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T O S C H E N

AYAHUASCA série reblogs


TOSCHEN editora

Organismo PIKNIK O.V.N.E.Y. organismopiknik@gmail.com toschen.editora@gmail.com


SUMÁRIO XAMANISMO: O PODER DAS PLANTAS PROFESSORAS PABLO AMARINGO

pág. 4

O MISTERIOSO PODER DA AYAHUASCA

pág. 8

DESVENDANDO O MISTÉRIO DA ORIGEM DA AYAHUASCA

pág. 11

EFEITOS BIFÁSICOS DA AYAHUASCA

pág. 22

A MOLÉCULA DO ESPÍRITO, O CIPÓ DAS ALMAS E A... CIÊNCIA?

pág. 26

DMT ENTRE A VIDA E AMORTE

pág. 27

LOCALIZAÇÃO AYAHUASCA NO BRASIL

pág. 30

WORLD AYAHUASCA CONFERENCE - DA AMAZÔNIA PARA O MUNDO

pág. 33

WORLD AYAHUASCA CONFERENCE - DECLARAÇÃO AYAHUASCA

pág. 38

ALIMENTOS QUE DEVEM SER EVITADOS - AYAHUASCA

pág. 41

CONDIÇÃO CARDIOVASCULAR GRAVE

pág.43

USP CONDUZ ESTUDO SOBRE USO DE AYAHUASCA PARA TRATAR DEPRESSÃO

pág. 45

AYAHUASCA E DEPRESSÃO

pág. 47

ESTUDO CONCLUI QUE AYAHUASCA NÃO TEM EFEITOS NEGATIVOS A LONGO PRAZO pág. 49 AYAHUASCA NO TRATAMENTO DO CÂNCER

pág. 51

AYAHUASCA NO TRATAMENTO DA DIABETES

pág. 54

LEGALIDADE DO USO DA AYAHUASCA

pág. 56

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O homem, desde as antigas civilizações, busca através das plantas a cura para os males do corpo e da alma. O uso de ervas em tratamentos naturais contra doenças, fitoterapia, é cada vez mais usado no Brasil. Assim como o de plantas enteógenas – palavra de origem grega que significa “Deus dentro de si”- também conhecidas como “plantas professoras” ou “plantas de poder”. Como viviam próximos às florestas, e pela observação direta da natureza, os homens passaram a conhecer muito bem a sua fauna e flora. Esse contato possibilitou a liberdade de experimentar as plantas que os cercavam, propiciando, assim, a descoberta das “plantas professoras” e de muitos conhecimentos psicofarmacológicos e fitoterápicos que usufruímos hoje. Em antigos cultos religiosos não ocidentais, essas “plantas professoras” eram utilizadas Pintura de Pablo Amaringo (Divulgação) com a finalidade de estabelecer um possível contato entre o homem e o Divino, assim como fazê-los evoluir espiritualmente. Outras culturas acreditavam que essas plantas eram o alimento dos deuses, e quando consumidas geravam energia vital e ampliavam os poderes mentais. A esses conhecedores dos segredos e mistérios das plantas, e da natureza em si, deu-se o nome de Xamã.O xamanismo é uma filosofia que visa o reencontro do homem com o seu mundo interior e estabelece ensinamentos baseados na observação da natureza: sol, lua, terra, água, fogo, ar, animais, plantas. É difícil precisar como e onde as práticas Xamânicas surgiram, indícios arqueológicos estimam de 20 a 30 mil anos. A pedagoga e psicóloga Carminha Levy, uma das pioneiras nos estudos de Xamânismo no Brasil, conceitua Xamã como “aquele que sabe”. Na cultura tradicional, o Xamã pode ser um raizeiro, curandeiro ou rezadeiro que conhece bem a energia da natureza e as utiliza na cura da mente, corpo e espírito. Já o termo enteógeno foi denominado por Górdon-Wasson, Albert Hofmann, e Carl Ruck, que discutiam a utilização errônea do termo alucinógeno quando havia algum tipo de “iluminação divina”. De acordo com o biólogo e antropólogo cultural Wagner Lira, “a etimologia da palavra alucinógeno, segundo estes autores, nos remete a um estado de demência momentânea, catarse, perda dos sentidos, delírio e divagação mental com fins hedonistas”, que diverge do estado ocasionado pelas plantas enteógenas. Existem algumas religiões que se estabelecem a partir do contato com as “plantas de poder” xamânico, entre elas a Igreja Nativa Americana, a Igreja do Santo Daime, o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal 4


(CEBUDV) e a Barquinha – as três últimas são brasileiras e fazem uso daayahuasca, bebida Xamânica feita com o cipó marirí e folhas de chacrona. O cipó possui os derivados beta-carbolínicos da harmina, tetrahidroarmina e harmalina como alcalóides principais. A chacrona possui N-dimetiltriptamina, conhecida por DMT ou “molécula espiritual”. Quando questionado se o chá bebido nas sessões do CEBUDV tem poderes alucinógenos, o estudante e adepto Igor Lacerda respondeu: “Não. O vegetal é iluminógeno”. Por falta de conhecimento, muitos ainda consideram erroneamente os enteógenos como plantas alucinógenas, tóxicas, diabólicas. Wagner Lira, em sua tese de mestrado em “Etnografia Ayahuasqueira Nordestina” pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), confirma que existe uma diferença entre as plantas enteógenas e psicotrópicas. Segundo ele, é o contexto de uso, e o contexto social no qual o uso se insere, que as caracterizam e diferenciam. “Um exemplo de uma substância psicotrópica que não é considerada enteógenica é o LSD. Apesar de suas propriedades visionárias, essa substância não é usada por nenhum culto religioso”, explica. Já a Cannabis Sativa, segundo ele, usada dentro de um contexto ritual rastafary ou shivaísta é considerada um enteógeno, não um psicotrópico – no Brasil, a planta não é considerada enteogênica devido às leis proibicionistas.

Da esquerda para direita, de baixo pra cima: Goddess (Abril, 2000), Cosmologia Espiritual (Novembro, 2001), Simiruna Yachay / Poderes del Sumiruna (Fevereiro, 2002), Pachamana Kausai / La Existencia de la Tierra (Novembro, 2001), Chirapa Callo / Lengua de Arco Iris (Outubro, 2001) e Atun Huasi Amasanga / Gran Templo de los Maestros (Novembro, 2001) 5


As “plantas professoras” mais conhecidas e catalogadas pela literatura científica, segundo Wagner, são: o cacto peyote (Lophophora williamsii), utilizado pelas tribos da América do Norte e América Central; a planta trombeta (Datura metel e Datura stramonium), comum aos nativos mexicanos; o cacto San Pedro ou wachuma (Echinopsis sp.) dos povos andinos; o rapé de pariká (Anadenanthera sp. e Virola sp.), também comum às tribos andinas; os cogumelos mágicos, que mesmo não sendo plantas são considerados “vegetais de poder” (principalmente as espécies de Psylocibes); o cânhamo (Cannabis sativa), usado ritualmente pelos hindus, islâmicos, antigos zoroastros, africanos, janoneses e chineses; a planta jurema (Mimosa sp.), dos índios e caboclos do Nordeste brasileiro; a iboga ou buite (Tabernanthe iboga), típica planta africana e as espécies vegetais que compõem a bebida ayahuasca do xamanismo andino; o cipó marirí (Banisteriopsis caapi) e as folhas da chacrona (Psychotria viridis). Pesquisadores confirmam uma crescente busca de jovens de classe média por essas “plantas de poder”, e procuram entender o que está impulsionando esse interesse. De acordo com Beatriz Labate, em “A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos”, nos últimos anos a moda New Age fez com que pessoas do mundo inteiro procurassem esses conhecimentos na América Latina. “Pequenos grupos experimentais utilizam ayahuasca no mundo inteiro. Seja em atendimento psicoterapêutico, por meio de vivências típicas do universo New Age, em contextos relacionados à criação artística e até em atividades com moradores de rua”, afirma. Wagner Lira comenta que algo intrínseco nesses jovens parece chamar por um destino cultural e espiritual mais autêntico, com essência espiritual verdadeira e desligada do material, assim como uma ligação entre o material e o espiritual. “Perto da natureza, sob o efeito de plantas que ensinam, os jovens criados nos centros urbanos percebem coisas na natureza que antes lhes havia escapado. Fica evidente que o uso para propósitos transcendentais vai perdurar como um traço indelével da existência humana. Os resquícios da antiga tradição xamânica do uso de plantas sagradas sobrevivem ao lado de formas mais atuais de consumo”, diz. Outro fator é uma certa rejeição às religiões tradicionais; os jovens não estariam mais aceitando os paradigmas religiosos dominantes e continuam buscando o equilíbrio espiritual para aliviar as angústias, insegurança, insatisfação que todo ser humano experimenta. Pesquisadores comentam também, que essa busca favoreceu o interesse pela saúde natural, a agricultura sustentável, as fontes renováveis de energia e os conceitos de moradia orgânica. Propiciando, assim, uma consciência ambiental mais abrangente.Entretanto, é importante alertar que o uso das “plantas professoras” precisa ser feito com a orientação de um mestre, mediador, sacerdote ou xamã, para que tais ensinamentos possam realmente ser apreendidos. E essa aprendizagem costuma ser diferenciada e particular. Uma das religiões que faz uso das “plantas professoras” e atua na Região Metropolitana do Recife, há mais de 21 anos, é o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (CEBUDV). Temos também o Santo Daime, em São Lourenço, e a Panahuasca em Camaragibe. A instituição religiosa CEBUDV surgiu em 1961, fundada por José Gabriel Costa, um baiano que se alistou no “Exército da Borracha” e trabalhou como seringueiro nas florestas próximas à fronteira entre o Brasil e a Bolívia. No Estado de Pernambuco foi fundada em 10 de fevereiro de 1988. “Dentro de tanta luta em uma floresta, lutando com a família para sobreviver, Mestre Gabri6


el lembrou de nós, e trouxe a União com um único pensamento: trazer uma paz para a humanidade”, garante mestre Raul, do Núcleo Cajueiro, o primeiro do Estado, e complementa: “Mestre Gabriel sabia que a paz não se consegue como quem escreve um tratado, mas com acesso à educação, moradia. Ninguém pode estar em paz sem ter liberdade religiosa também. O trabalho da União é promover a paz para humanidade, através do desenvolvimento pessoal, intelectual, moral e espiritual”. Hoje, existem 131 unidades administrativas da CEBUDV no Brasil, com mais de 15 mil adeptos. Em Pernambuco existem quatro centros. No exterior existe um núcleo em Santa Fé, no Novo México (EUA) e na Espanha. O CEBUDV tem a liberação do Governo Federal para utilizar as duas “plantas professoras” (mariri e a chacrona) durante as sessões, e possui, desde 1986, profissionais da área de saúde pesquisando as propriedades da ayahuasca no Departamento Médico Científico da União do Vegetal (DEMEC). “Esse chá que a gente bebe é uma chave, e essa chave cabe em muitas portas. Não é o chá que modifica as pessoas, mas o perfeito entendimento da doutrina, do que se ensina, e dependo do querer de cada um em se melhorar. O chá facilita que a pessoa faça uma introspecção, examine o seu sentimento, a sua memória, e veja onde está errando. Paramos um pouco para pensar na vida, dentro do que é direito, correto, e, assim, podemos melhorar”, afirma mestre Raul. Pablo Amaringo nasceu em 1943 em Pueril Libertária, região da Amazônia peruana. Teve o primeiro contato com a planta de poder ayahuasca aos 10 anos de idade, e desde então passou a buscar os segredos da fauna e flora peruana. Sob a inspiração do vegetal pinta suas viagens cósmicas, o homem interagindo com a natureza divina. Suas pinturas são vívidas, coloridas, detalhadas, harmoniosas, cheia de animais, plantas, espíritos e seres mitológicos. É coautor do livro Ayahuasca Visions: The Religious Iconography of a Peruvian Shaman (Berkeley, North Atlantic Books), juntamente com Luis Eduardo Luna. Fundou a escola de pintura Usko-Ayar, e supervisiona beberagens do vegetal ayahuasca.

Pablo Amaringo (Foto: Divulgação) 7


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Jaume V. começou a consumir pasta base de coca já na maturidade. Estava com 47 anos e havia sido diretor-geral de várias empresas. Seu negócio quebrou, ele passou por um divórcio, e então os problemas começaram. Juntou-se com quem não devia e sua vida se foi lentamente pelo ralo. Giovanna Valls (Paris, 1963) passou em poucos anos de cheirar uma carreira de heroína numa festa de Paris a se acabar atirada no antigo bairro de Can Tunis, em Barcelona, enquanto alguém lhe espetava uma agulha no braço. Durante sua queda, sobreviveu cometendo furtos em shoppings e contraiu o vírus da AIDS, tuberculose e hepatite. Em 2004, quando já era para alguém estar gravando seus nomes em alguma lápide de cemitério em Barcelona, suas vidas se cruzaram em um pequeno povoado às margens do rio Mapiá, no Amazonas. Esgotadas todas as vias tradicionais de reabilitação, eles decidiram participar de um tratamento experimental para a cura de vícios através da ayahuasca. Durante oito meses, consumiram o chá de forma controlada com um grupo de indígenas e outros pacientes da Espanha. Vários fatores devem ter influenciado, mas o fato é que ambos se salvaram. Desde então, Jaume e Giovanna, escritora e irmã do primeiro-ministro da França, Manuel Valls, tomam ritualmente e de forma periódica essa droga alucinógena cujo uso disparou nos últimos anos na Europa – normalmente por pessoas de perfil sociocultural elevado –, por causa da expansão de correntes espirituais como a meditação. A ayahuasca é uma espécie de infusão que resulta da fervura em água de um cipó amazônico chamado Banisteriopsis caapi (ou cipó-mariri) e de plantas que contêm a substância química DMT, que induz às visões. Separadamente, eles não têm nenhum efeito, mas juntos induzem a estados alterados de consciência que igrejas amazônicas como o Santo Daime utilizam com fins religiosos e espirituais. Entretanto, além da esfera ritualística — há cerimônias todos os finais de semana em cidades como Madri e Barcelona —, essa droga expõe também lugares de informação do inconsciente e outras áreas do cérebro que facilitam alguns tratamentos psiquiátricos contra transtornos como dependências, depressão e estresse pós-traumático. As últimas pesquisas, em grande parte realizadas na Espanha — onde o consumo transcorre num limbo jurídico —, deram início à exploração dessa substância pela via científica. Josep Maria Fábregas, psiquiatra especialista em dependências e diretor da clínica CITA (Centro de Pesquisa e Tratamento de Dependências, na sigla em espanhol), conheceu a planta há mais de duas décadas durante uma viagem à selva amazônica. E aquilo derivou em importantes estudos sobre seus usos terapêuticos, publicados em revistas como Drug and Alcohol Dependence e PLOS One. “Na clínica CITA nunca utilizamos essa substância. Mas meus estudos pessoais na Amazônia me permitiram observar que ela tinha 8


aplicações para casos refratários a terapias convencionais. De uma forma muito artesanal, introduzimos a possibilidade de que pudesse se tornar uma opção terapêutica. Os resultados nos animaram mais, e acabou sendo criada uma estrutura profissional onde essas capacidades podem ser aproveitadas”, afirma. Assim foi criado o IDEAA (Instituto da Etnopsicologia Amazônica Aplicada), uma espécie de clínica/acampamento em plena bacia do Amazonas onde 150 pacientes já passaram várias temporadas recebendo uma terapia alternativa. Lá Valls escreveu o livro Aferrada a la Vida (inédito no Brasil), em que narra sua experiência. “[A ayahuasca] foi a ferramenta da qual eu precisava depois de tantas clínicas e desintoxicações. Abriu um canal no meu cérebro e me permitiu enxergar a mim mesma e começar pelo perdão”, diz Valls no jardim da sua casa, em Barcelona. Os resultados nos demais pacientes foram “muito alentadores”, segundo Fábregas. Mas não há dados precisos sobre o percentual de sucesso. Jaume V. recorda que 14 das 16 pessoas que conviveram com ele durante três meses, 10 anos atrás, recuperaram uma vida normal longe do vício (uma das 16 morreu, e da outra ele perdeu o contato). “Em psiquiatria utilizamos fármacos de 60 anos atrás. O Prozac está há 40 anos no mercado, o Valium há 60… Continuamos tratando sintomas e sendo incapazes de modificar as situações de base. As substâncias que induzem a visões poderiam ser uma opção para isso. Hoje em dia estão sendo iniciados estudos em muitos países para a implementação dessas técnicas como terapia.” Jordi Riba, doutor em farmacologia e chefe do grupo de Neuropsicofarmacologia do Instituto de Pesquisas do Hospital de Sant Pau, em Barcelona, há 20 anos estuda a ayahuasca. Acaba de colaborar num estudo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria no qual essa substância foi administrada a pacientes com casos de depressão refratários a tratamentos convencionais. Os fármacos tradicionais demorariam duas ou três semanas para fazer efeito, ao passo que, nos casos citados, algumas horas após a aplicação de uma dose única já se observava uma notável melhora, que se manteve por até 21 dias. Diante desses resultados, a droga começou a ser usada também em casos de estresse pós-traumático e na reabilitação de detentos em prisões brasileiras. Parte da explicação desses resultados é que o alcaloide principal dessa mistura acessa o cérebro e se une a proteínas que estão em alguns neurônios. Isso ativa determinadas áreas cerebrais situadas na fronteira entre a parte emocional e a cognitiva, o que se traduziria na capacidade de recuperar lembranças com um elevado conteúdo emocional e poder observá-las com certo distanciamento. “Obtivemos uma imagem de ativação do cérebro no córtex frontal, a amígdala e o hipocampo. Essas áreas se encarregam do processamento emocional, da memória e da inter-relação da informação emocional com a cognitiva. E, durante os efeitos, conforme pudemos ver nos exames de varredura antes e depois das sessões, há um aumento da transferência de informação entre essas áreas”, explica Riba. A ayahuasca não é uma droga recreativa. Segundo o mais recente estudo do psicólogo e especialista em farmacologia José Carlos Bouso, a idade de início gira em torno dos 35 anos, e o usuário não busca novas sensações, e sim respostas a traumas ou a problemas mal resolvidos. Mas os efeitos da ayahuasca são muito poderosos. É impossível tomar essa substância sem alguém que supervisione a experiência. Até agora, as poucas mortes registradas nunca foram causadas por seus efeitos, e sim por acidentes resultantes do consumo em um ambiente que não era seguro. “Na América do Sul, também houve alguns casos de intoxicação, mas é difícil saber exatamente o que foi ingerido. Também pode haver interações perigosas com outros medicamentos que alguém possa estar tomando. Foram descritas reações de medo e pânico durante a experiência. Além disso, há certo aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, por isso alguém com problemas cardíacos não deveria ingeri-la”, alerta Riba. Fora do ambiente científico, o uso da ayahuasca apresenta muitas ambiguidades jurídicas. A ONU, através do Órgão Internacional de Controle de Entorpecentes (INCB, na sigla em inglês), não regula a droga. No entanto, a substância DMT, contida na ayahuasca, é criminalizada. A França é o único país onde a droga é proibida, mas não por seus efeitos, e sim por seu vínculo a uma seita. Em países como Brasil, EUA e Holanda, é reconhecida por seu uso religioso e, na maioria, como na Espanha, encontra-se em um estado de limbo jurídico. Desde 2009, houve cerca de 40 prisões no país depois que alfândegas espanholas interceptaram 9


recipientes com a substância. No entanto, apenas um caso levou a uma condenação (com um acordo do réu com a promotoria para evitar a prisão). Na maioria das vezes, são pessoas que queriam fazer uma cerimônia e a polícia intercepta o envio do pacote, apresentando-se nas residências como um agente dos correios. Ao assinar a entrega do pacote, a pessoa é presa. Uma cerimônia – a Catalunha é um dos epicentros na Espanha – consiste em um encontro de pessoas de meia-idade, muitas vezes todas vestidas de branco, reunidas em um fim de semana para tomar essa infusão. Geralmente, há um guia (muitos viajam expressamente para formalizá-las) dirigindo o ritual e alguns presentes que monitoram para que todos estejam bem (os chamados fiscais). Os participantes fecham os olhos e ficam cerca de seis horas fazendo o trabalho sem falar com ninguém. Benjamin De Loenen é o diretor-executivo da ICEERS, uma fundação que promove a pesquisa sobre plantas com propriedades psicoativas de uso tradicional e a potencial integração como ferramentas terapêuticas. “A ayahuasca é usada na Espanha há 25 anos, isso não é novo. Mas agora ficou mais conhecida. Há um interesse em fazer trabalhos [assim é chamada uma sessão] de autoconhecimento, e [as pessoas] frequentam cada vez mais essas cerimônias. Mas permanecem sendo grupos privados onde as pessoas participam. Não é um fenômeno muito comercial.” O avanço significativo, no entanto, pode ser visto em seu aspecto médico e farmacológico. E, acima de tudo, no estranho fato de que uma droga ancestral da Amazônia entre na Europa do século XXI.

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Desvendando o mistério da origem da Ayahuasca Neste artigo, o autor discorre sobre temas caros aos estudiosos da ayahuasca. O primeiro deles sobre como os indígenas teriam "descoberto" entre infinitas possibilidades a combinação entre o cipó (Banisteriopsis caapi) e a folha (Psychotria viridis).

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por Gayle Highpine

RESUMO Durante décadas, os pesquisadores têm se intrigado com o mistério da origem da Ayahuasca, especialmente a questão de como teria sido descoberta a sinergia entre os dois componentes da bebida : a videira (Banisteriopsis caapi ) com um inibidor da monoamina oxidase (IMAO), e a folha ( Psychotria viridis ou Diplopterys cabrerana ), que exige para fazer a dimetiltriptamina (DMT) ativa por via oral . A partir de dois anos de trabalho de campo entre os xamãs indígenas Napo Runa (Equador), estudos cruza dos com o dialeto quíchua e o registro de dados antropológicos, eu afirmo que a origem botânica da B. caapi estava no rio Napo; que a forma original da Ayahuasca xamanismo empregou o cipó Banisteriopsis caapi sozinho; que o uso xamânico da ayahuasca se espalhou e difundiu antes das misturas contendo DMT serem descobertas; que a sinergia entre B. caapi e Psychotria viridis foi descoberto na região da atual Iquitos, a sinergia entre B. caapi e Diplopterys cabrerana foi descoberto em torno do rio Putumayo superior, e que cada combinação difusa de lá ; e que as descobertas dessas sinergias surgiu por causa da prática tradicional de mistura de outras plantas medicinais com Ayahuasca bebida. Entre os Napo Runa, a ayahuasca é considerada "a mãe de todas as plantas " e um mediador e tradutor entre os mundos humanos e plantas , ajudando os seres humanos e as plantas para se comunicar uns com os outros .

Introdução Quando eu comecei a beber Ayahuasca com os Napo e Pastaza Runa no Equador, eu sabia pouco sobre ela. Tudo que eu sabia era que era muito importante para eles e que eles insistiam que ninguém conseguia entender sua cultura sem beber Ayahuasca. Originalmente, me envolvi em apoio nas suas lutas contra as companhias de petróleo, mas quando os amigos Napo Runa souberam que eu era um escritor, editor e lingüista, me pediram para ajudá-los a documentar a sua cultura, que eles temiam estar sendo perdida pelas gerações mais jovens. Eles queriam alguém para transcrever a história e as tradições orais para ajudar a desenvolver textos bilíngües, materiais culturalmente relevantes para as escolas. Tenho uma licenciatura em Linguística, com um foco especial em dialetologia quechua. Aprendi a língua deles em análises lingüísticas comparando o seu dialeto quíchua da Amazônia (ou Kichwa ) com terras altas Quechua dialetos do sul do Peru e da Bolívia, que estudei enquanto vivi nessas regiões em 1970. Ao mesmo tempo, fiz a pesquisa para uma tese de mestrado sobre permacultura amazônica, que analisava a forma como os índios da amazônia cultivam a floresta de uma forma que aumenta ao invés de diminuir a biodiversidade. 11


Morei no Equador por quase dois anos, a maior parte desse tempo com a família de um xamã Napo Runa . Uma ou duas vezes por mês, alguém viria para uma cura e que haveria uma cerimônia de Ayahuasca . Depois, há normalmente seria outra cerimônia na noite seguinte para usar a poção restante. Eu tive um convite aberto para beber na cerimônia , então eu bebi Ayahuasca , em média, duas a quatro vezes por mês. "Vinha com uma alma" Ayahuasca é a palavra tanto para a videira Banisteriopsis caapi quanto para a bebida preparada a partir dela Inequivocamente, este é o significado de " Ayahuasca " ao povo Napo Runa de cuja língua a o nome procede. Até recentemente, esta foi a definição de Ayahuasca para todos os etnógrafos e etnobotânicos que gravaram uso Ayahuasca entre os povos indígenas e mestiços da Amazônia Superior. Desde as primeiras observações escritas do uso da Ayahuasca por padres jesuítas em 1700 , foi a videira, ou liana , cujo uso foi gravado. O etnobotânico Richard Spruce, primeiro cientista a estudar Ayahuasca, observou que os povos muito distantes do Amazonas usavam a mesma vinha, e coletou amostras. " No século que se seguiu o trabalho notável de Spruce ", escreveu etnobotânico Richard Evans Schultes , " muitos exploradores , viajantes, antropólogos e botânicos tem se referido à ayahuasca, caapi , ou yagé ... preparados a partir de um cipó da floresta. " ( Schultes , nd) Até meados da década de 1980, todos os antropólogos que escreveram sobre o uso de Ayahuasca , sem exceção, definiram a Ayahuasca como Banisteriopsis caapi , ou como uma vinha do gênero Banisteriopsis . Nos livros , a entrada de índice para "ayahuasca " ou " yagé " dizia, " ver Banisteriopsis caapi " ou vice-versa. Alguns antropólogos mencionaram outras plantas adicionados à bebida , mas trataram-nas como sendo de importância secundária. Outros não mencionam aditivos. Em 1972, Marlene Dobkin de Rios, depois de ter lido toda a literatura disponível mencionar Ayahuasca em Inglês , Espanhol e Francês , em preparação para o seu livro Visionary Vine , resumiu a definição unânime da Ayahuasca na época: "Antropólogos têm comentado sobre o uso da ayahuasca como uma bebida alucinógena usada por sociedades hortícolas primitivos. A bebida tem o mesmo nome como a videira , apesar de vários nomes, como Natema , yajé , yagé , Nepe e kaji têm sido utilizados em toda a área da bacia. Ayahuasca é o termo geral que tem sido aplicada a várias espécies diferentes de banisteriopsis , a qual pode eventualmente ser adicionado drogas psicodélicas adicionais ." Richard Evans Schultes , "o pai da etnobotânica moderna", que passou 12 anos na Amazônia na década de 1940 e 1950 , escreveu em 1976: "Ayahuasca e Caapi são dois dos muitos nomes locais para qualquer uma das duas espécies de uma videira sul-americana: Banisteriopsis caapi ou B. inebrians .... Algumas tribos adicionam outras plantas para alterar ou para aumentar a potência da bebida ...." As plantas adicionadas à ayahuasca por alguns índios na preparação da bebida alucinógena são incrivelmente diversas e incluem até mesmo samambaias. Vários são agora conhecidos por serem ativo em si e para alterar de forma eficaz as propriedades da bebida básica .... Dois aditivos, utilizados em uma ampla área por muitas tribos , são especialmente significativos . As folhas ( mas não a casca ) de uma terceira espécie de Banisteriopsi -B . rusbyana [ agora reclassificado como Diploptrerys cabrerana ] são muitas vezes adicionados à preparação " para alongar e clarear as visões . " ... sobre uma área muito mais ampla , incluindo o Brasil da Amazônia , Colômbia , Equador e Peru, as folhas das diversas espécies de Psychotria - especialmente P. viridis - são adicionados. Este arbusto florestal de 20 pés pertence à família do café , Rubioceae . Como B. rusbyana , verificou-se recentemente para conter o fortemente alucinogenos N - dimetiltriptamina. Algumas plantas foram "acrescentadas à ayahuasca por alguns índios "; dois aditivos foram "empregados em uma ampla área por muitas tribos . " Significativamente, Schultes ( que experimentou Ayahuasca com diferentes grupos indígenas mais do que ninguém jamais fez ou vai, e que o uso e mistura foram cuidadosamente registados bem como seus efeitos causados pelos aditivos ) não diz " normalmente " ou que " a maioria dos" aditivos tribos usados. De fato , em seu livro de 1992 Vine da Alma , Schultes reduz o uso de aditivos para "ocasionalmente " ( Schultes 1992:22 ) . O autor continua a discorrer sobre o fato de que o registro de uso do cipó ayahuasca (B. Caapi) isoladamente, é muito anterior ao acréscimo da folha (Psycotria viridis) e que a popularização no mundo científico de que a ayahuasca seria fruto de uma hipótese formulada pelo etnobotânico Terence McKenna sobre o efeito do DMT no organismo, presente apenas na folha. 12


Nomes e Classes do cipó Ayahuasca Não é só em grupos de língua Quechua que o nome da bebida coincide com o do cipó. Isso se repete em quase todos os grupos indígenas: caapi , ou palavras semelhantes entre falantes Tupi, yajé , Kaji , ou palavras semelhantes entre falantes Tucano , Natém , ou palavras semelhantes, entre os falantes Jivaro, shuri (uni), ou palavras semelhantes, entre falantes Pano, kamalampi , ou palavras semelhantes, entre falantes arawak : todos são nomes usados tanto ​​ para o cipó quanto para a bebida. A importância da videira Banisteriopsis caapi nas culturas ayahuasqueiras amazônicas é mostrado nas mitologias tradicionais, nos costumes, como o uso do cipó como um amuleto e um motivo para decorar o espaço ritual e roupas ( Weiskopf 2005:125 ), e nas distinções sutis feitas entre as variedades B. caapi . Os Tukano têm pelo menos seis variedades, com nomes como Suana - kahi - ma ( Kahi do jaguar vermelho) e Kahi -Vai Bucura - rijoma ( Kahi da cabeça de macaco ) ( Schultes , 1986). Junquera (1989) registrou 22 classes de B. caapi diferenciados pelas Harakmbet ( mashco ) índios , como Boyanhe ( verde, verdes ), que "produz visões de caça, pesca, à procura de propriedade, migrações, visões , etc "; Sisi ( carne de antepassados )​​ que produz " visões do céu , aqui entendido como o universo do passado para o presente "; Kemeti ( carne de anta ), que produz " sinais que visam a recriação do universo mítico "; Wakeregn ( branco) que produz " imagens brancas que mostram a viagem para Seronhai , um lugar onde a estadia morto "; e dezoito outras classes. Reichel- Dolmatoff ( 1975:155 ) descreve um xamã barasana que identificou pedaços de videira como " Guamo yagé ", "mamífero yagé " e " yagé cabeça " mastigadas . O Kaxinawa do Brasil distinguir variedades vermelho, azul , branco e preto ( Lagrou , 2000). Ayahuasqueros Mestizo em Iquitos reconhecer branco, preto, vermelho, amarelo, cielo (céu), Trueno ( trovão) , e boa caapi . Langdon (1985) registrou as seguintes classificações de B. caapi videira entre o Sionas : yai - yajé , nea - yajé , horo - yajé , weki - yajé , wai- yajé ou wahi - yaj , ; wati - yajé , weko - yajé , hamo - weko - yajé , Beji - yajé , kwi -ku - yajé , kwaku - yajé , aso- yajé , kido - yajé , usebo - yajé , ga- tokama - yai - yajé , zi - simi - yajé , bi' - ã- yajé , sia - sewi - yajé , sese - yajé ou sise - yajé ( " yajé porco selvagem ", usado para a caça ) e so' -om -wa- wa'i - yajé ( " yajé longo videira" ). Langdon escreve que entre os Siona onde os xamãs freqüentemente comercializam variedades de caapi, e que "se um xamã encontra um cipó selvagem na floresta , ele vai preparar uma bebida para determinar o seu valor para a inclusão em seu próprio repertório, especialmente em relação ao que visões pode induzir " Wade Davis cita Jorge Fuerbringer , um velho colono alemão há muito estabelecidos no Putumayo (citado em Weiskopf 2005:125 ) : " . Quando um [ yagé ] planta é repassado no comércio , assim é a sua visão específica. A Siona não pode classificar uma planta sem saber seu histórico de negociação. Cada planta tem , assim, uma linhagem que liga -lo através de todos os tempos para todos os outros . " Essas classificações não são baseadas em características físicas ou botânicos, mas em critérios de os efeitos xamânicas e os tipos de visões produzidas . Richard Evans Schultes escreveu (1986) : Não há dúvida de que os índios no noroeste da Amazônia podem identificar diferentes tipos de caapi ou ayahuasca , a uma distância sem sentir, degustar ou cheirar o cipó ... Os nativos afirmam que eles são capazes de usar esses tipos de caapi ou yajé ou ayahuasca para preparar bebidas de forças diferentes, para diferentes fins, ou em conexão com diferentes cerimônias ou danças ou necessidades mágico-religiosas, ou o que o participante deseja matar na caça. Por outro lado, tais distinções são feitas de variedades e linhagens e os efeitos das plantas de mistura . É a videira (cipó) , e não a folha , que é classificada de acordo com o tipo de visão e o efeito xamânico induzido utilizado . 13


A nova definição de Ayahuasca Richard Evans Schultes prestou atenção para a mistura de plantas e com base em suas próprias bebidas teve experiência de consumo com e sem aditivos, Schultes formulou a hipótese de que MAOI na videira pode tornar o DMT ativo em alguns aditivos orais. Em 1984, esta hipótese foi confirmada experimentalmente por Terence McKenna, GHN Towers, e FS Abbott. Posteriormente, foi popularizada por Terence McKenna . No entanto , ao contrário de Schultes , que havia especulado que DMT foi responsável por grande parte da atividade da bebida , McKenna fez a DMT responsável por tudo isso. Embora ele admitiu que as beta -carbolinas na videira " pode ser alucinógena em cerca de doses tóxicas , " 4 ( 1992:33 ) McKenna popularizou a idéia de que a Banisteriopsis caapi não tinha outro papel em uma bebida Ayahuasca , exceto para tornar o DMT ativo por via oral . " Eles são importantes para o xamanismo visionário porque podem inibir sistemas enzimáticos no corpo que seria de outra forma despotencializar os alucinógenos do tipo DMT " ( McKenna 1992:33 ) . "A ação da Banisteriopsis , na medida em que as visões estão em causa, é evitar que o Psychotria sejam neutralizados pelas enzimas gástricas " ( Calavia 2011:131 ) . No mundo ocidental , Ayahuasca adquiriu uma nova definição: Era agora , por definição , a combinação de Banisteriopsis caapi e uma planta contendo DMT Ayahuasca tornou-se , por definição, o primeiro antropólogo a adotar o novo " DMT ativo por via oral . " como definição parece ter sido Luis Eduardo Luna , em 1984. Luna passou um tempo com Terence McKenna , absorvendo sua perspectiva, antes de iniciar seu trabalho de campo . Desde então, os antropólogos têm cada vez mais adotado essa definição e filtrada suas observações através dele. A preeminência da ayahuasca no mundo amazônico indígena tornou-se o elefante na sala de estar de estudos Ayahuasca , com um acordo tácito para fingir que ela não existe . Neste ponto de vista, o único agente psicoativo importante na bebida Ayahuasca é DMT; e porque B. caapi não tem DMT , B. caapi não é psicoativa; e porque P. viridis utilizados isoladamente não tem efeitos DMT , P. viridis por si só não é psicoativa . E, assim, um novo "mistério" nasceu : Como os povos indígenas descobrir como criar uma bebida psicoativa de duas plantas que , isoladamente, não têm efeitos psicoactivos ?

O Cipó e a Folha Eu vim ao mundo da ayahuasca , sem preconceitos. Eu tinha bebido Ayahuasca por cerca de metade de um ano antes de eu começar a fazer investigação fora sobre isso. Quando eu fiz, eu fui incitado a aprender algo que tinha descoberto através da experiência. Eu tinha descoberto que não havia correlação entre a profundidade da viagem e a experiência visual . Às vezes, uma experiência foi muito profunda e também intensamente visual; às vezes era muito profundo , mas teve poucos ou nenhum efeitos visuais; às vezes estava cheio de visuais coloridos, mas não muito profunda; e às vezes era sutil em ambos os aspectos. A profundidade e os efeitos visuais eram duas variáveis independentes ​​ . Então eu li que havia dois componentes necessários para uma bebida Ayahuasca : a videira (cipó) e a folha . Comecei a ter interesse nas folhas que vi sendo adicionadas à bebida. Às vezes, um monte de folhas foram adicionados, por vezes, um pouco, às vezes nenhum, dependendo do que estava disponível. As folhas eram chamadas chakruna, o que geralmente significa não Psychotria viridis , a planta conhecida como Chakruna , mas mais frequentemente cabrerana Diplopterys , a planta mais conhecida como Chaliponga ou Chagroponga. O Napo Runa às vezes usam P. viridis , mas preferem chaliponga, bem como outras espécies de Psychotria chamadas Amiruka. Quando nenhuma deles estava disponível , às vezes Ilex guayusa (uma ramo amazônico da família do mate platino) seria adicionado à bebida. As folhas eram "ajudantes " da Ayahuasca me foi dito, e seu propósito era o de " iluminar e esclarecer " as visões . A videira é como uma caverna, e a folha é como uma tocha que você usa para ver o que está dentro da caverna. A videira é como um livro, e a folha é como a vela que você usa para ler o livro. 14


A videira é como um aparelho de televisão, e a folha ajuda a entrar em sintonia com a imagem. Havia uma atitude sutil que a necessidade de folha era o sinal de um novato : um ayahuasquero experiente pode ter as visões mesmo com pouca luz . O cipó ayahuasca não é um indutor de visões da mesma maneira como é o DMT. Visões de bebidas apenas com cipó são sombrios, monocromático, como silhuetas, fumaça ou ondulação, ou nuvens que atravessam o céu noturno. É porque suas visões são geralmente monocromática que são classificados pela cor da visão que produzem : branco, preto , azul, vermelho (na minha experiência , marrom escuro). Cobras, a visão mais comum em Ayahuasca, é considerado o espírito manifesto do cipó. Visões de cipó podem ser mais difíceis de ver; de fato , as "visões " podem não ser visuais, mas auditivas ou somáticas ou intuitivas. Mas a videira carrega o conteúdo da mensagem , o ensino, e o insight. A folha ajuda a iluminar o conteúdo, mas os ensinamentos são creditados ao cipó. Visões de cipó são " freqüentemente associada com a escrita, com um código que está presente nas visões ... ou nos " livros " onde os espíritos guardam os segredos da floresta. " ( Calavia Saez 2011:135 ) . A videira é o Mestre, o Curador, o Guia. O propósito de beber Ayahuasca é receber a mensagem que a videira dá . É por isso que é a videira , e não a folha, que é classificado pelo tipo de visão que dá. " Para eles, a videira é, na verdade , um guia de vida, um amigo, uma autoridade paterna " ( Weiskopf 2005:104 ). Através da dieta entre os Napo Runa, Gayle Highpine descobre que o cipó da ayahuasca é também um indutor da comunicacão com outras plantas."Outras culturas enteogênicas reverenciam suas plantas enteógenas, mas Ayahuasca ensina as pessoas a venerar também outras plantas"

Ouvindo o Cipó Enquanto eu estava morando na aldeia, alguém começou o processo de aprendizado xamânico. Houve uma série de cerimônias com bebidas de força especial para esse fim; feita com enormes quantidades de videira. Cerca de duas a três libras de cipó fresco por pessoa foi usado (cerca de 25 a 35 vezes a quantidade necessária para a inibição MAOI). Essas foram experiências poderosas de fato. Embora o aprendizado tenha começado com bebidas esmagadoramente pesadas, quanto mais o aprendiz progredia, mais fraca a bebida que ele precisaria . Ele iria aprender a ver a mais obtusa de visões. Se ele passou um total de dois anos em "jejum" (dieta), então, eventualmente, até mesmo cheirar ou provar a bebida , mesmo tocando em uma planta Ayahuasca, seria suficiente para visitar seus reinos. Por outro lado , ele iria aprender a navegar a mais forte das bebidas com foco, e sem distrações mesmo em qualquer quantidade de fogos de artifício de DMT . A forma mais importante de se tornar sensível a Ayahuasca é através Sasina , que o Napo e Pastaza Runa Runa traduzem como "Ayuno ". Isto é essencialmente o mesmo que o que, como é conhecido como Dieta entre os xamãs mestiços do Peru. Trata-se de alimentos sem sabor, sem estimulação sexual e com o mínimo de ruído e interação social desnecessária. Muito tem sido escrito sobre a Dieta , então eu não vou entrar em detalhes aqui. Para um aprendiz de xamã , a dieta permite que eles habitem no mundo espiritual; alimentos saborosos e estimulação sexual iriam trazê-los de volta ao seu corpo . Para os não-xamãs , o a dieta torna mais sensível e transparente aos espíritos das plantas. A Ayahuasca ensinou o povo esta técnica para ajudálos a desenvolver relacionamentos mais profundos com os espíritos das plantas. Ayahuasca tem três funções interrelacionadas entre o Napo Runa . O papel mais conhecido é a sua função em cerimônias de cura. Ela também é conhecida por seu papel de adivinhação, especialmente a visão distante. Nas histórias orais que gravei , os incidentes foram, por vezes mencionados quando os membros da família em casa, preocupados com alguém há muito ausente, iriam beber Ayahuasca para descobrir o que estava acontecendo com essa pessoa. Alguma literatura menciona o uso por parte de alguns grupos de Ayahuasca para localizar animais de caça e saber o que os inimigos estão fazendo; também como forma de adivinhação. Seu terceiro papel , no entanto, mal começou a ser reconhecido pelo mundo fora: mediador e tradutor entre o mundo humano e o mundo das plantas. Entre os Napo Runa, uma das funções vitais da Aya15


huasca é ensinar os seres humanos sobre outras plantas , além de si mesmo. Entre os enteogenos, este parece ser único. Outras culturas enteogênicas reverenciam suas plantas enteógenas, mas Ayahuasca ensina as pessoas a venerar outras plantas. Ela ensinou às pessoas a prática de Sasina (dieta) para que pudessem usá-lo aprender a se comunicar com outras plantas e não só a si mesma. Se você aprender o suficiente da Ayahuasca, me foi dito, todas as plantas são enteogênicas e visionárias, não apenas aquelas poucas com poderosos aríetes químicos para romper as barreiras mais difíceis na consciência humana . No mundo da Ayahuasca, aliados espirituais são principalmente plantas. Continua... Na sequência, o linguista Gayles Highpine aborda a relação da ayahuasca com a língua franca do Império Inca, o Quetchua. No universo da ayahuasca é comum a associação entre os Incas e a bebida cerimonial. No entanto não há qualquer registro de uso da ayahuasca entre os Incas. Ainda assim, a própria palavra ayahuasca e outra dezenas de palavras utilizadas em cerimonias pertencem ao quetchua, língua franca do Império Inca. Por que?

A língua Quechua e História da Ayahuasca Gayle Highpine

A história da Ayahuasca se confunde com a língua quíchua. A palavra Aya - Waska é Quechua , e a língua está intimamente associada com o xamanismo ayahuasqueiro, mesmo em áreas onde o quechua não é falado. "Além de seus termos próprios todos os grupos de uso da ayahuasca também usam a palavra quíchua "ayahuasca", mesmo quando em discursos e canções na língua-mãe" ( Brabec de Mori 2011: 4). Os xamãs mestiços de Iquitos, onde o rio Napo se junta à Amazonia, não falam quíchua, e ainda assim sua prática está cheio de palavras quíchua, como arkana ( fortaleza ), kutipa ( vingança), manchari (doença do susto), pusanga (encanto de amor) e até mesmo o espírito da floresta Chullachaki. São ouvidas palavras em quíchua nos icaros mestiços que incluem shamuy ou shamuriy (vir), shayay ou shayariy (de pé ou ficar) , Muyuy ou muyuriy (para ir em um círculo ), kapariy (gritar ou chamar ), kayariy (para ligar ou convidar) , llukshiy (para sair ), sinchi ou shinzhi (forte), sumay ( beleza ), samay (respiração ou energia espiritual), kawsay (vida ou energia vital ), shungu ( coração ), nawi (olho), yawar (sangue), wayra (vento), nina (fogo), Illapa ( raios), indi (sol ), killa (lua), Allpa (terra, solo , terra ), urku (morro ou montanha ), sacha ( floresta ), ambi ou hambi (medicina ou veneno), puma (onça-parda) , amarun (jibóia ou anaconda) , kindi (beija-flor) , kuraka (chefe ), pacha ( mundo, tempo, espaço ), Hanã (alto, elevado ), Wasi (casa, morada ), Pungu ( porta ), warmi (humano ou espírito feminino ), kari (humano ou espírito masculino), runa (pessoa, homem,entidade, espírito), maymanda (de onde ) e chaymanda ( de lá).

Os Incas Quechua é mais conhecida como a " língua dos incas", por isso a associação do Quechua com a Ayahuasca tem, não surpreendentemente, dado origem à especulação de que a ayahuasca pode ter se originado com os incas ou se espalhado pelos incas. Não há nenhuma evidência direta de que os incas tenham usado Ayahuasca. Os Incas chegaram ao atual Equador muito tardiamente e seu império mal tocou na orla do território da Ayahuasca. É pouco provável que os incas tenham aprendido sobre a Ayahuasca quando chegaram às regiões que usam a bebida. Os incas tinham um intenso interesse na vida prática de local onde quer que fossem, embora o seu interesse tenha sido menor em plantas medicinais do que em variedades locais de culturas comestíveis. Se os Incas tenham utilizado a Ayahuasca, no entanto, de modo restrito às classes dominantes da elite (que é o que a palavra " Inca " significa: "adequadamente para") e as pessoas comuns não tenham participado Isso teria sido algo comum para os Incas: a classe de elite teve muitas práticas cerimoniais reservados fechados para as pessoas comuns, embora alguns detalhes estejam gravados. É possível que eles não gost16


assem de Ayahuasca: os Incas tinham um desgosto para qualquer coisa muito selvagem, caótica ou incontrolável. Independentemente disso, não há nenhum sinal de uso de Ayahuasca ou a lembrança disso entre os índios das terras altas (embora as pessoas em torno de Cuzco começaram recentemente a aproveitar-se do turismo ayahuasqueiro) . Os incas tiveram contato muito recente para terem sido o vetor para espalhar a ayahuasca para os povos amazônicos fora de sua pátria original. Os incas não atingiram o Equador até meados dos anos 1400. É estranho supor que apesar de não apresentarem a ayahuasca ao seu próprio povo nas terras altas, eles teriam o feito não apenas para poucas tribos amazônicas situados na franja que confinava seu império, mas para muitas outras tribos fora desta franja, e muito mais para leste, inclusive para o Brasil em lugares onde não há nenhuma evidência de que algum dia tenha colocado os pés. A confusão entre a origem da Ayahuasca e os Incas vem de uma falta de conhecimento da história da língua quíchua.

Ramos de Quechua Quechua é mais precisamente uma família de línguas do que propriamente uma única língua. Ela tem dois ramos principais: a filial sul e o ramo norte, e vários outros ramos isolados menores. A filial sul engloba as terras altas do sul do Peru , Bolívia e norte da Argentina. O ramo do norte, norte do Peru, do Equador e sul da Colombia. Cada ramo tem sub-ramos divididos em numerosos dialetos variados. Quando os incas adotaram o quíchua como língua franca do Tawantinsuyu, eles estavam se aproveitando de uma língua franca existente já em uso generalizado. Linguístas históricos traçam o Quechua como proto-língua original do centro do Peru, de onde os principais ramos divergiram entre mil e duzentos e dois mil anos atrás. Assim, até mesmo na estimativa mais conservadora, o Quechua foi utilizado no norte do Peru e Equador muitos séculos antes da chegada dos Incas, cujo império começou por volta de 1200 e atingiu o Equador no final dos anos 1400. Os ramos norte e sul do Quechua são mutuamente ininteligíveis. Eles têm grandes diferenças na pronúncia, vocabulário , semântica e gramática. Por exemplo, "Qual é o seu nome? Meu nome é Ana "seria: "Ima sutiyki ? Sutiyqa Anam" em Cuzco; em Napo, seria "Ima shuti kangui ? Ana shuti kani . " "Eu te amo" é "munayki " em Cuzco, "kanda munani" em Napo . "Meu pai tem uma casa " seria "wasiyuqmi taitay " em Cuzco, e " Nuka yaya Wasira Charin " em Napo. O quíchua que está associado com a Ayahuasca claramente pertence ao ramo do norte. A pronúncia segue o padrão norte (Shungu vs Sonqo para o coração, arkana vs hark'ana para fortaleza, kindi vs q'enti para o colibri, shamuy vs hamuy para vir, etc) pela semântica, mesmo dentro da gama limitada de palavras Quechua usadas por mestiços, é fácil encontrar exemplos que mostram que eles seguem o vocabulário e semântica do norte. Por exemplo, sacha significa "floresta" ou "selvagem" em quéchua amazônico; em Cuzco sach'a significa árvore. A palavra em Quechua amazônico para " folha", encontrado em muitos nomes de plantas medicinais, é panga; no sul do Peru , "folha" é laqi , laphi ou rafe. A raiz da palavra para pusanga (encanto de amor) , o verbo pusa -(para levar ), não existe no quetchua cuzquenho. Muitos outros exemplos poderiam ser citados. O Quechua associado com a Ayahuasca não é claramente o dialeto Inca.

O Coração da Amazônia Quechua A bacia do rio Napo é o coração da Amazônia Quechua . É a parte mais acessível de toda a bacia amazônica. Encontra-se abaixo do passo Papallacta, um portal onde os índios das terras altas e terras baixas se reuniram para negociar. (Papallacta é a palavra quechua para "cidade de batata", porque as batatas foram o item principal do comércio trazido pelos índios das terras altas.) O rio Napo se junta ao rio Amazonas perto da atual Iquitos. Assim, o Napo conecta diretamente as terras altas dos Andes com o rio Amazonas. Foi uma importante rota de comércio e corredor de troca intercultural. Dezenas de grupos étnicos diferentes negociaram com outro para cima e para baixo do rio, usando o quíchua amazônico como língua comum. O caráter suave e pacífico de seus descendentes sugere uma sociedade de comércio pacífico. 17


O contato entre planaltos e planícies mostra na influência das terras altas na música Napo Runa superior e em suas roupas tradicionais, e na forma como curandeiros indígenas das terras altas do Equador, embora não usem ayahuasca, empregam o soplar e o shakapa da mesma forma como é feito todos ao longo do rio Napo para Iquitos. Como é a área mais acessível de toda a Bacia Amazônica, a região de Napo foi a primeira parte da Amazônia a ser penetrada por europeus: Gonzalo Pizarro e Francisco de Orellana, em 1541. Foi a primeira área atingida por epidemias, que precederam os europeus si . As margens do rio Napo já estavam despovoadas quando Orellana chegou. As epidemias rapidamente varreram de cima e para baixo os principais rios, onde as populações estavam mais concentradas. O próprio rio Amazonas, uma vez que a zona mais densamente povoada da Bacia Amazônica, teve 100 % de perda de população. Desde então, as tribos e as comunidades continuaram a ser abalada por diversas forças destrutivas, de epidemias ao rompimento missionário, a escravidão virtual em encomiendas (sesmarias ), o ciclo da borracha e nas últimas décadas, a colonização em massa, o desmatamento, perdas de terra e o envenenamento dos rios, que são a principal fonte de proteína em sua dieta, por companhias de petróleo. Ao contrário do quechua das terras altas, que se tornou a primeira língua dos povos, como resultado da erradicação intencional de idiomas locais por missionários espanhóis, o Quechua amazônico, ou Kichwa , desenvolveu-se entre sobreviventes de grupos dizimados, casados entre ​​ si e agrupadas em novas famílias e aldeias. Eles falavam o idioma que eles tinham em comum um com o outro; o Kichwa; seus filhos, por sua vez, cresceram falando Kichwa como sua primeira língua . Os Yumbos de Papallacta foram absorvidos pelo superior Napo Runa, os fragmentos dos outrora poderosos Omaguas foram em sua maioria absorvidos pelo menor Napo Runa, e o záparo foram em sua maioria absorvidos pelos Pastaza Runa, que também absorveu muitas Shuar e Achuar deslocados. Muitos Pastaza Runa falam Shuar ou Achuar, bem como Kichwa e espanhol. Muitos povos menores também foram absorvidos pelo Runa. Assim, o Napo Runa e outras falas amazônicas de quechua de hoje são um caldeirão de culturas diferentes. O número total de falantes de quíchua amazônico , são estimados entre 40.000 e 100.000 o que compreende apenas uma pequena porcentagem do total da população de língua quíchua, que somam na casa dos milhões. Falantes de Quechua amazônico (ou Kichwa ) compreendem entre 5% e 10% do total de falantes de línguas indígenas da Amazônia, tornando o Quechua (em dialetos muito diferentes), de longe, o mais falado das cerca de 200 línguas indígenas utilizadas na Bacia Amazônica. Coletivamente , os grupos Kichwa Amazônicos compreendem mais da metade da população indígena da amazônia equatoriana.O quechua pode portanto ser chamado de linguagem da Amazônia, bem como nos Andes. Apesar de conhecida desde 2.500 a.c, a malária não tinha uma cura específica. Em apenas 25 anos de contato com esta doença, os Napo Runa encontraram o quinino que até hoje é a base para cura da malária. Eles próprios atribuem o seu vasto conhecimento em plantas medicinais à ayahuasca: "a mãe de todas as plantas".

Ayahuasca e Sobrevivência em Napo O atual Napo Runa são famosos no Equador tanto entre os estudiosos quanto por outros grupos indígenas pelo grande número de diferentes plantas medicinais que conhecem. Alguns estudiosos estimam que um total de 1,2 mil diferentes plantas medicinais são conhecidos e utilizados entre os Napo Runa. Richard Evans Schultes estimou em 1.600 plantas conhecidas na maior região envolvendo Equador leste e áreas adjacentes da Colômbia e do Peru. Parte da razão para isso pode ser que os Napo Runa originaram-se como uma amálgama de diferentes povos, cada um com suas próprias tradições. Outra parte da razão é o fato de que seu território contém ecossistemas significativamente variados devido às altitudes onde a floresta encontra o sopé dos Andes. Mas tanto os antropólogos quanto os Napo Runa atribuem o fato de que o povo Napo Runa conhece muitas plantas ao fato de que os seus antepassados foram os primeiros índios da Amazônia para encontrar os europeus, e portanto os primeiros a serem atingidos por doenças europeias. Em contraste, os seus vizinhos (e inimigos tradicionais ) para o sudeste, os Waorani, foram capazes, por causa de sua extrema ferocidade, de manter o seu isolamento até a década de 1950, e muitos ainda vivem 18


livres na floresta. Em 1980, algumas décadas após os Waorani terem sido "pacificados", tornou-se seguro para pessoas de fora para visitá-los. Desde então pesquisadores tem visitado os Waorani para aprender sobre suas plantas medicinais tradicionais. Devido ao isolamento de tanto tempo, sua cultura tradicional foi mantida intacta, pensava-se que seriam um tesouro de conhecimento etnobotânico. Mas os pesquisadores voltaram com míseras trinta e cinco plantas medicinais entre os Waorani, e perceberam que, em seu estado isolado, os Waorani não precisavam de muitos medicamentos: "Eles nunca tinham sido expostos a poliomielite ou pneumonia, nem houve qualquer evidência de que a varíola, varicela, tifo e febre tifóide tenham afetado a tribo. Não houve sífilis, tuberculose, malária ou hepatite. Das trinta e cinco plantas medicinais, trinta foram usadas para ​​ tratar uma de seis possíveis necessidades: infecções fúngicas, mordidas, problemas dentários, febres, picadas de insetos, dores e lesões traumáticas, como mordidas de animais, feridas de lança, e ossos quebrados. O restante foram avaliados para o tratamento de alguma doença idiossincrática" (Davis, 1996: 291-2). Esses medicamentos, até recentemente, eram os únicos necessários. Antes da invasão européia, os antepassados do ​​ Napo Runa provavelmente tinha um número e variedade de medicamentos similares, mas em pouco tempo eles descobriram muitas novas plantas medicinais para ajudá-los a lidar com os novos desafios de cura. Aqueles que sugerem que a sinergia entre o cipó da Ayahuasca e folha (rainha ou chacrona) foi descoberta por tentativa e erro, não tem ideia da biodiversidade da Amazônia. São cerca de 80.000 espécies de plantas catalogadas na região onde Ayahuasca é utilizado, mas estima-se que haja cerca de um milhão de espécies vegetais ainda não catalogados. O Napo Runa descobriram mais de mil plantas medicinais, algumas em combinações complexas, e descobriram a maioria deles em um tempo muito curto, em apenas um século ou mais de a introdução de doenças europeias. Na verdade, embora o mundo já tenha conhecido a malária há milhares de anos (foi descrito na China em 2700 aC), e não tinha remédio para ele, dentro de 25 anos da introdução da malária na Amazônia, o primeiro medicamento para a malária, o quinino, extraído de uma planta, foi descoberto pelos povos indígenas no Equador. A ideia de tentativa e erro entre pessoas doentes e plantas aleatórias certamente que não é uma maneira eficaz de descobrir quais plantas podem ajudar. Os Napo Runa dão crédito à ayahuasca pela descoberta de tantos medicamentos. Quando as novas doenças os atingiram - não apenas as doenças infecciosas, mas também doenças decorrentes de estresse e da opressão da escravidão xamãs do povo Napo beberam a ayahuasca no contexto de uma rigorosa "dieta", e a Ayahuasca iria então enviar visões de plantas específicas e suas localizações. Uma vez que uma nova planta foi encontrada, ela normalmente seria preparadas em conjunto com a ayahuasca para solicitar visões para ajudar a entender os efeitos da planta, para se comunicar com a planta, e aprender a trabalhar em parceria com a planta como um aliado do espírito. Curandeiros de ervas também usam ayahuasca para ajudar a prescrever remédios para um paciente, embora aliados espirituais da planta possam ajudar com a cura, mesmo sem um paciente necessariamente consumi-los na forma física. Mesmo se a pessoa não aceitar a possibilidade de comunicação planta (que eu faço), poderia haver outras razões pelas quais Ayahuasca é considerado o mestre de outras plantas medicinais. MAOI podem potencializar muitos tipos de ação farmacêutica, e o IMAO em Ayahuasca pode contribuir para sensibilizar as pessoas para as plantas, especialmente se a pessoa passa meses em solidão na floresta em uma dieta rigorosa bebendo continuamente Ayahuasca. Os seres humanos têm a mesma capacidade instintiva para sentir as plantas medicinais como outros animais, mesmo que a maioria nunca tenha desenvolvido. Seja qual for a razão, a ayahuasca é considerada a grande mestre das plantas medicinais e "a mãe de todas as plantas." As evidências sugerem fortemente que o Napo é o local de origem tanto do cipó Banisteriopsis caapi quanto do complexo cultural que hoje é conhecido como " xamanismo ayahuasqueiro". Do norte, xamãs e pesquisadores apontam igualmente para o Napo como sendo o local de origem. Brabec de Mori (2011:24), diz: "Entre a maioria dos pesquisadores , há um consenso de que uma "origem" da ayahuasca, embora 19


remota que seja, deve estar localizada nas terras baixas amazônicas ocidentais em todo o Rio Napo. "Um documento, publicado por UMIYAC (União dos curadores Yagé da Colômbia) a partir do ponto de vista dos xamãs indígenas colombianos, menciona a origem do cipó no rio Napo . Escrevendo de Colômbia, Weiskopf ( 2005:115 ) menciona a origem do Yagé como sendo no rio Napo. O antropólogo colombiano German Zuluaga localiza a origem da Ayahuasca ou Yagé no "refúgio" de Napo, que inclui a região do rio Napo ao Putumayo ( Zuluaya 2005:175 ). Povos ao norte do Napo para o sul para a origem da ayahuasca e por outro lado, os povos ao ponto sul para o norte ( Gow 1990; Brabec de Mori 2011; Calavia Saez 2011) . Se a ayahuasca tinha originalmente sido difundida juntamente com qualquer uma das plantas da mistura, em seguida, que os de mistura - tanto P. viridis ou chaliponga - provavelmente seria usado em todos os lugares na bebida ayahuasca. A evidência é consistente que o cipó Banisteriopsis caapi originou em Napo e foi difundido a partir de lá. É também evidente que o xamanismo ayahuasqueiro foi totalmente desenvolvido no Napo antes dos aditivos DMT terem sido introduzidos, e eventualmente evoluiram para práticas com aditivos DMT. Não há mistério de como a sinergia entre B. caapi e as misturas contendo DMT foi descoberta . Ao contrário da crença popular, chaliponga e P. viridisare são psicoativos sozinhos, ambos foram documentados tendo sido usados sozinhos. A prática de misturar outras plantas com B. caapi está bem estabelecida. Mais de uma centena de "misturas" foram documentados, mas o número de plantas que foram misturados com ayahuasca em algum momento é além da conta. A maioria desses "aditivos" não são adicionados para aumentar o efeito psicoativo da ayahuasca ; ao contrário, eles são misturados com ayahuasca , a fim de compreender e comunicar-se com aqueles plantas. A ayahuasca tem um papel de apoio tradicional para outras plantas medicinais . Mais cedo ou mais tarde a videira se espalhou para os locais onde eram utilizados chaliponga e P. viridis . Como outros medicamentos, cada um deles foi misturado com ayahuasca, e, assim, a bebida ayahuasca contendo DMT nasceu. Por sua vez , cada uma das fermentações contendo DMT espalhou-se a partir do seu próprio ponto de origem. Um mapeamento das culturas que utilizam Chaliponga e daqueles que usam Chakruna como uma mistura, torna o padrão de difusão bastante evidente. Outra "mistura" que contém DMT é Anadenanthera peregrino, ou angico. Angico, como rapé, tem sido muito utilizado sozinho (às vezes com aditivos ) na Venezuela. Os Piaroa adotaram o uso combinado de angico e B. caapi ( Rodd 2002) , um exemplo de um psicoativo já em uso que foi reforçado pelo B. caapi .

Chaliponga A sinergia de chaliponga ( Chaliponga / chagropanga ) com B. caapi provavelmente foi descoberta mais cedo do que a sinergia de Psychotria viridis com B. caapi. Os Napo Runa parecem muito mais confortáveis e familiarizado com ele do que com P. viridis, por isso é provável que tenha chegado a eles mais cedo. B. caapi provavelmente conheceu a chaliponga em torno do rio Putumayo superior, a fronteira dos atuais Equador e Colômbia, através dos Siona. Isso é aproximadamente o limite sul da prática mais antiga do uso da chaliponga sozinha, o que influenciou a cultura de "Yagé" distinta em alguns aspectos da cultura da "ayahuasca ". Como o uso de chaliponga na mistura se espalhou para o sul, foi adotado pelos Napo Runa, pelos Pastaza Runa mais ao sul, e pelas tribos Jivaro ao sul : Shuar , Achuar , Shiwiar , awajún e Huambisa. Os Pastaza Runa e Shuar adotaram o nome Yaji para chaliponga , porque esse era o elemento novo na bebida que receberam sob o nome Yagé. Os únicos grupos no Peru que utilizam chaliponga como uma mistura parecem ser os povos Jivaro; em Iquitos, chaliponga é conhecido como Huambisa segundo a tribo identificado com o seu uso.

Chakruna B. caapi conheceu P. viridis em algum lugar ao redor da confluência dos rios Napo e Amazonas. A partir daí, esta combinação se espalhou para o sul, especialmente acima do rio Ucayali . P. viridis , como 20


chaliponga , tem sido usado apenas pelos seus efeitos psicoativos. O uso de P. viridis só foi documentada por Yves Duc, um estudante suíço de um curandeiro Ashaninka, que diz que a "dieta" Ashaninka inclui Chakruna , às vezes com Tabaco adicionado como um IMAO suave. "Sozinha a Chacruna não dá visões, mas se alguém toma uma decocção concentrada , a planta é, na minha opinião, profundamente e sutilmente psicoativa " (comunicação pessoal). Esta prática com Chakruna provavelmente antecedeu a chegada de Ayahuasca para a região. Ou, a ayahuasca pode ter levado as pessoas a este ajudante, como ela os levou a muitos outros medicamentos. No entanto, e sempre que a reunião de Chakruna com Caapi ocorreu, parece ter acontecido perto da atual Iquitos. Gow (1996), Brabec de Mori (2011) , e Calavia Saez (2011) fazem um caso convincente, citando os povos indígenas do Ucayali superior a si mesmos, que a difusão de combinação Caapi / Chakruna ao sul de Iquitos pode ser historicamente recente. Eles também mencionam um caso instigante que as perturbações sociais do colonialismo e do boom da borracha contribuiu para tornar a forma Napo do xamanismo a forma dominante de prática Ayahuasca no Alto Amazonas .

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Foi publicado hoje na revista científica PLOS ONE artigo com os resultados de nosso estudo neurocientífico sobre a ayahuasca. Fruto de pouco mais de quatro anos de intenso e dedicado trabalho, a pesquisa foi conduzida na UNIFESP com financiamento da FAPESP, com cooperações na USP, UFABC, Louisiana State University (EUA) e da University of Auckland (Nova Zelândia). Além da colaboração da União do Vegetal que nos forneceu Hoasca para fins de pesquisa, e de 20 bravos(as) psiconautas experientes no uso da bebida amazônica. Nossos(as) voluntários(as) se disponibilizaram a participar de um processo em um ambiente e com uma proposta que difere em muito dos usos tradicionais, e era bastante desafiadora. Beberam ayahuasca num laboratório universitário, sem canto nem palo santo, sem reza, dança ou fogueira, no meio da conturbada metrópole paulista. E tiveram que usar uma touca que gravava a atividade elétrica de seus cérebros continuamente num notebook próximo a elas. Sentadas em uma poltrona confortável, doaram pequenas quantidades de sangue a cada 25 minutos. Apesar de não ter a fundamental condução dos guias, curandeiros, mestres ou maestros, que fazem trabalhos tão importantes quanto a bebida em si, e de tomarem ayahuasca uma pessoa por vez, foram acompanhados com carinho e cuidado pela equipe científica, nunca sendo deixados sozinhos ou desamparados, e sempre com os baldinhos à disposição… Tudo isso em prol da colaboração dos saberes tradicionais com os saberes científicos e tecnológicos. Uma pesquisa desse tipo se justifica por várias razões, desde um entendimento mais profundo sobre nossa resposta fisiológica aos compostos químicos presentes na ayahuasca, que nos fornece dados cruciais sobre potenciais terapêuticos e segurança de uso; até informações mais sofisticadas sobre as relações entre cérebro e consciência, o chamado “hard-problem”. Com os resultados dessa jornada aprofundamos e expandimos o conhecimento sobre os efeitos dos componentes moleculares da bebida sagrada, sobre como nossos corpos recebem estas moléculas e que efeitos elas ajudam a desencadear, especialmente no cérebro. Ao minimizarmos as intervenções biomédicas somente ao estritamente necessário e ao adotarmos uma pos22


tura observacional, deixando e encorajando que os voluntários passassem a maior parte do tempo de olhos fechados em estado introspectivo, pudemos revelar uma imagem fascinante sobre os efeitos da ayahuasca no cérebro. Este efeito ocorre em duas fases qualitativamente distintas e este perfil bifásico ajuda a explicar contradições de estudos semelhantes feitos anteriormente por outras equipes. Com isso abrimos mais portas para fascinantes investigações futuras sobre os diversos estados de consciência que podem ser alcançados com a bebida amazônica. Cerca de uma hora após a ingestão da ayahuasca, ocorreram diminuições das ondas alfa (8 a 12 ciclos por segundo), especialmente no córtex temporo-parietal, com uma certa tendência de lateralização para o hemisfério esquerdo. A segunda fase ocorre cerca de uma hora depois (ou seja, cerca de duas horas após a ingestão) e enquanto as ondas alfa foram retornando a um padrão parecido com o que estava antes da ingestão da ayahuasca, os ritmos gama, de frequências muito altas (30 a 100 ciclos por segundo), se intensificaram por quase todo o córtex cerebral, incluindo o córtex frontal. Estas oscilações elétricas em distintas frequências, que ocorrem perpetuamente e simultaneamente em todo o cérebro, são resultado da complexa interação da atividade de bilhões de células cerebrais. E estão relacionadas com todas as funções do cérebro, inclusive os aspectos psicológicos e os estados de consciência. Por exemplo, durante o sono profundo predomina no córtex cerebral uma frequência lenta, de 1 a 4 ciclos por segundo, chamada delta. Enquanto durante a maioria dos sonhos, predomina a frequência teta (4 a 8 ciclos por segundo). Ao caracterizar as principais mudanças nestas frequências de oscilações neurais avançamos na criação de um mapa neurocientífico sobre o estado de consciência desencadeado pela ingestão de ayahuasca. Há variadas nuances de interpretação para estes dados (e muitos estudos posteriores que podem ser feitos de acordo com cada interpretação, para testas hipóteses específicas). Mas a minha favorita e que discutimos no artigo é de que o ritmo alfa é resultado de atividades inibitórias no cérebro, e o ritmo gama representa atividade neural crucial para a consciência. Quando fechamos os olhos e temos a sensacao de um campo visual escuro, sem imagens, o ritmo alfa se fortalece nas regiões do cérebro que recebem estímulos vindos dos olhos. Ou seja, quando estamos de olhos fechados não apenas a informação que chega dos olhos está ausente, mas as áreas visuais são inibidas por “centros superiores” do córtex, capazes de modular a atividade de áreas sensoriais. E nós temos a experiência subjetiva de um mundo escuro e de ausência de visão. No caso da ayahuasca, encontramos um enfraquecimento dessa inibição em áreas multisensoriais. Ou seja, regiões que estão envolvidas não só com visão, mas com audição, tato, paladar, olfato e também com sensações corpóreas das mais diversas. Faz sentido portanto que esta diminuição de alfa esteja relacionada com o efeito tão comum de experiência de mais sensações e mais estímulos durante o efeito da ayahuasca quando comparado com o estado ordinário de consciência, incluindo as famosas visões de olhos fechados. Já o acelerado gama está relacionado com o que se chama na neurociência de integração. Enquanto áreas diversas do cérebro estão relacionadas a percepções subjetivas distintas, como os cinco sentidos mencionados acima, nossa experiência consciente é unificada. Essa unificação de atividades neurais em áreas anatomicamente distintas ocorre nas oscilações rápidas na frequência gama, que permitem ao cérebro temporariamente juntar as peças de um complexo quebra cabeças de atividade neural. Esse aumento de gama pode ajudar a explicar porque durante a ayahuasca a percepção de sons e imagens, por exemplo, parece se fundir e criar relações peculiares, não perceptíveis durante a consciência ordinária, quando o cérebro tende a organizar a atividade neural relacionada aos cinco sentidos de maneira parcialmente independente. Essa função do gama em unificar ou integrar informações no cérebro é conhecida de longa data, pelo menos desde a obra pioneira do cientista Chileno Francisco Varela. E foi observada em dois indíviduos após tomarem ayahuasca em trabalho do antropólogo Luis Eduardo Luna e colaboradores há uma década. Ao confirmarmos os dados de Luna e colaboradores com nova e mais rigorosa metodologia, com mais pessoas e ao detectarmos a combinação destes efeitos com as reduções em alfa, abrimos portas importantíssimas no entendimento não só dos estados não-ordinários de consciência, mas da teoria neurocientifica sobre a consciência como um todo. Um exemplo é uma teoria proposta recentemente sobre a ação dos psicodélicos que sugere que uma das características principais do cérebro durante o efeito de psicodélicos sejam intensificações do gama. Para Andrew Gallimore, do Japão, que se baseia na influente teoria da informacao integrada, ou IIT (integrated information theory), a mais promissora teoria neurocientífica sobre a consciência, a expansão da consciência com psicodélicos é mesmo possível dentro de uma perspectiva neurocientífica, e provavelmente depende do 23


ritmo gama. Esta expansão da consciência inclui a percepção subjetiva de mais conteúdo, de maior intensidade, incluindo fusões entre os sentidos e possivelmente a experiência subjetiva de intensidades e qualidades não perceptíveis durante a consciência ordinária, como cores mais vívidas e brilhantes e estados emocionais mais intensos do que jamais experienciados fora do estado psicodélico. O gama também tem papel fundamental na teoria da consciência proposta pelo matemático Sir Roger Penrose e pelo anestesiologista Stuart Hameroff. Segundo a teoria deles, oscilações na faixa de 40 ciclos por segundo seriam importantes ao permitir reverberações menores e muito mais aceleradas nos microtúbulos, uma rede de fibras e filamentos que percorre todas as células do nosso corpo – e do cérebro. Ademais de caracterizar as oscilações e regiões corticais mais importantes no processo neural relacionado à modificação da consciência durante a ayahuasca, fizemos coletas periódicas de sangue para quantificar os princípios ativos da ayahuasca e seus metabólitos. E encontramos que durante a primeira fase a concentração da DMT e da harmina estavam próximas do máximo, sendo que na segunda fase acontecem os picos de harmalina e tetrahidroharmina. Com uma análise estatística sofisticada e inédita, desenvolvida especialmente para este estudo, demonstramos que este efeito bifásico no cérebro esta relacionado à concentração sanguínea de vários componentes do chá. Isto expande a visão científica predominante que foca apenas na famosa DMT. De acordo com este modelo, o papel do cipó é apenas de inibir a digestão da DMT. Mas “ayahuasca” é um dos muitos nomes não só da bebida, mas do cipó jagube ou mariri, catalogado nos anais científicos como Banisteriopsis caapi. Isto revela que, para os povos tradicionais, é o cipó a planta mais importante. E de fato há preparações de ayahuasca feitas somente com o cipó, sem qualquer outra planta. Mas na farmacologia esse quadro foi invertido, dando-se ênfase na psicoatividade da DMT apenas, que não vem do cipó, mas de outras plantas que frequentemente são adicionadas no preparo da bebida, como a rainha no Brasil e Peru (Psychotria viridis) ou a chagropanga na Colômbia (Dyplopteris cabrerana). Mas nossa análise com 10 moléculas (DMT, NMT e DMT-NO; Harmina e harmol; Harmalina e harmalol; THH e THH-OH e também o metabólito serotonérgico IAA) revelou associações importantes entre níveis plasmáticos de DMT, harmina, harmalina e tetraidroharmina, bem como alguns metabólitos como a DMT-NO, e os efeitos cerebrais em alfa e gama em momentos distintos da experiência. Revelamos portanto que a psicoatividade da ayahuasca não pode ser totalmente explicada apenas pelas concentrações de DMT, dando um passo importante para reaproximar o saber científico dos saberes tradicionais.

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Descobrimos ainda que a concentração de harmalina (e apenas de harmalina) está correlacionada com o momento em que os voluntários(as) vomitaram. Ou seja, a harmalina desempenha um papel fundamental tanto no cérebro, estando relacionada a intensificação das ondas gama, mas também nos efeitos periféricos da ayahuasca, como o vômito. Isso reforça a idéia de que o vômito tem relações importantes com a experiência psicológica, sendo talvez mais apropriado chamá-lo de purga, termo que reforça a idéia de que ocorre uma associação entre físico e psicológico neste momento da experiência. Esses resultados sobre a harmalina também dão nova importância para as pesquisas pioneiras de Claudio Naranjo, terapeuta Chileno que foi um dos primeiros a estudar ayahuasca desde um ponto de vista médico-científico, nos anos 60. A proposta de Naranjo, de que a harmalina era o principal componente psicoativo da ayahuasca foi, entretanto, quase que totalmente esquecida em prol do foco na DMT a partir dos anos 80. Outro fator importante contra a proposta de Naranjo é que as concentrações de harmalina na ayahuasca são em geral abaixo das doses de harmalina que, sozinha, desencadeiam efeitos psicoativos nítidos, conforme relato subjetivo das pessoas que ingeriram harmalina nos estudos de Naranjo. Mas nunca foi testado o efeito da harmalina combinada com a harmina e a tetraidroharmina, como ocorre na ayahuasca. E então nossos resultados reforçam a idéia de que a harmalina também pode ter contribuições importantes no efeito psicoativo da ayahuasca quando em combinação com as outras beta-carbolinas vindas do cipó. Interessantemente, em quase todos os casos a purga ocorreu após a primeira fase, quando os níveis de DMT estão próximos do máximo que atingem no sangue. Como a elevação da concentração de harmalina no sangue é mais lenta que da DMT e da harmina, vomitar pouco interfere nos efeitos da primeira fase e nas concentrações destas duas moléculas, e ajuda a explicar porque mesmo quem vomita rápido pode ter experiências fortes e profundas. Mas vomitar potencialmente interfere nas concentrações de tetraidroharmina, que é a molécula cujas concentrações sobem mais lentamente, e pode permanecer em circulação por alguns dias, dependendo da capacidade de metabolização de cada indivíduo. Importante notar ainda que o perfil bifásico foi observado com ingestão de apenas um copo (mas com uma dose grande). Mas sabemos que nos usos rituais é muito frequente os participantes tomarem mais de uma dose, com intervalo de uma hora ou mais. É possível então que nestes casos ocorram variadas combinações de efeitos, como por exemplo a segunda fase de uma primeira dose (aumento de gama) coincidir com a primeira fase de uma segunda dose (diminuição de alfa). Isso potencialmente geraria estados cerebrais (e por correlação, estados de consciência) não observados na pesquisa com apenas uma dose. Isto ajuda a entender porque muitas pessoas relatam que a segunda dose é sempre uma “caixinha de surpresas”, e não apenas a intensificação ou prolongação dos efeitos da primeira toma. Ao depender do perfil metabólico de cada pessoa, do tamanho de cada dose, da proporção destas moléculas na bebida e do intervalo entre elas, pode-se atingir outros estados mesclados entre as duas fases observadas na pesquisa. Some-se a isto as influências ambientais, psicológicas, motivacionais e espirituais e temos uma prática de exploração da consciência que não cabe numa resposta simples e singular sobre qual “o efeito” da ayahuasca. Do ponto de vista neurocientífico, estas possíveis combinações são muito intrigantes, porque relações entre as frequências alfa e gama no córtex parietal e no frontal estão envolvidas em processos de reavaliação psicológica e emocional. Ou seja, quando fazemos certas formas de introspecção que resultam em ressignificação de eventos emocionais de nossas vidas, estas áreas do cérebro se comunicam através de oscilações elétricas nestas duas faixas de frequência. E estas mesmas frequências e áreas cerebrais estão envolvidas em processos criativos de resolução de problemas. Ou seja, através de nossa pesquisa, a neurociência começa a convergir com o saber ancestral ao reafirmar o potencial da ayahuasca em nutrir a criatividade e o autoconhecimento, facilitando formas de terapia focadas no potencial de cada indíviduo em crescer e se desenvolver de maneira consciente. Para saber mais, confira abaixo minha palestra na World Ayahuasca Confrence, em Ibiza ano passado (disponível com legendas em português e inglês). Ou ainda a mais antiga “Ayahuasca e as ondas cerebrais“, realizada no Brasil no início deste projeto. Ou se você quer mesmo mergulhar fundo, acesse gratuitamente o artigo científico na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=5Ne2GaGIQMo Referência: Schenberg EE, Alexandre JFM, Filev R, Cravo AM, Sato JR, Muthukumaraswamy SD, et al. (2015) Acute Biphasic Effects of Ayahuasca. PLoS ONE 10(9): e0137202. doi:10.1371/journal. pone.0137202 25


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Ayahuasca. Daime. Caapi. Yagé. Vegetal. Hoasca. Biaxii. Nishi Pae. Natema… São muitos os nomes. São muitos os efeitos. São quase infindáveis as maneiras de usar, os propósitos, os contextos, os lugares… A ayahuasca, bebida de origem amazônica utilizada ritualmente e religiosamente em no mínimo 20 países, por milhares de pessoas, propicia uma daquelas experiências absolutamente inacreditáveis para a imensa maioria dos ocidentais. Inefável. Beira o inexprimível… Permitida para uso religioso no Brasil, tida como patrimônio cultural no Peru, é proibida, banida, mal entendida e perseguida em inúmeros países. É a protagonista central de episódeos típicos da santa inquisição, em pleno século XXI. Segundo os legisladores dos EUA e tantos outros países, o que os Quechuas batizaram “Cipó das Almas” é extremamente perigoso e deve ser banido, principalmente por conter a molécula N,N-Dimetiltriptamina, que o psiquiatra americano Rick Strassman batizou de “Molécula do Espírito”. Parece que há, afinal, alguma concordância entre índios Quechua e a psiquiatria moderna. Essas são apenas algumas das quase infinitas perguntas que nós, do Plantando Consciência, mais um número cada vez maior de pesquisadores, no Brasil e no mundo, nos propomos a investigar, com auxílio da Ciência. Isso mesmo. Buscamos unir ciência e espírito, transcender a dicotomia cartesiana, a dualidade mente/ matéria. Uma de nossas principais ferramentas: a neurociência. Aliada, é claro, à antropologia, história e respeito profundo e amplo a sabedorias ancestrais e seus maravilhosos mistérios. Nossa jornada nessa direção já conta com algumas trilhas longas, e alguns frutos. Em agosto de 2012 organizamos, durante o congresso da FeSBE e da SBNeC o simpósio “Ayahuasca, cérebro e consciência“. Abaixo, você pode assistir, de graça e em primeira mão, duas destas palestras, na íntegra (Graças ao trabalho voluntário do Rafael Beraldo, que os editou, Obrigado!). Uma envolvendo pesquisa com ayahuasca e neuroimagem, já publicada, e outra sobre uma pesquisa em andamento com as ondas elétricas do cérebro durante o efeito do chá milenar. 26


DMT ENTRE A VIDA E MORTE

http://tinyurl.com/j3x4ao9 De todos os psicodélicos, a DMT é provavelmente a mais intrigante. Presente em centenas de espécies vivas como parte natural de seu metabolismo, faz parte também do metabolismo humano. Mas o que esta DMT endógena faz, porque evoluímos capazes de sintetizar e utilizar DMT permanece completamente misterioso e desconhecido para a ciência. Em busca de mais conhecimento sobre este mistério, os cientistas Húngaros Ede Frecska e Áttila Szabó elaboraram uma teoria elegante e promissora. A primeira peça foi encontrada ao estudar a enzima (proteína que interage no metabolismo de outras moléculas) responsável pela formação da DMT em nossos corpos, a INMT. Ela foi encontrada em pulmão de coelhos em 1961 por Julius Axelrod, que em 1970 ganharia o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia por seus estudos sobre a neurotransmissão. Se é nos pulmões que encontra-se a maior quantidade de INMT em todo o corpo, a segunda peça do quebra cabeças são os pulmões (ao invés da glândula pineal, como proposto por outros cientistas como Rick Strassman). Os pulmões, além de conter grande quantidade da enzima INMT, contém uma proteína qua a inibe. Ou seja, estão prontos para sintetizar DMT, mas o gatilho não pode ser puxado. A não ser que esta inibição seja de alguma forma removida em algum momento. E se for removida, a síntese de DMT seria rápida e intensa. A terceira peça fundamental da teoria é o fato de que o sangue contém enzimas que podem metabolizar compostos parecidos com a DMT (“quebrá-los” em moléculas menores sem as mesmas propriedades fisiológicas). Entretanto, a enzima que faz isso, chamada monoamino-oxidase (MAO) existe em dois tipos, sendo que a forma presente no sangue não metaboliza a DMT. Ou seja, ela pode viajar intacta pelas artérias percorrendo todo o trajeto desde os pulmões até o cérebro (e para 27


todo o corpo também, mas primeiramente ao cérebro, dada a anatomia das chamadas pequena e grande circulação). Assim, os pulmões são um grande reservatório secreto de DMT. Possuem todas as capacidades necessárias para rapidamente sintetizar DMT em grandes quantidades e liberá-la na corrente sanguínea, potencialmente inundando o cérebro com quantidades consideráveis de DMT em poucos segundos se, e apenas se, a inibição da INMT for cancelada. Mas ainda restam mais peças para completar a teoria. Pois o cérebro é um órgão delicado e muito bem protegido. Existe uma espécie de filtro (a barreira hematoencefálica) que barra a penetração de uma infinidade de substâncias, protegendo o delicado sistema nervoso de visitantes indesejados. Mas há algumas coisas que passam esta barreira lentamente (como é o caso de drogas psicoativas, alguns nutirentes e muitas toxinas também). E há também alguns raros casos em que o corpo investe energia para que certas moléculas entrem rapidamente no cérebro, como por exemplo a glicose, fonte fundamental de energia para as células cerebrais. Espantosamente, foi demonstrado recentemente, em uma série de estudos fascinantes, que o corpo investe energia para transportar DMT para dentro do cérebro. Aqui vale a pausa pra respirar fundo. A importância deste fator é imensa. O corpo só investe energia em transportar para o cérebro aquilo que é absolutamente essencial. Se o corpo investe energia para levar DMT ao cérebro, ela só pode ser preciosa, muito preciosa. E tem mais. A quinta e última peça da elegante teoria Húngara é que além de ter passaporte VIP para o cérebro, a DMT também é preciosa para os neurônios, que investem mais energia para internalizá-la. Dentro das células, a DMT pode se ligar em um receptor chamado Sigma-1, que fica localizado próximo das mitocôndrias, que são o pulmão celular, a central enrgética e respiratória de todas as células (este receptor e suas relações com as mitocôndrias também são chave para minha própria teoria sobre ayahuasca no tratamento do câncer). Ou seja, segundo a teoria de Ede e Áttila, a DMT é uma mensagem química dos órgãos pulmonares (os pulmões) para as organelas pulmonares (as mitocôndrias). Uma espécie de elo fractal entre a respiração macro e micro. Quando então que essa mensagem seria entregue? Por qual razão especial deveria o corpo investir energia em liberar DMT e por qual razão especial o cérebro teria evoluído com estes sofisticados mecanismos para captar e utilizar DMT?

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Dada a literatura já bem conhecida sobre DMT, experiências espirituais, experiências psicodélicas e viagens de quase-morte e experiências fora do corpo, os cientistas Húngaros, seguindo os passos do também Húngaro Stephen Szára, pioneiro em descobrir a psicoatividade da DMT nos anos 50, e os passos de Rick Strassman, pioneiro no estudo da DMT e fenômenos espiri-


tuais, lançaram a hipótese de que o papel fundamental da DMT é resgatar o cérebro da hipóxia na hora da morte. Quando entramos em morte clínica (um processo de cerca de 5 minutos) em que as funções do coração e do corpo entram em colapso, o cérebro entra num estado de hipóxia: falta de oxigênio. E as células cerebrais são muito pouco resistentes a este estado, ficam enfermas e morrem rapidamente. Um mecanismo de sobrevivência e proteção cerebral seria então enviar DMT para as mitocôndrias para auxiliá-las em sua função na diminuição do aporte de oxigênio que ocorre durante o processo de morte clínica. E seria a própria falência das funções centrais, como os batimentos cardíacos, o sinal para liberar a produção de DMT nos pulmões. Ou seja, com o início do processo de morte clínica, a inibição da INMT pulmonar seria cancelada, os pulmões sintetizariam, em frações de segundos, enormes quantidades de DMT, que em mais algumas frações de segundos chegaria para resgatar as células neurais da hipóxia, fornecendo chance de sobrevivência para o organismo. Um elegante e sofisticado mecanismo de sobrevivência! Para começar a investigar a questão experimentalmente, os Húngaros lançaram uma campanha de arrecadação coletiva na internet para juntar 30 mil dólares para testar os efeitos da DMT em neurônios cultivados em laboratório, com esperanças de no futuro moverem-se em direção a testes com seres humanos em UTIs e sistemas de resgate e emergência em acidentes. Não apenas uma pérola da ciência psicodélica, mas talvez um grande avanço na medicina intensiva que pode vir a salvar milhões de vidas (e almas) em um futuro próximo.

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Chacrona Psychotria viridis, também conhecida como Chacrona, é um arbusto da mesma família do café. Juntamento com o cipó­mariri, é ingrediente fundamental na preparação da bebida enteógena sacramental Ayahuasca, que é utilizada em diversos cultos religiosos e outros rituais xamânicos [1]. Diversas espécies de Psychotria apresentam componentes bioativos. Alguns exemplos incluem atividade antibiótica nos extratos de P. microlabastra e P. capensis (África); atividade antiviral em P. serpens (China) e atividades antiinflamatória, antivirais ­antifúngicos é encontrada em P. Insularum (América Central) e P. hawaiiensis respectivamente. As moléculas ativas produzidas por espécies de Psychotria incluem: naftoquinonas, peptídeos, benzoquinona, pigmentos e alcalóides. [2]. O DMT, componente bioativo da P. viridis, por sua vez, é encontrado em diversas espécies de plantas, fungos e animais.

Descrição

Os autores Rivier e Lindgreen (1972) citam a descrição feita por Del Castillo (1962):

"A chacrona é um arbusto de 3 a 4 metros de altura, de raiz napiforme, caule lenhoso, cilíndrico, de 10 ou mais centímetros de diâmetro. O córtex é de cor verde, ligeiramente escuro com manchas esbranquiçadas e distribuídas como pequenas áreas de aspecto geográfico do modo que o conjunto recorda a pele de uma serpente. As folhas são de forma lanceolada, alargadas, inteiras, de pecíolo muito curto. São folhas peninervadas, com mais de 10 nervuras secundárias. Por sua disposição no caule são opostas e cruzadas. As folhas medem de 13 e 15 cm de largura (incluindo o pecíolo) por 4,5cm. O pecíolo mede 0,5cm de comprimento. A inflorescência é composta, definida. O fruto é pequeno, de 4,5 x 5 mm, epicarpo de cor roxa como a cereja quando está madura; é uma drupa, encerra duas sementes que nos recordam o café. As sementes são duas e se abrem igual ao café, convexas em sua parte dorsal e aplanadas em sua parte ventral por onde se unem; unidas dão forma de um ovóide, de 4 x 4,5 mm."

Características da folha:

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Distribuição no Brasil:


Princípios ativos Psychotria viridis seca contém em torno de 0.10­0.66% de alcalóides. Aproximandamente 99% disto é dimetiltriptamina (DMT). Outros alcalóides como beta-carbonilas e NMT foram encontradas. Acredita­se que o conteúdo de alcalóides seja maior pela manhã.

Banisteriopsis caapi - Cipó­Mariri

Banisteriopsis caapi, também conhecido como Jagube, liana, Mariri ou Capi, é um cipó nativo da região amazônica que tem sua maior importância no uso religioso. Juntamente com o arbusto Psychotria viridis, conhecida como Chacrona, a espécie é matéria­prima na produção de uma bebida conhecida por pelo menos oitenta nomes diferentes, como, por exemplo, Yagé, Kamarampi, Caapi, Natema, Pindé, Kahi, Mihi, Dápa, Nixi pae, Cipó dos espíritos, Santo Daime, Vegetal, Hoasca, Oaska ou mais comumente Ayahuasca.

Descrição Existem diversas variedades de Mariri, conhecidas como Tucunacá, Caupuri, Quebrador, Ourinho e Pajezinho. Apesar das grandes diferenças entre as variedades, não há estudos científicos diferenciando­as. Sendo assim, é comum tratar a todas as variedades como sendo a Banisteriopsis caapi. Sem dúvida, dentre as espécies mais utilizadas para o preparo do chá religioso, todas são do gênero Banisteriopsis.

Princípios ativos Alcalóides:

• Harmina, 0.31­8.43%

• Harmalina, 0.03­0.83% Cipó­Mariri

• Tetrahidroharmina, 0.05­2.94%

• nota: detalhar mecanismos de ação das harminas.

• Banisteriopsis caapi, também conhecido como Jagube, liana, Mariri ou Capi, é um cipó nativo da região amazônica que tem sua maior importância no uso religioso. Juntamente com o arbusto Psychotria viridis, conhecida como Chacrona, a espécie é matéria ­prima na produção de uma bebida conhecida por pelo menos oitenta nomes diferentes, como, por exemplo, Yagé, Kamarampi, Caapi, Natema, Pindé, Kahi, Mihi, Dápa, Nixi pae, Cipó dos espíritos, Santo Daime, Vegetal, Hoasca, Oaska ou mais comumente Ayahuasca. • Distribuição geográfica no Brasil • Norte (Amazonas, Acre, Rondônia) [2]

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Jurema­preta • Jurema­preta é uma árvore pertencente à família Fabaceae, típica da caatinga e cerrado brasileiro, ocorrendo praticamente em quase toda a região nordeste. Bem adaptada para um clima seco possui folhas pequenas alternas, compostas e bastante resistência às secas com grande capacidade de rebrota durante todo o ano, bipinadas com vários pares de pinas opostas. Possui espinhos e é usada pelos índios da etnia xucurus­ cariris em conjunto com a Jurema Branca (Mimosa verrucosa). É utiliza tradicionalmente para fins medicinais e religiosos. Sua casca é usada para fins medicinais e a casca de sua raiz é a parte da planta usada nas cerimônias religiosas pois possui maior parte dos alcalóides • No méxico, é conhecida como "tepezcohuite" e é utilizada tradicionalmente para tratamentos de pele, principalmente queimaduras e feridas oriundas de problemas circulatorios. Acredita­se que os Maias utilizaram a casca torrada de Mimosa tenuiflora para tratar lesões da pele por mais de mil anos. • Mimosa tenuiflora tem demonstrado ser muito eficaz no tratamento de úlceras de perna, uma condição especialmente problemática para as pessoas com diabetes. • No Nordeste brasileiro, é utilizada como cicatrizante e antiinflamatório, assim como no tratamento de dor de dente, com um chá feito a partir das folhas e casca do caule. • A casca do caule da planta é a parte indicada no tratamento de ferimentos, úlceras gástricas, inflamações e “problemas femininos (menorréia, dismenorréia, endometrite)”. A decocção da casca do caule é a forma de uso da planta mais utilizada pela população no tratamento de ferimentos tópicos com cuidados locais e por meio de banhos medicinais.

• Efeitos psicoativos

• O alcalóide indólico N,N­dimetiltriptamina – DMT é responsável pelo seu efeito.

• O vinho de Jurema, preparado à base de variedades de jurema, principalmente a jurema­preta, a jurema­embira ou vermelha (Mimosa ophthalmocentra) e a Jurema­branca (Mimosa verrucosa), é usado pelos remanescentes índios e caboclos do Brasil. Os efeitos do vinho são muito bem descritos por José de Alencar no romance Iracema. Além de conhecido pelo interior do Brasil, só é utilizado nas cidades em rituais de Candomblé por ocasião de passagem de ano, por exemplo.

• O catimbó

• A ingestão da Jurema, em conjunto com os toques, as cantigas rituais do catimbó, provoca um estado de transe profundo, interpretado pelos Catimbozeiros, como a incorporação dos Mestres da Jurema.

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DA AMAZÔNIA PARA O MUNDO Em 1852 o explorador britânico Richard Spruce trouxe ao conhecimento da ciência ocidental o uso de uma bebida ameríndia, que hoje sabemos ser amplamente distribuída na bacia amazônica. Conhecida por dezenas de nomes em várias línguas diferentes, a ayahuasca é considerada medicina sagrada pelos povos que a usam há séculos. No Peru, por exemplo, tem seu uso medicinal e ritualístico legalizado, sendo considerada patrimônio cultural e histórico. Ao redor da segunda metade do século XX, durante a intensificação da colonização amazônica, a ayahuasca se espalhou para outras regiões do continente. No Brasil, esse conhecimento indígena foi adotado e modificado por seringueiros e exploradores que deram origem a religiões reconhecidas e regulamentadas pelo governo. Mais recentemente, o uso da ayahuasca se espalhou por meios urbanos e atingiu diversas cidades, como, por exemplo, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Lima, Santiago, Barcelona e Cidade do Cabo. Em alguns países, no entanto, ao contrário de medicina sagrada, é considerada droga, sendo inclusive proibida. Esta expansão, iniciada no século XX, está se acelerando no século XXI, com pessoas de diversas partes, culturas e crenças buscando nos rituais com ayahuasca alívio para suas ansiedades, frustrações e dificuldades da vida moderna. Pacientes com traumas profundos, pessoas com depressão e também dependentes químicos buscam na ayahuasca soluções que não têm conseguido encontrar na medicina ocidental. Indivíduos considerados saudáveis encontram nestes rituais transcendência, iluminação, insights, criatividade e reconexão com algo que lhes parece ter sido esquecido há muito tempo. Cresce uma cultura global em torno da prática ameríndia ancestral, com a ayahuasca alcançando países da América do Norte, África, Europa e mesmo Oceania. E pessoas de todo o mundo viajam para a Amazônia com esperanças depositadas na bebida. Desta mescla cultural, emergem novas idéias, crenças, filosofias e também dificuldades desconhecidas anteriormente, com alguns relatos de problemas acompanhando os muitos casos de efeitos benéficos. Pode então o uso ritual dessa bebida causar danos a saúde? Pode o uso da ayahuasca induzir psicose, delírio, alucinações, paranoia e colocar o indivíduo em perigo? De 25 a 27 de Setembro de 2014, centenas de pessoas se reunirão em Ibiza, Espanha, para debater estas e muitas outras questões na Conferência Mundial da Ayahuasca. O evento é organizado pelo International Center for Ethnobotanical Education, Research and Service (ICEERS), uma associação sem fins lucrativos dedicada à pesquisa, educação e integração de conhecimentos etnobotânicos na sociedade contemporânea. A conferência será palco da discussão mais ampla e profunda sobre o tema em muitos anos. Para tanto, conta com apoio de diversas organizações ao redor do mundo, em especial da Beckley Foundation e da RiverStyx Foundation. A primeira, criada e dirigida por Amanda Feilding em 1998, é pioneira no debate sobre a refor33


ma da política global de drogas e na pesquisa científica sobre o potencial benéfico de substâncias psicodélicas como LSD, MDMA, psilocibina e ayahuasca. A segunda é uma fundação privada orientada para o avanço do cuidado de pacientes terminais e para a reforma das práticas e políticas sobre drogas, e financiou pesquisas psicodélicas nos últimos seis anos. A abertura da conferência ficará por conta do psiquiatra chileno Claudio Naranjo, que dedicou 40 anos de sua carreira ao estudo de ferramentas expansoras da consciência e sua integração na prática terapêutica. Os aspectos clínicos relacionados ao uso da ayahuasca serão ainda debatidos em relação ao tratamento da dependência química, da depressão e do transtorno do estresse pós-traumático, entre outras condições. Ainda que as evidências experimentais sobre os usos terapêuticos dessa bebida permaneçam escassas, a proliferação dos relatos de casos tem suscitado a procura de tratamentos com ayahuasca. Entre os palestrantes nesta seção, destaque para o Dr. Gabor Maté, do Canadá, que debaterá suas experiências clínicas (e políticas) com o uso terapêutico da ayahuasca com os Drs. Josep Maria Fábregas, psiquiatra espanhol, Rafael Sanchez, médico brasileiro, e Anja Loizaga-Velder, doutora em psicologia médica e diretora de pesquisa do Instituto Nierika, no México. Pesquisas científicas sobre uso clínico e efeitos fisiológicos da ayahuasca serão apresentadas em sessão patrocinada pela Beckley Foundation. Participarão desta sessão os brasileiros Paulo César Ribeiro Barbosa, da Universidade Estadual de Santa Cruz, e Dráulio Barros de Araújo, do Instituto do Cérebro da UFRN, que têm conduzido pesquisas de ponta com neuroimagem e aspectos cognitivos da ayahuasca. Eles farão diálogo rico com o pioneiro da pesquisa biomédica da ayahuasca, Jordi Riba, e com José Carlos Bouso, diretor de projetos científicos da ICEERS. Estes temas serão ainda explorados em série de pequenas apresentações selecionadas pelos organizadores, incluindo palestra minha, onde apresentarei resultados inéditos sobre os efeitos da ayahuasca no cérebro. Estes resultados foram obtidos em pesquisa pioneira realizada nos últimos três anos, com financiamento da FAPESP, conduzida na UNIFESP e apoiada pelo Plantando Consciência,organização sem fins lucrativos que é também apoiadora oficial do Congresso Mundial da Ayahuasca. A riqueza etnobotânica da ayahuasca, incluindo as plantas usadas e modos de preparo, ficarão a cargo do famoso escritor e pesquisador Jonathan Ott, de Glenn Shepard, doutor em etnobotânica e de Juan Gonzáles Simonneau, psicólogo envolvido na conservação e proteção do conhecimento sobre plantas medicinais. Os desafios para o uso sustentável da ayahuasca serão discutidos por Joshua Wickerham, especialista em sustentabilidade, Dennis McKenna, pioneiro no estudo da ayahuasca em diversas áreas, incluindo etnofarmacologia, botânica, química e farmacologia, e Roldán Rojas, diretor do Fundo Amazonía Viva, do Peru, que trabalha na conservação de comunidades florestais na Amazônia Peruana. Mas além das finalidade clínicas e terapêuticas, a ayahuasca é também utilizada para desenvolvimento pessoal, tema que será abordado pelo antropólogo Luis Eduardo Luna, do centro Wasiwaska, pioneiro no estudo do Vegetalismo Peruano e de vários aspectos importantes da experiência com a ayahuasca. Ele dialogará com Danae Saenz, psicóloga clínica do Chile, que tem extensa experiência com o uso amazônico da ayahuasca, com Manuel Villaescusa, psicólogo com experiência no uso da ayahuasca no tratamento da dependência e com Josep Maria Fericgla, que viveu na Amazônia ecuatoriana entre 1991 e 2009. 34


Outra questão importante com relação aos usos da ayahuasca diz respeito à participação feminina no mundo ayahuasqueiro. Historicamente, nas práticas e discursos sobre ayahuasca, as mulheres tem sido colocadas em segundo plano. Preconceito, discriminação e sexismo serão debatidos por Carmen Vicente, curandeira da região limítrofe entre Ecuador e Perú, guardiã do Fogo Sagrado de Itzachilatlan, Daniela Peluso, antropóloga sócio-cultural, doutora pela Columbia University, Aline Mast, holandesa participante de uma Igreja do Santo Daime exclusiva para mulheres e a artista e psicóloga Clancy Cavnar, autora de artigo recente sobre os efeitos da participação em rituais de ayahuasca na identidade de gays e lésbicas.

Carmen Vicente

Aline Mast

Daniela Peluso

Clancy Cavnar

O uso religioso, por sua vez, será tema das apresentações da antropóloga Rosa Virgínia Melo, do Brasil, do doutor em religião Andrew Dawson, do Reino Unido, do artista Holandês Rini Hartman e do jornalista espanhol Juan Carlos De La Cal. A sessão tratará da expansão do uso religioso da ayahuasca ao redor do mundo, considerando as consequências da ampliação do uso da bebida e os desafios que vem pela frente às principais religiões ayahuasqueiras: Santo Daime, União do Vegetal (UDV) e Barquinha, todas de origem brasileira. Mas desafios aguardam também os usos não religiosos da ayahuasca, dado que o principal componente psicoativo da bebida, a N,N-dimetiltriptamina (DMT), é ilegal em todo o mundo, tendo sido classificada como perigosa, viciante e sem qualquer potencial benéfico. Entretanto, esta classificação política e jurídica, que entrou em vigor em alguns países no final dos anos 60 e rapidamente se espalhou pelo mundo todo no início dos anos 70, não tem base em evidências científicas. Nem a ayahuasca, nem a DMT, são substâncias viciantes. Ambas são de baixíssima toxicidade e tem seus potenciais benéficos cada vez mais reconhecidos por pesquisas científicas. É aqui, então, que encontramos o maior viés na maneira como as culturas ocidentais colonizadoras tratam a ayahuasca: proibição sem evidências claras de danos sérios e persistentes, mas mesmo frente a um crescente número de evidências de potenciais benéficos, a aceitação do uso ritual da ayahuasca continua enfrentando forte resistência. 35


Portanto, se esta resistência ao uso ritual da ayahuasca não se deve simplesmente aos fatos científicos conhecidos, será necessário expandir a discussão para outras áreas do conhecimento humano. É neste ponto que torna-se crucial considerar o histórico da proibição das drogas e suas consequências para o uso ritualístico de uma bebida psicoativa em um mundo proibicionista. Este assunto será abordado pelo convidado especial Ethan Nadelmann, diretor da Drug Policy Alliance. Nadelmann é um dos maiores defensores do fim da guerra contra as drogas em todo o planeta e debaterá o tema com Adèle Van Der Plas, da Holanda, Rodrigo Gonzáles Soto, do Chile, Diego de Las Casas, da Espanha, e Jeffrey Bronfmann, Mestre da UDV nos EUA. Bronfmann foi o grande responsável pela vitória desta Igreja na Suprema Corte dos EUA que, por unanimidade, garantiu o uso religioso da ayahuasca como legítimo naquele país, mesmo a DMT sendo ilegal. Mas estas contradições, que levaram a ayahuasca de medicina sagrada a droga proibida, dificilmente serão resolvidas apenas por estudos e experimentos científicos, uma vez que que a causa do status jurídico atual da ayahuasca não decorre apenas das informações científicas. As dificuldades da sociedade contemporânea com a ayahuasca se originaram no processo colonizatório que marginalizou saberes e práticas intimamente relacionados aos estados não ordinários de consciência. Desde tempos imemoriais, estes estados são parte integral da vida comunitária na maioria das sociedades humanas, com a rara excessão da cultura industrial-capitalista hoje globalizada. Nesta cultura, qualquer estado de consciência diferente da vigília comum e dos sonhos é visto como patológico. Perseguidos e banidos de diversas formas ao longo de séculos, estes estados de consciência são hoje tema estranho ao cidadão comum e mesmo à maioria dos estudiosos da psique, da mente e do cérebro. No que se trata destes estados de consciência, portanto, os especialistas não são os cientistas, nem os médicos, tampouco os psicólogos ocidentais com sua limitada experiência pessoal e comunitária. Os experts no caso são os curandeiros, xamãs, vegetalistas, pajés e afins. Estas pessoas recebem status privilegiado em suas próprias culturas justamente por sua experiência nos reinos não-ordinários da psique e de como utilizá-los em benefício de toda a sociedade. São estes indivíduos que detêm conhecimento profundo sobre como utilizar estas ferramentas de forma positiva, curativa e transformadora. E a abertura para o diálogo e a escuta despida de preconceitos é fundamental para o desenvolvimento de uma ciência verdadeiramente multidisciplinar sobre a ayahuasca. Portanto, serão muito bem vindos, na mesa principal da conferência, líderes de culturas tradicionalmente ayahuasqueiras como o Taita Juan Bautista Agreda Chindoy, da Colômbia, Siã Kaxinawá, chefe Huni-Kuin no Acre, Brasil e Taita Franklin Columba, curandeiro do Equador. Estes palestrantes, herdeiros diretos destes saberes ancestrais, farão um panorama dos usos centenários da ayahuasca em rituais de cura individual e como ferramenta de coerência e sobrevivência de seus respectivos grupos. Pode então um conhecimento ancestral sobre a consciência humana ser relevante a uma sociedade globalizada, atualmente ameaçada pelos efeitos colaterais de sua própria ciência e tecnologia? Pode a ciência moderna ter se equivocado sobre aspectos fundamentais da consciência humana? Pode o uso ritual da ayahuasca nos ajudar a resgatar uma concepção mais ampla da consciência? Poderia esta expansão da consciência nos auxiliar na criação de um novo modo de pensamento que alimente atitudes mais conectadas com a

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realidade ecológica da qual somos parte? Pode a ayahuasca ser um instrumento na construção de um novo paradigma de desenvolvimento humano? Buscando respostas para estas questões, e caminhando em direção a uma postersíntese coerente entre o pensamento ocidental e a sabedoria ancestral, além das palestras e diálogos, o evento contará com a projeção de Medicina. Este documentário, dirigido e produzido por Marcelo Schenberg, diretor executivo do Plantando Consciência, será exibido no festival como trabalho em fase de produção, em uma edição introdutória de 10 minutos. Outros filmes relacionados ao tema também farão parte do fórum de filmes que integra o evento, muitos ainda inéditos. Medicina combina uma investigação do conhecimento perene, guardado por descendentes de povos ancestrais, com a disciplina acadêmica e científica. Em busca de uma síntese capaz de promover um novo paradigma não apenas na área da saúde, mas frente aos grandes mistérios da vida e morte, o filme trata de uma nova forma de se estar no mundo. É esse diálogo rico e verdadeiramente multicultural que pode fazer desta conferência um marco histórico para todos os interessados na ayahuasca. E, ao tornar esta conversa possível, os organizadores se destacam por sua visão ampla e profunda sobre o tema. Que estejamos todos, além de bem preparados para nossas apresentações, dispostos a escutar profundamente a sabedoria e conhecimento dos demais envolvidos na mesma jornada de forma que esta conferência deixe suas marcas reverberando por muito tempo. Ayahuasca Shamanism in the Amazon and BeyondMarcas que ficarão registradas, definitivamente, no livro “Ayahuasca Shamanism in the Amazon and Beyond”, editado por Beatriz Labate e Clancy Cavnar e com lançamento já programado para esta conferência. Em sintonia com muito do que podemos esperar do congresso como um todo, o livro, publicado pela respeitadíssima Oxford University Press, “discute como a epistemologia e ontologia ameríndia, relacionada a rituais xamânicos na amazônia, se espalhou pelo mundo ocidental e como a relação entre culturas indígenas, mestiças e cosmopolitanas dialogam e transformam estas tradições da floresta.” Caberá portanto, a todos os envolvidos, aprofundarem, expandirem e diversificarem o diálogo, com vistas a usos saudáveis, transfromativos, curativos e seguros da ayahuasca, na Amazônia e no Mundo.

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Declaração Ayahuasca http://tinyurl.com/hxyo6qr

Em Setembro de 2014, aproximadamente 650 pessoas de 60 países distintos compareceram à World Ayahuasca Conference em Santa Eulària des Riu, Ibiza, Espanha. Nesta conferência, um grupo de 40 especialistas nos campos científico, jurídico e político se reuniram para discutir como as práticas que envolvem uso da ayahuasca podem ser melhor entendidas, respeitadas e protegidas conforme cresce o interesse internacional na bebida no século 21. Na conferência foi formado um Comitê Especial para a Regularização de Etnobotânicos Psicoativos. Este grupo fez uma declaração consensual, por extenso abaixo: um chamado para governos trabalharem na direção de criar fundações legais e construtivas, fundamentadas em direitos-humanos, para o uso da ayahuasca. Todo ser humano deve ser livre para escolher as maneiras e ferramentas que facilitam o crescimento pessoal e desenvolvimento espiritual, para superar doenças físicas ou mentais, e para nutrir o florescimento individual, a formação de laços sociais e a vida familiar, bem como para cultivar significado e propósito espiritual. Além disso, em uma época onde os humanos estão vivendo coletivamente na beira de um precipício social, ambiental e de crise econômica, é vital que o diálogo entre culturas e políticas holísticas promovam uma existência sustentável para nossa espécie, abrangendo nossa diversidade em um mundo de sociedades interconectadas, em harmonia com o planeta e seus demais habitantes. É intrínseco para a evolução da humanidade buscar novos métodos e aperfeiçoar aqueles disponíveis para efetivamente atingir estes objetivos. Infelizmente, isto parece não se aplicar a certas ferramentas de natureza etnobotânica utilizadas durante séculos por sociedades indígenas e pré-modernas em práticas cerimoniais, transmitidas oralmente de geração a geração. Uma dessas, a ayahuasca (uma bebida feita com o cipó Banisteriopsis caapi e as folhas do arbusto Psychotria viridis), tem desempenhado um papel fundamental nas tradições espirituais, médicas e culturais de povos que habitam a parte norte da bacia amazônica. Nas décadas passadas, várias tradições e novas modalidades de uso da ayahuasca se formaram e se espalharam para além das fronteiras amazônicas, formando uma nova simbiose multi-cultural. Durante séculos, sociedades industrializadas foram, em geral, repressivas e intolerantes com respeito a plantas com propriedades psicoativas, equivocadamente interpretando seus usos como diabólicos, destrutivos e viciantes. Entretanto, a evidência médica e científica recente mostra que este preconceito cultural é equivocado e cresce o reconhecimento do potencial de plantas como a ayahuasca em processos psicoterapêuticos, crescimento espiritual e desenvolvimento de relações interpessoais (1). As várias práticas emergentes de uso e ingestão da ayahuasca resistem conceitualizações tradicionais 38


e categorizações de droga de “abuso” ilegal como definido pelo regime internacional de controle de drogas. Equiparar os usos ritualísticos, religiosos e terapêuticos da ayahuasca aos usos problemáticos de drogas controladas como opiáceos, cocaína ou metanfetamina – ou tratar pessoas que lideram cerimônias de ayahuasca como “traficantes de drogas” envolvidos em mercados ilegais – é uma atitude desinformada, não baseada em evidências, que contribui para a confusão sobre a fundamentação e legitimidade destas práticas nos direitos-humanos (2). Além disso, a evidência científica mostra que a ayahuasca não leva a padrões crônicos e problemáticos de uso (isto é, vício ou dependência), de que seu uso não gera tolerância farmacológica e de que o uso em contextos controlados é psicologicamente e fisiologicamente seguro (3). Ademais, seus efeitos eméticos – tradicionalmente considerados um aspecto crucial de suas propriedades espirituais e curativas – em conjunto com a experiência introspectiva que induz, geralmente tem resultados positivos na saúde e no comportamento daqueles que bebem ayahuasca com frequência. Para uma população significativa e em acelerado crescimento em várias partes do mundo, beber ayahuasca é a maneira que escolheram para promover crescimento espiritual e pessoal, superar o sofrimento e aprofundar sua relação consigo mesmos, com suas famílias, com o ambiente e com o planeta Terra. Entretanto, para muitos órgãos de controle de drogas, como o International Narcotics Control Board (INCB), assim como agentes da lei, promotores de justiça e juízes de alguns países, a ingestão de ayahuasca é comumente confundida como sendo uma nova maneira de se drogar, uma prática espiritual fajuta, um vício destrutivo, uma ameaça à saúde pública e à ordem moral que requer medidas repressivas. Em 2010, o INCB afirmou que “nenhuma planta ou decocção contendo DMT, incluindo a ayahuasca, está sumetida a controle internacional”. entretanto, o comitê adicionou que “alguns países podem decidir aplicar medidas de controle para o uso e comércio da ayahuasca, devido a graves riscos à saúde que o uso desta preparação traz” (4). Coincidindo com o alarme político do INCB sobre ayahuasca e outras plantas psicoativas e materiais em seus relatórios de 2010 e 2012 (5), e seguindo uma tendência iniciada nos anos 90, uma série de prisões foram realizadas na Europa e em outras partes para sinalizar intolerância com as práticas ritualísticas e cerimoniais de ingestão da ayahuasca. Parece realístico afirmar que a proibição nacional (em estados individuais) ou mesmo internacional da ayahuasca é um possibilidade futura (6). Nós temos acompanhado os casos legais e jurídicos envolvendo várias comunidades distintas que usam ayahuasca e testemunhamos o quão trágica e danosa esta opressão pode ser aos evolvidos. Portanto, nós solicitamos aos governos, legisladores, promotores de justiça, juízes e agentes da lei a considerar o valor das culturas e tradições de ingestão da ayahuasca, baseando suas políticas e decisões na evidência científica e nos direitos humanos descritos acima. Nós solicitamos por um fim à perseguição legal destas práticas e sugerimos que governos colaborem com representantes destas comunidades de pessoas que usam ayahuasca, facilitando modelos de auto-regulação que sejam eficientes, que promovam a saúde e a redução de danos e a iniciativas educativas. Nós solicitamos a juízes envolvidos em casos relacionados à ayahuasca que levem em consideração a declaração do INCB sobre a regulamentação internacional da ayahuasca: Neste caso a DMT na bebida ayahuasca ocorre em sua forma natural, e portanto não está sob controle internacional de acordo com a interpretação oficial da Convenção de Substâncias psicotrópicas de 1971. (7) É igualmente importante notar que os potenciais benefícios de plantas como a ayahuasca são contrabalanceados pelo risco de prejuízos caso não sejam usadas responsavelmente. Nós lembramos pessoas que usam ayahuasca, e especialmente aqueles que lideram cerimônias com ayahuasca, que eles assumem a responsabilidade de fazê-lo com conhecimento, intenção e compromisso de maximizar benefícios e minimizar riscos. Comportamentos antiéticos e incidentes criminais não podem ser tolerados e devem sempre ser relatados, de forma que a comunidade que usa ayahuasca possa coletivamente continuar a facilitar a auto-regulação e preservar a integridade de suas práticas. 39


Em conclusão, e de acordo com uma declaração prévia feita por acadêmicos de pretígio (8), nós instigamos as autoridades regulatórias a demonstrar tolerância baseada nos direitos universais e fundamentais de liberdade religiosa e de pensamento (9), juntamente com a liberdade de escolher maneiras e ferramentas para facilitar o bem estar psicológico e físico, e portanto a garantir às comunidades que usam ayahuasca o grau necessário de liberdade para que possam continuar evoluindo de maneira segura e responsável como contribuintes da atual sociedade multicultural globalizada. 1)Labate, B. C., & Cavnar, C. (Eds.). (2014). The therapeutic use of ayahuasca. Heidelberg: Springer. 2) Tupper, K. W., & Labate, B. C. (2012). Plants, psychoactive substances and the International Narcotics Control Board: The control of nature and the nature of control. Human Rights and Drugs, 2 (1), 17-28. 3) Bouso, J.C., dos Santos, R., Grob, Ch., da Siveira, D., McKenna D.J., de Araujo, D., Doering-Silveira, E., Riba, J. & Barbosa, P. (2013). Technical Report about Ayahuasca, Barcelona: ICEERS Foundation. 4) Letter sent to ICEERS by the INCB in 2010, available at http://iceers.org/Documents_ICEERS_site/Letters/INCB/INCB_Response_Inquiry_ICEERS_Ayahuasca_2010.pdf 5) INCB Annual Report 2010, par. 286; INCB Annual Report 2012, par. 329-330. 6) Labate, B. C., & Jungaberle, H. (Eds.). (2011). The internationalization of ayahuasca.Zürich: Lit Verlag. 7) Lande, A. (1976). Commentary on the Convention on Psychotropic Substances, done at Vienna on 21 February 1971. New York: United Nations. 8) Anderson, B. T., Labate, B. C., Meyer, M., Tupper, K. W., Barbosa, P. C. R., Grob, C. S., et al. (2012). Statement on ayahuasca. International Journal of Drug Policy, 23 (3), 173-175. 9) These rights are recognized in broadly ratified international instruments, such as the 1948 UNGA Universal Declaration of Human Rights (Art. 18), the 1950 European Convention on Human Rights (Art. 9) and the 1969 American Convention on Human Rights (Art. 12). Esta declaração é apoiada pelos indivíduos abaixo. Tradução para o português por Eduardo Schenberg, especial para o Plantando Consciência. O original em inglês pode ser lido aqui e em Espanhol aqui. Em ambos os links é possível assinar a declaração e assim contribuir com a fundamentação do uso da ayahuasca nos direitos humanos

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INTERAÇÃO COM ALIMENTOS La Guía de Salud de Ayahuasca

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Tiramina é uma monoamina que está naturalmente presente em alguns alimentos. As monoaminas são metabolizadas pela monoamina oxidase. Quando a monoamina oxidase é inibida e se consomem alimentos ricos em monoamina, como a tiramina, teoricamente poderia se acumular monoamina até níveis que poderiam levar a uma crise hipertensiva (dos Santos, 2013b). A crise hipertensiva é um aumento rápido e grave da pressão arterial que pode levar à lesão dos órgãos. Os sintomas incluem dor de cabeça, náuseas, vômitos, sudorese, aumento da frequência cardíaca, dilatação das pupilas e, muito raramente, hemorragia cerebral e morte. No entanto, os inibidores de monoamina oxidase (IMAO) presentes na ayahuasca são de curta duração, reversíveis e desaparecem do corpo muito rapidamente, ao contrário de muitos antidepressivos prescritos com IMAO, que são muitas vezes irreversíveis em seus efeitos e, portanto, têm restrições alimentares graves associados com eles. Portanto, quando se toma ayahuasca é menos provável que os níveis de tiramina vão acumular perigosamente, porém é mais seguro evitar os alimentos com elevadas concentrações de tiramina durante pelo menos 12 horas antes e 12 horas depois da de se tomar Ayahuasca. ALIMENTOS QUE DEVEM SER EVITADOS ANTES DO USO DA AYAHUASCA Por isso, nas tradições xamãs, observa-se uma dieta especial ou jejum nos dias ou horas antes da ingestão da ayahuasca. É aconselhável seguires esta tradição. Um fator a ser considerado é a obrigatoriedade de se consumir o chá com estômago vazio e ingerir somente alimentos leves nas semanas antecedentes à utilização. Portanto, alimentos que possuem tiramina devem ser evitados antes da utilização do chá. As razões pelas quais alguns indivíduos apresentam distúrbios eméticos e outros não, permanecem obscuras. Ayahuasca: uma abordagem toxicológica do uso ritualístico. Rev. psiquiatr. clín. [online]. 2005, vol.32, n.6, pp. 310-318. Os grupos religiosos, entretanto, defendem que a bebida não é prejudicial à saúde digestiva, pois, em sua visão, os vômitos atuam como instrumento de purificação e limpeza das impurezas físicas e espirituais presentes no organismo. Sabe-se que diversas condições clínicas e digestivas podem eliciar o vômito. Observe-se que um dos nomes da bebida ayahuasca no Peru e outras regiões da América do Sul é “la purga”.

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ALIMENTOS QUE DEVEM SER EVITADOS Fonte: www.ayahuasca.com

Carne que não é fresca, especialmente fígado (carne fresca e fígado fresco são seguros) Bolonha, pepperoni, salame, carne enlatada, salsicha, cachorros-quentes, quaisquer carnes curadas Defumados, fermentados, conservas, peixe seco, salmão defumado; qualquer peixe que não é fresco Sopas enlatadas, ou sopas feitas com extratos protéicos ou bouillon Molhos e alimentos feitos com extratos de carne Pasta de camarão Extractos proteicos Proteína líquida ou em pó suplementos alimentares Suplemento com claras de ovos Molho de soja Tofu fermentado, queijo de soja fermentado, pasta de soja fermentada, sopa de misso (queijo de soja fermentado) Molho Teriyaki Algas secas – em grandes quantidades Queijos, queijos especialmente curtidos (queijo ricota, queijo cottage e cream cheese são seguros) Os produtos lácteos que estão próximos da data de vencimento (iogurte fresco é seguro) Amendoins – em grandes quantidades Farinha desengordurada de amendoim Castanha do Brasil – em grandes quantidades Bolo de frutas e frutas cristalizadas Frutas secas, como passas e ameixas secas Cranberries Favas (fava e feijão-de-lima) – em grandes quantidades Framboesas – em grandes quantidades Azeitonas (a menos que você pode obter os frescos) Frutas maduras, especialmente bananas (bananas que não são maduras demais e muitas vezes são consumidos em torno de cerimônias Ayahuasca na Amazônia) Cascas de banana Os abacates que são muito macio ou madura. Guacamole deve ser evitada Coco e óleo de coco – em grandes quantidades (suco de coco ou leite de coco é seguro) Salsa – em grandes quantidades Chocolate, chocolate escuro especialmente – em grandes quantidades Levedura de cerveja, suplementos vitamínicos levedura, extractos de levedura, alimentos com fermento Vinho Tinto, especialmente Chianti; xerez, vermute, champanhe, conhaque; cervejas; uísque e licores, como Drambuie e Chartreuse A cafeína em grandes quantidades (nota: em alguns poucos indivíduos, pode haver uma interacção grave mesmo com pequenas quantidades de cafeína) Aspartame (Nutrasweet) Glutamato monossódico (MSG) Noz-moscada

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Sistema cardiovascular

WIKIPEDIA

A ayahuasca altera parâmetros cardiovasculares, podendo trazer efeitos nocivos para pessoas com problemas cardíacos graves. Para pessoas em bom estado de saúde cardíaca, entretanto, a bebida não oferece riscos significativos imediatos comprovados. A imprensa brasileira relatou, por exemplo, o caso de um jovem que tinha Síndrome de Marfan, doença que provoca alterações cardiológicas e vasculares graves, e morreu após ter ingerido a bebida. Ainda são necessários estudos para determinar se a ayahuasca pode causar valvopatia a longo prazo. Esta suspeita existe porque a N,N-DMT apresentou alta afinidade pelos receptores 5-HT2B em ensaios in vitro, com valores de 0,108µM e 0,184µM, e por existirem estudos demonstrando uma ligação de causa-efeito entre o uso frequente ou crônico de drogas serotoninérgicas com alta afinidade por receptores 5-HT2B e o desenvolvimento de valvopatia no organismo. Também é problemática a ativação de receptores 5-HT2A tanto pela N,N-DMT quanto pelas β-carbolinas presentes na bebida, visto que causa um aumento na pressão sanguínea via vasopressina. Ayahuasca: uma revisão dos aspectos farmacológicos e toxicológicos Rev Ciênc Farm Básica Apl., 2010;31(1):15-23 A DMT aumenta rapidamente os batimentos cardíacos, bem como a pressão sistólica e diastólica. Estudos com administração oral de β-carbolinas juntamente com DMT, induziram a um aumento dos picos dos batimentos cardíacos e pressão arterial cerca de um terço a mais que quando a DMT é administrada isoladamente após 90 e 120 minutos. Como dito anteriormente, as β-carbolinas contribuem para o aumento da quantidade de serotonina na fenda sináptica. O acúmulo excessivo pode produzir uma série de efeitos adversos, tais como tremor, diarréia, instabilidade autonômica, hipertermia, sudorese, espasmos musculares e possivelmente morte. Esse conjunto de sinais e sintomas é conhecido como síndrome serotoninérgica. 43


Efeitos colaterais como desconforto físico ou dor crônica podem ser exacerbados pela ayahuasca (Callaway et al., 1999; Gable, 2007). De fato, somente um caso de intoxicação fatal foi registrado depois de suposta ingestão da ayahuasca por um homem branco de 25 anos de idade. Análises macro e microscópicas não foram conclusivas, revelando somente congestão e edema tecidual. A análise toxicológica revelou as seguintes concentrações sanguíneas na vítima: DMT (0,02 mg/L); 5-metoxi-N,N-dimetiltriptamina (1,88 mg/L); THH (0,38 mg/L); HRL (0,07 mg/L) e HRM (0,17 mg/L). A causa da morte apontada pelo médico legista foi intoxicação alucinógena por aminas (Sklerov et al., 2005). Em contrapartida, essa publicação foi contestada por Callaway et al. (2006), que relata que nenhuma mistura de plantas, tradicionalmente usadas em cultos de tribos indígenas concentraria quantidade suficiente de 5-metoxi-N,Ndimetiltriptamina para levar a óbito um ser humano. Aventa a hipótese de que a pessoa em questão poderia ter ingerido além do chá, a substância sintética, o que poderia justificar as altas concentrações encontradas no sangue do jovem. Outra possibilidade seria a de se ter confundido a DMT que é o componente usual da ayahuasca com o seu análogo 5-metoxiN,N-dimetiltriptamina que possui um potencial tóxico muito mais relevante e significativo. OUTRAS REFERÊNCIAS SOBRE A TOXOLOGIA Ayahuasca: uma abordagem toxicológica do uso ritualístico. Rev. psiquiatr. clín. [online]. 2005, vol.32, n.6, pp. 310-318.

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Na primeira edição desse ano, a Revista Brasileira de Psiquiatria publicou um estudo sobre o uso de ayahuasca para tratamento da depressão. As sessões foram conduzidas no Departamento de Neurociência e Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP). A causa da depressão é incerta, mas a hipótese mais aceita atualmente – e na qual os tratamentos tradicionais se baseiam – é de que ela é causada por um desequilíbrio nas monoaminas cerebrais como a dopamina, norepinefrina e especialmente, serotonina. Os efeitos psicoativos da ayahuasca são produzidos pela ação conjunta da inibição das enzimas monoamina oxidase no trato gastrointesinal e no fígado; assim como a ação do DMT nas áreas frontais e paralímbicas do cérebro, mais precisamente nos receptores 5-HT1A/2A/2C, que são receptores que se ligam à serotonina. A ação agonista dos alcalóides presentes na ayahuasca sobre os receptores serotonérgicos junto com os relatos de que a bebida causa sensações de bem-estar levaram à hipótese de que ela pode ser útil no tratamento da depressão.

Método O estudo contou com 6 participantes diagnosticados com depressão leve a severa e que não encontraram benefícios com os tratamentos tradicionais. A amostra de ayahuasca foi preparada por membros do 45


Santo Daime, consistindo de galhos do cipó Banisteriopsis caapi – ricos em harmina (inibidor da monoamina oxidase) – e folhas do arbusto Psychotria viridis – ricas em DMT. Cada participante tomou 2mL/kg de ayahuasca, que continha 0.8mg/mL de DMT e 0.21mg/mL de harmina. A sessão ocorreu numa sala psiquiátrica com luz baixa, onde os participantes permaneceram sentados numa poltrona confortável por aproximadamente 4h enquanto os testes eram feitos. Várias escalas para medir os níveis de depressão foram usadas. Uma primeira medição foi feita 10 minutos antes da ingestão da ayahuasca e, após a ingestão, várias outras medições ao longo do dia; assim como no dia seguinte, 7, 14 e 21 dias depois.

Resultados No primeiro dia depois da ingestão, os níveis de depressão caíram 62%, diminuindo ainda mais em 72% no sétimo dia, subindo um pouco no 14º e voltando a cair no 21º (figura 01). As mudanças mais marcantes nas pontuações foram causadas por itens relacionados ao humor, sentimentos de culpa, intenções suicidas e dificuldades no trabalho e outras atividades.

Os medicamentos tradicionais usados no tratamento de depressão demoram em média 2 semanas para fazer efeito, enquanto a ayahuasca mostrou benefícios logo no primeiro dia após sua ingestão. A administração da ayahuasca nos participantes não produziu efeitos cognitivos e sensórios de forma significativa, apesar de terem sido observados entre 80 e 140 minutos após ingestão. A ausência desses efeitos pode ser explicada pela concentração relativamente baixa de DMT na amostra que foi usada. Isso sugere que mudanças na percepção podem não ser essenciais para os efeitos terapêuticos. A bebida foi bem tolerada pelos participantes, sugerindo que ela pode ser administrada de forma segura a pacientes com depressão. O único efeito adverso reportado pelos voluntários foi o vômito, mas eles não consideraram que isso teve qualquer influência sobre os efeitos antidepressivos, além de não considerarem ter sido um desconforto grave. Os resultados indicam que a ayahuasca tem um potencial significativo como antidepressivo. Foram observadas diminuições nos níveis de depressão nas diversas escalas, e as diferenças foram semelhantes em todos os voluntários, que passavam por episódios depressivos de intensidades diferentes e que não encontraram ajuda nos medicamentos tradicionais. Fonte: SCIELO 46


AYAHUASCA E DEPRESSÃO

Por Brian Anderson, especialmente para o Plantando Consciência http://tinyurl.com/jeqax2u Este artigo se propõe a dar ao leitor alguma informação básica no tópico sobre ayahuasca e depressão. Lembramos que decisões sobre questões de saúde não devem ser tomadas apenas com base nestas informações, mas devem ser feitas através da consulta de um profissional da área médica, um curandeiro experiente, ou um líder religioso confiável. Assim como todas as outras substâncias com proprieadades medicinais, a ayahuasca pode trazer riscos se usada de maneira incorreta. É claro que a interpretação do que é “correto”, bem como sobre o uso saudável da ayahuasca é discutível. Uma questão frequente que envolve a ayahuasca com a saúde é a pergunta se pessoas que tomam antidepressivos devem ingerir a ayahuasca. Esta questão não pode ser respondida de maneira satisfatória no presente momento, mas podemos fazer uma tentativa inicial de nos aprofundar na questão com as informações disponíveis na literatura científica. Depressão é uma doença muito comum. Apesar de ser vista como um distúrbio de ordem “mental”, a depressão pode consistir em sintomas físicos e psicológicos, incluindo mau humor, inabilidade de se experimentar o prazer, falta de energia, perda de apetite, falta de concentração, alterações no sono (pra mais ou pra menos), sensação de culpa, agitação, dores físicas e pensamentos suicidas. O uso da ayahuasca para se tratar de sintomas como estes já se faz corrente há décadas – um livro conhecido que descreve este tipo de uso da ayahuasca se chama Visionary Vine (“O Cipó Visionário”, sem tradução para o português), de Marlene Dobkin de Rios. Tentativas de se usar a ayahuasca em cenários tradicionais para se tratar da depressão também já foram documentadas recentemente1. Não há tratamentos médicos clínicos para a depressão com o uso de ayahuasca que tenham sido completados, mas alguns cientistas acreditam que outros psicodélicos, como a psilocibina, podem ser úteis no tratamento da depressão2. Então existe uma chance de que a pesquisa científica possa jogar uma luz sobre a questão de o uso da ayahuasca ser benéfico no tratamento da depressão. Antes que possamos adentrar a questão das interações negativas de certos medicamentos com a ayahuasca, deve ser notado que mesmo nas pessoas que não estão tomando remédios psiquiátricos, a ayahuasca pode ter efeitos psicológicos danosos (como a indução de estados psicóticos ou depressivos), mesmo que estes casos sejam relativamente raros. Acredita-se que os psicodélicos em geral possam precipitar estados psicóticos em pessoas predispostas a tais reações3. Outras reações negativas podem ocorrer quando o usuário da ayahuasca não tem suporte na sociedade para ajudá-lo a integrar suas experiências após a sessão4. É importante para a própria saúde que pessoas com histórico psicótico não bebam a ayahuasca5. E, apesar de que algumas pessoas depressivas possam afirmar se sentirem melhor após a ingestão da medicina ancestral, pessoas que sofrem de depressão com sintomas psicóticos também deveriam evitar a ayahuasca. Muita da preocupação acerca do uso da ayahuasca por pessoas que tomam antidepressivos parece proceder da questão da “síndrome da serotonina” levantada por James Callaway e Charles Grob no artigo de 1998 intitulado “Preparados de Ayahuasca e Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (SSRIs): Uma Combinação Potencial para Interações Adversas Severas”6. A Síndrome da Serotonina é caracterizada pelos indícios e sintomas de febre, pressão alta, confusão e agitação, convulsões, tremores, rigidez muscular, reflexos patelares elevados, pupilas dilatadas, contínuos movimentos oculares horizontais, suor, vômitos e 47


diarréia7. Estes sintomas geralmente começam minutos após o consumo de drogas que aumentam excessivamente os níveis de serotonina, e se não forem tratados, casos severos podem resultar em morte. No caso de suspeita de Síndrome de Serotonina, deve-se procurar por ajuda médica imediatamente. Isto é complicado no caso de usuários da ayahuasca, porque diversos destes sintomas podem ser efeitos normais de curto prazo decorrentes do uso da mesma. A Síndrome da Serotonina é uma preocupação entre usuários da ayahuasca porque a bebida contém alcalóides do tipo harmala, como a harmina e harmalina, que agem como inibidores da Monoamina Oxidase (IMAOs – ou MAOIs, em inglês), ou seja, eles impedem que as moléculas de serotonina sejam quebradas, e assim elevam os níveis de serotonina no corpo. Assim sendo, para uma pessoa que esteja tomando drogas antidepressivas como os IMAOs, ou os mais frequentes Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRSs – ou SSRI, em inglês), é temido que elas possam elevar seus níveis de serotonina demasiadamente se elas também beberem a ayahuasca. Curiosamente, no entanto, apesar do fato de que milhares de pessoas no Brasil e em outros países bebam a ayahuasca regularmente, e que muitos deles possivelmente estejam tomando medicamentos antidepressivos, não há um único caso de Síndrome de Serotonina registrado na literatura científica desde o artigo de 1998 de Callaway e Grob. Existem muitas possíveis razões para isto, e apenas uma das quais sugere que estes casos seriam muito raros ou não-existentes. No entanto, esta idéia de que casos severos de Síndrome de Serotonina raramente ocorram, pelo menos dentro na União do Vegetal (UDV)8, tem suporte na alegação feita pelo psiquiatra Luis Fernando Tófoli, coordenador do Comitê de Saúde Mental para a UDV, o qual jamais ouviu depoimentos de casos deste tipo que teham ocorrido dentro da instituição. É claro que esta falta de evidências de danos não deve ser tomada necessariamente como evidência de segurança. Além disso, Tófoli comenta que é de fato importante se evitar o uso da ayahuasca enquanto se toma o IMAO Tranilcipromina. Isto se deve ao fato de que a tranilcipromina é uma IMAO “irreversível”, ou seja, que seus efeitos duram por mais tempo que outros IMAOs “reversíveis” como a Moclobemida. Isto nos leva a outro ponto importante: os efeitos de algumas drogas, incluindo antidepressivos, irão durar mais tempo que outras após o indivíduo ter encerrado a ingestão de tal substância. Os efeitos do Prozac (um ISRS: Flouxetina), por exemplo, pode durar por semanas após a última dosagem. Então, mesmo que alguém parasse de tomar antidepressivos para evitar uma interação negativa com a ayahuasca, esta interação ainda poderia ocorrer dias após a medicação ter sido cortada. Além disso, interromper uma medicação de forma imediata nem sempre pode ter um efeito benigno – além do potencial para uma piora da saúde mental, interromper um medicamento psiquiátrico de repente pode, às vezes, trazer sintomas físicos como câimbras gastrointestinais em pessoas que tenham usado ISRSs por muito tempo. Este texto se propôs a fazer um pequeno resumo do que é conhecido dentro do campo das ciências acadêmicas no tópico de ayahuasca e depressão, e tentamos demonstrar preocupação acerca da possibilidade de casos de Síndrome de Serotonina, potencialmente letal, em pessoas que tomam medicamentos antidepressivos e ayahuasca. Deve ser notado que não apenas drogas antidepressivas são tidas como associadas à Síndrome de Serotonina, mas também medicamentos como Meperidina, o antibiótico Linezolid, o xarope pra tosse (e muitas vezes droga recreativa) Dextrometorfano, e inúmeras outras9. Não se sabe como estes medicamentos interagem com a ayahuasca, especialmente devido ao diversos métodos que existem para o preparo da mesma. Em suma, ayahuasca é realmente uma substância complexa, e as experiências que as pessoas têm, e as relações que podem se desenvolver com a bebida são ainda mais complexas. Desconhece-se muito mais do que se conhece sobre como a ayahuasca afeta a saúde mental. E além da substância em si, os contextos nos quais a bebida é usasa podem ser muito importantes, combinando assim para aumentar a complexidade dos efeitos da ayahuasca sobre a saúde mental. Da mesma forma como acontece com o uso de qualquer outra substância em tratamentos terapêuticos, contexto e suporte interpessoal são cruciais para que se possa cultivar e colher os efeitos otimizados da susbstância. Este fato não deve ser ignorado. 48


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Ayahuasca mudou a vida de inúmeras pessoas para melhor. Tão importante quanto isso, a pesquisa mostrou que mesmo o uso a longo prazo da substância psicodélica não causa efeitos psiquiátricos ou neuropsicológicos negativos. Uma série de estudos realizados ao longo das últimas décadas produziram evidências de que a ayahuasca – que é produzida a partir de plantas que crescem na selva amazônica e quando ingerida leva seus usuários a uma jornada espiritual psicodélica – não prejudica as pessoas que a consomem. Um estudo de 2012 conduzido pelo Hospital Sant Pau em Barcelona levou para casa a mensagem com rigor científico. A pesquisa analisou 127 pessoas que tinham usado ayahuasca, pelo menos, duas vezes por mês por 15 anos e comparou-as com um grupo que nunca tinha tomado a substância. Depois de passar por uma série de entrevistas e testes, o estudo concluiu que “não há evidência de desajuste psicológico, deterioração da saúde mental ou transtorno cognitivo no grupo que estava usando ayahuasca.” Os usuários de psicodélicos ainda pontuaram melhor em alguns dos testes cognitivos do que a contraparte. Usuários de ayahuasca também apresentaram menores taxas de depressão, ansiedade, hostilidade, preocupação e outros traços negativos do que os indivíduos do grupo controle, e superiores em autotranscedência e orientação espiritual. “Tomados em conjunto, os dados apontam para melhor estado geral de saúde mental 49


e adaptação biopsicossocial no grupo consumidor de ayahuasca em comparação com os indivíduos-controle” diz o estudo. Ayahuasca tem sido amplamente utilizada para a cura e em cerimônias religiosas por séculos entre certos grupos nativos da Amazônia. Nas últimas décadas, sua popularidade vem se espalhando em outras partes do mundo e há um interesse crescente na utilização da substância para tratar transtornos mentais como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e toxicodependência que assolam o mundo ocidental. Para estes tratamentos ganharem força, as pessoas precisam ser tranquilizadas que a ayahuasca é segura e tem pouco ou nenhum efeito colateral importante. O estudo de 2012 percorre um longo caminho a esse respeito, porque usou um tamanho de amostra maior do que a pesquisa anterior, realizando uma ampla gama de testes e seguiu seus resultados com uma nova rodada de testes de um ano depois. Ao longo de toda a evidência permaneceu consistente: ayahuasca não causa danos a longo prazo para seus usuários. O estudo foi financiado pelo International Center for Ethnobotanical Education, Research & Service, ou ICEERS. Embora não haja nenhuma evidência específica de dano, ICEERS recomenda às pessoas com problemas cardíacos e pessoas que tomam medicamentos relacionados com a serotonina como antidepressivos, evitarem ayahuasca como uma precaução. O estudo de 2012 menciona que havia uma certa auto seleção quando se tratava do assunto – qualquer um que tinha experimentado dano com ayahuasca presumivelmente não iria continuar a tomá-lo de forma consistente por 15 anos. No entanto, a ciência da forma como a substância funciona no cérebro corrobora relatórios de resultados benéficos. Ayahuasca permite que o cérebro ignore algumas vias construídas, o que significa, por exemplo, que as pessoas são capazes de superar as respostas arraigadas a um estímulo baseado em trauma passado. Os usuários são realmente capazes de redefinir algumas das conexões do cérebro para curar as feridas do passado, em outras palavras. A chave para os efeitos curativos também pode ser o caminho. A substância é administrada em cerimônias tradicionais. “Não é a ayahuasca”, disse o psiquiatra e especialista em dependência Dr. Josep Fabregas em um documentário sobre o psicodélico. “É o uso ritual da ayahuasca”. Em qualquer caso, parece claro que quando se trata de tratamentos de ayahuasca, os profissionais podem ter certeza de que eles estão observando a primeira regra da medicina – não causar dano. Originalmente por Aaron Kase

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http://tinyurl.com/zz59ppy

Em artigo de revisão recentemente publicado pela revista SAGE Open Medicine (de acesso livre), argumento sobre possíveis efeitos da ayahuasca no tratamento do câncer. O artigo começa com uma revisão de nove casos descritos em artigos científicos, sites, livros e palestras, de pessoas com câncer que declaram ter se beneficiado do uso da ayahuasca em seus caminhos de cura. Estes pacientes tem ou tiveram câncer de prostata, ovário, útero, estomago, mama, cólon e também no cérebro. Ao menos 3 casos incluem melhoras detectadas em exames clínicos tradicionais, como os níveis de PSA (Prostate-Specific Antigen) ou o CEA (CarcinoEmbryonic Antigen). Em alguns casos os pacientes se trataram apenas com ayahuasca, outros fizeram cirurgia primeiro e depois, ao invés da quimioterapia, optaram por rituais de cura com ayahuasca. Apenas um caso foi considerado piora pelos pesquisadores que o relataram, mas infelizmente eles não forneceram detalhes sobre o caso. Em seguida, são revisados os aspectos farmacológicos dos princípios ativos da ayahuasca – em especial da DMT e da Harmina – que podem estar relacionados ao tratamento de câncer. Receptores, segundos mensageiros, vias de apoptose (morte celular) e processos energéticos mitocondriais são cuidadosamente considerados. Pesquisas revisadas incluem experimentos com os princípios ativos em células, tecidos e animais. 51


Considerando-se os efeitos de seus princípios ativos estudados em laboratório, é possível que a ayahuasca diminua o fluxo sanguíneo ao redor de tumores, diminua a proliferação celular, ative vias de morte celular programada em células cancerígenas, e mude o metabolismo energético das células cancerígenas, como esquematizado na figura. A comprovação de tais efeitos, entretanto, ainda necessita de muitas outras investigações. O artigo considera ainda como fundamental, além dos possíveis efeitos farmacológicos no tratamento físico do tumor, os efeitos psicológicos, emocionais e espirituais da ayahuasca. A relação destes efeitos com o estado geral de saúde de pacientes, especificamente os de câncer, pode ser enorme. O câncer é uma doença assombrosamente temida, tida por muitos como equivalente a uma “sentença de morte” e cujo diagnóstico desencadeia uma série de processos psicológicos de ansiedade, medo, terror, depressão e pânico. Assim, o uso ritual da ayahuasca pode facilitar a aceitação da doença, permitindo ao(s) paciente(s) viverem com mais consciência o período de adversidades durante o tratamento, bem como melhorar a qualidade de vida nos dias, meses ou anos que ainda viverão. Se por um lado a evidência farmacológica disponível ainda está longe de substanciar afirmações de que a ayahuasca de fato tenha efeitos benéficos no tratamento de alguns tipos de câncer, pois isto não foi diretamente testado em pacientes, por outro as informações existentes permitem estabelecer que há ações farmacológicas e celulares destes princípios ativos que seriam condizentes com efeitos terapêuticos em alguns casos. Essas possibilidades devem ser consideradas com mais seriedade e mais pesquisas, que se beneficiarão de uma maior aproximação entre cientistas e comunidades ayahuasqueiras em geral, incluindo as de uso indígena e xamânico, onde a ayahuasca é tida como medicina, não como religião. Esta aproximação viabilizará pesquisas que são imprescindíveis, dado que por fim será a investigação em pacientes, e não em animais ou células isoladas, que permitirá conclusões clínicas (que sempre podem e devem ser corroboradas por pesquisas em animais, tecidos e células). Outro fator importante a se considerar são os riscos no uso ritual da ayahuasca por pessoas com câncer. Isto pois o estado de saúde de pacientes com câncer pode ser bastante frágil, e os efeitos físicos da ayahuasca podem ser bastante pronunciados. Mas por enquanto, dos nove casos relatados, nenhum paciente reclamou de efeitos adversos da ayahuasca, mesmo aqueles para qual não houve efeito físico de qualquer melhora ou mesmo por aqueles cujo câncer era grave e em estágio avançado. Entretanto, é possível que casos problemáticos não tenham sido relatados, dado que estes pacientes não teriam a mesma motivação que os que encontraram benefício no uso ritual da ayahuasca, em relatar suas difíceis jornadas com esta forma de terapia nada convencional. Já pelo lado emocional, psicológico e espiritual, todos os pacientes que relataram o uso ritual da ayahuasca como parte de seus tratamentos tiveram algum benefício, revelando que este tratamento alternativo com ayahuasca pode ser, para os que assim se interessarem, um caminho de redução de sofrimento e ganho de qualidade de vida importante. Referência: Schenberg, E. E. Ayahuasca and cancer treatment, SAGE Open Medicine 2013, DOI 10.1177/2050312113508389

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AYAHUASCA NO TRATAMENTO DA DIABETES? http://tinyurl.com/j3cmdbl

Em busca de novos e melhores tratamentos para a diabetes, um problema metabólico que afeta quase 400 milhões de pessoas no mundo, pesquisadores do Mount Sinai Hospital em Nova Iorque fizeram triagem de mais de 100 mil moléculas (2300 moléculas de uma biblioteca do FDA e 100 mil de fontes comerciais). Num primeiro estágio, identificaram 4500 compostos de potencial interesse. Numa segunda etapa, sobraram apenas 86 (0,08% do catálogo inicial). Estas 86 moléculas foram então testadas em linhagens celulares importantes no estudo celular da diabetes. E uma, apenas uma, se destacou como capaz de induzir reprodução das células pancreáticas produtoras de insulina: a harmina. Esta molécula recebe este nome pois foi primeiramente encontrada nas sementes da planta Peganum harmala, ou arruda da síria. E a harmina é também a principal molécula com efeitos farmacológicos no Banisteriopsis caapi, também conhecido como “cipó das almas”, ou ayahuasca como nomeado em Quechua. O resultado, de extrema relevância médica, foi publicado na prestigiosíssima Nature Medicine dia 09 de março de 2015. Numa era de ciência altamente tecnológica, é exatamente o que revistas científicas de prestígio buscam: estudos tecnológicos capazes de indentificar compostos “puros” (leia-se moléculas isoladas de seus meios naturais) com potenciais medicinais relevantes. Mais do que isso, o artigo vai além e indica a ação da harmina na enzima DYRK1A como o possível mecanismo de ação de interesse, isto é, a indução de reprodução de células beta, potencialmente abrindo novos caminhos no tratamento da diabetes. Atualmente a diabetes é medicada com doses de insulina sintética, em muitos casos requerendo injeções diárias por toda a vida. A idéia seria então usar a harmina para induzir a recuperação pancreática e portanto estimular a produção de insulina endógena, potencialmente livrando milhões de pessoas das injeções diárias de insulina por toda a vida. 54


Mas na era do princípio ativo isolado e da medicina tecnológica, não aparecem no artigo a arruda da síria nem o cipó das almas. Apesar de ambas serem utilizadas medicinalmente há séculos, quiçá milênios. Isto torna a história ainda mais interessante. Porque além da descoberta extremamente relevante e bem vinda, o artigo revela, através do que não está lá, o raciocínio e abordagem das ciências médicas que perdura neste início de século: só a tecnologia salva.

Será?

O uso ritual e medicinal da ayahuasca, tema de livro recente, com frequência é realizado sob a prescrição de dietas específicas. E uma das recomendações mais comuns em diferentes contextos e culturas é a abstinência de açúcar, sabidamente o ingrediente mais problemático para os diabéticos (mas problemático não só pra eles). Arrogantemente vistas como crenças sem fundamento, estas recomendações e prescrições da medicina tradicional vez ou outra ressurgem e são “validadas” pela investigação científica. Isso remete a outras descobertas recentes sobre os efeitos da ayahuasca no metabolismo humano e a coloca como potencial medicina para diversas desordens metabólicas e energéticas, como por exemplo o câncer. Importante destacar que, molecularmente falando, estes possíveis efeitos metabólicos da ayahuasca não dependem da famosa DMT, psicodélico encontrado em plantas usadas como aditivos à ayahuasca, como a Psychotria viridis (chacrona, rainha) ou a Diplopterys cabrerana (chagropanga). Ou seja, enquanto a ciência psicodélica foca na DMT, diversos potenciais medicinais da ayahuasca podem ser únicos dentre os psicodélicos, dada a associação peculiar de plantas distintas em uma mesma bebida, combinando diferentes propriedades farmacológicas que ainda carecem de muita, mas muita pesquisa mesmo.

Arruda da Síria

Mas antes de nos engajarmos nestas excitantes vias de investigação que certamente incluirão boas doses de alta tecnologia ocidental, vale a pausa pra refletir sobre as tecnologias do sagrado: qual o valor dos conceitos e práticas tradicionais na medicina amazônica, e como elas podem ser conciliadas com a medicina alopática moderna? Há algo que a medicina xamânica tenha a ensinar à medicina tecnológico-científica, e vice versa? Os frutos desta interação podem ser verdadeiramente revolucionários, e esse assunto é explorado em nosso documentário Medicina, atualmente em produção.

Mariri, caapi

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http://tinyurl.com/jezbtse

O uso religioso da Ayahuasca é reconhecido e protegido pelo Estado Brasileiro através da Resolução n.01, publicado no Diário Oficial da União de 25 de Janeiro de 2010, do Conselho Nacional de políticas sobre Drogas – CONAD.

RESOLUÇÃO Nº 01 – CONAD, DE 25 DE JANEIRO DE 2010.

Dispõe sobre a observância, pelos órgãos da Administração Pública, das decisões do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas – CONAD sobre normas e procedimentos compatíveis com o uso religioso da Ayahuasca e dos princípios deontológicos que o informam. O PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICAS SOBRE DROGAS – CONAD, no uso de suas atribuições legais, e tendo em vista as disposições contidas no artigo 10 do Decreto nº. 5.912, de 27 de setembro de 2006, e Considerando o Relatório Final elaborado pelo Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT), instituído pela Resolução nº. 5 – CONAD, publicada no D.O.U. de 10/11/2004; Considerando que o referido Relatório Final foi aprovado pelo CONAD, consoante Ata de sua 2ª Reunião Ordinária, realizada em 06 de dezembro de 2006; Considerando que o Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT) baseou-se, em seu Relatório Final, na legitimidade do uso religioso da Ayahuasca, como matéria já examinada e decidida pelos plenários do antigo Conselho Federal de Entorpecentes (CONFEN) e do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD), cabendo ao GMT, no âmbito de sua competência, definida na Resolução nº. 5 – CONAD, 2004, identificar normas e procedimentos compatíveis com o uso religioso da Ayahuasca e implementar o estudo e a pesquisa sobre o uso terapêutico da Ayahuasca em caráter experimental; Considerando que nas seis reuniões de trabalho o Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT) discutiu a seguinte pauta (Introdução, itens 8 e 9 do Relatório Final): “cadastramento das entidades; aspectos jurídicos e legais para regulamentação do uso religioso e amparo ao direito à liberdade de culto; regulação de preceitos para produção, uso, envio e transporte da Ayahuasca; procedimentos de recepção de novos interessados na prática religiosa; definição de uso terapêutico e outras questões científicas (item 8 do Relatório Final); Considerando que o objetivo final do Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT), nos termos da Resolução nº. 5 – CONAD, 2004, é identificar “o que é preciso fazer” para atender aos diversos itens que integram os direitos e obrigações pertinentes ao “uso religioso da Ayahuasca” (item 9 do Relatório Final); 56


Considerando a decisão do INCB (International Narcotics Control Board), da Organização das Nações Unidas, relativa à Ayahuasca, que afirma não ser esta bebida nem as espécies vegetais que a compõem objeto de controle internacional; Considerando, finalmente, as “Proposições” do Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT), em seu Relatório Final, numeradas de 1 a 3 e suas respectivas alíneas; RESOLVE: Art. 1º Determinar a publicação, na íntegra, do Relatório Final, do Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT), fazendo-o parte integrante da presente Resolução. Art. 2º Independentemente da publicação oficial, dar ampla publicidade à presente Resolução, com o anexo Relatório Final, através da entrega deste expediente a todos os conselheiros integrantes do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD), inclusive para encaminhamento às instituições que representam, para os fins previstos na ementa da presente Resolução.

Art. 3º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.

JORGE ARMANDO FELIX

RELATÓRIO FINAL

GRUPO MULTIDISCIPLINAR DE TRABALHO – GMT- AYAHUASCA

RELATÓRIO FINAL

I – INTRODUÇÃO

O CONAD é o órgão normativo do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas – SISNAD – e suas decisões “deverão ser cumpridas pelos órgãos e entidades da Administração Pública integrantes do Sistema” (arts. 3o, I, 4o, 4o, II e 7o, do Decreto no 3.696, de 21/12/2000). Assim, no exercício de sua competência legal aprovou parecer da CATC que, por sua vez, adotou pareceres do colegiado que o precedeu – o CONFEN – e abordou outros aspectos pertinentes ao tema “o uso religioso da ayahuasca” cumprindo destacar a observação final e as conclusões do parecer que o CONAD aprovou: “que fique registrado em ata, para fins, inclusive de utilização pelos interessados, que não pode haver restrição, direta ou indireta, às práticas religiosas das comunidades, baseada em proibição do uso ritual da Ayahuasca”. O referido parecer concluiu: “a) a câmara ratifica as decisões anteriores do colegiado, com os aditamentos do presente parecer, conforme referido no ponto no 4; b) recomenda-se a consolidação, em separata, de todas as decisões supracitadas, para acesso e utilização dos interessados; c) a liberdade religiosa e o poder familiar devem servir à paz social, à qual se submete a autonomia individual; d) deve ser reiterada a liberdade do uso religioso da Ayahuasca, tendo em vista os fundamentos constantes das decisões do colegiado, em sua composição antiga e atual, considerando a inviolabilidade de consciência e de crença e a garantia de proteção do Estado às manifestações das culturas populares, indígenas e afrobrasileiras, com base nos arts. 5o, VI e 215, § 1o da Constituição do Brasil, evitada, assim, qualquer forma de manifestação de preconceito”.

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A Resolução nº 05 – CONAD, de 10 de novembro de 2004, tem por objetivo contribuir para a plena implementação do que foi discutido e aprovado ”sobre o uso religioso da Ayahuasca”, e para tanto foi constituído o GMT que, assim, terá por premissas as questões decididas pelo CONAD, para laborar, com ampla liberdade, no “estudo do que é preciso fazer”, ou seja, na formulação de documento que “traduza a deontologia do uso da Ayahuasca”. O Grupo Multidisciplinar de Trabalho, instituído pela Resolução nº. 5 CONAD, de 04 de novembro de 2004, para levantamento e acompanhamento do uso religioso da Ayahuasca, bem como para a pesquisa de sua utilização terapêutica, em caráter experimental, foi oficialmente instalado pelo Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e Presidente do Conselho Nacional Antidrogas, JORGE ARMANDO FELIX, em 30 de maio de 2006, no Palácio do Planalto, em Brasília-DF, e teve como objetivo final a elaboração de documento que traduzisse a deontologia do uso da Ayahuasca, como forma de prevenir seu uso inadequado. AYAHUASCA, aqui, é referida de modo genérico, para manter a uniformidade do texto e a harmonia com a nomenclatura utilizada nos atos oficiais do CONAD, mas é conhecida por diversos outros nomes, conforme a comunidade que o usa no Brasil ou no Exterior, destacando-se as expressões mais conhecidas “HOASCA”, “SANTO DAIME” e “VEGETAL”, compostos, indistintamente, pelo cipó Banisteriopsis caapi (jagube, mariri etc) e pela folha Psychotria viridis (chacrona, rainha etc.). Nos termos da referida Resolução, o GMT foi composto por seis estudiosos1, indicados pelo CONAD, das áreas que atenderam, dentre outros, os seguintes aspectos: antropológico (representado pelo Dr. Edward John Baptista das Neves MacRae), farmacológico/bioquímico (Dr. Isac Germano Karniol), social (Drª Roberta Salazar Uchoa), psiquiátrico (Dr. Dartiu Xavier da Silveira Filho) e jurídico (Drª Ester Kosovski) e seis membros, convidados pelo CONAD, representantes dos grupos religiosos que fazem uso da Ayahuasca, eleitos em Seminário realizado em Rio Branco nos dias 9 e 10 de março de 2006, a saber: Linha do Padrinho Sebastião Mota de Melo: Alex Polari de Alverga; Linha do Mestre Raimundo Irineu Serra: Jair Araújo Facundes e Cosmo Lima de Souza; Linha do Mestre José Gabriel da Costa: Edson Lodi Campos Soares; Linha Independente (Outras Linhas): Luis Antônio Orlando Pereira e Wilson Roberto Gonzaga da Costa. Considerando que a linha do Mestre Daniel Pereira de Matos, popularmente conhecida como linha da Barquinha, decidiu não participar do GMT, conforme carta endereçada ao CONAD, foi realizada durante o seminário eleição entre os suplentes já eleitos das linhas presentes para o preenchimento da vaga em aberto. Nesta ocasião foi eleito mais um representante da linha do Mestre Raimundo Irineu Serra. O GMT contou com o apoio da Secretaria Nacional Antidrogas, representada pela Diretora de Políticas de Prevenção e Tratamento, Drª Paulina do Carmo Arruda Vieira Duarte, e da Assessoria Executiva do CONAD, representada pelas Sras. Déborah de Oliveira Cruz e Maria de Lourdes Carvalho. Em suas reuniões ordinárias contou com o apoio do Dr. Domingos Bernardo Gialluisi da Silva Sá, Jurista, Membro Titular do CONAD e da Câmara de Assessoramento Técnico Científico, também representada pelo Dr. Marcelo de Araújo Campos e pela Drª Maria de Lourdes Zenel. Além da primeira reunião em que os membros do GMT foram empossados, foram realizadas mais seis reuniões de trabalho na Sala de Reuniões da Secretaria Nacional Antidrogas, nos dias 28/06, 28/07, 28/08, 23 e 24/10 e 23/11, todas registradas em atas, durante as quais se discutiu a seguinte pauta: cadastramento das entidades; aspectos jurídicos e legais para regulamentação do uso religioso e amparo do direito à liberdade de culto; regulação de preceitos para produção, uso, envio e transporte da Ayahuasca; procedimentos de recepção de novos interessados na prática religiosa; definição de uso terapêutico e outras questões científicas; Ayahuasca, cultura e sociedade; e, sistematização do trabalho para elaboração do documento final. O objetivo final do GMT, nos termos da Resolução nº 05/04, do CONAD, é identificar “o que é preciso fazer” para atender aos diversos itens que integram os direitos e obrigações pertinentes ao “uso religioso da Ayahuasca”. O “estudo” desse “o que é preciso fazer” constituiu-se, exatamente, nas atividades desenvolvidas pelo GMT, traduzindo, assim, a “deontologia do uso da Ayahuasca”: (deon, do grego: “o que é preciso fazer” + logos, também do grego: “estudo” ). II – HISTÓRICO DA REGULAMENTAÇÃO DO USO DA AYAHUASCA 58

A instituição do Grupo Multidisciplinar de Trabalho expressa dever constitucional do Estado Brasi-


leiro de proteger as manifestações populares e indígenas e garantir o direito de liberdade religiosa. Representa o coroamento do processo de legitimação do uso religioso da Ayahuasca no país, iniciado há mais de vinte anos, com a criação do 1º Grupo de Trabalho do CONAD (na época CONFEN), designado para examinar a conveniência da suspensão provisória da inclusão da substância Banisteriopsis caapi na Portaria nº 02/85, da DIMED (Resolução nº. 04/85, do CONFEN). Este primeiro estudo, após dois anos, com a realização de várias pesquisas e visitas às comunidades usuárias em diversos Estados da Federação, principalmente ao Acre, Amazonas e Rio de Janeiro, resultou em extenso relatório2, de setembro de 1987, subscrito pelo então Conselheiro do CONFEN, Doutor Domingos Bernardo Gialluisi da Silva Sá, Presidente do Grupo de Trabalho, que concluiu que as espécies vegetais que integram a elaboração da bebida denominada de Ayahuasca ficassem excluídas das listas de substâncias proscritas pela DIMED. Esta conclusão foi aprovada pelo plenário do antigo Conselho Federal de Entorpecentes, em reunião de setembro de 1987, de sorte que a suspensão provisória da interdição do uso da Ayahuasca, levada a termo pela Resolução nº 06, do CONFEN, de 04 de fevereiro de 1986, tornou-se definitiva, com a exclusão da bebida e das espécies vegetais que a compõem das listas da DIMED. A despeito disso, em 1991, em face de denúncia anônima, por iniciativa do então Conselheiro do CONFEN, Paulo Gustavo de Magalhães Pinto, Chefe da Divisão de Repressão a Entorpecentes do Departamento de Polícia Federal, a “questão do uso da Ayahuasca” foi reexaminada. Disso resultou mais uma vez, por parte do CONFEN, a realização de estudos acerca do contexto de produção e do consumo da bebida, desenvolvidos pelo Doutor Domingos Bernardo Gialluisi da Silva Sá, o qual, em parecer conclusivo de 02/06/92, aprovado por unanimidade na 5ª Reunião Ordinária do CONFEN realizada na mesma data, considerou que não havia razões para alterar a conclusão proposta em 1987, no relatório final já mencionado. Dez anos depois, em face de denúncias de uso inadequado da bebida Ayahuasca, a maior parte divulgada na imprensa e outras tantas dirigidas aos órgãos do Poder Público, notadamente CONAD, Polícia Federal e Ministério Público, fato que está amplamente documentado na consolidação das decisões e estudos do CONAD e de outras instituições acerca do uso da Ayahuasca, novo Grupo de Trabalho foi definido pela Resolução nº 26, de 31 de dezembro de 2002. De acordo com esta resolução, o GT deveria ser composto por diversas instituições4, com base no princípio da responsabilidade compartilhada, agora com o objetivo de fixar normas e procedimentos que preservassem a manifestação cultural religiosa, observando os objetivos e normas estabelecidas pela Política Nacional Antidrogas e pelos diplomas legais pertinentes. Não há registro de que este grupo tenha sido constituído. Em 24 de março de 2004 o CONAD solicitou à Câmara de Assessoramento Técnico Científico a elaboração de estudo e parecer técnicocientífico a respeito de diversos aspectos do uso da Ayahuasca, ocasião em que o referido órgão de assessoramento do CONAD emitiu parecer apresentado e aprovado na Reunião do CONAD de 17/08/04, o qual serviu de fundamento à Resolução nº 5, do CONAD, de 04/11/04, que institui o atual Grupo Multidisciplinar de Trabalho.

III – ANDAMENTO DAS REUNIÕES

A fim de atender aos termos da resolução que o instituiu, o GMT teve como primeira tarefa, depois de eleger o Presidente e o Vice-Presidente do Grupo, respectivamente Dr. Dartiu Xavier da Silveira Filho e Edson Lodi Campos Soares, a elaboração do Cadastro Nacional das Entidades Usuárias da Ayahuasca – CNEA. Acerca desse tema, muitos foram os questionamentos levados em consideração pelo grupo, a começar pela finalidade do referido cadastro, que não deve servir de mecanismo de controle estatal sobre o direito constitucional à liberdade de crença (art. 5º, VI, CF). Discutiu-se também acerca de sua objetividade,

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de sorte que não constassem exigências que viessem a invadir o direito individual à intimidade, vida privada e imagem dos usuários (art. 5º, X, CF). Nesse sentido, chegou-se ao consenso de que responder ou não ao cadastro seria uma faculdade das entidades. Fixados esses parâmetros, o formulário de cadastro foi colocado à disposição dos interessados, acompanhado de carta explicativa e cópia da Resolução nº. 05/04, do CONAD. Até a presente data foi cadastrada quase uma centena de entidades, dando também uma dimensão parcial das diversas práticas que são ado- tadas pelas entidades que fazem uso da Ayahuasca no Brasil. O cadastro continua disponível às entidades interessadas. O GMT procurou destacar e consolidar as práticas que para as próprias entidades representam o uso religioso adequado e responsável, anteriormente estabelecidos na “Carta de Princípios”, resultado do 1º Seminário das entidades da Ayahuasca, realizado em Rio Branco em 24 de novembro de 1991. Nas discussões priorizaram-se os seguintes temas: definição de uso ritual, comércio, turismo, publicidade, associação da Ayahuasca com outras substâncias, criação de novos centros, auto-sustentabilidade das entidades, procedimentos de recepção de novos interessados, curandeirismo, uso terapêutico, assim como definição de mecanismos para tornar efetivos os princípios deontológicos formulados. A maior parte das deliberações do grupo foi consensual e estão sintetizadas no item V – Conclusão.

IV – TEMAS DISCUTIDOS

IV.I – USO RELIGIOSO DA AYAHUASCA

Ao longo de décadas o uso ritualístico da Ayahuasca – bebida extraída da decocção do cipó Banisteriopsis caapi (jagube, mariri etc.) e da folha Psychotria viridis (chacrona, rainha etc.) – tem sido reconhecido pela sociedade brasileira como prática religiosa legítima, de sorte que são mais do que atuais as conclusões de relatórios e pareceres decorrentes de estudos multidisciplinares determinados pelo antigo CONFEN, desde 1985, que constatavam que “há muitas décadas o uso da Ayahuasca vem sendo feito, sem que tenha redundado em qualquer prejuízo social conhecido”5. A correta identificação do que é uso religioso, segundo os conceitos e práticas ditadas, a partir das próprias entidades que fazem uso da Ayahuasca, permitirá assegurar a proteção da liberdade de crença prevista na Constituição Federal. Considerando a ocorrência de registros de uso não religioso da Ayahuasca, sua identificação possibilitará prevenir práticas que não se amoldam à proteção constitucional. Trata-se, pois, de ratificar a legitimidade do uso religioso da Ayahuasca como rica e ancestral manifestação cultural que, exatamente pela relevância de seu valor histórico, antropológico e social, é credora da proteção do Estado, nos termos do art. 2o, “caput”, da Lei 11.343/066 e do art. 215, §1º, da CF. Devem-se evitar práticas que possam pôr em risco a legitimidade do uso religioso tradicionalmente reconhecido e protegido pelo Estado brasileiro, incluindo-se aí o uso da Ayahuasca associado a substâncias psicoativas ilícitas ou fora do ambiente ritualístico.

IV.II – COMERCIALIZAÇÃO

O GMT reconhece o caráter religioso de todos os atos que envolvem a Ayahuasca, desde a coleta das plantas e seu preparo, até seu armazenamento e ministração, de modo que seu praticante de tudo participa com a convicção de que pratica ato de fé e não de comércio. Daí decorre que o plantio, o preparo e a ministração com o fim de auferir lucro é incompatível com o uso religioso que as entidades reconhecem como legítimo e responsável. Quem vende Ayahuasca não pratica ato de fé, mas de comércio, o que contradiz e avilta a legitimidade do uso tradicional consagrado pelas entidades religiosas. A vedação da comercialização da Ayahuasca não se confunde com seu custeio, com pagamento das despesas que envolvem a coleta das plantas, seu transporte e o preparo. Tais custos de manutenção, conforme seja o seu modo de organização estatutária, são suportados pela comunidade usuária. E é evidente, também, que a produção da Ayahuasca tem um custo, que pode variar de acordo com a região que a produz, a quantidade de adeptos, a maior ou menor facilidade com que se adquire a matéria prima (cipó e folha), se se trata de plantio da própria entidade ou se as plantas são obtidas na floresta nativa, e tantas outras variáveis. 60


Historicamente, porém, de acordo com a experiência das entidades religiosas chamadas a compor o Grupo Multidisciplinar de Trabalho, esse custo é partilhado no seio da instituição por meio das contribuições dos membros de cada entidade. Os sócios respondem pelas despesas de manutenção da organização religiosa, nas quais estão incluídos os gastos com a produção da Ayahuasca, com prestação de contas regular. O uso religioso responsável na produção da Ayahuasca é delineado a partir da constatação das práticas das entidades: a) cultivar as plantas e preparar a Ayahuasca, em princípio, para seu próprio consumo; b) buscar a sustentabilidade na produção das espécies; e, c) quando não possuir cultivo próprio e nenhuma forma de obtenção da matéria prima na floresta nativa – sem prejuízo de buscar a auto-suficiência em prazo razoável – nada obsta obter o chá mediante custeio das despesas tão somente, evitando-se que pessoas, grupos ou entidades se dediquem, com exclusividade ou majoritariamente, ao fornecimento a terceiros.

IV.III – SUSTENTABILIDADE DA PRODUÇÃO DA AYAHUASCA

A cultura do uso religioso da Ayahuasca, por se tratar de fé baseada em bebida extraída de plantas nativas da Floresta Amazônica, pressupõe responsabilidade ambiental na extração das espécies. As entidades religiosas devem buscar a auto-sustentabilidade na produção da bebida, cultivando o seu próprio plantio.

IV.IV – TURISMO

Turismo, como atividade comercial, deve ser evitado pelas entidades, que por se constituírem em instituições religiosas, não devem se orientar pela obtenção de lucro, principalmente decorrente da exploração dos efeitos da bebida. A Constituição Federal garante o livre exercício dos cultos religiosos, que tem como conseqüência o direito à propagação da fé através do intercâmbio legitimo de seus membros. Neste sentido todos têm direito de professar a sua fé livremente e de promover eventos dentro dos limites legais estabelecidos. O que se quer evitar é que uma prática religiosa responsável, séria, legitimamente reconhecida pelo Estado, venha a se transformar, por força do uso descomprometido com princípios éticos, em mercantilismo de substância psicoativa, enriquecendo pessoas ou grupos, que encontram no argumento da fé apenas o escudo para práticas inadequadas.

IV.V – DIFUSÃO DAS INFORMAÇÕES

A publicidade da Ayahuasca também tem sido motivo de deturpações e abusos, notadamente na Internet. Observa-se, principalmente neste meio de comunicação, o oferecimento de toda espécie de cursos e oficinas remuneradas, cujo elemento central é o uso da Ayahuasca associado a promessas de experiências transformadoras descomprometidas com o ritual religioso. A partir das experiências das entidades e de suas práticas rituais, verificase que o uso ritual responsável é incompatível com a publicidade e a oferta de promessas de curas milagrosas, de transformações pessoais arrebatadoras e com a indução das pessoas a acreditarem que a Ayahuasca é o remédio para todos os males. É consenso no GMT que quem faz uso religioso responsável não divulga informações que possam induzir as pessoas a terem uma imagem fantasiosa da Ayahuasca e trata do tema com discrição, sem fazer alardes dos efeitos da substância.

IV.VI – USO TERAPÊUTICO

Para fins deste relatório “terapia” é compreendida como atividade ou processo destinado à cura, manutenção ou desenvolvimento da saúde, que leve em conta princípios éticos científicos. Tradicionalmente, algumas linhas possuem trabalhos de cura em que se faz uso da Ayahuasca, inseridos dentro do contexto da

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fé. O uso terapêutico que tradicionalmente se atribui à Ayahuasca dentro dos rituais religiosos não é terapia no sentido acima definido, constitui-se em ato de fé e, assim sendo, ao Estado não cabe intervir na conduta de pessoas, grupos ou entidades que fazem esse uso da bebida, em contexto estritamente religioso. Em outra condição se encontram aqueles que se utilizam da bebida fora do contexto religioso. Isto nada tem que ver com uso religioso, e tal prática não está reconhecida como legítima pelo CONAD, que se limitou a autorizar o uso da substância em rituais religiosos. A utilização terapêutica da Ayahuasca em atividade privativa de profissão regulamentada por lei dependerá da habilitação profissional e respaldo em pesquisas científicas, pois de outra forma haverá exercício ilegal de profissão ou prática profissional temerária. Qualquer prática que implique utilização de Ayahuasca com fins estritamente terapêuticos, quer seja da substância exclusivamente, quer seja de sua associação com outras substâncias ou práticas terapêuticas, deve ser vedada, até que se comprove sua eficiência por meio de pesquisas científicas realizadas por centros de pesquisa vinculados a instituições acadêmicas, obedecendo às metodologias científicas. Desse modo, o reconhecimento da legitimidade do uso terapêutico da Ayahuasca somente se dará após a conclusão de pesquisas que a comprovem. Com fundamento nos relatos dos representantes das entidades usuárias, verificou-se que as curas e soluções de problemas pessoais devem ser compreendidas no mesmo contexto religioso das demais religiões: enquanto atos de fé, sem relação necessária de causa e efeito entre uso da Ayahuasca e cura ou soluções de problemas.

IV.VI – ORGANIZAÇÃO DAS ENTIDADES

O crescimento do uso da Ayahuasca e a facilidade com que se pode comprar a bebida de pessoas que a produzem sem compromisso com a fé têm levado ao surgimento de novas entidades, que não possuem experiência no lidar com a bebida e seus efeitos, assim como fazem mau uso da Ayahuasca, associando-a a práticas que nada têm a ver com religião. O uso ritual caracterizado pela busca de uma identidade religiosa se diferencia do uso meramente recreativo. O uso religioso responsável da Ayahuasca pressupõe a presença de pessoas experientes, que saibam lidar com os diversos aspectos que envolvem essa prática, a saber: capacidade de identificar as espécies vegetais e de preparar a bebida, reconhecer o momento adequado de servi-la, discernir as pessoas a quem não se recomenda o uso, além de todos os aspectos ligados ao uso ritualístico, conforme sua orientação espiritual. Embora se reconheça o ato de fé solitário e isolado, usualmente a prática religiosa se desenvolve coletivamente. É recomendável que os grupos constituam-se em organizações formais, com personalidade jurídica, consolidando a idéia de responsabilidade, identidade e projeção social, que possibilite aos usuários a prática religiosa em ambiente de confiança.

IV.VII – PROCEDIMENTOS DE RECEPÇÃO DE NOVOS ADEPTOS

Além dos princípios inerentes a cada uma das linhas doutrinárias na recepção de novos membros, é razoável e prudente que ao se ministrar a Ayahuasca seja levado em conta o relato de alterações mentais anteriores, o estado emocional no momento do uso e que eles não estejam sob efeito de álcool ou outras substâncias psicoativas. Antes de ingerir pela primeira vez, o interessado deve ser informado acerca de todas as condições que se exigem para o uso da Ayahuasca, conforme a orientação de cada entidade. Uma entrevista prévia, oral ou escrita, deve ser realizada no sentido de averiguar as condições do interessado e a ele devem ser dados os esclarecimentos necessários acerca dos efeitos naturais da bebida. É recomendável que cada entidade acompanhe os participantes até a finalização de seus rituais, excetuada a saída previamente solicitada em casos excepcionais e com a anuência do responsável.

IV.VIII – USO DA AYAHUASCA POR MENORES E GRÁVIDAS

Tendo em vista a inexistência de suficientes evidências cientificas e levando em conta a utilização secular da Ayahuasca, que não demonstrou efeitos danosos à saúde, e os termos da Resolução nº 05/04, do 62


CONAD, o uso da Ayahuasca por menores de 18 (dezoito) anos deve permanecer como objeto de deliberação dos pais ou responsáveis, no adequado exercício do poder familiar (art. 1634 do CC); e quanto às grávidas, cabe a elas a responsabilidade pela medida de tal participação, atendendo, permanentemente, a preservação do desenvolvimento e da estruturação da personalidade do menor e do nascituro. V – CONCLUSÃO: Considerando que o CONAD, acolhendo parecer da Câmara de Assessoramento Técnico Científico, reconheceu a legitimidade do uso religioso da Ayahuasca, nos termos da Resolução nº 05/04, que instituiu o GMT para elaborar documento que traduzisse a deontologia do uso da Ayahuasca, como forma de prevenir seu uso inadequado; Considerando que o GMT, após diversas discussões e análises, onde prevaleceu o confronto e o pluralismo de idéias, considerou como uso inadequado da Ayahuasca a prática do comércio, a exploração turística da bebida, o uso associado a substâncias psicoativas ilícitas, o uso fora de rituais religiosos, a atividade terapêutica privativa de profissão regulamentada por lei sem respaldo de pesquisas cientificas, o curandeirismo, a propaganda, e outras práticas que possam colocar em risco a saúde física e mental dos indivíduos; Considerando que a dignidade da pessoa humana é princípio fundante da República Federativa do Brasil, e dentre os direitos e garantias dos cidadãos sobressai-se a liberdade de consciência e de crença como direitos invioláveis, cabendo ao Estado, na forma da lei, garantir a proteção aos locais de culto e a suas liturgias (CF, arts. 1º, III, 5º, VI); Considerando a decisão do INCB (International Narcotics Control Board), da Organização das Nações Unidas, relativa à Ayahuasca, que afirma não ser esta bebida nem as espécies vegetais que a compõem objeto de controle internacional; Considerando, por fim, que o uso ritualístico religioso da Ayahuasca, há muito reconhecido como prática legitima, constitui-se manifestação cultural indissociável da identidade das populações tradicionais da Amazônia e de parte da população urbana do País, cabendo ao Estado não só garantir o pleno exercício desse direito à manifestação cultural, mas também protegê-la por quaisquer meios de acautelamento e prevenção, nos termos do art. 2o, “caput”, Lei 11.343/06 e art. 215, caput e § 1º c/c art. 216, caput e §§ 1º e 4º da Constituição Federal. O Grupo Multidisciplinar de Trabalho aprovou os seguintes princípios deontológicos para o uso religioso da Ayahuasca: O chá Ayahuasca é o produto da decocção do cipó Banisteriopsis caapi e da folha Psychotria viridis e seu uso é restrito a rituais religiosos, em locais autorizados pelas respectivas direções das entidades usuárias, vedado o seu uso associado a substâncias psicoativas ilícitas; Todo o processo de produção, armazenamento, distribuição e consumo da Ayahuasca integra o uso religioso da bebida, sendo vedada a comercialização e ou a percepção de qualquer vantagem, em espécie ou in natura, a título de pagamento, quer seja pela produção, quer seja pelo consumo, ressalvando-se as contribuições destinadas à manutenção e ao regular funcionamento de cada entidade, de acordo com sua tradição ou disposições estatutárias; O uso responsável da Ayahuasca pressupõe que a extração das espécies vegetais sagradas integre o ritual religioso. Cada entidade constituída deverá buscar a auto-sustentabilidade em prazo razoável, desenvolvendo seu próprio cultivo, capaz de atender suas necessidades e evitar a depredação das espécies florestais nativas. A extração das espécies vegetais da floresta nativa deverá observar as normas ambientais; As entidades devem evitar o oferecimento de pacotes turísticos associados à propaganda dos efeitos da Ayahuasca, ressalvando os intercâmbios legítimos dos membros das entidades religiosas com suas comunidades de referência; Ressalvado o direito constitucional à informação, recomenda-se que as entidades evitem a propaganda da Ayahuasca, devendo em suas manifestações públicas orientar-se sempre pela discrição e moderação no uso e na difusão de suas propriedades; A prática do curandeirismo é proibida pela legislação brasileira. As propriedades curativas e medicinais da Ayahuasca – que as entidades conhecem e atestam – requerem uso responsável e devem ser compreendidas do ponto de vista espiritual, evitando-se toda e qualquer propaganda que possa induzir a opinião pública e as autoridades a equívocos; 63


Recomenda-se aos grupos que fazem uso religioso da Ayahuasca que se constituam em organizações jurídicas, sob a condução de pessoas responsáveis com experiência no reconhecimento e cultivo das espécies vegetais sagradas, na preparação e uso da Ayahuasca e na condução dos ritos; Compete a cada entidade religiosa exercer rigoroso controle sobre o sistema de ingresso de novos adeptos, devendo proceder entrevista dos interessados na ingestão da Ayahuasca, a fim de evitar que ela seja ministrada a pessoas com histórico de transtornos mentais, bem como a pessoas sob efeito de bebidas alcoólicas ou outras substâncias psicoativas; Recomenda-se ainda manter ficha cadastral com dados do participante e informá-lo sobre os princípios do ritual, horários, normas, incluindo a necessidade de permanência no local até o término do ritual e dos efeitos da Ayahuasca. Observados os princípios deontológicos aqui definidos, cabe a cada entidade e a seus membros indistintamente, no relacionamento institucional, religioso ou social que venham a manter umas com as outras, em qualquer instância, zelar pela ética e pelo respeito mútuo. PROPOSIÇÕES: QUANTO ÀS PESQUISAS DO USO TERAPÊUTICO DA AYAHUASCA EM CARÁTER EXPERIMENTAL: Devem-se fomentar pesquisas cientificas abrangendo as seguintes áreas: farmacologia, bioquímica, clínica, psicologia, antropologia e sociologia, incentivando a multidisciplinaridade; Sugere-se ao CONAD que promova e financie, a partir de 2007, pesquisas relacionadas com o uso e efeitos da Ayahuasca . QUANTO À QUESTÃO AMBIENTAL E AO TRANSPORTE: Sugere-se ao CONAD que considere a possibilidade de intercâmbio com o CONAMA, se possível lançando mão do auxílio das entidades religiosas, no sentido de estabelecer medidas de proteção às espécies vegetais que servem de matéria prima à Ayahuasca, por meio de legislação específica para essas plantas de uso ritualístico religioso, as quais não podem ser tratadas indistintamente como um produto florestal não madeireiro. Sugere-se ao CONAD ainda, que faça os encaminhamentos devidos junto aos órgãos competentes do Estado, no sentido de regulamentar o transporte interestadual da Ayahuasca entre as entidades, ouvindo-se previamente os interessados.

QUANTO À EFETIVIDADE DOS PRINCÍPIOS DEONTOLÓGICOS:

Sugere-se ao CONAD que estude a possibilidade de fixar mecanismos de controle quanto ao uso descontextualizado e não ritualístico da Ayahuasca, tendo como paradigma os princípios deontológicos ora fixados, com efetiva participação de representantes das entidades religiosas. Solicita-se ao CONAD apoio institucional para a criação de instituição representativa das entidades religiosas que se forme por livre adesão, para o exercício do controle social no cumprimento dos princípios deontológicos aqui tratados. Sugere-se ainda, caso os princípios deontológicos aqui definidos sejam acatados, que disto seja dada ampla publicidade, preferencialmente com a realização de um segundo seminário organizado pelo próprio CONAD auxiliado pelo Grupo Multidisciplinar de Trabalho, do qual devem participar todas as entidades, sem prejuízo do encaminhamento formal do ato a todos os órgãos dos Ministérios Públicos e da Magistratura Federal e Estaduais, Polícia Federal e Secretarias de Segurança Pública dos Estados. Brasília, 23 de Novembro de 2006.

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