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A CRÍTICA DE MÚSICA NUNCA ESTEVE TÃO VIVA

O estado de confusão e a sensação de fim de ciclo são sintomas de uma nova fase da produção jornalística musical brasileira, que está prestes a renascer em outra escala

por_ Alexandre Matias ∎ de_ São Paulo

É comum ouvirmos dizer que a crítica musical desapareceu e que essa atividade, antes resumida diariamente aos cadernos de cultura dos jornais, perdeu espaço para a agora onipresente agenda cultural. Isso é uma generalização. Há uma profusão gigantesca de textos jornalísticos ou de opinião sobre a igualmente extensa produção musical brasileira. Mas se, antes, só precisávamos acompanhar determinados veículos para saber o que estava acontecendo, agora precisamos fazer um verdadeiro trabalho de mineração.

No princípio, eram as revistas independentes e fanzines, que, aos poucos, migraram para a internet.No final do século XX, veio o blog— inicialmente um diário online de cunho pessoal —, que permitia aos neófitos da rede publicar conteúdos sem entender de tecnologia. Blogs e sites começaram a conviver numa espécie de realidade paralela, que se expandiu em razão exponencial com achegada das redes sociais. Logo, essa discussão já não era nem mesmo mais escrita — e, quando era, tornava-se fragmentada.

ANTES, O ‘ALGORITMO’ ERA HUMANO E RESTRINGIA O ACESSO DO PÚBLICO AO GOSTO DE UM CRÍTICO. ISSO ACABOU.”

Estou falando de listas de discussão por email, fóruns online,comunidades digitais, grupos de interesses específicos no Facebook e discussões encadeadas no Twitter, canais no YouTube, perfis no LinkedIn, podcasts... Jornalistas também viraram biógrafos ou autores de livros sobre música e transformaram críticas em teses acadêmicas. A vasta produção de jornalismo e crítica expande-separa atividades que não eram consideradas jornalísticas, como discotecagens, cobertura em mídias sociais, curadorias e direção artística.

O jornalismo passa hoje por uma situação semelhante à da música no início dos anos 2000. Quando o MP3 e o compartilhamento P2P permitiram que as pessoas tivessem acesso gratuito a todo o tipo de música, a música digital saiu de sua infância e entrou em uma puberdade que, como tal, tinha tons dramáticos. Era o apocalipse: o fim do mercado fonográfico, o fim das grandes gravadoras, o fim do CD. Falou-se até no fim da música.

A mesma coisa acontece com as notícias, só que, em vez de um software, a ameaça são as redes sociais. Ali, o público não paga por notícias e as consome regurgitadas por amigos, parentes e desconhecidos, que copiam e colam textos sem dar a origem da informação, publicam informações falsas como se fossem verdadeiras e criam novos vínculos de confiança, abandonando os velhos títulos que balizavam o mercado.

Nesse panorama, rádio e TV sobreviveram a duras penas, enquanto a mídia impressa parece fatalmente ferida.

Mas isso é uma fase. O que vem acontecendo é uma reestruturação de parâmetros que nos fazem perceber que o jornalismo de outrora agia como as redes sociais de hoje: reduzindo as informações a um único bloco de agentes, desprezando todos os outros que não dançavam conforme sua música. Antes, o “algoritmo” do jornalismo era humano e restringia o acesso do público às novidades a partir do gosto e dos interesses de um crítico ou um editor, criando a falsa ilusão de que aquelas escolhas eram a realidade musical existente.

Isso acabou. Jornalistas encastelados em suas torres de marfim, recebendo discos e informações privilegiadas da indústria e decidindo o que o público deve ler ou ouvir, são um passado quase caricato. O jornalista corre atrás das notícias, estabelece novos vínculos com artistas e produtores e expande os horizontes de seu público. Pensar em caçar e distribuir essa produção jornalística, em vez de simplesmente considerá-la inexistente por não vir à superfície em escala industrial, é a chave para voltarmos a ter um jornalismo de música consistente. E, diferente de antes, mais plural, acessível,profundo e divertido.

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