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CADERNO ESPECIAL

DEZEMBRO/2020 ASSISTA AO VÍDEO DOCUMENTÁRIO DESTE MATERIAL APONTANDO A CÂMERA DO SEU SMARTPHONE NESTE QR CODE.

UM HUMANISTA

NO PODER

JUDICIÁRIO ALAGOANO A trajetória de Tutmés Airan, o desembargador salvo pelos livros e que rompeu barreiras no Tribunal de Justiça, ao levar empatia, principalmente aos funcionários mais humildes. Nesta reportagem, Tutmés revela ainda um sonho: “Quero um dia ser prefeito de minha cidade”.


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“Os livros me salvaram” O

jornalista Geneton Moraes Neto (1956 – 2016) disse, certa vez – por ocasião de seu documentário “Garrafas ao Mar: A Víbora Manda Lembranças” (sobre o lendário jornalista Joel Silveira) – que uma das funções do jornalismo é produzir memória. E é isso que a Tribuna Independente e o portal tribunahoje.com se propõem nesta reportagem, dentro do Projeto Linha do Tempo, trazendo à baila um pouco da história do desembargador e atual presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL), Tutmés Airan, 58 anos, que se despede do cargo nos primeiros dias de janeiro de 2021, após dois anos de mandato. Esse é um recorte da história do homem que iniciou a carreira como advogado (defensor público), depois galgou

um lugar ao sol no concurso para professor da Universidade Federal de Alagoas até chegar a desembargador e presidente do TJ. Neste material impresso e no vídeo-documentário (DOC) que seguem, revelamos como Tutmés Airan, mesmo sendo o gestor de um dos mais cobiçados e pomposos Poderes constituídos de Alagoas, teve a sensibilidade de olhar os chamados “invisíveis” do Poder. É o caso de pessoas que trabalham nas funções mais humildes do Tribunal de Justiça e que estão acostumadas a presenciar juízes, desembargadores e outros cargos abastados, a sequer, muitas das vezes, dar um “bom dia!”. “Parece que não somos nem gente”, disse um dos personagens ouvidos, ao acrescentar: “Mas o doutor Tutmés que-

brou isso, vem aqui tomar cafezinho, brinca, e a verdade é que não sei como vai ser depois que ele deixar de ser o presidente, acho que vai voltar ao normal”. Você poderá conferir ainda como foi a trajetória de Tutmés desde a infância, passando pela juventude e sua paixão pelos livros, pelo futebol até chegar ao cargo mais alto do Poder Judiciário do Estado. Nesta reportagem Tutmés faz ainda uma revelação interessante e que aponta para um viés fora da Justiça: se a ele for dada a oportunidade, pretende um dia administrar sua cidade natal: Arapiraca. Confira essas e outras boas histórias. Boa leitura!


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TUTMÉS AIRAN A mãe Creuza de Albuquerque Melo e a irmã mais nova de Tutmés ainda bebê , Karine de Albuquerque Melo

POLÍTICA NO SANGUE FAMILIAR E DECEPÇÃO Tutmés de Albuquerque Lins nasceu em 1962, em Arapiraca, no agreste de Alagoas. Sua infância foi difícil. Por volta de 8 anos, a família teve um duro revés. Sua mãe, dona Creuza, e as duas irmãs sofreram com a separação do pai, Cláudio de Albuquerque Lins, por questões políticas. O pai foi deputado estadual, mas foi logo em seguida cassado pela ditadura militar. Cláudio foi perseguido e preso, onde passou alguns anos na cadeia, em Maceió. A mãe de Tutmés, sem estudos, era apenas uma dona de casa e não tinha como sustentar a família com a ausência do marido. Após o período na prisão, Cláudio tomou outro rumo, encontrou outra pessoa para viver e não retornou mais ao lar. Aquilo abalara para sempre a relação de Tutmés com o pai.

Tutmés junto da mãe, dona Creuza, prestando juramento durante sua formatura em Direito

Dos cinco aos dezesseis anos não tive relação alguma com meu pai, porque ele foi embora para o Sul do País”, conta Tutmés. O pai, Cláudio Albuquerque Lins, deputado cassado

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UMA CERTA LOURDES, A SEGUNDA MÃE F

oi aí que apareceu a irmã de Creuza, dona Maria de Lourdes Melo, atualmente com 86 anos, para segurar a barra daquela família.

Foi uma fase muito dura para minha irmã com aquelas crianças pequenas e sem a presença do pai, preso”, relembra Maria de Lourdes.

“Mas lembro-me bem de que o Tutmés, nosso ‘Tutu’, como chamávamos e ainda chamamos até hoje na nossa família, sempre foi um menino estudioso”, completa. Sobre a fase da prisão de Cláudio, pai de Tutmés, sua prima Cláudia Maria de Melo, filha de Maria de Lourdes, dá detalhes do que lembra daquela época. “Minha mãe dizia que o Cláudio pedia para ela e minha tia Creuza não olharem para os lados naquela prisão, quando as duas iam visitá-lo. Elas contavam que era um cenário assustador aquele presídio”, diz Cláudia.

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FÉ INABALÁVEL E CORAÇÃO ACOLHEDOR D

Dona Lourdes e a filha Cláudia: tia e prima de Tutmés

e cara, para quem chega à casa de Dona Maria de Lourdes, em Arapiraca, fica logo curioso com o grande número de imagens de seus santos e santas preferidas, que, segundo ela, sustentam as agruras e batalhas de sua vida, desde sempre. “Entrego sempre minha vida e dos outros em Deus e nas minhas santinhas Santa Terezinha das Rosas e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro”, explica Maria de Lourdes, referindo-se às protetoras favoritas e de quais diz manter toda a fé para servir as pessoas, principalmente nos momentos mais difíceis. Não à toa, dona Maria de Lourdes é conhecida por toda família como aquela que sempre acolhe, tal o coração enorme para ajudar os entes queridos em suas dificuldades, como ocorreu com a família de Tutmés. “Foi ela quem nos acolheu, nos deu afeto, alimentação, nos livrou da miséria, porque não tínhamos para onde ir. Acolheu minha mãe, eu e minhas irmãs. Nós éramos pobres de família rica“, ressalta Tutmés, ao se referir ao fato de que a tia Lourdes e outros parentes tinham uma boa condição financeira, ao

passo que dona Creuza estava vivendo o inverso desde que o marido foi embora. “Mamãe, além de criar seus cinco filhos, acolher em casa a família de Tutmés (minha tia Creuza, meu primo Tutu e minhas duas primas) também ajudou a criar cinco netos. Ela tem realmente um coração muito grande”, diz a prima de Tutmés, filha de dona Lourdes, Cláudia. Mas o bom de tudo isso é o resultado de tanto sacrifício. O menino Tutu estudou e venceu na vida e hoje sua segunda mãe, como gosta de frisar, manda um recado. “Tenho muito orgulho deste menino, sim, porque para nós é o nosso Tutu que cresceu e venceu na vida. Te amo, meu filho! Continue sendo este menino e homem bom e generoso com as pessoas”, completa dona Maria de Lourdes. Lourdes lembra ainda algumas histórias de Tutmés, quando este ainda era defensor público no município de Maravilha, no alto sertão de Alagoas. “Meu filho, o Tutu era tão generoso que, muitas vezes, dava parte de seus honorários a seus clientes mais pobres para eles pegarem transporte e até alimentação”, diz Maria de Lourdes.


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O CONVITE QUE MUDOU A VIDA DO MENINO “TUTU”

casa da tia onde Tutmés morava em Arapiraca era vizinha de um engenheiro de Maceió que havia sido transferido para a capital do Agreste a serviço da então Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal). Foi a grande sorte do adolescente, pois o engenheiro Rosevaldo Melo viu naquele garoto branquinho de cabelos lisos alguém muito promissor. O fato é que depois de alguns anos na casa de dona Maria de Lourdes, Tutmés foi levado por Rosevaldo para morar na capital, Maceió. A reportagem encontrou com o amigo, considerado um “pai” para Tutmés, em um apartamento no aprazível bairro da Ponta Verde. Foi lá que a conversa tranquila ocorreu com o engenheiro aposentado Rosevaldo Melo, o

homem responsável por fazer o convite que viria a transformar completamente a vida do menino Tutmés, ou “Tutu”, como é carinhosamente chamado até hoje por Rosevaldo. “Eu era engenheiro da Casal e trabalhava em Maceió. Mas certa vez meu chefe pediu minha transferência para Arapiraca. Para minha felicidade, quis o destino, fui morar vizinho à família do Tutu”, conta o engenheiro. A identificação com aquela família foi tanta que Rosevaldo revela o sentimento que passou a ser recíproco das famílias. “A família do Tutu passou de vizinhos a familiares meus mesmo, uma coisa muito bonita. A tia dele virou minha comadre, a mãe dele era gente muito boa. Foram cinco anos em Arapiraca. Terminado o prazo para a permanência em Arapiraca como funcionário da empresa,

lembra Rosevaldo, veio então o convite feito à família e ao menino. “O Tutu havia terminado o ginásio na época, e daí o convidei para morar conosco em Maceió. A família e ele aceitaram porque Maceió tinha mais oportunidades para aquele garoto dedicado e estudioso. E assim foi: ele terminou os estudos, fez vestibular e o resultado é este que todos sabemos hoje”, completou Rosevaldo. Rosevaldo Melo (ao lado), o homem que mudou a vida de Tutmés (na foto de formatura acima) com um convite para estudar na capital Maceió


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MOVIMENTO ESTUDANTIL,

AH, ESSES JOVENS! J á em Maceió, na trajetória normal de sua formação como estudante, Tutmés entrou no curso de Direito onde estudou entre 1980 e 1983, “foi a última turma em que se cursava em quatro anos”, informa o desembargador. Era início dos anos 1980 e os estudantes engajados nos movimento estudantil, alguns deles membros dos hegemônicos partidos políticos à época, como PCdoB e PT, que dominavam a cena nas universidades públicas na briga pelo cobiçado DCE, para dar rumo às políticas estudantis. Mas o PCdoB era hegemônico por ser mais antigo. Tutmés era estudante de Direito e relembra como era a cena naquela época. “Havia uma disputa na verdade entre o PT e PCdoB, e não havia naquele tempo espaço para quem pensasse diferente, ou seja, tivesse pensamento de direita na universidade. O embate era entre esses dois partidos”, conta o ex-estudante. Entre seus contemporâneos do PT na Ufal, ele cita o empresário Juca Sampaio, o secretário Fábio Farias, o jornalista e advogado Ricardo Coelho, a ex-reitora Valéria Correia (candidata a prefeita), o empresário Elias Vilela (irmão do ex-governador Teotônio Vilela).

Do PCdoB eram Edberto Ticianeli, Thomaz Beltrão e Ana Áurea. “Essa fase me ajudou muito, ideias efervescentes, me ajudou a ser comprometido com as grandes causas da humanidade, a ter desenvoltura para falar, até porque o curso de Direito se precisa disso”, completa Tutmés. Tutmés lembra, por exemplo, que promoveram uma mobilização para a melhoria nas péssimas condições e nível de insatisfação com o serviço de transporte para os estudantes e a comunidade universitária da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). “Nessa mobilização chegou-se a queimar três ônibus. Esses fatos pressionaram para que o então governador do Estado, Fernando Collor, criasse a Eturb–Empresa de Transportes Urbanos, e estabilizasse a então empresa responsável pelo transporte, a Progresso. Foi uma mobilização que deu realmente resultado, que terminou beneficiando não só os estudantes, mas, por tabela, a própria sociedade, que sofria com aqueles serviços horríveis de transporte”, lembra Tutmés.

Tutmés em ponto de ônibus na Universidade Federal de Alagoas relembra época de estudante. No detalhe, jornal produzido pelo movimento estudantil

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ARAPIRACA,

OS PRIMEIROS PASSOS DO MENINO “TUTU”

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ábado ensolarado na capital do Agreste, Arapiraca, com o calor e mormaço batendo perto da casa dos 35 graus. Convidado pela equipe de reportagem da Tribuna Independente e do portal tribunahoje.com, o hoje presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas transfigurouse e despiu-se de homem respeitado por sua responsabilidade como gestor da maior instituição do Judiciário alagoano para dar lugar ao menino que iniciou na cidade o caminho para vencer na vida. Durante algumas horas, suas reminiscências de infância e adolescência brotaram naturalmente, lembrando de gente, ruas, prédios e escolas por onde andou. Neste périplo pela capital do Agreste alagoano, Tutmés reviveu suas lembranças mais caras.

No banco do Parque Ceci Cunha, Tutmés diz como era o cenário mais de 40 anos atrás. “Tudo isso aqui era um grande lixão naquela época”, relembra, ao caminhar um pouco mais para a estrada que passa em frente ao parque e informar: “Ali foi construído o primeiro hotel de Arapiraca que pertencia à minha avó”, contou. Nas redondezas do centro de Arapiraca, entre um cumprimento e outro de velhos amigos em pleno centro comercial, Tutmés informava que ali perto estudou no antigo Instituto São Luís, atualmente Colégio Rosa Mística, e depois transferiu-se para a Escola Estadual José Quintella Cavalcanti, colégio que fica perto do campo de sua outra paixão na vida: o ASA.

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Conselho, um dos maiores símbolos da cidade


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PREFEITO DE MINHA CIDADE, QUEM SABE UM DIA”

E na caminhada com a equipe de reportagem pelas ruas da terrinha amada, a pergunta que não queria calar: desembargador, o senhor já pensou algum dia comandar a cidade que ama? Tutmés franziu a testa e numa sinceridade flagrante, respondeu: “Penso, penso sim!” Acho que tenho vocação executiva e acredito que ser político, na essência do termo, é para tornar possível os sonhos das pessoas em realidade”, disse. “Por isso sonho em ser prefeito de minha cidade e do meu povo”, ao completar, lembrando-se da ocasião em que foi governador em exercício por uma semana, na ausência do titular, Renan Filho. “Gostei da experiência de ter a caneta na mão quando estive no exercício do cargo do Executivo”, brincou Tutmés.

Fachada do Colégio Quintella Cavalcanti, uma das escolas onde estudou em Arapiraca

Reencontro com velhos amigos da cidade, como Sérgio Lúcio

Tutmés aponta para local onde foi construído o primeiro hotel de Arapiraca

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Pose com seu maior ídolo na história do seu time do coração, o ASA, Freitas: troca de elogios, autógrafos e muitas histórias

ENCONTRO COM ÍDOLO FREITAS, O “MATADOR”

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inda na sua amada Arapiraca, Tutmés Airan foi surpreendido com um encontro armado pela Tribuna Independente e o portal tribunahoje.com para que encontrasse uma de suas referências futebolísticas na adolescência e juventude. O eterno artilheiro Freitas, seu ídolo, e de toda a torcida alvinegra do ASA. Natazílio Freitas, 58 anos, é baiano de Ipirá, mas hoje é um cidadão arapiraquense. Tem uma placa em sua homenagem, mora há mais de 30 anos em Arapiraca, município que adotou como seu, mesmo quando tem que se virar para exercer a profissão de treinador pelo Nordeste afora. Também pudera. Ex-atacante de ofício, marcou a memória da fanática torcida do ASA em três temporadas, sendo o principal artilheiro da equipe nas três épocas que jogou. Segundo os dados, Freitas foi mais: se tornou o maior artilheiro da história do clube com 158 gols. De tanto encher as redes adversárias, chegou a ser denominado de “vocação do gol” pelos narradores esportivos. Jogou com algum sucesso também no CSA, mas não com igual intensidade como no ASA. Freitas chegou ao ASA pela primeira vez no fim de 1978, emprestado pelo Bahia, time pelo qual disputava a posição com o folclórico atacante Beijoca, jogador que

marcou época no Tricolor baiano. “Fui emprestado ao ASA e emplaquei 16 gols no Campeonato Alagoano. Foi o suficiente para o então presidente Paulo Tenório comprar o meu passe”. O investimento de Tenório deu certo. No ano seguinte, já como jogador 100% do Alvinegro, Freitas deu o retorno conquistando a artilharia do Campeonato Alagoano. Já devidamente ambientado, em 1980 Freitas deslanchou. “Lembro-me de que ganhei a artilharia do Alagoano em 1980 por um gol, disputando contra o Joãozinho Paulista, que jogava no CRB”, recorda. Após a ótima temporada, Freitas despertou a cobiça do Criciúma-SC. “A proposta foi irrecusável e aí o Paulo (Tenório), presidente, me vendeu por CR$ 4,5 milhões, na época”, conta. Após o término do contrato, Freitas foi trocado por um atacante chamado Zé Carlos que defendeu o CSA, baiano como ele. Retornou ao ASA para disputar outro campeonato. “E aí foram 28 gols e novamente conquistei a artilharia”, relembra. E o reencontro entre Tutmés e Freitas não podia ser diferente. Foi recheado de emoções, muitas histórias e troca de camisas alvinegras.


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No périplo por Arapiraca, Tutmés voltou a um palco que desde tenra idade e depois na adolescência frequentava com assiduidade. Vestido com o manto do time amado, como um jogador (fora de forma) pisou o gramado do Estádio Coaracy da Mata Fonseca, o Municipal, ou como diziam os torcedores mais antigos, o “Fumeirão”, nome dado quando Arapiraca ainda era a Terra do Fumo, a cultura pela qual o município ganhou fama nacional nos anos 1970 e 1980. Lá dentro do tapete verde, olhando para os setores do estádio, Tutmés lembrou do local onde normalmente ficava para torcer pelo seu ASA e de um hábito seu na época de torcedor juvenil. “Rapaz, um dos meus lanches preferidos era tomar a refrescante e geladíssima raspadinha”. A raspadinha era uma espécie de suco artesanal à base de sabores como maçã, coco e de outras frutas tropicais. Era vendida em estádios de futebol e nas escolas e, na época, fazia a festa para a criançada. Ainda no gramado, lembrava dos lances e gols inesquecíveis que viu naquele campo de futebol. Tutmés ainda visitou as dependências do Museu do Esporte, no estádio. Foi no velho Fumeirão ainda que Tutmés foi uma das testemunhas oculares ao ver pisar no gramado o indomável Garrincha, ex-seleção brasileira e ponta-direita da outra paixão do torcedor Tutmés: o Botafogo-RJ. “Vi Garrincha pessoalmente, pela primeira vez, no vestiário do velho estádio Municipal de Arapiraca, quando o craque – fonte primária do meu amor pelo Botafogo - preparava-se para um jogo-exibição, não lembro contra quem, vestindo a camisa do meu querido ASA, há cerca de 40 anos. Era o retrato da decadência!”, escrevera Tutmés no livro do amigo e botafoguense como ele, o escritor e jornalista Mario Lima.

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AS REFRESCANTES “GELADINHAS” NO FUMEIRÃO:

Tutmés no gramado do Estádio Municipal Coaracy da Mata Fonseca, o “Fumeirão”. Lembranças da época de torcedor. No detalhe, mostra foto do jogo do ídolo botafoguense Garrincha

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O DIA EM QUE O HUMANISTA SUBSTITUIU UM DEMOCRATA E

ra o dia 30 de setembro quando o desembargador Tutmés Airan, por força do rito nas hierarquias dos Poderes constituídos do Estado, ocupou o cargo número um do Executivo alagoano: o de governador de Alagoas. Em solenidade realizada no Palácio Zumbi dos Palmares, o desembargador Tutmés Airan de Albuquerque Melo, presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL), assumiu interinamente o Governo de Alagoas. Em seu discurso e durante entrevista coletiva, ele afirmou que se

sentia honrado em substituir um democrata, ao se referir ao governador Renan Filho, que cumpria agenda de trabalho no exterior, na ocasião. “Vou fazer minhas as palavras do ministro Humberto Martins (presidente do Superior Tribunal de Justiça - STJ). Ele diz que ‘Alagoas é o meu bem querer’, então eu tenho a oportunidade, ainda que de forma transitória, governar o meu bem querer, que é governar Alagoas. Além disso, para mim é uma honra substituir um governador que é um democrata. Quem é democrata nesse país,

nesse momento, nesse quadrante, precisa ser elogiado”, declarou Tutmés Airan, na oportunidade. Durante o exercício do cargo Tutmés teve na agenda de trabalho assinatura de convênios como o da Comunidade Espírita Nosso Lar para a construção de uma escola com recursos do Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza (Fecoep), além do envio do projeto da Delegacia de Vulneráveis à Assembleia e o projeto de compartilhamento de cota de 50% para negros na produção cultural.


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utmés fez questão de elencar os destaques de sua gestão à frente ao Poder Judiciário alagoano.

PROGRAMA DOS “OLHOS”, CRIAÇÃO DO JUSTIÇA EFETIVA O destaque nacional em produtividade, com contratação de servidores qualificados com mão de obra extra de juízes leigos, cada equipe com 10 pessoas, oito para produzir decisões e duas para desembaraçar processos em cartórios. “Com isso, na pandemia, fomos muito bem avaliados, com o menor orçamento dos tribunais da República, mas com um desempenho fantástico, porque mergulhamos na virtualidade, com audiências virtuais. Somos hoje, do ponto de vista da produtividade, destaque nacional e conseguimos resolver. Recitamos a poesia como tinha que ser recitada”, afirmou. BLOQUEIO, MAIOR DA HISTÓRIA DE ALAGOAS Na questão da proximidade com a sociedade, destaque para o

Tutmés recebe o título de Cidadão Honorário de Maceió, propositura dos vereadores Anivaldo Lobão e Chico Filho Como presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL), Tutmés Airan foi condecorado com o título de Cidadão Honorário de Maceió, em solenidade na Câmara Municipal, no dia 30 de outubro deste ano. Não precisa dizer que o coração deste humanista bateu forte, muito forte. Em seu discurso, destacou a felicidade e o orgulho em viver na cidade há 42 anos. “Na minha caminhada fui descobrindo Maceió e sua gente. Tive a sorte de ser abraçado, acolhido e é com enorme satisfação que recebo esse título”, afirmou o desembargador. Tutmés Airan falou sobre a sua vinda de Arapiraca para Maceió, sobre sua trajetória profissional e o importante papel que os livros tiveram em sua vida. Citando autores como Rubem Alves, visivelmente emocionado, Tutmés contou que veio à capital a convite de um casal de amigos de Maceió que o trouxe para estudar e ficar na casa

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BALANÇO E O MAIOR BLOQUEIO DA HISTÓRIA DE ALAGOAS

caso Pinheiro e bairros em volta da lagoa, que sofrem até hoje com as rachaduras e o iminente risco de afundamento do solo que gerou o caos e a transferência de centenas de famílias dos bairros. “Acolhemos esse povo e recepcionamos mesmo. Tentamos uma composição até onde pudemos com a Braskem, mas aí tivemos que fazer um bloqueio em torno de 2 bilhões, o maior da história de Alagoas. E quando fizemos isso, a empresa viu que não estávamos de brincadeira”, relata. ABERTURA PARA OS MOVIMENTOS SOCIAIS E MORADORES DE RUA Criação de uma Vara e Delegacia para Vulneráveis e as Caravanas em Defesa da Liberdade Religiosa, sobretudo de religiões afrodescendentes. “Isso é inconcebível hoje em dia, principalmente porque tivemos uma mácula histórica com o Quebra de 1912, com o Estado que já pediu perdão em 2012. “O Poder Judiciário hoje é produtivo e socialmente respeitado,

é um legado que fica”, disse Tutmés.

OS RITOS, DIVISOR DE ÁGUAS “Tem a ver com meu temperamento social, sem grandes entraves, além de humanístico, recebo qualquer pessoa do povo, se eu tiver disponibilidade. O Poder é muito sacrilizado, e tento quebrar isso”, disse. Tutmés levou toda sua equipe para a copa do Palácio República dos Palmares. “Temos que tratar bem a todos e o Poder só tem sentido se for para fazer bem às pessoas”, disse. TIRAR MUROS E CONSTRUIR PONTES No dia das mulheres, Tutmés atravessou a rua com o coral do TJ e foi se juntar na Praça Deodoro às mulheres do movimento sem-terra. As sem-terra e o coral se espantaram com o gesto, mas todo mundo gostou. “O Poder é cheio de muros e devemos enquanto gestor aproximar as pessoas”.

UM CIDADÃO QUERIDO! deles, porque viram um jovem e promissor estudante. “Eu tinha um compromisso comigo mesmo, de construir a minha primavera, ainda que tivesse que guerrear uma guerra e a arma que sempre desejei usar foi a arma do livro”, como disse ao citar o escritor russo Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky, também chamado de “o poeta da Revolução”. ”Os livros me salvaram da minha ignorância para além das aparências, e me possibilitaram me colocar no lugar do outro, sentir as suas angústias e compartilhá-las. Os livros também me salvaram da pobreza, porque foi a graças à leitura, ao conhecimento e às informações que pude caminhar e caminhar bem até chegar onde estou agora”, destacou. “Essa cidade me dá esse prêmio extraordinário. Talvez nem mereça esta homenagem”. O desembargador fez uma reflexão no plenário, como humanista que é, sobre os lados da cidade:

“Existem duas cidades antagônicas. A cidade de Maceió que acolhe, abraça, ampara, mas existe também uma outra cidade: a que exclui e a cidade que segrega. Mas eu tive a sorte de ser abraçado, de ser acolhido, de ser até amado, porque esse gesto é uma declaração de amor”, disse. Tutmés também citou o escritor Rubem Alves ao se referir a um texto que o autor faz um elogio à política: “Os políticos por vocação, de verdade, são jardineiros que transformam os sonhos em realidade, que podem transformar os desertos em jardins. E construir pontes dessa cidade que se antagoniza. O poeta sonha, constrói textos belos, mas o poeta não tem poder de transformar a realidade, quem tem esse poder são vocês, vereadores”, completou o presidente do Tribunal de Justiça ao ser aplaudido de pé no plenário.


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PARCERIAS COM SEMIDEUSES GRECO-ROMANOS NO TJ T

utmés Airan é um homem afeito a fatos históricos, não à toa, talvez isso se explique até pelo próprio nome, de origem egípcia. Foi sua criação, por exemplo, intitular parcerias do Tribunal de Justiça com programas que objetivam otimizar o turbilhão de processos antes parados na instituição, ao relacionar nomes de notáveis heróis e semideuses da mitologia greco-romana. É o caso do “robô Hércules”, criado no Laboratório de Estatística de Ciências dos Dados da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) em parceria com a Diretoria de Tecnologia do TJ, que já analisou mais de 10 mil petições intermediárias da 15ª Vara Cível da Capital

(Fazenda Municipal) desde sua criação, em 2019. O software é uma das inovações da gestão de Tutmés para quem a automação de rotinas repetitivas em uma unidade judiciária permite a identificação de petições semelhantes com mais agilidade, o que demoraria muito tempo se executado manualmente. Entusiasta da iniciativa, ressalta que o objetivo não é que a máquina substitua o homem, mas que seja utilizada em tarefas repetitivas. A ideia é continuar expandindo a tecnologia para as demais varas cíveis do estado. Atualmente, o robô está em teste na 30ª Vara Cível de Maceió (Saúde). Como na história greco-romana e os heróis mitológicos,

o robô Hércules é uma força sobrenatural da Vara de Execuções Fiscais (com tarefas repetitivas que demandariam muito tempo por humanos) e problemas que só poderiam ser resolvidos por muitos homens ao mesmo tempo. Outra criação de Tutmés nesta linha greco-romana de heróis foi a criação também do “robô Sanção”, que é a força na vara de Saúde, também com tarefas repetitivas, e o Espartacus, que tem travado uma “luta” com os depósitos judiciais sob guarda que está na ordem de R$ 1 bilhão, para contar numa conta única e negociar com qualquer banco. “Então são três robôs que travam lutas, fruto da parceria com a Universidade Federal”, explica Tutmés.


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UM VIVA À EMPATIA: TUTMÉS DESCOBRE “INVISÍVEIS” DO TJ

Um viva à empatia, há lugar para todos no coração humanista de Tutmés Airan de Melo Albuquerque! Esse poderia ser o resumo da ópera, ou o canto dos cisnes, da passagem de Tutmés Airan como presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas. Sim, porque como ele mesmo gosta de dizer a quem o entrevista, “é preciso construir pontes onde quer que se esteja”. E foi assim que, independentemente de raça, credo, cor ou classe social, Tutmés firmou para sempre laços dentro da instituição que presidiu. Que o digam os funcionários menos abastados da Corte de justiça alagoana ou dos cargos mais humildes, como testemunham as funcionárias Dioneide Teixeira, que trabalha na copa há sete anos, e Luciana Bezerra, que atua na limpeza há cinco anos, esta, inclusive, não segurou a emoção diante da reportagem: chorou e emocionou a todos.

Os presidentes anteriores não eram assim, não havia isso. Nunca fui bem tratada dessa forma. Nessa gestão a gente já está pensando quando terminar”, disse Dioneide.

A primeira vez que ele veio aqui foi uma surpresa, um susto. Ele é muito simples e humano”, completou Luciana.

Quando ocupou o cargo de governador em exercício por uma semana, Tutmés preparou uma surpresa que jamais sairá das lembranças das duas funcionárias: as levou para a copa do Palácio Marechal Floriano Peixoto, sede do governo estadual, para cuidarem da logística da copa e da parte gastronômica na sua estada no cargo. “Foi um sonho de princesa. A gente se sentiu gente, porque a gente nunca viu isso. Nunca pensei entrar lá, no palácio do Governo”, diz Luciana a chorar emocionada. “O presidente gosta de beliscar uma bolachinha”, afirma Dioneide. “No caso eu que sou da limpeza, é muito difícil olharem pra você, somos invisíveis, mas ele senta com a gente, brinca. Nas outras gestões a gente se sente invisível. Infelizmente está acabando”, completa Luciana. Para quebrar o clima de emoção Tutmés brinca: “São minhas meninas, rapaz!”.


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ÚLTIMO ATO: A COMENDA TAVARES BASTOS

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TRIBUNAHOJE.COM EDIÇÃO E REPORTAGEM WELLINGTON SANTOS FOTOS EDILSON OMENA CAIO LOUREIRO/TJ ACERVO PESSOAL PRODUÇÃO JOSÉ VANDERLEI

Tutmés recebe o título de Cidadão Honorário de Maceió, propositura dos vereadores Anivaldo Lobão e Chico Filho Em uma de suas últimas atividades na condição de presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ/AL), o desembargador Tutmés Airan recebeu da Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE) no dia 15 de dezembro a Comenda de Mérito Legislativo Tavares Bastos. A homenagem, que foi aprovada por unanimidade no plenário da Casa, foi de autoria do deputado Francisco Tenório (PMN). O deputado ressaltou o período de pandemia e o fato de o Poder Legislativo não realizar uma sessão solene com o público convidado que o desembargador merecia. O parlamentar declarou sua admiração pelo presidente do TJ.

“Os deputados aprovaram por unanimidade essa comenda e essa é uma demonstração da população alagoana já que este poder representa o povo que reconhece o bom trabalho que vossa excelência tem feito pelo estado de Alagoas de maneira geral”, disse. O grande homenageado, por sua vez, ressaltou o significado da honraria citando a atividade política como essencial ao ser humano e à sociedade. “Não há atividade humana sem a política. O político por vocação é como se fosse o jardineiro, é aquele cidadão que planta, rega, cuida, vê nascer as flores e frutos, nisso é insuperável se comparado ao artista, somente o político

realiza, transforma sonhos em realidade. É por isso que estou muito à vontade, descendo de uma família de políticos”, destacou Tutmés. Amigo de Tutmés Airan e seu sucessor, o desembargador Klever Loureiro foi enfático ao afirmar que a marca registrada do presidente do TJ é a simplicidade e a defesa do povo menos favorecido. “Muito merecida essa medalha pelos serviços prestados à sociedade alagoana reconhecendo sua simplicidade. Me sinto privilegiado em poder dar essa palavra e esse testemunho da pessoa que é o presidente Tutmés Airan. Parabéns em nome de todo o judiciário alagoano”, destacou Loureiro.

COORDENAÇÃO JOSÉ PAULO GABRIEL DOS SANTOS DIAGRAMAÇÃO JONATHAN CANUTO REVISÃO

BRUNO MARTINS

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Na Linha do Tempo - Tutmés Airan  

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