas teatrais e fundador da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais–Sbat; professor, lecionou Anatomia e Fisiologia Artística na Escola Nacional de Belas-Artes e Direito Interacional na Faculdade de Direito da antiga Universidade do Brasil (UNB). Mas Raul é mais conhecido por sua extensa atividade jornalística. Em mais de meio século de atuação, passou por publicações importantes como O Paiz, Correio da Manhã, O Globo, Jornal do Brasil e Revista da Semana. Ele foi um dos primeiros sócios da ABI e ocupou a presidência da Casa em duas ocasiões. Vice na gestão de Belisário de Souza, assumiu a presidência quando este re-

Ao lado de J. Carlos, Raul Pederneiras e K.Lixto compunham a grande trindade do desenho e da charge no começo do século XX. Aqui Raul e K.Lixto são retratados com humor que ressalta suas diferenças.

nunciou, quatro meses antes do término de seu segundo mandato, em 1916; concorreu e foi eleito Presidente para o mandato de 1916-1917 e voltou depois para uma nova gestão, de 1920 a 1926, passando a seguir o cargo para Barbosa Lima Sobrinho (cuja primeira gestão foi de 1926 a 1927). A caricatura lhe trouxe ainda mais notoriedade. Seu primeiro desenho foi publicado em 1898 em O Mercúrio, que por ser totalmente colorido era uma revolução para a época. Depois sua fama só fez aumentar com a publicação de seus trabalhos em periódicos como O Tagarela, D. Quixote, Fon-Fon e O Malho. E não só esses. Ele emprestava seu traço a qualquer publicação humorística nova que surgisse. Entre suas criações de mais sucesso estavam as Cenas da Vida Carioca – sátiras aos usos e costumes da classe média de então – e os Onomatogramas – representações gráficas de nomes. Estes conquistaram aplausos até no exterior. Querido por todos, principalmente pela classe média, seu principal público, tratava de tudo com tanta elegância que jamais ganhou um desafeto por causa de suas charges políticas. Só pegava pesado contra a emancipação feminina – em muitas de suas caricaturas batia na tecla da falta de aptidão da mulher para

Auto-retrato de Raul Pederneiras

outras atividades que não as domésticas. Quanto aos ambientes que freqüentava, trocava a alta burguesia pela boemia carioca, junto de figuras importantes da época, como Lima Barreto, Olavo Bilac e, é claro, seu inseparável companheiro de traço K.Lixto Cordeiro. Raul encerrou a carreira em 1948, com a saúde debilitada. Morreu em 1953, aos 78 anos, deixando saudades.

Jornal da ABI 322 Outubro de 2007

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