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CASA DE PURGAR

TIAGO SANT'ANA


CASA DE PURGAR TIAGO SANT'ANA

CURADORIA: AYRSON HERACLITO 27 DE MARCO A 28 DE ABRIL DE 2018 MUSEU DE ARTE DA BAHIA


A CASA DE PURGAR DE TIAGO SANT'ANA AYRSON HERACLITO Quando na década de 1990, fui tomado de assalto reflexivo-poético sobre o passado colonial baiano, no percurso da minha pesquisa de mestrado, a fim de criar um conjunto de obras artísticas que revelasse proposições e visualidades sobre a nossa história étnica-cultural. Adentrei segredos, munido por um desejo de atualizar um repertório de forma crítica na tradição artística baiana. Moveume A Poesia da Época Chamada Gregório de Matos e o estudo historiográfico da economia na sociedade colonial brasileira. Meu desafio nesse contexto foi abordar o tema de forma não ilustrativa. Uma distinta pátina da paisagem pictórica que pretendia criar se apresentava fortemente vinculada com a crença indissociável da relação criativa de arte e vida. O corpo, a pele, os sentidos perceptivos e as memórias tinham que está radicalmente abertos para tentar abarcar a complexidade trágica deste raro momento de formação e revelação das nossa feridas históricas e sociais. Inevitavelmente, veio o dado orgânico da vida dos materiais assim com a danação do “Boca de Brasa” clamando pela perda do Antigo Estado. O açúcar surge como elemento físico e simbólico para descortinar as tensões de um mundo escravocrata à beira do caos e da desordem, sendo o Brasil, na imagem de Antonil, "o purgatório dos brancos, o paraíso dos mulatos e o inferno dos negros”. Voltar ao passado e comentar a decadência da Bahia no período colonial, sem o interesse em reconstruir o momento histórico, mas sim em encontrar uma possível leitura da contemporaneidade. Nos antigos engenhos, a casa de purgar era o lugar em que o açúcar passava pelo processo de refino e branqueamento. É onde se separa um açúcar puro de outros julgados como de menos qualidade. Então, essa imagem da casa de purgar serve como um dado para a exposição do artista Tiago Sant’Ana já que envolve relação de trabalho, separação e estratificação.

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Casa de Purgar é a empreitada de Tiago Sant'Ana constituída por um conjunto de oito projetos, nos quais quatro estão reunido na mostra do Museu de Arte da Bahia. O trabalho se realiza na arte da performance e denuncia os nossos traumas herdados da colonização e do escravismo. O conjunto tem como metodologia revisitar locais históricos como os engenhos de açúcar e os seus complexos arquitetônicos no Recôncavo da Bahia, quase todos estando em condição de ruínas. São fantasmas de um passado de fausto e dor, arruinados em sua natureza física e presentes como monumento originário da nossa ruína social – a desigual étnico-racial brasileira. O artista age sobre estes espaços realizando intervenções corpóreas de profunda imersão na memória e energias dos lugares. Utilizado em diversos momentos, o material açúcar – o amargo ouro doce – serve para protagonizar atos de trabalhos pesados como peneirar, socar, pilar, passar a ferro, amassar e por fim deixar-se soterrar em ruínas de pavor e silêncio. O que se ouve nos vídeos que registram as ações são apenas sons do trabalho e o que se vê são os movimentos do corpo do artista que escuta e fala do seu lugar de afrodescendente - ativando memórias e fluxos de sentidos que atravessam os tempos e chegam até nós através das lutas pelos direitos humanos das populações negras. As ações de Tiago Sant’Ana são, antes de mais nada, uma forma produtiva de enfrentamento de nossas mazelas, o corpo do artista aciona táticas de superação e enfrentamento diante de tantos genocídios negros promovidos por necropolíticas oriundas de um passado colonial. As performances de Tiago Sant’Ana são potentes formas de ativismo poético, se posicionando como discurso crítico e articulado no atual cenário de arte afro-brasileira.

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ALVO NEGROR ROBERTO CONDURU As séries Refino e Passar em branco, as performances que Tiago Sant’Ana apresenta por meio de fotos e vídeos em Casa de Purgar, têm um elemento em comum: um homem negro realiza ações repetitivas em meio a ambientes arruinados. Outra constante nestas obras é o branco. Como demonstrou David Batchelor em Chromophobia, o branco é tudo, menos uma cor insignificante. É múltiplo, plurívoco. Entre os brancos, o açúcar refinado tem uma condição especial. Na série Refino, é branco o açúcar que o artista peneira, com o qual se cobre, recobre o chão e o altar da arruinada capela do Engenho Paramirim, cobre e descobre um livro para esconder e revelar imagens de Jean-Baptiste Debret com homens cativos prensando cana de açúcar. Como em Refino, são alvas as roupas de Sant’Ana em Passar em branco, assim como as vestes que ele desamassa e ordena geometricamente com equipamentos contemporâneos, indicando a persistência da ruína para além da casa senhorial do Engenho de Oiteiro, em Terra Nova, outro dos muitos na região do Recôncavo que produziam açúcar para a Bahia e o mundo. No Brasil, desde o século XVI, os processos de fabrico e comercialização de açúcar geraram uma cultura material particular, em boa parte requintada: engenhos, casas, templos e muitas outras coisas. Mas o açúcar era fonte de prazer e dor, demandando artefatos imbuídos de perversão. Necessários à produção de riqueza, estes ambientes, edificações e utensílios também destruíam. Não é por acaso que muitos estão degradados. São máquinas criadas para também arruinar, sobretudo gentes da África e seus descendentes escravizados. Nesse sentido, o branco do açúcar é negro. Seja pelos africanos e afro-brasileiros consumidos a partir dos engenhos, seja pelos pressupostos, processos e efeitos tenebrosos do cultivo desse doce, apurado e alvo pó.

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O branco é usualmente visto como signo de pureza e perfeição. Contudo, a partir destas performances de Sant’Ana, é possível entendê-lo como um meio de opressão, desgaste, menosprezo e extermínio de seu oposto: o negro – a cor e, sobretudo, as pessoas a ela associadas. Além de desvelar criticamente o que se pretendia manter oculto, o artista se vale de práticas religiosas afro-brasileiras e usa o branco como elemento purificador, visando a purgar lugares e coisas dos males neles entranhados por séculos. Trabalho aviltante, corpo negro, ruína e branco dominante são elementos próprios à problemática que Sant’Ana discute: o colonialismo, o tráfico negreiro, a escravidão e seus persistentes efeitos na Bahia desde a implantação do sistema de exploração econômica da cana de açúcar. A ambiguidade do título da mostra, que permite pensar como casa tanto o engenho onde as performances foram realizadas quanto a exposição e, consequentemente, o Museu no qual as obras são apresentadas, estende ao meio de arte a discussão sobre exploração do trabalho e dominação cultural. E revela a amplitude de sua ações ao mesmo tempo críticas, purgatórias e poéticas. Obviamente, estas séries de Tiago Sant'Ana estão conectadas à obra de Ayrson Heráclito, quem começou nos anos 1990 a explorar artisticamente o azeite de dendê, a carne de charque e o açúcar, materiais com significados históricos e antropológicos a partir da Bahia, bem como, mais recentemente, rituais religiosos afro-brasileiros como modos de crítica e emancipação em sítios do tráfico negreiro, da escravatura e da colonização. Já disse o grande Willys de Castro: “Em arte, quem não tem pai é filho da puta.” Entretanto, como observou Carl Einstein em Negerplastik, ao analisar a relação dos ditos cubistas com certa arte da África, “o que assume importância histórica é sempre função do presente imediato”. Apresentada publicamente nessa exposição, a parceria artística de Heráclito e Sant’Ana é rua de mão dupla, mais exatamente um rio, o Paraguaçu em seu desaguar na Baía de Todos os Santos rumo ao oceano Atlântico. Dados os fundamentos das práticas dos dois artistas, podemos dizer que eles partilham, cultivam e expandem um axé, uma família, um terreiro artístico – casa de purgar, criar e transformar. Se, por um lado, a obra de Heráclito se constitui por meio de ações formativas e curatoriais, por outro, é afetada pelos desdobramentos que acolhe, ampara e projeta, mas não prevê nem controla. Sant’Ana confirma e reitera, mas também desdobra e amplia a crítica decolonial por meio de uma poética nutrida em valores da arte e da religião. Em Refino e Passar em branco, ele inquire desde construções arruinantes a convenções de gênero e variados modos de opressão. Assim, nos dá a ver o negrume próprio ao açúcar, ao branco.

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Refino #3 | vídeo | 4'57'' | 2017

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Refino #4 | vídeo | 4'51'' | 2017

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Açúcar sobre capela | vídeo | 7’3” | 2018

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Passar em branco| vĂ­deo | 8'06'' | 2018

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ACUCARADO ' ~

JOAO MANUEL DE OLIVEIRA Plantationocen é uma proposta conceitual que tem vindo a surgir na disputa e debate teórico mapeado por Donna Haraway sobre a era das mudanças geológicas encabeçada pelo antropoceno (das mudanças antropogênicas, do antropos, celebratório do excepcionalismo humano), secundada pelo capitaloceno (que localiza essas mudanças no dealbar do capitalismo). A economia de plantação, assente num modelo de natureza barata, como lhe chama Jason Moore, recorre a mão de obra, igualmente de baixo custo, fornecida pelos navios negreiros, que sequestravam pessoas negras das costas de África e que eram levadas para produzir num sistema de produção capitalista racializada que vai operar nas colônias dos impérios europeus. Com o capitalismo, estas posições vão mudando – de pessoa escrava a liberta a mão de obra barata, pronta a produzir mais e mais. O essencial da relação perdura. O modelo de exploração, a Era da Plantação, é o modelo que condena toda a Terra, todas as espécies a uma série de efeitos dos quais ainda nem sabemos metade. Racismo x colonialismo x capitalismo, a receita para desastre global que já aconteceu e vem acontecendo. Sabemos hoje como a exploração do açúcar ocupa lugar de relevo nas narrativas de colonização, com destaque para o ciclo do açúcar na economia do Brasil colonizado. Ela é usada como álibi e móbil tanto para o incremento das rotas negreiras de África para aqui, pelo desenvolvimento da economia de plantação, pelo fomento a todo o tipo de violências que passam pelo cativeiro, castigo, tortura, morte e genocídio. Toda a colonialidade é também açúcar. O espectro do racismo é açucarado. Iguaria para europeus brancos receberem na metrópole, o açúcar, uma espécie de cocaína do século XVI, deixa uma enorme devastação ecológica e nas vidas negras que são trituradas para o obter. Carne para canhão de engenho. Trituradas logo no momento em que são raptados nas costas de África, atravessam o Atlântico Negro, como lhe chamou Paul Gilroy, e chegam no Brasil, se não morrerem no caminho. Acompanhadas apenas pela fé nos seus deuses que dançam neles e através deles - Obaluaê já não coberto de palha de costa, mas de açúcar caindo, relembrando-o, refigurando-o, sabendo que dança no meio de nós - estas vidas negras habitam uma geografia da necropolítica, sendo os grandes alvos dela juntamente com os povos originários. A chegada ao Brasil, cativeiro e cana. Enquanto não quebrar.

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A história das pessoas negras, neste lugar e em muitos outros, é pensar numa máquina de triturar gente. Moer a matéria prima e moer a vida negra com ela. A colonialidade, a Lei Áurea, uma abolição que nunca se preocupou com reparação, a condenação dessa mesma população expropriada à pobreza e a uma espécie de vida nua, uma que qualquer um pode tirar, gera o racismo como cimento social que une estes vários pontos. Um problema que para alguns é novo e para muitxs a sua história diária, o seu contexto de vivência/violência. Este trabalho de Tiago Sant’Ana nos oferece algumas destas várias facetas: Essa relação profunda, entre sistemas de produção de produtos com as vidas negras trituradas junto com o açúcar, é explorada através de uma operação estética que recorre à ambivalência das imagens do açúcar, ora caindo nas páginas de Jean Baptiste Debret representando cenas da escravidão, ora sendo recolhido desse mesmo livro. As obras de Sant’Ana exploram as ambiguidades desse branco adocicado que tudo oculta e tudo cega, uma espécie de figuração para as relações raciais e para a complexidade que o racismo instala como eixo organizador do trabalho e da partilha do sensível. Por outro lado, a exposição Casa de purgar mostra-nos também a centralidade da ideia de trabalho negro na constituição do Brasil casa grande e senzala, que continua até hoje, na sua tensão, a produzir uma fratura nas temporalidades, como se estas ruínas de engenho fossem simultaneamente passado, presente e futuro. Temporalidades estranhas. Um branco que é sistematicamente gerado, perpetuado e reproduzido pelas estruturas sócio-econômicas e políticas que se sustentam na branquitude. Um ciclo vicioso que assume forma de maldição. Tiago Sant’Ana na sua rota do açúcar no Recôncavo dos sobrados, vai-nos oferecendo o seu olhar e o seu fazer sobre vidas negras desfeitas pelo açúcar de uma branquitude extrativista e opressora até para o planeta. Olhamos e vemos o uso de uma matéria não humana, que tem sido protagonista de uma história e que tem gerado uma série de efeitos que Sant’Ana de forma elegante e poética, astutamente, nos desvela, com a mesma perícia com que passa roupa a ferro, fazendo desse fazer um posicionamento estético e uma voz própria, sem deixar de enegrecer as estruturas racistas e coloniais que tornaram possível estas cenas. A máscara branca que nos fala Fanon, tem um sabor doce, açucarado. Cana.

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Refino #2 | vídeo | 7'01'' | 2017

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AYRSON HERACLITO Artista visual, curador e professor. É doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/São Paulo. Professor no Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Seus trabalhos transitam entre instalação, performance, fotografia e vídeo e frequentemente traz elementos da cultura afro-brasileira e suas conexões com a África e a Diáspora na América.

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JOAO MANUEL DE OLIVEIRA Professor visitante associado no Programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina, integrado no Núcleo Margens, e professor visitante no Instituto Universitário de Lisboa no Centro de Investigação e Intervenção Social-do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL). Faz consultoria dramatúrgica em dança contemporânea e performance.

ROBERTO CONDURU Roberto Conduru é historiador da arte. A partir de 1995, atuou na Universidade do Estado do Rio de Janeiro; desde 2018, é professor na Southern Methodist University. É autor de Pérolas Negras, Primeiros Fios (EdUERJ, 2013), co-curador de Axé Bahia: The Power of Art in an Afro-Brazilian Metropolis (Fowler Museum UCLA, 2017-2018).

TIAGO SANT'ANA É artista da performance, doutorando em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia. Desenvolve pesquisas em performance e seus possíveis desdobramentos desde 2009. Seus trabalhos como artista imergem nas tensões e representações das identidades afro-brasileiras - tendo influência das perspectivas decoloniais. Participou de festivais e exposições como "Histórias Afro-Atlânticas" (MASP e Instituto Tomie Ohtake, 2018), "Axé Bahia: The Power of Art in an Afro-Brazilian Metropolis" (Fowler Museum UCLA, 2017-2018), "Orixás" (Casa França-Brasil, 2016) e "Reply All" (Grosvenor Gallery, 2017).

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TEXTS IN ENGLISH The purge house by Tiago Sant’Ana Ayrson Heráclito When, during the decade of 1990, a poetical-reflexive mood over the colonial past from Bahia took me by storm, in order to create a body of artistic work that revealed proposals and imageries on our history and ethnic-cultural tensions. I unraveled secrets, driven by a desire to, in a critical way, update the repertoire of the Bahian Artistic tradition. I was inspired by A poesia da época chamada Gregório de Matos and the historiographical study on the brazilian’s colonial society’s economy. In that context my challenge was to approach the theme in a non illustrative way. A very distinctive facet of the pictorial landscape that I intended to create was strongly connected with the inextricable belief of the creative relation of life and art. The body, the skin, the senses and the memories had to be willingly open to perceive the tragic complexity of this rare formative and revealing moment on our social and historical wounds. Inevitably came the organic data on the materials’ life as well as the damnation proclaimed by “Boca de Brasa” (XVII century poet who fought the establishment) for the fall of the Ancient Regiment. The sugar appears as both physical and symbolic element that gives us a glimpse of the tensions existing in a slavocracy at the edge of chaos and disorder, being Brazil, in Antonil’s vision, “the white’s purgatory, the mulato’s paradise and the black’s hell”. To go back to the past and comment on Bahia’s decadence during the colonial period, without intending to reconstruct the historical moment, but rather in finding a more contemporary reading. In the old sugar mills, the purge house was the location where sugar went through the refinement and whitening process. It is where pure sugar is separated from others judged of lesser quality. Therefore, that image of the purge house is a necessary cognitive element for the exhibition of the artist Tiago Sant’Ana - since it evoques work relations, separation and stratification. Casa de purgar is a body of Tiago’s work comprising a total of eight projects, of which four are being displayed at this show at the Museu de Arte da Bahia. The work is shown through Performance-art and denounces the traumas we inherited from a past of coloniality and enslavery.

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The body of work has as a methodology the revisiting of historical sites such as the old sugar mills and their complexes in the Recôncavo, region of the Bahia state in Brazil, being most of them in a ruinous condition. They are ghosts from a past comprising luxury and pain, ruined in their physical shape and present as monuments to our social downfall - the ethnic-racial inequality in Brazil. The artist acts upon those spaces realizing very intense bodily interventions, immersing himself in the energy and memories of the environment. Used on different occasions, the material sugar - the bitter sweet gold - serves as a protagonist in acts such as sieving, crunching, grinding, ironing, kneading and, at the end, let himself be buried in ruins of fear and silence. What can be heard in the videos that register the actions are only the sounds of the labouring and what can be seen are the movements of the artist’s body listening and talking of his condition as descendant of africans, activating memories and flows of the senses that cross time and arrive to us through the fights for the cause of the black populations’ human rights. Tiago Sant’Ana’s actions are, primarily, a productive way of dealing with our wounds. The artist’s body dictates tactics to facing and overcoming so many black genocides originated by a colonial past ruled by necropolitics. Tiago Sant’Ana’s performances are strong vessels of poetic activism, positioning themselves as critical speeches in the Afro-Brazilian Art’s actual scenario.

Resplendent blackness Roberto Conduru In the series Refino and Passar em branco, the artistic performances that Tiago Sant’Ana present through photos and videos in Casa de purgar, have a common element: a black man performs repetitive actions in the mist of ruined scenarios. Another constant presence in these works is the color white. As David Batchelor showed in “Chromophobia”, white is everything but not an insignificant color. It is multiple, all meaningful. Among the whites, the refined sugar has a special meaning. In Refino it is white the sugar that the artist sieves in order to cover himself, the floor and the altar of the ruined chapel belonging to the Paramirim Sugar Mill. With the same sugar he covers and uncovers a book in order to either hide or show Jean-Baptist Debret’s images of captive men pressing sugar cane. Just as in Refino, Sant’Ana’s clothes are immaculately white in Passar em branco, as are the clothes he irons with contemporary appliances and geometrically places on a table. By doing so, he indicates the persistence of ruin far beyond the walls of the Oiteiro manor house, in Terra Nova, one of the many located in the Recôncavo region which produced sugar for Bahia and the world.

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In Brazil, since the XVI century, the production and commercialization of sugar gave rise to a refined specific material culture: sugar mills, manor houses, temples and many other things. But sugar was a source of pleasure and pain, demanding artifacts that could easily be connoted with perversion. Necessary to the production of sugar, these environments, edifications and utensils also destroyed. It is not by mere chance that many of them are degraded. They are machines created to also ruin, mostly african people and their enslaved descendants. In that sense, the white of the sugar is black. Be it by the african and afro-brazilian consumed within the sugar mills or by the tenebrous processes and effects of the production of that sweet, depured white dust. White is usually seen as a symbol for purity and perfection, however from Sant’Ana’s performances, it is possible to regard it as means of oppression, tearing, contempt and extermination of the opposite: black - the color and, mainly, the people associated to it. Besides revealing what was meant to be hidden, the artist makes use of afro-brazilian religious practices and uses white as a purifying element, pretending to cleanse places and things from the evil that imbibed them for centuries. Degrading work, black body, ruins and all present white are the elements associated with the problematic of the theme Sant’Ana approaches: colonialism, the slave trade, slavery and it’s persisting effects in Bahia since the implementation of the economic exploitation of sugar cane production. The ambiguity of the manor house and the sugar mill where the action takes place as both exhibition and museum where the permanence is viewed. It brings to the Art scene the discussion on the exploitation of work and cultural domination. It reveals the amplitude of his action, at the same time critical, cathartic and poetic. Obviously, these series by Tiago Sant’Ana are connected to the work of Ayrson Heráclito whom, in the 90’s, started to artistically exploit the dendê oil, jerked beef and sugar, materialS with historical and anthropological meanings in the state of Bahia. More recently he approaches afro-brazilian religious rituals as means of critic and emancipation in places of slave trade, slavery and colonization. As the great Willys de Castro once said: “In art, who does not have a father is the son of a bitch”. Meanwhile, as observed by Carl Einstein in Negerplastik, when analyzing the relation of cubits with certain African Art, what assumes historical importance is always an end product of the immediate present. The publicly presented artistic partnership of Heráclito and Sant’Ana in this exhibition is a two way road, more accurately, a river, the Paraguaçu, in its flowing into the Baía de Todos os Santos, on its way towards the Atlantic Ocean. Given the fundamentals of the practices of both artists, one can say that they sha

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-re and expand an “axé” (vital energy as seen in the candomblé religion), a family, an artistic “terreiro” (sacred local where candomblé ceremonies occur) which is a place of purge, creation and transformation. It, Heráclito’s body of work is partly represented by his academic and curatorial action, on the other hand it is affected by concepts that he cherishes, supports and projects without foreseeing nor controlling. Sant’Ana not only confirms and reaffirms but he also unfolds and enlarges the decolonial criticism by means of a poetical language nourished by values of art and religion. In Refino and Passar em branco he questions from ruinning constructions to conventions and varied means of oppression. In such a way, he shows us the blackness inherent to sugar, and therefore inherent to white.

Sugared João Manuel de Oliveira Platantionocen is a conceptual proposal that has arisen in the dispute and therothical debate mapped by Donna Haraway concerning geological changes primarily dealing with the anthropocene (relative to anthropogenic changes of the anthropos celebrating human exceptionalism), followed by the capitalocene (which places those changes in the dealbar of capitalism). The plantation economy, based upon a model of cheap Nature, as titled by Jason Moore, makes use of similarly cheap labor force, supplied by the slave trade ships which kidnapped black people from the African shores taking then to work in a system of racialized production that operated in the colonies of european empires. With capitalism, these positions will change - from slave to free people to cheap labor force, ready to produce more and more. The basic valves in the relation perdure. The exploitation model, the plantation era, it is the model that condemns Earth and all its species to a serie of effects of which we do not yet know the full consequences. Racism x colonialism x capitalism, the recipe for a global disaster that already happened and still endures. Today we do know the relevant place the sugar production occupies in the colonization chronicles, with great importance to the economy of colonized Brazil. It is used both as alibi and as means to the increase of the slave trade routes to Brazil, the development of the plantation economy, the increment of all types of violence such as captivity, punishment, torture, death and genocide. All coloniality is also sugar. The spectrum of racism is sugared. Delicacy for the white europeans to enjoy in the homeland, sugar, a kind of cocaine of the XVI century, leaves behind and enormous devastation, both ecological and in the black lives that are triturated to obtain it.Expendable lives at the plantation, triturated at the very moment they are captured on the African shores, cross the Black Ocean, as Paul Gilroy called it, and arrive in Brazil, if not dying on the way. Supported only by their faith in their Gods that in them, and through them, dance - Obaluaê no longer covered with “palha da costa”, but with falling sugar, remembering him, reshaping

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him, knowing that he dances among us - these black lives habitate an area of necropolitics, they are its biggest targets and victims, along with the local populations. The arrival in Brazil, captivity and cane: as long has he does not break. The story of black people, in Brazil and many other places, is like thinking of a people’s triturating machine. Grinding the raw material and black life with it. The coloniality, the Aurea Law (the law that officially abolished slavery in Brazil), an abolishment that never worried about reparation, condemning that same expropriated population to poverty and a kind of naked life, one that anyone can take, generating racism as a social mortar that unites these various aspects. A problem to some, new to many, its daily story, its context of survival/violence. This work by Tiago Sant’Ana offers us some of these facets. This profund connexion between system of production with the black lives triturated along with the sugar, is shown through an aesthetic language that resorts to the ambiguity of the images of sugar, either falling on the Jean-Baptiste Debret’s prints showing scenes of slavery or retrieving that very same sugar and revealing the prints underneath. Sant’Ana’s work show the ambiguities of that sweetened white that blinds and hides everything, a king of figurative imagery for the racial relation and for the complexity that is installed by racism as an organizing axis to labour and the sharing of sensibility. On the other hand, the exhibition Casa de purgar also shows us the importance of black work in a stratified Brazil of master and slave relations that to this day, in its tension, produces a fracturation of temporality, as if these sugar mill ruins were simultaneously past, present and future. Strange temporalities. A white that is systematically generated and produced by the social-economical structures that support themselves in a white power. A vicious cycle that assumes the standing of a curse. Tiago Sant’Ana in his Recôncavo sugar route offers us his outlook and work on the black lives destroyed by the sugar and on the white blind exploitation, overly oppressive, even to the planet. We look and see the usage of non human matter that has been the protagonist of a story and generating a series of effects that Sant’Ana, in an elegant and poetic manner, intelligently reveals to us, with the same expertise with which he irons clothes, turning those actions into an aesthetical statement with a voice of its own, without forgetting to give the viewer a black outlook on the racist and colonial structures that turned these scenes possible. The white mask referred to by Frantz Fanon has a sweet flavour, sugared. Cane.

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Ayrson Heráclito Visual artist, curator and professor. He holds a PhD in Communication and Semiotics from PUC / São Paulo. Professor at the Center for Arts, Humanities and Letters of the Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. His work transits between installation, performance, photography and video and often brings elements of Afro-Brazilian culture and its connections with Africa and the Diaspora in America.

Roberto Conduru Roberto Conduru is an art historian. From 1995, he worked at the Universidade do Estado do Rio de Janeiro; since 2018, is a professor at Southern Methodist University. He is the author of Pérolas negras, primeiros fios (EdUERJ, 2013), cocurator of Axé Bahia: The Power of Art in an Afro-Brazilian Metropolis (Fowler Museum UCLA, 2017-2018). João Manuel de Oliveira Visiting professor associated with the Graduate Program in Psychology of the Universidade de Santa Catarina, integrated in Núcleo Margens, and visiting professor at Instituto Universitário de Lisboa at ISCTE-IUL. He does consultation in contemporary dance and performance. Tiago Sant'Ana Tiago Sant'Ana is a performance artist, doctoral student in Culture and Society at the Federal University of Bahia. He develops performance research since 2009. His work as an artist immerses in the tensions and representations of Afro-Brazilian identities - influenced by the decolonial perspectives. He has participated in exhibitions such as "Histórias afro-atlântias" (MASP and Instituto Tomie Ohtake, 2018), "Axé Bahia: The Power of Art in an Afro-Brazilian Metropolis" (Fowler Museum UCLA, 2017-2018) "Orixás" (Casa França-Brasil, 2016) and "Reply All" (Grosvenor Gallery, 2017).

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CASA DE PURGAR um projeto de Tiago Sant'Ana

SANT’ANA, Tiago (org.). Casa de purgar: Salvador: Museu de Arte da Bahia, 2018. pp. 34

Tiago

Sant’Ana.

Organização do catálogo, programação visual e registros da exposição - Tiago Sant’Ana Curadoria e registros das performances - Ayrson Heráclito Textos - Ayrson Heráclito, Roberto Conduru e João Manuel de Oliveira Tradução - José van Zeller Produção da exposição - Stefan Portnoi Montagem da exposição - Tiago Alves e Stefan Portnoi Elétrica e desenho de luz - Robson Santos e Tiago Sant’Ana

Todos os direitos reservados© Salvador, 2018


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Casa de Purgar - Tiago Sant'Ana  

Livro-catálogo do projeto "Casa de purgar" do artista Tiago Sant'Ana. A publicação possui textos de Ayrson Heráclito, Roberto Conduru e João...

Casa de Purgar - Tiago Sant'Ana  

Livro-catálogo do projeto "Casa de purgar" do artista Tiago Sant'Ana. A publicação possui textos de Ayrson Heráclito, Roberto Conduru e João...

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